A China mostra hoje o caos mundial de amanhã

Vamos expor a seguir uma situação em que o raciocínio lógico vem facilmente à nossa razão. É uma circunstância que se mostra tão clara e evidente que não precisa de extensas argumentações. Todas as pessoas que possuem em plena atividade os cinco sentidos básicos são capazes de perceber o momento histórico por que passa o ambiente em que vivemos.

Nossas observações não passam de pontos óbvios. Mas abordamos esses pontos porque sentimos a necessidade de fazê-lo, pois é atributo humano gritar um aviso sobre a aproximação de qualquer perigo à vida. O que nos implica é que grande parte da população ainda não enxergou, não percebeu, não sentiu a obviedade do que vamos tratar.

Se estivermos caminhando numa estrada rumo a um ponto pré-estabelecido, estamos num processo dinâmico de deslocamento e, se não surgir fato novo que nos impeça de continuar ou mudar de rumo, chegaremos afinal àquele destino. Isso é conseqüência do fator tempo, que não pára e segue sempre em frente, imperturbável, produzindo as conseqüências das ações causais, boas ou más, dos fatores de um sistema. Está fora do poder humano parar o tempo. Eis ai um fato a que devemos dar o devido respeito e consideração.

Diz o ditado popular que “pelo dedo se conhece o gigante”. Em outras palavras: pela amostra se conhece o todo. Desprezando-se outros fatos de conhecimento geral, pelos quais fica clara a ação predadora da modernidade, está à mostra, hoje, mais uma evidência: o futuro caótico desta civilização mostrado no exemplo modernista da China.

Aquele país oferece ao mundo um espelho perfeito que reflete o futuro do planeta. Aquela nação tem todos os ingredientes necessários para empreender a viagem pioneira à modernidade materialista, cujo objetivo é a ilusão do nada, conseguida pela destruição do meio ambiente da vida.

A China, com ações desvairadas de progresso material, estimuladas pelos interesses lucrativos do capital internacional, vem mostrando ao mundo aonde leva esse insano procedimento. Com a intenção de realizar em 20 anos o que levou 300 anos na América do Norte, suas ações aceleradas forçaram o tempo natural, ultrapassando as fronteiras do porvir. Isso vem propiciar ao restante do mundo o privilégio de antever as conseqüências de um viver unívoco assentado na ganância individual. Aquele país se esquece que o objetivo da vida é viver. Para isso, basta preservar as fontes que a sustentam, como o bom senso indica. O resto vem de graça, que a Natureza é pródiga.

Estamos assistindo naquele país e regiões adjacentes ocorrências naturais excepcionais cuja gravidade e importância não deveriam ser ignoradas, mas divulgadas ao máximo. Infelizmente, são desprezadas pelo governo chinês e pela mídia mundial. Citamos, a seguir, alguns eventos mais conhecidos:

a)avanços, por fortes ventos, dos desertos do oeste para leste, impedindo o normal funcionamento urbano e diminuindo a área cultivável;

b)desequilíbrio no micro-clima, causando secas severas e chuvas torrenciais, em locais diversos, com as conseqüências adversas tais como desmoronamentos, inundações, frustração de colheitas;

c)envenenamento permanente do ar, obrigando a população das grandes cidades a usarem máscaras paliativas, subvertendo as condições mínimas da vida;

d)aumento abrupto da pegada ecológica;

e)devido ao excesso populacional – 1,3 bilhões, equivalentes a 20% da mundial –, conjugado com as adversidades mencionadas, a terra produtiva tem sido cultivada até ao máximo de sua capacidade, ocasionando seu esgotamento;

f)os reflexos negativos das atividades progressistas da China têm alcançado as regiões próximas, mostrando que, para a Natureza, não existem países, pois todas as partes da esfera terrestre são interdependentes;

g)a água potável já está faltando em diversos locais, ocasionando intervenção radical do governo na sua distribuição. As águas contaminadas vêm provocando problemas de saúde naquele formigueiro humano.

Que a pequena amostra da ganância materialista chinesa sirva para retirar dos cegos a venda que os impede de enxergar a realidade que o progresso provoca. Fica evidente que as ações humanas da atual civilização seguem rumo equivocado.

Mostra o exemplo chinês que desenvolvimento e progresso são objetivos egoísticos e desestabelizantes do frágil ambiente vital. São incompatíveis com a preservação ambiental. As transformações que a atual civilização tecnológica faz na Natureza nunca permanecem impunes.

Maurício Gomide Martins, 82 anos, ambientalista e colunista do EcoDebate, residente em Belo Horizonte(MG), depois de aposentado como auditor do Banco do Brasil, já escreveu três livros. Um de crônicas chamado “Crônicas Ezkizitaz”, onde perfila questões diversas sob uma óptica filosófica. O outro, intitulado “Nas Pegadas da Vida”, é um ensaio que constrói uma conjectura sobre a identidade da Vida. E o último, chamado “Agora ou Nunca Mais”, sob o gênero “romance de tese”, onde aborda a questão ambiental sob uma visão extremamente real e indica o único caminho a seguir para a salvação da humanidade.

O livro “Agora ou Nunca Mais“, está disponível para acesso integral, gratuito e no formato PDF, clicando aqui.

Fonte – Ecodebate de 17 de agosto de 2010

Antonio Indaiá garante a limpeza do Rio Ivaí

Na pacata Ivatuba, cidade da Região Metropolitana de Maringá com menos de 3 mil moradores, com um de cada três morando na zona rural, todo mundo conhece Antonio Indaiá como o homem que cuida do Rio Ivaí. Ele recolhe o lixo que se acumula nas margens e defende uma política de conscientização sobre preservação ambiental.

Antonio na verdade é o empresário Antonio de Souza, que viu o Indaiá incorporado no seu nome por ser proprietário do Hotel Indaiá, o mais antigo hotel de Maringá ainda em funcionamento, tem 64 anos e mora em Maringá há 50.

Não é ecologista de carteirinha, mas dá exemplo de sensibilidade ambiental. E o que no começo foi apenas um trabalho sem grandes pretensões acabou tornando-se uma cruzada que ganhou apoio e poderá atrair outros produtores rurais da região.

Pescando mentes

Proprietário de uma fazenda de 16,5 alqueires às margens do Rio Ivaí, a cinco quilômetros da área urbana de Ivatuba, onde planta soja e milho e cria gado, Antonio percebeu que o lugar em que costumava ficar para sua pesca de barranco acumulava grande quantidade de garrafas plásticas, sacolas, pneus velhos, latas de cerveja, pedaços de redes de pesca, tarrafas e outros objetos.

No começo, ele limpava apenas o lugar a que tinha acesso ao rio, por meio da mata ciliar, mas com o tempo passou a recolher o lixo que se acumulava na margem ao longo do trecho que fica dentro de sua propriedade, de cerca de 3 quilômetros.

Como não tinha onde se desfazer do material, teve que guardar tudo e algum tempo depois tinha um barracão repleto de coisas velhas chegadas pelo rio.

Reciclar é preciso

Souza recentemente entregou a uma empresa de reciclagem mais de meia tonelada de lixo recolhido nas margens do Ivaí e já tem no seu galpão vários sacos com garrafas, pedaços de isopor, sacolas e outros objetos recolhidos nos últimos dias.

“As pessoas vêm para o rio para se divertir, nos finais de semana, mas não carregam consigo a consciência de dar a destinação correta ao lixo que produzem, acabam usando o rio como depósito de lixo sem se preocupar com o problema que isso pode causar”.

O empresário, que se dedica também à agricultura e nos finais de semana é defensor da natureza, diz que gostaria que outros proprietários rurais que estão próximos do rio fizessem o mesmo, mas acha que a questão principal não é exatamente limpar e sim evitar sujar.

“Pelo tipo de lixo que recolhemos dá para perceber que quem suja o rio não são os agricultores localizados nas margens, e sim pessoas que vêm para o Ivaí para se divertir, principalmente nos finais de semana”, denuncia.

“É impressionante o desrespeito com a legislação ambiental”, diz ele, citando que a questão é cultural. “Assim como algumas pessoas jogam lixo nas ruas, não cuidam do ambiente em que vivem, jogam objetos também nos rios, sem pensar que assim estão matando um dos nossos mais importantes recursos da natureza”.

Força da cooperativa

A cruzada de Antonio Indaiá ganhou o apoio do operador de máquinas Reinaldo Alves do Vale, que mora na fazenda com a mulher e dois filhos, passa a semana plantando ou colhendo e nas horas de folga percorre a margem do rio recolhendo lixo.

Também a unidade da Cooperativa Agroindustrial de Maringá (Cocamar) em Ivatuba entrou na luta e colabora com a destinação do material recolhido, dá divulgação à ação de Indaiá e tenta convencer outros cooperados a seguirem o exemplo. “O Ivaí é um patrimônio de todo o povo e se não tivermos cuidado com ele agora, em pouco tempo ele será um rio sem vida”, diz o agrônomo Silvan Marchesan, gerente da unidade.

Vai longe

685 km é a extensão do Rio Ivaí, desde a nascente, no município de Ivaí, até a foz, em Pontal do Tigre, no Rio Paraná.

Rio Ivaí bom de peixe só na lembrança dos pescadores

Reinaldo, que conhece o rio há anos, alerta que o Ivaí está deixando de ser um rio piscoso. “Antigamente era possível pescar pintados, dourados, curimbas, mas hoje está cada vez mais difícil pegar um peixe bom”.

