Pacto Global da ONU lança relatório sobre desperdício de água em redes de distribuição do Brasil

Rio Piracicaba. Foto: fotospúblicas/Paulo PintoRio Piracicaba. Foto: fotospúblicas/Paulo Pinto

Em 2015, 182 bilhões de litros de água foram perdidos em vazamentos, fraudes, roubos ou problemas de medição nos 74 municípios banhados pelas bacias dos rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí. O número é de um levantamento divulgado nesta semana (7) pelo Movimento Menos Perdas, Mais Água – iniciativa criada pela Rede Brasil do Pacto Global da ONU. Volume desperdiçado seria suficiente para abastecer 2,7 milhões de pessoas.

Em 2015, 182 bilhões de litros de água foram perdidos em vazamentos, fraudes, roubos ou problemas de medição nos 74 municípios banhados pelas bacias dos rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí. O número é de um levantamento divulgado nesta semana (7) pelo Movimento Menos Perdas, Mais Água – iniciativa criada pela Rede Brasil do Pacto Global da ONU. Volume desperdiçado seria suficiente para abastecer 2,7 milhões de pessoas.

Lançado durante as atividades da Semana do Meio Ambiente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP), o relatório lembra que as bacias dos três cursos fluviais atravessam 74 municípios — cinco em Minas Gerais e 69 em São Paulo. Juntas, cidades têm uma população de 5,6 milhões de moradores. A região das bacias PCJ responde por 7% do Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil.

Segundo Alceu Galvão — pesquisador do instituto responsável pela elaboração do estudo, o Trata Brasil — a média das perdas no sistema de distribuição do país, em 2015, foi de 36,7%, de acordo com o Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS) do Ministério das Cidades.

O especialista explicou que, acompanhando os indicadores do SNIS nos últimos anos, é possível observar que o Brasil (36,7%), a região Sudeste (32,9%) e o estado de São Paulo (33,5%) têm avançado no combate às perdas de água, já que atingiram em 2015 índices próximos à meta estipulada para 2018. Entretanto, os municípios das bacias PCJ, com média de 37,2%, não acompanharam essa tendência.

Também presente no lançamento da pesquisa, o presidente-executivo do Trata Brasil, Edson Carlos, apresentou um panorama da crise hídrica entre 2012 e 2017, ressaltando que houve um aumento da demanda de água nas cidades e pelo setor agrícola, ao mesmo tempo em que houve uma estagnação do volume das reservas do recurso. Outro problema foi a falta de chuva, especialmente no Nordeste.

“Os números só não são piores porque houve investimentos de infraestrutura em segurança hídrica. No entanto, ainda temos 50% da população brasileira sem coleta de esgoto e 34 milhões de pessoas sem acesso à água tratada, o que gera uma grande pressão sobre recursos hídricos”, alertou.

Para o superintendente de Recursos Hídricos da Agência Nacional de Águas (ANA), Sérgio Ayrimoraes Soares, é necessário implementar políticas de controle do uso da água. O dirigente lembrou que, para a renovação em maio da outorga do Sistema Cantareira – do qual faz parte a bacia do PCJ –, uma resolução da ANA determinou a redução da média mensal de retirada de água. “Com isso, o uso será reduzido para 56% do sistema”, disse.

Meta nacional

No final de 2013, a Presidência da República do Brasil promulgou o Plano Nacional de Saneamento de Básico (PLANSAB). A estratégia tem como meta a redução da média nacional de perdas nos sistemas de distribuição para 31% até 2033.

Alceu Galvão afirmou que já existem números sobre os volumes e os custos de produção de água que poderão ser economizados pelos municípios a partir da redução dos atuais índices de desperdício. Em um cenário factível, a diminuição dos índices de perdas na distribuição chegaria a 30%.

“O volume a ser economizado seria de 63 milhões de metros cúbicos por ano (63 bilhões de litros), o que representa uma economia anual de 104 milhões de reais”, afirmou.

O estudo da Rede Brasil do Pacto Global aponta ainda que, em todos os cenários traçados, a demanda futura de água nas bacias PCJ tende a ser superior à disponibilidade hídrica até 2035. Na simulação para esse ano, que estima em 25% a redução de perdas em todos os municípios, bem como uma queda da demanda para a irrigação, os números mostram que a demanda total de água estimada para as bacias PCJ superaria em 22% a disponibilidade atual.

Outras medidas

O estudo conclui que, apesar dos volumes de água significativos que poderão ser economizados com programas de redução e controle de perdas, o déficit hídrico estimado pelo Plano de Bacias não será superado apenas com iniciativas desse tipo.

Esses programas devem estar associados ao planejamento e à implementação de outras ações que busquem o aumento da oferta de água — como o crescimento dos índices de tratamento de esgotos dos municípios, a utilização da água de reuso e a redução dos consumos per capita. O levantamento também recomenda a criação de projetos de gestão operacional periódica nos sistemas de abastecimento.

