Biólogos acusam Coca-Cola de secar nascentes em Minas Gerais

Fábrica da Coca-Cola em Itabirito, na região metropolitana de Belo HorizonteFábrica da Coca-Cola foi inaugurada em 2015 em Itabirito, na região metropolitana de Belo Horizonte

Associação ambiental afirma que, em três anos, fábrica na Grande Belo Horizonte afetou vazão de nascentes e lençóis freáticos. Empresa nega irregularidades, e Ministério Público diz que estudos são “insuficientes”.

“Secou tudo, olha só. Que tristeza”, lamenta Sebastião Gomes de Laia enquanto caminha pelo lamaçal coberto de capim às margens da rodovia BR-040, em Minas Gerais. “Tudo o que você está vendo aqui era água, onde o pessoal pescava traíra”, recorda o pintor de 65 anos, um dos primeiros a ocupar os terrenos do bairro Água Limpa, perto de Itabirito, na região metropolitana de Belo Horizonte.

Laia chegou ali, na encosta da Serra da Moeda, em 2008. Sete anos depois, em 2015, foi inaugurado o projeto de um novo empreendimento em Itabirito: a Fábrica da Coca-Cola FEMSA, aclamada pelo então governador, Antonio Anastasia (PSDB), como unidade geradora de renda e empregos para a região.

No entanto, com a inauguração da fábrica, a água da região parece ter começado a sumir. Os moradores, que antes a carregavam em vasilhames dos mananciais, começaram a improvisar bombas d’água – já que, ainda à espera de regularização, o bairro não conta com sistema de esgoto, abastecimento de água nem fornecimento de energia formalizados.

A Associação Mineira de Defesa do Ambiente (AMDA) afirma que os poços artesianos implantados pela concessionária de abastecimento de Itabirito para a unidade da Coca-Cola (apelidada de “Fábrica da Felicidade”) estão secando nascentes dos rios Paraopeba e das Velhas – responsáveis por quase toda a água de Belo Horizonte. Os poços também estariam colocando em xeque o rico ecossistema do monumento natural da Serra da Moeda.

“Há uma redução significativa na vazão das nascentes em toda a região”, explica Francisco Mourão, biólogo da AMDA. Ele diz que, desde que a fábrica começou as atividades, várias comunidades, principalmente do lado de Brumadinho e de Moeda, tiveram seus lençóis freáticos rebaixados. Há locais que inclusive são abastecidos por caminhões-pipa, e “alguns [dos caminhões] são enviados pela própria Coca-Cola”, diz Mourão.

Sebastião Gomes de Laia (Pedro Gontijo)Sebastião Gomes de Laia diz que fábrica da Coca-Cola está secando água da região e não trouxe empregos como prometido

“Estudos inconclusivos”

De acordo com a Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Semad), a outorga para o uso da água na região foi concedida antes da instalação da Coca-Cola FEMSA. O empreendimento foi liberado desde que fosse feita uma pesquisa pela empresa, de duração de dois anos, com acompanhamento do Ministério Público de Minas Gerais (MPMG), da Semad e da Universidade de São Paulo (USP). As análises deverão ser entregues em agosto.

Segundo a secretaria, se esses estudos constatarem que o sistema de água está rebaixando os lençóis freáticos, é a concessionária quem terá que providenciar outra forma de abastecimento.

O MPMG, que instaurou um inquérito civil para apurar os danos ambientais, considera os estudos realizados até agora “inconclusivos” e incapazes de responder à questão fundamental, ou seja, se o bombeamento está realmente acabando com a água da região.

A Coca-Cola FEMSA, que chama a unidade em Itabirito de “a maior fábrica verde do sistema Coca-Cola do mundo”, afirma que possui todas as licenças para funcionamento.

Em dias de maior consumo, o total utilizado pela fábrica é de 125 m³/h, pouco mais da metade dos 274 m³/h de bombeamento demandados pela região. Segundo a empresa, os caminhões-pipa são enviados pela concessionária de Brumadinho. A companhia diz que “há evidências técnicas” de que os poços artesianos não estão interferindo nas nascentes.

Ecossistema em risco

Além das nascentes e dos lençóis freáticos, Mourão também se preocupa com os danos causados pela fábrica e pelas ocupações urbanas ao redor dela no ecossistema conhecido como campos sobre substrato ferruginoso. Com uma riqueza em fauna e flora, o ecossistema é encontrado apenas na região do Quadrilátero Ferrífero de Minas Gerais e na Serra dos Carajás, no Pará. Em Minas, está presente numa área restrita, de cerca de 30 mil hectares.

Por existirem em ambientes ricos em minério de ferro, os campos são presa fácil da mineração na região. Nos entornos da Coca-Cola, a AMDA apontou aterramento desses ecossistemas.

Somam-se a isso as ocupações urbanas nos arredores da fábrica. No último dia 21 de maio, a reportagem da DW Brasil acompanhou Mourão nos arredores da Coca-Cola e flagrou acúmulo de lixo, aterros, nascentes com detritos, loteamentos e criação de porcos.

Biólogo Francisco Mourão“Há uma redução significativa na vazão das nascentes em toda a região”, afirma o biólogo Francisco Mourão

Mourão diz que, só entre 2009 e 2014, a quantidade de casas na região aumentou de 200 para 2 mil. De lá para cá, o biólogo acredita esse número deve ter duplicado.

“Essas áreas eram praticamente todas naturais”, diz ele, que espera que a AMDA possa interferir no novo processo de licenciamento ambiental, que termina neste ano.

“No início, fizemos uma proposta de implantação de um cinturão verde, que seria vedado à expansão urbana. Mas a empresa [Coca-Cola] não concordou e jogou a responsabilidade para cima da prefeitura de Itabirito”, declara Mourão. Segundo ele, a prefeitura de Itabirito, que não respondeu à DW Brasil, também se esquivou.

