Criar abelhas sem ferrão na cidade ajuda o meio ambiente

abelha-sem-ferrão (Foto: Divulgação/Embrapa)Criando abelhas em casa, é possível produzir mel para consumo próprio. (Foto: Magda Cruciol)

Pesquisador da dicas de como criar os insetos, que podem produzir mel em casa desde que se cuide do ambiente

Preservar a vida das abelhas nas cidades também é um ato de preocupação com a conservação do meio ambiente. E segundo o biólogo Cristiano Menezes, pesquisador da Embrapa Amazônia Oriental (Belém/PA), é possível criar abelhas sem ferrão em casa, desde que se tome alguns cuidados básicos com o ambiente. O benefício, além de ambiental, é que as pessoas podem produzir o próprio mel para consumo. Além disso, a atividade estimula crianças a entender a importância desses insetos na produção de alimentos.

“O Brasil precisa desenvolver técnicas de criação de abelhas em larga escala para atender a grande demanda tanto de polinização das plantas, como à produção de mel, pólen, própolis e geleia real, por exemplo”, afirma Cristiano, que estuda a biologia e o manejo de abelhas sem ferrão há 13 anos.

Criar abelhas dentro de casa, em um espaço urbano, também pode levar as pessoas a refletirem mais sobre importância de se preservar o meio ambiente. “Um benefício que vejo nessa atividade, é que a população passa a se comportar com consciência ambiental, evitando o acúmulo de lixo e preservando árvores para alimentar esses animais”, explica o pesquisador.

Cristiano ainda destaca que essa atividade, ainda pouco explorada no Brasil, é interessante porque torna possível “produzir o seu próprio mel na cidade, amenizando o impacto do choque entre o meio rural e a zona urbana”. Até mesmo as crianças podem se envolver na criação de abelhas, abrindo espaço para que elas participarem ativamente da natureza.

No entanto, para obter sucesso na atividade, Cristiano Menezes lista alguns cuidados que devem ser tomados.

Como criar abelhas sem ferrão

– Ter noção do ambiente para as abelhas. É necessário que se more próximo à uma vegetação abundante, como perto de praças;

– Iniciar a criação com três ou quatro colmeias e ir aumentando à medida que as abelhas vão se desenvolvendo e o criador ganhando experiência;

– Manter em casa ou próximo dela, plantas ornamentais e fruteiras que são fundamentais na alimentação desses pequenos animais, como jabuticabeira, pitanga, goiabeira e até hortaliças, como manjericão. É preciso ter muito cuidado com o sol. As colmeias não podem ficar expostas ao sol das 10 horas da manhã às 3 da tarde;

– Escolher as espécies que se adaptam ao meio urbano é importante. As que mais se adaptam são a Jatair, Marmelada e Mandaguari;

– Jamais criar abelhas nativas de outras regiões, como por exemplo, uma espécie do Nordeste, como a Tiúba, na região Sul.

Os diferentes aspectos do mundo das abelhas serão discutido durante o Simpósio sobre Perda de Abelhas, em Teresina, entre os dias 16 e 18 de outubro deste ano. O evento, realizado pela Embrapa Meio-Norte, vai reunir um time de cerca de 200 experientes cientistas brasileiros e internacionais.

Fonte – Globo Rural de 29 de setembro de 2017

Estudo detecta pesticidas em 75% das amostras de mel do mundo inteiro

Os pesticidas entram no sistema nervoso das abelhas quando elas sugam o néctarOs pesticidas entram no sistema nervoso das abelhas quando elas sugam o néctar TRACEY DIXON

Concentração é muito inferior ao limite para o consumo humano, mas afeta as abelhas

Uma análise de amostras de mel provenientes do mundo inteiro encontrou resíduos de pesticidas na maioria delas. A concentração é muito inferior aos limites impostos pela União Europeia para o consumo humano. No entanto, os níveis detectados poderiam afetar as abelhas.

Com a colaboração de dezenas de voluntários, um grupo de cientistas reuniu 198 amostras de mel procedentes dos cinco continentes. A equipe analisou-as em busca de cinco dos principais neonicotinoides. Esses pesticidassistêmicos, derivados da nicotina, são normalmente aplicados em sementes e se espalham por toda a planta à medida que ela cresce, incluindo flores e frutos. Agem sobre o sistema nervoso e, em princípio, só afetam os invertebrados que se alimentam das plantas tratadas, sendo inócuos para humanos e outros vertebrados.