“Precisamos migrar para uma sociedade que consuma menos água e que possamos cumprir o nosso papel de usá-la de forma racional, o que vai ao encontro da segurança hídrica no Brasil. As perdas nos sistemas de distribuição são grandes e contribuem para isso. Portanto, é preciso chegar a um controle de perdas a um nível satisfatório. Trata-se de uma questão complexa, mas precisamos seguir em frente”, afirmou a secretária adjunta de Saneamento e Recursos Hídricos do estado de São Paulo, Mônica Porto.

Acesse o sumário executivo do relatório Perdas de água nos sistemas de distribuição como agravante à vulnerabilidade das bacias hidrográficas – o caso das bacias PCJ” clicando aqui. Documento foi elaborado em parceria com a Reinfra Consultoria.

Saiba mais sobre o Movimento Menos Perdas, Mais Água:

Fonte – ONU de 09 de junho de 2017

A mercantilização da água avança ‘pari passu’ com sua escassez

Ilustração: LPS

A disponibilidade de água doce, em estado líquido, não poluída e acessível define o estado dos recursos hídricos do planeta. Nossas sociedades estão gerando uma crise sem precedentes de degradação quantitativa e qualitativa desses recursos. O estresse hídrico, a escassez e a escassez aguda de água, segundo o Índice Falkenmark (Falkenmark Water Stress Indicator) já são, e serão doravante cada vez mais, uma das maiores ameaças à satisfação das necessidades hídricas elementares da manta vegetal, dos humanos e dos outros animais. Diversos fatores concorrem para seu agravamento, entre os quais obviamente as mudanças climáticas e o aquecimento global, já que estes interferem na evaporação e na variabilidade térmica e dos ventos sobre a superfície dos oceanos (ENSO), alteram os padrões de precipitação (monções, secas e inundações), diminuem o nível dos rios, lagos e reservatórios, bem como a reciclagem dos aquíferos e o estoque de neve dos cimos das cordilheiras (Andes, Himalaia, Sierra Nevada etc), cruciais para o abastecimento sazonal de mais de um bilhão de pessoas.

Em 2013, Aiguo Dai, da University at Albany, no estado de Nova York, publicou um trabalho no qual recordava que “os registros históricos dos índices de precipitação, de fluxo de água e de seca mostram aridez crescente desde 1950 sobre muitas áreas terrestres”. E ao comparar as projeções avançadas pelos modelos com a realidade observada, afirmava: “Concluo que as mudanças observadas na aridez global até 2010 são consistentes com as predições dos modelos, os quais sugerem secas graves e disseminadas nos próximos 30 a 90 anos sobre muitas áreas terrestres, resultantes de menor precipitação e/ou maior evaporação”[I].

As secas, algumas sem precedentes nos registros históricos, que devastam regiões inteiras do planeta neste segundo decênio acrescentam ainda mais evidência ao que os dados e as projeções apontam de modo convergente. A Austrália, sobretudo sua região Sudeste, viveu entre 1995 e 2009 o que se chamou a “seca do Milênio”. Ela voltou ao país a partir de 2015 e em março de 2017 atinge 90% do Queensland (NE do país). Entre 2006 e 2011, a Síria sofreu sua pior seca dos registros históricos. Atribui-se às suas consequências uma parte considerável da responsabilidade pela guerra que destroça o país desde 2011. Vários países da África subsaariana, as Américas do Norte, Central e do Sul, o Oriente Próximo, a Ásia Central, a China, o Paquistão, a Índia e os países à volta do Mediterrâneo, agrupando mais da metade da população mundial, fornecem uma imagem do agravamento nos três níveis de estresse hídrico (baixo, médio e grave) em 2005 e em 2030 nos BRICS, nos países da OCDE e no resto do mundo.

Foto: reprodução

Por alarmante que seja, esse mapa não dá conta da evolução das secas no Brasil, tal como projetado por duas simulações climáticas (HadGEM2 ES e Miroc5) coordenadas por José Marengo, do Centro de Monitoramento e Alerta de Desastres Naturais (CEMADEN), às quais a revista da Fapesp dedicou  matéria de capa em sua edição de novembro de 2016. Desta se retiram os dois mapas do Brasil, abaixo figurados, que indicam, segundo uma síntese dessas duas simulações, o enorme alastramento das áreas com alto risco de secas graves no Brasil entre 2011 e 2040 [II].

Foto: Reprodução

Em 2011, as áreas de alto risco de secas restringiam-se sobretudo ao Nordeste e à região à volta e ao norte de Brasília, ao passo que em 2040 elas devem abranger parte substancial do território brasileiro, incluindo a Amazônia, onde, após as  secas de 2005 e 2010, “números provisórios mostram 2016 como o ano em média mais seco dos registros históricos sobre a bacia amazônica” [III].

