Os oceanos estão se aquecendo rapidamente

A imagem mostra a taxa de aquecimento dos oceanos (Tendência de 0-2000m de calor do oceano) de 1960 a 2016 em unidade de W / m2, calculada pelos dados IAP Gridded. CRÉDITO: CHENG LijingA imagem mostra a taxa de aquecimento dos oceanos (Tendência de 0-2000m de calor do oceano) de 1960 a 2016 em unidade de W / m2, calculada pelos dados IAP Gridded. CRÉDITO: CHENG Lijing

Mais de 90% do desequilíbrio energético da Terra (EEI) no sistema climático é seqüestrado no oceano e, conseqüentemente, o teor de calor oceânico (Ocean Heat Content, OHC) está aumentando. Portanto, o OHC é um dos indicadores mais importantes do aquecimento global. Nos últimos 30 anos, muitos grupos independentes trabalharam para estimar as mudanças históricas da OHC. No entanto, grande incerteza foi encontrada entre as séries temporais globais da OHC. Por exemplo, durante o aumento de pesquisa atual sobre o chamado “hiato” ou “desaceleração”, diferentes estudos científicos desencadeiam conclusões bastante diferentes sobre a questão científica chave, como “Onde o calor é redistribuído no oceano?” Isso nos motiva a dar uma análise detalhada sobre mudanças globais e do OHC com base em vários conjuntos de dados oceânicos.

Um estudo [Consensuses and discrepancies of basin-scale ocean heat content changes in different ocean analyses] recentemente divulgado, liderado pelo doutorando D, WANG Gong-jie, da Universidade Nacional de Tecnologia da Defesa, colaborando com o professor LI Chong-yin e o Dr. CHENG Li-jing do Institute of Atmospheric Physics (IAP) / Academia Chinesa de Ciências, o professor John P. ABRAHAM, da Universidade de St. Thomas (EUA), examinou de forma abrangente a mudança de OHC nas escalas decadica e multi-decadal e em diferentes bacias oceânicas. Através de três diferentes conjuntos de dados oceânicos analisados objetivamente (Ishii do Japão, EN4 do Met. Office e IAP), eles descobriram que os oceanos são resistentes ao aquecimento, independentemente de quais dados foram utilizados. Além disso, o calor entre os oceanos globais experimentou uma redistribuição significativa nas últimas décadas.

Durante 1998-2012, famoso pelo período de abrandamento do aquecimento global, todas essas bacias haviam acumulado calor e não havia nenhuma indicação clara de qual bacia oceânica domina a mudança global da OHC. Em outras palavras, abaixo de 100 m de profundidade no Oceano Atlântico e Austral, e entre 100 a 300 m de profundidade no Pacífico e Oceano Índico, houve aquecimento estatisticamente significativo e todos contribuíram para o aquecimento global dos oceanos. Os resultados de discrepância de estudos anteriores são devidos à diferença de intervalos de profundidade utilizados no cálculo de OHC, bem como a incerteza em conjuntos de dados de temperatura subterrânea.

Por que há diferenças substanciais entre diferentes conjuntos de dados? Este estudo mostra que a análise de Ishii subestima a taxa de aquecimento no hemisfério sul no século passado. E a análise EN4 não pode reconstruir corretamente a temperatura da superfície do mar (SST) nos últimos 30 anos e subestima a taxa de aquecimento em ~ 90% em comparação com um conjunto de dados SST independente, como ERSST e OISST. Isso indica que as análises Ishii e EN4 podem subestimar a taxa de aquecimento do oceano.

“Em inglês simples, será importante que possamos manter sensores de temperatura de alta qualidade posicionados em todos os oceanos, então, no futuro, poderemos prever onde nosso clima se dirige”, explica o co-autor ABRAHAM. “Dizemos na ciência que uma medida não feita é uma medida perdida para sempre. E não há medidas mais importantes do que o aquecimento dos oceanos”.

Consensuses and discrepancies of basin-scale ocean heat content changes in different ocean analyses
Wang, G., Cheng, L., Abraham, J. et al. Clim Dyn (2017). doi:10.1007/s00382-017-3751-5
https://link.springer.com/article/10.1007%2Fs00382-017-3751-5

Fontes – Zheng Lin, Institute of Atmospheric Physics, Chinese Academy of Sciences, Tradução e edição Henrique Cortez, EcoDebate de 29 de junho de 2017

Aquecimento Global 2007–2037: o metano entra em cena

Foto: Reprodução

Ondas letais de calor já antes do verão: 51,1º C no Paquistão em 27 de maio; 56º C no Irã em 4 de junho; em 16 de junho, 43º C em Portugal, favorecendo um dos mais mortíferos incêndios florestais europeus dos registros históricos. Em 19 de junho, 49º C em Oklahoma, nos EUA, impedindo aviões de menor porte de voar. Temperaturas extremas tornam-se mais extremas, prováveis, frequentes e adversas à vida vegetal e animal em latitudes crescentes do planeta à medida que se adensam as concentrações atmosféricas de gases de efeito estufa (GEE).

Depois do dióxido de carbono (CO2), o metano (CH4) é a personagem mais destacada na trama das mudanças climáticas antropogênicas em curso. Sua importância vem despontando nos últimos dez anos e deve crescer ainda mais nos próximos vinte. Uma pesquisa publicada em dezembro de 2016 na Geophysical Reseach Letters revisa para cima o impacto das emissões antropogênicas de metano sobre o sistema climático, em relação aos valores adotados pelo IPCC[1]. Segundo seus autores, considerado o período 1750-2011, a forçante radiativa do metano (sua capacidade de absorver e reter na atmosfera a radiação infravermelha reemetida pela Terra, impedindo que o calor se disperse no espaço) “é cerca de 25% mais alta (aumento de 0,48 W/m2 para 0,61 W/m2) que o valor adotado pela avaliação de 2013 do IPCC”[2].

A partir desses novos cálculos, Gunnar Myhre, do Center for International Climate and Environmental Research de Oslo, conclui que “as emissões antropogênicas de metano já causaram um efeito de aquecimento correspondente a cerca de um terço do efeito devido às emissões de CO2”[3]. Quando se afirma que, no último decênio, o metano entrou definitivamente em cena no balanço das causas maiores das mudanças climáticas, esse é o primeiro ponto a ser considerado.

