Agricultores não associam uso inadequado de agrotóxicos ao seu estado de saúde

Propriedade rural em ImigrantePropriedade rural em Imigrante

Pesquisa do PPGAD foi realizada com 130 agricultores de Imigrante

Apesar de conhecerem os problemas que os agrotóxicos podem gerar ao meio ambiente e à sua saúde, os agricultores não relacionam o uso inadequado dos agrotóxicos ao seu estado de saúde. Esse foi o resultado de uma pesquisa desenvolvida pela diplomada em Ciências Biológicas Mônia Wahlbrink, sob orientação da doutora Claudete Rempel, vinculada ao Programa de Pós-Graduação em Ambiente e Desenvolvimento (PPGAD) e ao PPG em Sistemas Ambientais Sustentáveis (PPGSAS) da Univates, realizada com 130 agricultores do município de Imigrante, no Rio Grande do Sul.

Os dados foram obtidos a partir da resposta dos participantes a um questionário que abordava temáticas como o perfil do trabalhador, a utilização de agrotóxicos, a saúde, a segurança e a higiene do trabalhador. Os dados coletados apontaram que 93,8% dos respondentes eram homens e a maioria dos entrevistados possui Ensino Fundamental incompleto.

A maioria declarou que começou a trabalhar ainda na infância na propriedade, em média aos 12 anos de idade. Grande parte dos agricultores de Imigrante (89,2%) disse ter conhecimento sobre os riscos que o uso de agrotóxicos pode ocasionar e nenhum afirmou comer ou fumar durante a aplicação dos agrotóxicos.

Entre os entrevistados, 73,3% relataram ter sentido ao menos um sintoma de intoxicação por pesticida nos últimos seis meses, sendo o mais citado a dor de cabeça (70,2%), seguido por cansaço (52,1%) e dor no corpo (46,0%). Dos 73,3% que mencionaram ter sentido ao menos um dos sintomas, 17 agricultores (18,1%) acreditam que esses podem ter alguma relação com o uso de agrotóxicos.

Quando questionados se ao longo da vida já haviam sentido algum mal-estar por ter usado agrotóxicos, 54 agricultores (41,5%) responderam que sim, sendo a dor de cabeça novamente o sintoma de intoxicação mais citado (55,6%), seguido por enjoo (48,1%) e fraqueza (11,1%).

Dentre todos os agricultores participantes da pesquisa em Imigrante, 118 (90,8%) utilizam algum tipo de equipamento de proteção individual (EPI) no momento da aplicação do agrotóxico, enquanto 12 (9,2%) não utilizam nenhum tipo de EPI. Destes que utilizam EPIs, 95,0% usam botas, 93,3% usam roupa longa (calça e camisa de manga longa) e apenas 1,7% utiliza viseira.

De acordo com Mônia, de maneira geral, os resultados obtidos mostram que existe um quadro de exposição humana e ambiental aos agrotóxicos. “Grande parte dos agricultores afirma conhecer os riscos que essa exposição pode ocasionar, porém é notável o uso parcial dos EPIs, bem como a não leitura e a falta de compreensão do rótulo e da bula dos agrotóxicos pela maioria dos agricultores”, analisa ela, acrescentando que foi observado que quase metade dos entrevistados já sentiu algum sintoma de intoxicação.

O descarte inadequado das embalagens também é uma preocupação constante em relação à atividade agrícola, pois contribui para a contaminação das águas superficiais e subterrâneas, podendo expor parte da população aos efeitos desses compostos.

A orientadora da pesquisa, professora Claudete, destaca que os dados mostram que os estudos de percepção de riscos são importantes instrumentos para a gestão ambiental e o controle dos riscos associados ao uso de agrotóxicos no trabalho rural. “Percebe-se a importância da implementação de políticas públicas que incentivem a prática agrícola mais sustentável e que reduzam a vulnerabilidade a que os agricultores e o meio ambiente estão expostos”, explica ela. Claudete afirma ainda que é necessário também incentivar o enfoque agroecológico e o desenvolvimento de práticas agrícolas sustentáveis, “o que contribui para a manutenção da capacidade produtiva e a diminuição dos efeitos negativos que os agrotóxicos causam à saúde humana e ao meio ambiente”, finaliza ela.

O estudo foi publicado na Revista Brasileira de Ciências Ambientais (RBCIAMB), disponível aqui.
https://www.yumpu.com/pt/document/fullscreen/59250236/edicao-44-rbciamb

Dados do gráfico

Perfil dos respondentes
Total de respondentes: 130
Homens 93,8%
Mulheres 6,2%
Escolaridade: Ensino Fundamental incompleto 83,1%
Relação de trabalho: Proprietário 85,4%
Idade média 54,7 anos
Média de idade com a qual começou na atividade rural 12,0 anos
Tempo médio de utilização de agrotóxico (em anos) 18,1 anos

Principais sintomas reportados
73,3% relatam ter sentido ao menos um dos sintomas nos últimos seis meses
Sintomas mais citados foram dor de cabeça (70,2%), seguido por cansaço (52,1%) e dor no corpo (46%)

Mal estar
54 agricultores (41,5%) responderam já ter sentido mal estar após uso de agrotóxicos.
Dor de cabeça foi novamente o sintoma de intoxicação mais citado (55,6%), seguido por enjoo (48,1%) e fraqueza (11,1%).

Uso de Equipamento de Proteção Individual
118 (90,8%) utilizam algum tipo de EPI
12 (9,2%) não utilizam nenhum tipo de EPI

EPI’s mais utilizados
95,0% usam botas;
93,3% usam roupa longa
1,7% utilizam viseira

Fonte – Nicole Morás/Univates, EcoDebate de 15 de janeiro de 2018

Agricultura da morte: veja quanto sua comida está contaminada por agrotóxicos

Estudo comparativo entre Brasil e União Europeia mapeia uso de pesticidas e mostra dados alarmantes do consumo de veneno

Fruto de uma pesquisa da geógrafa Larissa Bombardi, professora do departamento de geografia da Universidade de São Paulo, o atlas “Geografia do Uso de Agrotóxicos no Brasil e Conexões com a União Europeia” destaca as diversas facetas das relações comerciais entre as diversas nações.Apesar da legislação rígida sobre o uso de veneno, grande parte dos países europeus compram produtos do Brasil que possuem altos índices de agrotóxicos.

Os dados apresentam os números do uso dos defensivos aqui e na Europa. Além disso, traz os dados da utilização dos agrotóxicos e seus efeitos por região no Brasil.

