Os humanos não conseguem parar de quebrar recordes de emissão de carbono

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O clima está mudando, em parte pelos humanos atirando gases de efeito estufa na atmosfera. Uma maioria esmagadora dos cientistas climáticos concordam com essa declaração. E eles concordam porque olham para modelos climáticos a longo prazo, para emissões de carbono, executam vários testes e veem que uma coisa leva à outra. Não gosto de escrever artigos sérios sobre mudança climática porque é exasperador. Mas tem coisa que eu preciso noticiar: como de costume, estamos no caminho certo para um ano de quebra de recorde.

O Met Office, agência climática do Reino Unido, prevê que chegaremos a 410 partes por milhão de dióxido de carbono atmosférico pela primeira vez desde que os registros são feitos. A mudança de 2016 para 2017 não é tão alta quanto a de 2015 para 2016 (eba!), mas ainda assim é o nível mais alto de dióxido de carbono atmosférico já registrado. Além disso, 2016 foi o primeiro ano nos registros em que os níveis estiveram acima de 400 ppm durante todo o ano, um patamar no qual provavelmente ficaremos permanentemente.

Estou prestes a explicar a mudança climática. De novo. Se você já está convencido, pule alguns parágrafos. Se não, prepare-se para alguns fatos agonizantes tirados principalmente de sites governamentais e antigos artigos do Gizmodo.

A Terra é um sistema dinâmico e equilibrado com oceanos, florestas, gelo polar e atmosfera, cada um deles desempenhando um papel diferente na manutenção do clima e dos níveis de dióxido de carbono. Normalmente, as plantas, o oceano e o solo sugam o carbono de coisas como os animais e os fogos naturais, via fotossíntese ou dissolvendo-o. Mas nós, humanos, cortamos várias dessas plantas e acrescentamos carbono extra ao queimar combustíveis fósseis para abastecer nossos carros, aquecer nossas casas etc. Isso significa que essas tais “pias” de carbono apenas consomem metade dos gases de efeito estufa, diz o Met Office, e a outra metade vai para a atmosfera, onde cria uma camada isoladoraque mantém o calor preso na Terra. Eu já mencionei que eu odeio escrever sobre mudanças climáticas?

Esse dióxido de carbono excedente e outros gases, como o metano, levam ao aquecimento da Terra — as temperaturas médias globais agora estão cerca de 1,5º C acima das temperaturas no século XIX. Isso pode não parecer muito, mas essas mudanças sutis podem levar a coisas ruins. A longo prazo, podemos ver o derretimento do gelo polar, mais inundações costeiras e padrões climáticos cada vez mais estranhos. É principalmente nossa culpa, também. Se você observar o quão rápido normalmente leva para a Terra esquentar tanto assim, perceberá que está bastante claro que somos os responsáveis pelo aquecimento. Os vulcões não são o maior problema. Nem os ciclos solares. Como diz a EPA, “mudanças recentes não podem ser explicadas por causas naturais sozinhas”.

Se isso soa familiar, desculpe-me, mas várias pessoas não acham que seja uma ameaça séria. Já estou me encolhendo imaginando os emails que vou receber com links para o blog de algum cientista anti-mudança climática com afirmações incorretas ou sem base alguma.

As previsões do Met Office não deveriam ser recebidas com leveza — o seu modelo perfeitamente previu os níveis de carbono de 2016, conforme medidos no Observatório Mauna Loa, no Havaí. A previsão do ano passado é a linha azul, a linha preta é o que aconteceu, e a laranja, a previsão para este ano.

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O gráfico sobe e desce graças às estações, mas nos últimos 60 anos os altos e baixos sempre parecem estar um pouco mais altos do que os do ano anterior. E se esse gráfico não parece um problema, eis o que acontece quando você reduz o zoom para observar os níveis de carbono ao longo dos últimos 60 anos — a tal “curva de Keeling”.

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Talvez, para você, só pareça que os níveis de carbono sempre estiveram crescendo. Eles não estiveram sempre crescendo. Eis a aparência do gráfico se você diminui o zoom para, digamos, as últimas centenas de milhares de anos.

donwno4m1b8diqarle1iÀ direita, a seta branca aponta o nível atual de dióxido de carbono atmosférico, enquanto a laranja, o nível em 1950 (Imagem: NASA)

Tudo isso para dizer que a notícia que eu tenho para você hoje é o mesmo de sempre — o nível de dióxido de carbono na atmosfera está disparando como sempre, e 2017 está no caminho certo para ter o maior nível de carbono já registrado na atmosfera, como sempre. O dióxido de carbono não é exatamente o único gás de efeito estufa ruim (há o metano, entre outros), mas se a curva de Keeling não é convincente o bastante para você, não tenho certeza do que mais poderá convencê-lo. Eu sugeriria olhar para aquele quadrinho do xqcd mais uma vez.

Ao todo, 195 países assinaram o Acordo de Paris, afirmando que fariam o melhor para manter as emissões baixas, para conseguirmos manter o aquecimento total “apenas” 2º C acima dos níveis pré-industriais. As pessoas parecem ter entrado em acordo que manter abaixo de 2º C e, com sorte, de 1,5º C de aquecimento nos preveniria de efeitos mais catastróficos da mudança climática. É claro, o presidente de um certo país não parece acreditar na evidência que suas próprias agências produzem. Talvez ele mude de ideia.

Então, nós escrevemos uma história como essa ano passado, e um dos comentários mais votados foi “o que você quer que eu faça?” Boa pergunta. 1. Escreva cartas para o seu congressista, o presidente, qualquer um que te represente, e diga a eles que essa é uma questão importante. Convença seus amigos a fazer o mesmo. 2. Se você dirigir, tente dirigir menos. Use o transporte público. Compre um carro elétrico ou energeticamente eficiente. Convença seus amigos a fazer o mesmo. 3. Use mais eletrônicos de energia eficiente. Veja como você está aquecendo e resfriando sua casa, para economizar energia. Convença seus amigos a fazer o mesmo. 4. Arme-se de conhecimento sobre mudança climática. Ignore os trolls, convença as pessoas que estão indecisas.

Isso é tudo o que eu tenho para dizer.

Fonte – Ryan F. Mandelbaum, Gizmodo de 07 de março de 2017

Aquecimento Global: 79 Anos de Evidências

Guy Callendar (1897-1964). Foto: Wikipedia.