Mas outro fator, além das mudanças climáticas antropogênicas, causadas estas, sobretudo, pela avidez dos setores afluentes das sociedades contemporâneas por energia, minérios, madeira, fibras e outros materiais, intervém diretamente nesse quadro já grave para torná-lo absolutamente crítico: o controle corporativo do capitalismo globalizado sobre o sistema alimentar humano e animal. Esse modelo converte os produtos agrícolas em commodities, fomenta a exportação de água sob a forma de alimentos, o consumo crescente de carne, terrivelmente demandante de água (1 kg de carne de vaca requer cerca de 15 mil litros de água, enquanto 1 kg de trigo, entre 500 e 4.000 litros [IV]), e a apropriação brutal dos recursos hídricos pelo agronegócio e pelas corporações. Os grandes traders (as assim chamadas ABCD companies [V]), os bancos, os gigantes da “alimentação” [VI], dos fertilizantes e dos agrotóxicos visam a maximização do lucro, independentemente das possibilidades do solo e da disponibilidade de água de cada região do planeta, com consequências por vezes já catastróficas para as populações mais vulneráveis em várias regiões do globo.

“Cerca de 3,8 trilhões de m3 de água são usados pelos humanos anualmente, 70% dos quais são consumidos pelo setor agropecuário, sendo que 550 bilhões de m3 são desperdiçados antes de chegar ao consumidor” [VII]. E a demanda de água, impulsionada pelo modelo suicida do agronegócio globalizado não para de crescer. Segundo o U.N. World Water Development Report, de 2015, “em 2050, a demanda global de água deve aumentar 55%, enquanto as reservas definham. Se as tendências atuais não mudarem, o mundo terá apenas 60% da água de que necessita em 2030”. Nada indica, no momento, mudanças relevantes nessas tendências. Ao contrário, o desmatamento causado pelo agronegócio (na Amazônia, ele aumentou quase 75% desde a aprovação do Código Florestal em 2012) cresce em toda a parte do planeta, agravando ainda mais a escassez hídrica.

Foto: Antonio ScarpinettiRepresa do Cantareira na seca de 2014: registros mostram aridez crescente em várias regiões do planeta

Para combater essa máquina corporativa de privatização e esgotamento dos recursos hídricos, prepara-se o Fórum Alternativo Mundial da Água, o qual terá lugar em Brasília em 2018, tal como divulgado pelo portal Crisálida da Unicamp nesta semana (veja-se www.crisalida.eco.br). Será, por certo, um dos eventos políticos mais importantes do ano que vem.

[I] A. Dai, “Increasing drought under global warming in observations and models”. Nature Climate Change 3, 52–58 (2013) <https://www.nature.com/nclimate/journal/v3/n1/full/nclimate1633.html>.

[II] Cf. Marcos Pivetta, “Um Brasil mais vulnerável no século XXI”. Fapesp,  249, XI/2016, pp. 16-21.

[III] Cf. Índice de Precipitação Padronizada (I/ 2015 – XII/2016) do INMET, cf. World Meteorological Organization (WMO), Statement on the State of the Global Climate 2016, p. 14 (em rede).

[IV] “How much water is needed to produce food and how much do we waste?” The Guardian, 10/I/2013.

[V] As “ABCD companies” – Archer Daniels Midland (ADM), Bunge, Cargill and Louis Dreyfus – moldam o financiamento e comercialização das commodities agrícolas e definem o modelo alimentar mundial. Cf. S. Murphy, D. Burch, J. Clapp, “Cereal Secrets. The world’s largest grain traders and global agriculture”. Oxfam, agosto de 2012 (em rede).

[VI] Eis, por ordem decrescente de faturamento, os controladores da água e da alimentação mundial: Nestlé S. A., Unilever Group, PepsiCo Inc., Coca-Cola Co, Mondelez International Inc., Mars Inc., Groupe Danone S. A., Associated British Foods PLC, General Mills, Kelogg Co. Juntas, essas dez corporações faturaram em 2013 mais de US$ 436 bilhões. Se fossem um país, elas seriam o 23º PIB do mundo. Tiveram lucros superiores a US$ 46 bilhões e gastaram ao menos US$ 23 bilhões em publicidade, embora sejam mal avaliadas pela Oxfam em termos de uso sustentável da água. Cf. “10 companies that control the world’s food”. MarketWatch, 2/IX/2014 (em rede).

[VII]“How much water is needed to produce food and how much do we waste?” The Guardian, 10/I/2013.

Luiz Marques é professor livre-docente do Departamento de História do IFCH /Unicamp. Pela editora da Unicamp, publicou Giorgio Vasari, Vida de Michelangelo (1568), 2011 e Capitalismo e Colapso ambiental, 2015, 2a edição, 2016. Coordena a coleção Palavra da Arte, dedicada às fontes da historiografia artística, e participa com outros colegas do coletivo Crisálida, Crises SocioAmbientais Labor Interdisciplinar Debate & Atualização (crisalida.eco.br).

Fonte – Jornal da UNICAMP de 22 de maio de 2017

Lenços umedecidos se tornam ameaça para vida selvagem no rio Tâmisa

Lenços umedecidos se tornam ameaça para vida selvagem no rio Tâmisa

Parecia que nada mais poderia colocar em risco a qualidade da água do mais famoso rio da Inglaterra. Considerado morto durante 50 anos, em 2015, ambientalistas comemoraram a observação de focas e baleias no Tâmisa.

