Ranking aponta as 10 empresas mais responsáveis pela poluição plástica nos oceanos

Ranking aponta as 10 empresas mais responsáveis pela poluição plástica nos oceanos

Foto: John Schneider/Creative Commons

Estima-se que, até 2017, terá mais plástico do que peixes no oceano. Muitas marcas já se mostram preocupadas com esse dado e tentam reduzir o impacto causado por suas operações ao produzir peças feitas com o lixo que vem do oceano. Até uma máquina que recolhe esse tipo de resíduo dos mares já foi construída por um bilionário. Toda iniciativa é válida!

Agora uma ação do Greenpeace e da ONG #breakfreefromplastic estudou as praias da Filipinas e rankeou as 10 principais empresas responsáveis pela poluição dos oceanos mundo afora. Isso porque o país é o terceiro que mais recebe plástico de todos os lugares do mundo, segundo o Greenpeace.

Abaixo, você confere a lista:

  1. Nestle
  2. Unilever
  3. PT Torabika Mayora
  4. Universal Robina Corporation
  5. Procter & Gamble
  6. Nutri-Asia
  7. Monde Nissin
  8. Zesto
  9. Colgate Palmolive
  10. Liwayway

A lista deixa claro o grande impacto que multinacionais estão causando no planeta por conta de suas operações. “Eles poderiam, por exemplo, praticar uma responsabilidade estendida, onde empresas substituem embalagens não reutilizáveis e não recicláveis por novos sistemas, como os refis”, explica Abigail Aguilar, ativista do Greenespeace na Filipinas.

O estudo foi realizado ao longo de uma semana, quando um grupo de pessoas limpou a praia e auditou o lixo encontrado. No total, foram quase 55 mil resíduos recolhidos e estudados. Sapatos, canudos, sacolas, garrafas… a natureza do lixo variou bastante, mas o material era quase sempre o mesmo: plástico.

Isso prova uma máxima importante: quando jogamos algo fora, não há “fora”, esse material irá permanecer em nosso planeta e, uma hora ou outra, irá impactar nosso meio ambiente. E você, como anda consumindo?

Fonte – Jéssica Miwa, The Greenest Post de 25 de outubro de 2017

Estudo internacional destaca que o mundo precisa repensar o valor da água

seca

Pesquisa liderada pela Universidade de Oxford destaca a pressão acelerada sobre medir, monitorar e gerenciar a água local e globalmente. Uma nova estrutura de quatro partes é proposta para valorizar a água para o desenvolvimento sustentável para orientar políticas e práticas melhores.

O valor da água para as pessoas, o meio ambiente, a indústria, a agricultura e as culturas tem sido reconhecido há muito tempo, porque a obtenção de água potável gerenciada com segurança é essencial para a vida humana. A escala do investimento para água potável e saneamento universal e gerenciado de forma segura é vasta, com estimativas em torno de US $ 114 bilhões por ano, apenas para custos de capital.

Mas há uma necessidade crescente de repensar o valor da água por vários motivos.

A água não é apenas sobre a manutenção da vida, ela desempenha um papel vital no desenvolvimento sustentável. O valor da água é evidente em todos os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas, desde a mitigação da pobreza e ao fim da fome, onde a conexão é reconhecida há muito tempo – para cidades sustentáveis e paz e justiça, onde os impactos complexos da água estão agora sendo plenamente apreciados.

A segurança da água é uma preocupação global crescente. Os impactos negativos da escassez de água, inundações e poluição colocaram os riscos relacionados com a água entre as 5 principais ameaças globais do Fórum Econômico Mundial por vários anos consecutivos. Em 2015, pesquisa liderada por Oxford, sobre a segurança da água, quantificou as perdas esperadas de escassez de água, abastecimento de água e saneamento inadequados e inundações em aproximadamente US $ 500 bilhões por ano. No mês passado, o Banco Mundial demonstrou as conseqüências da escassez de água e dos choques: o custo de uma seca nas cidades é quatro vezes maior do que uma inundação, e uma única seca na África rural pode inflamar uma cadeia de privação e pobreza entre gerações.

Reconhecendo essas tendências, há uma oportunidade urgente e global de repensar o valor da água, com o Painel de Alto Nível da ONU / Banco Mundial sobre Água, lançando uma nova iniciativa sobre Valorização da Água no início deste ano. O crescente consenso é que a valorização da água vai além do valor ou preço monetário. Para melhor direcionar políticas e investimentos futuros, precisamos considerar a valorização da água como um desafio de governança.

Uma equipe internacional liderada pela Universidade de Oxford e parceiros em todo o mundo publicou um novo artigo na Science, em que traçam um novo quadro para valorizar a água para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. Colocar um valor monetário na água e capturar os benefícios culturais da água são apenas um passo. Eles sugerem que avaliar e gerenciar a água requer ação paralela e coordenada em quatro prioridades: medição, avaliação, trade-offs e instituições capazes de alocar e financiar a água.

O autor principal, Dustin Garrick, da University of Oxford, Smith School of Enterprise and the Environment, diz que “O nosso papel responde a um chamado global à ação: os impactos negativos em cascata da escassez, choques e serviços inadequados de água ressaltam a necessidade de valorizar melhor a água, que não sejam ‘balas de prata’, mas há passos claros a serem levados. Argumentamos que a valorização da água é fundamentalmente sobre a busca de trade-offs. O objetivo de nossa pesquisa é mostrar por que precisamos repensar o valor da água e como ir sobre isso, ao alavancar a tecnologia, a ciência e os incentivos para perfurar barreiras teimosas de governança. Avaliar a água exige que valoremos as instituições”.

Co-autor Richard Damania, Global Lead Economist, World Bank Water Practice: “Mostramos que a água sustenta o desenvolvimento e que devemos gerenciá-lo de forma sustentável. Políticas múltiplas serão necessárias para múltiplos objetivos. As políticas atuais de gerenciamento de água estão desatualizadas e inadequadas para endereçar os desafios relacionados à água do século 21. Sem políticas para alocar recursos finitos de água de forma mais eficiente, controlar a crescente demanda de água e reduzir o desperdício, o estresse da água intensificará onde a água já é escassa e se espalhará para todas as regiões do mundo – com impactos em crescimento econômico e desenvolvimento de nações estressadas pela água “.