Fonte – Brasil de Fato de 19 de dezembro de 2017

Médica sanitarista fala sobre o universo da saúde ambiental, com destaque sobre os impactos dos agrotóxicos

A entrevistada, desta semana, do Blog Cidadãos do Mundo – jornalista Sucena Shkrada Resk, é a médica sanitarista Telma de Cassia dos Santos Nery, que trata do tema Saúde Ambiental, com os impactos dos agrotóxicos e da poluição, neste contexto, e também explica o trabalho desenvolvido na plataforma Observatório da Saúde Ambiental, lançada em 2015 (com foco nos comprometimentos do uso de agrotóxicos no estado de São Paulo) e a relevância da difusão dessas informações à sociedade.  Telma registra uma longa experiência em sua carreira, nas áreas de medicina preventiva/social, do trabalho e de saúde ambiental.  Membro do Comitê Executivo do Capítulo Latino Americano e Caribe da International Society for Environmental Epidemiology (ISEE), também atua hoje como docente universitária e médica sanitarista e é integrante do Fórum Paulista de Combate aos Impactos dos Agrotóxicos e Transgênicos.

Blog Cidadãos do Mundo – jornalista Sucena Shkrada Resk  – Dra. Telma, o que é saúde ambiental?

Telma Nery – Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), a saúde ambiental compreende aspectos da saúde humana, que incluem a qualidade de vida, que são determinados por fatores físicos, químicos, biológicos, sociais e psicossociais do ambiente. Também se refere à teoria e à prática de avaliar, corrigir, controlar e prevenir esses fatores do ambiente que possam afetar de forma adversa a saúde das gerações presentes e futuras.

A saúde humana e o bem-estar estão intimamente ligados à qualidade ambiental. Isto é importante e bem demonstrado nos impactos descritos, como 24% dos anos de vida perdidos por incapacidade e 23% das mortes prematuras em todo o mundo atribuíveis à exposição a riscos ambientais e ocupacionais evitáveis.

A OMS aponta ainda que a poluição do ar causou 8 milhões de mortes precoces no mundo, em 2015, e é atualmente a principal causa de morte por complicações cardiorrespiratórias, entre elas, arritmia, infarto do coração e derrame cerebral – relacionadas ao meio ambiente, e de câncer de pulmão. No estado de SP, estudo demonstrou que o total de óbitos causados pela poluição – 11.200, em 2015 – é maior que as mortes causadas por acidentes de trânsito (7.867), câncer de mama (3.620) ou aids (2.922).

Os riscos e fatores ambientais são ainda responsáveis por: 25% a 30% da carga de doenças estão relacionadas a fatores ambientais  (OMS); 23% de todas as mortes; 36% das doenças em crianças 0-4 anos e 37% das mortes em crianças 0-4 anos, de acordo com a OPAS.

Blog Cidadãos do Mundo – Qual a importância da saúde ambiental para cada cidadão e para o coletivo da sociedade?

Telma Nery – É importante que todo cidadão tenha informação sobre impactos dos riscos ambientais na sua vida e que o estado , que tem como obrigação a proteção da saúde pública, adote estratégias de saúde ambiental. A atuação em saúde ambiental implica diretamente na redução da carga de doencas evitáveis e mortes precoces.

Blog Cidadãos do Mundo – Qual é o principal objetivo do Observatório da Saúde Ambiental e como o internauta pode ser beneficiado interagindo com a plataforma? Por favor, cite exemplos.

Telma Nery – Dentre os principais fatores ambientais, temos aqueles agravos gerados pelo consumo, uso e exposição a substâncias químicas, em especial, os agrotóxicos. O Brasil é o maior consumidor mundial destes produtos, desde o ano de 2008- 2009.

Neste sentido, visando conhecer o universo dos agrotóxicos no estado de São Paulo, frente ao seu uso e quais impactos à saude humana, foi estruturado, com recursos do Ministério da Saúde, um observatório voltado para estas questões, chamado Observatório da Saúde Ambiental (com participação do Centro de Estudos Augusto Leopoldo Ayrosa Galvão e da coordenação do Centro de Vigilância Epidemiológica Professor Alexandre Vranjac da Secretaria de Estado da Saúde, através da Divisão de Doenças Ocasionadas pelo Meio Ambiente).

A plataforma contém várias informações, dados e estudos sobre agrotóxicos. É disponível para qualquer pessoa que busque informações, tanto a população de maneira geral, como também pesquisadores, mas principalmente gestores que queiram conhecer seu território e estruturar modelos de políticas públicas.

O observatório contém, por exemplo, levantamentos bibliográficos sobre câncer e agrotóxicos, malformações congênitas e agrotóxicos e outros impactos à saúde. São cerca de 1500 referências bibliográficas disponiveis.

Disponibiliza ainda inúmeras tabelas /planilhas com dados sobre problemas de saúde pelo Sistema de Informações de Saúde do SUS – DATASUS, separados por cada município do estado de São Paulo, também por tipos de agrotóxicos utilizados e principais culturas.

Como podem ser utilizadas?  Por exemplo, se alguém quiser conhecer quais municípios utilizam o agrotóxico glifosato (mais consumido no Brasil), consegue olhar e ate comparar. Pode ainda verificar quais as principais taxas de câncer ou de intoxicações por agrotóxicos notificadas, por município, no estado de São Paulo.

Além destas informações, o observatório possibilita a criação de MAPAS, apontando as situações municipais.

Taxa de malformacao congênita

Como exemplo de uso, a Defensoria Pública do Estado de SP realizou levantamento dos dados do observatório e analisou as taxas de malformações congênitas no municípios, identificou dados que foram tema de importante matéria na mídia. Alguns prefeitos, que desconheciam a situação dos impactos à saúde, iniciaram debates e estruturação de políticas públicas, como a de redução de pulverização ou redução da área de uso nas proximidades da região urbana.

Blog Cidadãos do Mundo – Quais os principais comprometimentos dos agrotóxicos e dos poluentes sobre a saúde humana (doenças, efeitos no SUS) e, de uma forma geral, no ecossistema? Hoje quais são os principais alertas no estado de São Paulo, em especial?

Telma Nery – Estas informações são importantes, pois a OMS e também o Instituto Nacional do Câncer (INCA) já divulgaram que alguns agrotóxicos são cancerígenos. Importante ainda lembrar que o Brasil utiliza regularmente vários agrotóxicos já banidos, por exemplo, na Comunidade Europeia, devido a seus graves impactos à saúde humana.

