A revolução das abelhas sem ferrão

Se encontrarmos mecanismos para remunerar serviços ambientais das abelhas sem ferrão, revolucionaremos a restauração florestal e o combate ao desmatamento, gerando uma revolução no campo (crédito: William Cho/Bees@Work - CC BY-SA 2.0)Foto: Se encontrarmos mecanismos para remunerar serviços ambientais das abelhas sem ferrão, revolucionaremos a restauração florestal e o combate ao desmatamento, gerando uma revolução no campo (crédito: William Cho/Bees@Work – CC BY-SA 2.0)

A restauração de 12 milhões de hectares de florestas, compromisso do Brasil dentro do Acordo de Paris, depende diretamente do manejo das abelhas nativas do gênero Melipona, que representam um imenso e pouco conhecido patrimônio natural do País

A humanidade observa atônita o desaparecimento das abelhas e de seus serviços ambientais. Segundo Gould, entre 1947 e 2005, nos o declínio das colônias de abelhas domesticadas foi de 60% nos Estados Unidos. No Brasil, o fenômeno é recente e comprovado nos Estados do Rio Grande do Sul e de São Paulo.

O colapso global associa-se ao uso intensivo de produtos químicos e a alterações em ambientes naturais. Para Gallai e colegas, se esta perda continuar, frutas, vegetais e estimulantes (como o café) não serão capazes de atender às demandas. Para Aizen & Harder, nos últimos 50 anos, a agricultura global que depende da polinização de animais aumentou em 300%, e a maior parte da comida do planeta hoje depende de polinizadores. Globalmente, conforme recordam Gallai e colegas, o valor econômico dos polinizadores é estimado em 1/10 do valor da agricultura (US$ 153,1 bilhões/ano), e as abelhas estão entre seus principais agentes.

As abelhas aumentam a quantidade e a qualidade dos frutos, agrega-lhes mais valor, sabor, doçura e forma mais atraente. Mesmo plantas que não dependem dessa ação, como a soja, ganham mais peso em seu grão se mais bem polinizadas. A Organização das Nações Unidas criou a Plataforma Intergovernamental de Biodiversidade e Serviços Ambientais (IPBES) para monitorar perdas de biodiversidade, incluindo polinizadores e produção de alimentos. O IPBES demonstrou a importância de abelhas silvestres na estratégia de produção de alimentos e enfrentamento da mudança climática, com atenção à agricultura familiar.

Biodiversidade

São estimadas 25 mil espécies de abelhas no planeta. No Brasil, há milhares de espécies. O destaque é para o gênero Melipona, as abelhas sem ferrão. Diferentemente das abelhas do gênero Apis, introduzidas no Brasil em 1838, animal exótico e perigoso (sua picada pode matar), as Meliponas não apresentam risco e, após milhões de anos de evolução, estão mais bem adaptadas ao meio. Das 600 espécies desse gênero no mundo, há 244 no Brasil, e 89 aguardam descrição científica. Na Amazônia, há 114 espécies, número que pode crescer. E não há sequer inventário de espécies por Estado, o que, para Vera Imperatriz-Fonseca, pesquisadora do Instituto Tecnológico Vale (ITVS) seria de grande relevância. As abelhas sem ferrão são conhecidas por uruçu, jataí, mandaçaia etc. e representam imenso e pouco conhecido patrimônio brasileiro.

Conservação

Se considerada apenas a floresta amazônica, como concluiu Warwick Kerr em estudos no Tapajós, de 35% a 90% das árvores dependem de abelhas como polinizadores primários. Uma floresta conservada tem dezenas de espécies, em pastagem degradada dificilmente acham-se mais que duas.

Restauração florestal

Em 2015, na Conferência do Clima da ONU em Paris, o Brasil se comprometeu a restaurar 12 milhões de hectares de florestas até 2030 para reduzir em 43% suas emissões. Esta meta espetacular só será alcançada se considerado o manejo de melíponas. As abelhas aumentam a polinização, a produção de frutos e a dispersão de sementes, além de combater o desmatamento e o fogo (um dos maiores problemas da restauração).

Mais produção

Alguns dos produtos do Brasil e da Amazônia, como açaí, castanha, cacau, pimentas e frutas, dependem das abelhas sem ferrão para polinização. No caso do açaí, as melíponas estão entre principais polinizadores. A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e o Instituto Peabiru iniciaram pesquisas para saber se a criação de melíponas nos açaizais aumenta a produção. Esta é uma informação importante, afirma Antônio Cordeiro de Santa, da Universidade Federal Rural da Amazônia, pois o açaí se tornou cadeia de valor que movimenta mais de R$ 4 bilhões/ano, e principal fonte de renda de muitas comunidades da Amazônia.

Mel valioso

Apesar de explorado por índios, foi sempre escasso e é valorizado pela medicina tradicional. A demanda crescente é puxada pelo mercado gourmet. Com milhares de pequenos criadores, seu valor é pelo menos 3 vezes mais alto que o produto da Apis, inclusive porque uma colmeia produz pouco mais de 1 quilograma mel/ano (na Apis, são de 10 a 20 quilogramas).

