Jacarta está afundando tão depressa que pode acabar debaixo d’água

Mesquita inundada com o aumento do nível do Mar de Java em JacartaMesquita inundada com o aumento do nível do Mar de Java em Jacarta. Josh Haner/The New York Times

Rasdiono se recorda de quando o mar ficava a uma boa distância de sua porta, descendo um morro. Naquela época, ele abriu um barracão apertado ao lado da baía, pintado de forma alegre, que batizou de Blessed Bodega (bodega abençoada), onde ele e sua família vendiam cabeças de bagre, ovos temperados e frango frito.

Era estranho, disse Rasdiono. Ano a ano, a água chegava mais perto. O morro posteriormente desapareceu. Agora o mar chega a apenas passos de sua loja, contido apenas por um muro que vaza.

Com a mudança climática, o Mar de Java está subindo e o clima aqui está se tornando mais extremo. Neste mês, outra tempestade anormal transformou brevemente as ruas de Jacarta em rios e virtualmente paralisou esta vasta área de quase 30 milhões de habitantes.

Um pesquisador local do clima, Irvan Pulungan, conselheiro do governo da cidade, teme que as temperaturas possam subir vários graus, assim como o nível do mar em até um metro na região, ao longo do século.

Isso, por si só, representa um desastre potencial para esta metrópole populosa.

Mas o aquecimento global não pode ser considerado o único culpado pelas inundações históricas que atingiram a bodega de Rasdiono e grande parte do restante de Jacarta em 2017. O problema, na verdade, é que a própria cidade está afundando.

Prédio de uma antiga fábrica inundado no norte de Jacarta. Josh Haner/The New York Times

De fato, Jacarta está afundando mais rapidamente do que qualquer outra grande cidade no planeta, mais rápido até mesmo que a elevação do mar causada pela mudança climática, tão surrealmente rápido que os rios às vezes fluem na direção contrária, chuvas comuns às vezes inundam bairros e prédios lentamente desaparecem no subsolo, engolidos pela terra.

A principal causa: os moradores de Jacarta estão cavando poços ilegais, gota a gota drenando os aquíferos subterrâneos sobre os quais a cidade se situa, como se esvaziasse uma almofada sob ela. Cerca de 40% de Jacarta atualmente se encontra abaixo do nível do mar.

Os distritos costeiros afundaram até 4,2 metros nos últimos anos.

Favela em área inundada em Jacarta, em um dos rios mais poluídos do mundo. Josh Haner/The New York Times

A mudança climática age aqui como em toda parte, exacerbando uma série de outros males. E no caso de Jacarta, um tsunami de problemas causados pelo homem (desenvolvimento descontrolado, uma ausência quase total de planejamento, quase nenhuma rede de esgoto e uma rede apenas limitada de água potável encanada confiável) provoca uma ameaça iminente à sobrevivência da cidade.

O espalhamento, os prédios afundando, o ar poluído e alguns dos piores congestionamentos de trânsito do mundo são sintomas de outros problemas profundamente enraizados. A não confiança no governo é nacional. Os conflitos entre extremistas islâmicos e indonésios laicos, muçulmanos e de etnia chinesa impedem o progresso e complicam tudo o que acontece aqui, ou não acontece, para impedir a cidade de afundar.

“Ninguém aqui acredita em um bem maior, porque há corrupção demais, excesso de pose de servir o público, quando na verdade o que é feito serve apenas a interesses privados”, como colocou Sidney Jones, diretor do Instituto para Análise de Políticas de Conflito local. “Não há confiança.”

Hidrologistas dizem que a cidade tem apenas uma década para impedir seu afundamento. Caso contrário, o norte de Jacarta, com seus milhões de moradores, acabará debaixo d’água, juntamente com grande parte da economia da nação. Posteriormente, fora uma mudança completa e uma revolução em infraestrutura, Jacarta não conseguirá construir muros altos o bastante para conter rios, canais e a elevação do Mar de Java.

E, é claro, mesmo se conseguir curar seus ferimentos autoinfligidos, ela ainda terá que lidar com todas as crescentes ameaças da mudança climática.

Certa tarde eu me encontrei com um homem chamado Topaz, nas ruínas de um bairro à beira-mar chamado Akuarium, de onde todos os moradores foram retirados. Topaz se descreveu como um morador de terceira geração do que antes era um bairro próspero.

Isso foi antes dos tratores chegarem. Akuarium foi reduzido a pilhas de entulho e concreto quebrado.

Asmawati e seu filho, Topaz, nas ruínas do bairro Akuarium. Josh Haner/The New York Times

“O governo disse que o despejo visava limpar o rio, mas acredito que foi para fins políticos e de desenvolvimento”, disse Topaz, refletindo a crença predominante entre os moradores.

O ex-governador de Jacarta, Basuki Tjahaja Purnama, conhecido como Ahok, ordenou o despejo. Mas muitas pessoas forçadas a sair, como Topaz, resistiram, convencidas de que o despejo visava na verdade enriquecer empreendedores imobiliários, não melhorar a drenagem.

O governador perdeu sua disputa pela reeleição e os radicais islâmicos, explorando a fúria da população, impetraram queixas de blasfêmia contra ele. Ele está cumprindo uma pena de dois anos de prisão.

O novo governador de Jacarta, Anies Baswedan, cuja campanha conquistou o apoio dos moradores enfurecidos de Akuarium, anunciou em novembro como um de seus primeiros atos que planeja reconstruir algumas das casas do bairro.

JanJaap Brinkman, um hidrologista que por décadas estuda Jacarta para o instituto holandês de pesquisa de águas Deltares, solidariza com os moradores de comunidades como Akuarium. O despejo não é uma cura para tudo, nem mesmo é possível, ele disse, considerando quantos inúmeros milhares de moradores da cidade atualmente vivem sobre rios e canais em construções informais.

Ao mesmo tempo, Brinkman destacou, é necessário que as pessoas sejam relocadas, mas despejos mal feitos arruínam a pouca reserva de boa vontade e perdem tempo precioso.

“Precisamos de grandes passos agora”, ele disse. “Se todas as discussões ficarem amarradas com pescadores e desenvolvimento, posteriormente ocorrerá uma enorme calamidade e mortes, e não restará nenhuma opção a não ser abandonar partes inteiras de Jacarta.”

Há conversas ocasionais aqui a respeito do governo indonésio mudar sua capital para outro lugar, para encolher a cidade. Os políticos emitem decretos proibindo a abertura de poços e implorando aos moradores para armazenarem água de chuva. Mas a fiscalização é insignificante.

A medida mais ambiciosa da cidade é a construção do chamado Muro Costeiro, atualmente se erguendo como uma falésia preta na Baía de Jacarta. É uma barreira semitemporária para conter a elevação do mar e compensar a subsidência (construída com altura extremamente alta porque, assim como o restante do norte de Jacarta, a expectativa é de que também afunde). Com a taxa atual de subsidência, acredita-se que o próprio Muro Costeiro esteja debaixo d’água em 2030.

O Muro Costeiro faz parte de um projeto maior que as autoridades indonésias iniciaram três anos atrás em colaboração com o governo holandês. Chamado de programa de Desenvolvimento Costeiro Integrado da Capital Nacional, ele prevê complementar o Muro Costeiro com uma segunda barreira, o Quebra-Mar Gigante, ou um dique imenso, quilômetros mar adentro, na prática fechando totalmente a Baía de Jacarta.

O dique não apenas bloquearia a elevação das águas. Segundo o plano original, ele também se tornaria a espinha de um imenso novo megadistrito e rodoanel, um projeto de US$ 40 bilhões (um presente dos céus para magnatas de construção e imóveis e consultores holandeses), projetado na forma de Garuda, a ave mitológica nacional.  O Grande Garuda, como passou a ser chamado, era a Grande Ideia de Jacarta. Ou era até recentemente.