São muitos os reflexos no SUS. O gasto do Ministério da Saúde com tratamentos contra câncer cresceu 66% nos últimos 5 anos: R$ 2,1 bilhões em 2010 e R$ 3,5 bilhões em 2015. O volume de doentes em tratamento no SUS: 292 mil (2010) e  393 mil(2015). Os números são reflexos do aumento de casos de câncer no País nos últimos anos e do lançamento de novas terapias e medicamentos de alto custo contra a doença.

Impactos dos fatores ambientais devem ser considerados.

Segundo estudos, no Brasil para cada US$ 1 gasto na compra de agrotóxicos, US$ 1,28 são gerados de custos externos com tratamento de saúde. (FONTE: Soares WL, Porto MFS. Uso de agrotóxicos e impactos econômicos sobre a saúde. Revista Saúde Pública. 2012: 46(2):209-17);

O estado de SP é um grande consumidor do agrotóxico, utilizando mais de 60% na cana-de-açúcar e 30% do consumo é aplicado por meio de pulverização aérea e segundo Relatório operacional, 85% contra orientação do fabricante.

– Fiscalização apontou, por GPS, presença em áreas de controle ambiental;

– Total de área pulverizada: 11,82% do estado de São Paulo;

– 30%  dos agrotóxicos utilizados no estado são contrabandeados.
Blog Cidadãos do Mundo – Neste contexto, quais os principais cuidados, enquanto consumidor, quanto à água e aos alimentos? E ao se detectar algum problema a quem o cidadão pode recorrer? 

Telma Nery – É importante lembrar que a exposição revela um consumo acumulado, ou seja, são várias as fontes do ser humano de exposição: comendo um alimento onde foi utilizado o veneno, bebendo  água ou alguma substância com a presença, se expondo ambientalmente frente à pulverizacão ou especialmente aqueles que trabalham aplicando venenos. Importante destaque a estudos que mostraram presença de agrotóxicos também no leite materno.

O cidadão deve ser informado e buscar informações sobre estes impactos. Deve participar das decisões sobre uso ou nao destas substâncias. Neste momento, é mais seguro optar por alimentos orgânicos , ou sem uso de agrotóxicos. Vale lembrar que o agrotóxico não consegue ser eliminado simplesmente através de lavagem das frutas/legumes, por exemplo; e ainda a presença dos mesmos, além dos alimentos “ in natura”, estão presentes em produtos alimentícios processados pela indústria: pães, farinha, pizzas etc…

Blog Cidadãos do Mundo – Quais são os principais desafios para melhorar o sistema de vigilância em saúde nesta agenda e pressionar os órgãos gestores e o mercado a mudanças de paradigmas quanto ao uso dessas substâncias?

Telma Nery – Os principais desafios para melhorar o sistema de vigilância em saúde passam pelo uso das informações disponíveis para uma ação efetiva. Já sabemos dos variados e graves impactos dos agrotóxicos na saúde humana. Precisamos que estes impactos sejam notificados, que medidas de saúde pública sejam implementadas, que imediatamente os agrotóxicos conhecidos como cancerígenos, e os agrotóxicos já banidos de outros países pelos graves efeito na saúde humana sejam proibidos de serem utilizados aqui.

Fonte – Sucena Shkrada Resk, Blog Cidadãos do Mundo de 27 de novembro de 2017

O glifosato e uma Europa sem visão

“Hoje é o caso de encontrar a coragem para uma revolução produtiva, que objetive recuperar uma harmonia entre a necessidade urgente de alimentar uma população mundial crescente e a necessidade de conservar os recursos naturais para as gerações futuras”.

Se for verdade, como afirmado pela Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer e pela Organização Mundial da Saúde que o “glifosato é provavelmente cancerígeno para os seres humanos”, então a decisão a ser tomada só pode ser uma: o seu banimento. Se, ao contrário, como defende a Autoridade Europeia para a Segurança Alimentar, “é improvável que o glifosato seja cancerígeno”, por que não assumir o compromisso de levar a cabo o processo de autorização completo como para as outras moléculas químicas utilizadas em produtos fitofarmacêuticos?

A decisão tomada pelos membros da UE há poucos dias coloca-se no meio termo, e prorroga por mais cinco anos (escolha cautelar em relação aos 10 anos propostos pelos fabricantes), e, portanto, poderemos continuar a usar o glifosato na agricultura e consumi-lo em nossa alimentação. A escolha chegou depois de meses de negociações e conversações, com acalorados debates entre aqueles que, como o Slow Food, argumentavam que está na hora de sua proibição e aqueles que louvavam o magnífico destino desse herbicida.

A votação foi fundamentada em um pressuposto hipócrita que nos leva a confirmar, infelizmente, pela enésima vez, que muitas vezes as decisões europeias não são feitas no interesse dos cidadãos, mas seguindo a lógica dos ‘agradinhos’ e da administração do consenso, especialmente o financeiro. A situação é paradoxal. As instituições que deveriam zelar pela nossa saúde não só não chegam a conclusões científicas definitivas, mas não têm a coragem de tomar uma posição clara nos confrontos de uma decisão que tem um impacto sobre milhões de pessoas, principalmente sobre quem produz. Uma atitude digna de Pilatos que vai levar cada país a elaborar medidas de forma independente (a França já declarou a proibição do uso de glifosato em 2019, na Alemanha muitos supermercados já o retiraram das prateleiras), que minam a unidade jurídica da União.

Além disso, além da indecorosa indecisão, o caso é acompanhado por uma falta de qualquer visão futura. Como será a agricultura do futuro? É concebível reduzir a sua dependência da química? Como pode ser feito?

Vimos as organizações de agricultores tomar as ruas após o anúncio de Macron e foi lido em vários lugares que “os agricultores franceses, sem o glifosato, não saberiam como continuar suas colheitas”. Mas o problema é político, além de agronômico: o sistema alimentar como o conhecemos é quase totalmente baseado no uso de produtos químicos ou derivados de petróleo. É o resultado daquela revolução verde que transformou nas décadas de 1950-60-70, a relação entre o homem e o meio ambiente, entre alimentos e meio ambiente.

Hoje é o caso de encontrar a coragem para uma revolução produtiva, que objetive recuperar uma harmonia entre a necessidade urgente de alimentar uma população mundial crescente e a necessidade de conservar os recursos naturais para as gerações futuras. Soluções existem, mas precisam ser encorajadas e às vezes forçadas.

A decisão sobre o glifosato é uma situação que deve ser vista a partir dessa perspectiva, mas parece que as instituições europeias não têm a capacidade de olhar mais longe do que os estoques que as multinacionais dos fitofármacos precisam gastar. E então, além de temer pela nossa saúde, uma vez que foi renovada a autorização para o uso de uma substância provavelmente tóxica, precisamos expressar a decepção por ter que esperar ainda um longo tempo antes que se inicie um processo virtuoso de que a humanidade tem desesperada necessidade.