Os resultados da pesquisa, publicada na revista Science, revelam que 75% das amostras de mel analisadas continham traços de pelo menos um neonicotinoide. Quase 50% delas apresentaram resíduos de duas ou mais dessas substâncias. Além disso, 10% continuam um coquetel de quatro ou cinco pesticidas. Geograficamente, a porcentagem de amostras de mel com resíduos é maior na América do Norte (86%), Ásia (80%) e Europa (79%). As de menores níveis de agrotóxicos procedem da América do Sul (57%) e Oceania (64%).

“Pensávamos que encontraríamos muitas amostras contaminadas, mas não 75%. Boa parte delas vem de zonas remotas ou de áreas em sua maioria naturais, e por isso os resultados são ainda mais impactantes”, afirma o biólogo Edward Mitchell, da Universidade de Neuchâtel (Suíça), principal autor do estudo. “Além disso, o fato de que 45% delas apresentem múltiplos resquícios é preocupante, já que não conhecemos bem o impacto desses coquetéis. E só analisamos cinco dos cerca de 500 que existem. Por isso, podemos imaginar que é apenas a ponta do iceberg.”

“Quase 50% das amostras continham resíduos de dois ou mais neonicotinoides”

Apesar da alta porcentagem de amostras que deram positivo em pelo menos um dos neonicotinoides, “as concentrações estão, em todos os casos, abaixo dos limites aceitos para consumo humano, tanto pela norma europeia como pela norte-americana”, esclarecem os autores. Concretamente, a média de quantidade de pesticida nas amostras positivas é de 1,8 nanogramas (ng) por grama de mel. O limite admissível estabelecido pela União Europeia é de 50 ng para três dos neonicotinoides examinados e de 10 ng para os outros dois.

Tal concentração, contudo, pode estar afetando as abelhas. Em princípio, esses insetos, pertencentes ao grupo dos himenópteros, não são o alvo dos neonicotinoides, que afetam sobretudo os insetos chupadores ou comedores de folhas. No entanto, uma série de estudos vinculando esses praguicidas com a redução das colônias de abelhas levou à sua proibição total ou parcial. A França, por exemplo, vetou-os. Nos demais países europeus, somente alguns são permitidos e para determinados cultivos, como soja, milho e canola. A nova pesquisa parece confirmar que as abelhas também são expostas a esses inseticidas, ingerindo-os junto com o mel.

“É importante destacar que os níveis encontrados correspondem a uma média e se referem ao mel produzido ao longo de toda a temporada. São suficientes para ter um efeito negativo em qualquer inseto polinizador”, diz o neurobiólogo Christopher Connolly, da Universidade de Dundee (Reino Unido). “Esses graus de contaminação podem provocar grandes problemas nas funções cerebrais da abelha e em sua capacidade para forragear e polinizar nossos cultivos e flores.”

O neonicotinoide mais presente é o Imidacloprid, encontrado em 51% das 198 amostras. Fabricado pela Bayer, é vendido com diversos nomes. A empresa afirma que os níveis de resíduos estão “muito abaixo dos limites de segurança humanos”. Também recorda que as avaliações de risco ambiental realizadas por autoridades como a Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidosmostram que os níveis detectados no estudo “estão clara e consistentemente abaixo dos que poderiam representar um risco para a saúde das colônias de abelhas produtoras de mel.”

No final do ano, as autoridades europeias terão que decidir se prorrogam a proibição parcial do uso de certos neonicotinoides, se a suspendem ou inclusive se a ampliam. O problema é que, como diz Connolly, “os neonicotinoides são inseticidas muito efetivos e com baixa toxicidade para os humanos”. O fato de que foram encontrados resquícios da substância em tantos frascos de mel pode afetar a decisão a ser tomada.

Fonte – Miguel Ángel Criado, El País de 09 de outubro de 2017

Pesticidas achados no mel podem afetar a agricultura

Mel

Mel: prejudicar as abelhas afeta não só a produção de mel, mas todo o ecossistema (Lithfin/Creative Commons)

Prejudicada por agroquímicos, a população de abelhas, responsável pela polinização de plantações, está em declínio

Uma pesquisa realizada pela Universidade de Neuchâtel, na Suíca, identificou pesticidas em 75% de 198 amostras de mel de todo o mundo.