Como muitos outros ao redor do mundo, o rio britânico, que atravessa a capital Londres e muitas outras cidades, tinha tido seu passado negro. Era chamado de “Grande Fedor”. A poluição era tanta e seu cheiro tão insuportável, que sessões no Parlamento eram canceladas tal o mal odor dele.

Mas um esforço para sua recuperação incluiu a implantação de um eficiente sistema de captação de esgoto e leis rígidas para evitar a contaminação do Tâmisa novamente, como mostramos neste outro post.

Infelizmente, agora uma nova ameaça está tirando o sono dos ingleses: lenços umedecidos! Isso mesmo, aqueles utilizados para limpar o bumbum de bebês ou a casa. Jogados na privada, como se fossem papel higiênico, eles acabam entupindo tubulações de esgoto e indo parar no rio. O que acontece é que este tipo de material não é biodegradável.

Lenços umedecidos se tornam ameaça para vida selvagem no rio TâmisaLenços umedecidos no Rio Tâmisa, em Londres

A organização ambiental Thames21, que trabalha pela preservação do Tâmisa, fez uma ação de limpeza no rio e ficou assustada com o volume de lenços umedecidos encontrados, a mais alta concentração dos últimos tempos. Milhares foram contabilizados no leito do rio. O impacto destes resíduos para o meio ambiente é muito grave. Assim como resíduos plásticos, pedaços de lenços são ingeridos pelos animais, que os confundem com alimentos.

Apesar de muitos fabricantes afirmarem nas embalagens que lenços umedecidos podem ser jogados na privada, a maioria deles é feita de poliéster e possui partículas plásticas, que não se dissolvem na água.

A Thames21 e a Sociedade de Conservação Marinha do Reino Unido estão promovendo uma campanha para alertar a população sobre o assunto e pressionar fabricantes a informar, nas embalagens, se os produtos são realmente biodegradáveis ou não (leia mais sobre a iniciativa aqui).

É bom lembrar que este não é um problema só na Inglaterra. O uso de lenços umedecidos aumentou muito no mundo todo, depois que eles se tornaram populares, inclusive no Brasil. Então, fique atento! O lugar deste tipo de produto é na lixeira, não na privada e muito menos, em nossos rios e oceanos.

Suzana Camargo – Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante seis anos. Entre 2007 e 2011, morou em Zurique, na Suíça, de onde colaborou para diversas publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Info, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Atualmente vive em Londres.

Fotos – 4 In Line/Creative Commons/Flickr (abertura) e divulgação Thames21

Fonte – Conexão Planeta de 26 de abril de 2017

ONU: o plástico está cobrindo e destruindo nosso planeta

Plástico é uma invenção maravilhosa porque dura bastante – e uma invenção terrível pelo mesmo motivo. Mais de 300 milhões de toneladas serão produzidas este ano. A maioria nunca é reciclada e permanece em nossa terra e nos nossos mares para sempre. Os detalhes nesse documentário.

No início de junho de 2017, a ONU realizou a Conferência sobre os Oceanos com o objetivo de apoiar a implementação do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 14: conservar e utilizar de forma sustentável os oceanos, os mares e os recursos marinhos para o desenvolvimento sustentável; saiba como foi e acompanhe o tema em http://nacoesunidas.org/tema/ods14, #SaveOurOcean e #MaresLimpos.

Fonte – ONU 15 de junho de 2017

Chapada Diamantina: a caixa d’água da Bahia vai secar!

victor.marques

Conhecida por ser uma das principais atrações turísticas do Brasil, por conta de suas belezas naturais, o mundo desconhece a importância que a Chapada Diamantina tem no fornecimento de água para o estado da Bahia, e para o equilíbrio da rede hidrográfica brasileira.

Refém dos interesses comerciais de grandes produtores rurais, abandonada e maltratada pelo poder público, a Chapada está secando e seus rios estão morrendo. Comunidades ao longo da Chapada já sofrem com a escassez de água, conflitos que podem se tornar mais violentos estão se intensificando na região e a capital soteropolitana também vai sofrer com a falta d’água.

Em Utinga, os índios Payayás já perceberam há uns anos o tamanho do problema e começaram um trabalho de conscientização, articulação política e ação. Hoje, Otto Payayá, avalia que a ação é a única ferramenta que ele ainda crê. “Do governo a gente tá cansado. A gente junta a comunidade e vamos limpar o rio, plantar na beirada dele, fazer algo prático, recuperar a vegetação para que a água volte a correr”, afirmou.

