Fiji, um paraíso em perigo

Fiji já foi sinônimo de paraíso tropical, mas o arquipélago está ameaçado de desaparecer por causa do aquecimento global. O fotógrafo Aaron March nasceu nas ilhas e captura em imagens a natureza frágil de seu país.

Paraíso ameaçado – O recife de coral da ilha de Mamanuca, em Fiji, é um destino ideal para quem gosta de mergulhar com snorkel. Mas o mergulho na água límpida para ver peixes coloridos está virando raridade. Devido ao aumento da temperatura do oceano, os recifes de corais em Fiji estão morrendo. A perda do frágil ecossistema tem um efeito decisivo para a pesca e o turismo – duas importantes fontes de renda do país.

O recife de coral de mamanuca

Erosão na praia – As tempestades e o aumento do nível do mar lavaram grande parte da costa no sul da ilha Viti Levu. As palmeiras, que deveriam ajudar a proteger a praia da erosão, têm as raízes expostas à medida que o oceano se aproxima da terra. Para lutar contra as mudanças climáticas e resistir melhor ao seu impacto, os moradores de Namatakula fundaram um grupo ambiental.

Duas crianças caminham numa praia

Luta contra as mudanças climáticas – Quando viram que o nível do mar começou a subir e que as tempestades estavam acabando com a praia, os moradores de Namatakula criaram, em 2017, um projeto em que jovens da comunidade enfrentam o problema. O grupo se concentra na limpeza e mecanismos de preservação, como o plantio de árvores. Membros deste projeto participam da COP23 em Bonn, na Alemanha.

Vista aérea de Namatakula, Fiji

Deslocamento de uma vila – Em fevereiro de 2016, o ciclone Winston atingiu a vila de Vunisavisavi, na segunda maior ilha de Fiji, lavando grande parte da costa e destruindo prédios. Desde então, o oceano continua avançando sobre a terra. Os campos são rotineiramente inundados com água salgada, e as casas desabaram nas enchentes. Muitas famílias abandonaram seus lares ou foram transferidas para terrenos mais altos.

Povoado Vunisavisavi, em Fiji, destruído após um ciclone

Mudança para locais mais altos – Sepesa Kilimo Waqairatavu é um dos moradores de Vunisavisavi que pensa em se mudar para uma área mais alta. Alguns parentes dele se mudaram depois que suas casas foram danificadas em 2016. Mas Sepesa ainda está em dúvida, pois, embora o deslocamento para o interior da ilha garanta uma maior proteção, ele ficaria longe da vila e também do mar, já que a pesca é sua principal fonte de renda.

Sepesa Kilimo Waqairatavu, morador de Vunisavisavi

Papel dos ancestrais – Muitos anciãos de Vunisavisavi se recusaram a deixar suas casas, pois acreditam que os antepassados lhes confiaram a proteção da terra. Mas Maria Lolou, de 85 anos, a residente mais antiga da pequena vila, decidiu se mudar para um terreno mais alto com a família em maio de 2016. Na foto, ela aparece com a bisneta no novo lar, financiado por um programa americano de ajuda ao desenvolvimento.

Maria Lolou com a bisneta em Fiji

Desaparecimento de uma atração turística – A Costa dos Corais é um destino muito popular para quem passa as férias na ilha de Viti Levu. A área é conhecida por seus recifes de corais extensos e pouco profundos, facilmente acessíveis a partir da costa. Mas as temperaturas elevadas da água danificaram gravemente o coral. Em alguns locais, ele nem existe mais.

Paisagem montanhosa com praia e complexo hoteleiro

Ilhas artificiais – À medida que a erosão começou a destruir as praias, e os recifes de coral começaram a desaparecer, os administradores de Fiji buscaram novas formas de atrair turistas. Uma solução são ilhas artificiais, como a Fantasy Island. A dragagem de canais e a conversão de áreas improdutivas à beira mar acabou atraindo uma série de resorts de cinco estrelas.

Ilha artificial Fantasy Island

Fonte – Deutsche Welle de 09 de novembro de 2017

Como o aquecimento global pode mudar 5 cidades no mundo

Deutschland Thermometer in Sieversdorf (picture-alliance/dpa/P. Pleul)

ONU alerta que temperatura mundial terá alta de 3,2ºC até 2100. Nova Orleans, Paris, Cidade do Cabo, Daca e Norilsk podem ser particularmente afetadas por fenômenos como tempestades, secas e elevação do nível do mar.

Pouco antes das negociações sobre mudanças climáticas começarem na 23ª Conferência do Clima (COP23) em Bonn, na Alemanha, a ONU alertou que as últimas projeções de aquecimento global apontam uma elevação de 3,2ºC até 2100 – muito acima do objetivo de limitar o aumento da temperatura entre 1,5ºC e 2ºC.

Mas, por trás dos números, quais seriam as consequências de um mundo mais quente? Como diz o próprio nome, o aquecimento global ocorrerá no mundo inteiro, mas os impactos irão variar de um lugar para outro. A DW mostra o que um aumento de 3ºC significaria para cinco cidades mundo afora:

Nova Orleans, EUA: mais tempestades e inundações

USA | Tropensturm Harvey erreicht LouisianaCom o aumento da temperatura global, Nova Orleans poderá sofrer com um maior número de furacões

Se a temperatura global aumentar 3ºC, o futuro de Nova Orleans será incerto. A relação entre as mudanças climáticas e tempestades está apenas começando a ser entendida, mas o aumento do nível do mar e temperaturas da superfície dos oceanos mais quentes sugerem que a cidade provavelmente experimentará mais eventos meteorológicos semelhantes ao furacão Katrina até o fim do século.

A temporada de furacões excepcionalmente hiperativa em 2017 pode ser um prenúncio preocupante dos eventos climáticos que estão por vir. De acordo com Bridget Tydor, urbanista do Conselho de Esgoto e Água de Nova Orleans (SWBNO), a cidade americana está trabalhando duro na manutenção de diques e no preparo para a remoção de um grande número de pessoas, se necessário.

“Como vimos e aprendemos, a proteção ou mitigação contra desastres não é a única parte do quebra-cabeça”, afirma Tydor, que também é membro da delegação americana da Governos Locais por Sustentabilidade (ICLEI) dos EUA que foi à 23ª Conferência do Clima, em Bonn. “Nós também temos que nos adaptar e ter construções e infraestrutura mais sustentáveis para suportar eventos de chuva mais intensos ou até furações.”