O estudo, que foi publicado na revista Science, mostrou que a concentração desses resíduos está dentro dos limites regulados pela União Europeia e pelos Estados Unidos para consumo humano. Mas a dosagem dos produtos químicos pode ser prejudicial para as abelhas.

Prejudicar as abelhas enquanto espécie afeta não só a produção de mel, mas todo o ecossistema, já que elas são as responsáveis por desenvolver o trabalho de polinização.

De acordo com a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO), as abelhas fazem 73% da polinização das culturas e plantas.

Houve um declínio na população das abelhas na última década. Estudos anteriores feitos no Canadá e na Europa comprovaram que os nicotinoides estão interligados com essa baixa. O Instituto Brasileiro de Meio Ambiente chegou a restringir o uso de inseticidas em plantações como algodão, soja e trigo em solo brasileiro, mas ainda não registrou aumento na população das polinizadoras.

O alerta veio depois que uma equipe de pesquisadores da universidade suíça e voluntários buscou os principais neonicotinoides em cinco continentes diferentes. Esses pesticidas sistêmicos derivam da nicotina e, geralmente, são aplicados em sementes, espalhando-se por toda a planta.

Entre suas variações, encontraram-se acetamiprida, clotianidina, imidacloprida, tiaclopride e tiametoxam. Esses são só cinco dos mais de 500 tipos que existem, mas ainda não foram devidamente estudados.

O agrotóxico afetaria principalmente o sistema nervoso dos invertebrados que se alimentarem dessas plantas, sem atingir os humanos ou outros vertebrados diretamente.

Edward Mitchel, biólogo responsável pelo estudo, ainda constatou que das 75% amostras contaminadas, 30% continham um único neonicotinoide, 45% continham dois ou mais e 10% continham quatro ou cinco. Boa parte dessa contaminação se encontra em zonas remotas ou áreas mais naturais, o que torna o fato ainda mais alarmante.

A região com maior proporção de resíduos no mel é a América do Norte (86%), seguido por Ásia (80%) e Europa (79%). Já as regiões com menores de resíduos são América do Sul (57%) e Oceania (64%).

Aqui no Brasil, foram encontrados registros de pesticidas em quatro localidades diferentes, com ênfase na região sul. Os pesticidas citados no estudo da Science são permitidos por aqui, apesar de serem comprovadamente danosos a longo prazo para a saúde humana.

Fonte – Gabriela Monteiro, Exame de 20 de outubro de 2017

Mudanças climáticas ameaçam sobrevivência das abelhas

Abelha(8213erika/Thinkstock)

Grande parte das culturas alimentares do mundo dependem de abelhas e outros polinizadores

O declínio dramático das populações de abelhas nos últimos anos tem levado os cientistas a uma corrida global para identificar os principais responsáveis por essa perda.

Três quartos das culturas alimentares do mundo dependem de abelhas e outros polinizadores, o que significa que o sumiço delas põe em xeque a segurança alimentar além de  afetar o equilíbrio dos ecossistemas.

O dano infligido pelas mudanças climáticas aos polinizadores é uma preocupação particular para os cientistas. Uma nova pesquisa, desenvolvida pela Universidade Estadual da Flórida e colaboradores, ajuda a explicar o vínculo entre o clima global em mudança e declínio das populações de abelhas em todo o mundo.

No estudo, publicado na revista Ecology Letters, os pesquisadores descobriram que, assim como o sumiço das abelhas afeta a produção de alimentos, as mudanças climáticas afetam a disponibilidade de flores e alimentos para as próprias abelhas.

A equipe de pesquisa examinou três espécies de abelhas das montanhas rochosas do Colorado, nos EUA, e descobriram que à medida que o clima global muda, os ciclos sazonais delicadamente equilibrados também começam a mudar. Nas montanhas rochosas, isso significa a antecipação do degelo e o prolongamento da estação das flores.

De saída, essas mudanças podem parecer uma benção para as abelhas, afinal uma temporada de floração mais longa proveria mais alimento para as abelhas. No entanto, os pesquisadores descobriram que à medida que a neve derrete mais cedo e a temporada de floração se estende, o número de dias com pouca disponibilidade de flores aumenta, resultando em uma escassez geral de alimentos, que está relacionada ao declínio populacional das abelhas.

