Antártida está ficando verde devido às mudanças climáticas

-NASA / Joshua Stevens / Kathryn Hansen

Cientistas concluíram que a vida vegetal está crescendo no continente gelado da Antártida devido às alterações climáticas, revela um estudo publicado esta quinta-feira na revista Current Biology.

Há algumas semanas, uma equipe internacional de pesquisadores já tinha revelado que o Ártico está a ficar verde a uma velocidade alarmante (e descoberto a razão). No entanto, a Antártida não fica para atrás. O continente gelado também está ficando verde e a razão é basicamente a mesma.

Poucas plantas vivem na Antártida, mas os cientistas que estudam musgos detectaram um aumento significativo da atividade biológica no continente nos últimos 50 anos.

Para o estudo, a equipe de pesquisadores das universidades britânicas de Exeter e Cambridge analisou núcleos de bancos de musgo bem preservados na Antártida, em uma extensão de cerca de 643,73 quilômetros, e dados documentados dos últimos 150 anos.

Os cientistas estudaram em pormenor cinco núcleos de três locais, tendo concluído que houve alterações biológicas importantes na península antártica no último meio século.

Segundo um dos autores do estudo, Matt Amesbury, da Universidade de Exeter, o aumento da temperatura verificado na Antártida nos últimos 50 anos teve “um efeito dramático no crescimento dos bancos de musgo” no continente gelado.

Com a continuação do aumento das temperaturas, ainda que de forma moderada, e com o crescimento do degelo, a Antártida “será um lugar mais verde no futuro”, sustentou.

A equipe científica pretende, em uma nova investigação, recuar mais no tempo e avaliar até que ponto as alterações climáticas afetaram os ecossistemas na Antártida antes de a atividade humana provocar o aquecimento global.

Fonte – Ciberia de 19 de maio de 2017

O mar de Aral e a transposição do Rio Piumhi

Rio Piumhi

Após visitar o mar de Aral, o secretário-geral da ONU, ao ser entrevistado em Nukus, capital da região autônoma de Karakalpak, assim se manifestou:

“No cais, eu não estava enxergando nada, eu podia ver apenas um cemitério de navios. É claramente um dos piores desastres ambientais do mundo”.1

Que terá acontecido para motivar tão grave acontecimento?

Recebendo água de dois rios, o Amu-Daria e o Syr-Daria, o mar de Aral tem secado progressivamente nos últimos 30 anos. As nascentes dos dois rios ficam nas altas montanhas que fazem parte do sistema do Himalaia e se distanciam cerca de 1.000 km da foz. Durante toda essa extensão, sucessivas retiradas de água dos rios, feitas pelo antigo governo soviético nas repúblicas da Ásia Central, a partir de 1920, fizeram com que o fluxo para o mar diminuísse consideravelmente (houve redução de 90% na vazão do Rio Syr-Daria).2

Com a diminuição do suprimento de água, rompeu-se o equilíbrio, pois as perdas por evaporação no Aral ultrapassaram o volume de água recebido da chuva e dos rios. Para haver a restauração do equilíbrio, o mar perdeu metade de sua superfície, reduzindo, em consequência, as perdas por evaporação.

Para que o mar recupere a superfície perdida, é necessário um aporte contínuo de água que supere as perdas por evaporação. A solução encontrada foi uma transposição de águas dos rios Ob e Volga para reforçarem o volume do mar de Aral. Os canais de transposição terão um comprimento de 3.300 km e, atualmente, o alto custo do projeto é o principal empecilho à realização da obra.

Surpreende que, nos debates em torno do PISF, bem como nos textos escritos sobre a transposição, o desastre do mar de Aral seja sempre citado pelos críticos do projeto.3 Entretanto, nunca é dito que esse desastre não foi causado por uma transposição entre bacias e muito menos que a solução encontrada envolve uma grande transposição entre bacias.

Cabe notar que, para haver simetria entre o desastre do mar de Aral e o PISF4, seria necessário que algo semelhante ocorresse não com o Rio São Francisco, mas com o Oceano Atlântico, onde se encontra a foz do Velho Chico.

O grande argumento contrário à transposição é de que o uso de água na própria bacia é menos danoso que uma transposição porque parte da água retirada percola de volta para o rio. O desastre do mar de Aral reforça a tese de que a retirada de água do rio para a agricultura seja para ser usada na bacia, seja para ser usada fora da bacia, produz efeito semelhante sobre a vazão do rio, visto que é insignificante a água usada em atividades agrícolas que retorna para o rio.5

No Brasil, temos um caso muito mais radical sem consequências drásticas. Trata-se do Rio Piumhi, antes pertencente à bacia do Rio Grande, afluente do Rio Paraná, e que foi remanejado para a bacia do Rio São Francisco.

Por que isso terá ocorrido?

Entre o final da década de 1950 e o início dos anos 1960, estava sendo construída a Represa de Furnas sobre o Rio Grande, afluente do Rio Paraná. Quando as comportas da usina hidrelétrica fossem fechadas, o nível da água da represa ultrapassaria o topo do divisor de águas com a bacia do rio São Francisco, conectando as duas bacias hidrográficas, inundando a cidade de Capitólio e jamais enchendo o reservatório de Furnas. Para solucionar esses problemas, foi projetada a construção de um dique nas imediações do município de Capitólio para conter as águas da represa de Furnas, dique esse que passaria a funcionar como divisor de águas entre as duas bacias.

Ocorre que as cabeceiras do Rio Piumhi ficariam a montante do dique. Impedidas de continuar seu trajeto em direção ao Rio Grande, as águas do Rio Piumhi formariam uma represa, alagando uma enorme área, incluindo a cidade de Capitólio. Para solucionar esse novo problema, foi construído um canal com aproximadamente 18 km de extensão até alcançar o Córrego Água Limpa, que desemboca no Ribeirão Sujo, afluente da margem direita do Rio São Francisco. Dessa forma, o Rio Piumhi, com todos os seus 22 afluentes perenes, passou a pertencer à bacia do Rio São Francisco. 6 No antigo leito do Rio Piumhi, formou-se um conjunto de lagos, que hoje é atração turística do município de Capitólio.7

A mudança de bacia do Rio Piumhi foi algo muito mais radical que uma simples transferência de água de uma bacia para outra. O canal de comunicação com o Córrego Água Limpa drenou um enorme pantanal que existia na região. Uma equipe da UFSCar está estudando os efeitos sobre a ictiofauna, tendo constatado, na bacia do São Francisco, a presença do peixe conhecido como “Ferreirinha”, originariamente da bacia do Rio Grande.

O estudo da influência da transposição do Rio Piumhi sobre a fauna da bacia do Rio São Francisco será um laboratório importante para se avaliarem possíveis efeitos na ictiofauna das bacias do Nordeste, que têm biodiversidade muito mais pobre que a bacia do Velho Chico.

Um simples dique de separação entre as bacias do Rio São Francisco e do Rio Grande propicia uma grande facilidade para transferência de água de uma para outra bacia. Assim, aqueles que temem que o São Francisco possa morrer 8por causa da transposição ou que a combatem sob a alegação de que esta possa antecipar conflitos por água na bacia do Velho Chico de 2035 para 2030,9 podem ficar sossegados: bastará a construção de uma comporta no dique para, havendo necessidade de mais água no Rio São Francisco e havendo disponibilidade na Represa de Furnas, águas possam ser transferidas para o Rio Piumhi e, por ele, levadas ao São Francisco. 10

Aqueles que temem um “apagão” de energia elétrica no Nordeste por causa da transposição também podem ficar sossegados. Mais fácil que transferir água de Furnas para o Velho Chico é fazer a transferência de energia elétrica dessa usina para o Nordeste. O Rio São Francisco já foi responsável por 90% da energia consumida na região,11 mas hoje, para acontecer um “apagão” seja no Nordeste, seja em qualquer outro ponto do país abastecido pelo sistema nacional de distribuição de energia, há necessidade de que a demanda por energia elétrica no país supere a oferta em Itaipu, em Furnas, em Três Marias e nas outras usinas de produção de energia interligadas ao sistema.

