Pivô da crise dos ovos na Europa, pesticida fipronil é utilizado em larga escala no Brasil

(Foto: EBC)

Substância foi encontrada em mananciais no Paraná; pesquisadores apontam morte de abelhas e dizem que ela pode afetar a pressão arterial e o sistema reprodutivo

Na Europa, comoção. Relatos alarmistas, manchetes, debates, interdição de granjas, prisões. Foi ele o pivô de uma crise sem precedentes em um dos principais produtos da agricultura do velho continente, o ovo. Trata-se do pesticida fipronil, que já alastrou contaminações em mais de 17 países europeus. Diversas pesquisas apontam os riscos desse pesticida para animais e seres humanos. No Brasil, ele tem um mercado de larga escala.

O fipronil age no sistema nervoso central dos insetos considerados pragas de animais e de monoculturas, como o gado e o milho. A crise na cadeia de ovos começou porque a Chickfriend, empresa holandesa, teria desinfectado aves com fipronil comprado da Bélgica. Acontece que a Europa proíbe o uso para os animais que entram na cadeia alimentar humana. O consumo de um produto contaminado pode causar náuseas, dores de cabeça e estômago, relata o El País Brasil. E, em casos mais graves, atinge fígado, rim e tireoide.

Segundo o Ministério de Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), o pesticida é regulamentado no Brasil desde 1994. A assessoria de imprensa da pasta afirma que cinco empresas estão autorizadas a produzir e comercializar o fipronil para uso veterinário: Merial Saúde Animal Ltda; Hertape Saúde Animal S/A; Vétoquinol Saúde Animal Ltda; Ourofino Saúde Animal Ltda e Virbac do Brasil Indústria e Comércio Ltda.

Mapa e Anvisa não demonstram preocupação sobre uma possível crise no Brasil. A Anvisa alega, por meio da assessoria de imprensa, que ele não é utilizado em aves. O fipronil é utilizado em quase todas as monoculturas do agronegócio brasileiro, em especial nos produtos responsáveis pela fama desse modelo no país: cana, soja, milho e até laranja. Um dos alimentos das aves no Brasil é justamente o milho.

Diz a Anvisa:

– Em nosso país, o acesso das aves ao fipronil poderia ser resultante da ingestão de ração com resíduos, haja vista que este agrotóxico é autorizado para o milho. Entretanto não temos indícios de que isso possa acontecer, haja vista que o Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos (Para) pesquisou o fipronil em 729 amostras de milho entre 2013 e 2015, não detectando este ingrediente.

O Mapa não fala de uma das marcas que teriam atuado no Brasil. É a Eventra, cuja regulamentação pode ter chegado antes da hora. O site Ecodebate cita uma reportagem de 2012 da Folha. A reportagem aponta que, no dia 10 de outubro de 2011, o Mapa registrou o inseticida. Nessa data, porém, o produto se chamava Fipronil Alta 800 WG. A marca Eventra só teria sido publicada no Diário Oficial da União em 25 de outubro, em substituição à marca anterior.

O Ministério da Agricultura não quis se pronunciar sobre o assunto.

AUMENTO DA PRESSÃO

A ciência não estabelece o mesmo nível de riscos para animais e humanos. A contaminação em pessoas, alegam cientistas e a própria Anvisa, é nulo ou moderado. Alguns pesquisadores apontam o contrário.

João Leandro Chaguri, farmacêutico toxicologista da Universidade Estadual Paulista (Unesp) em Botucatu (SP), estudou o pesticida e suas consequências na pressão arterial de ratos. O pesquisador escreveu a dissertação de mestrado “Efeitos da exposição ao pesticida fipronil nas alterações pressóricas em ratos acordados”. Os animais tiveram considerada elevação da pressão arterial ao serem expostos à substância.

O pesquisador não descarta que o mesmo efeito possa ocorrer em humanos:

– Uma pesquisa feita usando animais nos dá uma noção do que pode acontecer com humanos, porém é sempre um indício que precisa ser melhor investigado. Modelos de estudos com animais são utilizados amplamente e os riscos de efeitos prejudiciais de agentes químicos para o ser humano são avaliados, baseados em modelos toxicocinéticos e fisiológicos. Porém deve-se atentar para alguns aspectos como variações interespécies e limitações experimentais.

IMPACTO NO SISTEMA REPRODUTOR

Doutora em Farmacologia pela Unesp, Aline Lima de Barros estudou os efeitos do pesticida no sistema reprodutivo dos ratos. Professora da Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD) em Mato Grosso do Sul, ela escreveu a tese de doutorado “Influência da exposição perinatal ao inseticida fipronil: repercussão tardia em parâmetros reprodutivos masculinos e femininos, em ratos”.

A pesquisadora explica que escolheu o Fipronil pela ampla utilização do pesticida na cultura da cana-de-açúcar. Esse aspecto não era explorado pelas pesquisas. “A exposição foi realizada durante a prenhez e início da lactação, períodos em que ocorre o desenvolvimento dos órgãos sexuais e diferenciação sexual do cérebro em ratos”, descreve. A prole foi avaliada durante todo o desenvolvimento sexual até a vida adulta. “Nós observamos alterações, nas condições experimentais do estudo, no desenvolvimento reprodutivo de fêmeas”.

Aline afirma que os resultados demonstraram efeitos a longo prazo nos espermatozoides dos machos. Apesar de não afetar a fertilidade dos animais, segundo a pesquisadora, o pesticida altera o sistema reprodutor. A preocupação da especialista é o que pode ocorrer com o sistema reprodutivo humano:

– Os praguicidas são conhecidos por apresentarem efeitos cumulativos e o homem está exposto a estas substâncias durante toda a vida. Acredita-se que a exposição ao fipronil possa ter impacto sobre o sistema reprodutor do homem, já que o modelo experimental utilizado no estudo (ratos) apresenta capacidade reprodutiva muito maior que o homem. Assim, as alterações observadas em ratos poder ter um impacto muito maior no homem.

DESAPARECIMENTO DAS ABELHAS

Natural de Ribeirão Preto (SP), o professor Dr. Lionel Segui Gonçalves é mundialmente conhecido como especialista em abelhas. Professor aposentado da Universidade de São Paulo (USP), o geneticista aponta que há mais de 10 anos as abelhas têm desaparecido em diversos países do mundo. O principal culpado, segundo ele, são os agrotóxicos. Contamos em agosto essa história: “Pesquisador explica por que agrotóxicos são principais culpados por desaparecimento de abelhas“.

Ele criou a campanha Bee or not to be (Sem Abelhas, Sem Alimento), que divulga a importância das abelhas para a sobrevivência da agricultura e da alimentação em todo o mundo. O professor explica que as diversas agressões ao meio ambiente estão relacionadas à chamada Colony Colapse Disorder (CDC), algo como Transtorno do Colapso das Colônias. Um dos pesticidas que podem desencadear esse colapso é exatamente o fipronil:

– Sem dúvida o uso do inseticida fipronil apresenta um sério risco para as abelhas no Brasil. Este pesticida já é largamente utilizado em várias culturas no Brasil como nas plantações de soja, cana-de-açúcar, pastagens, milho, algodão, e constantemente está relacionado a mortes em massa de abelhas trazendo sérios prejuízos econômicos aos apicultores, uma vez que são altamente tóxicos às abelhas.

O professor explica que o fipronil atinge o sistema nervoso das abelhas “alterando os padrões de comportamento cognitivo”. “Prejudica a navegação das mesmas, levando-as a se perderem no campo por não serem capazes de retornar a suas colmeias, causando uma diminuição na atividade de forrageamento ou coleta de alimento, fenômeno conhecido como CCD ou síndrome do desaparecimento”, relata.

Segundo o especialista, os riscos do fipronil são mais abrangentes do que se pensa. Ele menciona o uso nas plantações de eucalipto, para o combate ao cupim, e fala de casos graves relacionados ao nabo forrageiro. Gonçalves aponta que São Paulo, Rio Grande do Sul e Minas Gerais são os estados que têm registrado o maior número de casos de morte de abelhas em razão do fipronil e outros pesticidas. Mas já existem relatos em mais de 13 Unidades da Federação.

MANANCIAIS CONTAMINADOS

Um dos estados ameaçados é o Paraná. Um artigo de pesquisadores da Universidade Federal da Fronteira Sul afirma que os mananciais da região sudoeste estão contaminados pelo pesticida. Os autores avaliam a permanência desse e outros componentes nos rios das cidades Salto do Lontra, Santa Izabel do Oeste, Nova Prata do Iguaçu, Planalto e Ampére.

Entre as amostras que mais contaminaram os locais avaliados está o fipronil:

– De todas as amostras, os analitos encontrados e quantificados em maior número de amostras foram atrazina (11 amostras), simazina (7 amostras), penoxulam Vieira, M. G. et al. 000 Rev. Virtual Quim (4 amostras), seguido malationa (5 amostras), iprodiona (3 amostras), epoxiconazol, fipronil e tebuconazol (1 amostra).

Sobre as resoluções e normativas que estabelecem a quantidade permitida em cada um dos produtos, os pesquisadores lembram que o fipronil “não possui limite máximo de resíduos estabelecidos na legislação brasileira”.

O que o governo diz

Questionado sobre os riscos do fipronil à saúde humana, o Mapa afirmou, por meio da assessoria de imprensa, que “o uso da molécula está alinhado às normas do Codex Alimentarius, que a registrou e não tem restrição ao uso”. Segundo a pasta, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) também não tem restrição ao uso. “O Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) faz estudos constantes e não há evidência de riscos à saúde humana pelo uso do produto”, informa a pasta.