Empregos na região

Laia afirma que a comunidade vizinha até hoje não colheu os frutos da fábrica da Coca-Cola. “Só tem quatro pessoas do Água Limpa trabalhando lá”, diz o ex-presidente da associação de moradores, que afirma que só o posto de saúde local conta com 4 mil inscritos.

“Eles não ajudam em nada. O máximo que fizeram foi dar apoio ao campeonato de futebol da região, mas só distribuindo refrigerante”, critica.

Sem confirmar os números de Laia, Milton da Cruz, atual presidente da Associação dos Moradores do Água Limpa (AMALI), diz que o número de funcionários da fábrica na região “está melhorando”. Ele também destaca que a fábrica abre sua as portas para visitas de crianças e adolescentes, que incluem palestras justamente sobre uso de água.

Fonte – Fábio Corrêa, DW de 04 de junho de 2018

Na Austrália, ‘jardins de chuva’ ajudam a reduzir poluição nas águas da cidade

Para evitar inundações e ainda combater a poluição advinda da chuva em suas baías, a cidade de Sydney, na Austrália, decidiu investir em um sistema que não só ajuda manter limpas suas águas como ainda traz vida, verde e beleza para a cidade. São os jardins de chuva, canteiros rebaixados projetados para se adequarem ao design urbano da cidade, que filtram a água da chuva e ainda enriquecem o solo com nutrientes.

Segundo dados da prefeitura de Sydney, ainda que o esgoto por lá seja tratado, as águas pluviais carregam toneladas de poluentes e lixos para os cursos de água da cidade. Óleos e fluidos de automóveis, partículas poluentes liberados pelos carros, além de lixo da rua propriamente podem chegar aos rios e aos mares se não forem devidamente filtrados – e aí que os jardins de chuva entram para auxiliar.

Instalados com grades de drenagem e vegetação especial para filtragem, os jardins, por serem rebaixados, ainda ajudam a evitar inundações em chuvas mais intensas. A cidade australiana já conta com 154 canteiros instalados, e o objetivo é reduzir 50% dos sedimentos e sólidos que chegam às hidrovias de Sydney até 2030. Assim, fazem por lá o que nunca fazemos aqui: atacar um problema urbano antes que ele se torne insolúvel – antes que os rios e águas de Sydney fiquem como são a maioria dos rios das grandes cidades brasileiras.

Fonte – Hypeness de maio de 2018

Para ONU escassez de água é o maior risco dos extremos climáticos

Com o clima extremo custando centenas de bilhões por ano, a comunidade internacional teme que, até 2050, uma em cada quatro pessoas esteja vivendo em um país afetado pela escassez de água. O tema foi discutido neste mês durante uma conferência mundial de três dias realizada pela agência meteorológica das Nações Unidas.

Os participantes abordaram a necessidade urgente de melhorar o gerenciamento do recurso de maneira mais sustentável.

A Conferência Global para a Prosperidade através dos Serviços Hídricos, organizada pela Organização Meteorológica Mundial (OMM), foi realizada de 7 a 9 de maio, em Genebra.

O encontro reuniu fornecedores e usuários de serviços hidrológicos e meteorológicos de 85 países, o setor privado e acadêmico, bem como organizações não governamentais e entidades da ONU.

O objetivo é coordenar esforços e fortalecer o conhecimento técnico individual e coletivo sobre como gerenciar os recursos hídricos e reduzir os riscos de desastres naturais de maneira mais sustentável.

O estado dos recursos hídricos do planeta é um dos maiores desafios globais. O problema torna-se ainda mais complicado devido à falta de dados abrangentes sobre sistemas de monitoramento e abastecimento de água, o que dificulta a resposta à crescente crise.
“Não podemos administrar o que não mensuramos”, disse Harry Lins, presidente da Comissão de Hidrologia da Organização Meteorológica Mundial (OMM).
“E, no entanto, os sistemas e a coleta de dados que sustentam esses serviços vitais para a sociedade estão sob real pressão”, acrescentou, ressaltando que a tomada de decisões informada deve ser baseada em fatos e números abrangentes.
O secretário-geral da OMM, Petteri Taalas, observou que é importante para todas as partes lidar com a gravidade dos desafios que estão por vir, citando as secas e inundações.

“Políticas efetivas contra inundações e secas podem ser implementadas apenas com dados e modelos que avaliem a frequência e a magnitude de eventos extremos”, ponderou, acrescentando que o mesmo vale para outras metas relacionadas à água e seu uso eficiente; incluindo os da Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável.

O Objetivo de Desenvolvimento Sustentável número 6 apela explicitamente para o gerenciamento sustentável da água e do saneamento para todos. A água também é um componente-chave para outros Objetivos Globais, incluindo aqueles que eliminam a pobreza extrema (ODS 1); o ODS 2, para erradicar a fome e a desnutrição; assim como o ODS 13, sobre a mitigação das mudanças climáticas.

Fontes – ONUBr / Julio Ottoboni, Envolverde de 25 de maio de 2018

Aquecimento Global: Riachos podem emitir mais dióxido de carbono em um clima mais quente

emissões de CO2

Riachos e rios podem bombear dióxido de carbono para o ar a taxas crescentes se continuarem aquecendo, potencialmente aumentando os efeitos do aquecimento global, mostrou uma nova análise mundial.

Para chegar a essa conclusão, uma equipe de pesquisa internacional conduziu o primeiro estudo em escala continental dos fluxos de carbono para dentro e para fora dos córregos em seis grandes zonas climáticas. Eles coletaram dados em bacias hidrográficas de Porto Rico, Oregon (EUA), Austrália e Alasca. Em cada um deles, os cientistas analisaram o equilíbrio entre a fotossíntese – que usa CO2 atmosférico para gerar material vegetal, como raízes e folhas – e a respiração, que bombeia CO2 de volta para o ar.

