Uso desenfreado de plástico ameça oceanos e saúde humana

Sacola de plástico no marUICN estima que 2% da produção total de plásticos acaba nas águas oceânicas

Desde 1950, 8,3 bilhões de toneladas de plástico foram produzidas no mundo. Cada pessoa utiliza, em média, 60 quilos do material por ano. Parte disso vai parar nos mares e entra na cadeia alimentar.

Do ponto de vista histórico, o plástico é um fenômeno muito novo. Em 1950, a produção global total do material foi de pouco mais de 2 toneladas. Em 2015, ou seja, apenas 65 anos depois, a produção foi de 448 milhões de toneladas.

Atualmente, utilizamos uma média global de aproximadamente 60 quilos de plástico por ano por pessoa. Nas regiões mais industrializadas – América do Norte, Europa Ocidental e Japão – a média é de mais de 100 quilos per capita.

Em um novo estudo, pesquisadores estimaram que cerca de 8,3 bilhões de toneladas de plástico foram fabricadas a partir de petróleo bruto desde 1950. Desse total, cerca de 30% permanecem em uso – em lares, carros ou fábricas. Outros 10% foram queimados.

Isso significa que 60% da quantidade total de plástico produzido até o momento leva uma existência obscura, seja em lixões ou descartado ao acaso. Globalmente, isso significa que existem cerca de 650 quilos de lixo plástico inutilizados.

Frequentemente esse plástico descartado vai parar nos oceanos. A União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN) estima que 2% da produção total de plásticos acaba nas águas oceânicas.

Uma vez nos mares, o plástico permanece ali por anos, já que não é biodegradável ou digerível. Normalmente, ele se fragmenta em pedaços cada vez menores. Alguns deles são engolidos por organismos marinhos, entrando em cadeias alimentares – algo prejudicial tanto para ecossistemas marinhos quanto para as pessoas que comem peixe.

“Estamos caminhando em direção a um planeta plástico”, disse o pesquisador da Universidade da Califórnia, Roland Geyer, coautor do novo estudo. Ele acrescenta que o crescimento global na produção de plásticos é “extraordinário e não dá sinais de que vá abrandar no curto prazo”.

Os pesquisadores estimam que, se as tendências atuais continuarem, até 2050 haverá cerca de 12 bilhões de toneladas de lixo plástico no mundo.

Fontes de microplásticos

Os microplásticos são partículas de plástico com um tamanho na faixa de micrômetros ou nanômetros (0.0001 a 0.0000001 centímetro). Abrasão e decomposição de resíduos plásticos no mar são fontes de microplásticos. Outra é a abrasão de plásticos em terra.

A maioria dos microplásticos é liberada por tecidos sintéticos, como fiapos. Cerca de 60% das roupas contêm fibras sintéticas, e essa proporção deverá aumentar, em parte porque as fibras sintéticas são baratas de se produzir.

Isso significa uma quantidade enorme de fiapos de plástico no mundo todo. De acordo com um estudo atual da União Europeia (UE), somente na Europa, as máquinas de lavar despejam cerca de 30 mil toneladas de fibras sintéticas no sistema de esgoto a cada ano. E algumas acabam no mar.

Tintas usadas para a marcação de rodovias e para evitar que os navios apodreçam também contribuem para o acúmulo de microplásticos nos oceanos. Pequenos pedaços de plástico desgastado de pneus e marcações rodoviárias são transportados pelo vento e pela água para córregos e riachos. Eventualmente, parte deles termina no mar.

Infografik Woher kommt das Mikroplastik in den Weltmeeren POR Infografik Woher kommt das Mikroplastik in den Weltmeeren POR

Ingestão de plástico

A menos que haja uma mudança, dentro das próximas três décadas a massa total de lixo plástico nos oceanos pode ser maior do que a de peixes. Os microplásticos são muito pequenos para serem vistos a olho nu. Mexilhões, vermes marinhos e peixes absorvem alguns desses pequenos fragmentos ao se alimentarem.

Uma vez que o plástico não pode ser digerido, ele se acumula nesses pequenos organismos, e quando predadores se alimentam deles, também ingerem o plástico. Assim como outros poluentes, os microplásticos ficam mais concentrados no topo da cadeia alimentar.

Estudos mostram que a ingestão de microplásticos pode ter efeitos adversos em vários animais marinhos. Esses efeitos incluem: chances reduzidas de reprodução; crescimento e locomoção mais lentos; bem como uma maior tendência à inflamação e maior mortalidade.

Cientistas ainda não sabem ao certo quais toxinas químicas são transferidas de plásticos para o meio ambiente ou para a carne de organismos marinhos. A pesquisa sobre os impactos ambientais e biológicos dos microplásticos marinhos continua engatinhando. O que se sabe é que uma pequena quantidade de microplástico é inevitavelmente absorvida por seres humanos quando comemos peixes ou crustáceos.

O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) emitiu uma declaração dizendo que os microplásticos não são considerados atualmente um risco significativo para a saúde humana. Ao mesmo tempo, no entanto, reconhece que poucos dados estão disponíveis e que mais pesquisas são necessárias.

Infografik Karte Woher kommt der Plastikmüll in den Weltmeeren? POR

Problema na agenda internacional

A poluição oceânica está agora na agenda internacional. No início de junho, em Nova York, a Conferência dos Oceanos da ONU tentou encorajar países-membros a apresentarem projetos e programas para proteger a saúde dos ecossistemas oceânicos.

O G20, grupo das maiores economias do mundo, também colocou a poluição oceânica em sua agenda com um plano de ação conjunta para reduzir o lixo marinho, também acordado em junho. Significaria isso que o problema está a caminho de ser resolvido?

“Se é para a Terra continuar sendo o planeta azul, temos que parar de sufocar os oceanos com lixo”, disse a ministra alemã do Meio Ambiente, Barbara Hendricks.

“A dimensão da inundação global de lixo se tornou inconcebivelmente enorme. Então, estou muito feliz com o acordo do G20 sobre um plano de ação conjunta”, comemorou. “Isso leva faz a proteção de nossos oceanos dar um grande passo adiante em termos de consciência global.”

Grupos ambientais apontaram o acordo como um bom começo. No entanto, o plano de ação do G20 não presta atenção suficiente às causas, dizem alguns.

“Os governos procuram respostas demais na reciclagem, mas deveriam ir até a raiz do problema: embalagens e produtos plásticos desnecessários não devem sequer ser produzidos”, diz Thilo Maack, biólogo marinho que trabalha para o Greenpeace na Alemanha.

Maack reconhece, contudo, que a reutilização e a reciclagem de produtos plásticos também são importantes. Na opinião dele, uma medida-chave para controlar o crescente fluxo de lixo plástico seriam instrumentos econômicos que incluem os custos ambientais no preço final.

“Se esses custos forem inseridos no preço final de produtos plásticos desde o início, o plástico será usado mais moderadamente, reutilizado e mais reciclado. E alternativas mais ecológicas [como embalagens biodegradáveis] se tornariam mais baratas em comparação”, afirma o biólogo.

Fonte – Gero Rueter, DW de 31 de de julho de 2017

Clique aqui para ler a matéria original e assistir os dois vídeos.

River of plastic trash is flooding our oceans

Plastik Müll im Meer (Getty Images/M.Clarke)

Plastic is useful – for packaging, tires, clothing, and much else. But 2 percent of plastics produced end up in the ocean. It enters the food chain – even reaching us. A new analysis highlights the scale of the problem.

From a historical perspective, plastics are a very new phenomenon. Total global plastics production in 1950 was just over 2 tonnes (2.2 tons) – that’s less than the weight of a single Dodge Durango sport utility vehicle. In 2015, just 65 years later – that is, over the span of less than a single human lifetime – global production amounted to 448 million tonnes.

We currently use a global average of about 60 kilograms (132 pounds) of plastic per year per person. In the most industrialized regions – North America, western Europe and Japan – that figure is more than 100 kilograms.

In a new study, researchers have estimated that about 8.3 billion tonnes of plastic have been manufactured out of crude oil since 1950. Of that total, about 30 percent remains in use – in households, cars or factories. A further 10 percent has been burned.

That leaves 60 percent of the total amount of plastic produced to date leading a twilight existence as rubbish, either tucked away in garbage dumps or discarded more haphazardly. Globally, this means there’s about 650 kilograms of plastic garbage per person – out there, somewhere.

And that somewhere is often the world’s oceans. The International Union for the Conservation of Nature (IUCN) estimates that 2 percent of total plastics production ends up in ocean waters.

Once there, plastic persists for years, since it’s not biodegradable or digestible. It typically fragments into ever-smaller pieces. Some of that is swallowed by marine organisms, entering into food webs – which is not good for marine ecosystems. Nor is it good for people who eat fish.

Infografik Global Ideas Plastik EN (DW)

“We’re heading toward a plastic planet,” said University of California researcher Roland Geyer, who co-authored the new paper. They are calling for more attention to the problem. He added that the global growth in plastics production is “extraordinary – and it doesn’t look like it’s going to slow down anytime soon.”

Researchers estimate that if present trends continue, by 2050 there will be around 12 billion tonnes of plastic garbage present in the world.

Plastics from textiles, traffic and cosmetics

Microplastics are plastic particles with a size in the micrometer or nanometer range (0.0001 to 0.0000001 of a centimeter).

Abrasion and disintegration of plastic waste into the sea is one source of microplastics. Another is the abrasion of plastics on land. Most microplastics are released by synthetic textiles, as lint. Around 60 percent of clothing contains synthetic fibers – and this proportion is expected to increase, in part because synthetic fibers are cheap to produce.

That makes for a lot of plastic lint worldwide. Studies have shown that from a single fleece jacket in a single wash cycle, up to a million tiny fiber fragments are released into a washing machine’s wastewater.

According to a current EU study, in Europe alone, washing machines rinse some 30,000 tonnes of synthetic fibers into the sewage system each year.

And as they wind their way downstream, some of those fibers end up in the sea.

Infografik Woher kommt das Mikroplastik in den Weltmeeren ENG

Paints for road-marking and to prevent ships from rotting also contribute to the entry of microplastics into oceans. Tiny bits of plastic abraded from tires and road markings are transported by wind and water into creeks and rivers. Eventually, some of this ends up in the sea.

More garbage than fish in the oceans?