Tanto Reinaldo quanto Indaiá consideram que a queda na piscosidade é resultado da presença de produtos químicos na água, acúmulo de lixo e pesca predatória. Segundo Indaiá, é grande a quantidade de pescadores com redes, tarrafas, espinhéis e anzol de galho no Ivaí.

“A Polícia Florestal faz patrulhamento, mas o rio é grande e o efetivo é pequeno”. Ele entende que há necessidade de fiscalização permanente do rio.

“Já está na hora de a comunidade e o Ministério Público do Meio Ambiente cobrarem providências dos órgãos competentes antes que seja tarde demais”, conclui.

Fonte – Luiz de Carvalho, O Diário do Norte do Paraná de 24 de outubro de 2010

Projeto de lei em tramitação no senado disciplina a composição química de mamadeiras e chupetas

O vereador Carlos Gomes da Silva, o Capitão Gomes (PP) é o autor da Moção de Apoio ao Senado, em tramitação na Câmara de Piracicaba, em respaldo ao PL nº 159/2010, que proíbe a comercialização e a oferta de mamadeiras, bicos e chupetas que contenham bisfenol-A em sua composição. O projeto é de autoria do Senador Gim Argello (PTB-DF). A proibição objetiva evitar possíveis riscos à saúde das crianças.

O bisfenol-A é a substância usada na produção de plásticos e resinas. Produz materiais denominados de policarbonatos, que são moldáveis quando aquecidos e, por isso, muito úteis para a indústria. Tais materiais apresentam também estabilidade e resistência a impactos e ao fogo. No entanto, estudos demonstram que o bisfenol-A tem potencial cancerígeno, além de provocar efeitos adversos no desenvolvimento físico, neurológico e comportamental de crianças, devido ao fato de o componente químico exercer atividade similar à de hormônio.

Em experimentos com animais, revelou-se que doses altas de bisfenol-A podem causar alterações na próstata e no trato reprodutivo masculino. Foram detectados também, problemas no desenvolvimento cerebral de roedores expostos a concentrações elevadas da substância. O relatório preliminar do National Toxicology Program (NTP) tem por base uma experiência com 500 ratos que foram alimentados ou infectados com doses baixas de bisfenol A. A química provocou alterações de comportamento, puberdade precoce, problemas no aparelho urinário e tumores (cancro da próstata e da mama). Um dos estudos recentes baseou-se na recolha de amostras de biberões e chegou a conclusões idênticas às do NTP.

O trabalho “Biberões Tóxicos”, publicado em 2007 pelo Environment California Research and Policy Center, chegou a conclusões semelhantes aos de outros estudos, ou seja, revelou que mesmo em pequenas quantidades, o bisfenol A pode provocar doenças como o cancro da mama, a obesidade, o aumento da próstata, os diabetes, a hiperatividade, as alterações do sistema imunitário, a infertilidade e a puberdade precoce. O que há de novo no trabalho do programa nacional de toxicolgia norte-americano é que este envolve cientistas das principais autoridades públicas norte-americanas em matéria do medicamento e da alimentação: a Food and Drug Administration (FDA), o Center for Diseases Control and Prevention e institutos de saúde públicos. Por estes motivos expostos, é necessário criar mecanismos de proteção ao consumidor, especialmente às crianças que são as maiores vítimas deste produto químico

Segundo estudos da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia do Estado de São Paulo (SBEM-SP), o Bisfenol age como um hormônio sintético e sua ingestão pode provocar câncer, diabete, obesidade, infertilidade e outras doenças. São os bebês os mais vulneráveis aos efeitos do produto. Para conscientizar as mães e a população sobre as ameaças desse tipo de plástico, a SBEM também planeja uma campanha para o assunto.

O bisfenol já é proibido em três países: Canadá, Costa Rica e Dinamarca. Nos Estados Unidos, pelo menos quatro estados também já proibiram a fabricação de mamadeiras com o policarbonato. Considerando a divulgação da imprensa dos potenciais malefícios da exposição de crianças ao bisfenol-A, muitos fabricantes de utensílios infantis no Brasil têm substituído a substância química por outra matéria-prima para a produção de mamadeiras e chupetas.

Na aprovação da Moção também serão enviadas cópias ao Senador Renato Casagrande, Presidente da Comissão de Meio Ambiente, Defesa do Consumidor e Fiscalização e Controle – CMA e ao Senador Cristovam Buarque, Presidente da Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa – CDH, bem como à Dra. Marise Lazaretti Castro, Presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia e à Fabiana Dupont, criadora do site O Tal do Consumo.

Fonte – Câmara Municipal de Piracicaba, gabinete do vereador Capitão Gomes de 19 de outubro de 2010

Os riscos que o País corre se não limitar a possibilidade de aquisição de suas terras por estrangeiros

Jacques Tavora Alfonsin, advogado do MST e procurador aposentado do Estado do Rio Grande do Sul, comenta parecer da Advocacia Geral da União, aprovado pela Presidência da República e publicado dia 23 de agosto passado, sobre as bases legais que autorizam a União a limitar o poder de adquirir terra, no Brasil.

Com a proximidade das eleições, a maioria do povo está com a atenção voltada para o que vai acontecer no próximo dia 3 de outubro. Assim, a repercussão do parecer 01/2008, da Advocacia Geral da União, aprovado pela Presidência da República e publicado dia 23 de agosto passado, sobre as bases legais que autorizam a União a limitar o poder de adquirir terra, no Brasil, não tem tido a repercussão que dele era de se esperar, com a relevância que a matéria exige.

A questão toda se situa em torno de algumas disposições da Constituição Federal que, expressamente, restringem a liberdade de iniciativa e o investimento estrangeiro, quando esse vai utilizar a propriedade (aquisição) ou a posse (arrendamento) de terras no Brasil. O artigo 20 § 2º, por exemplo, considera a faixa de até cento e cinqüenta quilômetros de largura, ao longo das fronteiras terrestres brasileiras, como fundamental para a defesa do território nacional, ali permitindo ocupação e utilização de acordo com o que a lei determinasse.

Essa lei já se encontrava em vigor quando a Constituição foi promulgada (tem o número 6634/79) e, em seu art. 2º, atribuía (como atribui até hoje, pois se encontra em vigor) ao Conselho de Segurança Nacional a competência para dar assentimento prévio para uma série de atos referentes ao uso da dita faixa. Entre tais atos, previam os incisos V e VI deste mesmo artigo: “V – transações com imóvel rural, que impliquem a obtenção, por estrangeiro, do domínio, da posse ou de qualquer direito real sobre o imóvel”; e “VI – participação, a qualquer título, de estrangeiro, pessoa natural ou jurídica, em pessoa jurídica que seja titular de direito real sobre imóvel rural”.

O artigo 171 da nossa Constituição, igualmente, distinguia empresa nacional de empresa nacional com maioria de capital estrangeiro. Essa disposição foi revogada e, justamente por isso, alguns juristas passaram a entender que, com exceção da faixa de fronteira, tinham desaparecido as demais restrições até então existentes, contra a aquisição ou posse de empresas estrangeiras ou nacionais com maioria de capital estrangeiro se estabelecerem aqui sobre nosso território.

Acontece que, desde 1971, a lei n° 5709, que fazia essa distinção, também dispunha sobre posse e propriedade de terra em território nacional, para outros fins, estabelecendo proporção limitada para as aquisições de terra por estrangeiros, não só ratificando aquelas referentes às faixas de fronteiras, mas também restringindo aquisições que ultrapassassem “um quarto da superfície dos municípios.”

E mais. O art. 23 da lei 8629/93 fez referencia à dita lei, reconhecendo-lhe explicitamente, portanto, a sua validade e eficácia: O estrangeiro residente no País e a pessoa jurídica autorizada a funcionar no Brasil só poderão arrendar imóvel rural na forma da Lei nº 5.709, de 7 de outubro de 1971. § 1º Aplicam-se ao arrendamento todos os limites, restrições e condições aplicáveis à aquisição de imóveis rurais por estrangeiro, constantes da lei referida no caput deste artigo. § 2º Compete ao Congresso Nacional autorizar tanto a aquisição ou o arrendamento além dos limites de área e percentual fixados na Lei nº 5.709, de 7 de outubro de 1971, como a aquisição ou arrendamento, por pessoa jurídica estrangeira, de área superior a 100 (cem) módulos de exploração indefinida.

Essa lei 8629/93, regula também todo o procedimento de desapropriação para fins de Reforma Agrária. Levando-se em conta o fato de que ela obedece um capítulo inteiro da Constituição disciplinando a Reforma Agrária (arts. 184 até 191) e que o art. 225 da mesma também prevê a defesa do meio ambiente como um “bem de uso comum do povo”, tem-se de convir que estas outras disposições constitucionais – isso nem pode sofrer dúvida – estiveram em vigor antes da revogação do art. 171, e estão em vigor até agora, o mesmo valendo para a do art. 176 relacionado com os investimentos estrangeiros em matéria de pesquisa e lavra de recursos minerais. A implementação de uma política pública relevante como a da reforma agrária não pode ficar tolhida de distinguir empresas de diferentes origens e composição de capital se, exatamente por imposição do seu domínio externo, incorrer a mesma em descumprimento da sua função social ou agressão ao meio-ambiente.