Paris, França: ondas de calor e poluição

Paris Smog Feinstaub Umweltverschmutzung Luftverschmutzung Frankreich Eiffel TurmPara lidar com um futuro mais quente, Paris pretende vetar o tráfego de veículos a diesel no centro da cidade

Um aumento de temperatura de 3ºC tornaria as ondas de calor mais comuns – inclusive no local de nascimento do Acordo de Paris. Um estudo recente da World Weather Attribution (WWA) sugere que temperaturas de mais de 40ºC no verão poderiam ser a norma em toda a Europa até 2050.

Grandes cidades como Paris também têm que lidar com a poluição do ar, que é acentuada por ondas de calor prolongadas – e vice-versa. Um estudo de 2017 aponta que, combinadas, ondas de calor e partículas de poluição agravam umas as outras, representando um risco significativo para a saúde humana.

Não precisamos esperar até o fim do século para ver o impacto do tempo quente nos centros urbanos. A França foi especialmente atingida pela onda de calor europeia em 2003, quando Paris registrou uma série de mortes. Mais recentemente, a onda de calor Lúcifer causou calor excessivo no sul da Europa. Paris já está tentando lidar com um futuro mais quente, começando pela proibição de veículos a diesel no centro da cidade, que deve entrar em vigor em 2030.

Cidade do Cabo, África do Sul: seca

Afrika Öl Woche Cape Town Südafrika Kapstadt ÜbersichtPor conta da maior seca em 100 anos, Cidade do Cabo restringiu o uso de água

À medida que as temperaturas aumentam, o risco de seca segue o mesmo caminho – não apenas nas regiões naturalmente áridas, mas também nas que dependem de chuvas sazonais. A Cidade do Cabo está atualmente em meio à sua pior seca em 100 anos.

Johannes Van Der Merwe, membro do comitê de finanças da prefeitura da cidade na COP23, afirma que a cidade está respondendo à crise atual construindo mais aquíferos e estações de dessalinização, além de restringir o uso da água. Porém, a cidade precisará se adaptar no longo prazo à escassez de água.

“Quando parti da Cidade do Cabo, há cerca de uma semana, os níveis das barragens estavam em 38%”, afirmou Van Der Merwe. “Muitas vezes falamos que [esse patamar] é o ‘novo normal’.”

A crescente população da cidade só tornará as coisas mais difíceis. Atualmente, a região metropolitana da Cidade do Cabo tem 3,7 milhões de habitantes, mas a população está crescendo 3% ao ano. “Você pode ser uma cidade bem governada e segura, mas, se não houver água, então você tem um problema”, frisa Van Der Merwe.

Daca, Bangladesh: aumento do nível do mar

Bangladesch Überflutungen nach RegenfällenAltas taxas de pobreza significam que Daca tem capacidade limitada para se adaptar às mudanças climáticas

Com uma população de 14,4 milhões de pessoas, Daca é a quarta cidade mais densamente povoada do mundo – e um dos lugares mais vulneráveis ao aumento do nível do mar.

Um aumento da temperatura média global de 3ºC faria com que o nível dos oceanos aumentasse de dois a quatro metros nos próximos três séculos. Mas uma análise de 2013 mostra que as marés em Bangladesh estão aumentando pelo menos dez vezes mais rápido que a média mundial, o que deve significar um aumento de quatro metros em 2100. Isso faria com que ao menos 15 milhões de pessoas deixassem áreas rurais mais baixas e se mudassem para cidades como Daca.

Muthukumara S. Mani, economista do departamento de desenvolvimento sustentável para o Sul da Ásia do Banco Mundial, identificou áreas que se tornarão “pontos cruciais” de mudanças climáticas nas próximas décadas.

“Definitivamente, Daca é muito vulnerável às mudanças climáticas e precisa estar preparada”, afirmou Mani à DW. “O que acontecerá em Daca também dependerá muito do que acontecerá em outros lugares de Bangladesh. Se as coisas começarem a piorar, as pessoas começarão a migrar para Daca, e isso vai piorar a situação”, frisou a especialista.

Daca está situada apenas quatro metros acima do nível do mar, e altas taxas de pobreza significam que a cidade tem capacidade limitada para se adaptar às mudanças climáticas. “É difícil planejar com antecedência, considerando os recursos limitados que o governo tem agora”, afirma Mani.

Norilsk, Rússia: derretimento do permafrost

Russland Norilsk IndustrieCidades construídas sobre o permafrost, como Norilsk, na Rússia, poderão desmoronar devido ao aquecimento global

O derretimento do permafrost é um sintoma frequentemente ignorado das mudanças climáticas, mas seus impactos já estão sendo sentidos em algumas cidades do mundo localizadas mais ao norte.

Um estudo de 2016 aponta que cidades na Sibéria construídas sobre o permafrost – solo ou sedimento congelado por mais de dois anos consecutivos – estão em perigo de, literalmente, entrar em colapso devido ao aquecimento global.

Norilsk, na Rússia – a cidade mais ao norte do mundo e que tem uma população de mais de 100 mil habitantes – está situada em uma zona de permafrost contínua. Estudos demonstraram que as temperaturas na Rússia ártica estão aumentando mais rapidamente que no resto do mundo.

No ritmo atual, pode ser que os edifícios em Norilsk consigam suportar de 75% a 95% menos peso até os anos 2040. Os moradores já estão relatando um aumento súbito de danos e rachaduras nos prédios à medida que o solo sobre eles se descongela.

Fonte – Ineke Mules, Deutsche Welle de 16 de novembro de 2017

Clima levará 50 anos para normalizar

Anomalias anuais de temperatura em relação a 1981-2010 (Imagem: OMM) Anomalias anuais de temperatura em relação a 1981-2010 (Imagem: OMM)

Mas isso só se o Acordo de Paris for efetivamente implementado; para Peteri Taalas, da Organização Meteorológicas Mundial, “estamos no rumo de 3 a 5 graus de aquecimento”

Se a humanidade tiver sucesso em implementar o objetivo mais ambicioso do Acordo de Paris e estabilizar o aquecimento global em 1,5oC, o mundo seguirá batendo recordes climáticos negativos até por volta de 2060. A avaliação sombria foi feita pelo finlandês Petteri Taalas, chefe da Organização Meteorológica Mudial (OMM), nesta segunda-feira (6) – que emendou, no entanto, que “até agora não estamos nos movendo nessa direção”.

Taalas apresentou à imprensa, na abertura da COP23, em Bonn, as conclusões preliminares do Estado do Clima Global, um relatório produzido anualmente pela OMM que registra as principais alterações do clima da Terra. Em 2017, o relatório contou com participação de outras nove agências da ONU, como o FMI, que estimou também as perdas de PIB causadas pelo aquecimento global no mundo.

