As cidades e o desequilíbrio hídrico

Steve Dorman

Frequentemente se imaginava que a imagem de populações imersas em resíduos sólidos pudessem representar cenários cujo impacto catastrófico pudesse trazer modificações paradigmáticas na conservação ambiental. No entanto, é a escassez de água, e secundariamente as dificuldades nas disponibilidades energéticas, em parte decorrente das dificuldades hídricas, que vem alterando estes padrões. A natureza parece ser irônica para reagir as agressões antrópicas.

O caminho que está sendo percorrido, se aproxima de uma antiga previsão, que registrava que a civilização humana corria o risco de afogar cidades sob a água salgada dos mares em regime de transgressão, em cenário de carência de água doce potabilizada. Esta realidade se contextualiza com as mudanças climáticas que geram o aquecimento global, com o consequente derretimento de geleiras e elevação dos níveis dos mares. É como o náufrago que se observa cercado de água salobra e sem disponibilidade de água potável para sua dessedentação.

Relatórios da Organização das Nações Unidas registram o diagnóstico de que mais de 1 bilhão de pessoas não tem acesso a quantidades mínimas aceitáveis de água potável, que gere situação de segurança hídrica. O recente episódio de baixa pluviosidade na região sudeste, a mais rica do país, começa a fazer perceber que não é o volume ou a natureza das obras que pode solucionar a situação, e sim uma radical mudança de atitude na compatibilização e harmonização com os meios físico e biológico do planeta, entendido como a “nave” que todos compartilhamos no decurso de nossa vida em comum.

A Organização das Nações Unidas prevê que se nada mudar nos padrões de consumo e na forma geral dos indivíduos se relacionarem com o planeta, num horizonte próximo cerca de 5,5 bilhões de pessoas poderão não ter acesso aos recursos hídricos, tão fundamentais para a vida, correspondendo a 2/3 do total da população. E num horizonte maior, se diagnostica que menos de ¼ da humanidade vai dispor de água potável para satisfazer suas necessidades básicas de vida.

A escassez de água não é problemática apenas para dessedentação. Também gera dificuldades na manutenção das condições sanitárias e facilita a propagação de doenças, como a diarreia e a malária, que são responsáveis por mais de 2 milhões de óbitos em indivíduos humanos a todo ano, nas regiões mais vulnerabilizadas da terra.

A água doce, que pode ser potabilizada é um bem raro. Já se produz água potabilizada a partir de água dessanilizada, mas a um custo energético ainda bastante elevado. Cerca de 97% das águas que cobrem a superfície da terra são salinizadas. Dos restantes 3%, a maior parte está em geleiras ou calotas polares. Menos de 1% está disponibilizada, predominando as águas subterrâneas, armazenadas em aquíferos. A água disponível em rios, lagos e lençóis freáticos totaliza menos de 0,25% da água total do planeta.

Como se observa são muito exíguas as disponibilidades de água doce no planeta, e ainda devem ser divididas com os demais membros da fauna e com todo reino vegetal. É claro que as fontes não deveriam se esgotar pela manutenção permanente dos ciclos hidrológicos. Mas a velocidade de recomposição dos aquíferos superficiais tem mostrado harmonização em ritmo descompassado com a exploração dos recursos hídricos pelas atividades antrópicas. Em particular, quando se agregam as modificações geradas pelas mudanças climáticas.

Evidentemente se apropriar das realidades exibidas por este conjunto multifatorial, é tarefa que demanda certa complexidade sistêmica e não é realizada de forma intuitiva. Mas as consequências são as mesmas e geram conscientização em toda sociedade. É preciso mudar a relação com a água e os demais bens naturais buscando reestabelecer as condições mínimas de equilíbrio.

Especialistas assinalam que a crise hídrica que atinge o estado de São Paulo, decorre de desequilíbrio já de alguns anos na pluviosidade média, não acompanhando a demanda crescente de uso, e até de desperdício. No entanto, esta anomalia climática não é o único fator. Também contribuem fatores de infraestrutura, que não significam necessariamente ausência de planejamento, e sim dificuldades impostas pela burocratização e estanqueidade dos mecanismos estatais de operação. Onde as crescentes complexidades não são acompanhadas por níveis equivalentes de evolução nos estágios de gestão, governança e conformidade.

Ou seja, legislação ambiental, cada vez mais complexa e abrangente, convive com órgãos aplicadores desaparelhados e ineficientes que não conseguem se coordenar ou se comunicar eficientemente entre si. Evidentemente, as dificuldades de execução se tornam manifestas e os resultados sociais extremamente ineficientes, retratando as dificuldades das operações, que se perdem em objetivos sistêmicos parciais, não conseguindo estabelecer metas de consecução conjuntas.

Se o sistema social padecesse da mesma moléstia, as empresas estariam comprometidas e os níveis de empregabilidade que garantem o funcionamento virtuoso da sociedade, com incrementos na geração de impostos e a garantia da manutenção de um estado com condições de intervir na sociedade de maneira eficiente, atendendo às demandas sociais, estaria comprometido. Quando eventos naturais se associam a dificuldades de articulação para a consecução de objetivos mais amplos, não deixa de ser em parte, algo análogo, o que está ocorrendo. Com consequências sociais e coletivas de resultados inestimáveis.

A cultura de vincular a importância do bem ao valor desembolsado na sua aquisição, dificulta a valoração adequada do bem água. Não se está defendendo o aumento desmesurado dos preços da água. Mas se a cultura popular associa preço ao valor do bem e não à conscientização de sua função social e ecossistêmica, então está estabelecida uma situação de extrema dificuldade e complexidade. Se a preciosidade da água for repassada aos custos de sua disponibilização e forem criadas dificuldades para os hábitos necessários de natureza sanitária de todos os indivíduos, então os resultados podem ser mais desastrosos e medidos nas portas dos carentes serviços de saúde do país.

Mas o maior erro, talvez, seja permitir que a situação atinja níveis próximos à situação de catástrofe para que as medidas reguladoras sejam tomadas. Em questões ambientais e naturais em geral, é consensual a apreciação de que é preferível prevenir do que remediar. Tanto pelos custos gerados quanto pelo pânico produzido. A prevenção, no mínimo, gera melhores condições de administração geral das perspectivas e projeções dos indivíduos, em caldeirões de interesses e necessidades, que são de difícil avaliação, ainda mais em cenários políticos ou meramente econômicos, que na maioria das vezes são absolutamente intangíveis.

Roberto Naime, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em Geologia Ambiental. Integrante do corpo Docente do Mestrado e Doutorado em Qualidade Ambiental da Universidade Feevale.

 

Fonte – EcoDebate de 16 de maio de 2017

Somente 20% da água é tratada no mundo

Foto: Paul Downey/Flickr Foto: Paul Downey/Flickr

A demanda por água em todo o mundo aumenta a cada dia e em consequência disso, cresce a quantidade de águas residuais produzidas e despejadas no meio ambiente sem tratamento adequado, tornando-se inapropriadas para o consumo, provocando efeitos negativos na saúde, na produtividade econômica, na qualidade de águas doces e nos ecossistemas. Para chamar a atenção para esse fato, que nesta quarta-feira (22), a Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (Unesco) lançou um relatório,Águas Residuais: o Recurso inexplorado (em inglês, Wastewater – The Untapped Resource).