Unless trends shift, within three more decades, the total mass of plastic junk swimming in the oceans may be greater than the total mass of fish.

Microplastic are too small to be seen with the naked eye. Mussels, marine worms and fish take in some of these tiny fragments as they go about feeding. Since plastics cannot be digested, this accumulates in such organisms – when predators feed on these smaller organisms, they also get the plastics. Like other pollutants, microplastics become more concentrated higher up the food web.

Studies have shown ingestion of microplastics can have adverse effects on various marine animals. These effects include reduced reproductive success, slower growth, and more sluggish movement, as well as greater tendency toward inflammation and increased mortality.

There isn’t enough information available yet to allow researchers to definitively pin down the nature and severity of such effects.

Infographic origin of plastic in oceans ENG

Scientists don’t yet know in detail which chemical toxins are transferred from plastics to the environment, or into the flesh of marine organisms. Research into the environmental and biological impacts of marine microplastics remains in its infancy.

What is known is that some small amount of microplastic is inevitably absorbed by human beingswhen we eat fish or crustaceans.

The United Nations Environment Program (UNEP) has issued a statement saying microplastics are not currently considered a significant risk to human health. Yet at the same time, it acknowledges that little data are available, and that further research is needed.

Problem recognized?

Ocean pollution is now on the international agenda. In early June in New York, the United Nations in its Oceans Conference aimed to encourage member countries to put forward projects and programs for protecting the health of ocean ecosystems.

A Greenpeace activist shows the flag at the G20 Marine Litter Conference in Bremen, Germany, June 2017 (Greenpeace/Daniel Müller )

Environmentalists are sounding the alarm about plastics in our oceans

The G20, or group of the world’s most weighty economies, has similarly put ocean pollution on their agenda with a shared action plan to reduce marine garbage, also agreed in June.

Does that mean the problem is on its way to being solved?

“If our Earth is to stay the blue planet, then we have to stop choking the oceans with garbage,” said German Environment minister Barbara Hendricks. “The dimension of the global flood of garbage has become inconceivably huge. So I’m very glad about the agreement of the G20 on a common action plan. This brings the protection of our oceans a big step forward in global consciousness.”

“We have to take action on a broad international basis.”

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Environmental groups have welcomed this agreement as a good step. Yet the G20 action plan pays insufficient attention to the causes, some say.

“Governments too often look for answers in recycling, but they should go at the root of the problem: Unnecessary plastic packaging and products shouldn’t be produced in the first place,” according to Thilo Maack, a marine biologist who works for  Greenpeace in Germany.

Yet Maack acknowledged that reuse and recycling of plastic products are important too.

In Maack’s view, a key measure to get a grip on the growing flood of plastic garbage would be economic instruments that put environmental costs into the price: “If those costs are priced into plastic products from the beginning, then plastic will be used more sparingly, reused and recycled more.

“And more environmentally friendly alternatives [like biodegradable packaging] would become cheaper in comparison,” Maack told DW.

Fighting the plastic flood

Plastikmüll am Strand Hawaii

Tons of trash – At least 8 million tons of plastic waste ends up in the world’s oceans every year, according to a report by the Ellen MacArthur Foundation. The report warns plastic trash will outweigh fish by 2050 unless drastic action is taken. Much of the floating trash collects in several large ocean vortices far from land. Beaches, like this one on Midway Island in the remote Pacific Ocean, also suffer.

Mola mola Sonnenfisch Plastiktüte

Addicted to plastic – The floating plastic isn’t just an eyesore: as it breaks down into smaller pieces, marine animals mistake it for food. A recent study by Uppsala University showed ingesting plastic can have devastating effects on fish, including stunted growth and increased mortality rates. Surprisingly, some fish even seem to prefer plastic. Plastic in fish is also suspected of posing health risks for humans.

Möwe mit Plastikmüll im Schnabel

Edible alternatives – The Ocean Conservancy estimates more than 690 species of marine animals have been affected by plastic pollution. In an effort to reduce the impact of all that waste, some companies have come up with alternatives. The Delray Beach craft brewery, in Florida, has developed edible six-pack rings from wheat and barley left over from the brewing process. It hopes to begin production in October.

Bran Teller Polen Teller aus Kleie essbar kompostierbar

Biodegradable packaging – As an alternative to single-use plastic packaging – which makes up a significant portion of the waste found in oceans – some companies have come up with biodegradable alternatives. At a plant in Poland, wheat bran is being used. According to inventor Jerzy Wysocki, the Biotrem packaging can be used in the oven or freezer, and will decompose in 30 days – or can simply be eaten. Extra fiber!

Chinesische Arbeiterinnen montieren Computermäuse aus Holz Bambus

Bamboo to the rescue? – Fast-growing bamboo is also an alternative to plastic – used to make everything from toothbrushes, shower curtains, utensils and even computer parts. Work at the Tonggu Jiangqiao Bamboo & Wood Industry Company, pictured here, started mass production of bamboo keyboards, mice and monitor casings in 2008.

Barriere im Meer Plastikmüll

Ocean skimmer – Alternatives may help reduce waste, but millions of tons of plastic still float around the world’s oceans – and will remain for centuries, slowly breaking down. Dutch foundation Ocean Cleanup aims to collect the trash with a 100-kilometer (60-mile) floating dam system that is supposed to trap plastic waste without harming fish and other sea creatures. It aims to install one in the Pacific by 2020.

Spanien, Unternehmen Ecoalf stellt Kleidung aus Plastikmüll her

From trash to fashion – Some of that plastic could be recycled and reused in other forms, becoming flower pots, home insulation or – in the case of Spanish firm Ecoalf – clothing. The Madrid-based clothing line takes plastic waste collected by 200 fishing boats in the Mediterranean, crushes it into flakes, and then creates polyester fibers – which in turn become fashionable jackets, backpacks and other items.

Ein aus Plastikflaschen gefertigter Fisch Brasilien Rio de Janeiro

Reduce, recycle … and reuse – Plastic waste can also be reused in its original form. At the United Nations Conference on Sustainable Development Rio +20 in 2012 – 20 years after the first World Oceans Day – giant fish made from plastic bottles were exhibited along the waterfront in Rio de Janeiro.

Fonte – Gero Rueter / Martin Kuebler, DW de 26 de julho de 2017

Captação de água da chuva economiza 60 mil litros por ano

Água da chuva é utilizada para banho e depois é aproveitada na irrigação do gramado – Foto: Divulgação ICMC

Pesquisador testa em sua própria casa sistema de automação que permite economia mensal de até R$ 300

O professor Eduardo Simões, do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da USP, em São Carlos, desenvolveu e instalou em sua casa um sistema inteligente de automação residencial para aproveitar a água da chuva. Com capacidade de armazenamento de 5 mil litros, o sistema tem como principal inovação o duplo reúso: é possível encher a banheira com a água da chuva aquecida por aquecedor solar e, após o banho, uma canalização leva a água do ralo da banheira para os sprinklers (dispositivos de irrigação) do jardim. A instalação do sistema teve custo aproximado de R$ 4 mil e permite uma economia de quase 60 mil litros de água durante o ano, além de uma redução mensal de até R$ 300 na conta de água.

Simões conta que o sistema é fruto de uma combinação de projetos de iniciação científica de mais de dez alunos de graduação que ele supervisionou. “Ele utiliza calhas coletoras da água da chuva nos beirais do telhado, sistema de filtração, cisterna subterrânea de 5 mil litros para armazenamento e uma bomba elétrica para elevar a água até a caixa d’água do telhado”, descreve. “A partir da caixa d’água, a água é distribuída para descarga nas privadas e para várias torneiras no jardim, na lavanderia, entre outros pontos da casa. Dá até mesmo para encher a banheira com a água da chuva.”

A água da chuva é armazenada em uma cisterna, uma caixa d’água normal adaptada para ser enterrada, de modo a reduzir custos, e coberta por uma laje de alvenaria feita com material que sobrou da obra da casa. “Como chove muito no verão e pouco no inverno, não é necessária uma capacidade de mais do que 5 mil l no verão e no inverno seriam necessários mais de 100 mil l se não fosse realizado o uso inteligente da água”, afirma o docente do ICMC.

O professor explica que a água da banheira, depois do banho, é utilizada para irrigação do jardim, pois o ralo da banheira leva direto aos sprinklers. “Isso consiste no duplo reúso da água da chuva”, ressalta. “Porém, a cidade de São Carlos, onde fica a casa, possui um clima de cerrado e chove muito pouco durante o inverno. Sendo assim, é preciso utilizar esses recursos com inteligência, e por isso o sistema inteligente de automação residencial é muito importante para economizar a água de irrigação do jardim.”

Irrigação

O sistema possui um computador central RaspberryPi , que utiliza o sistema operacional Linux, conectado a vários microcontroladores Arduino e uma câmera. “A câmera coleta imagens do gramado, que são analisadas por uma rede neural artificial embarcada, a qual detecta quais as regiões que precisam ser molhadas pela tonalidade do verde”, aponta Simões. “Os Arduinos, espalhados em diversos pontos estratégicos do jardim, para coletar dados dos sensores de umidade e controlar os motores dos sprinklers, verificam a umidade e a decisão de irrigar ou não o gramado é tomada.”

De acordo com o professor, antes dos sprinklers serem acionados, o sistema consulta na internet a previsão do tempo para os próximos três dias. “Com esses dados, analisa-se a situação: se a probabilidade de chuva é maior que 90%, o sistema não molha; se é baixa, a irrigação é acionada”, destaca. “Se é difícil prever se vai chover, o que acontece com frequência, o sistema irá molhar somente um pouco, para que a grama sobreviva mais alguns dias até que possa se saber com boa precisão se chove ou não.”

Teste do protótipo do chafariz robótico que usa água da chuva para irrigação – Foto: Divulgação / ICMC

Quando a irrigação é acionada, os sprinklers robotizados, desenvolvidos especialmente para o projeto, são controlados pelos Arduinos e direcionam o jato somente para a área que precisa ser irrigada, com precisão de um metro quadrado. “Isso faz com que a água coletada das escassas chuvas de inverno seja suficiente para manter o jardim em um ‘modo de sobrevivência’ até que volte a chover com abundancia em outubro”, enfatiza Simões. O funcionamento do dispositivo para irrigação é descrito no Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) de Tiago Vilela Tapparo, apresentado no ICMC em novembro do ano passado.

