Oriente Médio pode se tornar inabitável

O lençol freático está descendo nos oásis do deserto do Egito, o que gera problemas de sustentabilidade. Foto: Cam McGrath/IPS

Novos dados confirmam que o Oriente Médio e o norte da África poderiam se tornar inabitáveis em algumas décadas, já que a disponibilidade de água doce diminuiu quase dois terços nos últimos 40 anos, algo que muitos cientistas já temiam. A escassez não afeta apenas o já precário fornecimento de água potável na maioria dos 22 países da região, onde vivem quase 400 milhões de pessoas, mas também a disponibilidade desse recurso para a agricultura e a produção alimentar da população em rápido crescimento.

A disponibilidade de água doce por habitante no Oriente Médio e norte da África é dez vezes menor do que a média mundial. Por outro lado, as mais altas temperaturas podem reduzir as safras de cultivos em 18 dias e diminuir os rendimentos agrícolas entre 27% e 55% até o fim deste século. Além disso, os recursos de água doce da região estão entre os menores do mundo e a estimativa é que diminuam mais de 50% até 2050, segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO).

Outro problema é que 90% da superfície total de terra está em zonas áridas, semiáridas e subúmidas secas, enquanto 45% da superfície agrícola total está exposta à salinidade, ao esgotamento dos nutrientes do solo e à erosão hídrica do vento, acrescenta a FAO. A agricultura regional utiliza cerca de 85% da água doce disponível, e mais de 60% dos recursos hídricos procedem de zonas externas às fronteiras nacionais e regionais.

Essa alarmante situação levou o diretor-geral da FAO, José Graziano da Silva, a pedir medidas urgentes. O acesso a água é uma “necessidade fundamental para a segurança alimentar, saúde humana e agricultura”, e sua iminente escassez no norte da África e Oriente Médio exige uma “resposta urgente e maciça”, ressaltou em sua visita ao Cairo, onde, no dia 9 deste mês, se reuniu com altas autoridades egípcias.

Enquanto isso, o aumento do nível do mar no delta do Nilo – que abriga as terras mais férteis do Egito – expõe o país mais habitado da região, com quase cem milhões de pessoas, à perda de partes substanciais de sua terra fértil mais produtiva, devido à salinização. “A competição entre os setores pelo uso da água se intensificará no futuro, entre agricultura, energia, produção industrial e as necessidades das famílias”, advertiu Graziano.

O diretor-geral participou de uma reunião de alto nível sobre a colaboração da FAO com o Egito na iniciativa “1,5 milhão de feddan” (equivalente a 0,42 hectare), um plano do governo para recuperar até dois milhões de hectares de terras desérticas para uso agrícola e de outro tipo. “O Egito precisa estudar seriamente a escolha dos cultivos e dos padrões de consumo”, recomendou Graziano, lembrando o possível desperdício de água que representa o cultivo de trigo.

Entre as “medidas urgentes” necessárias estão as “destinadas a reduzir a perda e o desperdício de alimentos e reforçar a resiliência dos pequenos camponeses e agricultores familiares, o que exige implantar uma combinação de intervenções de proteção social, investimentos e transferência de tecnologia”, detalhou Graziano. A FAO lidera a Iniciativa de Escassez de Água no Oriente Médio e Norte da África que oferece assessoria em matéria de políticas e ideias de melhores práticas sobre a governança nos sistemas de irrigação e tem apoio de uma rede de mais de 30 organizações nacionais e internacionais.

Vários estudos científicos sobre o impacto da mudança climática em curso na região do Oriente Médio, particularmente na zona do Golfo, já advertiam para o problema. “Neste século, partes da região do Golfo Pérsico poderiam ser afetadas por eventos sem precedentes de calor mortal como resultado da mudança climática, segundo um estudo de modelos climáticos de alta resolução”, alertava uma pesquisa do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), dos Estados Unidos.

A pesquisa, intitulada O Golfo Pérsico Poderia Experimentar Calor Mortal, revela o que acontecerá se as emissões de gases-estufa se mantiverem iguais às atuais, mas também mostra que a redução das mesmas poderia prevenir esses “extremos mortais da temperatura”. O estudo, publicado pela revista Nature Climate Change, foi elaborado por Elfatih Eltahir, professor de engenharia civil e ambiental do MIT, e Jeremy Pal, da Universidade Loyola Marymount.

Os autores concluíram que as condições na região do Golfo, incluindo suas águas pouco profundas e o sol intenso, a convertem em um “ponto estratégico regional, onde a mudança climática, na falta de mitigação significativa, provavelmente afetará gravemente a habitabilidade humana no futuro”.

Ao aplicar versões de alta resolução de modelos climáticos correntes, Eltahir e Pal descobriram que muitas cidades poderiam superar um ponto de inflexão para a sobrevivência humana, inclusive em espaços sombreados e bem ventilados. Eltahir diz que esse umbral, “pelo que sabemos, nunca foi reportado em nenhum lugar do planeta”. Por sua vez, a última avaliação do IPCC prevê que o clima árido e quente se acentuará na maior parte do Oriente Médio e do norte da África.

Fontes – Baher Kamal, IPS / Envolverde de 17 de março de 2017

O Ártico está ficando verde a uma taxa alarmante

O gelo marinho do Ártico está se tornando progressivamente mais verde. Por muitos anos, os cientistas não sabiam exatamente por quê.

Eles calculavam que o verde tinha que vir de plantas marinhas microscópicas, chamadas fitoplâncton, crescendo sob o gelo. Mas isso não fazia sentido – o fitoplâncton precisa de luz para a fotossíntese, e o Ártico é supostamente escuro demais para que ele sobreviva.

Agora, uma equipe internacional de pesquisadores solucionou o quebra-cabeça: o recorde de baixos níveis de gelo marinho na região quebrou a barreira para a luz solar. Em vez de ser refletida, a luz está sendo absorvida por piscinas de gelo derretido.

A pesquisa foi publicada em Science Advances.

Espessura

Como os satélites não conseguem olhar através do gelo para ver as condições abaixo dele, o pesquisador Chris Horvat, da Universidade de Harvard (EUA), e seus colegas tiveram que encontrar outra maneira de obter respostas.