Um dos aspectos mais importantes destacados no documento alerta para o fato de que, no mundo inteiro, somente 20% das águas passam por tratamento sanitário. Os outros 80% voltam à natureza residuais sem tratamento apropriado. A desigualdade entre os países fica acentuada no acesso à água tratada: enquanto os países pobres apenas 8% das águas residuais domésticas e industriais tratadas, nos países de renda alta a taxa é de 70%.

“As águas residuais são um recurso valioso em um mundo no qual a água é finita e a demanda é crescente”, disse Guy Ryder, presidente do UN Water e diretor-geral da Organização Internacional do Trabalho (OIT).

Gestão da água

O relatório ressalta a necessidade urgente do reuso da água residual doméstica, agrícola e industrial para suprir a escassez e o aumento da demanda. Segundo o documento, dois terços da população mundial vivem, hoje, vivem em áreas com escassez de água durante um mês por ano, ao menos. Cerca de 500 milhões de pessoas vivem em áreas nas quais o consumo de água excede em duas vezes os recursos hídricos renováveis localmente. Reduzir esse número, significa tratar as águas residuais para que elas se tornem acessíveis. A disponibilidade desses recursos está ligada diretamente à qualidade da água, pois a poluição das fontes pode tolher diversos usos da água.

A prevenção ou a redução da poluição na fonte, a coleta e tratamento das águas residuais, o uso das águas residuais como uma fonte alternativa de água e a recuperação de subprodutos úteis, como a utilização da tecnologia a recuperação de nitrogênio e fósforo a partir do esgoto e do lodo como fonte alternativa para água doce, são algumas medidas apresentadas como soluções de tratamento e produção de água viável para outros usos.

Fonte – Sabrina Rodrigues, O Eco de 22 de março de 2017

Como a água reciclada pode revolucionar o desenvolvimento sustentável

Joe Jungmann / Creative Commons / Flickrimagem – Joe Jungmann / Creative Commons / Flickr

Construção de pântanos e estações de tratamento pode acabar com o desperdício de água e ainda gerar biocombustível

Até 2025, a escassez absoluta de água será uma realidade diária para cerca de 1,8 bilhão de pessoas.

Em um mundo onde os recursos vitais são cada vez mais escassos, os países não se podem dar ao luxo de desperdiçá-los. Mas é exatamente isso o que fazemos. Após utilizarmos água em nossas casas e empresas, ela é descartada – contendo muitos recursos valiosos.

As águas residuais são ricas em carbono e nutrientes e, se coletadas e tratadas adequadamente, podem fornecer água nova, fertilizantes e energia. Diversas nações e grandes cidades já construíram sofisticadas estações de tratamento de águas residuais que eficazmente recuperam nutrientes, bioenergia e produzem “água nova”, que pode ser reutilizada. Contudo mais de 80% de todas as águas residuais, ainda fluem para ecossistemas naturais, poluindo o meio ambiente e levando consigo valiosos nutrientes e outros materiais recuperáveis.

Pense menor 

Os sistemas de águas residuais em grandes cidades são frequentemente eficazes, embora também sejam muito caros de construir, manter e operar. Contudo, esse cenário é melhor do que a atual situação em pequenas cidades. Nestes locais, encontram-se frequentemente sistemas mal adaptados, com falta de equipe para realizar a manutenção e a operação necessária.

Em países latino-americanos, os habitantes de pequenas e médias cidades têm, no máximo, tratamento in situ sob a forma de fossas sépticas, às quais não se efetua manutenção regular e adequada.

Na Guatemala, apenas cerca de 5% das cidades com menos de 2 mil habitantes têm estações de tratamento centralizadas; e na Bacia do Lago Atitlán, naquele mesmo país, cerca de 12% da população não está conectada a nenhum tipo de sistema de saneamento. Se existe alguma infra-estrutura , seu principal objetivo é apenas coletar as águas residuais, não tratá-las e reintroduzi-las no ciclo da água.

A situação é ainda mais problemática se considerarmos que, de acordo com o Fundo de Populações das Nações Unidas, os moradores de pequenas e médias cidades na América Latina duplicarão nos próximos 15 anos, um número que novamente dobrará nas próximas três décadas. Ainda assim, a maior parte dos esforços para melhorar a gestão de águas residuais concentra-se nas grandes cidades da região.

Usando águas residuais para salvar árvores

Imagine que fora de uma dessas pequenas cidades encontra-se um belo terreno: à superfície, é esteticamente agradável e oferece refúgio para a vida selvagem local. Debaixo, há um pântano que trata águas residuais e produz energia. A energia gerada evita que as famílias precisem recorrer ao uso de lenha recolhida na natureza ou a estrume como combustível para cozinhar. Além disso, o escoamento deste pântano pode ser usado em segurança para a irrigação de plantações.

Este não é um panorama imaginário. É o que se chama de “ambiente de pântano construído“, que já está em prática em pequena escala em todo o mundo.

Como parte de uma equipe que estuda o potencial dos ambientes de pântano, analisamos 800 exemplos de biomassa em mais de 20 países.

Descobrimos que,  dependendo do clima e do tipo de plantas utilizadas na construção deste tipo de pântano, poderiam ser irrigados diariamente até 45 hectares de terra com água residual. Isso reduziria a necessidade de água fresca para irrigação e de energia para o seu bombeamento.

Neste tipo de sistema, uma hipotética comunidade de 60 pessoas necessitaria de uma área de pântano de cerca de 420 metros quadrados. Este pântano poderia fornecer a população com 630 quilos de biomassa seca por ano, o suficiente para produzir 10 gigajules anuais de energia (ou quase 2,8 mil kWh).

Nesta perspectiva, uma residência média na Etiópia, com cinco pessoas por casa, precisa de cerca de sete gigajules para cozinhar. Logo, a energia anual gasta para cozinhar nesta comunidade de 12 casas gira em torno de 84 gigajules.

O biocombustível produzido pelo pântano pode cobrir cerca de 12% da necessidade de combustível do vilarejo.  Ao reduzir a a necessidade de combustíveis para cozinhar, o vilarejo pode em média salvar meio hectare de floresta por ano.

Podemos parar de desperdiçar água

Outra solução é a construção de estações descentralizadas de tratamento de águas residuais nas comunidades afetadas. Ao contrário das estações de cidades, em instalações descentralizadas as águas residuais brutas são tratadas diretamente onde são produzidas em vez de serem confinadas no sistema de esgotos. Nas zonas rurais, este tipo de instalação pode proporcionar acesso imediato à água limpa e reduzir a poluição ambiental.

Devido ao seu tamanho relativamente pequeno e baixas pegadas de carbono, o impacto negativo destas plantas no meio ambiente é menor do que o das estações tradicionais. Outro bônus é que cada local pode ser feito sob medida para atender às condições climáticas regionais, exigências estéticas, demandas de qualidade e uso pretendido da água.

Não há mais nenhuma boa razão para desperdiçar qualquer tipo de água. Coletar e explorar as águas residuais é tecnicamente viável e financeiramente justificável.