Os cientistas publicaram seus resultados esta semana na revista Nature Geoscience.

A questão é importante porque os rios e riachos do mundo trocam carbono com a atmosfera a taxas comparáveis com os ecossistemas terrestres e os oceanos. Se o aquecimento global continuar, um aumento nas emissões de carbono baseadas em fluxo poderia aumentar a concentração de CO2 na atmosfera.

“Este estudo é o primeiro a olhar para os efeitos da mudança climática sobre o ‘metabolismo’ do fluxo na escala continental usando observações de campo”, disse Alba Argerich, co-autor. “Essa abordagem leva em consideração a complexidade de um ecossistema, em oposição a experimentos controlados em que você recria versões simplificadas de um ecossistema.”

Argerich e outros cientistas monitoraram os fluxos de temperatura da água, oxigênio dissolvido e luz solar na superfície da água. Os pesquisadores também simularam o equilíbrio entre a produção primária líquida (o produto da fotossíntese por todos os organismos no córrego) e a respiração sob um aumento de 1 grau Celsius na temperatura da correnteza. O resultado líquido das simulações, eles relataram, foi uma mudança de 24 por cento em direção a mais respiração e emissões de CO2. No entanto, nem todos os fluxos respondem da mesma maneira.

A mudança em direção a mais emissões de CO2 parece ser mais pronunciada em fluxos mais quentes, descobriram os cientistas, enquanto correntes mais frias podem realmente ver um aumento na produção primária líquida. A ciclagem de carbono nos riachos também pode ser afetada por outros fatores, como plantas e micróbios no ecossistema do córrego e nutrientes que fluem para a água das terras vizinhas.

Argerich conduziu seu trabalho como pesquisadora no College of Forestry da Oregon State University. Ela é agora professora assistente na Escola de Recursos Naturais da Universidade do Missouri. Em trabalhos anteriores no HJ Andrews Forest, Argerich mostrou que pequenos riachos podem exportar quantidades surpreendentes de carbono tanto a jusante quanto para a atmosfera. “Este documento confirma o papel dos fluxos como uma fonte ativa de CO2 para a atmosfera, que pode ser ainda mais importante à medida que as temperaturas globais aumentam”, disse ela.

Chao Song, autor principal da Universidade da Geórgia, foi acompanhado por 26 co-autores dos Estados Unidos e da Austrália. Outras bacias hidrográficas representadas no estudo incluíram a Floresta Experimental de Luquillo em Porto Rico, o Parque Nacional Litchfield na Austrália, a Konza Prairie em Kansas e a Caribree-Poker Creeks Watershed e a Estação de Campo Toolik Lake no Alasca.

Referência:

Continental-scale decrease in net primary productivity in streams due to climate warming. Chao Song, Walter K. Dodds, […]Ford Ballantyne IV. Nature Geoscience (2018). doi:10.1038/s41561-018-0125-5. http://dx.doi.org/10.1038/s41561-018-0125-5

Fonte – EcoDebate de 28 de maio de 2018

Nível de água do Sistema Cantareira já é 30% menor que em 2017

Cantareira em 2014

Imagem: Sistema Cantareira em 2014.

Reservatório está operando com 47,2% da capacidade – porcentagem em 2017 era de 67,7%. Volume atual é menor que na pré-crise de 2014

O mais importante reservatório de abastecimento de água da cidade de São Paulo opera atualmente com 47,2% de sua capacidade total. Esse volume, que não inclui a reserva do chamado volume morto (acionada na crise hídrica de 2014 e 2015), é considerado pelos órgãos reguladores como “estado de atenção”, já próximo do “alerta”.

No final de maio do ano passado, depois de uma estação de chuvas farta, a Cantareira estava com 67,7% de sua capacidade total. Este ano, com um volume de chuva acumulado de apenas 13,7 mm em maio, o nível preocupa – a média pluviométrica esperada era de 78,6 mm. O atual cenário é parecido com o que antecedeu a crise de 2014 e 2015, já que no final de maio de 2013 o volume de chuvas acumulado também foi baixo, de apenas 10,4 mm frente um total esperado de 83,2 mm. O volume do sistema como um todo, porém, estava em 59,3% no dia 25 de maio de 2013.

No site da Sabesp (estatal paulista de abastecimento), é possível acompanhar dia a dia a situação dos mananciais que abastecem a região de São Paulo. Entre maio de 2013 e maio de 2014, com uma sequência de menos chuvas do que o esperado, em especial no alto verão, o volume do Cantareira passou de 59,3% no final de maio de 2013 para 8,2% em 15 de maio de 2014. No dia 16 daquele mês foi acionada a primeira reserva técnica do chamado volume morto.

O professor Pedro Luiz Côrtes, do Programa de Ciência Ambiental (Procam) da USP e coordenador da Rede Internacional de Estudos sobre o Meio Ambiente, disse em entrevista ao UOL que o atual cenário pode indicar um prenúncio de crise. Ele analisa que a região Sudeste está propensa a ter um período severo de estiagem, como indicam os dados do índice pluviométrico ao longo de 2017 e neste começo de 2018.

Uma sequência de meses em que choveu menos do que o esperado, com quedas sucessivas do nível do Sistema Cantareira, reforça a preocupação de que uma nova crise pode estar a caminho. O ideal, diz o professor, seria entrar no período de estiagem com o volume operacional entre 60% e 70%, “para que ficássemos mais tranquilos”.

Sabesp considera “normal” o volume operacional com mais de 60%; entre 60% e 40% é “atenção”, passando a “alerta” entre 40% e 30%. De 30% a 20% já se fala em “restrição” e com menos de 20% inicia-se o estado “especial”. Por enquanto, a Sabesp diz que não há motivo para preocupação. Ainda assim, faça sua parte e pratique o consumo consciente de água.

