Cinco vídeos da NASA explicando o aquecimento global e suas consequências

A NASA possui uma série de vídeos curtos (em inglês) intitulada ‘Minuto da Terra’, abordando o aquecimento global e as mudanças climáticas. Abaixo é apresentada uma seleção a respeito dos principais temas da ciência climática.

1. Aquecimento global

A temperatura média global da superfície da Terra aumentou no último século. E continuará aumentando no presente século, caso se mantenha inalterada a tendência de emissões de gases de efeito estufa. A temperatura média global é um entre vários indicadores do aquecimento global.

2. Gases de efeito estufa

A atmosfera é composta por gases, entre eles aqueles chamados de efeito estufa. Os gases de efeito estufa interferem na quantidade de energia absorvida e emitida pelo planeta, e com isso em todo o sistema climático. Desde a Revolução Industrial, as atividades humanas tem sido a fonte de aceleradas emissões de gases de efeito estufa para a atmosfera.

3. Fatores que influenciam o sistema climático

O desenvolvimento da ciência do clima ocorreu através do estudo dos fatores que condicionam o sistema climático da Terra, como aqueles citados pelo vídeo – vulcanismo, correntes oceânicas, ou insolação. Foi por meio do conhecimento desses fatores que a ciência avaliou as mudanças registradas no último século, concluindo que elas se devem à alteração na composição dos gases atmosféricos causada pelas atividades humanas.

4. Aumento do nível do mar

O aumento do nível do mar é uma das consequências mais críticas do aquecimento global. O nível do mar está subindo por dois motivos: de um lado, o aumento da temperatura faz as águas expandirem em volume, de outro lado, o derretimento da criosfera (como calotas polares e geleiras) adiciona mais água aos oceanos. Milhares de pessoas vivem atualmente em cidades costeiras, e inúmeras atividades humanas dependem ou estão relacionadas com essa região.

5. Groenlândia

Por que monitorar a Groenlândia é tão importante quando o assunto é aquecimento global? Em primeiro lugar, porque essa região do planeta é mais sensível às alterações no sistema climático, funcionando como um indicador do que pode estar por vir para o restante do planeta. Mas também porque as mudanças na região do Ártico tem implicações extremamente relevantes, tanto em termos do nível do mar, quanto da circulação atmosférica.

Fontes – NASA / Clima e Ciência de 07 de setembro de 2017

Parem de falar da ameaça das mudanças climáticas: é aqui e agora, já está acontecendo!

Flooding caused by Hurricane Harvey, southeast Texas 31 August 2017. Photograph: UPI / Barcroft Images

Furacão Harvey, furacão Irma, incêndios em nuvem de vapor (flash fires), secas: tudo isso nos diz a mesma coisa – precisamos repensar imediatamente a maneira como vivemos. Para que possamos abordar o assunto de forma adequada, vamos limitar a discussão a apenas um continente e uma semana: a América do Norte ao longo dos últimos sete dias.

Em Houston, começava o trabalho, árduo e nada romântico, de recuperaçãodaquela que os economistas anunciam como sendo provavelmente a tempestade que causou o maior prejuízo na história dos Estados Unidos, e que os meteorologistas confirmaram como sendo o evento de maior precipitação já mensurada no país – em boa parte da sua trajetória, o furacão Irma foi uma tempestade do tipo que acontece uma vez a cada 25 mil anos, o que quer dizer 12 vezes o tempo entre agora e o nascimento de Cristo. Em pontos isolados, sua intensidade foi algo que acontece uma vez a cada 500 mil anos, ou seja, algo apenas visto quando ainda vivíamos em árvores. Enquanto isso, São Francisco não só quebrava seu recorde de temperatura máximacomo esse recorde era superado em 3ºC, o que deveria ser estatisticamente impossível em uma cidade com 150 anos (ou seja, 55 mil dias) de registro de temperatura..

A mesma onda de calor quebrava recordes em toda a costa oeste, exceto nos lugares em que nuvens de fumaça geradas por imensos incêndios florestaisfaziam sombra – depois que um incêndio florestal conseguiu cruzar o enorme rio Columbia, indo do Oregon até Washington, moradores do Pacífico Noroeste relataram que a nuvem de cinzas era tão densa que lembrava a erupção do Monte St. Helens, em 1980.

Um pouco mais adentro do continente, a mesma onda de calor causava uma “secaao longo do cinturão do trigo em Dakota do Norte e Montana – a evaporação causada pelas temperaturas recorde encolheu os grãos ainda na espiga, chegando ao ponto de alguns fazendeiros acharem que sequer valeria a pena colhê-los. No Atlântico, como sabemos, o furacão Irma avançava furiosamente sobre as ilhas do Caribe (“É como se alguém com um cortador de grama vindo do céu estivesse passando por cima da ilha”, disse, chocado, um morador de St. Maarten). No momento, essa tempestade – a primeira de categoria 5, em cem anos, a atingir Cuba – está avançando sobre a costa oeste da Flórida depois de atingir o recorde de menor pressão barométrica já registrado no arquipélago Florida Keys e pode facilmente quebrar o recorde de catástrofe econômica estabelecido há dez dias pelo furacão Harvey, mudando definitivamente a psicologia da vida na Flórida pelas próximas décadas.

Ah, e enquanto o furacão Irma girava, o furacão José o seguia como um grande furacão. O Katia também se tornava uma tempestade assustadora, antes de tocar o solo da península mexicana de Yucatán quase no ponto diretamente oposto ao do epicentro do maior terremoto em cem anos no México, que tirou dezenas de vidas.

Afora o terremoto, cada um desses eventos confirma o que cientistas e ambientalistas vêm tentando nos dizer há 30 anos, sem muito sucesso, sobre o que esperar do aquecimento global. (Na realidade, há evidências bastante convincentes de que as mudanças climáticas estão provocando mais atividade sísmica, mas não precisamos forçar a barra.)

Essa longa sequência de notícias vindas de apenas um continente em uma única semana (que poderia ter sido escrita abordando outros continentes em diferentes semanas – basta ver, por exemplo, a recente enchente no sul da Ásia –) é um retrato preciso, pixel por pixel, de um mundo em aquecimento. Como já queimamos muito petróleo, gás e carvão, nós criamos nuvens gigantescas de CO2 e metano no ar; como as estruturas dessas moléculas acumulam calor, o planeta aqueceu; como o planeta aqueceu, nós podemos sofrer precipitações mais intensas, ventos mais fortes e florestas e campos mais secos. Não é nenhum mistério, de forma alguma. Não é uma onda de má sorte. Não é por causa de Donald Trump (embora ele obviamente não esteja ajudando). Não é o fogo do inferno enviado para nos punir. É física.