“Quando os pesquisadores pensam sobre os efeitos das flores nas abelhas, eles geralmente consideram a abundância como o fator mais importante, mas descobrimos que a distribuição das flores ao longo de uma temporada foi o mais importante para as abelhas”, disse Jane Ogilvie, principal autora do estudo em nota da Universidade.

“Quanto mais dias com boa disponibilidade de flores, mais abelhas podem forragear e as colônias podem crescer. Agora temos temporadas de florescências mais longas por causa da precipitação do derretimento de neve, mas a abundância floral não mudou em geral. Isso significa que temos mais dias em uma estação com pouca disponibilidade de flores”.

Segundo a pesquisadora, a descoberta contribui para a crescente evidência das graves consequências ecológicas das mudanças climáticas e lança novos desafios para a conservação. Os resultados sugerem, ainda, que os pesquisadores do tema devem considerar como as fontes alimentares de uma espécie podem estar respondendo às mudanças climáticas.

Além do fator climático, cientistas mundo a fora estudam outros fatores que podem estar interferindo nas colmeias e no comportamento das abelhas.

Os fatores mais pesquisados incluem o ácaro Varroa destructor, o fungo Nosema ceranae, alguns vírus, pesticidas, em especial os do grupo de neonicotinoides, além do desmatamento e fragmentação de matas e florestas.

Fonte – Vanessa Barbosa, Exame de 03 de outubro de 2017

Livro traça a rica história da abelha jandaíra

Livro traça a rica história da abelha jandaíra

A Universidade Federal Rural do Semi-Árido (UFERSA) está lançando o livro “A abelha jandaíra no passado no presente e no futuro”. Escrito por 47 autores de 20 instituições, a publicação conta com o apoio da Associação Brasileira de Estudos sobre Abelhas (A.B.E.L.H.A.) e de outras instituições públicas e privadas.

Em 22 capítulos, os autores apresentam um apanhado dos conhecimentos sobre a abelha sem ferrão jandaíra: as adaptações que permitem sua sobrevivência na Caatinga, as ameaças que enfrenta, a história da sua convivência com o homem, incluindo os produtos das colônias e sua criação. Os textos foram escritos por meliponicultores e pesquisadores, contando suas experiências e a história desta abelha tão especial no cotidiano e na tradição do sertanejo.

Por outro lado, ressalta a pesquisadora Vera Lucia Imperatriz Fonseca, que também edita o livro, as ameaças para a sobrevivência da jandaíra que não podemos controlar, como as consequentes das mudanças climáticas em curso e que vão impactar muito a vida no Nordeste brasileiro no curto prazo, exigem ações de conservação da natureza imediatas.” Esperamos que este livro possa servir como estímulo para aumentar cada vez mais a interação entre sociedade e ciência, para alcançarmos, juntos, o objetivo final de conservar a jandaíra e seu ambiente nativo”, ressalta.

Para Ana Assad, diretora-executiva da A.B.E.L.H.A., o apoio institucional à publicação é uma ação de suporte à divulgação do conhecimento científico em português sobre essa abelha nativa do Brasil, tão importante para o semi-árido.

“Apoiar uma obra tão rica em conteúdo científico e tradicional sobre a jandaíra nos orgulha muito; trata-se de uma ferramenta essencial para ampliar a conscientização e a educação da população sobre o uso sustentável e a conservação das abelhas”.

O livro tem o prefácio do pesquisador Paulo Nogueira Neto, professor emérito sênior da Universidade de São Paulo, e um dos pioneiros na defesa do meio ambiente. “Este livro dá a devida importância à questão dos climas e suas consequências para as abelhas e para o homem, assunto que merece toda atenção. Pela urgência do tema, medidas de mitigação e conservação foram aqui apresentadas. O Brasil está em posição chave para colaborar cada vez mais na proteção dos atuais climas, ainda muito ameaçados pela excessiva produção de carbono”.