Eles construíram uma simulação computacional das condições do gelo do mar de 1986 até 2015, e confirmaram que não só a espessura do gelo estava diminuindo, como as piscinas de gelo derretido estavam aumentando.

Em outras palavras, o gelo que permanece no Ártico está agora mais fino do que nunca. E, logo abaixo dele, colônias de fitoplâncton estão crescendo à medida que a luz penetra no oceano.

Mudança

À medida que a escuridão absorve mais luz do que o gelo marinho não derretido – que é brilhante e reflexivo em sua forma intocada -, a proliferação dessas piscinas de derretimento permitiu níveis sem precedentes de luz solar permeando o gelo.

A simulação da equipe revelou que há 20 anos, apenas 3 ou 4% do gelo marinho do Ártico era suficientemente fino para permitir grandes colônias de plâncton.

Já em 2015, quase 30% do gelo marinho do Ártico era frágil o suficiente para consentir o florescimento de fitoplâncton nos meses de verão.

A tendência não deve mudar, visto que o derretimento continua a atingir níveis recordes até hoje.

Dominó

A preocupação agora é que essa explosão verde não seja apenas um efeito colateral inofensivo do gelo marinho derretido – ela pode trazer um conjunto de problemas completamente diferentes.

Se as condições no Ártico começarem a ficar muito hospitaleiras para o fitoplâncton, eles vão continuar a mostrar uma preferência por elas, como aparentemente têm feito nos últimos anos.

Logo, se tornarão indisponíveis para as criaturas marinhas maiores que dependem deles como fonte de alimento em outros lugares. A base da rede alimentar do Ártico vai crescer, enquanto a de outros lugares vai diminuir.

Ou seja, a mudança não terá consequências somente para a própria região. Na verdade, temos que nos preocupar mais com outras aéreas.

“O que acontece no Ártico não fica no Ártico”, disse a cientista Katharine Hayhoe, da Universidade de Tecnologia do Texas, em um comunicado de imprensa. “Todo este planeta está interconectado”.

Fontes –  Natasha Romanzoti, ScienceAlert / Hypescience de 30 de março de 2017

Oceanos ficaram duas vezes mais quentes nos últimos 25 anos

Islet in Funafuti Lagoon, TuvaluIslet in Funafuti Lagoon, Tuvalu

Um estudo publicado esta semana na revista científica Science Advances revelou em detalhes as razões pelas quais a temperatura da água salgada está mais elevada – e o impacto dessa realidade nas nossas vidas.
Pesquisadores da Noaa, do Centro Nacional de Pesquisas Atmosféricas dos EUa (Ncar), da Universidade de St. Thomas (EUA) e da Academia Chinesa de Ciências constataram que a taxa de aquecimento do oceano quase dobrou desde 1992 em comparação às três décadas anteriores – e já atinge  águas profundas.
Considerado um dos trabalhos mais completos produzidos sobre o tema, o estudo une diversas fontes de informações, como medições recentes detalhadas, laudos históricos de navios, registros de flutuadores, imagens de satélite e até dados de comportamento animal.
Os oceanos, segundo os cientistas, fornecem um dos melhores registros do excesso de energia preso na Terra devido ao aumento de gases de efeito estufa, em grande parte a partir da queima de combustíveis fósseis.
Eles absorvem mais de 90% do calor aprisionado por gases de efeito estufa, armazenando-o por séculos. Eventualmente, parte do calor é liberado para a atmosfera e aquece massas de terra adjacentes.
À medida que os mares se aquecem devido às mudanças climáticas, a água se expande e sobe, causando inundações costeiras. O mar mais quente também provoca a desintegração de plataformas de gelo na Antártida.
O aquecimento do oceano reforçou o El Niño de 2015-2016 e contribuiu para o aquecimento global em 2016. O resultado foi a maior temporada de furacões de todos os tempos em 2015 e ondas de calor, secas e incêndios em todo o mundo no ano passado.
Fonte – Observatório do Clima de 14 de março de 2017

ONU confirma calor recorde e diz que clima entrou em ‘território desconhecido’

ONU confirma calor recorde e diz que clima entrou em ‘território desconhecido’Foto: Nasa/Reuter

Em menos de três meses, o Ártico registrou três ondas de calor

Tendência se mantém em 2017 – só os EUA quebraram 11,7 mil registros históricos de temperatura em fevereiro, no inverno local – e cientistas afirmam que modelos matemáticos atuais para analisar atmosfera já não são suficientes

Informe anual publicado nesta segunda-feira, 20, pela Organização das Nações Unidas (ONU) confirma que 2016 bateu todos os recordes de temperatura, 2017 mantém a mesma tendência e o clima mundial entrou em “território desconhecido”. Segundo os cientistas, os modelos criados nas últimas décadas para examinar o comportamento da atmosfera já não atendem aos eventos extremos pelo planeta.

“Estamos vendo mudanças profundas ao redor do planeta que estão desafiando os limites de nosso entendimento sobre o sistema climático. Estamos de fato em um território desconhecido”, alertou David Carlson, especialista da entidade.

Os dados iniciais deste ano já preocupam. Em menos de três meses, o Ártico registrou três ondas de calor, com poderosas tempestades vindas do Atlântico e trazendo umidade. Durante o auge do inverno no Polo Norte, alguns dias tiveram temperaturas próximas do degelo. Em certos lugares, como a costa da Rússia, Alasca e partes do Canadá, a temperatura média ficou 3°C acima da média registrada entre 1961 e 1990. Em Svalbard, região ártica da Noruega, os registros apontam para 6,5°C acima da média histórica.

Em 2016, outros fatos já chamavam a atenção. Em 24 de março, a camada de gelo no Polo Norte era de 14,5 milhões de quilômetros quadrados, a mais baixa desde que satélites começaram a medir o espaço em 1979. Em novembro, o gelo chegou até mesmo a diminuir. Na Antártida, a redução da camada de gelo também foi recorde.

Segundo a ONU, as pesquisas indicam que as mudanças no Polo Norte e o degelo do Ártico estão levando a uma mudança nos padrões de circulação nos oceanos e na atmosfera. Isso afeta o clima em outras partes do mundo. “Novos estudos revelam que o aquecimento dos oceanos pode ter sido maior do que se previa”, apontou a Organização Meteorológica Mundial (OMM), braço da ONU. “Dados provisórios também indicam que não houve uma perda da taxa de aumento de concentração de CO2 na atmosfera”, disse.