Homens trabalham em um muro que desabou em casas inundadas em uma favela. Josh Haner/The New York Times

O governo agora voltou atrás na ideia do megadistrito, apesar de ainda prever o dique, uma noção que provoca um ceticismo compreensível. Como apontaram ambientalistas, se a cidade não limpar primeiro seus rios e canais, o dique transformará a Baía de Jacarta fechada na maior fossa do mundo.

Do ponto de vista de Brinkman, apenas “combater a subsidência contribuiria em 90% com o que a cidade precisa para lidar com a mudança climática”.

Tóquio enfrentou uma situação semelhante depois da Segunda Guerra Mundial, como ele gosta de apontar. Ela afundou cerca de 3,5 metros desde 1900. Mas a cidade aplicou recursos em nova infraestrutura e estabeleceu códigos de construção e desenvolvimento mais rígidos, e em uma década ou duas conseguiu ficar em uma situação melhor para lidar com os efeitos da mudança climática.

“Jacarta poderia se tornar uma versão do século 21 da Tóquio do século 20, um exemplo de redesenvolvimento urbano”, disse Pulungan.

Mas “uma cidade incapaz de fornecer serviços básicos é uma cidade fracassada”, ele acrescentou. “Além das questões convencionais de enchentes e urbanização, agora temos a mudança climática, fazendo pender a balança. E no ritmo atual, as pessoas estarão lutando nas ruas por recursos cada vez mais limitados, como água limpa e espaços seguros para viver.”

Assim como Tóquio há meio século, Jacarta se encontra em um momento decisivo, ele disse: “A Natureza não vai esperar”.

Fontes – Michael Kimmelman, The New York Times / tradutor George El Khouri Andolfato, UOL de 29 de dezembro de 2017

Conheça 3 tipos de vidros que não são recicláveis

Existem três tipos de vidros que não são recicláveis: os temperados, espelhos e vidros de automóveis. Existem três tipos de vidros que não são recicláveis: os temperados, espelhos e vidros de automóveis

Por mais que o vidro seja um dos materiais com melhor aproveitamento de reciclagem, há muitos tipos de vidro que não são recicláveis — em geral, são aqueles compostos por diversas substâncias diferentes ou fabricados com técnicas próprias, o que torna o processo de reciclagem muito trabalhoso ou até impossível de ser realizado.

Existem, sim, algumas tecnologias que conseguem reciclar esses vidros, mas elas ainda estão em desenvolvimento e não são realizadas nos sistemas de coleta usuais. A maioria das empresas não se interessa em realizar esse procedimento, pois ele ainda não é vantajoso economicamente.

Vale destacar que, embora a separação do lixo e reciclagem sejam ações essenciais para a preservação do meio ambiente de modo geral, a importância da reciclagem do vidro merece destaque especial já que este material apresente um período de decomposição que dura em torno de 5 mil anos. Justamente por isso, é essencial ficar atento ao tipo de vidro que você está separando para ter certeza de que ele realmente pode ser reciclado.

Tipos de vidro que não são recicláveis

Vidros temperados

Os vidros temperados costumam ser usados em utensílios de cozinha e em janelas, boxes e móveis. Sua utilização em todos esses casos é justificada por se tratar de um vidro bem mais resistente do que o comum. Eles até podem ser reciclados, mas seu resultado costuma ser de baixa qualidade, e isso faz com que ninguém queira investir neles.

Espelhos

Espelhos possuem uma lâmina traseira composta de alumínio, estanho e plástico. Na hora de reciclar, não dá para separar esses compostos do vidro, e isso torna a reciclagem não eficiente.

Vidros de automóveis

O problema principal com a composição dos vidros usados nos automóveis é a resina plástica. Da mesma forma que acontece com os espelhos, é muito difícil separar esse material do vidro em si.

Outros vidros que não são recicláveis por conta de sua composição são os cristais (usados em taças), os reflexivos (comuns em vidros de prédios) e os tubos de monitores (daqueles antigos e grandes).

O que fazer com os vidros não recicláveis?

É preciso abrir algumas aspas quando falamos de “não recicláveis”. A verdade é que, a grosso modo, todos os vidros podem passar por um processo de reciclagem. Entretanto, alguns deles podem exigir uma tecnologia mais recente e avançada, que é cara demais para a maioria das instituições e empresas que lidam com isso. Por isso, o mais complicado com esse tipo de vidro é encontrar alguém que possa e se interesse por reciclá-los.

Fonte – Dinâmica Ambiental de 22 de novembro de 2017

A América Latina virou o terror da indústria de comida “porcaria”

Ainda comemos comida de verdade, mas temos de agir cada vez mais rápido para frear a obesidade. Cesar Ogata. Arquivo Prefeitura de São Paulo

Alertas, impostos, restrições a ultraprocessados: a região comanda uma agenda política inédita para frear a epidemia de obesidade

“Não dá orgulho? Quando comecei a sair para falar foi que me dei conta do quão grande era o que estávamos fazendo”, diz Marcela Reyes, abrindo um sorriso largo ao final do enésimo debate de que participou desde que o Chile se colocou no mapa da maldição da indústria de alimentos ultraprocessados.

E não entrou sozinho: pelo menos Brasil, Peru, Uruguai e México integram ou estão perto de integrar o grupo, por ora seletíssimo. Bons tempos em que a capa da revista Veja estampava o Chile como exemplo da América Latina. Agora, a publicação da Abril seria obrigada a colocar como modelo a Argentina, e a deixar os chilenos como nós. Usando o octógono que desde o ano passado decora a embalagem de ultraprocessados vendidos no Chile com altos teores de sal, gordura, açúcar e calorias. Quanto pior a composição do produto, mais selinhos. E menor a chance de venda.

Durante o Congresso Internacional de Nutrição, realizado em outubro em Buenos Aires, Marcela Reyes, do Instituto de Nutrição e Tecnologia de Alimentos da Universidade do Chile, comparou o caso de seu país a outros modelos existentes, todos voluntários e com um enfoque positivo. Ao final do debate, depois de ouvir saudações dos compatriotas, começaram as contestações: por que o Chile está indo tão rápido? Por que não se adota uma postura mais positiva e conciliadora? Por que tratar a indústria como inimiga?

“Há um conflito intrínseco entre a tentativa de aumentar os lucros e a necessidade de melhorar a saúde pública. Estou de acordo com a ideia de que as empresas podem ser parte da solução: sua maneira de ser parte da solução é cumprindo as leis”, contestou Marcela.

Essa foi a tônica do congresso. Durante seis dias, os grandes pesquisadores da nutrição se revezaram entre beijos e murros às iniciativas adotadas pela América Latina. “Vocês têm uma grande população, são grandes países, e eles querem esses mercados. O Brasil, em particular”, nos resumiu Barry Popkin, professor de Nutrição da Universidade da Carolina do Norte. Ele conhece de longa data a América Latina.

Foi Popkin quem cunhou o conceito de “transição nutricional” para descrever a mudança de padrão alimentar dos países em direção a produtos menos e menos saudáveis. Nossa região está justamente no meio desse caminho. Mas alguns dos países têm as mais altas taxas de obesidade do mundo e os maiores níveis de consumo de refrigerantes.

O pesquisador entende que os governos têm cada vez mais clara a necessidade de adotar medidas regulatórias para coibir o avanço da obesidade. Para ele, a reformulação de produtos proposta como solução pela indústria tem um papel muito limitado.

Popkin trabalha na avaliação do caso chileno. E entende que o país sul-americano pode ser o primeiro do mundo a conseguir frear o problema. “Temos a necessidade de contar para os consumidores que a junk food não é saudável. E o modelo chileno de alertas parece ter mudado uma conduta social no país. Está funcionando muito melhor que qualquer outro modelo.”

Marcela Reyes concorda. “Ainda comemos comida. Muitos dos discursos dos outros painelistas vão no sentido de que não podemos voltar atrás: não vamos voltar a cozinhar, não vamos voltar a comer em família. Mas nós ainda comemos comida.”