Como o sistema tem baixo custo de instalação, as despesas são cobertas por recursos do próprio professor. A calha custou R$ 500, a cisterna R$ 1.500 (mão de obra incluída), a caixa d’água extra para água da chuva R$ 300, os dispositivos eletrônicos e processadores R$ 400 (o computador central custou R$ 150), o encanamento R$ 400, os sprinklers e servomotores R$ 400, e o material de consumo e outros itens R$ 300. O sistema permite uma economia de cerca de R$ 300 na conta de água nos meses de inverno e de cerca de R$ 120 nos meses de verão.

slideCalhas coletoras da água da chuva ficam localizadas nos beirais do telhado da casa – Foto: Divulgação / ICMC

slideCisterna que recebe a água da chuva fica enterrada na frente da casa – Foto: Divulgação / ICMC

slideNa cisterna, entrada de água coletada no telhado é direcionada de baixo para cima, de modo a não perturbar a decantação – Foto: Divulgação / ICMC

slideCaixas d’água no telhado recebem a água que é bombeada da cisterna – Foto: Divulgação / ICMC

slideCircuito para coleta de dados do sensor de umidade (instalado no gramado) e controle da válvula de água – Foto: Divulgação ICMC

slideComputadores usados para configurar o sistema que controla o processamento de imagem da grama – Foto: Divulgação / ICMC

slideImagem do esquema elétrico do circuito para coleta de dados do sensor de umidade no gramado e controle da válvula de água – Foto: Divulgação / ICMC

Fonte – Júlio Bernardes, Jornal da USP de 05 de julho de 2017

Aquíferos, o declínio invisível

Foto: teraambiental.com.br

Os aquíferos estocam 10,5 milhões de km3 de água doce em estado líquido, o que representa 30,1% dessa fonte fundamental de vida terrestre no planeta [I]. O declínio e a poluição de grande parte deles é um dos aspectos mais preocupantes, a curto prazo, da crescente escassez hídrica, agravada pelo controle corporativo da água, tema abordado no artigo aqui publicado em 22 de maio último. Trata-se do aspecto talvez o mais preocupante não apenas por causa da rapidez desse declínio, mas também porque aquíferos alimentam rios e lagos, reciclam a água, além de funcionarem como uma reserva estratégica, crucial durante períodos de pouca ou nenhuma precipitação de chuva, tais como os que assolam hoje muitas regiões do planeta. E as mudanças climáticas, ao agravarem as secas nas latitudes áridas e semiáridas, impulsionam ainda mais a extração de água dos aquíferos, num típico círculo vicioso. Mas, sobretudo, preocupa o fato de que, ao contrário do que ocorre nas águas superficiais, o declínio e a poluição dos aquíferos são processos silenciosos e de difícil monitoramento, o que favorece o descontrole de seu consumo e de sua poluição, sobretudo pela indústria e pelo agronegócio, e pega de surpresa as populações que deles se servem.

Segundo uma estimativa proposta em 2010, os reservatórios subterrâneos de água no mundo todo – muitos deles fósseis, isto é, com baixa ou nenhuma recarga – fornecem cerca de 43% da água anualmente usada para irrigação agrícola. Os países com uso mais intensivo de aquíferos para a agricultura são a Índia, a China e os EUA, mas seu uso está crescendo em geral, seja em termos absolutos, seja em porcentagem da irrigação total, muitas vezes com usos que excedem a capacidade de recarga [II]. A figura abaixo, extraída do Relatório da ONU de 2015 (World Water Development Report) sobre o uso de aquíferos em sete países, com uma população de quase metade da população global, mostra a intensificação do uso dos aquíferos entre 1940 e 2010, em bilhões de m3 por ano:

Foto: Reprodução

De forma geral, os aquíferos fornecem 33% do consumo humano de água e dois bilhões de pessoas têm neles sua fonte primária de água[III]. Essas estimativas foram reiteradas em 2014 num trabalho de grande impacto sobre a crise global desses grandes reservatórios subterrâneos de água, de autoria de Jay S. Famiglietti, cientista Senior do Jet Propulsion Laboratory da NASA e professor da cadeira de Earth System Science da University of California, Irvine. Nesse trabalho, Famiglietti afirma: [IV]

“Bombeia-se água de aquíferos a taxas muito maiores que sua capacidade de recarga, de tal modo que muitos dos maiores aquíferos em vários continentes estão sendo esvaziados de modo irreversível. Entre estes se contam os aquíferos da Planície do Norte da China, o Bacia Canning da Austrália, o Sistema Aquífero do Noroeste do Saara, o Aquífero Guarani da América do Sul, os aquíferos norte-americanos chamados High Plains e Central Valley, bem como os aquíferos sob o NO da Índia e sobre o Oriente Médio. Praticamente todos eles se encontram sob regiões fortemente agrícolas e são primariamente responsáveis por sua alta produtividade”.

As mensurações do satélite GRACE (Gravity Recovery and Climate Experiment) da NASA dão uma ideia precisa do declínio desses sete aquíferos, entre os maiores do mundo, durante o período 2002-2013:

Foto: ReproduçãoImagem: J. T. Reager, NASA Jet Propulsion Laboratory, California Institute of Technology, USA.

As mensurações do satélite GRACE não são isentas de incertezas e podem ter eventualmente superestimado as perdas do aquífero do NO da Índia [V]. Mas é indubitável que esses seis aquíferos estão sendo superexplorados. E não apenas eles. Segundo o Water Resources Research, mais da metade dos 37 maiores aquíferos do mundo ultrapassaram seus pontos críticos (tipping points), o que significa que deles se extraiu mais água do que neles foi reposta durante a década de observação (2003-2013). E isso ocorreu justamente, e não por acaso, nas áreas com maior densidade demográfica do planeta, conforme mostram as zonas em amarelo, laranja e vermelho no mapa abaixo [VI].

Foto: Reprodução

A advertência de James Famiglietti, no artigo citado, é inapelável: “dado que o déficit entre suprimento e demanda é rotineiramente coberto por água subterrânea não renovável, e tanto mais durante períodos de secas, os suprimentos de água subterrânea em alguns aquíferos maiores esgotar-se-ão em questão de décadas”. O autor propõe medidas de mitigação dessas perdas e conclui: “Os aquíferos em vias de esgotamento implicarão declínios maiores na produtividade agrícola e na geração de energia, com potencial para disparadas nos preços dos alimentos, com seus profundos desdobramentos econômicos e políticos”. E tanto mais num mundo ainda em grande expansão demográfica, com 7,5 bilhões de pessoas em abril de 2017, 8 bilhões em 2024, 8,5 em 2030, 9 em 2042 e 9,7 em 2050, segundo as últimas estimativas da ONU.

Como todos sabem, o Brasil é o país com as maiores reservas de água subterrânea do mundo. Mas é ilusório acreditar que a questão do declínio dos aquíferos passa longe de nós. Em primeiro lugar porque o SAGA, o Sistema Aquífero Grande Amazônia (que congrega o Alter do Chão), situa-se a muitos milhares de quilômetros das regiões mais próximas da costa leste do país, onde se concentra nossa população. Em segundo lugar porque o Aquífero Guarani, que se estende pelo sudeste e sul da América do Sul, embora gigantesco, não é todo aproveitável, seja porque parte de suas águas é salina, seja porque muito profundas. E em terceiro lugar porque ele não apenas está em declínio quantitativo como em degradação qualitativa por causa da poluição por agrotóxicos como diurom e haxazina [VII], e por contaminação em geral das águas superficiais.

[I] Dos 23,4 milhões de km3 de água em estado líquido estocada em aquíferos, 12,87 milhões de km3 são água salina. Cf. “The World’s Water”, USGS <https://water.usgs.gov/edu/earthwherewater.html>.

[II] Cf. Siebert, S., Burke, J., Faures, J. M., Frenken, K., Hoogeveen, J., Döll, P., and Portmann, F. T.: “Groundwater use for irrigation – a global inventory”, Hidrology and Earth System Sciences, 14, 1863-1880, 12/X/2010: “Avalia-se o uso total de água subterrãnea para irrigação em 545 km3/ano ou 43% do total de 1.277 km3 / ano” Seguem-se aqui os critérios adotados por esse inventário para a definição do que se entende por água subterrânea (groundwater): “Distinguimos três possíveis tipos de água: água subterrânea, água superficial e fontes não convencionais de água. Considera-se água subterrânea a água extraída de aquíferos por meio de poços e de fontes (springs). Define-se água superficial, a água extraída diretamente de rios, lagos e reservatórios ou alagados (wetlands), enquanto as fontes não convencionais de água são água de reuso (treated wastewater) e a obtida por dessalinização”.

[III] Cf. Payal Sampat, “Deep Trouble: The Hidden Threat of Groundwater Pollution”. World Watch Paper 154, XII/2000.

[IV] Cf. J. S. Famiglietti, “The global underwater crisis”, Nature Climate Change, 4, 945-948, 29/X/2014.

[V] Cf. Di Long et al., “Have GRACE satellites overestimated groundwater depletion in the Northwest India Aquifer?” Scientific Reports, 6, 14/IV/2016.

[VI] Cf. Todd C. Frankel, “Nasa data shows the world is running out of water”. The Independent, 17/VI/2015.

[VII] Cf. “Estudo mostra que o Aquífero Guarani está contaminado por agrotóxicos”. Ecodebate, 19/V/2011. Diurom e haxazina são ingredientes de agrotóxicos utilizados na cultura da cana-de-açúcar. O artigo adverte que “se o mesmo ritmo de extração for mantido, o uso da água do Aquífero Guarani pode se tornar inviável nos próximos 50 anos em Ribeirão Preto”.

Luiz Marques é professor livre-docente do Departamento de História do IFCH /Unicamp. Pela editora da Unicamp, publicou Giorgio Vasari, Vida de Michelangelo (1568), 2011 e Capitalismo e Colapso ambiental, 2015, 2a edição, 2016. Coordena a coleção Palavra da Arte, dedicada às fontes da historiografia artística, e participa com outros colegas do coletivo Crisálida, Crises SocioAmbientais Labor Interdisciplinar Debate & Atualização (crisalida.eco.br).