Meliponicultura

Somente agora, após 50 anos desde sua definição científica, a criação racional de abelhas sem ferrão – a meliponicultura – começa a adquirir escala. Entre os difusores da meliponicultura na Amazônia estão Embrapa, Universidade Federal do Maranhão e ONGs (Instituto Socioambiental, Fundação Amazonas Sustentável e Peabiru). A capacitação de agricultores familiares e a simplificação do licenciamento do manejo de abelhas nativas permitiram o surgimento de iniciativas como o projeto Néctar da Amazônia, do Instituto Peabiru, financiado pelo Fundo Amazônia (gerido pelo BNDES), envolvendo mais de 100 produtores e 5 mil colmeias de 5 municípios no Amapá e Pará, legalizadas no Sistema Nacional de Gestão de Fauna Silvestre (Sisfauna) e alcançando o mercado com Selo de Inspeção Federal (SIF).

Renda local

Para 1 milhão de agricultores familiares da Amazônia, 30 colmeias podem gerar R$ 600/ano, equivalente à renda de mais de um mês. Melhora também a segurança alimentar da família com mais frutos e mel na mesa. Se o controle do dinheiro estiver com a mulher, seu impacto é ainda maior. Tem potencial, inclusive, de desestimular a juventude a migrar em busca de trabalho. Mais que fonte de renda, para Vera Imperatriz-Fonseca, a meliponicultura deveria ser atividade rural com outra qualquer outra, pois são animais silvestres que fazem parte do dia a dia do agricultor.

Sociobiodiversidade

As melíponas são generalistas na busca de néctar e pólen, ou seja, coletam o néctar e pólen de diversas plantas. Seu mel contém a essência de toda uma floresta em uma colher. O consumidor adquire mais que um adoçante com sabores diversificados e características físico-químicas peculiares. É poderoso aliado da conservação da biodiversidade e da restauração florestal para manter a floresta em pé. É produto da sociodiversidade brasileira – indígenas, quilombolas e povos e comunidades tradicionais, gerando renda em seu território.

Desafio

Se encontrarmos mecanismos de remunerar os serviços ambientais das abelhas sem ferrão, além do mel e das colmeias a outros produtores, revolucionaremos a restauração florestal, o combate a queimadas e desmatamentos, e por consequência o enfrentamento da mudança climática, gerando uma revolução rural.

João Meirelles Filho é diretor do Instituto Peabiru, escritor e empreendedor social. Trabalha com abelhas nativas há 12 anos. O Instituto Peabiru vem desenvolvendo trabalho pioneiro com meliponicultura há mais uma década a fim de fortalecer a cadeia de valor do mel de abelhas sem ferrão em comunidades tradicionais da Amazônia. Saiba mais sobre o projeto Néctar da Amazônia.

Fonte – Página 22 de 24 de outubro de 2017

ONU declara 20 de maio Dia Mundial das Abelhas

Abelhas podem visitar cerca de 7 mil flores por dia. Foto: PEXELSAbelhas podem visitar cerca de 7 mil flores por dia. Foto: PEXELS

Data foi proclamada pela Assembleia Geral das Nações Unidas para lembrar a importância da polinização para o desenvolvimento sustentável. Insetos podem visitar cerca de 7 mil flores por dia, atuando como agentes fundamentais ao equilíbrio dos ecossistemas. Animais também são fonte de mel e outros produtos que dão oportunidade de sustento para agricultores.

O próximo 20 de maio será observado pela ONU como o Dia Mundial das Abelhas. Data foi proclamada pela Assembleia Geral das Nações Unidas para lembrar a importância da polinização para o desenvolvimento sustentável. Insetos podem visitar cerca de 7 mil flores por dia, atuando como agentes fundamentais ao equilíbrio dos ecossistemas. Animais também são fonte de mel e outros produtos que dão oportunidade de sustento para agricultores.

As abelhas e outros polinizadores — como as mariposas, morcegos e pássaros — permitem a reprodução de diferentes espécies de plantas, incluindo de vegetais consumidos como alimento pelos seres humanos.

O 20 de maio foi escolhido para a data por ser o dia do nascimento de Anton Janša, esloveno nascido no século XVIII que foi pioneiro na criação e uso de técnicas modernas de apicultura.

A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO) já desenvolve atividades de capacitação em apicultura no âmbito de diferentes projetos de desenvolvimento rural, do Azerbaidjão ao Níger.

A agência da ONU está liderando a criação de uma base de dados sobre os serviços de polinização prestados pelas abelhas e outros animais a nível global. Uma das vantagens do investimento nas cadeias produtivas associadas às abelhas é o uso reduzido de capital e de propriedade de terra.

Atualmente, os polinizadores não apenas contribuem com a segurança alimentar, uma vez que são fomentadores da vida vegetal, mas também atuam como sentinelas do meio ambiente, pois variações de seu comportamento indicam ameaças emergentes e desequilíbrios nos ecossistemas.

Insetos invasores, pesticidas, mudanças no uso da terra e a prática da monocultura reduzem os nutrientes disponíveis na natureza e representam uma ameaça às colônias de abelhas.

Fonte – ONU Brasil de 04 de janeiro de 2017

Jardins de Mel

O projeto Jardins de Mel tem como objetivo a divulgação das abelhas nativas sem ferrão, responsáveis pela polinização de cerca de 90% das plantas brasileiras. Já começaram a ser distribuídos em áreas verdes do município de Curitiba, como o o Parque Barigui, Bosque Reinhard Maack, Jardim Botânico, Casa de Acantonamento (do Zoológico de Curitiba) e Museu de História Natural Capão da Imbuia.