A Anvisa nega riscos de contaminação pela utilização do pesticida no Brasil:

– O fipronil está registrado no Brasil como agrotóxico desde meados de 1994, tendo várias marcas comerciais disponíveis no mercado, de diversas empresas. Ainda não foi evidenciado um risco para a população brasileira, considerando o tipo de contaminação ocorrida nos ovos na Europa, conforme demonstram os dados de monitoramento disponíveis.

Fonte – Izabela Sanchez, De Olho nos Ruralistas de 01 de setembro de 2017

O massacre das abelhas pelo agrotóxico

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O fenômeno do desaparecimento das abelhas pode ser explicado cientificamente, diz Lionel Segui Gonçalves, especialista em genética de abelhas, à IHU On-Line. Segundo ele, esse fenômeno que tem ocorrido no mundo todo, e particularmente no Brasilestá associado ao uso de agrotóxicos que contêm neonicotinoides. No Brasil“já temos várias ocorrências. Lamentavelmente, o país é um dos maiores consumidores mundiais de agrotóxicos, e as abelhas estão sofrendo com isso. (…) Gostaria de deixar claro que está havendo um massacre, principalmente nas nossas condições aqui no Brasil, em que a cada dia que passa nós temos mais ocorrência de perda de abelhas”, enfatiza.

De acordo com o professor Gonçalves, “as moléculas desse agrotóxico atuam diretamente no sistema nervoso das abelhas e, principalmente, no cérebro delas, causando um transtorno na comunicação das células nervosas. Com isso, a abelha acaba tendo uma deficiência na sua comunicação, o que faz com que ela fique desorientada, isto é, o plano de navegação dela fica prejudicado, de forma que ela não consegue voltar para sua fonte de origem, que são as colmeias, e acaba se perdendo”, explica.

Lionel Segui Gonçalves informa, na entrevista concedida por telefone, que o Brasiljá perdeu mais de 20 mil colônias de abelhas, o que representa mais de um bilhão de abelhas mortas nos últimos anos por conta do uso indiscriminado de agrotóxicos. Se o uso desse tipo de substância não for barrado, o pesquisador diz que a tendência é que a polinização feita pelas abelhas seja substituída pela polinização humana, como já tem sido feito na China e no Brasil, como nas culturas de maracujá. “Existe uma região na China, a qual tive o prazer de visitar, onde há 20 anos houve o uso indiscriminado de agrotóxicos e as abelhas acabaram desaparecendo. Hoje, os chineses estão fazendo a polinização das suas árvores com suas mãos, utilizando uma vareta com pena de passarinho, onde colocam o pólen nas plantas, isto é, fazem o papel da abelha. Estou prevendo que esse também será o nosso futuro, caso não haja nenhuma atitude governamental no sentido de proibir ou, pelo menos, de haver um controle no uso de agrotóxicos”.

O pesquisador informa ainda que as abelhas são responsáveis por “70% da polinização das plantas utilizadas para a produção de alimentos e, com o desaparecimento das plantas, o primeiro impacto negativo que teremos é a falta de alimentos”. Na avaliação dele, a solução para interromper esse fenômeno é “incentivar a pesquisa para produzir a ‘praga da praga’, isto é, utilizar o controle biológico para eliminar as pragas da agricultura”.

Lionel Segui Gonçalves é graduado em História Natural, que atualmente corresponde às Ciências Biológicas, pela Unesp de Rio Claro-SP, e doutor em Genética de Abelhas pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto – FMRP-USP. É professor aposentado da USP, professor emérito do CNPq e membro titular da Academia Brasileira de Ciências e da Academia de Ciências do Estado de São Paulo.

IHU On-Line — Que relações o senhor estabelece entre o uso de agrotóxicos e o desaparecimento das abelhas? O senhor tem dito que particularmente os agrotóxicos que possuem nicotina em suas fórmulas bloqueiam a comunicação entre as células do sistema nervoso das abelhas. Por que isso ocorre?

Lionel Segui Gonçalves — Inicialmente gostaria de dizer que o grande problema do desaparecimento das abelhas é um fenômeno internacional que já vem ocorrendo há alguns anos, e vem se intensificando muito em vários países, inclusive no Brasil, onde já temos várias ocorrências. Lamentavelmente, o país é um dos maiores consumidores mundiais de agrotóxicos, e as abelhas estão sofrendo com isso.

Colony Collapse Disorder – CCD, ou a Síndrome do Desaparecimento das Abelhas, é um fenômeno que vem ocorrendo e que foi detectado em vários países, mostrando que a presença de agrotóxicos do grupo dos neonicotinoides tem sido o principal responsável pelo desaparecimento, uma vez que as moléculas desse agrotóxico — que são muito fortes — atuam diretamente no sistema nervoso das abelhas e, principalmente, no cérebro delas, causando um transtorno na comunicação das células nervosas. Com isso, a abelha acaba tendo uma deficiência na sua comunicação, o que faz com que ela fique desorientada, isto é, o plano de navegação dela fica prejudicado, de forma que ela não consegue voltar para sua fonte de origem, que são as colmeias, e acaba se perdendo. Essa é a explicação científica do problema do desaparecimento. Agora, independentemente do nome que se dê, se é síndrome, desaparecimento ou morte, o que gostaria de deixar claro é que está havendo um massacre, principalmente nas nossas condições aqui no Brasil, em que a cada dia que passa nós temos mais ocorrências de perda de abelhas.

Desenvolvemos um aplicativo em Ribeirão Preto, chamado de Bee Alert, que permite que os apicultores, meliponicultores e demais interessados em abelhas obtenham informações diretamente dos locais onde ocorreram perdas, e façam um registro no Bee Alert. Quanto a isso, gostaria de dizer que, até dezembro de 2016, já haviam sido registradas mais de 300 ocorrências no Bee Alert, o que significa uma perda de mais de 20 mil colônias de abelhas, tanto apis melifera quanto abelhas sem ferrão e abelhas solitárias, de tal forma que as apis estão sendo prejudicadas em 87% e os meliponíneos em 13%. Isso representa um total de mais de um bilhão de abelhas mortas; e o principal causador são os agrotóxicos.

IHU On-Line — O que esse percentual significa? É possível estimar?

Lionel Segui Gonçalves — Não, não é possível, porque no Brasil existem dois grupos que estão fazendo esse levantamento. Um é o grupo do qual faço parte, que há três anos está fazendo coleta através do Bee Alert. O outro é o grupo chamado Projeto Colmeia, que também coleta dados com os apicultores, mas o grupo do Projeto Colmeia é financiado pelas multinacionais e nós não temos acesso às informações, apenas a um relatório que apresenta um número relativamente baixo de ocorrências. Nosso interesse é chamar a atenção para o uso indiscriminado dos agrotóxicos no Brasil.

IHU On-Line — É possível estimar a partir de que momento as colmeias de abelhas começaram a desaparecer no Brasil? Em que regiões do país o desaparecimento das abelhas é maior?

“O maior índice de desaparecimento das abelhas ocorre nos estados de São Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul”

Lionel Segui Gonçalves — Sim. Nós temos um mapa do Brasil onde estão lotados todos os registros mostrando a ocorrência da morte de abelhas nos estados brasileiros – 14 estados já foram atingidos, sendo que o maior índice de desaparecimento das abelhas ocorre nos estados de São Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul, e a maior frequência é no estado de São Paulo, com 55%. Curiosamente, tem um trabalho feito por uma pesquisadora da USP de São Paulo, que se chama Larissa Bombardi, onde ela faz um levantamento da distribuição ou da utilização dos agrotóxicos nos municípios do país. Ela também fez um mapa da distribuição geográfica desses agrotóxicos e essa distribuição bate, exatamente, com as ocorrências que temos registrado de morte de abelhas. Então, nosso mapa do Bee Alert coincide com o mapa da distribuição de agrotóxicos feito pela Bombardi em 2016.

IHU On-Line — Existe alguma discussão entre o seu grupo de pesquisa e os órgãos públicos, como o Ministério do Meio Ambiente, o Ministério da Agricultura e a Anvisa em relação aos danos causados às abelhas pelo uso de agrotóxicos, já que esses são os órgãos responsáveis pela autorização do registro dessas substâncias?

Lionel Segui Gonçalves — Sem dúvida. Esse é um tema que estamos discutindo há três anos: já estivemos no Ministério do Meio Ambiente, já estivemos em contato com o Ibama, já fizemos abaixo-assinado de e-mails de pessoas que têm interesse em chamar a atenção dessa situação, já entregamos um abaixo-assinado com 23 mil assinaturas tanto para o Ministério do Meio Ambiente quanto para o Ministério da Agricultura e para o Ibama. E, de lá para cá, nós temos participado de um número bastante significativo de reuniões no Brasil a respeito desse problema. Recentemente estivemos na Assembleia Legislativa do estado de São Paulo, onde foi discutida essa questão, sob a coordenação de um deputado do Partido Verdepadre Afonso, que está altamente interessado em chamar a atenção das autoridades a respeito do uso indiscriminado dos agrotóxicos. Logo, várias iniciativas têm sido feitas, mas, lamentavelmente, a frequência do uso dos agrotóxicos está cada vez maior.

IHU On-Line — Qual sua percepção sobre a recepção dos órgãos acerca dessas informações que o seu grupo de pesquisa tem levantado?