Se bem gerida, a água  utilizada deixa de ser um perigo para o meio ambiente e torna-se uma fonte acessível e sustentável de energia, nutrientes e outros materiais recuperáveis.

Dra. Tamara Avellán é pesquisadora na Unidade de Gestão de Recursos Hídricos da Universidade das Nações Unidas (UNU-FLORES, Alemanha)

Fontes – Tamara Avellán, The Conversation / Carta Capital de 27 de março de 2017

Minicurso online ensina a construir sistema de captação de água da chuva

Minicurso online ensina a construir sistema de captação de água da chuvaEm cinco lições, qualquer pessoa estará apta a construir sua própria minicisterna. | Foto: Permacultores Urbanos/Divulgação

Online e gratuitas, aulas vão desde a preparação até dicas de armazenamento

Aproveitar a água que cai do céu é uma ação que, em conjunto com outras, reduz consideravelmente o consumo de água potável em uma residência. Entretanto, é preciso instalar um sistema em que seja possível captar, tratar e armazenar este líquido de forma segura. O programa Acessa SP, do governo de São Paulo, disponibiliza um curso online e gratuito que ensina como criar uma minicisterna doméstica.

O interessado aprende porque é importante captar água da chuva e como pode até ganhar dinheiro aprendendo a construir o sistema. Depois desta introdução, o curso ensina como realizar a limpeza do telhado e das calhas. Também indica como escolher o tipo de reservatório para cada necessidade e o local mais adequado para sua colocação. Essa fase de preparação é essencial para o sucesso do sistema.

Em seguida, a construção da minicisterna é ensinada em duas partes. Durante todo o processo há fotos, ilustrações e links que detalham o passo a passo. Por fim, algumas dicas e cuidados com o armazenamento de água e como se prevenir de doenças como dengue e chikungunya. Em cinco lições, qualquer pessoa estará apta a construir seu próprio sistema de captação de água.

Acesse o curso aqui.

Fonte – CicloVivo de 06 de abril de 2017

Como as raízes do Cerrado levam água a torneiras de todas as regiões do Brasil

Chapada dos VeadeirosPlantas do cerrado atuam como uma imensa esponja, recarregando aquíferos que abastecem rios e reservatórios. Nelson Yoneda. ICMBIO

O rio São Francisco está secando, haverá cada vez menos água em Brasília e a cidade de São Paulo terá de aprender a conviver com racionamentos.

O alerta é do arqueólogo e antropólogo baiano Altair Sales Barbosa, que há quase 50 anos estuda o papel do Cerrado na regulação de grandes rios da América do Sul.

Ele diz à BBC Brasil que a rápida destruição do bioma está golpeando um dos pilares do sistema: a gigantesca rede de raízes que atua como uma esponja, ajudando a recarregar os aquíferos que levam água a torneiras de todas as regiões do Brasil.

Formado em antropologia pela Universidade Católica do Chile, doutor em arqueologia pré-histórica pelo Museu de História Natural de Washington e professor aposentado da PUC-Goiás, Barbosa conta que a água que alimenta o São Francisco e as represas de São Paulo e Brasília vem de três grandes depósitos subterrâneos no Cerrado: os aquíferos Guarani, Urucuia e Bambuí.

Os aquíferos são reabastecidos pela chuva, mas dependem da vegetação para que a água chegue lá embaixo.

Barbosa afirma que muitas plantas do Cerrado têm só um terço de sua estrutura acima da superfície e, para sobreviver num ambiente com solo oligotrófico (pobre em nutrientes), desenvolveram raízes profundas e bastante ramificadas.

“Se você arrancar uma dessas plantas, vai contar milhares ou até milhões de raízes, e quando cortar uma raiz e levá-la ao microscópio, verá inúmeras outras minirraízes que se entrelaçam com as de outras plantas, formando uma espécie de esponja.”

Esse complexo sistema radicular retém água e alimenta as plantas na estação seca. Graças a ele, as árvores do Cerrado não perdem as folhas mesmo nem mesmo no auge da estiagem – diferentemente do que ocorre entre as espécies do Semiárido, por exemplo.

Barbosa conta que, quando há excesso de água, as raízes agem como esponjas encharcadas, vertendo o líquido não absorvido para lençóis freáticos no fundo. Dos lençóis freáticos a água passa para os aquíferos.

O professor diz que essa dinâmica começou a ser afetada radicalmente nos anos 1970, com a expansão da pecuária e de grandes plantações de grãos e algodão pelo Cerrado.

A nova vegetação tem raízes curtas e não consegue transportar a água para o fundo.

Pior: entre a colheita e o replantio, as terras ficam nuas, fazendo com que a água da chuva evapore antes de penetrar o solo. Em alguns pontos do Cerrado, como no entorno de Brasília, o uso de água subterrânea para a irrigação prejudica ainda mais a recarga dos aquíferos.

Em fevereiro, Brasília começou a racionar água pela primeira vez na história – e meses antes do início da temporada seca.

Migração de nascentes

Conforme os aquíferos deixaram de ser plenamente recarregados, Barbosa diz que se acelerou na região um fenômeno conhecido como migração de nascentes.

Para explicar o processo, ele recorre à imagem de uma caixa d’água com vários furos. Quando diminui o nível da caixa d’água, o líquido deixa de jorrar dos furos superiores.

Com os aquíferos ocorre o mesmo: se o nível de água cai, nascentes em áreas mais elevadas secam.

Reserva Extrativista de Recanto das Araras de Terra RoncaEspecialista afirma que, quando há excesso de água, as raízes agem como esponjas encharcadas. ICMBIO

Ele diz ter presenciado o fenômeno num dos principais afluentes do São Francisco, o rio Grande, cuja nascente teria migrado quase 100 quilômetros a jusante desde 1970.

O mesmo se deu, segundo Barbosa, nos chapadões no oeste da Bahia e de Minas Gerais: com a retirada da cobertura vegetal, vários rios que vertiam água para o São Francisco e o Tocantins sumiram.

O professor diz que a perda de afluentes reduziu o fluxo dos rios e baixou o nível de reservatórios que abastecem cidades do Nordeste, Centro-Oeste e Norte.

Em 2017, segundo a Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil (Sedec), o número de municípios brasileiros em situação de emergência causada por longa estiagem chegou a 872, a maioria no Nordeste.

Já em São Paulo as chuvas de verão aumentaram os níveis das represas e afastaram no curto prazo o risco de racionamento. Mas Barbosa afirma que a maioria dos rios que cruza o Estado é alimentada pelo aquífero Guarani, cujo nível também vem baixando.

O aquífero abastece toda a Bacia do Paraná, que se estende do Mato Grosso ao Rio Grande do Sul, englobando ainda partes da Argentina, Paraguai e Uruguai.

Fotografia do passado

Bastaria então replantar o Cerrado para garantir a recarga dos aquíferos?

A solução não é tão simples, diz o professor. Ele conta que o Cerrado é o mais antigo dos biomas atuais do planeta, tendo se originado há pelo menos 40 milhões de anos.

Segundo ele, olhar para o Cerrado é como olhar para uma fotografia do passado.