Um dos aspectos da desinformação difundida pelos negacionistas climáticos é esconder a história da Ciência do Clima, como se as evidências do aquecimento global e de seu caráter antrópico tivessem surgido agora, da cabeça de alguns “cientistas conspiradores”. Peço que leiam com atenção o texto a seguir:

“Pela combustão, o homem adicionou cerca de 150.000 milhões de toneladas de dióxido de carbono ao ar durante o último meio século. O autor estima, a partir dos melhores dados disponíveis, que cerca de três quartos disto permaneceu na atmosfera. Os coeficientes de absorção de radiação de dióxido de carbono e vapor d’água são usados para mostrar o efeito do dióxido de carbono na “radiação celeste”. A partir disso, o aumento da temperatura média, devido à produção artificial de dióxido de carbono, é estimado em 0,003ºC por ano, na atualidade. As observações de temperatura em estações meteorológicas do mundo são usadas para mostrar que as temperaturas mundiais na verdade aumentaram a uma taxa média de 0,005°C por ano durante o último meio século.”

É este o resumo de um artigo intitulado “A Produção Artificial de Dióxido de Carbono e sua Influência na Temperatura”, publicado por Guy Stewart Callendar, em 16 de fevereiro de 1938, há 79 anos, portanto.

Resumo do trabalho pioneiro de Guy Callendar, publicado em 1938.

Svante Arrhenius, 42 anos antes já havia apresentado evidências teóricas de que mudanças na concentração de dióxido de carbono na atmosfera terrestre poderiam promover alterações significativas no clima terrestre, como já discutimos certa vez em nosso blog. Mas o trabalho meticuloso de Callendar foi absolutamente pioneiro no sentido de trazer evidências empíricas nesse sentido. Engenheiro e inventor, ele se dedicou à tarefa laboriosa de, à mão, calcular médias de dados de 200 estações meteorológicas, e construir gráficos a partir deles. Além disso, ele utilizou equações da Física, como a Lei de Stefan-Boltzmann para estimar qual seria a possível contribuição do aumento da concentração de CO2 para as mudanças observadas na temperatura e projetar para o futuro quais seriam as alterações esperadas no clima da Terra, não apenas em sua temperatura média global mas também no deslocamento das zonas climáticas rumo aos pólos.

Como ficou nítido pelos comentários que acompanham o artigo, a comunidade científica da época (lembremos… quase 80 anos atrás) mostrou-se cética quanto aos resultados e conclusões de Callendar, apesar de reconhecer a correção com a qual ele tratou os dados e desenvolveu todos os cálculos em seu trabalho. Não custa enfatizar que mostrar ceticismo quanto ao aquecimento global há 8 décadas era uma coisa, pois ainda não havia um centésimo das evidências de agora. Já hoje, não há como. Os “contrários” do presente não são “céticos”, ou seja, pessoas que por duvidarem de maneira sincera e honesta, procuram dirimir tais dúvidas investigando e buscando evidências. O que se vê hoje em dia, ao contrário de há 79 anos, é negacionismo anticiência que é propositalmente incapaz de separar fontes confiáveis e não-confiáveis e se recusa a aceitar evidências.

Gráfico do artigo de Callendar sugerindo que uma parte não desprezível do aquecimento global já verificado na época poderia ser atribuído ao aumento das concentrações de dióxido de carbono (“CO2 effect”).

O mais interessante é que ele imaginava que o efeito desse aquecimento seria benéfico (o que é obviamente errado): “Em conclusão, pode-se dizer que a combustão de combustíveis fósseis, seja turfa da superfície ou óleo de 10.000 pés abaixo, é provável que seja benéfica para a humanidade de várias maneiras, além do fornecimento de calor e energia. Por exemplo, os aumentos da temperatura média acima mencionados seriam importantes na margem norte dos cultivos e o crescimento de plantas favoravelmente situadas é diretamente proporcional à pressão do dióxido de carbono (Brown e Escombe, 1905). Em qualquer caso, o retorno de eras glaciais mortais deve ser adiada indefinidamente. No que diz respeito às reservas de combustível, estas seriam suficientes para produzir pelo menos dez vezes mais dióxido de carbono do que existe atualmente no ar”. Vejam que alguns negacionistas (aqueles que não negam o óbvio, que o mundo está acontecendo, nem o quase tão óbvio, que a causa é antrópica, mas que dizem que esse aumento de CO2 e temperatura é “bom”) sequer conseguem ser originais. Eles apenas reproduzem o único grande erro de Callendar (achar que o aquecimento global seria positivo) que é perfeitamente perdoável dadas as condições da época, quando o aquecimento global era limitado a poucos décimos de grau!

Vale frisar que essa visão esperançosa de Callendar tinha a ver com o fato de que ele subestimava em muito as emissões de CO2 futuras. Também era evidente (numa lógica eurocêntrica) que lhe pareciam atraentes a possibilidade de expansão da fronteira agrícola para o norte, que ele estimava poder avançar em até 127 km em 200 anos e, sobretudo, a ideia de adiarmos de vez uma nova era glacial. Embora brilhante no seu trabalho de pesquisa e imortalizado através desse artigo, a visão de Callendar mostrou-se não apenas muito otimista, mas talvez ingênua.

Emissões de CO2 cresceram exponencialmente. Tudo o que foi emitido de 1750 a 1938 (cerca de 169 bilhões de toneladas deste gás) é, nos dias de hoje, emitido em menos de 5 anos.

O ponto é que adentramos um terreno que certamente pareceria total exagero há 8 décadas. Callendar imaginava concentrações de CO2 da ordem de 330 ppm e 360 ppm para os séculos XXI e XXII, respectivamente, quando os valores atuais já excedem amplamente os 400 ppm. Os valores atribuídos por Callendar para o que seriam tempos futuros distantes foram ultrapassados respectivamente em 1974 (330 ppm) e 1995 (360 ppm) e a média observada em Mauna Loa, em Janeiro de 2017, foi de mais de 406 ppm! Por conta das projeções modestas, Callendar imaginava mudanças de temperatura globais de meros 0,57°C em dois séculos e em nenhum momento imaginou a “grande aceleração”, que faz com que as emissões de hoje sejam 8,6 vezes maiores do que as de sua época e as emissões acumuladas de 1750 até 1938, de 169 bilhões de toneladas de CO2, equivale ao que levamos menos de 5 anos para emitir.

50 anos depois do espetacular artigo de Callendar, a ONU instituiu o IPCC, o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, para que especialistas pudessem fazer um levantamento do estado-da-arte da Ciência do Clima e hoje sabemos muito mais do que estava disponível para os cientistas na primeira metade dos séculos XIX e XX. Mas não deixa de ser impressionante que as bases teóricas (Arrhenius) e empíricas (Callendar) de aspectos fundamentais do nosso conhecimento sobre o assunto tenham emergido há tanto tempo.