Carlo Petrini é fundador e presidente do movimento Slow Food.

Fontes – La Repubblica / tradução é de Luisa Rabolini, IHU de 01 de dezembro de 2017

AGROTÓXICOS ¿Realmente creen que cualquier fauna silvestre sobrevive al bombardeo químico de agricultores año tras año?

“He escrito extensamente sobre agricultura y especialmente pesticidas por dos razones. Estoy convencido de que la agricultura durante milenios fue civilización. Pero desde fines del siglo XIX la agricultura se vio obligada a industrializarse supuestamente para alimentar al mundo. Las granjas gigantes que cultivaban una sola cosecha sonaron como la campana de la cena de innumerables plagas de insectos. Esto desencadenó una guerra química en la granja”.

La industrialización trajo la violenta metamorfosis de la civilización a una fábrica. Los pesticidas se convirtieron en los pilares de esta fábrica.

En segundo lugar, mi prolongado trabajo para la Agencia de Protección Ambiental de EE. UU. Me convenció de que los pesticidas, como las bombas nucleares, deben ser abolidos. Su historia de guerra y sus efectos son simplemente intolerables.

Un amigo apicultor del Reino Unido, Graham White, me llamó la atención sobre el trabajo del profesor Dave Goulson en la Universidad de Sussex. Goulson llevó a cabo una “Auditoría de Pesticidas” de un solo campo de colza y uno de trigo de invierno.

La auditoría de pesticidas cubrió una temporada, 2012-2013. Reveló que cualquier abeja, mariposa, abejorro, mariquita, lombriz, que se alimente de un campo de colza estaría expuesto a:

SEIS insecticidas,

TRES herbicidas,

NUEVE fungicidas

Además de reguladores de crecimiento de hormona de insectos.

Los efectos nocivos de este cóctel de venenos están deformando y matando a la vida silvestre, aunque los científicos aún no han estudiado las mezclas de tantos venenos que trabajan juntos.

El campo de colza oleaginosa no era inusual. Se recomienda a la mayoría de los agricultores del Reino Unido y de los Estados Unidos que utilicen el mismo cóctel de aerosoles. En el Reino Unido, más de 8,000,000 hectáreas de cultivos herbáceos cada año siguen esta receta química.

El profesor Goulson dice que encontró la evidencia de su auditoría “asombrosa”. Lo encontré escandaloso.

El profesor Goulson analiza la agricultura con los ojos de polinizadores, abejas y abejorros. De hecho, él es el científico preeminente abejorro del Reino Unido.

Goulson se centró en la colza porque cuando florece se convierte en una tienda de alimentos para las abejas melíferas.

Él explica: “La colza se siembra a fines del verano con un aderezo para semillas que contiene el insecticida tiametoxam. Este es un neonicotinoide sistémico, con una toxicidad muy alta para las abejas.”

“Sabemos que la planta lo absorbe y que los niveles detectables estarán en el néctar y el polen recolectados por las abejas en la primavera siguiente.

En noviembre, a pesar de la supuesta protección del neonicotinoide, el cultivo se rocía con otro insecticida, el encantador nombre ‘Gandalf‘ .

“¿Qué daño podría hacer el viejo sabio sabio? Gandalf contiene beta-ciflutrina , un piretroide. Los piretroides son altamente tóxicos para las abejas y otros insectos, pero no debería haber abejas en noviembre, por lo que probablemente esté bien. El siguiente mayo, cuando está floreciendo, el cultivo se rocía con otro piretroide, alfa- cipermetrina .

“Menos de tres semanas después, la cosecha se bombardea con tres piretroides más, todos mezclados, un enfoque real de cinturón y llaves.

¿Por qué usar uno cuando tres harán? La cosecha todavía florece en este punto (era un año tardío), y estaría cubierta en abejorros forrajeros y otros polinizadores. “En el medio, el cultivo también se trata con un aluvión de herbicidas, fungicidas, molusquicidas y fertilizantes: 22 productos químicos diferentes en total. La mayoría de estos pueden tener poca toxicidad para las abejas en sí mismos, pero algunos, como un grupo de fungicidas (los fungicidas DMI), se sabe que actúan de forma sinérgica con neonicotinoides y piretroides, lo que hace que los insecticidas sean mucho más tóxicos para las abejas. En la fecha de aplicación final, cuando el cultivo está en floración, se agrega uno de estos fungicidas (protioconazol) a la mezcla del tanque con los tres piretroides.

Cualquier alimentación de abejas se expondrá simultáneamente a los tres piretroides, el tiametoxam en el néctar y el polen, y un fungicida que hace que estos insecticidas sean más tóxicos. “No sabemos qué impacto tiene todo esto realmente en ellos”. Las pruebas de seguridad solo exponen a los insectos de prueba a solo un químico a la vez, generalmente por solo 2 días, pero en realidad están crónicamente expuestos a múltiples plaguicidas a lo largo de sus vidas.

 El hecho de que todavía tenemos abejas en tierras de cultivo sugiere que deben ser bastante duras. En términos más generales, no sabemos qué impacto tiene todo esto en otros polinizadores o en la vida silvestre en general. La industria nos diría que todo está bien. También nos dirían (y a los agricultores que aconsejan) que todas estas aplicaciones son partes vitalmente importantes de la producción de cultivos, y que sin ellas la producción de alimentos colapsaría. Tengo mis dudas. Las pruebas de seguridad solo exponen a los insectos de prueba a solo un químico a la vez, generalmente por solo 2 días, pero en realidad están crónicamente expuestos a múltiples plaguicidas a lo largo de sus vidas. El hecho de que todavía tenemos abejas en tierras de cultivo sugiere que deben ser bastante duras.

En términos más generales, no sabemos qué impacto tiene todo esto en otros polinizadores o en la vida silvestre en general. La industria nos diría que todo está bien. También nos dirían (y a los agricultores que aconsejan) que todas estas aplicaciones son partes vitalmente importantes de la producción de cultivos, y que sin ellas la producción de alimentos colapsaría. Tengo mis dudas. Las pruebas de seguridad solo exponen a los insectos de prueba a solo un químico a la vez, generalmente por solo 2 días, pero en realidad están crónicamente expuestos a múltiples plaguicidas a lo largo de sus vidas. El hecho de que todavía tenemos abejas en tierras de cultivo sugiere que deben ser bastante duras. En términos más generales, no sabemos qué impacto tiene todo esto en otros polinizadores o en la vida silvestre en general. La industria nos diría que todo está bien. También nos dirían (y a los agricultores que aconsejan) que todas estas aplicaciones son partes vitalmente importantes de la producción de cultivos, y que sin ellas la producción de alimentos colapsaría. Tengo mis dudas. El hecho de que todavía tenemos abejas en tierras de cultivo sugiere que deben ser bastante duras.