Sob esse aspecto, aliás, a história do Brasil não favorece a boa fama desse tipo de presença. Quem lê, entre outros, Celso Furtado (A Formação Econômica do Brasil), Raymundo Faoro (Os Donos do Poder), Sérgio Buarque de Holanda (Raízes do Brasil), Ruy Cirne Lima (Terras Devolutas) e Darcy Ribeiro (O processo civilizatório) faz uma idéia bem pouco louvável do que significaram colonização e espoliação das nossas riquezas, patrocinadas por poderes políticos e econômicos externos.

Não por tais revelações se referirem a um passado vencido em anos, os efeitos sociais da atividade estrangeira sobre o nosso território devem ser descartados sem mais, seja para o mal seja para o bem. Uma coisa foi a vinda de imigrantes (maioria pobre), de que dão exemplo italianos e alemães aqui chegados no século XIX. Outra coisa é o que vem acontecendo agora. A diferença está em que aquela gente veio para ficar, e não para retirar daqui o lucro da exploração da terra levando todo o seu resultado para fora do país. Daí poder-se concluir que o mérito deste Parecer da Advocacia Geral da União é muito mais declaratório do que constitutivo. Se ele não tivesse sido publicado, em nada afetaria a vigência das outras disposições constitucionais relativas à matéria que não foram afetadas em nada pela revogação do art. 171 da Constituição Federal. Revogado em 1995, o fato de ter desaparecido a diferença jurídica (!) entre empresas estrangeiras e nacionais com maioria de capital estrangeiro, não fez desaparecer as ditas empresas, interessadas em explorar a nossa terra e, aí, muito menos de revogar as demais disposições da Constituição relacionadas com o problema.

Alguém poderia perguntar, entretanto: afinal de contas, que sentido teve então a revogação de um artigo da Constituição que, justamente, distinguia empresas nacionais de empresas nacionais com maioria de capital estrangeiro? É possível responder-se a uma tal inquietação relembrando o velho conselho hermenêutico de não se fazer dependente a aplicação das leis daquilo que o legislador pretendeu ou não pretendeu (mens legislatoris) e sim o que decorre da presença das disposições legais dentro de um sistema, como ocorre com aquele imposto pela Constituição Federal (mens legis). Da letra e do conteúdo das demais disposições da nossa Constituição, relacionadas com a nossa terra, é impossível deduzir-se que a revogação de um único artigo da mesma, tenha revogado os demais, com tantos ou até mais motivos para fazer a referida distinção. Aliás, uma grande parte do povo parece estar bem consciente disso. O país viveu entre 1° e 7 deste setembro, durante o chamado “grito dos excluídos”, uma campanha nacional traduzida num plebiscito popular, que ainda está contando o número de assinaturas que recolheu, como forma de pressão sobre o Congresso Nacional, para que o mesmo promulgue uma lei, limitando a extensão das propriedades rurais no Brasil, aí inclusive para aquisições feitas por brasileiros. Se isso é considerado necessário para nós, não há de sê-lo para quem vem de fora?

É circunstância que faz pensar a de o próprio parecer da Advocacia Geral da União referir, em apoio da sua conclusão, que, entre alguns dos Estados dos Estados Unidos, como é o caso de New York, até a naturalização como norte-americano se exigir do estrangeiro que lá pretenda se estabelecer com propriedade ou posse de terra. Se isso vale para quem sempre insiste no modelo norte-americano de democracia e de direito, por que não vale para o Brasil?

Quem prega a conveniência do não estabelecimento destas restrições, então, com base na globalização dos mercados, acusa a posição contrária de xenofobia. Polêmica à parte, se essa globalização desequilibra a relação custo-benefício em favor do benefício, não se atina por qual razão as vantagens geradas por esse benefício não devam sofrer, como qualquer outra empresa de investimento, a rigorosa fiscalização e até o poder de intervenção que o Estado tem sobre o seu território, por mínimo respeito a soberania do povo que aqui vive.

Fonte – IHU On-line / Ecodebate de 30 de setembro de 2010

A relação entre cânceres e agrotóxicos

Jandira Maciel da Silva, doutora em Saúde Coletiva, alerta para os riscos de cânceres através da exposição de agrotóxicos e diz que essas substâncias químicas são utilizadas na Saúde Pública

O uso de agrotóxicos no Brasil não se restringe apenas à agricultura. As substâncias tóxicas estão presentes também no serviço de Saúde Pública brasileiro, que utiliza químicos em larga escala para combater vetores transmissores de algumas doenças endêmicas e epidêmicas. A explicação é da médica sanitarista Jandira Maciel da Silva, doutora em Saúde Coletiva. Em entrevista concedida por telefone à IHU On-Line, ela explica que essas substâncias foram utilizadas para combater doenças como chagas e malária, e ainda fazem parte do controle da dengue.

“Quando recebemos um agente sanitário na nossa residência para colocar um ‘remedinho’ no ralo do banheiro, nos vasos de plantas, na verdade ele está aplicando um agrotóxico que, quando é utilizado pela Saúde Pública, acaba assumindo outro nome: pesticida, defensivo agrícola ou domissanitários”, revela. E dispara: “Mas, quando vamos observar, eles fazem parte de uma mesma família de produtos químicos e, portanto, sujeitos a causar danos à saúde das populações e ao meio ambiente.”

Jandira é autora da pesquisa de doutorado Cânceres Hematológicos na Região Sul de Minas Gerais (2007), na qual aponta para uma relação entre cânceres hematológicos e a utilização de agrotóxicos. “Por cânceres hematológicos, classificamos os linfomas, as leucemias e o mieloma múltiplo”, esclarece. E continua: “A grande conclusão a que chegamos é que os trabalhadores que declararam ter tido exposição a agrotóxicos apresentaram um risco de quase quatro vezes maior para o desenvolvimento desse tipo de câncer em relação àqueles que não declararam exposição”.

Jandira Maciel da Silva é graduada em Medicina, pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), mestre em Engenharia de Produção, área de concentração: Dinâmica dos Sistemas de Produção, pela Escola de Engenharia da Universidade Federal de Minas Gerais, e doutora em Saúde Coletiva, pela Universidade de Campinas (Unicamp). É coordenadora da área de Saúde do Trabalhador da Secretaria de Estado da Saúde de Minas Gerais, consultora do Ministério da Saúde.

IHU On-Line – Quando tratamos do debate sobre o uso de agrotóxicos, logo remetemos à agricultura. Que outros setores da indústria utilizam os agrotóxicos na produção e como, nesses outros ramos, essas substâncias se disseminam e contaminam as pessoas?

Jandira Maciel da Silva – A questão dos agrotóxicos inicialmente nos remete à agricultura porque, sem dúvida alguma, é o setor que mais utiliza esses produtos. Aliás, é importante destacar, nesse momento, que a agricultura brasileira é absolutamente dependente desses produtos. Então, temos aí um processo de produção dependente da quimificação. Aliado a isso, é importante registrar que uma parte substancial dos produtos brasileiros advém da agricultura familiar, onde temos a produção de boa parte das leguminosas, horticultura, e isso faz com que também existam mais populações expostas a esses produtos. Por outro lado, a chamada agricultura de extensão, produzida em grandes quantidades de terras, também utiliza esses produtos em larga escala, ocasionando uma série de comprometimentos ambientais.

Agrotóxicos na Saúde Pública

A Saúde Pública no Brasil utiliza esses produtos em larga escala para combater vetores que são transmissores de algumas doenças endêmicas e epidêmicas. Podemos destacar duas doenças históricas no nosso país, em relação às quais se utilizou e continua se utilizando esses produtos: a doença de chagas e a malária. Também podemos trazer isso para o momento atual e lembrar o quanto esses produtos estão sendo utilizados para combater a dengue. Quando recebemos um agente sanitário na nossa residência para colocar um “remedinho” no ralo do banheiro, nos vasos de plantas, na verdade ele está aplicando um agrotóxico que, quando é utilizado pela Saúde Pública, acaba assumindo outro nome: pesticida, defensivo agrícola ou domissanitários. Mas, quando vamos observar, eles fazem parte de uma mesma família de produtos químicos e, portanto, sujeitos a causar danos à saúde das populações e ao meio ambiente. No caso específico da dengue, são utilizados alguns produtos que podem ser danosos aos trabalhadores e à população, que estão expostos a essa realidade.

De um modo geral, nas indústrias, como existe um controle maior do contato, os trabalhadores têm um risco menor, mas estão igualmente expostos a esses produtos. Temos ainda uma situação muito utilizada no Brasil que é a capina química, ou seja, a aplicação do glifosato ara fazer a destruição dos matos, a substituição da enxada pelos produtos químicos. Quando colocamos isso abertamente no ambiente, estamos expondo não só o trabalhador, mas também a população circunvizinha.

Agrotóxicos contaminam a fauna

Lembro que certa vez participei de uma reunião no interior de Minas Gerais, na região da zona mata, produtora de café, e alguns técnicos das indústrias produtoras diziam que, se o agricultor souber usar corretamente o equipamento de proteção individual, ele não será intoxicado. Aí, um senhor perguntou para o técnico se tinha ração para os passarinhos, porque, desde o momento em que os agrotóxicos entraram na região, eles sumiram. Então, essa questão da relação e da contaminação ambiental e de outras espécies provocadas pelos agrotóxicos é algo que não podemos perder de vista quando tratamos desse assunto.