“85% da área verde é polinizada por abelhas. Logo, se não existirem abelhas, também haverá uma catástrofe ecológica”

Lionel Segui Gonçalves — A percepção é a de que temos uma perspectiva de que, no futuro, estaremos trabalhando — como é hoje na China — com a figura do homem-abelha, que passa a fazer a polinização com as mãos. Existe uma região na China, a qual tive o prazer de visitar, onde há 20 anos houve o uso indiscriminado de agrotóxicos e as abelhas acabaram desaparecendo. Hoje, os chineses estão fazendo a polinização das suas árvores com suas mãos, utilizando uma vareta com pena de passarinho, onde colocam o pólen nas plantas, isto é, fazem o papel da abelha. Estou prevendo que esse também será o nosso futuro, caso não haja nenhuma atitude governamental no sentido de proibir ou, pelo menos, de haver um controle no uso de agrotóxicos.

IHU On-Line — Como os chineses fazem esse processo de polinização? É possível fazer um processo de polinização adequado desse modo?

Lionel Segui Gonçalves — Você falou a palavra-chave: “adequado”. Lógico que não. O modo adequado é feito somente pelas abelhas; o homem fará uma tentativa de resolver alguns problemas. Nós, aqui no Brasil, já estamos fazendo isso com o maracujá, que é polinizado por uma abelha chamada mamangava, e essa abelha tem sido eliminada. Estão fazendo a polinização do maracujá com o próprio dedo ou com cotonete, mas isso jamais substituirá o papel da abelha. A perspectiva é muito ruim e vejo com uma preocupação muito grande o nosso futuro, uma vez que, até agora, nós não tivemos nenhuma resposta positiva do governo em relação ao controle dos agrotóxicos.

IHU On-Line — O senhor já disse que o trabalho desses insetos na natureza jamais será substituído pelas ações humanas nem pelos mais robustos ou aperfeiçoados robôs. Por que o trabalho que as abelhas fazem não pode ser substituído nem pela ação humana nem pela robótica?

“Por enquanto é uma ilusão imaginar o uso da robótica para fazer a polinização, porque as abelhas passaram centenas de milhares de anos se adaptando para realizar esse trabalho”

Lionel Segui Gonçalves — Existem propostas nesse sentido da robótica, mas por enquanto é uma ilusão imaginar o uso da robótica para fazer a polinização, porque as abelhas passaram centenas de milhares de anos se adaptando para realizar esse trabalho. Para que fosse possível que minirrobôs fizessem a polinização, seria necessário um ajuste muito grande na programação, porque temos abelhas específicas para determinados tipos de plantas e, também, tem que se considerar a adaptação das próprias abelhas. Portanto, não acredito que a robótica possa vir a substituir esse trabalho; poderá haver exemplos pontuais onde um determinado robô possa realizar a polinização de um determinado tipo de planta, mas isso ainda é ilusão.

As abelhas são responsáveis, hoje, por 70% da polinização das plantas utilizadas para a produção de alimentos e, com o desaparecimento das plantas, o primeiro impacto negativo que teremos é a falta de alimentos. Veja o exemplo das amêndoas: elas dependem 100% das abelhas. A Califórnia, nos Estados Unidos, que é o maior produtor de amêndoas, usa aproximadamente dois milhões de colmeias só para polinizar as amêndoas. Outras culturas, como a maçã, dependem 90% das abelhas. Enfim, as frutas, de modo geral, necessitam das abelhas para realizar a polinização.

Então, sem dúvida nenhuma, a extinção das abelhas pode levar à falta de alimentos. Além disso, existe o problema das áreas verdes, porque essas áreas — matas, florestas, campos etc. — também são polinizadas pelas abelhas: 85% dessa área verde é polinizada por abelhas. Logo, se não existirem abelhas, também haverá uma catástrofe ecológica. Esse é o grande problema e, infelizmente, não temos ainda soluções palpáveis, a não ser tentar combater radicalmente os agrotóxicos ou defender o uso de controle biológico. A solução mais correta seria incentivar a pesquisa para produzir a “praga da praga”, isto é, utilizar o controle biológico para eliminar as pragas da agricultura. Não sou 100% favorável à extinção dos agrotóxicos, mas sou bastante radical contra o uso indiscriminado, em que não se pensa em outra alternativa a não ser atingir as pragas em prejuízo das abelhas, que estão sendo atingidas.

IHU On-Line — Dado o uso contínuo de agrotóxicos no país, o que seria uma técnica de manejo apropriada para a criação de abelhas? O uso de insumos biológicos ou de agrotóxicos que não contêm essa substância resolveria os problemas?

Lionel Segui Gonçalves — Sem dúvida alguma. O problema dos agrotóxicos com neonicotinoides é que eles são altamente eficientes contra pragas, mas matam, inclusive, as abelhas; logo, são altamente eficientes para eliminar os polinizadores de modo geral. Se fossem utilizados e pesquisados tipos de agrotóxicos menos agressivos, que pudessem atingir determinadas pragas e também fosse feito um controle desse uso, de tal forma que a aplicação do agrotóxico fosse combinada com os apicultores, seria melhor.

Outra coisa: o uso dos agrotóxicos através das avionetas tem sido feito de maneira bastante eficaz no uso do agrotóxico, mas nem sempre eficaz no uso do combate à praga. Isso porque ocorre deriva, normalmente, em função do clima e do vento e, com isso, o agrotóxico atinge principalmente áreas onde não estão as culturas dirigidas para o tratamento, e atingem as abelhas; esse é o grande problema.

IHU On-Line — O senhor costuma mencionar uma frase que é atribuída a Einstein, quando comenta a importância das abelhas para o ecossistema: “Se as abelhas vierem a desaparecer da face da Terra, quatro anos depois o homem também desaparecerá”. É isso mesmo?

“Sugiro que seja incentivada a cultura de abelhas, ou seja, é preciso cuidar das colmeias, ter uma colmeia de jataí em casa”

Lionel Segui Gonçalves — Existe uma polêmica sobre a veracidade dessa declaração de Einstein. O importante é constatarmos — seja ou não verdade que ele tenha dito isso — o que está acontecendo: realmente as abelhas estão sendo eliminadas; esse é um ponto claríssimo para nós. Segundo, o papel das abelhas nos diferentes ecossistemas e na natureza é fundamental e isso já está devidamente comprovado através do papel delas na polinização.

Por outro lado, esse problema que você comentou, a respeito do desaparecimento do homem em função da falta de abelhas, como elas são responsáveis pela polinização das áreas verdes, faltando áreas verdes e as plantas que produzem oxigênio, logicamente isso atingirá o homem. E, não havendo a polinização, que é fundamental na natureza, nós teremos um déficit de plantas; havendo déficit de plantas, haverá um desequilíbrio de modo geral na ecologia e haverá falta de determinados organismos vegetais e animais. Com isso, acontecerá uma catástrofe mundial, porque o equilíbrio depende da presença das abelhas, que estão sendo eliminadas.

Eu não defendo a veracidade da declaração do Einstein, mas defendo a intenção que existe por trás disso, mostrando que se ocorrer o desaparecimento das abelhas, realmente haverá a possibilidade de sermos eliminados, não em quatro anos, como foi falado, mas em centenas ou milhares de anos.

IHU On-Line — Deseja acrescentar algo?

Lionel Segui Gonçalves — Gostaria de dizer que há a possibilidade de nossa comunidade responder a esse fenômeno, por exemplo, questionando: “Como eu posso ajudar?”. Uma maneira seria não utilizar esses pesticidas, ou seja, substituí-los por controle biológico.

Sugiro que seja incentivada a cultura de abelhas, ou seja, é preciso cuidar das colmeias, ter uma colmeia de jataí em casa, porque as crianças podem aprender a importância dos insetos para o homem e através dessa cultura poderia ser difundida a relevância das abelhas.

Sugiro que as abelhas sejam protegidas e que sejam plantadas árvores para aumentar a fonte de alimento delas, que são as flores. Logo, havendo um incentivo para plantar árvores e cultivar flores, isso ajudará demais. E, também, precisamos questionar as nossas autoridades sobre a importância de se controlar o meio ambiente e não permitir qualquer tipo de ação na natureza que acabe destruindo o nosso meio ambiente. Essas iniciativas são importantes.

Fonte – Patricia Fachin, IHU de 04 de setembro de 2017

Pesquisador explica por que agrotóxicos são principais culpados por desaparecimento de abelhas

Lionel Gonçalves afirma que risco de um mundo sem abelhas já está próximo; geneticista que criou a campanha ‘bee or not to be’ aponta utilização de pesticidas com nicotina

De Ribeirão Preto, no interior de São Paulo, o professor Dr. Lionel Segui Gonçalves conquistou renome ao redor do globo ao se especializar em abelhas. Professor aposentado da Universidade de São Paulo (USP), o geneticista não traz boas notícias. Há mais de 10 anos as abelhas têm desaparecido em diversos países do mundo. E qual o principal culpado? Segundo o especialista, o uso indiscriminado de agrotóxicos.

Gonçalves criou a campanha Bee or not to be (Sem Abelhas, Sem Alimento). Em tradução mais próxima da literal, “Ter abelhas ou não ser”. A campanha divulga a importância das abelhas para a sobrevivência da agricultura e da alimentação em todo o mundo. O professor explica que as diversas agressões ao meio ambiente estão relacionadas à chamada Colony Colapse Disorder(CDC), algo como Transtorno do Colapso das Colônias.

São várias as causas para o desaparecimento e a morte das abelhas: desmatamentos, variações climáticas e agentes patogênicos (vírus, bactérias, ácaros), entre outros. Mas é o uso dos pesticidas, explica o pesquisador, o principal causador da CDC. Os agrotóxicos que possuem nicotina em suas fórmulas – os neonicotinoides – bloqueiam as comunicações entre as células do sistema nervoso dos insetos, as sinapses.