Referência

Garrick, D.E., Hall, J.W., Dobson, A., Damania, R., Grafton, R.Q., Hope, R., Hepburn, C., Bark, R., Boltz, F., De Stefano, L., O’Donnell, E., Matthews, N. and Money, A. (2017) Valuing Water for Sustainable Development. Science. Vol 358. Issue 6366

Autores

Dustin E. Garrick, University of Oxford, Smith School of Enterprise and the Environment
Jim W. Hall, University of Oxford, Environmental Change Institute
Andrew Dobson, Princeton University, Ecology and Evolutionary Biology
Richard Damania, World Bank Group, Global Water Practice
R. Quentin Grafton, Australian National University and National University of Singapore
Robert Hope, University of Oxford, Smith School of Enterprise and the Environment
Cameron Hepburn, University of Oxford, Smith School of Enterprise and the Environment
Rosalind Bark, University of East Anglia
Frederick Boltz, The Rockefeller Foundation
Lucia De Stefano, Universidad Complutense de Madrid and Water Observatory, Botin Foundation
Erin O’Donnell, University of Melbourne Law School
Nathanial Matthews, Global Resilience Partnership, Nairobi
Alex Money, University of Oxford, Smith School of Enterprise and the Environment

Fontes – Universidade de Oxford / tradução e edição Henrique Cortez, EcoDebate de 27 de novembro de 2017

Qual é a origem do plástico que polui os oceanos?

plásticos oceano

Antes de tudo é preciso saber de onde a poluição vem para evitá-la

Os oceanos do mundo estão se afogando em plástico. A Ellen MacArthur Foundation estima que, até 2050, os mares terão mais peso em plástico do que em peixes.

Isso se confirmando ou não, sabemos que a vida selvagem marinha está sofrendo muito com os efeitos da poluição plástica atual. Os animais frequentemente se sufocam com o lixo flutuante e muitos ingerem esses resíduos, confundindo-os com alimentos. O plástico entra na cadeia alimentar e estima-se que quem come frutos do mar regularmente ingere cerca de 11 mil pedaços de microplástico por ano. O microplástico está presente na água da torneira do mundo inteiro, no sal, nos alimentos, na cerveja e no ar.

Mas de onde é que todo esse plástico vem? Um artigo de Louisa Casson, do Greenpeace do Reino Unido, explica que existem três fontes principais de poluição plástica oceânica. São elas:

1. Nosso lixo

plástico oceano

Você pode ter boas intenções ao jogar uma garrafa de água de plástico na lixeira de recicláveis, mas é bem provável que ela nunca seja reciclada. Dos 480 bilhões de garrafas de bebidas plásticas vendidas, apenas em 2016, menos de metade foi coletada para reciclagem e, desse montante, apenas 7% foi transformado em plástico novamente.

O resto permanece na terra indefinidamente. Uma parte fica em aterros sanitários ou em lixões, mas é comum o vento carregar o resíduo leve desses locais até rios ou mares ou a redes de drenagem urbana, o que faz com que o plástico eventualmente chegue ao mar. O mesmo acontece com o lixo deixado nas praias, nos parques e nas ruas das cidades.

“Os principais rios ao redor do mundo carregam aproximadamente 1,15 milhão a 2,41 milhões de toneladas de plástico para o mar todos os anos – isso é equivalente a até 100 mil caminhões de lixo”, diz Casson.

2. Esfoliantes

pequenos pedacinhos de plástico

Muitos cosméticos e produtos para cuidados com a pele contêm pequenos pedacinhos de plásticoBoa parte dos esfoliantes e até mesmo alguns cremes dentais podem conter microesferas de plástico. Após o uso, essas bolinhas vão pelo ralo e, mesmo em locais com tratamento de esgoto, não podem ser filtradas por serem muito pequenas. Essa água chega a rios e mares e os resíduos plásticos acabam comidos por pequenos peixes ou incorporados pelo plâncton.

Outro grande problema que está apenas começando a chamar atenção pública é o das microfibras – tecidos sintéticos liberam minúsculas fibras de plástico a cada lavagem.

3. Vazamento industrial

Nurdles

Você já ouviu falar em nurdles? Eles são pequenas bolinhas plásticas utilizadas na manufatura de vários itens plásticos. Ao contrário dos resíduos plásticos que se decompõe até se tornarem microplásticos, os nurdles são feitos já com um tamanho reduzido (cerca de 5 mm de diâmetro). Eles são a maneira mais econômica de transferir grandes quantidades de plástico para fabricantes de uso final do material em todo o mundo. Os Estados Unidos produzem cerca de 27 bilhões de quilos de nurdles por ano.

O problema é que navios e trens despejam acidentalmente essas bolinhas plásticas em estradas ou no mar; ou a parte que sobra da produção não é tratada adequadamente. Se alguns milhares de nurdles caem no mar ou numa rodovia, é praticamente impossível fazer a limpeza. Em uma pesquisa realizada no início de 2017, foram encontrados nurdles em 75% das praias do Reino Unido.

Mas além dessas fontes apontadas no artigo da Louissa Casson, a ONG OrbMediaainda aponta outras fontes inusitadas:

4. Lavagem das roupas

Lavagem das roupas

Você sabia que as fibras têxteis sintéticas, assim como o exemplo do poliéster, são feitas de plástico? O problema é que durante a lavagem dessas roupas de fibras sintéticas, por meio do choque mecânico, o microplástico se desprende e acaba sendo enviado para esgotos, indo parar em no ambiente e em corpos hídricos, como, por exemplo, o próprio oceano.

5. Ar

poliéster

As fibras têxteis de tecido sintético plástico também vão parar no ar. Um estudo de 2015, realizado em Paris, na França, mostrou que, a cada ano, cerca de três a dez toneladas de fibras plásticas atingem a superfícies das cidades. Uma das explicações é que apenas o atrito de um membro com o outro vestido por roupas de fibras têxteis sintéticas plásticas já seria o suficiente para dispersar o microplástico na atmosfera. Essa poeira de microplástico pode ser inalada, ir parar no mar, juntar-se ao vapor e ir se depositar na sua xícara de café e no seu prato de comida, por exemplo.

6. Atrito dos pneus

de onde vem o plástico dos oceanos

Os pneus de carros, caminhões e outros veículos são feitos de um tipo de plástico chamado estireno butadieno. Ao passarem pelas ruas, o atrito desses pneus com o asfalto gera emissão de 20 gramas de microplástico a cada 100 quilômetros percorridos. Para se ter uma ideia, na Noruega, é emitido um quilo de microplástico de pneu por ano por pessoa.

7. Tintas látex e acrílicas

Tinta

A tinta utilizada em casas, veículos terrestres e navios desprende-se destes por meio de intempéries e vai parar no oceano, formando uma camada bloqueadora de microplástico na superfície oceânica.

A isto, podemos acrescentar as tintas látex e acrílicas utilizadas em artesanatos e os pincéis lavados nas pias.

8. E a solução?

A poluição plástica do oceano é o resultado de um sistema profundamente distorcido, em que a fabricação de um produto não biodegradável pode continuar sendo feita sem controle, mesmo não havendo métodos de processamento dos resíduos efetivos ou seguros (não se pode contar com a reciclagem neste caso, uma vez que apenas 9% de todo o plástico produzido desde a década de 1950 foi reciclado).