Não foi difícil durante o congresso ver o quanto a América Latina está incomodando. Duplamente. A indústria de ultraprocessados, que não só estava presente, como sentava-se ao camarote, não escondeu o desagrado. E muitos pesquisadores também.

Nossos países fizeram arrepiar os cabelos porque podem ser os primeiros a encontrar um freio para a epidemia de obesidade. Hoje, o carro anda sem rumo, a mil por hora, e ninguém assume o comando.

Há também um fator de incômodo que foi ficando visível à medida em que os debates se desenrolavam no hotel Sheraton, no centro da capital portenha: a hierarquia. Normalmente, as soluções são transpostas ou impostas do Norte para o Sul. Dos ricos para os pobres. Não foram poucas as mesas de debates em que homens brancos de países ricos apresentavam soluções para os negros e os indígenas da África e da América Latina. Isso não é ilegítimo, mas, quando o desequilíbrio de representação fica claro, dá o que pensar.

O que toda essa tendência recente faz é percorrer o caminho oposto, do Sul para o Norte.

“Agora os países latino-americanos têm a chance de estar à frente das soluções. Não são soluções tecnológicas. A tendência é que as soluções para doenças crônicas sejam soluções criativas, que demandam engenhosidade”, diz Simón Barquera, do Instituto Nacional de Saúde Pública do México. Ele foi uma das figuras de destaque na criação de um imposto sobre as bebidas açucaradas, outra iniciativa sob ataques durante o congresso.

Juan Rivera, presidente da Sociedade Latino-americana de Nutrição e também integrante do instituto, saiu em defesa da decisão mexicana. “Todas as evidências científicas nos levavam ao modelo da taxação”, contou durante uma palestra. A proposta já estava pronta havia algum tempo, e a oportunidade política se apresentou quando o governo tinha problemas de caixa. “A taxação está funcionando e é algo que devemos usar contra as tentativas da indústria de bani-la.” O modelo já cruzou o Rio Grande e está sendo adotado em cidades dos Estados Unidos.

É difícil demarcar um começo dessa trajetória regional. Mas poderíamos escolher o final da década passada, quando o professor Carlos Monteiro, da Faculdade de Saúde Pública da USP, cunhou o termo “ultraprocessados”. Ele propôs uma nova divisão, chamada NOVA, que separa os alimentos entre in natura ou minimamente processados, processados e ultraprocessados – além de ingredientes culinários.

Pode soar estranho, mas é fácil entender, se nos permitem uma apresentação meio simplificada. In natura é o que a gente sempre comeu: legumes, frutas, verduras. Processados são o que a gente sempre comeu, mas com alguma transformação para aumentar a durabilidade e a segurança: arroz, feijão, farinhas. E os ultraprocessados são aquilo que sua bisavó não entenderia como alimento.

O paradigma anterior era calcado na pirâmide alimentar, dividida em vários grupos: carnes, carboidratos, queijos, óleos. E por aí vai. Do ponto de vista de um leigo, era complicado entender quanto comer de cada grupo e o que exatamente fazia mal.

Quando se pensa nos ultraprocessados, porém, a coisa muda de figura. O fato é que, do ponto de vista de orientação, as evidências são de que isso funciona. Há cada vez mais documentos e políticas públicas falando em ultraprocessados. O PubMed, uma das principais bases de dados da produção científica, registra 70 artigos com esse termo em 2017, contra 40 no ano passado e apenas seis em 2009. No Congresso de Nutrição, houve 15 simpósios ou trabalhos com esse tema.

E também houve trabalhos contra esse tema. Um debate promovido pela Associação Argentina de Tecnólogos Alimentares atacou diretamente a pesquisa de Monteiro. Os presentes exortaram as agências da ONU a encontrar um caminho para frear a agenda regulatória da América Latina.

“Uma forte tendência a regular a ingestão de nutrientes através da rotulagem frontal está se expandindo pelos países latino-americanos”, alertou Susana Socolovsky, presidente da entidade argentina, falando em uma “demonização injustificada” dos alimentos industrializados. Ela tem rodado a região na tentativa de evitar a adoção de medidas regulatórias. “As autoridades sanitárias dos países latino-americanos estão usando o controverso sistema de classificação de alimentos NOVA e o modelo de perfil de nutrientes da Organização Pan-Americana de Saúde (Opas).”

O segmento da comunidade científica mais simpático ao setor privado não usa o termo ultraprocessados, salvo quando é para atacá-lo. Segue-se a utilizar a pirâmide alimentar, que também continua como base para a atuação das empresas.

Há uma forte oposição de segmentos da academia brasileira ao termo ultraprocessados. É uma oposição articulada com grupos de outros países. O discurso é bem afinado.

E se tornou mais intenso em 2014, com a publicação do Guia Alimentar para a População Brasileira. O documento do Ministério da Saúde foi elaborado pelo grupo de Monteiro e adotou a classificação por grau de processamento, com uma recomendação expressa de que se evite o consumo de ultraprocessados. “A indústria foi o único setor de que não pudemos aproveitar as sugestões na consulta pública. Porque sugeriram coisas que eram incompatíveis com os princípios do Guia”, disse o professor da USP.

O conceito de ultraprocessados foi importante para que, no ano passado, a Organização Pan-americana de Saúde (Opas) lançasse um novo modelo de perfil nutricional, criado especialmente para embasar a adoção de políticas públicas que busquem restringir e desestimular o consumo desses produtos. O documento define os critérios para excesso de açúcares, sal e gorduras. E atua sobre produtos, e não sobre a dieta de um dia todo – afinal, quase ninguém faz uma conta ao fim do dia para saber o quanto comeu.

A orientação da Opas é a base para um decreto que o Uruguai pode lançar nas próximas semanas. O país caminha para adotar um padrão de rotulagem semelhante ao chileno. Mas sofre intensa pressão da indústria, como mostramos em O joio e o trigo, com ameaças de acionar o país na Organização Mundial do Comércio (OMC).

Um dos debates mais interessantes do congresso em Buenos Aires reuniu os modelos de rotulagem frontal existentes. Todos, voluntários e baseados em mensagens positivas, à exceção do Chile, compulsório e de mensagem negativa.

Os pesquisadores mostraram análises científicas de cada caso. Na Nova Zelândia e nos países que adotaram o Choices, criado pela Unilever, o que a indústria fez foi colocar o selo sobre os produtos com perfil nutricional melhor, o que acabou por direcionar as opções de compra a alguns desses itens.

Cliona Ni Mhurchu, da Universidade de Auckland, disse que houve um impacto pequeno na reformulação de produtos, e limitado a alguns segmentos. “Vamos ver nos próximos anos qual dos modelos tem o maior impacto no comportamento do consumidor. Mas também temos de olhar para o impacto no comportamento da indústria, e é certo que eles estão reformulando.”

O caso mais antigo é o do Reino Unido, que na década passada adotou uma rotulagem frontal de adesão voluntária que fornece informações sobre calorias, sal, açúcar e gordura. Michael Rayner, da Universidade de Oxford, afirmou que hoje está claro que esse não é o melhor sistema. E complementou com a visão de que o modelo chileno é o que tem maior impacto sobre o consumidor, mas que ainda não está claro se é o que tem maior influência sobre a saúde.

“Como na América Latina estamos acostumados a copiar as coisas, olham para nós um pouco feio. Por que sentem o direito a inovar?”, me disse Marcela Reyes. “Eu, nesta experiência, entendi bem o conceito de transnacionais. São maiores que as nações. Quando grandes corporações se colocam a discutir com países latino-americanos se nota a diferença de poder. É muito maior que um país.”

No Peru, foi apresentado ao Congresso um projeto de lei que pode desfigurar a Lei de Alimentação Saudável, sancionada em 2012. O texto prevê a edição de um decreto para criar a rotulagem frontal de alimentos, tema que se estava discutindo no governo, com grande possibilidade de adoção do modelo chileno. O texto-base já estava pronto e prestes a ser publicado. Mas os parlamentares poderiam aprovar uma nova lei, criando um selo positivo, no formato desejado pela indústria.