Assim, quando elas saem em busca e néctar e pólen e se contaminam com esses agrotóxicos, têm um bloqueio no cérebro que causa amnésia. “Ela esquece do local de onde veio e acaba se perdendo na natureza, desaparecendo”, conta Gonçalves. É a chamada síndrome do desaparecimento.

Foto: EBC

Nordeste tem situação crítica

O Nordeste responde por 1/3 de toda a produção apícola do país. É lá, também, segundo o professor, que se encontra a situação mais crítica para a existência das abelhas. Além das agressões ao meio ambiente, o semiárido da região sofre com a falta de investimento em tecnologias menos agressivas. Uma das alternativas é o uso de colmeias sob a proteção de vegetações, para evitar as insolações e fornecer água potável. Há também técnicas de manejo apropriadas ao clima da região, para melhor conforto das abelhas e dos apicultores.

A desvalorização dos apicultores que fornecem as colmeias também ameaça a polinização de alimentos no Brasil. No Rio Grande do Norte, líder nacional de produção de melões, os produtores pagam valores irrisórios aos apicultores, conta o pesquisador, e promovem a morte das abelhas pelo excesso de agrotóxicos:

– Embora a polinização da flor do melão seja altamente dependente das abelhas, o preço do aluguel por colmeia pago aos apicultores oscila entre R$ 20,00 e R$ 30,00. Como se usa muito agrotóxico nessa cultura para combater as pragas, geralmente há muita perda de abelhas devido ao uso indiscriminado dos pesticidas, fato que ultimamente vem desestimulando os apicultores a colocarem suas abelhas nas culturas de melão.

Na China, homens-abelhas

O cenário sem abelhas, segundo Gonçalves, já existe. Ele conta que na região de  Sichuan, na China, as abelhas desapareceram. Hoje as pessoas tentam realizar o trabalho de polinização de forma manual. São os chamados “homens-abelhas”. Eles sobem nas árvores com varas que contêm, em uma das extremidades, pelugens de pássaros que foram colocadas em vasilhas com pólen.

O desaparecimento das abelhas na região ocorreu por causa do excesso de pesticidas com nicotina.

O professor lamenta a substituição dos insetos por trabalhadores, ou mesmo pela robótica:

– Pela complexidade e perfeição de uma abelha que resulta de milhares de anos de evolução, o trabalho desses maravilhosos insetos na natureza jamais será substituído pelas ações do homem nem pelos mais robustos ou aperfeiçoados robôs. É atribuída a Albert Einstein a frase: “Se as abelhas vierem a desaparecer da face da Terra quatro anos após o homem também desaparecerá”.

Fonte – Izabela Sanchez, De Olho nos Ruralistas de 21 de agosto de 2017

Queda acentuada de polinização gera impacto na agricultura

Pesquisa busca entender como mudanças climáticas poderão impactar diretamente as culturas polinizadas e a produção agrícola. Na imagem, abelha Borá (Tetragona clavipes) – Foto: Léo Ramos / Revista Pesquisa Fapesp

Aquecimento global afeta produção de frutas, verduras e outras culturas agrícolas dependentes de polinização

O aquecimento global e as mudanças no clima podem afetar a ocorrência de polinizadores naturais. Em artigo publicado na revista PLOS One, pesquisadores avaliaram 95 polinizadores de 13 culturas agrícolas dependentes de polinização. Concluíram que quase 90% dos 4.975 municípios analisados enfrentarão perda de espécies polinizadoras nos próximos 30 anos, de acordo com informações da Assessoria de Comunicação da Escola Politécnica (Poli) da USP. Em todo o País, a probabilidade de ocorrência de polinizadores poderá ter uma queda de 13% até 2050, segundo o estudo.

Assinado por um time multidisciplinar encabeçado pela bióloga e pós-doutoranda da Poli, Tereza Cristina Giannini, o artigo Projected climate change threatens pollinators and crop production in Brazil aponta que a região Sudeste será a mais impactada, ao passo que na região Norte há possibilidade de um leve aumento da ocorrência de determinados polinizadores. Entretanto, como afirmou Tereza, atualmente pesquisadora do Instituto Tecnológico Vale Desenvolvimento Sustentável, as perdas serão maiores que os ganhos.

As culturas agrícolas estudadas foram acerola, urucum e maracujá (categorizadas como culturas agrícolas em que a polinização é essencial); abacate, goiaba, girassol e tomate (muito dependentes da polinização); coco, café e algodão (modestamente dependentes); feijão, tangerina e caqui (pouco dependentes). A dependência se deve à morfologia da flor: há flores que não precisam de polinizador animal (o vento, por exemplo, já resolve). Outras precisam que o polinizador carregue o grão de pólen de uma flor para outra, garantindo, assim, a polinização.

“Para as culturas agrícolas e os polinizadores que estudamos, esse foi o resultado. Isso não significa que esse resultado seja válido para todas as espécies”, afirmou Tereza, ponderando que no oeste da região Norte, ainda bem protegido por mata nativa, o impacto das mudanças de clima pode ser menor do que em áreas do Sul, Sudeste e Nordeste do Brasil.

“É importante ressaltar as seguintes descobertas: primeiro, as perdas maiores afetam municípios com baixo PIB, o que pode impactar ainda mais os níveis de pobreza dessas regiões; e segundo, ao mesmo tempo [e em menor grau], elas afetam também um grupo de municípios muito rico, com valores de PIB muito altos que podem ser potencialmente reduzidos pelas perdas de polinizadores”, afirmou a pesquisadora.

“As perdas maiores afetam municípios com baixo PIB, o que pode impactar ainda mais os níveis de pobreza dessas regiões.”

Na pesquisa o grupo usou a Modelagem de Distribuição de Espécies (MDE), técnica que determina áreas potenciais de ocorrência de espécies e projeta sua distribuição futura. Para estimar a ocorrência e localização de cada espécie polinizadora, foram usados os bancos de dados do Centro de Referência em Informação Ambiental (Cria) e do Global Biodiversity Information Facility (GBIF).

“A modelagem de distribuição de espécies já tem sido usada há alguns anos. O ineditismo nesse trabalho foi a abordagem de cruzar a estimativa dos polinizadores do País, com foco nos municípios, com o impacto que isso tem na produção agrícola, município por município”, resume o professor Antonio Mauro Saraiva, do Núcleo de Pesquisa em Biodiversidade e Computação da Poli.

Supervisor de Tereza no pós-doutorado, ele afirma que o enfoque do trabalho ultrapassa o de um mero exercício científico. “Não se trata de entender apenas como as mudanças climáticas afetarão os polinizadores, mas como elas poderão impactar diretamente as culturas polinizadas e a produção agrícola, e os efeitos econômicos disso – algo que tem uma importância social grande. Esses resultados podem ser apresentados para tomadores de decisão e produtores e a metodologia tem potencial para tornar-se uma ferramenta de políticas públicas.”

“De modo geral, achamos que a adaptação provavelmente vai acontecer com espécies que toleram amplas faixas de temperatura e precipitação. Mas isso é muito difícil de medir. Podemos mensurar a tolerância de um polinizador à mudança de calor, por exemplo. Mas como medir essa mesma tolerância se a mudança demorar dez anos para acontecer?”

Entre as espécies estudadas pelo grupo, Tereza aponta como relevantes as abelhas sem ferrão do gênero Melipona e a Tetragonisca angustula (chamada de jataí); as espécies do gênero Bombus e Xylocopa (as mamangavas); e as abelhas do gênero Centris (abelhas de óleo).

O artigo é assinado ainda por Wilian França Costa, também pós-doutorando na Poli, Guaraci Duran Cordeiro, Vera Lucia Imperatriz-Fonseca, Jacobus Biesmeijer, da Holanda, e Lucas Alejandro Garibaldi, da Argentina, além do professor Antonio Mauro Saraiva.

Jornal da USP de 17 de agosto de 2017

Ao atacar mamangava, pesticida ameaça colônias de extinção

Ao atacar mamangava, pesticida ameaça colônias de extinçãoExperimentos de laboratório usaram doses de tiametoxame – uma das controversas famílias de neonicotinoides – que correspondiam ao que uma abelha-rainha pode encontrar na natureza – dpa/AFP/Arquivos

Um pesticida comum usado em plantações compromete a habilidade das rainhas da mamangava (abelhas do gênero bombus) de depositar ovos, ameaçando sua colônia de extinção, de acordo com um estudo publicado nesta segunda-feira.

Experimentos de laboratório usaram doses de tiametoxame – uma das controversas famílias de neonicotinoides – que correspondiam ao que uma abelha-rainha pode encontrar na natureza.

A exposição ao produto químico alterou o tempo de formação das colônias e reduziu o número de ovos em mais de um quarto, disseram os pesquisadores.

“Isso mostrou que os impactos dos neonicotinoides na fundação de colônias – por si só – aumentam significativamente o risco de uma população de abelhas expostas ser extinta”, disse à AFP Mark Brown, professor da Universidade de Londres e coautor do estudo.

A chance de colapso de colônia é de pelo menos 28%, disse.

Os pesticidas neonicotinoides são amplamente utilizados na agricultura, mas estudos recentes sugeriram um forte vínculo desses produtos com o declínio das populações de abelhas, especialmente na última década.

Como resultado, em 2013 a Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos (EFSA) impôs uma moratória parcial e temporária sobre o seu uso, enquanto aguarda o resultado de uma revisão programada para ser concluída no final deste ano.

Mas os cientistas ainda estão tentando identificar como o inseticida afeta as abelhas, que são cruciais para a polinização de culturas que vão desde amêndoas e maçãs até pêssegos e ameixas.