O segundo ponto diz respeito ao ritmo de aumento das concentrações atmosféricas de metano. Em 1750, essas concentrações eram de 700 partes por bilhão (ppb). Em 2015, elas atingiram 1.834 ppb, como mostra a figura abaixo.

Foto: Reprodução

Entre 2000 e 2005, houve desaceleração e tais concentrações aumentaram em média apenas 5 partes por bilhão (ppb) ao ano. Mas a partir de 2007, elas começam a subir de novo muito rapidamente. Em 2015, elas aumentaram 9,9 ppb, praticamente o dobro da taxa média de aumento do começo do século. Nos últimos três anos, a curva das concentrações atmosféricas de metano está se aproximando do cenário de mais intensa emissão de GEE, isto é, o cenário RCP 8,5 W/m2 proposto pelo IPCC, como mostra a figura abaixo[4].

Foto: Reprodução

O terceiro ponto a considerar quando se fala na contribuição crescente do metano na composição dos GEE no último decênio é o amplo leque de suas fontes emissoras, todas elas crescentes. Antes de sua queima como gás natural, o metano escapa para a atmosfera em todas as etapas da indústria de combustíveis fósseis: extração por hidrofracionamento, distribuição, armazenagem, consumo e minas de carvão ativas e abandonadas. Mas além das emissões ligadas às energias fósseis, quantidades ainda maiores de metano são lançadas à atmosfera por outros quatro fatores principais:

1. Fermentação entérica dos rebanhos

2. Agricultura e incêndios de turfeiras

3. Liberação de metano nas hidrelétricas

4. Degelo dos pergelissolos e dos hidratos de metano

Por enquanto, as emissões de metano são predominantemente biogênicas, cabendo à indústria fóssil 30% a 45% dessas emissões e aos itens 1 e 2 (fermentação entérica dos rebanhos, agricultura e incêndios de turfeiras), 55% a 70% delas, conforme a figura abaixo[5].

Foto: Reprodução

Outra fonte de metano – as hidrelétricas – não é ainda claramente contabilizada nos cálculos das emissões de GEE, embora tenha sido quantificada, por exemplo, por Philip Fearnside, pesquisador titular do INPA. Ele mostra que “em termos de emissão de gases de efeito estufa a represa de Balbina no Brasil [é] pior que a queima de combustíveis fósseis”[6]. Além de seus brutais impactos socioambientais, as hidrelétricas são, portanto, grandes emissoras de metano e, desmentindo um tenaz lugar-comum, não oferecem uma matriz energética de baixo carbono.

O quarto fator, decerto o mais potencialmente perigoso, a assegurar ao metano uma posição cada vez mais central na cena climática é o fenômeno de amplificação do aquecimento global no Ártico. Segundo o relatório da Organização Meteorológica Mundial, de março de 2017, muito do aquecimento médio global de 1,1º C acima do período pré-industrial atingido em 2016 deve-se ao aquecimento do Ártico, onde as temperaturas médias já atingiram, em algumas áreas, ao menos 3º C acima do período 1961-1990 e até 6,5º C no aeroporto de Svalbard, na Noruega, um salto gigantesco de 1,6º C em relação ao último recorde. Esse enorme aquecimento desencadeia uma dinâmica de retroalimentação, na qual o maior calor causa retração do gelo marítimo e degelo dos pergelissolos terrestres e marítimos, diminuindo drasticamente o albedo (a fração da radiação solar reemitida pela Terra de volta para o espaço), o que aumenta, por sua vez, o aquecimento e assim sucessivamente.

O mais iminente perigo de um aumento desenfreado da liberação de metano na atmosfera provém da plataforma marítima continental da Sibéria oriental (ESAS), pois 75% de sua área de 2,5 milhões de km2 está a menos de 40 metros de profundidade. Seu leito, outrora recoberto de gelo, está agora, dadas temperaturas estivais muito acima de zero, cada vez mais exposto à radiação solar. Ocorre que há quantidades imensas de metano, em grande parte sob a forma de hidratos de metano, armazenadas nos sedimentos dessa plataforma. E como essa plataforma é muito rasa, o metano não mais aprisionado nesses hidratos, e liberado também pela ação bacteriana sobre o carbono aí represado, está subindo em colunas de bolhas de metano diretamente para a atmosfera. A taxa de aceleração desse processo é ainda objeto de controvérsia. Mas ele já está em curso. “Devemos lembrar – e muitos cientistas infelizmente esquecem – que é apenas desde 2005 que ocorre essa abertura estival do oceano nas plataformas marítimas do Ártico. Assim, estamos numa situação inteiramente nova, com a ocorrência de um novo fenômeno de degelo”, escreve Peter Wadhams, num livro recente e fundamental[7].

É claro que o metano permanece na atmosfera apenas cerca de 12 anos, enquanto o CO2 permanece em média de um a três séculos (sendo seu efeito, assim sendo, essencialmente cumulativo[8]). Mas a ameaça imediata do metano revela-se agora sempre maior, pois, em termos de potencial de aquecimento global (GWP), uma tonelada de metano na atmosfera equivale a 72 toneladas de CO2 num horizonte de 20 anos[9].

Os próximos 20 anos serão, de fato, cruciais. Segundo os cientistas de Cambridge, reunidos no Arctic Methane Emergency Group (AMEG), “o metano pode suplantar o dióxido de carbono e se tornar a maior forçante radiativa nos próximos 20 anos”. A Declaração do AMEG afirma: “as quantidades de metano na plataforma continental marinha são tão vastas que a liberação de apenas 1% ou 2% desse metano pode levar à liberação do metano restante em uma reação em cadeia irrefreável”[10]. E na conferência de imprensa na COP20 de Lima, em dezembro de 2014, John Nissen, diretor do AMEG, assim resumiu suas conclusões: “o degelo do Ártico é uma ameaça catastrófica para a civilização”.

[1] Cf. M. Etminan, G. Myhre, E.J. Highwood, K.P. Shine, “Radiative forcing of carbon dioxide, methane and nitrous oxide: a significant revision of the methane radiative forcing.” Geophysical Research Letters, 27/XII/2016: DOI:10.1002/2016GL071930. Para os valores da forçante radiativa do metano e demais GEE, sempre em relação ao potencial de aquecimento global (GWP) do CO2, adotados pelo IPCC/AR4, baseando-se nos cálculos de G. Myhre, veja-se “Climate Change 2007: Working Group I: The Physical Science Basis”, cap. 2.10.2: Direct Global Warming Potentials:

<http://www.ipcc.ch/publications_and_data/ar4/wg1/en/ch2s2-10-2.html#table-2-14>.