Fonte – Blog o que você faria se soubesse o que eu sei? de 17 de fevereiro de 2017

Eles sabiam

Capa do relatório “Fontes, Abundância e Destino de Poluentes Atmosféricos Gasosos”, de 1968. Fonte: https://www.smokeandfumes.org

A rede de computadores anda infestada pelas chamadas “teorias de conspiração”. Muitas delas são apenas histórias sem pé nem cabeça. Outras são mentiras plantadas com interesses bastante específicos, como o caso de um certo presidente de topete estranho afirmando que “o aquecimento global é uma farsa inventada pelos chineses”. O problema dessas “teorias” (usado de maneira imprópria, pois nada tem a ver com o uso da palavra nas ciências) é duplo: se as pessoas levam a sério as mentiras, podem ignorar evidências reais ou até militar por causas inexistentes; se dão de ombros para qualquer suposta conspiração, afinal a maior parte é pura invencionice mesmo, podem terminar não dando a devida atenção aos (raríssimos) casos em que uma conspiração (ou algo parecido) realmente exista.

Neste artigo falaremos rapidamente de um desses casos raros de conspiração real: como a indústria de combustíveis fósseis sabia há décadas dos riscos do aquecimento global e como ela adotou a opção consciente pelo lucro e acumulação.

Sabe-se que a provável relação entre clima e concentração de CO2 é conhecida desde o século XIX e que já na década de 1930 surgiram evidências observadas de que a queima de combustíveis fósseis estaria contribuindo para aquecer o planeta.

Principais responsáveis pela extração, processamento e queima desses combustíveis, a mudança climática já estava no radar das grandes corporações petroquímicas há muito tempo, na verdade muito antes de a Organização das Nações Unidas convocar especialistas para comporem um painel sobre o tema (o IPCC, criado em 1988).

Com efeito, há quase meio século, em 1968, por encomenda do American Petroleum Institute (AIP), um relatório preparado por pesquisadores do Instituto de Pesquisa Stanford alertava que “a humanidade está realizando um vasto experimento geofísico” e que “mudanças significativas de temperatura quase certamente devem ocorrer em torno do ano 2000, trazendo consigo mudanças climáticas”.

Datados das duas décadas seguintes, relatórios internos da Exxon vieram a público, revelando com nitidez os riscos da continuidade da queima de combustíveis fósseis e a necessidade de mudança de rota. Já em 1978, o cientista James Black, que trabalhava para a companhia, mostrou projeções de aquecimento global que são incrivelmente parecidas com aquelas produzidas pela comunidade de clima muitos anos depois nos piores cenários (ver figura). A projeção apontava para um aquecimento em torno de 1-2°C após o ano 2000 (em 2016 chegamos a 1,2°C de anomalia de temperatura em relação ao período pré-industrial) e um valor mais provável em torno de 3°C em meados deste século.

Slide apresentado por James Black, cientista que trabalhava para a Exxon, em 1978. Fonte: https://insideclimatenews.org

Black também falava em uma janela “de cinco a dez anos” antes de tomar medidas drásticas para mudar o modelo energético. Em outras palavras, nos bastidores da Exxon, tanto o risco de um aquecimento global descontrolado quanto a necessidade de termos iniciado na década de 1980 uma transição energética que nos livrasse dos combustíveis fósseis, já eram conhecidas ao final dos anos 1970. O que a Exxon fez a partir disso? Encerrou o programa de pesquisas em clima, engavetou tudo e passou a financiar grupos negacionistas, tendo transferido para eles mais de 30 milhões de dólares.

Por fim, vale mencionar a Shell, a mesma que tem planos de exploração de petróleo no Ártico, um dos mais frágeis ecossistemas do planeta, em que essa exploração envolve mais riscos de acidente e que já está sendo, como debatemos em nosso artigo anterior na Vírus, profundamente afetado pelo aquecimento global. Na semana passada, foi revelado uma fita de videocassete impressionante, produzido por essa companhia, que mostra o grau de conhecimento do problema por parte da Shell em 1991.

O vídeo explica didaticamente o efeito estufa, usando a lua como exemplo oposto à Terra (sem efeito estufa, temperatura varia muito, mas a média é bem abaixo da nossa). Lembram, além do CO2, do metano, do óxido nitroso e dos halocarbonetos. É cientificamente simples e preciso, mostra total respeito pela conhecimento científico vigente, tanto no que diz respeito as observações quanto as projeções de modelos, apesar das incertezas, bem maiores na época do que agora.
Mas não é só isso. A Shell já tinha consciência dos impactos. Do que estamos começando a presenciar hoje e do que pode arruinar o futuro das atuais e novas gerações. O vídeo fala de elevação do nível do mar, como ameaça aos países insulares, falam de Bangladesh, falam que a Holanda (onde fica a sede da companhia!) pode estar segura agora graças ao seu elaborado sistema de barreiras e de bombeamento, mas que no futuro isso é incerto; fala do perigo de quebras de safras que mudanças sutis nas zonas climáticas podem acarretar e de refugiados climáticos.
Uma frase, dita em tom solene pelo narrador, é particularmente impressionante: “O aquecimento global ainda não é certo, mas muitos argumentam que esperar por uma ‘prova final’ seria irresponsável. Ações agora parecem ser o único caminho seguro.”

49 anos depois do relatório encomendado pelo AIP, 39 anos depois dos memorandos internos da Exxon e 26 anos depois do vídeo da Shell, em que situação estamos? As emissões aumentaram, a concentração de CO2 não parou de crescer e alguns dos impactos deletérios do aquecimento global, de ondas de calor mortíferas a secas recorde, de degelo inédito das calotas polares a supertempestades, começam a se manifestar.

Esqueçam, portanto, todas as teorias de conspiração desprovidas de fundamento e concentrem sua indignação nesta, uma conspiração realmente existente, do setor mais poderoso da indústria (a indústria de combustíveis fósseis) contra a vida inteira deste planeta. Tais corporações tinham o conhecimento do perigo do aquecimento global, tinham os recursos para investimento, tinham a possibilidade de influenciar governos e outros setores da indústria. Fizeram uma escolha: o lucro rápido e fácil. E ligaram o “foda-se”. Para mim, para você, para a humanidade inteira, para a biosfera inteira. Sério, essas companhias mereciam ir a tribunais internacionais, da mesma maneira que os nazistas em Nurenberg. Eles sabiam, amigas/os. Eles sabiam.

Alexandre Araújo Costa é ativista climático, militante ecossocialista, físico de formação, Ph.D. em Ciências Atmosféricas pela Universidade do Estado do Colorado, com pós-doutorado na Universidade de Yale. Foi um dos autores principais do primeiro relatório do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas, edita o blog “O Que Você Faria se Soubesse o Que Eu Sei” e é um dos coordenadores do Ceará no Clima.