As cinco espécies utilizadas são: de guaraipo (Melipona bicolor), manduri (Melípona marginata), mandaçaia (Melipona quadrifasciata), jataí (Tetragonisca angustula) e mirim (Plebeia sp).

As abelhas estarão em caixas racionais de criação, colocadas dentro de um revestimento, visando uma maior proteção e bem-estar dos insetos.

As atividades desenvolvidas pelo projeto ressaltam a sensibilização sobre a importância e os benefícios dos serviços ecossistêmicos de regulação e equilíbrio do planeta prestados pelas abelhas nativas.

Ainda serão ofertados cursos de capacitação para Guardiões das Abelhas sem Ferrão, o que vai contribuir para manter a cultura que vem desde os povos indígenas.

Biodiversidade

Há mais de 20 mil espécies de abelhas espalhadas pelo mundo. A maioria delas tem comportamento solitário, mas dentro deste universo existem as abelhas sociais nativas sem ferrão. Entre elas, são aproximadamente 420 espécies no mundo, 300 no Brasil.

As abelhas nativas sem ferrão vivem em ninhos, organizados com três castas – a rainha, as operárias e os zangões. Seus ninhos podem ser encontrados nos ocos de troncos de árvores, no chão e em muros. Elas alimentam-se de néctar e pólen, enquanto fazem a polinização; e armazenam o alimento em potes de cera, mel e pólen. São responsáveis pela existência da maioria das espécies vegetais, incluindo os alimentos.

Conheça algumas das abelhas nativas

Abelha Jataí

Jataí
Nome científico: Tetragonisca angustula
Tribo: Trigonini
Onde encontrar: As abelhas Jataí são nativas do Brasil e têm abrangente extensão geográfica, do norte da Argentina até o México.
Curiosidade: Ao longo dos anos, um dos mecanismos de defesa desenvolvidos foi o de ter abelhas sentinelas para combater possíveis inimigos. Elas costumam fechar a entrada de seu ninho durante a noite e em dias de frio.

Abelha Manduri

Manduri
Nome científico: Melipona marginata
Tribo: Meliponini
Onde encontrar: As abelhas Manduri são encontradas desde a América Central até a Argentina.
Curiosidade: Mandirituba, cidade da Região Metropolitana de Curitiba, tem esse nome pela grande ocorrência destas abelhas por lá. Quando ameaçadas, elas enrolam-se nos cabelos e pelos, sem, no entanto, representar perigo para os seres humanos.

Abelha Mirim

Mirim
Nome científico: Plebeia sp
Tribo: Trigonini
Onde encontrar: América Central e América do Sul.
Curiosidade: É uma abelha muito pequena, mansa e discreta. Seu própolis é produzido com resinas de característica pegajosa, armazenadas em bolas nos cantos da colmeia; e usadas para defesa quando a abelha se sente ameaçada. Além de imobilizar os inimigos que queiram entrar na colmeia, o própolis serve para vedá-la contra de luz e vento.

Abelha Mandaçaia

Mandaçaia
Nome científico: Melipona quadrifasciata
Tribo: Meliponini
Onde encontrar: Esta espécie está em todos os estados com ocorrência de mata atlântica.
Curiosidade: Em tupi guarani, seu nome significa Vigia Bonito. Outras subespécies podem ter diferenças nas formas das listras amarelas.

Abelha Guaraipo

Guaraipo
Nome científico: Melipona bicolor
Tribo: Meliponini
Onde encontrar: Está em toda região Sul e Sudeste do Brasil
Curiosidade: A espécie adora locais úmidos próximos aos rios e matas densas. Ela altera todo o conceito sobre as abelhas, já que é comum encontrar até cinco rainhas irmãs trabalhando juntas em uma colmeia. Dentre as abelhas sem ferrão, é uma das mais calmas. Sua cera é muito apreciada por ter textura aveludada.

Jardins Melíferas

Para ajudar as abelhas nativas, é preciso plantar árvores nativas melíferas, frutíferas, hortas sem veneno e flores. Também é necessário manter os rios limpos para que as as abelhas sobrevivam e repovoem a cidade, trazendo ainda mais vida aos bosques.

Diversos conceitos a respeito do desequilíbrio ecológico despertam a preocupação com o meio ambiente e exigem, tanto da sociedade civil quanto acadêmica, estudos, observações e consenso para o melhor convívio geral.

A sociedade humana vive em interdependência com o meio ambiente. No entanto, há estudos que apontam a extinção gradual das abelhas nativas, importantes para a continuidade cíclica de grande parte da flora.

A Constituição Federal em seu Art. 225, define como um direito fundamental, o meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao poder público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações. Com base nisso, propõe-se a ideia de utilidade pública dos Jardins Melíferas.

