Árvores urbanas ajudam a economizar na conta de luz

MaceióMaceió, Alagoas, é beneficiada pela vegetação (Foto: Jorge Brazil / Flickr)

A importância das árvores ganha cada vez mais espaço na pauta das cidades. Além de essenciais para o combate às mudanças climáticas e para o visual do ambiente urbano, proporcionam conforto para as pessoas com suas sombras, amenizando o efeito das altas temperaturas. Ainda assim, há quem ache que cortá-las é o caminho para aumentar as áreas de construção e desenvolvimento.

Mas e se vantagens econômicas forem somadas às vantagens ambientais? Uma pesquisa realizada por cientistas do Serviço Florestal do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA Forest Service) mostra que as árvores também ajudam a economizar o consumo de energia nos edifícios, o que reflete diretamente nas contas de luz.

Os dados mostram que as casas dos Estados Unidos gastam estimados 10,18 bilhões de Btus, sendo 47,7% dessa energia proveniente de aquecedores e aparelhos de ar-condicionado. “Esse consumo de energia não apenas tem custos monetários substanciais para os residentes, mas também gera custos associados às emissões de poluentes atmosféricos provenientes da produção de energia”, diz o estudo.

Nesse sentido, não é surpreendente como as árvores podem ajudar na economia: produzem sombra, bloqueiam ventos e reduzem as temperaturas através da evaporação da água das folhas (transpiração e arrefecimento). Com isso, durante o verão, é reduzida a necessidade de condicionamento de ar. No entanto, durante o inverno, essa mesma sombra deixa o ambiente mais frio e incentiva as pessoas a ligarem os aquecedores.

Essa questão foi levada em conta pelos pesquisadores, que consideraram onde as árvores estavam localizadas em relação à luz do sol e à velocidade do vento, e o quanto de suas folhas caíam durante o outono e o inverno. Também foram combinados dados de campo com mapas locais para chegar a uma estimativa nacional.

O resultado estimado é que as árvores nos EUA ajudam a economizar cerca de US$ 7,8 bilhões ao reduzir os custos de energia a cada ano, e cerca de US$ 3,9 bilhões anuais com a redução de emissões. De acordo com a pesquisa, focar o plantio de árvores em áreas com maiores densidades populacionais, mesmo sendo apenas 3,6% de toda a área do país, já levaria a uma grande economia.

Ou seja, a solução não é sair plantando em qualquer lugar, mas pensar no tamanho, na espécie e na direção que a árvore vai ser colocada. Por exemplo, a pesquisa explica que “embora os resultados variem de acordo com a zona climática, em geral, grandes árvores no lado oeste dos edifícios fornecem a maior redução média no consumo de energia de refrigeração, enquanto grandes árvores no lado sul tendem a levar a um aumento ainda maior no uso de energia durante o inverno”.

Economia no transporte

Outra forma de reduzir as emissões de gases de efeito estufa e gerar economia é investindo no transporte ativo, pensando no desenvolvimento das cidades de forma que o ambiente seja propício para deslocamentos a pé, por exemplo. E um dos oito princípios da calçada, defendidos pelo WRI Brasil Cidades Sustentáveis, é ter um espaço atraente, que pode ser aprimorado com a vegetação. A árvores que gera sombre e se mostrou eficiente para a economia na pesquisa americana, também proporciona conforto e protege os pedestres do tráfego de veículos, reduz o risco de inundações, valoriza as propriedades e cria estética positiva para o comércio .

Uma análise foi realizada na cidade de Maceió, Alagoas, com o objetivo de identificar a importância da vegetação na redução do consumo energético, e evidenciou o efeito amenizador da temperatura do ar proporcionado, reduzindo os valores sobretudo nos horários entre 9h e 15h. As áreas arborizadas também apresentaram um aquecimento mais lento.

As árvores, portanto, passam a contribuir com a saúde das pessoas tanto no aspecto físico, a partir de um ar mais puro e mais conforto para caminhadas, quanto no financeiro, ao contribuir para reduzir a conta de luz. Resta encontrar formas de melhorar a vegetação das áreas urbanas, incluindo essa preocupação desde o princípio do planejamento.

Fonte – 

COESUS divulga novo modelo de Projeto de Lei para os municípios banirem o fracking

A versão é a mais atualizada e protege a população dos riscos e impactos ambientais, econômicos e sociais da exploração do gás do folhelho de xisto – e outros hidrocarbonetos – por fraturamento hidráulico, ou fracking, e qualquer outro método não convencional

Já está disponível a versão 9.1 do Projeto de Lei – com Justificativa Técnica – idealizada pela COESUS – Coalizão Não Fracking Brasil pelo Clima, Água e Vida – e parceiros para banir definitivamente o fraturamento hidráulico, tecnologia altamente poluente usada para explorar do subsolo o gás do folhelho de xisto também chamado de fracking, das cidades brasileiras.

ACESSE A ÍNTEGRA DO ANTEPROJETO DE LEI  E A JUSTIFICATIVA  

“Estamos disponibilizando uma nova versão do Projeto de Lei, construída coletivamente para proibir o fracking, que deve ser atualizada em todas as cidades que já aprovaram as versões anteriores e servir de modelo para aqueles municípios que querem defender da contaminação suas reservas de água, o solo fértil e a saúde das famílias e animas“, disse Juliano Bueno de Araujo, coordenador de Campanha Climáticas da 350.org e da COESUS.

Segundo Juliano, “mais de 280 cidades brasileiras já disseram não ao fracking e a qualquer tipo de exploração minerária de hidrocarbonetos que, além dos impactos devastadores, ainda intensificam as mudanças climáticas. Temos que dizer não aos combustíveis fósseis e exigir investimentos em energias renováveis, limpas e 100% seguras”.

O anteprojeto de lei “dispõe sobre a proibição da concessão de alvará e/ou licença para o uso do solo e para o tráfego de veículos em vias públicas, a outorga e o uso de águas, a queima de gases na atmosfera, a vedação da concessão de anuência prévia em licenciamentos e outorgas de água com a finalidade de exploração e/ou explotação dos gases e óleos não convencionais (gás de xisto, gás metano carbonífero e outros) pelos métodos de fratura hidráulica – e refraturamento hidráulico – na esfera da competência municipal, bem como proíbe a instalação, reforma ou operação de atividades, serviços, empreendimentos e obras de produção, comercialização, transporte, armazenamento, utilização, importação, exportação, destinação final ou temporária de resíduos, ou quaisquer outros produtos usados para o fraturamento ou refraturamento hidráulico, componentes e afins, gás metano carbonífero e similares, metais pesados e radioativos, em todo o território do Município”.

PL proíbe as pesquisas sísmicas

Em seu Artigo 6º, “fica proibida a realização de aquisições sísmicas, em suas diversas formas, em especial aquelas que utilizam caminhões e estruturas de vibradores do solo e/ou explosivos, bem como quaisquer atividades correlatas que possam, potencial ou efetivamente, oferecer risco à vida, à integridade física e a prédios e construções, públicos ou privados, a estruturas naturais e a monumentos históricos e ainda às atividades agrosilvopastoris e de piscicultura, à fauna silvestre ou de qualquer forma afetar a biodiversidade”.

A proposta também estabelece, em seus Artigos 9 e 10 a aplicação de multa para o descumprimento da legislação e no Artigo 11 quais órgãos da administração municipal  deverá fiscalizar a sua aplicação.

Na Justificativa Técnica, a proposta é respaldada pela Constituição Federal, no seu Artigo 225, caput, que estabelece: Defender e preservar o equilíbrio ecológico do meio ambiente não é só um Direito, mas constitui também um dever, tanto dos poderes públicos quanto da coletividade.

Além disso, deixa evidente que configuram deveres específicos dos poderes públicos, dentre outros, a obrigação de controlar o emprego de técnicas, métodos e substâncias que comportem risco para a vida, a qualidade de vida e o meio ambiente, além da exigibilidade de estudos prévios de impacto ambiental, que devem ser acessíveis ao público, para a instalação, reforma ou uso de obras, atividades, empreendimentos ou serviços potencial ou efetivamente causadores de degradação ambiental, conforme os Incisos IV e V do § 1º do mesmo Artigo 225. O mesmo Direito/dever de conservar o meio ambiente ecologicamente equilibrado, visto que sem ele não existe vida com boa qualidade, foi inscrito nas Constituições de 1989 de todos os Estados.

No Paraná, por exemplo, o Artigo 207, inclui também a proteção dos ecossistemas e o uso racional dos recursos ambientais como uma imposição ao Estado, aos Municípios e à coletividade.