Encontrar uma solução, escreve Casson, exige chegar à origem do problema. Precisamos que os governos levem isso em conta isso. A Costa Rica, por exemplo, prometeu eliminar todos os plásticos de uso único em 2021. As empresas precisam ser responsáveis pelo ciclo de vida completo de seus produtos, incluindo a coleta e a reutilização. Segundo The Guardian, marcas são hostis ao uso de plástico reciclado por questões estéticas – outro tipo de barreira que precisa ser quebrada.

É necessário que haja campanhas contínuas sobre consumo que eduquem as pessoas sobre o impacto de plásticos de uso único em todas as partes do mundo. É preciso evitar produtos com embalagens desnecessárias, cobrar para que empresas mudem suas posturas e apostar na reutilização. Lojas e mercados devem receber incentivos governamentais para oferecerem opções de reabastecimento sem novos pacotes, e por aí vai… Existem ideias e é importante que elas sejam colocadas em prática antes que os mares sejam cada vez mais engolidos por plásticos.

Se você quer saber como pode reduzir o seu uso de plástico confira a matéria “Como reduzir o uso de plástico? Confira dicas imperdíveis“.

E para descartar seus resíduos corretamente, consulte quais são os postos de coleta mais próximos de sua residência.

Fontes – Treehugger / Orbmedia / eCycle

Fragmentos plásticos estão presentes em 83% de água da torneira de todo mundo

Fragmentos plásticos estão presentes em 83% de água da torneira de todo mundoFoto: iStock by Getty Images

No Brasil, 9 em 10 amostras continham microplásticos

Ao longo de dez meses a Orb Media realizou uma investigação sobre o plástico em água de torneiras em diversos lugares do mundo. Os resultados foram surpreendentes pois 83 por cento das amostras coletadas continham fibras de plástico, também chamadas de microplásticos. Segundo os autores do estudo, estamos vivendo na ‘Era Plástica’ e a contaminação provavelmente não está limitada somente à nossa água.

Segundo a Orb Media este foi o primeiro estudo científico público do tipo e contou com a parceria de um pesquisador da Escola de Saúde Pública da Universidade de Minnesota, nos EUA. Os autores da pesquisa testaram a água da torneira nos Estados Unidos, Europa, Indonésia, Índia, Líbano, Uganda, Equador e Brasil.

Segundo os pesquisadores, os microplásticos que contaminam nossas águas vêm de uma variedade de fontes, entre elas estão as roupas sintéticas, as poeiras de pneus e até mesmo plásticos encontrados em produtos de higiene e beleza, como pastas de dente e cosméticos. “Foram produzidos mais plástico nos últimos dez anos do que em todo o século passado”, alerta o relatório.

Microplástico presente em produtos esfoliantes | Foto: iStock by Getty Images

No estudo os Estados Unidos foram os recordistas com 94% de amostras com plástico na água da torneira. Os pesquisadores detectaram as fibras plásticas até mesmo na sede da Agência de Proteção Ambiental norte-americana, edifícios do Congresso e na Trump Tower em Nova York. Já o Líbano e a Índia apresentaram as maiores quantidades de contaminação. A Europa tinha o mínimo, porém, os plásticos foram encontrados em 72% das amostras lá.

No Brasil

Em parceria com a Orbi Media, o jornal à Folha também participou do estudo enviando 10 amostras de água da cidades de São Paulo. Segundo matéria publicada no site do jornal, 9 entre 10 amostras continham fragmentos de plástico com números semelhantes aos encontrados ao redor do mundo.

O texto enfatiza que apesar dos brasileiros não possuírem o hábito de beber água diretamente da torneira, ainda a utilizamos para cozinhar. Além disso, os pesquisadores alertam que os plásticos provavelmente já estão presentes em nossa comida.

Fonte – CicloVivo de 08 de setembro de 2017

Contaminações dos lençóis freáticos

Lençóis de águas podem ser freáticos ou superficiais quando controlados pela topografia e assentados em controles topográficos ou de solos e subterrâneos quando a água é armazenada em rochas e não depende de situação geomórfica local.

Além das atividades do homem, poluindo o meio ambiente, causas naturais afetam as águas subterrâneas, como a presença de teores de elementos químicos nocivos, oriundos de solos ou rochas armazenadoras chamadas aquíferos. A despoluição de um lençol freático ou subterrâneo demanda grande intervalo de tempo.

O professor Aldo da Cunha Rebouças, do Centro de Pesquisas em Águas Subterrâneas (CEPAS), da Universidade de São Paulo (USP), descobriu que e elevado flúor contido nas águas do Nordeste do Paraná e na região paulista de Águas da Prata, produz uma doença chamada fluorose, que provoca a destruição dos dentes em crianças e adultos, ao invés de protegê-los.

Também em São Paulo, em Ibirá, a presença de vanádio foi identificada pelo professor Nelson Elert nas águas da região. Trata-se de um mineral cuja absorção causa má formação congênita em crianças.

Os técnicos chamam de “causas antrópicas”, quando as atividades humanas é que provocam a contaminação das águas. São diversas as formas de contaminação, envolvendo desde organismos patogênicos, até elementos químicos como os metais pesados, caso do mercúrio e moléculas orgânicas e inorgânicas.

Conforme assinala o geólogo Luiz Amore, consultor técnico da Organização dos Estados Pan-Americanos (OEA) e da Secretaria de Recursos Hídricos do Ministério do Meio Ambiente, a possibilidade dos contaminantes atingirem os poços perfurados vai depender das características dos aqüíferos, particularmente as estruturas geológicas, a permeabilidade do solo, da transmissividade dos estratos e outros fatores.

Amore sustenta que várias fontes poluidoras já foram estudadas, e alguns casos são clássicos, “que longe de serem fenômenos isolados podem estar ocorrendo em diversas regiões do país e com intensidades diversas, infelizmente ainda pouco conhecidas”.

As águas subterrâneas localizadas nas proximidades dos grandes lixões registram a presença de bactérias do grupo coliformes totais, fecais e estreptococos.

Segundo o professor Alberto Pacheco, do CEPAS, são componentes orgânicos oriundos do chorume, que são substâncias sulfloradas, nitrogenadas e cloradas, com elevado teor de metais pesados, que fluem do lixo, se infiltram na terra e chegam aos aquíferos.

As águas subterrâneas situadas nas vizinhanças dos cemitérios são ainda mais atacadas. Águas coletadas podem revelar a presença de índices elevados de coliformes fecais, estreptococos fecais, bactérias de diversas categorias, salmonela e elevados teores de nitratos ou metais como alumínio, cromo, cádmio, manganês, bário e chumbo.