É possível consultar as informações detalhadas sobre o nível de água e a captação de chuva no Cantareira e também nos outros sistemas de abastecimento do estado de São Paulo no site da Sabesp.

Fonte – eCycle de 25 de maio de 2018

Se chegaram, em 2014, a uma situação de quase zero de água e não aprenderam, que chegue a zero por uma semana, quem sabe assim, pela dor, entendam a importância da água.

Efeitos das mudanças climáticas requerem uma gestão policêntrica dos recursos hídricos

Heike Gr

Os efeitos das mudanças climáticas sobre os recursos hídricos exigirão um novo tipo de gestão para evitar futuras crises hídricas, a exemplo da que aconteceu em São Paulo entre 2013 e 2015. Segundo Bruno Puga, economista e mestre em desenvolvimento econômico, o aumento da temperatura terá um impacto na evapotranspiração, alterando os ciclos hidrológicos. “Além de mais frequentes, a intensidade destes eventos deverá ser muito maior, alterando a distribuição de chuvas e os padrões históricos. Isso exigirá uma abordagem distinta do que estamos acostumados, colocando a incerteza dentro do processo de tomada de decisão”, afirma.

Autor da tese de doutorado intitulada Governança dos recursos hídricos: a crise hídrica de São Paulo (2018), Puga analisou os processos de enfrentamento da crise paulista e concluiu que “os diversos atores, ligados ou não aos recursos hídricos, enxergaram a crise como uma janela de oportunidade para tentar colocar suas agendas em prática”. Na avaliação dele, o enfrentamento de crise desse tipo ainda é tímido, e “a experiência brasileira tem demonstrado a preferência quase que total por soluções de aumento da oferta, com transposições de outras bacias e construções de grandes reservatórios. Mas negligencia de forma grotesca o lado da demanda. Como explicar que São Paulo tem uma taxa média de perdas de água tratada de mais de 30%? Programas de uso racional da água ainda são incipientes, bem como o reúso de água para outros fins que não o consumo humano. Sem contar com a falta de saneamento e descaso com os mananciais. Ou seja, além de desperdiçarmos grande parte da água tratada, ainda devolvemos, em muitos casos, de forma pior do que coletamos”, informa.

Na entrevista a seguir, concedida à IHU On-Line por e-mail, Puga explica ainda que, embora São Paulo tenha uma política de mudanças climáticas desde 2009, “o desafio é colocar essa variável no centro de todas as políticas setoriais que serão afetadas. Não se pode restringir a esfera de atuação apenas aos recursos hídricos, mas sim a todos os setores que serão afetados. A dificuldade reside principalmente em trazer para o presente esta preocupação que alguns acreditam que está em um futuro longínquo. Como priorizar a alocação de recursos para políticas de enfrentamento e adaptação às mudanças climáticas em um cenário de restrição de recursos humanos e financeiros é um desafio maior ainda”.

Para enfrentar os desafios das mudanças climáticas, Bruno Puga sugere a adoção de uma gestão policêntrica. “O policentrismo é uma antítese de um sistema monocêntrico, onde a autoridade e o poder se concentram em apenas um ator. Sistemas policêntricos são constituídos de múltiplos centros de decisão sem uma hierarquia de um em relação aos outros, mas que atuam de forma coordenada”, explica.

Bruno Puga é graduado em Ciências Econômicas pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, mestre e doutor em Desenvolvimento Econômico pela Universidade Estadual de Campinas – Unicamp.

IHU On-Line – O que a sua tese de doutorado revela sobre o modo como as instituições paulistas lidaram com a crise hídrica entre 2013 e 2015?

Bruno Puga – Minha pesquisa tenta entender como os diferentes atores e organizações enfrentaram a crise hídrica em diversas escalas. Crises são antes de tudo uma disputa de narrativa, de culpa e de soluções. As narrativas ajudam a entender como está estruturado o modelo mental por trás das escolhas. Entender que tipo de solução foi proposta, por quem e se foi aceita ou não pode revelar muito sobre a maneira que a gestão dos recursos hídricos ocorre na prática. Os diversos atores, ligados ou não aos recursos hídricos, enxergaram a crise como uma janela de oportunidade para tentar colocar suas agendas em prática.

Em São Paulo estamos longe de atingir um estado mínimo de segurança hídrica – Bruno Puga

O estado tentou se blindar ao máximo, seja defendendo a atuação da sua companhia de saneamento (Sabesp) ou justificando a falta de investimentos necessários. De modo geral demonstrou como o poder público tem dificuldade em informar a população, com ausência de transparência e centralização na tomada de decisão. A coincidência da crise com as eleições adicionou uma camada ainda maior de impermeabilidade do estado em reconhecer a gravidade da situação e de fazer o papel que se espera em termos de responsabilidade. Apesar de não reconhecer o início da crise, o governo de São Paulo decretou o fim dela. Isso demonstra a forma como o processo político é eficiente em alardear soluções, mas não em resolver de fato o problema.

IHU On-Line – Quais são os riscos de São Paulo enfrentar uma nova crise hídrica, nas proporções das que enfrentou entre 2013 e 2015?

Bruno Puga – Se agirmos da mesma forma como na crise anterior, o risco com certeza existe. Há um debate crescente entre cientistas para saber se os padrões climáticos do passado ainda servem como guia absoluto para o futuro. Os representantes do Estado se apoiaram na narrativa da imprevisibilidade climática para justificar as ações que tomaram. E de fato, se olharmos para o padrão climático passado, a probabilidade da ocorrência de uma seca igual àquela é de 0,4%. Mesmo assim, ela ocorreu! Em um cenário moldado pela incerteza, onde não é possível calcular a probabilidade da ocorrência de um evento futuro, temos que criar mecanismos de proteção mais cautelosos e agir com base no princípio da precaução.