O rosário de desgraças climáticas deste ano, desfiado pelo chefe da OMM na conferência de Fiji-Bonn, é conhecido de qualquer pessoa que não tenha acabado de chegar de Marte. Mas mesmo assim impressiona quando mostrado em conjunto: 2017 será o segundo ou terceiro ano mais quente de todos os tempos desde o início das medições, em 1880, e o mais quente da história sem El Niño, superando de longe 2014; entre janeiro e setembro, a temperatura ficou 1,1oC acima da média de 1880 a 1900; as concentrações de dióxido de carbono (CO2) na atmosfera em 2016 foram as maiores em 3 milhões de anos, ultrapassando 403 partes por milhão, mesmo num ano em que as emissões de carbono por uso de energia não cresceram; recordes também foram batidos nas concentrações de metano (CH4) e óxido nitroso (N2O), respectivamente o segundo e o terceiro gases de efeito estufa mais importantes.

A alta temperatura causou ondas de calor e incêndios florestais no sudoeste da Europa, na Califórnia e no Canadá; na Patagônia argentina, os termômetros bateram 43,5oC abaixo da latitude 45 Sul; secas agravaram guerras no Iêmen, no Sudão do Sul e na Somália.

E tudo isso para não falar na temporada de furacões de 2017, a mais cara de toda a história, com duas supertempestades (Harvey e Irma) tocando terra nos EUA, três furacões de categorias 4 e 5 se sucedendo em duas semanas e o furacão de categoria 5 mais duradouro da história, o Irma.

“A Organização Mundial da Saúde começa a ver um aumento no número de pessoas expostas a ondas de calor. São 175 milhões por ano”, disse Taalas. E as estimativas do FMI dão conta de que os países mais pobres da América Latina, da África, do Sudeste Asiático e da Oceania estão vendo um encolhimento de suas economias da ordem de 2% a 4% devido a mudanças decorrentes da elevação de 1oC na temperatura global.

Imagine agora que as discussões em Bonn visam tentar limitar o aquecimento a quase o dobro disso. Segundo o chefe da OMM, mesmo que esse esforço seja bem-sucedido e a humanidade consiga nos próximos 20 anos atingir a meta mais ambiciosa do Acordo de Paris, limitar o aquecimento a 1,5oC, o número de eventos extremos continuará crescendo por décadas.

“A coisa negativa sobre o sistema climático é que nós emitimos tanto que vai levar 50 anos para [o planeta] se recuperar, o que significa mais tendências negativas e mais recordes desconfortáveis”, disse Taalas. “Se nós conseguirmos implementar o Acordo de Paris, poderíamos ver uma redução disso a partir dos anos 2060. Caso contrário, claro, isso continuará por milhares de anos, dada a persistência do CO2 na atmosfera.”

O problema, afirmou, é que não há nada hoje que nos autorize a antever o melhor cenário. “Até aqui não temos caminhado nessa direção; caminhamos para 3oC a 5oC de aquecimento neste século.”

Fonte – Claudio Angelo, Observatório do Clima de 06 de novembro de 2017

Emissões em 2017 batem recorde e soterram esperança de “pico”

fung.leo

Aumento previsto para este ano é de 2%, após três anos sem crescimento; estímulo econômico e incremento do setor de petróleo na China, além de mau desempenho da Europa, estão entre causas, sugerem dados revelados em Bonn

Foi bom enquanto durou. Mas a esperança de que o mundo tivesse atingido o platô de emissões de dióxido de carbono acaba de ser assassinada. Seu algoz foi o GCP (Global Carbon Project), um grupo internacional de cientistas que monitora todos os anos quanto carbono a humanidade despeja no ar.

Nos últimos três anos – 2014, 2015 e 2016 – o GCP tem feito a publicação de seus dados nas conferências do clima, sempre com uma boa notícia: as emissões globais do setor de energia haviam aparentemente interrompido sua trajetória incansável de crescimento, mesmo com crescimento da economia. Embora os cientistas do GCP sempre tenham tido cuidado em afirmar que não dava para dizer que isso era uma tendência, muitos formuladores de políticas públicas viam nos dados uma evidência de que a humanidade poderia ter atingido o pico de emissões – seguido de um inevitável declínio.

Só que não. Os dados preliminares de 2017, apresentados nesta segunda-feira (13) na COP23, em Bonn, apontam para um crescimento de 2% nas emissões globais de CO2 até o fim do ano. Elas devem bater um novo recorde, atingindo 41 bilhões de toneladas.

O GCP não põe nessa conta outros gases de efeito estufa, como o metano. Somados, eles aumentariam as emissões globais por todos os setores significativamente. No ano passado, por exemplo, dados da ONU mostram que as emissões totais atingiram 51,9 bilhões de toneladas de CO2 equivalente.

“Isso mostra que não dá para sermos complacentes e acharmos que as emissões ficarão estáveis”, disse Glen Peters, pesquisador do CICERO, na Noruega, e um dos líderes científicos do GCP. Ele admitiu, no entanto, que os dados de 2014, 2015 e 2016 foram uma ilusão útil. “Isso trouxe um otimismo e uma esperança muito necessários à discussão climática, de acreditar que poderíamos cumprir a meta de [estabilizar o aquecimento global em menos de] 2oC”, afirmou. Esse objetivo foi consagrado no Acordo de Paris, cujo manual de instruções está sendo negociado em Bonn até o final desta semana.

A lógica dos esperançosos se baseava num suposto “desacoplamento” entre crescimento econômico e emissões. Ganhos de eficiência energética, substituição do carvão mineral e avanço das energias renováveis, em especial nos quatro maiores emissores do mundo – China, EUA, União Europeia e Índia – haviam produzido o aparente milagre de manter as emissões estáveis mesmo com um crescimento médio de 3% do PIB mundial ao longo desse período.

E isso de fato aconteceu. Nos EUA, o carvão mineral deu lugar ao gás natural; na China, várias centenas de usinas a carvão vêm sendo desativadas ou tendo sua construção cancelada, devido ao barateamento dos fósseis; e na Europa, uma combinação entre eficiência e renováveis tem reduzido emissões.

No entanto, “esse equilíbrio é muito frágil”, disse Corinne LeQueré, diretora do Tyndall Centre, da Universidade de East Anglia (Reino Unido) e uma das investigadoras principais do GCP. Em 2017, uma retomada do consumo de carvão na China e um aumento no uso de petróleo, na esteira de um pacote de estímulo econômico baixado pelo governo no fim de 2016, além de um ano seco que reduziu a geração das hidrelétricas, causaram um aumento de 3,6% nas emissões chinesas.

