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“Redutivarianismo”, a tentativa de amenizar o impacto ambiental diminuindo o consumo de carne

reducetarian

Brian Kateman, como muitos ex-vegetarianos, não era perfeito. Mas ele não estava tentando ser. Em um dia de Ação de Graças durante a faculdade, Kateman se lembra de pegar um pedaço de peru, que ele se permitiu por ser uma ocasião especial. Sua irmã mais velha, previsivelmente, começou a caçoar dele.

“Naquele momento, eu tentei explicar que não era sobre ser perfeito, não era sobre pureza”, Kateman disse. Na sua visão, quanto mais refeições compassivas ele conseguisse comer, melhor, mas alguns pedaços de peru não iriam definir o seu ativismo.

Independentemente de filosofia e intenção, ser um vegetariano que às vezes come carne deixa alguém suscetível a ridicularização. Depois de outro incidente similar envolvendo uma ressaca, um hotel e um pouco de bacon, Kateman percebeu que o termo “vegetariano” não se encaixava nele. Mas isso não queria dizer que ele queria comer um monte de carne, ou que ele não estava investido na questão ambiental e dos direitos dos animais que o fizeram se tornar um vegetariano a princípio.

Então Kateman, junto com seu amigo e colega de preocupações ambientais Tyler Altermann, cunhou o termo “redutivariano” no verão de 2014. Menos de três anos depois, eles montaram a base do que eles esperam que se transforme em um movimento: eles fundaram uma ONG chamada “The Reducetarian Foundation”, têm um encontro planejado para esse ano para juntar defensores do ambiente, dos animais e da saúde em uma conversa e tiveram um livro, The Reducetarian Solution, publicado no mês passado.

Uma coleção de artigos de acadêmicos, cientistas e escritores de lifestyle, indo de teóricos dos direitos animais como Peter Singer ao comediante Myq Kaplan, o livro cobre praticamente todos os aspectos imagináveis da carne, de sua história moderna e antropológica até seus efeitos nos micróbios nas entranhas humanas, passando por várias táticas para comer menos carne, junto com receitas vegetarianas e com pouca carne. A esperança de Kateman é incluir aqueles que se sentem alienados de um chamado para virar vegetariano (ou vegano), mas que ainda assim estão interessados em comer de uma forma que seja mais benéfica ao ambiente, aos animais e à sua própria saúde. “Quando nós apresentamos o chamado ‘tudo ou nada’, existem muitas pessoas que levantam suas mãos e dizem que não farão absolutamente nada”, ele disse ao Gizmodo.

O “redutivarianismo” é, basicamente, um vegetarianismo leve. É simplesmente reduzir o consumo de carne de alguém o bastante para que, como o novo livro de Kateman declara, “transforme sua saúde e o planeta”.

Não existe falta de provas de que o consumo excessivo de carne seja mal para os humanos e o ambiente. Existem preocupações sobre as propriedades cancerígenas das carnes processadas, e as gorduras saturadas e o colesterol em produtos animais aumentam o risco de doenças coronárias. Então existe o fato de que a agricultura animal é responsável por estimados 18% da emissão de gases de efeito estufa. E, obviamente, a produção em escala industrial de carne, ovos e laticínios causa o sofrimento de bilhões de animais por ano, muitos dos quais vivem em confinamento extremo e são sujeitos a práticas profundamente desumanas.

Mas o consumo de carne (e de ovos e laticínios) é uma grande tradição, e pedir o abandono dos produtos animais em massa claramente não vai conquistar a maioria das pessoas.

“Quando nós apresentamos o chamado ‘tudo ou nada’, existem muitas pessoas que levantam suas mãos e dizem que não farão absolutamente nada.”

É por isso que os “redutivarianos” estão desenvolvendo uma abordagem mais moderada, convidando pessoas de todos os hábitos dietários a progressivamente cortarem o seu consumo de produtos animais relativos à sua dieta. Kateman, que considera vegetarianos e veganos também “redutivarianos”, diz que está “ativamente em uma missão para conseguir que vegetarianos e veganos, flexitarianos assim como ambientalistas e defensores da saúde, percebam que estão todos no mesmo time”.

De fato, a briga interna entre os grupos que Kateman menciona é tão real quanto, possivelmente, contraproducente. Criticar uma pessoa que é basicamente vegetariana por comer bacon uma vez, enquanto ignora o americano comum, que come quase 136 kg de carne por ano, não causa o maior impacto, ele disse.

Michelle McMacken, médica no NYC Health + Hospitals/Bellevue e diretora da Bellevue Adult Weight Management Clinic, defende uma dieta baseada em plantas. Mas, para ela, o “redutivarianismo” também tem seus méritos, pois “quando se trata da saúde, as pessoas se beneficiam de qualquer movimento que os tire de uma dieta pesada em produtos animais para uma que favoreça as plantas, e elas tendem a se beneficiar proporcionalmente ao quanto mudam”.

McMacken aconselha aos “redutivarianos” sérios fazer resoluções concretas, “como comer carne apenas uma vez por dia ao invés de duas, ou mudar de leite de vaca para leites vegetais, ao invés de apenas pensar em comer menos produtos animais”.

“Mas”, ela acrescentou, “nós também sabemos que uma dieta baseada 100% em plantas, ou quase, é a única que já reverteu doenças coronárias, causa número um na mortalidade dos americanos”.

u6nxmoj442su53t5eczrA primeira galinha crescida em laboratório foi lançada pela startup de biotecnologia Memphis Meats esse ano. Imagem: Memphis Meats

A Dra. Nisha Jhalani, cardiologista do New York Presbyterian-Columbia University Medical Center e diretora do Women’s Heart Health Initiative no Cardiovascular Research Foundation, reconhece os méritos da saúde do coração de uma dieta sem carne, mas não encoraja o vegetarianismo total ou o veganismo tanto quanto McMacken.

