17 embalagens que não deveriam existir ou são muito desproporcionais

embalagemImagina que louco se elas viessem na “embalagem” natural

embalagemBem “útil” embalar algo que já está embalado

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Três embalagens para apenas um comprimido

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A quantidade de plástico de proteção para enviar MEIAS

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Será que o microSD chegou em segurança?

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Abacates sem pele e caroço

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Luvas devidamente protegidas

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A quantidade de embalagem para o cartão de memória – aquela coisinha mínima e vermelha no canto inferior direito

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Qual a necessidade disso?

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Um pacote de M&M’s dentro de uma caixa de M&M’s

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A instalação é fácil e nem precisa de CD – então por que enviar uma caixinha?

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Batatas embaladas individualmente

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O desperdício de embalagem

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O cúmulo da preguiça

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Embalagem fraca para proteger uma embalagem resistente

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Pães fatiados individuais

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Jujubas embrulhadas uma a uma

Fonte – Megacurioso de 13 de abril de 2018

Eu sou chata ou o mundo perdeu o bom senso? Isso não é consumir, não é ser consumista, isso já passou da escala do hiperconsumismo.

Somos visitantes deste planeta por um curto período de tempo e estamos deixando a casa imunda, ou melhor, inabitável para as próximas gerações.

Que veja a extinção da humanidade, porque não tem mais jeito.

#Pulverizaçãoaérea de #agrotóxicos: Sabemos realmente as externalidades negativas do ciclo do que comemos?

O quadro de vulnerabilidade a que somos expostos com a “insegurança” alimentar e ataque aos direitos humanos mais básicos é cada vez maior no Brasil. Inúmeros casos de sobrevoos de pulverizações aéreas de agrotóxicos são notificados pelo país, mas a maioria de nós, sequer sabe quando, quem e o que recebeu a carga destes produtos químicos e seus efeitos, em nome de combate a pragas a monocultivos ou a vetores de doenças. Afinal, como delimitar na prática, o espaço aéreo e área em solo e corpos d`água e seres vivos atingidos, que certamente vão muito além da região das “culturas” previstas, que chegarão à nossa mesa? Estudos apontam que a distância pode ser ampliada em mais de 30 km do ponto planejado (a chamada deriva). Sabemos, então, realmente o que está por trás do ciclo do que comemos?

O país vai na contramão de outras nações nas Américas e na Europa, que estão abolindo esta prática. Aqui, de acordo com especialistas, somos submetidos ao ecossistema afetado, cujas externalidades negativas se avolumam, incorporadas à saúde ambiental e causam efeitos de curto a longo prazos, que afetam pontos-chave, como a polinização e a saúde humana. A transparência à sociedade a respeito desta agenda é crucial, pois as informações são esparsas, dispersas e não contemplam a população.

Um dos casos de maior repercussão no Brasil a este respeito é o da ocorrência no dia 03 de maio de 2013, quando cerca de 100 alunos, professores e funcionários da Escola Municipal Rural São José do Pontal, no Projeto de Assentamento Pontal dos Buritis, em Rio Verde, GO, foram intoxicados. O Ministério Público Federal (MPF/GO) entrou com uma ação civil pública por danos morais coletivos e no último dia 14 de março (cinco anos depois), saiu uma sentença no Tribunal Regional Federal da Primeira Região, que vale a pena ser lida, e ser objeto de reflexão. São vários ângulos a serem considerados, que abrem jurisprudência para que a sociedade possa se defender.

Presenciar a ação dessas pequenas aeronaves dispersando os elementos químicos é impossível de se esquecer. Até hoje me recordo nitidamente quando, há alguns anos, estava em um taxi em uma estrada vicinal no Vale do Ribeira, no estado de São Paulo, em direção a uma comunidade para fazer uma reportagem e em um voo bem próximo, o pequeno avião passou e jogou o agrotóxico, cujas gotículas ficaram impregnadas no vidro do veículo. A sensação de impotência e desrespeito foi grande e o motorista disse, que essa situação era algo recorrente. Fiquei imaginando como os povos tradicionais daquela região se sentiam e não me enganei.

Por que priorizar este tema? Estima-se que 25% da aplicação de uso de agrotóxicos no país ocorrem por essa via. Em algumas culturas, chega a atingir 100%. Especialistas apontam a importância do princípio da precaução. Quando se analisa a instrução normativa do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), de 2008, que estabelece a distância mínima de 500 metros para pulverizar próximo a cidades, vilas, bairros, de mananciais de captação de água para abastecimento de população e 250 metros de mananciais de água, moradias isoladas e agrupamentos de animais, a realidade aponta que não é possível estabelecer essa precisão.

A corrida contra o descaso sobre esta agenda, no entanto, é contínua e desafiadora, visto que a prática de pulverização aérea em locais de monoculturas extensivas permanece em boa parte do país, baseada em legislações vigentes desde 1969, como alternativas praticamente únicas para o combate às “pragas”. Algumas decisões contrárias têm ocorrido em diferentes municípios que estão criando leis para proibir a prática. Entre os mais recentes, estão Boa Esperança, Nova Venécia e Vila Valério, no Espírito Santo; Quitandinha e Campo Magro, no Paraná. No final de 2017, a Assembleia Legislativa do estado de Santa Catarina também aprovou sua legislação a respeito.

No Senado, tramita o PLS 541/2015, do senador Antonio Carlos Valadares/PSB-SE, que “altera a Lei nº 7.802, de 11 de julho de 1989, para proibir o registro de agrotóxicos, seus componentes e afins em cuja composição química estejam presentes os ingredientes ativos que especifica, bem como veda a pulverização aérea de agrotóxicos para toda e qualquer finalidade”, que se encontra na Comissão de Assuntos Sociais. Na Câmara dos Deputados, estão em análise na Casa, as propostas (PLs 740/031014/15).

Pareceres e notas contrárias à pulverização aérea se avolumam ao longo dos anos mas ainda requerem uma postura mais aprofundada das autoridades a respeito, de forma contundente. Entre as organizações que são contra estão o Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Conseas), a Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco). Os próprios Departamentos de Vigilância em Saúde de Populações Expostas a Contaminantes Químicos; e de Saúde Ambiental e do Trabalhador, do Ministério da Saúde alertam sobre este perigo. A Campanha Permanente Contra o Uso de Agrotóxicos e pela Vida, criada em 2011, tem esta pauta como uma de suas bandeiras.

Trabalhos acadêmicos se debruçam sobre esta questão, como o artigo da pesquisadora Maria Leonor Paes Cavalcanti Ferreira – “A Pulverização aérea de agrotóxicos no Brasil: cenário atual e desafios”, publicada na Revista de Direito Sanitário, da Universidade de São Paulo (USP), em 2014. Outros pesquisadores, como Larissa Mies Bombardi, do Departamento de Geografia Agrária, da USP, que lançou recentemente o Atlas Geografia do Uso de Agrotóxicos no Brasil e Conexões com a União Europeia”, e Antonio Wanderley Pignati, da Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT) estudam os impactos.

Entre os estudos, que Pignati desenvolve, está dos efeitos da dispersão dos agrotóxicos via aérea, que atingiram a região da sub-bacia do Juruena, entre Mato Grosso e Pará, e na região do Xingu, atingindo algumas terras indígenas, como dos Marãiwatsédé, entre outras. Denúncia recente feita pela Operação Amazônia Nativa (OPAN). O flagrante foi registrado.

O pesquisador Francco Antonio Neria de Souza e Lima, em sua dissertação de mestrado Saúde, ambiente e contaminação hídrica por agrotóxicos na Terra Indígena Marãiwatsédé”, de 2016, na UFMT, discorre sobre o tema. Povos indígenas, da região de Dourados, no Mato Grosso do Sul, também sofrem esta pressão há anos, que já foi objeto de liminar favorável a eles, em 2016, contra a pulverização praticada por fazendeiros.

No outro lado, em defesa da prática da pulverização aérea, estão setores do agronegócios e da aviação agrícola, como algumas pesquisas, entre elas, esta de pesquisadora da Embrapa.

Enquanto isso, em um terreno distante dos gabinetes e arenas do campo político, agricultores familiares e pequenos agricultores, indígenas de diferentes povos, quilombolas têm sofrido pressões no “chão”, sobre suas terras, como também o consumidor nas zonas urbanas. São personagens reais que também se veem ameaçados em seu modo de vida de prática orgânica ou sem agrotóxicos. Nós, da sociedade como um todo, nos vimos privados de uma discussão mais ampla que deixe claro tudo que realmente está em jogo e que não nos é exposto em rótulos de produtos ou em informações precisas contínuas a respeito. E a pergunta se repete: realmente sabemos o que estamos comendo?

Sucena Shkrada Resk é jornalista, formada há 26 anos, pela PUC-SP, com especializações lato sensu em Meio Ambiente e Sociedade e em Política Internacional, pela FESPSP, e autora do Blog Cidadãos do Mundo – jornalista Sucena Shkrada Resk (http://www.cidadaosdomundo.webnode.com), desde 2007, voltado às áreas de cidadania, socioambientalismo e sustentabilidade.

Fonte – EcoDebate de 06 de abril de 2018

Navios descartam lixo no mar, todos eles!

Navios descartam lixo no mar, imagem de navio da MSC com mancha de poluição

Navios descartam lixo no mar: mercantes, petroleiros, de guerra e de cruzeiro. Todos descartam lixo no mar

Desde 1967 frequento o mar. Quando pequeno saía com meu pai, pescador esportivo, pelo litoral de Santos, até Vitória, no Espírito Santo. Cresci, comprei meu barco e não parei mais. De lá para cá fiz três viagens pela costa brasileira, da fronteira norte até a sul. Somando todas, foram quase seis anos subindo e descendo o litoral. Flagrando  muitos absurdos que cometemos, as belezas naturais destruídas, e os mais diversos ecossistemas marinhos quase sempre desconhecidos e desrespeitados. Até um petroleiro lavando seus tanques em plena baía de Guanabara eu já vi. Navios descartam lixo no mar, esse é o comentário de hoje.

O que tenho visto nestas viagens me impressionou de tal forma que passei a fazê-las de modo profissional. Abri este site, contatei canais de televisão e passei a fazer documentários para mostrar o descalabro e procurar contribuir distribuindo informação, alertando, chamando a atenção.