Fundação de colônias

As novas descobertas, publicadas na revista científica Nature Ecology & Evolution, destacam um cenário plausível.

“Estudos anteriores ignoraram um aspecto-chave do ciclo de vida da mamangava, que é o estágio de fundação das colônias”, disse Brown.

“Como a fundação de colônias bem-sucedida é fundamental para o tamanho das populações de mamangava, e as rainhas se alimentam de cultivos e plantas que podem ser contaminadas por neonicotinoides, esse estágio do ciclo de vida pode ser fundamental para entender os impactos dos neonicotinoides”.

As rainhas de mamangava já enfrentam vários obstáculos ao iniciar uma nova colônia.

Se elas conseguem sobreviver ao inverno – durante o qual podem perder 80% das suas reservas de gordura -, ainda devem enfrentar parasitas, predadores, mau tempo e falta de comida.

Lidar com inseticidas pode ser uma ameaça grande demais, disseram os pesquisadores.

“Esses pesticidas podem ter um efeito devastador nas abelhas, e precisamos urgentemente saber mais sobre como os pesticidas podem estar afetando outras espécies”, disse o coautor Nigel Raine, da Universidade de Guelph, no Canadá.

Uma revisão global feita em novembro passado concluiu que cerca de 1,4 bilhão de empregos e três quartos de todos os cultivos dependem de polinizadores, principalmente das abelhas.

Há cerca de 20.000 espécies de abelhas responsáveis ​​por fertilizar mais de 90% das 107 maiores plantações do mundo.

No ano passado, as Nações Unidas disseram que 40% dos polinizadores invertebrados – particularmente abelhas e borboletas – correm risco de extinção global.

O chamado “distúrbio do colapso das colônias” é atribuído a ácaros, vírus ou fungos, pesticidas ou uma combinação de fatores.

Os neonicotinoides – pesticidas sintetizados em laboratório com base na estrutura química da nicotina – também pareciam estar ligados aos declínios de borboletas, pássaros e insetos aquáticos.

Neonicotinoid pesticide reduces egg development in wild bumblebee queens

Bumblebee colony development following chronic exposure to field-realistic levels of the neonicotinoid pesticide thiamethoxam under laboratory conditions

Pesticide reduces bumblebee colony initiation and increases probability of population extinction

Fonte – Isto É de 14 de agosto de 2017

Em 90% do Brasil, mudanças no clima reduzirão abelhas e afetarão alimentos

Sul e Sudeste serão as áreas mais afetadasSul e Sudeste serão as áreas mais afetadas. Décio Gazzoni/Embrapa/Divulgação

Na prateleira dos mercados, feijão, abacate e aquecimento global –que irá impactar animais polinizadores e, consequentemente, os alimentos dependentes deles. No Brasil, cerca de 90% das cidades (entre as 4.975 que foram analisadas) sofrerão redução no número de abelhas, importantes para a polinização.

Os pesquisadores se concentraram em 13 culturas agrícolas que possuem robusta base de dados, ou seja, com determinações sobre produtividade, localização, dependência de polinizadores e polinizadores efetivos –fatores com efeito real para polinização.

“Temos uma carência gigantesca de dados. Não sabemos quantas culturas existem no Brasil, mas devem ser centenas”, afirma Tereza Giannini, autora do estudo e pesquisadora do Instituto Tecnológico Vale.

Ao todo, o Brasil tem 5.570 municípios, de acordo com o levantamento mais recente do IBGE, dos quais 4.975 foram analisados. Os que ficaram de fora da análise, não possuem dados sobre a produção ou realmente não têm as culturas estudadas: acerola, abacate, feijão, coco, café, algodão, goiaba, tangerina, maracujá, caqui, girassol, tomate e urucum.

Giannini afirma que alterações nas produções de espécies com alto valor de produção, como café e algodão, podem ter impactos significativos na economia. Estudos anteriores calculam que as mudanças climáticas podem custar entre US$ 4,9 bilhões (R$ 16,6 bi) a US$ 14,6 bilhões (R$ 49 bi) para o Brasil.

A pesquisa levou em conta as 95 espécies de abelhas relacionadas às plantações estudadas. Segundo Giannini, em média no país, haverá uma redução de 13% na ocorrência desses animais.

Contudo, essa taxa tem grande variação pelo país e os municípios mais afetados ficam no Sul e Sudeste, com risco de redução de polinizadores de até 60%. As plantações de girassol e tomate de cidades de Minas Gerais seriam as que mais sentiriam a redução.

Antonio Saraiva, cientista da USP e um dos responsáveis pelo estudo, afirma que as conclusões da pesquisa trazem “as mudanças climáticas para o bolso e para a barriga das pessoas”.

“Ter perda ou deslocamento dos polinizadores afeta a produção. Isso causa impactos em empregos e na renda local, e nos preços dos produtos pela diminuição da oferta”, afirma Saraiva, que ressalta que a questão dos preços não foi tratada nas análises.

De forma geral, as produções de goiaba, tomate, café e tangerina serão as mais afetadas.

Para dimensionar o impacto do aquecimento global na ocorrência de abelhas, a pesquisa considerou um aumento de temperatura de 2°C a 4°C até 2050 –seguindo dados do IPCC (Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas, da ONU).

“Precisamos entender melhor essas relações entre polinizadores e culturas agrícolas para preparar programas de conservação”, diz Giannini. “As abelhas e polinizadores são prioritários. Se esses cenários se confirmarem, ficaremos em uma situação muito complicada quanto à produção de alimentos.”

Uma forma de, pelo menos, amenizar a redução e migração de polinizadores seria, a partir de mais plantas amigáveis às abelhas, disponibilizar outras fontes de alimento e ninho. “Isso pode ser feito de maneira a não impactar muito as atividades humanas”, diz Saraiva.

O pesquisador da USP afirma que espécies vegetais que produzam néctar e pólen podem ser plantadas em faixas de terra não utilizadas e em beiras de estrada. Em meio a plantações, poderiam ser cultivadas plantas que proporcionem alimento para as abelhas mas que não provoquem competição por nutrientes.

“A outra opção é rever áreas destinadas à agricultura e, eventualmente, aumentar as regiões de matas preservadas”, afirma Saraiva.

O estudo foi publicado nesta quarta-feira (9), na revista científica “Plos one.

Phillippe Watanabe, Folha de S. Paulo de 09 de agosto de 2017

Mortandade das Abelhas (terceira parte – final): Exceções estão longe das lavouras

Sorbus sapiens

Apicultores que não tiveram o problema mantém suas colmeias afastadas das áreas com agrotóxicos

Numa comprovação da relação dos agrotóxicos com a mortandade das abelhas, os apicultores que não se queixam do problema são, justamente, aqueles que mantém suas colmeias longe das lavouras.

É o caso dos que costumam vender o mel orgânico na Feira Ecológica da Redenção, na capital, como Manoel Souza, 64 anos, que vem aos sábados de Santo Antônio da Patrulha, onde reside, para negociar o produto.

Ele tem 300 colmeias espalhadas por São Francisco de Paula, Taquara, Pantano Grande, Palmares do Sul, produzindo de seis a oito toneladas por ano. Não teve nenhuma ocorrência, até hoje, de mortalidade de abelhas acima do normal.

“Tem que escolher bem o local, nessas regiões não têm grandes plantações, não tem nada que tenha pulverização (de agrotóxicos)”, conta. O maior problema, na opinião dele, está nas plantações de soja, que chegam a receber três ou quatro pulverizações de venenos por safra.

Por isso instala suas abelhas em lugares mais isolados e trabalha no sistema de migração, que desloca os enxames de uma região para outra a fim de garantir nutrição adequada para elas. Por exemplo, de outubro a março ele mantém as colmeias na divisa de Taquara com São Francisco. Quando a florada das plantas na Serra está terminando, ele desloca-as para o Litoral, onde a florada está começando.

As abelhas são transportadas em caminhões adaptados, protegidos por telas e sombrite. Se não fizer a migração, explica, a colheita do mel cai à metade, por causa do clima e da vegetação inadequada para as abelhas. Elas mal chegam à nova casa e já fazem o reconhecimento da área, num raio de três quilômetros.

“Em apenas 20 minutos já estão produzindo mel”, conta Marcos, 35 anos, filho de Manoel. Desta forma, na sua banca, eles colocam à venda uma grande variedade do produto, como o tradicional mel de eucalipto e também de quitoco, uva do japão e aroeira, entre outros.

João Luiz Freitas, 64 anos, de General Câmara, também não teve ocorrência de mortandade das abelhas nas suas colmeias. Na ausência dos agrotóxicos, os maiores riscos para as abelhas, segundo ele, são os períodos chuvosos e a desnutrição, principalmente no outono, nas épocas em que acontecem semanas seguidas de precipitação.

Outro vendedor da Feira Ecológica, Fernando Presser, contudo, enfrentou um episódio de morte anormal de suas abelhas, com a perda de 15 colmeias, ano passado. Elas ficaram fracas e morreram. Mas não é possível afirmar que tenha sido por causa das plantações de soja nos arredores, diz.

Em todo caso, Presser decidiu publicar num jornal de Sertão Santana um alerta aos apicultores da região, para que mantenham suas abelhas bem distantes das lavouras. “Tem que se retirar da soja, porque a abelha é muito suscetível a qualquer fungicida ou veneno”, adverte.