[2]M. Etminan et al. (cit.): “The 1750-2011 [methane] Radiative Forcing is about 25% higher (increasing from 0.48 W m-2 to 0.61 W m-2) compared to the value in the Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC) 2013 assessment”.

[3] Cf. Gunnar Myhre, “Effect of methane on climate change could be 25% greater than we thought”. Cicero, 12/I/2017.

[4]Cf. M. Saunois, R. B. Jackson, P. Bousquet, B Poulter & J. G. Canadell, “The growing role of methane in anthropogenic climate change”. Environmental Research Letters, 11, 12, 12/XII/2016: “atmospheric methane concentrations are rising faster than at any time in the past two decades and, since 2014, are now approaching the most greenhouse-gas-intensive scenarios”.

[5]Cf. Adam Vaugham, “Fossil fuel industry’s methane emissions far higher than thought”. The Guardian,  5/X/2016; M. Saunois et al. (cit.): “New analysis suggests that the recent rapid rise in global methane concentrations is predominantly biogenic – most likely from agriculture”.

[6] Cf. Philip M. Fearnside, “Why Hydropower is not clean energy”. Scitizen, 9/I/2007; Fearnside, “Greenhouse Gas Emissions from a Hydroelectric Reservoir (Brazil’s Tucuruí Dam) and the Energy Policy Implications”. Water, Air, and Soil Pollution, Janeiro, 2002, 133, 1-4, pp. 69-96“Tucuruí’s emission of greenhouse gases in 1990 is equivalent to 7.0–10.1 × 106 tons of CO2-equivalent carbon, an amount substantially greater than the fossil fuel emission of Brazil’s biggest city, São Paulo”

[7] Cf. Peter Wadhams, A Farewell to ice. A report from the ArcticLondres, 2016. Veja-se também o excelente A espiral da morte. Como a humanidade alterou a máquina do clima. São Paulo, 2016, de Claudio Ângelo.

[8]Trata-se da média proposta por T. J. Blasing, “Recent Greenhouse Gas Concentrations”. CDIAC, Abril de 2016 <http://cdiac.ornl.gov/pns/current_ghg.html>. Entre 65% e 80% do CO2 lançado na atmosfera dissolve-se no oceano entre 20 e 200 anos, mas há uma “longa cauda” residual absorvida ao longo de milênios, de modo que, se fossem cessadas hoje as emissões de CO2, suas concentrações atmosféricas só retornariam aos níveis pré-industriais após mais de dezenas ou centenas de milênios. Cf. D. Archer et al. “Atmospheric Lifetime of Fossil Fuel Carbon Dioxide”. Annu. Rev. Earth Planet. Sci. 2009. 37:117-34 <http://climatemodels.uchicago.edu/geocarb/archer.2009.ann_rev_tail.pdf>.

[9]Cf. E isso apenas no que se refere aos efeitos diretos do metano. Mas é preciso ainda levar em conta, no cálculo de seu potencial de aquecimento global, as emissões indiretas, já que o metano tende a aumentar as concentrações de outros dois gases de efeito estufa: o ozônio e o vapor de água. Veja-se o IPCC, capítulo citado na nota 1.

[10] Veja-se <http://ameg.me/index.php/about-ameg/13-ameg-declaration-of-emergency>.

Luiz Marques é professor livre-docente do Departamento de História do IFCH /Unicamp. Pela editora da Unicamp, publicou Giorgio Vasari, Vida de Michelangelo (1568), 2011 e Capitalismo e Colapso ambiental, 2015, 2a edição, 2016. Coordena a coleção Palavra da Arte, dedicada às fontes da historiografia artística, e participa com outros colegas do coletivo Crisálida, Crises SocioAmbientais Labor Interdisciplinar Debate & Atualização (crisalida.eco.br).

Fonte – Texto Luiz Marques, Fotos Reprodução, Edição de imagem Luis Paulo Silva, Jornal da UNICAMP de 26 de junho de 2017

Mudança climática deve intensificar ondas de calor fatais

Relógio de farmácia registra 40ºC no centro-leste da FrançaRelógio de farmácia registra 40ºC no centro-leste da França

A partir de 37ºC, mecanismos de termorregulação ficam comprometidos, e umidade agrava o perigo. Segundo cientistas do Havaí, mortes por calor podem mais do que dobrar até o fim do século, dependendo dos níveis de CO2.

Atualmente, cerca de 30% da população mundial já é exposta, durante pelo menos 20 dias por ano, a temperaturas e umidade atmosférica que comprometem significativamente a termorregulação do organismo, com potencial fatal.

Em artigo para a revista especializada Nature Climate Change, a equipe liderada por Camilo Mora, da Universidade do Havaí em Manoa, Honolulu, alerta que, devido ao aquecimento global, essa taxa poderá crescer nas próximas décadas.

Devido à mudança climática, até o ano 2100 poderá chegar a 48% da população a porcentagem dos seres humanos ameaçados pela morte devido ao calor, mesmo que haja uma redução drástica das emissões globais de dióxido de carbono. Caso estas se mantenham no nível atual, então até 74% da população poderá estar exposta a ondas de calor extremas.

Escolha entre o ruim e o horrível

Mora e sua equipe avaliaram estudos sobre mortes por calor publicados entre 1980 e 2014. Em 783 relatos compilados em 164 cidades de 36 países, sobretudo da Europa Meridional e centro-leste dos Estados Unidos, eles detectaram um incremento do nível de mortalidade relacionada a temperaturas altas.

Por exemplo, durante uma onda de calor na Europa em 2003, milhares de pessoas morreram na França e na Alemanha. Em 2010, mais de 10 mil sucumbiram ao calor em Moscou. Em Chicago, em 1995, o número de vítimas foi de 740. Também Nova York, Londres, Tóquio e Toronto, entre outras, sofreram com condições meteorológicas extremas.

A fim de determinar a partir de que ponto extremos de calor passam a ser fatais, os pesquisadores do Havaí analisaram em detalhe as condições climáticas durante as épocas em questão – temperatura, umidade, velocidade do vento e níveis de radiação –, comparando-as com fases moderadas. Sua conclusão é que temperatura e umidade relativa do ar são os fatores decisivos.