Método de Propagação
Árvores Astrapeia (Dombeia spp.) Estaca Introduzido
Butia (Butia spp.) Semente Nativo
Jerivá (Syagrus flexuosa) Semente Nativo
Inga (Inga spp.) Semente Nativo
Tucaneiro Semente Nativo
Pau-formiga (Triplaris spp.) Semente Nativo
Olandi (Calophyllum brasiliensis) Semente Nativo
Moringa (Moringa oleifera) Semente e Estaca Introduzido
Arbustos Ocna (Ochna serrulata) Semente Introduzido
Ipoméia (Ipomoea carnea) Estaca Nativo
Dracena (Dracaena fragrans) Estaca Nativo
Cordiline (Cordyline terminalis) Estaca Nativo
Ora-por-nobis (Pereskia spp.) Semente e Estaca Nativo
Ervas de Floração Perene Maria gorda/beldroega (Talinum paniculatum/ T. fruticosum) Semente e Estaca Nativo
Salvia-cidreira (Lippia alba) Estaca Nativo
Alfavaca anizada Semente Nativo
Manjericão Estaca Introduzido
Ervas de Floração Anual Mirra (Tetradenia riparia) Estaca Introduzido
Boldo (Vernonia condensata) Semente e Estaca Nativo

Conheça as Plantas Melíferas usadas nos Jardins de Mel

Calliandra brevipesCalliandra brevipes
Fucksia regiaFucksia regia
Lantana camaraLantana camara
Lantana fucataLantana fucata
Justicia floribundaJusticia floribunda
Stachytarpheta cayenensisStachytarpheta cayenensis
Rhododendron simpsiiRhododendron simpsii
Abelia x grandifloraAbelia x grandiflora
Brunfelsia pilosaBrunfelsia pilosa
Euphorbia pulcherrimaEuphorbia pulcherrima
Jasminum mesnyiJasminum mesnyi
Hydrangea macrophyllaHydrangea macrophylla
Abutilon megapotamicumAbutilon megapotamicum
Buddleja davidiiBuddleja davidii
Salvia splendensSalvia splendens
Salvia guaraniticaSalvia guaranitica
Odontonema tubaeformeOdontonema tubaeforme
Gaylussacia brasiliensisGaylussacia brasiliensis
Schinus engleriSchinus engleri
Ixora coccíneaIxora coccínea

É preciso cuidar enquanto há tempo. Os Jardins de Mel fazem parte do grande tesouro brasileiro que é a biodiversidade. As abelhas são o fundamentais para a perpetuação das espécies vegetais e os humanos têm muito a aprender com a sua organização e cooperação.

Remover enxame de um local seguro nidificado naturalmente, sem a real necessidade é colocar o enxame em risco e crime ambiental. Remoção é Crime lei nº 9605 de 1998.

Fonte – Prefeitura de Curitiba

Criar abelhas sem ferrão na cidade ajuda o meio ambiente

abelha-sem-ferrão (Foto: Divulgação/Embrapa)Criando abelhas em casa, é possível produzir mel para consumo próprio. (Foto: Magda Cruciol)

Pesquisador da dicas de como criar os insetos, que podem produzir mel em casa desde que se cuide do ambiente

Preservar a vida das abelhas nas cidades também é um ato de preocupação com a conservação do meio ambiente. E segundo o biólogo Cristiano Menezes, pesquisador da Embrapa Amazônia Oriental (Belém/PA), é possível criar abelhas sem ferrão em casa, desde que se tome alguns cuidados básicos com o ambiente. O benefício, além de ambiental, é que as pessoas podem produzir o próprio mel para consumo. Além disso, a atividade estimula crianças a entender a importância desses insetos na produção de alimentos.

“O Brasil precisa desenvolver técnicas de criação de abelhas em larga escala para atender a grande demanda tanto de polinização das plantas, como à produção de mel, pólen, própolis e geleia real, por exemplo”, afirma Cristiano, que estuda a biologia e o manejo de abelhas sem ferrão há 13 anos.

Criar abelhas dentro de casa, em um espaço urbano, também pode levar as pessoas a refletirem mais sobre importância de se preservar o meio ambiente. “Um benefício que vejo nessa atividade, é que a população passa a se comportar com consciência ambiental, evitando o acúmulo de lixo e preservando árvores para alimentar esses animais”, explica o pesquisador.

Cristiano ainda destaca que essa atividade, ainda pouco explorada no Brasil, é interessante porque torna possível “produzir o seu próprio mel na cidade, amenizando o impacto do choque entre o meio rural e a zona urbana”. Até mesmo as crianças podem se envolver na criação de abelhas, abrindo espaço para que elas participarem ativamente da natureza.

No entanto, para obter sucesso na atividade, Cristiano Menezes lista alguns cuidados que devem ser tomados.

Como criar abelhas sem ferrão

– Ter noção do ambiente para as abelhas. É necessário que se more próximo à uma vegetação abundante, como perto de praças;

– Iniciar a criação com três ou quatro colmeias e ir aumentando à medida que as abelhas vão se desenvolvendo e o criador ganhando experiência;

– Manter em casa ou próximo dela, plantas ornamentais e fruteiras que são fundamentais na alimentação desses pequenos animais, como jabuticabeira, pitanga, goiabeira e até hortaliças, como manjericão. É preciso ter muito cuidado com o sol. As colmeias não podem ficar expostas ao sol das 10 horas da manhã às 3 da tarde;

– Escolher as espécies que se adaptam ao meio urbano é importante. As que mais se adaptam são a Jatair, Marmelada e Mandaguari;

– Jamais criar abelhas nativas de outras regiões, como por exemplo, uma espécie do Nordeste, como a Tiúba, na região Sul.