A frota mundial é de 100.000 mil navios. E navios descartam lixo no mar

Já pensou? Cem mil navios cruzando os mares dia e noite sem parar. Parece pouco se comparado à frota de automóveis calculada em um bilhão de unidades. Você já parou para pensar na poluição causada por estes monstros de ferro? Fique sabendo que a emissão de CO2 de um grande navio equivale a mais de 83 mil automóveis. Cem mil navios, vezes 83 mil automóveis, é igual a 830 milhões. Quase igual à frota mundial de automóveis. Certo? A conta não é tão fácil assim. Os cem mil navios poluem muito mais. Sabe por quê? Porque o combustível dos automóveis é refinado, o dos navios, não.

Os 15 maiores navios do mundo poluem mais que toda a frota automobilística mundial. Sim, ou não?

O site Quora- ‘the best answer to any question‘, respondendo a pergunta acima, procurou o engenheiro formado na Guarda-Costeira norte americana, Josiah Toepfer, que disse:

“Os grande navios queimam óleo pesado, combustível que não é muito refinado, tem alto teor de enxofre e produz uma grande quantidade de óxido de enxofre e compostos de óxido de azoto quando é queimado. Automóveis queimam uma gasolina altamente refinada que quase não produzem enxofre, e  óxidos de nitrogênio.”

Todos soltando CO2 na atmosfera. Não é por outro motivo que conseguimos a façanha de mudar o pH dos oceanos. Antes alcalino, agora menos; mais ácido a ponto de matar corais. Mas, e o lixo destes navios, para onde vai? Navios descartam lixo no mar. Não tenha a menor dúvida. Posso afirmar que 95%  deles descartam lixo nos mares. Mercantes, de passageiros, petroleiros, ou os de guerra. A única exceção que conheço é a marinha de guerra dos Estados Unidos.

Sim!

Sabemos agora que a frota mundial de navios polui mais que a de automóveis. Mas  tem mais: navios carregam água de lastro, um problema gigantesco pela introdução de espécies exóticas. Não há país do mundo sem gravíssimos problemas gerados pelo descarte errado de água de lastro. Em nosso litoral temos centenas de problemas. O mais notório, e pior, é o mexilhão- dourado, descartado por água de lastro no rio da Prata. Ele já tomou as mais importantes bacias hidrográficas brasileiras.

Navios descartam lixo no mar

Sylvia Earle, a primeira Heroína do Planeta, e maior referência mundial na questão dos oceanos, informa em seu livro The World is Blue, minha bíblia de cabeceira que todos os interessados deveriam ler, que um reporte da Academia Nacional de Ciências publicado na década de 90 indica que…

“…seis bilhões de quilos de lixo são deliberadamente descartados nos oceanos todos os anos, a maioria vem de navios mercantes, mas não só deles, de todos os navios que cortam os mares. Mas além disso, outros 450 milhões de quilos de lixo vêm de barcos de pesca…”

Até 1990 navios de guerra dos USA eram autorizados a descartar seu lixo no mar!

Sylvia ressalta (The World Is Blue, pag. 109) que “até 1990 todo o lixo de navios de guerra dos USA eram (eles tinham permissão) descartados no mar”. E informa: “mais de 450 quilos por dia, por navio”! Segundo o wikipedia a marinha de guerra dos USA “é considerada a maior e mais poderosa do mundo, com a sua frota de batalha sendo maior do que as seguintes treze maiores marinhas combinadas. Opera 286 navios em serviço ativo”. 286 x 450 Kg =  128.700 Kg de lixo ao dia!

E as marinhas de guerra dos outros países, onde descartam seu lixo? Navios descartam lixo no mar…

Você tem dúvidas? Eu, não.  Se o país mais poderoso do mundo dava permissão para  isto até 1990, imagine os outros, menos ricos…Eu vi! Estive na Antártica várias vezes. Na última fui a bordo do Navio de Socorro a Submarinos, Felinto Perry, da Marinha do Brasil. E gravei imagens dos marinheiros jogando sacos de plástico, cheios de lixo, no mar que banha o continente dedicado à pesquisa! O continente ‘sagrado’, o único que ‘escapou das pegadas’ produzidas pela humanidade…

Cruzeiros turísticos, setor do turismo que mais cresce no mundo. E mesmo assim os navios descartam lixo no mar

É aqui que eu queria chegar. Este setor cresce a cada ano e anualmente aumentam os cruzeiros na “paradisíaca” costa brasileira como muitos incautos gostam de chamar  nossa maltratada, e não fiscalizada, zona costeira. Estes navios descartam seu lixo no mar, mesmo em Parques Nacionais Marinhos como este site já cansou de denunciar. Tenho certeza que todas as companhias de cruzeiro fazem isso, mas não tenho provas contra todas. Com algumas, sim. Tenho como provar. Vamos a elas:

Navio de passageiros é flagrado jogando lixo no mar brasileiro

Matéria de 23 de dezembro de 2013. “O passageiro Sérgio da Silva Oliveira, filmou funcionários do navio da MSC jogando diversos sacos de lixo em alto mar e denunciou a empresa para o Ministério Público. Como se trata de uma empresa estrangeira, o promotor vai encaminhar o caso aos órgãos responsáveis”.

O lixo da MSC e as vítimas de cruzeiros: violência sexual, tráfico de drogas e contaminação

De 5 de fevereiro de 2014: “A TV Senado, no dia 17 último, apresentou, no programa Diplomacia, uma reportagem de 14 minutos sobre os problemas cada vez mais comuns, maiores e perigosos dos cruzeiros marítimos que “cortam” a costa brasileira”….”Números apresentados no programa, de acordo com a Organização das Vítimas de Cruzeiros (OVC), dão conta que, de 1998 a 2012, foram contabilizadas 1.429 pessoas vítimas de violência sexual  dentro desses transatlânticos, 171 desapareceram no mar e 50 mil apresentaram algum tipo de contaminação”…”a periculosidade e a insalubridade de alguns cruzeiros voltaram ao destaque jornalístico, no início deste ano, por conta de denúncia filmada de um passageiro do navio MSC Cruzeiros, onde mostra o descarte, criminoso. Navios descartam lixo no mar brasileiro”…

Assista ao vídeo sobre descarte de lixo no litoral brasileiro

Mais um navio-porcalhão?

22 de fevereiro de 2014. “Neste sábado, 22 de fevereiro, o Estadão trouxe a matéria: “Búzios fecha praia após contaminação no mar“. Ela conta que “pelo menos 60 pessoas apresentaram sintomas de intoxicação após frequentar a Praia da Tartaruga, em Búzios, na Região dos Lagos …”A água tinha uma mancha de um produto químico ainda desconhecido. A suspeita é de que um navio tenha despejado na água uma substância para diminuir o mau cheiro de banheiros químicos”…

Navios descartam lixo no mar, imagem de navio da MSC com mancha de poluiçãoEis a prova do navio porcalhão da MSC
Pode parecer coisa pequena mas não é. Neste verão Búzios deve receber 136 navios, de acordo com o site da prefeitura . Portanto, olho vivo! Atualmente o Brasil é o quinto país mais procurado para cruzeiros de passageiros.Indícios de novo descarte dos navios, desta vez o MSC Preziosa26 de fevereiro de 2014: Navios descartam lixo no mar.  A matéria dizia…” mais uma vez o blogueiro Dener Giovanni sai na frente e publica a denúncia. Cumprindo as regras do bom jornalismo Dener  ouviu o “outro lado”. Entrou em contato com a assessoria da MSC e recebeu esta mensagem de Renata Asprino- diretora de atendimento da Máquina RP:

“É possível que seja lodo, algas, plantas e outras coisas presentes no fundo do mar. Este tipo de mancha é comum quando os grandes navios passam em áreas mais rasas, fazendo com que o que está no solo suba até a superfície. Acredito que seja isso que a passageira filmou, já que passa a impressão de sujeira e na verdade é de materiais do próprio fundo do mar.”

É possível que seja lodo…sei, não. Veja a denúncia de Dener, link acima, e ouça a entrevista gravada com a passageira Vanessa. Ela conta detalhadamente como foi o descarte de lixo.

Navio porcalhão, aqueles navios que descartam lixo no mar, é da MSC

8 de janeiro de 2014: Inconformado com a falta de uma resposta clara às denúncias de Dener Giovanni, o Mar Sem Fim entrou em contato com a MSC exigindo um esclarecimento. Recebemos esta resposta: “Oi KK, Realmente, podemos ter problemas. Este denunciante do Paraná não sossegará enquanto não obter bons espaços com esta história de resíduos no mar. A Companhia foi acionada juridicamente, pelo MP no Paraná? Quanto ao Dener, hum..ele é blogueiro mesmo, de Santa Catarina, e mantém o espaço dele atualizado no portal do Estadão. Também tem site bem organizado. Ou seja, está então bastante interessado no tema/notícia. A imprensa, neste momento de retorno de réveillon (sic) está meio carente de assuntos, ainda.”

Note o deboche: “Oi KK… A imprensa, neste momento de retorno de réveillon (sic) está meio carente de assuntos, ainda.” Deboche, ou não?

Des- ‘Armonia’ no mar do Brasil. A campanha contra a MSC continua!

9 de janeiro de 2014: “Mais um internauta confirma a ação criminosa da MSC e navios descartam lixo no mar brasileiro.  O internauta Mário conta sobre a viagem a bordo do “Armonia”, da MSC, em 2008, quando flagrou o descarte de lixo entre Ilha Grande e Ilhabela. Mário disse o seguinte:

“Engraçado, no verão de 2008 eu já havia presenciado isso. Indignado, escrevi para diversos meios de comunicação, mandei fotos que tirei na popa do navio com o lixo sendo despejado entre as ilhas Grande e Ilhabela, fui procurado por vários jornalistas, mas ninguém publicou nada!”

Mais críticas e reclamações contra a MSC, dona do “Navio-Porcalhão

27 de janeiro de 2014: Nesta matéria do Mar Sem Fim dizíamos que…”Hoje recebi nova denúncia contra a MSC sobre um cruzeiro que aconteceu em 2011, de Santos para Buenos Aires, quando o MSC Ópera bateu no pier do porto de Buenos Aires. Mais uma vez a MSC não deu satisfação aos passageiros.

“Reportagem feita pela rede Record de Santos sobre o Navio Cruzeiro MSC Ópera quando saía do Porto de Buenos Aires – AR e chocou com o pier (deck) – indignação dos passageiros e tripulantes, pois a empresa sequer nos manteve informados, sendo que ficamos parados por mais de 8 horas em alto mar para reparos, o que ocasionou a não ida a Punta del Leste. Sem contar que chegamos atrasados em BA. As. e ficamos apenas 1 dia o que era para ser dois. O que mais impressiona é o descaso da companhia junto aos seus passageiros.