Mesmo com uma desaceleração nas emissões indianas, que cresceram apenas 3% (metade dos últimos anos) em 2017 e o leve declínio visto na Europa (0,2%) e nos EUA (0,4%), a China mais uma vez puxou as emissões globais para cima.

“A tendência nos próximos anos é crítica para o nível de aquecimento que veremos nas próximas décadas e os riscos a ele associados”, afirmou LeQueré.

E deu um recado para países como o Brasil, que estão mergulhando de cabeça na economia do petróleo: “Precisamos de reduções em toda a economia, não apenas no carvão, mas também no óleo e gás.”

Os dados são um balde de cerveja fria para a COP de Fiji-Bonn, que começou sob ameaça de ressurgimento da rusga política entre países ricos e pobres que contaminou as negociações climáticas por 20 anos antes do Acordo de Paris. E sinalizam que a meta do acordo do clima, mais uma vez, está balançando.

“Quando você olha para as promessas nacionais, elas implicam emissões mais ou menos estagnadas pelos próximos anos. Não estamos nem de perto no rumo de 2oC”, disse Glen Peters. “Até mesmo para assegurar emissões estagnadas precisamos reforçar as políticas públicas, e não há muita coisa acontecendo em termos de políticas públicas”, continuou. “Nos últimos anos tivemos sorte de ter o crescimento econômico compensado pelo aumento da eficiência energética e das renováveis. Mas, no rumo de 4% ao ano de crescimento, para não ter aumento correspondente de emissões, teremos de ter políticas públicas fortes”.

Fonte – Observatório do Clima de 13 de novembro de 2017

Documento de 15000 cientistas: o planeta em crise, a mudança é agora ou nunca mais

Documento di 15000 scienziati: il Pianeta in crisi, si cambi ora o mai più

Para uma civilização cujo desenvolvimento é medido em milênios, 25 anos não é nada. Certamente não deveria ser suficiente para devorar um planeta inteiro. Mas é para isso que estamos nos encaminhando, e em um aviso para a humanidade, os cientistas explicam que, no espaço de uma ou duas gerações tomamos o caminho da autodestruição.

Era 1992, quando a Union of Concerned Scientists (UCS, uma organização internacional de cientistas envolvidos em campanhas pela sustentabilidade, sediada nos EUA) publicou o primeiro “Aviso dos cientistas do mundo para a humanidade”. Assinado por mais de 1.400 especialistas, o documento mostrava indicadores alarmantes, do desmatamento às reservas hídricas, até o crescimento da população: as atividades humanas estavam destruindo os ecossistemas, conduzindo a própria humanidade a uma crise global, sem precedentes.

Depois de um quarto de século, e não por acaso publicado exatamente durante as negociações da 23ª Conferência das Partes, em Bonn da Convenção das Nações Unidas sobre as mudanças climáticas, os cientistas da UCS emitiram um segundo aviso.

Usando dados de organizações governamentais e não-governamentais, os especialistas avisam: estamos a ponto de provocar um “dano irreversível” ao planeta Terra, estamos a um passo de atingir os limites de tolerância da biosfera. Eles reiteram a mensagem escrita muito claramente 25 anos atrás: “É preciso uma mudança drástica na gestão dos recursos terrestres” para evitar o colapso do sistema Terra, o ser humano incluído.

Os signatários do documento, liderados por William Ripple, professor de ciências florestais na Universidade Estadual de Oregon, desta vez são 15 000 (dos quais 280 operam em instituições italianas), provenientes de 184 países e incluem a maioria dos ganhadores do prêmio Nobel ainda vivos. Nunca tantos especialistas se reuniram em um único documento científico.

Seria fácil rotular o apelo como um alarmismo com viés catastrófico-ficcional. O trabalho dos cientistas é estudar as mudanças a longo prazo nos ecossistemas, explica Ripple. “E aqueles que assinaram não estão levantando um falso alarme: estão apenas avisando sobre os sinais claros de que estamos seguindo ladeira abaixo, rumo a um percurso insustentável”. Os progressos realizados para uma coexistência entre a espécie humana e todas as outras formas de vida, e para garantir um futuro para nós mesmos, são poucos, mas importantes. Quem escreve isso é Ripple e seus colegas na revista Bioscience, onde publicaram o relatório.

Foram registrados progressos na redução de compostos químicos responsáveis pelo buraco de ozônio, no aumento da produção de energia a partir de fontes renováveis, mas também no declínio da fertilidade (ligado a programas de educação e de sensibilização) em algumas regiões, e, por fim, no declínio da taxa de desmatamento, que passou de 0,18% por ano em 1992 para 0,08% ao ano atualmente. Essas são as melhorias, de outra forma, todo o resto continua muito preocupante.

É grave a situação dos recursos hídricos per capita, que diminuíram em 26% desde 1992 (vocês não sentiram o problema? Muito possivelmente sim, no mais é uma média e significa que em algum lugar alguém provavelmente ficou sem água). Continuam a diminuir os estoques de pescado, embora o boom da aquicultura tenha dado algum fôlego para os oceanos. Aumentam, e dramaticamente, as “zonas mortas” marinhas: milhares de quilômetros de costa tornaram-se estéreis pelo afluxo de poluentes originados pelo setor agropecuário (por exemplo, os fertilizantes para a agricultura).

Estamos derrubando menos árvores, certamente, mas ainda assim perdemos 122 milhões de hectares de florestas em 25 anos, dizendo um não a um dos melhores seguros contra o aquecimento global. Disso decorre o problema da atmosfera, aquecida por emissões de gases de efeito estufa que aumentaram implacavelmente em 62% em vinte anos. Tudo isso causou um aumento na temperatura média global na Terra de 167%, e repercute sobre nossos coinquilinos do reino animal: desde 1992, perdemos 29% das espécies, entre mamíferos, anfíbios, répteis, peixes e aves.

Os cientistas insistem que é crucial, para superar essa longa descida rumo ao colapso, a redução da taxa de crescimento da população humana, que aumentou em 2 bilhões em 25 anos, equivalente a um aumento de 35% desde o primeiro aviso da UCS.