Também não podemos deixar de considerar aqueles que trabalham com o transporte e a comercialização de agrotóxicos. Embora seja proibido vender essas substâncias a granel, no interior do país, encontramos essa atividade com frequência. Todas essas situações de uso levam à exposição e contaminação das pessoas. Além disso, não podemos esquecer de nós – população em geral –, que podemos nos contaminar por esse produtos através dos chamados domissanitários. Muitos de nós têm o hábito de ir ao supermercado comprar produtos para matar baratas, formigas, ratos, e nem sempre conhecemos a toxicidade.

Também nos contaminamos através de alimentos. A Anvisa tem um projeto muito interessante que se chama PARA (Programa de Avaliação de Resíduos em Alimentos), o qual está coletando alguns alimentos nos supermercados e tem encontrado muitas frutas e legumes com o nível de concentração aceitável de agrotóxicos acima do limite ou contaminados por substâncias que não são indicadas e aprovadas para eles. Então, na verdade, estamos diante de um gravíssimo problema de Saúde Pública.

Sabemos, ainda, que a madeira que chega para a indústria moveleira precisa ser tratada para não ser destruída por cupins. Esse tratamento é feito com alguns agrotóxicos. Estudos levantam a possibilidade de trabalhadores da indústria moveleira serem mais susceptíveis a alguns tipos de câncer, em função da contaminação por essas substâncias.

IHU On-Line – A utilização de agrotóxicos na Saúde Pública é legal? É possível vislumbrar novas alternativas a esses produtos?

Jandira Maciel da Silva – O uso dessas substâncias é aprovado em lei. Não sei dizer que alternativa é possível, mas diria que é necessário discutir isso com urgência, pois a população está entrando em contato com volumes enormes dessas substâncias, seja na aplicação do produto sólido, seja na contaminação da dengue ao fazer o combate ao mosquito. Matamos o inseto temporariamente, porque cada vez que ele volta tem mais resistência. Estamos criando um novo problema. O que se discute é que esses são produtos rapidamente degradáveis, e aí temos de analisar como é o comportamento metabólico deles, pois, mesmo que estejam rapidamente degradados, a alteração funcional que eles provocam não é. Muitas dessas reações, como alteração do DNA e mutagenicidade, são irreversíveis.

IHU On-Line – Na sua pesquisa de doutorado, a senhora apontou relações entre cânceres hematológicos e a utilização de agrotóxicos, na região de Minas Gerais. Pode relatar que relações são essas e a que conclusões chegou com seu estudo?

Jandira Maciel da Silva – Esse trabalho nasceu de uma demanda de profissionais da área de saúde na região sul de Minas Gerais, que estavam preocupados com o aumento do câncer nessa região. Essa zona tem fortes características agrícolas e historicamente é uma das principais produtoras de café, em especial do tipo exportação. No doutorado, resolvi partir dessa demanda e fiz um recorte dos cânceres hematológicos. A literatura já aponta a grande probabilidade de eles estarem relacionados com a exposição a substâncias químicas e aos agrotóxicos. Fiz um estudo epidemiológico, do tipo caso-controle, entrevistando 149 casos e 162 controles; a partir dessas entrevistas baseadas num questionário, investigamos, além do sexo, a faixa etária, local de residência, doenças pregressas, a história ocupacional desses dois grupos. Por cânceres hematológicos, classificamos os linfomas, as leucemias e o mieloma múltiplo. A grande conclusão a que chegamos é que os trabalhadores que declararam ter tido exposição a agrotóxicos apresentaram um risco de quase quatro vezes maior para o desenvolvimento desse tipo de câncer em relação àqueles que não declararam exposição.

Algumas perguntas ficam abertas quando se faz um estudo desse tipo, como: Qual foi a dose de exposição? O nome dos produtos é outra informação muito difícil de ser recuperada, porque muitos dos agricultores trabalham como diaristas, são contratados apenas para aplicar o produto, e não sabem que substâncias estão aplicando. Muitos dos produtos ou hoje não existem ou têm novos nomes. Mas, quando resgatamos a história para conhecer o processo de produção do café, aí encontramos informações de que o cultivo de café usou muitos agrotóxicos, além de produtos da família dos organofosforados que são tidos como caselogênicos.

IHU On-Line – Trabalhadores rurais expostos aos agrotóxicos são mais vulneráveis ao desenvolvimento de doenças? Por quê?

Jandira Maciel da Silva – Eles são mais vulneráveis, sim. Não só pela exposição a agrotóxicos, mas por um conjunto de situações que se retroalimentam internamente, como a baixa escolaridade, más condição de alimentação, condições inadequadas de moradia, o que aumenta a vulnerabilidade dessas populações. Entretanto, vários estudos mostram que os agrotóxicos por si só alteram de forma importante a resposta imunológicas das pessoas, pré-dispondo os trabalhadores ao desenvolvimento de doenças.

Quando fiz o mestrado, peguei a embalagem de um produto agrotóxico para entender as instruções de uso. Foi impossível. Não entendi metade das informações que li. Além disso, uma das embalagens que vi era prateada, com letras pequenas e na cor preta.

IHU On-Line – Como a senhora avalia o processo de reciclagem das embalagens dos agrotóxicos?

Jandira Maciel da Silva – Até algum tempo atrás, não existia nenhuma regulação que regulamentasse a reciclagem dos vasilhames. Já vi pessoas lavarem essas embalagens e jogarem a água no solo, e, mais do que isso, as reutilizam para condicionar alimentos e água. Isso continua acontecendo em muitas localidades do interior do nosso país. Desde o surgimento da Lei de regulação das embalagens, o agricultor que compra esses produtos é obrigado a devolver o vasilhame na loja onde comprou, e essa deve devolver à empresa, que é obrigada a reciclar.

IHU On-Line – Como classifica a atuação da medicina brasileira frente às intoxicações por agrotóxicos e às doenças crônicas geradas nos últimos anos?

Jandira Maciel da Silva – Lamentavelmente, a medicina está muito atrasada. Essa é uma queixa constante de trabalhadores e médicos. Há pouca formação sobre essa questão dada no curso de graduação; um número pequeno de universidades oferece disciplinas de toxicologia, que deveria introduzir minimamente esse assunto e também são poucos os cursos de medicina no Brasil que oferecem aulas sobre a saúde do trabalhador. Em geral, os colegas médicos são pouquíssimos preparados para pensar que um câncer e um problema neurológico podem ter sido provocados pelo agrotóxico.

IHU On-Line – Partindo da perspectiva da Saúde Coletiva, como as intoxicações por agrotóxicos devem ser tratadas?

Jandira Maciel da Silva – A partir da perspectiva da Saúde Coletiva que pensa a saúde das populações inseridas nas suas condições reais de vida e trabalho, temos de refratar essas questões. A partir de um modelo inserido no biológico e no individual, não vamos conseguir resgatar isso. Portanto, a própria formação na área da saúde precisa ser fortemente repensada para não ficar presa a esse modelo centrado no corpo físico.

IHU On-Line – Quais são as consequências do uso disseminado de agrotóxicos para as próximas gerações? É possível dizer que as gerações futuras irão nascer com sérios problemas neurológicos ou deficiências físicas e biológicas devido à atual contaminação?

Jandira Maciel da Silva – Em relação à intensidade do uso de agrotóxicos, existe um fenômeno que vem se instalando no mundo e no Brasil: o aumento do câncer. Não quero dizer que o índice de elevação da doença esteja relacionado apenas a isso, mas esse é também um dos fatores. Alguns estudos mostram o aumento de cânceres do sistema nervoso central e de pulmão. Essa doença é, no Brasil, a segunda causa de óbito, uma patologia gravíssima, que tem um custo muito alto para o Sistema Único de Saúde (SUS). A Saúde Pública precisa enfrentar esse assunto com seriedade. Ainda não podemos afirmar que as pessoas irão nascer com sérios problemas, mas algumas pesquisas apontam a possibilidade do aumento de má formação congênita de mulheres agricultoras ou que moram próximas a utilização desses produtos. Essas alterações, inclusive, levam a criança a óbito logo após ao nascimento.

IHU On-Line – É possível reverter a atuação dos agrotóxicos?

Jandira Maciel da Silva – O governo deveria investir pesadamente em alternativas para a agricultura familiar, produzir produtos com a menor quantidade dessas substâncias. Para isso, é importante fazer também uma bela campanha com a população. As pessoas costumam atribuir a qualidade dos produtos a sua beleza. No entanto, esses, em geral, são os mais contaminados por agrotóxicos. Precisamos desmistificar também a ideia de que a produção sem agrotóxico é mais cara, a chamada agricultura orgânica. Assim, estamos falando que quem tem recursos irá comer um produto de melhor qualidade do ponto de vista da contaminação química, e quem não tem vai comer alimentos contaminados. Essa parte da população que tem menos recursos ficará mais vulnerável ainda.

IHU On-Line – Gostaria de acrescentar mais alguma coisa?

Jandira Maciel da Silva – A intoxicação por agrotóxicos no Brasil, desde 2007, passa por um processo de notificação compulsória ao Sistema Único de Saúde (SUS), ou seja, todo o profissional de saúde que suspeitar ou fazer esse diagnóstico deve notificar ao SUS. Essa informação é repassada a um sistema de informação de agravos notificáveis, e o colega que ler essa matéria deve procurar a secretaria municipal de saúde do seu município para se orientar.

