Limpeza hoje no bosque sensorial

O bosque sensorial está cheio de lixo.

As pessoas que visitam o bosque não usam as poucas lixeiras no entorno e nem levam seu lixo para descartar em casa.

Hoje faremos limpeza no bosque das 15h às 17h.

Vamos?

Como já plantamos as arvores, as protegemos das roçadas com os protetores de roçada, estaqueamos, fazemos poda, tudo para os visitantes do bosque poderem provar as frutas do local, vamos também limpar para deixar o bosque bonito para a população.

Sim, sabemos que temos que educar os visitantes, mas sem as lixeiras no entorno, nem adianta pedir para elas deixarem o lixo no local correto.
Então, só nos resta limpar.

Temos que mudar o conceito de que “o que é público não é de ninguém” para “o que é público é de todos” e portanto deve ser cuidado por todos.

Lembrando que temos 20 lixeiras, 20 bancos para colocar no entorno, 6 luminárias, 10 mesas com 4 banquetas paradas esperando para serem colocadas no bosque e estamos aguardando a instalação.

Quem puder ajudar na limpeza, por favor, confirme para sabermos quantas luvas e sacos de lixo devemos levar.

Para ler antes do churrasco: o real cenário da criação de gado no Brasil

Processed with Snapseed.Bezerros de uma semana de vida e suas mães na Fazenda Figueiral, de produção orgânica, no Pantanal. Ali, as crias ficam cerca de 14 meses em companhia das mães.

Hambúrguer, tartar, ragu, churrasco, carne moída, bife à milanesa… Brasileiro é um povo carnívoro. Para muita gente, se uma refeição não tiver carne, nem pode ser chamada de refeição. Carne bovina é tão presente no cotidiano do brasileiro quanto é desconhecida – você já parou para pensar como anda a qualidade da carne que você come? Do que esses animais se alimentam? Como vivem? Como são abatidos? Pois é, muito pouca gente para.

É tanto foodie, chef, churrasqueiro e cozinheiro de final de semana se preocupando com o marmoreio, ponto, blend, técnica, raça e ignorando totalmente COMO ESSE GADO FOI CRIADO. Para mim é o mesmo que construir uma casa dando mais atenção para a cor da parede do que aos materiais usados ao erguê-la.

Assim como outras fontes de proteína animal – ovos, frango, cordeiro, peixe, queijo, etc -, a carne bovina não aparece magicamente em pacotinhos na geladeira do mercado, nem nasce no espeto. Há que se criar o bicho, alimentar, abater – e esse processo consome montanhas de recursos naturais, como solo e água -, além de impactar profundamente na produção de gás metano (resultante da digestão do animal), o maior responsável pelo efeito estufa, e na saúde de quem consome, visto que a quantidade de antibióticos dada aos animais cresce a passos largos.

Foi para entender mais sobre pecuária que visitei uma das fazendas afiliadas a ABPO – Associação Brasileira de Pecuária Orgânica -, a convite da Korin, sua parceira na venda para o consumidor final (cerca de 90 toneladas/mês).

Peão tocando uma invernada ("lote" de gado) pelas planícies do PantanalPeão tocando uma invernada (“lote” de gado) pelas planícies do Pantanal

Antes de mais nada, é necessário entender a diferença entre pecuária convencional, sustentável e orgânica.

  • Na pecuária orgânica não se usa nem antibióticos, nem alopatia, nem ureia. Os animais são criados de modo extensivo (soltos) e alimentados com capim a maior parte da vida. Sua alimentação, nos últimos meses antes do abate, é complementada com grãos orgânicos.
  • Na pecuária sustentável (sistema de produção que concilia a preservação ambiental a crescimento econômico) não se usa ureia. Antibióticos, apenas em último caso. Os animais são criados de modo extensivo (soltos) ou semi extensivo e alimentados com capim a maior parte da vida. Sua alimentação, nos últimos meses antes do abate, é complementada com grãos convencionais, provenientes de monoculturas que aplicam agrotóxicos.
  • Na pecuária tradicional há o uso regular de antibióticos, ureia e alopatia. Os animais podem ser criados soltos, em semiconfinamento ou confinados. Durante boa parte da vida tem suplementação da dieta a base de grãos convencionais.

A ABPO possui 15 fazendas associadas, todas no Pantanal, que somam 60 mil cabeças de gado. A preocupação destes fazendeiros é manter o Pantanal preservado, continuar a tradição pecuária centenária da região, conscientizar os criadores a não aumentar a quantidade de cabeças e, em vez disso, agregar mais valor a elas. Unir sustentabilidade e rentabilidade.

Gados de vida livre - e sem antibióticos nem ureia - da Fazenda Figueiral, no PantanalGados de vida livre – e sem antibióticos nem ureia – da Fazenda Figueiral, no Pantanal

Algumas regras da ABPO:

  • Sistemas produtivos que contemplem o bem estar animal;
  • Conscientizar o produtor rural quanto a não utilização de agrotóxicos e adubos químicos em suas propriedades pantaneiras;
  • É vedada a utilização de aditivos promotores de crescimento e de fontes de nitrogênio não protéico (uréia e amiréia), antibióticos, corantes artificiais, resíduos de animais e qualquer outra substância que possa persistir no ambiente e afetar a cadeia alimentar.
  • Não utilização de organismos transgênicos no sistema produtivo.

Na Fazenda Figueiral (a qual visitei), na região da Nhecolândia, o gado (Nelore e Hereford) vive em meio a tuiuiús, porcos do mato, veados, capivaras, jacarés, onças – totalmente integrado ao meio ambiente. Quando perguntei aos proprietários, Luciano e Leonardo Leite de Barros, terceira geração de criadores de gado pantaneiro – o que eles faziam com as onças (meu medo era ouvir “matamos”), responderam: “Nada. Se elas comerem um bezerro ou outro, faz parte. Estamos no Pantanal e queremos preservar nossa biodiversidade. Há 200 anos cria-se gado aqui, junto a todos os outros animais”.

Seria lindo se toda carne que consumíssemos fosse decorrente desse sistema produtivo, não? Pois é, mas não dá.

Panorama da Fazenda Figueiral, no Pantanal, na qual se cria gado orgânicoPanorama da Fazenda Figueiral, no Pantanal, na qual se cria gado orgânico

Para criarmos o gado de forma decente e saudável, o consumo teria que diminuir drasticamente – e aumentar a consciência do tremendo impacto ambiental causado pela pecuária-, o oposto do que vem acontecendo. Em 2015 foram produzidos no mundo 318,7 milhões de toneladas de carne bovina, “e espera-se um aumento do consumo mundial a um ritmo de 1,6% por ano nos próximos 10 anos”, diz o agroeconomista belga Erik Mathijs. O rebanho bovino brasileiro chegou a 212,3 milhões de cabeças em 2014, um acréscimo de 569 mil animais em relação a 2013.

Para todo esse gado viver de forma natural – ou seja, solto – precisaríamos de mais uns 3 planetas. Então, qual a solução: confinar. Colocar cada vez mais animais, em menos espaço. E o que acontece inevitavelmente em superpopulações? Surtos de doença. Como se vence doenças sem mexer nas causas que as geraram? Entupindo os doentes com antibióticos. Círculo nada virtuoso.

“Ah, tá, então agora não posso mais comer carne também? Só falta essa!”, alguns vão dizer, raivosos a ponto de querer me estapear. Não, não é isso. A solução mais sensata para esse cenário é apenas comer menos quantidade, de melhor qualidade e boa procedência. Simples e indolor.

Eis alguns dados sobre a produção de carne de bovina no Brasil. Nos links vocês encontrarão os sites e pesquisas dos quais os dados do texto foram retirados, tendo a possibilidade de se aprofundar no tema.

Querendo saber sobre produção orgânica e convencional de aves, confira nossas reportagens AQUI e AQUI.

Peões cauterizando o cordão umbilical de bezerros recém-nascidos e marcando-os com brincos: no sistema orgânico, é obrigatório haver a total rastreabilidade do animalPeões cauterizando o cordão umbilical de bezerros recém-nascidos e marcando-os com brincos: no sistema orgânico, é obrigatório haver a total rastreabilidade do animal

Qual o tamanho do rebanho bovino brasileiro?

Somos 206 milhões de brasileiros e temos 213 milhões de cabeças de gado (a produção sustentável e orgânica responde a menos de 0,5% do total). Tem mais vaca que gente no Brasil. No planeta, o número de bovinos é de quase UM BILHÃO.

Em consumo anual per capta de carne bovina, somos o quarto da lista – atrás de Uruguai, Argentina, Paraguai e Estados Unidos -, comendo média de 24,2 kg por ano/por pessoa. Se somarmos todas as carnes, consumimos 74,8 quilos por ano/por pessoa. É carne PACAS.