Do ponto de vista operacional e técnico, as obras efetuadas, como a transposição entre as represas Jaguari e Atibainha, a interligação dos sistemas produtores e a entrada de novos sistemas, a situação tende a ser mais controlável em caso de uma restrição severa no Cantareira. No entanto, ainda não ficou claro como se dará essa operação. O que podemos afirmar é que houve um aumento na complexidade da gestão desse sistema e que somente com o passar do tempo poderemos analisar.

IHU On-Line – Que fatores são necessários para garantir a segurança hídrica? Por que, na sua avaliação, no caso de São Paulo há dificuldades em garanti-la?

Bruno Puga – Atingir a segurança hídrica significa garantir o acesso seguro de uma quantidade suficiente de água de boa qualidade para possibilitar o bem-estar humano, o desenvolvimento econômico e a saúde dos ecossistemas. É tratar a água como serviço fundamental e não simplesmente como uma mercadoria que pode ser transportada de um lugar a outro. Atingir a segurança hídrica humana às custas da integridade dos ecossistemas também não garante uma sustentabilidade no longo prazo.

No caso de São Paulo, estamos longe de atingir um estado mínimo de segurança hídrica. A região depende quase que exclusivamente de fontes de água fora de seu território, ao mesmo tempo em que temos uma situação deplorável dos recursos hídricos que cortam a cidade. O descaso histórico, aliado a um modelo centrado neste paradigma hidráulico, resultou nesse paradoxo. A cidade sofre com enchentes ao mesmo tempo em que falta água na torneira. Deve-se ir além das soluções focadas no aumento da oferta hídrica no curto prazo e priorizar a recuperação de seus corpos hídricos e de seus ecossistemas.

IHU On-Line – Como as mudanças climáticas poderão ou já estão causando implicações sobre os recursos hídricos?

A experiência brasileira demonstra preferir soluções da crise hídrica de aumento da oferta, com transposições de outras bacias e construções de grandes reservatórios. Mas negligencia de forma grotesca o lado da demanda – Bruno Puga

IHU On-Line – Os efeitos das mudanças climáticas já estão sendo considerados pelas instituições que fazem a gestão dos recursos hídricos? Quais são as dificuldades que essas instituições têm em considerar os eventos extremos na gestão dos recursos hídricos?

Bruno Puga – No Brasil creio que ainda estamos tímidos frente a estes desafios. São Paulo conta desde 2009 com uma política específica para mudanças climáticas, mas o desafio é colocar essa variável no centro de todas as políticas setoriais que serão afetadas. Não se pode restringir a esfera de atuação apenas aos recursos hídricos, mas sim a todos os setores que serão afetados. A dificuldade reside principalmente em trazer para o presente esta preocupação que alguns acreditam que está em um futuro longínquo. Como priorizar a alocação de recursos para políticas de enfrentamento e adaptação às mudanças climáticas em um cenário de restrição de recursos humanos e financeiros é um desafio maior ainda. Daí a importância de estudos e previsões mais robustos que demonstrem que é mais econômico investir agora em prevenção e adaptação do que no futuro.

IHU On-Line – Pode nos dar exemplos de políticas internacionais que garantiram a eficiência hídrica? Em que essas experiências se diferem da brasileira?

Como explicar que São Paulo tem uma taxa média de perdas de água tratada de mais de 30%? – Bruno Puga

A experiência brasileira tem demonstrado a preferência quase que total por soluções de aumento da oferta, com transposições de outras bacias e construções de grandes reservatórios. Mas negligencia de forma grotesca o lado da demanda. Como explicar que São Paulo tem uma taxa média de perdas de água tratada de mais de 30%? Programas de uso racional da água ainda são incipientes, bem como o reúso de água para outros fins que não o consumo humano. Sem contar com a falta de saneamento e descaso com os mananciais. Ou seja, além de desperdiçarmos grande parte da água tratada ainda devolvemos, em muitos casos, de forma pior do que coletamos.

IHU On-Line – A partir da sua pesquisa, você diria que a atual governança brasileira é capaz de garantir a segurança hídrica diante de eventos extremos? Sim ou não e por quê?

Bruno Puga – De forma alguma. Seja sofrendo com secas ou enchentes, ainda não conseguimos evitar algumas tragédias e situações que se repetem de tempos em tempos. A questão não é saber se vamos enfrentar de novo estas situações, mas quando se repetirá. Diferentemente do que tem ocorrido, devemos lutar para que exista uma aprendizagem social e política que se traduza em novas políticas públicas e diretrizes para estarmos mais preparados quando ocorrer novamente.

O conceito de segurança hídrica ainda é muito incipiente nas nossas políticas. Iniciativas mais recentes, como o Plano Nacional de Segurança Hídrica, poderão nortear e coordenar o trabalho nos diversos setores. A cidade de São Paulo deu um primeiro passo e conseguiu aprovar uma lei que introduz essa variável no arcabouço institucional municipal, pressionada por uma iniciativa popular. Resta saber se irá fazer valer seu papel, principalmente como titular dos serviços de saneamento, para que não passe novamente por uma situação crítica como a crise anterior. A criação de um planejamento adequado, com o estabelecimento de uma matriz de responsabilidades e coordenação, ajudaria a tornar mais rápidas as respostas dos sistemas de governança.

IHU On-Line – Você tem sugerido que é preciso uma governança policêntrica para garantir a segurança hídrica. Em que consiste esse tipo de gestão? Quais são os desafios do Brasil para implementá-la?