O enfrentamento dessa questão do uso de agrotóxicos no Brasil – que passou, em 2009, a ser o maior consumidor do mundo – para a Saúde Pública passa obrigatoriamente por uma ação interssetorial. O sistema de saúde, sozinho, não irá conseguir intervir nessa situação. A resolução desse problema passa, indiscutivelmente, por um debate entre os consumidores, que precisam chamar para si a necessidade de ter à mesa alimentos mais saudáveis e seguros.

Fonte – Jandira Maciel da Silva, IHU On-line / Ecodebate

O negócio do veneno é mais rentável do que o do remédio

Hoje, assegura Sebastião Pinheiro, todos os seres vivos estão contaminados com resíduos de DDT, o maior causador de câncer de próstata e de mama

A IHU On-Line conversou, por telefone, com o agrônomo Sebastião Pinheiro, responsável, junto com outros pesquisadores gaúchos, pela pesquisa divulgada em 1996, que avaliava a relação entre o índice de suicídio, o cultivo de fumo no município de Venâncio Aires, no Rio Grande do Sul e os agrotóxicos. Pouco mais de dez anos depois de realizar um trabalho denunciando casos de suicídios na região, Pinheiro diz que novos estudos não chegaram a nenhuma conclusão, e relata que crianças em idade escolar, no município de Santa Cruz do Sul, até recentemente tomavam medicamentos para curar a depressão. Segundo ele, a justificativa para a aumento da doença na região é clara: os jovens “colhem fumo com as mãos, o veneno que está nas folhas da planta entra no corpo deles e provoca uma depressão”.

De acordo com o pesquisador, o negócio financeiro mais rentável, atualmente, é transformar petróleo em medicamento ou veneno. “Não é possível, através de remédios, fazer com que toda uma população fique doente, mas é fácil criar uma agricultura deficiente”, alerta. A invasão dos agrotóxicos não se restringe apenas à agricultura. Sebastião Pinheiro conta que, no Rio de Janeiro, estão vendendo uma mistura tóxica conhecida como “chumbinho”, que tem na sua base um dos inseticidas mais perigosos do mundo, o TEMIK. “Os traficantes misturam esse TEMIK com cocaína, e essa combinação faz o efeito do tóxico aumentar muito. A pergunta é: Misturar veneno com cocaína é um conhecimento que traficante, analfabeto tem condições de saber? De onde vem essa ideia? Não será de uma fábrica gigantesca?”, questiona.

O pesquisador enfatiza ainda que o “índice de envenenamentos, de nascimento de crianças com distúrbios neurológicos, com alterações hormonais chamados de disrupção endócrina, é a maior catástrofe que existe nesse planeta fora a contaminação dos alimentos, dos rios”.

Sebastião Pinheiro é engenheiro agrônomo, engenheiro florestal e ex-analista do Laboratório de Resíduos de Agrotóxicos do Meio Ambiente, e funcionário do Núcleo de Economia Alternativa (NEA) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

IHU On-Line – O senhor participou de uma pesquisa em 1996 que advertia, entre outras coisas, que o uso de agrotóxicos pela indústria do fumo induzia a suicídios no município de Venâncio Aires, no Rio Grande do Sul. Como está a questão atualmente?

Sebastião Pinheiro – Após aquela pesquisa inicial, o Conselho Nacional de Pesquisa (CNPQ) financiou um novo estudo com médicos e doutores, da qual eu não participei. Nessa análise, eles fizeram alguns levantamentos e, ao que me consta, não chegaram a nenhuma conclusão. Suicídio não tem uma origem única, cartesiana, direta; ele pode ter uma série múltipla de fatores. Assim, um grupo de médicos não tem condições de analisar alterações no campo eletromagnético de pessoas expostas a praguicidas ou agrotóxicos. No momento em que eles não têm capacidade de avaliar isso, o resultado do trabalho não condiz com a realidade.

Hoje, sabemos que a maioria dos agrotóxicos altera o campo eletromagnético das pessoas, levando a uma série de fatores, entre eles a pré-disposição ao suicídio. No entanto, se analisarmos qualquer documento, seja ele civil ou militar, percebemos que uma das causas mais importantes é a depressão causada pela intoxicação, a qual desencadeia os suicídios. Como o assunto é complexo, necessitaria uma equipe multidisciplinar com amplo conhecimento de venenos para investigar o caso. Entretanto, não há, no hemisfério sul, nenhuma equipe com esse gabarito.

Fumageiras no RS

Em Santa Cruz do Sul, a prefeitura tinha, até recentemente, um serviço de dar às crianças remédios faixa-preta. Crianças com idade escolar não podem tomar esses medicamentos. Por que os jovens do município têm depressão? Porque eles colhem fumo com as mãos. O veneno que está nas folhas da planta entra no corpo deles e provoca uma depressão; a nicotina por si só já é um depressivo. As empresas de agrotóxicos conseguem derrubar um presidente em algumas horas. Então, não podemos ser ingênuos e pensar que esses assuntos serão esclarecidos rapidamente.

IHU On-Line – Que fatores favorecem a contaminação através de agrotóxicos?

Sebastião Pinheiro – No Rio Grande do Sul, existem duas grandes bacias hidrográficas. Quase toda a água que chove sob o estado vai para a Bacia do Jacuí ou para a Bacia do Ibicuí. Assim, os herbicidas, inseticidas e fungicidas contaminam as pessoas, primeiramente através da água. Além disso, a contaminação se dá também pelo ar e, pior ainda, através dos alimentos ingeridos. Quando comemos, estamos ingerindo resíduos tóxicos de elementos aplicados no campo, e esses resíduos chegam um milhão de vezes mais tóxicos nos alimentos do que quando aplicados na agricultura. Isso acontece porque a molécula química sofre uma alteração pela luz do sol, pela oxidação química, pelo calor etc. Então, o veneno utilizado nas lavouras se transforma em uma substância mais perigosa.

IHU On-Line – Há quanto tempo somos contaminados por essas substâncias?

Sebastião Pinheiro – Os primeiros venenos foram inventados na Europa e começaram a ser utilizados a partir de 1900. Eles foram inventados para serem usados nas guerras e também para matar pragas, ou seja, começaram a ganhar destaque a partir da Primeira Guerra Mundial. Com isso, a atividade militar passou a ser uma atividade civil.

O negócio mais rentável, atualmente, é transformar petróleo em medicamento ou veneno. Não é possível, através de remédios, fazer com que toda uma população fique doente, mas é fácil criar uma agricultura deficiente. Assim, o negócio financeiro do veneno é muito mais importante e rentável do que o do remédio. Todos os países precisam ter um estoque de armas químicas, e ele é obtido mais barato conforme mais veneno se usa. Essa é uma questão econômica. Por isso, todos os países procuram ter um complexo industrial para fabricação de armas químicas.

Quando Saddam Hussein brigou com Bush, os americanos foram buscar no Iraque fábricas de veneno, vendidas em 1981 pelos alemães. Se fosse uma coisa criminosa, os alemães não teriam vendido. Venderam porque ganharam seis bilhões de dólares e depois ainda invadiram o país. Então, essas questões de agrotóxicos são estratégicas do ponto de vista econômico, político e ideológico.

Contaminação no Brasil

O rio mais importante do Brasil, Paraíba do Sul – entre São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais –, está localizado na maior área de PIB do país, pois nessa região se concentram grandes empresas. Há um mês, caíram 300 mil litros de um veneno proibido em todo o mundo, chamado Ensosulfan. Essa informação não saiu na grande imprensa porque as empresas de veneno não deixam que isso venha a público. Nessa região extremamente estratégica, quantas pessoas estão tomando água contaminada? Quantos casos de câncer e leucemia irão existir? Mas esses questionamentos não representam um problema para a indústria do agrotóxico; pelo contrário, é lucro, porque a mesma empresa que faz o veneno fabrica o antídoto e vende o tratamento de desintoxicação.

Hoje, no Rio de Janeiro, estão vendendo um tal de “chumbinho”, um inseticida chamado Temik, um dos mais perigosos do mundo. Os traficantes misturam esse Temik com cocaína, e essa combinação faz o efeito do tóxico aumentar muito. A pergunta é: Misturar veneno com cocaína é um conhecimento que traficante, analfabeto tem condições de saber? De onde vem essa ideia? Não será de uma fábrica gigantesca?

O problema do uso de venenos, hoje, é mil vezes pior do que em 1980, quando não existia lei. Isso porque vivemos uma ditadura econômica, e antes havia uma ditadura militar. Naquela época, os generais eram gerentes das fábricas de agrotóxicos e ganhavam propina sobre as vendas. Atualmente, a comercialização está aumentando de 12 a 15% ao ano. Qual é a função desse crescimento? É por necessidade ou por que é um negócio sem controle?

IHU On-Line – Como e onde são feitos os testes com agrotóxicos? Os países subdesenvolvidos estão mais susceptíveis a contaminação?