Fonte – Jornal da UNICAMP de 29 de maio de 2017

A crise global da água

(Ilustração de Benjamin Chasteen/Epoch Times)(Ilustração de Benjamin Chasteen/Epoch Times)

Em vez de sustentar a vida, a água está se tornando um símbolo de escassez, poluição e conflito

Água é vida. A água é o novo petróleo. Água é poder.

A água potável que sustenta a vida está sumindo. Ela está se tornando um recurso cada vez mais escasso em todo o mundo devido ao uso excessivo e à poluição. À medida que essas questões se intensificam, focos de tensão que já existem irão crescer e isso afetará a todos nós.

Alguns dizem que a água é o novo petróleo. Mas, ao contrário do petróleo, a água é essencial para a sobrevivência.

Uma observação aprofundada na situação da água do planeta revela que nas próximas décadas, todos os países, incluindo os Estados Unidos, terão que determinar como tratar a água como um bem econômico, um direito humano e um recurso esgotável.

Um olhar atento sobre três áreas-chave – Estados Unidos, Oriente Médio e China – mostra uma gama de desafios.

A América é simultaneamente rica em água e vive uma seca prolongada. Os casos de água potável contaminada estão aumentando, assim como as tensões com seus vizinhos sobre os recursos hídricos compartilhados.

Em 2025, estima-se que dois terços da população mundial viverão em áreas estressadas pela água, concentradas no Oriente Médio, Norte da África e Ásia Ocidental, de acordo com o World Resources Institute (WRI). A escassez de água, agora reconhecida como um fator fundamental que contribui para a guerra na Síria, quase certamente criará mais conflitos e mais refugiados.

A China, a nação mais populosa do mundo, é também a pior poluidora de água do mundo. Depois de décadas de políticas comunistas de desenvolvimento baseadas no slogan maoísta de “fazer a alta montanha curvar seu cume, fazer o rio gerar o caminho”, a gigante nação está ficando sem água potável e sem opções.

Reconhecendo que a água potável não poderia mais ser considerada um recurso renovável, as Nações Unidas declararam em 2010 que o acesso à água potável e ao saneamento é um direito humano. E foi incluído nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU, aprovados por todos os 193 Estados-membros no ano passado, um compromisso para garantir o acesso universal à água potável até 2030. O Banco Mundial estima que isso exigirá mais de 1,7 trilhão de dólares para alcançar.

Tentar pintar um quadro do estresse hídrico em toda a América do Norte é complicado, enquanto a poluição, a seca e as disputas fronteiriças desempenham um papel. As questões vão desde a deterioração da infraestrutura em Nova York até o esvaziamento de aquíferos no Centro-Oeste.

Tensões nas fronteiras

EUA-Canadá

Os Estados Unidos são uma região de “alto estresse” segundo o WRI, enquanto o Canadá é uma região de “baixo estresse”.

No Canadá, que tem 20% da água potável do mundo, é um tabu para os políticos sequer sugerirem o apoio a exportações de grandes volumes de água.

No entanto, restrições ambíguas ao comércio de água do Canadá podem expô-lo a acusações de violar as regras do Tratado de Livre Comércio da América do Norte (NAFTA), que impede os países de tratar as empresas nacionais mais favoravelmente do que as empresas estrangeiras. O Canadá pode assim ser forçado a exportar em massa, à medida que a situação da água global, e particularmente a estadunidense, se torna mais desesperadora.

Gary Doer, ex-embaixador canadense nos Estados Unidos, previu em 2014 que nos próximos dois anos as disputas EUA-Canadá sobre a água se tornarão tão intensas que fará com que os atritos a respeito do oleoduto Keystone XL “pareçam ridículos”.

EUA-México

Dois grandes recursos hídricos, o Rio Colorado e o Rio Grande, são compartilhados pelos Estados Unidos e o México. Os tratados definem a quantidade de água atribuída a cada país a partir dessas fontes. Mas a escassez do fornecimento do México nos últimos anos tem irritado algumas partes interessadas estadunidenses, que afirmam que o México prioriza seu próprio uso da água enquanto os EUA priorizam as entregas acordadas e destinadas ao México.

Por outro lado, as partes interessadas mexicanas se mostraram irritadas no passado por entregas de água de baixa qualidade dos EUA que eram inadequadas para beber ou uso agrícola. A água é “entregue”, liberando-a em reservatórios e limitando o quanto é desviado para o uso em cada país.

Comunidade versus corporações

Propostas de instalações de engarrafamento de água têm enfrentado resistência da comunidade em toda a América do Norte. McCloud, na Califórnia, é um exemplo de uma pequena cidade com uma fonte de água pura cobiçada pela Nestlé, uma das maiores empresas de engarrafamento, que possui 56 marcas.

A proposta inicial da Nestlé em 2003 era construir a maior fábrica de engarrafamento do país (93 mil metros quadrados), que extrairia enormes volumes de água da bacia hidrográfica de McCloud durante 50 anos. Isso também resultaria em centenas de caminhões circulando pela cidade diariamente para transportar a água enquanto criariam poluição do ar e sonora. Por fim, a empresa reduziu o seu plano e, em 2009, finalmente desistiu do projeto, após seis anos de resistência local.

O porta-voz da Nestlé, Christopher Rieck, afirmou por e-mail que a água engarrafada é uma fonte confiável de água potável em caso de emergência. Além disso, ele disse que o uso da água para engarrafamento não é diferente de “outros na indústria que usam a água para produzir alimentos, bebidas e manufaturados”.

A Associação Internacional da Água Engarrafada observa que a água engarrafada representa apenas uma minúscula parcela do uso da água nos Estados Unidos, ou, por exemplo, 0.02% de toda a água usada na Califórnia anualmente.

Poluição

A poluição da água não se limita a torneiras em Flint, Michigan, mas é um problema nacional. Enquanto a água da torneira tem dominado as manchetes, um estudo do Environmental Working Group com amostras de água coletadas ao longo de cinco anos encontrou mais de 300 poluentes, dois terços dos quais são “substâncias químicas não regulamentadas”, na água da torneira dos EUA. As vias fluviais são submetidas a produtos químicos provenientes de escorrimento agrícola e vazamentos de sistemas sépticos, de tal forma que 40% dos rios e 46% dos lagos da América estão muito poluídos para a pesca, a natação ou a vida aquática.

Uso excessivo da irrigação

A agricultura usa cerca de 80% da água consumida na América e mais de 90% nos estados do oeste americano.

A irrigação suprida pelo Aquífero Ogallala, que se estende por oito estados desde a Dakota do Sul até o Texas, alimenta mais de um quarto de toda a área irrigada nos Estados Unidos usada para gado, milho, algodão e trigo. É o que fez o Centro-Oeste do país ser chamado de “celeiro da América”.

Mas o Ogallala é um excelente exemplo de uma fonte de água, outrora considerada infinita, que agora mostra sinais de grande tensão devido à drenagem insustentável. Em 1960, ele estava esgotado em 3%; até 2010, ele foi reduzido em 30%. Em outros 50 anos, 69% terá desaparecido, se as tendências atuais continuarem, dizem pesquisadores da Universidade Estadual do Kansas (KSU).

Os esforços de conservação estão começando, mas não são soluções rápidas. “Uma vez esgotado, o aquífero levaria uma média de 500 a 1300 anos para se reabastecer”, segundo o modelo da KSU apresentado em seu relatório.

Infraestrutura envelhecida

Infraestrutura deteriorada no abastecimento de água é um problema em todo o país. De acordo com a Agência de Proteção Ambiental dos EUA, cerca de 240 mil interrupções de água ocorrem por ano no país. Existem cerca de 75 mil esgotos sanitários descarregando bilhões de litros de águas residuais não tratadas, contaminando as águas recreativas e causando cerca de 5.500 casos de doenças. A infraestrutura de água potável exigirá mais de 384 bilhões de dólares em 20 anos para continuar a fornecer água potável para a população.

Seca

A Califórnia está em seu sexto ano de seca severa. Juntamente com outras políticas de conservação, em abril de 2015, o governador Jerry Brown anunciou as primeiras restrições obrigatórias do estado sobre a água potável, visando uma redução de 25%.

A seca também está afetando as regiões Sudeste e Nordeste, na medida em que quase 47% da população está agora sendo afetada; e espera-se outro inverno seco.

Soluções

Eficiência e conservação

A Califórnia é um dos estados mais atingidos pela seca, mas Los Angeles foi nomeada a segunda cidade mais eficiente do mundo (depois de Copenhague), de acordo com o Índice de Cidades Sustentáveis em Água ​​de 2016, da consultoria Arcadis. São Francisco também está bem posicionada. Ambas as cidades possuem altos níveis de reutilização.

A conservação também é uma solução importante. Regulamentos de medição na Califórnia e ferramentas para identificar o desperdício de água tiveram um grande impacto nisso.

A reciclagem de águas residuais é muitas vezes a solução mais rentável para o estresse hídrico.

Cynthia Lane, diretora de engenharia e serviços técnicos da American Water Works Association, é uma grande defensora da reciclagem de águas residuais para água potável, embora ela tenha notado que “o público em geral não está exatamente interessado em águas residuais tratadas”.

A dessalinização enfrenta mais complicações devido a licenças legais, disse Lane, porque ocorre na costa. O custo do descarte dos resíduos da água salgada também pode ser elevado, explicou Schneider. As importações em massa são outra solução e cada região tem que determinar por si mesma o que é mais benéfico em termos de custos econômicos, sociais e ambientais, disse Lane.

Para quem não vive na região, as questões do Oriente Médio parecem girar em torno da guerra, do petróleo e dos direitos humanos. Mas para quem vive na região, é conhecimento comum que a água é tão fundamental para a estabilidade como para a prosperidade. Oito dos dez países do mundo mais “estressados ​​por água” estão no Oriente Médio. Eles estão sujeitos à desertificação, desaparecimento de lençóis freáticos, secas de vários anos, disputas internacionais sobre direitos de água e práticas deficientes de uso da água; tudo isso agrega volatilidade a uma região já tensa.

Água e política

No Oriente Médio, água e política estão intimamente ligadas. Os acordos transfronteiriços típicos tratam a água como um recurso divisível. Mas de acordo com o economista de recursos naturais David B. Brooks, embora os acordos possam ajudar a prevenir conflitos no curto prazo, eles não garantem a gestão sustentável e equitativa da água no longo prazo.

