Cidade enterra R$ 11 milhões que poderia reciclar

Levantamento da ONG Funverde mostra que a prefeitura aterra hoje R$ 11,4 milhões por ano em recicláveis que poderiam ser destinados a cooperativas. E ainda paga outros R$ 11,7 mil por dia para aterrar esse material por falta de um programa eficaz de reciclagem

Recicláveis aterrados somam R$ 31 mil/dia

Desperdício

Valor que poderia gerar renda às cooperativas passa de R$ 11,4 milhões por ano, de acordo com levantamento da ONG Funverde. Prefeitura de Maringá fala em triplicar coleta seletiva com os novos caminhões

Os materiais recicláveis aterrados em Maringá, se devidamente aproveitados, renderiam R$ 31,7 mil por dia. No ritmo atual da coleta seletiva, de 19,4 toneladas/dia, a soma chegaria a R$ 11,4 milhões
por ano. Em outras palavras: o município está enterrando um dinheiro que poderia gerar renda às cooperativas.

O levantamento da ONG Funverde tem por base a realidade de uma Maringá que é referência nacional em vários indicadores sociais, mas que peca na coleta seletiva. Das 150 toneladas de recicláveis gerados diariamente, 130,6 toneladas (87%) vão parar no aterro sanitário.

A riqueza jogada no lixo inclui mais de R$ 20 mil apenas em plásticos (veja no infográfico). “Tudo isso poderia gerar renda para as 150 famílias das sete cooperativas de recicladores”, diz a ambientalista Ana Domingues, presidente da Funverde.

O levantamento da ONG inclui apenas os valores de todo o alumínio, vidro, papelão e outros materiais desperdiçados. A soma não considera o custo de R$ 89,93 por tonelada para dar fim ao “lixo que não é lixo”. Numa hipotética coleta seletiva 100% eficiente, o município economizaria R$ 11.744,86 por dia com o aterro sanitário.

A situação já foi pior. O aumento da frota para 15 caminhões ampliou a coleta seletiva de cerca de 10 toneladas para 19,4 toneladas diárias. Segundo a Secretaria Municipal de Serviços Públicos (Semusp), o objetivo é triplicar a coleta seletiva. Para a Funverde, o ideal seria ter 75 caminhões.

Além da compra de dez novos caminhões, a Semusp tem estimulado a população a separar o lixo. Entre as ações educativas adotadas está a distribuição de sacolas biodegradáveis com informações sobre o que deve ser separado para a reciclagem.

Fonte – Luiz Fernando Cardoso, Jornal Metro Maringá de 19 de abril de 2018

Agora, esta parte é para você dona-de-casa e dono-de-casa. Sim, porque não importa o gênero, todos nós geramos mais de um quilo de lixo por dia e, destes, aproximadamente 30% são de materiais recicláveis.

Ao ler os dados acima, você deve ter percebido que sua preguiça em separar o material para reciclagem causa diversos problemas:

  • Você está impedindo os recicladores, que são pequenos empresários e que usam o que você joga no lixo, mas que não é lixo, é matéria-prima para impulsionar a economia circular, de terem produto para garantirem uma renda justa.
  • Você está roubando das futuras gerações o direito de uma vida, pois, caso você não saiba, esta rocha perdida no universo, foi formada com uma quantidade limitada de recursos naturais para produção dos objetos que usamos todos os dias e, se usarmos muito agora e jogarmos no lixo, faltará para os futuros habitantes do planeta.
  • Você está causando um gasto desnecessário ao poder público e a você mesmo – tudo é pago com o dinheiro de impostos – porque o que não for reciclado, será enterrado.

Poderia me estender até encher seu saco, mas você, como um ser inteligente que é, já entendeu. Você que mora em Maringá, separe o material reciclável e coloque no saco verde que a prefeitura está entregando uma vez por semana.

E por favor, não seja um porcalhão, enxague o material e vire de cabeça para baixo, para secar, afinal, tem um humano do outro lado da cadeia de reciclagem e ele merece respeito, não precisa de ratos, baratas e escorpiões se acumulando nas cooperativas porque você não teve a gentileza de perder alguns segundos para enxaguar – não estou falando em lavar com bucha e sabão, só passar uma água e deixar secar – o material que irá ser reciclado.

O objetivo desta matéria é claro, fazer você entender que tem que separar o material reciclável para ser coletado pelos caminhões que coletam recicláveis e entregam nas cooperativas.

Agora, se você for a outra metade da população, aquela que é preguiçosa ou se acha muito superior ao resto da humanidade, para você, esperamos que brevemente haja lei para multar, ou, como gosto de dizer, educar pelo bolso.

E não venha com argumentos de quem quer se safar da responsabilidade.

Não, você não tem direito a desconto no IPTU se fizer a reciclagem. A Lei 12305/2010, em seu artigo 30, fala de responsabilidade compartilhada, isto é, “(…) responsabilidade compartilhada pelo ciclo de vida
dos produtos, a ser implementada de forma individualizada e encadeada,
abrangendo os fabricantes, importadores, distribuidores e comerciantes, os
consumidores e os titulares dos serviços públicos de limpeza urbana e de
manejo de resíduos sólidos (…)”. Portanto, é sua obrigação, como humano gerador de resíduos, dar a destinação final adequada a esses resíduos.

Não adianta dizer “temos que educar as criancinhas, e em 20 anos o brasil será o paraíso, blablablá…”. Não temos tempo, temos que educar as crianças desde que nascem, educá-las em casa e nas escolas, mas, temos que ao mesmo tempo fazer campanha de educação para os adultos e multar quem não separar para a reciclagem – notem que não estou tocando no assunto compostagem, mas chegaremos lá – para que a mudança ocorra agora.

Estamos destruindo o planeta, com nosso consumismo, que é usado para substituir o vazio interior e conseguir aprovação externa. Vixi, exagerei! Voltando ao assunto… O design para a obsolescência foi criado tanto para enriquecer a indústria como para você sempre poder ter um objeto novo de adoração e, enquanto isso, recursos naturais são desperdiçados. Lembre-se, você não possui nada, você apenas é um habitante passageiro deste planeta, um visitante de curta duração, e como visitante, você deve ter a cordialidade de manter a casa limpa e, por casa limpa, quero dizer, não sujar o planeta. Entendeu?

Então, acorde e seja um cidadão, e não um porcalhão! Use sabiamente o saco para lixo que está sendo disponibilizado gratuitamente.

A FUNVERDE brigou ferozmente para a prefeitura de Maringá contratar esses 10 novos caminhões – seriam apenas 5 -, e, se você separar o material, eles terão que contratar mais 10, mais 10… até os 75 necessários para coletar as mais de 150 ton/dia geradas de recicláveis. Maringá tem aproximadamente 450 mil habitantes. Agora só depende de você ser um cidadão responsável do planeta terra.

Abaixo, rota da reciclagem e a política nacional de resíduos sólidos.

Você que é de outra cidade, brigue, lute, faça com que a reciclagem seja feita em seu município, nós da FUNVERDE não podemos estar em todos os locais, mas o cidadão precisa cobrar para que o mínimo seja feito, e neste momento é importante reciclar. Vamos fazer nossa parte, agir agora para existir um futuro.