A grande maioria das Constituições Estaduais fez eco ampliado das disposições federais relativas à garantia de condições para a atividade econômica geradora de emprego e renda, da saúde da população e da boa qualidade dos recursos ambientais essenciais à vida, enfim para o bem-estar coletivo.

Fonte – Não Fracking Brasil de 20 de março de 2017

Amazônia pode entrar em ciclo de desmatamento e seca

Trecho desmatado na AmazôniaDesmatamento reforça seca na região amazônica

Pesquisa revela que desmatamento e seca são fenômenos que se reforçam mutuamente na região. Ação humana e redução de chuvas podem transformar floresta em savana.

A Floresta Amazônica corre o risco de cair em um círculo vicioso de seca e desmatamento provocado pela ação humana e pela redução das precipitações na região, segundo um estudo publicado nesta segunda-feira (13/03) na revista científica Nature.

Baseada numa complexa e inovadora análise dos fluxos de água, a pesquisa, liderada pela cientista Delphine Clara Zemp, do Instituto de Pesquisa Climática de Potsdam (PIK), aprofunda a estreita relação existente entre o desmatamento e a seca.

“Por um lado sabemos que a redução de precipitações aumenta o risco de desmatamento e, por outro, este desflorestamento pode intensificar a seca na região”, afirmou Zemp.

Vídeo – Poeira do Saara ajuda a manter a Amazônia viva.

“Por isso, quanto maior a seca, menor a floresta, e quanto menor a floresta, maior a seca. E assim sucessivamente. As consequências deste círculo vicioso entre as plantas e a atmosfera que as rodeia não estão claras”, acrescentou.

A pesquisadora destacou que o estudo “proporciona mais luz sobre esta questão, sublinhando o risco de que o desmatamento está diretamente relacionado à redução de precipitações”. Embora a média de chuvas não varie drasticamente, a extensão das secas afetará a região que poderia se transformar numa savana, segundo as previsões lançadas pela publicação.

De acordo com o coautor do estudo Henrique Barbosa, da Universidade de São Paulo (USP), o ciclo de água na Amazônia é extremamente suscetível às mudanças ambientais.

“A ação humana está impondo perturbações maciças no Amazonas, pela poda de árvores e pelos gases do efeito estufa que reduzem a umidade e as precipitações, e acaba afetando até as partes inexploradas da floresta”, detalhou Barbosa.

Além disso, o estudo sustenta que uma das fortalezas que tem a floresta para resistir a essa ameaça é a diversidade na vegetação.

“Como cada espécie reage de maneira diferente, ter uma grande diversidade na vegetação pode significar que o ecossistema resista melhor”, afirmou Marina Hirota, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), também coautora.

“Preservar a biodiversidade se transforma não só numa questão de amar a natureza, mas num elemento estabilizador do sistema terrestre”, concluiu.

Mundurukus às margens do Tapajós

Brasilien Volkstamm Munduruku Tatoo

Junto às margens – Os índios da etnia munduruku habitam principalmente as regiões de florestas, às margens de rios. Estão distribuídos especialmente no vale do rio Tapajós, no Pará, e nos estados do Amazonas e Mato Grosso. Atualmente, estima-se que a população de índios munduruku seja de 12 a 15 mil.

Brasilien Volkstamm Munduruku Maria Aniceia

A cacica – Atualmente, algumas aldeias de munduruku são representadas por mulheres, conhecidas como cacicas. Maria Anicéia Akay Munduruku, da região do Alto Tapajós, faz parte do movimento pela demarcação da Terra Indígena Sawré Muybu e contra a construção de hidrelétricas. Ela não fala português: para se comunicar com os demais fora da comunidade, ela precisa da ajuda na tradução, feita pelo marido.

Brasilien Volkstamm Munduruku Demarkation

As ameaças – Os moradores da Terra Indígena Sawré Muybu aguardam a homologação do território que habitam há pelo menos três séculos. A área, de 178 mil hectares, sofre ameaça principalmente de madeireiros, garimpeiros e, agora, pode ser impactada pela construção de hidrelétricas. Como estratégia, os indígenas iniciaram a autodemarcação do território com instalação de placas que imitam as oficiais.

Brasilien Volkstamm Munduruku Tapajos Fluss

A essência da vida – Para os mundurukus, o rio Tapajós é a essência da vida indígena. Eles dependem de suas águas principalmente para se alimentar e se locomover. Estudos apontam a existência de mais de 110 espécies de peixes, além do peixe-boi e ariranha. Animais como anta e tamanduá-bandeira também vivem às margens do rio.

  • Brasilien Volkstamm Munduruku Alltag

    Trabalho diário – Na época de chuvas, que vai de dezembro a maio, o nível do Tapajós chega a subir sete metros. Já na estação seca, de junho a novembro, a água volta ao curso normal. Nos igarapés da aldeia Sawré Muybu, indígenas tomam banho, lavam a louça e a roupa no começo e no final do dia.

    Brasilien Volkstamm Munduruku Kinder

    Professores indígenas – As crianças munduruku frequentam a escola da aldeia, sob orientação de professores indígenas. Normalmente, apenas o ensino fundamental é oferecido nas comunidades. Na foto, as meninas brincam na sala de aula compartilhada na aldeia Sawré Muybu durante o período de férias escolares. Alguns animais, como macaco, papagaio, cachorro e capivara convivem com as crianças na aldeia.

    Brasilien Volkstamm Munduruku Kaxidi Getränk

    A bebida tradicional – Em ocasiões especiais, como visitas à comunidade, as famílias mundurukus preparam uma bebida conhecida como kaxidi. Ela é feita de batata-doce, farinha de mandioca e caldo de cana ou açúcar. Embora consumam principalmente alimentos cultivados nas roças, alguns produtos não tradicionais fazem parte da dieta há algum tempo, como açúcar, sal, café, e são comprados na cidade cerca de uma vez por mês.

    Brasilien Volkstamm Munduruku Maniokmehl

    Mandioca, batata-doce, cará e banana – A farinha é o principal alimento nas aldeias mundurukus. Ela é fabricada artesanalmente, por quase toda a família. A mandioca, plantada na roça familiar, é triturada, ralada e depois torrada num tacho aquecido com lenha. O produto é armazenado em sacos de estopa e servido praticamente em todas as refeições. Além da mandioca, os índios cultivam principalmente batata-doce, cará e banana.

    Brasilien Volkstamm Munduruku Teles Pires Wasserkraftwerk

    A ameaça – Vista aérea da hidrelétrica Teles Pires, construída no leito do rio homônimo, afluente do Tapajós, localizada na divisa dos estados do Pará e Mato Grosso. Pronta desde 2015, a usina tem potência instalada de 1820 MW, mas ainda está praticamente sem produzir eletricidade devido à falta de linhas de transmissão. A cor verde mais clara indica área de floresta que foi submersa.

    Brasilien Volkstamm Munduruku Sao Manoel Wasserkraftwerk

    Participação chinesa – Imagem aérea mostra obras de construção da hidrelétrica São Manoel, com início de operação prevista para janeiro de 2018. Com participação da indústria chinesa, empreendimento está orçado em R$ 2,2 bilhões. A usina também está localizada no rio Teles Pires, afluente do Tapajós, e terá capacidade para gerar 700 MW.

    Brasilien Volkstamm Munduruku Tapajos Fluss

    Perda da terra e fim da subsistência – Se construída, a hidrelétrica São Luiz do Tapajós ficará nesse trecho do rio, que tem águas verde-azuladas, corredeiras, praias, cachoeiras e igarapés. Os reservatórios poderão inundar até 7% da Terra Indígena Sawré Muybu. Para os mundurukus, o barramento do rio significa a perda de território e dos meios de subsistência, além de piorar qualidade da água e interferir na reprodução dos peixes.

    Fonte CN/efe/lusa/DW de 13 de março de 2017

Glifosato: o veneno está em todo lugar

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Altas doses do herbicida da Monsanto foram encontradas em alimentos nos EUA e consumidos em várias partes do mundo, inclusive no Brasil

O primeiro teste em alimentos para resíduos de glifosato realizado por laboratório registrado na Administração de Alimentos e Medicamentos dos Estados Unidos (FDA, na sigla em inglês) encontrou níveis alarmantes de contaminação em produtos dos mais tradicionais no país e mostrou o quão inadequada é a regulação dos resíduos de pesticidas. O estudo Glifosato: inseguro em qualquer prato, feito pelo laboratório de testes de segurança alimentar Aresco por solicitação do Food Democracy Now! e The Detox Project, reuniu também pesquisas independentes, realizadas em outros países, que chegaram aos mesmos resultados.