Claro que nem tudo fica por aqui: as exportações só crescem, especialmente para Rússia e China. Agora, conta pra mim o que vai acontecer se o um bilhão e quatrocentos mil chineses decidirem comer carne na mesma quantidade que nós, os argentinos e os americanos?

O gado vive confinado?

No Brasil ainda é bem raro encontrar rebanhos confinados. A razão é simples: temos muita terra disponível, a preços baixos. E quando não há muita disponibilidade, arruma-se um jeito: a pecuária é a principal atividade responsável pelo desmatamento da Amazônia. Segundo o estudo realizado por Júlio Flávio Gameiro Miragaya, “O enorme avanço do desflorestamento decorreu, sobretudo, da expansão da atividade pecuária, em parte, impulsionada pela forte expansão do cultivo de soja, milho e cana-de-açúcar em áreas agrícolas do Centro-sul do País, provocando o rápido deslocamento das pastagens para áreas com terras de menor custo. Esse rápido avanço transformou a Amazônia e, particularmente o Arco do Desmatamento, na principal região pecuarista do País, respondendo por cerca de 80% do aumento do rebanho bovino no período”.

O lado positivo do não confinamento – feito de maneira a não destruir todos os biomas do país – é ter animais com comportamento mais próximo ao natural, vida mais livre e acesso a capim e luz solar. Mais saudáveis, enfim.

Tanto no método convencional quanto no sustentável, o confinamento – ou semiconfinamento – é usado para a finalização, período de meses (entre 3 e 5) em que os animais tem alimentação suplementada com grãos (ou a base de), o que vai conferir ganho de peso e formação de capa de gordura, também chamado de ‘acabamento’.

Os bois tomam antibiótico e hormônios?

Assim como para aves, caprinos, ovinos e suínos, é proibida no Brasil a utilização de hormônios para fins de engorda. Na criação convencional, antibióticos são liberados – e o volume usado é tão grande que já existe uma séria questão de resistência e criação de superbactérias. Segundo a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação, FAO, muitos criadores estão dando antibióticos para os animais sem nenhum tipo de controle. Isso cria não só resistência nos animais, mas também a transmissão dessa resistência para os humanos ao consumirem a carne.

Há também o uso de vermífugos, antimicrobianos (Avilamicina, Sulfato de Colistina, Espiramicina, Lasalocida, Monensina sódica, entre outros) e Anticoccidianos (Decoquinato).

Na criação sustentável e orgânica é vetado o uso de antibióticos e anticoccidianos. O que faz o papel de incrementar a saúde do animal são homeopáticos e fitoterápicos, geralmente misturados à suplementação de sais (explicado abaixo).

Do que o gado se alimenta?

O gado brasileiro se alimenta, boa parte da vida, de pastagem, panorama bem diferente de países como os EUA, nos quais são criados confinados e entupidos de grãos (que, só para lembrar, não é o alimento natural do boi) durante toda a existência. É praxe dar ração baseada em grãos durante os últimos meses de vida pelas razões descrita acima. Neste ração, porém, não pode haver nenhum traço de farinha de carne e ossos ou qualquer outro produto de origem animal: a principal forma de transmissão da doença da Vaca Louca é justamente pela ingestão desses ingredientes.

No cultivo orgânico, a ração é composta 100% por grãos orgânicos.

Por que comem sal?

Como os pastos não suprem todas as necessidades minerais dos animais, é importante fazer a suplementação de forma correta utilizando uma mistura com todos os macro e micro elementos no concentrado. Os macrominerais mais importantes são: Cálcio (Ca), Fósforo (P), Magnésio (Mg), Enxofre (S), Sódio (Na), Cloro (Cl) e Potássio (K) e os microminerais: Ferro (Fe), Zinco (Zn), Cobre (Cu), Iodo (I), Manganês (Mn), Flúor (F), Molibdênio (Mo), Cobalto (Co), Selênio (Se), Cromo (Cr), Níquel (Ni), Vanádio (V) e Silício (Si). Normalmente esses elementos fazem parte da mistura mineral disponível no comércio, mas é importante comprar o produto de empresas idôneas e, em caso de dúvida, coletar amostra do produto e enviar para análise”, segundo site da Embrapa.

O que é uréia e porque ela é fornecida ao gado?

Esse é um ponto complicado… Na produção orgânica e sustentável, a ureia é e proibida por ser um componente derivado do petróleo e, sendo assim, completamente disconectado da alimentação natural do bicho.

Sim, derivado do petróleo.

A uréia é amplamente utilizada na formulação de dietas para bovinos de corte e leite com dois objetivos primordiais: redução de custos pela substituição parcial de fontes protéicas vegetais e o fornecimento de quantidades adequadas de proteína degradável no rúmen (maior compartimento do estômago do gado), para melhor eficiência de digestão da fibra.

Ou seja: geou, fez frio, calor demais, choveu em demasia e está sem pasto bom? Suplementa a alimentação com ureia, assim o gado continua engordando. Há quem diga que não deixa resíduos na carne… Já eu prefiro não consumir um bicho que é forçado a ingerir derivado do petróleo.

Quanto tempo vive o animal?

No Brasil, entre de 4 a 5 anos.

Alguns produtores – como a Fazenda Figueiral – abatem mais cedo, com 3 anos, para um resultado de carne mais macio e menos impacto ambiental (quanto mais vive o boi, mais come, mais bebe água…).

Como é feito o abate?

Manual do Ministério da Agricultura para criação e abate bovino Manual do Ministério da Agricultura para criação e abate bovino

Não vi, porque a fazenda que visitei é de cria e recria e fica bem longe do frigorífico. Porém as regras do Ministério da Agricultura são nacionais e devem ser seguidas por todos os produtores legais – mas há muito gado no Brasil sendo abatido ‘em fundo de quintal’ de forma totalmente desumana (marretada no crânio, entre outros métodos horríveis).

Para aqueles que quiserem ver o processo, com fotos e diagramas, clique AQUI

Há três métodos oficiais de abate: dardo cativo, dardo não cativo e insensibilização elétrica.

No dardo cativo, uma pistola é posicionada na cabeça do boi – preso no brete – e tem o disparo de um cartucho de explosão (tiro) que insensibiliza o animal, deixando-o desacordado (“Perda da consciência, com colapso imediato (queda); musculatura torna-se contraída; flexão dos membros traseiros e extensão dos dianteiros”).

No dardo não cativo, uma pistola também é posicionada na cabeça do boi, porém não há penetração de projétil – um tiro de ar comprimido é disparado com força suficiente para desacordar o animal.

Na insensibilização elétrica há aplicação de corrente elétrica apenas na cabeça ou da cabeça ao corpo do animal. É o método menos utilizado.

Após essa fase, são suspensos pelas patas traseiras e sangrados. “O procedimento adequado para a sangria deve ser realizado cortando (incisão) os grandes vasos que emergem do coração (artérias carótidas e artérias vertebrais), localizados próximos às vértebras cervicais”, segundo manual do Ministério da Agricultura.

Qual o destino das demais partes do animal?

NADA se perde do boi. Nada. Até o cálculo biliar bovino (também chamado de pedra fel ou cálculo fel) é vendido para induzir formação de pérola em criações de ostras, fixar pintura em porcelana e como remédio, no Japão.

Maximização do lucro.

Quanto o produtor vende o gado para o frigorífico – geralmente de grandes e médias marcas, que compram de várias fazendas para comercializar sob um só logotipo -, recebe o equivalente ao valor da arroba, o peso do animal. Portanto, quando mais gordo, melhor. Só que aí está a pegadinha: animais mais jovens, tratados com melhor alimentação, sem uréia, sem antibióticos, tendem a pesar menos, o que desestimula o mercado orgânico e sustentável…

A carne, porém, é apenas uma pequena parte do lucro do frigorífico com o gado!

Com os ossos se faz farinha que vai para ração de animais de estimação.

Com os chifres, botão, pentes, adubo.

Com o couro… bem, couro.

Com o colágeno – derivado de ossos, restos de couro, ligamentos, tendões e cartilagens – gelatina usada para fins alimentícios, cosméticos (xampus, máscaras faciais) e farmacêuticos.

Com as glândulas hormonais – como a hipófise e a tireóide -, bílis e traquéia, insumos para a indústria farmacêutica.

Com os pelos, pincéis.

Com o sangue, farinha para ração de animais de estimação.

Com a queratina – principal constituinte da epiderme, unhas, pêlos, tecidos córneos e esmalte dos dentes -, condicionadores de cabelo, xampus, soluções para permanente.

Com o sebo – gordura -, sabões, sabonetes, detergentes.