Sebastião Pinheiro – A Suíça, um país extremamente rico, tem a primeira maior empresa de agrotóxicos do mundo, chamada Ciba-Geigy. Essa companhia, na década de 80, utilizou crianças latino-americanas como cobaias para testar um agrotóxico comprovadamente causador do câncer em seres humanos. Na Suíça – já estive lá –, existe um movimento muito forte de jovens e ambientalistas para que as empresas não usem animais em pesquisas laboratoriais. Não querem usar animais, mas utilizam crianças. Eu estava na Alemanha quando isso foi denunciado, e o gerente da empresa suíça disse que, a partir daquele momento, as pesquisas deles não usariam mais papel timbrado, porque os relatórios foram feitos nesses papéis e ali estavam registradas todas as pesquisas feitas com crianças na América Latina.

Os venenos deixaram de ser utilizados em grandes quantidades na Europa, e os europeus, a partir de 1970, passaram a transferir todas as fábricas de agrotóxicos do território europeu e norte-americano para a Índia, Brasil, Argentina, o México e a China. As empresas montaram as mesmas fábricas em países periféricos. Os governos corruptos brasileiros aceitam essas empresas, oferecem terrenos e condições para que elas funcionassem aqui. Com dinheiro público, foi instalada em Camaçari, Bahia, uma fábrica de herbicidas.

Um grupo de pessoas que não tem um objetivo para seus filhos e netos não forma um país, uma sociedade; é um grupo de bandoleiros que espera para levar vantagens. O Brasil é o maior mercado de agrotóxicos do mundo, o mais rentável.

Danos à saúde

O desastre que aconteceu em Bhopal, na Índia, em dezembro de 1984, revela o perigo que os agrotóxicos representam para a sociedade. Nessa data, cerca de 40 toneladas de metil isocianato e outros gases letais vazaram da fábrica de agrotóxicos da Union Carbide Corporation, e mais de 15 mil pessoas foram intoxicadas. Durante mais de 10 anos, as crianças nasceram sem o globo ocular.
O índice de envenenamentos, de nascimento de crianças com distúrbios neurológicos, com alterações hormonais chamados de disrupção endócrina, é a maior catástrofe que existe nesse Planeta, fora a contaminação dos alimentos, dos rios. No fundo do oceano Atlântico, existem 120 milhões de toneladas de DDT depositadas na lama. Hoje, não existe um ser vivo que não tenha em suas células resíduos de DDT. Não há leite materno que não tenha DDT – essa substância é o maior causador de câncer de próstata e de mama. Sempre que denunciei isso, fui levado para o FMI ou punido pelo Ministério da Agricultura; segundo eles, eu era contra o progresso.

IHU On-Line – Na cultura do fumo, qual é a média de agrotóxicos utilizada nas lavouras?

Sebastião Pinheiro – Em um ano de muita seca, há cerca de 10 anos, se chegou a utilizar 30 quilos de agrotóxicos por hectare, e alguns dados dizem que já se utilizou 100 quilos por hectare.
Fumo é um cultivo muito raro e um dos mais recentes do mundo, e não existia antes de 1452. Cristovão Colombo, quando chegou a América, descobriu uma coisa rara: os índios cultivavam uma planta que secavam, enrolavam, faziam o charuto, fumavam e ficavam muito relaxados.

Imediatamente, sementes foram levadas para a Espanha. A partir daí, a cultura do fumo é uma cultura que passa a ser oferecida pela Coroa Espanhola. Como o negócio do fumo virou um vício, os ingleses também queriam dominar esse comércio. Então, a Inglaterra invadiu a colônia Espanhola na América do Norte e instalou uma colônia de imigrantes para plantar fumo. Hoje, todo o negócio do fumo pertence à Coroa Inglesa, que aluga a terra de forma barata, e não paga o que deveria. Além disso, tem no agricultor uma pessoa descartável e que, quando fica doente, joga fora. Empresas como a Souza Cruz são fachada. O maior negócio do mundo é vender fumo, porque esse é um narcótico legalizado.

Aqui no Brasil, quando um agricultor quer plantar fumo, ele é obrigado a ir a uma empresa fumageira, e a comprar a semente, o fertilizante e o agrotóxico dessa companhia. Além disso, precisa a entregar toda a sua produção. Além do mais, deve pedir um crédito no Banco do Brasil em nome da fumageira, que recebe esse crédito e o revende ao agricultor.

IHU On-Line – Como compreender que a indústria fumageira é apontada como modelo de tecnologia e ao mesmo tempo expõe os trabalhadores desse ramo a péssimas condições de trabalho?

Sebastião Pinheiro – Quando vejo essas informações na mídia, fico assustado. Qual é o IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) de Venâncio Aires e Santa Cruz do Sul, onde se cultiva fumo? Eles não estão entre os cem primeiros, porque toda a riqueza criada pelo fumo não é uma riqueza que se divide entre a população, em desenvolvimento social e humano. Isso é uma forma de roubo concedido. 73% de um maço de cigarro são impostos federais. Então, o maior beneficiário disso é o governo na arrecadação de impostos. Por isso, administrações como a de Yeda Crusius estão subordinadas a essas empresas. As fumageiras são as responsáveis no Brasil por todo o contrabando de fumo. Existem empresas aqui que foram compradas com dinheiro da primeira Guerra do Golfo.

Plantações no RS

No Rio Grande do Sul, existem 500 mil plantadores de fumo. As taxas de juros seriam baixas se esses agricultores se reunissem e tirassem um empréstimo só, como a Souza Cruz faz. No momento em que a Souza Cruz é responsável por esse intermédio, ela fica com parte das taxas, ou seja, ganha dinheiro ao revender o crédito. As empresas de fumo arrecadam com antecedência os impostos, mas, para isso, exigem que o banco dê crédito para seus agricultores plantarem o fumo. Então, eles oferecem o pagamento do imposto adiantado e abatem o valor das taxas sobre esse pagamento. Isso não é democrático, mas tributariamente é legal.

A Souza Cruz, no passado, comprava 18 navios de agrotóxicos da Alemanha. Ela não pagava taxa nenhuma e vendia o produto a preço de varejo. Quanto ela ganhou? De 400 a 600% sobre a venda. Isso mostra que o negócio do fumo é financeiro. No entanto, não existe um centro nacional de pesquisa sobre esse produto. A Embrapa tem centros de pesquisas sobre vários produtos, menos de fumo. Por quê? É proibido! É proibido nas faculdades de agronomia se estudar esse modelo de cultivo.

IHU On-Line – Como a lavoura do fumo e o uso de agrotóxico praticado nela ajudam a solidificar a monocultura e extinguir a agricultura familiar?

Sebastião Pinheiro – O cultivo do fumo é muito débil, cada pé da planta chega a 1,80 de altura e necessita de um cuidado fantástico. Além disso, esse plantio precisa de uma mão-de-obra gigantesca. Uma família rural com dez pessoas não pode tomar conta de mais de 30 mil pés de fumo. O trabalho é maciço, é preciso cuidar de pé por pé para que não nasça inço. Como necessita de uma grande quantidade de mão-de-obra, a indústria do fumo destrói a agricultura familiar, porque o agricultor familiar é obrigado a plantar tudo que necessita. O agricultor do fumo, por sua vez, não pode ter outros cultivos dentro da sua propriedade, porque a fumageira não permite. Então, esse homem passa a ser um assalariado na área rural. Ele trabalha na terra, é dono dela, mas o vínculo que tem com essa terra é de salário. Descendentes de plantadores de fumo não querem dar continuidade a essa atividade e saem da propriedade para trabalhar de operário em uma fábrica de calçados. Para o pai que criou esse filho, ver isso é o maior golpe, pois esse fato representa uma ruptura entre gerações e o respeito. O modelo econômico das fumageiras é uma das causas incidentes dos suicídios. O veneno faz mal, e esse modelo de exploração é diabólico.

IHU On-Line – Que percentual de terras do estado é destinado a esse plantio?

Sebastião Pinheiro – Um terço dos municípios do Rio Grande do Sul tem áreas plantadas de fumo. Planta-se fumo no estado em aproximadamente 200 municípios; desses, alguns plantam de 30 a 40% da área de todo o município. Por volta de 1960, a Rodésia, uma região da África no período da colonização, tinha um regime racista e não permitiam que os negros vivessem no país. Hoje, a região da Rodésia em que existia fumo se transformou em Zimbábue, Zâmbia, Uganda. Essa gente emigrou porque os árabes passaram uma moção às Nações Unidas dizendo que, em função do racismo, nenhum país poderia comprar fumo da Rodésia. Por isso, houve uma grande migração de capitais ingleses da Rodésia para o Brasil, que passou a produzir fumo principalmente no Rio Grande do Sul, em Santa Catarina e no Paraná. As áreas de colônias que já existiam nesses estados foram utilizadas para esse fim.

IHU On-Line – O que mais choca nesse tipo de trabalho?

Sebastião Pinheiro – O mais dramático é o trabalho final. O ponto mais grave é que, depois de plantar o fumo, precisa secá-lo num forno e isso obriga as pessoas a trabalharem dia e noite. Não podem dormir, porque qualquer descuido pode incendiar toda a produção. Outro problema dramático é a venda. Quem determina a qualidade e o preço do produto são as fumageiras. Elas fazem uma pesquisa e averiguam como está a produção em outros países. Então, alteram a classificação aqui no Brasil. Todo o fumo de alta qualidade é comprado como de segunda categoria para aumentar a margem de lucro delas, que ganham sobre o trabalho dos agricultores. Então, a concentração de suicídios nos municípios é sempre próxima à comercialização da safra, logo depois da colheita. O trabalhador imagina que irá receber por uma classificação máxima, e recebe menos. Assim, se acha incompetente e acaba se suicidando. A indústria do fumo é uma máfia

Fonte – Sebastião Pinheiro, IHU On-line / Ecodebate

Homem está acabando com a vida na Terra, alerta diretor da ONU

Na abertura da 10ª edição da Conferência das Partes sobre Biodiversidade (COP-10), o diretor do programa para meio ambiente das Nações Unidas (ONU), Achim Steiner, foi enfático ao afirmar que o homem está acabando com a vida na Terra.