No começo de novembro, alguns dos principais pesquisadores da área de nutrição enviaram ao governo e ao Legislativo peruanos uma carta exortando a frear a aprovação do projeto, atualmente na Comissão de Defesa do Consumidor. Eles afirmam que o sistema defendido pela indústria comprovadamente incentiva o consumo de alimentos com maiores teores de sal, gordura, açúcar e calorias.

E que as evidências existentes até aqui têm demonstrado um bom funcionamento do modelo chileno. “Como acadêmicos especialistas em obesidade e diabetes, queremos deixar claro que a ciência é conclusiva sobre o papel das comidas e bebidas porcaria, com alto conteúdo de calorias, açúcar, sódio e gorduras saturadas: um consumo crescente desses produtos é causa de obesidade e doenças associadas.”

No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) fez questão de deixar claro que ainda não se decidiu por um modelo. Na visão da Gerência Geral de Alimentos, não há evidências científicas de que um sistema funcione melhor que o outro. Mais ao norte, o Canadá não teve dúvidas. A discussão sobre rotulagem frontal já partiu da premissa de que os sinais de advertência como os chilenos são os melhores para proteger a saúde dos consumidores. Falta apenas definir um símbolo, e pesquisas nesse sentido já foram concluídas.

A Associação Brasileira da Indústria de Alimentação (Abia) e a Associação Brasileira da Indústria de Refrigerantes e Bebidas não Alcoólicas (Abir) alegam que o sistema proposto pela Aliança pela Alimentação Adequada e Saudável com base no modelo chileno provoca medo e terror na população.

Pela oposição que o debate despertou, dá para ver que quem tem medo não são os consumidores.

Fonte – João Peres, O Joio e o trigo de 01 de dezembro de 2017

Coca-Cola, guaraná e a Amazônia

Coca ColaCindy Ord / Getty Images North America / AFP

Produtos da Coca-Cola: fornecedoras da companhia têm atuação polêmica
Corporações de refrigerantes se fixaram na região com parcerias causadoras de danos ambientais e dominação cultural

A partir de Manaus (AM), uma viagem de 107 quilômetros pela BR-174 leva ao município amazonense de Presidente Figueiredo. Apesar de registrar apenas 29 mil habitantes, terra é o que não falta por lá. São vastos 25,4 mil quilômetros quadrados – área maior do que as de alguns países da Europa – que compõem o território.

Dentro disso, se assentam 59 mil hectares de terreno pertencentes à empresa sucroalcooleira Jayoro, dos quais 4,5 mil estão ocupados por cana-de-açúcar e 410 por pés de guaraná.

Instalada na região em 1984, a usina, logo de cara, promove largo desmatamento. Nascida a partir do Proálcool, estimulado pela ditadura (1964-1985), com apoio da Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia (Sudam), faz predominar a monocultura da cana em detrimento de diversas espécies vegetais nativas e produz matéria-prima para combustível de veículos. Os espíritos da Amazônia praguejam e o plano dá errado: nos anos 1990, a empresa tropeça e se torna uma pequena produtora de cachaça, utilizando somente 300 hectares de canaviais. No entanto, a reza empresarial também é brava. E a salvação vem. Em 1995, o empreendimento entra na mira de “investidores-anjo”. Entre eles, a Coca-Cola.

O poder econômico da Jayoro aumenta e, consequentemente, a força política cresce, o que facilita a vida da empresa para expandir o plantio, mesmo instalada num espaço cercado por áreas de proteção ambiental e sob a acusação de ter invadido terras públicas quando chegou ao Amazonas pelas mãos da família paulista Magid.

Já nos anos 90, a usina volta a destruir a floresta. Aproximadamente 10 mil hectares de mata são derrubados para retomar o ritmo do plantio da cana. Dessa vez, a motivação é o fornecimento do açúcar, necessário à produção de concentrado de refrigerantes, o popular xarope, que serve de base para engrossar as bebidas açucaradas e gaseificadas que enchem os copos e corpos de milhões de brasileiros, e impulsionam os índices de obesidade, relacionados diretamente com diabetes e até 13 tipos de cânceres, de acordo com posicionamento recente do Instituto Nacional de Câncer (Inca).

De Presidente Figueiredo, o açúcar é despachado para a Zona Franca de Manaus, onde é despejado na Recofarma Indústria do Amazonas LTDA, fabricante de xarope e segunda maior engarrafadora de Coca-Cola do Brasil. A empresa é controlada pelo Grupo Solar, de propriedade do senador Tasso Jereissati (PSDB-CE), e sua atividade foi abordada pelo O joio e o trigo nesta reportagem sobre polêmicos incentivos tributários recebidos pelo setor de bebidas açucaradas. A triangulação Coca-Cola-Jayoro-Recofarma abastece todas as engarrafadoras no Brasil e também Argentina, Colômbia, Paraguai, Venezuela, Uruguai e Bolívia.

Não bastassem os danos ambientais causados para incentivar uma monocultura que garanta açúcar suficiente para a produção de xarope-base do refrigerante carro-chefe, a dupla Coca/Jayoro também se beneficia do tradicional plantio de guaraná na Região Amazônica. Maior usina sucroalcooleira do Amazonas, a Agropecuária Jayoro LTDA é a responsável por grande parcela do açúcar usado pela Recofarma. É da Jayoro, também, que sai a totalidade do extrato de guaraná usado no refrigerante Kuat, outro produto da corporação que carrega a tentacular marca vermelha e branca.

Mais dois problemas vêm com a parceria firmada em 1995: primeiro, o uso de agrotóxicos. Dois: o vinhoto, resíduo final do processo de fabricação do açúcar ou da destilação da qual se obtém o álcool, ou a aguardente de cana, que, se não for adequadamente tratado, provoca poluição de águas. Depositados nas lagoas e igarapés, são potentes contaminantes.

Acusações

Denúncias surgem. Principalmente, após o início dos anos 2000. Segundo o técnico em agropecuária Paulo Sérgio Ribeiro, funcionário da Jayoro por 18 anos e entrevistado pela equipe da Repórter Brasil, vários tipos de inseticidas eram aplicados nos canaviais com tratores e aviões.

O pesquisador e filósofo Egydio Schwade, um dos fundadores do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), atualmente morador de Presidente Figueiredo, denuncia há tempos a situação. E não poupa palavras. “O projeto da Coca-Cola/Jayoro já começou aniquilando em torno de 3 mil espécies de vegetais nativas para instalar a cana-de-açúcar. Após esse desastre ecológico, praticado com motosserras e tratores, impõe o desastre químico sobre toda a região, com o borrifo de venenos. Nenhuma espécie de planta ou animal nativo sobrevive naquele deserto”, enfatiza.

Schwade destaca, ainda, “os efeitos nocivos sobre a terra e as pessoas”, consequências da exploração do território e do envenenamento de trabalhadores dos canaviais por agrotóxicos. “Topo, aqui, com trabalhadores intoxicados por venenos da Jayoro. Tem gente em cadeira de rodas, muitos vão tossindo pelas ruas por ‘causa desconhecida’”, diz.

Danos ao meio ambiente

A Jayoro já foi considerada publicamente como “usina-modelo” por José Mauro de Moraes, alto executivo da Coca-Cola Brasil. O Ministério Público Federal no Amazonas, entretanto, parece não concordar. Atento observador das atividades da empresa, o MPF já investigou, em 2008, a contaminação, por uso de agroquímicos, de igarapés na região de Presidente Figueiredo.

O Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam), órgão que fiscaliza questões relacionadas ao meio ambiente no estado, afirmou, no entanto, que a sucroalcooleira atendia à legislação. O MPF, então, solicitou ao instituto os laudos de análise das águas. A devolutiva não foi satisfatória – apenas dizia que a licença da agropecuária estava em processo de avaliação, contradizendo a primeira resposta.