Parque das EmasSecretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil aponta que 872 cidades ficaram em situação de emergência por causa da estiagem em 2017. Rubens Matsushita. ICMBIO

“O Cerrado já atingiu seu clímax evolutivo e precisa, para o seu desenvolvimento, de uma série de fatores que já não existem mais.”

Ele exemplifica: há plantas do Cerrado que só são polinizadas por um ou outro tipo de abelhas ou vespas nativas, várias das quais foram extintas pelo uso de agrotóxicos nas lavouras. Essas plantas poderão sobreviver, mas não serão mais capazes de se reproduzir.

O Cerrado também é uma espécie de museu porque muitas de suas plantas levam séculos para se desenvolver e desempenhar plenamente suas funções ecológicas. É o caso dos buritis, uma das árvores mais famosas do bioma, que costuma brotar em brejos e cursos d’água.

Barbosa costuma dizer que, quando Cabral chegou ao Brasil, os buritis que vemos hoje estavam nascendo.

Mesmo plantas de pequeno porte costumam crescer bem lentamente. O capim barba-de-bode, por exemplo, leva mais de mil anos para atingir sua maturidade. Barbosa diz ter medido as idades das espécies com processos de datação em laboratório.

Parceria com animais

Sabe-se hoje da existência de cerca de 13 mil tipos de plantas no Cerrado, número que o torna um dos biomas mais ricos do mundo. Dessas espécies, segundo o professor, não mais que 200 podem ser produzidas em viveiros.

Ele conta que a ciência ainda não consegue reproduzir em laboratório as complexas interações entre os elementos do bioma, moldadas desde a era Cenozoica.

Barbosa diz, por exemplo, que muitas plantas do Cerrado têm sementes que são ativadas apenas em situações bem específicas. Algumas delas só têm a dormência quebrada quando engolidas por certos mamíferos e expostas a substâncias presentes em seus intestinos.

Há ainda sementes que precisam do fogo para germinar. Contrariando o senso comum, Barbosa diz que incêndios naturais são essenciais para a sobrevivência do Cerrado e podem ocorrer de duas formas.

Chapada dos VeadeirosO Cerrado tem hoje cerca de 13 mil tipos de plantas, número que o torna um dos biomas mais ricos do mundo. Marcelo Camargo. Agência Brasil

Uma delas se dá quando blocos de quartzo hialino, um tipo de cristal, agem como lentes que concentram a luz do sol, superaquecendo a vegetação.

A outra ocorre pela interação entre algumas plantas e animais do Cerrado, entre os quais a raposa, o lobo-guará, o tamanduá-bandeira e o cachorro-do-mato-vinagre.

Segundo Barbosa, esses mamíferos carregam no pelo uma carga eletromagnética que, em contato com gramíneas secas, provoca faíscas.

O professor diz que o fogo é necessário não só para ativar sementes, mas para permitir que gramíneas secas, que não têm qualquer função ecológica, sejam substituídas por plantas novas.

“Se a gramínea seca fica ali, não tem como rebrotar, então é preciso dessa lambida de fogo natural pra limpar aquele tufo.”

Os incêndios também são importantes, segundo ele, para que o solo do Cerrado continue pobre – afinal, foi nesse solo que o bioma se desenvolveu.

“O fogo é paradigma para quem pensa na preservação. Se você pensa como agrônomo, o fogo é nocivo, porque acentua o oligotrofismo do solo.”

Estancar os danos

Quando deixa de haver incêndios naturais, os animais e insetos nativos desaparecem e as plantas do Cerrado são derrubadas, é quase impossível reverter o estrago, diz Barbosa.

Mesmo assim, ele defende preservar toda a vegetação remanescente para estancar os danos.

Barbosa diz torcer para que, um dia, a ciência encontre formas de recuperar o bioma.

Cachoeira Véu da Noiva, na Chapada dos GuimarãesEspecialista diz que incêndios naturais são essenciais para a sobrevivência do Cerrado. SEDEC/MT

“Claro que você não vai reocupar toda a área que está produzindo [alimentos], mas você pode pelo menos tentar amenizar a situação nas áreas de recarga de aquíferos.”

Sua preocupação maior é com a fronteira agrícola conhecida como Matopiba, que engloba os últimos trechos de Cerrado no Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia. Nos últimos anos, a região tem experimentado uma forte expansão na produção de grãos e fibras.

“Se esse projeto continuar avançando, será o fim: aí podemos desacreditar qualquer possibilidade, porque não teremos nem matriz para experiências em laboratório.”

Nesse cenário, diz Barbosa, os aquíferos do Cerrado rapidamente se esgotarão.

“Os rios vão desaparecer e, consequentemente, vai desaparecer toda a atividade humana da região, a começar das atividades agropastoris.”

“Teremos uma convulsão social”, ele prevê.

Fonte – João Fellet, BBC Brasil de 27 de março de 2017

Os mercadores de sonho e a transposição do rio São Francisco. Bem social, direito de todos, transformado em bem econômico, direito de alguns

“O Projeto de Transposição de Águas do Rio São Francisco é eleitoreiro, e por isso é muito oportuno usá-lo em momentos como este que temos pela frente, as eleições de 2018”, afirma Dom Luiz Flávio Cappio à IHU On-Line, em entrevista concedida por e-mail, ao comentar a inauguração de primeira parte da transposição do rio São Francisco, que foi comemorada tanto pelo governo Temer, quanto pelos ex-presidentes Lula e Dilma.

Na avaliação de Dom Cappio, “numa situação de total insegurança política e falta de candidatos sérios com propostas igualmente sérias, essa obra e essas ‘inaugurações’ se constituem em prato cheio para esses que sempre enganaram e continuam enganando o povo, mormente os mais pobres e necessitados de água e alimentos”.

Um dos principais opositores da transposição do rio São Francisco, Dom Cappio avalia que a transposição “foi o preço pago por Lula para garantir sua vitória no 2º turno das eleições de 2002”, e teve o apoio “da bancada cearense capitaneada por Ciro Gomes”. Segundo ele, “o grande interesse da bancada cearense eram os imensos investimentos a serem feitos no território do estado do Ceará e garantir, quem sabe no futuro, água para o agronegócio naquele estado”. Portanto, adverte, “essa obra significa o fortalecimento dos grupos políticos afinados ao governo federal, a garantia de grandes investimentos em infraestrutura, a valorização das terras por onde devem passar os canais, o armazenamento de água para os grandes projetos agroindustriais”.

Dom Luiz Flávio Cappio é o Bispo da Diocese de Barra, BA. Em 2005 e 2007 fez greve de fome em protesto contra o projeto do governo federal de transposição do rio São Francisco. Em 2008, a organização Pax Christi Internacional (Bélgica) deu a Dom Cappio o prêmio da Paz do mesmo ano, por sua luta em defesa da vida na região do São Francisco. Em 2009, recebeu o Prêmio Kant de Cidadão do Mundo, da Fundação Kant (Alemanha).

IHU On-Line – O senhor foi um dos principais opositores da transposição do rio São Francisco. Como se sentiu ao ver a inauguração de parte da obra?