Glifosato é o herbicida mais consumido no mundo. O ingrediente ativo do Roundup da Monsanto é o “mata mato” mais pesadamente utilizado na agricultura industrial na história da humanidade – consequência da adoção generalizada de culturas transgênicas, hoje cultivadas em mais de 80% dos 70 milhões de hectares nos EUA e mais de 120 milhões de hectares em escala global. O Brasil cultivou uma área de 44,2 milhões de hectares de transgênicos na safra 2015-2016.

No meio urbano, o glifosato é usado na manutenção de gramados em parques, praças e condomínios. O mercado do herbicida foi avaliado em US$ 5,46 bilhões em 2012 e tem como meta chegar a US$ 8,79 bilhões até 2019.

Ingestão ‘inaceitável’

Os reguladores dos EUA consideram como Ingestão Diária Aceitável (IDA) de glifosato 1.75 miligramas por kilo do peso corporal (1.75 mg/kg/dia). Na União Europeia esse limite é de 0.3 mg/kg/dia. Esses níveis de tolerância foram definidos com base em estudos patrocinados pela próprias corporações fabricantes de agrotóxicos e mantidos em sigilo em nome do segredo industrial. Uma equipe de cientistas internacionais reclama um IDA muito mais baixo, de 0.025 mg/kg/dia – 12 vezes inferior ao definido atualmente na Europa e 70 vezes inferior ao permitido nos EUA.

A União Europeia aprovou sua comercialização até o fim de 2017, à espera das conclusões da Agência Europeia de Produtos Químicos, mas propôs restringir sua utilização em parques e outros espaços públicos. Uma campanha envolvendo organizações não governamentais de 15 países europeus luta para que essa permissão não seja renovada.

No Brasil o limite de ingestão é de 0.042 mg/Kg/dia, com um detalhe: o glifosato não está incluído nos testes da Anvisa para resíduos de agrotóxicos em alimentos, muito embora seja o mais consumido no país. Mais de 8 milhões de toneladas foram despejados nas terras brasileiras somente entre 2010 e 2014.

Novas evidências

As novas evidências científicas mostram que não há níveis seguros de glifosato para a saúde humana e animal. Os danos prováveis podem começar em níveis ultrabaixos, de 0.1 partes de glifosato por bilhão (ppb). Até mesmo 0.05 ppb podem provocam danos nos rins e fígado de ratos, pela alteração nas funções de 4.000 genes.

Os testes promovidos pela Food Democracy Now! revelaram que produtos alimentares muitos populares nos EUA e no mundo – como o salgadinho Doritos, da Pepsico, os flocos de milho da Kellogg’s e o biscoito Oreo, da Kraft Foods, por exemplo, muito consumidos também no Brasil – tiveram resultados entre 289,47 ppb e 1.125,3 ppb.

Danos causados pelo Glifosato/Roundup em números (ppb)
0,1 ppb: dano severo em órgãos de ratos
0,1 ppb: nível permitido de glifosato e todos os outros herbicidas na água de torneira na União Europeia
10 ppb: efeitos tóxicos no fígado de peixes
700 ppb: alterações em rins e fígado de ratos
700 ppb: nível permitido de glifosato na água de torneira dos EUA
11.900 ppb: encontrado em soja transgênica
1.125,3 ppb: encontrado na Cheerios da General Mills

As doenças

Desordens gastrointestinais, obesidade, diabetes, doenças cardíacas, depressão, autismo, infertilidade, câncer, mal de Alzheimer, mal de Parkinson, intolerância ao glúten. A lista dos males atribuídos à ingestão de glifosato não para de crescer. O estudo detalha algumas delas.

Câncer. A despeito da insistência da Monsanto de que o glifosato é perfeitamente seguro, “mais que sal de mesa”, um número crescente de estudos revisados pela comunidade científica está encontrando ligações entre glifosato e câncer. Em março de 2015, a Agência de Pesquisa sobre Câncer (IARC, na sigla em inglês) da Organização Mundial de Saúde (OMS) declarou ser o glifosato “provável causador de câncer humano”. A decisão foi baseada em pesquisas de 17 especialistas em câncer de 11 países, que reuniu-se para avaliar a carcinogenicidade de cinco pesticidas. A revisão do glifosato levou o Parlamento Europeu a proibir seu uso não-comercial em áreas públicas e restringir seriamente o uso na agricultura. A Monsanto é alvo de várias ações judiciais nos EUA, com base em avaliações de que o glifosato é o agente causador de câncer em fazendeiros, trabalhadores rurais, aplicadores do pesticida e outras pessoas expostas a ele com frequência. Há preocupação especial com relação aos seguintes tipos de câncer: Linfoma Não Hodgkin, câncer de osso, câncer do cólon, câncer de rim, câncer de fígado, melanoma, câncer do pâncreas, câncer de tiroide.

Alterações hormonais. Um número crescente de evidências científicas aponta o glifosato como desregulador endócrino. Há mais de duas décadas estudos vêm mostrando que mesmo um baixo nível de exposição a certos produtos químicos, o glifosato entre eles, podem alterar a produção e recepção de hormônios vitais para o corpo, podendo causar problemas reprodutivos, aborto, reduzir a fertilidade e que a mudança nos níveis hormonais podem resultar no início prematuro da puberdade, obesidade, diabetes, problemas com a função imune e comportamentais, como déficit de atenção e hiperatividade.

Efeito bactericida. Enquanto a Monsanto continua a negar qualquer impacto na saúde humana e animal, novas pesquisas geram crescente preocupação quanto aos prováveis efeitos do glifosato no equilíbrio do microbioma gastrointestinal, ou bactérias intestinais benéficas, enquanto aumenta o número de espécies patogênicas, podendo levar a problemas de saúde como a síndrome do intestino irritável e a intolerância a glúten. Um estudo pioneiro da Nova Zelândia descobriu, em 2015, que a exposição contínua ao Roundup pode levar bactérias a se tornar resistentes a antibióticos, um problema crescente para a saúde humana e animal.

Doenças crônicas. Cientistas descobriram que pessoas cronicamente doentes têm níveis “significativamente mais altos de glifosato na urina do que pessoas saudáveis”. Verificaram também que as pessoas com dieta convencional têm muito mais resíduos de glifosato do que aquelas que se alimentam com comida orgânica.

Imersos em veneno

O estudo da Food Democracy Now! mostra que o uso generalizado de glifosato nos EUA levou o veneno a espalhar-se livremente pelo ambiente. Nos últimos anos, foram descobertos resíduos do veneno na água e alimentos consumidos no dia a dia, na urina humana, no leite materno e na cerveja, entre outras substâncias. Vale lembrar que a contaminação dos alimentos não pode ser removida pela lavagem e não é eliminada com cozimento, congelamento ou processamento da comida.

Os níveis de Roundup e outros herbicidas com glifosato usados no agronegócio dos EUA são hoje tão altos que o órgão de Pesquisa Geológica dos EUA (U.S. Geological Survey – USGS) encontrou o veneno em mais de 75% das amostras de água da chuva no Meio-Oeste do país. A pulverização aérea de Roundup leva o herbicida às culturas e também aos corpos d’água e também às nuvens, pela evaporação, e elas podem precipitar-se em locais muito distantes da aplicação. O número crescente de “ervas daninhas” resistentes ao glifosato está levando fazendeiros a usar mais e mais herbicida contra as “superervas daninhas”.

Com base nos resultados desse estudo, o Food Democracy Now! está solicitando investigação federal sobre os prováveis danos causados à saúde humana e ambiental pelo herbicida glifosato e sobre a relação entre reguladores e indústrias reguladas – que resultou nos níveis alarmantes do herbicida a que a população está exposta, como demonstra crescente número de estudos científicos.

O relatório conclui afirmando que o único modo de evitar a contaminação por glifosato é comer alimentos cultivados organicamente. “Um estudo publicado em 2014 na Revista de Pesquisa Ambiental confirmou que famílias que adotaram uma dieta de orgânicos removeram, em não mais que uma semana, 90% dos pesticidas do seu corpo, o que foi comprovado por testes de urina”.

Inês Castilho – Jornalista e cineasta, estudou Ciências Sociais na USP e foi editora de meio ambiente da revista “Visão”, editora do semanário “Shopping News”, editora do jornal “Mulherio” e cofundadora do “Nós Mulheres”. Realizadora dos curtas-metragens “Histerias” e “Mulheres da Boca”, integra desde 2012 a equipe do “Outras Palavras”. É repórter, redatora e tradutora em “De Olho Nos Ruralistas”.

Fonte – De olho nos ruralistas de 06 de março de 2017

Relatório da ONU denuncia “mito” de que pesticidas são essenciais para alimentar o mundo

Segundo um novo relatório elaborado por especialistas da ONU em alimentação e poluição, a ideia de que os pesticidas são essenciais para alimentar a população mundial crescente é um mito.