Bruno Puga – O policentrismo é uma antítese de um sistema monocêntrico, onde a autoridade e o poder se concentram em apenas um ator. Sistemas policêntricos são constituídos de múltiplos centros de decisão sem uma hierarquia de um em relação aos outros, mas que atuam de forma coordenada. Com a redemocratização, o Brasilpassou por um processo de descentralização e de devolutiva de poder para as escalas locais e regionais. No caso dos recursos hídricos há um consenso de que a melhor escala para a gestão se dá ao nível da bacia hidrográfica. O sistema de governança hídrico brasileiro, introduzido pela Lei 9.433/1997, buscou a descentralização da tomada de decisão e devolutiva de poder para a bacia hidrográfica, introduzindo a sociedade civil e usuários na gestão com a criação dos comitês de bacia. Ao mesmo tempo, criou e ampliou instrumentos necessários para uma gestão mais eficiente, como a cobrança pelo uso e outorga. Isso foi um grande avanço.

Precisamos entender que a água não é meramente um produto. É um bem vital e que merece ser tratado de acordo com sua importância – Bruno Puga

IHU On-Line – Deseja acrescentar algo?

Bruno Puga – Precisamos entender que a água não é meramente um produto. É um bem vital e que merece ser tratado de acordo com sua importância. São necessários distintos processos ecológicos para fornecer uma água de qualidade, daí a importância de entender a influência humana sobre a qualidade e quantidade de água. Nesta e em todas as crises hídricas por que passamos, pouco se fala sobre a importância do uso do solo adequado, dos ecossistemas e das florestas na regulação e provisão dos recursos hídricos. Enquanto acharmos que a água pode ser negligenciada e depois simplesmente expandir a oferta buscando água cada vez mais longe, não conseguiremos atacar as reais causas da crise hídrica permanente que vivemos no Brasil.

Fontes – EcoDebate / IHU de 18 de maio de 2018

Sistema de governança pouco aprendeu com a crise hídrica que atingiu SP entre 2013 e 2015

Audiodescrição: Imagem panorâmica de uma represa, onde aparece em primeiro plano a água e depois uma área com terra seca e vegetação rasteira, que antes era ocupada pela represa. Ao centro da imagem, uma gaivota branca voa de asas abertas, de costas na imagem. Imagem 1 de 1.Imagem de capa JU-online

As mudanças que foram por água abaixo

Economista mostra que sistema de governança pouco aprendeu com a crise hídrica que atingiu SP entre 2013 e 2015

O economista ecológico Bruno Peregrina Puga propôs-se a compreender como atores e instituições dentro do sistema de governança hídrica lidaram com a crise decorrente de um evento climático extremo (seca) enfrentado pelo Estado de São Paulo de 2013 a 2015, considerando que ocorrências decorrentes de mudanças climáticas extremas são importantes para revelar as falhas institucionais no enfrentamento desses novos desafios.

Em tese desenvolvida na área de economia do meio ambiente do Instituto de Economia (IE) da Unicamp e orientada pelo professor Ademar Ribeiro Romeiro, ele adota uma abordagem institucional focada em três aspectos principais da governança hídrica: a distribuição de poder, a capacidade adaptativa e a capacidade de mudança institucional em decorrência da aprendizagem política.

A abordagem considera que a gestão de recursos hídricos envolve uma grande coordenação de diversos e diferentes atores e níveis institucionais; que os problemas que afetam a provisão e a qualidade dos recursos hídricos são difusos e envolvem distintos interesses e visões sobre melhor forma de alocação das limitadas disponibilidades financeiras; que embora a política ambiental tenha deixado de estar centrada principalmente nos Estados e se estendido para várias escalas institucionais e atores sociais, descentralizando a gestão ao nível das bacias hidrográficas, paradoxalmente, a crise analisada trouxe à baila os problemas da falta de transparência dos organismos oficiais e a centralização das decisões no governo do Estado que, mesmo depois dela, não foram resolvidos.

Para o pesquisador, “o enfrentamento da crise nos diversos níveis institucionais demonstrou sérios problemas de governança hídrica em termos de adaptabilidade, transparência e efetividade de ações. A segurança hídrica em São Paulo, principalmente na Região Metropolitana de São Paulo (RMSP), está longe de ser alcançada e talvez tenhamos perdido a oportunidade de avançarmos na institucionalidade necessária para lidarmos com as incertezas oriundas das mudanças climáticas”.

Um momento perdido

A crise hídrica constituiu um momento fértil para formação de redes de contatos entre pesquisadores, movimentos sociais, políticos e ambientalistas que se encontravam dispersos mesmo tendo um tema comum. Emergiram daí muitas reflexões, diversas análises e recomendações, mas permanecia ao final o mesmo sentimento comum: a impermeabilidade do processo político como impedimento para a internacionalização desses atores fora da burocracia estatal. Ficou clara a continuidade na adoção de um modelo essencialmente técnico centrado na busca de novas fontes de água para a RMSP, como ampliação de interligações entre sistemas de abastecimento e construção de novas represas, sem considerar a importância de obras de saneamento e da gestão da demanda, ainda ínfimas se comparadas às experiências internacionais estudadas pelo pesquisador.

Exemplos de outros países têm mostrado a impossibilidade da continuidade da adoção desse modelo tecnicista, principalmente em decorrência da inclusão cada vez maior de territórios adjacentes à bacia, e que as soluções que buscam a eficiência hídrica são muito mais bem-sucedidas e de custo-benefício maior. Mas tais soluções foram menos priorizadas sem que se avaliassem os reais custos de grandes obras de engenharia em termos ecológicos e sociais. Em suma, a tese procura mostrar que não houve mudanças fundamentais na gestão dos recursos hídricos em São Paulo, mesmo diante dos anseios da sociedade civil, devido à assimetria de poder e centralismo das decisões no Estado.