Otto Payayá (foto: Cristiane Passos)

Viveiro com mudas produzidas pelos Payayás para reflorestamento (foto: Cristiane Passos)

A descrença de Otto não é à toa, além do abandono relegado pelo estado à região, quando ele enfim age, o faz sem planejamento e acaba por piorar a situação. O rio Utinga nasce na comunidade de Cabeceira do Rio, distante cerca de oito quilômetros da sede do município de Utinga. Ele é responsável pelo abastecimento de água das cidades de Utinga, Wagner, Lajedinho e Andaraí. Em 1977 foi construída uma barragem na cabeceira da nascente do rio Utinga, literalmente em cima da nascente e de seus fervedouros – nascentes de rios subterrâneos. E para piorar ainda mais, a retirada da mata ciliar na área da barragem provocou o desbarrancamento, o que tem assoreado o rio. O indígena relatou que recentemente conseguiu levar ao local o engenheiro responsável pela obra da barragem e que ele se emocionou ao ver o tamanho do erro que cometeram.

O rio Utinga é apenas um dos vários rios que compõem a bacia do Paraguaçu, responsável pelo abastecimento de várias cidades da região e da capital baiana, Salvador. Assim como o Jacuípe, que abastece, por exemplo, o distrito do município de Piritiba, França. No distrito, a Embasa (Empresa Baiana de Águas e Saneamento S.A.) joga no próprio rio os rejeitos da estação de tratamento. Além dos rejeitos, uso de agrotóxicos por produtores locais e plantações em área de preservação permanente têm poluído e assoreado o rio, cuja vazão tem diminuído a olhos vistos.

Rejeitos da estação da Embasa em França sendo despejados no rio (foto: Cristiane Passos)

O rio assoreado no distrito de França (foto: Cristiane Passos)

Seguindo o exemplo dos payayás, assentamentos da região têm se organizado para reflorestar as margens dos rios e assim tentar retomar a riqueza de águas da região. É o caso do assentamento São Sebastião, no município de Wagner, que após ver o rio Utinga quase secando, fez mutirões para plantação de mudas nativas nas margens do rio e para a limpeza do local. Os assentados descrevem com tristeza terem testemunhado o rio secar e os peixes morrerem. Mesmo com as ações, em fevereiro deste ano os assentamentos ficaram sem água. Na cidade de Wagner aconteceu o mesmo.

Sem a presença do poder público, grandes produtores, também impactados pela falta d’água, destilam acusações contra os assentados e pequenos produtores, acusando-os de serem os responsáveis pela escassez de água. Porém, são os grandes produtores que multiplicam bombas para alimentar sistemas de irrigação de suas produções, ao longo do rio. Segundo os produtores, nos últimos 10 anos houve um aumento do plantio irrigado de culturas, que absorvem um grande volume de água, saindo de aproximadamente 200 hectares para mais de 1.000 hectares. Isso é equivalente a mais de 1,6 milhão de plantas, que para manter sua produtividade necessita de 40 litros de água por dia para cada planta[1]. Sem controle, plano de manejo ou fiscalização, boa parte dessas bombas para irrigação não possui sequer outorga de uso do Inema (Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos da Bahia)[2].

Conflitos pela água: a violência iminente

A comunidade do povoado de São José, próximo a Lençóis (BA), ficou 120 dias sem água. Toda sua produção foi perdida. Endividados, pois conseguiram a terra em que vivem através do crédito fundiário e não pela reforma agrária, chegaram a passar fome. Em fevereiro desse ano, quando chegaram ao limite, bloquearam os dois sentidos da BR-242, na altura do km-308. Segundo relato das famílias, policiais militares da CIPA (Companhia Independente de Policiamento Ambiental) dispararam contra os manifestantes. Ninguém ficou ferido. A polícia teria, segundo eles, levado duas pessoas presas e, no trajeto até a delegacia, os próprios policiais teriam quebrado o vidro da janela da viatura e colocado a culpa em um dos manifestantes, que ficou preso por dois dias sob acusação de vandalismo. Ele foi solto somente após o pagamento de fiança no valor de R$ 2.800,00.

Régua para medir altura da água do rio que abastece a comunidade de São José (foto: Cristiane Passos)

Líderes da comunidade têm sofrido constantes ameaças por conta de sua atuação e denúncias feitas. As ameaças, conforme relataram, partem tanto de fazendeiros da região, quanto da polícia. Fazendeiros disseram também a eles que “se virassem” com caminhões pipa ou que “criassem camelos, que não bebem água”. “Quando é da natureza você tem que concordar. Mas a minha sensação é que não era da natureza essa falta d’água, era somente por que tem gente que se acha melhor do que a gente”, desabafou uma das moradoras da comunidade. Temerosos com o rio baixando novamente, os moradores declararam que vai haver mais embate, pois não irão aguentar novamente a falta d’água, quietos.

Bacia do Paraguaçu

A bacia hidrográfica do Paraguaçu é uma das mais importantes para o estado da Bahia, sendo fundamental para o abastecimento de água da região metropolitana de Salvador. Mais de três milhões de pessoas dependem das águas deste rio, cuja bacia se estende por mais de 55 mil km², abrangendo 86 municípios e 10% do território do estado. O Paraguaçu tem suas nascentes em áreas de Caatinga, Campos de Altitude e encraves de Mata Atlântica na Chapada Diamantina. Das nascentes até a foz, na Baía de Todos os Santos, o rio percorre 600 km, cruzando uma região com alta diversidade social, cultural e ecológica. Tamanha importância torna ainda mais preocupante o atual estado de degradação ambiental da bacia[3].