E-book A abelha jandaíra no passado, no presente e no futuro
Editora
Edufersa
Editores
Vera Lucia Imperatriz-Fonseca
Dirk Koedam
Michael Hrncir
Autores
Vários

Fonte – A.B.E.L.H.A. de 23 de outubro de 2017

Em Matão (SP), 89% dos apicultores relatam perda de colmeias por causa de agrotóxicos

Veneno despejado nas lavouras de laranja e cana afeta diretamente as abelhas, o solo e a água; pesquisa da UFSCar detalha impactos das monoculturas na vida dos produtores

Uma pesquisa com apicultores da região de Matão feita pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) mostra que 88,5% dos produtores ouvidos descrevem perdas “significativas” de colmeias – ou de apiários inteiros – por causa da aplicação de agrotóxicos na região. As abelhas ficam desorientadas ou morrem. Os apicultores também relatam que a pulverização do veneno é realizada muitas vezes “sem a devida fiscalização e controle das condições climáticas”.

O estudo foi publicado no dia 27 de setembro: “Percepção ambiental de apicultores: Desafios do atual cenário apícola no interior de São Paulo“. Foi feito por Amanda Cerqueira e Rodolfo Antônio de Figueiredo, do Programa de Pós-Graduação em Ciências Ambientais da UFSCar. O principal problema enfrentado para a manutenção da apicultura, concluíram os pesquisadores, foi o “atual sistema de produção agrícola, baseado em extensas áreas de monoculturas e uso intensivo de agrotóxicos”.

Somente três apicultores (11,5% do total de 26 entrevistados) não mencionaram perdas de colmeias ou apiários inteiros pelo menos uma vez durante as floradas, “após a aplicação dos agrotóxicos nas monoculturas de laranja e cana-de-açúcar”. “Os efeitos notados após a pulverização são grande quantidade de abelhas mortas próximas das colmeias e/ou abelhas desorientadas, colmeias que deixam de produzir ou não conseguem se fortalecer para produzir, abandono das crias, presença de muitos insetos mortos próximo aos apiários e cheiro de veneno”.

A expansão da cana

Os apicultores também se queixaram da expansão da cana-de-açúcar na região, “com consequente perda de habitat” para as abelhas. São Paulo produz 55% da cana no país. Somente em 2016 a monocultura cresceu 6,2% no estado, chegando a uma área de 4,78 milhões de hectares, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab).

Os produtores de mel também mencionaram o impacto dos venenos na saúde humana. E criticaram a falta de empenho do governo no combate ao uso de agrotóxicos “potencialmente tóxicos aos polinizadores, ao solo e à água”. “A crítica ao governo se estende a falta de incentivo ao desenvolvimento da apicultura no Brasil e o não reconhecimento da profissão”, dizem os pesquisadores. “A maior parte dos entrevistados (80,7%), considera que não recebe apoio de qualquer tipo de organização (governamental ou não) no trabalho com as abelhas”.

Fonte – Alceu Luís Castilho, De olho nos ruralistas de 09 de outubro de 2017

Mel de abelhas nativas produzido em São Paulo ganha regulamentação

Mel de abelha nativa, que é mais líquido do que o mel de abelha ApisMel de abelha nativa, que é mais líquido do que o mel de abelha Apis Foto: FERNANDO SCIARRA|ESTADÃO

Regulamentação define identidade, padrão de qualidade e requisitos do processo de beneficiamento do mel elaborado pelas abelhas Meliponinae

O mel de abelhas nativas produzido em São Paulo deixou de ser fora da lei. Embora já fosse celebrado por pessoas ligadas à conservação do meio-ambiente e da gastronomia – por suas características marcantes, incluindo as do terroir onde é produzido – , não havia regulamentação para o produto até hoje. Foi publicada nesta sexta-feira (6) no Diário Oficial do Estado de São Paulo uma resolução que aprova o regulamento técnico de identidade, o padrão de qualidade e os requisitos do processo de beneficiamento do mel elaborado pelas abelhas Meliponinae, conhecidas como abelha sem ferrão.

A resolução, assinada pelo secretário de Agricultura e Abastecimento, Arnaldo Jardim, determina algumas classificações para o mel: o floral, obtido dos néctares das flores, podendo ser unifloral, de flores de uma mesma família, ou multifloral, de diferentes origens; o extrafloral, obtido a partir de nectários extraflorais; o melato, obtido a partir da secreção de inseto sugadores de seiva ou de outras partes vivas das plantas.