Como é o caso do conflito israelense-palestiniano. Durante o verão quente de 2016, quase 2,8 milhões de residentes e líderes locais árabes na Cisjordânia reclamaram repetidamente de terem sido negados o acesso à água potável. Israel culpa os palestinos por não se sentarem para negociar como atualizar a infraestrutura defasada. De acordo com os acordos de Oslo, Israel controla os recursos hídricos. Um comitê conjunto israelense-palestino destinado a trabalhar nestas questões não se reúne há mais de cinco anos.

Essa complexa sobreposição de política e necessidades humanas básicas é semelhante em grande parte do Oriente Médio.

Bacia do Rio Jordão

O sistema do Rio Jordão, que flui através do Líbano, Síria, Israel, Cisjordânia e Jordânia, é um dos focos de constante conflito entre Estados locais a respeito da água. Ele tem sido uma fonte de tensão entre Israel e os Estados árabes há mais de 60 anos.

Em 1953, Israel iniciou o projeto Transporte Nacional de Água, uma rede de dutos de 130 quilômetros para transportar água do mar da Galileia, no norte, até o Deserto do Negev, no sul. Uma década mais tarde, quando o megaprojeto estava completo, a Síria tentou bloquear o acesso de Israel às grandes reservas dessa água por meio do Plano de Desvio da Cabeceira. Israel atacou esses esforços de desvio, que provou ser um fator-chave que levou à Guerra dos Seis Dias em 1967.

Pobreza de água

A capacidade dos líderes ​​de atender às necessidades básicas de água pode ser frustrada por conflitos, o que aumenta a pressão sobre situações já difíceis.

A Organização Mundial de Saúde estabelece o acesso mínimo à água diária por pessoa em cerca de 7,5 litros por dia. Muitos descrevem a existência humana abaixo deste limite como “pobreza de água”.

A demanda de volume de água mais que duplica numa emergência, como numa guerra. Para manter a higiene pessoal e lidar com alimentos corretamente, muito mais água é necessário por indivíduo: cerca de 20 litros por dia. O número sobe para lavar roupas e tomar banho.

Iêmen em perigo

Embora tecnicamente o Yemen não seja tão estressado por falta d’água quanto muitos de seus vizinhos, ele tem um problema especial: sua capital Sanaa e outras cidades estão em perigo iminente de ficar sem água. As estimativas variam entre um ano e uma década, se nada for feito.

A maior parte da água no Iêmen vem de aquíferos subterrâneos. Os métodos tradicionais de irrigação baseavam-se nessa água numa taxa sustentável, mas uma crescente população urbana e a preferência por culturas de cultivo mais intensivas em água (particularmente qat, um narcótico brando) estão fazendo com que a água do país aprofunde-se cerca de 2 metros por ano.

Os problemas de água do país foram exacerbados pela guerra civil e pelo desastre humanitário em curso. Três quartos da população, cerca de 20 milhões de pessoas, não têm acesso à água potável e/ou saneamento adequado.

O termo “refugiados da água” tem sido usado para descrever o que poderia ocorrer aos 2,9 milhões de habitantes da capital se a situação atual continuar.

Síria: seca e guerra civil

O Oriente Médio ainda não viu uma guerra explicitamente em função da água, mas a escassez de água agravou outros fatores que geram conflitos.

Enquanto a guerra devastadora na Síria é agora um problema global, a conexão entre conflito e seca só recentemente entrou na consciência geral.

De 2006 a 2010, a Síria foi atingida por uma seca épica, a pior em 900 anos. Ela devastou o gado, inflacionou os preços dos alimentos e empurrou cerca de 1,5 milhão de agricultores de suas terras secas para as cidades. O afluxo de refugiados da água, bem como o elevado desemprego e outras tensões, intensificaram a agitação civil que eventualmente levou à guerra civil, de acordo com conclusões recentes de especialistas.

A crise foi em parte criada por uma política mal concebida 30 anos antes. Na década de 1970, o presidente Hafez al-Assad (pai do atual presidente Bashar al-Assad) decretou que a Síria deveria ser autossuficiente em termos agrícolas. Os agricultores cavaram poços mais e mais profundos para acessar os lençóis freáticos do país, até que eventualmente os poços secaram.

Soluções

Gerenciamento da água

Pobres práticas de gestão da água criaram pelo menos alguns dos problemas da água na região, mas muitos especialistas concordam que abordagens mais inteligentes poderiam ajudar a reverter alguns desses efeitos. Por exemplo, estudos são necessários para determinar o número de animais que a terra pode suportar. A conservação poderia ser incentivada por meio do emprego do conceito de custo da água. Na Síria, um projeto experimental de irrigação por gotejamento se popularizou rapidamente depois que os agricultores viram que poderiam usar 30% menos água para obter 60% mais produção.

Dessalinização

A dessalinização faz parte da solução há mais de 50 anos no Oriente Médio. Dado que 97% da água do planeta é água salgada, é uma opção atraente, mas tem suas desvantagens. Por um lado, é altamente intensiva em energia, portanto, a maioria das fábricas foi construída em países ricos em petróleo como a Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Kuwait e Bahrein. Por outro lado, o sal que fica para trás no processo, frequentemente é despejado de volta no oceano, prejudicando a vida marinha.

Pesquisadores israelenses desenvolveram recentemente um sistema muito mais eficiente chamado dessalinização por osmose reversa, que usa membranas com poros microscópicos que permitem a passagem da água mas não das moléculas maiores de sal. O sistema foi revolucionário para Israel, e fornece agora 55% da água da nação.

De acordo com o budismo, os quatro elementos (água, fogo, ar e terra) compõem tudo no cosmos. No entanto, um dos quatro elementos tem sido tão maltratado na China que atualmente um quarto da população do Reino do Meio não tem acesso à água potável.

Poluição generalizada

Relatórios oficiais na China geralmente tentam evitar que o regime crie uma má impressão. Mas quando se trata do estado terrível dos recursos hídricos da China, pouco pode ser dito de positivo.

As autoridades estimam que cerca de 80% das águas subterrâneas da China não são aptas para beber, e 90% das águas subterrâneas nas áreas urbanas estão contaminadas. Eles classificam quase dois quintos dos rios da China como sendo inadequados para o uso agrícola ou industrial.

Mais de 360 ​​milhões de pessoas, ou cerca de um quarto da população do país, não têm acesso à água limpa.

Desde 1997, disputas de água resultaram em dezenas de milhares de protestos a cada ano.

As principais fontes de poluição da água na China vêm da fabricação de produtos químicos, fertilizantes, papel e vestuário.

De acordo com um relatório oficial, 70% dos rios e lagos da China estão tão poluídos que não conseguem sustentar a vida marinha. A poluição no Yangtzé, o rio mais longo da China, causou a extinção do golfinho baiji, um mamífero nativo apenas do Yangtzé.

O segundo maior rio, o Rio Amarelo, é conhecido como o berço da civilização chinesa. Ele também é chamado de “Rio das Aflições” por causa de sua história de inundações devastadoras. Hoje, essa tristeza se refere a um tipo diferente. As 4 mil fábricas petroquímicas em suas margens poluíram suas águas além da recuperação.

Escassez de água

A China é um dos países ​​do mundo mais estressados por água. A China tem um quinto da população mundial, mas menos de 7% da água potável.

A maior parte dessa água, cerca de 80%, é encontrada no sul do país. No entanto, o norte da China concentra a maior parte da agricultura e manufatura do país, além de grandes centros populacionais como a capital Pequim.

Enquanto um mapa pode mostrar centenas de rios e riachos fluindo para Pequim, no solo real praticamente todos secaram. Nos anos 80, as águas subterrâneas de Pequim eram consideradas inesgotáveis, mas sendo bombeadas mais rapidamente do que podem ser repostas, elas já retrocederam mais de 305 metros de profundidade nos últimos 40 anos.

Em 2005, Wang Shucheng, um ex-ministro de recursos hídricos, previu que Pequim ficaria sem água em 15 anos.

Projeto de Transferência de Água Sul-Norte

A tentativa do regime de corrigir a escassez de água no norte é o Projeto de Transferência de Água Sul-Norte, um sistema de canalização que percorre cerca de 4345 quilômetros, ou o equivalente a transportar água de Nova York até Los Angeles.

O projeto, considerado pelo regime como uma proeza de engenharia e fonte de prestígio, tem sido amplamente criticado por seu alto custo (81 bilhões de dólares até agora) e pela deslocação forçada de centenas de milhares de pessoas que vivem no caminho da construção.

Em 2010, milhares protestaram na província de Hubei, quando as autoridades os removeram à força de suas casas sem praticamente qualquer aviso. Aqueles que resistiram foram presos.

Ambientalistas dizem que o transporte de água poluída do sul não resolverá as questões do norte de forma alguma. Um funcionário chinês chegou a notar que o projeto criará novos problemas ambientais e “não tem nada de sustentável”.

Origens dos problemas de água

A maioria dos problemas de água da China é visto como um legado das políticas do Partido Comunista.

“Fazer a alta montanha curvar seu cume, fazer o rio gerar o caminho” soou como um slogan popular de propaganda comunista durante o reinado de Mao Tsé-tung (1949-1976). Para isso, foram construídos diques no Rio Amarelo para melhorar o transporte marítimo e reservatórios de desvio de água foram construídos a montante. O número de barragens na China subiu de 22 em 1949 para mais de 87 mil hoje.

O regime maoísta procurou “espremer cada última gota de água da Planície Norte da China”, escreveu David Pietz, professor de história chinesa e catedrático UNESCO de história ambiental da Universidade do Arizona.

As tentativas chinesas de industrialização em massa durante a política de Mao do Grande Salto para Frente (1957-1962) produziram enormes quantidades de esgoto e resíduos, e esses poluentes foram descarregados sem tratamento nos rios.

Por exemplo, no Rio Hai, que conecta a província de Tianjin a Pequim, 674 sistemas de esgoto descarregam 4400 litros de água poluída por segundo, o que tornou o Rio Hai turvo, salgado e fétido.

Economia pós-Mao

As tentativas de reforma da economia e do setor agrícola na era pós-Mao pioraram os problemas de água na China.

À medida que indústrias surgiam em todo o país, mais e mais água foi sendo consumida. Devido à falta de regulamentação ambiental, os resíduos industriais eram comumente despejados sem tratamento nos rios e em outros corpos d’água.