En términos más generales, no sabemos qué impacto tiene todo esto en otros polinizadores o en la vida silvestre en general. La industria nos diría que todo está bien. También nos dirían (y a los agricultores que aconsejan) que todas estas aplicaciones son partes vitalmente importantes de la producción de cultivos, y que sin ellas la producción de alimentos colapsaría. Tengo mis dudas. El hecho de que todavía tenemos abejas en tierras de cultivo sugiere que deben ser bastante duras. En términos más generales, no sabemos qué impacto tiene todo esto en otros polinizadores o en la vida silvestre en general. La industria nos diría que todo está bien. También nos dirían (y a los agricultores que aconsejan) que todas estas aplicaciones son partes vitalmente importantes de la producción de cultivos, y que sin ellas la producción de alimentos colapsaría. Tengo mis dudas.

“¿Es así como realmente queremos ver el campo manejado?

“¿Realmente queremos comer alimentos producidos de esta manera?

“¿Realmente creemos que CUALQUIER insecto, biota del suelo, aves o mamíferos puede sobrevivir a esta barrera química, año tras año tras año?”

Mi respuesta es no. Goulson tiene razón. Las mezclas de plaguicidas son mortales para los polinizadores y otros animales salvajes, especialmente cuando el mismo aluvión de productos químicos llega a los cultivos año tras año tras año. Los pesticidas no pertenecen al campo ni a la comida. No le gustaría alimentar a sus hijos con este alimento rociado.

Es poco probable que la industria química, como la industria tabacalera, recobre sus sentidos. Manipula la política y la ciencia para mantener su imperio de veneno. Mientras tenga el apoyo de los gobernantes del Reino Unido, América u otros países, los pesticidas y las grandes granjas industrializadas reinarán supremas; la comida y el agua potable se contaminarán y la vida silvestre será envenenada.

Probablemente hay muchos científicos como Goulson que saben por qué los pesticidas están matando a la vida silvestre y hacen que la Inglaterra rural y la América rural no sean aptas para la habitación humana y la producción de alimentos. Estos científicos deberían hablar con sus colegas, incluidos los médicos, y, juntos, deberían decir que ya es suficiente. Sus cartas deben llegar a funcionarios de la ONU, primeros ministros, presidentes, editores de periódicos y políticos.

Los apicultores necesitan levantarse para salvar a sus abejas y al mundo natural. Han visto el declive o la destrucción de sus medios de vida. Probablemente saben más sobre los terribles neonicotinoides y otros químicos que envenenan abejas e insectos. Lleva esa información y conocimiento a la plaza pública. Trabajar con agricultores orgánicos, cocineros, maestros y ambientalistas para detener la próxima era oscura de las neurotoxinas y el silencio.

Evaggelos Vallianatos, historiador y estratega ambiental

Educado en zoología e historia en la Universidad de Illinois, recibió una licenciatura en zoología y una maestría en historia griega medieval. Obtuvo un doctorado en historia europeo-griega en la Universidad de Wisconsin. Hizo estudios posdoctorales en la historia de la ciencia en Harvard. Trabajó en Capitol Hill durante 2 años y en la Agencia de Protección Ambiental de los EE. UU. Durante 25 años. Es autor de cientos de artículos y 6 libros, incluido “Poison Spring”, con Mckay Jenkings.

Fontes – HuffingtonPost / ZERO BIOCIDAS / EcoDebate de 08 de dezembro de 2017

Geografia do Uso de Agrotóxicos no Brasil e Conexões com a União Europeia

Geografia do Uso de Agrotóxicos no Brasil e Conexões com a União Europeia

Este Atlas é resultado de um trabalho intenso que vem sendo desenvolvido nos últimos três anos.

Toda a parte técnica de cartografia e de design foi realizada solidariamente.
A ideia é que as informações aqui contidas possam circular e possam ser um importante instrumento de conscientização e, também, de suporte para políticas públicas que envolvam a proteção da população exposta aos agrotóxicos.

Por tudo isto, estamos disponibilizando uma versão on-line gratuitamente.

Mas, se o leitor(a) puder e desejar contribuir comprando o livro impresso ou doando uma quantia que considerar adequada ao e-book, estaria também colaborando com esta jornada.

Larissa Mies Bombardi
Laboratório de Geografia Agrária
FFLCH – USP, São Paulo, 2017.

Europa compra do Brasil comida produzida com agrotóxicos que ela proíbe

Atlas lançado na Geografia-USP mostra que país exporta alimentos com pesticidas banidos pela UE; 27 países importam café regado com 30 venenos que eles vetam

O Brasil exportou para 16 países da Europa mais de 13 milhões de toneladas de soja em 2016. Em grão, triturada, óleo ou farelo. Essa soja foi produzida com nada menos que 150 agrotóxicos diferentes. Detalhe: 35 deles são proibidos na União Europeia. Holanda, Alemanha, Espanha e França foram os principais importadores.

Os dados constam de pesquisa que está sendo lançada nesta segunda-feira (27/11) pelo Laboratório de Geografia Agrária da Universidade de São Paulo (USP). A professora Larissa Mies Bombardi vem trabalhando os dados há anos, no Brasil e no Reino Unido. E os apresenta em forma de mapas.

Fonte: Larissa Mies Bombardi/FFLCH-USP

A “Geografia do Uso de Agrotóxicos no Brasil e Conexões com a União Europeia” aponta uma contradição estrutural: regras rígidas para a produção local, na Europa, mas olhos fechados para os métodos utilizados pelos países exportadores. O lançamento tem debate, hoje, na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH-USP).

No caso do algodão o número de agrotóxicos proibidos pela União Europeia e autorizados no Brasil chega a 47. Isso não impede países como Itália, Portugal, Alemanha e França de importarem o produto. O volume de algodão bruto exportado – em boa parte do Mato Grosso e do oeste baiano – é de 11.344 toneladas.

A exportação brasileira de milho em grãos para a Europa ultrapassou 1 milhão de toneladas em 2016. Eles foram produzidos com 120 agrotóxicos – 32 deles proibidos na União Europeia. Saíram de várias Unidades da Federação, com destaque para o Mato Grosso. Quem mais importou foi a Holanda. Depois, Espanha, Portugal e Itália.