Assista à reportagem

É assim que a MSC trata, ou melhor destrata, seus consumidores.

MSC Cruzeiros: a porcalhona!

4 de abril de 2014: Neste post do Mar Sem Fim alertávamos que…’Agora aconteceu coisa pior: a empresa MSC Cruzeiros é acusada de manter trabalhadores em regime escravo!!’ A matéria saiu pelo G1 BA…

“Procuradores e auditores fiscais do trabalho resgataram 11 funcionários da MSC Crociere, empresa que explora cruzeiros marítimos, que estavam em condições de trabalho análogo ao de escravos, no Porto de Salvador. Eles estavam a bordo do navio MSC Magnifica…De acordo com o Ministério Público do Trabalho na Bahia, os funcionários trabalhavam por 11 horas diárias, além de sofrer assédio moral e sexual, dentre outras irregularidades identificadas, como humilhações e cobranças excessivas…A investigação, iniciada no Porto de Santos, litoral de São Paulo, já havia colhido alguns depoimentos que revelavam a situação análoga à de escravo que sofriam no navio…Trabalhadores foram resgatados do navio MSC Magnifica”

Navios descartam lixo no mar,imagem de policiais retirando trabalhadores escravos do navio MSC MagníficaPoliciais retirando trabalhadores escravos do navio MSC Magnífica. Foto: Rogério Paiva/Divulgação)
Preste muita atenção ao escolher sua viagem a bordo de navio de cruzeiro. Por que navios descartam lixo no marAs companhias que vêm ao Brasil já deram inúmeras provas de descaso. Então, está em suas mãos. Como o blogueiro Dener Giovanni fechou sua matéria…fecharemos a nossa. Com duas imagens. Preste atenção.

Navios descartam lixo no mar, imagem de navios da MSCUm sonho idílico pode acabar muito mal…Navios descartam lixo no mar. Veja a foto seguinte.

Navios descartam lixo no mar, imagem de animal morto na praiaAnimal morto na praia por poluição…já que navios descartam lixo no mar
Navios da MSC descartam lixo no mar, mas ela não é a única
rincess Cruises, o Caribean Princess foi repreendido.

Navio porcalhão: Caribean Princess paga multa.

Fonte – João Lara Mesquita, Mar de Fim de 13 de abril de 2018

Fábrica da Coca-Cola: a felicidade te espera mesmo lá dentro?

Visitas às fabricantes do refrigerante mostram um mundo de fantasia, numa ação de marketing que quer limpar a barra da corporação quando o assunto é obesidade  

Mãe de Maria Luiza, de 6 anos, e de Isabela, de 2, Aline Bahia Pinto Soares é pura aceleração. Soteropolitana de nascença, ela faz jus ao sobrenome: segue na capital baiana, Salvador. Profissionalmente, Lika, como prefere ser chamada, divide-se em duas frentes. Dentista, é servidora pública concursada do município, mas também trabalha em consultório particular. Corre para exercer os diversos papéis e faz milagres para que as muitas tarefas caibam nas 24 horas do dia. Entre as principais preocupações que carrega atualmente, uma das maiores é fazer com que Malu, a filha primogênita, coma de forma saudável. Essa foi uma das razões que a motivaram a criar o blog “Mamãe vai fazer”, em 2013, e compartilhar experiências com outras mulheres que vivem as ansiedades da contemporaneidade.

A dois mil quilômetros de distância, Victor Matsudo vive em São Caetano do Sul (SP). Ele é um médico reconhecido. Ortopedista e traumatologista especializado em medicina do esporte, acumula prêmios nacionais e internacionais. Viagens e cerimônias glamorosas fazem parte do cotidiano.

O que há em comum entre esses personagens? A pergunta é justa. E, a resposta, dura: quase nada, mas o pouco que existe é revelador de como operam as corporações alimentares do planeta para transformar a ciência em marketing a serviço de interesses privados.

Pé na tábua, mas de marcha a ré. Cenas do dia 25 de setembro. O destino geográfico de Lika Bahia e Victor Matsudo, é a cidade de Recife (PE). Nenhum deles desembolsa dinheiro para as passagens ou quaisquer outras despesas. Tudo está pago. Os recursos financeiros vêm das contas de uma “Fábrica da Felicidade”, onde certo líquido de cor café e abundante em espuma gaseificada é o maior responsável pelos lucros. A Coca-Cola banca tudo, como parte do programa “Viva Positivamente”, braço da corporação que reúne muito marketing e pouca ciência numa “pegada” de “qualidade de vida” e “atitudes otimistas” para “viver de forma sustentável”.

Lika é só uma das convidadas da megaempresa. Outras 19 mães blogueiras da região Nordeste do Brasil também respondem ao chamado. O programa inclui conhecer a fábrica (aquela, a da felicidade), instalada no Complexo Industrial de Suape, além de um almoço e uma palestra sobre “vida saudável”, proferida por um médico: Victor Matsudo.

A primeira atração apresentada às mamães blogueiras chega em forma de almoço. Nele, pratos feitos pelo chef pernambucano Armando Pugliesi – jurado do Masterchef Kids Brasil em 2016 – são servidos com legumes, grãos e carnes de peixes. Tudo aparentemente muito saudável. A não ser por um detalhe. Há um “toque” de Coca-Cola nas refeições. “Temperando” a comida, o refrigerante que leva altas doses de corante caramelo E150d, elemento que contém substâncias suspeitas de causar câncer; cafeína em grandes volumes, o pode aumentar a pressão arterial; ácido fosfórico, que inibe o uso de cálcio pelo corpo, levando à osteoporose; e os adoçantes artificiais aspartame e acessulfame de potássio (nos refrigerantes em versão diet), que podem se transformar em formaldeído (derivado do metanol, agente químico extremamente perigoso à saúde humana) em altas temperaturas.

Salada à moda da felicidade: o molho é de Coca-Cola no almoço “saudável”

O encontro entre Matsudo e Lika se dá logo após. As 20 mães formam a pequena plateia que ocupa um dos auditórios da fábrica para ouvir o médico bater na tecla de que “se mexer é tão importante quanto uma boa dieta para uma vida saudável”.

Médico referência nas ciências do esporte. Chef de cozinha pop. Falta a Lika Bahia somente aquela voltinha pela “Fábrica da Felicidade” da Coca-Cola para encerrar o espetáculo em Recife. As visitantes são “recebidas” pela guia virtual Wendy, uma espécie de holograma que faz o convite oficial “para uma viagem no tempo”, como enfatiza o release da megaempresa.

“O que a Coca-Cola quer com isso? Quer mostrar que também preza a vida saudável. É uma contradição, não?”

As blogueiras conhecem a história da corporação no Brasil, visualizam campanhas publicitárias antigas, assistem a um filme 3D sobre a “fórmula secreta”. No fim, a sala de degustação as espera para, claro, tomar refrigerantes à vontade.

“O que a Coca-Cola quer com isso? Quer mostrar que também preza a vida saudável. É uma contradição, não?”, diz Lika, transparecendo certa dúvida, em entrevista por telefone. Antes de encerrar a conversa, ela alerta: “Antes que todas as metralhadoras maternas se voltem contra mim: não, nunca ofereci Coca-Cola para as minhas filhas. Mas, sim, elas tomam, eventualmente, outros produtos da empresa, como os sucos Kapo. E eu bebo Coca-Cola. Ela sempre tem lugar na porta da minha geladeira. Da mesma forma que, eventualmente, como brigadeiro, acarajé… Ainda com relação ao refrigerante, me sinto hipócrita por beber e dizer para as meninas que é ruim, mas seguiremos assim até quando der”, conclui.

Voa, doutor, voa

Não apenas as mães nordestinas são alvos do marketing. No dia 18 de setembro de 2014, ou seja, uma semana antes da viagem de Lika, blogueiros ligados à cultura pop recebem convites da Coca para ir ao restaurante HotSpot, em Recife, na famosa praia de Boa Viagem. Em dia diferente, mas, no mesmo local, é a vez das blogueiras de “moda e estilo”. No dia 2 de outubro, elas conhecem o “Menu Inesquecível Coca-Cola”, que, de acordo uma das convidadas, serve “até caviar com Coca”.

Se o cardápio é variado em cada visita, as palestras, não. O tema, sempre o mesmo: a importância de se mexer no dia a dia. O nome por trás do discurso é o onipresente Matsudo, à disposição da corporação de refrigerantes no Nordeste do país.

A relação contraditória entre a empresa e a ciência representada por Matsudo vem de longe e se dá em diversos níveis. Ele e a Coca-Cola estão de braços dados por aí. É maio de 2013 e o evento Mães + Amigas, realizado no Museu de Arte Moderna (MAM) do Rio de Janeiro, recebe 50 mães escolhidas a dedo para compartilhar “a felicidade de ser mãe”.

O público-alvo é composto por mulheres com filhos entre 5 e 19 anos, moradoras de Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte, Curitiba, Salvador e Brasília. Todas, óbvio, têm número expressivo de seguidores na Internet. Ou seja: capacidade e capilaridade para influenciar outras mães.

Uma das blogueiras convidadas, que prefere não se identificar, diz que foi contatada pela agência de Comunicação Mutato, de São Paulo. “Recebi, primeiro, perguntas”, diz. As questões giram em torno do mercado de refrigerantes. “Qual é seu refrigerante preferido? Quantas vezes por dia ou por semana você bebe Coca-Cola? Considerando não só a bebida, mas os valores defendidos pela marca, você acha que a Coca-Cola te representa?”, são as indagações.

Os questionamentos, segundo o pessoal da Mutato, são a base para o lançamento de uma plataforma direcionada pela corporação para mães, no Facebook. “No início, um grupo fechado para 50 mulheres que estamos selecionando a dedo: são donas de casa, professoras, jornalistas etc. etc. Mães que, por suas individualidades, são mais do que especiais. O objetivo desse grupo é proporcionar um ambiente para que essas mães se conheçam, se inspirem e se informem. A intenção é que a Coca-Cola dê uma ajuda para que elas mesmas encontrem suas próprias ideias de felicidade, inspiradas na verdade que cada uma tem dentro de si. Afinal, a gente sabe que pra ser uma boa mãe não precisamos (sic) seguir regras. É isso que a gente quer discutir bastante nesse grupo com vocês”, descreve a mensagem de e-mail.