Além da sua importância no fornecimento de água e no equilíbrio da biodiversidade local, a região possui grande potencial turístico e econômico, mas nem mesmo isso tem livrado a Chapada da degradação. Um de seus cartões postais, a Cachoeira da Fumaça, localizada entre os municípios de Lençóis e Palmeiras, que possui 340 metros de altura e é a segunda maior cachoeira do Brasil, também enfrenta problemas com o desequilíbrio das águas na região. Segundo moradores da região, têm aumentado os momentos no ano em que a cachoeira seca. O Poço Azul, outra atração turística, atraente por sua gruta com águas cristalinas que ficam mais azuis com a entrada de feixes de luz do sol, está cercado de plantações irrigadas e que utilizam agrotóxicos.

Poço Azul – atração turística que também está ameaçada pelo uso de agrotóxicos e retirada indiscriminada de água em seus arredores. (foto: Cláudio Dourado – CPT Ruy Barbosa)

De acordo com Rogério Mucugê, da Conservação Internacional e coordenador do projeto “Semeando Águas no Paraguaçu”, todos esses fatores já citados, como poluição, retirada indiscriminada de água, ausência do Estado e de políticas públicas que garantam a conservação do ecossistema local, são agravados ainda pelas constantes queimadas. “A maioria dessas queimadas são criminosas”, afirmou ele. Além disso, espaços de reivindicação da sociedade civil para a resolução de problemas como esses, estão dominados pelos representantes de grandes empreendimentos rurais. O Comitê da Bacia Hidrográfica do Paraguaçu é um deles. Apesar da ideia de composição diversificada e democrática dos Comitês, a população em geral e as entidades de preservação ambiental são sempre voto vencido nas decisões sobre a Bacia.

Como disse o senhor Ramiro de Souza, do Assentamento São Sebastião, “dizem na televisão que o agro é tudo, mas não é, a água é tudo. Ninguém vive sem água”. Comungando dessa ideia e preocupada com a situação na região, a Comissão Pastoral da Terra (CPT) de Ruy Barbosa (BA) dará início a uma campanha de conscientização sobre a necessidade de ações imediatas de preservação das águas da Chapada Diamantina. Articulada com as comunidades locais e organizações de defesa do meio ambiente, ela espera visibilizar a situação crítica das águas da Chapada e, assim, mobilizar a sociedade para salvar esse patrimônio natural, bem como o mais fundamental de nossos recursos naturais, a água.

[1] http://folhadachapada.com.br/brasil/folha-da-chapada/chapada-diamantina-rio-utinga-pede-socorro/#more-37

[2] http://www.oparaguacu.com.br/cortado-duas-vezes-o-rio-utinga-sofre-grave-ameaca-de-morte/

[3] http://www.conservation.org/global/brasil/iniciativas-atuais/Pages/iniciativas-bacia-do-paraguacu.aspx

Fonte – Cristiane Passos, CPT de 07 de junho de 2017

Dia Mundial dos Oceanos: planeta corre o risco de se afogar em plástico

Os oceanos estão em risco, nunca como agora, ameaçados principalmente pelo plástico que polui os mares de todos os cantos do globo, mas também pela pesca não sustentável e pelas mudanças climáticas.

O alerta foi lançado pelo secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, por ocasião da Conferência sobre os Oceanos, que ocorrem até sexta-feira no Palácio de Vidro de Nova York, por ocasião do Dia Mundial dos Oceanos, que é celebrado neste 8 de junho. Citando estudos recentes, Guterres salientou que, se não forem tomadas medidas adequadas, no mar, os resíduos de plástico poderiam superar a quantidade de peixes até 2050.

O objetivo desse encontro de cúpula, salientou o secretário-geral, é “inverter a maré” e tentar resolver os problemas que o próprio homem “criou”. De acordo com as estimativas citadas por Guterres, nos oceanos, há mais de 150 milhões de toneladas de plástico. Quanto ao clima, as emissões de carbono estão provocando a elevação do nível dos mares e tornando as águas mais ácidas, com cada vez menos oxigênio.

As ameaças aos oceanos e à natureza que os habita são bem conhecidas, já conclamadas por estudos científicos, e o secretário das Nações Unidas os reafirmou a presidentes, ministros, diplomatas e ambientalistas provenientes de mais de 200 países. Da poluição aos resíduos, da sobrepesca, que também sofre de ilegalidade, à acidificação provocada pelo aquecimento global.

Se o responsável pelo dano é o homem, Guterres alertou: “Devemos pôr de lado as vantagens nacionais de curto prazo, para evitar uma catástrofe geral de longo prazo”, especialmente porque “preservar os nossos oceanos”, que abrangem dois terços do planeta, “e usá-los de modo sustentável significa preservar a própria vida”. Os estoques de peixes entraram em colapso, enquanto a elevação dos mares se torna mais ameaçadora para as cidades costeiras.