E a Itália, em tudo isso? Qual é a sua contribuição? De acordo com Alberto Basset, professor de ecologia da Universidade de Salento, e signatário do aviso, “o fato de que em alguns países, como a Itália, muitos dos indicadores estejam na contratendência não é motivo de tranquilidade e nem mesmo de satisfação. De fato, nossa ‘pegada ecológica‘ geral vai além do território italiano e contribui para as tendências globais destacadas no relatório”. “Na Itália, as mudanças na superfície florestal e na população estão na contratendência em relação aos dados globais. A preservação das espécies animais e vegetais é muito avançada, a perda de habitat reduzida e em alguns casos verificou-se uma recuperação de habitats prioritários, como, por exemplo, é o nosso rico patrimônio lagunar. No entanto, existem outros pontos fracos, como a invasão de espécies exóticas, o abandono das terras agrícolas, a exploração excessiva das águas subterrâneas, e o nível de poluição geral, todos elementos de desequilíbrio significativos para o nosso país”, explica o ecologista.

Basset afirma que “a principal prioridade é a difusão da cultura ecológica no nosso país que leve os cidadãos a estarem cientes da interdependência da nossa saúde e do nosso bem-estar com aqueles das outras espécies com as quais compartilhamos o território. O conhecimento científico e as políticas de prevenção mais avançadas são certamente importantes, mas o elemento decisivo é o nosso comportamento e nossa percepção do valor dos ecossistemas”.

Uma visão, esta, compartilhada pelos autores do relatório, segundo os quais a intervenção política é fundamental, mas, dizem, “chegou o momento de re-examinar e mudar os comportamentos individuais, incluindo nossa reprodução (limitar-se a dois filhos por família), e a diminuição drástica do consumo per capita de combustíveis fósseis e de carne“.

É o segundo aviso, e desta vez pede a nossa participação, das nossas comunidades, das nossas famílias. Haverá tempo para uma terceira advertência?

Fontes – Jacopo Pasotti, La Repubblica / tradução Luisa Rabolini, IHU de 14 de novembro de 2017

Aquecimento global é uma grave ameaça à saúde

Poluição, ondas de calor, epidemias, desnutrição… Um novo relatório do “The Lancet” avalia os efeitos do aquecimento global na saúde humana de forma perturbadora.

O aquecimento global tem um custo enorme para a nossa saúde e, como enfatizou, em 2015, a Comissão de Saúde e do Clima (Commission for Health and Climate) do The Lancet, pode estragar os últimos 50 anos de progresso da medicina no mundo.

Agora, um novo relatório publicado na respeitada revista britânica na terça-feira, dia 31 de outubro, confirma a tendência alarmante.
O relatório, que é a primeira edição de “The Lancet Countdown: Tracking Progress on Health and Climate Change” (Contagem Regressiva The Lancet: Acompanhando o Progresso na Saúde e nas Mudanças Climáticas), analisa os efeitos das ondas de calor, da poluição e da proliferação de insetos vetores de epidemias em grande escala, acompanhando 40 indicadores.

A “Contagem Regressiva The Lancet” resulta de um projeto conjunto de 24 organizações de pesquisa e instituições internacionais, como a Organização Mundial da Saúde e o Banco Mundial. O objetivo é publicar um relatório a cada ano até o ano de 2030.

Os números falam por si. Entre 2000 e 2016, o número de pessoas vulneráveis expostas às ondas de calor disparou.

Em 2015, a taxa aumentou em 125 milhões, afetando 175 milhões pessoas, com inúmeros riscos importantes, tais como insolação e agravamento de condições cardíacas ou de insuficiência renal pré-existentes.

De acordo com o relatório, apenas a poluição por carbono contribuiu para mais de 800.000 mortes prematuras na Ásia neste mesmo ano. Os efeitos das ondas de calor e da seca na produção agrícola e no abastecimento de alimentos também causam preocupação.

A revista The Lancet estima que o aumento de temperaturas causou uma queda de 5,3% na produtividade dos trabalhadores em áreas rurais desde 2000, colocando as populações agrárias carentes em risco de não conseguirem se sustentar.

O relatório também destaca o aumento alarmante da desnutrição no mundo. De acordo com os cálculos dos pesquisadores, cada grau a mais pode resultar em uma diminuição de 6% e 10% na produção de trigo e de arroz, respectivamente.

Epidemias também foram objeto de atenção no relatório.

A incidência de certas doenças, como a dengue e o chicungunha, em breve, pode aumentar muito, devido ao clima mais quente e à proliferação de mosquitos vetores. Os pesquisadores estimam que a capacidade vetorial para a transmissão da dengue já aumentou 9,4% desde a década de 50.

Esta é uma observação preocupante, porque as consequências para a saúde poderiam ter sido diminuídas se políticas ambiciosas de mitigação e adaptação tivessem sido postas em prática durante a década de 90, após as primeiras advertências da ONU e do IPCC sobre o estado do planeta.

Os pesquisadores foram cautelosos nas suas conclusões nesta primeira edição. Isto é particularmente significativo, uma vez que os efeitos das alterações climáticas na saúde pública também contribuem para o aumento da desigualdade no mundo, afetando as populações mais vulneráveis primeiro.

Porém, os pesquisadores também veem o lado bom da situação, com o aumento geral da consciência nos últimos cinco anos e, em particular, com o acordo de Paris, de 2015.

“Pode ir de uma grande ameaça para a saúde a maiores avanços no campo da saúde durante a próxima década”, afirma o professor Anthony Costello, diretor da OMS, que co-dirigiu o relatório.

Os autores também pediram uma aceleração da “transição para uma sociedade com baixo consumo de carbono”.

Fontes – Delphine Nerbollier, La Croix International / tradução Luísa Flores Somavilla, IHU de 01 de novembro de 2017

As emissões de CO2 atingiram os maiores níveis em 800 mil anos

Ano passado, um poderoso El Niño deixou meteorologistas na expectativa de um aumento nas emissões de dióxido de carbono (CO2) na atmosfera. A World Meteorological Organization (WMO) divulgou um relatório nesta segunda (30) que confirma estas projeções, mostrando que concentrações de CO2 “aumentaram em velocidade recorde em 2016 para os maiores níveis em 800 mil anos”.

A combinação de atividades humanas e o El Niño – que lançaram uma série de secas em regiões tropicais, o que limitou o sequestro de CO2 pelas plantas – causaram concentrações médias de CO2 a elevar em um ritmo recorde de 3,3 partes por milhão (ppm). Concentrações subiram para 403,3 ppm em 2016, em comparação, 2015 atingiu 400 ppm. Níveis de CO2 estão 145% acima de níveis pré-industriais, que registravam aproximadamente 280 ppm.