Apoio ao setor

Segundo o coordenador da Câmara Setorial da Apicultura e Meliponicultura (Casam), Nadilson Ferreira, foram tomadas diversas medidas para apoiar os apicultores. Como exemplos ele cita o projeto de lei da política para apicultura e meliponicultura que tramita na Assembleia Legislativa, e a normativa para o transporte de abelhas, inédita no país, publicada no Diário Oficial do Estado dia 26 de junho.

Também está acontecendo a reestruturação das inspetorias veterinárias para atendimento do setor, com a capacitação de 30 técnicos que ocorreu em abril e uma nova turma que está prevista. Haverá ainda uma campanha de esclarecimento sobre a morte das abelhas a ser lançada brevemente, adianta.

Além disso, no final de junho, a Secretaria da Agricultura Pecuária e Irrigação (Seapi) anunciou a implementação do Sistema Integrado de Gestão de Agrotóxicos (Siga), um sistema online que integra as operações de comércio e utilização destes produtos. Teoricamente, ele vai permitir a rastreabilidade do seu uso nos cultivos agrícolas, o controle da emissão de receitas e o processo de coletas para análise de resíduos, disponibilizando um banco de dados atualizado.

A fiscalização do uso de agrotóxicos proibidos, contrabandeados, das misturas de produtos químicos não recomendados e o controle do receituário agronômico é uma das recomendações do Grupo de Trabalho da Mortandade das Abelhas.

Quanto à proibição dos agrotóxicos mais perigosos para as colmeias (Clotianidina, Imidacloprid, Tiametoxam e Fipronil), como foi sugerido, não consta nenhuma iniciativa neste sentido.

Veja o que apresentou o relatório do Grupo de Trabalho da Mortandade das Abelhas como propostas:

1. A recomendação de que esta Câmara Setorial deva solicitar aos órgãos competentes a proibição do uso das partículas Clotianidina, Imidacloprid, Tiametoxam e Fipronil nas culturas agrícolas no Estado, e sugerir que o mesmo se faça em todo o Brasil, tendo em vista a ameaça que causam ao processo de polinização das culturas bem como ao extermínio das abelhas.

2. Que os apicultores e meliponicultores sejam informados sobre os programas e calendários de controle de pragas rotineiros da sua região e quais produtos utilizados.

3. Os setores envolvidos: apicultores, meliponicultores e agricultores formulem regras de convivência e acordos com base em informações mútuas, pois polinização e flores são de interesse do grupo.

4. Colocar nas caixas o nome e fone do apicultor e ou meliponicultor para que o mesmo seja avisado com antecedência de alguma prática envolvendo agrotóxico.

5. Na impossibilidade de uso de produtos não tóxicos a abelha buscar o de menor ou Baixa toxidez.

6. Adotar, quando possível, métodos de aplicação menos impactantes para os polinizadores.

7. Quando da aplicação de agrotóxico ver a possibilidade de confinamento das abelhas com oferta de alimento e água.

8. Buscar horário de aplicação do produto químico incompatível com o horário de atividade das abelhas.

9. Uso de programa integrado de controle de pragas e produtos seletivos.

10. Cuidados com o descarte de resíduos e embalagens de agrotóxicos.

11. Usar agrotóxicos só quando ocorrer Nível de Dano Econômico (NDE).

12. Que o Estado intensifique a fiscalização do uso de agrotóxicos proibidos, contrabandeados, misturas de produtos químicos não recomendados, bem como maior controle do receituário agronômico.

13. Quando possível, locar os apiários e meliponários distantes das áreas agrícolas, tomando como referência o diâmetro de voo da espécie utilizada. Apis melífera 6,0 km; Meliponíneos em geral 2,0 km; Bombus e Xylocopa 10,0 km.

14. Manter, implantar ou recuperar áreas de amortização, Reserva Legal, e APP.

15. Melhorar o pasto apícola e meliponícola nas proximidades do apiário ou meliponário promovendo o efeito de fuga.

16. Incentivar a agricultura orgânica ou métodos assemelhados.

17. Provocar os programas e projetos do Ministério da Agricultura, Meio Ambiente e SEAPI e Frente Parlamentar para formação de um Fórum de discussão de política agrícola para o uso racional de agrotóxicos ou zoneamento das atividades com abelhas visando reduzir os impactos dos agrotóxicos sobre os polinizadores, ambiente, aplicadores e consumidores.

Participantes do GT:
1. Aroni Sattler
2. Édison Eckert Fauth
3. Ismael Horbach
4. Luis Fernando Wolff
5. Marli Kohler
6. Michele de Castro Iza
7. Péricles Boechat Massariol
8. Rogério Dalló
9. Valesca G. Finger
Coordenador: Sanderlei Pereira
Supervisor: Nadilson R. Ferreira.

Fonte – Ulisses Nenê, EcoAgência de 26 de julho de 2017

Mortandade das abelhas (segunda parte): GT pede a proibição de agrotóxicos

Sorbus sapiens

O Fipronil e os neonicotinoides, os mais letais para as abelhas, já foram proibidos em países da Europa

Em seu relatório final, o Grupo de Trabalho Sobre Mortandade das Abelhas no Rio Grande do Sul apresentou uma lista de propostas para conter o fenômeno que está dizimando as colmeias gaúchas. A primeira providência sugerida é o banimento dos neonicotinóides e do Fipronil, os agrotóxicos mais mortíferos para os insetos.

O documento recomenda “que esta Câmara Setorial deva solicitar aos órgãos competentes a proibição do uso das partículas dos neonicotinóides Clotianidina, Imidacloprid, Tiametoxam e Fipronil nas culturas agrícolas no Estado, e sugerir que o mesmo se faça em todo o Brasil, tendo em vista a ameaça que causam ao processo de polinização das culturas bem como ao extermínio das abelhas”.

Ele aponta que em fevereiro de 2004, há mais de dez anos, o Fipronil foi proibido na França, por ter causado a diminuição de 60% da produção de mel no país. Em setembro de 2008 os neonicotinóides foram proibidos na Itália, por mortandade de colmeias.

Em maio de 2008 um dos neonicotinóides foi proibido no Sul da Alemanha (Poncho – Clotianidina), por provocar a morte de 11 mil colmeias. Finalmente, em maio de 2013, os neonicotinóides foram proibidos em todos os países da Europa.

O GT, ligado à Câmara Setorial da Policultura e Meliponicultura, explica que a ação mortal desses inseticidas nas abelhas é exercida sobre o seu sistema nervoso central, bloqueando de forma irreversível os receptores nervosos. Inclusive, os tratamentos de sementes para plantio, protegidas contra insetos com essas partículas, contaminam por ação sistêmica o néctar e o pólen da cultura, causando a morte das abelhas.

Além disso, os resíduos desses agrotóxicos permanecem no solo por mais de dois anos, sendo absorvidos pela cultura subsequente ou pelas plantas indesejáveis, que assim continuam intoxicando as abelhas através do pólen e néctar que posteriormente oferecem às mesmas.

Sem contar que nas análises de água em riachos na Europa foram encontrados altos índices dessas partículas. “Pela forma de ação destas partículas sobre as abelhas, contaminando a água, o solo e os alimentos (néctar e pólen), não é possível a convivência das abelhas com o uso destes químicos”, sentencia o relatório. O documento foi entregue ao secretário estadual da Agricultura, Ernani Polo, mês passado.

Risco para o ser humano

No Estado encontram-se 324 espécies de abelhas, das quais apenas 24 possuem características de abelhas sociais (que vivem em colmeias), tidas como abelhas sem ferrão, e o restante são abelhas solitárias. Todas com um papel no serviço ecológico da polinização importantíssimo, não só quanto ao aspecto econômico como também ambiental, destaca o coordenador da Câmara Setorial, Nadilson Ferreira.

Doutor em polinização pela UFRGS, ele explica que os meliponíneos (abelhas sem ferrão) polinizam até 90% das plantas com flores dos trópicos e 70% das necessidades da polinização nas culturas agrícolas dependem das abelhas. “Estas populações de abelhas estão sendo atingidas e nada é feito para conter esses impactos. Inclusive, torna-se até um crime ambiental, já que esses animais fazem parte da fauna nativa”, afirma.

Ferreira alerta para um aspecto ainda mais preocupante: “A abelha é uma das indicadoras de qualidade ambiental. Se a abelha está morrendo implica que tudo que se encontra naquele ambiente está em risco, inclusive o homem”.

Ele espera que o assunto seja debatido no Conselho Estadual do Meio Ambiente (Consema), para que ali surjam normas que permitam o convívio harmônico entre agricultura e apicultura. Algo que não inviabilize a agricultura tradicional, mas também sem esta inviabilizar a apicultura, porque existe um ponto de interesse comum que é a polinização, que é “importante, fundamental, para a produção”, destaca.

Desaparecimento nos Estados Unidos e Europa

Coordenador do Laboratório de Apicultura da Faculdade de Agronomia da UFRGS, o agrônomo Aroni Sattler esclarece que o fenômeno no Estado é diferente do “sumiço de abelhas” que está acontecendo nos Estados Unidos e Europa. Lá, desde 2006 ocorre uma enorme perda de colmeias pelo desaparecimento rápido e sem qualquer vestígio quanto ao destino das abelhas.

A repercussão foi muito grande e continua até hoje, pela falta de colmeias para atender à demanda na polinização de várias culturas agrícolas. O custo com polinizadores, depois disso, triplicou para os agricultores. “Apesar dos grandes investimentos para resolver este mistério, até hoje, a principal conclusão é que as causas são multifatoriais, embora a maior parcela de culpa seja atribuída aos agrotóxicos”.