Imaginar que os avisos dos cientistas realmente comoveriam as pessoas talvez tenha sido esperar demais. (Quero dizer, eu escrevi The End of Nature, o primeiro livro sobre isso tudo, há 28 anos recém-completados, quando eu mesmo tinha 28 anos e quando minha teoria ainda era: “As pessoas vão ler meu livro e, com isso, elas vão mudar”). Talvez seja como aquelas recomendações de que deveríamos comer menos salgadinhos e tomar menos refrigerante – o que, a julgar pelas medidas das cinturas da maioria das pessoas, poucos de nós levam muito a sério. A não ser, talvez, quando você chega no médico e ele lhe diz: “Opa, você está com problemas”. Não se trata de: “Continue comendo porcaria e um dia você vai ter problemas”; mas, sim: “Você está com problemas já, agora. Me parece que você já teve um minienfarto ou dois”. Os furacões Harvey e Irma são os equivalentes a um desses ataques isquêmicos transitórios – sim, sua cara está paralisada de um jeito estranho do lado esquerdo, mas pode ser que você continue vivo. Talvez. Se você começar a tomar remédios, comer direito, se exercitar, dar um jeito na vida.

Esse é o ponto em que estamos agora – não na fase do aviso no maço de cigarros, mas já com a tosse desesperadora que faz cuspir sangue. Mas o que acontece se você seguir fumando? Você vai piorar, até chegar a um ponto de não continuar mais. Nós aumentamos a temperatura da Terra em pouco mais de 1°C até agora, o que já foi calor extra suficiente para causar os horrores que estamos presenciando continuamente. E com a energia já acumulada no sistema, vamos chegar a cerca de 2°C, não importa o que fizermos. Isso seria consideravelmente pior do que já está, mas talvez seja suportável, ainda que de maneira custosa.

O problema é que, se tudo continuar desse jeito, essa trajetória nos leva para um mundo 3,5ºC mais quente. Dito de outra forma, mesmo se mantivermos as promessas que fizemos em Paris (que Trump, obviamente, já se recusou a fazer), vamos construir um mundo tão quente que será impossível termos civilizações. Temos que aproveitar o momento em que estamos agora – este momento em que estamos apavorados e vulneráveis – e usá-lo para nos reorientarmos completamente. Cada um dos últimos três anos quebrou o recorde anterior de ano mais quente da história – eles são sinais vermelhos piscando e avisando: “Parem com isso”. Temos que não apenas fazer uma curva em nossa trajetória, como vislumbrado no Acordo de Paris, mas pisar com tudo no freio dos combustíveis fósseis e acelerar as energias solares (e também pensar em metáforas novas que não se refiram a motores de combustão interna).

Essa é uma corrida contra o tempo. O aquecimento global é uma crise que já vem com um limite: ou a resolvemos logo, ou não a resolveremos.

Nós somos capazes de fazer isso. Tecnologicamente, não é impossível – estudos, um após o outro, têm demonstrado que podemos chegar a 100% de energia renovável com um custo viável, mais viável a cada dia, já que o preço de painéis solares e turbinas eólicas continua caindo. Elon Musk, CEO da Tesla, está mostrando que é possível produzir carros elétricos em larga escala, diminuindo cada vez mais a possibilidade de que preços elevados afastem consumidores. Nos cantos mais remotos da África e da Ásia, camponeses estão começando a abandonar os combustíveis fósseis e recorrendo ao sol. Os dinamarqueses acabaram de vender sua última empresa petrolífera e usaram o dinheiro para construir mais turbinas eólicas. Há exemplos o suficiente para fazer com que o desespero seja visto como a fuga covarde que ele realmente é. Mas precisamos, em todos os lugares, caminhar na mesma velocidade, porque essa é, de fato, uma corrida contra o tempo. O aquecimento global é a primeira crise que já vem com um limite: ou a resolvemos logo, ou não a resolveremos. Vencê-la devagar é só uma forma diferente de perder.

Vencê-la rápido o suficiente para que isso faça alguma diferença significa, acima de tudo, combater a indústria dos combustíveis fósseis, a força mais poderosa na Terra até agora. Isso significa adiar outras iniciativas humanas e mudar o rumo de outros gastos. Ou seja, isso significa entrar em pé de guerra: não atirando nos inimigos, mas nos concentrando da mesma maneira como nações e povos se concentram quando alguém está atirando neles. E estão atirando. O que você acha que significa suas florestas estarem pegando fogo, suas ruas alagadas e seus prédios desabando?

Fontes – Bill McKibben, The Guardian /  350.org de 14 de setembro de 2017

Aumento da temperatura associada às mudanças climáticas acelera a evaporação do Mar Cáspio

Mapa da drenagem do Mar Cáspio e da região do Cáspio (encerrado pela linha do contorno vermelho). O Mar Cáspio está rodeado por cinco países: Rússia, Cazaquistão, Turquemenistão, Irã e Azerbaijão. Quatro estações de maré (1 = Makhachkala, 2 = Forte Shevchenko, 3 = Baku e 4 = Turkmenbashi), das quais derivam as séries históricas do tempo de observação do nível do mar Cáspio, são marcadas por pontos magenta. Crédito: Jianli Chen / Geophysical Research Letters / AGUMapa da drenagem do Mar Cáspio e da região do Cáspio (encerrado pela linha do contorno vermelho). O Mar Cáspio está rodeado por cinco países: Rússia, Cazaquistão, Turquemenistão, Irã e Azerbaijão. Quatro estações de maré (1 = Makhachkala, 2 = Forte Shevchenko, 3 = Baku e 4 = Turkmenbashi), das quais derivam as séries históricas do tempo de observação do nível do mar Cáspio, são marcadas por pontos magenta. Crédito: Jianli Chen / Geophysical Research Letters / AGU

O maior corpo de água continental do planeta tem evaporado lentamente nas últimas duas décadas, devido ao aumento das temperaturas associadas à mudança climática, revela um novo estudo.

Os níveis de água no mar do Cáspio caíram quase 7 centímetros (3 polegadas) por ano de 1996 a 2015, ou quase 1,5 metro (5 pés) de total, de acordo com o novo estudo. O nível atual do mar Cáspio é apenas cerca de 1 metro (3 pés) acima do menor nível histórico, alcançado no final da década de 1970.

O aumento da evaporação sobre o Mar Cáspio foi associado ao aumento da temperatura do ar superficial. De acordo com os dados do estudo, a temperatura média anual da superfície sobre o Mar Cáspio aumentou cerca de 1 grau Celsius (1,8 graus Fahrenheit) entre os dois períodos de tempo estudados, 1979-1995 e 1996-2015. Estas temperaturas crescentes são, provavelmente, resultado de mudanças climáticas, de acordo com os autores do estudo.

A evaporação provocada pelas temperaturas do aquecimento parece ser a principal causa da queda atual do nível do mar e o declínio provavelmente continuará à medida que o planeta aquecer, de acordo com os autores do estudo, publicado em Geophysical Research Letters

O Mar Cáspio, localizado entre a Europa e a Ásia, é aproximadamente do tamanho do estado de Montana, EUA, com 371 mil quilômetros quadrados (143,244 milhas quadradas). Tem experimentado mudanças substanciais em seu nível de água nos últimos centenas de anos, mas estudos anteriores não conseguiram identificar as causas exatas das mudanças no nível do mar.