ROTEIRO DA COLETA SELETIVA

Dia da semana e bairro de Maringá
Segunda e quarta – Conjunto Habitacional Sol Nascente
Segunda e quarta – Conjunto Habitacional Cidade Alta I, Ii e Iii
Segunda e quarta – Conjunto Itatiaia
Segunda e quarta – Conjunto Residencial Cidade Canção
Segunda e quarta – Conjunto Santa Felicidade
Segunda e quarta – Galeão
Segunda e quarta – Hab. Sanenge Iii
Segunda e quarta – Jardim América
Segunda e quarta – Jardim Catedral
Segunda e quarta – Jardim Das Flores
Segunda e quarta – Jardim Ipanema
Segunda e quarta – Jardim Leblon
Segunda e quarta – Jardim Paraiso
Segunda e quarta – Jardim Pro Lar
Segunda e quarta – Jardim São Paulo
Segunda e quarta – Jardim São Silvestre
Segunda e quarta – Parque Da Gávea
Segunda e quarta – Parque Lagoa Dourada
Segunda e quarta – Parque Tarumã I, Ii e Iii
Segunda e quarta – Porto Seguro
Segunda e quarta – Residencial Dolores Duran
Segunda e quarta – Residencial Pioneiro Odivaldo Bueno Neto
Segunda e quarta – Vila Cafelândia
Segunda, quarta e sexta – Central Parque
Segunda, quarta e sexta – Conjunto Hab Itamaraty
Segunda, quarta e sexta – Conjunto Hab. Inocente Vila Nova Junior (Borba Gato)
Segunda, quarta e sexta – Guaporé
Segunda, quarta e sexta – Jardim Aclimação
Segunda, quarta e sexta – Jardim Alamar
Segunda, quarta e sexta – Jardim Bertioga
Segunda, quarta e sexta – Jardim Cerro Azul
Segunda, quarta e sexta – Jardim Cidade Monções
Segunda, quarta e sexta – Jardim Das Estações
Segunda, quarta e sexta – Jardim Das Nações
Segunda, quarta e sexta – Jardim Higinópolis
Segunda, quarta e sexta – Jardim Horizonte
Segunda, quarta e sexta – Jardim Horizonte I
Segunda, quarta e sexta – Jardim Iguaçu
Segunda, quarta e sexta – Jardim Industrial
Segunda, quarta e sexta – Jardim Itaipu
Segunda, quarta e sexta – Jardim Itália
Segunda, quarta e sexta – Jardim Laudicéia
Segunda, quarta e sexta – Jardim San Remo
Segunda, quarta e sexta – Jardim Santa Mônica
Segunda, quarta e sexta – Jardim Santa Rita
Segunda, quarta e sexta – Jardim Santa Rosa
Segunda, quarta e sexta – Jardim Tabaetê
Segunda, quarta e sexta – Jardim Universo
Segunda, quarta e sexta – Jardim Verônica
Segunda, quarta e sexta – Parque Anchieta
Segunda, quarta e sexta – Parque Residencial Aeroporto
Segunda, quarta e sexta – Res. Rio Branco
Segunda, quarta e sexta – Vila Bosque
Segunda, quarta e sexta – Vila Cleopatra
Segunda, quarta e sexta – Vila Cristiano
Segunda, quarta e sexta – Vila Emilia
Segunda, quarta e sexta – Vila Marumby
Segunda, quarta e sexta – Vila Nova
Segunda, quarta e sexta – Zona 01
Segunda, quarta e sexta – Zona 02
Segunda, quarta e sexta – Zona 03
Segunda, quarta e sexta – Zona 04
Segunda, quarta e sexta – Zona 05
Segunda, quarta e sexta – Zona 06
Segunda, quarta e sexta – Zona 07
Segunda, quarta e sexta – Zona 08
Segunda, quarta e sexta – Zona Industrial
Terça-feira – Conjunto Habitacional Requião
Terça-feira – Conjunto Residencial Guaiapó
Terça-feira – Jardim Andrade
Terça-feira – Jardim Colina Verde
Terça-feira – Jardim Dias I e Ii
Terça-feira – Jardim Lice
Terça-feira – Jardim Novo Paulista
Terça-feira – Jardim Paulista I, Ii, Iii e Iv
Terça-feira – Jardim Tóquio
Terça-feira – Loteamento Sumaré
Terça-feira – Parque Avenida
Terça-feira – Parque Dos Grevileas
Terça-feira – Parque Grevileasii
Terça-feira – Parque Residencial Eldorado
Terça e quinta – Alvorada Iii
Terça e quinta – Chacara Alvorada
Terça e quinta – Chacara Morangueira
Terça e quinta – Champagnat
Terça e quinta – Cidade Jardim
Terça e quinta – Conjunto Hab. Requião I
Terça e quinta – Conjunto Itaparica
Terça e quinta – Conjunto Karina
Terça e quinta – Conjunto Res. Branca Vieira
Terça e quinta – Conjunto Res. Rodolpho Bernard
Terça e quinta – Conjunto Residencial Parigot Souza
Terça e quinta – Ebenezer
Terça e quinta – Jardim Alvorada
Terça e quinta – Jardim Alvorada Parte Ii
Terça e quinta – Jardim Brasil
Terça e quinta – Jardim Campos Eliseos
Terça e quinta – Jardim Canadá
Terça e quinta – Jardim Castor
Terça e quinta – Jardim Do Sol
Terça e quinta – Jardim Dourado
Terça e quinta – Jardim Glória
Terça e quinta – Jardim Imperial I
Terça e quinta – Jardim Imperial Ii
Terça e quinta – Jardim Império Do Sol
Terça e quinta – Jardim Monte Rei
Terça e quinta – Jardim Monte Sião
Terça e quinta – Jardim Monte Sinai
Terça e quinta – Jardim Novo Alvorada
Terça e quinta – Jardim Novo Oásis
Terça e quinta – Jardim Oásis
Terça e quinta – Jardim Paraizo
Terça e quinta – Jardim Paris
Terça e quinta – Jardim Paris I e Ii
Terça e quinta – Jardim Pinheiro I
Terça e quinta – Jardim Pinheiro Ii
Terça e quinta – Jardim Real
Terça e quinta – Jardim Rebouças
Terça e quinta – Jardim Santa Clara
Terça e quinta – Jardim Santa Helena
Terça e quinta – Jardim São Francisco
Terça e quinta – Jardim Universitário
Terça e quinta – Liberdade I
Terça e quinta – Loteamento Alto Da Boa Vista
Terça e quinta – Loteamento Grajaú
Terça e quinta – Monte Belo
Terça e quinta – Parque Res. Cidade Nova
Terça e quinta – Parque Res. Patricia
Terça e quinta – Parque Res. Tuiuti
Terça e quinta – Vila Esperança
Terça e quinta – Vila Ipiranga
Terça e quinta – Vila Morangueira
Terça e quinta – Vila Nevada
Terça e quinta – Vila Progresso
Terça e quinta – Vila Santo Antônio
Terça e quinta – Zona Armazém
Quinta-feira – Cidade Universitária
Quinta-feira – Condomínio Ana Rosa
Quinta-feira – Condomínio Cidade Campo
Quinta-feira – Condomínio Portal Das Torres
Quinta-feira – Condomínio Santa Maria
Quinta-feira – Condominio Santa Marina
Quinta-feira – Conjunto Bela Vista I e Ii
Quinta-feira – Conjunto Hab. Herman Moraes Barros (Miosotis)
Quinta-feira – Jardim Brasilia
Quinta-feira – Jardim Diamante
Quinta-feira – Jardim Favoretto
Quinta-feira – Jardim Los Angeles
Quinta-feira – Jardim Lucianópolis
Quinta-feira – Jardim Mandacaru
Quinta-feira – Jardim Maravilha
Quinta-feira – Jardim Monte Carlo
Quinta-feira – Jardim Oriental
Quinta-feira – Jardim Paris Iii, Iv, V e Vi
Quinta-feira – Jardim São Jorge
Quinta-feira – Jardim Seminário
Quinta-feira – Jardim Vitória
Quinta-feira – Parque Das Bandeiras
Quinta-feira – Parque Das Laranjeiras
Quinta-feira – Parque Das Palmeiras
Quinta-feira – Parque Residencial Quebec
Quinta-feira – Tropical
Quinta-feira – Vila Santa Isabel
Quinta-feira – Vila Vardelina
Sexta-feira – Chacara Estilo
Sexta-feira – Cidade Hanover
Sexta-feira – Cidade Industrial
Sexta-feira – Conjunto Hab . João Barros Thais
Sexta-feira – Conjunto Hab. Sanenge
Sexta-feira – Conjunto Res. Ney Braga
Sexta-feira – Distrito De Floriano
Sexta-feira – Distrito Industrial Ii
Sexta-feira – Giardino San Marco
Sexta-feira – Iguatemi
Sexta-feira – Jardim Atami
Sexta-feira – Jardim Aurora
Sexta-feira – Jardim Califórnia
Sexta-feira – Jardim Campo Belo
Sexta-feira – Jardim Do Carmo
Sexta-feira – Jardim Dos Pássaros
Sexta-feira – Jardim Espanha
Sexta-feira – Jardim Everest
Sexta-feira – Jardim Guairacá
Sexta-feira – Jardim Indaiá
Sexta-feira – Jardim Kosmos
Sexta-feira – Jardim Montreal
Sexta-feira – Jardim Nilza
Sexta-feira – Jardim Nordeste
Sexta-feira – Jardim Olímpico
Sexta-feira – Jardim Ouro Cola
Sexta-feira – Jardim Santa Cruz
Sexta-feira – Jardim São Clemente
Sexta-feira – Jardim São Miguel
Sexta-feira – Jardim Sofia
Sexta-feira – Jardim Três Lagoas
Sexta-feira – Parque Hortência I
Sexta-feira – Parque Hortência Ii
Sexta-feira – Parque Residencial Andreia
Sexta-feira – Residencial Arezzo
Sexta-feira – São Domingos

A ciência da inquisição no século 21: o caso da África do Sul

Foto 1: Tim Noakes/Facebook

Perseguição ao cientista Tim Noakes é exemplo do poder de orquestração da indústria do açúcar e da subserviência das organizações que a cercam por dinheiro  

Quatrocentas e oitenta e oito páginas para exorcizar 140 caracteres. O africano Timothy David Noakes, cientista em fisiologia do esporte, precisou escrever o livro Lore of Nutrition (Ciência da Nutrição, ainda sem tradução no Brasil) para fechar as portas do inferno abertas com a seguinte tuitada: “O bebê não precisa comer lácteos (industrializados) e couve-flor. Apenas leite materno e manter a dieta de baixo carboidrato”. Essas palavras eram apenas uma resposta a Pippa Styling, uma jovem mãe sul-africana com dúvidas sobre a dieta do filho, que começava a ingerir novos alimentos. Ela marcou Noakes na rede social. E o pesquisador, gentilmente, como era de praxe, respondeu. Eram 16h32 do dia 5 de fevereiro de 2014 e começava a perseguição ao homem nascido no Zimbábue.

Hoje com 68 anos de idade, o estudioso enfrentou 3 anos de inquisição em plena segunda década do século 21. Uma ação obscura realizada por inimigos de peso. Muitos atores – de nutricionistas a cientistas defensores de interesses prioritariamente econômicos – interpretaram os papéis de inquisidores. Todos dirigidos por uma mão forte no cenário da ciência da nutrição na África: a indústria do açúcar.

A linha de pesquisa de Noakes, que aponta sérios problemas de saúde como consequências do consumo de alimentos cheios de açúcares e ingredientes não saudáveis, foi o limite para que as trevas viessem à tona. Até a University of Cape Town (Universidade da Cidade do Cabo), na África do Sul, onde trabalhava, se voltou contra ele. Colegas de academia passaram a olhá-lo como adversário.

O establishment médico científico acumulava ressentimentos, já que o fisiologista havia demolido dogmas em temas que interessavam a pesquisadores financiados pela indústria. Objetos de estudo como hidratação, algo que O joio e o trigo contou aqui, motivação e fadiga nas competições esportivas profissionais e amadoras tiveram os parâmetros revistos no continente.

Um incômodo a quem quer manter lucros exorbitantes em prejuízo da saúde, no país que é o sétimo maior consumidor de refrigerantes do planeta e que tem índice de obesidade infantil em preocupantes 14,2%. A prevalência é mais elevada entre as meninas que vivem nas áreas urbanas, na casa dos 30%.

Vinte e oito por cento dos adultos estão obesos ou com sobrepeso em solo sul-africano. Num índice que inclui todas as faixas etárias e gêneros, chega o dado mais aterrador: a obesidade mórbida acompanha e ameaça 15% da população.

A diabetes, sozinha, matou mais de 25 mil pessoas em 2016, último ano com cálculos disponíveis. E as instalações de saúde pública do país registraram a média 10 mil novos casos da doença por mês.

Recebendo pressões nacionais e internacionais de instituições e ativistas pela alimentação adequada e saudável, e seguidas recomendações da Organização Mundial de Saúde (OMS), o país debatia, desde 2014, a criação de um imposto sobre bebidas açucaradas, à exceção dos sucos de frutas.

Finalmente, a taxa foi aprovada pelo parlamento em dezembro passado e entrará em vigor no dia 1º de abril. Fixado em 2,1 centavos por grama de teor de açúcar superior a 4 gramas por 100 ml, o novo imposto deve elevar a arrecadação tributária em, ao menos, 2 bilhões de rands sul-africanos, o equivalente a mais de US$ 1,6 bilhão ou R$ 5,2 bilhões.

Nesse ambiente, a indústria do açúcar precisava mostrar força. Estava decidido. Tim Noakes deveria cair no inferno e ser demonizado publicamente.

Primeiro círculo: a chantagem do limbo

A partir da superfície, alguém teria de fazer a função de abrir os círculos do inferno a Tim Noakes. Foi a esse papel que Claire Julsing Strydom, presidente da Associação de Dietética da África do Sul (ADSA) à época, se prestou. Ela denunciou o professor por “conduta não profissional” junto ao Comitê de Conduta Profissional do Conselho de Profissionais de Saúde da África do Sul (HPCSA) após a troca de tuítes com Pippa Styling.

Apenas um tuíte como fundamento e o fogo estava aberto. O fisiologista passaria pelo limbo, o lugar destinado a todas as “almas” não “batizadas” pela indústria do açúcar. O objetivo de quem o tratava como pagão era começar o caminho deixando-o na geladeira por um tempo, com a ameaça de cassar-lhe a licença médica e condená-lo ao esquecimento. Uma chantagem. Se houvesse um pedido de desculpas público, a denúncia poderia ser retirada.

No entanto, Noakes escolheu lutar e defender a posição que havia manifestado no Twitter e, principalmente, a linha de pesquisa em que trabalhava. Estava disposto a enfrentar o processo no conselho para dizer que não merecia ter a licença cassada e descortinar os interesses subterrâneos daquela disputa.