Paulo Afonso da Mata Machado é Engenheiro Civil e Sanitarista.

1 O Estado de São Paulo – edição de 4.10.2010 – http://www.estadao.com.br/noticias/vidae,morte-do-mar-de-aral-e-desastre-chocante-diz-secretario-geral-da-onu,533577,0.htm – consulta feita em 16.4.2010

2 Mar de Aral – http://www.tiosam.net/enciclopedia/?q=Mar_de_Aral – consulta feita em 16.4.2010

3 Toda a verdade sobre a transposição do Rio São Francisco – pag. 23

4 Toda a verdade sobre a transposição do Rio São Francisco – pag. 213

5 Recebi do Prof. Eloi, da UnB, a seguinte mensagem:

Caro Paulo Afonso,

Na irrigação moderna não se usa um volume de água maior que a demanda das plantas. Quando isso é feito se tem um consumo demasiado de energia (para bombear a água) e o risco de se desenvolver erosão.

Assim, de toda a água que é retirada do aqüífero nada retorna. É perdida por evapotranspiração ou utilizada no metabolismo das plantas.

6 Em resposta a e-mail que enviei ao Prof. Orlando, da UFSCar, recebi o seguinte:

Caro Paulo, o divisor de águas era muito tênue, foi feito um canal de refluxo com aproximadamente 3 metros de fundura. Como o rio Piumhi foi barrado, o lago formado pelo rio Piumhi ficou com oito metros de altura, essa altura já foi suficiente para mudar o sentido do rio. Esse desnível foi suficiente para mudar o curso d’água por gravidade, não precisando nenhum tipo de bombeamento.

Paulo, me envia seu endereço postal para que eu possa enviar de presente um DVD de um programa da TV Globo (Terra da Gente). Este programa foi feito lá onde estou trabalhando no Piumhi. No programa colocamos os depoimentos das pessoas que trabalharam com as dragas na abertura do canal. Você vai ver o depoimento do Sr. Vilar ele que trabalhou com uma das dragas. Acho que depois que você assistir o vídeo essas dúvidas serão sanadas. Fiquei contente com seu interesse por esse assunto. Mesmo assim, estou a sua disposição para qualquer dúvida. Aguardo seu endereço. Orlando

7 Transposição do Rio Piumhi – http://www.transpiumhi.ufscar.br/historico.htm – consulta feita em 15.4.2010

8 Toda a verdade sobre a transposição do Rio São Francisco – pags. 14 e 252

9 Toda a verdade sobre a transposição do Rio São Francisco – pag. 227

10 Toda a verdade sobre a transposição do Rio São Francisco – pag. 139

11 Toda a verdade sobre a transposição do Rio São Francisco – pag. 133

Fonte – EcoDebate de 24 de abril de 2017

Mudança climática afeta oceanos e pode prejudicar vida marinha

Imagem de satélite mostra fitoplâncton florescendo na superfície do oceano, formando uma faixa de cor leitosa (abaixo, à direita) – Foto: Divulgação / Nasa

Alteração nas águas causada por dióxido de carbono (CO2) pode afetar espécies vegetais marinhas e prejudicar cadeia alimentar

Amostras de espécies vegetais marinhas (fitoplâncton) analisadas em pesquisa do Instituto Oceanográfico (IO) da USP mostram os efeitos futuros das mudanças climáticas nos oceanos. O trabalho do pesquisador Marius Müller revela que o aumento das emissões antropogênicas (feitas pela atividade humana) de dióxido de carbono (CO2), torna as águas menos alcalinas e prejudica a calcificação de fitoplâncton, podendo interferir na cadeia alimentar marinha. Ao mesmo tempo, o estudo traz indícios do aumento da fotossíntese das algas, o que pode ampliar a absorção de CO2 do oceano e reduzir os efeitos do aquecimento global.

Em parceria com pesquisadores da Universidade da Tasmânia (Austrália), Müller coletou amostras de fitoplâncton calcificado na região do Oceano Austral, cujas águas banham a Antártida. “A importância do fitoplâncton é pouco conhecida. Por exemplo, é ele o responsável pela produção da metade do oxigênio que a população da Terra respira”, destaca. “O fitoplâncton também é importante por ser a base da cadeia alimentar no ambiente marinho, assegurando a sobrevivência de diversas espécies de animais.”

Calcificação de fitoplâncton no estágio atual dos oceanos (esq.) e na simulação da redução da alcalinidade das águas (dir.) – Imagem: cedida pelo pesquisador

Depois da coleta das amostras, foram isoladas em laboratório algas da espécie Emiliana huxleyi. “São algas microscópicas, com 5 a 10 micrômetros de diâmetro cada uma, que produzem placas de carbonato de cálcio”, conta o pesquisador. “Quando elas florescem na superfície do oceano em grande quantidade, formam uma grande faixa de cor leitosa, que pode ser vista em imagens de satélite.”

Mudanças climáticas

As algas foram cultivadas e submetidas a experimentos que simulam as condições futuras dos oceanos. “Um dos fenômenos estudados foi a queda do pH das águas, causada pelo aumento das emissões de dióxido de carbono (CO2) devido à atividade humana”, relata Müller. Em contato com a água, o CO2reage e forma o ácido carbônico, que diminui o pH das águas oceânicas, tornando-a menos alcalina. “Também foram verificados os efeitos da diminuição de nutrientes no crescimento e no desenvolvimento do fitoplâncton.”

Amostra de fitoplâncton no banco de microrganismos do Departamento de Oceanografia Biológica do IO – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

Os resultados do estudo apontam que a mudança no pH da água e a limitação de nutrientes afetam a formação das placas de carbonato de cálcio. “Elas se deterioram e, em alguns casos, até não chegam a se formar, ou seja, não há calcificação”, ressalta o pesquisador. “Isso pode afetar a cadeia alimentar marinha, hipótese que precisa ser verificada por novas pesquisas.”

Pesquisador Marius Müller simulou efeitos futuros das mudanças climáticas em espécies vegetais marinhas – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

A pesquisa também mostrou que, quando é simulado o aumento das emissões, o efeito relativo do CO2 no desenvolvimento do fitoplâncton é o mesmo com nutrientes suficientes ou limitados. “Na verdade, é possível supor que com mais CO2 na água, as algas fazem mais fotossíntese, o que auxilia no crescimento do fitoplâncton”, observa Müller. “Isso pode aumentar a capacidade de absorção de CO2 do oceano, incluindo o de origem antropogênica.”

A pesquisa foi orientada pelos professores Frederico Brandini, do IO, e Gustaaf Hallengraeff, da Universidade da Tasmânia. O estudo teve apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), por meio do programa Ciência sem Fronteiras e do Australian Research Council (ARC). Os resultados dos experimentos são descritos em artigo publicado pela revista científica The ISME Journal, editada pela International Society for Microbial Ecology (ISME) e que integra o Nature Publishing Group, sediado no Reino Unido.

Fonte – Julio Bernardes, Jornal da USP de 25 de abril de 2017

Mundo pode bater 1,5ºC em uma década

Seca em Silves (AM) em 2005 (Foto: Ana Cintia Gazzelli/WWF)Seca em Silves (AM) em 2005 (Foto: Ana Cintia Gazzelli/WWF)

Estudo diz que objetivo mais ambicioso do Acordo de Paris de estabilização de temperatura global pode ser perdido em 2026 caso o Pacífico entre na fase quente de seu ciclo natural

O mundo pode ultrapassar a barreira de 1,5oC de aquecimento em relação à era pré-industrial daqui a menos de uma década. Tudo depende de como o Oceano Pacífico vai se comportar nos próximos anos – e as indicações não são nada boas.