A produção de celulose utiliza três agrotóxicos proibidos na Europa. Mas o volume exportado pelo Brasil é alto: 4,7 milhões de toneladas em 2016. O número de países europeus importadores, também: 16. Com Holanda, Itália, França e Bélgica à frente. E Espanha, Reino Unido e Alemanha com volumes significativos.

Do etanol às bananas

O etanol produzido com a cana de açúcar brasileira é importado pelo Reino Unido, pela Holanda e pela Bélgica. A cana é produzida com nada menos que 25 agrotóxicos proibidos pela União Europeia. Sete deles têm classificação toxicológica máxima, a de nível I. Em 2016, esses países importaram do Brasil 71.856 toneladas de etanol.

É o mesmo número de agrotóxicos – 25 – utilizados no Brasil para a produção de arroz. Aos países anteriores se somam, como importadores, a Itália, a Espanha, a Alemanha, Portugal e Lituânia. O produto sai, principalmente, do Rio Grande do Sul.

O trigo produzido no Brasil é banhado de 16 agrotóxicos proibidos na Europa. Entre eles o paraquate, de classificação toxicológica de nível 1. Mesmo assim ele é importado por Portugal – país que também importa cacau regado no Pará e na Bahia com paraquate. (O produto teve banimento gradual previsto em setembro, mas pode ser liberado novamente nesta terça-feira, em Brasília.)

No caso do abacaxi são dez agrotóxicos proibidos na Europa e utilizados nas plantações brasileiras. Eles são exportados para Bélgica, Itália, Espanha, Chipre, Portugal, Alemanha e França. Nove países europeus (Reino Unido, Polônia e Espanha à frente) importam banana plantada com sete pesticidas proibidos na Europa. O numero de agrotóxicos proibidos aumenta na produção brasileira de maçã: são 28 venenos de uso proibidos no Velho Continente.

E tem mais: 14 países europeus importam amendoim banhados também com 12 venenos que eles proíbem. Uvas? Em formato de sucos, uvas frescas ou vinho? Outros 13 venenos proibidos, importados por 16 membros da União Europeia. Laranja, limão e suco de laranja? Dezessete países europeus não se incomodam de importar os produtos banhados com 33 agrotóxicos vetados no continente.

Depois da comida e da sobremesa, uma baforada. São 173 mil toneladas de fumo em folhas originários do Brasil. Consumidos por 19 países europeus. Número de agrotóxicos proibidos por lá? Onze. Se o destinatário final não fuma ele poderá ter tomado um cafezinho. São 980 mi toneladas somente de café cru, que sai de estados como Minas e Espírito Santo para as mesas europeias.  Com 30 agrotóxicos vetados. Países europeus que consomem? Vinte e sete. Isto entre 28 membros da União Europeia. Somente Luxemburgo ficou de fora.

Se foi adicionado açúcar a esse cafezinho, temos mais 25 agrotóxicos de uso proibido na Europa. Os mesmos do etanol – já que o veneno é despejado nas plantações de cana de açúcar. Esse número vale também para a cachaça. Croácia, Romênia, Estônia e Holanda são os principais importadores. Mas neste caso, em 2016, foram 23 países europeus que importaram açúcar brasileiro com agrotóxicos autorizados por aqui – mas proibidos acolá.

Quintal dos agrotóxicos

Tudo isso acontece porque a legislação brasileira é mais flexível e porque se trata de um país de dimensões continentais ainda voltado para a produção agropecuária. A área cultivada com soja no Brasil ultrapassa 33 milhões de hectares. O atlas lançado pela professora Larissa Bombardi mostra que isso representa 10,9 vezes o tamanho da Bélgica, ou 3,6 vezes o tamanho de Portugal. A cana de açúcar ocupa 11,5 milhões de hectares, especialmente em São Paulo. O eucalipto, 7,4 milhões de hectares.

Fonte – Alceu Luís Castilho, De olho nos ruralistas de 27 de novembro de 2017

Foto principal – Eduardo Tavares

Estudo confirma que pesticidas neonicotinóides são tóxicos para os pássaros

Tico-ticoFoto da capa: Kelly Colgan Azar

Dois dos inseticidas mais usados no mundo têm um efeito tóxico direto nas aves canoras que se alimentam de sementes, diz um novo estudo

Um novo estudo revelou que dois dos inseticidas mais usados no mundo – imidacloprida (neonicotinóide) e clorpirifos (organofosforado) – têm um efeito tóxico direto nas aves canoras que se alimentam de sementes.

“Os estudos sobre os riscos dos neonicotinóides têm incidido nas abelhas, cujas populações têm sofrido declínios. Contudo, não são só as abelhas que estão a ser afetadas por estes inseticidas”, disse Christy Morrissey, professora de biologia da Universidade de Saskatchewan, no Canadá.

“O que nos surpreendeu foi a rapidez dos efeitos, particularmente da imidacloprida”, contou a professora. “Os pássaros evidenciaram uma perda significativa de massa corporal e sinais de envenenamento agudo (letargia e perda de apetite). Os testes de migração mostraram que as aves não conseguiram orientar-se.”

“Foram observados efeitos com a ingestão do equivalente a apenas três ou quatro sementes de colza tratadas com imidacloprida ou oito grânulos de clorpirifos, por dia, durante três dias”, explicou Margaret Eng, investigadora que liderou o estudo.

Tico-tico-coroado | Foto: Logan Ward

Os neonicotinóides tornaram-se a classe mais popular de inseticidas entre os agricultores.

“Hoje em dia, os agricultores têm acesso a sementes que, em muitos casos, já estão revestidas com neonicotinóides”, contou Christy Morrissey.

“Os pássaros que fazem paragens durante a migração podem estar a comer estas sementes, mas também podem ingerir grânulos de clorpirifos, confundindo-os com areia, algo que comem habitualmente para ajudar a digerir as sementes.”

Juntamente com Margaret Eng, a professora expôs um grupo de tico-ticos-coroados, capturados durante a migração da primavera, a doses realistas de imidacloprida e clorpirifos, durante três dias.

Os resultados mostraram que os neonicotinóides alteraram a orientação migratória das aves e que os animais perderam até 25% das suas reservas de gordura e massa corporal.

“Estes químicos estão a ter um forte impacto nas aves canoras. Estamos a observar perdas de peso significativas e uma alteração considerável na orientação migratória das aves”, explicou Margaret Eng.