Quando a temperatura externa ultrapassa a média do corpo humano, de cerca de 37ºC, ele não consegue mais liberar calor, hiperaquecendo-se. Além disso, se a umidade atmosférica é alta, deixa de funcionar o principal mecanismo de regulação térmica do organismo, a transpiração. Nesse caso, também temperaturas menos elevadas podem ser mortais.

A visão de futuro de Camilo Mora é pessimista: “No tocante a ondas de calor, temos a escolha entre ruim e horrível.” Já em 2015, pesquisadores divulgaram um prognóstico sombrio para os Estados do Golfo Pérsico: devido à mudança climática, dentro de poucas décadas as temperaturas na região poderão ultrapassar regularmente os 60ºC – mesmo para indivíduos saudáveis, um calor humanamente insuportável.

Fonte – DW de 20 de junho de 2017

Os oceanos estão se aquecendo rapidamente

A imagem mostra a taxa de aquecimento dos oceanos (Tendência de 0-2000m de calor do oceano) de 1960 a 2016 em unidade de W / m2, calculada pelos dados IAP Gridded. CRÉDITO: CHENG LijingA imagem mostra a taxa de aquecimento dos oceanos (Tendência de 0-2000m de calor do oceano) de 1960 a 2016 em unidade de W / m2, calculada pelos dados IAP Gridded. CRÉDITO: CHENG Lijing

Mais de 90% do desequilíbrio energético da Terra (EEI) no sistema climático é seqüestrado no oceano e, conseqüentemente, o teor de calor oceânico (Ocean Heat Content, OHC) está aumentando. Portanto, o OHC é um dos indicadores mais importantes do aquecimento global. Nos últimos 30 anos, muitos grupos independentes trabalharam para estimar as mudanças históricas da OHC. No entanto, grande incerteza foi encontrada entre as séries temporais globais da OHC. Por exemplo, durante o aumento de pesquisa atual sobre o chamado “hiato” ou “desaceleração”, diferentes estudos científicos desencadeiam conclusões bastante diferentes sobre a questão científica chave, como “Onde o calor é redistribuído no oceano?” Isso nos motiva a dar uma análise detalhada sobre mudanças globais e do OHC com base em vários conjuntos de dados oceânicos.

Um estudo [Consensuses and discrepancies of basin-scale ocean heat content changes in different ocean analyses] recentemente divulgado, liderado pelo doutorando D, WANG Gong-jie, da Universidade Nacional de Tecnologia da Defesa, colaborando com o professor LI Chong-yin e o Dr. CHENG Li-jing do Institute of Atmospheric Physics (IAP) / Academia Chinesa de Ciências, o professor John P. ABRAHAM, da Universidade de St. Thomas (EUA), examinou de forma abrangente a mudança de OHC nas escalas decadica e multi-decadal e em diferentes bacias oceânicas. Através de três diferentes conjuntos de dados oceânicos analisados objetivamente (Ishii do Japão, EN4 do Met. Office e IAP), eles descobriram que os oceanos são resistentes ao aquecimento, independentemente de quais dados foram utilizados. Além disso, o calor entre os oceanos globais experimentou uma redistribuição significativa nas últimas décadas.

Durante 1998-2012, famoso pelo período de abrandamento do aquecimento global, todas essas bacias haviam acumulado calor e não havia nenhuma indicação clara de qual bacia oceânica domina a mudança global da OHC. Em outras palavras, abaixo de 100 m de profundidade no Oceano Atlântico e Austral, e entre 100 a 300 m de profundidade no Pacífico e Oceano Índico, houve aquecimento estatisticamente significativo e todos contribuíram para o aquecimento global dos oceanos. Os resultados de discrepância de estudos anteriores são devidos à diferença de intervalos de profundidade utilizados no cálculo de OHC, bem como a incerteza em conjuntos de dados de temperatura subterrânea.

Por que há diferenças substanciais entre diferentes conjuntos de dados? Este estudo mostra que a análise de Ishii subestima a taxa de aquecimento no hemisfério sul no século passado. E a análise EN4 não pode reconstruir corretamente a temperatura da superfície do mar (SST) nos últimos 30 anos e subestima a taxa de aquecimento em ~ 90% em comparação com um conjunto de dados SST independente, como ERSST e OISST. Isso indica que as análises Ishii e EN4 podem subestimar a taxa de aquecimento do oceano.

“Em inglês simples, será importante que possamos manter sensores de temperatura de alta qualidade posicionados em todos os oceanos, então, no futuro, poderemos prever onde nosso clima se dirige”, explica o co-autor ABRAHAM. “Dizemos na ciência que uma medida não feita é uma medida perdida para sempre. E não há medidas mais importantes do que o aquecimento dos oceanos”.

Fontes – Zheng Lin, Institute of Atmospheric Physics, Chinese Academy of Sciences /  tradução e edição Henrique Cortezin, EcoDebate de 29 de junho de 2017

Humanidade tem só mais três anos para salvar o planeta

Principais autoridades ligadas ao clima se unem em campanha colaborativa para mobilizar setores-chave da economia; sua missão: reduzir a liberação de gases de efeito estufa até 2020 e evitar os piores efeitos das mudanças climáticas

O ano de 2020 será crítico para o futuro do clima. Caso as emissões continuem a subir além dessa data, os objetivos do Acordo de Paris tornam-se praticamente inalcançáveis, concluiu um grupo de especialistas no assunto, liderados pela diplomata Christiana Figueres, ex-secretária-executiva da Convenção do Clima das Nações Unidas. Juntos, eles publicaram nesta quarta-feira (28), na revista científica Nature, um plano para manter as emissões de gases de efeito estufa sob controle nos próximos três anos. Batizado de “Missão 2020”, o documento traça metas de emissão de gases para seis setores da economia: energia, infraestrutura, transporte, uso da terra, indústria e finanças.

O documento foi divulgado uma semana antes de os líderes das maiores economias do mundo reunirem-se em Hamburgo, na Alemanha, na reunião do G20. É o primeiro encontro multilateral realizado após o anúncio de Donald Trump de que os EUA sairão do acordo do clima. “A ideia é justamente trazer o assunto para a pauta política, destacar o que cada uma destas grandes economias está fazendo para enfrentar o desafio climático, compartilhar boas práticas e renovar as esperanças, porque, de fato, ainda temos chances”, disse Figueres.