O alerta vem de um estudo publicado nesta terça-feira (9) por uma dupla de pesquisadores australianos no periódico Geophysical Research Letters. Segundo Benjamin Hanley e Andrew King, da Universidade de Melbourne, projeções de computacionais de temperatura global indicam que o limite de aquecimento consagrado como ideal no Acordo de Paris será atingido entre 2025 e 2027 caso um ciclo natural conhecido como IPO (Oscilação Interdecadal do Pacífico) entre em sua fase quente.

Se o oposto acontecer e o Pacífico entrar numa fase fria, a Terra ganhará algum tempo de respiro, mas não muito: a ultrapassagem do limite de 1,5oC acontecerá entre 2030 e 2031.

Em ambos os casos, o planeta entrará num estado climático sem precedentes em milhões de anos. Eventos extremos, como ondas de calor, tempestades e secas ficarão ainda mais frequentes. E os grandes mantos de gelo da Groenlândia e do oeste antártico estarão sujeitos ao colapso, o que poderia causar uma elevação do nível do mar superior a 1 metro neste século.

O teto de 1,5oC foi estabelecido como uma espécie de “centro da meta” do Acordo de Paris. No documento, assinado em 2015, o mundo se compromete a estabilizar o aquecimento global num nível “bem abaixo de 2oC” e “envidar esforços para limitar o aumento de temperatura em 1,5oC”.

Esse grau de ambição partiu de pressão política dos países insulares, que veem em 2oC uma ameaça à sua existência – diversos estudos vêm mostrando que 2oC de aquecimento poderiam causar instabilidade catastrófica nos mantos de gelo e acelerar a subida do oceano, condenando essas nações à extinção.

Como não há muita evidência científica de como seria um mundo a 1,5oC, o IPCC, o painel do clima da ONU, recebeu em Paris a encomenda de entregar em 2018 um relatório mostrando os impactos evitados desse limite em relação aos 2oC e das trajetórias de corte de emissões necessárias para a Terra chegar lá.

O relatório do IPCC é considerado fundamental para embasar a revisão das metas nacionais (NDCs) do acordo do clima, um processo que ocorrerá a partir de 2023 para aumentar a ambição do corte de emissões de gases de efeito estufa.

O estudo publicado nesta terça-feira sugere que isso pode ser pouco demais e tarde demais.

Afinal, as NDCs só começam a rodar a partir de 2020. O primeiro ciclo de cumprimento de quase todas as grandes economias do mundo vai até 2030. E os únicos dois países que têm metas antecipadas, para 2025, estão hoje no rumo oposto de seu cumprimento: o Brasil, onde a bancada ruralista no Congresso e o governo federal promovem o aumento do desmatamento, e os EUA de Donald Trump, que deram uma banana para a ação climática e podem até mesmo anunciar a saída do acordo do clima nos próximos dias.

Os dados compilados pela dupla de Melbourne indicam que, quando o mundo entrar no segundo ciclo de NDCs, mais estritas, o planeta já poderá estar 1,5oC mais quente. Torçam pela IPO.

A Oscilação Interdecadal do Pacífico é um ciclo natural e de causas desconhecidas. Ela pode durar de uma a quatro décadas. Em cada fase, as temperaturas do Pacífico tropical ficam anormalmente mais quentes ou mais frias. Isso pode ajudar a acelerar ou a retardar o aquecimento causado pelos gases-estufa.

Ao longo de quase todo este século, a IPO esteve provavelmente em sua fase fria. Vários cientistas acham que essa é a principal causa do fenômeno erroneamente chamado de “pausa” no aquecimento global – o fato de as temperaturas da Terra desde 1998 terem subido muito menos que as concentrações de gás carbônico na atmosfera. “É possível que uma fase negativa da IPO desde a virada do século tenha amortecido os impactos do aquecimento global sobre eventos extremos, como ondas de calor”, escreveram Henley e King.

Eles advertem, porém, que essa maré de sorte pode estar no fim. O El Niño monstro de 2015 e 2016, que causou a quebra de dois recordes seguidos de temperatura global, sugere, segundo os cientistas, que há muito calor acumulado na superfície do Pacífico tropical – um sinal de que a IPO estaria virando para sua fase quente. Isso poderia “iniciar um período de aquecimento acelerado na próxima década ou duas”.

A estabilização do aquecimento em 1,5oC no longo prazo, prosseguem os australianos, envolveria duas coisas: uma ultrapassagem do limite durante algumas décadas e um esforço global de “emissões negativas”, ou seja, de sequestrar mais carbono do que se emite.

Muita gente boa prefere nem ouvir falar nisto, já que “emissões negativas” hoje são sinônimo de esquemas de engenharia planetária, cujos efeitos colaterais são desconhecidos e potencialmente graves.

Fonte – Observatório do Clima de 10 de maio de 2017

Como o derretimento de geleiras está levando ao ressurgimento de doenças ‘adormecidas’

geleirasAs mudanças climáticas podem trazer de volta à vida antigos vírus e bactérias que já não existiam mais. Staffan Widstrand / naturepl.com

Seres humanos, bactérias e vírus têm coexistido ao longo da história. Da peste bubônica à varíola, nós evoluímos para resistir a eles, e em resposta eles desenvolveram novas maneiras de nos infectar.

Já faz mais de um século que temos os antibióticos, desde que Alexander Fleming descobriu a penicilina. Mas as bactérias não deixaram por menos: elas responderam evoluindo sua resistência aos antibióticos. A batalha parece sem fim: nós passamos tanto tempo com patógenos, que às vezes desenvolvemos um tipo de impasse natural.

No entanto, o que aconteceria se nós, de repente, ficássemos expostos a bactérias e vírus mortais que ficaram ausentes por milhares de anos – ou então que nunca vimos antes?

É possível que estejamos perto de descobrir que aconteceria. As mudanças climáticas estão derretendo o solo da região do ártico que existiram ali por milhares de anos e, conforme o solo derrete, ele vai liberando antigos vírus e bactérias que, depois de ficarem tanto tempo “dormentes”, voltam à vida.

Em agosto de 2016, em uma região remota da tundra da Sibéria chamada Península Iamal no Círculo Ártico, um garoto de 12 anos morreu e pelo menos 20 pessoas foram hospitalizadas após terem sido infectadas por antraz.

A teoria é que, há mais de 75 anos, uma rena infectada com antraz morreu e sua carcaça congelada ficou presa sob uma camada de solo também congelado, chamado de permafrost. Lá ela ficou até a onda de calor que invadiu a região no verão de 2016 – e derreteu o permafrost.

Isso expôs a carcaça da rena infectada e liberou o vírus para a água e para o solo do local – e, consequentemente, para os alimentos que as pessoas que viviam lá comiam. Mais de 2 mil renas nasceram infectadas ali, e houve um número menor de casos em humanos.

O medo agora é que esse não tenha sido um caso isolado.

Conforme a Terra vai aquecendo, mais camadas do permafrost vão derretendo. Sob circunstâncias normais, cerca de 50cm das camadas de permafrost mais superficiais derretem no verão. Mas com o aquecimento global, camadas mais profundas e antigas têm derretido também.

O permafrost congelado é o lugar perfeito para as bactérias se manterem vivas por um longo período de tempo, talvez até um milhão de anos. Isso significa que o derretimento das geleiras pode abrir a caixa de pandora das doenças.

renasRenas migrando na região da Sibéria. Eric Baccega / naturepl.com

A temperatura no Círculo Ártico está aumentando rapidamente, cerca de 3 vezes mais rápido do que no resto do mundo. Conforme o permafrost derrete, outros agentes infecciosos podem ser liberados.

“O permafrost é um bom lugar para preservar micróbios e vírus, porque ele é frio, não tem oxigênio e é escuro”, explica o biólogo evolucionista Jean-Michel Claverie da Universidade Aix-Marseille, na França.

“Vírus patogênicos que podem infectar humanos ou animais podem ser preservados em camadas antigas de permafrost, inclusive alguns que podem ter causado epidemias globais no passado.”