Dom Luiz Flávio Cappio – Sempre dizíamos, e este é um dos vícios da obra, que a Transposição de Águas do Rio São Francisco sempre foi, é, e se tem mostrado agora com maior evidência, uma “obra eleitoreira”. As obras garantiram o 2º mandato do presidente Lula, o 1º e o 2º mandato da presidente Dilma. Falar em água no Nordeste é uma fonte certa de votos, principalmente do povo mais sofrido, carente e pobre. Sempre às vésperas das eleições se recomeçavam as obras, muitas vezes paradas. Fazia parte importante das propagandas eleitorais dos candidatos. Quantas fotos desses mesmos candidatos passeando pelas obras e fazendo tantos pronunciamentos de propaganda enganosa. Isso sempre levou o povo ao delírio, principalmente o povo sedento e faminto. Voto certo nas urnas. Sempre foi assim.

Pergunto, qual comunidade tem se beneficiado das águas da Transposição? Quem tem coragem de beber aquela água que corre centenas de quilômetros a céu aberto, sujeita a toda ordem de sujeira e dejetos? Agora, novamente, às vésperas das eleições gerais de 2018, numa situação de total insegurança política e falta de candidatos sérios com propostas igualmente sérias, essa obra e essas “inaugurações” se constituem em prato cheio para esses que sempre enganaram e continuam enganando o povo, mormente os mais pobres e necessitados de água e alimentos. Se continuarem com este importante “cabo eleitoral”, terão vitória certa, principalmente no Nordeste.

Respondendo à pergunta, digo: sinto-me mais uma vez ludibriado. Indignado pela falta de respeito e insensibilidade diante do sofrimento e carência de tanta gente que acredita a partir de suas necessidades básicas, diante da arrogância e falta de ética e cidadania dos falsos “mercadores de sonhos”.

IHU On-Line – No último domingo, dia 19 de março, foi realizada a “Grande festa do povo brasileiro. Inauguração da Transposição do Rio São Francisco com Lula e Dilma”. Como o senhor avaliou esse evento e a postura de parte da esquerda brasileira, que vibrou com a conclusão de parte da obra?

Dom Luiz Flávio Cappio – O Projeto de Transposição de Águas do Rio São Francisco é eleitoreiro, e por isso é muito oportuno usá-lo em momentos como este que temos pela frente, as eleições de 2018. Falar em obras hídricas no Nordeste brasileiro é fonte certa de votos. Daí se explica a grande festa de inauguração das obras. É interessante quando a chamada esquerda promove tal festa. Além de ideologizar a obra, que deveria ser vista a partir de sua função social, é vista a partir de sua função ideológica. Infelizmente é o que acontece. E no caso, é a esquerda servindo de capacho para os interesses da direita, a qual será beneficiada, e não o povo, de quem a chamada esquerda deveria estar a serviço.

IHU On-Line – O que essa transposição significa para o Nordeste?

Dom Luiz Flávio Cappio – O Projeto de Águas do Rio São Francisco foi o preço pago por Lula para garantir sua vitória no 2º turno das eleições de 2002, conseguindo assim o apoio da bancada cearense capitaneada por Ciro Gomes. O grande interesse da bancada cearense eram os imensos investimentos a serem feitos no território do estado do Ceará e garantir, quem sabe no futuro, água para o agronegócio naquele estado. Essa obra significa o fortalecimento dos grupos políticos afinados ao governo federal, a garantia de grandes investimentos em infraestrutura, a valorização das terras por onde devem passar os canais, quem sabe – digo quem sabe porque esta afirmação não é garantida -, o armazenamento de água para os grandes projetos agroindustriais. Esse é o grande significado do Projeto para o Nordeste. Não faz parte do objetivo do projeto a oferta de água para a população, tão decantado pela propaganda enganosa do governo.

IHU On-Line – Como os ribeirinhos e a população que vivem às margens do São Francisco têm reagido a essa obra? Ainda há uma resistência à transposição? Como essa resistência tem aparecido ao longo desta década?

Dom Luiz Flávio Cappio – Podemos observar três tipos de reação: a) de pessoas esclarecidas que são visceralmente contra o projeto, por entenderem o seu verdadeiro significado; b) de boa parte do povão que acredita piamente em tudo o que os governantes e principalmente a mídia diz, sem nenhum espírito crítico. Levados pela necessidade querem crer nesta utopia de ter água em abundância; c) aqueles que “não são nem a favor e nem contra, muito pelo contrário”.

A resistência ao projeto tem acontecido nos grupos organizados das comunidades que conhecem a realidade do rio e as consequências de um macroprojeto dessa natureza, nas universidades que, a partir do dado teórico, avaliam as reais possibilidades de um projeto como esse, nas pessoas que convivem com o rio e sabem de sua debilidade e já estão cansadas das falsas promessas de anos a fio. Esse projeto jamais foi discutido com a sociedade civil. Foi concebido e decidido dentro de quatro paredes, levado por interesses escusos. Toda nossa luta de alguns anos atrás foi na tentativa de discutir o projeto, pensar a melhor alternativa de oferta de água para o Nordeste. Mas todas as portas nos foram fechadas. Ele já estava decidido.

IHU On-Line – O senhor se encontrou com o ex-presidente Lula depois do fim do seu “jejum de oração”, que ficou conhecido como sua greve de fome por conta da transposição do rio São Francisco. À época o senhor comentou que o ex-presidente Lula lhe disse que estava convicto de que a realização da obra era a melhor opção para o Nordeste, mas que aceitaria abrir um debate com a sociedade e que poderia mudar de ideia caso argumentos como os seus fossem convincentes. Que avaliação faz desse encontro, anos depois? A transposição do São Francisco foi de fato tema de discussão na sociedade? Por que avalia que o ex-presidente não mudou de opinião?

Dom Luiz Flávio Cappio – Quando, por ocasião de nosso encontro com o presidente Lula, referi-me ao grande projeto, quiçá o maior de seu governo, da Agência Nacional de Águas – ANA, intitulado “Atlas do Nordeste”, que previa o abastecimento hídrico das comunidades de todo o Nordeste a partir de adutoras, levando água diretamente para as caixas d’água dessas mesmas comunidades mais carentes de água. Uma verdadeira revolução na oferta de água por parte de obras hídricas do governo federal. Uma joia de projeto. Repito: projeto concebido e elaborado no governo do presidente Lula. Um projeto que, se implementado, o levaria para a história (do lado bom da mesma).

Disse-lhe que ele estava diante de uma decisão de duas possibilidades: a Transposição que se caracteriza pelo uso econômico da água, a água transformada em mercadoria na produção de royalties, que não é de seu governo; e o Projeto da ANA, que garantiria a distribuição da água para uso humano e animal (exemplos, a adutora que garante água para a microrregião de Irecê-BA, a adutora que garante água para a região de Guanambi–BA, e a “adutora do sertão”, que de Floresta-PE, abastece o sertão pernambucano).

Diante do compromisso feito em campanha com Ciro Gomes e a bancada cearense, Lula optou pela Transposição. Assim as águas do rio São Francisco se transformam em bem econômico, direito de alguns, e deixa de ser um bem social, direito de todos.