Ao anunciar os resultados na reunião anual sobre efeito estufa nas Nações Unidas, o secretário-geral da WMO, Petteri Taalas, alertou que sem cortes rápidos em emissões de CO2 e outros gases do efeito estufa, a temperatura aumentara além de 2º Celsius até o fim do século, meta estabelecida pelo Acordo de Paris sobre mudanças climáticas.

“As leis da física mostram que encararemos um clima muito quente e muito mais extremo no futuro”, ele disse. “Atualmente não existe uma varinha de condão que possa remover este CO2 da atmosfera”.

De acordo com o relatório, a taxa de aumento do CO2 atmosférico nos últimos 70 anos é aproximadamente 100 vezes maior que a taxa do fim da era do gelo.

“Pelo que podem nos dizer as observações diretas e indiretas, mudanças tão bruscas nos níveis atmosféricos de CO2 nunca foram vistas antes”, escrevem os autores.

Ano passado também foi o ano mais quente já registrado desde 1880, quando registros modernos tiveram início.

O relatório – junto de outro estudo, “Relatório de Emissões de Gás” do departamento de meio ambiente das Nações Unidas, que rastreia as emissões de gases do efeito estufa em países – foi divulgado na véspera das negociações climáticas das Nações Unidas, que ocorrem de 7 a 17 de novembro, em Bonn, na Alemanha. Juntos, os relatórios visam mostrar como a lacuna entre as atuais emissões e as metas de emissões podem ser superadas.

“Os números não mentem. Continuamos a emitir demais e isso precisa ser revertido”, disse Erik Solheim, chefe do departamento de meio ambiente das Nações Unidas, em um comunicado. “Nos últimos anos temos visto uma enorme aceitação da energia renovável, mas devemos redobrar nossos esforços para garantir que estas novas tecnologias de baixa emissão de carbono possam prosperar. Já temos muitas das soluções para resolver este problema. O que precisamos agora é vontade política global e um novo senso de urgência”.

A administração do presidente americano, Donald Trump, tem dramaticamente diminuído o senso de urgência sobre mudanças climáticas nos EUA, com o presidente até ameaçando retirar o país do Acordo de Paris. Apesar de tudo isso, os EUA ainda exercerão um grande papel nas futuras conversas sobre mudanças climáticas, já que nenhum país pode se retirar do acordo antes de 2020. Muitas nações ainda acreditam que os EUA podem ser convencidos a se manter no acordo.

Fonte – Ari Phillips, Gizmodo Brasil de 30 de outubro de 2017 às

Dívida das famílias e perda de patrimônio pela elevação do nível do mar nos EUA

“É triste pensar que a natureza fala e que o ser humano não a ouve”
Victor Hugo

Os Estados Unidos (EUA) são o país mais rico do mundo (quando medido em dólares de mercado) com Produto Interno Bruto (PIB) de US$ 19,4 trilhões e renda per capita de US$ 52,3 mil, em 2017. A China (o primeiro país quando medido em poder de paridade de compra é o segundo quando medido em dólar de mercado) tem um PIB de US$ 11,8 trilhões e renda per capita de US$ 8,5 mil, em 2017. Portanto, a renda per capita americana é mais de 6 vezes a renda per capita chinesa em dólares de mercado e cerca de 4 vezes em poder de paridade de compra.

Porém, toda essa riqueza americana e de suas famílias está ameaçada pelo aumento da dívida e pela elevação do nível do mar.

A dívida total dos EUA (governamental e privada) é de US 41 trilhões, o que significa que cada família deve, em média, US$ 330 mil, segundo artigo de Snyder (26/07/2017). Segundo o autor, vivemos na maior bolha da dívida na história. Em 1980, a dívida total do governo e do setor privado nos Estados Unidos estava pouco acima da marca de US$ 3 trilhões, mas hoje ultrapassou os US$ 41 trilhões de dólares. Isso significa que aumentou quase 14 vezes desde que Ronald Reagan foi eleito presidente pela primeira vez. Isso representava US$ 38,5 mil por família e esse número representava 79% da renda familiar média em 1980. Hoje, a dívida média das famílias já representa 584% do rendimento familiar médio. Ou seja, a dívida é muito maior do que o patrimônio.

Para piorar a situação, milhões de pessoas que possuem domicílios na orla litorânea estão ameaçadas pela elevação do nível do mar. Vão ficar com suas hipotecas, mas sem um teto para morar. Evidentemente, isto vai gerar uma grande crise no setor privado que vai rebater no setor público. Acontece que os EUA já são o país mais endividado do mundo, com uma dívida total de mais de 200% do PIB. Ou seja, milhões de famílias vão perder suas casas mas vão ficar com as suas dívidas e sem poder contar com um governo endividado que terá poucas condições de ajudar.

A imobiliária americana Zillow publicou recentemente uma análise com base na estimativa de que o aumento do nível do mar poderia subir 1,8 metro. Neste cenário, cerca de 2 milhões de lares americanos seriam inundados até 2100, um fato que deslocaria milhões de pessoas e resultaria em perdas de propriedades na casa das centenas de bilhões de dólares. Cerca de 300 cidades dos EUA perderiam pelo menos metade de suas casas, e 36 cidades dos EUA seriam completamente perdidas.

Uma em cada oito casas na Flórida ficaria subaquática, sendo responsável por quase a metade do valor da habitação perdido todo o país. A Flórida perderia quase um milhão de residências e seria o estado mais afetado dos EUA. O valor médio de uma casa em risco de ser debaixo d’água é de US$ 296.296. O valor da casa média dos EUA é de US$ 187.000. Portanto, o valor médio do patrimônio está abaixo do valor médio da dívida das famílias.

Reportagem de Anne Mulkern (21/07/2017) mostra que a elevação do nível do mar já está afetando a maioria das cidades litorâneas da Califórnia. Mostrando uma cidade ao norte de San Diego, a jornalista constata que a faixa de areia da praia está encolhendo, e a maré alta está se aproximando. Ela entrevistou Kim Fletcher, um morador que testemunhou a transformação do local, pois seu avô materno comprou mais de 10 hectares de propriedade à beira-mar em 1946 e construiu casas e vendeu lotes. Naquela época a areia seca da praia era abundante. Fletcher diz que existiam vários equipamentos na praia, mas agora não há mais espaço, pois trata-se de uma praia diferente. Na maré alta já não existe a praia e as ondas chegam no paredão da casa, agora protegido por pedras que tiram espaço da praia. Em alguns momentos de ressaca, a água salgada já invade a propriedade.