Os diferentes aspectos do mundo das abelhas serão discutido durante o Simpósio sobre Perda de Abelhas, em Teresina, entre os dias 16 e 18 de outubro deste ano. O evento, realizado pela Embrapa Meio-Norte, vai reunir um time de cerca de 200 experientes cientistas brasileiros e internacionais.

Fonte – Globo Rural de 29 de setembro de 2017

Estudo detecta pesticidas em 75% das amostras de mel do mundo inteiro

Os pesticidas entram no sistema nervoso das abelhas quando elas sugam o néctarOs pesticidas entram no sistema nervoso das abelhas quando elas sugam o néctar TRACEY DIXON

Concentração é muito inferior ao limite para o consumo humano, mas afeta as abelhas

Uma análise de amostras de mel provenientes do mundo inteiro encontrou resíduos de pesticidas na maioria delas. A concentração é muito inferior aos limites impostos pela União Europeia para o consumo humano. No entanto, os níveis detectados poderiam afetar as abelhas.

Com a colaboração de dezenas de voluntários, um grupo de cientistas reuniu 198 amostras de mel procedentes dos cinco continentes. A equipe analisou-as em busca de cinco dos principais neonicotinoides. Esses pesticidassistêmicos, derivados da nicotina, são normalmente aplicados em sementes e se espalham por toda a planta à medida que ela cresce, incluindo flores e frutos. Agem sobre o sistema nervoso e, em princípio, só afetam os invertebrados que se alimentam das plantas tratadas, sendo inócuos para humanos e outros vertebrados.

Os resultados da pesquisa, publicada na revista Science, revelam que 75% das amostras de mel analisadas continham traços de pelo menos um neonicotinoide. Quase 50% delas apresentaram resíduos de duas ou mais dessas substâncias. Além disso, 10% continuam um coquetel de quatro ou cinco pesticidas. Geograficamente, a porcentagem de amostras de mel com resíduos é maior na América do Norte (86%), Ásia (80%) e Europa (79%). As de menores níveis de agrotóxicos procedem da América do Sul (57%) e Oceania (64%).

“Pensávamos que encontraríamos muitas amostras contaminadas, mas não 75%. Boa parte delas vem de zonas remotas ou de áreas em sua maioria naturais, e por isso os resultados são ainda mais impactantes”, afirma o biólogo Edward Mitchell, da Universidade de Neuchâtel (Suíça), principal autor do estudo. “Além disso, o fato de que 45% delas apresentem múltiplos resquícios é preocupante, já que não conhecemos bem o impacto desses coquetéis. E só analisamos cinco dos cerca de 500 que existem. Por isso, podemos imaginar que é apenas a ponta do iceberg.”

“Quase 50% das amostras continham resíduos de dois ou mais neonicotinoides”

Apesar da alta porcentagem de amostras que deram positivo em pelo menos um dos neonicotinoides, “as concentrações estão, em todos os casos, abaixo dos limites aceitos para consumo humano, tanto pela norma europeia como pela norte-americana”, esclarecem os autores. Concretamente, a média de quantidade de pesticida nas amostras positivas é de 1,8 nanogramas (ng) por grama de mel. O limite admissível estabelecido pela União Europeia é de 50 ng para três dos neonicotinoides examinados e de 10 ng para os outros dois.

Tal concentração, contudo, pode estar afetando as abelhas. Em princípio, esses insetos, pertencentes ao grupo dos himenópteros, não são o alvo dos neonicotinoides, que afetam sobretudo os insetos chupadores ou comedores de folhas. No entanto, uma série de estudos vinculando esses praguicidas com a redução das colônias de abelhas levou à sua proibição total ou parcial. A França, por exemplo, vetou-os. Nos demais países europeus, somente alguns são permitidos e para determinados cultivos, como soja, milho e canola. A nova pesquisa parece confirmar que as abelhas também são expostas a esses inseticidas, ingerindo-os junto com o mel.

“É importante destacar que os níveis encontrados correspondem a uma média e se referem ao mel produzido ao longo de toda a temporada. São suficientes para ter um efeito negativo em qualquer inseto polinizador”, diz o neurobiólogo Christopher Connolly, da Universidade de Dundee (Reino Unido). “Esses graus de contaminação podem provocar grandes problemas nas funções cerebrais da abelha e em sua capacidade para forragear e polinizar nossos cultivos e flores.”

O neonicotinoide mais presente é o Imidacloprid, encontrado em 51% das 198 amostras. Fabricado pela Bayer, é vendido com diversos nomes. A empresa afirma que os níveis de resíduos estão “muito abaixo dos limites de segurança humanos”. Também recorda que as avaliações de risco ambiental realizadas por autoridades como a Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidosmostram que os níveis detectados no estudo “estão clara e consistentemente abaixo dos que poderiam representar um risco para a saúde das colônias de abelhas produtoras de mel.”

No final do ano, as autoridades europeias terão que decidir se prorrogam a proibição parcial do uso de certos neonicotinoides, se a suspendem ou inclusive se a ampliam. O problema é que, como diz Connolly, “os neonicotinoides são inseticidas muito efetivos e com baixa toxicidade para os humanos”. O fato de que foram encontrados resquícios da substância em tantos frascos de mel pode afetar a decisão a ser tomada.