O relatório, apresentado na quarta-feira ao Conselho de direitos humanos da ONU, acusa as corporações mundiais que fabricam pesticidas de negarem sistematicamente os danos causados pelos seus produtos, de “táticas de marketing pouco éticas e agressivas”, de transferirem a culpa dos impactos evitáveis dos pesticidas para os utilizadores, assim como de uma intensa atividade de lobbying junto dos governos, que tem “impedido reformas e paralisado restrições” à utilização destes produtos.

Os pesticidas têm “impactos catastróficos no ambiente, na saúde humana e na sociedade como um todo”, estimando-se que, por ano, morram 200 mil pessoas vítimas de envenenamento agudo. “É chegada a altura de se criar um processo global de transição para uma produção agrícola e alimentar mais segura e saudável”, dizem os autores do trabalho
Embora a indústria dos pesticidas – cujo mercado vale 47 bilhões de euros por ano – defenda que os seus produtos são essenciais para a proteção das culturas e o abastecimento de alimentos para uma população mundial crescente (que alcançará os 9 mil milhões de habitantes até 2050), os autores do relatório contra-argumentam estas alegações.

É um mito. Usar pesticidas nada tem a ver com acabar com a fome. De acordo com a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), já conseguimos alimentar 9 mil milhões de pessoas hoje em dia. A produção está definitivamente a aumentar, mas o problema é a pobreza, a desigualdade e a distribuição”, declarou Hilal Elver, relatora especial da ONU para o direito à comida, acrescentando que muitos pesticidas são usados em plantações de produtos como o óleo de palma e não na comida necessária para acabar com a fome.

“Apesar de a investigação científica confirmar os efeitos adversos dos pesticidas, é um desafio considerável provar uma ligação definitiva entre a exposição e os problemas de saúde nos seres humanos ou danos nos ecossistemas. Este desafio tem sido exacerbado por uma negação sistemática, impulsionada pela indústria dos pesticidas e pela agro-indústria, da magnitude dos danos infligidos por estes químicos e por táticas de marketing pouco éticas e agressivas”, diz o relatório.

“O poder que as corporações têm sobre os governos e sobre a comunidade científica é extremamente importante”, disse Hilal Elver ao The Guardian. “Se se quer lidar com os pesticidas, tem de se lidar com as empresas – é por isso que [usamos] estas palavras duras. Elas dirão, naturalmente, que não é verdade, mas existem os testemunhos das pessoas.”

Embora alguns países desenvolvidos tenham normas “apertadas” para o uso de pesticidas, apenas 35% dos países em desenvolvimento têm um regime regulamentar para o uso destes químicos. O relatório descobriu ainda a produção de pesticidas para exportação em países nos quais a sua utilização já foi proibida.

O trabalho recomenda a criação de um tratado global para gerir a utilização de pesticidas, uma viragem para práticas sustentáveis, incluindo métodos naturais para controlar as pragas e a rotação de culturas, e o incentivo à produção de alimentos biológicos.

“A indústria utiliza frequentemente o termo ‘uso indevido intencional’ para transferir a culpa dos impactos evitáveis dos pesticidas perigosos para o utilizador”, diz o trabalho. “No entanto, a responsabilidade pela proteção dos utilizadores e de outros ao longo do ciclo de vida do pesticida e ao longo da cadeia de retalho é claramente do fabricante do pesticida.”

“A exposição crónica aos pesticidas tem sido associada ao cancro, à doença de Alzheimer e de Parkinson, à disrupção hormonal, a problemas de desenvolvimento e esterilidade.” Igualmente exposto no relatório está o risco para as crianças da contaminação da comida por pesticidas, que levou a 23 mortes na Índia, em 2013, e 39 na China, em 2014.

Fonte – UniPlanet de 08 de março de 2017

Cooperativas de catadores: exemplo de economia solidária e preservação do meio ambiente em São Leopoldo

Imagine que você precisa ir ao supermercado fazer as compras dos produtos básicos para poder passar o mês. Uma situação comum, que é vivida por grande parte da população de todo o mundo. Agora pense: será que você vai lembrar de todos os itens que precisa ou vai acabar esquecendo aquele produto essencial? Melhor fazer uma lista, não? Você pega um papel, escreve tudo o que precisa comprar e pronto. Tudo certo, você joga fora a folha que usou para anotar.

Talvez você não tenha se dado conta, mas ao descartar esse papel, se ele não for para o lugar certo, ele pode ficar de três a seis meses na natureza até se decompor. Seis meses é quase o tempo completo que leva a gestação de um ser humano, e aquele pequeno pedaço de papel continuou ocupando um espaço sem ter uma real utilidade.

Para que o papel possa retornar para as prateleiras e ser utilizado novamente, é preciso que ele seja reciclado. Por isso é importante estarmos atentos à destinação correta dos resíduos sólidos e, também, conhecermos mais sobre o caminho que este material percorre até chegar de novo às nossas mãos. O Observatório da realidade e das políticas públicas do Vale do Rio dos Sinos – ObservaSinos, programa do Instituto Humanitas Unisinos – IHU, comprometido com a sistematização, análise e o debate sobre as realidades e as políticas públicas na região do Vale do Sinos, fez a aproximação com as cooperativas de catadores, com o propósito de dar vistas ao seu protagonismo nos processos de garantia ambiental e das políticas na cidade de São Leopoldo.

De acordo com a Política Nacional de Resíduos Sólidos, lançada em 2010 através da Lei nº 12.305/10, cada município deve implementar o seu próprio Plano Municipal de Resíduos Sólidos – PMRS e, a partir disso, colocar a operação da coleta seletiva na mão, preferencialmente, das cooperativas de catadores. Isto ficou definido pelo Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis – MNCR como Coleta Seletiva Solidária. Mas, conforme dados fornecidos pelo Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento – SNIS, apenas 33% das cidades do Brasil haviam elaborado o próprio PMRS até o ano de 2014.

Um entrave que também acontece com a desvalorização do trabalho de coleta dos catadores individuais. Existe a necessidade de conscientizá-los e inseri-los nas cooperativas, mas de uma maneira inclusiva e gradativa. Essa é uma das afirmativas e das lutas a que se propõe o membro do Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis – MNCR, Alex Cardoso. Em entrevista concedida ao IHU, ele revela a problemática dos catadores de Porto Alegre e tenta fomentar uma discussão mais aberta entre os interessados e a prefeitura.

Já no município de São Leopoldo existem sete cooperativas que realizam a coleta seletiva. Elas são formadas por grupos de colaboradores que se dividem em diversas funções dentro do ambiente da associação. O princípio de tudo se dá através da ida do caminhão da coleta até os endereços em que cada associação é responsável. Esse roteiro é dividido por bairros para facilitar o atendimento ao público. Os resíduos sólidos do bairro Centro e também das empresas que se cadastraram para fazer parte da coleta seletiva são recolhidos por todas as cooperativas, em dias intercalados e com o rodízio organizados por eles, já que o volume de material é muito grande e assim fica mais justo para que todos possam aproveitar esse material eventualmente.

Depois de recolhido, o material é levado para os galpões das cooperativas e entregue para os trabalhadores que farão a triagem do material. Eles devem selecionar aquilo que é possível ser vendido em grande escala, já que nem todos os resíduos recolhidos irão realmente para a reciclagem. Para a analista de Ação Social do Programa Tecnosociais/CCIAS, da Unisinos, Renata Hahn, é importante salientar que nem todo o material consegue ser aproveitado pelos catadores. “O material que tem serventia para eles é somente aquele que é possível comercializar, infelizmente. Tem coisas que eles não têm como estocar e materiais que eles não têm o maquinário para transformar de um modo que possa ser vendido. Isso acaba se tornando rejeito e indo parar no aterro sanitário”.

Renata é uma das responsáveis pelo Programa Tecnosociais da Unisinos, que funciona como incubadora de empreendimentos econômicos solidários de geração de trabalho e renda. A equipe trabalha para auxiliar na criação e apoio desses tipos de organizações, que sozinhos não teriam uma assessoria especializada e não conseguiriam formalizar assuntos mais técnicos, como a transição de associação para cooperativa, por exemplo. Sobre a formação das cooperativas de catadores, Renata explica: “Os empreendimentos de economia solidária, principalmente no segmento de reciclagem, são geralmente formados por pessoas que não conseguiram se inserir no mercado de trabalho formal e acabaram ingressando na reciclagem”.

A segunda etapa da operação da coleta seletiva acontece após a triagem do material e consiste em aglutinar os resíduos iguais em grandes sacolas e levar para a prensa. Esses recipientes são chamados de “big bags” e é preciso cinco deles para fazer um fardo de 150 kg de garrafa pet ou três para fazer um fardo de 130 kg de plástico comum, por exemplo. Somente depois de prensado e separado corretamente é que o material será estocado para a venda posterior.