A prefeitura discute alternativas com os moradores da cidade. Mas não há consenso, pois enquanto os proprietários litorâneos tentam salvar seus patrimônios a população tenta salvar a praia e as áreas públicas comuns. Mas o fato inexorável é que não há dinheiro suficiente para conter o avanço do mar e o prejuízo será socializado.

A Flórida será um dos estados mais afetados pelo aumento da temperatura e pelas inundações causadas pelo aumento do nível do mar. Na tarde do dia 03/08/2017, uma chuva torrencial encharcou partes de Miami e Miami Beach. De quatro a sete centímetros de chuva, em poucas horas, provocaram inundações e engarrafamentos extensivos. Os carros flutuavam nas calhas, e os vizinhos ajudaram a empurrar motoristas encalhados pela rua. Os carros estacionados em estradas inundadas passaram na vigília enquanto caminhões maiores e SUVs passaram. A água não tinha para onde ir quando a chuva mais pesada surgiu enquanto a maré estava subindo. Não conseguiu drenar até que as marés começassem a diminuir as horas depois. Este problema se agrava nas luas cheias, conhecido coloquialmente como “King Tides”.

Mas, à medida que o nível do mar continua se elevando, a linha de base aumenta e as inundações (tanto de água doce como de água salgada) tornam-se cada vez mais comuns. E os prejuízos patrimoniais sobem. Essa é a nova realidade da área litorânea dos Estados Unidos.

Os prejuízos com os furacões Harvey, Irma, Maria e Nate (além de Kátia, José, Lee, Ophelia, e os tufões Talim e Doksuri na China) são mais um capítulo da desvalorização patrimonial de várias localidades americanas. O nível de emprego nos EUA caiu no mês de setembro 2017 (a primeira queda em anos), em decorrência do menor nível de atividade provocado pelos eventos climáticos danosos. A cidade de Nova Orleans, que foi duramente castigada pelo furacão Katrina, em 2005, voltou a ser abalada, em menor proporção, nos dias 08 e 09 de outubro de 2017 (50 anos da morte de Che Guevara) pela tempestade tropical Nate.

Artigo de E. Rush (15/09/2017), mostra que as mudanças climáticas estão transformando terras idílicas em terrenos inóspitos para a vida, especialmente nas regiões costeiras. Porto Rico, por exemplo, que já sofria com a crise econômica, está se tornando um território inabitável depois dos estragos provocados pelos eventos climáticos extremos de setembro de 2017.

No dia 20 de janeiro de 1961, quando os EUA eram uma potência global cada vez mais forte, o presidente John F. Kennedy, do alto de sua estatura política, disse a famosa frase: “Não pergunte o que seu país pode fazer por você. Pergunte o que você pode fazer por seu país”. Mas famílias endividadas e sem patrimônio não poderão ajudar ao país. Os EUA são uma nação em declínio relativo e têm um presidente controverso, de estatura política rasa, de linguajar medíocre e que é contra o Acordo de Paris. Neste quadro, parece que a única alternativa à vista é: “salve-se quem puder”!

Referências

Michael Snyder. Total Government and Personal Debt in The U.S. Has Hit 41 Trillion Dollars (US $329,961 per household), 26/07/2017
http://theeconomiccollapseblog.com/archives/total-government-and-personal-debt-in-the-u-s-has-hit-41-trillion-dollars-329961-34-per-household

Krishna Rao. Climate Change and Housing: Will a Rising Tide Sink all Homes? Zillow, 02/08/2016
http://www.zillow.com/research/climate-change-underwater-homes-12890/

Anne C. Mulkern. A rich town’s choice: Protect its homes or save the beach? E&E News, 21/07/2017
https://www.eenews.net/stories/1060057722

Elizabeth Rush. Harvey and Irma are the new normal. It’s time to move away from the coasts. Washington Post, 15/09/2017
https://www.washingtonpost.com/outlook/irma-and-harvey-are-the-new-normal-its-time-to-move-away-from-the-coasts/2017/09/15/4ff2a61e-9971-11e7-87fc-c3f7ee4035c9_story.html?tid=ss_tw&utm_term=.6178acc40854

José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal.

Fonte – EcoDebate de 20 de outubro de 2017

Mudanças climáticas têm consequências devastadoras para a saúde da população

Anastasia Chairet, de sete anos, atravessa uma ponte improvisada após a passagem do furacão Irma pelas ilhas Turks e Cacos, no Caribe. Foto: UNICEF/Manuel Moreno GonzalezAnastasia Chairet, de sete anos, atravessa uma ponte improvisada após a passagem do furacão Irma pelas ilhas Turks e Cacos, no Caribe. Foto: UNICEF/Manuel Moreno Gonzalez

Os furacões Irma e Maria, que devastaram o Caribe, são “um trágico lembrete de que o clima do nosso mundo está mudando, com efeitos devastadores para a saúde”, alertou o diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adhanom Ghebreyesus. Declaração foi feita na abertura da 29ª Conferência Pan-Americana da Saúde, que teve início nesta segunda-feira (25), em Washington. Fenômenos naturais ocuparam o centro dos debates.

A Conferência Pan-Americana da Saúde reunirá até o final da semana (29) representantes de todos os Estados-membros da OPAS para discutir os rumos da cooperação técnica que a agência desenvolve com cada país. O evento acontece apenas de cinco em cinco anos, sendo a instância deliberativa mais elevada do organismo regional. Durante o encontro, as nações que integram a OPAS escolherão um novo diretor para a entidade.

Os furacões Irma e Maria, que devastaram o Caribe, são “um trágico lembrete de que o clima do nosso mundo está mudando, com efeitos devastadores para a saúde”, alertou o diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adhanom Ghebreyesus. Declaração foi feita na abertura da 29ª Conferência Pan-Americana da Saúde, que teve início nesta segunda-feira (25), em Washington. Fenômenos naturais ocuparam o centro dos debates.

O dirigente máximo da agência da ONU acrescentou que a OMS tem feito o possível para dar apoio “aos pequenos Estados insulares, que são os menos responsáveis pelas mudanças climáticas, mas o que estão mais em risco”.

Dirigindo-se aos representantes de países caribenhos e também do México — recentemente atingido por dois terremotos —, a chefe da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), Carissa Etienne, expressou condolências pelas mortes e pela destruição provocada pelas catástrofes.

“Comprometemo-nos a trabalhar com todos vocês para garantir o rápido restabelecimento e funcionamento efetivo de seus sistemas de saúde. As perdas econômicas resultantes desses desastres, incluindo seus impactos físicos diretos, serão astronômicas”, afirmou a dirigente. Etienne enfatizou ainda que a reconstrução será enorme e difícil, sobretudo para os pequenos Estados insulares em desenvolvimento, para os pobres e mais vulneráveis.