Fonte – Miguel Ángel Criado, El País de 09 de outubro de 2017

Pesticidas achados no mel podem afetar a agricultura

Mel

Mel: prejudicar as abelhas afeta não só a produção de mel, mas todo o ecossistema (Lithfin/Creative Commons)

Prejudicada por agroquímicos, a população de abelhas, responsável pela polinização de plantações, está em declínio

Uma pesquisa realizada pela Universidade de Neuchâtel, na Suíca, identificou pesticidas em 75% de 198 amostras de mel de todo o mundo.

O estudo, que foi publicado na revista Science, mostrou que a concentração desses resíduos está dentro dos limites regulados pela União Europeia e pelos Estados Unidos para consumo humano. Mas a dosagem dos produtos químicos pode ser prejudicial para as abelhas.

Prejudicar as abelhas enquanto espécie afeta não só a produção de mel, mas todo o ecossistema, já que elas são as responsáveis por desenvolver o trabalho de polinização.

De acordo com a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO), as abelhas fazem 73% da polinização das culturas e plantas.

Houve um declínio na população das abelhas na última década. Estudos anteriores feitos no Canadá e na Europa comprovaram que os nicotinoides estão interligados com essa baixa. O Instituto Brasileiro de Meio Ambiente chegou a restringir o uso de inseticidas em plantações como algodão, soja e trigo em solo brasileiro, mas ainda não registrou aumento na população das polinizadoras.

O alerta veio depois que uma equipe de pesquisadores da universidade suíça e voluntários buscou os principais neonicotinoides em cinco continentes diferentes. Esses pesticidas sistêmicos derivam da nicotina e, geralmente, são aplicados em sementes, espalhando-se por toda a planta.

Entre suas variações, encontraram-se acetamiprida, clotianidina, imidacloprida, tiaclopride e tiametoxam. Esses são só cinco dos mais de 500 tipos que existem, mas ainda não foram devidamente estudados.

O agrotóxico afetaria principalmente o sistema nervoso dos invertebrados que se alimentarem dessas plantas, sem atingir os humanos ou outros vertebrados diretamente.

Edward Mitchel, biólogo responsável pelo estudo, ainda constatou que das 75% amostras contaminadas, 30% continham um único neonicotinoide, 45% continham dois ou mais e 10% continham quatro ou cinco. Boa parte dessa contaminação se encontra em zonas remotas ou áreas mais naturais, o que torna o fato ainda mais alarmante.

A região com maior proporção de resíduos no mel é a América do Norte (86%), seguido por Ásia (80%) e Europa (79%). Já as regiões com menores de resíduos são América do Sul (57%) e Oceania (64%).

Aqui no Brasil, foram encontrados registros de pesticidas em quatro localidades diferentes, com ênfase na região sul. Os pesticidas citados no estudo da Science são permitidos por aqui, apesar de serem comprovadamente danosos a longo prazo para a saúde humana.

Fonte – Gabriela Monteiro, Exame de 20 de outubro de 2017

Mudanças climáticas ameaçam sobrevivência das abelhas

Abelha(8213erika/Thinkstock)

Grande parte das culturas alimentares do mundo dependem de abelhas e outros polinizadores

O declínio dramático das populações de abelhas nos últimos anos tem levado os cientistas a uma corrida global para identificar os principais responsáveis por essa perda.

Três quartos das culturas alimentares do mundo dependem de abelhas e outros polinizadores, o que significa que o sumiço delas põe em xeque a segurança alimentar além de  afetar o equilíbrio dos ecossistemas.

O dano infligido pelas mudanças climáticas aos polinizadores é uma preocupação particular para os cientistas. Uma nova pesquisa, desenvolvida pela Universidade Estadual da Flórida e colaboradores, ajuda a explicar o vínculo entre o clima global em mudança e declínio das populações de abelhas em todo o mundo.

No estudo, publicado na revista Ecology Letters, os pesquisadores descobriram que, assim como o sumiço das abelhas afeta a produção de alimentos, as mudanças climáticas afetam a disponibilidade de flores e alimentos para as próprias abelhas.

A equipe de pesquisa examinou três espécies de abelhas das montanhas rochosas do Colorado, nos EUA, e descobriram que à medida que o clima global muda, os ciclos sazonais delicadamente equilibrados também começam a mudar. Nas montanhas rochosas, isso significa a antecipação do degelo e o prolongamento da estação das flores.

De saída, essas mudanças podem parecer uma benção para as abelhas, afinal uma temporada de floração mais longa proveria mais alimento para as abelhas. No entanto, os pesquisadores descobriram que à medida que a neve derrete mais cedo e a temporada de floração se estende, o número de dias com pouca disponibilidade de flores aumenta, resultando em uma escassez geral de alimentos, que está relacionada ao declínio populacional das abelhas.

“Quando os pesquisadores pensam sobre os efeitos das flores nas abelhas, eles geralmente consideram a abundância como o fator mais importante, mas descobrimos que a distribuição das flores ao longo de uma temporada foi o mais importante para as abelhas”, disse Jane Ogilvie, principal autora do estudo em nota da Universidade.

“Quanto mais dias com boa disponibilidade de flores, mais abelhas podem forragear e as colônias podem crescer. Agora temos temporadas de florescências mais longas por causa da precipitação do derretimento de neve, mas a abundância floral não mudou em geral. Isso significa que temos mais dias em uma estação com pouca disponibilidade de flores”.