“Muitas aves migratórias de pequeno porte utilizam os terrenos agrícolas como zonas de paragem para reabastecer em voos longos. Estes inseticidas neurotóxicos são amplamente usados na América do Norte, mas os seus efeitos na capacidade migratória das aves ainda não tinham sido testados”, disse Bridget Stutchbury, investigadora da Universidade de York, que também colaborou no estudo. “Embora se pensasse que os neonicotinóides tinham uma menor toxicidade para os vertebrados, de facto mostraram-se mais nocivos para estas aves canoras do que os químicos organofosforados, que são mais antigos.”

Margaret Eng disse-se “encorajada” pelo facto de a maioria das aves ter sobrevivido após a cessação da dosagem. “Mas os efeitos que vimos foram suficientemente graves para que as aves provavelmente sofressem atrasos ou mudanças nas suas rotas de voo, que poderiam reduzir as suas hipóteses de sobrevivência ou causar a perda de uma oportunidade de reprodução.”

Para Morrissey, o estudo “poderá ter implicações importantes para as decisões sobre a regulamentação destes pesticidas. A imidacloprida e o clorpirifos são extremamente controversos relativamente à sua segurança para o ambiente ou para os seres humanos e está a ser considerada uma proibição da imidacloprida no Canadá, esperando-se que o governo federal tome uma decisão sobre este inseticida e o seu uso no Canadá em dezembro.”

The UniPlanet de 13 de novembro de 2017

Brasil libera quantidade até 5.000 vezes maior de agrotóxicos do que Europa

Avião joga agrotóxico em plantaçãoAvião joga agrotóxico em plantação

O debate sobre o uso de agrotóxicos ganhou um novo capítulo, e ele não é bom para o Brasil. Estudo inédito revelou o abismo que existe entre a legislação brasileira e a da União Europeia sobre o limite aceitável de resíduos na água e nos alimentos.

A contaminação da água é o que mais chama a atenção, com a lei brasileira permitindo limite 5.000 vezes superior ao máximo que é permitido na água potável da Europa.

No caso do feijão e da soja, a lei brasileira permite, respectivamente, o uso no cultivo de quantidade 400 e 200 vezes superior ao permitido na Europa.

Esses são os resultados do estudo “Geografia do Uso de Agrotóxicos no Brasil e Conexões com a União Europeia”, da pesquisadora Larissa Mies Bombardi, do Laboratório de Geografia Agrária da USP (Universidade de São Paulo).

“Infelizmente, ainda não é possível banir os agrotóxicos. Por isso, é importante questionar por que o governo brasileiro não usa parâmetros observados no exterior”, afirma Bombardi, para quem a permissividade em relação à água “é uma barbárie”.

Enquanto a União Europeia limita a quantidade máxima que pode ser encontrada do herbicida glifosato na água potável em 0,1 miligramas por litro, o Brasil permite até 500 vezes mais. O Brasil tem, segundo o estudo, 504 agrotóxicos de uso permitido. Desses, 30% são proibidos na União Europeia –alguns há mais de uma década.

Esses mesmos itens vetados estão no ranking dos mais vendidos. O acefato, tipo de inseticida usado para plantações de cítricos, é o terceiro da lista.

Uma nota técnica da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) citada no estudo de Lombardi mostra que o acefato causa a chamada “síndrome intermediária”. Entre os danos à saúde estão fraqueza muscular dos pulmões e do pescoço. Em crianças, o risco é mais acentuado. “A nossa legislação é frouxa no que diz respeito aos resíduos e à quantidade permitidos na União Europeia”, diz Bombardi.

Para Brian Garvey, da Universidade de Strathclyde, da Escócia, e orientador de Bombardi na pesquisa, as autoridades brasileiras “lavam as mãos da toxidade”.

Como resultado, o mapa aponta ainda que oito brasileiros são contaminados por dia, se levarmos em conta os números oficiais, que são subnotificados.

O estudo confirma a informação de que os trabalhadores rurais são as principais vítimas de contaminação, seguidos por quem vive em regiões próximas às plantações, sendo as áreas pulverizadas as mais suscetíveis. No Estado de São Paulo, 75% da área é pulverizada. O último elo da cadeia revela as consequências da contaminação por quem consome. “O agrotóxico não tem público-alvo”, afirma Lombardi.

Uma pesquisa da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) estima que, para cada caso registrado, 50 não o foram. O que significa que, entre 2007 e 2014, mais de 1 milhão de brasileiros foram intoxicados por agrotóxico –um quinto das vítimas é criança ou adolescente.

Para piorar, em 2015, o governo deixou de publicar os casos de intoxicação por agrotóxicos. Desde então, ficou mais difícil estudar os casos de vítimas intoxicados dentro e fora do trabalho, como nos casos de pessoas que moram em áreas pulverizadas.

Bombardi se refere aos casos de intoxicação como a “ponta do iceberg”. “A intoxicação representa 2% do total de problemas de saúde que podem acometer a sociedade. As doenças crônicas não são estudadas como deveriam.”

Procurada desde sábado (25), a assessoria de imprensa do Ministério da Saúde apenas respondeu que recebeu as dúvidas da reportagem na segunda-feira (27) e que até o final deste dia mandaria esclarecimentos.

A Anvisa, por e-mail, informou que “realiza a avaliação toxicológica dos agrotóxicos, antes de os mesmos serem registrados pelo Ministério da Agricultura” e que há uma série de restrições para registros de agrotóxicos no país, como nos casos que não haja antídoto ou tratamento eficaz no Brasil (leia a íntegra da nota ao final do texto).

Em relação à quantidade de resíduos presentes, a Anvisa afirmou que uma análise feita entre 2013 e 2015 mostrou que quase 99% das amostras de alimentos analisadas “estão livres de resíduos de agrotóxicos que representam risco agudo para a saúde”.

Consumo de agrotóxicos aumentou 194% em 15 anos

Desde 2008, o Brasil é o país campeão em uso de agrotóxicos. Consumimos 20% do que é comercializado mundialmente. Não bastasse, o manuseio não parou de crescer. Entre 2000 e 2014, o Brasil saltou de cerca de 170 mil toneladas para 500 mil, aumento de 194% em 15 anos.

Segundo o estudo, nos Estados do Rio Grande do Sul, Paraná, Goiás e Mato Grosso, o consumo do herbicida glifosato fica entre 9 kg e 19 kg por hectare. Análises feitas com animais mostraram que a exposição ao produto causou câncer de mama, necrose de células e reduziu o tempo de vida dos bichos.