Onde se lê “pra ser uma boa mãe, não precisamos seguir regras”, entenda “pode dar refrigerante ao seu filho desde que ele faça exercícios físicos e viva positivamente”. É flexão no braço, positividade no coração e Coca na veia.

A tal plataforma, um simples grupo de Facebook, é o motivo do evento no Rio e contrasta com o lançamento nada econômico. Em solo carioca, desembarcadas dos voos e trasladadas, as mulheres são recebidas no MAM com um farto cardápio “finamente servido”. Com investimentos em celebridades, quem conduz a cerimônia é a jornalista Lorena Calábria. A cantora Tiê é a atração musical.

Contudo nem só de glamour vivem as bolhas da Coca. Tem que ter “papo sério” também. E Victor Matsudo está na capital fluminense para dizer o que fazer: caminhar, subir escadas e varrer a casa são atitudes “mais eficazes” à saúde do que cortar a latinha de refrigerante.

“Crianças precisam de 13 mil passos por dia ou uma hora de atividades físicas e adultos necessitam de 10 mil passos por dia ou 30 minutos de atividades físicas diárias”. Nenhuma palavra sobre as calorias contidas numa garrafa de Coca-Cola e de quantos passos são necessários para queimá-las. “Nós, pais da era da tecnologia, temos que cuidar e estar muito atentos para que nossos filhos não fiquem navegando no computador e boiando na vida”. Crítica ao tempo dispensado pelos jovens à tecnologia: liberada. Abrir o jogo sobre o prejuízo de “boiar” em refrigerantes: nem pensar.

Além do Facebook,  a intenção é que o Youtube abrigue o grupo, com o intuito de reunir as “Mães + Amigas” virtualmente em sessões de vídeo que objetivam “tirar dúvidas” sobre como fazer os filhos se interessarem por atividades físicas e se hidratarem e alimentarem “bem”. A dupla de professores? Coca-Cola e Matsudo.

Vamos ao receituário:

Aos 15 minuto e 29 segundos, começa o módulo sobre queimar calorias em exercícios físicos. A partir da pergunta de uma mãe, Matsudo se apoia na tese do balanço energético (você tem que gastar o que acumula de calorias com exercícios) para defender que ritmos menos intensos fazem gastar gordura, o que, segundo ele, é o suficiente para quem “não gosta de correr” e pode resolver a vida caminhando. Carboidratos e açúcares, na visão do médico, só entram na “fogueira” em atividades intensas.

O balanço energético é criticado por parte significativa da comunidade científica mundial, tanto do ponto de vista dos resultados, como pelo conflitos de interesses existentes nas relações com a indústria de ultraprocessados. Um grupo chamado Global Energy Balance Network, liderado por pesquisadores defensores da teoria e criado pela Coca-Cola, teve as atividades encerradas em 2015 depois de meses de pressão de autoridades de saúde pública dos EUA.  A missão da equipe: minimizar o vínculo entre refrigerantes e obesidade, obviamente, recebendo fartos recursos da transnacional de bebidas açucaradas.

Aliás, Matsudo aparece na lista internacional de pesquisadores financiados pela Coca para “estudos sobre obesidade infantil”. Em entrevista à reportagem de O joio e o trigo, o médico confirma que teve conexões com a corporação e diz que quem hoje toca a relação com a megaempresa é Sandra Mahecha Matsudo, também médica da área esportiva e esposa de Victor.

“Livre escolha: médico aconselha mães a levar filhos ao mercado para escolher bebidas, até C0ca-Cola” 

Vinte minutos e trinta segundos de vídeo rolando. Outra mãe conta a dificuldade que tem para fazer o filho ingerir líquidos, especialmente água. Ela pede conselhos. O especialista responde: “A nossa sugestão é buscar água de coco.” Boa! Mas a ilusão dura pouco.

Sem dar tempo de saborear a resposta, Matsudo solta que outra solução é levar o menino ao mercado para escolher o que gosta de beber: “Água, água com gás, Coca-Cola. O que você quer?”, indica que seja oferecido.

A mãe revela: “Meu filho tem pouco mais de 1 ano”.

– Ah, 1 ano…, diz o médico, parecendo desconcertado.

Só melhora. Descoberta a idade da criança, o médico ilumina o caminho para a mamãe convencer o bebê a tomar algo. “Líquidos em diferentes cores.” O profissional afirma que testes de fábricas de isotônicos (Gatorade? Powerade?) concluem “que as crianças gostam mais da cor vinho”. Ah, sim, e de verde-limão (nada que lembre as cores dos arriscados isotônicos, não?).

Não demora e vem o aconselhamento que direciona uma das mães a insistir com a filha a usar mais escadas do que elevador, “porque atividades físicas acumuladas funcionam para queimar calorias”. Ou seja, os 30 minutos por dia podem ser repartidos, por exemplo, em três sessões de dez.

Tudo para facilitar a vida. Você sobe escadas três vezes por dia, dá uma varrida na casa e já era a lata de Coca.

Mais uma mãe pergunta sobre a intensidade das atividades. Vem uma brincadeira, nada sutil ou original. “Leva a sogra para passear, porque pior que sogra é sogra doente”, ri a face piadista de Matsudo.

Hora de parar o vídeo e tomar água. Um arzinho também.

Por que ele?

Para um homem que se apresenta como cientista do esporte, o discurso parece bastante senso comum. É cada dia mais evidente hoje que a ênfase colocada na relação sedentarismo/obesidade está entre as distorções criadas pela indústria de refrigerantes.

Pequenos esforços, como descer do ônibus um ponto antes, usar escadas no lugar do elevador e limpar a casa, têm sido o mote para culpar o indivíduo por um problema que afeta parcela significativa da humanidade. Olhos vendados por esse discurso nas últimas décadas, ignoramos o problema maior.

Um artigo publicado em 2013 no International Journal of Epidemiology contesta a efetividade da prática de exercícios. Amy Luke e Richard Cooper, da Loyola University, afirmam que a recomendação oficial de 30 minutos de atividades leves por dia não tem qualquer efeito sobre o emagrecimento. A recomendação dos pesquisadores é que isso deixe de constar das diretrizes governamentais dos EUA e que o foco esteja sobre “o que realmente importa”: a ingestão de ultraprocessados.

Não que Luke e Cooper neguem que exercícios físicos sejam importantes à saúde, mas garantem que atividades como as propostas por Matsudo são irrelevantes para combater a obesidade, que é a principal causa pelos crescentes índices de pessoas diabéticas, hipertensas e com doentes do coração pelo mundo.

As respostas ao texto dos dois estudiosos são agressivas. E, no geral, partem de cientistas financiados pela Coca-Cola, pelo McDonald’s e pela associação de produtores de bebidas dos Estados Unidos.

Victor Matsudo, contudo, tem confiança e mídia por ser um homem bem articulado. Isso, desde a época da ditadura (1964-1985). Ao menos a partir de 1974, há amostras disso. Naquele ano, surge o Centro de Estudos do Laboratório de Aptidão Física de São Caetano do Sul (Celafiscs), com o discurso de “avaliar os resultados das práticas desportivas” dos alunos das escolas do município e “estabelecer padrões de aptidão e de atividade física brasileiros”, já que até então “todos os parâmetros eram norte-americanos”.

No entanto, a mensagem principal do Celafiscs está fundamentada em princípios sistematizados no ano de 1991 pelo Centers for Disease Control and Prevention (CDC) e o American College of Sports Medicine (ACST), ambos dos Estados Unidos, defensores dos 30 minutos de atividade física por dia, de forma contínua ou acumulada, e abrangendo três eixos básicos: atividades domésticas, transporte entre casa e trabalho (ou entre casa e escola) e atividades de lazer. As duas associações têm fortes laços com a Coca-Cola, segundo investigações do jornal estadunidense The New York Times.

No ano de 1994, durante a montagem da equipe do governo paulista do tucano Mário Covas (morto em 2001), Matsudo é convidado a lançar um programa de promoção da saúde baseado “no combate ao sedentarismo e na mudança de atitudes, com grande abrangência e de baixo custo”. Começa a ganhar formato o produto principal do Celafiscs: o “Agita São Paulo”, que, inicialmente, visa a levar a mensagem dos “30 minutos de exercícios moderados por dia” aos moradores dos municípios paulistas.

O projeto se instala na Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo, tendo Victor como coordenador-geral. Lançado oficialmente em 1996, o “Agita” ganha corpo rapidamente, fazendo crescer uma rede de parcerias constituída por setores de governo, empresas privadas, instituições de caráter científico, associações de classe, clubes de serviço, profissionais da saúde e veículos de mídia, que dão sustentação à propagação da iniciativa.

A capacidade de articulação política do Celafiscs aumenta. Espaços em outros estados do país são abertos. Até que, em 2000, o programa é adotado pelo governo federal (então presidido por Fernando Henrique Cardoso), sob o título de “Programa Nacional de Promoção da Atividade Física Agita Brasil”. Na mesma época, estabelece laços com ações semelhantes na América Latina, por meio da Rede de Atividade Física das Américas.

Os apoios vão se tornando cada vez mais heterogêneos. Estendem-se do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), passando pela prefeitura de São Paulo, até a Associação Brasileira das Indústrias de Alimentos (Abia) e a Gatorade (marca de isotônicos da transnacional Pepsico), do qual Matsudo passaria a ser consultor no Brasil. Vale lembrar que essa gigante da indústria alimentar é fabricante de refrigerantes, biscoitos recheados, salgadinhos de pacote, entre outros produtos carregados de açúcares, sódio, corantes, xaropes e aromatizantes artificiais.

As mães e outros convidados podem não notar, mas os eventos na Fábrica da Felicidade são experiências, laboratórios para a criação de ações de marketing, inclusive com o uso de “ciência”, caso do “Viva Positivamente”.

Do “Mães + amigas”, por exemplo, deriva algo maior do que um grupo fechado de Facebook. A promoção do encontro entre mães de diferentes idades, realidades e regiões – “cada uma mostrando sua forma de ser mãe, todas elas muito especiais e sempre únicas, nos dizeres da Coca – é, na realidade, uma maneira de monitorar as tendências apontadas por essas mulheres e, a partir delas, influenciar a opinião pública.

Não nos esqueçamos: Doutor Jekyll é também Mister Hyde.

Barrados no baile

Desde 29 de junho do ano passado, a reportagem de O joio e o trigo tenta uma entrevista com representantes da Coca-Cola e uma visita a uma das fábricas da felicidade. De todos os contatos feitos, por e-mail e telefone, conseguimos apenas uma nota, de econômicos dois parágrafos.