Segundo a explicação da especialista em Gestão Ambiental e Social Joice P. Maciel e da socióloga e especialista em Políticas Públicas Kellen Pasqualeto, que representam o coletivo de técnicas que atuam em atividades no segmento ambiental e social, Apoena Socioambiental, o papel do catador era desvalorizado e limitado ao trabalho de coleta irregular e triagem em 2005. A remuneração vinha somente do pouco material que eles coletavam individualmente e conseguiam fazer a comercialização na época. No mesmo ano, a prefeitura de São Leopoldo deu início à coleta seletiva, mas deixou o serviço prestado por conta de uma empresa privada.

Durante o ano de 2005, os coletores individuais que se organizaram em associações ou cooperativas começaram a receber um valor trimestral de R$ 4.500,00. A partir de 2009, eles passaram a adquirir os resíduos reutilizáveis e recicláveis por uma empresa privada contratada pelo município de São Leopoldo. De acordo com as representantes da Apoena Socioambiental, há apenas três anos o trabalho da coleta seletiva passou totalmente para as cooperativas e, a partir disso, o valor recebido pelo trabalho prestado à prefeitura aumentou. “Somente a partir da proposta da implantação do Plano Municipal de Gestão Integrada de Resíduos Sólidos – PMGIRS, em 2012, é que passaram a ser sete cooperativas de reciclagem conveniadas, as mesmas que a partir de 2014 e até o momento são contratadas para o serviço de coleta seletiva. Cada uma recebe em torno de R$ 24.000,00 mensais pelo serviço prestado”. Esse valor é referente ao contrato estabelecido com a prefeitura de São Leopoldo para que as cooperativas realizem o trabalho da coleta seletiva no município.

Segundo a analista de Ação Social Renata Hahn, essa quantia, atualmente, serve apenas para que as organizações consigam cobrir suas despesas com os gastos operacionais, e o dinheiro que eles conseguem obter como lucro é vindo da venda do resto do material separado para atravessadores. “O que as cooperativas estão lutando hoje é para que recebam também pelo material triado nas esteiras. Assim aumentaria o valor recebido e seria mais justo com os trabalhadores”, afirma Renata.

É isto o que acontece na CooperFeitoria, uma das cooperativas visitadas pelo ObservaSinos. Funcionando formalmente como uma cooperativa desde 2012, mas já existindo há 15 anos, ela possui 10 trabalhadores divididos entre os setores da coleta. É responsável pelo atendimento dos bairros Feitoria e Jardim América, em São Leopoldo. Como nas outras cooperativas, ela segue o modelo de autogestão, onde os próprios participantes da organização elegem um presidente para representá-los, mas todos têm influência nas decisões administrativas. O atual presidente da CooperFeitoria, Josué Carvalho, explica como o modelo funciona: “A cooperativa funciona assim: todos somos donos, mas todos temos que ter responsabilidades, tanto de funcionário como a de chefe. Cada um deve saber o seu papel e como executá-lo, sem esperar que outra pessoa fale. Temos que ter muito cuidado na disciplina e isso é um avanço que estamos fazendo”.

Josué foi catador individual por 15 anos e afirma que cada pessoa tem conhecimento do seu setor, da sua função e também do funcionamento da cooperativa como um todo. A partir disso, reuniões são programadas para que eles possam opinar e sugerir melhorias nos locais de trabalho. Perguntado sobre a importância do seu trabalho para o meio ambiente, ele responde de forma enfática: “Eu me preocupo em fazer um bom trabalho. A consequência dele é que vai ajudar a natureza e isso é muito importante para o meio ambiente, faz a diferença no nosso contexto. Mas infelizmente é muito pouco, é quase paliativo perto do todo”.

Mesmo assim, segundo as representantes da Apoena Socioambiental, Joice Maciel e Kellen Pasqualeto, depois da inclusão dos catadores na PMGIRS, algumas modificações na coleta puderam ser percebidas. Elas afirmam que a efetivação dos contratos de prestação de serviço trouxe um grande diferencial, pois além de garantir a execução da coleta pelos catadores, possibilitou ampliar o número de postos de trabalho em 40%, e a renda em 23%. “Esses dados também se revertem em benefícios ambientais. Aproximadamente sete mil toneladas que seriam enterradas no aterro sanitário, gerando um passivo ambiental e lucro para a empresa privada contratada, retornaram para a cadeia produtiva, revertendo-se em remuneração para os catadores e menos impactos negativos ao meio ambiente”, revelam.

Joice e Kellen também propõem uma análise mais aprofundada desses dados. Em entrevista concedida a elas pela Secretaria de Serviços Públicos de São Leopoldo no ano passado, os resultados dos resíduos encaminhados à reciclagem, no período de 2014 a 2016, de 7 mil toneladas, apontam um baixo impacto em relação ao montante de resíduos domiciliares que foram encaminhados ao aterro no mesmo período, que somaram 120 mil toneladas. Elas afirmam que, apesar dos números terem baixa influência no todo dos resíduos domiciliares, a importância da coleta é extremamente alta. “Porém, o impacto socioambiental torna-se significante, uma vez que atualmente essa política beneficia cerca de 90 famílias entre as sete cooperativas de catadores, que passam a ter melhores condições de trabalho e de remuneração; benefícios que se estendem para aproximadamente outros 340 beneficiários indiretos, familiares desses trabalhadores”.

Também é importante frisar a participação das cooperativas na educação ambiental, direta ou indiretamente, através da coleta e destinação dos resíduos recicláveis. “Muitas cooperativas possuem ótimo relacionamento com a comunidade do entorno onde operam, bem como realizam palestras em escolas municipais e participam de eventos relacionados aos temas ambientais da cidade”, afirmam Joice e Kellen.

Conforme o atual diretor de resíduos da Secretaria Municipal do Meio Ambiente – Semmam, Mario Celi, os catadores são os agentes principais da coleta. “Eles são os protagonistas do processo. A prefeitura dá os meios, através de convênios e contratos, e eles fazem a própria gestão”. Mario também fala da importância das cooperativas em relação ao meio ambiente e ao município. “As cooperativas são fundamentais para a melhoria da saúde do meio ambiente e também são o carro-chefe da educação ambiental. Todo esse material que não seria aproveitado, agora volta para nós com um novo uso. Isso é excelente. Além disso, com a evolução das cooperativas, teremos o fim dos aterros sanitários, o que reduzirá o custo da prefeitura em 60% a 70%”, revela.

Incêndio e recomeço na CooperFeitoria

Recentemente a CooperFeitoria sofreu um revés grande em suas instalações. Um dos galpões da cooperativa foi atingido por um incêndio em novembro de 2016, afetando o galpão que funcionava para receber o material e também onde ficava o escritório administrativo. De acordo com Josué, o local recebia em média 30 toneladas de material por mês. Mesmo assim, ele e os companheiros de cooperativa não se deixaram abater e continuaram trabalhando no outro galpão disponível. “Com a destruição do outro local, nós aproveitamos o momento de tragédia para organizar esse galpão e centralizar o trabalho. Agora vamos avançar no beneficiamento do material. Também pretendo construir uma horta comunitária no terreno onde pegou fogo para compartilhar com a comunidade do bairro Feitoria”.

O beneficiamento de material é uma das melhores técnicas disponíveis no mercado e é utilizada para transformar os resíduos sólidos de uma forma que eles possam ser reutilizados. Para realizar essa atividade, é necessário um equipamento diferente do que as cooperativas já possuem e o custo de compra é elevado. A CooperFeitoria conseguiu adquirir o equipamento através de um projeto em parceria com outras empresas e já em 2017 pretende começar a trabalhar nesta nova etapa. “O que nós fazemos hoje não é reciclagem. A gente faz coleta, triagem e fardamento. Reciclagem é transformar. A partir do beneficiamento do material é que isso vai acontecer”, afirma Josué.

Galpão de triagem da CooperFeitoria (Foto: Lucas Schardong)
Com este avanço na tecnologia da cooperativa, os materiais coletados pela CooperFeitoria serão vendidos diretamente para as empresas que têm interesse, ao invés de fazer isso para um atravessador ou para cooperativas de fora do município, como funciona atualmente. Assim, o valor do material se elevará, trazendo diversos benefícios para todos os trabalhadores. Hoje, uma embalagem simples de arroz é vendida a R$ 0,30 o quilo, por exemplo. Após o beneficiamento do material, ele poderá ser vendido diretamente para um comprador por até R$ 2,70, dependendo da qualidade do material. Isso daria um aumento de quase 800% no valor inicial, sendo que possibilitaria pagar os custos de operação e sobraria ainda 63% do valor final da venda para dividir entre os trabalhadores.