O aumento de temperatura que o planeta já experimentou neste século serviu para mostrar que os impactos sociais das mudanças climáticas, como as ondas de calor, as secas e o aumento do nível do mar, afetam especialmente os mais pobres. Os mantos de gelo na Groenlândia e na Antártida perdem massa a uma taxa crescente, aumentando o nível do mar; da mesma forma, o gelo marinho de verão do Ártico; além, dos recifes de corais, que morrem devido ao aquecimento das águas.

“A boa notícia é que ainda estamos em tempo de atingir as metas do Acordo de Paris se as emissões caírem até 2020”, afirma Hans Joachim Schellnhuber, diretor do Instituto para Pesquisa de Impactos Climáticos de Potsdam, na Alemanha. Nos últimos três anos, as emissões mundiais de gás carbônico por queima de combustíveis fósseis permaneceram estáveis, enquanto a economia global cresceu pelo menos 3,1% ao ano.

A taxa atual de emissão, de 41 bilhões de toneladas de gás carbônico por ano, ainda está acima do que podemos emitir. Significa que, no ritmo de agora, em quatro anos, ultrapassaríamos o limite de emissões que daria à humanidade uma chance de estabilizar a temperatura em 1,5° Celsius. “É agora ou agora. Não podemos mais esperar”, diz Schellnhuber. “Se atrasarmos, as condições de vida no planeta serão severamente restringidas.”

Para evitar o pior, segundo Schellnhuber, é preciso usar a ciência para orientar decisões e estabelecer metas, replicar com agilidade as boas práticas de sustentabilidade e, sobretudo, incentivar o otimismo. “Temos inúmeras histórias de sucesso que precisam ser compartilhadas. É o que vamos fazer já na reunião do G20 na Alemanha”, disse.

Estas são as metas estabelecidas pela Missão 2020 para cada setor da economia:

1 – Energia: As energias renováveis ​devem compor pelo menos 30% do fornecimento de eletricidade no mundo em 2020, contra 23,7% em 2015. Nenhuma usina a carvão poderá ser aprovada daqui três anos.

2 – Infraestrutura: Cidades e Estados darão sequência aos seus planos de descarbonização, o que inclui a construção de edifícios e infraestruturas até 2050, com financiamento previsto de US$ 300 bilhões por ano.

3 – Transporte: Os veículos elétricos deverão compor pelo menos 15% das vendas de automóveis novos globalmente até 2020 e os híbridos devem avançar 1%. O uso do transporte em massa nas cidades deve dobrar, a eficiência de combustível em veículos pesados deve aumentar 20% ​​e a emissão de gases de efeito estufa na aviação por quilômetro percorrido deve diminuir 20%.

4 – Uso da terra: Novas políticas deverão proibir o desmatamento e os esforços devem se concentrar em reflorestamentos. As práticas agrícolas sustentáveis ​​terão de se espalhar pelo planeta e aumentar o sequestro de gás carbônico.

5 – Indústria: A indústria pesada desenvolverá planos para aumentar a eficiência e reduzir suas emissões, com o objetivo de diminuir pela metade a liberação de gases de efeito estufa até 2050. Atualmente as indústrias de ferro, aço, cimento e petróleo emitem mais de um quinto do gás carbônico mundial.

6 – Finança: O setor financeiro precisará ter pensado na forma de mobilizar pelo menos US $ 1 trilhão por ano para a ação climática. Governos, bancos privados e credores, como o Banco Mundial, vão emitir títulos verdes para financiar os esforços de mitigação do clima. Isso criaria um mercado anual que, até 2020, processaria mais de 10 vezes os US$ 81 bilhões de títulos emitidos em 2016.

Fonte – Luciana Vicária, Observatório do Clima de 28 de junho de 2017

De Olho nos Ruralistas faz twittaço na quarta-feira: “O Agro não é pop”

Observatório questiona campanha da Globo, JBS e Ford, iniciada em 2016 para promover modelo que defende latifúndios e grandes empresas agropecuárias

O Agro é Pop? O Agro É Tech? O Agro É Tudo? Assim dizem – de modo exclamativo – a Rede Globo e os patrocinadores de uma propaganda televisiva em horário nobre: a Ford e o grupo JBS, responsável pelas marcas Seara e Vigor. A campanha está no ar desde 2016, nos intervalos dos principais programas da Globo, como o Jornal Nacional, o Fantástico e a novela das nove.

Campanha da Globo gera paródias.

Um observatório sobre agronegócio no Brasil, De Olho nos Ruralistas questiona em um twittaço, nesta quarta-feira (28/06), a ideia defendida pelo comercial. Hashtag principal: #OAgroNãoÉPop. Complementares: #OAgroNãoÉTech, #OAgroNãoÉTudo. O comercial da Globo se encerra sempre da seguinte forma: “Agro é tech. Agro é pop. Agro é tudo. Tá na Globo”.

O twittaço marca uma fase decisiva da campanha de arrecadação do De Olho, que depende de assinaturas para chegar até 2018. O projeto tem o objetivo de conseguir mil parceiros. Hashtags: #DeOlhoNosRuralistas, #DeOlhoNosMilParceiros. No ano passado, em dezembro, o observatório realizou uma oficina sobre imprensa e questão agrária, com o mesmo tema: “O agro é pop?”

O twittaço será realizado das 13 às 15 horas. O perfil do De Olho no Twitter, @deolhonoagro, divulgará informações e material de apoio durante esse período. Quem quiser acessar antes parte desse material pode entrar na página do observatório no Facebook. A mesma rede social tem um grupo de apoio ao projeto: De Olho nos Ruralistas – Apoio.

O agro é bom?

A multinacional Bayer também lançou vídeos em defesa do agronegócio. O bordão da campanha lembra o da Globo: “O Agro é bom”. Traz a história de fazendeiros, ligados ao modelo do agronegócio, descritos quase como se fossem pequenos agricultores.

Projeto iniciado em setembro de 2016, com o objetivo de investigar os impactos sociais e ambientais do agronegócio, divulgando notícias sobre o poder político e econômico dos ruralistas, o De Olho nos Ruralistas pergunta aos internautas: o agro é bom?

O observatório mostrou no dia 11 que a propaganda específica sobre cana-de-açúcar traz imagens de engenhos com mão-de-obra escrava, exaltando os 500 anos de exploração de trabalhadores no Brasil: ““Agro é pop”: propaganda da Globo sobre cana tem imagens de escravos“.