O Mar Cáspio é limitado por cinco países e contém uma abundância de recursos naturais e uma vida selvagem diversificada. Também contém reservas de petróleo e gás natural e é um recurso importante para a pesca nos países vizinhos.

O novo estudo começou depois que Wilson e Jianli Chen, o principal autor do estudo do Centro de Pesquisa Espacial da Universidade do Texas em Austin, unidos a outros pesquisadores, usaram o Mar Cáspio para calibrar dados dos satélites gêmeos da missão GRACE lançada em 2002. Ao comparar as medidas do mar Cáspio dos dados da GRACE e das medições baseadas na Terra, os pesquisadores ajudaram a melhorar a precisão dos dados do satélite. Ao fazê-lo, eles notaram que os níveis de água do Mar Cáspio estavam sofrendo mudanças significativas.

Os pesquisadores analisaram as três principais influências sobre os níveis de água do mar Cáspio: água dos rios que drenam para o mar, precipitação e evaporação.

Eles compilaram informações sobre mudanças de nível de água, observadas pelos satélites, registros de precipitação e drenagem no mar a partir de rios, e estimativas de precipitação e evaporação de modelos climáticos. Os pesquisadores então reuniram um registro de quanto cada um desses fatores contribuiu para mudanças observadas no nível do Mar Cáspio de 1979 a 2015.

Eles encontraram que os níveis do Mar Cáspio aumentaram em cerca de 12 centímetros (5 polegadas) por ano de 1979 a 1995. Mas em 1996, os níveis do mar começaram a cair e diminuíram em média quase 7 centímetros por ano até 2015. De 1996 a 2015, o nível do Mar Cáspio caiu quase 1,4 metro (4.5 pés), de acordo com os registros do nível do mar usados no estudo.

A evaporação contribuiu para cerca de metade desse declínio, enquanto os efeitos combinados das mudanças de precipitação e descarga do rio contribuíram para a outra metade. De acordo com o estudo, as taxas de evaporação observadas estão associadas ao aumento da temperatura do ar superficial e outros fatores climáticos, como a umidade da superfície e o vento.

O novo estudo fornece a primeira prova convincente de que o aumento da evaporação sobre o Mar Cáspio é uma força motriz mais importante da mudança do nível do mar do Cáspio do que a descarga ou precipitação do rio, diz Anny Cazenave, um geodesista espacial do CNES, do Laboratório de Estudos em Geofísica e Océanografia Spatiales (LEGOS), no Observatoire Midi-Pyrénées em Toulouse, França, que não esteve envolvido no novo estudo.

A evaporação terá o maior impacto na parte norte do Mar Cáspio porque grande parte da água naquela área é inferior a 5 metros (16 pés) de profundidade. Se a tendência atual de uma redução de 7 centímetros por ano continuar a uma taxa constante, levaria cerca de 75 anos para que a parte norte do mar desapareça, de acordo com o novo estudo.

O mar do Cáspio suporta muitas espécies antigas e antigas que ficaram de quando o mar fazia parte do Oceano de Tethys durante a era do Mesozóico, aproximadamente 300 milhões de anos atrás. Embora a maioria dessas espécies viva nas regiões do sul e do meio do Mar Cáspio, algumas usam a área do norte rasa como terreno de reprodução, incluindo 90 por cento dos esturjões do mundo . A queda do nível do mar também afetaria a baía de Kara-Bogaz-Gol, no lado leste do mar, com menos de 5 metros de profundidade e contém um dos maiores depósitos naturais de sais marinhos do mundo , de acordo com os autores do estudo .

Embora este estudo tenha identificado as tendências no nível do mar e suas causas, os pesquisadores não projetaram estimativas específicas de como esses níveis podem mudar no futuro.

Referência

Chen, J. L., T. Pekker, C. R. Wilson, B. D. Tapley, A. G. Kostianoy, J.-F. Cretaux, and E. S. Safarov (2017), Long-term Caspian Sea level change, Geophys. Res. Lett., 44, 6993–7001, doi:10.1002/2017GL073958.
http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1002/2017GL073958/pdf

Fontes – American Geophysical Union / tradução e edição de Henrique Cortez, EcoDebate de 30 de agosto de 2017

Todos os artigos científicos que negam o aquecimento global são falhos: estudo

Muitas vezes é dito que, de todas as pesquisas científicas publicadas sobre mudanças climáticas, 97% concluem que o aquecimento global é um problema real para o planeta e tem sido exacerbado pela atividade humana.

Mas e quanto a esses 3% de artigos que chegam a conclusões contrárias? Alguns céticos sugerem que os autores de estudos que indicam que as mudanças climáticas não são reais, nem prejudiciais, nem criadas pelo homem estão bravamente defendendo a verdade, como pensadores inconformados do passado. Galileu é frequentemente invocado nessa horas, embora seus companheiros cientistas concordassem com suas conclusões – eram líderes da igreja que tentavam suprimi-las.

A realidade, porém, não é bem assim, de acordo com uma revisão publicada na revista Theoretical and Applied Climatology. Os pesquisadores tentaram replicar os resultados desses 3% dos trabalhos – uma maneira comum de testar estudos científicos – e encontrar resultados tendenciosos e defeituosos. Katharine Hayhoe, cientista atmosférica da Texas Tech University, trabalhou com uma equipe de pesquisadores para analisar os 38 artigos publicados em periódicos revisados ​​por pares na última década que negaram o aquecimento global antropogênico.

“Cada uma dessas análises teve um erro – em suas premissas, metodologias ou análises – que, quando corrigidas, trouxeram seus resultados de acordo com o consenso científico”, escreveu Hayhoe em uma publicação no Facebook.

Sem resultados reproduzíveis

Um dos co-autores da Hayhoe, Rasmus Benestad, cientista atmosférico do Instituto Meteorológico da Noruega, construiu o programa usando a linguagem informática R, que funciona convenientemente em todas as plataformas de computadores, para replicar cada um dos resultados dos documentos e tentar entender como eles chegaram a suas conclusões. O programa de Benestad descobriu que nenhum dos trabalhos teve resultados reproduzíveis, pelo menos não com a ciência geralmente aceita.

Em geral, houve três erros principais nos documentos que negavam a mudança climática. Muitos escolheram a dedo os resultados que convenientemente apoiavam suas conclusões, ignorando outros contextos ou registros. Depois, houve alguns que aplicaram um “ajuste de curva” inadequado – no qual eles ficavam cada vez mais longe dos dados até que os pontos correspondessem à curva de sua escolha.

E, é claro, às vezes os documentos simplesmente ignoraram a física. “Em muitos casos, as deficiências são devidas a avaliações insuficientes dos modelos, levando a resultados que não são universalmente válidos, mas um artefato de uma configuração experimental particular”, escrevem os autores.