O resultado é que, em regiões do Canadá e dos Estados Unidos onde deveria fazer frio nesta época do ano, o clima foi ameno. Já no Norte da África, o inverno foi mais intenso do que a média em 2017. Apenas nos EUA, 11,7 mil recordes de temperaturas foram quebrados em fevereiro, inverno no país.

Recorde histórico

Para cientistas, 2016 “fez história, com temperatura global recorde, camada de gelo baixa, aumento do nível dos oceanos e temperatura da água”. A média do ano ficou 1,1°C acima da era pré-industrial e 0,06°C acima do recorde anterior, de 2015. “Esse aumento de temperatura é consistente com outras mudanças no sistema climático”, disse o secretário-geral da OMM, Petteri Taalas. “Está cada vez mais clara a influência das atividades humanas no sistema climático.”

Taalas afirma que instrumentos de informática cada vez mais poderosos têm permitido demonstrar as ligações entre as atividades humanas e certos eventos extremos, como ondas de calor. No Oriente Médio e no norte da África, novos recordes foram batidos, com 54°C em Mitribah (Kuwait), 53,9°C em Basra (Iraque) e 53°C em Delhoran, um recorde para o Irã. No dia 6 de setembro e já no fim do verão, a cidade espanhola de Córdoba registrou 45,4 °C.

Cada um dos 16 anos do século 21 foram pelo menos 0,4°C acima da média registrada entre 1961 e 1990. Mesmo o fenômeno do El Niño entre 2015 e 2016 foi mais intenso que suas últimas quatro aparições, em 1973, 1983 e 1998.

Todos os dados de 2016 de fato apontam para um ano atípico. A cobertura de gelo pelo mundo caiu em mais de 4 milhões de quilômetros quadrados abaixo da média em novembro, uma anomalia considerada como “sem precedentes”.

A temperatura elevada de oceanos contribuiu para uma mortalidade acima da média, com impacto em cadeias marinhas e ecossistemas. O impacto social também tem sido profundo. A seca em partes da África levou 20 milhões a depender de ajuda. Na Bacia Amazônica, o volume de chuvas é o menor desde que se tem registro, afetando também o Nordeste brasileiro. O nível dos oceanos está 20 centímetros acima das taxas do início do século 20 e, com o El Niño, as águas aumentaram em 15 milímetros entre novembro de 2014 e fevereiro de 2016, quando um novo recorde foi registrado.

‘É fundamental que os governos tomem ações’

Carlos Rittl, secretário-geral do Observatório do Clima

Qual a relevância desse novo informe da Organização das Nações Unidas?

É importante em vários sentidos. Lembra que estamos passando por uma crise climática grave, com intensificação de eventos extremos, reforçando as mensagens anteriores dos especialistas, de que os governos precisam discuti-la com a urgência que merece uma crise mundial. O posicionamento da ONU também é fundamental para a agenda global do clima, que corre riscos com o atual governo dos Estados Unidos.

Os modelos climáticos são mesmo limitados?

É necessário aprimorar os modelos a fim de obter maior capacidade de projeção e, assim, traçar estratégias de adaptação. Um aspecto novo desse documento é o alerta para um risco cada vez maior de ocorrência de eventos extremos que escapam à capacidade de previsão. Os modelos climáticos evoluíram, mas os desafios se tornaram maiores, como estão mostrando esses fenômenos cada vez mais intensos e frequentes.

O clima já entrou de fato em ‘território desconhecido’?

Sim. Em São Paulo, por exemplo, vimos no ano passado períodos de chuvas muito fortes – o que mostra a urgência de sistemas de monitoramento mais robustos. Desde 2016, até mesmo nosso vocabulário sobre o clima ganhou novos verbetes, como “microexplosões” (fenômeno meteorológico que pode produzir rajadas de até 80 km/h).

Qual a relação do documento da ONU com o Acordo de Paris?

Esse alerta da ONU é fundamental para que os governos tomem ações com responsabilidade proporcional à emergência climática pela qual passamos. Ele reforça a necessidade de desenvolver sistemas sofisticados de monitoramento e implementar o acordo.

Fonte – Jamil Chade, Colaborou Fábio de Castro, O Estado de S. Paulo de 21 de março de 2017

O negacionismo pueril contra as evidências científicas é a nova trincheira da guerra cultural no Brasil

Você não precisa ser um ávido leitor de jornais ou um militante ligado ao ambientalismo para ter ouvido várias vezes frases como “Nós [os ruralistas] somos os que mais preservamos”,“61% do território brasileiro é mato”, “O que o código florestal quer é a interdição do uso da propriedade”, “É muita terra para pouco índio”. É com esse arsenal retórico que a bancada ruralista no Congresso Nacional dispara contra os direitos dos povos originários, contra as leis ambientais e contra qualquer pessoa que afirme haver aquecimento global.

“O que está em jogo é o maior retrocesso em termos ambientais no Brasil”, afirma Cláudio Ângelo, jornalista do Observatório do Clima, durante a conferência A nossa guerra cultura. Discurso ruralista, pós-verdade e o papel do jornalismo, evento que integra a programação da 14ª Páscoa IHU – Biomas brasileiros e a teia da vida. A conferência ocorreu na terça-feira, 04-3-2017, às 19h30, para um público de aproximadamente 200 pessoas, na Unisinos, em São Leopoldo.

Publico lotou o Auditório Bruno Hammes, na Unisinos (Fotos: Ricardo Machado/IHU)

Agenda ruralista

No atual congresso, o mais conservador desde 1964, cerca de 250 deputados compõem a base de apoio aos ruralistas, ao passo que no Senado esse número é de 40 senadores. Não obstante esse número expressivo de apoiadores à agenda de desregulamentação ambiental, o setor ruralista ocupou, recentemente, o controle da Polícia Federal e da Fundação Nacional do Índio – Funai. “Durante 20 anos fazendo cobertura sobre as questões ambientais, nunca vi alguém fazer um resumo tão bom do discurso ruralista quanto este (veja o vídeo abaixo) do Luis Carlos Heinze”, afirma Cláudio Ângelo.