Os cemitérios, que recebem continuamente milhares de corpos que se decompõem com o tempo, são autênticos fornecedores de contaminantes de largo espectro das águas subterrâneas das proximidades. Águas que podem ser consumidas pelas populações da periferia das cidades.

Estudo de autoria do professor Aldo da Cunha Rebouças, também da equipe do CEPAS, mostra a contaminação oriunda do vazamento de tanques de armazenamento subterrâneo de gasolina em poços de abastecimento de água em residências vizinhas.

A água recolhida desses poços revelou elevados teores de benzeno e demais compostos orgânicos presentes na gasolina, como tolueno, xileno, etilbenzeno, benzeno e naftaleno.

O professor adverte para o fato de que a combustão da gasolina é autodetonante a 400 ppm (partes por milhão). Se esse combustível se infiltrar em redes de esgoto e túneis de obras de engenharia, haverá risco real de explosões de grandes proporções.

A construção e operação de poços de abastecimento d’água, próximos a fossas em zonas urbanas e rurais, pode levar à contaminação da água por patogênicos gerais e substâncias orgânicas diversas, transmitindo doenças a quem utiliza e consome a água.

Resíduos de agrotóxicos foram encontrados em animais domésticos e seres humanos que utilizaram águas subterrâneas contaminadas por agrotóxicos em Campinas, São Paulo.

O professor Ricardo Hirata, da equipe do CEPAS, autor da descoberta, diz que a contaminação resultou tanto de substâncias aplicadas incorretamente na plantação, como oriunda de embalagens enterradas com resíduos de defensivos agrícolas.

Em ambos os casos houve a infiltração e o acesso dos agrotóxicos aos aquíferos. O uso indevido de fertilizantes também afeta as águas subterrâneas.

Segundo o professor Aldo Rebouças, substâncias fosforadas e nitrogenadas, que provocam a doenças em crianças, podem acessar os sistemas aquíferos, com a desvantagem de que são de difícil remoção.

Na região de Novo Horizonte, em São Paulo, centro produtor de cana-de-açúcar, a aplicação de vinhaça resultante da destilação do álcool, como fertilizante, provocou a elevação do pH e consequente remoção do alumínio e ferro do solo, que foram se misturar às águas subterrâneas.

Os aquíferos também são contaminados pela disposição irregular de efluentes de curtumes no solo, fato observado pelo professor Nelson Elert nos centros produtores de calçados.

Segundo ele, os resíduos de curtume dispostos no solo provocam a entrada de cromo, valência +6 e de organoclorados, afetando a qualidade dos lençóis subterrâneos.

As águas subterrâneas de Cubatão, em São Paulo, que já foi considerada a cidade mais poluída do Brasil, não podiam escapar à ação dos contaminantes.

A técnica Dorothy Casarini, da CETESB, a agência ambiental do governo paulista, diz que aterros não controlados por indústrias químicas da região resultaram em mortes e contaminação carcinogênica, inclusive no leite materno.

No caso de Cubatão, o agente contaminante foram Bifenilas Policloradas (PCB), cujos rejeitos, depositados no solo sem qualquer tratamento, se infiltraram e danificaram as águas subterrâneas.

Em Minas Gerais, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, e em Campinas, São Paulo, a proximidade de aterros industriais clandestinos está contaminando as águas por resíduos industriais ou pela presença de atividades mineradoras.

Referência

http://www.fernandosantiago.com.br/freatico.htm

Dr. Roberto Naime, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em Geologia Ambiental. Integrante do corpo Docente do Mestrado e Doutorado em Qualidade Ambiental da Universidade Feevale.

 

Fonte – EcoDebate de 19 de outubro de 2017

Crises hídricas globais podem criar ‘refugiados da água’

Sistema Cantareira durante a crise hídrica em 2014“População de São Paulo teve sorte”, diz Siegel. Na foto, responsável pelo abastecimento da capital, sistema Cantareira chegou a níveis críticos em 2014. Vagner Campos / A2 FOTOGRAFIA / Fotos Públicas

Autor de “Faça-se a Água”, norte-americano Seth M. Siegel expõe crise global e relata bom exemplo de Israel no tema

A Bacia Amazônica e o Aquífero Guarani aguardam a chegada do advogado, escritor e ativista norte-americano Seth M. Siegel, que estará no Brasil no dia 16 para lançar, nos preparativos para a 1ª Festa Literária da PUC-SP, o livro Faça-Se a Água – A solução de Israel para um mundo com sede de água. O evento acontece entre 23 e 25 de outubro em São Paulo, no campus da universidade em Perdizes.

Em entrevista, Seth Siegel comenta contrastes entre a governança bem-sucedida de Israel para a água e as crises hídricas daqui. “A população de São Paulo tem sorte de certa forma. Recebeu uma segunda chance. Estes dias de melhor abastecimento de água quase certamente não durarão muito”, analisa. Confira a entrevista:

CartaCapital: Seu livro “Faça-se a Água” trata da proximidade de uma crise global da água. Como descreveria o estágio atual dessa crise?

Seth Siegel: O governo dos Estados Unidos acredita que, até o ano 2025, 60% da massa terrestre mundial será afetada pela escassez de água. As mudanças climáticas, o crescimento da população, o aumento dos padrões de vida e a deficiência de infra-estrutura da água serão os principais impulsionadores desse problema. Isso levará a instabilidade em muitos lugares. Muitos países já estão sendo vítimas de escassez de água. O problema piora a cada ano.

CC: Que caminho acredita que o mundo está tomando no que diz respeito a isso? Há mais razão para esperança ou para pessimismo?

SS: Não há uma única resposta correta. Problemas de água são um indicativo de má governança. Nos países com boa governança, os problemas da água estão em grande parte controlados. Onde o governo não consegue olhar para a frente, haverá um problema, que pode crescer em uma crise.

CC: Por que seu livro elege Israel como exemplo de combate à crise da água? Como uma região tão conflagrada conseguiu obter sucesso num aspecto tão essencial da vida humana?

SS: Selecionei Israel porque tem o gerenciamento de água, a governança e a tecnologia mais sofisticados do mundo. Embora Israel esteja na região mais seca e tenha uma das populações de mais rápido crescimento do mundo, é notavelmente abundante em água. Gostaria de pensar que todos têm algo a aprender com o exemplo de Israel, e é por isso que decidi me concentrar no exemplo de Israel. Quanto à região, é verdade que o Oriente Médio está em chamas e no caos. Mas Israel foi devidamente chamado de vila em uma selva. O país goza de paz e prosperidade. É ainda mais notável que seja capaz de conseguir isso no meio de guerra, terror e anarquia.

CC: Qual sua expectativa em relação à vinda ao Brasil? Como vê o país, que vive um momento político dramático e altamente conflagrado, no enfrentamento às crises ambientais e à escassez de água?