“Este é o único planeta no universo em que sabemos que existe vida como a nossa e estamos destruindo as bases que a sustentam”, alertou.

O encontro começou nesta segunda-feira (18) em Nagoya, no Japão, e termina no dia 29 de outubro. Durante estas próximas duas semanas, representantes de 193 países vão avaliar as metas de preservação ambiental assumidas para este ano e definir quais serão os próximos objetivos até 2020.

O tom pessimista foi observado ainda nos discursos de outras autoridades e especialistas da área ambiental, que chegaram a afirmar que o mundo está caminhando para uma fase de extinção na mesma proporção do período em que os dinossauros desapareceram da Terra.

Para eles, a destruição da natureza tem afetado diretamente a sociedade e a economia. A ONU estima que a perda da biodiversidade custa ao mundo entre US$ 2 trilhões (R$ 3,2 trilhões) e US$ 5 trilhões (R$ 8 trilhões) por ano, principalmente nas partes mais pobres.

“(O monge budista) Teitaro Suzuki disse que ‘o problema da natureza é um problema da vida humana’. Hoje, infelizmente, a vida humana é um problema para a natureza”, disse o ministro do Meio Ambiente do Japão, Ryo Matsumoto.

“Temos de ter coragem de olhar nos olhos das nossas crianças e admitir que nós falhamos, individualmente e coletivamente, no cumprimento das metas prometidas no encontro de Johanesburgo (em 2002)”, completou o ministro.

Matsumoto lembrou ainda que a perda da biodiversidade pode chegar a um ponto irreversível se não for freada a tempo.

“Toda a vida na Terra existe graças aos benefícios da biodiversidade, na forma de terra fértil e água e ar limpos. Mas estamos agora próximos de perder o controle se não fizemos grandes esforços para conservar a biodiversidade”, disse.

Sinais de esperança – Jane Smart, chefe do programa de espécies da União Internacional para Conservação da Natureza (IUCN, na sigla em inglês), disse que, apesar do problema ser grande e complexo, existem alguns sinais de esperança.

“A boa notícia é que quando nós promovemos a conservação, ela realmente funciona; gradativamente estamos descobrindo o que fazer, e quando nós fazemos, as coisas dão muito certo”, disse a pesquisadora à BBC News.

“Precisamos fazer muito mais para conservar, como proteger áreas, particularmente o mar. Temos de salvar vastas áreas do oceano e os cardumes de peixes. Isso não significa que devemos parar de comer peixes, mas comer de uma forma sustentável”, afirmou Jane.

O Brasil também participa do encontro e vai pressionar os países ricos para obter recursos em torno de US$ 1 bilhão (R$ 1,6 bilhão) por ano para a preservação ambiental, além de exigir metas globais mais específicas contra a perda da biodiversidade.

Outro ponto defendido pela comissão brasileira é a cobrança de royalties pelo uso de recursos vegetais e animais. A ideia é que empresas que utilizam matérias-primas provenientes de nações em desenvolvimento repassem uma parte do dinheiro às comunidades locais.

Fonte – BBC Brasil de 18 de outubro de 2010

Glifosato: todo veneno deveria ser proibido

Um dos herbicidas que mais tem causado danos ao meio ambiente e também para o ser humano é o glifosato. Ele é uma molécula química sintetizada, desenvolvido para matar qualquer tipo de planta, principalmente perenes. É o ingrediente principal do Roundup, herbicida da Monsanto. Assim, muitas plantas culturais geneticamente modificadas são simplesmente alterações genéticas para resistir ao glifosato. “Em relação à saúde humana, ele mimetiza certos hormônios. Por exemplo, ele pode entrar no cordão umbilical durante a gestação e afetar o desenvolvimento do bebê. Além disso, ele é considerado um desruptor endócrino, ou seja, ele vai acionar genes errados, no momento errado, no órgão errado. Então, ele altera a situação de controle dos genes”, relatou o agrônomo Rubens Nodari durante a entrevista que concedeu à IHU On-Line, por telefone.

Nodari explicou o que é o glifosato e como ele age para que possa matar, de forma não seletiva, as plantas, o uso e o efeito desse herbicida, e, ainda, contou como esse veneno age quando os humanos e outros seres vivos entram em contato com ele. “Alguns organismos não são afetados pelo glifosato. Se se aplica muito glifosato, por exemplo, na água, alguns organismos vão ser beneficiados, e outros não, pois ele não se degrada tão rapidamente. Assim, se altera por completo a diversidade biológica que existe nesse ambiente”, afirmou.

Rubens Onofre Nodari é graduado em agronomia pela Universidade de Passo Fundo e mestre em Fitotecnia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Realizou o doutorado na University Of California At Davis. Atualmente, é professor na Universidade Federal de Santa Catarina.

IHU On-Line – O que é o glifosato?

Rubens Nodari – O glifosato é uma molécula química que foi sintetizada e que tem a capacidade de produzir um caminho alternativo para as plantas que recebem esse produto. E esse caminho alternativo acaba sufocando a planta quando ocorre, portanto, a interrupção da produção de três aminoácidos. Com isso, as proteínas que são formadas são defeituosas, e as plantas acabam morrendo porque não conseguem sintetizar as proteínas adequadas.

IHU On-Line – Qual o uso que é dado a este químico?

Rubens Nodari – O destino do glifosato é para matar plantas que não são desejáveis num certo espaço.

IHU On-Line – Qual é a composição do Roundup e por que ele é considerado um dos agrotóxicos mais prejudiciais?

Rubens Nodari – O glifosato é uma molécula que causa diferentes tipos de problemas para a saúde humana e também para o meio ambiente. Em relação à saúde humana, ele mimetiza certos hormônios. Por exemplo, ele pode entrar no cordão umbilical durante a gestação e afetar o desenvolvimento do bebê. Além disso, ele é considerado um desruptor endócrino, ou seja, ele vai acionar genes errados, no momento errado, no órgão errado. Então, ele altera a situação de controle dos genes. O glifosato também causa, por exemplo, diminuição da produção de espermas, conforme vimos em experimentos feitos em ratos, ou produz espermas anormais. No caso do sistema endócrino, ele pode, por exemplo, inibir algumas enzimas. Ele vai alterar os hormônios que entram na regulação da expressão gênica.

Geralmente, ele atua na regulação de genes e na expressão de certas substâncias. Existem relatos bastante significativos de ocorrências que associam o câncer a pessoas que aplicam o glifosato. Um agricultor, por exemplo, não aparenta de imediato que vai adoecer, ter um câncer, pois o glifosato age dessa forma com exposições repetidas.

A maioria dos agrotóxicos vai envenenando aos poucos as pessoas e o meio ambiente. Às vezes, não são coisas perceptíveis. Obviamente, quando alguém é submetido a uma grande exposição ao glifosato, sente em seguida irritação nos olhos, na pele, algum sintoma no estômago. Quando as doses são pequenas, é impossível perceber que se está sendo intoxicado aos poucos.

No meio ambiente, ele é considerado mortal a alguns anfíbios e répteis. Ele também favorece algumas bactérias de solo e prejudica a outras. Ele altera a dinâmica da vida, da biota do solo.

IHU On-Line – É bastante difundido, especialmente pela indústria, que o glifosato é menos prejudicial que outros herbicidas. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) o classifica como Classe IV (faixa verde). Como o senhor vê essa questão?

Rubens Nodari – Na verdade, a classificação da Anvisa é muito antiga, e, à luz dos novos resultados, o entendimento que existe é diferente. Hoje, se fosse feita a reavaliação dos resultados do glifosato com os dados que foram obtidos a partir de 2005, talvez a Anvisa mudasse de classificação toxicológica.

IHU On-Line – Como o senhor analisa a pesquisa feita na Argentina que envolve o glifosato?

Rubens Nodari – A Argentina tem feito alguns estudos, inclusive associando o glifosato a consequências nos anfíbios, sobre o uso desse agrotóxico. Há um estudo no qual se percebeu que o glifosato inibe o desenvolvimento de embriões. O glifosato e outros produtos acabam afetando alguns sistemas do corpo humano, principalmente o cérebro, que deixam as pessoas com maior ansiedade. E é isso que faz com que as pessoas tomem decisões consideradas insensatas. Assim, o que se especula, por enquanto, é que as pessoas têm sua capacidade física limitada.

IHU On-Line – Quando o glifosato contamina o solo ou um rio, o que acontece?

Rubens Nodari – Alguns organismos não são afetados pelo glifosato. Se se aplica muito glifosato, por exemplo, na água, alguns organismos vão ser beneficiados, e outros não, pois ele não se degrada tão rapidamente. Assim, se altera por completo a diversidade biológica que existe nesse ambiente. Em relação à água, há menos estudos, mas, de qualquer maneira, já existem relatos de mortalidade de certos organismos que ali vivem. Quando a fonte de glifosato é aplicada repetidamente, o impacto é muito maior nessas comunidades aquáticas. Já existem muitos dados de mortalidade de certas espécies de anfíbios e répteis em função da aplicação do glifosato.