O mais delicado neste assunto é que o discurso acima recebe amplo apoio da sociedade, sobretudo no que diz respeito à retomada econômica. “No Brasil há uma minoria de ruralistas que investiram em suas propriedades para cumprirem a legislação ambiental e eles estão sendo prejudicados por quem não cumpre. Além disso, não se pode negar o fato que o agronegócio mantém a balança comercial brasileira e que isso é relevante para o país inteiro, mas isso não autoriza os ruralistas a agirem da forma como agem”, pondera o conferencista.

O conservadorismo nas políticas ambientais no Brasil está longe de ser uma pauta de direita. Um dos grandes expoentes do Partido Comunista do Brasil – PCdoB, Aldo Rebelo, que militou na esquerda, resolveu, nas palavras de Cláudio Ângelo, “se aliar aos mais conservadores dos conservadores da bancada ruralista. O Aldo fez um relatório sobre a mudança do Código Florestal que versa sobre a legislação mais ou menos como o discurso do Heinze”.

Guerra cultural

O conceito de guerra cultural é um tema debatido, sobretudo, pela sociologia dos Estados Unidos. Basicamente diz respeito à disputa narrativa entre os progressistas e conservadores principalmente sobre questões como evolucionismo e criacionismo e o aquecimento global. “Lá, os fronts são o ensino da teoria da evolução nas escolas e as mudanças climáticas. O negacionismo do aquecimento global se tornou um item obrigatório no check list dos conservadores dos Estados Unidos”, pontua.

“No Brasil é diferente, não há um grupo articulado em torno do negacionismo do aquecimento global, ao contrário, várias pesquisas mostram que entre várias nações, o brasileiro é o mais preocupado com as questões do clima”, ressalta o conferencista, mas chama atenção para duas excessões. “Há dois negacionistas importantes por aqui. O Ricardo Felício, geógrafo, da Universidade de São Paulo – USP, que tem zero publicação sobre mudança climática; e Luiz Carlos Molion que é climatologista, mas tem poucas produções científicas sobre o tema”, complementa.

Por aqui, no entanto, o negacionismo climático fica por conta dos ruralistas. “O discurso dos ruralistas no Brasil é muito parecido com o dos céticos do clima nos EUA. Essas pessoas ignoram evidências científicas e chamam de ideologistas os cientistas que passaram 20 a 30 anos pesquisando a fundo sobre mudanças climáticas”, critica Cláudio. “Veja a Escola de Samba Imperatriz Leopoldinense que resolveu homenagear os índios do Xingu, com o enredo sobre Belo ‘Monstro’ [Belo Monte] que secou a Volta Grande e deixou duas terras indígenas sem peixe, foi ameaçada por Ronaldo Caiado que disse que abriria uma CPI para investigar a agremiação”, relembra.

Cláudio Ângelo, ao fundo à esquerda

Jornalismo e meio ambiente

Mas afinal de contas, o que o jornalismo tem a ver com as questões ambientais? Para Cláudio Ângelo, o último território onde a chama do ceticismo pode ainda estar protegida é no jornalismo. “Os últimos guardiões do ceticismo são os jornalistas. O livro O mundo assombrado pelos demônios (São Paulo: Companhia de Bolso, 2006), Carl Sagan, apresenta um check list rápido sobre as principais falácias e os antídotos dos blefadores negacionistas”, salienta o conferencista.

Na avaliação de Cláudio Ângelo, vivemos a pior crise do jornalismo em que o modelo hegemônico de negócio parece insustentável. “O Facebook faz grilagem de conteúdo e com a audiência capta anunciantes que antes investiam em jornais e revistas”, analisa. Por outro lado, reconhece que nem tudo está perdido. “A ressurreição do jornalismo nos EUA veio com a eleição de Donald Trump. No Brasil há uma série de iniciativas que vem vingando, como Amazônia Real, Aos Fatos, Poder 360, e que nos enchem de esperança”, projeta.

Diante do cenário de pós-verdade, como descreveu o conferencista, o trabalho do jornalista se torna cada dia mais importante para lutar do lado das evidências científicas. “Nada substitui o jornalismo crítico. Em um mundo onde o leitor confia mais nas próprias verdades, talvez a angulação da abordagem deva ser outra que não o confronto direto. Preciso desconstruir o discurso que serve à guerra cultural”, conclui.

Cláudio Ângelo

Cláudio Ângelo é jornalista formado pela Universidade de São Paulo – USP, coordena a comunicação do Observatório do Clima, organismo que tem o objetivo de formar uma coalizão de organizações da sociedade civil brasileira para discutir mudanças climáticas. Ainda foi editor de Ciência do jornal Folha de São Paulo e é autor do livro A Espiral da Morte (São Paulo: Cia das Letras, 2016), sobre como a humanidade alterou o clima nos polos e como isso afeta a todos.

Assista a conferência na íntegra

Fonte – Ricardo Machado, IHU de 04 de abril de 2017

Os humanos não conseguem parar de quebrar recordes de emissão de carbono

mudanca-climatica

O clima está mudando, em parte pelos humanos atirando gases de efeito estufa na atmosfera. Uma maioria esmagadora dos cientistas climáticos concordam com essa declaração. E eles concordam porque olham para modelos climáticos a longo prazo, para emissões de carbono, executam vários testes e veem que uma coisa leva à outra. Não gosto de escrever artigos sérios sobre mudança climática porque é exasperador. Mas tem coisa que eu preciso noticiar: como de costume, estamos no caminho certo para um ano de quebra de recorde.

O Met Office, agência climática do Reino Unido, prevê que chegaremos a 410 partes por milhão de dióxido de carbono atmosférico pela primeira vez desde que os registros são feitos. A mudança de 2016 para 2017 não é tão alta quanto a de 2015 para 2016 (eba!), mas ainda assim é o nível mais alto de dióxido de carbono atmosférico já registrado. Além disso, 2016 foi o primeiro ano nos registros em que os níveis estiveram acima de 400 ppm durante todo o ano, um patamar no qual provavelmente ficaremos permanentemente.