SS: Uma das melhores maneiras de um governo construir confiança é que desempenhe a governança básica, com segurança nas ruas, água saudável e disponível, escolas e assim por diante. Espero que eu tenha a oportunidade de discutir a política da água com funcionários do governo, professores, estudantes, mídia e líderes empresariais. Mas também espero que minha filosofia de governança também possa ajudar na recuperação de confiança das pessoas no processo democrático e em líderes eleitos em processos justos.

CC: Temos aqui reservas do porte da Bacia Amazônica e do Aquífero Guarani. Que papel acredita que essas riquezas brasileiras poderiam vir a desempenhar nesse enfrentamento? Elas simbolizam também temas de soberania para nosso país, como seria possível equacionar politicamente eventuais conflitos de interesses globais e regionais?

SS: Uma das tragédias de fontes de água em massa, como a Amazônia, é que a água às vezes está disponível onde não é mais necessária, e onde é necessário a escassez é sentida. O Canadá tem uma enorme quantidade de água doce, mas é principalmente no Círculo Ártico e na Baía de Hudson. Poucas pessoas vivem nesses lugares. Não é prático construir um encanamento da Amazônia para São Paulo e outros grandes centros populacionais. É por isso que outras formas de tecnologia e governança são tão importantes. Os lugares secos precisam usar outras técnicas.

CC:
 O estado de São Paulo, no qual está a maior cidade da América do Sul, enfrentou recentemente uma grave crise hídrica. Pesquisadores alertam que as mudanças apontam para mais escassez nos próximos anos. Como vê essa situação? No futuro próximo do mundo poderemos vivenciar uma situação mais dramática, de êxodo em massa de grandes cidades?

SS: A população de São Paulo tem sorte de certa forma. Recebeu uma segunda chance. Estes dias de melhor abastecimento de água quase certamente não durarão muito. Este período deve ser usado para se preparar para a próxima seca, para que, quando houver, haja menos prejuízo para a economia e a vida das pessoas. Ninguém quer ver refugiados de água, pessoas que fogem de onde moram simplesmente por causa da falta de água para viver suas vidas.

Fonte – Pedro Alexandre Sanches, Carta Capital de 06 de outubro de 2017

Água: a pergunta não é ‘E agora’, mas ‘E amanhã?’

seca

Falta água, no Meia Ponte (GO), e no Tocantins, Araguaia, São Francisco, Nordeste e outras regiões.

Os motivos? É fácil citar 3:

1- Uso e ocupação do solo: a impermeabilização e ações que prejudicam a infiltração da água no solo, nosso principal reservatório, somado à poluição e degradação das bacias, em áreas urbanas quanto rurais;

2- Gestão e planejamento dos usos: a gestão, regulação e organização dos diversos usos é vital para alocar vazões, que são limitadas, de forma planejada, para o seu melhor aproveitamento, e atuação em eventos críticos. Diversos usos? Sim, uso de água vai muito além das nossas torneiras; e

3- Ciclo Hidrológico: as chuvas não são uma constante, variam no chamado Ciclo Hidrológico, que nos é um grande desconhecido, e essas variações impactam na organização dos usos, na alocação das vazões. Citando dois exemplos, desde 2008 há uma pequena redução na precipitação média na bacia Rio Meia Ponte (GO), a montante de Goiânia, que abastece mais de 1,5 milhões de pessoas, situação agravada a partir 2014, com redução de até 25%. O que ocorreu também na bacia do Tocantins, com redução superior a 30%, acima da barragem de Serra da Mesa.

Porque insistimos em não aprender com a história? O Sistema Cantareira (SP), inaugurado em 1973, que abastece mais de 8,5 milhões de pessoas, tem origem em uma crise hídrica ocorrida na década de 1960. Quer algo mais recente? Lembra de 1999? Do apagão? Do comprometimento do abastecimento público, geração de energia, dos prejuízos e do aumento dos custos no país? O que aprendemos? O que mudou no modo de agir? Porque falta de água de novo? Se estes dados são públicos e, em tese, estamos conscientes dessa situação, só temos duas opções, o hospital ou o cárcere, porque é insanidade ou é crime.

Está faltando água. E a questão não é o que faremos agora, isto está claro: fiscalizar usos irregulares, reduzir captações e garantir os usos prioritários: abastecimento humano (diferente de urbano) e animais, o que já é pelos Órgãos Gestores de Recursos Hídricos, com a participação dos demais componentes do Sistema de Gestão Recursos Hídricos, com destaque para os Comitês de Bacias Hidrográficas (CBH), como acontece hoje no rio Meia Ponte (GO), com atuação da Secretaria de Recursos Hídricos de Goiás, a SECIMA, e no rio Descoberto, que abastece o Distrito Federal, em atuação conjunta da SECIMA-GO, da Agência Nacional de Águas-ANA e da Agência de Águas do DF – ADASA.

É importante destacar que nos casos de escassez, e priorização de usos, a população tem obrigação de fazer o uso racional da água, pois, para garantir o consumo humano, outras atividades estão sendo fechadas, e é muito sério fechar um uso regularmente planejado e instalado, seja qual for, pois também afeta vidas e pessoas, com claros prejuízos a estes.

A questão a ser respondida é “Quando vamos mudar a forma de pensar e gerir nossas águas?”. Sim, gerir as águas. Essas que têm sido tratadas como detalhe, como anexo de outras áreas, mas que é capaz de inviabilizar a existência da vida e todas as atividades que exercemos, com severos prejuízos econômicos, sociais e ambientais.

Quando sairemos desses quebra-galhos, dessa “gestão de crise”, de apagar incêndios, para implementar o modelo definido na Política Nacional de Recursos Hídricos, uma “gestão de risco”, com estrutura e condições para antecipar, planejar, articular e agir, com foco não só o presente, mas também no futuro.

Quando entenderemos que a água é uma incerteza, e, que: gestão é mais que autorizar títulos de uso, chamados de “outorga”; que órgão gestor não é um cartório de registro de vazões; que gerir o recurso hídrico é garantir o acesso a água e distribuir, entre concorrentes, algo limitado; e que a responsabilidade não é só do Estado, e Governos, mas também dos Setores Usuários e da Sociedade.

Nossa disponibilidade hídrica deveria ser uma dádiva, mas pode rapidamente se converter em maldição, caso nossa postura não mude, caso continue a reinar essa ilusão nefasta de abundância hídrica, que faz com que a água não seja tratada como prioridade, afinal, para que investir recursos e estrutura para gerir algo abundante?

Uns dizem que água é vida, mas é também meio ambiente, plantas, animais, história, saúde, cultura, poesia, religião, solidariedade, integração.

Outros dizem que água é um direito humano, é há sempre copos, torneiras, sanitários, pias, calçadas, jardins, piscinas.