“Meu primeiro argumento foi apontar como as dietas com altos teores de carboidratos são biologicamente baseadas. A maioria dos humanos é resistente à insulina. Alimentar dietas com alto teor de carboidratos resistentes à insulina produz obesidade e diabetes tipo 2, mais outras condições relacionadas à síndrome de resistência à insulina, que incluem pressão alta, câncer e demência”, diz Tim Noakes, em entrevista exclusiva para a nossa reportagem.

Por experiência do próprio corpo, Noakes sabe do que fala. Descobriu-se diabético. Além disso, viu o pai morrer vítima de diabetes tipo 2. “Minha família seguia as diretrizes dietéticas dos EUA. Acreditávamos que tudo iria bem”, conta o fisiologista africano.

A família Noakes seguia o que a maioria faz: o “remédio do fracasso”, segundo o pesquisador. Médicos dizem aos pacientes que diabetes e obesidade são doenças complexas, genéticas, crônicas, progressivas e incuráveis. A indústria patrocina pesquisas que reforçam esse discurso, num movimento circular vicioso.

“Isso absolve-os de qualquer necessidade de resolver a causa real, ou seja, os produtos que causam esses problemas de saúde e outros relacionados, em primeiro lugar”, afirma Tim.

Uma argumentação sólida de defesa surgia na mente do professor. Ele devia descer ao circuito sombrio construído pela indústria para desmontar o ataque. O que mais lhe chamava a atenção no jogo das corporações era inspirado numa citação do poeta e ambientalista estadunidense Wendell Berry: “As pessoas são alimentadas pela indústria alimentar, que não presta atenção à saúde, e são tratadas pela indústria da saúde, que não presta atenção aos alimentos.”

De acordo com Noakes, os medicamentos modernos tratam obesidade, diabetes e hipertensão como se fossem doenças separadas. “Tudo está ligado. Há uma única condição subjacente: resistência à insulina. Meus pacientes não têm pressão alta ou obesidade, por exemplo. A condição subjacente é a resistência à insulina e, se não tratamos a condição subjacente, simplesmente tratamos sintomas, não a doença”, explica o cientista.

Segundo círculo: o “pecador”

A postura combativa de Noakes o libertou do congelamento, mas ainda havia muito a enfrentar. O palco dos julgamentos dos “pecadores contra a indústria” era a próxima etapa. Nele, o médico confrontaria o começo de uma longa jornada.

“A perseguição a mim foi orquestrada pelas forças que controlam as diretrizes dietéticas em todo o mundo. Aqueles que trouxeram as acusações estavam atuando como representantes de organizações privadas”, revela o fisiologista africano.

Especificamente na África do Sul, as principais organizações de “financiamento” dos conselhos dietéticos são a Associação do Açúcar Sul-Africano e empresas de comercialização de cereais, grãos processados ​​e óleos vegetais. Nessa conjuntura, o International Life Sciences Institute(ILSI), uma instituição aparentemente científica, compõe a linha de frente – contamos sobre a atuação do ILSI no Brasil em várias reportagens.

“O ILSI representa a Coca-Cola, a indústria farmacêutica e empresas como a Monsanto, e desempenhou um papel central (no julgamento), uma vez que várias testemunhas especializadas que se colocaram contra mim têm fortes ligações com o instituto”, conta.

Pudera. O ILSI é, literalmente, filho da Coca-Cola. Nasceu em 1978, fundado pela corporação que vende o refrigerante mais conhecido do planeta. Rhona Applebaum, diretora mundial de Ciência e Saúde da Coca até 2015, quando se “aposentou” após se ver envolvida em denúnciasde financiamento para direcionar estudos, foi presidente do instituto até o final do mesmo ano. Um histórico resumido desenha com clareza o perfil da entidade: na OMS, representantes do ILSI interferiram nas políticas antitabaco, nos esforços contra doenças crônicas, e, mais recentemente, nas orientações dietéticas que limitam a ingestão de açúcar.

A influência do ILSI se mostra tentacular no caso Noakes. A Universidade da Cidade do Cabo, ex-empregadora de Tim, e a ADSA, representada pela denunciante Claire Strydom, andavam de braços dados no intuito de condenar o pesquisador.

As evidências de envolvimento conjunto dessas organizações nos bastidores são diversas. Em 2015, quando o julgamento atravessava momento crucial, o ILSI financiou um estudo de ingestão de micronutrientes em crianças sul-africanas, conduzido por membros do Departamento de Nutrição da Universidade do Cabo. Uma “pesquisa fraudulenta”, segundo Noakes, feita para comprovar que o açúcar não seria o responsável pelo crescimento de doenças crônicas não transmissíveis no país.

O departamento acadêmico, por sua vez, prestou apoio significativo à equipe de acusação, bancando trabalhos da professora Marjanne Senekal, na mesma linha do estudo financiado pelo ILSI.

Para completar, a direção da universidade articulou e foi coautora de uma carta escrita por quatro professores, publicada em jornal local, num texto extremamente agressivo contra Tim Noakes.

Bombardeado por ex-companheiros, o fisiologista necessitava, além de se defender cientificamente, desnudar as relações detrás dos ataques e as finalidades econômicas que os dirigiam.

“Sim, eles (ex-colegas de universidade) fizeram tudo isso, incluindo o decano da Faculdade de Medicina e professores de medicina, que escreveram ao jornal local da Cidade do Cabo dizendo que eu promovia uma revolução; que eu falava de curas impossíveis, quando eu apenas relatava o que os pacientes me diziam sobre diabetes, por exemplo”, ressalta o pesquisador.

Em síntese, ele era acusado por “pares” de promover “um debate acadêmico sufocante” e de realizar trabalhos que não eram compatíveis com “os altos padrões” da universidade. Isso, apesar de ser um dos 13 cientistas classificados pela Universidade do Cabo como A1 (a classificação máxima), num ranking que foi novamente oferecido em novembro de 2016, quando o julgamento se aproximava do fim e os argumentos de Noakes se fortaleciam.

“Eu acredito que as ações antiéticas contra mim indicam até que ponto a universidade, assim como a maioria, foi capturada pelos interesses das grandes empresas, incluindo as corporações farmacêuticas e de alimentos”, avalia o professor.

Terceiro círculo: a lama

Hora de nadar no “lago da lama”, espaço reservado aos que sucumbiram ao pecado da gula. No caso em questão, a gulodice possui dois sentidos, que se encontram no fim de uma bifurcação: 1 – apetite desmedido por dinheiro. 2 – uma população que se enche de açúcar “orientada” por uma espécie de “marketing científico”.

Após a denúncia de Claire Strydom, a Comissão de Inquérito Preliminar do Conselho de Profissionais de Saúde se reuniu em 22 de maio de 2014 para resolver se Noakes seria ou não julgado. Foram dois dias de reuniões e nada concluído. A decisão ficou para um novo encontro, marcado para 10 de setembro.

Nesse meio tempo, a comissão encomendou um relatório secreto para “nortear a decisão”. A encomenda foi pedida à médica Esté Vorster, ex-presidente do ILSI na África do Sul. Pedido feito e prontamente acatado, o documento produzido por Vorster mencionava uma nova análise que, supostamente, refutava a posição de Noakes, que só teria a oportunidade de ler o conteúdo quando um funcionário do conselho o enviou, por engano, aos advogados de defesa.

“No meu julgamento, apresentamos 12 dias de evidência científica. Em contraste, a acusação baseou-se em um único estudo”

O texto citado por Vorster recebera o apelido de “Naude Review” (Revisão Naude), em referência à autora principal, Celeste Naude. O estudo é aquele apoiado pelo ILSI e considerado uma fraude por Tim Noakes.

“Não havia base científica para os ataques. No meu julgamento, apresentamos 12 dias de evidência científica, incluindo o contra-interrogatório. Em contraste, a acusação baseou-se em um único estudo, o Naude Rewiew, que é irremediavelmente falho e até fraudulento. Os argumentos científicos produzidos pela acusação eram facilmente destruídos por nossos advogados de defesa”, enfatiza Noakes.

Realmente, uma boa pesquisa mapearia a situação sem muitas dificuldades. Celeste Naude, no ano de 2014, palestrou no “Simpósio Açúcar e Saúde”, evento da Associação do Açúcar, a mesma entidade que pagou os gastos com a pesquisa liderada por ela em 2015.

Em linhas gerais, a “Naude Review” classifica as dietas de baixo carboidrato (glicídios e açúcares) num patamar de consumo de 45% diários desses nutrientes. E descreve como “equilibrada” uma dieta com base de até 65% ao dia.

Quando a revisão foi publicada, em julho de 2016, as organizações de saúde financiadas pela indústria de junk food da África do Sul entraram em ação, usando a análise para tentar desacreditar Noakes. O material de divulgação da pesquisa recomendava entrar em contato com representantes da ADSA e HPCSA para mais informações.

Com ar triunfante, a Associação do Açúcar informou, nas redes sociais, “que novas descobertas desmascararam as alegações de que dietas pobres em carboidratos resultam em mais perda de peso”.

Só em dezembro de 2016 Tim Noakes conseguiu espaço e tempo para responder cientificamente. Em dupla com a pesquisadora estadunidense Zoë Harcombe, publicou a crítica “The universities of Stellenbosch/Cape Town low-carbohydrate diet review: mistake or mischief?” (As universidades de Stellenbosch/Cape Town na revisão da dieta de baixos carboidratos: erro ou prejuízo?), a respeito da “Naude Review”, mostrando que nem mesmo os padrões relatados na seleção de estudos para a revisão foram seguidos.

Quarto círculo: os avarentos

A “missão” da indústria é acumular riquezas materiais acima de preocupações com direitos fundamentais, como saúde, alimentação adequada e informações seguras. E algumas entidades ditas científicas fazem de tudo para engordar o caixa.

“Nenhuma unidade do ILSI no mundo é instituição científica. O que se tem, no ILSI, é uma organização funcionando para a Coca-Cola e muitas outras organizações com reputação duvidosa, como a Monsanto”, sentencia Tim Noakes.

De acordo com ele, financiamentos de empresas como a Coca-Cola são chamados na África de “fruta baixa”. Ou seja, são fáceis de alcançar. As corporações, sempre espertas, têm consciência de onde e com quem deixar essas frutas.

“Há cientistas que são atraídos para esse tipo de financiamento. Eles são mais narcisistas e mais fáceis de ser controlados pelos financiadores, pois são criticamente dependentes desses recursos”, analisa.

A indústria do açúcar, portanto, sabia a quem procurar com o objetivo de atacar o pesquisador. Nomes mais facilmente influenciáveis para encontrar o que as corporações queriam mostrar estavam à mão, no ILSI.

Não mais que um decoreba é a resposta típica das organizações financiadas pelas corporações quando se fala em doenças crônicas não transmissíveis e obesidade. Os altos e crescentes índices desses males seriam responsabilidade de pessoas que não se cuidam por “preguiça”. Dessa forma, uma questão difusa, de saúde pública, é individualizada. Os maus hábitos dos consumidores se tornam o centro do debate, numa manobra de desvio de foco.