Estou prestes a explicar a mudança climática. De novo. Se você já está convencido, pule alguns parágrafos. Se não, prepare-se para alguns fatos agonizantes tirados principalmente de sites governamentais e antigos artigos do Gizmodo.

A Terra é um sistema dinâmico e equilibrado com oceanos, florestas, gelo polar e atmosfera, cada um deles desempenhando um papel diferente na manutenção do clima e dos níveis de dióxido de carbono. Normalmente, as plantas, o oceano e o solo sugam o carbono de coisas como os animais e os fogos naturais, via fotossíntese ou dissolvendo-o. Mas nós, humanos, cortamos várias dessas plantas e acrescentamos carbono extra ao queimar combustíveis fósseis para abastecer nossos carros, aquecer nossas casas etc. Isso significa que essas tais “pias” de carbono apenas consomem metade dos gases de efeito estufa, diz o Met Office, e a outra metade vai para a atmosfera, onde cria uma camada isoladoraque mantém o calor preso na Terra. Eu já mencionei que eu odeio escrever sobre mudanças climáticas?

Esse dióxido de carbono excedente e outros gases, como o metano, levam ao aquecimento da Terra — as temperaturas médias globais agora estão cerca de 1,5º C acima das temperaturas no século XIX. Isso pode não parecer muito, mas essas mudanças sutis podem levar a coisas ruins. A longo prazo, podemos ver o derretimento do gelo polar, mais inundações costeiras e padrões climáticos cada vez mais estranhos. É principalmente nossa culpa, também. Se você observar o quão rápido normalmente leva para a Terra esquentar tanto assim, perceberá que está bastante claro que somos os responsáveis pelo aquecimento. Os vulcões não são o maior problema. Nem os ciclos solares. Como diz a EPA, “mudanças recentes não podem ser explicadas por causas naturais sozinhas”.

Se isso soa familiar, desculpe-me, mas várias pessoas não acham que seja uma ameaça séria. Já estou me encolhendo imaginando os emails que vou receber com links para o blog de algum cientista anti-mudança climática com afirmações incorretas ou sem base alguma.

As previsões do Met Office não deveriam ser recebidas com leveza — o seu modelo perfeitamente previu os níveis de carbono de 2016, conforme medidos no Observatório Mauna Loa, no Havaí. A previsão do ano passado é a linha azul, a linha preta é o que aconteceu, e a laranja, a previsão para este ano.

cdwmqgd8fywhebmzvh3q

O gráfico sobe e desce graças às estações, mas nos últimos 60 anos os altos e baixos sempre parecem estar um pouco mais altos do que os do ano anterior. E se esse gráfico não parece um problema, eis o que acontece quando você reduz o zoom para observar os níveis de carbono ao longo dos últimos 60 anos — a tal “curva de Keeling”.

bia0mthyozuya3qfkoap

Talvez, para você, só pareça que os níveis de carbono sempre estiveram crescendo. Eles não estiveram sempre crescendo. Eis a aparência do gráfico se você diminui o zoom para, digamos, as últimas centenas de milhares de anos.

donwno4m1b8diqarle1iÀ direita, a seta branca aponta o nível atual de dióxido de carbono atmosférico, enquanto a laranja, o nível em 1950 (Imagem: NASA)

Tudo isso para dizer que a notícia que eu tenho para você hoje é o mesmo de sempre — o nível de dióxido de carbono na atmosfera está disparando como sempre, e 2017 está no caminho certo para ter o maior nível de carbono já registrado na atmosfera, como sempre. O dióxido de carbono não é exatamente o único gás de efeito estufa ruim (há o metano, entre outros), mas se a curva de Keeling não é convincente o bastante para você, não tenho certeza do que mais poderá convencê-lo. Eu sugeriria olhar para aquele quadrinho do xqcd mais uma vez.

Ao todo, 195 países assinaram o Acordo de Paris, afirmando que fariam o melhor para manter as emissões baixas, para conseguirmos manter o aquecimento total “apenas” 2º C acima dos níveis pré-industriais. As pessoas parecem ter entrado em acordo que manter abaixo de 2º C e, com sorte, de 1,5º C de aquecimento nos preveniria de efeitos mais catastróficos da mudança climática. É claro, o presidente de um certo país não parece acreditar na evidência que suas próprias agências produzem. Talvez ele mude de ideia.

Então, nós escrevemos uma história como essa ano passado, e um dos comentários mais votados foi “o que você quer que eu faça?” Boa pergunta. 1. Escreva cartas para o seu congressista, o presidente, qualquer um que te represente, e diga a eles que essa é uma questão importante. Convença seus amigos a fazer o mesmo. 2. Se você dirigir, tente dirigir menos. Use o transporte público. Compre um carro elétrico ou energeticamente eficiente. Convença seus amigos a fazer o mesmo. 3. Use mais eletrônicos de energia eficiente. Veja como você está aquecendo e resfriando sua casa, para economizar energia. Convença seus amigos a fazer o mesmo. 4. Arme-se de conhecimento sobre mudança climática. Ignore os trolls, convença as pessoas que estão indecisas.

Isso é tudo o que eu tenho para dizer.

Fonte – Ryan F. Mandelbaum, Gizmodo de 07 de março de 2017

Aquecimento Global: 79 Anos de Evidências

Guy Callendar (1897-1964). Foto: Wikipedia.

Um dos aspectos da desinformação difundida pelos negacionistas climáticos é esconder a história da Ciência do Clima, como se as evidências do aquecimento global e de seu caráter antrópico tivessem surgido agora, da cabeça de alguns “cientistas conspiradores”. Peço que leiam com atenção o texto a seguir:

“Pela combustão, o homem adicionou cerca de 150.000 milhões de toneladas de dióxido de carbono ao ar durante o último meio século. O autor estima, a partir dos melhores dados disponíveis, que cerca de três quartos disto permaneceu na atmosfera. Os coeficientes de absorção de radiação de dióxido de carbono e vapor d’água são usados para mostrar o efeito do dióxido de carbono na “radiação celeste”. A partir disso, o aumento da temperatura média, devido à produção artificial de dióxido de carbono, é estimado em 0,003ºC por ano, na atualidade. As observações de temperatura em estações meteorológicas do mundo são usadas para mostrar que as temperaturas mundiais na verdade aumentaram a uma taxa média de 0,005°C por ano durante o último meio século.”