IHU On-Line – Um dos principais argumentos dos governos PT e PMDB ao defenderem a transposição do Rio São Francisco era o de que a obra beneficiaria 12 milhões de pessoas em quatro estados, Pernambuco, Ceará, Paraíba e Rio Grande do Norte. Por que na sua avaliação esse argumento é frágil?

Dom Luiz Flávio Cappio – Observem a falácia, quando afirmam que beneficiarão 12 milhões de habitantes. Nesta cifra estão incluídos os habitantes das grandes cidades nordestinas como Recife, João Pessoa, Aracajú, Maceió, Natal, Fortaleza, Teresina. Todas elas já beneficiadas por grandes obras públicas de oferta de água. Estas cidades já estão abastecidas, não necessitam de obra dessa magnitude para garantir oferta d’água para a população. Quem precisa de água são as comunidades do grande sertão nordestino, totalmente carentes e desassistidas. Estas continuarão não possuindo água, pois o Projeto não tem este objetivo.

IHU On-Line – Deseja acrescentar algo?

Dom Luiz Flávio Cappio – O Projeto de Transposição de Águas do Rio São Francisco é anticonstitucional por dois motivos:

a) diz a Constituição Cidadã de 1988 que a prioridade de recursos públicos em obras hídricas deve ser a dessedentação humana e animal. O Projeto inverte esta prioridade, colocando em primeiro lugar o uso econômico da água em detrimento do uso social;

b) a mesma Constituição também afirma que obras públicas que passam por territórios indígenas ou comunidades tradicionais, para serem aprovadas, devem ter o parecer do Congresso Nacional. O Congresso jamais foi consultado ou deu algum parecer sobre a obra.

Fonte – IHU de 24 de março de 2017

Seu alimento do futuro será cultivado com águas residuais

Crédito: Ian Sane / Creative Commons / FlickrNa imagem acima, um sistema de irrigação utilizado em uma plantação. Crédito: Ian Sane / Creative Commons / Flickr 

Não adianta resistir à ideia. É importante garantir que águas residuais sejam tratadas antes do uso na agricultura

Em um mundo cada vez mais escasso de água, não há dúvida de que a reciclagem da água já utilizada precisa ser tornar algo normal. Parte disso implicará, inevitavelmente, o uso de águas residuais para ajudar a cultivar os alimentos que necessitamos. Mas será que algum dia nos sentimos confortáveis com o uso de águas residuais para a produção de alimentos?

A realidade é que isso já está acontecendo, mas é preciso fazer mais para manter as comunidades seguras dos perigos de utilizar águas residuais não tratadas.

O uso de águas residuais para a produção de alimentos é sobretudo uma questão de gestão de escassez de água e de custos socioeconômicos. O crescimento exponencial da população e as mudanças climáticas comprometeram seriamente a disponibilidade de água em muitas regiões, do Oriente Médio a África, ao Sudeste Asiático e à América Latina. As comunidades locais precisam encontrar urgentemente soluções para o problema da crescente escassez de água.

Se utilizadas corretamente, águas residuais podem fornecer nutrientes importantes para o crescimento de plantas e agir como um substituto de fertilizantes minerais. Entretanto, elas somente devem ser usadas para fins agrícolas após tratamento. Infelizmente, a realidade é bem diferente em muitas regiões do mundo.

As políticas agrícolas e hídricas não abordaram suficientemente as ameaças inerentes à utilização de águas residuais não tratadas para irrigação. Frequentemente, materiais perigosos sob a forma de metais pesados, contaminantes orgânicos, patógenos ou bactérias resistentes a antibióticos podem ser encontrados em águas residuais. Estes acumulam-se em solos, plantações e águas subterrâneas, passando assim para a cadeia alimentar.

Se evidências de ameaças à saúde humana e ao meio ambiente estão prontamente disponíveis, por que tantos agricultores ainda utilizam águas residuais não tratadas para fins de irrigação?

Em países em desenvolvimento, o uso de águas residuais não tratadas tem uma grande vantagem: a gratuidade. Isto significa que os agricultores as utilizam para a irrigação de colheitas sem adotar as precauções necessárias para evitar riscos à saúde pública.

Atualmente, as águas residuais irrigam entre 1,5% e 6,6% das terras cultiváveis em todo o mundo; cerca de 10% dos alimentos do mundo são produzidos utilizando essa prática. A verdadeira extensão do uso ilegal de águas residuais não tratadas para a agricultura é, contudo, desconhecida.

O Valle del Mezquital no México ilustra perfeitamente os problemas envolvidos. A urbanização rápida e instalações de tratamento inadequadas levaram os agricultores do vale a usarem águas residuais não tratadas da Cidade do México para fins de irrigação. Por mais de um século, tal prática ajudou a produzir safras comercializáveis a baixos custos.

Mas esses benefícios vêm ao custo da saúde da população. O uso de água contaminada para o cultivo de plantações resultou em doenças gastrointestinais severas e câncer na comunidade local. Bebês, crianças pequenas, mulheres grávidas, idosos e pessoas cujos sistemas imunológicos estejam comprometidos devido ao HIV/AIDS são especialmente vulneráveis.

Não é por acaso que o Valle del Mezquital tem a maior incidência de câncer de rim na região, bem como a ocorrência de helmintos (vermes parasitas) ou infecções por giárdia em crianças.

Somente por meio do desenvolvimento de estratégias de saneamento ecologicamente corretas foi possível atingir a redução das cargas de poluição da água, conservando os benefícios dos nutrientes. Desde 1999, plantas de usinas de águas residuais locais foram construídas, assim como novos pântanos, com resultados satisfatórios de qualidade d’água. Mas os povos do vale ainda estão reticentes sobre os benefícios das águas residuais tratadas.

A experiência de países industrializados mostra que mesmo tecnologias avançadas de tratamento de águas residuais enfrentam dificuldades para abordar todos os riscos. Sabe-se que a presença de poluentes emergentes e bactérias resistentes a antibióticos em águas residuais escapa ao tratamento convencional de águas residuais.

É desnecessário dizer que esses contaminantes são, mesmo em baixas concentrações, uma séria ameaça à saúde humana. Precisamos de tecnologias e acompanhamento estruturado para garantir respostas rápidas a fim de manter as comunidades seguras.

Não há como evitar o fato de que nossa comida no futuro será cultivada usando água residual. Comunidades locais como aquelas no Valle del Mezquital têm um limite do que podem fazer para se protegerem; regulamentos e políticas governamentais devem ser avaliados juntamente com evidências científicas do risco que as águas residuais podem representar à saúde humana. Só então o uso seguro de águas residuais na agricultura poderá estimular o desenvolvimento sustentável em nosso mundo escasso  em água.

Serena Caucci  é pesquisadora-assistente na Unidade de Gestão de Resíduos e Kristin Meyer pesquisadora-assistente na Unidade de Desenvolvimento de Capacidade e Governança da Universidade das Nações Unidas (UNU-FLORES, Alemanha).

Fontes – Serena Caucci e Kristin Meyer, The Conversation / Carta Capital de 23 de março de 2017

Entenda a importância das regiões hidrográficas do Brasil

Bacia Hidrográfica do São Francisco. Região Hidrográfica do São Francisco abrange 521 municípios em sete unidades federativas. Divulgação/ANA

Com 12 bacias hidrográficas, território brasileiro contém cerca de 12% de toda a água doce do planeta

Com extensão que cobre cerca de 80% do território brasileiro, as bacias hidrográficas são um conjunto de terras em que o escoamento das águas das chuvas, que acontece por meio de riachos e córregos, chega a um único ponto, um rio.