Fonte – Ailin Aleixo, Gastrolândia de 28 de setembro de 2016

Brasil é citado em relatório britânico contra Aedes transgênico

al jazeera.jpgCresce constatação de que efetividade dos mosquitos transgênicos na redução da população do Aedes não seria exatamente a anunciada pela empresa detentora da patente desta tecnologia

Documento entregue às autoridades das Ilhas Cayman, no Caribe, aponta riscos à saúde e a ineficácia dos mosquitos, e pede a suspensão da liberação pela Oxitec. A empresa é a mesma que opera no Brasil

organização britânica GeneWatch Uk divulgou este mês relatório que aponta riscos à saúde e a ineficácia dos mosquitos transgênicos da Oxitec na redução da população do Aedes aegyptiselvagem, transmissor do vírus das infecções dengue, chikungunya e zika. O estudo acompanhou os resultados do experimento nas Ilhas Cayman, no Caribe – arquipélago pertencente ao Reino Unido e mais conhecido como paraíso fiscal.

documento, que foi encaminhado às autoridades de saúde das ilhas, tem como base um relatório anual de um órgão governamental local, o MCRU (sigla em inglês para Unidade de Controle e Pesquisa do Mosquito/Mosquito Resarch and Control Unit). O objetivo é informá-las sobre os riscos, já que a liberação dos espécimes transgênicos pelas autoridades locais foi acertada antes da divulgação dos estudos pelo MCRU.

Brasil

O documento menciona o caso brasileiro, onde a Oxitec também atua. Na página de número 7, cita uma reportagem da rede de TV do mundo árabe Al Jazeera (assista vídeo abaixo).

Com duração de 24 minutos, o jornalístico, que foi ao ar em 29 de novembro passado, chega a questionar, entre outras coisas, os índices de eficácia da tecnologia.  Enquanto a Oxitec fala em redução de 90% da população de Aedes selvagem, o programa mostra dados bem menores, de 60%.

Ouvido pelo programa da Al Jazeera, o pesquisador brasileiro Danilo Carvalho confirmou à RBA a redução de 60% na população – uma diferença de um terço em relação ao divulgado pela empresa.

De acordo com o pesquisador, que estudou a população para seu mestrado e doutorado pelo Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB/USP), os dados podem variar de acordo com o período avaliado.

“A avaliação que eu fiz utilizou os dados sem nenhum tipo prévio de análise/tratamento e contemplou todo o período de liberação do inseto independentemente de ajustes de parâmetros”, disse. “A avaliação da Oxitec considera o período posterior em que todos os ajustes da técnica já haviam sido feitos. Em outras palavras, esse seria o período mais eficiente de utilização do inseto.”

Ainda segundo o pesquisador, as interpretações a respeito desse dado, apesar de distantes (60% para 90%) são diferentes. Mesmo assim, mostram uma redução significativa. “Eu mantenho minha declaração de 60 a 70% de redução, mas quero ressaltar novamente que isso depende do período e da forma como se faz a análise.”

Procurada pela reportagem para comentar o relatório da GeneWatch, a Oxitec preferiu não se manifestar.

De origem britânica – nasceu em encubadora na Universidade de Oxford, na Inglaterra – a Oxitec é atualmente uma subsidiária da Intrexon, empresa estadunidense líder mundial em biologia sintética.

Os mosquitos transgênicos, que já são liberados em 14 bairros de Piracicaba, no interior de São Paulo, e estão prestes a ser vendidos para a prefeitura de Juiz de Fora (MG), foram aprovados para uso comercial pela Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) em abril de 2014. A autorização vale para comercialização em todo o país.

No começo de agosto, a CTNBio aprovou uma nova linhagem de mosquitos, que deverá ser solta em Indaiatuba, também em São Paulo. A aprovação das duas linhagens não levou em consideração os riscos, apenas a versão da empresa detentora da tecnologia.

Saiba mais

Mosquitos transgênicos ganham espaço em meio a falhas e manipulações

Novo Aedes transgênico reforça tese da ineficácia da tecnologia e de seus riscos à saúde

Fonte – Cida de Oliveira, RBA de 26 de setembro de 2017

Contaminações dos lençóis freáticos

Lençóis de águas podem ser freáticos ou superficiais quando controlados pela topografia e assentados em controles topográficos ou de solos e subterrâneos quando a água é armazenada em rochas e não depende de situação geomórfica local.

Além das atividades do homem, poluindo o meio ambiente, causas naturais afetam as águas subterrâneas, como a presença de teores de elementos químicos nocivos, oriundos de solos ou rochas armazenadoras chamadas aquíferos. A despoluição de um lençol freático ou subterrâneo demanda grande intervalo de tempo.

O professor Aldo da Cunha Rebouças, do Centro de Pesquisas em Águas Subterrâneas (CEPAS), da Universidade de São Paulo (USP), descobriu que e elevado flúor contido nas águas do Nordeste do Paraná e na região paulista de Águas da Prata, produz uma doença chamada fluorose, que provoca a destruição dos dentes em crianças e adultos, ao invés de protegê-los.

Também em São Paulo, em Ibirá, a presença de vanádio foi identificada pelo professor Nelson Elert nas águas da região. Trata-se de um mineral cuja absorção causa má formação congênita em crianças.

Os técnicos chamam de “causas antrópicas”, quando as atividades humanas é que provocam a contaminação das águas. São diversas as formas de contaminação, envolvendo desde organismos patogênicos, até elementos químicos como os metais pesados, caso do mercúrio e moléculas orgânicas e inorgânicas.

Conforme assinala o geólogo Luiz Amore, consultor técnico da Organização dos Estados Pan-Americanos (OEA) e da Secretaria de Recursos Hídricos do Ministério do Meio Ambiente, a possibilidade dos contaminantes atingirem os poços perfurados vai depender das características dos aqüíferos, particularmente as estruturas geológicas, a permeabilidade do solo, da transmissividade dos estratos e outros fatores.

Amore sustenta que várias fontes poluidoras já foram estudadas, e alguns casos são clássicos, “que longe de serem fenômenos isolados podem estar ocorrendo em diversas regiões do país e com intensidades diversas, infelizmente ainda pouco conhecidas”.

As águas subterrâneas localizadas nas proximidades dos grandes lixões registram a presença de bactérias do grupo coliformes totais, fecais e estreptococos.

Segundo o professor Alberto Pacheco, do CEPAS, são componentes orgânicos oriundos do chorume, que são substâncias sulfloradas, nitrogenadas e cloradas, com elevado teor de metais pesados, que fluem do lixo, se infiltram na terra e chegam aos aquíferos.

As águas subterrâneas situadas nas vizinhanças dos cemitérios são ainda mais atacadas. Águas coletadas podem revelar a presença de índices elevados de coliformes fecais, estreptococos fecais, bactérias de diversas categorias, salmonela e elevados teores de nitratos ou metais como alumínio, cromo, cádmio, manganês, bário e chumbo.

Os cemitérios, que recebem continuamente milhares de corpos que se decompõem com o tempo, são autênticos fornecedores de contaminantes de largo espectro das águas subterrâneas das proximidades. Águas que podem ser consumidas pelas populações da periferia das cidades.

Estudo de autoria do professor Aldo da Cunha Rebouças, também da equipe do CEPAS, mostra a contaminação oriunda do vazamento de tanques de armazenamento subterrâneo de gasolina em poços de abastecimento de água em residências vizinhas.

A água recolhida desses poços revelou elevados teores de benzeno e demais compostos orgânicos presentes na gasolina, como tolueno, xileno, etilbenzeno, benzeno e naftaleno.

O professor adverte para o fato de que a combustão da gasolina é autodetonante a 400 ppm (partes por milhão). Se esse combustível se infiltrar em redes de esgoto e túneis de obras de engenharia, haverá risco real de explosões de grandes proporções.

A construção e operação de poços de abastecimento d’água, próximos a fossas em zonas urbanas e rurais, pode levar à contaminação da água por patogênicos gerais e substâncias orgânicas diversas, transmitindo doenças a quem utiliza e consome a água.

Resíduos de agrotóxicos foram encontrados em animais domésticos e seres humanos que utilizaram águas subterrâneas contaminadas por agrotóxicos em Campinas, São Paulo.

O professor Ricardo Hirata, da equipe do CEPAS, autor da descoberta, diz que a contaminação resultou tanto de substâncias aplicadas incorretamente na plantação, como oriunda de embalagens enterradas com resíduos de defensivos agrícolas.

Em ambos os casos houve a infiltração e o acesso dos agrotóxicos aos aquíferos. O uso indevido de fertilizantes também afeta as águas subterrâneas.

Segundo o professor Aldo Rebouças, substâncias fosforadas e nitrogenadas, que provocam a doenças em crianças, podem acessar os sistemas aquíferos, com a desvantagem de que são de difícil remoção.

Na região de Novo Horizonte, em São Paulo, centro produtor de cana-de-açúcar, a aplicação de vinhaça resultante da destilação do álcool, como fertilizante, provocou a elevação do pH e consequente remoção do alumínio e ferro do solo, que foram se misturar às águas subterrâneas.

Os aquíferos também são contaminados pela disposição irregular de efluentes de curtumes no solo, fato observado pelo professor Nelson Elert nos centros produtores de calçados.