Aqueles que afirmam que esses documentos estão corretos, enquanto os outros 97% são errôneos, estão apoiando uma ciência na qual os pesquisadores já decidiram quais os resultados que eles procuravam, dizem os autores da revisão. A boa ciência é objetiva: não se importa com o quais alguém quer que as respostas sejam.

Sem alternativa coesa

A revisão serve como uma resposta à acusação de que a visão minoritária sobre as mudanças climáticas foi consistentemente suprimida, escreve Hayhoe. “É muito mais fácil para alguém afirmar que foram suprimidos do que admitir que talvez eles não possam encontrar a evidência científica para apoiar sua ideologia política. Eles não foram suprimidos. Eles estão lá fora, onde qualquer um pode encontrá-los”. Na verdade, a revisão levanta a questão de como esses artigos foram publicados, sendo que eles usaram metodologia defeituosa, uma coisa que o rigoroso processo de revisão por pares é projetado para evitar.

Em um artigo para o jornal The Guardian, um dos pesquisadores, Dana Nuccitelli apontou outro problema com os artigos que negam a mudança climática: “Não existe uma teoria alternativa coesa e consistente para o aquecimento global causado pelo homem”, ele escreve. “Alguns culpam o sol pelo aquecimento global, outros os ciclos orbitais de outros planetas, outros os ciclos oceânicos, e assim por diante. Existe um consenso de 97% sobre uma teoria coesa que é esmagadoramente apoiada pela evidência científica, mas os 2-3% de documentos que rejeitam esse consenso estão por todos os lados, mesmo contradizendo-se”.

O exemplo de Galileu também é instrutivo, ressalta Nuccitelli. O “pai da ciência observacional” defendeu o modelo astronômico que a Terra e outros planetas em nosso sistema solar giram em torno do sol – uma visão que finalmente foi aceita quase universalmente como a verdade. “Se algum dos contrários fosse um Galileu moderno, ele apresentaria uma teoria que é apoiada pela evidência científica e que não se baseia em erros metodológicos”, ele escreve. “Essa teoria convenceria os especialistas científicos e um consenso começaria a se formar”.

Fontes – Jéssica Maes, QZ / Hypescience de 06 de setembro de 2017

Petroleiro cruza o Ártico sem quebra-gelo pela primeira vez

O petroleiro Christophe de Margerie encara gelos de até 2,1 metros de espessura. Foto Socovcomflot, empresa russa de transporte marítimo

Navio da empresa Sovcomflot atravessou o gelo marinho em rota do mar do norte transportando combustível da Noruega para a Coréia do Sul em tempo recorde

Um petroleiro russo navegou pelo norte do Ártico, sem escolta de quebra-gelo, pela primeira vez. A embarcação, que trazia gás liquefeito, poderá cruzar os mares polares ao longo do ano, aproveitando o encolhimento do gelo do mar do Ártico.

Em sua viagem inaugural, Christophe de Margerie, como é chamado o petroleiro, completou a Rota Marítima do Norte (também conhecida como Passagem Nordeste) em tempo recorde: seis dias e meio, carregando uma carga de gás natural liquefeito (GNL) da Noruega para a Coreia do Sul em 19 dias, cerca de 30% mais rápido do que uma passagem típica pelo canal de Suez. “Foi um feito inédito e bem importante “, disse o porta-voz da Sovcomflot, Bill Spears, ao Climate Home.

O tráfego marítimo ao longo da costa norte da Rússia, facilitado pelo aquecimento global, tem desenvolvido a indústria da região. A empresa estatal russa Rosatomflot relatou que dobrou a procura de suas escoltas de quebra-gelo nuclear entre 2015 e 2016. “Sempre houve uma janela no período de verão onde conseguimos passar por uma escolta de quebra-gelo. Agora, essa janela está ficando um pouco mais ampla. Isso, obviamente, mostra que as condições climáticas estão diferentes”, disse Spears.

Projetado para atravessar uma espessura de até 2,1 metros de gelo marinho, Christophe de Margerie, que leva o nome do ex-executivo de uma companhia petrolífera francesa, morto em um acidente de avião em um aeroporto de Moscou em 2014, leva a bandeira da ilha de Chipre e pode operar além dos meses de verão, o que representa uma vantagem sobre seus concorrentes.

A expansão e encolhimento do gelo do mar no Ártico é natural ao longo das estações, no entanto, há uma tendência clara de diminuição progressiva, uma vez que  a região onde está o polo Norte esquentou duas vezes mais do que a média global. Em março deste ano, a extensão máxima anual do gelo do mar do Ártico atingiu uma baixa recorde pelo terceiro ano consecutivo, de acordo com o Centro Nacional de Dados de Neve e Gelo dos EUA.

O fato de a Sovcomflot ter investido em uma operadora de GNL com capacidade de atravessar superfícies de gelo revela que o mercado vislumbrava a tendência de redução do gelo, disse Andrew Holland, do American Security Project. “Era muito imprevisível e as pessoas diziam: talvez possamos ter um Ártico aberto por muito mais tempo a partir de agora”, disse ao Climate Home.

Para que as empresas decidam investir em embarcações como esta, é preciso que observem a redução do gelo como tendência. “Desde que o gelo do Ártico foi reduzido drasticamente em 2007, notamos que se tratava de algo de longo prazo. Não há como negar. Este é um efeito muito claro e previsível das mudanças climáticas.”

Truls Gulowsen, do Greenpeace da Noruega, criticou o que definiu como “empresas gananciosas” por explorarem a fragilidade do Ártico como oportunidade de negócio. Ele afirmou que as empresas deveriam refletir sobre o Meio Ambiente e atentar para “a mensagem da Terra, de que precisamos tirar os combustíveis fósseis de circulação o mais rápido possível”.

A abertura do ártico na Rússia cria rotas comerciais para mercados crescentes de petróleo e gás, como Japão, China e Coreia do Sul. Também expande as opções navais do presidente Vladimir Putin. Quando a Rússia entrou em guerra com o Japão de 1904 a 1905, seu porto leste de Vladvostock ficou congelado durante metade do ano. Os reforços da frota tiveram que viajar milhares de quilômetros em torno da África para alcançar a arena da batalha. Ao chegarem, com os recursos esgotados, a frota russa sofreu grandes derrotas.

Embora não haja indícios para afirmar que a Rússia caminha em direção a um novo conflito, Holland afirma que a dinâmica do poderio militar pode se alterar radicalmente com as transformações de rota devido geradas pelo derretimento do gelo do mar: “Coisas como essa têm consequências imprevisíveis”.

Outros países também estão observando oportunidades na região polar descongelada. O Xuelong, também conhecido como dragão de neve, o quebra-gelo polar do Instituto de Pesquisas da China, já tenta a primeira circunnavegação da China ao Ártico, informou a agência oficial do governo chinês. Uma equipe integrada de 96 pessoas está realizando pesquisas de fronteira e coletando informações que vão da geologia à acidificação dos oceanos, disse o cientista-chefe chinês Xu Ren.