Puga mostra que a nova legislação sobre recursos hídricos, promulgada em 1997, ainda não foi capaz de resolver problemas de coordenação e incentivos em várias escalas, a começar dos municípios, responsáveis pelo uso do solo, e que deveriam ser levados a uma atuação mais efetiva sobre a contaminação das águas por esgoto, atividades agrícolas e pecuárias e na recuperação e preservação das matas, fundamentais para a manutenção das bacias hidrográficas. O pesquisador aponta também a pouca autonomia dos comitês de bacia para atuação nos municípios que abrangem. Por fim, destaca a pequena cooperação entre os sistemas de bacias vizinhas que mantêm uma ligação fundamental para as transposições que garantem água para as regiões mais populosas, o que acaba gerando conflitos municipais e até estaduais, amplamente divulgados pela imprensa por ocasião da última grande crise.

Em suma, diz o autor, “temos uma governança pendular que funciona com alguma estabilidade quando não há grandes conflitos, mas que se demonstrou extremamente frágil em tempos de crise, com tendência ao centralismo do poder nas mãos da burocracia estatal”.

Diversidades de interesses e de visões

Reprodução

Para o autor da pesquisa, a crise hídrica que a RMSP enfrentou entre 2013 a 2015 pode ser vista sob vários prismas. Os meteorologistas a investigam como evento climático extremamente raro e imprevisível. Economistas geralmente a analisam em termos de alterações de eficiência, regulação, investimento em capital e infraestrutura e da perspectiva da privatização ou reestatização das empresas de água, a depender do viés ideológico. Cientistas sociais a observam preferencialmente através do processo político e relações de poder. Pesquisadores ligados às ciências naturais e ecologia destacam a deterioração de características biofísicas e ecológicas dos sistemas na provisão da água. Urbanistas consideram os movimentos de ocupação desenfreado do solo e processos descontrolados de urbanização e concentração territorial.

Outros, exemplifica o pesquisador, destacam os processos de descentralização e mudanças no modelo de gestão dos recursos hídricos, caso das privatizações de empresas do setor de saneamento, como fatores que explicam a insegurança hídrica e o descaso com questões relacionadas ao saneamento. Há os que sustentam a tese de que as crises de abastecimento causadas por eventos extremos decorrem do próprio modo de governança dos recursos hídricos, em que se mesclam ideologia, gestão de água, produção natural e regulação ambiental. Portanto, como definir o escopo da análise configura um desafio dado a complexidade da questão, o pesquisador esclarece sua opção: “Ao adotar uma abordagem holística e baseada em um pluralismo metodológico, busquei analisar a complexidade da governança dos recursos hídricos de forma distinta da adotada na teoria econômica tradicional”.

A questão geral, que a tese buscou responder, é se a atual governança brasileira é capaz de garantir a segurança hídrica frente aos eventos extremos, partindo da hipótese de que somente uma governança policêntrica, em que há múltiplos centros de decisão em um mesmo território e nível institucional, pode levar à capacidade adaptativa do sistema e à garantia da segurança hídrica.

Igualmente, diz Bruno, “deve-se procurar compreender se os processos de descentralização e arranjos institucionais vigentes são realmente efetivos na gestão dos recursos hídricos em uma época em que se vislumbram incertezas climáticas”. Ele considera que a análise em um momento pós-crise de abastecimento urbano em algumas das bacias selecionadas para estudo, particularmente as do Alto Tietê e do sistema Piraciaba/Capivari/Jundiaí, permitiu revelar conflitos e gargalos que estavam escondidos ou eram desconhecidos de seus gestores.

Para o pesquisador, ficou claro que a crise hídrica enfrentada por São Paulo resultou de um conjunto de falhas de governança em que os processos de descentralização da gestão não foram capazes de ampliar a capacidade adaptativa do sistema e contribuíram de forma sistemática para um processo de produção de escassez.

Puga acredita que, ao analisar como as diferentes formas de poder estão configuradas, emergem a descentralização e a governança hídricas, que devem ser consideradas não apenas um evento isolado, mas como um  problema de abastecimento urbano resultante do conflito entre usos distintos da água, que teve como gatilho um período de escassez de chuvas,  mas que revela uma situação permanente.

“Busquei identificar, do ponto de vista institucional e político, se houve mudanças significativas depois da crise na forma de gerir os recursos hídricos e quais atores as bloquearam ou facilitaram. A forma como esses atores se organizaram e que tipos de estratégias, recursos e narrativas utilizaram, ajudam a entender como foi montada a agenda de enfrentamento do problema”, concluiu Puga.

Fonte – Texto Carmo Gallo Netto, Fotos, Antonio Scarpinetti, Edição de imagem Luis Paulo Silva, Jornal da UNICAMP de 10 de maio de 2018

Governo de SP desviará águas de mais um rio para matar a sede de SP

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Depois de ter retirado as águas do Rio Jaguari, do Rio Guandú, desviado as águas do Rio Paraíba do Sul, agora o Governo do Estado de São Paulo pretende retirar de 2 mil litros de água por segundo do Rio Itapanhaú, de Bertioga, e transferir para o Sistema Produtor Alto Tietê, que abastece a capital e a região metropolitana.

No entanto, nenhuma solução para despoluir os rios do Alto Tietê e do Pinheiros, inclusive os córregos e ribeirões urbanos, são adotadas. A sede de São Paulo é ainda pequena diante da insaciabilidade dos políticos.

De acordo com ambientalistas e ativistas do Movimento Salvem o Rio Itapanhaú, a retirada de até 216 milhões de litros por dia, que corresponde a 10% de sua vazão, não foi avaliada adequadamente quanto aos seus impactos.

Segundo eles, a obra causará impactos negativos, diretos e indiretos, em áreas ambientais da Serra do Mar, bem como nos ecossistemas de restinga e mangue no curso do Rio.

Para debater esse quadro, haverá uma audiência pública na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp) no próximo dia 08 (terça), às 10h.