Isso é ótimo à economia das corporações, que produzem itens de baixa qualidade nutricional em larga escala e os vendem em ritmo acelerado. E péssimo ao bolso dos cidadãos, do qual sai dinheiro para comprar comida porcaria e, depois, remédios. Duplamente péssimo: porque o prejuízo, muitas vezes, estoura no sistema público de saúde, nos tributos recolhidos, e são usados para reparar problemas causados pelo trilhardário setor privado da indústria alimentar. A África do Sul é um retrato fiel dessa situação.

Além de ser ex-presidente do ILSI, Esté Vorster manteve laços com a Associação do Açúcar Sul-Africano, que lhe financiou pesquisas por anos. Ela, inclusive, é integrante do painel científico da entidade, o que a OMS definiu “como um conflito de interesses“, recomendando que a médica “se abstivesse de participar dos debates específicos e do processo de tomada de decisões para o desenvolvimento de recomendações e orientações sobre os açúcares em âmbito mundial”.

No entanto, na África do Sul, ela ainda goza de um status de pesquisadora respeitada quando se fala em qualquer tópico relacionado a junk food. Enquanto presidia o ILSI, desenvolveu e foi coautora das primeiras orientações dietéticas do país, sempre par e passo com a Associação do Açúcar, a financiadora do primeiro workshop que balizou as diretrizes, realizado no Zimbábue.

Nesse evento, o ILSI pagou passagens e estadias a delegados que compactuavam com as orientações para “partilhar a experiência sul-africana com 11 outros países africanos.” A presidente do grupo de trabalho era Penny Love, que foi consultora da Associação do Açúcar, o que incluía organizar simpósios sobre “açúcar e saúde”.

Vorster e outro integrante do ILSI, o irlandês Michael Gibney (o mesmo que, em 2017, encabeçou um ataque à classificação NOVA, base do Guia Alimentar para a População Brasileira, criada pelo Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde, liderado pelo professor da Faculdade de Saúde Pública da USP Carlos Monteiro), publicaram as primeiras diretrizes alimentares da África do Sul em 2001, no Journal of Clinical Nutrition. A publicação incluiu um artigo intitulado “Desenvolvimento de orientações alimentares dietéticas para a África do Sul – o processo”. Carol Browne, diretora da Associação do Açúcar, assinou como coautora, declarando a afiliação profissional como “relações públicas” da organização.

Mesmo assim, a expressão “conflito de interesses” não aparece em nenhum dos materiais publicados sobre as diretrizes. Porém, os documentos as manifestam por outras palavras: “os alimentos ricos em açúcares evitam doenças crônicas por vários efeitos e mecanismos”, garante uma parte do texto. Outro trecho traz a afirmação de que “a ingestão moderada de açúcar e alimentos ricos em açúcar também pode fornecer uma dieta saborosa e nutritiva”. De outro lado, inexistem recomendações para limitar a ingestão de açúcar.

O Departamento de Saúde da África do Sul aceitou as orientações para 2001. Provisoriamente, mas aceitou. Depois de pressões da sociedade civil e de alguns poucos cientistas, entre eles, Tim Noakes, a repartição decidiu cobrar dos “especialistas” que as diretrizes abordassem limitações ao consumo de açúcar.

O governo adotou oficialmente as primeiras diretrizes em 2003, com a pequena advertência de “ingerir alimentos e bebidas que contêm açúcar com moderação e evitar o ingrediente entre as refeições”.

Nove anos depois, em 2012, o governo sul-africano lançava a segunda edição das diretrizes dietéticas. E lá estava Esté Vorster, dessa vez como autora principal. O show de aberrações estava garantido. Apesar de a equipe dedicada ao “suporte técnico do açúcar” observar que “o consumo de açúcar adicionado parece estar aumentando constantemente em toda a população sul-africana”, as novas orientações foram ainda mais favoráveis à indústria açucareira. A advertência de não ingerir açúcares entre as refeições foi removida e substituída por uma frase pouco enfática “usar açúcar e alimentos e bebidas ricas em açúcar com moderação”.

Além de Vorster, a ADSA pediu a participação da indústria na criação das diretrizes de 2012. A indicada foi Sue Cloran, gerente de nutrição e marketing da Kellogg’s, e membro da força-tarefa do ILSI na Europa.

Três em um: ira + “heresia” = ciência violentada

Pode-se dizer que, durante o processo, Noakes viveu um conflito em várias trincheiras. Confrontou a ira da indústria e daqueles que a defendem fielmente, ainda que precisem “pecar” contra a ciência. E até violentá-la para proteger interesses privados.

Esté Voster chegou a esse ponto. Um problema para julgar e condenar Tim Noakes era a fragilidade da denúncia original de Claire Strydom, baseada no Twitter. A defesa do acusado dizia que “não havia base em evidências científicas”.

Na tréplica, não foi Strydom quem teve destaque, mas, sim, Vorster. Ela respondeu que não havia necessidade de apoiar a denúncia com “evidência experimental” e “que as referências das orientações dietéticas baseadas em alimentos pediátricos sul-africanos seriam suficientes”.

A partir dessas premissas nada confiáveis, a médica concluía que Noakes “ou não está familiarizado ou não confia nas atuais orientações dietéticas da África do Sul, e, portanto, não é qualificado para aconselhar sobre questões alimentares”. Claro que, em nenhum momento, ela falou sobre o fato de ser uma das principais autoras das orientações financiadas pela indústria açucareira.

Apesar de todos os problemas apresentados, o relatório de Vorster foi bem-sucedido no propósito inicial: a comissão responsabilizou Noakes em 10 de setembro de 2014. A sentença, chocante para ele e os advogados de defesa, alegava que o pesquisador teve “comportamento ou conduta não profissional, agindo contra a conformidade das normas e padrões de sua profissão e fornecendo conselhos não convencionais sobre amamentação de bebês em redes sociais”.

Oitavo círculo: hipocrisia

Perspectivas jornalísticas superficiais do julgamento de Tim Noakes eram publicadas aqui e ali na África do Sul. Repórteres que compareceram a uma audiência viram Claire Strydom desabar em lágrimas. Parecia difícil crer que aquele rosto delicado tomado pelo choro fosse parte de uma articulação pró-açúcar.

Strydom, contudo, era apenas a parte mais visível da investida contra o pesquisador. Havia peças muito mais poderosas atrás das cortinas. Quando apresentou a denúncia, Claire, além de presidente da Associação de Dietética da África do Sul, era consultora nutricional da Kellogg’s.

Com o julgamento iniciado, ela apagou a maioria da documentação on-line que expunha o relacionamento com a corporação. No entanto, não deu para esconder tudo. Ainda hoje é possível ver rastros. No site da empresa “para soluções nutricionais” pertencente a Strydom estão as experiências como consultora de muitas megaempresas, Kellogg’s inclusa.

Dentro da ADSA, Claire não está sozinha. A diretora Linda Drummond é “manager” de nutrição e relações públicas da Kellogg’s. Cheryl Meyer, responsável pela comunicação da associação, e Leanne Kiezer, tesoureira, eram, respectivamente, consultora e assistente nutricional da transnacional.

Os textos institucionais da ADSA procuram a isenção. “Nós não acreditamos no endosso de marcas para as comunidades para que trabalhamos” é a tônica do falatório, o que não combina com o mais de 1/3 da receita da entidade saído de patrocinadores corporativos, incluindo Nestlé e Unilever.

Tem mais. Em parceria com a Sociedade de Nutrição da África do Sul (NSSA), a ADSA organiza um congresso anual de nutrição. Os patrocínios são os óbvios. Gigantes das indústrias alimentar e farmacêutica; Associação do Açúcar Sul-Africano, Unilever, Nestlé Nutrition Institute, Kellogg’s, Glaxo Smith Kline e Discovery Vitality.

Em maio de 2014, as sociedades de nutrição locais ainda receberiam reforço institucional do ILSI, com o primeiro encontro sobre nutrição do instituto em território sul-africano. Dele, foi extraído um grupo de trabalho para o país. Isso ocorreu nove dias antes da primeira reunião da comissão da HPCSA que decidiria se Noakes seria julgado. A decisão foi adiada, mas a linha de frente a serviço do açúcar não perdeu tempo.

Nunca uma força-tarefa do ILSI havia sido criada com a especificidade de se dedicar à nutrição na África do Sul. E, logo, surgiria mais uma “coincidência”. A primeira atividade oficial do grupo foi a apresentação no congresso de nutrição da ADSA de 2014, com foco em construir “parcerias de colaboração entre academia, governo e indústria”.

Era setembro daquele ano, justamente quando Noakes recebia a notícia da confirmação do julgamento no conselho federal.

Três diretores do Departamento de Saúde da África do Sul falaram na sessão, representando as direções Nutricional, de Promoção da Saúde e Nutrição e de Doenças Não Transmissíveis, o que ajuda a dimensionar o poder da indústria do açúcar no país, que Tim Noakes enfrentava.

Nono círculo: a derrota da traição

Depois de cumprir um longo e tormentoso caminho, ficou mais fácil para Noakes compreender que não eram Claire Strydom ou Esté Vorster as grandes responsáveis pelo julgamento. Cada movimento deixava mais evidente quem estava mexendo as peças. Vieram as audiências e, em novembro de 2015, o conselho convocou “peritos” para formar o grupo de acusação.

Fora a previsível convocação de Vorster, vieram Ali Dhansay, Salomé Kruger e Willie Pienaar. Dhansay e Kruger possuem registros de relações com a indústria de comida porcaria.

Dhansay, que é pediatra, também presidiu o ILSI da África do Sul, em 2013, quando trabalhou em cooperação com representantes das megaempresas Coca-Cola, Mars, Nestlé e Bayer. Atualmente, é presidente da Sociedade de Nutrição da África do Sul, entidade de longeva proximidade com a indústria. Mais grave: chefia o South Africa Medical Research Council (Conselho de Pesquisa Médica da África do Sul). O homem que lidera a produção de pesquisas de intervenção nutricional para o governo sul-africano é o mesmo que mantém laços apertados com as corporações do açúcar.

Histórias de financiamentos pelo dinheiro do açúcar também não faltam a Salomé Kruger. Ela, que se apresenta como cientista da nutrição, teve pesquisa bancada pela Associação do Açúcar Sul-Africano. O trabalho atenua os efeitos da alimentação excessiva e de má qualidade e coloca o sedentarismo como o “principal determinante da obesidade em mulheres negras na província do Noroeste do país”. O estudo segue o padrão adotado pelo Global Energy Balance Network, da Coca-Cola, que patrocinou pesquisadores de vários países para comprovar que o problema não está no refrigerante, mas nas pessoas preguiçosas e sedentárias.

Noakes enfrentava um batalhão, mas a narrativa que mantinha era consistente. As audiências se arrastaram até 2017 e o pesquisador teve a oportunidade de responder uma a uma às críticas dos que o tinham como alvo. Dentre a estratégia de acusação, o único documento pretensamente científico usado contra ele (a análise de autoria de Celeste Naude e defendida por Esté Vorster) foi dissecado.

“Na verdade, fornecemos provas de que o documento é fraudulento. Os autores ainda precisam explicar como o artigo pode ter tantos erros. E as universidades em que trabalham não conseguiram completar avaliações críveis desses documentos para mostrar que os erros podem ser explicados por falha humana em vez de intenção deliberada de prejudicar a minha posição científica”, desabafa o professor.