Ao todo, são 200 mil microbacias espalhadas em 12 regiões hidrográficas, como as bacias do São Francisco, do Paraná e a Amazônica – a mais extensa do mundo e majoritariamente localizada no Brasil. Esta quantidade importante de bacias permite que o País contabilize cerca de 12% de toda a água doce do planeta.

É por conta das bacias também que o potencial hídrico do País provê um volume de água por pessoa 19 vezes superior ao mínimo estabelecido pela Organização das Nações Unidas (ONU) – de 1.700 m³/s por habitante por ano.

Para proteger esses grandes reservatórios de água doce, o governo federal possui o Programa de Revitalização de Bacias Hidrográficas. O objetivo principal é recuperar, conservar e preservar as bacias em situação de vulnerabilidade ambiental, por meio de ações permanentes e integradas que promovam o uso sustentável dos recursos naturais, a melhoria das condições socioambientais e a melhoria da disponibilidade de água em quantidade e qualidade para os diversos usos.

Conheça mais sobre as 12 regiões hidrográficas brasileiras

Região Hidrográfica Amazônica

É constituída pela maior rede hidrográfica do globo terrestre, ocupando uma área da ordem de 6,1 milhões de km², desde suas nascentes nos Andes Peruanos até sua foz no oceano Atlântico, na Região Norte do Brasil. É a maior do mundo em disponibilidade de água. A bacia continental se estende sobre sete países da América do Sul, e 63% dela ficam no Brasil.

Região Hidrográfica do Tocantins-Araguaia

Possui uma área de 918.822 km², 11% do território nacional, e abrange os estados de Goiás, Tocantins, Pará, Maranhão, Mato Grosso e Distrito Federal. Ela apresenta grande potencialidade para a agricultura irrigada, especialmente para o cultivo de frutíferas, de arroz e outros grãos, como milho e soja.

Região Hidrográfica Atlântico Nordeste Ocidental

Está situada majoritariamente no Maranhão e em uma pequena porção do Pará, com área de 274.301 km², aproximadamente 3,2% da área do Brasil. A região apresenta uma vazão média de 2.608 m³/s, ou seja, 1% do total do País, e a principal necessidade da água na bacia é para consumo humano.

Região Hidrográfica do Parnaíba

Depois da bacia do rio São Francisco, essa região é, hidrologicamente, a segunda mais importante do Nordeste. Ela abrange, em maior parte, o Piauí, além de parte do Maranhão e do Ceará. Os aquíferos da região apresentam o maior potencial hídrico da Região Nordeste, no entanto, existem grandes diferenças interregionais de disponibilidade hídrica.

Região Hidrográfica do Atlântico Nordeste Oriental

Tem área de 286.802 km², equivalente a 3,3% do território brasileiro. A bacia tem uma importância singular em relação à ocupação urbana ao contemplar cinco importantes capitais do Nordeste, regiões metropolitanas, dezenas de grandes núcleos urbanos e um parque industrial significativo.

Região Hidrográfica do São Francisco

A Região Hidrográfica do São Francisco abrange 521 municípios em sete unidades federativas: Bahia, Minas Gerais, Pernambuco, Alagoas, Sergipe e Goiás, além do Distrito Federal. Com 2.700 km, o rio São Francisco nasce na Serra da Canastra, em Minas Gerais. Fundamental para o Semiárido nordestino, a área de drenagem de 638.576 km² ocupa 8% do território nacional. O potencial hidrelétrico aproveitado da bacia é de 10.473 MW, distribuídos principalmente nas usinas Três Marias, Queimado, Sobradinho, Itaparica, Complexo Paulo Afonso e Xingó.

Região Hidrográfica Atlântico Leste

Fazem parte da Região Hidrográfica Atlântico Leste as capitais dos estados de Sergipe e da Bahia, alguns grandes núcleos urbanos e um parque industrial significativo. Ela tem uma área de 388.160 km², equivalente a 4,5% do território brasileiro, onde estão inseridos 526 municípios parcial ou integralmente.

Região Hidrográfica do Paraguai

O rio Paraguai nasce no Brasil, e a região hidrográfica abrange uma área de 1 milhão de km², sendo 33% no Brasil e o restante na Argentina, Bolívia e Paraguai. A Região Hidrográfica do Paraguai inclui uma das maiores extensões úmidas contínuas do planeta, o Pantanal, considerado Patrimônio Nacional pela Constituição Federal de 1988 e Reserva da Biosfera pela Unesco no ano de 2000.

Região Hidrográfica do Paraná

Com 32,1% da população nacional, apresenta o maior desenvolvimento econômico e a maior demanda por recursos hídricos do País. Com uma área de 879.873 km², a região abrange os estados de São Paulo, Paraná, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Goiás, Santa Catarina e Distrito Federal. Em 2010, aproximadamente 61,3 milhões de pessoas viviam na região, 32% da população do Brasil.

Região Hidrográfica do Sudeste

Soma 214.629 km² de área, o equivalente a 2,5% do País. Ela é conhecida nacionalmente pelo elevado contingente populacional e pela importância econômica da indústria. O grande desenvolvimento da região, entretanto, é motivo de problemas em relação à disponibilidade de água, já que cerca de 28,2 milhões de pessoas habitavam a região em 2010 (14,8% da população do Brasil) e ela apresenta uma das menores disponibilidades relativas no País.

Região Hidrográfica do Uruguai

Tem grande importância devido às atividades agroindustriais e pelo potencial hidrelétrico. O rio Uruguai possui 2.200 km de extensão, e a bacia hidrográfica possui, em território brasileiro, 174.533 km² de área, 2% do território nacional. A região possui um total de 384 municípios, nos estados de Santa Catarina e Rio Grande do Sul.

Região Hidrográfica Atlântico Sul

Destaca-se pelo grande contingente populacional, pelo desenvolvimento econômico e pela importância para o turismo. A região se inicia ao norte, próximo à divisa dos estados de São Paulo e Paraná, e se estende até o arroio Chuí, ao sul. Possui uma área total de 187.522 km², que representa 2,2% do Brasil e abriga 451 municípios.

Fonte – Portal Brasil, com informações do MMA e da ANA de 22 de março de 2017

sosma divulga qualidade da água em 184 rios, córregos e lagos

observando os rios 2017

A Fundação SOS Mata Atlântica apresenta neste Dia Mundial da Água um panorama sobre a qualidade da água de 240 pontos de coleta distribuídos em 184 rios, córregos e lagos de bacias hidrográficas do bioma. Apenas 2,5% dos locais avaliados possuem qualidade boa, enquanto 70% estão em situação regular e 27,5% com qualidade ruim ou péssima. Isso significa que 66 pontos monitorados estão impróprios para o abastecimento humano, lazer, pesca, produção de alimentos, além de não terem condições de abrigar vida aquática. Nenhum dos pontos analisados foi avaliado como ótimo.