Imprensa e questão agrária

Comercial sobre cana exalta a cana com imagens de escravos feita por um senhor-de-engenho. (Imagem: Reprodução)

Confira aqui o link da campanha De Olho nos Mil Parceiros. A partir de R$ 12 mensais cada assinante tem direito a receber um boletim semanal, com a seleção do que saiu na semana em um dos quatro boletins diários do observatório: De Olho no Agronegócio, De Olho no Ambiente, De Olho na Comida e de Olho nos Conflitos.

A partir de R$ 25 mensais o parceiro escolhe pelo menos um dos boletins diários, com uma seleção do que saiu na mídia (jornais, revistas, imprensa regional, institucional e independente) sobre cada um dos temas.

Uma das realizações do observatório em 2018 será o lançamento de um livro sobre imprensa e questão agrária, escrito pelo editor do De Olho, Alceu Luís Castilho. O comercial da Globo – e também a relação específica da família Marinho com o agronegócio – será um dos assuntos.

Fonte – De Olho nos Ruralistas de 26 de junho de 2017

 

Aquecimento modesto multiplica ondas de calor assassinas em países pobres

Cruzamento em Nova Deli durante onda de calor. Foto Harish/Tyagi/EPA

Pesquisadores revelam que mais meio grau Celsius na temperatura média da Índia no verão tornará esses extremos duas vezes e meia mais frequentes, intensas e duradouras a ponto de ser quase certa a morte de dezenas de milhares de pessoas

O número de mortos com as ondas de calor deve aumentar radicalmente nos próximos anos em países em desenvolvimento, sugere um estudo publicado nesta sexta-feira (9) no periódico Science Advances.

Na Índia, onde o estudo foi realizado, o prognóstico é avassalador. Bastará um acréscimo de mais meio grau na temperatura média do país no verão para as ondas de calor mortíferas ficarem duas vezes e meia mais frequentes. Os cientistas afirmam que uma elevação dessa magnitude nas médias é “praticamente inevitável” no país.

“Se nada for feito, se a população não for protegida, se as emissões não forem controladas, os mortos virão em dezenas de milhares”, diz Omid Mazdiyasni, da Universidade da Califórnia, um dos autores do estudo.

O aumento médio previsto da temperatura na Índia será de 2,2°C a 5,5°C até o final do século 21, valor acima da média do planeta, uma vez que o aquecimento global não é igual em todos os lugares. Soma-se o fato de a Índia reunir condições que tornam os eventos climáticos ainda mais perigosos: comunidades vulneráveis – mais de 20% da população ganha menos de US$ 1,25 por dia – umidade do ar elevada em algumas regiões, baixa latitude e alta densidade populacional.

As evidências do estudo resultaram de uma análise detalhada do comportamento da temperatura na Índia e de seus efeitos nas ondas de calor assassinas (que causam mais de cem mortes) entre 1960 e 2009. Nesse período, a temperatura se elevou 0,5°C e a probabilidade de mortes aumentou 146%.

Nas últimas três décadas, porém, esse fenômeno se intensificou. As regiões ao sul e a oeste da Índia experimentaram 50% mais eventos de ondas de calor entre 1985 e 2009, se comparado aos 25 anos anteriores. Da mesma forma, a duração média das ondas de calor aumentou cerca de 25% na maior parte do país.

“Até as ondas de calor mais severas, como a de 2010, que matou mais de 1.300 pessoas na cidade de Ahmedabad; ou a de 2015, com mais 2.500 mortos no país, podem ser incomparáveis às que estão por vir”, diz Mazdiyasni.

Uma onda de calor acontece a partir da combinação de temperatura alta e umidade elevada. O ambiente quente e úmido faz o corpo perder a capacidade de dissipar o próprio calor, gerando o que se chama de estresse térmico. Quando o estresse térmico se prolonga por mais de três dias, com temperaturas acima de 85% da média do mês mais quente, o evento passa a ser chamado de onda de calor.

A temperatura pode chegar a níveis altíssimos, como a de 52,3°C registrada em maio do ano passado em Ahmadabad, e a exposição a um ambiente inóspito como esse impede o corpo de regular a própria temperatura, gerando perda progressiva de funções vitais, o que pode levar à morte.

Populações mais pobres, idosos e crianças são os mais vulneráveis. O estudo também indica que países da África, da América do Sul e do Oriente Médio devem passar por situações semelhantes.

No Brasil, as ondas de calor também devem se multiplicar, em temperaturas nem tão elevadas, mas com consequências terríveis para a população. Um estudo publicado em 2016 pela embaixada britânica no Brasil indica que vastas regiões do país poderão se tornar inabitáveis caso o aquecimento global ultrapasse 4oC.

As iniciativas para amenizar os efeitos das ondas de calor ainda são poucas, mas já existem planos para mitigar seus efeitos em cidades indianas onde elas devem se tornar mais frequentes. A cidade de Ahmadabad implementou recentemente o primeiro plano abrangente de aquecimento da Ásia, que está servindo de exemplo para cidades vizinhas, que além de pobres, sofrem com o aumento populacional.

Fonte – Observatório do Clima de 10 de junho de 2017

Nível do mar na costa brasileira tende a aumentar nas próximas décadas

Nível do mar na costa brasileira tende a aumentar nas próximas décadasPaís, contudo, não possui estudo integrado da vulnerabilidade das cidades litorâneas ao fenômeno, aponta relatório especial do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas (imagem: Ponta da Praia, em Santos/Leandro Negro/Agência FAPESP)

O nível do mar na costa brasileira tende a aumentar nas próximas décadas. No Brasil, contudo, onde mais de 60% da população vive em cidades costeiras, não há um estudo integrado da vulnerabilidade dos municípios litorâneos a este e a outros impactos decorrentes das mudanças climáticas, como o aumento da frequência e da intensidade de chuvas. Um estudo desse gênero possibilitaria estimar os danos sociais, econômicos e ambientais e elaborar um plano de ação com o intuito de implementar medidas adaptativas.

As conclusões são do relatório especial do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas (PBMC) sobre “Impacto, vulnerabilidade e adaptação das cidades costeiras brasileiras às mudanças climáticas”, lançado nesta segunda-feira (05/06) durante um evento no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro.