É este o resumo de um artigo intitulado “A Produção Artificial de Dióxido de Carbono e sua Influência na Temperatura”, publicado por Guy Stewart Callendar, em 16 de fevereiro de 1938, há 79 anos, portanto.

Resumo do trabalho pioneiro de Guy Callendar, publicado em 1938.

Svante Arrhenius, 42 anos antes já havia apresentado evidências teóricas de que mudanças na concentração de dióxido de carbono na atmosfera terrestre poderiam promover alterações significativas no clima terrestre, como já discutimos certa vez em nosso blog. Mas o trabalho meticuloso de Callendar foi absolutamente pioneiro no sentido de trazer evidências empíricas nesse sentido. Engenheiro e inventor, ele se dedicou à tarefa laboriosa de, à mão, calcular médias de dados de 200 estações meteorológicas, e construir gráficos a partir deles. Além disso, ele utilizou equações da Física, como a Lei de Stefan-Boltzmann para estimar qual seria a possível contribuição do aumento da concentração de CO2 para as mudanças observadas na temperatura e projetar para o futuro quais seriam as alterações esperadas no clima da Terra, não apenas em sua temperatura média global mas também no deslocamento das zonas climáticas rumo aos pólos.

Como ficou nítido pelos comentários que acompanham o artigo, a comunidade científica da época (lembremos… quase 80 anos atrás) mostrou-se cética quanto aos resultados e conclusões de Callendar, apesar de reconhecer a correção com a qual ele tratou os dados e desenvolveu todos os cálculos em seu trabalho. Não custa enfatizar que mostrar ceticismo quanto ao aquecimento global há 8 décadas era uma coisa, pois ainda não havia um centésimo das evidências de agora. Já hoje, não há como. Os “contrários” do presente não são “céticos”, ou seja, pessoas que por duvidarem de maneira sincera e honesta, procuram dirimir tais dúvidas investigando e buscando evidências. O que se vê hoje em dia, ao contrário de há 79 anos, é negacionismo anticiência que é propositalmente incapaz de separar fontes confiáveis e não-confiáveis e se recusa a aceitar evidências.

Gráfico do artigo de Callendar sugerindo que uma parte não desprezível do aquecimento global já verificado na época poderia ser atribuído ao aumento das concentrações de dióxido de carbono (“CO2 effect”).

O mais interessante é que ele imaginava que o efeito desse aquecimento seria benéfico (o que é obviamente errado): “Em conclusão, pode-se dizer que a combustão de combustíveis fósseis, seja turfa da superfície ou óleo de 10.000 pés abaixo, é provável que seja benéfica para a humanidade de várias maneiras, além do fornecimento de calor e energia. Por exemplo, os aumentos da temperatura média acima mencionados seriam importantes na margem norte dos cultivos e o crescimento de plantas favoravelmente situadas é diretamente proporcional à pressão do dióxido de carbono (Brown e Escombe, 1905). Em qualquer caso, o retorno de eras glaciais mortais deve ser adiada indefinidamente. No que diz respeito às reservas de combustível, estas seriam suficientes para produzir pelo menos dez vezes mais dióxido de carbono do que existe atualmente no ar”. Vejam que alguns negacionistas (aqueles que não negam o óbvio, que o mundo está acontecendo, nem o quase tão óbvio, que a causa é antrópica, mas que dizem que esse aumento de CO2 e temperatura é “bom”) sequer conseguem ser originais. Eles apenas reproduzem o único grande erro de Callendar (achar que o aquecimento global seria positivo) que é perfeitamente perdoável dadas as condições da época, quando o aquecimento global era limitado a poucos décimos de grau!

Vale frisar que essa visão esperançosa de Callendar tinha a ver com o fato de que ele subestimava em muito as emissões de CO2 futuras. Também era evidente (numa lógica eurocêntrica) que lhe pareciam atraentes a possibilidade de expansão da fronteira agrícola para o norte, que ele estimava poder avançar em até 127 km em 200 anos e, sobretudo, a ideia de adiarmos de vez uma nova era glacial. Embora brilhante no seu trabalho de pesquisa e imortalizado através desse artigo, a visão de Callendar mostrou-se não apenas muito otimista, mas talvez ingênua.

Emissões de CO2 cresceram exponencialmente. Tudo o que foi emitido de 1750 a 1938 (cerca de 169 bilhões de toneladas deste gás) é, nos dias de hoje, emitido em menos de 5 anos.

O ponto é que adentramos um terreno que certamente pareceria total exagero há 8 décadas. Callendar imaginava concentrações de CO2 da ordem de 330 ppm e 360 ppm para os séculos XXI e XXII, respectivamente, quando os valores atuais já excedem amplamente os 400 ppm. Os valores atribuídos por Callendar para o que seriam tempos futuros distantes foram ultrapassados respectivamente em 1974 (330 ppm) e 1995 (360 ppm) e a média observada em Mauna Loa, em Janeiro de 2017, foi de mais de 406 ppm! Por conta das projeções modestas, Callendar imaginava mudanças de temperatura globais de meros 0,57°C em dois séculos e em nenhum momento imaginou a “grande aceleração”, que faz com que as emissões de hoje sejam 8,6 vezes maiores do que as de sua época e as emissões acumuladas de 1750 até 1938, de 169 bilhões de toneladas de CO2, equivale ao que levamos menos de 5 anos para emitir.

50 anos depois do espetacular artigo de Callendar, a ONU instituiu o IPCC, o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, para que especialistas pudessem fazer um levantamento do estado-da-arte da Ciência do Clima e hoje sabemos muito mais do que estava disponível para os cientistas na primeira metade dos séculos XIX e XX. Mas não deixa de ser impressionante que as bases teóricas (Arrhenius) e empíricas (Callendar) de aspectos fundamentais do nosso conhecimento sobre o assunto tenham emergido há tanto tempo.