“A Coca-Cola Brasil segue parâmetros rigorosos para patrocínio de pesquisas científicas e apoio a pesquisadores. Nosso interesse na literatura científica se reflete na preocupação de embasar todas as nossas decisões em evidências científicas – principalmente relacionadas à formulação de nossos produtos e ingredientes. Dessa forma, asseguramos que estamos oferecendo bebidas de qualidade às pessoas que escolhem consumir nossos produtos.

Para isso, temos uma relação de franco diálogo com os principais interlocutores envolvidos com as questões alimentares e a educação nutricional no Brasil. Buscamos estar atentos às críticas e às oportunidades da nossa atuação nessa área. Hoje estamos mais focados nas melhorias que podemos fazer em nosso portfólio e comprometidos em oferecer mais escolhas para as pessoas”.

Sobre a possível visitação à fábrica, nenhuma linha.

Na semana passada, lemos no jornal britânico The Independent a notícia de que a Coca vai interromper a visita às fábricas na Europa. De acordo com a reportagem, a megaempresa não organizará mais o evento em meio à “crise de obesidade infantil” que afeta o continente. Ao longo da última década, as fabricantes europeus da marca receberam mais de 110 mil visitantes, entre alunos do ensino infantil, médio e universitário.

Além disso, 390 mil estudantes do ensino médio participaram do Real Business Challenge, uma competição nacional que visa a “ajudar os alunos a desenvolver habilidades úteis, como trabalho em equipe e resolução de problemas”, de acordo com o marketing da transnacional. O programa também será encerrado, “a fim de reavaliar o modo como a marca funciona com os jovens”.

Entramos, de novo, em contato com a Textual Comunicação, assessoria que tem “respondido” a demandas que envolvem a corporação de refrigerantes. Nossa questão, agora, é saber se a medida do encerramento de visitas é válida apenas para a Europa ou se é pensada também para outros continentes/países, em particular o Brasil.

Seguimos no aguardo da resposta, que não chegou até o fechamento desta reportagem. Pelo jeito, continuamos barrados nas fábricas de onde emana a alegria. A felicidade não é para qualquer um.

Fonte – Moriti Neto, O Joio e o Trigo de 13 de março de 2018

A superpopulação é mito?

superpopulação é mito?

“É sempre bom lembrar,
Que o copo vazio
Está cheio de ar”
Copo Vazio, de Chico Buarque

Superpopulação é mito? Com essa pergunta o youtuber Pirula tenta responder a uma outra pergunta: Será que ocupamos apenas 3% da superfície do planeta?

O vídeo que Pirula disponibiliza no Youtube traz uma mensagem bastante simples e útil para mostra de forma didática como o globo está ocupado pelas atividades antrópicas. Ele explica que realmente as manchas urbanas ocupam apenas 3% da área habitável do Planeta. Mas, evidentemente, a humanidade não vive apenas dos recursos fornecidos pelas áreas das cidades.

Pirula mostra que a produção de alimentos ocupa 40% da área terrestre do Planeta. Mas os outros 57% dos continentes estão divididos em cerca de 20% de desertos, áreas geladas da Antártica, do Ártico, da Groenlândia, florestas, pântanos, etc. Ou seja, é ilusório pensar que a humanidade poderia ocupar 100% da superfície da Terra e que haveria espaço de sobra para a expansão humana.

Há seis anos, escrevi dois artigos tratando do mesmo assunto. No primeiro artigo “A população do mundo cabe na cidade de São Paulo?”, tentei mostrar que de fato São Paulo poderia abrigar toda a população mundial, mas apenas se colocarmos, teoricamente, 5 pessoas em pé em todos os metros quadrados da cidade. Mas evidentemente isto só seria possível se houvesse uma grande terraplanagem para eliminar toda a vegetação, as águas e os declives dos diversos terrenos (ou uma verticalização exponencial). Além disto, ninguém poderia se deitar para dormir, nem ir ao banheiro e todo mundo precisaria viver de brisa.

Ou seja, mesmo que coubesse, seria inviável colocar toda a população mundial em São Paulo. Primeiro porque cada pessoa precisa de uma cama para dormir, se possível um quarto, no mínimo, poderia compartilhar um banheiro, uma cozinha, uma sala, uma dispensa, etc. Ou seja, as pessoas precisam de moradia e toda construção ocupa espaço. Os indivíduos também precisam de escola, hospitais, mercadinhos ou supermercados, farmácias, lojas diversas, áreas de lazer, ruas, estradas, etc. Ainda tem a energia proveniente das refinarias, do carvão, dos lagos das hidrelétricas, dos insumos agrícolas para o biocombustível, etc. Portanto, o impacto das atividades antrópicas vai muito além do espaço urbano, mesmo que se adotasse uma grande verticalização.

No segundo artigo “Territórios vazios?”, tentei mostrar que um país não é feito só de gente, mas sim de toda uma riqueza natural e biológica. Os demais seres vivos deveriam ter direito à vida, mesmo porque nenhuma espécie consegue viver sozinha e a maioria das espécies da flora e fauna brasileira estão aqui no território brasileiro antes da chegada dos seres humanos. A humanidade vive em uma comunidade biótica e sem biodiversidade haveria um holocausto biológico que levaria ao colapso qualquer civilização. O ecocídio é também um suicídio.

Como mostrou Ron Patterson “Há 10.000 anos os seres humanos e seus animais representavam menos de um décimo de um por cento da biomassa dos vertebrados da terra. Agora, eles são 97 por cento”. Ao invés do crescimento populacional e da expansão da pegada civilizacional o que o mundo precisa é de reselvagerizar os territórios nacionais, preservando metade do Planeta para a vida selvagem (Alves, 2014).

área ocupada pelos humanos, pelos animais domésticos e animais selvagens

Portanto, é sempre bom lembrar que o território vazio (de humanos) está, em geral, cheio de vida não humana. A economia é um subsistema da ecologia. Não é possível manter a sustentabilidade do Planeta com uma população humana crescendo indefinidamente, enquanto promove a 6ª extinção em massa das espécies. Só não haveria superpopulação humana se, ao mesmo tempo, fosse possível manter a população das demais espécies vivas da Terra.

A superpopulação e o superconsumo estão fazendo a Terra perder plantas, animais e água limpa em um ritmo alarmante. Quatro relatórios sobre a biodiversidade, divulgados pela ONU (em 23/03/2018), mostram que nenhuma região do planeta está em boas condições e que a tendência à destruição é causada, fundamentalmente, pela atividade humana. Durante três anos, mais de 500 especialistas de mais de 100 países, reunidos na Plataforma Intergovernamental sobre Serviços de Ecossistemas e da Biodiversidade (IPBES), analisaram o estado da fauna e flora no mundo e constaram: “A biodiversidade, a variedade essencial de formas de vida na terra, continua a diminuir em todas as regiões do mundo em ritmo alarmante”.

De acordo com o relatório, apenas 25% da superfície terrestre permanece livre de impactos substanciais causados por atividades humanas. E o índice deve cair para meros 10% até 2050, segundo a IPBES. Apenas algumas regiões nos polos, desertos e as partes mais inacessíveis das florestas tropicais permanecem intactas. Até o ano de 2014, mais de 1,5 bilhão de hectares de ecossistemas naturais foram convertidos em áreas agrícolas. Plantações e pastagens cobrem atualmente mais de um terço da superfície do planeta. Os processos mais recentes de desmatamento estão ocorrendo nas regiões do globo mais ricas em biodiversidade. A expansão não sustentável de áreas dedicadas à agricultura e à pecuária é apontada no relatório como uma das principais causas do problema, que tende a se agravar com a crescente demanda por alimentos e biocombustíveis. O uso de pesticidas e fertilizantes deve dobrar até 2050, agravando o processo de eutrofização.

Um evento real e simbólico da perda de biodiversidade, por exemplo, foi a morte do último rinoceronte-branco do norte macho, chamado Sudan, no Quênia aos 45 anos. Quando Sudan nasceu em 1973, em Shambe, no Sudão do Sul, havia quase 700 exemplares vivos. Em tese, a morte de Sudan significa a extinção dessa subespécie de rinoceronte.

 último rinoceronte-branco do norte macho, chamado Sudan

Portanto, como mostrou Pirula, a superpopulação não é mito. Superpopulação e superconsumo são uma realidade arrasadora do meio ambiente no Antropoceno. Triste realidade que está provocando a 6ª extinção em massa das espécies. Não são apenas os grandes mamíferos que estão desaparecendo, também os insetos. Estudo publicado na revista científica Plos One (18/10/2017) revela queda de 75% no número de insetos voadores na Alemanha (Insectageddon). Os dados foram obtidos em áreas protegidas do país, mas o resultado têm implicações para todas as regiões onde a paisagem é dominada pela agricultura. De acordo com os autores da pesquisa, a constatação é preocupante, já que os insetos têm um papel crucial no funcionamento dos ecossistemas, polinizando 80% das plantas e fornecendo alimento para 60% das aves.

A Terra é finita e o crescimento da população, junto a sua insaciável gula por todos os tipos de alimentos e sua ambição por acumulação de consumo conspícuo, tem provocado um holocausto biológico. A humanidade precisa deixar de ser egoísta e reconhecer que as demais espécies vivas do Planeta também têm direito à vida e à liberdade.

Referências

ALVES, JED. Para evitar o holocausto biológico: aumentar as áreas anecúmenas e reselvagerizar metade do mundo. Ecodebate, RJ, 03/12/2014
http://www.ecodebate.com.br/2014/12/03/para-evitar-o-holocausto-biologico-aumentar-as-areas-anecumenas-e-reselvagerizar-metade-do-mundo-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/

Overpopulation – The Human Explosion Explained
https://www.youtube.com/watch?v=QsBT5EQt348

George Monbiot. Insectageddon: farming is more catastrophic than climate breakdown, The Guardian, Friday 20/10/2017
https://www.theguardian.com/commentisfree/2017/oct/20/insectageddon-farming-catastrophe-climate-breakdown-insect-populations

Paul Chefurka. Population: The Elephant in the Room, Blog, may 2007
http://www.paulchefurka.ca/Population.html

José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal.

Fonte – EcoDebate de 09 de abril de 2018

Plástico deve ser banido de copos, pratos, bandejas e talheres descartáveis

A Comissão de Meio Ambiente (CMA) aprovou nesta terça-feira (17) o projeto (PLS 92/2018) que prevê a retirada gradual do plástico da composição de pratos, copos, bandejas e talheres descartáveis. Pelo texto, no prazo de dez anos, o plástico deverá ser substituído por materiais biodegradáveis em itens destinados ao acondicionamento de alimentos prontos para o consumo.