Segundo a pesquisadora, a descoberta contribui para a crescente evidência das graves consequências ecológicas das mudanças climáticas e lança novos desafios para a conservação. Os resultados sugerem, ainda, que os pesquisadores do tema devem considerar como as fontes alimentares de uma espécie podem estar respondendo às mudanças climáticas.

Além do fator climático, cientistas mundo a fora estudam outros fatores que podem estar interferindo nas colmeias e no comportamento das abelhas.

Os fatores mais pesquisados incluem o ácaro Varroa destructor, o fungo Nosema ceranae, alguns vírus, pesticidas, em especial os do grupo de neonicotinoides, além do desmatamento e fragmentação de matas e florestas.

Fonte – Vanessa Barbosa, Exame de 03 de outubro de 2017

Livro traça a rica história da abelha jandaíra

Livro traça a rica história da abelha jandaíra

A Universidade Federal Rural do Semi-Árido (UFERSA) está lançando o livro “A abelha jandaíra no passado no presente e no futuro”. Escrito por 47 autores de 20 instituições, a publicação conta com o apoio da Associação Brasileira de Estudos sobre Abelhas (A.B.E.L.H.A.) e de outras instituições públicas e privadas.

Em 22 capítulos, os autores apresentam um apanhado dos conhecimentos sobre a abelha sem ferrão jandaíra: as adaptações que permitem sua sobrevivência na Caatinga, as ameaças que enfrenta, a história da sua convivência com o homem, incluindo os produtos das colônias e sua criação. Os textos foram escritos por meliponicultores e pesquisadores, contando suas experiências e a história desta abelha tão especial no cotidiano e na tradição do sertanejo.

Por outro lado, ressalta a pesquisadora Vera Lucia Imperatriz Fonseca, que também edita o livro, as ameaças para a sobrevivência da jandaíra que não podemos controlar, como as consequentes das mudanças climáticas em curso e que vão impactar muito a vida no Nordeste brasileiro no curto prazo, exigem ações de conservação da natureza imediatas.” Esperamos que este livro possa servir como estímulo para aumentar cada vez mais a interação entre sociedade e ciência, para alcançarmos, juntos, o objetivo final de conservar a jandaíra e seu ambiente nativo”, ressalta.

Para Ana Assad, diretora-executiva da A.B.E.L.H.A., o apoio institucional à publicação é uma ação de suporte à divulgação do conhecimento científico em português sobre essa abelha nativa do Brasil, tão importante para o semi-árido.

“Apoiar uma obra tão rica em conteúdo científico e tradicional sobre a jandaíra nos orgulha muito; trata-se de uma ferramenta essencial para ampliar a conscientização e a educação da população sobre o uso sustentável e a conservação das abelhas”.

O livro tem o prefácio do pesquisador Paulo Nogueira Neto, professor emérito sênior da Universidade de São Paulo, e um dos pioneiros na defesa do meio ambiente. “Este livro dá a devida importância à questão dos climas e suas consequências para as abelhas e para o homem, assunto que merece toda atenção. Pela urgência do tema, medidas de mitigação e conservação foram aqui apresentadas. O Brasil está em posição chave para colaborar cada vez mais na proteção dos atuais climas, ainda muito ameaçados pela excessiva produção de carbono”.

E-book A abelha jandaíra no passado, no presente e no futuro
Editora
Edufersa
Editores
Vera Lucia Imperatriz-Fonseca
Dirk Koedam
Michael Hrncir
Autores
Vários

Fonte – A.B.E.L.H.A. de 23 de outubro de 2017

Em Matão (SP), 89% dos apicultores relatam perda de colmeias por causa de agrotóxicos

Veneno despejado nas lavouras de laranja e cana afeta diretamente as abelhas, o solo e a água; pesquisa da UFSCar detalha impactos das monoculturas na vida dos produtores

Uma pesquisa com apicultores da região de Matão feita pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) mostra que 88,5% dos produtores ouvidos descrevem perdas “significativas” de colmeias – ou de apiários inteiros – por causa da aplicação de agrotóxicos na região. As abelhas ficam desorientadas ou morrem. Os apicultores também relatam que a pulverização do veneno é realizada muitas vezes “sem a devida fiscalização e controle das condições climáticas”.

O estudo foi publicado no dia 27 de setembro: “Percepção ambiental de apicultores: Desafios do atual cenário apícola no interior de São Paulo“. Foi feito por Amanda Cerqueira e Rodolfo Antônio de Figueiredo, do Programa de Pós-Graduação em Ciências Ambientais da UFSCar. O principal problema enfrentado para a manutenção da apicultura, concluíram os pesquisadores, foi o “atual sistema de produção agrícola, baseado em extensas áreas de monoculturas e uso intensivo de agrotóxicos”.

Somente três apicultores (11,5% do total de 26 entrevistados) não mencionaram perdas de colmeias ou apiários inteiros pelo menos uma vez durante as floradas, “após a aplicação dos agrotóxicos nas monoculturas de laranja e cana-de-açúcar”. “Os efeitos notados após a pulverização são grande quantidade de abelhas mortas próximas das colmeias e/ou abelhas desorientadas, colmeias que deixam de produzir ou não conseguem se fortalecer para produzir, abandono das crias, presença de muitos insetos mortos próximo aos apiários e cheiro de veneno”.