Após nova investida do Ministério Público, ainda em 2008, o órgão estadual não teve saída: um parecer do Ipaam não renovou a licença ambiental da associada da Coca-Cola. Estranhamente, no ano seguinte, 2009, a empresa estava em plena atividade, sem a renovação anual de licença ambiental.

Antes, em 2007 e 2008, a licença das lavouras da Jayoro só havia sido retomada graças à assinatura de um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) com o Ipaam, sob 13 condições. Dentre elas, a correção de rumos no uso de métodos agressivos ao meio ambiente e à população do entorno, a exemplo da queima de palha da cana-de-açúcar.

Dados conflitantes a respeito da agropecuária de propriedade da Coca não faltam. Única usina amazonense registrada na Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), a Jayoro declara possuir 4,5 mil hectares dedicados à cana. Contudo, pesquisa do Ministério do Meio Ambiente (MMA) feita em 2008 já mostrava que o cultivo ameaçava uma área prioritária para a biodiversidade.

A Área de Proteção Ambiental (APA) da margem esquerda do Rio Negro, setor Aturiá/Apuauzinho, constante do Mapa das Áreas Prioritárias para a Biodiversidade como “de extrema importância”, sofria com o plantio de cana-de-açúcar da usina, que estaria localizado sobre nascentes do rio Apuaú, segundo o MMA.

O que diz a Jayoro

A Jayoro, por meio da sua direção, se posiciona oficialmente afirmando que “deixou de queimar palha em 2010” e que criou “voluntariamente” um plano de mecanização do corte da planta.

Os representantes da empresa se defendem quanto à monocultura e à aplicação de agroquímicos: afirmam que, hoje, a linhaça é o fertilizante aplicado no solo e que não há uso de inseticidas. Ainda certificam que não plantam cana perto de cursos d´água.

Sobre a ação movida pelo Ministério Público Federal no Amazonas, o discurso é de que a denúncia é baseada em “fatos inverídicos” e que não existe registro de doença respiratória ou de qualquer outra natureza que tenha como agente causador a queima da palha da cana-de-açúcar.

Além disso, diretores da empresa refutaram a tese de que incêndios tenham provocado a morte de animais, mas um deles, Camillo Pachikoski, em 2013, chegou a admitir publicamente que “se porventura houvesse risco, o animal teria chance de fuga.”

O que diz a Coca-Cola

A Coca-Cola, que mostra orgulho em incentivar programas de proteção ao meio ambiente e que possui uma página oficial na Internet para “desmentir boatos”, não parece tão preocupada realmente com a condição socioambiental e faz somente uma menção à Jayoro em todo o site da corporação no Brasil, num texto sobre agroflorestas.

O Guaraná e a Amazônia

Além das vermelhas e brancas, “marcas verdes” também têm braços poderosos. E eles envolvem a Amazônia num abraço apertado, capaz de sufocar. As megaempresas de refrigerantes são das poucas ultraprivilegiadas que estão inseridas na produção de bens cuja matéria-prima está no Amazonas.

O fruto do guaraná: nativo da Amazônia (Felipe Rosa / Embrapa)

Lá, a Paullinia Cupana (a fruta do guaraná) foi descoberta como elemento alimentar e medicinal pela tribo Sateré-Mawé, índios conhecidos como “os filhos do guaraná”. Segundo o artigo Da trajetória secular aos novos caminhos do guaraná: desafios e perspectivas da produção na Amazônia do século XVII ao século XXI, dos pesquisadores da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) Arenilton Monteiro Serrão, Manuel de Jesus Masulo da Cruz e Luis Fernando Belém da Costa, tal herança cultural foi transformada em bebida com fins comerciais pela primeira vez no século 19, por mercadores mato-grossenses que davam aos índios “espelhos, pentes e outros produtos supérfluos” em troca da fruta, para depois negociar com compradores europeus.

Com o avanço da tecnologia, toda a esfera social, política e econômica até então existente foi desmantelada, aponta o trabalho.

O Guaraná Antárctica que, historicamente, usa publicidade com mensagens mostrando que é desse cultivo amazônico que sai a base da bebida açucarada, tem papel central nesse desmonte. O orgulhoso discurso do marketing empresarial se coloca na posição de “refrigerante original do Brasil”. A realidade crua revela, entretanto, que a compra feroz da fruta, iniciada há mais de 50 anos pela então empresa paulista Antárctica, apropriou-se da cultura dos Sateré-Mawé, afetando as relações produtivas coletivas, que, hoje, segundo os pesquisadores da Ufam, se dão “de forma monopolista.”

Após a fusão entre Antárctica e Brahma, que criou a AmBev, em 1999, a apropriação e a monopolização aumentaram agressivamente. Em 21 de outubro daquele ano, executivos de AmBev e PepsiCo Inc estabeleceram um acordo que previa o compromisso de distribuir o guaraná (waraná, na língua Sateré-Mawé) para mais de 175 países, levando o produto a uma escalada mundial. O trato foi acertado em audiência com o então presidente da República, Fernando Henrique Cardoso (PSDB-SP).

Esse período, de acordo com o estudo, marca também o início da decadência produtiva do Amazonas, em especial do município de Maués, a 253 quilômetros de Manaus e terra do povo Sateré-Mawé. Inclusive, o posto de maior produtor de guaraná acabou perdido pelo estado para a Bahia, essencialmente por fatores ligados às pesquisas agronômicas, renovação dos guaranazais e produção em grande escala.

“O guaraná deixou de ser um produto genuinamente Sateré- Mawé e tornou-se uma marca conhecida mundialmente, onde o marketing principal cavalga em alusão à indicação geográfica, como parte integrante de uma cultura indígena secular amazônica, e a venda dessa imagem é um fator preponderante na arte da acumulação do capital sobre essa cultura”, conclui o pesquisador Arenilton Monteiro Serrão.

A reportagem d’ O Joio e o Trigo buscou contato tanto com a Coca-Cola quanto com a Ambev, mas não obteve resposta.

Fonte – Moriti Neto, O joio e o Trigo de 17 de dezembro de2017

Agricultura da morte: veja quanto sua comida está contaminada por agrotóxicos

Estudo comparativo entre Brasil e União Europeia mapeia uso de pesticidas e mostra dados alarmantes do consumo de veneno

Fruto de uma pesquisa da geógrafa Larissa Bombardi, professora do departamento de geografia da Universidade de São Paulo, o atlas “Geografia do Uso de Agrotóxicos no Brasil e Conexões com a União Europeia” destaca as diversas facetas das relações comerciais entre as diversas nações.Apesar da legislação rígida sobre o uso de veneno, grande parte dos países europeus compram produtos do Brasil que possuem altos índices de agrotóxicos.

Os dados apresentam os números do uso dos defensivos aqui e na Europa. Além disso, traz os dados da utilização dos agrotóxicos e seus efeitos por região no Brasil.

Fonte – Brasil de Fato de 19 de dezembro de 2017

Qual a pegada ambiental do alimento que você consome?

Poxa, mas agora vou ter que me preocupar com isso também? É pessoal, ninguém falou que se preocupar em construir um mundo melhor e assumir a responsabilidade em ser parte ativa da sociedade que queremos sair do mundo dos sonhos para a realidade seria fácil. Por isso, nós estamos, cada vez mais, atrelando as perspectivas de gestão ambiental ao alimento que consumimos.

Pela Gestão Kairós, por exemplo, sempre que iniciamos parcerias para alavancar a gestão ambiental de grandes empresas, falamos de nutrição e vice e versa. E antecipo, nenhuma decisão é fácil, sem que tenhamos reunido um especialista ambiental, um especialista em nutrição e ainda um especialista ponderando impactos sociais em todos os processos avaliados.