Segundo ele, os resíduos de curtume dispostos no solo provocam a entrada de cromo, valência +6 e de organoclorados, afetando a qualidade dos lençóis subterrâneos.

As águas subterrâneas de Cubatão, em São Paulo, que já foi considerada a cidade mais poluída do Brasil, não podiam escapar à ação dos contaminantes.

A técnica Dorothy Casarini, da CETESB, a agência ambiental do governo paulista, diz que aterros não controlados por indústrias químicas da região resultaram em mortes e contaminação carcinogênica, inclusive no leite materno.

No caso de Cubatão, o agente contaminante foram Bifenilas Policloradas (PCB), cujos rejeitos, depositados no solo sem qualquer tratamento, se infiltraram e danificaram as águas subterrâneas.

Em Minas Gerais, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, e em Campinas, São Paulo, a proximidade de aterros industriais clandestinos está contaminando as águas por resíduos industriais ou pela presença de atividades mineradoras.

Referência

http://www.fernandosantiago.com.br/freatico.htm

Dr. Roberto Naime, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em Geologia Ambiental. Integrante do corpo Docente do Mestrado e Doutorado em Qualidade Ambiental da Universidade Feevale.

 

Fonte – EcoDebate de 19 de outubro de 2017

Virou lei! No DF, agora todos os assentos dos ônibus e metrôs são preferenciais

Virou lei! No DF, agora todos os assentos dos ônibus e metrôs são preferenciais

Vai ter que levantar SIM! O Distrito Federalsancionou lei que prevê que todos os assentos dos ônibus e metrôs que circulam na unidade federativa passam a ser preferenciais a partir de 1º de dezembro.

Na prática, isso significa que qualquer cidadão deverá ceder seu lugar a um idoso, grávida, mulher com criança de colo ou pessoa com deficiência ou mobilidade reduzida, independente do assento em que estiver sentado.

Atualmente, apenas alguns assentos do transporte público do Distrito Federal são reservados para preferenciais – assim como no resto do Brasil. O bom senso diz que, independente de onde estamos sentados, devemos ceder nossos lugares àqueles que necessitam mais do que a gente. No entanto, nem todos seguem essa máxima, tornando necessário o sancionamento de leis como essa.

Por tanto, já sabe: agora, se estiver no Distrito Federal e avistar alguém fingindo que está dormindo no transporte público para não ceder lugar a um preferencial, pode cutucá-lo, porque virou lei agir com mais cidadania!

Já pensou se todos os Estados brasileiros aderirem à medida?

Fonte – Débora Spitzcovsky, The Greenest Post de 05 de outubro de 2017

‘Novo analfabetismo’: por que tantos alunos latino-americanos terminam ensino fundamental sem ler ou fazer contas

EstudantesInabilidade em compreender textos básicos afeta a obtenção de outras capacidades básicas. GETTY IMAGES

A conclusão do ensino fundamental é uma etapa essencial da vida estudantil, mas para grande parte dos alunos latinos-americanos ela é concluída sem que sejam aprendidas habilidades mínimas.

Segundo um informe recente do Instituto de Estatísticas da Unesco, braço da ONU para a educação, grande parte dos jovens da América Latina e do Caribe não alcançam os níveis exigidos de proficiência em capacidade leitora ao concluírem o que no Brasil equivale à segunda etapa do ensino fundamental, em geral, aos 14 anos.

O estudo diz que, em média, 36% das crianças latino-americanas no ensino fundamental não estão atingindo as habilidades mínimas de leitura. Em matemática, esse índice sobe para 52%.

Em números absolutos, 19 milhões de adolescentes do continente concluem o fundamental “sem conseguir níveis mínimos” de compreensão nessas áreas.

Especificamente no Brasil, dados compilados pela plataforma QEdu com base no Prova Brasil 2015 dão a dimensão do problema nessa etapa do ensino: apenas 30% dos alunos da rede pública saem do 9º ano com aprendizado adequado em leitura e interpretação.

Em matemática, apenas 14% dos alunos do 9º ano aprenderam o adequado em resolução de problemas.

‘Novo analfabetismo’

Silvia Montoya, diretora do Instituto de Estatísticas da Unesco, considera “dramática” a ausência de compreensão de leitura em tantos estudantes do continente.

“O fato de haver crianças sem competências básicas, no que se refere a ler parágrafos simples e extrair informações deles, é o que eu consideraria uma nova definição de analfabetismo”, diz ela à BBC Mundo, serviço em espanhol da BBC.

“No mundo de hoje, ter um nível mínimo de alfabetização já não é (apenas) saber ler o próprio nome e escrever algum fato da vida cotidiana. Carecer de compreensão leitora é uma espécie de incapacidade de se inserir na sociedade, poder votar e entender as propostas dos candidatos, entender seus próprios direitos e deveres como cidadão. Afeta todas as dimensões.”

Crianças estudando em computadoresAusência de infraestrutura adequada é um dos problemas observados pela especialista da Unesco. GETTY IMAGES

E, prossegue Montoya, a leitura é uma habilidade básica, sobre a qual se constroem as demais capacidades estudantis.

“Sem essa competência, estamos gerando crianças e adolescentes que vão (vivenciar) diretamente muitas frustrações pessoais e de integração social e profissional. Sem entender textos, é muito difícil avançar em qualquer área.”

A situação se agrava quando se leva em consideração o grau de exigências do mundo atual, em que a informação disponível é complexa e tem diferentes graus de qualidade e confiabilidade – o que exige leitores com senso crítico e habilidade de interpretação.

Uma escola que não funciona

E se antes o desafio da América Latina era o da inclusão dos alunos ao sistema de ensino, hoje a questão é mais qualitativa do que quantitativa.

“O desperdício de potencial humano evidenciado pelos dados confirma que levar as crianças à sala de aula é apenas metade da batalha” relatório da Unesco

O relatório da Unesco afirma que “o desperdício de potencial humano evidenciado pelos dados confirma que levar as crianças à sala de aula é apenas metade da batalha. Agora, temos de garantir que todas as crianças naquela sala de aula estejam aprendendo as habilidades básicas de que precisam em leitura e matemática, no mínimo”.

“Agora, a realidade é que as crianças estão dentro do sistema educativo, mas há uma inabilidade da escola em dotá-los do nível de aprendizado razoável e mínimo para as circunstâncias que demanda o mundo hoje e no futuro”, afirma Montoya.

E isso é resultado de uma série de problemas, como formação deficiente que não prepara os docentes para lidar com os desafios de sala de aula, problemas de infraestrutura, numerosas perdas de dias letivos por conta de greves e outras questões – além, também, da própria situação socioeconômica dos estudantes, que “podem vir de lares de baixa renda e contar com menor apoio familiar”.

“Há uma combinação de fatores que podem variar em cada lugar, mas evidentemente há uma ausência de políticas específicas para enfrentar o problema”, afirma Montoya.

Ela agrega que é preciso analisar os currículos, a formação de docentes – para garantir que sejam capazes de ensinar crianças vindas de contextos sociais difíceis -, contar com um ambiente e uma infraestrutura adequados e ter uma rede de políticas sociais de apoio.

No Brasil, uma nova base nacional curricular, documento do Ministério da Educação que vai definir diretrizes de ensino, está atualmente em fase de consulta pública.

Meninas na escolaAmérica Latina avançou na inclusão de alunos, mas agora precisa de avanços qualitativos no ensino. GETTY IMAGES

“Não há como resolver (o problema da educação) sem uma visão integral do sistema educacional”, opina Montoya.

O problema não se restringe à América Latina – é um drama global.

O relatório da Unesco calcula que, no mundo, haja 617 milhões de crianças e adolescentes – o equivalente a três vezes a população total do Brasil – incapazes de entender minimamente um texto ou resolver problemas matemáticos básicos, o que seria esperado em sua idade escolar.

Na África Subsaariana, 88% dos alunos concluem os estudos equivalentes ao fundamental com problemas de compreensão em leitura. Para efeitos comparativos, esse índice cai para 14% na América do Norte e na Europa.

Fonte – Ángel Bermúdez, BBC Brasil de 11 de outubro de 2017

O real cenário da produção de leite e queijo no Brasil

Vacas felizes de produtor da cooperativa que abastece as marcas Yorgus e VItalatte

Leite, manteiga, creme de leite, chantilly, iogurte, requeijão, queijo

Consumimos toneladas de lácteos, diariamente, do café da manhã ao jantar, sem sequer parar para pensar em como todo esse leite é produzido. Como essas vacas/ovelhas/cabras são criadas, se vivem soltas ou confinadas, do que se alimentam, se recebem hormônios, o que acontece com suas crias após o nascimento.

Assim como os demais alimentos derivados de animais – ovos e carne -, simplesmente comemos, como se eles aparecessem magicamente na prateleira do mercado, embalados, porcionados e totalmente desconectados com o ser que os deu origem.