Segundo o texto aprovado, o plástico deverá ser substituído em 20% dos utensílios no prazo de dois anos após a eventual vigência da lei. Esta exigência subirá para 50% após 4 anos; para 60%, após 6 anos; e para 80%, após 8 anos. O plástico deverá ser totalmente banido após dez anos.

Justificativa

Na justificativa do projeto, a autora Rose de Freitas (PMDB-ES) afirma que “os destinos finais de grande parte dos itens que ingenuamente usamos ao fazer um lanche num fast-food ou tomar uma bebida são os rios, lagos, mares e oceanos, comprometendo o equilíbrio ecológico de maneira extremamente grave”.

Rose acrescenta que mesmo amostras de água tratada, em diversos países do mundo, demonstram a contaminação por microplásticos. “Isto significa que os sistemas convencionais não são eficazes em retirar resíduos de plástico e que, portanto, estamos ingerindo plástico diariamente, sem saber as consequências disto para a saúde humana”.

Relatoria

Durante a análise na CMA nesta terça-feira, o relator da proposta, senador José Medeiros (Pode-MT), ressaltou os danos ao meio ambiente, considerando a extração do petróleo (matéria-prima) e o refino e descarte do plástico:

— Os impactos das refinarias vão desde as consequências dos estudos sísmicos na exploração, até o consumo de grandes quantidades de água e energia, geração de quantias absurdas de despejo líquido, liberação de diversos gases nocivos na atmosfera, produção de resíduos sólidos de difícil tratamento, além dos frequentes vazamentos de petróleo em ambiente marinho, como ocorreu com a Chevron no Brasil — disse Medeiros.

O senador pontuou que o tempo de degradação dos materiais de origem petroquímica chega a centenas de anos. Isto faz com que a vida útil de aterros, destino final de toneladas de sacolas e embalagens plásticas, se reduza sensivelmente, com graves consequências econômicas.

A análise deste projeto segue agora para a Comissão de Assuntos Econômicos (CAE).

Fonte – Agência Senado de 17 de abril de 2018

Banco francês defende taxa sobre investimentos que gerem poluição

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Risco climático é agora visto como um fator determinante para a estabilidade financeira dos bancos centrais e reguladores em todo o mundo

O presidente do Banco Central da França, François Villeroy de Galhau, defendeu que projetos de carvão e petróleo e gás tenham um “fator de penalização marrom”. Isso aumentaria seu custo de acesso ao financiamento.  A proposta foi apresentada na primeira Conferência Internacional sobre Riscos Climáticos para Supervisores Financeiros. O evento reuniu representantes de mais de 30 países e de mais de 50 organizações para discutir como os riscos relacionados ao clima e ao meio ambiente podem afetar as instituições financeiras e, portanto, o mandato dos supervisores financeiros.

A conferência mostrou que o risco climático é agora visto como um fator determinante para a estabilidade financeira dos bancos centrais e reguladores em todo o mundo. Em seu discurso, Galhau também defendeu que o desenvolvimento de testes de estresse de carbono voltados para o futuro, tanto para as companhias de seguros quanto para os bancos, contemple um horizonte de tempo mais longo que o usual.  O Banque de France comprometeu-se a melhorar a contribuição dos seus fundos próprios e das pastas de pensões para a transição ambiental. Além de prometer que apresentará relatórios anuais sobre o progresso realizado.

Grandes bancos, grandes mudanças

Mark Carney, presidente do Banco da Inglaterra, destacou a “transição de pensamento” entre as instituições financeiras sobre risco climático, com instituições financeiras que gerenciam US $ 80 trilhões de ativos apoiando publicamente a Força-Tarefa sobre Divulgações Financeiras Relacionadas ao Clima (TCFD), incluindo 20 bancos globalmente sistêmicos, 8 de os 10 principais gestores globais de ativos, os principais fundos de pensão e seguradoras do mundo, o maior fundo soberano e as duas empresas dominantes de serviços de consultoria aos acionistas.  Ele também afirmou que o Banco da Inglaterra publicará os resultados completos de uma pesquisa sobre os riscos financeiros enfrentados pelo sistema bancário do Reino Unido a partir da mudança climática “nos próximos meses”.

Bolha de carbono

O encontro aconteceu na mesma semana em que um novo estudo da ONG Oil Change International alertou sobre os riscos da “bolha de carbono”, que pode estar sendo amplificada pelo fato de que a Agência Internacional de Energia (AIE) não está conseguindo prever com precisão a rápida expansão do setor de renováveis. “Qualquer governo ou instituição financeira que use esses cenários como base para investimentos em petróleo e gás está recebendo informações ruins”, alerta Greg Muttitt, diretor de pesquisas da Oil Change International.

Realizada em Amsterdam, na Holanda, a conferência foi organizada pelo DNB (banco holandês), o Banque de France / ACPR e o Banco da Inglaterra, sob a égide dos Bancos Centrais e da Rede de Supervisores para o Esverdeamento do Sistema Financeiro (NGFS).

Fonte – CicloVivo de 11 de abril de 2018

Onde a Anvisa quer chegar com a rotulagem de alimentos?

Imagem: Tânia Rêgo. Arquivo Agência Brasil.

Agência não deixa claro se pretende garantir uma comparação entre produtos com excesso de sal, gordura e açúcar, ou um desestímulo ao consumo

Onde a Anvisa pretende chegar com a definição de um novo modelo de rotulagem frontal de alimentos? A elementar pergunta ainda não tem resposta, ao menos publicamente. Existe uma diferença grande entre as duas assertivas possíveis: promover um ranqueamento de ultraprocessados ou desestimular o consumo desses produtos. Em outras palavras, a ideia é que as pessoas escolham entre o Nescau e o Toddy, ou que reduzam drasticamente a ingestão desses itens?

Essa resposta teria abreviado bastante o debate travado a portas fechadas em Brasília. Foi o que fez o Canadá, onde metade da ingestão calórica média provém dos ultraprocessados e onde um em cada quatro adultos está acima do peso. O Ministério da Saúde decidiu que quer frear o consumo de produtos com excesso de sal, gordura e açúcar. E, assim, começou o debate dando como certa a adoção de um modelo de advertências inspirado no sistema do Chile.

“O NutriScore e o sistema de advertências não respondem ao mesmo objetivo”, disse ao Joio a epidemiologista Chantal Julia, uma das criadoras do NutriScore, sistema adotado de forma voluntária na França em outubro do ano passado. “Enquanto o NutriScore visa a oferecer uma base para comparar produtos, entre categorias e dentro dessas categorias (para ajudar em substituições), o sistema de alertas objetiva identificar os alimentos não saudáveis.”

Na Anvisa, quem defende o NutriScore é a Associação Brasileira de Nutrologia (Abran). Já as advertências chilenas foram a inspiração para um sistema apresentado pelo Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec) e pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), com o apoio da Aliança pela Alimentação Adequada e Saudável.

O outro sistema em jogo, apresentado pela Associação Brasileira das Indústrias de Alimentação (Abia), é um semáforo com as cores verde, amarelo e vermelho para os principais nutrientes. A ideia desse modelo é… Bem, a maior parte das evidências científicas mostram que é um sistema que pouco funciona, a ponto de um dos criadores, Mike Rayner, ter aderido a um abaixo-assinado que pede que a Anvisa adote os triângulos de advertência.

“No semáforo é difícil se definir por um produto. Se há uma cor verde e uma vermelha, isso confunde as pessoas. O que é mais importante: açúcar ou gordura?”, diz Gastón Ares, do Centro de Investigação Básica em Psicologia da Universidade da República, no Uruguai. Ele é uma das referências no estudo desses sistemas. E não tem dúvidas de que o semáforo apresentado no Brasil consegue piorar um modelo que não deu certo no Reino Unido.

A Anvisa tem dado sinais pouco claros sobre os rumos que pretende seguir. E dificulta ainda mais a situação quando não responde a perguntas básicas: um pedido de entrevista do Joioestá parado nos e-mails da assessoria de comunicação da agência desde agosto de 2017.

A reiterada alegação da agência de que as evidências científicas não permitem concluir pela melhor eficácia de qualquer dos modelos irrita os representantes da sociedade civil. A declaração de que o sistema a ser adotado não deve induzir o consumidor a ter “medo” dos produtos pode ser entendida como um dos alinhamentos dos agentes públicos ao discurso dos fabricantes de ultraprocessados, que alegam que os sinais de advertência causam repulsa.

Para Gastón, esse é um falso argumento. “Precisamos ter claro qual o objetivo de saúde pública que estamos buscando. O objetivo é diminuir o consumo excessivo de sal, gordura e açúcar. Portanto, o que deveríamos pensar é qual sistema modifica a intenção de compra do consumidor. Não é se as pessoas gostam mais do semáforo porque tem cores ou se gostam mais do sistema chileno. É se o sistema cumpre o objetivo de saúde pública.”

A equipe de Gastón é a única com resultados já publicados de comparação entre o NutriScore e as advertências. Os dois modelos representam justamente a diferença-chave de que falamos no começo do texto. Como o tema é novo, as evidências científicas sobre o funcionamento no mundo real ainda estão se acumulando. E algumas novas propostas têm surgido no desenrolar do debate.

No Uruguai, o resultado da pesquisa ficou dentro do esperado: o NutriScore garantiu a melhor comparação entre produtos, ao passo que os alertas deram maior facilidade à identificação de alimentos não saudáveis. De todo modo, essa pesquisa é apenas a primeira e não permite fechar posição. Em parte porque estamos comparando lógicas diferentes.

O NutriScore cruza os principais dados nutricionais do produto e define uma nota de A a E. É um resumo.

Os triângulos alertam sobre o excesso de nutrientes específicos.

“Ouvir o setor que será regulado faz parte, mas esse momento tem que ser aberto quando você está preparado para ouvir e discutir. Quando você tem clareza do que quer”, critica Fabio Gomes, assessor regional em Nutrição e Atividade Física da Organização Panamericana de Saúde (Opas). “Se meu interesse primário é a saúde pública, minha proposta tem que estar preparada nesse sentido. Eu preciso ouvir os outros setores sobre o impacto, mas com clareza sobre o que vou fazer.”