Estou aqui chamando de pegada de alimentos a quantidade de emissões geradas, consumo de água, geração de resíduos, consumo de energia, e por que não, uso de agrotóxicos presentes nos processos dos mais variados alimentos que chegam a sua mesa, seja em casa, ou em um evento da empresa.

Vejamos, de acordo com a FAO (Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação), as atividades agrícolas e pecuárias consomem cerca de 70% de toda a água doce do mundo e, segundo o IPCC (Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas) é responsável por aproximadamente 25% das emissões de gases de efeito estufa do planeta. Apesar de trazerem benefícios em curto prazo, como por exemplo, o aumento da oferta de alimentos, alguns métodos de produção podem ser mais impactantes ao meio ambiente e à sociedade do que outros.

A atividade pecuária lidera a lista de trabalhos análogo ao escravo, conforme divulgado pela Secretaria de Inspeção do Trabalho, há possíveis impactos à saúde pública, derivados da quantidade excessiva de traços de agrotóxicos presentes nos alimentos. E no âmbito ambiental a produção agrícola é frequentemente associada à poluição dos solos e água, uso de agrotóxicos, mudanças climáticas, desmatamento, a redução da biodiversidade, a erosão e a geração de resíduos.

Então surge a questão: Agora se eu quiser ser sustentável vou ter que virar vegetariano? Não é isso que estou dizendo. O importante é saber que cada decisão que tomamos no dia a dia deixa um reflexo mais positivo ou negativo no planeta. E que até a nossa alimentação poderá contribuir neste processo, principalmente se for mais equilibrada. Não significa, por exemplo, banir a carne vermelha das suas refeições em casa, ou dos eventos da empresa. Mas sim, ter um olhar equilibrado sobre o todo. E principalmente, mapear a origem – a cadeia de valor – dos alimentos que você consome.

A pressão individual e empresarial para que estes setores busquem métodos de produção que promovam o manejo agrícola mais sustentável é fundamental.

Liliane Rocha – É fundadora da Gestão Kairós – consultoria especializada em Sustentabilidade e Diversidade. Mestre em Políticas Públicas pela FGV, MBA Executivo em Gestão da Sustentabilidade na FGV, Especialização em Gestão Responsável para Sustentabilidade pela Fundação Dom Cabral, Mestre em Coaching pela Sociedade Brasileira de Coaching, graduada em Relações Públicas na Cásper Líbero. Autora do livro “Como ser um líder inclusivo”. Mais informações sobre Liliane no site: www.gestaokairos.com.br

Fonte – Liliane Rocha, Envolverde de 13 de dezembro de 2017

Quase 600 cidades desmataram a Mata Atlântica entre 2015 e 2016

A Fundação SOS Mata Atlântica e o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) lançam hoje (13/12) o Atlas dos Municípios da Mata Atlântica, que traz um panorama da situação da cobertura vegetal do bioma nos 3.429 municípios da Mata Atlântica. O estudo indica que foram destruídos 30.569 hectares entre 2015 e 2016. Os desmatamentos aconteceram em 598 (17,4%) dos municípios do bioma. O Atlas avalia diferentes formações naturais que compõem a Mata Atlântica, como floresta, mangue e restinga.

Municípios baianos foram os que mais desmataram no período avaliado. Foram 12.420 hectares destruídos em 130 cidades, 40% do total dos desmatamentos no período. Localizada na Costa do Descobrimento, no sul da Bahia, Santa Cruz Cabrália (BA) foi responsável pela eliminação de 3.126 ha de florestas nativas, uma área de tamanho semelhante a Madre de Deus, o menor município do estado, que tem 3.220 ha de área total. A vice-liderança é de Belmonte (BA), com supressão de 2.122 ha.

Na sequência, completando as 10 primeiras posições do ranking nacional, estão Manuel Emídio (PI), com 1.281 ha desmatados; Wanderley (BA), com 1.180 ha; Porto Seguro (BA), com 856 ha; Águas Vermelhas (MG); com 753 ha; São João do Paraíso (MG), com 573 ha; Jequitinhonha (MG); com 450 ha; Canto do Buriti (PI); com 641 ha; e Alvorada do Gurguéia (PI), com 625 ha.

Segundo Marcia Hirota, diretora executiva da Fundação SOS Mata Atlântica, é lamentável que os municípios ainda permitam o desmatamento. “A Mata Atlântica é o bioma mais ameaçado do país, restam somente 12,4% da área original. Um total de 72% da população brasileira vive na Mata Atlântica, assim como mais da metade dos animais ameaçados de extinção do país. Ao desmatar, estamos prejudicando nosso próprio bem-estar e qualidade de vida”, afirma ela.

O estudo, que conta com patrocínio de Bradesco Cartões e execução técnica da empresa de geotecnologia Arcplan, apresenta a situação da cobertura florestal e o histórico do desmatamento nos 3.429 municípios dos 17 estados do bioma. Todas as informações estão disponíveis no site e aplicativo www.aquitemmata.org.br, que oferece uma busca personalizada por meio de mapas interativos e gráficos.

“Este aplicativo foi produzido para contribuir com as atividades de pesquisa, educação ambiental e mobilização. Qualquer pessoa pode ter acesso e conhecer o histórico da situação da Mata Atlântica local e ajudar a defendê-la”, afirma Flavio Ponzoni, pesquisador e coordenador do Atlas pelo INPE.

Sobre a Mata Atlântica

A Mata Atlântica está distribuída ao longo da costa atlântica do país, atingindo áreas da Argentina e do Paraguai nas regiões Sudeste e Sul. De acordo com o Mapa da Área de Aplicação da Lei nº 11.428, a Mata Atlântica abrangia originalmente 1.309.736 km2 no território brasileiro. Seus limites originais contemplavam áreas em 17 estados: PI, CE, RN, PE, PB, SE, AL, BA, ES, MG, GO, RJ, MS, SP, PR, SC e RS.

Sobre a Fundação SOS Mata Atlântica

A Fundação SOS Mata Atlântica atua desde 1986 na proteção dessa que é a floresta mais ameaçada do país. A ONG realiza diversos projetos nas áreas de monitoramento e restauração da Mata Atlântica, proteção do mar e da costa, políticas públicas e melhorias das leis ambientais, educação ambiental, campanhas sobre o meio ambiente, apoio a reservas e Unidades de Conservação, dentre outros. Todas essas ações contribuem para a qualidade de vida, já que vivem na Mata Atlântica mais de 72% da população brasileira. Os projetos e campanhas da ONG dependem da ajuda de pessoas e empresas para continuar a existir. Saiba como você pode ajudar em www.sosma.org.br.

Sobre o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE)

O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) atua nas áreas de Observação da Terra, Meteorologia e Mudanças Climáticas, Ciências Espaciais e Atmosféricas e Engenharia Espacial. Possui laboratórios de Computação Aplicada, Combustão e Propulsão, Física de Materiais e Física de Plasmas. Presta serviços operacionais de monitoramento florestal, previsão do tempo e clima, rastreio e controle de satélites, medidas de queimadas, raios e poluição do ar.

O INPE aposta na construção de satélites para produção de dados sobre o planeta Terra, e no desenvolvimento de pesquisas para transformar estes dados em conhecimento, produtos e serviços para a sociedade brasileira e para o mundo. Também se dedica à distribuição de imagens meteorológicas e de sensoriamento remoto, e à realização de testes e ensaios industriais de alta qualidade. Além disso, o Instituto transfere tecnologia, fomentando a capacitação da indústria espacial brasileira e o desenvolvimento de um setor nacional de prestação de serviços especializados no campo espacial. Mais informações em www.inpe.br.

Informações completas sobre todos os municípios do bioma estão disponíveis no site www.aquitemmata.org.br.