Em setembro deste ano, a França anunciou que banirá o glifosato até 2022. “O primeiro-ministro [Edouard Philippe] decidiu que este produto será proibido na França –assim como todos os que se pareçam com ele e que ameaçam a saúde dos franceses”, disse o porta-voz Christophe Castaner em entrevista a um canal de televisão.

Mesmo em casos em que o agrotóxico é permitido lá e cá, a quantidade usada é menor, como é hoje o caso do glifosato, o líder brasileiro de vendas. Enquanto na Europa é permitido usar até 2 kg de glifosato por hectare, a média brasileira fica entre 5 kg e 9 kg. Entre 2009 e 2014, o consumo subiu 64%, de 118 mil toneladas para 194 mil. Em 2014, o Mato Grosso liderou as compras, seguido por Paraná e Rio Grande do Sul.

Lombardi aponta ainda que o aumento do uso de agrotóxicos não aumentou a produção de alimentos por hectare no Brasil. O crescimento do consumo do produto aconteceu em paralelo a um outro movimento: o aumento da concentração de terras e da plantação de produtos que usam grandes quantidades de herbicidas.

Em 2003, as fazendas declaradas com área superior a 100 mil hectares ocupavam 2% de todo o território destinado a imóveis rurais no país, em 2015, o número saltou para 18%. Em 13 anos, a área cultivada de soja aumentou 79% no Brasil.

O aumento da produção rural também ajuda a entender esse crescimento no consumo de agrotóxicos. Em 2014, os produtos básicos assumiram a liderança das exportações, com 48% do total. Dos dez produtos mais vendidos pelo Brasil no exterior, sete vêm do campo.

A pesquisadora aponta ainda a política de incentivos às empresas produtoras de agrotóxicos, que têm 60% de desconto no imposto relativo à circulação de mercadorias no Brasil, dentre outros benefícios.

De quem é a culpa?

Embora a lei brasileira seja permissiva, as autoridades tendem a jogar no produtor rural a culpa pelos casos de contaminação. Em audiência pública realizada na Comissão de Defesa do Consumidor da Câmara dos Deputados, em agosto de 2017, tanto o governo quanto a Anvisa atribuíram a contaminação por agrotóxicos à utilização inadequada.

O mesmo argumento foi usado pela coordenadora do Programa Nacional de Controle de Resíduos e Contaminantes do ministério, Rosana Vasconcelos, em reportagem da Agência Câmara: “Quando se depara com o problema de uma praga, de uma doença na sua cultura, ele [produtor] não quer saber se é permitido para o mamão, ele quer saber se mata aquela praga para ele não perder a produção”, afirmou.

Na mesma reportagem, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) informa que “o uso de agrotóxicos no Brasil está dentro dos padrões internacionais, mas reconheceu que há uma utilização equivocada que pode levar à contaminação”. Procurado, o Mapa pediu para enviar os questionamentos à Anvisa.

Leia a íntegra da nota da Anvisa:

“A Anvisa realiza a avaliação toxicológica dos agrotóxicos, antes de os mesmos serem registrados pelo Ministério da Agricultura. No Brasil, é  proibido o registro de agrotóxicos, seus componentes e afins:

– Para os quais no Brasil não se disponha de métodos para desativação de seus componentes, de modo a impedir que os seus resíduos remanescentes provoquem riscos ao meio ambiente e à saúde pública.

– Para os quais não haja antídoto ou tratamento eficaz no Brasil.

– Considerados teratogênicos, que apresentem evidências suficientes nesse sentido, a partir de observações na espécie humana ou de estudos em animais de experimentação.

– Considerados carcinogênicos, que apresentem evidências suficientes nesse sentido, a partir de observações na espécie humana ou de estudos em animais de experimentação.

– Considerados mutagênicos, capazes de induzir mutações observadas em, no mínimo, dois testes, um deles para detectar mutações gênicas, realizado, inclusive, com uso de ativação metabólica, e o outro para detectar mutações cromossômicas.

– Que provoquem distúrbios hormonais, danos ao aparelho reprodutor, de acordo com procedimentos e experiências atualizadas na comunidade científica.

– Que se revelem mais perigosos para o homem do que os testes de laboratório, com animais, tenham podido demonstrar, segundo critérios técnicos e científicos atualizados.

– Cujas características causem danos ao meio ambiente. No que se refere ao monitoramento dos resíduos de agrotóxicos, favor olhar o link na Anvisa .

Fonte – Thais Lazzeri, UOL de 27 de novembro de 2017

Glifosato foi autorizado por mais 5 anos na UE

Foto: Yves Herman | Reuters

O uso do glifosato foi autorizada por mais cinco anos na União Europeia, após dois anos e meio de reautorizações temporárias e de adiamentos de votações.

Os estados-membros votaram, no dia 27 de novembro, e o prolongamento do uso do glifosato foi aprovado por maioria qualificada: 18 países votaram a favor (Alemanha, Bulgária, Dinamarca, Eslovénia, Eslováquia, Espanha, Estónia, Finlândia, Holanda, Hungria, Irlanda, Letónia, Lituânia, Polónia, Reino Unido, República Checa, Roménia e Suécia), 9 opuseram-se (França, Bélgica, Grécia, Croácia, Itália, Chipre, Luxemburgo, Malta e a Áustria) e Portugal absteve-se.

A atual licença do glifosato terminava no dia 15 de dezembro de 2017.

“Estamos muito desapontados, vemos que aqueles que deveriam proteger o ambiente e a nossa saúde não estão a fazer o que deviam. (…) Estão a trair a confiança que os europeus depositaram neles e deixam-nos com mais cinco anos de glifosato a contaminar o ambiente, os nossos corpos e a nossa alimentação”, afirmou Franziska Achterberg, ativista da Greenpeace.

A Quercus lamenta, mas não se surpreendeu com o prolongamento da licença. “Infelizmente, o lobby da agricultura intensiva e industrial continua a ser mais forte. O que é notório nesta votação é que para a maioria dos países da UE são mais importantes os negócios do que o ambiente e a saúde das pessoas”afirmou João Branco, presidente da Quercus.

O partido Os Verdes (PEV) disse, em comunicado, que “o Governo português dever-se-ia ter oposto a tal pretensão, pois seria a posição que melhor defende as populações, o ambiente e a saúde pública. Com esta autorização do uso do glifosato por mais cinco anos, a UE demite-se de encontrar alternativas à utilização deste herbicida prejudicial.”

Em 2015, um estudo da Agência Internacional para a Investigação do Cancro (IARC) da Organização Mundial de Saúde (OMS) considerou o glifosato, o herbicida mais usado em Portugal, como um “carcinogénio provável”.

Fonte – The UniPlanet de 28 de novembro de 2017