Durante dois meses, visitei algumas fazendas de gado leiteiro nos estados de São Paulo e Rio de Janeiro: Laticínios Gióia, em Americana, Pardinho Artesanal, em Pardinho, e cooperativa que abastece as marcas Vitalatte e Yorgus, em Valença. Como sempre, as que abrem as portas são aquelas que empregam métodos mais sustentáveis e sensatos de produção: quando a realidade é feia, não se quer jornalista por perto…

A idéia era conhecer o processo para o vídeo acima, focado em produção de queijo – parte do meu canal de jornalismo gastronômico no Youtube, o #ptdk – mas acabou sendo uma descoberta sobre os métodos nada agradáveis da indústria leiteira para com seus consumidores e animais.

Vamos por partes, por que o assunto é complexo. Abaixo, você encontrará respostas para as perguntas mais comuns quando se trata de leite e queijo no Brasil.

Quantas vacas leiteiras existem no país?

Em 2015, o número total de vacas ordenhadas no Brasil atingiu 21,75 milhões de cabeças; a produção de leite de cabra e ovelha, somadas, representam apenas 1,6% do total nacional. Minas Gerais segue sendo o principal produtor de leite (em 2014, 9,37 bilhões de litros), com 77% de toda a produção da Região Sudeste e 26,6% do total nacional (Fonte: Milkpoint)

Quantos litros de leite uma vaca produz por dia?

A quantidade média de leite produzido por vaca, diariamente, varia grandemente com a raça e idade do animal. Enquanto uma Holandesa pode dar até 42 litros/dia, a Jersey fica em torno de 24 litros/dia. Bom esclarecer que a raça do animal, sua alimentação e bem estar (ou não) refletem diretamente na qualidade e sabor do leite que produz. A lei da natureza “você é o que come” não funciona somente para humanos.

Quantos litros de leite são necessários para produzir queijo, iogurte e manteiga?

Para cada quilo de queijo fresco de vaca são necessários, em média, 5 litros de leite; para os curados, 10 litros.

Para cada quilo de queijo fresco de cabra são necessários, em média, 4,5 litros de leite; para os curados, 8 litros.

Para cada quilo de queijo fresco de ovelha são necessários, em média, 3,5 litros de leite; para os curados, 5,5 litros.

Para cada 1 quilo de iogurte grego são necessários 4 litros de leite.

Para cada 1 quilo de manteiga são necessário cerca de 20 litros de leite.

Como é feita a ordenha?

Ordenha mecanizada

Grande parte da ordenha no Brasil é mecanizada. O aparelho funciona por sucção – cuja intensidade é controlada para evitar que machuque o teto da vaca, provocando mastite, inflamação que pode ser tornar grave, generalizada e afetar a vida do animal – com terminais acoplados em cada teto. Correndo por canos, o leite vai direto para um resfriador ou recipiente fechado, sem nenhum contato com o ar, a fim de evitar contaminações e preservar sua qualidade.

Como a vaca pode evacuar pouco antes ou durante a ordenha, os produtores sérios fazem higienizações em cada teto, com antibactericida, antes e depois da ordenha, como forma de diminuir a contaminação do leite por coliformes fecais. Mas a realidade em não-tão-cuidadosos-produtores ainda inclui ordenha manual ou mecanizada com excesso de força, sem higienização e armazenamento do leite em baldes ou recipientes não refrigerados. E o sendo o leite um alimento altamente perecível, o que fazer para aumentar a vida dele nestas condições? Resposta, abaixo.

É verdade que alguns fazendeiros ‘batizam’ o leite com formol?

É. Ainda é. E com ureia, soda cáustica e água oxigenada, também (fonte: Veja).

Há apenas quatro anos, oito pessoas foram presas na Operação Leite Compensado, que apurava a adulteração de leite por cinco empresas de transporte no Rio Grande do Sul. “As investigações, feitas pelas promotorias de Justiça Especializada Criminal e de Defesa do Consumidor da Capital em conjunto com o Mapa, apuraram que as empresas de transporte de leite adulteraram o produto cru entregue para a indústria. Uma das formas identificadas é a da adição de uma substância semelhante à ureia e que possui formol em sua composição. A adulteração é considerada crime hediondo de corrupção de produtos alimentícios, previsto no artigo 272 do Código Penal.” (Fonte: Isto É)

Isso acontece porque as grandes marcas trabalham com milhares de pequenos produtores a fim de ter volume para produzir todo seu queijo, iogurte, leite de caixinha, etc. O recolhimento desse leite é feito apenas em alguns dias da semana, enquanto a ordenha é realizada todos os dias. Aqueles que não tem infraestrutura de refrigeração, para não perderem dinheiro, adicionam químicos que prolongam a vida do leite – mas não fazem o mesmo com quem o consome…

“Após a denúncia da presença de formol no leite adulterado por transportadores no Rio Grande do Sul, feita após investigação da Operação Leite Compensado, do Ministério da Agricultura, autoridades de saúde voltam a fazer o alerta sobre o contato ou uso contínuo da substância pela população, o que traz uma série de prejuízos à saúde, entre eles a pneumonia química e até tumores. Atualmente, há normatização específica que limita a concentração do formol em vários produtos que o utilizam em seu processo de fabricação – a maioria deles cosméticos –, mas procedimentos de beleza como as técnicas de alisamento, proibidas pela Agência Nacional da Vigilância Sanitária (Anvisa) por não respeitar a concentração máxima, ainda são correntes no país” (Fonte: Gazeta do Povo). O químico que alisa cabelo pode estar no seu leite e queijo. Que animador, não?

Quantas vezes são ordenhadas por dia?

Linha de ordenha da fazenda dos Laticínios Gióia: duas ordenhas diárias

Fazendeiros sensatos ordenham duas vezes, sempre respeitando o limite de litragem de cada vaca, que varia com idade, peso, constituição física, etc. Criadores que tratam animais como coisas ordenham até quatro, prejudicando a saúde do bicho e aumentando violentamente a probabilidade de mastite.

O que acontece com os bezerros após o nascimento?

Aqui, na grande parte da indústria, o negócio não é nada bonito, especialmente para quem já viu uma vaca em desespero por ser afastada de sua cria.

Citando texto do site Rural Centro: “O comportamento dos animais é previsível após a separação e pode ser detectado durante semanas após a desmama. Vacas e bezerros permanecem vocalizando repetidamente, passam mais tempo caminhando, ficando menos tempo se alimentando, ruminando e descansando. Essas alterações de comportamento evidenciam que o método tradicional de aparte traz consequências negativas sobre o bem-estar animal.”

Para a indústria, bezerros são apenas perda de leite. E, sendo assim, são alimentados com mamadeiras até a idade em que irão para engorda (machos) ou se juntarão ao rebanho leiteiro (fêmeas). O trato mais comum é este: “Depois do parto, a vaca passa até 24 horas com o bezerro, que é, então, apartado, passando a ser manejada junto às vacas em lactação. Se o rebanho estiver dividido em lotes, para alimentação diferenciada conforme a produção, a fêmea primípara, ou seja, que pariu pela primeira vez, receberá a mesma alimentação do grupo de maior produção”. (Fonte: CPT)

Mas há, sim, quem queira lucro associado a bem estar animal e decência. Na Pardinho, por exemplo, os bezerros ficam até os seis meses com a mãe, mamando livremente em um teto enquanto os outros estão sendo ordenhados. E não é à toa: “Estudo da Embrapa Gado de Corte (CNPGC – Centro Nacional de Pesquisa em Gado de Corte) aponta que vacas e bezerros ficam mais tranquilos, desde os primeiros dias, quando são colocados lado a lado, separados apenas por uma cerca resistente, mantendo o contato visual. Uma pesquisa realizada pela Universidade da Califórnia-Davis descobriu que bezerros manejados assim chegam a ganhar até 30% mais peso nas 10 semanas subsequentes à desmama do que aqueles que foram manejados de forma tradicional” (Fonte: Rural Centro)

São criadas soltas ou confinadas?

Tradicionalmente, soltas, no pasto, com alimentação complementada por grãos. Atualmente, infelizmente, a criação em confinamento está crescendo porque ‘dá mais lucro’. Boa parte desse aumento se deve a predileção nacional por vacas Holandesas. Grandes produtoras de leite, as holandesas são originárias de países frios e montanhosos, sendo perfeitamente adaptadas a baixas temperaturas e altitude.

Imagine uma holandesa sendo criada no Chapadão, em Goiás, no verão de 39 graus. Sofrimento certo. Morte muito provável. Mas o que fazer, então? Enfiar centenas de holandesas em baias dispostas dentro de imensos galpões munidos com ventiladores e sprays de água, totalmente fora de seu habitat, sem acesso a área externa.

Mas, de novo, há um esforço por parte de fazendeiros sensatos em desenvolver uma raça híbrida, menor, mais forte e adaptada ao clima das diversas regiões brasileiras. Porque animais adaptados tem menos doenças, precisam de menos medicamento e manejo e, a médio prazo, dão mais lucro.