A expansão da cana

Os apicultores também se queixaram da expansão da cana-de-açúcar na região, “com consequente perda de habitat” para as abelhas. São Paulo produz 55% da cana no país. Somente em 2016 a monocultura cresceu 6,2% no estado, chegando a uma área de 4,78 milhões de hectares, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab).

Os produtores de mel também mencionaram o impacto dos venenos na saúde humana. E criticaram a falta de empenho do governo no combate ao uso de agrotóxicos “potencialmente tóxicos aos polinizadores, ao solo e à água”. “A crítica ao governo se estende a falta de incentivo ao desenvolvimento da apicultura no Brasil e o não reconhecimento da profissão”, dizem os pesquisadores. “A maior parte dos entrevistados (80,7%), considera que não recebe apoio de qualquer tipo de organização (governamental ou não) no trabalho com as abelhas”.

Fonte – Alceu Luís Castilho, De olho nos ruralistas de 09 de outubro de 2017

Mel de abelhas nativas produzido em São Paulo ganha regulamentação

Mel de abelha nativa, que é mais líquido do que o mel de abelha ApisMel de abelha nativa, que é mais líquido do que o mel de abelha Apis Foto: FERNANDO SCIARRA|ESTADÃO

Regulamentação define identidade, padrão de qualidade e requisitos do processo de beneficiamento do mel elaborado pelas abelhas Meliponinae

O mel de abelhas nativas produzido em São Paulo deixou de ser fora da lei. Embora já fosse celebrado por pessoas ligadas à conservação do meio-ambiente e da gastronomia – por suas características marcantes, incluindo as do terroir onde é produzido – , não havia regulamentação para o produto até hoje. Foi publicada nesta sexta-feira (6) no Diário Oficial do Estado de São Paulo uma resolução que aprova o regulamento técnico de identidade, o padrão de qualidade e os requisitos do processo de beneficiamento do mel elaborado pelas abelhas Meliponinae, conhecidas como abelha sem ferrão.

A resolução, assinada pelo secretário de Agricultura e Abastecimento, Arnaldo Jardim, determina algumas classificações para o mel: o floral, obtido dos néctares das flores, podendo ser unifloral, de flores de uma mesma família, ou multifloral, de diferentes origens; o extrafloral, obtido a partir de nectários extraflorais; o melato, obtido a partir da secreção de inseto sugadores de seiva ou de outras partes vivas das plantas.

O mel também pode ser classificado por método de extração (por sucção, em que é retirado dos potes por equipamentos de diferentes pressões; ou por escoamento, em que escorre dos potes abertos pela inversão da alça superior), por apresentação (líquido, cristalizado, cremoso – mistura do líquido com o cristalizado – e em pote), e por tipo de processamento. Neste caso, pode ser in natura, desidratado, pasteurizado ou maturado.

O documento publicado no Diário Oficial tem como base científica artigos da Embrapa Meio Ambiente e do Instituto de Tecnologia de Alimentos (Ital) da secretaria. Ricardo Camargo, pesquisador do núcleo de agroecologia da Embrapa e um dos autores do texto-base da resolução, afirmou que a regulamentação é uma “luta antiga e um processo árduo”. Ele conta que trabalha no texto base há dois anos. “Fizemos várias reuniões pelo Brasil inteiro. O diferencial dessa regulamentação, em relação as que já existem como da Amazônia e da Bahia, é que ela é muito completa em termos técnicos. Coloca todas as especificações dos processos de produção.”

Para Roberto Smeraldi, ambientalista e colunista do Paladar, “o desafio agora é outros estados usarem o mesmo modelo e a esfera federal adotar os mesmos parâmetros quanto ao comércio interestadual, por se tratar de um regulamento embasado cientificamente e tecnicamente”.

O especialista em méis Jerônimo Villas-Bôas vê a regulamentação como um passo importante baseado em referências relevantes. “O conceito é bom porque engloba todas as técnicas de beneficiamento do mel e não impõe uma única forma, como o pasteurizado ou o refrigerado. E, além disso, inclui um dos nossos maiores pelitos, que é a do mel maturado. Então eu a vejo como uma regulamentação muito democrática”, afirma.

Villas-Bôas afirma ainda que, por mais que São Paulo não seja o maior produtor de mel no País – Estados do Norte, do Nordeste e do Sul são mais relevantes – é “a locomotiva” do Brasil. “São Paulo pode dar o exemplo ao governo federal e a governos de outros Estados”, diz.

Para Eugenio Basile, da Mbee, a regulamentação é um movimento enorme, mas, ainda assim, insuficiente. “Não basta ter a resolução, precisa ter a implantação. Se não tiver fiscalização e braço para atender todo mundo não vai adiantar muita coisa porque o sistema é muito pequeno. O Paraná tem legislação muito parecida com a de São Paulo há um ano e tem até hoje um produtor certificado. Tenho medo que isso aconteça em São Paulo”, diz.

Para ele, uma saída seria um convênio entre a secretaria do Estado e prefeituras para que elas ajudem a implementar a regulamentação e realizem a fiscalização. “As prefeituras estão próximas aos pequenos produtores. Elas são interessadas em ajudar a população. Eu vejo muito em Atibaia e imagino que em outros também seja assim.”

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Fonte – Isabelle Moreira Lima, Estadão de 06 de outubro de 2017