Uma população crescente e o aumento dos padrões de vida na China também pressionaram os agricultores chineses a cultivarem mais alimentos. Os aldeões competiam pelo acesso aos canais de irrigação e as tensões provocaram atos de sabotagem.

Em 1997, o Rio Amarelo finalmente se rendeu, ele secou desde a foz do rio no Mar de Bohai até cerca de 643 quilômetros terra adentro.

Um relatório de 2008 da Universidade Sun Yat-sen observa que 13 mil das 21 mil fábricas petroquímicas nos rios Yangtzé e Amarelo descarregam bilhões de toneladas de águas residuais por ano.

Multiplicação das vilas de câncer

A quantidade de fertilizantes químicos, esgotos não tratados, metais pesados ​​e outros carcinógenos descarregados nos corpos d’água da China deram origem ao fenômeno de “vilas de câncer”, ou comunidades com taxas de câncer acima da média. Uma reportagem investigativa de 2005 descobriu que a incidência de câncer em algumas dessas vilas é 19 a 30 vezes maior do que a média nacional.

Embora notícias sobre vilas de câncer tenham surgido pela primeira vez na década de 1990, o regime chinês só reconheceu a sua existência em 2013. A Xinhua, a mídia estatal porta-voz do regime, informou que haveria mais de 400 vilas de câncer.

Um exemplo é a vila de Yantou, na província de Zhejiang, onde as taxas de mortalidade por câncer aumentaram de forma alarmante: de 20% entre 1991 e 1995; para 34% de 1996 a 2000; para 55,6% de 2001 a 2002. O momento do aumento da incidência de câncer coincidiu com a instalação de uma fábrica farmacêutica perto da vila.

Problemas no Mekong

O Rio Mekong é vital para o Sudeste Asiático, ele flui do planalto tibetano e atravessa o Camboja, Birmânia, Laos, Tailândia e Vietnã.

Por meio de projetos expansivos de represamento, particularmente os construídos no Rio Mekong, a China tem estrangulado a água da região e, não sem razão, tem sido culpada por agravar os efeitos das secas na região.

As tensões em torno da água continuam elevadas na região, com uma variedade de fatores contribuindo: total falta de transparência (a China não é a única nação a construir barragens); uma abordagem egoísta de gestão e uso da água; e a falta de um mecanismo eficaz de coordenação.

Soluções

Falar de soluções no que diz respeito à China é um exercício interminável, dado o alcance dos problemas e o fato de que a vontade política é o ponto de partida para qualquer ação significativa.

No entanto, um estudo recente da The Nature Conservancy vê uma oportunidade no fato de que menos de 6% da massa terrestre da China fornece 69% da água do país. Por conseguinte, o texto sugere que os esforços sejam concentrados nas pequenas bacias hidrográficas que abastecem as zonas urbanas. As soluções para melhorar a qualidade da água nessas bacias hidrográficas incluem restauração florestal, práticas agrícolas mais eficientes e outras boas práticas de conservação.

Fonte – Por Genevieve Belmaker, Cindy Drukier, Tara MacIsaac & Larry Ong, Epoch Times de 03 de abril de 2017

Pacto Global da ONU lança relatório sobre desperdício de água em redes de distribuição do Brasil

Rio Piracicaba. Foto: fotospúblicas/Paulo PintoRio Piracicaba. Foto: fotospúblicas/Paulo Pinto

Em 2015, 182 bilhões de litros de água foram perdidos em vazamentos, fraudes, roubos ou problemas de medição nos 74 municípios banhados pelas bacias dos rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí. O número é de um levantamento divulgado nesta semana (7) pelo Movimento Menos Perdas, Mais Água – iniciativa criada pela Rede Brasil do Pacto Global da ONU. Volume desperdiçado seria suficiente para abastecer 2,7 milhões de pessoas.

Em 2015, 182 bilhões de litros de água foram perdidos em vazamentos, fraudes, roubos ou problemas de medição nos 74 municípios banhados pelas bacias dos rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí. O número é de um levantamento divulgado nesta semana (7) pelo Movimento Menos Perdas, Mais Água – iniciativa criada pela Rede Brasil do Pacto Global da ONU. Volume desperdiçado seria suficiente para abastecer 2,7 milhões de pessoas.

Lançado durante as atividades da Semana do Meio Ambiente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP), o relatório lembra que as bacias dos três cursos fluviais atravessam 74 municípios — cinco em Minas Gerais e 69 em São Paulo. Juntas, cidades têm uma população de 5,6 milhões de moradores. A região das bacias PCJ responde por 7% do Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil.

Segundo Alceu Galvão — pesquisador do instituto responsável pela elaboração do estudo, o Trata Brasil — a média das perdas no sistema de distribuição do país, em 2015, foi de 36,7%, de acordo com o Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS) do Ministério das Cidades.

O especialista explicou que, acompanhando os indicadores do SNIS nos últimos anos, é possível observar que o Brasil (36,7%), a região Sudeste (32,9%) e o estado de São Paulo (33,5%) têm avançado no combate às perdas de água, já que atingiram em 2015 índices próximos à meta estipulada para 2018. Entretanto, os municípios das bacias PCJ, com média de 37,2%, não acompanharam essa tendência.

Também presente no lançamento da pesquisa, o presidente-executivo do Trata Brasil, Edson Carlos, apresentou um panorama da crise hídrica entre 2012 e 2017, ressaltando que houve um aumento da demanda de água nas cidades e pelo setor agrícola, ao mesmo tempo em que houve uma estagnação do volume das reservas do recurso. Outro problema foi a falta de chuva, especialmente no Nordeste.

“Os números só não são piores porque houve investimentos de infraestrutura em segurança hídrica. No entanto, ainda temos 50% da população brasileira sem coleta de esgoto e 34 milhões de pessoas sem acesso à água tratada, o que gera uma grande pressão sobre recursos hídricos”, alertou.

Para o superintendente de Recursos Hídricos da Agência Nacional de Águas (ANA), Sérgio Ayrimoraes Soares, é necessário implementar políticas de controle do uso da água. O dirigente lembrou que, para a renovação em maio da outorga do Sistema Cantareira – do qual faz parte a bacia do PCJ –, uma resolução da ANA determinou a redução da média mensal de retirada de água. “Com isso, o uso será reduzido para 56% do sistema”, disse.

Meta nacional

No final de 2013, a Presidência da República do Brasil promulgou o Plano Nacional de Saneamento de Básico (PLANSAB). A estratégia tem como meta a redução da média nacional de perdas nos sistemas de distribuição para 31% até 2033.

Alceu Galvão afirmou que já existem números sobre os volumes e os custos de produção de água que poderão ser economizados pelos municípios a partir da redução dos atuais índices de desperdício. Em um cenário factível, a diminuição dos índices de perdas na distribuição chegaria a 30%.

“O volume a ser economizado seria de 63 milhões de metros cúbicos por ano (63 bilhões de litros), o que representa uma economia anual de 104 milhões de reais”, afirmou.

O estudo da Rede Brasil do Pacto Global aponta ainda que, em todos os cenários traçados, a demanda futura de água nas bacias PCJ tende a ser superior à disponibilidade hídrica até 2035. Na simulação para esse ano, que estima em 25% a redução de perdas em todos os municípios, bem como uma queda da demanda para a irrigação, os números mostram que a demanda total de água estimada para as bacias PCJ superaria em 22% a disponibilidade atual.

Outras medidas

O estudo conclui que, apesar dos volumes de água significativos que poderão ser economizados com programas de redução e controle de perdas, o déficit hídrico estimado pelo Plano de Bacias não será superado apenas com iniciativas desse tipo.

Esses programas devem estar associados ao planejamento e à implementação de outras ações que busquem o aumento da oferta de água — como o crescimento dos índices de tratamento de esgotos dos municípios, a utilização da água de reuso e a redução dos consumos per capita. O levantamento também recomenda a criação de projetos de gestão operacional periódica nos sistemas de abastecimento.

“Precisamos migrar para uma sociedade que consuma menos água e que possamos cumprir o nosso papel de usá-la de forma racional, o que vai ao encontro da segurança hídrica no Brasil. As perdas nos sistemas de distribuição são grandes e contribuem para isso. Portanto, é preciso chegar a um controle de perdas a um nível satisfatório. Trata-se de uma questão complexa, mas precisamos seguir em frente”, afirmou a secretária adjunta de Saneamento e Recursos Hídricos do estado de São Paulo, Mônica Porto.

Acesse o sumário executivo do relatório Perdas de água nos sistemas de distribuição como agravante à vulnerabilidade das bacias hidrográficas – o caso das bacias PCJ” clicando aqui. Documento foi elaborado em parceria com a Reinfra Consultoria.

Saiba mais sobre o Movimento Menos Perdas, Mais Água:

Fonte – ONU de 09 de junho de 2017

A mercantilização da água avança ‘pari passu’ com sua escassez

Ilustração: LPS

A disponibilidade de água doce, em estado líquido, não poluída e acessível define o estado dos recursos hídricos do planeta. Nossas sociedades estão gerando uma crise sem precedentes de degradação quantitativa e qualitativa desses recursos. O estresse hídrico, a escassez e a escassez aguda de água, segundo o Índice Falkenmark (Falkenmark Water Stress Indicator) já são, e serão doravante cada vez mais, uma das maiores ameaças à satisfação das necessidades hídricas elementares da manta vegetal, dos humanos e dos outros animais. Diversos fatores concorrem para seu agravamento, entre os quais obviamente as mudanças climáticas e o aquecimento global, já que estes interferem na evaporação e na variabilidade térmica e dos ventos sobre a superfície dos oceanos (ENSO), alteram os padrões de precipitação (monções, secas e inundações), diminuem o nível dos rios, lagos e reservatórios, bem como a reciclagem dos aquíferos e o estoque de neve dos cimos das cordilheiras (Andes, Himalaia, Sierra Nevada etc), cruciais para o abastecimento sazonal de mais de um bilhão de pessoas.