Quanto tempo vive uma vaca leiteira?

Entre 6 e 10 anos. Então, são ‘descartadas’, o termo técnico que designa o abate (ou seja, viram ‘carne de segunda’ por terem músculos mais firmes por conta da idade). “O descarte involuntário é aquele em que as vacas são abatidas por problemas de mastite, problemas de pé e pernas, reprodutivos, problemas de úbere, acidentes (traumatismos). Atualmente se faz necessário um trabalho de seleção, visando primeiro as doenças do rebanho como a brucelose, a tuberculose e doenças da reprodução.

Os descartes por problemas reprodutivos sugerem animais mais velhos e evidencia tentativas do produtor resolver este tipo de problema. O descarte de vacas com elevados intervalos entre partos causados por restrição alimentar ou deficiência deve ser evitado. Por condições de alimentação e mineralização inadequadas e de certas doenças, pode ocorrer retenção de placenta e repetição de cio. O descarte por problemas reprodutivos melhora o rebanho a cada geração. Novilhas tardias com dificuldade de emprenhar devem ser descartadas rigorosamente.” (Fonte: Nutroeste)

Vacas leiteiras podem, por lei, receber hormônios?

Sim, diversos. Especialmente para aumentar o volume e tempo de lactação. Os principais são Somatotropina bovina (bST) – ou hormônio de crescimento, o GH -, Prostaglandina, Progesterona, Ocitocina, Estrógeno. (Fonte: PROTOCOLO DE INDUÇÃO DE LACTAÇÃO PARA VACAS HOLANDESAS).

A somatotropina bovina recombinante é um hormônio feito em laboratório, por meio de técnica de DNA, produzido em escala industrial. Claro que os produtores dizem que não passa pro leite, que não tem problemas para humanos, blablabla. Claro. Contudo, há cinco anos, o Ministério Público Federal (MPF) entrou com uma ação questionando a segurança do produto e pedia que a Anvisa regulamentasse a publicidade nas embalagens de leite e carne originários de animais tratados com o BST. Segundo o MPF ‘Em animais, o anabolizante comprovadamente aumenta os casos de mastite (inflamação nos úberes), de inflamações diversas e consequentemente o uso de antibióticos. Em humanos, pode estar relacionado a casos de câncer, diabetes e surgimento de cepas de bactérias resistentes”. Mas, curiosamente, o pedido foi rapidamente arquivado pela AGU, Advocacia Geral da União.

Vários países já proibiram o uso de somatotropina bovina recombinante, caso do Canadá e da União Européia.

E antibióticos?

Sim, os mesmos dados para o gado de corte. Contudo, para a produção de iogurte e queijo, há uma questão técnica que inibe o uso excessivo de antibióticos: na presença deles, o leite não fermenta.”Sendo o antibiótico um agente antimicrobiano de grande eficácia, sua ação não se restringe apenas ao tratamento da enfermidade, levando a inibição de bactérias lácteas, utilizadas nas mais diversas tecnologias de uma indústria de laticínios. O efeito direto é a inibição da flora láctea empregada na produção de produtos fermentados como iogurtes, leites fermentados e queijos”. (Fonte: Queijos no Brasil)

Empresas sérias, como a Vitalatte e Yorgus, fazem análises diárias de amostras de leite de cada produtor com o qual trabalham, descartam qualquer lote com irregularidades (incluindo aí resquícios de antibióticos) e remuneram melhor aqueles que atingem os resultados mais baixos de presença de coliformes.

Qual a diferença entre coalho e fermento lácteo?

Massa coalhada: o primeiro passo na produção do queijo

Coalho é uma substância que promove a coagulação do leite, o primeiro estágio de qualquer queijo e iogurte. Há Coalhos de Origem Animal (enzima retirada do suco gástrico de bezerros na hora do abate), Coalhos pepsínicos (enzima retirada do suco gástrico de bovinos adultos na hora do abate), Coalhos vegetais (como papaína, bromelina e extrato de Cynara cardunculos) e Coalhos microbianos (culturas de bactérias e fungos). Fonte: Agronegocios.

Fermento lácteo é uma concentração específica de bactérias – há milhares delas – que proporcionam à massa coalhada determinadas características aromáticas, gustativas e de textura.

É possível fazer queijo sem fermento lácteo?

Sim, os queijos frescos (ou frescal) não levam.

Qual a diferença entre os queijos de leite cru, de leite pasteurizado e processado?

Queijos de leite cru são aqueles preparados à partir do leite não-pasteurizado. Tendem a ser mais complexos em aroma e sabor por conterem todos os microorganismos do produto original. No Brasil, a lei permite a venda de queijos de leite cru com cura mínima de 60 dias. “Os 60 dias estariam associados ao fato de que esse tempo de maturação seria suficiente para eliminar contaminações microbiológicas, entre elas as ocasionadas por Escherichia coli, Salmonela, Staphylococcus aureus e Listeria monocytogenes, além das zoonoses tuberculose e brucelose. Entretanto, segundo as autoras, trata-se de uma exigência definida de modo arbitrário e a partir de poucas evidências científicas, na metade do século passado nos Estados Unidos.“ (Fonte: Ciência do Leite)

Queijos de leite pasteurizado são os que levam leite aquecido entre 63 e 75 graus, seguido de resfriação, o que mata 99% dos microorganismos potencialmente perigosos a saúde humana (e também toda a complexidade do produto). A grande maioria dos queijos brasileiros pertence a este grupo.

Queijos processados, ou fundidos, são produzidos à partir de leite pasteurizado e, então, derretidos e misturados a emulsificantes.

‘Queijo” processado

Segundo o Ministério da Agricultura, “entende-se por Queijo Processado o produto obtido por trituração, mistura, fusão e emulsão por meio de calor e agentes emulsionantes de uma ou mais variedades de queijo, com ou sem adição de outros produtos lácteos e/ou sólidos de origem láctea e ou especiarias, condimentos ou outras substâncias alimentícias, no qual o queijo constitui o ingrediente lácteo utilizado como matéria prima preponderante na base láctea.

2.1.2. Queijo Processado U.H.T (U.A.T.):Entende-se por Queijo Processado U.H.T (UAT), o produto definido em 2.1.1. submetido, após a fusão, a tratamento térmico de 135 – 145ºC durante 5 a 10 segundos ou qualquer outra combinação de tempo/temperatura equivalente”.

É o que eu chamo de ‘queijo de plástico’.

Fonte – Ailin Aleixo, Gastrolândia de 17 de maio de 2017

Sustentabilidade e o princípio da precaução

Os princípios são utilizados como diretrizes fundamentais pelas práticas jurídicas. Fornecem os fundamentos para a criação de leis e são a essência das normatizações no direito. O Direito Ambiental visa a manutenção de um perfeito equilíbrio nas relações do meio antrópico com as dimensões físicas e biológicas do meio natural e possui alicerces próprios, que são decorrentes não apenas de um sistema normativo ambiental, mas também do sistema de direito positivo em vigor.

Dentre os diversos princípios do Direito Ambiental, se destacam os princípios da prevenção e da precaução.

O princípio da prevenção se caracteriza pela prioridade que deve ser dada para as medidas que evitem o estabelecimento de atentados para as condições ambientais que se considera em equilíbrio, de maneira a reduzir ou eliminar as causas de ações suscetíveis de alterar sua qualidade.

Pelo princípio da prevenção, é permitida a instalação de uma determinada atividade ou empreendimento, mas impedindo que esta ação antrópica cause danos futuros, por meio de medidas mitigadoras ou de caráter preventivo que se comprovem eficazes e eficientes através de ações de monitoramento propostas pelo empreendedor e aprovadas pelo órgão licenciador.

Paulo de Bessa Antunes ressalta que existe “um dever jurídico-constitucional de considerar as condições do meio ambiente quando se for implantar qualquer empreendimento econômico”.

Conforme este doutrinador, a Carta Magna obriga todo empreendedor a proteger o meio ambiente ao exercer sua atividade econômica, razão pela qual se conclui que o princípio da prevenção impõe o equilíbrio entre o desenvolvimento socioeconômico e a preservação ambiental. Sempre se busca a manutenção o equilíbrio ecossistêmico e da homeostase ambiental como premissas da sustentabilidade obtida com equidade social, eficiência econômica e preservação ambiental.

O princípio da precaução, por outro lado, é um estágio além da prevenção. A precaução argumenta que não se deve permitir a realização do empreendimento, se houver risco de dano irreversível. Objetiva a adoção de medidas de vigilância, por parte do Estado e de particulares, para evitar danos futuros, quando incertos e não-comprovados, cujo resultado não possa imediatamente ser avaliado.

Isto não está caracterizado nas condições de prevenção, onde não se avalia risco e se busca apenas estabelecer uma compatibilização entre a atividade e a preservação ambiental.