A publicação tem apoio da FAPESP e parte dos estudos nos quais se baseia são resultado do Projeto Metrópole e de outros projetos apoiados pela Fundação no âmbito do Programa FAPESP de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas Globais (PFPMCG) e do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) para Mudanças Climáticas, financiado pela Fundação e pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

“A ideia do relatório foi mostrar o estado da arte sobre mudanças de clima e cidades costeiras, baseado em uma exaustiva revisão de publicações internacionais e nacionais sobre o tema, e também identificar lacunas no conhecimento para que os formuladores de políticas públicas e tomadores de decisão no Brasil possam propor e implementar medidas de adaptação”, disse José Marengo, coordenador-geral de pesquisa e desenvolvimento do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) e um dos autores e editores do relatório, à Agência FAPESP.

De acordo com dados do documento, entre 1901 e 2010 o nível médio do mar globalmente aumentou 19 centímetros – com variação entre 17 e 21 centímetros.

Entre 1993 e 2010, a taxa de elevação correspondeu a mais de 3,2 milímetros (mm) por ano – com variação entre 2,8 e 3,6 mm por ano.

No Brasil também há uma tendência de aumento do nível do mar nas regiões costeiras com algum grau de incerteza porque não há registros históricos contínuos e confiáveis, ponderam os autores.

“Ainda não conseguimos detectar o aumento do nível do mar no Brasil por conta das poucas observações existentes e de estudos de modelagem para avaliar os impactos. Mas já identificamos por meio de estudos regionais diversas cidades de médio e grande porte que apresentam alta exposição à elevação do nível relativo do mar e já têm sofrido os impactos desse fenômeno, particularmente na forma de ressacas e inundações”, disse Marengo.

Entre essas cidades, onde 60% da população reside na faixa de 60 quilômetros da costa, estão Rio Grande (RS), Laguna e Florianópolis (SC), Paranaguá (PR), Santos (SP), Rio de Janeiro (RJ), Vitória (ES), Salvador (BA), Maceió (AL), Recife (PE), São Luís (MA), Fortaleza (CE) e Belém (PA).

Nos estados de São Paulo e do Rio de Janeiro, por exemplo, têm sido registradas taxas de aumento do nível médio do mar de 1,8 a 4,2 mm por ano desde a década de 1950.

Na cidade de Santos, no litoral sul paulista, onde está situado o maior porto da América Latina, o nível do mar tem aumentado 1,2 mm por ano, em média, desde a década de 1940. Além disso, ocorreu um aumento significativo na altura das ondas – que alcançava 1 metro em 1957 e passou a atingir 1,3 m, em 2002 – e na frequência de ressacas no município.

Já no Rio de Janeiro, a análise dos dados da estação maregráfica da Ilha Fiscal – que tem a série histórica mais antiga do Brasil e fica no meio da Baía da Guanabara – indica uma tendência média de aumento do nível do mar de mais ou menos 1,3 mm por ano, com base nos dados mensais do nível do mar do período de 1963 a 2011 e com um índice de confiança de 95%.

Por sua vez, em Recife o nível do mar aumentou 5,6 mm entre 1946 e 1988 – o que corresponde a uma elevação de 24 centímetros em 42 anos. A erosão costeira e a ocupação do pós-praia provocaram uma redução da linha de praia em mais de 20 metros na Praia de Boa Viagem – a área da orla mais valorizada da cidade –, apontam os autores do relatório.

“Existem poucas observações como essas em outras regiões do país. Quando tentamos levantar dados dos últimos 40 ou 100 anos sobre o aumento do nível do mar em outras cidades do Nordeste, como Fortaleza, por exemplo, é difícil encontrar”, disse Marengo.

Impactos socioeconômicos

De acordo com os autores do relatório, as mudanças climáticas e um acelerado ritmo de elevação do nível do mar podem causar sérios impactos nas áreas costeiras do Brasil.

Os impactos socioeconômicos seriam mais restritos às vizinhanças das 15 maiores cidades litorâneas, que ocupam uma extensão de 1,3 mil quilômetros da linha costeira – correspondente a 17% da linha costeira do Brasil.

Entre as principais consequências da elevação do nível do mar, entre diversas outras, estão o aumento da erosão costeira, da frequência, intensidade e magnitude das inundações, da vulnerabilidade de pessoas e bens e a redução dos espaços habitáveis.

“Os impactos mais evidentes da elevação do nível do mar são o aumento da frequência das inundações costeiras e a redução da linha de praia. Mas há outros não tão perceptíveis, como a intrusão marinha, em que a água salgada do mar começa a penetrar aquíferos e ecossistemas de água doce”, ressaltou Marengo.

As projeções do quinto relatório (AR5) do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) são que a elevação do nível do mar globalmente varie entre 0,26 e 0,98 metro até 2100 – em um cenário mais pessimista. O relatório apresenta estimativas similares para a costa brasileira.

Considerando que a probabilidade de inundações aumenta com a elevação do nível do mar pode ser esperada uma maior probabilidade de inundações em áreas que apresentam mais de 40% de mudanças no nível do mar observadas nos últimos 60 anos – como é o caso de várias metrópoles costeiras brasileiras, ressaltam os autores.

As inundações costeiras serão mais preocupantes no litoral do Nordeste, Sul e Sudeste, e também podem afetar o litoral sul e sudoeste da cidade do Rio de Janeiro. Os seis municípios fluminenses mais vulneráveis à elevação do nível do mar, de acordo com estudos apresentados no relatório, são Parati, Angra dos Reis, Rio de Janeiro, Duque de Caxias, Magé e Campos dos Goytacazes.

“A combinação do aumento do nível do mar com tempestades e ventos mais fortes pode provocar danos bastante altos na infraestrutura dessas cidades”, estimou Marengo.

Exemplo de plano

O documento destaca o Plano Municipal de Adaptação à Mudança de Clima (PMAMC) da cidade de Santos como exemplo de plano de ação para adaptação às mudanças de clima e os seus impactos nas cidades [Leia mais sobre o assunto em http://agencia.fapesp.br/21997/].

A elaboração do plano foi baseada nos resultados do Projeto Metrópole, coordenado por Marengo.

O estudo internacional estimou que a inundação de áreas costeiras das zonas sudeste e noroeste de Santos, causada pela combinação da elevação do nível do mar com ressacas, marés meteorológicas e astronômicas e eventos climáticos extremos, pode causar prejuízos acumulados de quase R$ 2 bilhões até 2100 se não forem implementadas medidas de adaptação.