Em 2013, Aiguo Dai, da University at Albany, no estado de Nova York, publicou um trabalho no qual recordava que “os registros históricos dos índices de precipitação, de fluxo de água e de seca mostram aridez crescente desde 1950 sobre muitas áreas terrestres”. E ao comparar as projeções avançadas pelos modelos com a realidade observada, afirmava: “Concluo que as mudanças observadas na aridez global até 2010 são consistentes com as predições dos modelos, os quais sugerem secas graves e disseminadas nos próximos 30 a 90 anos sobre muitas áreas terrestres, resultantes de menor precipitação e/ou maior evaporação”[I].

As secas, algumas sem precedentes nos registros históricos, que devastam regiões inteiras do planeta neste segundo decênio acrescentam ainda mais evidência ao que os dados e as projeções apontam de modo convergente. A Austrália, sobretudo sua região Sudeste, viveu entre 1995 e 2009 o que se chamou a “seca do Milênio”. Ela voltou ao país a partir de 2015 e em março de 2017 atinge 90% do Queensland (NE do país). Entre 2006 e 2011, a Síria sofreu sua pior seca dos registros históricos. Atribui-se às suas consequências uma parte considerável da responsabilidade pela guerra que destroça o país desde 2011. Vários países da África subsaariana, as Américas do Norte, Central e do Sul, o Oriente Próximo, a Ásia Central, a China, o Paquistão, a Índia e os países à volta do Mediterrâneo, agrupando mais da metade da população mundial, fornecem uma imagem do agravamento nos três níveis de estresse hídrico (baixo, médio e grave) em 2005 e em 2030 nos BRICS, nos países da OCDE e no resto do mundo.

Foto: reprodução

Por alarmante que seja, esse mapa não dá conta da evolução das secas no Brasil, tal como projetado por duas simulações climáticas (HadGEM2 ES e Miroc5) coordenadas por José Marengo, do Centro de Monitoramento e Alerta de Desastres Naturais (CEMADEN), às quais a revista da Fapesp dedicou  matéria de capa em sua edição de novembro de 2016. Desta se retiram os dois mapas do Brasil, abaixo figurados, que indicam, segundo uma síntese dessas duas simulações, o enorme alastramento das áreas com alto risco de secas graves no Brasil entre 2011 e 2040 [II].

Foto: Reprodução

Em 2011, as áreas de alto risco de secas restringiam-se sobretudo ao Nordeste e à região à volta e ao norte de Brasília, ao passo que em 2040 elas devem abranger parte substancial do território brasileiro, incluindo a Amazônia, onde, após as  secas de 2005 e 2010, “números provisórios mostram 2016 como o ano em média mais seco dos registros históricos sobre a bacia amazônica” [III].

Mas outro fator, além das mudanças climáticas antropogênicas, causadas estas, sobretudo, pela avidez dos setores afluentes das sociedades contemporâneas por energia, minérios, madeira, fibras e outros materiais, intervém diretamente nesse quadro já grave para torná-lo absolutamente crítico: o controle corporativo do capitalismo globalizado sobre o sistema alimentar humano e animal. Esse modelo converte os produtos agrícolas em commodities, fomenta a exportação de água sob a forma de alimentos, o consumo crescente de carne, terrivelmente demandante de água (1 kg de carne de vaca requer cerca de 15 mil litros de água, enquanto 1 kg de trigo, entre 500 e 4.000 litros [IV]), e a apropriação brutal dos recursos hídricos pelo agronegócio e pelas corporações. Os grandes traders (as assim chamadas ABCD companies [V]), os bancos, os gigantes da “alimentação” [VI], dos fertilizantes e dos agrotóxicos visam a maximização do lucro, independentemente das possibilidades do solo e da disponibilidade de água de cada região do planeta, com consequências por vezes já catastróficas para as populações mais vulneráveis em várias regiões do globo.

“Cerca de 3,8 trilhões de m3 de água são usados pelos humanos anualmente, 70% dos quais são consumidos pelo setor agropecuário, sendo que 550 bilhões de m3 são desperdiçados antes de chegar ao consumidor” [VII]. E a demanda de água, impulsionada pelo modelo suicida do agronegócio globalizado não para de crescer. Segundo o U.N. World Water Development Report, de 2015, “em 2050, a demanda global de água deve aumentar 55%, enquanto as reservas definham. Se as tendências atuais não mudarem, o mundo terá apenas 60% da água de que necessita em 2030”. Nada indica, no momento, mudanças relevantes nessas tendências. Ao contrário, o desmatamento causado pelo agronegócio (na Amazônia, ele aumentou quase 75% desde a aprovação do Código Florestal em 2012) cresce em toda a parte do planeta, agravando ainda mais a escassez hídrica.

Foto: Antonio ScarpinettiRepresa do Cantareira na seca de 2014: registros mostram aridez crescente em várias regiões do planeta

Para combater essa máquina corporativa de privatização e esgotamento dos recursos hídricos, prepara-se o Fórum Alternativo Mundial da Água, o qual terá lugar em Brasília em 2018, tal como divulgado pelo portal Crisálida da Unicamp nesta semana (veja-se www.crisalida.eco.br). Será, por certo, um dos eventos políticos mais importantes do ano que vem.

[I] A. Dai, “Increasing drought under global warming in observations and models”. Nature Climate Change 3, 52–58 (2013) <https://www.nature.com/nclimate/journal/v3/n1/full/nclimate1633.html>.

[II] Cf. Marcos Pivetta, “Um Brasil mais vulnerável no século XXI”. Fapesp,  249, XI/2016, pp. 16-21.

[III] Cf. Índice de Precipitação Padronizada (I/ 2015 – XII/2016) do INMET, cf. World Meteorological Organization (WMO), Statement on the State of the Global Climate 2016, p. 14 (em rede).

[IV] “How much water is needed to produce food and how much do we waste?” The Guardian, 10/I/2013.

[V] As “ABCD companies” – Archer Daniels Midland (ADM), Bunge, Cargill and Louis Dreyfus – moldam o financiamento e comercialização das commodities agrícolas e definem o modelo alimentar mundial. Cf. S. Murphy, D. Burch, J. Clapp, “Cereal Secrets. The world’s largest grain traders and global agriculture”. Oxfam, agosto de 2012 (em rede).

[VI] Eis, por ordem decrescente de faturamento, os controladores da água e da alimentação mundial: Nestlé S. A., Unilever Group, PepsiCo Inc., Coca-Cola Co, Mondelez International Inc., Mars Inc., Groupe Danone S. A., Associated British Foods PLC, General Mills, Kelogg Co. Juntas, essas dez corporações faturaram em 2013 mais de US$ 436 bilhões. Se fossem um país, elas seriam o 23º PIB do mundo. Tiveram lucros superiores a US$ 46 bilhões e gastaram ao menos US$ 23 bilhões em publicidade, embora sejam mal avaliadas pela Oxfam em termos de uso sustentável da água. Cf. “10 companies that control the world’s food”. MarketWatch, 2/IX/2014 (em rede).

[VII]“How much water is needed to produce food and how much do we waste?” The Guardian, 10/I/2013.

Luiz Marques é professor livre-docente do Departamento de História do IFCH /Unicamp. Pela editora da Unicamp, publicou Giorgio Vasari, Vida de Michelangelo (1568), 2011 e Capitalismo e Colapso ambiental, 2015, 2a edição, 2016. Coordena a coleção Palavra da Arte, dedicada às fontes da historiografia artística, e participa com outros colegas do coletivo Crisálida, Crises SocioAmbientais Labor Interdisciplinar Debate & Atualização (crisalida.eco.br).

Fonte – Jornal da UNICAMP de 22 de maio de 2017

Lenços umedecidos se tornam ameaça para vida selvagem no rio Tâmisa

Lenços umedecidos se tornam ameaça para vida selvagem no rio Tâmisa

Parecia que nada mais poderia colocar em risco a qualidade da água do mais famoso rio da Inglaterra. Considerado morto durante 50 anos, em 2015, ambientalistas comemoraram a observação de focas e baleias no Tâmisa.

Como muitos outros ao redor do mundo, o rio britânico, que atravessa a capital Londres e muitas outras cidades, tinha tido seu passado negro. Era chamado de “Grande Fedor”. A poluição era tanta e seu cheiro tão insuportável, que sessões no Parlamento eram canceladas tal o mal odor dele.

Mas um esforço para sua recuperação incluiu a implantação de um eficiente sistema de captação de esgoto e leis rígidas para evitar a contaminação do Tâmisa novamente, como mostramos neste outro post.

Infelizmente, agora uma nova ameaça está tirando o sono dos ingleses: lenços umedecidos! Isso mesmo, aqueles utilizados para limpar o bumbum de bebês ou a casa. Jogados na privada, como se fossem papel higiênico, eles acabam entupindo tubulações de esgoto e indo parar no rio. O que acontece é que este tipo de material não é biodegradável.

Lenços umedecidos se tornam ameaça para vida selvagem no rio TâmisaLenços umedecidos no Rio Tâmisa, em Londres

A organização ambiental Thames21, que trabalha pela preservação do Tâmisa, fez uma ação de limpeza no rio e ficou assustada com o volume de lenços umedecidos encontrados, a mais alta concentração dos últimos tempos. Milhares foram contabilizados no leito do rio. O impacto destes resíduos para o meio ambiente é muito grave. Assim como resíduos plásticos, pedaços de lenços são ingeridos pelos animais, que os confundem com alimentos.

Apesar de muitos fabricantes afirmarem nas embalagens que lenços umedecidos podem ser jogados na privada, a maioria deles é feita de poliéster e possui partículas plásticas, que não se dissolvem na água.

A Thames21 e a Sociedade de Conservação Marinha do Reino Unido estão promovendo uma campanha para alertar a população sobre o assunto e pressionar fabricantes a informar, nas embalagens, se os produtos são realmente biodegradáveis ou não (leia mais sobre a iniciativa aqui).

É bom lembrar que este não é um problema só na Inglaterra. O uso de lenços umedecidos aumentou muito no mundo todo, depois que eles se tornaram populares, inclusive no Brasil. Então, fique atento! O lugar deste tipo de produto é na lixeira, não na privada e muito menos, em nossos rios e oceanos.

Suzana Camargo – Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante seis anos. Entre 2007 e 2011, morou em Zurique, na Suíça, de onde colaborou para diversas publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Info, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Atualmente vive em Londres.