IHU On-Line – Acredita que deve se proibir o glifosato?

Rubens Nodari – Na verdade, todo veneno deveria ser proibido. Compostos que são desenvolvidos para matar não fazem parte da ética da vida. Quem defende a vida não pode ser favorável ao uso de sustâncias que a comprometem. Então, a humanidade só deveria usar em casos extremos esse tipo de produto, e não de forma corriqueira como hoje é usado. Existem outras formas de fazer agricultura em que não precisamos usar venenos. Temos sistemas agroecológicos que são perfeitamente passíveis de serem utilizados para produzir alimentos, fibras, óleos etc., sem necessidade de usar agrotóxico. Então, um produto como esse deveria ser, naturalmente, proibido em função dos danos e dos impactos que ele causa tanto na saúde humana quanto ao meio ambiente.

A impressão que tenho é que nós deveríamos recomendar aos agrônomos que evitem fazer o receituário desses produtos. E aos agricultores que tomem cuidado e não usem produtos como esse em larga escala porque os primeiros prejudicados serão os próprios agricultores.

Fonte – Rubens Nodari, IHU On-line / Ecodebate de 12 de abril de 2010

Lançamento do livro Bichos, Plantas e seus parentes

– O senhor pode me passar o gás carbônico? – interrogou a árvore.

Mas que conversa de restaurante fino era aquela no fundo do meu quintal?

– Perdoe-me, não havia compreendido – respondi.

– Não há de que. Estamos tão habituados com o que funciona que nem nos damos conta. As pessoas se esquecem que o normal é que é extraordinário.

Você se lembra daquela crônica semanal, chamada Recado do Cheida? Pois é… ela acaba de virar um livro, pela Editora Aymará, com 40 daquelas e outras crônicas, sob o título Bichos, Plantas e seus parentes. O livro é prefaciado pela Senadora Marina Silva.

Quero, então, convidar você para este belo lançamento, que acontecerá em dois momentos:

Em Curitiba
Dia 18 de outubro, segunda-feira, a partir das 19h30
Local: Livrarias Curitiba – Shopping Estação

Em Londrina
Dia 26 de outubro, terça-feira, a partir das 19h30
Local: Livrarias Curitiba – Shopping Catuaí

Aguardo você para um bom papo.

Um forte abraço,

Luiz Eduardo Cheida

Luiz Eduardo Cheida é médico, deputado estadual e presidente da Comissão de Ecologia da Assembléia Legislativa do Paraná. Premiado pela ONU por seus projetos ambientais, foi prefeito de Londrina, secretário de Estado do Meio Ambiente, membro titular do CONAMA (Conselho Nacional do Meio Ambiente) e do Conselho Nacional de Recursos Hídricos.

A natureza não aguenta mais neutralidade

O estudo da História, no Brasil, é uma infeliz repetição dos demais estudos nesse país: aprende-se pouco, mal e em geral inutilidades ditadas por algum imbecil chauvinista ou xenófobo, ou ambos, que do alto de algum posto de poder escarrou sobre nossa juventude um diktat sobre o que é ou não importante se estudar, e acabou. É assim que as crianças penam para decorar bobajadas sobre o Crescente Fértil sem saber nem direito onde fica, bem como festejar dias de índios que não sabem de onde vieram nem o que faziam, e por aí vai.

Faço essa introdução irada sobre um tema desconexo porque, se tivéssemos todos estudado a interessantíssima História da Índia nos bancos escolares, se evitaria muita idiotice que tenho lido e escutado nos últimos dias sobre a lamentável decisão de Marina Silva e dos caciques do Partido Verde de posar de “neutros” nessa fase crucial das eleições, advogando uma “independência” tão falsa como a afirmação reiterada de Marina de que o PT estaria “mais próximo” dos ideais do PV do que a coligação de José Serra.

A Índia, país pobre porém culturalmente riquíssimo, sofreu um golpe irreparável quando a luta pela independência do Reino Unido infamou as paixões do fanatismo religioso, causando, enfim, massacres horrendos que até hoje perduram entre compatriotas antes irmanados, e a divisão do país em dois (depois três, com a secessão de Bangladesh) com a criação do Paquistão. Ninguém que tenha se debruçado sobre o tema pode esquecer as horrendas cenas e descrições das migrações forçadas de hindus para um lado e muçulmanos para outros, colunas de centenas de milhares que a algum xingamento mais forte se atracavam a facadas e pauladas.

Os massacres e o esquartejamento da Índia têm um grande culpado: Mohandas Karamchand Gandhi, mais conhecido como o Mahatma, hoje ídolo da Paz e modelo de comportamento político para os que crêem em estereótipos como forma de entender a humanidade. O seu bom-mocismo exacerbado, que fez dele pouco mais do que espectador dessa imensa tragédia, contribuiu para que o modelo de separação física das religiões levasse ao ódio que levou à divisão do país. Evidentemente, o papel de Gandhi na independência da Índia não é desprezado em função disso, mas muita gente prefere se fazer de surda quando se fala nos riscos reais de se adotar uma postura monástica demais num mundo de pecadores inveterados.

Marina Silva fez-se de Gandhi neste último final de semana ao adotar, e arrastar o Partido Verde para, uma postura de “independência” (leia-se neutralidade, em cima do muro, omissão, qualquer que seja a explicação convoluta que se dê a posteriori) para o segundo turno das eleições presidenciais. Líder capaz de mudar os rumos da História agora, preferiu preservar-se para voltar a concorrer em 2014, condenando, se Dilma Plástica se eleger, a Natureza brasileira a mais quatro anos de devastação desenfreada e à destruição final de qualquer semblante de gestão ambiental federal.

Marina tem suas razões, e tem o direito de exercê-las. O que não é direito, nem razão, muito menos aceitável, é que a sua decisão pessoal tenha arrastado junto um Partido político inteiro sem consulta aos seus filiados e apoiadores, dentre os quais pela primeira vez uma significativa parcela do movimento ambientalista que passou a acreditar na via político-partidária como alternativa de luta. Muito menos aceitável é que após anunciar a “independência”, ela e alguns do caciques do PV tenham imediatamente saído a fazer propaganda de Dilma dizendo da “maior afinidade” dessa gentalha assassina da Natureza com o programa do PV. Poderíamos todos ter sido poupados desse lamentável post-scriptum.

O que resta aos ambientalistas preocupados efetivamente com o que vai acontecer com nossa biodiversidade enquanto Marina não vem? Para mim, fazer campanha diuturna para que Dilma, A Plástica, não se eleja. Cansei de ouvir nessas últimas horas a bobajada dos bem-intencionados dizendo que a campanha de Serra representa o latifúndio que é contra o Código Florestal, as empreiteiras e etc… pois bem, se analisarmos esses últimos oito anos de des-governo federal, em que Dilma governou nas sombras em nome do Etílico Iletrado de Garanhuns, veremos que quem representou melhor os interesses mais retrógrados e criminosos das máfias empresariais anti-Natureza foi, de fato, a corporação petista atracada no Estado. O que os bonzinhos omissos que defendem a “independência” dizem – que a ‘direita’ pede aumentar a devastação – é justamente o que Dilma FEZ.

Contem comigo: abandono das áreas protegidas e engavetamento das propostas de criação da maioria delas; privilégios à energia suja e marginalização das alternativas energéticas limpas; desconstrução do sistema federal de gestão ambiental, com o esquartejamento e miserabiliização (além de perseguição a funcionários atuantes) do IBAMA; apoio explícito ao modelo colonial de exportação de commodities agrícolas com a expansão brutal das queimadas e desmatamentos para a plantação de grãos por mega-conglomerados dos ‘coroné’ do campo; produtivismo soviético voltado para a conquista de votos por meio da expansão criminosa do consumismo, gerando brutal endividamento familiar e um impassável caos no trânsito das cidades pelo subsídio ao transporte individual e abandono do coletivo. Digam-me que governo de ‘dereita’ faria melhor para acabar com a Natureza e a qualidade de vida no Brasil?

Não tenho quaisquer ilusões, por outro lado, que José Serra e seus aliados sejam bonzinhos ou ambientalistas. Mas acredito, por três décadas de experiência própria, que combater, debater e dialogar com adversários minimamente letrados no que acontece no mundo e que têm por mantra o lucro privado eficiente, não o atraque perpétuo ao Estado atrasado e paternal, é melhor do que ter de aturar os desmandos e a falta de visão dos “pais dos pobres” cujo horizonte vai apenas a Cuba, à Bolívia e à Venezuela. Quero um país que apóie as Maldivas na discussão da mudança climática, não o Irã na sua histeria nuclear. Quero poder de novo bater boca com governantes alfabetizados, que entendam quando a gente fala em célula fotovoltaica, biodiversidade, geração de emprego e renda com a economia do século XXI e não do século XVII de Aldo Rebenta e seus comunistas pró-latifúndio. Vou de Serra neste segundo turno, e todos os que realmente se preocupam com a Natureza brasileira, e não com o proselitismo faz-de-conta dos pobres ignaros sem noção de História, deveriam ir também. E em 2014… Marina neles!

Fonte – José Truda Palazzo Jr, O Eco de 19 de outubro de 2010