Fonte – Revista Virus de 06 de março de 2017

84% das estações meteorológicas dos EUA têm inverno mais quente que a média

Visitantes no Millennium Park em Chicago. A cidade teve um clima ameno e ficou sem neve neste inverno (Foto: Crédito Scott Olson/Getty Images)Visitantes no Millennium Park em Chicago. A cidade teve um clima ameno e ficou sem neve neste inverno (Foto: Crédito Scott Olson/Getty Images)

Das 1.500 estações americanas, 117 tiveram o recorde histórico de calor. A cidade de Chicago, normalmente fria, teve o primeiro janeiro e fevereiro sem neve

Depois de três recordes anuais seguidos de temperatura global, parece que a Terra entrou em um novo padrão climático. Pelo menos é o que indicam os primeiros sinais deste ano. O mês de janeiro de 2017 foi o terceiro mais quente já registrado. Agora, um levantamento das estações meteorológicas nos Estados Unidos mostra que 84% delas tiveram um inverno mais quente do que o normal. Cerca de 47% das estações tiveram um inverno entre os dez mais quentes já registrados. Das 1.500 estações americanas, 117 tiveram o recorde histórico de calor.

A cidade de Chicago, normalmente fria, teve o primeiro janeiro e fevereiro sem neve desde que começaram as observações há 146 anos. Massachusetts registrou o primeiro tornado num mês de fevereiro. Como um todo, a primavera chegou 28 dias mais cedo no Sudeste americano. Até o presidente Trump, que não acredita em aquecimento global, poderá apreciar de perto os efeitos do fenômeno. O serviço nacional de parques dos Estados Unidos prevê que as flores do National Mall, o parque do centro de Washington, vão brotar no meio de março, o mais cedo que se tem notícia.

Um inverno ameno parece uma dádiva. Afinal, menos frio reduz os riscos e os desconfortos em regiões mais temperadas, onde é preciso viver com aquecimento e driblando tempestades de neve. Mas a aceleração do calor tem outros impactos. Ela desorganiza os padrões de comportamento das plantas. Pega animais migratórios despreparados. Também acelera o degelo nas regiões montanhosas. Como um todo, o inverno ameno é um sintoma de um grande desequilíbrio no sistema de clima onde construímos nossa civilização. As consequências vão bem além de uma floração prematura na porta de casa.

Fonte – Alexandre Mansur, Blog do Planeta de 03 de março de 2017

Portugal teve perdas de 6,8 bilhões devido a alterações climáticas de 1980 a 2013

Portugal teve perdas de 6,8 mil ME devido a alterações climáticas de 1980 a 2013Portugal registou perdas de 6,8 mil milhões de euros relacionadas com as consequências das alterações climáticas, entre 1980 e 2013, e somente uma pequena parte é coberta pelos seguros

Portugal registou perdas de 6,8 mil milhões de euros relacionadas com as consequências das alterações climáticas, entre 1980 e 2013, e somente uma pequena parte é coberta pelos seguros, segundo um relatório hoje divulgado.

O trabalho “Alterações Climáticas, Impactos e Vulnerabilidades na Europa 2016” foi elaborado pela Agência Europeia do Ambiente (EEA, na sigla em inglês) e realça que o sul da Europa, com destaque para a península ibérica, vai ser mais atingido pelas mudanças do clima no futuro, mas já regista aumentos de situações extremas de calor, redução da precipitação e dos caudais dos rios, a que acresce o risco de secas severas, perdas na agricultura e na biodiversidade, assim como de fogos florestais.

Na análise económica dos efeitos das mudanças do clima, a EEA estima que os custos tenham atingido 6,783 mil milhões de euros, entre 1980 e 2013, dos quais somente 300 milhões, ou seja, 4%, estavam cobertos por seguros.

Aquele valor total representa 665 milhões de euros de perdas por cada português e 0,14% do Produto Interno Bruto (PIB).

No total da Europa, os custos relacionados com as alterações climáticas atingem 393 mil milhões de euros, com a Alemanha a liderar, ao chegar aos 78,7 mil milhões, ou mil milhões per capita, dos quais 44% estavam cobertos por seguros.

A Suíça é o país com um valor de custos mais elevado por cada cidadão – 2,517 mil milhões de euros – e o Reino Unido é aquele que apresenta a maior percentagem de perdas cobertas por seguros – 68%.

“As alterações climáticas vão continuar por muitas décadas no futuro” e a dimensão destas mudanças e dos seus impactos vão depender da concretização dos acordos globais para reduzir as emissões de gases com efeito de estufa, mas também de ser assegurado que foram adotadas as corretas políticas e estratégias para reduzir os riscos dos atuais e projetados fenómenos climáticos extremos, realça o diretor executivo da EEA, Hans Bruyninckx, citado no relatório.

Apesar de algumas regiões puderem apresentar impactos positivos, como a melhoria das condições para a agricultura no norte da Europa, a maior parte dos países e setores económicos “vão ser negativamente afetados”, refere a EEA.

Ondas de calor mais frequentes e mudanças na distribuição das doenças infecciosas relacionadas com as condições do clima deverão aumentar os riscos para a saúde humana e para o bem-estar, outra área da vida dos europeus a ser afetada.

A península ibérica é referida no relatório como exemplo de região onde já se observam algumas mudanças, como a diminuição da precipitação, principalmente no centro de Portugal.

A erosão costeira já provocou “significativas perdas económicas, estragos ecológicos e problemas sociais”, aponta ainda a EEA, dando mais uma vez o exemplo de Portugal, que “investiu 500 milhões de euros na reabilitação de dunas e de frente mar e na defesa” entre 1995 e 2003, entre Aveiro e Vagueira.

Fonte – Saúde Online de 25 de janeiro de 2017

Caminhamos rumo a um mundo com projeções de aumento de temperatura realmente preocupantes

Rusty Russ

O aquecimento global não é um fenômeno novo, já que acompanha e descreve a história profunda do planeta. No entanto, o que na atualidade se destaca é o impacto da atividade humana nos processos de mudança climática, assinalados pela ingrata recorrência de eventos extremos. Isto foi provado pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas durante a Cúpula de Paris (2015), que contou com a contribuição de cientistas e referências internacionais. Não obstante, as nações mais poderosas investem migalhas no cuidado do meio ambiente, porque temem a desestabilização de suas economias. Deste modo, os compromissos se estampam em instrumentos e declarações que nunca se traduzem em ações concretas.

Sobre tudo isso conversa Nazareno Castillo Marín, doutor em Ciências Biológicas (UBA) e professor de Ecologia e Microbiologia Ambiental na Universidade Três de Fevereiro. Ele foi diretor de Mudança Climática na Secretaria de Ambiente e Desenvolvimento Internacional no Ministério presidido por Sergio Bergman. Aqui descreve as estratégias de mitigação e adaptabilidade que se procura promover no âmbito local e internacional, destaca a necessidade do compromisso mundial diante da mudança climática e, por último, conta a quantas anda o seu último material de divulgação O ambientalista cientista publicado pela editora universitária Eduntref.