Fonte – Blog o que você faria se soubesse o que eu sei? de 17 de fevereiro de 2017

Eles sabiam

Capa do relatório “Fontes, Abundância e Destino de Poluentes Atmosféricos Gasosos”, de 1968. Fonte: https://www.smokeandfumes.org

A rede de computadores anda infestada pelas chamadas “teorias de conspiração”. Muitas delas são apenas histórias sem pé nem cabeça. Outras são mentiras plantadas com interesses bastante específicos, como o caso de um certo presidente de topete estranho afirmando que “o aquecimento global é uma farsa inventada pelos chineses”. O problema dessas “teorias” (usado de maneira imprópria, pois nada tem a ver com o uso da palavra nas ciências) é duplo: se as pessoas levam a sério as mentiras, podem ignorar evidências reais ou até militar por causas inexistentes; se dão de ombros para qualquer suposta conspiração, afinal a maior parte é pura invencionice mesmo, podem terminar não dando a devida atenção aos (raríssimos) casos em que uma conspiração (ou algo parecido) realmente exista.

Neste artigo falaremos rapidamente de um desses casos raros de conspiração real: como a indústria de combustíveis fósseis sabia há décadas dos riscos do aquecimento global e como ela adotou a opção consciente pelo lucro e acumulação.

Sabe-se que a provável relação entre clima e concentração de CO2 é conhecida desde o século XIX e que já na década de 1930 surgiram evidências observadas de que a queima de combustíveis fósseis estaria contribuindo para aquecer o planeta.

Principais responsáveis pela extração, processamento e queima desses combustíveis, a mudança climática já estava no radar das grandes corporações petroquímicas há muito tempo, na verdade muito antes de a Organização das Nações Unidas convocar especialistas para comporem um painel sobre o tema (o IPCC, criado em 1988).

Com efeito, há quase meio século, em 1968, por encomenda do American Petroleum Institute (AIP), um relatório preparado por pesquisadores do Instituto de Pesquisa Stanford alertava que “a humanidade está realizando um vasto experimento geofísico” e que “mudanças significativas de temperatura quase certamente devem ocorrer em torno do ano 2000, trazendo consigo mudanças climáticas”.

Datados das duas décadas seguintes, relatórios internos da Exxon vieram a público, revelando com nitidez os riscos da continuidade da queima de combustíveis fósseis e a necessidade de mudança de rota. Já em 1978, o cientista James Black, que trabalhava para a companhia, mostrou projeções de aquecimento global que são incrivelmente parecidas com aquelas produzidas pela comunidade de clima muitos anos depois nos piores cenários (ver figura). A projeção apontava para um aquecimento em torno de 1-2°C após o ano 2000 (em 2016 chegamos a 1,2°C de anomalia de temperatura em relação ao período pré-industrial) e um valor mais provável em torno de 3°C em meados deste século.

Slide apresentado por James Black, cientista que trabalhava para a Exxon, em 1978. Fonte: https://insideclimatenews.org

Black também falava em uma janela “de cinco a dez anos” antes de tomar medidas drásticas para mudar o modelo energético. Em outras palavras, nos bastidores da Exxon, tanto o risco de um aquecimento global descontrolado quanto a necessidade de termos iniciado na década de 1980 uma transição energética que nos livrasse dos combustíveis fósseis, já eram conhecidas ao final dos anos 1970. O que a Exxon fez a partir disso? Encerrou o programa de pesquisas em clima, engavetou tudo e passou a financiar grupos negacionistas, tendo transferido para eles mais de 30 milhões de dólares.

Por fim, vale mencionar a Shell, a mesma que tem planos de exploração de petróleo no Ártico, um dos mais frágeis ecossistemas do planeta, em que essa exploração envolve mais riscos de acidente e que já está sendo, como debatemos em nosso artigo anterior na Vírus, profundamente afetado pelo aquecimento global. Na semana passada, foi revelado uma fita de videocassete impressionante, produzido por essa companhia, que mostra o grau de conhecimento do problema por parte da Shell em 1991.

O vídeo explica didaticamente o efeito estufa, usando a lua como exemplo oposto à Terra (sem efeito estufa, temperatura varia muito, mas a média é bem abaixo da nossa). Lembram, além do CO2, do metano, do óxido nitroso e dos halocarbonetos. É cientificamente simples e preciso, mostra total respeito pela conhecimento científico vigente, tanto no que diz respeito as observações quanto as projeções de modelos, apesar das incertezas, bem maiores na época do que agora.
Mas não é só isso. A Shell já tinha consciência dos impactos. Do que estamos começando a presenciar hoje e do que pode arruinar o futuro das atuais e novas gerações. O vídeo fala de elevação do nível do mar, como ameaça aos países insulares, falam de Bangladesh, falam que a Holanda (onde fica a sede da companhia!) pode estar segura agora graças ao seu elaborado sistema de barreiras e de bombeamento, mas que no futuro isso é incerto; fala do perigo de quebras de safras que mudanças sutis nas zonas climáticas podem acarretar e de refugiados climáticos.
Uma frase, dita em tom solene pelo narrador, é particularmente impressionante: “O aquecimento global ainda não é certo, mas muitos argumentam que esperar por uma ‘prova final’ seria irresponsável. Ações agora parecem ser o único caminho seguro.”

49 anos depois do relatório encomendado pelo AIP, 39 anos depois dos memorandos internos da Exxon e 26 anos depois do vídeo da Shell, em que situação estamos? As emissões aumentaram, a concentração de CO2 não parou de crescer e alguns dos impactos deletérios do aquecimento global, de ondas de calor mortíferas a secas recorde, de degelo inédito das calotas polares a supertempestades, começam a se manifestar.

Esqueçam, portanto, todas as teorias de conspiração desprovidas de fundamento e concentrem sua indignação nesta, uma conspiração realmente existente, do setor mais poderoso da indústria (a indústria de combustíveis fósseis) contra a vida inteira deste planeta. Tais corporações tinham o conhecimento do perigo do aquecimento global, tinham os recursos para investimento, tinham a possibilidade de influenciar governos e outros setores da indústria. Fizeram uma escolha: o lucro rápido e fácil. E ligaram o “foda-se”. Para mim, para você, para a humanidade inteira, para a biosfera inteira. Sério, essas companhias mereciam ir a tribunais internacionais, da mesma maneira que os nazistas em Nurenberg. Eles sabiam, amigas/os. Eles sabiam.