Outros dizem que é um uso, na irrigação, agropecuária, produção de alimentos, indústrias, mineração, saneamento básico (diluição dos efluentes urbanos), geração de energia, transporte, pesca, turismo, lazer.

Segundo Guimarães Rosa, em Grande Sertão Veredas, “perto de muita água, tudo é feliz”, mas quando ela falta, aí ela é problema, beira o colapso, desastre, vira seca, baldes, distâncias, conflitos, prejuízos, tristeza, sofrimento.

Água é tudo isso, e por isso, devemos urgentemente começar a tratá-la e geri-la nesses termos, com recursos, estrutura e pessoas, como um componente central, estratégico, não com um apenso, anexo ou pedaço das “questões ambientais”, mas como infraestrutura, base das atividades e do desenvolvimento econômico e social sustentável.

Não há vida sem água, assim como não há indústrias, agricultura, biodiversidade, produção de alimentos, empregos, não há nada. Que não seja tarde para entender e agir, para gerir nossas águas como elas merecem, mas principalmente como nós deveríamos, como nós precisamos.

* João Ricardo Raiser. Poeta. Administrador. Mestrando em Gestão e Regulação de Recursos Hídricos (PROFÁGUA), na UNESP – Ilha Solteira, membro de Comitês de Bacia Hidrográficas Federais e Estaduais, representante no Conselho Nacional de Recursos Hídricos. Gerente de Planejamento e Apoio ao Sistema de Gestão de Recursos Hídricos da SECIMA/GO. Atua na gestão das águas desde 2002. jrrgestor@gmail.com

Fonte – EcoDebate de 29 de setembro de 2017

O direito à água

Parte do mural Água, origem da vida (Autoria de Diego Rivera)Parte do mural Água, origem da vida (Autoria de Diego Rivera)4

Por que falar de direito à água? Porque cada vez mais este direito pode ser ameaçado por novas circunstâncias políticas e econômicas na sociedade brasileira. Este tópico é muito recente como reflexão e discussão no Brasil e no mundo. Basta dizer que ele nem consta da Declaração Universal dos Direitos Humanos2. Avalio que a sua ausência neste documento que nasceu depois das atrocidades da Segunda Guerra Mundial se deve ao fato de que o direito à água era visto como algo tão assegurado que sequer necessitava ser ressaltado naquela Declaração. Ele somente foi mencionado em documentos internacionais anos mais tarde nas convenções que tratam de minorias que ainda lutam por direitos sociais e individuais como mulheres, crianças e portadores de necessidades especiais. Foi apenas na primeira década deste milênio que a Organização das Nações Unidas teve este tema discutido com maior profundidade ao ter uma resolução pelo direito à água votada pelos países membros, discussão esta pautada pela Bolívia e que em sua primeira votação foi derrotada, sendo aprovada posteriormente em 2010.

É bem verdade que no Brasil este direito já estava presente no Código das Águas3, elaborado nos anos trinta do século passado, ao garantir que as águas públicas deveriam priorizar a “necessidade da vida”. Esta lei garantia o acesso a estas águas, mesmo que fosse necessário aos que dela necessitavam que caminhassem por áreas privadas que as margeassem.

Mas na prática nem sempre este direito foi assegurado aos grupos mais vulneráveis no Brasil. Hoje sabe-se que para proporcionar mão de obra barata para as fazendas de café e para as indústrias do estado de São Paulo, por exemplo, governos federais dos anos quarenta e cinquenta atrasaram obras hídricas no Nordeste como forma de pressionar a migração forçada de moradores de áreas atingidas pelas secas, em um flagrante desrespeito ao direito humano a dessedentação. Favelas e zonas rurais sempre foram relegadas ao esquecimento no acesso a água limpa e de qualidade. Basta lembrar que na última crise hídrica de São Paulo, comunidades periféricas sofreram com a falta de água enquanto as mansões dos bairros ricos da cidade continuaram com as suas piscinas cheias (não se conhece campanha publicitária da Sabesp para que piscinas não fossem abastecidas, apenas as que culpavam o “banho demorado” pelo desperdício de água). E como não lembrar dos povos indígenas do Brasil e de outros cantos do planeta que são expulsos de suas terras muitas vezes porque estas possuem água em abundância, fazendo com que estes mudem para áreas onde terão dificuldade no acesso a rios ou lagos. Isso nos leva a concluir que muitas vezes este direito é negado por interesses políticos e econômicos.

Estudos também demonstraram que por causa da dificuldade no acesso a água de qualidade para o consumo, mulheres em áreas rurais caminham por quilômetros para conseguir chegar as fontes, poços, lagos ou rios e trazê-la para suas casas em latas ou potes carregados em suas cabeças5. Este direito negado também vem vitimando milhões de crianças em todo o mundo com doenças que são transmitidas por águas contaminadas em áreas pobres das grandes cidades e em zonas rurais. Como não concluir que sem direito à água, vários outros direitos também são negados aos mais pobres ou a grupos historicamente vulneráveis. Ao furtar este direito essencial, populações precisam migrar ao seu encontro para fugir da morte e muitas vezes é a morte que encontram nesta busca.

Há um outro aspecto com relação a este assunto nem sempre mencionado: o aproveitamento político que a negação deste direito gera. No Brasil há vários casos. Embora o Nordeste sempre apareça em primeiro plano quando o assunto é a troca de favores políticos por água, como não lembrar dos chamados “políticos de bica d´água” no Rio de Janeiro6 em um passado não muito recente (década de sessenta e setenta), quando lideranças partidárias trocavam votos por bicas d´água nos morros cariocas. Também é o caso das periferias da cidade de São Paulo sua luta por água encanada em suas casas ainda em nossos dias. Há ainda o caso da transposição do Rio São Francisco, vendida como garantidora de água para parte da população nordestina, quando é do conhecimento que aquela água transposta será a garantia de irrigação para grandes plantações do agronegócio no semiárido.

A ideia de que a água é um bem comum a que todos os seres (humanos e não humanos) tem direito vem sendo ampliada basicamente porque ela é cada vez mais um alvo do mercado que nela vê uma oportunidade de lucro a perder de vista. A posse da água ou mesmo de sua distribuição por monopólios empresariais privados em um mundo cada vez mais urbano, coloca em perspectiva até que ponto os governos estão garantindo este direito fundamental para a vida. Assegurá-lo é a garantia de que outros direitos como saúde, higiene, lazer, o cultivo e o preparo de vários alimentos, etc. também serão garantidos. É preciso ressaltar que não basta ser acessível, é fundamental que seja limpa e de qualidade. Algo cada vez mais difícil devido a sua poluição por agrotóxicos no campo e detritos industriais e domésticos nas cidades.