Você é doutor em Ciências Biológicas. Por que se especializou no estudo do meio ambiente?

Quando entrei na universidade, em princípio, estava mais orientado à biologia molecular e celular, embora, em seguida, me direcionei para o campo das ciências da terra e a ecologia. Logo comecei a me interessar pela mudança climática e, além disso, nunca me atraiu muito a ideia de trabalhar em um laboratório. De modo que fiz uma especialização em temas ambientais e dali decidi pensar em um doutorado vinculado aos fenômenos atmosféricos.

Você começou com a análise da mudança climática quando ainda se tratava de uma temática sem tanta relevância na agenda midiática e política…

Exato. Eu o estudava quando ainda não existiam tantas áreas de pesquisa voltadas para isso. Hoje é um tema de importância central e de muita circulação nos meios de comunicação. Desta maneira, consegui ocupar um cargo em gestão como diretor de Mudança Climática durante 7 anos (2007-2014) e, atualmente, sou diretor de Financiamento Internacional no Ministério do Ambiente e Desenvolvimento Sustentável.

Se a mudança climática é um problema global, que atividades podem ser promovidas e executadas na Argentina?

Em relação à mudança climática,  podem ser desenvolvidas duas grandes áreas. Por um lado, as políticas de mitigação que apontam para a realização de projetos cujo objetivo é reduzir as emissões ou capturar o CO2 que já foi emitido. De modo que se estimulam aqueles estudos sobre como é possível gerar energias renováveis em vez de combustíveis fósseis, ao mesmo tempo que se busca implementar diversas estratégias de eficiência energética e promover um manejo florestal mais apropriado. Existe uma fonte de financiamento que se canaliza através do chamado Fundo Verde do Clima, que os governos e as empresas privadas podem acessar. E, por outro lado, uma segunda área na qual se trabalhou menos é a que tenta resolver de que maneira os seres humanos devem se adaptar à mudança climática.

Por que trabalharam menos sobre as condições de adaptabilidade dos seres humanos?

Nesse âmbito é mais complicado, porque devemos encaminhar ações que não contam com financiamento internacional e devem ser sustentadas com fundos domésticos. Basicamente, porque não interessa aos países desenvolvidos colocar dinheiro na nossa adaptação, já que não se beneficiam em nada. É diferente, como comentava, no âmbito da mitigação, porque na medida em que os gases se misturam na atmosfera não importa onde são emitidos, já que se trata de um problema global.

E que políticas podem ser projetadas neste sentido?

Pode-se propor a capacitação dos produtores agrícolas para que adequem as datas de suas colheitas e o plantio em função do clima (ordenamento territorial em base às precipitações), fomentar que os municípios contem com sistemas de alerta antecipado diante de eventos extremos, proporcionar seguros contra secas e inundações, planejar obras de canalização e deságue, códigos de edificação nas cidades. Aqui, o Ministério do Ambiente tem pouca competência na realização de ações concretas, já que tem um papel mais associado às tarefas de coordenação.

A que se refere?

A que as ações concretas dependem diretamente de outras pastas, como do Ministério da Agroindústria ou do Ministério de Minas e Energia, de acordo com cada caso.

Você é diretor de Financiamento Internacional, e o aquecimento global é um problema que compromete as vontades, sobretudo, dos grandes líderes do mundo. O que pensa sobre uma posição tão controversa como a de Donald Trump?

Penso que sua posição em relação à mudança climática não é muito animadora. Os Estados Unidos não aceitaram o Protocolo de Kyoto (ratificado em 2005 por 187 países), apesar de serem o principal emissor de gases de efeito estufa. No Acordo de Paris (2015), Obama assegurou a redução das emissões, embora os compromissos sejam voluntários e não legalmente vinculantes. Por essa razão, será difícil que no futuro Trump se comprometa com esses compromissos. Por outro lado, o fato controverso é que os Estados Unidos são um dos principais financiadores das pesquisas e dos eventos científicos sobre mudança climática. Eles contribuíram com parte significativa do suporte da última convenção.

Quer dizer que investem muito dinheiro em meio ambiente e comunicação, apesar de que não se interessam muito em instrumentar políticas para sua proteção…

Sim, são grandes financiadores. Inclusive, se deixassem de investir haveria menos reuniões e encontros com paineis de cientistas internacionais como aqueles que são realizados. Eles se preocupam em demonstrar ao mundo que concentram esforços no tema e observam a mudança climática como um ponto estratégico, embora temam que afete a sua economia.

Neste marco, como imagina o futuro da mudança climática?

Caminhamos rumo a um mundo complicado, com projeções de aumento de temperatura realmente preocupantes. No mundo não existe um compromisso real para solucionar as problemáticas ambientais, porque investir na diminuição das emissões, em geral, leva ao aumento dos custos e à diminuição da competitividade. De modo que os países se recusam a este tipo de ações. No futuro próximo (já que existem sinais de sobra no presente) haverá muitos eventos extremos e será preciso acostumar-se a conviver com eles.

Por último, além do seu trabalho em gestão você é professor, e em 2016 publicou um livro de divulgação. Como anda O ambientalista cientista?

No livro, faço uma analogia que associa o planeta a um restaurante, com o objetivo de ilustrar a demanda excessiva de recursos naturais e o modo como a taxa de consumo supera a taxa de regeneração da natureza. Utilizo regras nemotécnicas que ajudam os leitores a recordar os temas. O trabalho recupera problemáticas ambientais de caráter global (como o ozônio e a desertificação) e local (mineração, resíduos sólidos urbanos), e depois, em uma segunda etapa, proponho estratégias tecnológicas e políticas para combatê-las. Trata-se de um material de divulgação que se propõe despertar o interesse do público leitor para temas que circulam o tempo todo e que, além disso, fazem parte e condicionam a sua existência.

Fonte – Pablo Esteban, Página/12, tradução André Langer, IHU de 23 de fevereiro de 2017

O vídeo dos anos 90 em que a Shell admite a existência da mudança climática

A multinacional petrolífera anglo-holandesa Shell alertou, em 1991, para os perigos da mudança climática, mas depois não agiu de forma consequente. Climate of Concern é o jogo de palavras usado em inglês para intitular um vídeo de divulgação de 28 minutos, realizado pela empresa, que já alertava para “as variações muito altas de temperatura, inundações, fome extrema e suas vítimas, que atingiriam o mundo inteiro se se continuasse a utilizar a energia fóssil”.