Mas apesar de todo o trabalho realizado pelas cooperativas, Josué afirma que muita coisa precisa ser melhorada. “Hoje, a CooperFeitoria, nos setores que ela faz, ela atinge mais de 12 mil pessoas por semana. Ela não tira 5% do material reciclável que é produzido pela população”, revela. Isso se deve, conforme o presidente da CooperFeitoria, à falta de estrutura que as cooperativas possuem. Assim, elas não conseguem aumentar a produção e manter o processo com qualidade. Ele também afirma que não bastaria só melhorar os equipamentos e os locais de trabalho, mas também é necessário se preocupar com a qualificação das pessoas que trabalham na reciclagem. “É preciso profissionalizar as cooperativas. Elas precisam ser vistas como empresas e funcionar como tais. Com o apoio do governo, que precisa cobrar resultados em contrapartida. Assim o sistema se tornaria melhor e mais eficiente”, explica.

Fonte – Lucas Schardong e Marilene Maia, IHU de 17 Março 2017

Imagem – ccPixs.com

Município do interior do RJ inicia introdução da fitoterapia no âmbito do SUS

Inclusão de fitoterápicos no âmbito SUSO compartilhamento do conhecimento tradicional dos moradores de Palmares sobre plantas medicinais beneficiará a humanidade, principalmente à população de mais baixa renda Divulgação/Farmanguinhos/Fiocruz

A inclusão da fitoterapia no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS), a partir do incentivo ao uso de plantas medicinais encontradas no centro-sul fluminense, caminha para se transformar em um projeto comum envolvendo as secretarias de Saúde, Educação, Agricultura e Social do estado do Rio de Janeiro. A iniciativa, utilizada inicialmente na comunidade rural do município de Paty dos Alferes, foi apresentada em Brasília, em dezembro de 2016,  durante a 15ª edição do Prêmio de Incentivo em Ciência e Tecnologia para o SUS, e recebeu a premiação de melhor dissertação em mestrado.

Para o início de março, reunião com esse objetivo está marcada entre os secretários e pesquisadores do Instituto de Tecnologia em Fármacos (Farmanguinhos), da Fundação Instituto Oswaldo Cruz (Fiocruz). A expectativa é que o estudo seja ampliado e estendido inicialmente a todas as unidades básicas de saúde da cidade, podendo, em seguida, abranger todo o estado.

Essa é a perspectiva da pesquisadora de Farmanguinhos/Fiocruz, farmacêutica Amanda Valverde, responsável pelo projeto. A opinião é compartilhada pelo novo secretário de Saúde de Paty do Alferes, Arlindo Lisboa. As plantas medicinais já eram de uso comum da comunidade para tratamento de problemas como diarreia, gripes e resfriados, entre outros.

O projeto mostrou aos agentes comunitários de saúde, enfermeiros e médicos do SUS como utilizar essas espécies no dia a dia da unidade de saúde.

Cada unidade receberá uma farmácia viva, espécie de horta comunitária, onde são plantadas mudas doadas pela Fiocruz. A fundação apoia o projeto também por meio da identificação das plantas medicinais e elaboração do curso de capacitação, em conjunto com a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), voltado para os agentes comunitários de saúde e enfermeiros e médicos da região.

De acordo com a farmacêutica, já chega a quase 90% os melhoramentos registrados na saúde dos membros da comunidade rural, com a disseminação do conhecimento.

Dados

O trabalho fez parte da dissertação de mestrado de Amanda, baseada em iniciativa criada pela professora da Faculdade de Farmácia da UFRJ, Nina Barboza da Silva.

“A comunidade rural faz uso de plantas medicinais no dia a dia. A Unidade Básica de Saúde local não tinha capacitação para poder trabalhar com planta medicinal”, explicou Amanda Valverde. Dados preliminares mostraram que 82% da população de Palmares faziam uso de plantas medicinais, dos quais 64% consumiam essas plantas na forma de chá. O boldo é a principal planta consumida. Amanda disse acreditar que, com o projeto e o acolhimento de pessoas em busca de informações, esse percentual já aumentou.

Para o secretário de Saúde de Paty do Alferes, que também acumula a vice-prefeitura, a disposição da administração municipal é dar continuidade ao projeto, estendendo-o às oito demais unidades de atendimento básico à saúde da cidade. “Estamos abertos à parceria com o projeto”, afirmou.

Interior fluminense inicia introdução da fitoterapia no âmbito do SUSA escolha das plantas passaria por uma certificação, uma avaliação científicados pesquisadores Divulgação/Farmanguinhos/Fiocruz

Resistência

Coordenador do Núcleo de Gestão em Biodiversidade e Saúde de Farmanguinhos/Fiocruz, Glauco Villas Boas destacou que todos os projetos de plantas medicinais nos últimos dez anos são decorrentes do Programa Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos, na tentativa de organização de arranjos produtivos e introdução da fitoterapia no SUS. Villas Boas participou da elaboração do programa nacional.

Segundo ele,  iniciativas como a de Palmares poderão ter, em uma segunda etapa, um projeto estruturante. Citou como exemplo o projeto Farmácia dos Quintais, que parte de articulação entre agricultores brasileiros com institutos de ciência e tecnologia e empresas nacionais.

Ao mesmo tempo em que conserva o conhecimento da população rural, a escolha das plantas passaria por uma certificação, uma avaliação científica. O pesquisador da Fiocruz disse que isso daria potencial para se colocar mais fitoterápicos no SUS e nas farmácias. “Tudo é economia, saúde, biodiversidade e tecnologia. Não ficaríamos tão dependente tecnológica e economicamente (da importação)”.

Villas Boas afirmou que iniciativas em curso no país trazem esperança, mobilizam médicos e secretarias de Saúde. Advertiu, porém, sobre políticas que garantam apoio. “São iniciativas que representam a resistência, a mobilização do conhecimento tradicional, o direito de opção dos brasileiros de tratarem com a terapia que desejarem”.

Para o coordenador, há necessidade de disseminação desses projetos pelo país. Acrescentou que, além de colocar no SUS, os fitoterápicos também devem ser disponibilizados nas farmácias. Na opinião de Villas Boas, a pesquisadora “Amanda (Valverde) fez um bom trabalho”.

Diálogo

Palmares é o projeto pioneiro de introdução de fitoterápicos na terapêutica do SUS no interior fluminense. A meta dos pesquisadores é levá-lo para todo o estado. Para que isso se efetive, Amanda Valverde informou que as políticas existentes devem conversar entre si. Entre elas, citou a Política Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos e a Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares, ambas criadas em 2006, o Programa Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos, concretizado em 2008, além de legislações posteriores referentes à introdução de plantas medicinais no SUS.

A farmacêutica de Farmanguinhos/Fiocruz afirmou que o compartilhamento do conhecimento tradicional que os moradores de Palmares têm sobre plantas medicinais, aliado ao conhecimento científico, beneficiará a humanidade. “Não é só a saúde. Essa prática atende, sobretudo, à população de mais baixa renda.”

Em Palmares, foi feito inicialmente um levantamento, por meio de entrevistas, para diagnosticar o conhecimento difuso do uso de plantas medicinais na comunidade, selecionando-se as espécies citadas. Após essa etapa, foi montada uma horta comunitária de plantas medicinais na associação de moradores, baseada nas espécies usadas na área, juntando ao conhecimento adquirido no curso de capacitação.

Doze espécies foram selecionadas. “Fizemos um memento fitoterápico de plantas medicinais de Palmares. Ele (memento) fala sobre a forma de terapia dentro do SUS e a maneira como é tratado dentro da comunidade”, disse Amanda.

Na comunidade rural de Palmares não existe farmácia e a Unidade Básica de Saúde não distribui medicação nem faz internação. A única forma de os moradores terem acesso a remédios da indústria farmacêutica é no centro do município.

Fonte – Alana Gandra, Edição Armando Cardoso, Agência Brasil de 05 de março de 2017

Esta no ar o documentário Belo Monte: Depois da Inundação

Belo Monte: Depois da Inundação from Todd Southgate on Vimeo.