Aqui os sinais são diferentes, ressalta: “Especialmente no nosso Estado, nas regiões da soja, arroz, milho e frutíferas, temos as mortandades agudas e pontuais na época em que estas plantas florescem e quando coincide com a aplicação de agrotóxicos, mas aqui a mortandade se caracteriza pela presença das abelhas mortas dentro das colmeias ou o seu entorno”.

Sattler considera “mais grave ainda a situação dos demais polinizadores, em especial as abelhas nativas, sociais ou solitárias, que vivem em abrigos naturais. Quando morre umas destas colônias por intoxicação não mais será reposta, inclusive correndo risco de sua extinção”.

Aviação agrícola

No levantamento do GT, que Sattler também integrou, foram alinhados aspectos considerados agravantes no uso de agrotóxicos, entre eles: uso de produtos não indicados para a cultura implantada e mistura de produtos sem critérios técnicos. Ausência de levantamento da população de insetos causadores da praga a ser combatida e pacotes de produtos “casados”, induzindo o agricultor à aplicação preventiva.

Os estudos apontaram ainda a não utilização de tratamentos integrados das pragas, com processos físicos, químicos e biológicos, bem como a emissão de receituário agronômico pelo próprio agente técnico que faz a venda do agrotóxico. Além disso, acontece com frequência a aplicação de produtos em épocas inapropriadas.

Outro complicador mencionado é a pulverização por aviação agrícola. “A aviação piora muito a mortandade porque a dispersão (deriva) dos produtos químicos é bem maior do que na forma terrestre da aplicação, por mais que digam que controlam a aplicação aérea, por inviabilidade técnica, por causa dos contratos, a dispersão atinge áreas de extensão bem maiores que a aplicação terrestre”, diz Ferreira.

Por fim, o GT cita as grandes extensões monoculturais, como eucalipto. Apesar de ser rico em néctar e pólen, essa planta não possui uma proteína essencial para as abelhas (isolucina), o que provoca a diminuição de abelhas ao final da temporada, mesmo com a produção de mel, obrigando a transferência de colmeias para locais de pasto apícola mais equilibrado, nutricionalmente falando.

Fenômeno crescente e global

O fenômeno da mortandade é crescente, de grandes perdas, e consequências graves, adverte a diretora do Instituto do Meio Ambiente da PUC, Betina Blochtein. Bióloga e doutora em zoologia, ela trabalha há mais de 20 anos no estudo das abelhas e observa que há um fenômeno global de declínio dos polinizadores.

Uma causa muito importante, afirma, é a perda ou alteração do habitat, pela expansão da agricultura ou urbanização: “A conversão de áreas naturais para terras agrícolas em grande escala tem um fortíssimo impacto na diminuição dos polinizadores, é um problema muito sério e antigo que continua no Brasil”. Mas em todos os países onde acontece o problema também ocorre a utilização em grande escala dos agrotóxicos, acrescenta.

Ela observa que a matriz agrícola no país é dependente dos agrotóxicos. Sendo assim, “é preciso fazer escolhas e usos de boas práticas; há manuais e documentos internacionais sobre conservação das abelhas, indicando como conservar os polinizadores”. No entanto, a mortandade que está ocorrendo demonstra a ausência dos cuidados necessários, “por desconhecimento, por falta de consciência e de treinamento das pessoas”.

A bióloga questiona, por exemplo, a pulverização aérea, já apontada pelos outros especialistas, que pode espalhar o produto numa área bem maior que a das lavouras. Também alerta para a aplicação em dosagens muitas vezes exageradas, e revela que há relatos de agricultores que misturam vários produtos para economizar a aplicação, de uma vez só. Isso pode estar agravando ainda mais os danos sobre as abelhas, adverte.

Outra circunstância a ser considerada são os chamados efeitos subletais. Com baixa dosagem de agrotóxicos, as abelhas não vão morrer, mas vão ter consequências subletais, como dificuldades de orientação, daí não conseguem retornar às colmeias, diminui a população, baixa a sua imunidade, ficam mais suscetíveis a determinados gêneros de bactérias e sucumbem de maneira silenciosa. Muitas vezes os agricultores não percebem do que se trata e chamam isso de “colmeia fraca”.

Sistema de SOS

Betina ressalta que não há um sistema de SOS, que os apicultores, agricultores e as pessoas em geral possam chamar quando ocorre a mortandade para investigar o que aconteceu, fazer as análises necessárias e determinar as providências a serem tomadas.

“A sociedade não tem consciência da necessidade da conservação das abelhas”, critica a diretora do IMA. “A sociedade tem que se unir para enfrentar esses problemas. Vários países da Europa proibiram a pulverização aérea e vários produtos de difícil controle foram banidos”, aponta.

A especialista garante que, sendo usados mediante uma necessidade real, comprovada, e nas quantidades indicadas, diminuiriam em 70% os agrotóxicos nas lavouras. Ou seja, com boas práticas seria possível usar apenas um terço do que se usa hoje desses venenos e reduzir em muito o impacto sobre as abelhas. Mas também é necessária uma fiscalização eficiente dos órgãos ambientais e que todas as áreas envolvidas conversem entre si, conclui a bióloga.

Fonte – Ulisses Nenê, EcoAgência de 25 de julho de 2017

Mortandade das abelhas já é generalizada no Rio Grande do Sul (primeira parte)

Sorbus sapiens

Nunca houve nada igual, dizem apicultores. Pelo menos 250 mil colmeias desapareceram no Rio Grande do Sul em 2015. Culpa é dos agrotóxicos usados nas lavouras, apontam os especialistas

Chocados, tristes, desanimados. É como se sentem muitos apicultores do Rio Grande do Sul diante da assustadora mortandade das abelhas em suas colmeias. Pelo menos 250 mil colmeias desapareceram no Rio Grande do Sul em 2015. Todos os especialistas ouvidos não têm dúvidas em afirmar que a responsabilidade é dos agrotóxicos, usados descontroladamente nas lavouras, além do desmatamento que não para de aumentar.

“No Estado a morte de abelhas tornou-se generalizada, principalmente em áreas com uso intensivo de agrotóxicos”, afirma o coordenador da Câmara Setorial de Apicultura e Meliponicultura da Secretaria Estadual da Agricultura (Casam), Nadilson Ferreira. “O problema atinge maiores proporções nas regiões da Depressão Central, Missões, Alto Uruguai e parte da Campanha. Os agrotóxicos estão acelerando a perda de biodiversidade e contribuindo para o extermínio das populações de abelhas”, completa.

O fenômeno da mortandade tem um impacto muito grande no Estado, já que o Rio Grande do Sul é o maior produtor de mel do Brasil. São cerca de 30 mil apicultores, que produzem em torno de oito mil toneladas por ano (60% na primavera e 40% no outono). A metade é exportada, principalmente para a Europa, e a outra parte consumida no mercado interno.

Um temor que ronda os apicultores que trabalham com exportação é que, a continuar assim, o mel gaúcho passe a sofrer restrições e a perder valor nos países compradores por causa da contaminação por esses venenos. “Com toda essa desgraça (das mortes por envenenamento) o mel gaúcho ainda é considerado orgânico”, ressalta Ferreira.

O período de maior colheita, a primavera, é justamente o de maior atividade agrícola no Estado e de maior extermínio destes insetos pelos venenos jogados nas plantações. Estima-se que as perdas decorrentes, tanto de colmeias como da produção de mel, andem em torno de 30% a 40%, quase a metade. Mas os apicultores que ouvimos apontam um prejuízo muito acima disso.

Morte anormal

Os produtores de mel, de forma geral, contam que as abelhas começaram a morrer de forma anormal, sem nenhuma doença ou desnutrição que justificasse, há cerca de três ou quatro anos. É o caso de Luiz Darci Demo Garlet, 60 anos, que entre dezembro e janeiro último perdeu nada menos que 600 das 1.200 colmeias que tinha em Cruz Alta, no Noroeste do Estado.

Desde 2013 ele já vinha tendo perdas por causa dos agrotóxicos, de 100 a 200 caixas, onde ficam as colmeias, por ano. Ele tem certeza que a causa, desta última vez, foi um veneno ainda mais forte que usaram para atacar o “tamanduá-da-soja”, um inseto que raspa o caule da planta. Outros venenos, como os da lagarta da soja, relata, não matam tanto, mas deixam as abelhas desorientadas, fracas, e acabam perecendo também.

Como boa parte dos apicultores, ele acomoda as colmeias em propriedades de outras pessoas mediante o pagamento de uma comissão. Por isso, muitos como ele não reclamam e não informam o ocorrido aos órgãos de fiscalização ambiental. “Não podemos reclamar, porque senão os donos das terras vão dizer ‘pega tuas caixas (de abelhas) e vai embora’. Não tem o que fazer, fazer o quê?”, indaga o apicultor. Ele calcula que vai demorar quase dois anos para recuperar o que perdeu, isso se a mortandade não continuar.

“Outra dificuldade é a falta de lugar para colocar as abelhas porque estão terminando com os matos e elas têm que ser colocadas na sombra, porque se as colmeias ficarem no sol morrem todas”, acrescenta. Garlet que normalmente tirava 30 toneladas de mel por safra, este ano colheu apenas 11 toneladas com a perda de tantas colmeias: “Meus dois funcionários ficaram até mais chocados que eu. Tinha um apiário com 25 colmeias novas, lindas, bonitas, morreram as 25. Isso entristece muito”, lamenta.

Nunca houve nada igual

O vice-presidente da Associação dos Apicultores da cidade, Walmor Kirchhof, 65 anos, confirma que a mortandade é generalizada, atingindo a todos os apicultores: “Nunca tinha acontecido nada igual como nesse ano, todo o pessoal da região perdeu uma barbaridade de abelhas”, relata.