Recuperada pelo De Correspondent, um site jornalístico holandês, o filme assinala a necessidade “de se adotar medidas imediatas, porque, embora não se possa afirmar inequivocamente a existência do aquecimento da Terra, muitos acreditam que aguardar para comprová-lo pode ser uma atitude irresponsável”. Concebida para passar em escolas e universidades, o vídeo está fora de circulação há décadas. A Shell dedica a maior parte de seus investimentos à exploração de combustíveis fósseis, que geram os gases de efeito-estufa. Nesta terça-feira, a companhia deu uma declaração em que “reconhece os desafios da mudança climática e o papel da energia na manutenção da qualidade de vida das pessoas”.

O De Correspondent compartilhou a sua publicação com o jornal britânico The Guardian, e os dois veículos de comunicação divulgam trechos do filme para mostrar o quanto a Shell acertou em suas previsões. “As ilhas tropicais que hoje [1991] mal aparecem na superfície da água se tornarão inabitáveis, para depois ser cobertas pelas águas (…) os lençóis subterrâneos das terras litorâneas baixas do mundo, indispensáveis para a agricultura e o abastecimento urbano, serão contaminados”, afirma o narrador, que depois se faz a seguinte pergunta: “quem irá cuidar dos refugiados da mudança climática em um mundo já com uma superpopulação submetido a essas mudanças radicais de temperatura?”.

O filme admite a possibilidade de erros serem cometidos pelos modelos informatizados usados para se chegar a essas conclusões, mas todas as possibilidades que levanta, os chamados cenários da mudança climática, “alertam para a gravidade do problema”. Um alerta, continua o vídeo, “assumido pelos cientistas encarregados de analisar a questão para as Nações Unidas”. “O que preveem não é uma mudança geral e regular do clima. Eles observam variações constantes nas temperaturas (…) e a suposição é de que, se as águas do mar se aquecem, podem ocorrer tormentas atrozes e destrutivas”. O filme se encerra fazendo um chamamento “para uma nova era de cooperação técnica e econômica, porque os problemas e os dilemas colocados pela mudança climática afetam a todos nós”.

O filme alerta para “as variações muito radicais de temperatura, inundações, fome extrema e suas vítimas, que atingiriam o mundo inteiro se se continuasse a utilizar a energia fóssil”.

Tom Wigley, especialista em questões climáticas, chefe do departamento de Pesquisas Climáticas da universidade britânica de East Anglia de 1978 a 1993 e um dos cientistas que participou da produção do vídeo para a Shell, disse ao portal jornalístico holandês que “é espantoso o nível de acerto de suas previsões de 25 anos atrás levando em conta o que conhecíamos na época”. Um relatório reservado da empresa, datado de 1986 e ao qual teve acesso o jornal britânico, afirma que a transformação prevista “pode ser a maior já registrada na história”.

O vídeo de 1991 elogia o desenvolvimento da energia eólica e seus moinhos, mas, segundo a ONG britânica InfluenceMap, “a Shell investiu em 2015 cerca de 20,7 milhões de euros [67 milhões de reais] para convencer ou pressionar (lobby) contra a adoção de políticas destinadas a frear a mudança climática”. Patricia Espinosa, a diplomata e política mexicana eleita em 2016 secretária executiva da Convenção das Nações Unidas para a Mudança Climática, afirmou as companhias petrolíferas “são indispensáveis para combatê-la, e sem elas não conseguiremos transformar a economia; mas os seus investimentos no campo da energia limpa ainda são baixos”. Reagindo à divulgação do vídeo de 1991, a Shell afirma que é líder na produção de gás natural e de etanol obtido a partir da fermentação da cana-de-açúcar, que são respectivamente o hidrocarboneto e o biocombustível menos poluentes.

Fontes – Isabel Ferrer, El País / IHU de 01 de março de 2017

Segue o seco

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Nordeste entra no sexto ano do que pode ser a pior seca de sua história; em tempos de aquecimento global, região precisa mudar modelo de desenvolvimento e abraçar renováveis, diz Alexandre Costa

As carcaças de cágados no piso seco do Cedro, primeiro grande açude do Ceará, construído ainda no século 19, são uma imagem triste e impactante desta que já é a maior seca do registro histórico no Estado, iniciado em 1910 (e provavelmente na região Nordeste como um todo). Com efeito, o período de 2012 até 2016 igualou-se ao de 1979 a 1983 como a mais prolongada sequência de anos com chuvas abaixo do normal em território cearense e a média de cinco anos é a menor jamais registrada (521 mm, contra 566 mm para 1979-1983). No Nordeste como um todo, segundo a Agência Nacional de Águas, a seca excepcional, de categoria máxima (a mais intensa da classificação, com perdas generalizadas na agropecuária, comprometimento dos corpos hídricos e impactos de longo prazo sobre o ecossistema) se alastrou por todos os Estados, do Maranhão à Bahia.

Graças à combinação de ações de convivência com o semiárido (como o programa de cisternas), programas sociais e intervenções de infraestrutura hídrica, os maiores dramas históricos do Nordeste, a migração em massa e os saques, ainda não se manifestaram, pelo menos não na escala vista até mesmo há poucas décadas. Mas isso não quer dizer que a situação não seja grave. A economia tem sido brutalmente afetada, com perdas acumuladas, só de 2012 a 2015, da ordem de R$ 104 bilhões e um recuo médio no PIB de 4,3% ao ano. O colapso hídrico já atingiu não apenas comunidades rurais, mas inúmeras cidades do interior, como foi o caso de Crateús, onde filas intermináveis se formaram para que as famílias tivessem acesso à água de um poço com dessalinizador, no limite de 40 litros por família por dia, quantidade bastante aquém da recomendação da Organização Mundial da Saúde para beber, cozinhar e fazer higiene

Hoje, o colapso ronda as metrópoles da região. O monitoramento do Instituto Nacional do Semiárido (Insa) e do Portal Hidrológico do Ceará mostra que a maior parte dos açudes encontra-se abaixo dos 10% em volume, incluindo os reservatórios de grande porte, críticos para o abastecimento urbano em larga escala. É o caso do Castanhão, principal fonte de abastecimento para a Região Metropolitana de Fortaleza, cujo estoque de água corresponde a meros 4,9% do seu volume, assim como do Banabuiú, terceiro maior reservatório cearense (0,4%) e do Boqueirão (4,1%), importante açude paraibano. Em situação não muito melhor estão o Armando Ribeiro Gonçalves (Rio Grande do Norte, com 13,7%), e o Orós (Ceará, 11,6%).

Para recompor os estoques hídricos da região, seria necessária uma sequência de anos de chuva acima da média (além de medidas restritivas ao uso na indústria e grande agricultura) Como se não fosse o bastante, os prognósticos para a estação chuvosa de 2017 não estão se mostrando favoráveis. Pelo contrário: segundo dados divulgados nesta semana pelo Ministério da Ciência e Tecnologia (MCTIC), a probabilidade de chuva abaixo do normal entre fevereiro e abril no Nordeste é de 40%, contra 35% para chuvas na média e 25% para chuvas acima da média. Segue o seco.