Para comemorar o Dia Internacional de Luta contra Barragens, pelos Rios, pela Água e pela Vida, no dia 14 de março, o documentário Belo Monte: Depois da Inundação, dirigido pelo premiado cineasta Todd Southgate, foi disponibilizadol para download gratuito, através do site http://www.belomonteaftertheflood.com/index_port.html

Narrado pelo ator Marcos Palmeira, o documentário conta a história e as consequências de uma das hidrelétricas mais polêmicas do mundo. Através de entrevistas com líderes indígenas, ativistas e moradores locais, Belo Monte: Depois da Inundação demonstra como esse megaprojeto, que custou mais de $30 bilhões – na sua maior parte, financiado com dinheiro público – deixou um legado de violações de direitos humanos e danos socioambientais que desestruturam meios de vida das comunidades locais do rio Xingu.   Ao mesmo tempo, o filme conta a história de lutas dos povos indígenas, movimentos sociais e seus aliados para cobrar justiça e a responsabilização pelos crimes cometidos na Volta Grande do Xingu por Belo Monte, e para evitar a repetição dos mesmos erros na bacia do Tapajós, onde o povo Munduruku e comunidades ribeirinhas têm defendido seus territórios e direitos, resistindo a grandes projetos destrutivos como a UHE São Luiz do Tapajós.

A divulgação on-line do filme vem na sequência de uma série de eventos  de lançamento no Brasil e no exterior desde o final de 2016.  O filme já está se relevando uma ferramenta muito importante para a conscientização e a mobilização popular, tendo sido  premiado com o troféu de júri popular no Festival Cineamazônia realizado em Porto Velho (RO) em novembro de 2016.

Fonte – Xingu Vivo de 13 de março de 2017

O colapso (in)evitável e o Antropoceno

O sistema produtivo capitalista experimentou nas últimas décadas enormes transformações, que colocaram o planeta sob intensa pressão no que diz respeito às fontes de matérias-primas e de energia. A China virou um enorme galpão de fábrica, a ser alimentado por carvão e gás para suas termelétricas, minério de ferro, cobre e metais raros para eletro-eletrônicos, plástico e químicos diversos. Por todo o globo, a frota automobilística e também a frota aérea não pararam de crescer, demandando materiais metálicos e não-metálicos para sua fabricação e, sobretudo, derivados de petróleo para movimentá-las. Interconectado globalmente, o sistema capitalista proporcionou um fluxo extremamente intensivo não apenas de capital especulativo, mas desses materiais e dos produtos a partir deles fabricados. As redes longas desse sistema econômico ligaram, via extração, produção e consumo, praticamente todos os indivíduos em praticamente todos os cantos do planeta. Por terra, pelo ar e pelos mares, milhões de toneladas de material de bauxita a celulares viajam todo ano, numa espiral crescente.

O resultado dessa expansão não apenas em volume do que é produzido e consumido, mas no aumento da velocidade do transporte e do descarte estabeleceu um conflito que faz a luta de classes parecer um diálogo amigável: a contradição insolúvel entre um sistema intrinsecamente expansionista e um mundo limitado. Os chamados limites planetários estão sendo um a um ultrapassados. As curvas de diversos parâmetros assumiram a forma exponencial, configurando o que se convencionou chamar de “a grande aceleração“, particularmente nítida a partir da segunda metade do século passado e início deste.

Da população urbana ao consumo de fertilizantes, da produção de papel às concentrações de gases de efeito estufa, do uso de água doce à degradação ambiental, tudo cresceu exponencialmente em especial a partir da segunda metade do século XX.

A contaminação química do ecossistema terrestre é global. São exemplos o plástico nos oceanos; os metais pesados no solo, rios e penetrando por toda a biota via cadeia alimentar; o ozônio (desejável em camadas elevadas da atmosfera mas extremamente prejudicial próximo à superfície) produzido por reações fotoquímicas que se originam em motores e caldeiras de combustão e que gera smog (como o que literalmente obstrui a visão em Beijing e outras grandes cidades da China e outros países)… A mudança na composição química da atmosfera se dá de forma múltipla: a quantidade de aerossóis (particulado líquido e sólido em suspensão) se multiplicou brutalmente com os processos industriais, combustão de combustíveis fósseis e queimadas; gases que não existem naturalmente agora fazem parte do ar que respiramos, particularmente os halocarbonetos (que incluem os CFCs responsáveis pela degradação da camada de ozônio estratosférico e que, em seu conjunto, são gases de efeito estufa) e as concentrações de gases como óxido nitroso (resultante da decomposição de fertilizantes e outros agroquímicos nitrogenados), metano (emitido em associação com atividades agropecuárias) e, claro, dióxido de carbono, ou CO2. Além da influência brutal sobre o clima (os três últimos citados são gases de efeito estufa), o excesso de CO2 na atmosfera leva a que este se dissolva nos oceanos, acidificando-os (o pH já aumentou 0,1 desde o período pré-industrial, o que implica em um aumento no nível de acidez em quase 30%). À contaminação química, soma-se a contaminação radioativa, associada aos sucessivos testes nucleares e, claro, aos acidentes e vazamentos em reatores, como os casos trágicos de Tchernobyl e Fukushima. Ao se ter a sociedade humana organizada conforme a dinâmica do capital pressionando o ecossistema global como força de escala geológica, interferindo decisivamente (e em vários casos de forma dominante) nos ciclos biogeoquímicos e alterando a própria termodinâmica planetária, alguns cientistas propuseram que se caracterize o presente como uma nova época geológica, distinta do Holoceno (período de cerca de 10 mil anos de estabilidade climática ao longo do qual a civilização humana floresceu): o Antropoceno, conforme a designação proposta por Crutzen e Stoermer (2000), num artigo que faz parte desta publicação.

Já ficou evidenciado um forte acordo, num grupo de trabalho de especialistas, que o Antropoceno deve ser já caracterizado como uma nova época geológica, embora ainda não tenha sido delimitado que referência deve ser adotada, nem do ponto de vista temporal nem do ponto de vista físico-biogeoquímico. De qualquer modo, a adoção do termo é cada vez mais consensual. Mais recentemente, Gaffney e Steffen (2017) fizeram uma atualização das atuais condições do Antropoceno e os números são cada vez mais assombrosos, especialmente quando comparamos as tendências exponenciais e disruptivas do Antropoceno com a marcante estabilidade do Holoceno.

Dado que os combustíveis fósseis (carvão, petróleo e gás) foram e continuam sendo as principais fontes de energia, a concentração atmosférica de CO2, principal produto da combustão, disparou no Antropoceno. No período de 1970 a 2015, essa concentração cresceu 75 partes por milhão, o que nos dá uma taxa de variação de 166 ppm/século. Esse valor é quase 1000 vezes aquele verificado entre 11.000 e 7.000 anos atrás (início a meados do Holoceno), quando a concentração de CO2 caiu a uma taxa de aproximadamente 0,17 ppm por século. É 550 vezes maior do que as mudanças entre o Holoceno médio e o período pré-industrial (1750), intervalo durante o qual essa concentração caiu a uma taxa em torno de 0,30 ppm/século. É 100 vezes maior do que a variação observada na concentração desse gás na última grande mudança climática global natural (término da última era glacial). É 10 vezes maior do que o maior evento conhecido de liberação desse gás na Era Cenozóica, o “Máximo Térmico do Paleoceno-Eoceno”.

Mas como discutimos várias vezes em nosso blog, não reside só no CO2 o problema… Grandes quantidades de metano são produzidas pela fermentação entérica (no aparelho digestivo de animais ruminantes) e pelas chamadas “emissões fugitivas”, vazamentos que inevitavelmente acompanham a prospecção, extração e processamento de combustíveis fósseis, especialmente com técnicas mais agressivas como o “fracking”. Esta substância é um poderoso gás de efeito estufa, com potencial de aquecimento global 34 vezes maior do que o do CO2 na escala de 100 anos. A estimativa de variação na concentração de metano (CH4) ao longo do Holoceno (11 mil anos atrás até o período pré-industrial) é de cerca de 2 partes por bilhão (ppb) por século. De 1750 a 2012, a quantidade de metano na atmosfera saiu de 722 ppb para 1810 ppb (150% de aumento!). De 1984 a 2015, a taxa de incremento média na concentração atmosférica desse gás foi de 57,5 ppb/década (ou 575 ppb/século), valor mais de 285 vezes maior do que a estimativa média para o Holoceno.

Sabe-se desde o século XIX que uma alteração na concentração desses gases teria o potencial de mudar o balanço energético terrestre. E as evidências agora estão aí. Entre 1970 e 2015, a temperatura média global cresceu a uma taxa média de 0,17°C por década (ou 1,7°C por século). Em contraste, durante o Holoceno, a temperatura mostrou-se relativamente estável, com uma redução média de 0,01°C/século. Portanto, as variações de temperatura, hoje, são 170 vezes mais rápidas do que aquelas verificadas durante o Holoceno.