Só no início do século 20, mais de um milhão de renas morreram por causa de infecção por antraz. Não é fácil cavar tumbas muito profundas, então a maioria das carcaças dos animais são enterrados perto da superfície, espalhados pelos 7 mil cemitérios no norte da Rússia.

No entanto, o maior medo é o que mais pode estar escondido sob o solo congelado.

Pessoas e animais têm sido enterrados em permafrost por séculos, então é plausível dizer que outros agentes patogênicos e doenças infecciosas podem ser desencadeados se o derretimento do solo continuar. Por exemplo, cientistas descobriram fragmentos de RNA da gripe espanhola de 1918 em corpos enterrados em valas comuns na tundra do Alasca. A varíola e a peste bulbônica também podem estar enterradas na Sibéria.

Em um estudo em 2011, Boris Revich e Marina Podolnaya escreveram: “Como consequência do derretimento do permafrost, vetores de doenças infecciosas mortais dos séculos 18 e 19 podem voltar, especialmente próximo aos cemitérios onde as vítimas dessas infecções foram enterradas.”

Por exemplo, na década de 1890, houve uma epidemia grande de varíola na Sibéria. Uma cidade perdeu praticamente 40% de sua população. Seus corpos foram enterrados sob o permafrost nas margens do rio Kolyma. Cerca de 120 anos depois, a enchente do rio começou a erodir as margens e o derretimento do permafrost acelerou o processo de erosão.

Em um projeto que começou nos anos 1990, cientistas do Centro Estadual de Pesquisa de Virologia e Biotecnologia em Novosibirsk analisaram os restos de pessoas da Idade da Pedra que foram encontrados no sul da Sibéria, na região de Gorny Altai. Eles também testaram amostras de cadáveres de homens que haviam morrido durante epidemias virais no século 19 e foram enterrados no permafrost russo.

permafrost em SvalbardWild Wonders of EU / naturepl.com

Os pesquisadores dizem que eles encontraram corpos com feridas características das marcas deixadas pela varíola. Eles não chegaram a encontrar o vírus da varíola em si, mas detectaram fragmentos de seu DNA.

Certamente não é a primeira vez que uma bactéria congelada voltou à vida.

Em um estudo de 2005, cientistas da Nasa ressuscitaram com sucesso bactérias que haviam ficado “guardadas” em um lago congelado no Alasca por 32 mil anos. Os micróbios, chamados Carnobacterium pleistocenium, estavam congelados desde o período Pleistoceno, quando mamutes lanosos ainda vagavam pela Terra. Quando o gelo derretia, eles começavam a nadar ao redor, sem parecer afetados.

Dois anos depois, cientistas conseguiram ressuscitar bactérias de 8 milhões de anos que havia ficado adormecidas no gelo, sob a superfície glacial nos vales Beacon e Mullins na Antártica. No mesmo estudo, bactérias de 100 mil anos foram ressuscitadas.

No entanto, nem todas as bactérias podem voltar à vida depois de terem sido congeladas em permafrost. A bactéria do antraz consegue porque ela têm esporos, que são muito resistentes e podem sobreviver por mais de um século.

Outra bactéria que pode formar esporos e, consequentemente, sobreviver no permafrost, é a do tétano e a Clostridium botulinum, responsável pelo botulismo – uma doença rara que pode causar paralisia e até mesmo se tornar fatal. Alguns fungos e vírus também podem sobreviver nesse time de ambiente por mais tempo.

Em um estudo de 2014, uma equipe conseguiu ressuscitar dois vírus que estavam no permafrost da Sibéria por 30 mil anos. Conhecidos como Pithovirus sibericum and Mollivirus sibericum, eles são dois vírus gigantes, porque ao contrário da maioria dos outros, eles conseguem ser vistos sem microscópios. Eles foram encontrados a 30 metros de profundidade na tundra costal.

Uma vez “vivos” de novo, esses vírus se tornaram rapidamente infecciosos. Para a nossa sorte, esses vírus em particular somente infectam seres monocelulares, como amebas. No entanto, o mesmo estudo sugere que outros vírus – que podem infectar humanos – podem ser ressuscitados da mesma forma.

E não é só o aquecimento global que pode derreter diretamente o permafrost para termos uma ameaça. Isso porque o gelo do Mar Ártico está derretendo, então a costa norte da Sibéria se tornou mais acessível pelo oceano. Como resultado disso, a exploração industrial, incluindo a exploração de minas por ouro e minerais, e a própria exploração de petróleo e gás natural estão se tornando agora mais lucrativas.

AntrazOs esporos do antraz podem sobreviver por muito tempo. Cultura RM ; Alamy

“Neste momento, essas regiões estão desertas e as camadas mais profundas de permafrost são deixadas em paz”, explicou Claverie. “No entanto, essas camadas mais antigas podem ser expostas por escavações de minas ou por perfurações de petróleo. Se vírus ou bactérias ainda estiverem lá, isso poderia abrir as portas para um desastre.”

Vírus gigantes podem ser os principais culpados por uma grande epidemia.

“A maioria dos vírus são rapidamente desativados fora de células hospedeiras por conta da luz, dessecação ou degradação bioquímica espontânea”, diz Claverie. “Por exemplo: se o DNA dele sofre danos impossíveis de serem reparados, o vírus não será mais infeccioso. No entanto, entre os vírus conhecidos, o vírus gigante tende a ser mais resistente e quase impossível de quebrar.”

Claverie afirma que vírus dos primeiros humanos a habitarem o Ártico podem ressurgir. Poderíamos até mesmo ver vírus de espécies humanas há muito tempo extintas, como o Neanderthal e Denisovan, que se estabeleceram na Sibéria e foram infectados com várias doenças virais. Restos do homem de Neanderthal de 30-40 mil anos atrás foram encontrados na Rússia. Populações humanas viveram ali por milhares de anos – adoeceram ali e morreram ali.

“A possibilidade de nós pegarmos um vírus de um Neanderthal há muito tempo extinto sugere que a ideia de que um vírus pode ser erradicado do planeta é errada, e nos dá um falso senso de segurança”, pontua Claverie. “E é por isso que deveríamos manter estoques de vacina, para caso voltemos a precisar delas um dia.”

Desde 2014, Claverie analisa os DNAs de camadas de permafrost, buscando características genéticas de vírus e bactérias que poderiam infectar humanos. Ele encontrou evidências de muitas bactérias que provavelmente são perigosas para humanos. As bactérias têm um DNA que codifica fatores de virulência: moléculas que produzem bactérias e vírus patogênicos, o que aumenta sua capacidade de infectar um hospedeiro.

A equipe de Claverie também encontrou algumas sequências de DNA que pareciam vir de vírus, inclusive da herpes. No entanto, eles ainda não encontraram nenhum traço de varíola. Por razões óbvias, eles não tentaram reavivar nenhum dos patógenos.

Além do solo do Ártico

Os patógenos que foram isolados dos humanos por muito tempo podem voltar não apenas pelo gelo ou pelo permafrost – cientistas da Nasa descobriram em fevereiro deste ano micróbios de 10-50 mil anos atrás dentro de cristais em uma mina do México.

A bactéria foi encontrada na Caverna dos Cristais, parte de uma mina em Naica, no norte do México. Lá, há vários cristais brancos do mineral selenito, que foram formados ao longo de centenas e milhares de anos.

GeleirasBactérias dormentes foram encontradas em geleiras antárticas. Colin Harris / Era Images / Alamy

A bactéria ficou presa dentro de pequenos bolsos de fluidos dentro dos cristais, mas uma vez que eles foram removidos, ela reviveu e começou a se multiplicar. Os micróbios são geneticamente únicos e podem ser novas espécies, mas os pesquisadores ainda vão divulgar um estudo completo sobre eles.

Até mesmo bactérias mais velhas foram encontradas na Caverna Lechuguilla, no Novo México, a 300 metros sob o solo. Esses micróbios não tinham visto a superfície nos últimos 4 milhões de anos.

A caverna nunca vê a luz do dia, e é tão isolada que leva cerca de 10 mil anos para a água da superfície entrar na caverna.