Eventos extraordinários como esse dificilmente podem ser associados a uma única causa. É verdade que o Nordeste setentrional é particularmente sensível à variabilidade climática natural, com as chuvas tendendo a diminuir ou aumentar de acordo com os padrões de temperatura oceânica no Pacífico e Atlântico. No momento, os modos de variabilidade de longo prazo em ambos os oceanos estão em fase desfavorável para as chuvas na região. Embora a chamada variabilidade interanual permaneça, essa variabilidade de mais longo prazo (decadal a multidecadal) a modula, aumentando probabilidades maiores de ocorrência de eventos de El Niño, no Pacífico, e de aquecimento anômalo na porção norte da bacia do Atlântico, em ambos os casos contribuindo para a redução das precipitações.

A degradação ambiental na escala local, com o desmatamento comprometendo matas ciliares e nascentes e assoreando rios e reservatórios também precisa ser colocada nessa contabilidade. Uma inadequada e insuficiente política de resíduos e saneamento contribui também para o comprometimento da qualidade da água na região.

Mas é preciso dizer que a vulnerabilidade da região é amplificada por conta das escolhas dos modelos de desenvolvimento. A multiplicação das obras hídricas não levou em conta em geral as necessidades da maioria da população e visou essencialmente ao favorecimento de determinadas atividades econômicas, como o agronegócio e setores industriais hidrointensivos.

É particularmente gritante a instalação de termelétricas fósseis na região que tem a maior vocação para geração de eletricidade a partir das fontes solar e eólica. Sugere um misto de irresponsabilidade, ignorância e, sobretudo, atendimento a lobbies corporativos e interesses econômicos escusos. A maior dessas usinas, localizada no Complexo do Pecém, no Ceará, é capaz de consumir até 800 litros de água por segundo, o equivalente ao consumo de uma cidade de meio milhão de habitantes, além de emitir mais CO2 do que todo o setor de transportes do Estado, conforme dados do SEEG (Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa). O pesadelo só se amplia, com a chegada de uma siderúrgica (a CSP, Companhia Siderúrgica do Pecém) e os planos de implantação de uma refinaria e uma mina de urânio.

Por fim, mas não menos importante, já que mencionamos as emissões de dióxido de carbono, precisamos falar das mudanças climáticas. Uma lei física muito simples (conhecida por nós, cientistas, como a equação de Clausius-Clapeyron) diz que uma atmosfera mais quente é capaz de armazenar mais vapor d’água e que a implicação direta disso é que, em mundo mais quente, as secas extremas, assim como as tempestades severas, se tornarão mais intensas e mais frequentes. As projeções climáticas para o Nordeste brasileiro apontam em geral para um clima mais seco, mesmo que a precipitação total média não se reduza, com a evaporação e evapotranspiração acompanhando a escalada das temperaturas. Embora ainda não se tenha o conhecimento científico necessário para estabelecer isso, é possível que estejamos em plena alteração da “normal climatológica” para a região.

É possível até que a perda acelerada de gelo no hemisfério norte, que já começa a alterar as correntes do Atlântico, interferindo na distribuição de calor, tenha alguma conexão com condições recorrentes de seca, já que a posição da Zona de Convergência Intertropical – principal sistema das chuvas na porção setentrional do Nordeste – é fortemente ditada pelos padrões térmicos oceânicos.

O Nordeste precisa se preparar para enfrentar as mudanças globais do clima e os desafios locais de justiça socioambiental. Precisa cuidar de seus aspectos mais vulneráveis: preservar o bioma singular da caatinga, fundamental para manter solo e rios; zelar pelos seus estoques hídricos em todas as escalas (das cisternas aos maiores reservatórios) e utilizá-los de forma parcimoniosa; reavaliar o modelo de desenvolvimento, privilegiando a agricultura familiar e cadeias industriais de baixo impacto ambiental e hídrico.

E pode também fazer valer suas virtudes e vocações: fortalecer a resiliência das comunidades, aprendendo não apenas com o conhecimento acadêmico, mas também pela sabedoria dos povos tradicionais; aproveitar as fontes energéticas renováveis, especialmente a solar, aliando seu potencial de geração de empregos (atestada pelo relatório do Departamento de Energia dos EUA que mostra que a solar responde por nada menos que 43% da mão-de-obra empregada naquele país em geração de eletricidade) com a economia de água e corte nas emissões de CO2.

Alexandre Araújo Costa é físico e professor de Ciências Atmosféricas da Universidade Estadual do Ceará. É integrante do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas e autor do blog O Que Você Faria se Soubesse o que Eu Sei?

Fonte – Observatório do Clima de 08 de fevereiro de 2017

O alarmante declínio do volume global de gelo no Planeta

declínio do volume global de gelo nos dois hemisférios

“Não é o que olhamos que importa, é o que vemos”
Henry Thoreau (200 anos de seu nascimento)

Nunca os olhos humanos (desde o surgimento do Homo Sapiens) viram nada igual. O processo de desglaciação do Ártico, Groenlândia e Antártica está se acelerando em ritmo alarmante. A perda do volume de gelo jamais foi tão grande e isto significa a aceleração do aumento do nível do mar e o naufrágio de territórios costeiros cada vez mais extensos. Os prejuízos para a agropecuária e as benfeitorias urbanas será cada vez maior.

Até bem pouco tempo, o rápido degelo ocorria, fundamentalmente, no hemisfério norte, especialmente no Ártico e na Groenlândia. A área de gelo da Antártica em 2014, 2015 e primeiro semestre de 2016 foi maior do que a média do período 1981-2010. Porém, uma combinação de aceleração do aquecimento global (o ano de 2016 foi o mais quente já registrado) com aumento dos ventos, mudanças hidrológicas e do fluxo das correntes marinhas no hemisfério sul está fazendo o degelo da Antártica bater todos os recordes. No segundo semestre de 2016 e nas primeiras 6 semanas de 2017 a desglaciação do continente do Sul está alarmando os cientistas e provocando preocupação entre as pessoas que acompanham e reconhecem o processo antrópico de destruição do meio ambiente.