Tim precisava contra-atacar de maneira fulminante. Para não deixar dúvidas, a defesa mostrou o quanto a adoção da dieta industrial moderna, à base de alimentos ultraprocessados, coincide com o aumento de doenças crônicas não transmissíveis. Também se concentrou na resistência à insulina como o principal motor das chamadas “doenças do estilo de vida”, que, na concepção de Noakes, são distúrbios nutricionais.

Em 21 de abril de 2017, o cientista foi absolvido do “crime” que não cometeu pelo comitê do HPCSA, por 4 votos a 1. Sequelas chegaram, porém. Se não materiais, já que os dois advogados principais, Mike van der Nest e Ravin Ramdass, trabalharam de graça, as consequências emocionais foram inevitáveis.

O desafio, então, era sair do estado depressivo após o trauma a que ele e familiares foram submetidos.

“Minha esposa e eu ficamos incrivelmente estressados ​​durante todo o julgamento. Não podíamos pensar em nada além do julgamento e eu estava bastante deprimido, o que é o oposto do meu estado normal. Quando terminou, comecei a me curar, mas a depressão ameaçava voltar quando me lembrava do que passamos. Agora, esse poço de depressão parece ter sido esvaziado”, confessa o professor.

Talvez, uma das mais importantes saídas terapêuticas para Noakes combater a depressão e o estresse tenha sido perceber, depois de passada a tormenta, o que representou o resultado do processo: uma contundente derrota para todos os que promovem e se beneficiam das atuais diretrizes dietéticas sul-africanas.

“Eles nunca esperaram as consequências de suas ações imorais. Eles nunca imaginaram que escreveríamos um livro sobre tudo o que aconteceu comigo nos últimos anos. Agora, suas ações estão registradas para o mundo ver. Eles não conseguem se esconder das consequências do que fizeram”, diz Noakes.

É nessa parte que entra o segundo mecanismo terapêutico usado por Timothy David Noakes. O livro Lore of Nutrition, escrito em parceria com a jornalista sul-africana Marika Sboros, fornece respostas científicas a todos os ataques sofridos pelo pesquisador, que, na obra, não foge de nenhum tema. Traz, inclusive, a publicação dos argumentos de acusação na íntegra.

“É um livro de ciência, mas apresentado como se fosse um romance. Não poderíamos ter um veículo melhor para levar nossa mensagem para a África do Sul e, depois, para o mundo”, reflete o cientista, que agora aguarda o resultado do julgamento de uma apelação da acusação junto ao HPCSA, que deve sair ainda neste mês.

Mais de 36 mil pessoas, principalmente profissionais de saúde de várias partes do planeta, tinham assinado, até o fechamento desta reportagem, uma petição criada por um grupo de médicos independentes dos Estados Unidos reivindicando que o processo contra o pesquisador seja extinto.

Enquanto isso, Noakes segue trabalhando e afirma que a missão é levar o mais longe possível a mensagem de uma alimentação realmente equilibrada, com “comida de verdade” e baixa quantidade de carboidratos/açúcares, principalmente para os resistentes à insulina. Ele está perto de iniciar um teste de uma dieta econômica e baixa em ultraprocessados e carboidratos nas comunidades mais pobres da África do Sul.

O cientista conta que, após a publicação do livro, se emocionou ao receber mensagens de “um grande número de colegas médicos”, que escreveram para anunciar mudanças de práticas, se concentrando no papel da nutrição nas doenças crônicas.

“Esperamos que o livro também ajude o público a perceber até que ponto sofremos lavagem cerebral para acreditar numa série de mitos alimentares promovidos para o benefício financeiro das indústrias farmacêutica e alimentar. Que as pessoas percebam que o que acreditamos sobre alimentos e o que escolhemos comer como resultado serão os principais determinantes de como vivemos. E, igualmente importante, de como morremos”, finaliza Tim Noakes.

De quem conhece

Se Tim Noakes é referência há tempos no Continente Africano e ganhou projeção nos Estados Unidos e Europa, na América Latina o trabalho dele ainda é pouco conhecido. Mesmo o caso do julgamento bancado pela indústria do açúcar foi quase negligenciado pelos noticiários daqui.

Um dos poucos que acompanha sistematicamente a pesquisa do cientista africano e que tem conhecimento profundo sobre as circunstâncias da “guerra nutricional” travada na África do Sul é o médico José Carlos Brasil Peixoto, de Porto Alegre.

“O que a indústria e as associações financiadas por ela fizeram ao Tim Noakes foi uma demonstração do poder financeiro das corporações. Foi uma exibição que levou um recado a pesquisadores do mundo todo: ‘Quem se posicionar contra a indústria do açúcar e dos ultraprocessados vai sentir o nosso poder’”, destaca Peixoto.

Para ele, a postura de Noakes colocou “em alerta máximo” os interesses da grande indústria alimentar. Por isso, a reação veio com um exemplo de força e coerção.

“Naturalmente, as forças do poder estão totalmente infiltradas em instituições oficiais, na educação, entidades de regulamentação e vários órgãos de governo. Há nomes pomposos que representam e, ao mesmo tempo, encobrem esses interesses. Aparentemente, na África do Sul, assim como no Brasil, a justiça é o braço forte do rei. Obviamente, a ciência de verdade não existe para garantir interesses. No entanto, se os financiadores das pesquisas são os mesmos que lucram com seus resultados, quem pode chamar isso de ciência?”, questiona o médico gaúcho.

Nota de Rodapé: as pequenas descrições dos círculos do inferno presentes no texto não expressam nenhum tipo de posição religiosa do autor ou de O joio e o trigo. São, na verdade, referências literárias e remetem à obra A Divina Comédia, escrita pelo autor florentino Dante Alighieri, no século 14.

Nota de Rodapé 2: saiba mais sobre a atuação de organizações como o ILSI no Brasil aqui aqui.

Fonte – Moriti Neto, O Joio e o Trigo de 06 de março de 2018

ONU lança orientações para estimular amamentação em unidades de saúde

Publicação da OMS e do UNICEF visa encorajar aleitamento materno em unidades de saúde. Foto: OMS/Anuradha SarupPublicação da OMS e do UNICEF visa encorajar aleitamento materno em unidades de saúde. Foto: OMS/Anuradha Sarup

Divulgada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), publicação sobre aleitamento materno em unidades de saúde dá orientações a profissionais para que incentivem a amamentação. Material também traz recomendações para os pais de recém-nascidos. A alimentação dos bebês com leite materno pelos dois primeiros anos pode salvar a vida de mais de 820 mil crianças.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) e o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) lançaram na quarta-feira (11) uma nova publicação sobre aleitamento materno em unidades de saúde. Material dá orientações a profissionais para que incentivem a amamentação e também traz recomendações para os pais de recém-nascidos. A alimentação dos bebês com leite materno pelos dois primeiros anos pode salvar a vida de mais de 820 mil crianças.

De acordo com as agências da ONU, o aleitamento materno na primeira hora de nascimento protege os recém-nascidos de infecções. A amamentação exclusiva por seis meses evita doenças gastrointestinais e a desnutrição, que são observadas não apenas nos países em desenvolvimento, mas também nos desenvolvidos.

A prática também está associada a um QI mais alto, bem como a taxas de desempenho e frequência escolar mais elevadas. A amamentação é capaz ainda de reduzir o risco de câncer de mama nas mães.

O documento divulgado nesta semana reúne dez orientações para promover o aleitamento materno em centros de atendimento que prestam serviços de saúde materna e neonatal. A publicação também recomenda o uso limitado de substitutos do leite materno e traz orientações sobre alimentação, mamadeiras e chupetas.

A diretora-executiva do UNICEF, Henrietta Fore, ressaltou que “a amamentação requer apoio, encorajamento e orientação”. “Com estes passos básicos, implementados adequadamente, podemos melhorar significativamente as taxas de aleitamento materno em todo o mundo e dar às crianças o melhor começo de vida possível”, completou a dirigente.

O leite materno é uma importante fonte de nutrientes para crianças de seis a 23 meses de idade. O alimento pode fornecer a metade ou mais das necessidades calóricas de uma criança entre seis e 12 meses. Entre os meninos e meninas de 12 a 24 meses, um terço das calorias consumidas pode ser obtido pelo leite materno.

O diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, alertou que “o fato de uma criança ser amamentada ou não pode fazer a diferença entre a vida e a morte e em seu desenvolvimento”.

“Os hospitais não existem apenas para curar os doentes. Eles estão lá para promover a vida e garantir que as pessoas possam prosperar e viver suas vidas em todo o seu potencial”, acrescentou o chefe da agência de saúde da ONU.

Acesse a publicação Ten Steps to Successful Breastfeeding (“Dez passos para uma amamentação de sucesso”, em português) clicando aqui. O documento faz parte da iniciativa Hospital Amigo da Criança, lançada em 1991 pela OMS e pelo UNICEF.

Fonte – ONU Brasil de 12 de abril de 2018

 

Quase todos os portugueses sabem que o plástico é um problema. Mas só metade muda de comportamento

Segundo um inquérito 22,6% não conhecem as alternativas ecológicas, como os sacos de pano, escovas em bambu, ou garrafas reutilizáveis. E 65% não sabem identificar os plásticos recicláveis.

Quase todos (96%) os portugueses inquiridos numa campanha de sensibilização conhecem o problema ambiental causado pelos descartáveis de plástico, mas apenas metade mudou o seu comportamento, anunciou nesta quarta-feira a Quercus, que divulgou a iniciativa europeia em Portugal.

A campanha “#40 dias sem plástico”, que decorreu no período da Quaresma (assinalado por alguns grupos cristãos antes da Páscoa), alcançou diariamente 17.800 pessoas, nomeadamente em redes sociais, segundo o balanço avançado à agência Lusa pela Quercus.

A iniciativa convidou os europeus a desistir dos produtos descartáveis, ao mesmo tempo que sensibilizou as populações para modos de vida mais amigos do ambiente, tentando reduzir a poluição do mar.

As conclusões do inquérito a uma amostra de 300 pessoas “permitiram demonstrar que, apesar de 95,9% dos participantes conhecerem o problema ambiental do uso de descartáveis e dos microplásticos, apenas 49,6% mudaram o comportamento adoptando melhores práticas no seu dia-a-dia”, refere a associação de defesa do ambiente Quercus.

Naquele grupo de inquiridos, 22,6% não conhecem as alternativas ecológicas aos descartáveis, como os sacos de pano, escovas em bambu, garrafas reutilizáveis ou palhinhas em inox, a maioria tem dúvidas na identificação dos produtos que contêm microplásticos e 65% não sabem identificar os plásticos recicláveis.

Como usar o ecoponto?

“Foi ainda possível verificar que continuam a existir muitas dúvidas sobre que resíduos podem ser colocados no ecoponto amarelo” já que 78% dos inquiridos acreditam que podem colocar cápsulas de café e 22,5% acham que não podem colocar pacotes de leite.

Vários partidos apresentaram já propostas visando a proibição ou redução do uso de utensílios descartáreis nos restaurantes, diplomas que estão a ser analisados na Assembleia da República.