Fontes – Megan Darby,  Climate Home / Observatório do Clima de 28 de agosto de 2017

5 mentiras que os negacionistas contam, refutadas em ‘Negacionismo, esse Pinóquio Zombie’

Como infelizmente temos assistido a um recrudescimento do negacionismo nas redes sociais, estamos tendo de dedicar um esforço extra para combater a patifaria desinformação disseminada, nociva em diversas dimensões: 1) deseduca, no sentido literal da palavra, pois repassa ao público leigo e especialmente à juventude em idade escolar noções falsas sobre o nosso mundo físico; 2) mina de forma totalmente irresponsável a credibilidade da ciência que, mesmo considerando seus limites e sua inserção no contexto social, econômico, etc., não pode ser negada como grande conquista humana; 3) ao negar a existência de um problema tão grave, que pode mesmo ser considerado o maior dilema civilizacional jamais posto diante da humanidade, sabota a consciência coletiva sobre a necessidade de incidir sobre ele de maneira urgente e resoluta.

Claro, mesmo sabendo da “Assimetria de Brandolini” (“a quantidade de energia necessária para refutar bobagens é uma ordem de magnitude maior do que para produzi-la”), não há saída mágica. Só informação pode dar conta de enfrentar o negacionismo, esse Pinóquio zombie que tanto mente compulsivamente como se recusa a assumir que está morto e apodrecido. Neste “post” selecionamos alguns dos mitos negacionistas que insistem em se levantar da tumba e cuja refutação apresentamos em nossa fanpage no Facebook.

Mentira Nº 01 – “O Aquecimento Global parou em 1998”

Um dos mitos incrivelmente mais persistentes do negacionismo climático é o de que “o aquecimento global parou em 1998”. Mas será que isso faz algum sentido?

Evidentemente que não, bastando olhar os dados, o que pode ser feito não apenas utilizando a base de dados da NOAA, como fizemos, mas a de qualquer outro instituto de pesquisa sério. Em primeiro lugar, 1998 é apenas o 8º ano mais quente do registro histórico e deve sair dos top ten até o final desta década. Os seguintes anos registraram temperaturas médias globais maiores que 1998: 2005, 2009, 2010, 2013 e a sequência de recordistas 2014, 2015 e 2016. Em segundo lugar, mesmo escolhendo 1998 como ponto final de um período de 19 anos (1980-1998) e como período inicial de outro (1998-2016), que seria uma situação que poderia mascarar o aquecimento global, o que os dados revelam? Uma simples regressão linear mostra que no primeiro período, terminando em 1998, a taxa de aquecimento foi de +0,15°C/década, e que no período seguinte, começando em 1998, foi de +0,17°C/década.

Importante: na verdade, em Climatologia normalmente usamos períodos de 30 anos para termos uma boa representação estatística. E quando consideramos 1957-1986 (aquecimento de +0,09°C/década) e 1987-2016 (aquecimento de +0,17°C/década), a aceleração do aquecimento global fica ainda mais nítida.

A origem do mito está no fato de que no período 1997-1998 ocorreu um grande El Niño, o maior do registro histórico, que não foi sequer superado pelo evento de 2015-2016. E é durante eventos de El Niño que o Oceano Pacífico despeja na atmosfera quantidades maiores do calor por ele acumulado (lembrando que os oceanos acumulam 93,4% do calor associado ao aquecimento global). Então por alguns anos, por conta desse “ponto fora da curva”, ficou a impressão de que o aquecimento global teria pelo menos tido uma “pausa” ou “hiato”, sendo que até alguns cientistas sérios se deixaram levar por essa ideia errada.

Importante alertar! Esse “zombie” pode voltar a qualquer momento, pois como é pouco provável que 2017 supere o recorde de temperatura do ano passado, o cadáver deve voltar rastejando dizendo “o aquecimento global parou em 2016″…

Mentira Nº 02 – “Os vulcões emitem muito mais CO₂ do que as atividades humanas”

Você já deve ter visto na internet alguém afirmando que o ser humano não poderia alterar o clima do planeta porque “os vulcões emitem muito mais CO₂”. E aí? Será que essa informação procede?

Fomos checar essa informação na literatura científica. Num artigo publicado na EOS (revista da American Geophysical Union) pelo cientista Terry Gerlach, do “Cascades Volcano Observatory”, do U.S. Geological Survey, o autor faz uma revisão das estimativas de emissões vulcânicas. Os resultados que ele encontrou são de estimativas de 0,18 a 0,44 bilhões de toneladas de CO₂/ano. Por sua vez, segundo dados do CDIAC (Carbon Dioxide Information Analysis Center) disponíveis em http://cdiac.ornl.gov/, as emissões humanas são de 9,855 bilhões de toneladas de carbono por ano, o que, fazendo o devido cálculo (multiplicando por 44 e dividindo por 12) nos dá mais de 36,1 bilhões de toneladas de CO₂/ano, somando a queima de petróleo, gás e carvão e a produção de cimento.

E isso não muda muito quando se tem uma grande erupção. O Pinatubo, segundo Gerlach et al 1996 (https://volcanoes.usgs.gov/vhp/gas.html), emitiu 42 milhões de toneladas de CO₂, o que na realidade é o que somente 8 termelétrica a carvão de potência em torno de 1000 MW emite em um ano.

Em resumo, a afirmativa é para lá de falsa! Haja nariz de Pinóquio para sustentá-lo. Não só os vulcões não emitem mais CO₂ que a humanidade como na verdade esta é que emite entre 82 e 200 vezes mais CO₂ do que todos os vulcões do planeta juntos, incluindo os submersos.

Mentira Nº 03 – “O CO₂ subiu, mas a temperatura não acompanhou”

Recentemente nas redes sociais, um negacionista conhecido fez a seguinte afirmação “o caso é que CO2 sobe e temperaturas não acompanharam”, referindo-se a anos recentes. Nós fomos checar se essa afirmação procedia e…

Pois é, como sabemos desde 1958 existem medições diárias de CO2 feitas no Observatório de Mauna Loaa, mantido pela National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA). O que fizemos foi simplesmente cruzar os dados com os de temperatura média global, que obtivemos a partir do site da NASA – National Aeronautics and Space Administration. O gráfico, que mostra os valores de concentração de CO₂, em partes por milhão, no eixo à esquerda, e a anomalia de temperatura, em °C, no eixo à direita, não deixa margem para dúvidas. As duas variáveis andam juntas.

Qualquer um aliás, pode repetir o experimento e baixar os dados diretamente: os dados de concentração de CO₂ estão disponíveis no site do ESRL/NOAA e os de temperatura podem ser obtidos junto à página da NOAA (como indicamos antes) ou no site do NASA-GISS. Em tempo, para quem curte os detalhes matemáticos… Calculamos a correlação entre as duas séries e dá um valor muito próximo do máximo (que é um): 0,948!