O processo que está em curso na Anvisa é o desdobramento das conclusões de um grupo de trabalho que funcionou entre dezembro de 2014 e abril de 2016. Lá, a indústria de ultraprocessados já estava presente, tanto em assentos diretos como em representações de institutos de pesquisa ligados aos fabricantes. Como bem assinala o relatório final, é difícil chegar a um acordo frente a interesses tão conflitantes. Mas, se a agência tem como missão defender a saúde pública, como outros interesses foram parar ali dentro?

A Anvisa chegou ao fim desse processo com algumas diretrizes que são genéricas. O modelo de rotulagem deve “atrair a atenção do consumidor”, “ter um design gráfico atrativo”, “focar nos ingredientes negativos”.

Espera-se ainda que o novo modelo de rotulagem esteja alinhado ao Guia Alimentar para a População Brasileira. Eis a mensagem-chave do documento do Ministério da Saúde: faça de alimentos in natura ou minimamente processados a base de sua alimentação e evite alimentos ultraprocessados. As evidências acumuladas até aqui mostram que o sistema chileno é o mais eficaz nesse sentido.

Podemos também analisar a questão de um ponto de vista mais geográfico. O NutriScore foi desenvolvido na Europa. As advertências, na América do Sul.

Os países do Norte são a morada dos grandes fabricantes, como Nestlé e Danone, que de lá pautaram a ideia de que os ultraprocessados davam resposta a todas as necessidades alimentares. Hoje, em algumas nações esses produtos correspondem a mais da metade da ingestão calórica diária, acompanhados por altos índices de obesidade. Mesmo a França, que um dia foi modelo, não é mais.

“O ultraprocessado é a maior conquista que a indústria teve. Nesse momento, não consigo fazer uma pessoa que vive num ambiente em que 60% do que ela come são ultraprocessados não enxergar aquilo como alimento”, acrescenta Fabio Gomes.

Na América Latina, o boom dos ultraprocessados veio mais tarde. Mas veio com tudo. O Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde (Nupens) da USP constatou que esses produtos representavam 28% da ingestão calórica dos brasileiros na virada da década. O crescimento é rápido e a situação é preocupante.

Porém, ainda há uma cultura culinária forte que pode ser valorizada e estimulada, ou seja, é possível se alimentar sem lançar mão de produtos altos em sal, gordura e açúcar.

“As empresas querem dizer que esses produtos é que são a comida. Que isso está dado. Que ninguém mais vai cozinhar”, diz Marcela Reyes, do Instituto de Nutrição e Tecnologia de Alimentos da Universidade do Chile e uma das responsáveis pela definição dos sinais de advertência. “Então, dizem que nós é que estamos contra a comida e queremos que o país volte a um cenário de desnutrição.”

Os pesquisadores do Nupens, responsáveis pela elaboração do Guia Alimentar, têm chamado atenção para a correlação entre ultraprocessados e obesidade. Ao analisar os dados da Europa, encontraram que para cada aumento de um ponto na taxa de ingestão média calórica de ultraprocessados, o índice de obesidade avança 0,25%. Então, aquilo que consiga frear o consumo tem uma chance de ajudar a conter o crescimento dos níveis de sobrepeso.

A Confederação Nacional da Indústria (CNI) protocolou na Anvisa uma análise do cenário chileno pela Euromonitor, uma das principais consultorias de mercado do mundo. O documento não é conclusivo nem para um lado, nem para o outro. “É ingênuo pensar que a colocação em prática de uma lei vai criar mudanças imediatas em nível de hábitos saudáveis, que por sua vez dependem de muitos outros fatores. No entanto, há que começar por alguma parte. Então, nesses termos se poderia dizer que a lei foi exitosa porque foi capaz de impulsionar o tema nas empresas e nos meios de comunicação, que influirão lentamente no consumidor”, relata a empresa.

Na verdade, as pesquisas de opinião mostram que a maioria das pessoas promoveu mudanças de hábitos alimentares. Falta entender o quanto essas mudanças terão impacto. E se elas se manterão a salvo de capturas por outros interesses que não a saúde.

É aqui que qualquer dos modelos demanda atenção. Se há um consenso entre Anvisa, indústria e sociedade é o de que a rotulagem, sozinha, não resolverá o problema.

Há uma divisão sobre o que deveria ser o propósito central da rotulagem: desestimular o consumo ou estimular a reformulação. Essa reformulação é um movimento que já começou no mundo todo, com diferentes graus de intensidade, e que dá sinais de ser acelerado quando se adota um sistema de rotulagem. Carlos Monteiro, coordenador do Nupens e professor da Faculdade de Saúde Pública da USP, e Gyorgy Scrinis, professor da Universidade de Melbourne, entendem que a reformulação é um instrumento limitado e com potencial perigoso. Com o olhar da população muito voltado a sal, gordura e açúcar, as empresas podem acabar trocando esses ingredientes por outros cujo grau de nocividade sequer está devidamente mapeado. A mera troca de açúcar por adoçantes, por exemplo, não seria uma boa.

Outro fator que os preocupa é o fato de que políticas públicas que estimulem a reformulação poderiam acabar por legitimar produtos ruins à saúde. Por isso, apontam, o melhor é apostar no estímulo à troca de ultraprocessados por alimentos com um grau mínimo de processamento.

Os resultados da lei chilena ainda não são claros quanto a isso. Houve aumento no consumo de produtos light, ou seja, troca de açúcar por adoçante. Mas também houve queda no consumo de chocolates e margarina. Há que esperar mais tempo para ver se as pessoas migraram para fora do reino dos ultraprocessados ou se simplesmente trocaram um produto por outro.

Nesse sentido, qual dos modelos é mais fácil de tapear? Complicado dar uma resposta categórica. O perfil nutricional escolhido é muito importante. Trata-se dos indicadores que definirão se um alimento tem excesso desse ou daquele nutriente, no caso das advertências, e que são usados para dar a nota do produto, no caso do NutriScore.

O modelo de nutrientes da Organização Panamericana de Saúde (Opas), usado no sistema de advertências, é mais rigoroso. E foi criado pensando em evidenciar os excessos dos ultraprocessados. Em tese, seria mais difícil por meio da reformulação conseguir eliminar triângulos de alerta. A grande maioria dos produtos hoje nas gôndolas receberia ao menos um triângulo. A indústria argumenta que esse alerta generalizado poderia criar uma situação de indiferença: se é tudo ruim, vou seguir comendo qualquer um.

Para evitar a substituição de açúcar por adoçante, o modelo do Idec defende que se adote um triângulo alertando para a presença dessas substâncias.

O NutriScore, como dissemos, é um sistema de resumo. “Os esquemas foram desenvolvidos considerando a oferta geral de alimentos [na França], e portanto podem não ser transponíveis de uma cultura para outra”, adverte Chantal Julia.

Nesse sistema, os ingredientes negativos (calorias, açúcar, gordura saturada, gordura e sal) somam pontos. Quanto maior a pontuação, pior o produto. E há ingredientes positivos que subtraem pontos (vegetais, fibras, proteínas, entre outros), melhorando a pontuação. Embora esses tenham um peso menor na nota final, é possível fazer uma adição de elementos positivos meramente para subir de ranking, sem uma transformação profunda do perfil nutricional. Um iogurtinho com mais frutas, mas ainda com excesso de gordura e açúcar.

Ainda falta aprofundar as comparações entre o NutriScore e o sistema de advertências. Mas, antes, a Anvisa precisa dizer onde quer chegar.

Fonte – João Peres, O Joio e o Trigo de 18 de abril de 2018

Opinião: Chega de plástico!

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A cada ano, produzimos toneladas de resíduos que não podem ser decompostos de forma natural. Uma insanidade: é hora de algo mudar, especialmente na mente das pessoas, opina Lukas Hansen.

Supermercados que oferecem produtos sem embalagem – que impressionante! Restaurantes “zero-waste”, que desperdiçam o menos possível – isso parece ótimo! Com tais tendências, pode-se pensar que estamos vivendo com consciência ambiental. Que nada! Mais de 8 bilhões de toneladas de plástico foram produzidas por nós nos últimos 80 anos, afirmam pesquisadores americanos na revista Science Advances. E, a cada ano, a quantidade aumenta.

As montanhas de resíduos estão só crescendo, especialmente em países em desenvolvimento asiáticos como a Indonésia. Durante milênios, usou-se ali produtos degradáveis, como folhas de bananeira, como embalagem. Então veio o plástico e, com ele, o lixo. Quase não há leis que regulam o tema, e são poucas as empresas privadas que lidam com o lixo. Muitas vezes, o lixo plástico acaba em rios ou é simplesmente enterrado.

A China, apesar de ser um dos principais produtores de resíduos, comprava o lixo europeu e, assim, fez um negócio milionário. Mas os chineses pararam de importar resíduos plásticos – eles já produzem, sozinhos, lixo o suficiente. A justificativa oficial é que os chineses querem proteger o meio ambiente.

E isso é uma vergonha para a Europa e a Alemanha, da qual a China comprou, em 2016, 1,5 milhão de toneladas de resíduos plásticos. E o que fazemos agora? Em caso de dúvida, queimamos – o que não é muito sustentável. Mas reciclar custaria muito mais caro. Afinal, as empresas de tratamento de lixo estão interessadas somente no dinheiro.

Agora, novas leis deverão ajudar nessa questão. No início do ano, a Comissão Europeia apresentou uma estratégia para reduzir a montanha de resíduos plásticos até 2030: menos plástico e mais reciclagem. Os países-membros do bloco europeu deverão criar leis concretas, por exemplo, proibindo embalagens desnecessárias. Afinal, há empresas que descascam ovos cozidos apenas para, depois, colocá-los em plásticos.

Alguns países africanos estão à frente – e Ruanda ainda mais. Desde 2004, os sacos plásticos são proibidos no país. E quem joga uma garrafa de plástico no chão paga multa. A nação na África Central é considerada a mais limpa do continente. E no Quênia há regras ainda mais duras: quem for pego com uma sacola plástica tem que pagar uma multa de até 37 mil euros – ou, no pior dos casos, quatro anos de prisão.

Agora, a UE corre atrás do prejuízo. Em breve, não teremos mais sacolas plásticas em supermercados europeus. Copos de café para viagem serão, “se possível”, abolidos. Mas já devemos comemorar? Cedo demais. Isso porque, com ou sem regulamentos, a mudança deve começar nas mentes das pessoas: elas devem estar preparadas para renunciar ao supérfluo que, no melhor dos casos, serve apenas a seu próprio conforto.