O mel também pode ser classificado por método de extração (por sucção, em que é retirado dos potes por equipamentos de diferentes pressões; ou por escoamento, em que escorre dos potes abertos pela inversão da alça superior), por apresentação (líquido, cristalizado, cremoso – mistura do líquido com o cristalizado – e em pote), e por tipo de processamento. Neste caso, pode ser in natura, desidratado, pasteurizado ou maturado.

O documento publicado no Diário Oficial tem como base científica artigos da Embrapa Meio Ambiente e do Instituto de Tecnologia de Alimentos (Ital) da secretaria. Ricardo Camargo, pesquisador do núcleo de agroecologia da Embrapa e um dos autores do texto-base da resolução, afirmou que a regulamentação é uma “luta antiga e um processo árduo”. Ele conta que trabalha no texto base há dois anos. “Fizemos várias reuniões pelo Brasil inteiro. O diferencial dessa regulamentação, em relação as que já existem como da Amazônia e da Bahia, é que ela é muito completa em termos técnicos. Coloca todas as especificações dos processos de produção.”

Para Roberto Smeraldi, ambientalista e colunista do Paladar, “o desafio agora é outros estados usarem o mesmo modelo e a esfera federal adotar os mesmos parâmetros quanto ao comércio interestadual, por se tratar de um regulamento embasado cientificamente e tecnicamente”.

O especialista em méis Jerônimo Villas-Bôas vê a regulamentação como um passo importante baseado em referências relevantes. “O conceito é bom porque engloba todas as técnicas de beneficiamento do mel e não impõe uma única forma, como o pasteurizado ou o refrigerado. E, além disso, inclui um dos nossos maiores pelitos, que é a do mel maturado. Então eu a vejo como uma regulamentação muito democrática”, afirma.

Villas-Bôas afirma ainda que, por mais que São Paulo não seja o maior produtor de mel no País – Estados do Norte, do Nordeste e do Sul são mais relevantes – é “a locomotiva” do Brasil. “São Paulo pode dar o exemplo ao governo federal e a governos de outros Estados”, diz.

Para Eugenio Basile, da Mbee, a regulamentação é um movimento enorme, mas, ainda assim, insuficiente. “Não basta ter a resolução, precisa ter a implantação. Se não tiver fiscalização e braço para atender todo mundo não vai adiantar muita coisa porque o sistema é muito pequeno. O Paraná tem legislação muito parecida com a de São Paulo há um ano e tem até hoje um produtor certificado. Tenho medo que isso aconteça em São Paulo”, diz.

Para ele, uma saída seria um convênio entre a secretaria do Estado e prefeituras para que elas ajudem a implementar a regulamentação e realizem a fiscalização. “As prefeituras estão próximas aos pequenos produtores. Elas são interessadas em ajudar a população. Eu vejo muito em Atibaia e imagino que em outros também seja assim.”

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Fonte – Isabelle Moreira Lima, Estadão de 06 de outubro de 2017

Pesticidas encontrados em 75% do mel testado

Um novo estudo constatou que 75% das amostras de mel testadas, de todo o mundo, continham neonicotinóides, prejudiciais para as abelhas.

Um novo estudo da Universidade de Neuchatel, na Suíça, publicado na revista Science, constatou que 75% das amostras de mel testadas, recolhidas em todo o mundo, continham pesticidas neonicotinóides, prejudiciais para as abelhas.
Das 198 amostras de mel, 75% continham pelo menos um tipo de neonicotinóide: 30% continham um único neonicotinóide, 45% continham mais de dois tipos de neonicotinóides e 10% quatro ou cinco, sendo que os efeitos para as abelhas destas misturas não são conhecidos.

Distribuição mundial do mel contaminado

Os inseticidas encontrados – acetamiprida, clotianidina, imidacloprida, tiaclopride e tiametoxam – estavam principalmente presentes nas amostras da América do Norte (86% continham um ou mais neonicotinóides), a que se seguiam as da Ásia (80%) e da Europa (79%). As concentrações mais baixas foram encontradas na América do Sul (57%). Das amostras de mel proveniente do Brasil, as da região sul possuíam concentrações mais elevadas.