Apesar disso, a bactéria de alguma forma se tornou resistente aos 18 tipos de antibióticos, incluindo remédios considerados o “último recurso” para combater infecções . Em um estudo publicado em dezembro do ano passado, pesquisadores descobriram que a bactéria, conhecida como Paenibacillus sp. LC231, era resistente a 70% dos antibióticos e conseguia desativar boa parte deles.

Conforme as bactérias ficaram completamente isoladas na caverna por quatro milhões de anos, elas não tiveram contato com as pessoas ou com antibióticos usados para tratar as infecções humanas. O que significa que sua resistência aos antibióticos deve ter surgido de outra forma.

Os cientistas envolvidos acreditam que a bactéria, que não prejudica os seres humanos, é um dos muitos que naturalmente evoluíram e criaram a resistência aos antibióticos. Isso sugere que a resistência aos antibióticos tem existido há milhões e até bilhões de anos.

Obviamente, uma resistência a antibiótico tão antiga não pode ter se desenvolvido como resultado do uso de um antibiótico.

O motivo para isso é que muitos tipos de fungos, ou até de outras bactérias, produzem naturalmente antibióticos para ganhar vantagem competitiva com outros micróbios. Foi assim que Fleming descobriu a penicilina: bactérias em uma placa de Petri morreram depois de uma terem sido contaminadas com uma excreção de mofo.

Em cavernas, onde há pouca comida, organismos precisam ser implacáveis para sobreviver. Bactérias como a Paenibacillus podem ter precisado desenvolver resistência a antibióticos para evitarem ser mortas por organismos rivais.

Isso explicaria por que essas bactérias são resistentes apenas a antibióticos naturais, que vêm de outras bactérias ou fungos, e compõem cerca de 99,9% de todos os antibióticos que usamos. Essas bactérias nunca encontraram antibióticos criados pelo homem, então não têm resistência a eles.

“Nosso trabalho, e o trabalho de outros, sugere que a resistência a antibióticos não é um conceito novo”, disse o microbiólogo Hazel Barton, da Universidade de Akron, Ohio, que liderou o estudo. “Nossos organismos foram isolados de espécies da superfície por 4 a 7 milhões de anos, mas a resistência que eles têm é geneticamente idêntica à de espécies encontradas na superfície. Isso significa que esses genes são pelo menos antigos, e não foram originados pelo uso humano dos antibióticos para tratamento”.

Vírus giganteVírus gigantes podem ser os principais culpados por uma grande epidemia. Science Photo Library / Alamy

Apesar de a Paenibacillus não infectar humanos, ela poderia, em teoria, passar sua resistência a antibióticos para outros patógenos. No entanto, por ela estar isolada abaixo de 400 metros de rocha, isso parece improvável de acontecer.

No entanto, a resistência a antibióticos naturais é provavelmente tão predominante, que muitas bactérias que emergem de permafrost devem já tê-la desenvolvido. Em um estudo de 2011 os cientistas extraíram DNA de bactérias de 30.000 anos de idade encontradas em permafrost na região de Beringian entre a Rússia e o Canadá. Eles encontraram genes que codificam a resistência a antibióticos beta-lactâmicos, tetraciclina e antibióticos glicopeptídicos.

Quanto nós deveríamos nos preocupar com isso?

Uma questão a ser levada em consideração é que o risco dos patógenos de permafrost ainda é desconhecido, então isso não pode nos preocupar demais. Em vez disso, nós deveríamos focar em ameaças mais concretas, como o aquecimento global e as mudanças climáticas.

Por exemplo, conforme a Terra vai aquecendo, os países do Norte vão se tornando mais suscetíveis a epidemias de doenças “do Sul”, como malária, cólera, dengue, já que esses patógenos sobrevivem em temperaturas mais quentes.

Mas há outra perspectiva também, que seria a de nós não ignorarmos os riscos apenas porque nós não podemos estimá-los.

“Seguindo nosso trabalho e o de outros, existe agora uma possibilidade que não é zero de micróbios patogênicos reviverem e nos infectarem”, afirmou Claverie. “Quão provável isso é, ainda não sabemos, mas é uma possibilidade. Poderiam ser bactérias que são curáveis com antibióticos, ou bactérias resistentes, ou um vírus. Se o patógeno não ficou em contato com humanos por muito tempo, então o nosso sistema imunológico não está preparado para ele. Sendo assim, pode ser perigoso.”

Fonte – BBC Brasil de 15 de maio de 2017

Rápida mudança climática nas regiões polares exige resposta global, alerta a ONU

O derretimento de geleiras e a redução das áreas congeladas do mar e as regiões cobertas de neve nos polos provocam alterações climáticas em todo o planetaO derretimento de geleiras e a redução das áreas congeladas do mar e as regiões cobertas de neve nos polos provocam alterações climáticas em todo o planeta. Foto: ONU/Mark Garten

A Organização Mundial de Meteorologia (OMM) das Nações Unidas (ONU), lançou nesta segunda-feira (15) uma campanha para melhorar as previsões das condições do tempo, clima e gelo no Ártico e na Antártica. A iniciativa, que vai durar dois anos (de meados de 2017 a meados de 2019), envolve também o instituto alemão Alfred Wegener e outros parceiros mundiais. As informações são da ONU News.

A iniciativa objetiva minimizar os riscos ambientais e aumentar as oportunidades associadas à rápida mudança do clima nas regiões polares. Além disso, a OMM quer minimizar as lacunas nas capacidades de previsões nos polos.

Para a ONU, a mudança climática nos polos exige uma resposta global. Durante os próximos dois anos, uma grande rede de cientistas e centros de previsões vai realizar uma ação de observação intensiva e catalogar atividades no Ártico e na Antártica. A iniciativa espera obter melhores previsões do tempo e das condições das geleiras, de modo a reduzir riscos futuros e garantir a gestão segura das regiões polares.

Derretimento

O representante do Instituto Alfred Wegener, Thomas Jung, disse que “os efeitos do aquecimento global devido às emissões de gases do efeito estufa são sentidos com mais intensidade nas áreas polares do que em qualquer outro lugar”. Ele explicou que os polos estão aquecendo duas vezes mais rápido do que o resto do mundo, causando o derretimento de geleiras e reduzindo as áreas congeladas do mar e as regiões cobertas de neve.

O chefe da OMM, Petteri Taalas, afirmou que as massas de ar quente do Ártico e a redução das áreas de mar congeladas afetam a circulação nos oceanos e as correntes de ar. Ele disse ainda que as alterações nos polos estão provavelmente ligadas a fenômenos climáticos extremos como intensas frentes frias, ondas de calor e secas no Hemisfério Norte.

Fonte – EcoDebate de 16 de maio de 2017

Com seca, capitais do Nordeste têm ameaça de racionamento de água

A barragem de Joanes 2, em Camaçari, na região metropolitana de Salvador, apresenta nível crítico e dificulta o abastecimento de água na capital baiana. Raul Spinassé/Folhapress

Jeferson de Jesus, 28, mergulha para tentar pescar tilápias e tucunarés nas águas calmas da represa. Raul Spinassé/Folhapress

O mergulhador Jeferson de Jesus, 28, nas margens da barragem Joanes 2. Raul Spinassé/Folhapress

O segundo maior reservatório que abastece Salvador está com apenas 8% de seu volume útil, o mais baixo nas últimas duas décadas. Raul Spinassé/Folhapress

A barragem Joanes 2 fica incrustada entre as cidades de Simões Filho e Camaçari. Raul Spinassé/Folhapress

A represa passará a receber água transposta da barragem de Pedra do Cavalo, que fica a 120 km da capital e é responsável por 60% do abastecimento da Grande Salvador. Raul Spinassé/Folhapress

Juscelino Silva dos Santos, administrador de uma fazenda nas margens da represa, diz que, em 18 anos, nunca tinha visto a barragem tão seca. Raul Spinassé/Folhapress

Margem do local mudou por causa do baixo volume. Raul Spinassé/Folhapress

José Fernando Pereira, 49, tenta fisgar algum peixe próximo da barragem Joanes 2, na Grande Salvador. Raul Spinassé/Folhapress

Perfuração de poços próximo às margens da barragem de Joanes 2 tenta amenizar o problema de baixo volume. Raul Spinassé/Folhapress

Com linha amarrada ao punho, José Fernando Pereira, 49, tenta fisgar algum peixe próximo da barragem Joanes 2, na Grande Salvador. As quatro comportas estão fechadas e apenas um fio d’água atravessa para o outro lado por meio de um cano.