Fonte – Lukas Hansen, DW de 03 de abril de 2018

Perda de biodiversidade ameaça bem-estar das gerações atuais e futuras

Alerta foi feito na Colômbia por especialistas da IPBES em quatro relatórios regionais sobre o status atual da biodiversidade – um deles com foco nas Américas e participação de 30 cientistas brasileiros

Os habitantes das Américas têm acesso a três vezes mais benefícios oferecidos pela natureza do que a média global dos cidadãos, porém, a maioria dos países da grande região que vai do polo Norte ao Sul está fazendo uso desses recursos de forma insustentável – excedendo a capacidade dos ecossistemas de se renovar e promover qualidade de vida.

As Américas abrigam 13% da população mundial e 7 dos 17 países mais biodiversos do planeta. Além disso, detêm 40% da capacidade dos ecossistemas mundiais de produzir materiais que podem ser consumidos pelos humanos. Por outro lado, produzem quase um quarto da pegada ecológica global (quantidade de recursos que necessária para sustentar a população humana atual) e os recursos naturais estão distribuídos de forma muito desigual entre os habitantes do grande continente.

Tal desequilíbrio tem um impacto mensurável. A comparar a biodiversidade atual da região com a existente no início da colonização europeia, estima-se que em média as populações de 31% das espécies americanas em uma dada área sofreram declínio – número já considerado alto e que pode chegar a 40% até 2050.

O alerta foi feito por especialistas da Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES) em Medellín, na Colômbia, onde ocorre até o dia 27 de março a sexta Reunião Plenária da entidade.

O relatório sobre o status atual da Biodiversidade e dos Serviços Ecossistêmicos nas Américas foi um dos quatro relatórios regionais lançados na sexta-feira (23/03) pela IPBES – os outros foram focados em África, Europa/Ásia Central e Ásia/Pacífico. Também foram divulgados quatro sumários para tomadores de decisão com os principais achados dos documentos.

“O Brasil foi um dos países com maior protagonismo na elaboração do diagnóstico das Américas. Além da minha participação como um dos três coordenadores gerais, quatro dos seis capítulos do relatório contaram com a co-coordenação de brasileiros. Ao todo, entre autores principais e colaboradores, há mais de 30 pessoas do nosso país envolvidas”, destacou Cristiana Simão Seixas, pesquisadora da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e coordenadora do diagnóstico regional das Américas ao lado do canadense Jake Rice e da argentina Maria Elena Zaccagnini.

Além de Seixas, há outros cinco membros do Programa BIOTA- FAPESP no rol de autores do relatório regional: Jean Pierre OmettoJuliana Sampaio FarinaciJean Paul Metzger, Ricardo Ribeiro Rodrigues e Carlos Alfredo Joly. Este último, como membro do Painel Multidisciplinar de Especialistas (MEP) da IPBES, ajudou a elaborar as diretrizes que guiaram a elaboração dos quatro diagnósticos regionais.

“Todos estão também à frente da Plataforma Brasileira de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (BPBES), aplicando a experiência recém adquirida no diagnóstico das Américas na elaboração do Diagnóstico Brasileiro de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos, que deverá ser lançado em julho durante a 70ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para Progresso da Ciência (SBPC), em Natal”, ressaltou Joly.

Na avaliação do cientista, que também coordena o Programa BIOTA, o Brasil é “sem dúvida” um dos países americanos que fazem uso dos recursos naturais de forma mais intensiva que o desejável.

“Desde o descobrimento nossa economia é extrativista, e a expansão do agronegócio segue nesta linha. O foco hoje é o Cerrado da região denominada Matopiba: Maranhão, Tocantins, Piauí, Bahia. Embora produzam alimentos, gênero de primeira necessidade, e contribuam enormemente para a balança comercial do país, o fazem de forma predatória”, disse Joly.

Para o coordenador do BIOTA-FAPESP, em vez de simplesmente expandir as áreas ocupadas pela soja ou pelo gado, deveria se pensar em uma paisagem multifuncional, com extensas áreas agrícolas, entremeadas por áreas de vegetação nativa (Reserva Legal, por exemplo) e conectadas por largas faixas de matas ciliares (Áreas de Preservação Permanente).

“Todos sairiam ganhando: seria possível manter boas populações de polinizadores, que aumentariam a quantidade e a qualidade dos grãos de soja; manter uma melhor recarga de aquíferos, principalmente nas áreas de Cerrado, evitando a necessidade de racionamento; manter a biodiversidade e a capacidade de conservação otimizada com a conexão entre fragmentos providenciada pelas matas ciliares. A médio prazo seria uma situação ganha-ganha”, destacou Joly.

Para o presidente da IPBES, Robert Watson, é preciso tornar a agricultura mais sustentável e para isso é preciso acabar com os subsídios governamentais à produção.

“Só deve haver subsídio se for para integrar medidas de preservação ambiental à produção, mas não à produção em si. Precisamos aprender como usar fertilizantes, agrotóxicos e recursos hídricos de maneira apropriada. Na maioria dos locais há uso excessivo. É necessário uma agricultura de precisão, ou seja, dar à plantação exatamente o que ela precisa. Não é trivial, mas pode ser feito”, defendeu Watson.

Seixas destacou que a mudança no padrão de uso da terra e a consequente degradação dos habitats naturais – promovida pela agricultura e pecuária e também pela mineração, pela construção de hidrelétricas e pelo crescimento urbano desordenado – é historicamente e ainda hoje a principal causa de perda de biodiversidade nas Américas e no Brasil.

Outros fatores importantes mencionados no relatório são poluição, espécies invasoras e superexploração dos recursos naturais.

“No entanto, a taxa de impacto das mudanças climáticas sobre a biodiversidade vem crescendo de maneira acelerada e as projeções indicam que por volta de 2050 o clima terá um impacto tão grande quanto a destruição de habitats”, apontou Seixas.

Valor estimado das contribuições da natureza

O diagnóstico das Américas estima que o valor econômico das contribuições da natureza às pessoas da região – focando apenas em recursos terrestres – ultrapasse US$ 24 trilhões ao ano – o equivalente ao Produto Interno Bruto (PIB) de toda a região.

“Esse cálculo é feito com base em modelagem e extrapolação de dados coletados em diversos trabalhos, mas como não considera os benefícios imateriais – como promoção de saúde mental, por exemplo –, acreditamos ser um número altamente subestimado”, afirmou Seixas.

Os autores do relatório alertam ainda que 65% dessas contribuições oferecidas pelos ecossistemas naturais – o que inclui fatores como polinização, regulação do clima, produção de alimentos e muitos outros – estão em declínio. E 21% estão diminuindo fortemente. Cerca de 50% da população americana, por exemplo, já enfrenta problemas relacionados à segurança hídrica.

Seixas chama atenção para o fato de que 61% das línguas americanas das culturas tradicionais a elas associadas estão ameaçadas ou em risco de desaparecerem. “Perde-se com elas toda uma gama de conhecimentos sobre práticas sustentáveis de manejo dos recursos naturais. Temos muito a aprender com as populações indígenas e essa é uma das principais mensagens do documento”, disse.

Para Jake Rice, a principal mensagem é que estamos usando os benefícios da natureza mais rápido do que ela pode repor. “É inevitável esse futuro? Não é a mensagem que queremos passar. Estamos aumentando as áreas protegidas, reabilitando áreas degradadas. Mas temos principalmente que encontrar modelos para tornar nossos meios de subsistência sustentáveis”, disse Rice.

Para Joly, a questão da biodiversidade e dos serviços ecossistêmicos não deve continuar a ser tratada como políticas setoriais da área ambiental. “É fundamental que estas questões saiam deste gueto e permeiem áreas como o Ministério do Planejamento e o Ministério da Fazenda, para que tenhamos políticas econômicas que integrem as questões ambientais com as econômicas e sociais. É este tipo de política multissetorial que pode achar o caminho para um desenvolvimento mais sustentável – não simples crescimento como temos hoje.”

O coordenador do BIOTA-FAPESP afirmou que os custos ambientais e sociais de todas atividades humanas precisam se refletir na economia. “Uma discussão desse tipo, envolvendo todos os atores – ruralistas, pequenos proprietários, ambientalistas, Secretaria da Agricultura, Secretaria do Meio Ambiente, Ministério Público e pesquisadores – vem sendo conseguida no âmbito de um Projeto Temático do BIOTA”, destacou.

Emprestando do futuro

A elaboração do diagnóstico das Américas contou ao todo com a contribuição de aproximadamente 120 autores. Foi feita uma revisão de toda a literatura científica sobre o tema e também foram considerados relatórios dos governos de todos os países envolvidos – cerca de 30 – e diálogos com representantes de povos indígenas.

O sumário para os tomadores de decisão – tanto políticos na área pública como gestores ambientais no setor privado – foi amplamente debatido durante a reunião plenária da IPBES e aprovado pelos representantes dos governos de todos os países.

De maneira geral, os quatro diagnósticos regionais destacam que a biodiversidade está em declínio em todas as regiões do planeta, reduzindo significativamente a capacidade da natureza de promover o bem-estar humano. Essa tendência ameaça as economias, os meios de subsistência, a segurança alimentar, coesão social e a qualidade de vida.

Para Watson, a mensagem geral é que “estamos emprestando das gerações futuras para viver bem hoje. Mas há outras opções”.

“Não podemos ter desenvolvimento sem proteger a biodiversidade. Podemos fazer melhor criando políticas públicas, parando de usar combustíveis fósseis, reduzindo o consumo de carne, optando pelo transporte público, evitando o desperdício de recursos e produzindo comida, água e energia de modo mais sustentável. O tempo de agir é ontem”, disse Watson.

Os quatro relatórios foram elaborados nos últimos três anos por 550 especialistas de mais de 100 países. “Os documentos representam a mais completa análise do estado do conhecimento atual sobre biodiversidade e esperamos que possam contribuir com a elaboração de políticas públicas e com a agenda de desenvolvimento sustentável. Este é o começo de uma jornada que espero seja longa e frutífera”, disse Anne Larigauderie, secretária executiva da IPBES.

Watson destacou que a elaboração dos diagnósticos é apenas a primeira parte de uma longa jornada. Os representantes dos 129 países-membros da IPBES devem agora levar a mensagem aos ministros de estado relevantes para o tema. “Também precisamos da imprensa e das mídias sociais para divulgar a mensagem”, disse.

Mais informações sobre os relatórios podem ser obtidas em: www.ipbes.net.

Fonte – Karina Toledo, Agência FAPESP de 26 de março de 2018