Prevalência do mel contaminado no mundo

“Sabemos que estes produtos químicos atacam o cérebro deste inseto e interferem com a sua capacidade de aprender e de se orientar, o que é muito grave para uma abelha pois precisam de ser capazes de encontrar o caminho para as flores e saber como regressar à colmeia. Se perdem esta capacidade é como se morressem”, explicou o Professor David Goulson, da Universidade de Sussex.
“Também sabemos que esses produtos químicos, em baixas concentrações, confundem o sistema imunológico das abelhas o que faz com que possam contrair doenças”.

Os cientistas alertam que a exposição crónica a estes pesticidas ameaça a sobrevivência das abelhas.”Estas descobertas são alarmantes. É altura do uso destes químicos ser severamente restringido”, disse Chris Connolly, da Universidade de Dundee.

O parlamento europeu vai decidir brevemente a proibição dos pesticidas neonicotinóides e as medidas a serem adotadas.

Fonte – The UniPlanet de 07 de outubro de 2017

Abelhas sem ferrão, mel, geleia real, própolis: afinal, o que é tudo isso?

Colmeia de abelha nativa, também chamada de mansa e sem ferrão: as mais de 300 variedades produzem meles magníficos

Abelhas são um dos animais mais importantes do planeta – e não por que produzem mel. Por mais prazeroso que seja o viscoso e doce líquido, ele não é a razão pela qual precisamos cuidar muito, muito bem das abelhas. A principal razão é: nossa comida depende da existência delas.

Cerca de 80% da polinização de todas as plantas do planeta é feita pelas abelhas. Enquanto grãos são primordialmente polinizados pelo vento, frutas, nozes e vegetais são polinizados por elas. De quinze anos para cá, porém, a população de abelhas vem diminuindo drasticamente em todos os pontos do globo – as principais razões são o uso excessivo de agrotóxicos e a propagação de imensas monoculturas, que destroem seu habitat natural. Este fenômeno foi batizado de colony collapse disorder (síndrome do colapso da colônia).

O fato é: sem abelhas, o mundo sofrerá com escassez de alimentos e surtos de fome de proporções catastróficas.

Para saber mais sobre o tema, clique AQUI e AQUI.

Para entender sobre esses insetos primordiais à vida, visitamos a Fazenda Itaicá, da marca MBee Mel de Terroir. Situada na Serra da Bocaina, a Fazenda Itaicá conta tanto com criação abelhas africanas (também conhecidas como europeias e italianas) – aquelas com listrinhas pretas e amarelas) quanto de abelhas nativas (sem ferrão).

E, vou dizer, os meles das mais de trezentas espécies de ‘abelhas mansas’ são infinitamente mais interessantes gastronomicamente. Meles que, por sua vez, também estão ‘entrando em extinção’: o desconhecimento por parte do público, e o consequentemente não-consumo, faz com que cada vez menos gente se interesse em produzi-los. Eu os considero uma iguaria, assim como trufas e caviar.

Então, comecemos pelo começo:

O que é mel?

O mel é o alimento principal das abelhas. Os grãos de pólen, retirados das flores, são suplementos. Quando extraímos mel para consumo humano, estamos tirando comida da colmeia – da mesma forma que acontece com leite em vacas, ovelhas, cabras. Por isso há que existir bom senso e boas práticas de manejo.

Como abelhas produzem mel?

O néctar coletado das flores pelas abelhas operárias – néctar é uma solução de açúcares com água, produzida pelas flores – é transportado para o enxame, maturado, concentrado e transformado em mel. Inicialmente, as abelhas operárias armazenam o néctar coletado em sua vesícula melífera (papo de mel) localizada ao lado do estômago e o transportam até o enxame. Então, o repassam para outra abelha operária, boca a boca. Nesta ocasião, ocorre a reação enzimática do organismo da abelha operária, a sacarose, que é a principal substância do néctar e que é transformado em frutose e dextrose. As abelhas operárias que receberam o néctar transportam-no para armazenar na melgueira e produzem vento, batendo suas asas, a fim de evaporar a umidade. A temperatura de 34 graus no interior da colmeia também acelera a concentração e a maturação do mel. As melgueira com mel maturado são fechadas com a cera.
(texto adaptado do site Yamada Bee Farm).

Qual o papel do pólen?

Ele é o principal produto não-líquido da dieta das abelhas, e é à partir de sua obtenção que elas elaboram a geléia real, alimento da rainha. No momento em que as abelhas operárias mergulham no interior da flor em busca do néctar, os grão de pólen agarram nas penugens que envolvem seu corpo. Ao irem de uma à outra, “deixam” alguns grãos, o que causa a polinização das plantas.