Próximo dali, Jeferson de Jesus, 28, mergulha com um arpão engatilhado. Não tem sido fácil, porém, pescar tilápias e tucunarés nas águas calmas da represa. O segundo maior reservatório que abastece Salvador está com apenas 8% de seu volume útil, o mais baixo nas últimas duas décadas.

O cenário não é diferente nas outras barragens que abastecem as maiores capitais nordestinas. Entrando no sexto ano seguido de seca, a região tem grandes reservatórios em estado crítico –como Castanhão (CE), Pedra do Cavalo (BA) e Botafogo (PE).

Diante desse panorama, medidas como a adoção de racionamento e rodízio no abastecimento de água entraram no radar de capitais como Salvador, Recife e Fortaleza.

No Grande Recife, já há rodízio nos municípios de Olinda, Abreu e Lima, Igarassu e Paulista –todos abastecidos pela Barragem de Botafogo, que tem atualmente apenas 12% de volume de água.

No mês passado, os cerca de 800 mil moradores dessas cidades passaram a ter um dia de abastecimento para cinco dias sem água.

DESABASTECIMENTO NO NORDESTEGrandes reservatórios como Pedra do Cavalo (BA), Castanhão (CE) e Duas Unas (PE) têm nível baixo de água

Na capital, o fornecimento é normal, mas o racionamento não é descartado caso não chova o suficiente para manter o nível dos reservatórios até o final de julho, quando se encerra o período de chuvas no litoral nordestino.

Recife
Volume útil em cada barragem, em %*

Botafogo – 12,15
Goitá – 14,27
Duas Unas – 28,51
Tapacurá – 32,7
Pirapama – 35,57

*No dia 20 de abril

Fonte: empresas estaduais de água e saneamento

Em Salvador, onde o último racionamento de água ocorreu há 45 anos, medidas emergenciais estão sendo adotadas para evitar um colapso do sistema.

Incrustada entre as cidades de Simões Filho e Camaçari, a represa Joanes 2 passará a receber água transposta da barragem de Pedra do Cavalo, que fica a 120 km da capital e é responsável por 60% do abastecimento da Grande Salvador.

A medida, porém, é tratada como um paliativo para equilibrar o sistema, já que a própria barragem de Pedra do Cavalo está em seu nível mais baixo das últimas décadas, com 22% de volume útil.

Caso o nível continue baixando, será necessária a instalação de bombas e equipamentos para captar água num nível mais baixo –medida adotada no sistema Cantareira durante os dois anos da grave crise hídrica em São Paulo, iniciada em 2014.

“Estamos avaliando todas as possibilidades, inclusive racionamento”, afirma Rogério Cedraz, presidente da Embasa, companhia estadual de água e saneamento.

Salvador

Volume útil em cada barragem, em %*

Joanes 2 – 8,92
Santa Helena – 10,65
Ipitanga 1 – 22,05
Pedra do Cavalo – 23,97
Joanes 1 – 70,18

*No dia 20 de abril

Fonte: empresas estaduais de água e saneamento

Medidas semelhantes estão sendo adotadas em Fortaleza, onde o principal reservatório, o açude Castanhão, tem atualmente apenas 6% de seu volume de água.

Ações emergenciais como a perfuração de poços, o aproveitamento da água do sistema hídrico do Cauípe e do açude Maranguapinho garantem o abastecimento da capital cearense.

O governo do Estado ainda não fala em adoção de rodízio no abastecimento de água das casas e diz realizar um “constante monitoramento” da situação dos mananciais.

Na prática, contudo, já há medidas de racionamento em curso: as indústrias da região metropolitana de Fortaleza, por exemplo, tiveram uma redução de 20% no fornecimento de água.

Também foi adotada uma tarifa de contingência para a capital e outros 17 municípios: o consumidor que não economizar até 20% em relação ao consumo médio pagará mais pela água.

Fortaleza

Volume útil em cada barragem, em %*

Castanhão – 6,10
Pacajus – 42,88
Pacoti – 46,73
Riachão – 51,63
Gavião – 88,43

*No dia 20 de abril

Fonte: empresas estaduais de água e saneamento

Os próximos três meses serão cruciais para determinar a situação dos reservatórios nordestinos ao longo de 2017.

Em março, auge das chuvas no trecho do litoral entre o Maranhão e o Ceará, as chuvas reduziram o nível de severidade da seca. Mas não houve mudanças significativas no açude do Castanhão, o maior do Ceará.

Já na faixa costeira entre o Rio Grande do Norte e o sul da Bahia, onde a maior parte das chuvas vai de abril a junho, há esperança de melhora no nível de água das barragens.

Na últimas semanas, a chuva que causou transtornos no Recife ajudou a melhorar o nível dos reservatórios próximos. A barragem de Pirapama, em Cabo de Santo Agostinho, teve ganho de quatro pontos percentuais, saltando de 25% para 29%.

Nos cinco reservatórios próximos a Salvador, contudo, as últimas chuvas não foram suficiente para alterar o cenário crítico.

No Joanes 2, em áreas próximas ao povoado de Pitanga dos Palmares, chega a cem metros a distância entre o nível da água e a área onde os pescadores costumavam amarrar as suas canoas.

Sob céu nublado, depois de uma forte e rápida chuva que na capital baiana, Juscelino Silva dos Santos, 54, olha o horizonte e lamenta.

“Em 18 anos que moro aqui, nunca vi essa barragem seca desse jeito. Cheia, ela é linda, um mundão de água. Assim, é uma tristeza só”, diz Santos, administrador de uma fazenda nas margens da represa.

Ele sobe na carroça e segue para mais um dia de trabalho entre bois e cavalos. Mais um dia de orações para ter chuvas. “Agora, o trabalho é com aquele lá de cima”, afirma o administrador.

Fonte – João Pedro Pitombo, Folha de S. Paulo de 02 de maio de 2017

Seca e Resiliência na África Oriental – Como os camponeses e pastores enfrentam a fome

Purple Onion Cuisine

Já não se trata de medidas preventivas a serem adotadas para evitar problemas futuros: a mudança climática já está em marcha e seus efeitos são devastadores principalmente nas regiões suscetíveis à seca. Ironicamente, são os países mais pobres os que menos poluem e os que sofrem o impacto maior. As esperanças contudo, resistem. Os agricultores da África contra-atacam e sua resiliência é crítica para a segurança de nossos alimentos.

Sem o respaldo de subsídios governamentais e de leis que protejam os direitos dos camponeses como ocorre em outros países desenvolvidos, os homens do campo na África ganham as próprias vidas resistindo às mais rígidas das condições econômicas e ambientais. Secas e carestias severas têm sido um problema contínuo que nas últimas décadas veio agravando-se na África Oriental afetando a dezenas de milhões de pessoas e seus rebanhos. Adiante fornecemos exemplos de uma crise em ato em Quênia, Tanzânia e Uganda em 2017, que pode ser a pior dos últimos 70 anos.