“A situação não é animadora”, salienta a Quercus, já que o consumo de produtos descartáveis está a crescer e estudos recentes mostram que 259 milhões de copos de café, 10 mil milhões de beatas de cigarros, 40 milhões de embalagens de take-away, mil milhões de palhinhas de plástico e 721 milhões de garrafas descartáveis são consumidos em Portugal em cada ano.

Plásticos, como cotonetes, palhinhas ou sacos de plásticos descartáveis, vão parar aos oceanos e deterioram-se, dando origem a pequenas partículas que são ingeridas pelos animais e levam à sua morte.

Os microplásticos também são um ingrediente de muitos cosméticos e produtos de higiene pessoal, como exfoliantes para cabelo, corpo e rosto, pastas e cremes dentais, entrando na rede de esgotos, mas como são demasiado pequenos para serem completamente filtrados nos sistemas de tratamento vão para os rios e mares.

Estas partículas acabam por entrar na cadeia alimentar dos humanos, “podendo colocar a saúde em risco”, alerta a Quercus.

A poluição do mar pelos plásticos é um problema global. Em 1990, a produção de plástico era metade da actual e daqui a alguns anos poderá existir no oceano mais plástico do que peixe, se nada for feito para evitar o elevado consumo deste material, conclui.

Os plásticos são fabricados a partir do petróleo e demoram entre 200 a 400 anos a desaparecer do meio natural, tendo o seu fabrico várias questões ambientais associadas.

Fonte – Público.pt de 04 de abril de 2018

Ministério do Trabalho atualiza lista suja do trabalho escravo

Resultado de imagem para clothes cheap cost slavery

O Ministério do Trabalho atualizou hoje (10)  o cadastro de empregadores que tenham submetido trabalhadores a condições análogas às de escravo, a chamada “lista suja”. A atualização traz 34 novos nomes de pessoas físicas e jurídicas que foram responsáveis por 269 trabalhadores em situação análoga a de escravo. A lista tem 166 nomes.

Entre as empresas estão a ALL América Latina Logística (atual Rumo Malha Paulista), a Cone Brasil, que comercializou alimentos no Rock in Rio e duas construtoras responsáveis por obras no Programa Minha Casa Minha Vida.

A publicação ocorreu após decisão judicial proferida pela 11ª Vara do Trabalho de Brasília em ação do Ministério Público do Trabalho. A União tinha até o dia 27 deste mês para publicar a lista atualizada. O descumprimento implicaria multa diária de R$ 10 mil.

A lista completa pode ser acessada no seguinte endereço.

Fonte – Edição Nádia Franco, Agência Brasil de 10 de abril de 2018

FAO oferece curso online sobre agricultura familiar e manejo de recursos naturais

Agricultores semeando alface crespa. Foto: Flickr/ Orgânicos do Pivas (Creative Commons)Agricultores semeando alface crespa. Foto: Flickr/ Orgânicos do Pivas (Creative Commons)

Quer aprender técnicas de produção agrícola sustentável e entender como gerir de forma responsável os recursos naturais? A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) oferece uma formação online gratuita sobre o tema, com conteúdos sobre agricultura familiar, sistemas pesqueiros, aquicultura e exploração de bens florestais. Capacitação é inspirada em iniciativa brasileira.

Quer aprender técnicas de produção agrícola sustentável e entender como gerir de forma responsável os recursos naturais? A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) oferece uma formação online gratuita sobre o tema, com conteúdos sobre agricultura familiar, sistemas pesqueiros, aquicultura e exploração de bens florestais. Capacitação é inspirada em iniciativa brasileira.

Com 40 horas de duração, o curso está disponível em inglês e usa uma metodologia de autoaprendizado, em que o aluno acessa o material didático e avança as etapas no seu próprio ritmo.

O treinamento é inspirado no projeto Cultivando Água Boa, da Itaipu Binacional, que criou uma metodologia para envolver produtores rurais na conservação da bacia do rio do Paraná.

A iniciativa mobiliza mais de 2 mil parceiros, engajados em promover práticas sustentáveis em propriedades familiares da região. Em 2015, o programa recebeu o prêmio Água pela Vida da ONU, na categoria melhores práticas de gestão dos recursos hídricos. A Itaipu replicou o modelo na Guatemala e no Paraguai.

A formação da FAO é voltada para pessoas e organizações interessadas em implementar programas de gestão sustentável dos recursos naturais e da produção agrícola. O curso apresenta um panorama da agricultura familiar na América Latina e no Caribe e traz informações sobre tecnologias, pesquisa e boas práticas.

Participantes aprenderão sobre novas ferramentas e estratégias de desenvolvimento socioprodutivo, que incluem planejamento e manejo territorial para uma produção familiar responsável.

Para participar do curso, é necessário criar uma conta no Núcleo de Treinamento em Política Pública do Escritório Regional da FAO para América Latina e Caribe. Para se cadastrar e saber mais sobre o curso, clique aqui.

A formação ficará disponível no portal da FAO até março de 2019.

Fonte – ONU BR de 28 de março de 2018

Rotulagem de alimentos: quem tem a força na Anvisa?

Agência não explica de onde partiu recomendação para analisar ‘fortemente’ modelo de rotulagem frontal apresentado fora do prazo por uma associação parceira da indústria de ultraprocessados

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) voltou a dar sinais dúbios sobre o padrão de rotulagem frontal de alimentos ultraprocessados que será adotado no Brasil. Em breve depoimento exibido durante debate realizado segunda-feira (26) na TV Câmara, a gerente-geral de Alimentos da Anvisa, Thalita Antony de Souza Lima, enfatizou que está em análise um modelo ainda em fase de implementação na França.

“Recentemente, a Anvisa recebeu um pedido para que fosse considerado fortemente um modelo chamado NutriScore”, disse Thalita. A frase tem sujeito e objeto, mas falta um elemento: quem pediu que fosse considerado “fortemente” o modelo francês? Tentamos obter uma resposta oficial da agência reguladora, mas, como é de praxe, fomos ignorados.

O NutriScore, publicamente, corria por fora dessa disputa, antagonizada pela indústria de ultraprocessados e pela Aliança pela Alimentação Adequada e Saudável, uma coalizão formada por ONGs e especialistas da área de saúde.

O modelo apresentado pelos fabricantes propõe a adoção de um semáforo com as cores verde, vermelho e amarelo para sal, açúcar e gorduras saturadas.

Já o sistema encampado pelas entidades da sociedade civil se baseia no que foi adotado em 2016 no Chile. São sinais de advertência. No caso brasileiro, os estudos conduzidos pela Universidade Federal do Paraná e pelo Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec) resultaram em triângulos com fundo preto que destacariam o excesso de sal, açúcar, gorduras totais e gorduras saturadas, além de acusar a presença de edulcorantes.

O NutriScore, como se pode ver pela imagem, lembra a lógica de classificação de eletrodomésticos, que recebem notas de A a E quanto a consumo de energia. No caso dos alimentos, porém, a nota é dada por um algoritmo que cruza as informações nutricionais.

A afirmação da gerente-geral de Alimentos reforçou a informação de bastidores de que a Anvisa tentaria encontrar um caminho intermediário entre os interesses da sociedade civil e os da indústria de alimentos. Durante audiência pública realizada em novembro, Thalita já havia dado declarações pouco claras sobre os rumos da agência. Na ocasião, a leitura de que não havia evidências científicas suficientes foi aplaudida pela indústria e lamentada pelos representantes da sociedade civil.

No último dia 13, a jornalista Claudia Collucci, da Folha de S. Paulocomentou que a agência está sob pressão dentro do governo para que adote uma medida em favor da indústria. O problema, como veremos adiante, é que o semáforo não tem sido muito convincente.

Conflito de interesses

E como o NutriScore chegou à mesa do órgão regulador? Inicialmente, chegou depois do prazo. A agência já havia realizado essa primeira audiência pública, dando sequência a uma discussão iniciada muito tempo antes, e que deve ter desfecho ainda em 2018. Em dezembro, haveria mais um encontro a portas abertas, mas a agência recuou e passou a tratar do assunto em reuniões menores, fechadas.

A Associação Brasileira de Nutrologia (Abran) começou a propagandear o NutriScore em dezembro. Nós podemos relevar o fato de que foi apresentado fora do prazo com o argumento de que, mais importante do que o rigor com os trâmites, é o que é bom para a saúde pública. Vá lá. A história foi divulgada em 20 de dezembro, quando as atenções das pessoas estão mais voltadas a festejos e descansos. E, ainda assim, nem sequer a proposta estava oficializada: o material de divulgação fala que o NutriScore seria apresentado à Anvisa “o mais breve possível”.

“Vamos propor à Anvisa o NutriScore da maneira como ele foi concebido, que avalia o que há de positivo e negativo no mesmo produto e é oposto da rotulagem restritiva, que não nos agrada”, afirmou Carlos Alberto Nogueira de Almeida, diretor do Departamento de Nutrologia Pediátrica da Associação Brasileira de Nutrologia.

Ele afirmou que a “proibição” representada pelo modelo chileno não funciona e que o importante é dar orientações à população. É o mesmo argumento da indústria. O que não é surpresa: a Abran é conhecida pela proximidade com os fabricantes de ultraprocessados. Também não é surpresa saber que associações científicas com conflitos de interesses têm vez e voz na Anvisa.

Uma das atividades da Abran é conceder selinhos de certificação para produtos que paguem por esses selinhos. No ano passado, a entidade produziu artigo em que defendia a segurança do aquecimento de azeite a altas temperaturas, tema muito debatido na pesquisa científica. Uma conhecida empresa de azeite é compradora dos selinhos da Abran.

A associação realiza ainda o Congresso Brasileiro de Nutrologia, no ano passado organizado num centro de convenções em São Paulo. A existência de uma área comercial é “comum” nos eventos de saúde, mas a do encontro de nutrólogos superou todas as que cruzamos pelo caminho. Havia uma enorme feira com farta distribuição de brindes. E, para chegar às salas, era obrigatório passar pelo meio dos estandes. Entre muitos debates, acompanhamos um que relativizava a recomendação da Organização Mundial de Saúde (OMS) sobre aleitamento materno exclusivo até os seis meses; e outro que promovia um produto mágico para o emagrecimento.

Critérios

No material de divulgação apresentado às vésperas da chegada do Papai Noel, a Abran não esclareceu qual modelo de perfil nutricional adotaria. Isso é tão importante quanto o design. Falando a grosso modo, o sistema trazido do Reino Unido pela indústria tem critérios mais frouxos quanto àquilo que receberia sinais vermelhos e amarelos.

“Tem diferenças brutais e extremas no que diz respeito a esses critérios de ponto de corte. A proposta apresentada pelo Idec é baseada em critérios internacionais”, disse Igor Britto, advogado do Idec, no programa realizado pela TV Câmara. Ele exemplificou usando os refrigerantes: enquanto 80% dos produtos hoje disponíveis receberiam algum sinal de advertência, apenas 20% teriam a cor vermelha se adotado o padrão da indústria.

No geral, o estudo apresentado pelo Idec à Anvisa revelou que pouquíssimos produtos teriam semáforo vermelho, ao passo que a maioria desses mesmos produtos receberia ao menos um sinal de advertência se adotado o sistema defendido pela sociedade civil.