O estudo é realizado por pesquisadores do Cemaden, dos Institutos Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e Geológico (IG) e das Universidades de São Paulo (USP) e Estadual de Campinas (Unicamp), em parceria com colegas da University of South Florida, dos Estados Unidos, do King’s College London, da Inglaterra, além de técnicos da Prefeitura Municipal de Santos.

“Nossa intenção é aplicar essa metodologia utilizada em Santos em outras cidades litorâneas brasileiras para termos pelo menos uma estimativa inicial do custo de adaptação à elevação do nível do mar”, disse Marengo.

Fonte – Elton Alisson, Agência FAPESP de 05 de junho de 2017

Oceanos em miniatura simulam efeitos do aquecimento global

(Universidade de Adelaide/Divulgação)

Pesquisadores recriaram pequenos ecossistemas – com peixes, algas e crustáceos – para ver o que acontece quando a temperatura e o gás carbônico aumentam

A temperatura média da Terra vai subir nos próximos anos – só não sabemos quanto. As mudanças climáticas induzidas pela atividade humana podem ser atenuadas pelos esforços diplomáticos do Acordo de Paris, mas já estão em curso. Um aumento de pelo menos 1,5ºC na média, segundo a maior parte dos especialistas, é irreversível.

Com isso, ecossistemas frágeis poderão desaparecer ou sofrer alterações – os corais, especialmente sensíveis a mudanças sutis na química e na temperatura da água dos oceanos, já são vítimas há mais de 20 anos.

Entender como o aumento na concentração de gás carbônico na atmosfera vai afetar as relações entre seres vivos é uma tarefa difícil. Estudar animais ou plantas isoladamente não é o suficiente – um peixe no aquário é uma versão muito limitada de um oceano inteiro, afinal.

Por outro lado, é impossível acompanhar, simultaneamente, as centenas (ou milhares) de espécies que convivem em um ecossistema de verdade – como todas são interligadas entre si, não dá para saber com precisão o quê está causando o quê.

Para resolver esse problema, pesquisadores da Universidade de Adelaide, na Austrália, bolaram um meio termo muito prático. Eles encheram 12 piscinas de plástico infláveis com, ao todo, 1,8 mil litros de água do mar. Depois, forraram o fundo com areia, pedras, algas, crustáceos e pequenos invertebrados, e completaram a mistura com peixes carnívoros.

Fizeram, em resumo, os aquários mais realistas do mundo. Veja abaixo.

(Universidade de Adelaide/Divulgação)

O próximo passo foi submeter essas miniaturas de oceano às mudanças climáticas previstas por especialistas. Em duas das piscinas, a temperatura da água subiu 5ºC – uma simulação realista do quanto os mares ao sul da Austrália, por exemplo, irão esquentar nas próximas décadas. Em outras três os pesquisadores bombearam concentrações anormais de gás carbônico. O composto químico é capaz de aumentar tanto a acidez dos oceanos quanto a fotossíntese das algas.

Alguns dos “aquários” restantes sofreram as duas alterações ao mesmo tempo, outros foram mantidos intactos para servir de controle.

A principal descoberta, até agora, é que o gás carbônico puro, em geral, é benéfico: aumenta a quantidade e o tamanho das algas, que servirão de alimento para mais crustáceos, que por sua vez servirão de alimento para mais peixes carnívoros. Seus benefícios desaparecem, porém, quando ele é combinado ao aumento de temperatura – as algas, apesar de gordinhas, se tornam menos nutritivas, e os crustáceos se estressam e crescem menos, causando um desequilíbrio completo da cadeia alimentar.

O último prego no caixão do oceano foi o aumento, por causa do calor, do metabolismo dos peixes carnívoros – com fome o dia inteiro, eles acabavam devorando rapidamente a população já reduzida de pequenos herbívoros. Os resultados foram publicados no periódico científico Global Change Biology.

Ivan Nagelkerken, um dos autores, já havia trabalhado em um estudo similar, publicado em fevereiro deste ano. Na época, ele descobriu que o aumento da temperatura e da concentração de gás carbônico nas águas também deixa o apetite dos tubarões nas alturas – ao mesmo tempo em que seus sentidos são afetados, e a caçada perde eficiência.

Pesquisadores entrevistados pelo The New York Times afirmam que, até hoje, nenhum estudo havia sido capaz de identificar relações de causa e consequência tão ilustrativas sobre a vida na Terra durante o aquecimento global. O pequeno número de espécies e a forma previsível como elas interagiram entre si permitiu entender de maneira inédita a reação de uma cadeia alimentar equilibrada a uma pequena alteração ambiental. Conclusão? As notícias não são nada boas. É melhor torcer pela redução nas emissões.

Fonte – Bruno Vaiano, Superinteressante de 30 de maio de 2017

Saída dos EUA de acordo pode elevar temperatura mundial em 0,3° C, alerta ONU

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A retirada dos Estados Unidos do Acordo de París poderá provocar, no pior dos casos, um aumento adicional de 0,3 graus centígrados no aquecimento global até finais desse século, em comparação com os níveis pré-industriais. A estimativa foi feita hoje (2) por um especialista em clima da Organização Meteorológica Mundial (OMM), agência especializada da Organização das Nações Unidas (ONU). A informação é da agência Télam.

“Não criamos novos modelos [para fazer o cálculo], mas as indicações são de que o impacto [da saída dos EUA do tratado] no aquecimento global poderia ser, no pior cenário, da ordem de 0,3 graus centígrados”, afirmou o diretor do Departamento de Pesquisa Atmosférica e Ambiental da OMM, Deon Terblanche, em uma coletiva de imprensa.

Terblanche explicou que mesmo uma redução nas emissões de CO2 (gás carbônico) “não levará a uma diminuição da concentração de gases do efeito estufa na atmosfera, porque eles têm um efeito acumulativo que permanece na atmosfera durante centenas de anos. O clima seguirá esquentando em qualquer caso”, disse.

Segundo ele, levará ao menos três anos para entender e quantificar o real impacto da renúncia de Trump ao principal instrumento mundial de luta contra a mudança climática, que tem como objetivo evitar que o aquecimento global supere os 2 graus Celsius no final deste século, em comparação com os níveis pré-industriais, entre outras metas.

Fontes – Agência Télam / Agência Brasil de 02 de junho de 2017