Assim, pelo princípio da precaução, quando existe risco ou incerteza científica sobre a ocorrência ou possibilidade de dano ambiental, o empreendimento ou a atividade sequer podem e devem ser licenciadas para implantação. A nebulosidade e a complexidade de muitas situações, que são de difícil apropriação, exigem a aplicação deste princípio como fiador da preservação das condições de sustentabilidade.

O ordenamento jurídico brasileiro é bastante explícito sobre a indissociabilidade dos temas concernentes à saúde e ao meio ambiente. E para tanto emprega em defesa da qualidade ambiental e qualidade de vida do povo, os princípios da prevenção e precaução. Um para viabilizar as condições de preservação ambiental. E outro para evitar ações impactantes quando explicitamente comprovadas.

A utilização adequada destas concepções, cada uma em conformidade com as características da situação, é garantia e condicionante prévia para a evolução dos conceitos de sustentabilidade. Se as premissas não são respeitadas, condições posteriores de desequilíbrio podem determinar arranjos que não são mais passíveis de controle ou compatibilização.

O princípio da precaução é um dos vetores de proteção socioambiental previstos na dimensão jurídica. A aplicação criteriosa do princípio da precaução pressupõe sua adequação à proporcionalidade, e a efetivação da disseminação da informação ambiental para fundamentar o debate democrático amplo acerca dos riscos que devem ser evitados pela incerteza das suas consequências.

A Internet, como nova esfera pública, pode se constituir em instrumento essencial à concretização desta demanda do princípio da precaução.

O princípio da precaução é uma das três diretrizes estruturantes do direito ambiental alemão (KLOEPFER, 2004). A análise de sua origem, desenvolvimento e principais aspectos, mostra analogia de exegese requerida pela hermenêutica, no direito brasileiro (FREITAS, 2006; MACHADO, 2007; LEITE e AYALA, 2004, alemão (KLOEPFER, 2004; REHBINDER, 1994), norte-americano (SUNSTEIN, III JORDAN e O’RIORDAN, 2008) e francês (EWALD, GOLLIER e SADELEER, 2001; KOURILSKY e VINEY, 2000; GODARD, 2000).

Este instituto jurídico foi concebido e evoluído no direito ambiental alemão, no controle de emissão de poluentes, a partir da década de 70 do século passado, a partir da noção de que eram necessárias medidas de proteção e preservação do ambiente em face de riscos plausíveis de dano futuro, mesmo que ainda não cientificamente comprovados e confirmados.

O desenvolvimento do princípio da precaução marcou a adoção de uma política de preservação ambiental eminentemente preventiva, contraposta àquela repressiva (REHBINDER, 1994).

A positivação do princípio ocorreu em vasto número de documentos legais internacionais, sendo seu principal marco jurídico internacional a expressa previsão no Princípio 15 da Declaração das Nações Unidas para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento, de 1992.

No direito brasileiro é explicitamente referido na Lei de Biossegurança, de 2005, e implicitamente positivado na Constituição de 1988.

A aplicação do princípio enfrenta obstáculos, como a abstração do instituto, e que dificulta uma conceituação precisa (MACHADO, 2007); a impossibilidade de definição dos riscos que devem ser evitados e de como deve se dar esse combate (EWALD, GOLLIER e SADELEER, 2001); o perigo real do uso de versão desproporcional do princípio (SUNSTEIN, 2008); e a necessidade de respeito à proporcionalidade (SILVA, 2002; CANOTILHO, 2003; ÁVILA, 2004; SARLET, 2005).

Os mecanismos de informação e democratização podem calibrar a proteção adequada, na aplicação do princípio da precaução para viabilizar posteriormente condições satisfatórias de evolução das condições de desenvolvimento sustentável.

A informação é um meio de disseminação dos conhecimentos acerca dos riscos, alertando e conscientizando a população em geral e contribuindo para determinações de sínteses dialéticas fundamentadas, utilizando e agregando conhecimentos formais, culturas tradicionais e toda forma de contribuição (KOURILSKY e VINEY, 2000).

A necessidade da devida disseminação da informação ambiental, bem como a imprescindibilidade do debate acerca dos riscos que enfrentam a sociedade e o planeta, implicam em grandes desafios e paradigmas de nosso tempo.

Quando se aborda sustentabilidade dentro de acepções gerais, são consideradas as apropriações ecodesenvolvimentistas do economista Ignacy Sachs. Eficiência econômica, equidade social e preservação ambiental.

Mas no direito foram se desenvolvendo abordagens próprias, chamadas de princípios ou diretrizes, que se fundamentam nas características peculiares e de raciocínio hermenêutico, próprios da natureza jurídica.

Conforme exaustivamente dissecado, na prevenção ocorre que em vez de avaliar os danos e executar sua reparação, é estimulado que se evite sua ocorrência, controlando as respectivas causas. Metodologias de controle devem ser integradas nas atividades, permitindo identificar ações com impactos deletérios na qualidade de vida da comunidade.

No princípio da precaução próprio da sociedade complexa e de risco que se vive, sempre que se verifique a possibilidade de ocorrência de efeitos que gerem desarmonia significativa e irreversível, a ausência de certeza científica não deve ser utilizada para justificar adiamentos de medidas preventivas de degradação ambiental, que no caso são de inibição do empreendimento.

Ao contrário da interpretação primária e primitiva realizada por muitos empreendedores com grande carência escolar, o princípio do poluidor-pagador não constitui passaporte pago para a destruição ambiental. Este é apenas um princípio específico, prevendo a obrigatoriedade do poluidor em corrigir ou recuperar o ambiente já afetado, não sendo permitido continuar a ação poluente.

O princípio da cooperação determina a procura de soluções em clima de consertação social, com outros atores locais, nacionais ou internacionais para os problemas de ambiente e de gestão dos recursos naturais que venham a ser identificados. A cooperação inicial entre todas as partes interessadas no processo de planejamento e implementação de políticas, planos e projetos pode atenuar alguns obstáculos que se identifique.

A diretriz de integridade ecológica evolui a partir dos conceitos dos ecossistemas urbanos, buscando avaliar ambientes construídos artificialmente do mesmo modo que os ecossistemas no mundo natural. Nesta apropriação, sustentabilidade significa que não se pode aumentar as necessidades indefinidamente. Políticas têm que ser formuladas e implantadas de forma participativa, de modo a assegurar uma proteção adequada da biodiversidade e da manutenção dos principais processos ecológicos e dos sistemas que suportam a vida.

Aplicado em normatizações e no aprimoramento de situações de vida, o princípio da melhoria contínua determina a necessidade do desenvolvimento de políticas, planos e projetos dinâmicos, flexíveis e participativos, reconhecendo a necessidade de adaptações e alterações, seguindo uma lógica de progressão contínua rumo à sustentabilidade. A este princípio estão associados os conceitos de avaliação e monitoramento constante de todas as situações.

A diretriz da equidade intra e entre geracional, propugna a necessidade de assegurar a melhoria da qualidade de vida da população em geral, tanto nas gerações atuais, como nas futuras.

O princípio da integração determina a criação dos meios adequados para assegurar a conexão das políticas de crescimentos econômico, bem estar social e de conservação da natureza, tendo como finalidade o desenvolvimento integrado, harmônico e sustentável. É inspirada em Ignacy Sachs.

A diretriz de participação democrática propõe que a sustentabilidade deve ser fomentada por processos participativos, que permitam que a comunidade integralmente tenha o mesmo envolvimento no processo de tomada de decisão e participação satisfatória nas resultantes das intervenções sociais.

O princípio da subsidiariedade implica que as decisões devem ser tomadas ao nível de decisão o mais próximo possível do cidadão. Embora simples, tal proposição representa uma aproximação com demandas sociais de avaliação intangível.

O princípio do envolvimento comunitário e transparência, reconhece que a sustentabilidade não pode ser alcançada, nem pode haver um progresso significativo nesse sentido, sem o suporte e o envolvimento de toda a comunidade. O processo de tomada de decisão deve ser claro, explícito e público.

Por fim, o princípio da responsabilização aponta para que os agentes sejam protagonistas das suas ações, direta ou indiretamente sobre os recursos naturais finitos e sobre as vulnerabilidades das complexas inter-relações ambientais.

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Dr. Roberto Naime, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em Geologia Ambiental. Integrante do corpo Docente do Mestrado e Doutorado em Qualidade Ambiental da Universidade Feevale.

 

Fonte – EcoDebate de 17 de outubro de 2017

Na mira do MPF, irregularidades na CTNBio vêm à tona com a cana transgênica

cana.jpgNo começo de junho, a CTNBio liberou a comercialização da cana transgênica. A planta é das mais estudadas pelo presidente do órgão, agora em meio a suspeitas de conflitos de interesses

Comando da comissão tem no currículo pesquisas financiadas por indústrias de agrotóxicos e de sementes transgênicas. Ligações podem respaldar ação do MP contra planta geneticamente modificada

Os conflitos de interesses envolvendo integrantes da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) estão na mira dos procuradores da Câmara de Meio Ambiente do Ministério Público Federal (MPF). Entre outras coisas, eles apuram ligações de ex e atuais integrantes com entidades voltadas ao lobby pró-transgênicos, com indústrias de sementes, de agrotóxicos e de alimentos que terão lucros com a biotecnologia, bem como posicionamentos públicos em desacordo com a função que ocupam na comissão. É o caso de componentes que assinam cartas abertas à comunidade científica em defesa desses organismos geneticamente modificados (OGM).