O levantamento foi realizado em 73 municípios de 11 estados da Mata Atlântica, além do Distrito Federal, entre março de 2016 e fevereiro de 2017. Os dados foram obtidos por meio de coletas e análises mensais de água realizadas por 194 grupos de voluntários do programa “Observando os Rios”, com patrocínio da Ypê.

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“A principal causa da poluição dos rios monitorados é o despejo de esgoto doméstico junto a outras fontes difusas de contaminação, que incluem a gestão inadequada dos resíduos sólidos, o uso de defensivos e insumos agrícolas, o desmatamento e o uso desordenado do solo”, afirma Malu Ribeiro, especialista em Recursos Hídricos da Fundação SOS Mata Atlântica.

De acordo com ela, a qualidade regular em 70% dos pontos é um grave alerta. Além, disso, a indisponibilidade de água decorrente dos maus usos dos recursos hídricos é intensificada pela falta de atualização da legislação ambiental.

“É fundamental aperfeiçoar a legislação que trata do enquadramento dos rios, de forma a excluir os de Classe 4 da norma nacional. Essa classe, que na prática permite a existência de rios mortos por ser extremamente permissiva em relação a poluentes, mantém muitos em condição de qualidade péssima ou ruim, indisponíveis para usos”, acrescenta Malu.

Comparativo 2016-2017

O estudo comparou os resultados do monitoramento de 152 pontos fixos de coletas, distribuídos por cinco estados – Alagoas, Paraíba, Pernambuco, Rio de Janeiro e São Paulo –, além do Distrito Federal. Foram consideradas as médias dos indicadores mensais do Ciclo 2016 (março de 2015 a fevereiro de 2016) e do Ciclo 2017 (março de 2016 a fevereiro de 2017).

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Os indicadores apontam uma diminuição de pontos com qualidade ruim, passando de 54 (35,5%) para 48 (31,6%), mas um aumento de locais com água péssima, de 1 (0,7%) para 3 (2%). O estudo também destaca um aumento na qualidade regular, passando de 94 (61,8%) para 97 (63,8%), e nos pontos com qualidade boa, de 3 (2%) para 4 (2,6%).

“Essa leve tendência de melhora está associada a fatores climáticos, já que o aumento no volume e na vazão dos rios na região Sudeste no último ano contribuiu para a diluição de poluentes. Entretanto, tivemos a perda de qualidade em 15 pontos, sendo 13 localizados em capitais, resultado dos baixos índices de coleta e tratamento de esgoto”, explicou Malu Ribeiro.

Metodologia

Os dados das análises desse estudo seguem a metodologia de monitoramento por percepção da qualidade da água, especialmente elaborada para a Fundação SOS Mata e que tem como base o Índice de Qualidade da Água (IQA).

Para a medição dos parâmetros definidos no IQA, a SOS Mata Atlântica desenvolveu um kit de análise que é utilizado em campo por voluntários do projeto “Observando os Rios”. Os indicadores apurados são reunidos em um sistema online de dados georreferenciados, que totaliza e disponibiliza o resultado obtido em cada ponto de coleta pelos grupos de monitoramento em tempo real.

São avaliados 16 parâmetros do IQA: temperatura da água, temperatura do ambiente, turbidez, espumas, lixo flutuante, odor, material sedimentável, peixes, larvas e vermes vermelhos, larvas e vermes brancos, coliformes totais, oxigênio dissolvido (OD), demanda bioquímica de oxigênio (DBO), potencial hidrogeniônico (pH), fosfato (PO4) e nitrato (NO3). A totalização dos indicadores medidos resulta na classificação da qualidade da água, em uma escala que varia entre: ótima, boa, regular, ruim e péssima.

Sobre o Observando os Rios

O programa surgiu em 1991, com uma campanha que reuniu 1,2 milhão de assinaturas em prol da recuperação do Rio Tietê e originou o primeiro projeto de monitoramento da qualidade da água por voluntários, o “Observando o Tietê”. Para agregar outras bacias hidrográficas, a iniciativa foi ampliada e passou a se chamar “Observando os Rios”. Em nova fase, com o patrocínio da Ypê, o projeto agora tem como objetivo formar 10 grupos de monitoramento da qualidade da água em cada um dos 17 estados da Mata Atlântica. Atualmente, são 212 grupos de monitoramento que analisam a qualidade da água em 257 pontos, 197 rios, em 80 municípios dos estados de SP, RJ, ES, BA, MG, PB, PE, AL, CE, SC, PR, RN e DF envolvendo cerca de 3,4 mil pessoas.

Fonte – SOSMA 22 de março de 2017

Papa Francisco alerta para uma ‘grande guerra mundial pela água’

Em uma reunião do Vaticano pelo direito universal à água potável segura e acessível, o Papa Francisco também citou estatísticas “preocupantes” das Nações Unidas, que indicam que mil crianças morrem por dia por doenças relacionadas à água.

O acesso à água potável é um direito humano básico e um componente-chave para a proteção da vida humana, disse o Papa Francisco.

“O direito à água é essencial para a sobrevivência das pessoas e determinante para o futuro da humanidade”, disse o Papa, no dia 24 de fevereiro, durante uma reunião com 90 especialistas internacionais que participaram do “Diálogo sobre a Água” na Pontifícia Academia de Ciências.

Considerando todos os conflitos do mundo, disse o Papa Francisco, “me questiono se não estamos rumando a uma grande guerra mundial pela água”.

O acesso à água é uma questão básica e urgente, disse ele. “Básica, pois onde há água, há vida, possibilitando que sociedades surjam e avancem. Urgente, pois a nossa casa comum precisa ser protegida.”

Citando estatísticas “preocupantes” das Nações Unidas, o Papa disse: “por dia – por dia! -, mil crianças morrem de doenças relacionadas à água e milhões de pessoas consomem água poluída”.

Ainda que a situação seja urgente, não é insuperável, disse ele. “Nosso compromisso de dar à água o seu devido lugar depende do desenvolvimento de uma cultura de cuidado – o que pode soar poético, mas tudo bem, porque a criação é um poema.”

Cientistas, líderes empresariais, fiéis e políticos devem trabalhar juntos para educar as pessoas sobre a necessidade de proteger os recursos hídricos e encontrar maneiras de garantir um maior acesso à água limpa “para que outros possam viver”, disse ele.

A falta de água potável limpa e segura “causa grande sofrimento em nossa casa comum”, disse o Papa. “E também clama por soluções práticas capazes de superar as preocupações egoístas que impedem que todos exerçam esse direito fundamental.”

“Precisamos unir as nossas vozes por uma única causa; para que não sejam vozes individuais ou isoladas, mas sim que o apelo de nossos irmãos e irmãs ecoe em nossa própria voz e o pedido da terra por respeito e compartilhamento responsável de um tesouro que pertence a todos”, disse ele.

Se cada um contribuir, disse o Papa, “estaremos colaborando para tornar a nossa casa comum um lugar mais habitável e fraterno, onde ninguém seja rejeitado ou excluído, mas todos tenham acesso aos bens necessários para viver e crescer com dignidade.”

Fontes – Cindy Wooden, Tradução Luísa Flores Somavilla, Crux / IHU de 02 de março de 2017