O cardeal Peter Turkson, prefeito da Congregação para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral, discursou nos trabalhos, ressaltando que se não forem tomadas medidas para inverter o curso, “este século poderia ser testemunha de uma destruição dos ecossistemas que não tem precedentes, com sérias consequências para todos nós”.

Não há necessidade, acrescentou o purpurado, de que se lembre como “os oceanos e os mares são fundamentais para a vida do planeta, a nossa casa comum”, pois eles não só garantem alimentos e matérias-primas, mas também “benefícios ao ambiente, como a purificação do ar, a regulação do clima” e muito mais.

A Unesco exorta os países do mundo a compartilharem os conhecimentos para realizar políticas comuns baseadas na ciência.

Fonte – L’Osservatore Romano / tradução Moisés Sbardelotto, IHU de 08 de junho de 2017

As cidades e o desequilíbrio hídrico

Steve Dorman

Frequentemente se imaginava que a imagem de populações imersas em resíduos sólidos pudessem representar cenários cujo impacto catastrófico pudesse trazer modificações paradigmáticas na conservação ambiental. No entanto, é a escassez de água, e secundariamente as dificuldades nas disponibilidades energéticas, em parte decorrente das dificuldades hídricas, que vem alterando estes padrões. A natureza parece ser irônica para reagir as agressões antrópicas.

O caminho que está sendo percorrido, se aproxima de uma antiga previsão, que registrava que a civilização humana corria o risco de afogar cidades sob a água salgada dos mares em regime de transgressão, em cenário de carência de água doce potabilizada. Esta realidade se contextualiza com as mudanças climáticas que geram o aquecimento global, com o consequente derretimento de geleiras e elevação dos níveis dos mares. É como o náufrago que se observa cercado de água salobra e sem disponibilidade de água potável para sua dessedentação.

Relatórios da Organização das Nações Unidas registram o diagnóstico de que mais de 1 bilhão de pessoas não tem acesso a quantidades mínimas aceitáveis de água potável, que gere situação de segurança hídrica. O recente episódio de baixa pluviosidade na região sudeste, a mais rica do país, começa a fazer perceber que não é o volume ou a natureza das obras que pode solucionar a situação, e sim uma radical mudança de atitude na compatibilização e harmonização com os meios físico e biológico do planeta, entendido como a “nave” que todos compartilhamos no decurso de nossa vida em comum.

A Organização das Nações Unidas prevê que se nada mudar nos padrões de consumo e na forma geral dos indivíduos se relacionarem com o planeta, num horizonte próximo cerca de 5,5 bilhões de pessoas poderão não ter acesso aos recursos hídricos, tão fundamentais para a vida, correspondendo a 2/3 do total da população. E num horizonte maior, se diagnostica que menos de ¼ da humanidade vai dispor de água potável para satisfazer suas necessidades básicas de vida.

A escassez de água não é problemática apenas para dessedentação. Também gera dificuldades na manutenção das condições sanitárias e facilita a propagação de doenças, como a diarreia e a malária, que são responsáveis por mais de 2 milhões de óbitos em indivíduos humanos a todo ano, nas regiões mais vulnerabilizadas da terra.

A água doce, que pode ser potabilizada é um bem raro. Já se produz água potabilizada a partir de água dessanilizada, mas a um custo energético ainda bastante elevado. Cerca de 97% das águas que cobrem a superfície da terra são salinizadas. Dos restantes 3%, a maior parte está em geleiras ou calotas polares. Menos de 1% está disponibilizada, predominando as águas subterrâneas, armazenadas em aquíferos. A água disponível em rios, lagos e lençóis freáticos totaliza menos de 0,25% da água total do planeta.

Como se observa são muito exíguas as disponibilidades de água doce no planeta, e ainda devem ser divididas com os demais membros da fauna e com todo reino vegetal. É claro que as fontes não deveriam se esgotar pela manutenção permanente dos ciclos hidrológicos. Mas a velocidade de recomposição dos aquíferos superficiais tem mostrado harmonização em ritmo descompassado com a exploração dos recursos hídricos pelas atividades antrópicas. Em particular, quando se agregam as modificações geradas pelas mudanças climáticas.

Evidentemente se apropriar das realidades exibidas por este conjunto multifatorial, é tarefa que demanda certa complexidade sistêmica e não é realizada de forma intuitiva. Mas as consequências são as mesmas e geram conscientização em toda sociedade. É preciso mudar a relação com a água e os demais bens naturais buscando reestabelecer as condições mínimas de equilíbrio.

Especialistas assinalam que a crise hídrica que atinge o estado de São Paulo, decorre de desequilíbrio já de alguns anos na pluviosidade média, não acompanhando a demanda crescente de uso, e até de desperdício. No entanto, esta anomalia climática não é o único fator. Também contribuem fatores de infraestrutura, que não significam necessariamente ausência de planejamento, e sim dificuldades impostas pela burocratização e estanqueidade dos mecanismos estatais de operação. Onde as crescentes complexidades não são acompanhadas por níveis equivalentes de evolução nos estágios de gestão, governança e conformidade.