Fonte – Julio Ottoboni, Envolverde de 07 de maio de 2018

Cientistas testam aparelho que extrai água potável do ar mesmo em desertos

Parece absurdo, mas, em pleno 2018, BILHÕES de pessoas no mundo ainda sofrem com a falta de acesso à água potável. Felizmente, um experimento liderado pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), nos Estados Unidos, parece promissor na busca de uma solução para esse problema básico da nossa civilização. O aparelho testado é capaz de extrair água potável até mesmo do ar de desertos.

O teste foi realizado na cidade de Tempe, no Arizona, que oferece condições similares às encontradas nas regiões mais áridas do planeta. Na verdade, ela é uma delas. Por lá, a umidade relativa média do ar no ano é de 31%, mas durante os meses mais secos fica constantemente abaixo dos 10%. Ou seja, é praticamente um deserto urbano.

Por isso, os cientistas não precisaram viajar para testar o protótipo, simplesmente subiram no telhado da universidade. Apesar de ter sido realizado em pequena escala, o experimento conseguiu extrair alguns mililitros de água a partir da pouquíssima umidade relativa do ar desértico. E o melhor: sem contaminar o líquido durante o processo.

InfelizmenteInfelizmente, esta foi a única imagem divulgada do projeto

Como? 

O sistema conta com uma tecnologia baseada em estruturas metal-orgânicas (MOFs) recentemente descobertas que contam com superfícies microscopicamente extensas e porosas. Ou seja, o material é tipo uma esponja, tendo uma área de contato molecular com o ar muito maior do que aparenta à primeira vista. Segundo os pesquisadores, 1 kg dele é o suficiente para gerar cerca de meio litro de água potável por dia.

microscópio eletrônicoEsse é o estilo de um cristal de MOF visto através de um microscópio eletrônico

O aparelho, claro, funciona a partir de energia solar, afinal não há fonte de energia disponível mais abundante que o Sol, principalmente quando o local é um deserto. E esse é mais um ponto a favor da pesquisa, já que outros sistemas conhecidos de captação de umidade do ar usam muita eletricidade e ainda não conseguem atuar em condições extremas.

“Essa tecnologia é fantástica, pois demonstrou como um sistema de coleta de água baseado em estruturas metal-orgânicas atua no resfriamento do ar mesmo em climas desérticos. Com o seu aprimoramento, pode se tornar um importante método de produção de água em qualquer região do planeta”, explicou Yang Yang, professor e engenheiro de materiais da Universidade da Califórnia.

O protótipo foi projetado em uma escala muito pequena e só teve capacidade de funcionar durante o ciclo de um dia, mas provou que é possível. Agora, resta saber se serão feitos os investimentos necessários para que a pesquisa avance ao ponto de encher os bilhões de copos vazios espalhados pelo mundo.

Fonte – Marcel Buono, Tecmundo de 07 de abril de 2018

17 curiosidades sobre a água que você talvez não saiba

A água é essencial para que haja vida. Ela está presente em cada célula do corpo humano e é necessária para a produção de alimentos e qualquer tipo de bem de consumo. Nesta quinta-feira (22) é comemorado o Dia Mundial da Água, para celebrar esta data, o CicloVivo separou uma lista com 17 curiosidades sobre este recurso que podem mudar a forma como você enxerga este recurso:

1. O corpo humano de um adulto possui até 65% de água em sua composição. Em um recém-nascido o número é ainda maior: 78%.

2. O planeta Terra também é conhecido como o Planeta Água. A justificativa para o nome deve-se ao fato de que 70,9% de sua superfície é coberta por água.

3. Apenas 3% da água do mundo é doce. Deste total, 70% está na forma de gelo ou no solo.

4. 12% da água doce do mundo está no Brasil. O país é privilegiado por seus aquíferos, que armazenam a água no solo.

5. O Aquífero Guarani é o maior do mundo. Ele se estende por uma área média de 1,2 milhão de km2 e reserva, aproximadamente, 45 mil quilômetros cúbicos de água.

6. Existe mais água na atmosfera do que em todos os rios do mundo juntos.

7. De acordo com a ONU, existem 783 milhões de pessoas no mundo que vivem sem água potável. Em 2025 esse número pode chegar a 1,8 bilhão.

8. Na América Latina são 36 milhões de pessoas sem acesso à água de boa qualidade.

9. Enquanto nos EUA as pessoas gastam, em média, 370 litros de água por dia, os africanos usam de sete a dezenove litros.

10. Por não terem acesso à estrutura de saneamento básico, mulheres e crianças na África Subsaariana perdem até seis horas do dia caminhando longas distâncias para encher baldes de água. Em apenas um dia, a soma dessas viagens cobriria a distância de ida e volta à Lua.

11. Em média, 2/3 da água do mundo é usada para a produção de alimentos, em especial à agricultura e pecuária.

12. Nos EUA, 26% da água usada nas residências é gasta apenas em descargas.

13. Uma torneira que goteja a cada segundo pode vazar três mil litros em um ano.

14. Em São Paulo, os vazamentos nas redes de distribuição geram desperdício de 980 bilhões de litros de água por ano, em média, 30% da água tratada no município. Em Nova York são perdidos 13 trilhões.

15. Para fazer uma calça jeans são necessários, aproximadamente, dez mil litros de água.

16. Para produzir um quilo de manteiga são necessários 18 mil litros de água e para um quilo de carne gasta-se 15.400 litros.

17. Um banho de 15 minutos, com o registro meio aberto, consome 135 litros de água. Uma mangueira aberta pelo mesmo tempo pode desperdiçar até 280 litros.

Diante destes fatos, é impossível não valorizar a água que chega até a sua casa. Faça sua parte, economize cada gota!

Fonte – Mayra Rosa, CicloVivo de 22 de março de 2018