Por mais transparência dos procedimentos e processos, o MPF enviou ofício à CTNBio no dia 15 de maio. O coordenador da Câmara de Meio Ambiente, o subprocurador-geral da República Nívio de Freitas, que assinou o ofício, elenca medidas a serem tomadas no órgão criado para assessorar o governo federal em tema por natureza tão complexo, que são os transgênicos.

Entre elas, dar mais objetividade e especificidade ao regimento, inclusive com hipóteses expressas para a conduta ética dos seus integrantes, para que interesses públicos e particulares não sejam confundidos em prejuízo da sociedade brasileira. Do mesmo modo, criar mecanismos para a distribuição equânime, equilibrada e impessoal dos eventos submetidos a análise na comissão e dar publicidade às reuniões. Tudo isso à luz das leis 12.846/13, mais conhecida como “lei anticorrupção” e a 12.813/13, que caracteriza a presença do conflito de interesses sempre que a atribuição no exercício do cargo proporcionar informação privilegiada capaz de trazer vantagem econômica para o agente público.

No entanto, esse princípio estabelecido pela legislação que dispõe sobre essas relações no poder executivo ainda não é adotado no órgão. Pelo regimento interno, o conflito é reduzido, de maneira genérica, à participação de membro na análise de processo na unidade operativa da instituição proponente com a qual possua vínculo institucional, assim como a vinculação do membro à comissão interna de biossegurança da instituição onde trabalha. A CTNBio afirma já estar discutindo alterações em seu regimento, que preveem ampla revisão da legislação vigente. O tema estará na pauta da próxima reunião, em agosto.

Assédio econômico

O conhecido assédio econômico das grandes corporações transnacionais, comum em todo o mundo, encontraria terreno fértil também em falhas normativas internas. Especialmente a ausência de critérios claros e objetivos para a distribuição isenta dos processos para liberação de transgênicos e para definir impedimentos e até a suspeição de determinados componentes em relação a procedimentos. Ou mesmo para a escolha dos pedidos de liberação que serão analisados e colocados em votação. Outro aspecto destacado pelos procuradores é a dificuldade de acesso da sociedade civil às reuniões, principalmente aquelas que liberam, para pesquisa ou comercialização, novos transgênicos. A comissão, por sua vez, argumenta que todas as reuniões são públicas, exceto aquelas para discussões referentes às informações sigilosas.

As irregularidades comuns desde que a CTNBio foi criada, em 2005, estariam associadas à aprovação de todos os processos de liberação desses organismos submetidos à comissão formada por especialistas em diversas áreas, todos com título mínimo de doutor, cujos mandatos de dois anos podem ser renovados por mais duas gestões conforme as indicações de seus respectivos segmentos.

Em outras palavras, até hoje a ampla maioria desses doutores, muitos deles na área de saúde, com larga experiência inclusive em câncer e outras doenças diretamente associadas aos agrotóxicos e, indiretamente, aos transgênicos, aprovaram e continuam aprovando os OGMs apesar da insuficiência e falhas das pesquisas científicas a respeito. Nessa maioria estão nomes reconhecidos mundialmente e até representantes de entidades sindicais de empresas estatais, em descompasso com os sindicatos cada vez mais convergentes na defesa da saúde pública, ambiental e do princípio da precaução.

Preocupação

“Outra preocupação que temos é com a falta de clareza dos critérios para colocação dos pedidos de liberação em pauta de votação. Não sabemos quais definem o que que vai ser colocado em votação, o que não vai. É importante que isso fique claro para que as pessoas saibam quais são os processos que vão entrar me votação”, afirma o coordenador do grupo de trabalho Agrotóxicos e Transgênicos da Câmara de Meio Ambiente do MPF, o procurador Marco Antônio Delfino.

Em 8 de junho passado, pouco mais de um mês após receber as recomendações do MPF, a CTNBio aprovou a liberação comercial da cana de açúcar modificada geneticamente para a inserção de toxinas inseticidas, que a princípio seriam capazes de matar a broca da cana, sua praga mais comum. O pedido, protocolado no final de dezembro de 2015, tramitou em regime de urgência.

Em 17 meses o OGM estava aprovado. E isso apesar das falhas apontadas por um parecer a respeito dos testes apresentados pelo Centro de Tecnologia Canavieira (CTC). Para especialistas, essas pesquisas estão longe de atender às próprias regras da comissão. Muito menos de garantir a segurança da biotecnologia em questão quanto à saúde e ao meio ambiente. Tampouco sua eficácia, que será minimizada com o esperado aumento da resistência das pragas conforme demonstrado em pesquisas de longo prazo realizadas nos Estados Unidos, apresentadas à comissão na única audiência pública realizada, em outubro passado. Não é à toa que novas canas geneticamente modificadas, dessa vez resistentes a herbicidas, estão na fila.

Liberação

Segundo integrantes da CTNBio, que ainda não divulgou ata da sessão de 8 de junho, entre os 15 doutores que votaram pela liberação da cana transgênica está o presidente da comissão, Edivaldo Domingues Velini. Professor da Faculdade de Ciências Agronômicas da Unesp de Botucatu desde 1985, e seu diretor de 2009 a 2013, o agrônomo dedicou grande parte de seu tempo a pesquisar plantas daninhas, herbicidas e a cana.

Em seu currículo Lattes, disponível na base de dados do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), Velini declara que, além das agências oficiais de fomento, como a Fundação de Amparo à Pesquisa no Estado de São Paulo (Fapesp) e o próprio CNPq, indústrias de agrotóxicos e de sementes transgênicas têm financiado boa parte de suas pesquisas – o que levanta indícios de conflito de interesses.

Arysta Lifescience, empresa de atuação global, detentora de mais de 200 ingredientes ativos utilizados em fungicidas, herbicidas, inseticidas e tratamento de sementes, está entre os maiores financiadores de pesquisa conduzidas por ele em parceria com outros colaboradores, entre eles alunos e sócios em seus negócios privados.

A parceria com a indústria começou em 2005, para o desenvolvimento de aplicação de herbicida contra ervas daninhas da cana, e continua por meio de um estudo iniciado em 2008, para avaliar mecanismos para determinar condições de seletividade de herbicidas inibidores da fotossíntese da cana de açúcar. Nesse meio tempo, foram financiados outros três, geralmente envolvendo agrotóxicos e cana.

Com atuação no mercado de agrotóxicos e sementes transgênicas, a alemã Basf financiou dois estudos. Um de longa duração, entre 2003 e 2008, em busca de informações quanto ao melhor uso de um de seus herbicidas em cana de açúcar, e outro entre 2008 e 2011 para instalação de ensaio de eficácia biológica em cana e eucalipto.

De 2008 para cá, a concorrente Syngenta tem pago pela avaliação do desempenho de herbicidas em cana de açúcar. E de 2004 a 2007, outra gigante do setor, a Dow Agroscience, financiou testes de Velini para o desenvolvimento de método para estimativas para aplicações comerciais de agrotóxicos.

Outra ligação

O presidente da CTNBio tem outra ligação com o mundo dos herbicidas e da cana. De acordo com a Junta Comercial de São Paulo (Jucesp), até março passado ele era sócio da empresa de consultoria Agro-Analítica. Empresa, aliás, que financiou algumas de suas pesquisas com herbicidas e cana no período de 2005 a 2007, e de 2008 a 2010.

Outra coincidência seria o foco da atuação da Agro-Analítica no setor canavieiro. Desde 2007, a consultoria é responsável pela organização do Encontro Tecnológico da Cultura da Cana de Açúcar – Tecnocana, grande evento do segmento. A Tecnocana deste ano, realizada nos dias 15 e 16 de março, enquanto Velini ainda era sócio da consultoria, obteve patrocínio da Arysta, Basf, Bayer, Dow, Du Pont e Syngenta, entre outras.

Para Marco Antônio Delfino, do MPF, a CTNBio sempre mereceu atenção – e preocupação – dos procuradores da Câmara de Meio Ambiente. Questionado sobre os dados levantados pela reportagem, ele destaca a necessidade de mais elementos a serem apurados. Mas adianta: “Falando de maneira objetiva, Velini não poderia ter colocado o processo em votação e nem votado. Então, se ele votou, é possível ser anulada a sessão que liberou a cana porque haveria um conflito de interesses manifesto.”

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Fonte – Cida de Oliveira, RBA de 21 de junho de 2017