Mentira Nº 04 – “O clima foi mais quente durante a Idade Média”

Nesses tempos em que o negacionismo climático se disfarça de conhecimento científico, você pode ter esbarrado com a afirmação de que “a Terra já teve temperaturas mais altas durante o ‘Período Medieval Quente’” ou algo parecido. Será que isso tem fundamento? Não, não tem. É mais uma distorção que os negacionistas fazem dos fatos científicos conhecidos.

Há poucas décadas, em alguns estudos de Paleoclimatologia (ciência que estuda o clima do passado), começaram a surgir indicativos de que na Europa e em outras regiões do Hemisfério Norte as temperaturas teriam sido mais elevadas na Idade Média do que na chamada Idade Moderna. Esses períodos ficaram conhecidos, respectivamente, como “Período Medieval Quente” e “Pequena Era do Gelo”.

Evidentemente, muitas perguntas naturalmente surgiram. Como esse período relativamente quente da Idade Média se compara ao aquecimento de hoje? O fenômeno era global ou regional, isto é, circunscrito à Europa e outras áreas do Hemisfério Norte? Durante algum tempo (talvez até o final da década de 1990 ou início da década de 2000), não tínhamos de fato conhecimento suficiente para responder, pelo menos não de maneira categórica, a tais perguntas.

Mas a ciência avança. De lá para cá, fomos capazes de achar respostas para as duas questões. Primeiro, como indicaram diversos estudos independentes compilados pelo IPCC no seu 4º relatório, as anomalias de temperatura contemporâneas no Hemisfério Norte já haviam quase certamente ultrapassado, já antes de 2007 (quando o mesmo foi publicado), os valores medievais. Mais importante, a taxa de variação, ou seja, o aquecimento observado, já era maior do que em qualquer momento dos últimos 1000 anos.

Mais do que isso, estudos posteriores mostraram que o aquecimento verificado na Idade Média não foi propriamente global, mas sim predominantemente regional. Vastas porções da Ásia e dos oceanos estiveram, na realidade, mais frias naquele momento.

Em suma, há mais de uma década sabemos que a noção de que as temperaturas medievais estiveram acima das atuais não passa de um mito. É uma hipótese que foi desmentida com base nas evidências.

E hoje em dia? Ora, além dos avanços científicos, nos últimos anos foi o próprio aquecimento global que se acelerou. Daí, os trabalhos mais recentes refletem esse fato, como mostrado em nossa figura. Nela, retratamos, além das anomalias de temperatura observadas (em vermelho), duas reconstruções de temperatura, a de Markott et al (2013), publicada na Revista Science e a do projeto PAGES, especificamente a parte dedicada às variações climáticas dos últimos 2000 anos, o PAGES-2K.

O que podemos concluir quando colocamos juntas todas essas evidências? Que é inquestionável não haver paralelo, nos últimos dois milênios, para o aquecimento do presente. Atualmente, o aquecimento é bem maior em amplitude e muito maior em velocidade do que tudo o que se viu desde o “ano zero”. A tendência do aquecimento global do presente, por sinal, é não apenas a de continuar, mas inclusive de se acelerar, deixando mais e mais a Anomalia Climática Medieval (nomenclatura mais apropriada para um fenômeno regional) para trás.

Mentira Nº 05 – “É o Sol”

Da série de lorotas espalhadas pelos negacionistas climáticos uma das mais famosas é que “é o Sol”, ao invés do aumento da concentração de gases de efeito estufa, o fator exclusivo ou principal por trás do aquecimento observado do sistema climático.

Pelo fato de o Sol ser a fonte primária de energia para praticamente tudo que acontece no clima terrestre, esta é uma afirmação que até parece fazer sentido. Mas como todo mito negacionista, não resiste a um exame minimamente aprofundado.

O primeiro ponto é que obviamente, como mostra a figura, as variações observadas de temperatura e de insolação seguem comportamentos bem diferentes desde o final do século XIX para cá. As variações na irradiância são dominadas pelo ciclo de 11 anos e a amplitude desse ciclo, embora tenha crescido no final do século XIX e início do século XX, deixou de aumentar e até descresceu nas últimas décadas. Já a temperatura, principalmente desde meados do século XX para cá, segue tendência de aquecimento praticamente contínua!

O segundo ponto é que os valores de energia envolvidos não fecham a conta. Distribuindo os pouco mais de 1360 W/m² de irradiância sobre a superfície da Terra, chega-se a aproximadamente 340 W/m² incidindo no topo da atmosfera. Descontando o que é refletido para o espaço (albedo), conclui-se que chegam, em média, em cada ponto da superfície terrestre, 235 W/m² de radiação solar. Ora, como se pode constatar também pelo gráfico, as variações na radiação solar entre mínimo e máximo ficam em torno de apenas 0,1% do total. O resultado é que o máximo desequilíbrio energético que as variações solares podem produzir é da ordem de 0,235 W/m². Este é um valor muito pequeno, cerca de 10 vezes menor do que a forçante radiativa associada aos efeitos antrópicos no presente somados. Tão pequeno, que equivale à perturbação no clima associada ao CO₂ existente em 1920 (303 partes por milhão), em comparação com os níveis pré-industriais (280 ppm). Seria necessário que o clima da Terra fosse muito mais sensível do que é (felizmente, não é o caso), para que aquecesse tanto assim em resposta às variações solares!

Mudança na temperatura da baixa troposfera (acima)
e da baixa estratosfera (abaixo). Esse padrão não é
compatível com um aquecimento causado pelo Sol,
ao mesmo tempo em que é perfeitamente explicado
pelo aumento da concentração de gases de efeito estufa.

Mas o que talvez seja mais incompatível com a conversa de que “é o Sol” seja a “assinatura” do aquecimento. Se o Sol ficar mais ativo, o que deveria acontecer com a estratosfera, camada da atmosfera que fica em cima da troposfera, com menor densidade e contendo ozônio que absorve praticamente toda a radiação ultravioleta? Claro, a estratosfera seria a primeira camada a esquentar, mas as observações recentes mostram, pelo contrário, que a estratosfera está esfriando (o que tem a ver com menos infravermelho escapando da camada de baixo, a troposfera). É o que mostra, por exemplo, a figura ao lado, com gráficos obtidos a partir da página Remote Sensing Systems.

Resumindo: embora o Sol seja a fonte primária de energia para o sistema climático terrestre, as variações recentes nessa fonte são pequenas demais para produzirem alterações climáticas sensíveis como as que estão sendo observadas e as próprias características dessas mudanças seriam diferentes! Negacionistas, estamos de olho nas suas lorotas!