Fonte – Envolverde de 13 de dezembro de 2017

Jardins de Mel

O projeto Jardins de Mel tem como objetivo a divulgação das abelhas nativas sem ferrão, responsáveis pela polinização de cerca de 90% das plantas brasileiras. Já começaram a ser distribuídos em áreas verdes do município de Curitiba, como o o Parque Barigui, Bosque Reinhard Maack, Jardim Botânico, Casa de Acantonamento (do Zoológico de Curitiba) e Museu de História Natural Capão da Imbuia.

As cinco espécies utilizadas são: de guaraipo (Melipona bicolor), manduri (Melípona marginata), mandaçaia (Melipona quadrifasciata), jataí (Tetragonisca angustula) e mirim (Plebeia sp).

As abelhas estarão em caixas racionais de criação, colocadas dentro de um revestimento, visando uma maior proteção e bem-estar dos insetos.

As atividades desenvolvidas pelo projeto ressaltam a sensibilização sobre a importância e os benefícios dos serviços ecossistêmicos de regulação e equilíbrio do planeta prestados pelas abelhas nativas.

Ainda serão ofertados cursos de capacitação para Guardiões das Abelhas sem Ferrão, o que vai contribuir para manter a cultura que vem desde os povos indígenas.

Biodiversidade

Há mais de 20 mil espécies de abelhas espalhadas pelo mundo. A maioria delas tem comportamento solitário, mas dentro deste universo existem as abelhas sociais nativas sem ferrão. Entre elas, são aproximadamente 420 espécies no mundo, 300 no Brasil.

As abelhas nativas sem ferrão vivem em ninhos, organizados com três castas – a rainha, as operárias e os zangões. Seus ninhos podem ser encontrados nos ocos de troncos de árvores, no chão e em muros. Elas alimentam-se de néctar e pólen, enquanto fazem a polinização; e armazenam o alimento em potes de cera, mel e pólen. São responsáveis pela existência da maioria das espécies vegetais, incluindo os alimentos.

Conheça algumas das abelhas nativas

Abelha Jataí

Jataí
Nome científico: Tetragonisca angustula
Tribo: Trigonini
Onde encontrar: As abelhas Jataí são nativas do Brasil e têm abrangente extensão geográfica, do norte da Argentina até o México.
Curiosidade: Ao longo dos anos, um dos mecanismos de defesa desenvolvidos foi o de ter abelhas sentinelas para combater possíveis inimigos. Elas costumam fechar a entrada de seu ninho durante a noite e em dias de frio.

Abelha Manduri

Manduri
Nome científico: Melipona marginata
Tribo: Meliponini
Onde encontrar: As abelhas Manduri são encontradas desde a América Central até a Argentina.
Curiosidade: Mandirituba, cidade da Região Metropolitana de Curitiba, tem esse nome pela grande ocorrência destas abelhas por lá. Quando ameaçadas, elas enrolam-se nos cabelos e pelos, sem, no entanto, representar perigo para os seres humanos.

Abelha Mirim

Mirim
Nome científico: Plebeia sp
Tribo: Trigonini
Onde encontrar: América Central e América do Sul.
Curiosidade: É uma abelha muito pequena, mansa e discreta. Seu própolis é produzido com resinas de característica pegajosa, armazenadas em bolas nos cantos da colmeia; e usadas para defesa quando a abelha se sente ameaçada. Além de imobilizar os inimigos que queiram entrar na colmeia, o própolis serve para vedá-la contra de luz e vento.

Abelha Mandaçaia

Mandaçaia
Nome científico: Melipona quadrifasciata
Tribo: Meliponini
Onde encontrar: Esta espécie está em todos os estados com ocorrência de mata atlântica.
Curiosidade: Em tupi guarani, seu nome significa Vigia Bonito. Outras subespécies podem ter diferenças nas formas das listras amarelas.

Abelha Guaraipo

Guaraipo
Nome científico: Melipona bicolor
Tribo: Meliponini
Onde encontrar: Está em toda região Sul e Sudeste do Brasil
Curiosidade: A espécie adora locais úmidos próximos aos rios e matas densas. Ela altera todo o conceito sobre as abelhas, já que é comum encontrar até cinco rainhas irmãs trabalhando juntas em uma colmeia. Dentre as abelhas sem ferrão, é uma das mais calmas. Sua cera é muito apreciada por ter textura aveludada.

Jardins Melíferas

Para ajudar as abelhas nativas, é preciso plantar árvores nativas melíferas, frutíferas, hortas sem veneno e flores. Também é necessário manter os rios limpos para que as as abelhas sobrevivam e repovoem a cidade, trazendo ainda mais vida aos bosques.

Diversos conceitos a respeito do desequilíbrio ecológico despertam a preocupação com o meio ambiente e exigem, tanto da sociedade civil quanto acadêmica, estudos, observações e consenso para o melhor convívio geral.

A sociedade humana vive em interdependência com o meio ambiente. No entanto, há estudos que apontam a extinção gradual das abelhas nativas, importantes para a continuidade cíclica de grande parte da flora.

A Constituição Federal em seu Art. 225, define como um direito fundamental, o meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao poder público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações. Com base nisso, propõe-se a ideia de utilidade pública dos Jardins Melíferas.

Método de Propagação
Árvores Astrapeia (Dombeia spp.) Estaca Introduzido
Butia (Butia spp.) Semente Nativo
Jerivá (Syagrus flexuosa) Semente Nativo
Inga (Inga spp.) Semente Nativo
Tucaneiro Semente Nativo
Pau-formiga (Triplaris spp.) Semente Nativo
Olandi (Calophyllum brasiliensis) Semente Nativo
Moringa (Moringa oleifera) Semente e Estaca Introduzido
Arbustos Ocna (Ochna serrulata) Semente Introduzido
Ipoméia (Ipomoea carnea) Estaca Nativo
Dracena (Dracaena fragrans) Estaca Nativo
Cordiline (Cordyline terminalis) Estaca Nativo
Ora-por-nobis (Pereskia spp.) Semente e Estaca Nativo
Ervas de Floração Perene Maria gorda/beldroega (Talinum paniculatum/ T. fruticosum) Semente e Estaca Nativo
Salvia-cidreira (Lippia alba) Estaca Nativo
Alfavaca anizada Semente Nativo
Manjericão Estaca Introduzido
Ervas de Floração Anual Mirra (Tetradenia riparia) Estaca Introduzido
Boldo (Vernonia condensata) Semente e Estaca Nativo

Conheça as Plantas Melíferas usadas nos Jardins de Mel

Calliandra brevipesCalliandra brevipes
Fucksia regiaFucksia regia
Lantana camaraLantana camara
Lantana fucataLantana fucata
Justicia floribundaJusticia floribunda
Stachytarpheta cayenensisStachytarpheta cayenensis
Rhododendron simpsiiRhododendron simpsii
Abelia x grandifloraAbelia x grandiflora
Brunfelsia pilosaBrunfelsia pilosa
Euphorbia pulcherrimaEuphorbia pulcherrima
Jasminum mesnyiJasminum mesnyi
Hydrangea macrophyllaHydrangea macrophylla
Abutilon megapotamicumAbutilon megapotamicum
Buddleja davidiiBuddleja davidii
Salvia splendensSalvia splendens
Salvia guaraniticaSalvia guaranitica
Odontonema tubaeformeOdontonema tubaeforme
Gaylussacia brasiliensisGaylussacia brasiliensis
Schinus engleriSchinus engleri
Ixora coccíneaIxora coccínea

É preciso cuidar enquanto há tempo. Os Jardins de Mel fazem parte do grande tesouro brasileiro que é a biodiversidade. As abelhas são o fundamentais para a perpetuação das espécies vegetais e os humanos têm muito a aprender com a sua organização e cooperação.

Remover enxame de um local seguro nidificado naturalmente, sem a real necessidade é colocar o enxame em risco e crime ambiental. Remoção é Crime lei nº 9605 de 1998.