Vamos pegar um caso clássico. O Toddynho teria dois triângulos pretos (açúcar e gorduras saturadas). Mas, no sistema da indústria, haveria apenas um sinal amarelo (açúcar) – o que significa que crianças receberiam sinal verde para um produto alto em gorduras saturadas.

Nós olhamos produtos similares sob a ótica do NutriScore, e todos marcaram as notas D ou E, o que também transmite ao consumidor uma ideia do tipo “Putz, melhor não comprar isso aqui”.

No caso do Toddynho Light, de novo haveria dois triângulos pretos, para sal e açúcar. No sistema da indústria, seguiria lá o sinal amarelo para açúcar – crianças receberiam sinal verde para um produto alto em sódio.

Contradições

A decisão da Anvisa de colocar o NutriScore no páreo também contradiz o que a agência reguladora havia declarado na audiência pública realizada em novembro: na ocasião, foi deixado claro que os técnicos consideravam insuficientes as evidências científicas apresentadas tanto pela sociedade civil como pela indústria. E enfatizou-se a necessidade de que os modelos fossem testados na realidade brasileira.

É o que os dois lados fizeram. Indústria e Aliança conduziram pesquisas comparativas e entregaram à agência conclusões opostas. Já o NutriScore não foi testado no Brasil e, mesmo em âmbito global, há pouquíssima literatura publicada a respeito, ao passo que o semáforo foi razoavelmente estudado e o modelo chileno tem evidências crescentes a respeito do funcionamento.

Há duas questões fundamentais sobre o sistema francês. Primeiro, é de adesão voluntária. Segundo, ele se saiu bem na comparação com outros modelos, mas o padrão chileno foi deixado de fora.

Você pode conhecer a comparação entre modelos no minidoc recém-lançado pelo canal Do Campo à Mesa.

Já falamos brevemente aqui no Joio sobre a apresentação de Michael Rayner, da Universidade de Oxford, durante o Congresso Internacional de Nutrição, realizado em outubro do ano passado em Buenos Aires. Rayner é um dos criadores do semáforo nutricional, primeiro sistema de rotulagem frontal, adotado na década passada no Reino Unido. Como o modelo é de adesão voluntária, apenas 60% dos produtos estão integrados. E não é difícil imaginar quais produtos as empresas optam por rotular.

O importante é que Rayner disse de maneira clara que o semáforo não funciona a contento. Só para não deixar esquecer, é esse o sistema que a indústria gostaria de adotar no Brasil. Porém, entre a apresentação desse modelo à Anvisa e o dia de hoje, vários países rejeitaram o semáforo e foram adiante com o modelo chileno. O Uruguai já tem o decreto pronto para publicação. O Peru, idem. E o Canadá já partiu do pressuposto de que os alertas funcionam melhor, com expectativa de fechar uma posição ainda este ano. Israel também adotou um sistema similar, mas, sob pressão do setor privado, adiou a implementação.

Rayner conduziu uma comparação entre os vários modelos. E concluiu que o chileno é aquele que exerce o maior impacto sobre o comportamento do consumidor, enquanto o semáforo fica no pé da lista. O NutriScore ocupa um espaço intermediário, ou seja, não é um sistema ruim, mas, talvez, não seja tão bom quanto o criado pelo país sul-americano. Precisaríamos de mais e mais pesquisas para chegar a uma conclusão. O que falta ser testado em relação ao modelo chileno é o impacto para a saúde pública, o que só poderá ser feito com o passar dos anos.

Já que a história descambou para os eletrodomésticos, vamos apelar a uma metáfora. Você cansou de tomar banho de canequinha e foi atrás de um chuveiro. Chegando à loja, você se deparou com três modelos: o britânico, o chileno e o francês. O preço dos três é o mesmo, de modo que a qualidade será o único fator levado em conta. O fabricante do aparelho britânico gasta dinheiro a rodo com publicidade. No entanto, o sujeito que o inventou já disse que ele não funciona muito bem.

O modelo chileno está no mercado há pouco tempo, mas todo mundo que provou disse que ele esquenta perfeitamente — inclusive o cara que fez o chuveiro britânico. Alguns dos maiores analistas de chuveiros do mundo comprovam a qualidade. A única dúvida é se ele gasta muita energia ou não. Por fim, o chuveiro francês está em fase de testes e parece bom, mas nada do que se viu até aqui indica que ele funcione melhor do que o chileno. Bom, parece que você só tem uma opção.

É, mas acontece que o fabricante do modelo britânico não visita sua casa munido de muito poder de pressão. Se ele visitasse, talvez te dissesse “olha, eu sei que você está convencido de que meu chuveiro não funciona, mas o francês não é tão ruim assim, né?, e eu sou muito amigo dos franceses. Eu não me importaria de vê-lo comprar esse chuveiro”.

Enquanto o chuveiro britânico ficou mal na fita, o chileno ganhou vários adeptos. O Ministério da Saúde do Uruguai fez uma pesquisa on-line na qual 94% declararam apoio a esse sistema.

No Brasil, uma pesquisa Datafolha encomendada em setembro do ano passado pela ACT Promoção da Saúde, que integra a Aliança, mostrou apoio de 88% à colocação de advertências nos rótulos.

Estudos conduzidos pelo Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição em Saúde (Nupens) da USP mostraram que os sinais de advertência teriam maior impacto sobre a compreensão do consumidor, a percepção sobre produtos saudáveis e a decisão de compra.

É mais ou menos o resumo das pesquisas conduzidas no Uruguai por Gastón Ares, do Instituto de Psicologia da Universidade da República. Ele nos contou recentemente que, quando começou a estudar o assunto, alguns anos atrás, a hipótese era de que o semáforo funcionava melhor. Contudo, o surgimento do modelo chileno fez as coisas mudarem.

Nos últimos dois anos, ele concluiu que, sob qualquer prisma que se observe, o sistema de advertências funciona melhor ou igual do que o oponente. Com os octógonos pretos que o país deve adotar em breve, o tempo de resposta das pessoas foi mais rápido, o que é importante quando pensamos em um cenário real de compra: ninguém tem o dia todo para observar produto por produto.

Foi também isso que pautou a decisão no Peru. O Ministério da Saúde prometeu que o governo oficializará o modelo em breve. O ministro Abel Salinas declarou que o sinal de alerta leva o consumidor a uma postura de precaução. Já  o semáforo “não foi suficientemente efetivo nem teve impactos em outros países do mundo nos quais se encontra vigente”.

No Canadá, o Ministério da Saúde abriu consulta pública em fevereiro e espera resolver o caso nos próximos meses. A ministra Ginette Petitpas declarou que o país decidiu partir do modelo chileno devido às evidências de que realmente tem impacto no consumo, o que, por consequência, terá impacto sobre a saúde.

Lá, a indústria terá quatro anos para se adaptar. Inicialmente, 50% dos produtos teriam de usar algum sinal de advertência. “Reconhecemos que os canadenses querem ter acesso a escolhas melhores. Vai resolver tudo? Absolutamente não. Mas queremos dar um passo adiante.”

Fonte – João Peres, O Joio e o Trigo de 01 de março de 2018

Lei obriga torneira automática em banheiros públicos

http://topbathroomfaucets.com

Objetivo da medida é diminuir o risco de colapso no abastecimento hídrico

Todos os banheiros de uso coletivo, tanto em prédios públicos quanto privados, que forem construídos deverão ter torneiras com fechamento automático para evitar o desperdício de água. É o que estabelece a Lei 13.647/2018, publicada no Diário Oficial da União na última terça-feira (10).

A norma tem origem no Projeto de Lei da Câmara (PLC) 51/2014, aprovado pelo Senado em março, na semana em que Brasília sediou o 8º Fórum Mundial da Água.

A nova lei estabelece que todos os banheiros destinados ao público, que forem construídos deverão conter equipamentos mecânicos ou eletrônicos para evitar o desperdício de água. Não será concedido “habite-se” aos prédios novos que não estiverem ajustados à regra. O habite-se é o documento da prefeitura que autoriza o uso da edificação.

Autor da proposta, o deputado Lincoln Portela (PR-MG) explica que o objetivo da medida é diminuir o risco de colapso no abastecimento hídrico, uma ameaça real para os próximos anos.

No Senado, o texto passou por três comissões. Na Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ) e na Comissão de Desenvolvimento Regional e Turismo (CDR), os pareceres recomendaram a sua aprovação, com emenda de redação para explicitar a regra não precisaria ser seguida em banheiros residenciais. Na Comissão de Meio Ambiente (CMA), o parecer foi pela rejeição do texto. Apesar de considerar o projeto meritório, o relator na CMA, senador Pedro Chaves (PRB-MS), alegou que havia vício de constitucionalidade na matéria.

Fonte – CicloVivo de 12 de abril de 2018

Metais pesados, hormônios e agrotóxicos estão na água que chega às torneiras

O controle da qualidade da água para abastecimento público segue uma regulamentação falha, que exclui de sua lista de produtos tóxicos os contaminantes perigosos que vão para o copo da população. (Creative Commons – CC BY 3.0)

Análises apontam contaminação em amostras de fontes de abastecimento de SP, RJ, SC e CE, inclusive de água que passou por estação de tratamento. E as concentrações vão muito além do limite permitido

Medicamentos, hormônios sintéticos, metais pesados como chumbo, cádmio, alumínio e urânio e compostos orgânicos nocivos à saúde e ao meio ambiente, entre eles o agrotóxico glifosato, estão na água aparentemente pura e cristalina que chega às torneiras da população. Provenientes do esgotos doméstico e industrial, além de atividades agropecuárias, despejados em mananciais destinados ao consumo humano, atravessam estações de tratamento que adotam processos inócuos e obsoletos, que seguem protocolos defasados e parâmetros científicos superados.

A advertência é da engenheira química e professora titular do campus Curitibanos da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Sonia Corina Hess. Autora de pareceres técnicos para órgãos públicos, como defensorias e promotorias, a especialista é organizadora de um livro em fase de edição na Editora Expressão Popular, que reúne ensaios sobre poluição e doenças no Brasil. No capítulo de sua autoria, Sonia reúne dados de suas pesquisas, além de outros cientistas nacionais e estrangeiros que apontam para a necessidade de o poder público priorizar políticas relativas ao acesso à água e, principalmente, o tratamento de esgotos.

“No Brasil, coletamos apenas 57% dos esgotos gerados, e tratamos apenas 45% do total. É por isso que a cada verão as praias ficam impróprias para banho, inclusive em Santa Catarina. Quanto mais gente, mais esgoto… Nas regiões de pecuária intensiva, o problema é pior ainda. As águas recebem grandes quantidades de dejetos, resíduos de agrotóxicos e de medicamentos utilizados nas granjas. Também por isto nossos rios estão totalmente poluídos”, explica a professora.