Fotos – 4 In Line/Creative Commons/Flickr (abertura) e divulgação Thames21

Fonte – Conexão Planeta de 26 de abril de 2017

ONU: o plástico está cobrindo e destruindo nosso planeta

Plástico é uma invenção maravilhosa porque dura bastante – e uma invenção terrível pelo mesmo motivo. Mais de 300 milhões de toneladas serão produzidas este ano. A maioria nunca é reciclada e permanece em nossa terra e nos nossos mares para sempre. Os detalhes nesse documentário.

No início de junho de 2017, a ONU realizou a Conferência sobre os Oceanos com o objetivo de apoiar a implementação do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 14: conservar e utilizar de forma sustentável os oceanos, os mares e os recursos marinhos para o desenvolvimento sustentável; saiba como foi e acompanhe o tema em http://nacoesunidas.org/tema/ods14, #SaveOurOcean e #MaresLimpos.

Fonte – ONU 15 de junho de 2017

Chapada Diamantina: a caixa d’água da Bahia vai secar!

victor.marques

Conhecida por ser uma das principais atrações turísticas do Brasil, por conta de suas belezas naturais, o mundo desconhece a importância que a Chapada Diamantina tem no fornecimento de água para o estado da Bahia, e para o equilíbrio da rede hidrográfica brasileira.

Refém dos interesses comerciais de grandes produtores rurais, abandonada e maltratada pelo poder público, a Chapada está secando e seus rios estão morrendo. Comunidades ao longo da Chapada já sofrem com a escassez de água, conflitos que podem se tornar mais violentos estão se intensificando na região e a capital soteropolitana também vai sofrer com a falta d’água.

Em Utinga, os índios Payayás já perceberam há uns anos o tamanho do problema e começaram um trabalho de conscientização, articulação política e ação. Hoje, Otto Payayá, avalia que a ação é a única ferramenta que ele ainda crê. “Do governo a gente tá cansado. A gente junta a comunidade e vamos limpar o rio, plantar na beirada dele, fazer algo prático, recuperar a vegetação para que a água volte a correr”, afirmou.

Otto Payayá (foto: Cristiane Passos)

Viveiro com mudas produzidas pelos Payayás para reflorestamento (foto: Cristiane Passos)

A descrença de Otto não é à toa, além do abandono relegado pelo estado à região, quando ele enfim age, o faz sem planejamento e acaba por piorar a situação. O rio Utinga nasce na comunidade de Cabeceira do Rio, distante cerca de oito quilômetros da sede do município de Utinga. Ele é responsável pelo abastecimento de água das cidades de Utinga, Wagner, Lajedinho e Andaraí. Em 1977 foi construída uma barragem na cabeceira da nascente do rio Utinga, literalmente em cima da nascente e de seus fervedouros – nascentes de rios subterrâneos. E para piorar ainda mais, a retirada da mata ciliar na área da barragem provocou o desbarrancamento, o que tem assoreado o rio. O indígena relatou que recentemente conseguiu levar ao local o engenheiro responsável pela obra da barragem e que ele se emocionou ao ver o tamanho do erro que cometeram.

O rio Utinga é apenas um dos vários rios que compõem a bacia do Paraguaçu, responsável pelo abastecimento de várias cidades da região e da capital baiana, Salvador. Assim como o Jacuípe, que abastece, por exemplo, o distrito do município de Piritiba, França. No distrito, a Embasa (Empresa Baiana de Águas e Saneamento S.A.) joga no próprio rio os rejeitos da estação de tratamento. Além dos rejeitos, uso de agrotóxicos por produtores locais e plantações em área de preservação permanente têm poluído e assoreado o rio, cuja vazão tem diminuído a olhos vistos.

Rejeitos da estação da Embasa em França sendo despejados no rio (foto: Cristiane Passos)

O rio assoreado no distrito de França (foto: Cristiane Passos)

Seguindo o exemplo dos payayás, assentamentos da região têm se organizado para reflorestar as margens dos rios e assim tentar retomar a riqueza de águas da região. É o caso do assentamento São Sebastião, no município de Wagner, que após ver o rio Utinga quase secando, fez mutirões para plantação de mudas nativas nas margens do rio e para a limpeza do local. Os assentados descrevem com tristeza terem testemunhado o rio secar e os peixes morrerem. Mesmo com as ações, em fevereiro deste ano os assentamentos ficaram sem água. Na cidade de Wagner aconteceu o mesmo.

Sem a presença do poder público, grandes produtores, também impactados pela falta d’água, destilam acusações contra os assentados e pequenos produtores, acusando-os de serem os responsáveis pela escassez de água. Porém, são os grandes produtores que multiplicam bombas para alimentar sistemas de irrigação de suas produções, ao longo do rio. Segundo os produtores, nos últimos 10 anos houve um aumento do plantio irrigado de culturas, que absorvem um grande volume de água, saindo de aproximadamente 200 hectares para mais de 1.000 hectares. Isso é equivalente a mais de 1,6 milhão de plantas, que para manter sua produtividade necessita de 40 litros de água por dia para cada planta[1]. Sem controle, plano de manejo ou fiscalização, boa parte dessas bombas para irrigação não possui sequer outorga de uso do Inema (Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos da Bahia)[2].

Conflitos pela água: a violência iminente

A comunidade do povoado de São José, próximo a Lençóis (BA), ficou 120 dias sem água. Toda sua produção foi perdida. Endividados, pois conseguiram a terra em que vivem através do crédito fundiário e não pela reforma agrária, chegaram a passar fome. Em fevereiro desse ano, quando chegaram ao limite, bloquearam os dois sentidos da BR-242, na altura do km-308. Segundo relato das famílias, policiais militares da CIPA (Companhia Independente de Policiamento Ambiental) dispararam contra os manifestantes. Ninguém ficou ferido. A polícia teria, segundo eles, levado duas pessoas presas e, no trajeto até a delegacia, os próprios policiais teriam quebrado o vidro da janela da viatura e colocado a culpa em um dos manifestantes, que ficou preso por dois dias sob acusação de vandalismo. Ele foi solto somente após o pagamento de fiança no valor de R$ 2.800,00.

Régua para medir altura da água do rio que abastece a comunidade de São José (foto: Cristiane Passos)

Líderes da comunidade têm sofrido constantes ameaças por conta de sua atuação e denúncias feitas. As ameaças, conforme relataram, partem tanto de fazendeiros da região, quanto da polícia. Fazendeiros disseram também a eles que “se virassem” com caminhões pipa ou que “criassem camelos, que não bebem água”. “Quando é da natureza você tem que concordar. Mas a minha sensação é que não era da natureza essa falta d’água, era somente por que tem gente que se acha melhor do que a gente”, desabafou uma das moradoras da comunidade. Temerosos com o rio baixando novamente, os moradores declararam que vai haver mais embate, pois não irão aguentar novamente a falta d’água, quietos.

Bacia do Paraguaçu

A bacia hidrográfica do Paraguaçu é uma das mais importantes para o estado da Bahia, sendo fundamental para o abastecimento de água da região metropolitana de Salvador. Mais de três milhões de pessoas dependem das águas deste rio, cuja bacia se estende por mais de 55 mil km², abrangendo 86 municípios e 10% do território do estado. O Paraguaçu tem suas nascentes em áreas de Caatinga, Campos de Altitude e encraves de Mata Atlântica na Chapada Diamantina. Das nascentes até a foz, na Baía de Todos os Santos, o rio percorre 600 km, cruzando uma região com alta diversidade social, cultural e ecológica. Tamanha importância torna ainda mais preocupante o atual estado de degradação ambiental da bacia[3].

Além da sua importância no fornecimento de água e no equilíbrio da biodiversidade local, a região possui grande potencial turístico e econômico, mas nem mesmo isso tem livrado a Chapada da degradação. Um de seus cartões postais, a Cachoeira da Fumaça, localizada entre os municípios de Lençóis e Palmeiras, que possui 340 metros de altura e é a segunda maior cachoeira do Brasil, também enfrenta problemas com o desequilíbrio das águas na região. Segundo moradores da região, têm aumentado os momentos no ano em que a cachoeira seca. O Poço Azul, outra atração turística, atraente por sua gruta com águas cristalinas que ficam mais azuis com a entrada de feixes de luz do sol, está cercado de plantações irrigadas e que utilizam agrotóxicos.

Poço Azul – atração turística que também está ameaçada pelo uso de agrotóxicos e retirada indiscriminada de água em seus arredores. (foto: Cláudio Dourado – CPT Ruy Barbosa)

De acordo com Rogério Mucugê, da Conservação Internacional e coordenador do projeto “Semeando Águas no Paraguaçu”, todos esses fatores já citados, como poluição, retirada indiscriminada de água, ausência do Estado e de políticas públicas que garantam a conservação do ecossistema local, são agravados ainda pelas constantes queimadas. “A maioria dessas queimadas são criminosas”, afirmou ele. Além disso, espaços de reivindicação da sociedade civil para a resolução de problemas como esses, estão dominados pelos representantes de grandes empreendimentos rurais. O Comitê da Bacia Hidrográfica do Paraguaçu é um deles. Apesar da ideia de composição diversificada e democrática dos Comitês, a população em geral e as entidades de preservação ambiental são sempre voto vencido nas decisões sobre a Bacia.

Como disse o senhor Ramiro de Souza, do Assentamento São Sebastião, “dizem na televisão que o agro é tudo, mas não é, a água é tudo. Ninguém vive sem água”. Comungando dessa ideia e preocupada com a situação na região, a Comissão Pastoral da Terra (CPT) de Ruy Barbosa (BA) dará início a uma campanha de conscientização sobre a necessidade de ações imediatas de preservação das águas da Chapada Diamantina. Articulada com as comunidades locais e organizações de defesa do meio ambiente, ela espera visibilizar a situação crítica das águas da Chapada e, assim, mobilizar a sociedade para salvar esse patrimônio natural, bem como o mais fundamental de nossos recursos naturais, a água.

[1] http://folhadachapada.com.br/brasil/folha-da-chapada/chapada-diamantina-rio-utinga-pede-socorro/#more-37

[2] http://www.oparaguacu.com.br/cortado-duas-vezes-o-rio-utinga-sofre-grave-ameaca-de-morte/

[3] http://www.conservation.org/global/brasil/iniciativas-atuais/Pages/iniciativas-bacia-do-paraguacu.aspx

Fonte – Cristiane Passos, CPT de 07 de junho de 2017