Fonte – Prefeitura de Curitiba

R$ 7 bilhões em comida jogados no lixo

Um faturamento inteiro das lojas Pão de Açúcar. Ou mais do que o Mc Donald’s registrou em receita líquida no Brasil em todo 2016. Esse é o montante – R$ 7,1 bilhões – que os supermercados brasileiros perderam com alimentos aptos ao consumo mas que foram jogados fora por danos, aparência ou validade. Quase tudo foi para o lixo.

A “quebra operacional”, jargão do varejo para o desperdício, abocanha, ano após ano, uma fatia de 2% do faturamento bruto do setor, que em 2016 atingiu R$ 338,7 bilhões, segundo dados compilados pela Associação Brasileira dos Supermercados (Abras). No ranking por segmento, o FLV (frutas, legumes e verduras) lidera, mas a perda é alta também em itens de padaria, comida pronta e carnes em geral.

O indicador dá a dimensão do tamanho do problema, mas é só uma parte dele. O desperdício ainda permeia todos os elos da cadeia produtiva e faz com que até 30% do que é plantado jamais chegue à boca do consumidor brasileiro, segundo a FAO Brasil, braço da ONU para Agricultura e Alimentação.

Do ponto de vista financeiro, o varejo tem motivos de sobra para se preocupar: o desperdício representou 28,6% das perdas totais em 2016, superando os furtos externos e internos (18,2% e 8,3%, respectivamente), os erros de inventário (14,8%) e administrativos (8,9%) e a devolução de produtos ao fornecedor (7,9%). “É algo que os supermercados olham com muita atenção”, afirma Marcio Milan, superintendente da Abras.

O contra-ataque do setor teve início há cerca de três anos, mas com resultados ainda tímidos diante da urgência que o tema exige. Em geral, as ações baseiam-se na promoção de itens com prazo de validade próximo de expirar. Mais recentemente, alimentos que fogem do padrão comercial – tamanho, cor e consistência – começaram a ser testados em algumas lojas de grandes centros urbanos.

Lançado em novembro pelo Carrefour, a maior varejista alimentar do país, o programa “Únicos” oferece cerca de 10 legumes e frutas que não atendem a ficha técnica com descontos a partir de 30%. Implementado em caráter experimental em três lojas da capital paulista, o programa, por ora, só é exequível uma vez por semana.

Segundo Paulo Pianez, diretor de Sustentabilidade do Carrefour no Brasil, a expansão do programa está condicionada não só à aceitação do consumidor mas, principalmente, à disponibilidade desses produtos. Isso porque durante anos, o produtor rural foi orientado a não entregar alimentos sem as características determinadas pelo varejo. A imposição rígida dessa cartilha faz com que parte representativa das verduras e legumes nem saia no campo. “O produtor sabe que não tem valor para o varejo e já descarta o alimento, apesar de ser perfeito sob o aspecto nutricional. Isso acabou contribuindo para o desperdício. Agora temos de (re)orientá-lo”, admite.

Muitas vezes, o próprio mercado se encarrega da solução para problemas que, se não diretamente ligados ao desperdício, servem de inspiração para ações nesse sentido. Milan, da Abras, cita as maçãs da Turma da Mônica como um caso clássico de rearranjo comercial que driblou o consumidor, criou um novo hábito de consumo e ajudou a elevar a renda do produtor.

Impedida de ser servida à mesa (os brasileiros, acreditava-se, gostavam somente de frutos vermelhos e grandes), a maçã pequena era destinada à produção de suco. A diferença de preço pago – três vezes menos – mobilizou produtores a criar uma alternativa: vincular a fruta que cresceu pouco ao consumo infantil, estampando os personagens de Maurício de Sousa na embalagem. A estratégia deu certo. Hoje, as maçãs pequenas representam de 10% a 20% da fruta consumida no país, diz Leandro Bortoluz, da Agapomi, a associação de produtores do Rio Grande do Sul, maior produtor nacional.

“É uma saída que pode ser aplicada a outros alimentos com baixa aceitação no mercado e que, portanto, são descartados”, diz Milan.

O varejo tem avançado em medidas sobretudo para prolongar o tempo de prateleira de perecíveis. Melhorias na refrigeração, reorganização do layout de lojas, embalagens mais resistentes e a simples forma de dispor as frutas na gôndola surtem efeitos significativos.

Na rede Hortifruti, as entregas de FLV, que responde por metade do negócio, são feitos diariamente para evitar perdas e garantir produtos frescos (no caso das verduras, a entrega é feita duas vezes por dia). Sempre que possível, a mercadoria viaja à noite. Quando de dia, segue em caminhão refrigerado – raro para os produtores e que explica por que o transporte responde por quase metade das perdas na cadeia. O grupo também oferece as embalagens ao produtor para evitar “tombos” – repasse de uma caixa a outra, podendo danificar o alimento. Com isso, diz ter reduzido a 4% sua quebra operacional, contra a média de 6% do setor.

No Grupo Pão de Açúcar, as ações adotadas – descontos para validade próxima, venda de legumes fora de padrão – permitiram a redução de 15% no desperdício de alimentos em 2016 nas lojas Extra Hiper, e de 25% nos perecíveis, afirma Susy Yoshimura, diretora de sustentabilidade. Ela não revela os números de redução referentes às demais bandeiras da empresa.

Transformar laranjas manchadas em suco e legumes batidos em sopa, vender bananas por unidade, reembalar dentes de alho soltos pelo manuseio e outras coisas do gênero são medidas também em curso, mas um grande desafio contra o desperdício continua sendo convencer o consumidor a se encantar pelo alimento “feio”.

“Esses produtos enfrentam uma barreira cultural grande”, diz Daniela Leite, advogada que se tornou ativista contra o desperdício e lançou em dezembro um aplicativo para doação de alimentos (ver “Tinder dos alimentos” incentiva doação por parte de pequenos estabelecimentos). “A mudança de cultura não é rápida como a tecnológica”.

Daniela diz que o brasileiro ainda encara esses alimentos com receio e preconceito (ninguém quer uma cenoura de “três pernas”). Pesquisa realizada a pedido de sua ONG, o Comida Invisível, mostra que pouco mais de 40% dos entrevistados associa o feio a algo estragado ou impróprio para venda.

Ao mesmo tempo, 78% mostram disposição a mudar hábitos e curiosidade em entender para onde vai o encalhe do supermercado.

A desconexão com o percurso da comida até o lixo chocou uma cliente que corria para as compras finais de Natal na loja do Pão de Açúcar no Pacaembu, bairro de classe alta em São Paulo. “Jogam tudo fora?”, espantou-se, ao ouvir o depoimento de um funcionário.

João (nome fictício para preservar sua identidade) diz que no fechamento do dia anterior, 10 pacotes de pão integral com grãos haviam sido descartados por estarem a um dia de vencer. Foram para o lixo também pães de queijo, sanduíches e uma variedade de bolos feitos na padaria – uma das 186 lojas da rede Pão de Açúcar.

Ele explica que essa rotina repete-se todas as noites, mas que a loja tem tentado minimizar a quebra. Assar conforme a demanda, por exemplo. Ou triturar pães, como o francês, para vender como farinha.

Jogar fora itens da padaria e comida pronta da rotisseria impacta fortemente na rentabilidade: são nessas gôndolas onde estão algumas das maiores margens brutas do varejo e, não à toa, é para onde as grandes redes têm expandido.

O encalhe da padaria vai para o lixo devido ao temor em relação à responsabilidade pela doação, diz Daniela Leite, do Comida Invisível. A punição por um sanduíche que faça mal a alguém recai sobre quem doou, não quem comeu. “Existem em tramitação no Congresso 30 projetos de lei que visam alterar a responsabilidade civil na doação de alimentos, de objetiva para subjetiva, o que amenizaria a responsabilidade do doador”, diz.

Sérgio Kuczynski, vice-presidente da Associação Nacional de Restaurantes, admite que muita comida é jogada fora. “Isso precisa mudar. Não faz qualquer sentido”.

Fonte – Bettina Barros, Valor Econômico de 08 de janeiro de 2018