A boa notícia é que esta discussão já vem trazendo resultados positivos em várias localidades do Brasil e do mundo no tocante a garantia do direito à água para as famílias mais carentes. Em nosso país há a tarifa social com bases de cálculo diversos, a depender do estado ou do município7. Em outros lugares existe a discussão sobre a gratuidade de uma quantidade de litros de água per capita8, com o entendimento de que isto garante outros direitos como saúde, higiene, boa alimentação, etc. Para a Organização Mundial da Saúde (OMS) é necessário o consumo mínimo per capita de cem litros diários de água. Este montante seria o suficiente para uma pessoa saciar a sede, ter uma higiene adequada e preparar os alimentos (muitas vezes não levamos em contar que a quantidade de água que possuímos vai incidir na forma como nos alimentamos). Não seria então o caso de garantir que cada cidadão e cada cidadã tenham o direito a estes 100 litros de água e somente paguem o que for consumido acima deste número de referência? O quanto seria economizado em gastos com saúde, por exemplo? Porém, mesmo a suposição deste direito está ameaçada pelo curso da privatização das empresas de distribuição de água no Brasil atualmente.

O mercado da água como uma das últimas fronteiras a ser desbravada por empresas atreladas a este novo negócio é uma realidade vivenciada por várias populações em nosso país. Não que ela não tenha sido privatizada antes em muitas localidades brasileiras, mas esta privatização não estava sob a tutela da lei e o incentivo de governos. Também não significa que sendo pública o direito a seu acesso será garantido. Muitas comunidades ainda reivindicam água em suas torneiras em estados e municípios brasileiros que monopolizam a sua posse. Entretanto, sendo pública isso torna mais fácil a pressão sobre os poderes responsáveis pela sua distribuição, por uma tarifa que contemple os ganhos dos mais pobres ou até mesmo pela distribuição de uma quantidade mínima gratuita que garanta saúde, higiene e alimentação de qualidade. Não devemos e nem podemos demonizar o mundo dos negócios privados, pois o Estado não pode a tudo prover todo o tempo, mas a água é um elemento natural basilar para manter a vida no planeta e a sua monopolização por um grupo econômico é por demais perigoso. O lucro gerado para estas empresas será imenso e há de aumentar em seus balanços anuais, pois diferentemente de outros itens comercializáveis, a água está pronta para a venda tendo como custo a sua distribuição.

A água privatizada não alcançará os que dela necessitam e priorizará apenas aqueles que podem por ela pagar. Os menos favorecidos da sociedade serão, mais uma vez, privados de um direito essencial à sua sobrevivência. Não custa sempre repetir que “água não é mercadoria”.

1 Flávio José Rocha da Silva é Doutor em Ciências Sociais pela PUC-SP e administra a página OPA-Observatório da Privatização da Água no Facebook.

2 Originalmente chamada de Declaração Universal dos Direitos do Homem

3 Confira o Código das Águas.

4 O mural Água, origem da vida, pintado pelo mexicano Diego Rivera, pode ser visitado na cidade do México.

5 Sobre este fato, há uma bela canção chamada A força que nunca seca. Composta por Chico Cesar e Vanessa da Mata, ela é cantada por Maria Bethânia em cd com título homônimo ao da canção.

6 O maior representante destes políticos foi o carioca Chagas Freitas.

7 Atualmente há no Senado um Projeto de Lei para unificar a tarifa social de água e esgoto baseada na renda do usuário. “A medida está prevista no PLS 505/2013, que cria a tarifa social de água e esgoto, com descontos inversamente proporcionais ao consumo, para famílias com renda per capita de até meio salário mínimo, cadastradas no Cadastro Único para Programas Sociais do Governo Federal. “Confira clicando aqui.

8 Outras instituições propõem quantidades diferentes. A quantidade também poderia ser calculada levando em conta a idade do consumidor, o clima local, etc.

Fonte – EcoDebate de 24 de agosto de 2017

Microplásticos contaminam água da torneira mundo afora

Pessoa enche copo de água da torneira

Em média, 83% de amostras coletadas nos cinco continentes contêm plástico, aponta estudo

Fibras de plástico invisíveis estão presentes não apenas nos oceanos, mas também na água potável usada por milhões de pessoas, aponta estudo. De onde vêm essas partículas e como podem afetar a saúde humana?

De Nova York a Nova Déli, fibras de plástico microscópicas estão saindo junto com a água da torneira, aponta uma pesquisa da Orb Media, uma redação de notícias digital e sem fins lucrativos, baseada em Washington.

“Isso é ruim. Ouvimos muitas coisas sobre câncer”, diz Mercedes Noroña, de 61 anos, após saber que uma amostra de água de sua casa, próxima a Quito, no Equador, contém fibras plásticas. “Talvez eu esteja exagerando, mas eu tenho medo das coisas que vêm na água.”

Pesquisas recentes mostraram como os microplásticos poluem nossos oceanos, fontes de água doce, o solo e o ar. Esse estudo é o primeiro a revelar plástico na água da torneira da qual bilhões de pessoas dependem em todo o mundo.

As novas descobertas são um alerta, diz Muhammad Yunus, prêmio Nobel da Paz de 2006. “Isso deve nos afetar. Nós vemos o nó ficando mais apertado ao redor do nosso pescoço”, comenta.

Para o estudo, mais de 150 amostras de água da torneira foram coletadas em cidades localizadas nos cinco continentes. Em média, 83% continham plástico. Se as fibras sintéticas estão na água da torneira, elas provavelmente estão também em alimentos, como pão e comida para bebê.

Não está claro como as fibras plásticas entram na água da torneira ou quais seriam os riscos disso. Especialistas suspeitam que elas venham de roupas sintéticas, tapetes ou estofamentos.

Infografik Mikroplastik Leitungswasser POR

Impacto nos animais e seres humanos

Especialistas temem que, quando consumidas, as fibras plásticas possam transportar toxinas do meio ambiente para o corpo humano. O pesquisador Richard Tompson, da Universidade de Plymouth, diz que em estudos com animais “tornou-se claro que o plástico liberaria esses produtos químicos – e que, na verdade, as condições no intestino facilitariam uma liberação bastante rápida”.

Dados existentes sobre como o plástico afeta a vida selvagem são motivo de preocupação, aponta Sherri Mason, pioneira da pesquisa sobre microplásticos que supervisionou o estudo da Orb.

“Se eles estão impactando os animais, então, como pensamos que eles não vão também nos impactar de alguma forma?”, questiona Mason.

Por enquanto, ninguém sabe, afirma Lincoln Fok, cientista ambiental da Universidade de Hong Kong. “A pesquisa [sobre microplásticos] na saúde humana ainda está engatinhando”, destaca.

Fibras de plástico são onipresentes

As fibras plásticas estão na água da torneira de países ricos e pobres. O número de fibras encontradas em uma amostra de uma pia de banheiro do restaurante Trump Grill, em Nova York, foi igual ao encontrado em amostras de Jacarta, na Indonésia. A Organização Trump não respondeu a telefonemas e e-mails em busca de comentários sobre o assunto.