Alexandre Araújo Costa é ativista climático, militante ecossocialista, físico de formação, Ph.D. em Ciências Atmosféricas pela Universidade do Estado do Colorado, com pós-doutorado na Universidade de Yale. Foi um dos autores principais do primeiro relatório do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas, edita o blog “O Que Você Faria se Soubesse o Que Eu Sei” e é um dos coordenadores do Ceará no Clima.

Fonte – Revista Virus de 06 de março de 2017

84% das estações meteorológicas dos EUA têm inverno mais quente que a média

Visitantes no Millennium Park em Chicago. A cidade teve um clima ameno e ficou sem neve neste inverno (Foto: Crédito Scott Olson/Getty Images)Visitantes no Millennium Park em Chicago. A cidade teve um clima ameno e ficou sem neve neste inverno (Foto: Crédito Scott Olson/Getty Images)

Das 1.500 estações americanas, 117 tiveram o recorde histórico de calor. A cidade de Chicago, normalmente fria, teve o primeiro janeiro e fevereiro sem neve

Depois de três recordes anuais seguidos de temperatura global, parece que a Terra entrou em um novo padrão climático. Pelo menos é o que indicam os primeiros sinais deste ano. O mês de janeiro de 2017 foi o terceiro mais quente já registrado. Agora, um levantamento das estações meteorológicas nos Estados Unidos mostra que 84% delas tiveram um inverno mais quente do que o normal. Cerca de 47% das estações tiveram um inverno entre os dez mais quentes já registrados. Das 1.500 estações americanas, 117 tiveram o recorde histórico de calor.

A cidade de Chicago, normalmente fria, teve o primeiro janeiro e fevereiro sem neve desde que começaram as observações há 146 anos. Massachusetts registrou o primeiro tornado num mês de fevereiro. Como um todo, a primavera chegou 28 dias mais cedo no Sudeste americano. Até o presidente Trump, que não acredita em aquecimento global, poderá apreciar de perto os efeitos do fenômeno. O serviço nacional de parques dos Estados Unidos prevê que as flores do National Mall, o parque do centro de Washington, vão brotar no meio de março, o mais cedo que se tem notícia.

Um inverno ameno parece uma dádiva. Afinal, menos frio reduz os riscos e os desconfortos em regiões mais temperadas, onde é preciso viver com aquecimento e driblando tempestades de neve. Mas a aceleração do calor tem outros impactos. Ela desorganiza os padrões de comportamento das plantas. Pega animais migratórios despreparados. Também acelera o degelo nas regiões montanhosas. Como um todo, o inverno ameno é um sintoma de um grande desequilíbrio no sistema de clima onde construímos nossa civilização. As consequências vão bem além de uma floração prematura na porta de casa.

Fonte – Alexandre Mansur, Blog do Planeta de 03 de março de 2017

Portugal teve perdas de 6,8 bilhões devido a alterações climáticas de 1980 a 2013

Portugal teve perdas de 6,8 mil ME devido a alterações climáticas de 1980 a 2013Portugal registou perdas de 6,8 mil milhões de euros relacionadas com as consequências das alterações climáticas, entre 1980 e 2013, e somente uma pequena parte é coberta pelos seguros

Portugal registou perdas de 6,8 mil milhões de euros relacionadas com as consequências das alterações climáticas, entre 1980 e 2013, e somente uma pequena parte é coberta pelos seguros, segundo um relatório hoje divulgado.

O trabalho “Alterações Climáticas, Impactos e Vulnerabilidades na Europa 2016” foi elaborado pela Agência Europeia do Ambiente (EEA, na sigla em inglês) e realça que o sul da Europa, com destaque para a península ibérica, vai ser mais atingido pelas mudanças do clima no futuro, mas já regista aumentos de situações extremas de calor, redução da precipitação e dos caudais dos rios, a que acresce o risco de secas severas, perdas na agricultura e na biodiversidade, assim como de fogos florestais.

Na análise económica dos efeitos das mudanças do clima, a EEA estima que os custos tenham atingido 6,783 mil milhões de euros, entre 1980 e 2013, dos quais somente 300 milhões, ou seja, 4%, estavam cobertos por seguros.

Aquele valor total representa 665 milhões de euros de perdas por cada português e 0,14% do Produto Interno Bruto (PIB).

No total da Europa, os custos relacionados com as alterações climáticas atingem 393 mil milhões de euros, com a Alemanha a liderar, ao chegar aos 78,7 mil milhões, ou mil milhões per capita, dos quais 44% estavam cobertos por seguros.

A Suíça é o país com um valor de custos mais elevado por cada cidadão – 2,517 mil milhões de euros – e o Reino Unido é aquele que apresenta a maior percentagem de perdas cobertas por seguros – 68%.

“As alterações climáticas vão continuar por muitas décadas no futuro” e a dimensão destas mudanças e dos seus impactos vão depender da concretização dos acordos globais para reduzir as emissões de gases com efeito de estufa, mas também de ser assegurado que foram adotadas as corretas políticas e estratégias para reduzir os riscos dos atuais e projetados fenómenos climáticos extremos, realça o diretor executivo da EEA, Hans Bruyninckx, citado no relatório.

Apesar de algumas regiões puderem apresentar impactos positivos, como a melhoria das condições para a agricultura no norte da Europa, a maior parte dos países e setores económicos “vão ser negativamente afetados”, refere a EEA.

Ondas de calor mais frequentes e mudanças na distribuição das doenças infecciosas relacionadas com as condições do clima deverão aumentar os riscos para a saúde humana e para o bem-estar, outra área da vida dos europeus a ser afetada.

A península ibérica é referida no relatório como exemplo de região onde já se observam algumas mudanças, como a diminuição da precipitação, principalmente no centro de Portugal.

A erosão costeira já provocou “significativas perdas económicas, estragos ecológicos e problemas sociais”, aponta ainda a EEA, dando mais uma vez o exemplo de Portugal, que “investiu 500 milhões de euros na reabilitação de dunas e de frente mar e na defesa” entre 1995 e 2003, entre Aveiro e Vagueira.

Fonte – Saúde Online de 25 de janeiro de 2017