* Análise originalmente publicada no blogue , do Prof. Alexandre Costa**

** Alexandre Araújo Costa – Sou Bacharel em Física pela Universidade Federal do Ceará (1992), Mestre em Física pela Universidade Federal do Ceará (1995), Doutor em Ciências Atmosféricas pela Colorado State University (2000), com Pós-Doutorado pela Universidade de Yale (2004-2005). Fui Gerente do Departamento de Meteorologia e Oceanografia da Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (2005-2008) e atualmente sou Professor Titular da Universidade Estadual do Ceará. Tenho atuado principalmente nos seguintes temas: Microfísica e Macrofísica de Nuvens, Modelagem Atmosférica, Climatologia Física, Mudanças Climáticas e Meteorologia Aplicada. Publiquei mais de 40 artigos em periódicos científicos com revisor e mais de uma centena de trabalhos completos em anais de eventos científicos. Sou Bolsista de Produtividade do CNPq, Nível 2 e integro o Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas.

Fonte – EcoDebate de 25 de agosto de 2017

Mudanças climáticas põem advogados para trabalhar

Sociedade civil protesta contra lentidão e falta de decisões em temas estratégicos na COP21. Foto: Joel Lukhovi / Survival Media Agency

Ciência levanta provas robustas sobre o papel da humanidade na transformação do clima, impulsiona ações judiciais e pode levar governos e empresas a investir em mitigação

Os avanços científicos dos últimos anos deram aos pesquisadores a capacidade de compreender – e medir – com uma precisão cada vez maior, o tamanho da influência humana em catástrofes climáticas individuais. Isso significa que será cada vez mais comum mover processos bilionários por danos e prejuízos que terão como responsáveis governos e empresas privadas.

A conclusão é de um estudo publicado nesta semana no periódico Nature Geosciencepelo advogado especialista em causas ambientais James Thornton e colegas. Thornton explica que isso só está acontecendo porque o consenso científico sobre o papel da humanidade em eventos extremos é cada vez maior. “No Reino Unido, por exemplo, os tribunais já aceitam evidências científicas de mudanças climáticas como provas de causalidade”, disse.

A Lei de Alterações Climáticas do Reino Unido prevê que o governo solicite planos de adaptação das agências para demonstrar sua preparação para os impactos das mudanças climáticas, de modo a mitigar o risco de litígio. “Os governos têm o dever de evitar que os cidadãos sofram por catástrofes que poderiam evitar”, disse Thornton. Nos EUA, as reivindicações contra o poder público por não se adaptarem às mudanças climáticas podem se enquadrar, por exemplo, em leis federais, e os governantes podem responder a processo por negligência e fraude.

Um dos casos mais famosos de litígio em clima ocorreu justamente nos EUA. Em 2015, um grupo representando 21 crianças processou o governo americano por falhar em combater a mudança climática – colocando em risco o futuro dos litigantes. O argumento jurídico central da ação, que será julgada em fevereiro de 2018 no Estado do Oregon, é que o governo é uma espécie de “fiel depositário” de bens comuns, como a água, as florestas e a atmosfera, e tem feito um péssimo trabalho. Casos semelhantes existem na Holanda, onde a Justiça deu ganho de causa aos cidadãos em 2015 e obrigou o governo a cortar emissões – na primeira ação do gênero a ser julgada – e no Paquistão.

A pesquisadora australiana, advogada especialista na causa climática e uma das autoras do estudo, Sophie Marjanac, disse que as empresas também devem se preocupar em cumprir suas metas de emissão, uma vez que contribuem significativamente com os gases de efeito estufa. “Os pesquisadores estão produzindo evidências claras e as empresas têm ciência de sua parcela de responsabilidade no aumento do risco de eventos extremos no futuro”, disse.

Para fazer um estudo de atribuição, os pesquisadores consideram a qualidade dos registros de observação, a capacidade dos modelos de simular o evento analisado e a compreensão científica dos processos. Segundo a Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos, eles atingiram um patamar elevado de confiabilidade e conseguem com alto grau de precisão diferenciar a variabilidade natural do clima das mudanças climáticas causadas pelo homem. A chance de acerto é ainda maior em eventos de calor ou frio extremos.

Em 2004, um estudo de atribuição relacionou explicitamente a mudança climática antropogênica à forte onda de calor europeia de 2003 e abriu caminho para uma série de pesquisas e metodologias sobre o tema. As anomalias de temperatura no verão de 2017 no sudeste na Austrália, por exemplo, de acordo com uma série de estudos, têm altíssima probabilidade de terem sido causadas pelo homem. A chance de um verão superquente como aquele acontecer era de 1 em cada 500 anos algumas décadas atrás, hoje é de 1 em cada 50 anos.

A boa notícia é que os tribunais – e os novos litígios – podem reduzir compulsoriamente as emissões de gases de efeito estufa. “Eles vão ser pressionados por processos e a perda de dinheiro pode ser maior do que os gastos com mitigação”, diz Marjanac. “Talvez seja o empurrão que faltava para acelerarmos o passo em favor da ação climática”.

“No Brasil, assim como em outros países, a produção de evidências robustas sobre como, quando e onde os danos decorrentes das mudanças climáticas ocorrerão poderá ajudar a convencer o Poder Judiciário sobre a existência de deveres legais de reduzir seus impactos por meio de medidas de adaptação”, diz a advogada Ana Carolina Vieira, do Instituto de Energia e Meio Ambiente. “Essas medidas já estão previstas, inclusive, na legislação brasileira e em planos de governo nos diferentes níveis da federação.”

Vieira diz, porém, que a sociedade brasileira ainda precisa desenvolver estratégias de litigância que levem a política climática a um novo patamar. “O estabelecimento desse campo depende da preparação e prontidão da sociedade civil e de instâncias de controle para se apropriar de dados científicos e submetê-los estrategicamente ao Poder Judiciário”, afirma. “Esse passo ainda não foi dado no Brasil.”

Fonte – Luciana Vicária e Claudio Angelo, Observatório do Clima de 31 de agosto de 2017

O que pode acontecer com a Antártica se o oceano esquentar 1°C?

Paul Nicklen/National Geographic

O aquecimento climático ameaça alterar o ecossistema do frágil fundo do mar da Antártica, e apenas o aumento de um grau é suficiente para modificar profundamente certas espécies, revelou uma pesquisa publicada nesta quinta-feira (31).

O estudo se baseou em experimentos que reproduziram as condições reais do aumento das temperaturas no meio ambiente oceânico durante nove meses perto da base de pesquisa britânica Rothera, na ilha Adelaide, na Península Antártica.

Segundo as conclusões publicadas na revista científica americana Current Biology, um grau adicional na temperatura da água mais que duplicou a população de certas de espécies em determinados casos.

“Estou bastante surpreso”, disse Gail Ashton, do British Antarctic Survey.

“Não esperava uma diferença tão significativa nas comunidades animais da Antártica com um aumento de somente um grau”, assinalou, ao detalhar que em climas temperados as diferenças de temperatura altas não têm tais efeitos.