“O que é mais importante [do que cortar a carne completamente] de uma perspectiva cardiovascular é o estilo de vida saudável em geral, algo que pode ser mantido a longo prazo”, Jhalani disse ao Gizmodo.

Independentemente se o fato de você parar com o hambúrguer vai salvar a sua vida ou melhorar a sua saúde, as próximas gerações em breve não vão mais precisar de remédios para o colesterol se o planeta continuar esquentando no ritmo atual. Dado que a agricultura animal é a principal fonte de gases de efeito estufa, gerando 65% do óxido nitroso, 37% do metano e 64% das emissões de amônia, todos os quais contribuem para o aquecimento global em taxas maiores do que o CO2, a carne parece ser um bom lugar a partir do qual começar a fazer mudanças.

Mas se você apenas parar de comer sanduíches de presunto, isso realmente faz diferença para o nosso planeta em aquecimento?

O relatório de 2014 do Painel Intergovernamental Sobre Mudanças Climáticas das Nações Unidas, que pedia a redução dramática das emissões de carbono, falava que as mudanças dietárias poderiam ter um papel substancial na redução de emissões. E, por mais que os especialistas da Chatham House tenham afirmado que reduzir o consumo de carne era necessário para diminuir os efeitos da mudança climática em seu relatório do mesmo ano, o estudo não defendia que todoconsumo de carne precisa parar para limitarmos o aquecimento nos 2ºC que foi acordado internacionalmente.

“O que é mais importante [do que cortar a carne completamente] de uma perspectiva cardiovascular é o estilo de vida saudável em geral, algo que pode ser mantido a longo prazo.”

Mas a ocasional segunda-feira sem carne provavelmente não vai nos colocar nessa margem também. Pesquisadores de Oxford estimaram, no ano passado, que os guias de dieta da Organização Mundial da Saúde (que não estipulam um limite específico para o consumo de carne), se seguidos universalmente, teriam um impacto, mas ainda não manteriam as emissões de gases de efeito estufa baixas o bastante para evitar um aumento significativo da temperatura global. Posto isso, até o autor líder do estudo, Dr. Marco Springmann, pode concordar que alguma mudança é melhor do que nenhuma.

“O gado é responsável pela maioria das emissões relacionadas à comida, então qualquer movimento em direção a uma dieta balanceada baseada em plantas é um passo na direção certa”, Springmann disse ao Gizmodo via email.

Em um mundo perfeito, as pessoas aprenderiam como seus hábitos alimentares são danosos e mudariam seu comportamento. Mas o consumo de carne permanece. “A maioria das pessoas não escolhe comida baseada em questões éticas ou ambientais, escolhe principalmente baseada em conveniência e gosto, em alguns casos normas sociais”, Kateman disse. Até quando as pessoas querem comer eticamente, a dificuldade ou impraticabilidade disso podem ser um grande empecilho.

Uma das maneiras que a Reducetarian Foundation está mirando nessa questão é promovendo alternativas de não-carne e carnes desenvolvidas em laboratório, ambas discutidas no livro, com esperança de que essas opções se tornem mais convenientes, baratas e viáveis no futuro. Carne de laboratório, obviamente, ainda está a anos de ir para as prateleiras do supermercado, apesar de termos andado bastante desde o primeiro hambúrguer de célula-tronco de US$ 330.000 de anos atrás. E de outros substitutos de carne mais realistas estarem agora a entrar no mercado, como o muito aguardado Impossible Burger. A esperança de Kateman é que o aumento de opções de “não-carne”, assim como um pouco de manipulação psicológica, possa começar a mudar o comportamento do consumidor.

hpufe7gxnijlssyfvoahMemphis Meats lançou a primeira almôndega crescida em laboratório em São Francisco no ano passado. Imagem: Memphis Meats

Se isso soa um pouco diabólico, é porque talvez seja. Vários artigos no livro discutem formas apoiadas pela ciência de direcionar o comportamento humano, particularmente uma explicada pelo psicólogo Per Espen Stokes e pelo pesquisador comportamental Bradley Swain, sobre como pequenas mudanças na apresentação de diferentes opções afetam a escolha de uma pessoa. Por exemplo, escrevem Stokes e Swai, um estudo em Oslo descobriu que quando um restaurante deu nomes mais chiques à opção vegetariana, as pessoas pediram mais o prato.

Mas, geralmente, The Reducetarian Solution foca em ajudar pessoas que querem reduzir seu consumo de carne a enganar seus cérebros. O artigo de Tani Luna discute como hackear a sua dopamina quando está fazendo compras e cozinhando, assim tornando novas escolhas mais empolgantes do que assustadoras. A CEO do Meal Mentor, Lindsay Nixon, encoraja os leitores a pensarem nas suas mudanças dietárias como opções, não restrições, com a ideia de que dizer para si mesmo que você “não pode comer” algo é um caminho certo para a frustração.

Boas opções geralmente não são o bastante para as pessoas fazerem mudanças difíceis de vida. Uma abordagem mais suave ao vegetarianismo, embora não tendo tanto confete, vai ajudar a melhorar a saúde do planeta?

Difícil dizer, mas talvez valha a pena tentar. Uma redução na venda de bacon pode não salvar o planeta, mas a apatia também não vai.

Fonte – Ariana DiValentino, Gizmodo Brasil de 04 de maio de 2017

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