A ciclagem de nutrientes no Sistema Terra também está profundamente alterada. Os ciclos do Nitrogênio e do Fósforo estão entre ciclos biogeoquímicos mais importantes. 180 Tg (teragramas ou milhões de toneladas) de nitrogênio são processados anualmente por processos agrícolas, industriais e rejeitos urbanos, o que representa mais do triplo do nitrogênio processado globalmente pelos microorganismos fixadores terrestres (toda a fixação de nitrogênio nos continentes somada resulta em 58 Tg/ano). Somando-se os 30 Tg associados à combustão, chegamos a 210 Tg/ano, mais do que a soma da fixação nos continentes (58 Tg/ano), nos oceanos (140 Tg/ano) e na atmosfera, por relâmpagos (5 Tg/ano). O resultado é que o ciclo do nitrogênio encontra-se totalmente desbalanceado. Há estimativas de que hoje em dia 72% do Nitrogênio que chega aos corpos d’água vêm da atividade agropecuária, incluindo o uso de fertilizantes sintéticos. No caso do fósforo, os valores de referência do Holoceno eram de 10-15 Tg/ano, mas este valor agora foi elevado para 28-33 Tg/ano, associado com mineração, resíduos e, novamente, com fertilizantes. Em outras palavras, é possível que os fluxos de fósforo tenham sido simplesmente triplicados. Os impactos envolvem eutrofização, mudanças de pH, alteração do teor de oxigênio dissolvido e mudanças na toxicidade, produzindo desequilíbrios nos ecossistemas e não raro inviabilizando o aproveitamento desses corpos d’água para uso humano.

Os oceanos também estão sob uma pressão violentíssima das ações humanas. Em virtude do aumento de concentração de CO2 atmosférico e das mudanças climáticas associadas a ele, os oceanos têm sofrido transformações violentas durante o Antropoceno. Em 2016, acompanhando o recorde global de temperaturas, a superfície dos oceanos ficou 0,69°C mais quente do que a média de 1951-1980, cerca de 1°C acima das temperaturas médias observadas no início do século XX. A presença de enormes quantidades de CO2 na atmosfera faz com que parte significativa desse gás se dissolva nos oceanos, diminuindo seu pH, ou seja, aumentando sua acidez. As estimativas são de que o pH oceânico já diminuiu em 0,1 o que implica numa acidez 26% maior. Segundo Gaffney and Stefan (2017), tais mudanças já são de 3 a 7 vezes maiores e 70 vezes mais rápidas do que aquelas verificadas durante as deglaciações (como a saída da última era glacial há 11.700 anos. Os autores também estimam que um ritmo de acidificação tão acelerado seja inédito em 250 milhões de anos, quando os “trapps siberianos” (supervulcões) lançaram enormes quantidades de gases na atmosfera, extinguindo 95% das espécies marinhas naquela que foi a maior extinção da história geológica terrestre (Extinção do Permiano-Triássico).

Mas não fica nisso. Recente estudo publicado na Nature por Schmidtko et al. (2017) mostra que o teor de oxigênio dissolvido nos oceanos caiu 2,1% em 50 anos. A razão disso? O aquecimento global, por dois fatores: primeiro, quanto maior a temperatura oceânica, menor a solubilidade (não apenas do oxigênio, mas dos gases em geral). Segundo, como o aquecimento se dá principalmente a partir da superfície, a tendência é aumentar a chamada estratificação, isto é, mantém-se água quente em cima e água fria embaixo, o que limita a mistura vertical e portanto a ventilação, que leva água com oxigênio para camadas mais profundas. Mais um efeito temido das mudanças climáticas que se confirma. Por fim, não custa lembrar que tais mudanças profundas são ainda agravadas por uma série de outras agressões diretas, incluindo vazamentos de petróleo, a quantidade enorme de plástico, o excesso de nitrogênio e fósforo nos rejeitos de agropecuária e esgoto, a pesca predatória e o fluxo de espécies invasoras por meio da água de lastro dos navios.

Quando nos referimos à humanidade, no atual estágio de desenvolvimento do capitalismo, como uma força geológica, isso inclui também o sentido mais literal do termo, o de movimentação de material do solo e subsolo. Do ponto de vista científico, não se sabe se a fé remove montanhas, mas o Antropoceno, com certeza. O fluxo de sedimentos decorrente da atividade mineradora atingiu impressionantes 57.000 Tg/ano (teragramas por ano), ou 57 bilhões de toneladas. É cerca do triplo da soma daquilo que é carregado pelos rios de todo o planeta. Importante dizer que esses próprios fluxos naturais, dos rios, também estão sendo alterados, com processos erosivos tendo contribuído para aumentá-los enquanto os barramentos têm contribuído para reduzi-los.

Na Natureza, tudo que cresce exponencialmente produz instabilidade, seguida de colapso. É simples assim. Na Física, quando resolvemos as equações de um problema e uma das soluções é de crescimento exponencial, nós a descartamos, por ser implausível. Violar a conservação da massa, a conservação da energia e a 2ª Lei da Termodinâmica parece ser o sonho da economia capitalista, mas só podem conduzir ao pesadelo de uma sociedade insustentável.

Um dos desfechos possíveis na modelagem de Motesharrei et al. (2014): colapso completo e irreversível por superexploração do ambiente e desigualdade econômica.

Nesse sentido, o colapso do Antropoceno é inevitável. É até (obviamente de forma simplificada) tratável matematicamente, como no modelo de “colapso N irreversível” conforme Motesharrei et al. (2014): a natureza cai abaixo da “capacidade de carga” e isso leva à estagnação e queda da produção de riqueza, ao colapso da “plebe” e só depois ao colapso da “elite”. Como mostra o gráfico, esta termina por ruir também, mas pelo visto, a julgar pela sua (im)postura em geral, prefere desfrutar dos privilégios de curto prazo. O colapso do capital é inevitável (a não ser no cenário altamente improvável da viabilização de tecnologias de migração, colonização e exploração espacial em grande escala em uma escala de poucas décadas).

Mas há algum colapso evitável? Eu diria que o colapso civilizatório geral, o colapso da espécie, este ainda não está dado. Na verdade, é essa a disputa ainda colocada. Para os bilionários, parece pior desaparecer logo, destronados por um processo de transformação social que desmonte essa sociedade expansionista e desigual, do que desaparecer depois, no colapso ecológico. Mas a saída, como nos filmes de ação em que a saída se estreita cada vez mais implica em mais do que um combate de longo prazo, pois também é para agora. As emissões acumuladas a cada ano diminuem cada vez mais a margem de manobra, tornando cada vez mais difícil manter as chances de evitar que se ultrapasse um aquecimento (já catastrófico) de 2°C (o limite de 1,5°C está, a essa altura, virtualmente inviabilizado).

Se as emissões continuarem a crescer até o começo da próxima década no ritmo atual, torna-se praticamente impossível, sem remoção de carbono em grande escala, deter o aquecimento global a menos de 2°C acima do período pré-industrial.

Especificamente no que tange à questão climática (e, por tabela, da acidificação oceânica), a depender do que for feito na próxima década ou duas, o aquecimento global poderá ficar entre uma herança negativa, deletéria e profundamente incômoda para até dezenas de gerações seguintes ou pode vir a ser uma catástrofe completa, capaz mesmo de inviabilizar boa parte do globo como habitat para o gênero humano. É um contexto em que as escolhas que mais salvaguardam o futuro (inclusive a velhice das gerações atuais) são precisamente aquelas mais contrárias à lógica do mercado e da acumulação de capital (e são absolutamente urgentes). São as que batem de frente com incentivo ao consumismo, obsolescência programada, propaganda, uso extensivo de embalagens, criação de falsas necessidades em torno de itens fúteis e supérfluos, transporte individual, expansão das fronteiras extrativista e agrícola, uso perdulário de matéria-prima e energia, matriz energética concentrada e baseada principalmente em combustíveis fósseis, excesso de produção, uso massivo de fertilizantes e outros agroquímicos, jornadas de trabalho muito mais prolongadas do que o necessário, etc. As escolhas que salvaguardam o futuro são as no sentido de uma sociedade igualitária, democrática e que utiliza racional e contidamente a matéria e a energia que o restante da natureza lhe fornece. São aquelas de um “colapso do bem”, de inflexão na velocidade dos processos e (tentativa de) reversão das alterações ambientais deletérias associadas ao Antropoceno.

O problema maior, de fato, é a corrida contra o tempo. Se as emissões continuarem a crescer até o começo da próxima década no ritmo atual, torna-se praticamente impossível, sem remoção de carbono em grande escala, deter o aquecimento global a menos de 2°C acima do período pré-industrial. Ou seja, se precisamos de um “colapso do bem” para deter as piores consequências do caos ecológico introduzido pelo Antropoceno, a “palavra-de-ordem” bem que pode ser “Colapso Já!”.

Fonte – Blog o que você faria se soubesse o que eu sei? de 02 de março de 2017