Com a ajuda de paneis elétricos, os cientistas aqueceram uma mínima camada de água em um ou dois graus em relação à temperatura ambiente, o que corresponde ao aquecimento nos próximos 50 ou 100 anos, respectivamente.

Com um grau a mais, explodiu a população de briozoários (Fenestrulina rugula), animais-musgo que vivem no fundo do mar, a ponto de dominarem completamente o ecossistema próximo, o que produziu uma redução de todos os outros organismos em um prazo de dois meses.

Os gusanos marinhos, como os Romanchella perrieri, também aumentaram a sua quantidade em média em 70% comparados aos que estavam em temperatura ambiente.

A reação dos diferentes organismos com um aumento de dois graus foi muito mais variável, observaram os pesquisadores, assinalando que poderia depender de sua idade e das estações.

As espécies geralmente crescem mais rápido quando a Antártica esquenta no verão. Mas também observaram efeitos em março, quando a quantidade de alimento disponível e a temperatura ambiente diminuem.

Esta experiência sugere que a mudança climática pode ter um impacto maior que o esperado nos ecossistemas marinhos polares.

Predizer a evolução dos organismos e das espécies animais com a mudança climática continua sendo um desafio importante, segundo os cientistas, que assinalam que alguns se beneficiarão, enquanto outros irão sofrer.

Também planejam reproduzir este experimento particularmente no Ártico, onde o aquecimento global já teve efeitos importantes.

Fonte – UOL de 01 de setembro de 2017

Estudo indica que o aquecimento dos oceanos, pelas mudanças climáticas, deve reduzir o tamanho dos peixes

Estudo indica que o aquecimento das águas, pelas mudanças climáticas, deve reduzir o tamanho dos peixes

Espera-se que os peixes encolham em tamanho, de 20 a 30 por cento, se a temperatura do oceano continuar a subir devido a mudanças climáticas

Um novo estudo realizado por pesquisadores da Universidade da Colúmbia Britânica fornece uma explicação mais profunda porque, com as mudanças climáticas e o aquecimento das águas, os peixes devem diminuir em tamanho.

“Os peixes, como animais de sangue frio, não podem regular suas próprias temperaturas corporais. Quando as águas ficam mais quentes, seu metabolismo acelera e eles precisam de mais oxigênio para sustentar suas funções corporais ”, disse William Cheung, coautor do estudo, professor associado do Institute for the Ocean and Fisheries e diretor de ciência da Nippon Foundation -Programa do NÚCLEO da UNIBA. “Há um ponto em que as brânquias não podem fornecer oxigênio suficiente para um corpo maior, então o peixe simplesmente para de crescer”.

Daniel Pauly, principal autor do estudo e pesquisador principal do Sea Around Us, no Instituto para o Oceano e as Pescas, explica que, à medida que o peixe cresce até a idade adulta, sua demanda por oxigênio aumenta porque a massa corporal dele se torna maior. No entanto, a área superficial das brânquias – onde o oxigênio é obtido – não cresce ao mesmo ritmo que o resto do corpo. Ele chama este conjunto de princípios, que explica por que os peixes devem encolher, de “teoria da limitação de oxigênio branquial”.

Por exemplo, um peixe como o bacalhau aumenta seu peso em 100 por cento, suas brânquias só crescem em 80 por cento ou menos. Quando entendido no contexto da mudança climática, esta regra biológica reforça a predição de que o peixe diminuirá e será ainda menor do que o avaliado em estudos anteriores.

As águas mais quentes aumentam a necessidade de oxigênio do peixe, mas a mudança climática resultará em menos oxigênio nos oceanos. Isso significa que as brânquias têm menos oxigênio para fornecer a um corpo que já cresce mais rápido do que elas. Os pesquisadores dizem que isso obriga o peixe a parar de crescer em um tamanho menor para poder atender às suas necessidades com pouco oxigênio disponível para eles.

Algumas espécies podem ser mais afetadas por essa combinação de fatores. O atum, que se movimenta rapidamente e requer mais energia e oxigênio, pode encolher ainda mais quando as temperaturas aumentam.

Peixes comerciais de tamanho menor do que agora terão um impacto na produção pesqueira, bem como a interação entre organismos nos ecossistemas.

O estudo de Pauly e Cheung “Sound physiological knowledge and principles in modeling shrinking fishes under climate change” foi publicado na Global Change Biology doi: 10.1111 / gcb.13831.

Fontes – University of British Columbia, tradução e edição de Henrique Cortez, EcoDebate de 24 de agosto de 2017

Quanto mais seco, pior

Seca limita a diversidade de árvores na floresta amazônica. Foto: Vandré Fonseca.Seca limita a diversidade de árvores na floresta amazônica. Foto: Vandré Fonseca.

A intolerância a longos períodos sem chuvas limita a diversidade de árvores floresta amazônica. Espécies encontradas nas regiões mais úmidas da Amazônia, como matamatás, ucuúbas e ingás, não suportam bem a falta de água e podem ser prejudicadas por um clima mais seco.

A conclusão está em um artigo publicado nesta segunda-feira na revista Scientific Reports, que também traz um alerta sobre as consequências do aquecimento global sobre a Amazônia. “Se aumentar a frequência de secas e atemporalidades que aumentam o estresse hídrico, essas plantas não vão tolerar “, afirma a bióloga brasileira Adriane Esquivel Muelbert, autora principal do artigo e pesquisadora da Universidade de Leeds, Reino Unido.

Pela primeira vez, o efeito da seca sobre a diversidade das florestas tropicais no Novo Mundo foi analisado em escala continental. Os pesquisadores examinaram dados de experimentos e observações de mais de 100 gêneros de árvores, para comparar a distribuição de cada um deles, em 11 países da Amazônia e América Central.

Foto: Vandré Fonseca. Foto: Vandré Fonseca.

Os resultados do estudo indicam que secas mais frequentes e longas, como previsto nos cenários de Aquecimento Global, podem provocar a extinção de espécies exclusivas da região. As mais vulneráveis à seca seriam substituídas ao longo do tempo por outras, mais tolerantes. As áreas úmidas, onde está a maior diversidade e árvores que precisam de mais água, seriam as mais afetadas pelas mudanças climáticas, conforme destaca Adriane.

Os pesquisadores descobriram também que as árvores adultas sofrem mais com a falta de água do que plântulas ou jovens. Adriane afirma que ainda não se sabe os efeitos dessa substituição de espécies sobre a absorção de carbono pela floresta. E ainda há outras coisas a serem estudadas.

São necessários, por exemplo, estudos sobre a fisiologia das árvores, para saber como as espécies de áreas úmidas são afetadas pela seca. Além disso, as mudanças na floresta podem ter efeitos, ainda desconhecidos, sobre a interação biótica, ou seja, pode afetar também outros grupos de seres vivos, como pássaros ou insetos.

Fonte – Vandré Fonseca, O Eco de 21 de agosto de 2017