Os números dos desastres no México e em Dominica

Na semana passada (19), um terremoto de 7,1 graus na escala Richter atingiu o México, deixando ao menos 249 pessoas mortas e outras 1,8 mil feridas. No início do mês (7), outros tremores — de intensidade 8,1 — já haviam afetado o sul do país. Segundo as autoridades nacionais, nenhum dos 94 estabelecimentos de saúde da Cidade do México sofreu danos severos e todos estão operando completa ou, ao menos, parcialmente.

Em Dominica, uma das ilhas caribenhas arrasadas pelos furacões Irma e Maria, 85% das moradias foram danificadas pelas tempestades. Água e alimento são escassos. Uma equipe da OPAS que esteve no país na semana passada relatou que serviços críticos de diálise e transfusão de sangue não estavam disponíveis para a população.

Em resposta à crise, o Departamento do Reino Unido para o Desenvolvimento Internacional (DFID) liberou 2,5 milhões de libra esterlinas para ampliar as iniciativas de saúde nas zonas afetadas. Saiba mais sobre a situação do Caribe clicando aqui.

Conferência elegerá novo diretor da OPAS

A Conferência Pan-Americana da Saúde reunirá até o final da semana (29) representantes de todos os Estados-membros da OPAS para discutir os rumos da cooperação técnica que a agência desenvolve com cada país. O evento acontece apenas de cinco em cinco anos, sendo a instância deliberativa mais elevada do organismo regional. Durante o encontro, as nações que integram a OPAS escolherão um novo diretor para a entidade.

Dominica apresentou a candidatura de Carissa Etienne, que é a atual diretora da OPAS. Ela tomou posse em 2013. Até o momento, Etienne é a única gestora apresentada para disputar o cargo. Conforme o regulamento, a dirigente pode renovar seu mandato por mais cinco anos.

Ao longo das atividades da Conferência, a OPAS divulgará o informe Saúde nas Américas+2017, que atualiza a situação de saúde em cada um dos 52 países e territórios da região.

Entre as pautas do 29ª encontro, estão políticas de combate ao tabagismo; as consequências da violência para o bem-estar da população; e estratégias de prevenção do câncer cervical. Também será discutida a Agenda de Saúde Sustentável das Américas, que foi desenvolvida pelos próprios países-membros da OPAS e servirá de marco para o trabalho regional voltado para o cumprimento dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU.

Durante a semana, serão realizados ainda vários eventos paralelos sobre temas como desigualdades no acesso a saúde; mudanças climáticas e saúde; saúde dos migrantes; melhorias dos serviços de saúde para melhorar gerenciamento de doenças não transmissíveis; políticas para promover uma alimentação saudável; e segurança no trânsito. Saiba mais sobre a programação da 29ª Conferência clicando aqui.

Fontes – ONU Brasil / EcoDebate de 27 de setembro de 2017

A biodiversidade da Terra está mudando à medida que o planeta aquece. Mas como?

Os mapas mostram a distribuição de florestas tropicais de monhanha, usando dados de cobertura de satélites. Os satélites que observam a Terra fornecem muitos tipos de dados sobre os ecossistemas do planeta, e o Mapa da Vida começará a incorporar esses dados para melhorar o conhecimento geográfico de onde as espécies vivem. Crédito: Adam Wilson e Walter Jetz, PLOS Biology, 2016Os mapas mostram a distribuição de florestas tropicais de montanha, usando dados de cobertura de satélites. Os satélites que observam a Terra fornecem muitos tipos de dados sobre os ecossistemas do planeta, e o Mapa da Vida começará a incorporar esses dados para melhorar o conhecimento geográfico de onde as espécies vivem. Crédito: Adam Wilson e Walter Jetz, PLOS Biology, 2016

Um ecologista da Universidade de Bufalo, EUA, está desenvolvendo uma nova ferramenta de mapeamento que poderia nos ajudar a entender como o aquecimento global afetará as populações de plantas e animais

À medida que o clima da Terra muda, os padrões de mudança de clima afetarão onde plantas e animais podem viver.

Algumas espécies – como ursos polares, sapos e até zangões – podem ver a redução de seus habitats. Outros podem ser forçados a se mudar para novos ambientes.

Para nos ajudar a entender as mudanças maciças em curso, na Universidade de Buffalo, o ecologista Adam Wilson, está ajudando a desenvolver uma nova ferramenta para visualizar como as populações de plantas e animais em todo o mundo estão respondendo às mudanças climáticas.

Wilson, PhD, professor assistente de geografia na UB College of Arts and Sciences, está trabalhando com o Map of Life (Mapa da Vida), um recurso on-line liderado pela Universidade de Yale e pela Universidade da Flórida. Atualmente, a plataforma permite que todos, desde os alunos até os pesquisadores, vejam onde diferentes espécies estão localizadas no mundo – onde plantas e animais foram observados em todos os continentes e em que medida seus habitats se estendem.

A equipe Map of Life quer expandir o sistema para incluir dados ambientais e climáticos, para que os usuários possam visualizar e analisar os links entre clima e mudança de habitat no nível de espécies individuais.

Wilson está desenvolvendo modelos que permitirão ao time do Map of Life integrar as observações meteorológicas, como a precipitação, temperatura e padrões de cobertura de nuvem na plataforma, tornando esses dados mapeáveis e pesquisáveis.

É um desafio porque as observações climáticas têm o que os pesquisadores chamam de diferentes resoluções espaciais e temporais: a temperatura do ar pode ser registrada por hora, mas monitorada apenas em áreas povoadas, enquanto a nebulosidade pode ser registrada duas vezes por dia, mas monitorada em todo o mundo, inclusive em regiões onde poucos humanos vivem . Fundir esta diversidade de dados em um sistema que o Mapa da Vida pode entender é complicado.

Mas quando estiver pronto, os cientistas terão uma nova ferramenta para entender como a mudança climática está afetando a biodiversidade.

“No momento, o Mapa da Vida pode nos dizer onde estão plantas e animais, mas não por que eles estão lá”, diz Wilson. “O que queremos fazer é ampliar o Mapa da Vida para explicar esses padrões, para que possamos ver como o clima está influenciando onde diferentes espécies são encontradas”.

Fonte – Por Charlotte Hsu, University at Buffalo, tradução e edição de Henrique Cortez, EcoDebate de 04 de outubro de 2017