Cientistas querem filtrar micropartículas da água de esgoto.

As fibras microscópicas também foram encontradas em água engarrafada, e em casas com filtros com processo de osmose reversa. Os EUA não têm um padrão de segurança para o plástico na água da torneira. Na União Europeia (UE), normas determinam que a água da torneira seja livre de substâncias contaminantes.

No entanto, as fibras plásticas são onipresentes. Em amostras de água da torneira dos EUA e de Beirute, no Líbano, 94% continham fibras de plástico microscópicas. Outros locais com amostras coletadas foram Nova Déli, na Índia (82%); Kampala, em Uganda (81%); Jacarta, na Indonésia (76%); Quito, no Equador (75%); e na Europa (72%).

Descrença

A noção de plástico na água potável causa confusão e rejeição. Uma porta-voz do departamento de água de Los Angeles afirmou que “os resultados dos nossos testes em curso não mostram níveis elevados de plástico”. Ainda assim, duas de cada três amostras de Los Angeles – incluindo água de um bebedouro público – continham fibras de plástico.

James Nsereko, pescador do Lago Victoria, em Uganda, também rejeitou a ideia. “Nós nunca encontramos nada assim”, afirma. Mas uma amostra da torneira da vila onde Nsereko vive continha quatro fibras.

Em Washington, uma amostra de 500 ml de água da torneira do edifício do Capitólio continha 16 fibras, assim como a do prédio da Agência de Proteção Ambiental. Autoridades das cidades de Washington e Nova York disseram que suas águas estão de acordo com os padrões legais.

Infografik Mikroplastik Quellen POR

Mistério ambiental

Existe uma fonte confirmada de poluição de fibras plásticas – e você provavelmente a está usando. As roupas de tecidos sintéticos emitem até 700 mil fibras por lavagem, apontam os pesquisadores. A maior parte escapa do processo de tratamento de água e é descarregada em cursos d’água.

Mason afirma que águas residuais tratadas com fibras são provavelmente coletadas e, posteriormente, encaminhadas para casas de outras comunidades.

As fibras plásticas podem ser até transportadas do ar para nossos recursos hídricos pela chuva. Um estudo de 2015 estimou que de três a dez toneladas de fibras de plástico caíram anualmente nos telhados e ruas de Paris.

“O que observamos em Paris tende a demonstrar que uma grande quantidade de fibras está presente na precipitação atmosférica”, diz Johnny Gasperi, da Universidade de Paris-Est Créteil.

De onde quer que elas venham, as fibras de plástico na água da torneira são um problema novo e perturbador para ser resolvido pelo governo, ciência e indústria, conclui Mason. “As pessoas sempre perguntavam: ‘isto está em nossa água potável?’ Eu nunca pensei que realmente estivesse”, diz.

Fonte – Dan Morrison, Christopher Tyree, DW de 09 de setembro de 2017

Microplásticos ameaçam centenas de espécies da fauna marinha em todo o mundo

poluição por plásticosEm alguns lugares do mundo a poluição por plásticos é simplesmente catastrófica, como nesta praia em Mumbai, na Índia. Foto: UN Environment – Arquivo

Centenas de espécies da fauna marinha, como peixes, moluscos e outras, estão sendo ameaças pela ingestão do lixo que se acumula no mar em forma de microplásticos, sem que até o momento se saiba a fundo suas causas e consequências. Os últimos estudos apontam que até 529 espécies selvagens já foram afetadas pelos resíduos, um risco mortal que se soma aos outros já enfrentados por dezenas delas em perigo de extinção. A informação é da EFE.

Por menores que sejam, os microplásticos (de até cinco milímetros de diâmetro e presentes em vários produtos, como os cosméticos) representam uma ameaça para as mais de 220 espécies que os absorvem, algumas delas muito importantes no comércio mundial, como os mexilhões, as lagostas, os camarões, as sardinhas e o bacalhau.

Relatório recente da Organização da ONU para a Alimentação e a Agricultura (FAO) alertou para as consequências desses resíduos para a pesca e a aquicultura. “Ainda que nos preocupe a ingestão de microplásticos por parte das pessoas através dos frutos do mar, ainda não temos evidências científicas que confirmem os efeitos prejudiciais em animais selvagens”, explicou à Agência EFE uma das autoras do estudo, a pesquisadora Amy Lusher.

Ela acredita que ainda faltam muitos anos de estudos, dado o vazio de informação que existe sobre o assunto e as muitas inconsistências nos dados disponíveis. Para contribuir com o debate, uma revista especializada em biologia da Royal Society, de Londres, publicou recentemente um estudo que sugere que certos peixes estão predispostos a confundir o plástico com o alimento, por terem um cheiro parecido.

Matthew Savoca, líder de um trabalho realizado em colaboração com um aquário de San Francisco (Estados Unidos), explica que foram apresentadas a vários grupos de anchovas substâncias com o cheiro de resíduos plásticos recolhidos do mar e outras com o cheiro de plásticos limpos.

As anchovas reagiram ao lixo de forma similar à que fariam com o alimento, já que esses resíduos estão cobertos de material biológico, como algas, que têm cheiro de comida.

“Muitos animais marítimos dependem muito do seu olfato para encontrar comida, muito mais que os humanos”, afirmou Savoca, ressaltando que o plástico “parece enganar” os animais que o encontram no mar, sendo “muito difícil para eles ver que não é um alimento”.

A FAO lembra que os efeitos adversos dos microplásticos na fauna marinha são observados em experiências em laboratórios, normalmente com um grau de exposição a estas substâncias “muito maior” que o encontrado no ambiente.

Até então, estas partículas só apareceram no aparelho digestivo dos animais, que as pessoas “costumam retirar antes de consumir”, apontou a pesquisadora Amy Lusher.

Substâncias contaminantes

No pior dos cenários, o problema seria a presença de substâncias contaminantes e de aditivos que são acrescentados aos plásticos durante sua fabricação ou são absorvidos no mar, ainda que não se saiba muito sobre o seu impacto e o dos plásticos menores na alimentação.

Para os cientistas, é preciso estudar mais a fundo a distribuição desses resíduos a nível global, por mais que se movam de um lado a outro, e o processo de acumulação de lixo, ao qual contribuem a pesca e a aquicultura quando seus equipamentos de plástico acabam perdidos ou abandonados nos oceanos.

Em um mundo onde há cada vez mais plástico (322 milhões de toneladas produzidas em 2015), estima-se que a poluição continuará aumentando nos oceanos, onde em 2010 foram despejados entre 4,8 milhões e 12,7 milhões de toneladas desse tipo de lixo.

Fontes – EFE / ABr / EcoDebate de 05 de setembro de 2017