O pólen que resta nas abelhas é umedecido com néctar, levado para a colmeia, triturado e guardado no fundo do enxame para futuro consumo.

Larva da abelha rainha sendo alimentada com geleia real

O que é geleia real?

É o alimento exclusivo da abelha rainha. Na verdade, é alimentando uma larva comum exclusivamente com geleia real que ela se tornará rainha.

A geleia real é preparada com o pólen armazenado no fundo do enxame misturado a secreção glandular das abelhas operárias. O resultado é um superalimento: por conta dela, a abelha rainha – que come geleia real desde sua fase de larva – terá até três vezes o tamanho de uma abelha operária. A alimentação também impacta outros aspectos: enquanto as operárias vivem entre 30 e 45 dias, a rainha vive cerca de 4 anos.

Ao contrário do mel, a geleia real não é palatável aos humanos.

Manejo de abelhas europeias na fazenda da MBee Mel de Terroir

E o que é própolis?

Algumas árvores encontradas na natureza produzem um tipo de resina com propriedades antibacterianas e antifúngicas que protegem o vegetal do ataque de insetos e fungos. Ao coletarem essa resina, as abelhas a levam para a colmeia. Lá, será misturada à cera e também a secreções salivares, formando a própolis, substância rica em antioxidantes.

Na colmeia, a própolis é utilizada no preenchimento de espaços, como falhas e rachaduras, que podem servir de entrada ao frio e também a predadores; para embalsamar insetos ou outras abelhas intrusas que porventura entrem na colmeia; e também para recobrir as células que guardarão os ovos colocados pela rainha. A própolis tem uma função muito importante na colmeia: elimina micro-organismos e outros agentes infecciosos.

Meles de abelhas nativas: para mim, uma iguaria tão incrível como trufas ou caviar

O que são abelhas sem ferrão?

Jupará, Jandaíra, Jandaíra-Preta, Uruçu-Boca-de-Renda, Mandaçaia, Guarupú, Guaraipo,Monduri, Rajada,Tiúba, Jataí: já ouviu falar de alguma delas? Pois as abelhas nativas eram as grandes estrelas por aqui antes da chegada da Apis mellifera – aquelas abelhas de listras amarelas e pretas- no continente americano. Na era pré produção de açúcar, o mel das abelhas nativas era o principal adoçante natural e fonte de energia indispensável aos humanos.

As abelhas sem ferrão, ou meliponíneos, ocorrem em grande parte das regiões tropicais da Terra, ocupando praticamente toda a América Latina e África, além do sudeste asiático e norte da Austrália. Mas é nas Américas que grande parte da diversidade de espécies ocorre: são aproximadamente 400 tipos descritos.

Porque acabaram relegadas a segundo plano? Principalmente por produzirem menos mel que as europeias. Por darem menos lucro, basicamente. Enquanto uma colmeia de apis mellifera – ou abelhas europeias – chega a produzir 40 kg de mel em um ano, as nativas dão, em média, 300 ml…

Quais as diferenças sensoriais de meles de abelhas europeias e nativas/sem ferrão?

Antes de tudo, é bom entender que o sabor e qualidade do mel vai depender de alguns fatores: alimentação e espécie da abelha. Alimentação, aqui, é um tema bem importante porque está ligado a biodiversidade – quantos maior a variedade de plantas de uma região, mais rica será a alimentação da colmeia e, portanto, mais sensorialmente interessante será o mel. Além disso, o bioma deve conter árvores que tenham floradas em diferentes épocas do ano para que as abelhas sempre tenham alimento (o que alguns produtores fazem é manter meia dúzia de árvores e ‘complementar’ a alimentação da colmeia no inverno com xarope de açúcar invertido…).

Em se tratando de espécie, posso dizer por experiência: em termos de descoberta de sabores, nada se compara a uma degustação de meles de abelhas nativas. Cada um deles tem notas próprias, completamente distintas.Um tesouro gastronômico que está logo aqui, no nosso quintal – mas corre risco de desaparecer se não dermos o devido valor.

Fonte – Ailin Aleixo, Gastrolândia de 02 de agosto de 2017