Das suas 200 caixas sobreviveram apenas 40 colmeias. “Teve local que não sobrou nenhuma caixa”, completa. Até alguns anos atrás, perdia meia dúzia de caixas por ano.

Kirchhof garante que “doença não foi, as abelhas estavam fortes e estavam produzindo mel”. Mas, de repente, morreram todas e apodreceu tudo nas caixas. “Geralmente as traças comem a cera (quando as abelhas morrem por algum outro motivo), mas neste caso nem as traças apareceram, também morreram”, acrescentou.

Ele é aposentado, trabalha com isso há 35 anos e o mel é a maior parte da sua renda. “É um prejuízo enorme, a gente depende disso aí”. Como fornece para a merenda escolar, precisou comprar mel de outros fornecedores, de regiões distantes, para cumprir as encomendas.

Vontade de desistir

Distante dali, bem no interior de São Borja, junto ao rio Uruguai, na fronteira com a Argentina, Vilmar Soares, 78 anos, que tem na atividade um complemento para a aposentadoria, já pensou até em desistir da apicultura. “Tinha 223 caixas, sobraram 70”, relata. Dos 900 quilos que costumava colher das colmeias agora só colhe 200.

Ele conta que o extermínio começou por volta de 2014 e também está certo de que vem acontecendo por causa dos venenos das lavouras: “Já vi um enxame e no outro dia, depois que passaram veneno por perto, as abelhas estavam todas mortas. E a caixa fica imunizada, porque novos enxames na mesma caixa morrem também. Disseram que é um veneno que se um só inseto leva para a colmeia, contamina todas as outras”.

Assim como tantos outros, não procurou ajuda de ninguém, nenhum técnico, nenhuma autoridade, porque não sabe a quem procurar. Mas, principalmente, porque não quer “se incomodar” com os vizinhos agricultores, que estão utilizando os agrotóxicos: “A gente precisa dos vizinhos”, explica.

Soares diz que já se sentiu “desacorçoado”, um termo fronteiriço para desânimo, desalento. Pensou em desistir, mas vai continuar, por enquanto, tentando salvar o que restou da matança das suas abelhas pelos venenos das lavouras.

Da conversa com eles fica muito evidente que, além do negócio, cria-se uma relação de grande afeição por esses insetos, que Garlet conhece desde criança, quando ajudava o pai a produzir mel: “Na apicultura, se a pessoa não gosta das abelhas não funciona, a apicultura é uma profissão diferente, é algo da natureza, tem que gostar do bichinho”.

Por isso, se o prejuízo desses apicultores é enorme, o abalo emocional pela mortandade também: “É horrível!”, desabafa Kirchoff.

Situação extremamente grave

A situação é tão alarmante que foi criado um Grupo de Trabalho da Mortandade das Abelhas, em 2015, ligado à Câmara Setorial (Casam). Durante um ano, entre 2015 e 2016, o GT fez estudos, reuniões, e, mês passado, entregou suas conclusões ao secretário da Agricultura, Ernani Polo.

“É uma situação extremamente grave”, define Sanderlei Pereira, coordenador da Emater/Ascar em Candelária, que coordenou o GT. “Estimamos uma redução de 40% do volume de mel colhido nas últimas safras e uma diminuição de 40% das colmeias do RS”. O GT constatou que todo o Estado está sendo atingido pela mortandade, com maior intensidade nas regiões com maior produção de cultivos anuais, como soja, arroz e milho.

A apicultura gaúcha exercida basicamente por pequenos

agricultores/apicultores. Isto é positivo, diz Sanderlei, porque distribui muito bem geograficamente as colmeias e seus benefícios, na melhoria da alimentação das famílias rurais, na comercialização do seu excedente, agregando renda, e também pela polinização das culturas na propriedade. “Por outro lado, isso dificulta o levantamento da morte das colmeias e da diminuição da colheita”.

Fipronil e Neonicotinoides

“A mortandade de abelhas ocorre também por fome, manejo errado de apiários, pólen tóxico (barbatimão), doenças e parasitas, causas essas conhecidas pelos apicultores, diferente da mortandade que vem ocorrendo nos últimos anos pela ação do Fipronil e algumas partículas dos neonicotinóides”, diz o relatório do GT.

O documento reforça como principal causa “O uso em larga escala no Brasil de agrotóxicos com efeitos nocivos às abelhas, em especial aqueles do grupo dos Neonicotinóides (Clotianidina, Imidacloprid, Tiametoxam) e Fipronil”.

Esses, especificamente, são os que têm ação fulminante sobre as abelhas, salienta Sanderlei. Eles causam a morte das polinizadoras até mesmo quando são usados no tratamento das sementes porque são sistêmicos, ou seja, entram na seiva das plantas e contaminam o pólen e néctar de suas flores, que são visitadas pelas abelhas quando acontece a floração.

Também as caixas e caixilhos ficam com resíduo de agrotóxico, muitas vezes causando intoxicação crônica na nova colmeia que ali é alojada e acaba sucumbindo também – como relataram os apicultores que entrevistamos.

Padrão das mortes

O padrão do extermínio é sempre o mesmo. A morte repentina das abelhas, na sua totalidade ou em parte, com presença de abelhas mortas na caixa. Quando há presença de abelhas vivas ao redor, elas estão desorientadas e em pequeno número e há mel produzido nos favos.

Noutros casos, as colmeias vão perdendo população até ficarem sem abelhas no final do processo. Com a diminuição da população, acontece um estresse nas suas defesas que conduz a sucessivos ataques de varroase (um ácaro), bactérias e fungos, que causam a morte dos insetos restantes.

“Nenhuma espécie de abelha está livre da ação destes inseticidas. Sempre existiu morte de colmeias, por fome, mau manejo, mas com características próprias conhecidas pelos apicultores e técnicos, em média 10% ao ano, totalmente diferente do que vem ocorrendo, com mortalidade de até 80% das colmeias”, afirma Sanderlei.

O coordenador do GT salienta que não é a proximidade das lavouras que implica nas mortes e sim os produtos químicos usados nelas. A soja, por exemplo, “é benéfica para as abelhas, produz mel de excelente qualidade e a soja também se beneficia com as abelhas através da polinização, que amplia em média 10% a produtividade da lavoura”.

Na Europa, foi registrada perda de mais de um milhão de colmeias devido às mortes causadas pelos neonicotinóides. Quanto ao Fipronil, a Agência de Proteção do Meio Ambiente dos Estados Unidos classificou esse produto como de alto potencial cancerígeno (afeta principalmente a tireóide).

Fonte – Ulisses Nenê, EcoAgência de 24 de julho de 2017

Exposição a neonicotinóides resulta na morte prematura da abelha rainha e obreiras

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As abelhas rainhas e operárias expostas aos pesticidas neonicotinóides morrem mais cedo, revela um novo estudo

As abelhas-rainhas e obreiras expostas a pesticidas neonicotinóides morrem mais cedo, o que afeta a saúde de toda a colmeia, concluiu um estudo realizado por biólogos da Universidade de Iorque.

“Os investigadores ficaram surpreendidos ao descobrir que o pólen contaminado por neonicotinóides recolhido pelas abelhas provinha não de culturas resultantes da germinação de sementes tratadas com estes inseticidas, mas de plantas silvestres das áreas adjacentes a estas culturas.”

“Isto indica que os neonicotinóides, que são solúveis em água, transbordam dos campos para o ambiente circundante, indo parar a outras plantas que são muito atrativas para as abelhas”, disse Nadia Tsvetkov, investigadora que liderou o estudo.

Embora vários estudos tenham vindo a ligar estes inseticidas a efeitos negativos na saúde e comportamento das abelhas, alguns cientistas criticam estes trabalhos, sugerindo que as abelhas estudadas tinham estado expostas a doses elevadas de pesticidas durante muito mais tempo do que o que seria registado realisticamente nos campos.

Abelha recolhe néctar numa flor

A equipa de investigação estudou os enxames de abelhas de cinco apiários perto de culturas de milho de sementes tratadas com neonicotinóides e de seis apiários longe de zonas agrícolas. “Os enxames de abelhas perto do milho estiveram expostos a neonicotinóides durante três a quatro meses”, explicou a investigadora.

Descobriram que o pólen contaminado por neonicotinóides que as abelhas recolheram não pertencia às culturas de milho ou soja da região (Ontário e Quebeque).

Em seguida, os investigadores alimentaram os enxames com um suplemento de pólen artificial que continha quantidades cada vez menores do neonicotinóide mais usado em Ontário, clotianidina, ao longo de um período de 12 semanas. A experiência reproduziu o que ocorreria naturalmente no campo.

“As abelhas expostas ao pólen tratado durante os primeiros nove dias de vida tiveram a sua longevidade encurtada em 23%. Os enxames expostos a pólen tratado foram incapazes de manter uma abelha-mestra saudável e apresentaram fracas condições de higiene.”

“Descobrimos que a exposição realista aos neonicotinóides perto dos campos de milho reduz a saúde das colmeias de abelhas”, declarou Tsvetkov.

Os biólogos fizeram outra descoberta preocupante: os “níveis realistas de um fungicida podem tornar os neonicotinóides duas vezes mais tóxicos para as abelhas”.

“O efeito dos neonicotinóides nas abelhas passa rapidamente de mau a pior, quando se junta o fungicida boscalide à mistura”, disse Valérie Fournier, professora da Universidade de Laval, que colaborou no estudo publicado na prestigiada revista cientifica Science.

Fonte – The UniPlanet de 14 de julho de 2017