Ou seja, legislação ambiental, cada vez mais complexa e abrangente, convive com órgãos aplicadores desaparelhados e ineficientes que não conseguem se coordenar ou se comunicar eficientemente entre si. Evidentemente, as dificuldades de execução se tornam manifestas e os resultados sociais extremamente ineficientes, retratando as dificuldades das operações, que se perdem em objetivos sistêmicos parciais, não conseguindo estabelecer metas de consecução conjuntas.

Se o sistema social padecesse da mesma moléstia, as empresas estariam comprometidas e os níveis de empregabilidade que garantem o funcionamento virtuoso da sociedade, com incrementos na geração de impostos e a garantia da manutenção de um estado com condições de intervir na sociedade de maneira eficiente, atendendo às demandas sociais, estaria comprometido. Quando eventos naturais se associam a dificuldades de articulação para a consecução de objetivos mais amplos, não deixa de ser em parte, algo análogo, o que está ocorrendo. Com consequências sociais e coletivas de resultados inestimáveis.

A cultura de vincular a importância do bem ao valor desembolsado na sua aquisição, dificulta a valoração adequada do bem água. Não se está defendendo o aumento desmesurado dos preços da água. Mas se a cultura popular associa preço ao valor do bem e não à conscientização de sua função social e ecossistêmica, então está estabelecida uma situação de extrema dificuldade e complexidade. Se a preciosidade da água for repassada aos custos de sua disponibilização e forem criadas dificuldades para os hábitos necessários de natureza sanitária de todos os indivíduos, então os resultados podem ser mais desastrosos e medidos nas portas dos carentes serviços de saúde do país.

Mas o maior erro, talvez, seja permitir que a situação atinja níveis próximos à situação de catástrofe para que as medidas reguladoras sejam tomadas. Em questões ambientais e naturais em geral, é consensual a apreciação de que é preferível prevenir do que remediar. Tanto pelos custos gerados quanto pelo pânico produzido. A prevenção, no mínimo, gera melhores condições de administração geral das perspectivas e projeções dos indivíduos, em caldeirões de interesses e necessidades, que são de difícil avaliação, ainda mais em cenários políticos ou meramente econômicos, que na maioria das vezes são absolutamente intangíveis.

Roberto Naime, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em Geologia Ambiental. Integrante do corpo Docente do Mestrado e Doutorado em Qualidade Ambiental da Universidade Feevale.

 

Fonte – EcoDebate de 16 de maio de 2017

Somente 20% da água é tratada no mundo

Foto: Paul Downey/Flickr Foto: Paul Downey/Flickr

A demanda por água em todo o mundo aumenta a cada dia e em consequência disso, cresce a quantidade de águas residuais produzidas e despejadas no meio ambiente sem tratamento adequado, tornando-se inapropriadas para o consumo, provocando efeitos negativos na saúde, na produtividade econômica, na qualidade de águas doces e nos ecossistemas. Para chamar a atenção para esse fato, que nesta quarta-feira (22), a Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (Unesco) lançou um relatório,Águas Residuais: o Recurso inexplorado (em inglês, Wastewater – The Untapped Resource).

Um dos aspectos mais importantes destacados no documento alerta para o fato de que, no mundo inteiro, somente 20% das águas passam por tratamento sanitário. Os outros 80% voltam à natureza residuais sem tratamento apropriado. A desigualdade entre os países fica acentuada no acesso à água tratada: enquanto os países pobres apenas 8% das águas residuais domésticas e industriais tratadas, nos países de renda alta a taxa é de 70%.

“As águas residuais são um recurso valioso em um mundo no qual a água é finita e a demanda é crescente”, disse Guy Ryder, presidente do UN Water e diretor-geral da Organização Internacional do Trabalho (OIT).

Gestão da água

O relatório ressalta a necessidade urgente do reuso da água residual doméstica, agrícola e industrial para suprir a escassez e o aumento da demanda. Segundo o documento, dois terços da população mundial vivem, hoje, vivem em áreas com escassez de água durante um mês por ano, ao menos. Cerca de 500 milhões de pessoas vivem em áreas nas quais o consumo de água excede em duas vezes os recursos hídricos renováveis localmente. Reduzir esse número, significa tratar as águas residuais para que elas se tornem acessíveis. A disponibilidade desses recursos está ligada diretamente à qualidade da água, pois a poluição das fontes pode tolher diversos usos da água.

A prevenção ou a redução da poluição na fonte, a coleta e tratamento das águas residuais, o uso das águas residuais como uma fonte alternativa de água e a recuperação de subprodutos úteis, como a utilização da tecnologia a recuperação de nitrogênio e fósforo a partir do esgoto e do lodo como fonte alternativa para água doce, são algumas medidas apresentadas como soluções de tratamento e produção de água viável para outros usos.

Fonte – Sabrina Rodrigues, O Eco de 22 de março de 2017