No Quênia, o Governador do distrito de Marsabit, Ukur Yatani, conta-nos que “a situação da seca torna-se pior e pode levar à perda de vidas se o governo protelar medidas de intervenção urgentes.” Os pastores nômades cujo sustento depende dos rebanhos foram os que mais sofreram o impacto da seca. Tumal Orto oriundo de North Horr, um sub município de Marsabit e membro da rede Indígena de Terra Madre declarou, “deparamo-nos com um desafio enorme quando vemos secar todos os poços (o mais próximo situa-se a 80 km de nossa aldeia), não há pastos para os animais, não há alimento para as pessoas e a situação piora.” No Município de Baringo, houve uma redução drástica na produção leiteira. Isaac, um pastor, disse-nos “as distâncias até os poços de água potável estão aumentando e coloca as vidas das pessoas e dos animais em perigo. O governo lançou uma iniciativa para comprar cerca de 100.000 animais procedentes das áreas mais afetadas pela seca tentando assim amparar os agricultores face aos possíveis prejuízos causados pela seca e perda de pastos.”

Nos pomares Kiti family community garden (Pomar familiar comunitário de Kiti) e Michinda school garden (Pomar escolar de Michinda) do Slow Food, a falta de chuva fez com que os pássaros destruíssem as sementes de sassafrás, bredo-branco, sorgo e painço. “Antes que o sorgo e o painço estivessem prontos para a colheita, os pássaros os comeram, deixando-nos sem as sementes para a safra do próximo ano” disse Jackson, patrocinador da horta escolar de Michinda.

Na região Oeste de Uganda, uma das Fortalezas de Slow Food a Teso Kyere finger millet varieties (Variedades de milho miúdo Teso Kyere) sofreu uma consistente perda de sementes além da destruição da colheita de bananas entre outras plantações. Além disso, as variedades híbridas comercializadas como sendo resistentes à seca não saíram-se nada bem. De fato, os cultivadores de painço da região Teso mostram que as variedades locais tiveram um rendimento melhor com relação às híbridas. Em outra região, no denominado ‘Corredor Pecuário’ do país, 5 meses sem chuvas significaram para as famílias não apenas a perda de algumas reses e sim a perda de rebanhos, obrigando os criadores a percorrerem longas distâncias em busca de pastos para os animais sobreviventes. Os integrantes da Fortaleza Slow Food Ankole Long–Horned Cattle (Bovinos da raça Ankole Long-horned) tiveram que percorrer à pé mais de 40 km para encontrar pastos aceitáveis. A situação é agravada pela queda do preço do mercado de bovinos que foi severa nessas áreas. Em Nakasongola, o preço médio por uma rês caiu de 500.000 Shilings Ugandenses para menos de 50.000.

O Centro e Norte da Tanzânia tiveram escassíssimas chuvas este ano e muitas das lavouras dessas regiões não cresceram. Mnayah Mwambapa, membro da rede de Slow Food na Tanzânia, contou-nos como os conflitos entre camponeses e pastores têm aumentado: “Devido à falta de pastos para seus rebanhos, os pastores têm invadido os campos vizinhos para alimentar seus animais.” A região do Kilimanjaro sofreu escassez de água e secas prolongadas. Em Kigoma, a escassez de chuvas e o declínio do rendimento das lavouras são evidentes.

Não obstante os longos períodos de escassez de chuvas na África Oriental, os camponeses e pastores de Quênia, Tanzânia e Uganda, têm tido sucesso no uso dos conhecimentos tradicionais para sobreviverem à seca atual. Como conseguem produzir suas safras e conservar seus rebanhos?

Adrofina Gunga, membro da rede de Slow Food em Dar es Salaam explica como ela e seu filho obtiveram colheitas de sua plantação de girassóis. “Depois de termos visto a perda da safra de milho em Kigoma, meu filho resolveu cultivar girassóis, e deu certo.”

No Quênia, a estiagem foi severa e teve início em 2016 e os agricultores passaram mais de 5 meses sem chuvas. Assim mesmo, Salome Njeri Mwangi, coordenadora do pomar familiar Karirikania Family Garden (Pomar Familiar de Karirikania) de Slow Food no Quênia e representante da Fortaleza Mau Forest Dried Nettles (Urtigas secas da Floresta Mau) nos contou que seu pomar ainda estava verde. “Mesmo que estejamos já ha alguns meses sem chuva e que meu pomar não tenha um bom aspecto, ele ainda está verde e possui algumas verduras (como uma variedade local de couve, amaranto, urtiga, cebolinhas, erva-moura, etc.) e frutas (como tomate-de-árvore, melão-pepino, morangos, etc.), tubérculos (como mandioca, batata-doce e batata) e leguminosas (como favas e feijão-frade) dos quais ainda nos nutrimos visto que os preços dispararam em decorrência do aumento da demanda e da escassez de abastecimento.” Ela conta que o segredo para derrotar a seca está em garantir a fertilidade do solo. Disse-nos que conseguiu obter uma melhor capacidade de retenção de água dos solos aplicando a cobertura de palhagem às plantas obtendo assim que a demanda de irrigação fosse menor. Ela também explicou a importância de cultivar variedades resistentes à seca que requerem menor quantidade de água. “Temos que cultivar mandioca, urtiga, inhame, feijão comum, grão-de-bico, ervilha-de-angola, sorgo, painço e verduras nativas como amaranto ou erva-moura.”

Tumal Orto do Município de Marsabit contou-nos: “Meus antepassados criaram camelos e cabras por gerações ao longo de 235. Eu ainda os crio e não importa em que situação me encontre, eu sobrevivo à seca. Durante os períodos de abundância, sempre consumo pensando no futuro. É assim que nos preparamos. O segredo da resiliência é adotar uma “capacidade de adaptação” para garantir que se terá o suficiente tanto nos períodos de abundância como nos de carestia, conseguindo evitar mortes. Antes da seca, todos os meus animais estavam em boas condições e agora ainda tenho 90% das reses que tinha. Nenhuma das reses morreu por falta de água ou de alimento e estão saudáveis por causa da capacidade de adaptação. Creio que se todos obedecêssemos mais a esse princípio os pastores estariam numa situação melhor.”

O problema, é claro, não fica limitado a esses países. Na Somália, a população enfrenta uma das piores secas de que se tem memória e com menos ajudas vindas do perenemente fraco governo. Na Somália, assim como ocorre em outros países, são os próprios agricultores que tentam encontrar as soluções para produzirem a quantidade de alimentos que a população necessita.

Citando as palavras de Carlo Petrini durante a conferência COP22 que levou ao Acordo de Paris, “Para abordar o problema do aquecimento global, é imprescindível que os governos renovem e incrementem o compromisso de limitar as emissões. Mas isto, por si só, não é suficiente. É preciso também uma mudança dos paradigmas econômicos, sociais e culturais que possam transformar radicalmente o atual sistema de produção de alimentos.” Os governos dos países mais ricos e poluidores, movem-se lentamente na implementação de leis decisivas e concretas que combatam, a partir do topo, esse problema mundial. Entretanto, a verdadeira crise e as soluções a ela devem ser enfrentadas pelas pessoas do campo que estão na linha de frente, num trabalho que parte das bases comunitárias para chegar ao topo, no sentido de organizarem a resistência a um problema do qual não foram as causas.

Referências

Estudo da FAO sobre Mudanças Climáticas (2017)

Thompson, William. (15 de julho de 2017). Visiting drought prone regions in Tanzania. (Visita às regiões sujeitas a secas na Tanzânia).

Significant Vuli crop losses to heighten food insecurity. (Perdas significativas da safra da estação Vuli aumentam a incerteza quanto aos alimentos). (janeiro de 2017)

Sage, Collin. Environment and Food (Meio ambiente e alimentos). (226) Routledge, 2012.

Ibrahim, Thoriq. Sustainable development won’t happen without climate change action (Não haverá desenvolvimento sustentável sem ação contra as mudanças climáticas). 22 de março de 2017

Fontes – Slow Food / IHU de 04 de maio de 2017

A liberação do metano ártico pode criar um cenário apocalíptico

bolha de metano

Existem bombas relógios climáticas explodindo ao redor do mundo. O artigo “Methane Hydrate: Killer cause of Earth’s greatest mass extinction” (Uwe Branda et. al., 2016) publicado na prestigiosa revista Palaeoworld, em dezembro de 2016 faz um alerta preocupante: “O aquecimento global provocado pela liberação maciça de dióxido de carbono pode ser catastrófico. Mas a liberação do hidrato de metano pode ser apocalíptica”.