É destes rios, conforme lembra, que sai a maior parte da água que vai para abastecimento público. “Ou seja, jogamos esgotos sem tratamento nas mesmas águas que captamos para beber depois. As águas que passam pelas estações de tratamento para o abastecimento, em geral, ficam livres de microorganismos patogênicos, mas ainda contêm resíduos de substâncias químicas potencialmente perigosas. Também é triste verificar que nem todo esgoto coletado é tratado. As próprias empresas de saneamento fazem a coleta, para dar fim aos esgotos a céu aberto, e os lançam no ambiente, sem tratamento”, destaca. “Em São Paulo, estado mais rico da federação, dados oficiais mostram coleta de 87% e tratamento de 62%. Ou seja, 25% do esgoto que é coletado não é tratado”.

Conforme o Diagnóstico dos Serviços de Água e Esgotos do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento, relativo a 2016, apenas 57% do esgoto é coletado no Brasil. E desse total, 74,87% recebe tratamento, conforme a tabela.

tratamento de esgoto no Brasil

Amostras contaminadas

Entre os estudos que constatam a presença de contaminantes tóxicos, que causam doenças graves, em mananciais que abastecem a população de grandes cidades Sonia Hess destaca o realizado na bacia do rio Atibaia, que abastece a população de Campinas (SP).

Ali os pesquisadores identificaram a presença de agentes químicos nas 26 amostras colhidas. São medicamentos como acetaminofeno, ácido acetil salicílico, diclofenaco, os hormônios sintéticos 17α-etinilestradiol, levonorgestrel, 17β-estradiol e progesterona, além de substâncias usadas na indústria plástica, como o bisfenol A e o dibutilftalato, e cafeína, indicador da contaminação de águas por esgotos.

O artigo original pode ser acessado por aqui. “É importante observar que as concentrações de bisfenol A e o dibutilftalato  são superiores ao mínimo necessário para causar efeitos nocivos em seres humanos em animais”, diz Sonia.

Esses hormônios artificiais encontrados pelos pesquisadores, que os químicos chamam de interferentes endócrinos, imitam a ação de hormônios femininos naturais e confundem os organismos, causando distúrbios em animais e seres humanos. Em mulheres, aumenta as chances de endometriose, câncer de mama e de útero. Em homens, crescimento das mamas, redução da libido, impotência e queda na contagem de espermatozoides.

Quanto ao bisfenol A, usado na indústria plástica, há associação comprovada de aumento de células de diversos tipos de câncer, como de mama, próstata e pâncreas, além de alterações endocrinológicas. E o dibutilftalato, da classe dos ftalatos, usados na produção de PVC, entre outros materiais, guarda correlação com alterações endocrinológicas que, entre outras coisas, causam resistência à ação da insulina e obesidade em humanos. Clique aqui para saber mais.

Em 2015, a Defensoria Pública do Estado de São Paulo em Santo André encomendou à especialista um parecer sobre a qualidade da água tratada que abastece o município. No relatório, ela aponta a presença dos metais pesados cádmio, chumbo, urânio e alumínio, o agrotóxico glifosato e seus derivados, e compostos orgânicos chamados trihalometanos. Ou seja, todos esses agentes tóxicos passaram pelos processos de tratamento.

O relatório, que pode ser lido na íntegra (clique aqui para acessar), lista as substâncias encontradas na água proveniente de três estações de tratamento, suas concentrações geralmente acima dos limites estabelecidos pelo Ministério da Saúde, e as doenças comprovadamente desencadeadas por esses agentes tóxicos.

Para se ter uma ideia, uma amostra de água tratada em uma das estações, a ETA Rio Grande, coletada em março de 2014, auge da crise hídrica no estado de São Paulo devido à falta de investimentos do governo de Geraldo Alckmin (PSDB) no setor, ultrapassou a concentração máxima de chumbo permitida pela Portaria 2.914/2011. A norma, do Ministério da Saúde, regulamenta o controle e a vigilância da qualidade da água para consumo humano, estabelece o valor máximo permitido (VMP) para 64 substâncias químicas inorgânicas e orgânicas, produtos secundários da desinfecção e para 27 agrotóxicos.

“Foi detectada a presença desse metal pesado em concentrações que alcançaram 80% e 140% do valor máximo permitido, respectivamente”, destaca Sonia.

O chumbo está associado à elevação da pressão arterial, comprometimento da função cardíaca, dores abdominais, alterações endocrinológicas e no sistema reprodutor, anemia, hipotireoidismo, transtornos mentais e doenças renais, entre outras.

Regulamentação falha

A especialista da UFSC chama atenção ainda para falhas na regulamentação do controle da qualidade da água para consumo humano no Brasil. A Portaria 2.914 do Ministério da Saúde, segundo ela, é falha porque exclui de sua lista de produtos tóxicos muitos dos poluentes detectados na bacia do rio Atibaia. “Dentre os ftalatos, apenas o di(2-etilhexil) ftalato está incluso. É evidente a necessidade de revisão, para que sejam incluídos os limites máximos permitidos em águas de abastecimento público, de diversos poluentes extremamente danosos à saúde humana, que ainda não constam na lista das substâncias com monitoramento obrigatório em água potável”, aponta.

A portaria exclui também o alumínio, cujos sais são usados como coagulantes no processo de purificação nas estações de tratamento, que permanecem na água. Ao ser ingerido, se acumulam nos ossos, rins e cérebro. “Há evidências que a substância cause problemas renais, anemia e alterações neuro-comportamentais em humanos após a exposição a doses excessivas. Estudos têm cada vez mais associado a crescente incidência de mal de Alzheimer e de Parkinson ao consumo de água de abastecimento. Para os técnicos que elaboraram a portaria, não havia evidências suficientes que justificassem alteração”, afirma.

Outra classe de agentes tóxicos muito provavelmente presentes na água distribuída à população é a dos trihalometanos (THMs), que podem resultar da reação química entre o cloro usado para evitar a proliferação de microorganismos e a matéria orgânica presente como poluente, caso dos agrotóxicos, por exemplo. Entre os THMs formados estão o clorofórmio, o diclorobromometano, o dibromoclorometano e o bromofórmio, substâncias que foram detectadas em amostras de dois diferentes mananciais de abastecimento de Florianópolis (SC), em Fortaleza (CE) e na rede de distribuição de água potável da Baixada de Jacarepaguá (RJ) em quantidades acima dos limites estabelecidos.

Isso merece atenção porque, já em 1974, estudos realizados nos Estados Unidos associaram a presença desses agentes na água de abastecimento e o desencadeamento de câncer na população.

Sonia defende também a revisão dos limites para nitratos e nitritos, cuja ingestão pode causar sérios danos à saúde humana. Portaria do Ministério a Saúde estabelece limite de 10 mg/L de águas de abastecimento. Porém, essa concentração é suficiente para desencadear doenças graves, como a metemoglobinemia, conhecida como síndrome do bebê azul. Como nitratos e nitritos nas águas provêm da contaminação por esgotos, o único jeito é melhorar os índices de tratamento de esgotos no país”.

Pesquisas mostram que os nitritos e nitratos, usados como conservantes e antibactericidas, podem se transformar em nitrosaminas, substâncias causadoras de câncer de estômago, entre outros.

“Dá para entender, aos poucos, por que o câncer mata mais de 200 mil pessoas ao ano no Brasil, não é? É uma doença proveniente da poluição, e a água é bem relevante nisto, já que constitui-se no nosso principal alimento. Alternativas para eliminar poluentes tóxicos das águas de abastecimento existem, como a aplicação de ozônio, a ultrafiltração, a nanofiltração e a osmose reversa. Como é possível atualizar os limites para a presença desses poluentes que já foram ultrapassados e não há outros mananciais disponíveis para o abastecimento público?”, questiona Sonia Hess.

Fonte – Cida de Oliveira, Rede Brasil Atual de 02 de março de 2018

 

Palmas terá escola com árvores do cerrado, espécies frutíferas e meliponário

Foto: Walquerley Ribeiro

Foto: Walquerley Ribeiro

Foto: Walquerley Ribeiro

Foto: Walquerley Ribeiro

Local fará a recuperação da mata ciliar e da Área de Preservação Permanente (APP)

Em um terreno de cerca de 50 mil m², na capital de Tocantins, será construída a  Escola Agroecológica ETI Professor Fidêncio Bogo. Desse total, cerca de 1000 m², às margens do Ribeirão Taquarussu, foram destinados para recuperação da mata ciliar e da Área de Preservação Permanente (APP).

São cerca de 180 árvores e 23 espécies povoando um espaço destinado à preservação ambiental. Segundo a bióloga Solange Alves Oliveira, na área foi feito inventário florestal, em parceria com acadêmicos da Universidade Federal do Tocantins (UFT). “O parâmetro usado foi a circunferência da altura e peito das árvores e de valor comercial. Também foram registradas medidas estimadas de altura e foram catalogadas e fixadas placas para identificação”, explica.

 

Para a identificação das espécies e nomes populares das árvores foi levado um mateiro (especialista em conhecimento popular para os nomes dados às árvores) para fazer a primeira identificação e reconhecimento dos nomes populares. Em seguida, segundo a bióloga, foi feita a consulta bibliográfica para compará-los e ligá-los aos nomes científicos. Porém, para constatação final, foi chamado um especialista em botânica para confirmação científica.

Espécies do tipo ipê, macaúba, angico, jatobá, pati, açoita-cavalo, cajá, jenipapo, jaborandi, sangra-d’água, mutamba, amoreira-brava, pupunha e outras centenas de árvores fazem parte da Área de Preservação Ambiental da escola, com sua proposta pedagógica de agroecologia.

Segundo a engenheira ambiental da Secretaria Municipal da Educação, Mariana Borges, a ETI Fidêncio Bogo também vai poder atuar como instituição fiscalizadora para garantir a preservação do Ribeirão Taquarussu, base de abastecimento de água para Palmas. “A escola pode ter a função de aproximar a comunidade científica para monitoramento, fazendo estudos que diminuam o impacto, evitando erosões e a redução da quantidade de água no ribeirão”, frisou.

Meliponicultura

Na Área de Preservação Permanente também será implantado o projeto de Meliponário para criação de abelhas sem ferrão. Cerca de 30 caixas de abelhas das espécies, marmelada, uruçu-amarela, jataí, tiúba, e tubi brava e mansa serão criadas para produção de mel, além de promover aulas para vivências de manejo e educação ambiental.

Frutíferas

Na área destinada à preservação, também foi implantado o Sistema Agro Florestal (SAF). A ideia é de inclusão permanente e cooperação de árvores nativas de grande porte com as frutíferas, para produção de alimentos e sem agressão ao meio ambiente. As frutíferas do tipo goiaba, caju, acaí, acerola, pitanga, bananeiras, além de hortaliças e tubérculos, interagem com espécies originárias da região.

Todo o processo de implantação do Meliponário, plantio e da catalogação de espécies contou com a parceria da Universidade Estadual do Tocantins (Unitins) e Universidade Federal do Tocantins (UFT).

Proposta pedagógica

A nova escola é uma parceria da Prefeitura de Palmas com a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e tem previsão de inauguração para os próximos meses. A ideia é promover aprendizado na zona rural com salas a céu aberto para vivências e práticas produtivas sem uso de agrotóxicos. A proposta pedagógica, voltada à qualificação profissional dos alunos, diferencia a nova unidade educacional devido às ações e estrutura voltadas para o empreendedorismo agroecológico e turismo rural.

Fonte – CicloVivo de 13 de abril de 2018