A pior extinção em massa da Terra foi causada por mudanças climáticas descontroladas. O evento de extinção em massa do Permiano-Triássico (também conhecida como a Grande Agonia) ocorreu há aproximadamente 250 milhões de anos e eliminou 96% da vida marinha e 70 por cento da vida em terra. O artigo confirma que a causa deste evento foi o crescente nível de dióxido de carbono e metano que desencadeou o aquecimento global.

concentração de CO2 na atmosfera nos últimod 500 milhões de anos

Diversos pesquisadores têm discutido, há tempos, o que desencadeou o evento de extinção em massa, se as chuvas de meteoros ou as erupções vulcânicas em larga extensão. Agora os pesquisadores têm reexaminado os gases presos em rochas antigas e descobriram que o evento de extinção foi em grande parte impulsionado pela mudança climática. Eles descobriram que as erupções vulcânicas liberaram grandes quantidades de dióxido de carbono no ar, o que teria elevado em até 11º C as temperaturas globais.

Essa subida da temperatura levou ao derretimento do permafrost que tinha armazenado grandes quantidades de metano. O derretimento do permafrost levou à libertação deste metano que provocou um rápido aquecimento global. Ou seja, a emissão de dióxido de carbono de depósitos vulcânicos pode ter iniciado o aumento de temperatura, mas foi a liberação de metano de sedimentos do permafrost da região do ártico que levou a temperatura média do Planeta a 29º C e é considerado a causa final do evento biótico apocalíptico.

temperatura do planeta

Algo semelhante acontece atualmente. A humanidade já liberou aproximadamente 1.500 gigatons de dióxido de carbono, desde o ano 1850. Isto já elevou a temperatura global a mais de 1º C em relação ao período pré-industrial, segundo a WMO. E este aquecimento está provocando o degelo do Ártico, do Alasca e da Sibéria. A exposição do permafrost pode liberar 50 gigatons (50 bilhões de toneladas) do metano ártico, o que é equivalente a pelo menos 1.000 gigatons de dióxido de carbono.

O jornal “The Siberian Times” revelou ano passado que a temperatura quente do verão derreteu o permafrost causando a liberação de gases congelados no solo. Imagens impressionantes de vídeo do fenômeno (ver no link abaixo) mostram como o chão tremeu como gelatina sob os pés dos cientistas. Outras descrições dizem que a superfície da tundra – em uma região de permafrost a cerca de 765 quilômetros ao norte do Círculo Ártico – borbulhou ou tremeu.

Medições feitas por pesquisadores em expedições para a ilha Belyy descobriram que após a remoção de grama, o solo “borbulhante” liberou a concentração de dióxido de carbono (CO2) 20 vezes acima do normal, enquanto a liberação do metano (CH4) foi 200 vezes maior. Os cientistas alertam que esse fenômeno pode ter consequências imprevisíveis sobre o aquecimento global.

bolhas de metano

Mais ao sul, nas penínsulas de Yamal e Taimyr, os cientistas observaram uma série de crateras que de repente se formaram no permafrost. O jornal informa que quando as crateras apareceram pela primeira vez na Península de Yamal – conhecida pelos habitantes locais como “o fim do mundo”, eles provocaram teorias bizarras quanto à sua formação. A maioria dos especialistas agora acredita que eles foram criados por explosões de gás metano desbloqueado pelo aquecimento das temperaturas no extremo norte da Rússia.

cratera

Relatório da Organização Meteorológica Mundial (WMO), publicado dia 21 de março, mostra que o ano de 2017 mantém a mesma tendência de alta do aquecimento global de 2016 e, segundo os cientistas da instituição o mundo está entrando em um “Território Inexplorado”. Pela primeira vez no Holoceno os dois polos (Ártico e Antártica) batem recordes de degelo ao mesmo tempo. Quanto menos gelo no mar, mais o oceano absorve a luz solar e aumenta a temperatura e, consequentemente, menos gelo se forma. Por exemplo, os cientistas russos descobriram prados verdes nas ilhas do Ártico. A vegetação brotou de sementes antigas que dormiam no permafrost durante 10.000 anos. Desta forma, aquecimento global se retroalimenta e coloca todo o Planeta em perigo. Isto significa aceleração da subida do nível dos oceanos e uma grande ameaça para as áreas litorâneas do Globo habitado.

recorde de degelo nos dois hemisférios

Os cientistas alertaram sobre o potencial impacto catastrófico do aquecimento global e da liberação de gases de efeito estufa (GEE) congelados no solo ou sob o mar. Ou seja, mesmo que a humanidade consiga reduzir ou até mesmo eliminar as emissões de GEE nas próximas décadas, esta ação já pode vir tarde, pois o efeito feedback pode liberar o dióxido de carbono e o metano do permafrost desencadeando um aumento da temperatura que pode repetir uma nova era de extinção em massa da vida da Terra, num cenário realmente apocalíptico.

Referências

Uwe Branda et. al. Methane Hydrate: Killer cause of Earth’s greatest mass extinction, Palaeoworld, Volume 25, Issue 4, Pages 496–507, December 2016

Dahr Jamail. Release of Arctic Methane “May Be Apocalyptic,” Study Warns, Truthout, 23/03/2017

Now the proof: permafrost ‘bubbles’ are leaking methane 200 times above the norm, The Siberian Times reporter, 22 July 2016

José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal.

Fonte – EcoDebate de 03 de abril de 2017

Estudo revela que CO2 é o maior em quase 500 milhões de anos

Sem medidas emergenciais, em 200 anos a quantidade de co2 poderá chegar a 5000 ppm.

Cientistas apontam que níveis de concentração do gás na atmosfera podem dobrar até o meio do século

De acordo com um estudo publicado no começo deste mês, dia 4, a queima de todas as reservas de combustíveis fósseis remanescentes do planeta pode resultar na elevação da quantidade de dióxido de carbono (CO²) nos próximos dois séculos a níveis jamais vistos ou registrados desde a formação das primeiras florestas, quase meio bilhão de anos atrás.

Segundo o trio de cientistas responsáveis pela pesquisa, a concentração de CO² na atmosfera hoje é de 403 ppm (partes do gás por milhão de moléculas de ar), e que no pior das hipóteses de emissão de gases poluentes, essa concentração pode superar a assustadora marca de 1000 ppm ainda no meio deste século. Seguindo a lógica, em 200 anos esse número pode chegar a 5000 ppm, superando o recorde de 3000 ppm, registrado ainda na era dos dinossauros.

“Estados prolongados de aquecimento da Terra pelo efeito estufa ocorreram no passado, mas as taxas de mudança climática no registro geológico como um todo são muito provavelmente mais lentas do que as que estamos vivendo hoje”, destacam Gavin Foster, da Universidade de Southampton, e seus colegas Dana Royer (Wesleyan University, nos EUA) e Daniel Lund (Universidade de Bristol), autores do estudo, em artigo publicado no periódico Nature Communications.

Para introduzir os dados e estatísticas levantados no documento, os especialistas usaram como base a busca por uma resposta para a pergunta: por que as temperaturas da Terra têm se mantido mais ou menos estáveis nos últimos 420 milhões de anos, apesar de o planeta receber cada vez mais radiação solar?

Dentre os principais pontos levantados ao longo da pesquisa, o trio pode concluir que a biosfera é uma das respostas para a estabilidade de temperatura do planeta, justificada pela expansão das florestas, com a ajuda do processo natural de dissolução de rochas vulcânicas, responsável por retirar o CO² da atmosfera e controlar os avanços dos gases de efeito estufa.

Ainda que em nenhum momento os cientistas deixem claro no estudo, o efeito estufa cada vez mais potencializado pelas pessoas pode provocar a maior onda de extinções da história do planeta Terra, incluindo a raça humana.

Fonte – Pensamento Verde de 21 de abril de 2017