Ninguém esperava notícias tão ruins, que, coincidentemente, surgiram pouco antes das eleições dos EUA, em outubro do ano passado, e se agravaram, em todos os sentidos, depois da posse do cético e antiecológico presidente Donald Trump. Os gráficos abaixo, do National Snow & Ice Data Center (NSIDC), mostram que os últimos 5 meses (de outubro de 2016 a fevereiro de 2017) houve recorde de degelo no Ártico e na Antártica.

arctic sea ice extent

antarctic sea ice extent

Artigo de Brad Plumer (17/01/2017), no site Vox, mostra a figura abaixo, da NASA, que indica a perda da extensão de gelo, comparada com a média histórica das últimas décadas. A perda é enorme e está se acelerando.

antarctic sea ice concentration

O gráfico abaixo (último dado plotado em 11/02/2017) viralizou na Internet depois que ficou claro que a extensão de gelo global (dos dois hemisférios) teve um declínio abruto após setembro de 2016. Ainda não está claro o que vai acontecer com a criosfera no restante do ano de 2017, mas os cientistas estão acompanhando diariamente o volume de perda de gelo, pois esse processo terá grade impacto no aumento do nível dos oceanos.

global sea ice extent

Como escrevi em artigo anterior, existe uma relação inexorável entre o aumento das emissões de gases de efeito estufa, provocadas pelo aumento das atividades antrópicas (crescimento demoeconômico do mundo), o aumento da concentração de CO2 na atmosfera, o aumento do aquecimento global, o aumento do degelo do Ártico, da Antártica, da Groenlândia e dos glaciares – tudo isto – provocando o aumento do nível dos oceanos e o naufrágio das áreas costeiras (urbanas e rurais) de todo o mundo.

No ritmo atual, a herança maldita provocada pelo aumento da Pegada Ecológica irá não só impactar negativamente as futuras gerações, mas, inclusive, as gerações atuais. O ser humano passou séculos se enriquecendo às custas do empobrecimento dos ecossistemas. Agora, a degradação da natureza vai cobrar seu preço e o progresso civilizatório pode engatar uma marcha à ré irreversível.

Referências

Douglas Fox. Scientists Are Watching in Horror as Ice Collapses. Everything we learn about ice shows that it is disturbingly fragile, even in Antarctica. National Geographic, 12/04/2016

Eric Roston. West Antarctica Begins to Destabilize With ‘Intense Unbalanced Melting’
Warmer ocean water is attacking ice at its base, adding dangerously to sea-level rise. Bloomberg, 25/10/2016

Brenda Ekwurzel. “Unstoppable” Destabilization of West Antarctic Ice Sheet: Threshold May Have Been Crossed, 03/11/2016

Abigail Beall. The Antarctic melt revealed: Dramatic Nasa images claim to show staggering loss of ice at the south pole, Daily Mail, 24/11/2016

Kacey Deamer. Antarctic Ice Shelf Could Collapse Within 100 Years, Study Finds, Live science, 29/11/2016

Brad Plumer. We’ve never seen global sea ice levels this low before, Vox, 17/01/2017

Nicola Jones. How the World Passed a Carbon Threshold and Why It Matters, e360 Yale, 26/01/2017

David Spratt. Antarctic Tipping Points for a Multi-Metre Sea Level Rise. Resilience, 26/01/2017

Shivali Best. Alarming ‘doom spiral’ animation reveals just how large the drop in global sea ice levels were in 2016. Mail online, 6 January 2017

Greenland Documentary – Is Ice in Greenland Melting? (Earth Documentaries) 27/01/2017

PIOMAS 02/17

ArctischePinguin

NSIDC – National Snow & Ice Data Center: https://nsidc.org/data/seaice_index/

José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal.

Fonte – EcoDebate, ISSN 2446-9394 de 10 de fevereiro de 2017

Maior aumento da concentração de CO2 da história humana

crescimento médio anual, por década, da concentração de CO2

“Se uma planta não consegue viver de acordo com sua natureza, ela morre,
assim também o ser humano”
Henry Thoreau (200 anos de seu nascimento)

Estudos indicam que o mundo conseguiu, pelo terceiro ano consecutivo, manter estáveis suas emissões de gases CO2. Os otimistas comemoram o desacoplamento relativo. Mas os números indicam que, se as emissões pararam de subir, elas continuam nos níveis mais elevados da história.

Na realidade, a concentração de gases de efeito estufa (GEE) ultrapassou permanentemente o limiar de 400 partes por milhão e atingiu um perigoso ponto de não retorno. Nos 800 mil anos antes da revolução industrial a concentração de CO2 na atmosfera ficou abaixo de 280 partes por milhão (ppm). Ou seja, em cada um milhão de moléculas de ar no planeta, havia menos de 280 do principal gás de efeito estufa. As medições com base no estudo do gelo, mostram que em 1860 a concentração atingiu 290 ppm. Em 1900 estava em 295 ppm. Chegou a 300 ppm em 1920 e atingiu 310 ppm em 1950. A partir do início do Antropoceno (1950), o efeito estufa se acelerou.

Em 1958, Charles Keeling, instalou no alto do vulcão Mauna Loa o primeiro equipamento para medir as concentrações de CO2 na atmosfera. Isto possibilitou que a partir de uma série histórica de dados houvesse a possibilidade de acompanhar a poluição recente. A série de Keeling mostra que a concentração de CO2 na atmosfera, na média mensal, chegou a 399,76 partes por milhão (ppm) em maio de 2013 e só ultrapassou a barreira de 400 ppm no ano seguinte. Em abril de 2014 a concentração de CO2 ficou em 401,34 ppm, passou para 401,88 ppm em maio e caiu para 401,20 ppm em junho de 2014. Mas como a concentração segue um padrão sazonal, ao longo do ano, com os picos acontecendo no mês de maio e os vales acontecendo nos meses de setembro, a média anual de 2014 foi de 398,61 ppm.

Em 2015, a marca das 400 ppm foi ultrapassada em 8 dos 12 meses. Na média anual, 2015 foi o primeiro ano a ultrapassar a barreira simbólica e marcou a cifra de 400,83 ppm. Mas foi o ano de 2016 que tornou permanente a marca de 400 ppm em todos os meses e em todas as semanas. A média anual de 2016 foi de 404,21 ppm.

A National Oceanic & Atmospheric Administration – NOAA – (Administração Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos) apresenta o gráfico acima com o crescimento médio anual (e por décadas) da concentração de CO2. Nota-se, que apesar das variações anuais, existe uma clara tendência de aumento da concentração dos gases de efeito estufa.

O aumento médio anual estava abaixo de 1 ppm na década de 1960, chegou a 2 ppm na década passada e está em 2,41 ppm ao ano no período 2010-2016. Neste ritmo, a concentração de CO2 na atmosfera pode chegar a 700 ppm no final do século XXI, quando o nível considerado minimamente seguro seria 350 ppm. Já estamos vivendo uma situação inédita em relação aos últimos milhões de anos do Planeta.

Artigo de Nicola Jones (26/01/2017), no site e360 Yale, apresenta o gráfico abaixo que mostra que a concentração de CO2 ficou abaixo de 400 ppm nos últimos 20 milhões de anos. Somente antes de 200 milhões de anos, a concentração ficou consistentemente acima de 1000 ppm. No ritmo acelerado da atualidade esta marca pode ser atingida no século XXII. Seria o caos climático para os humanos e a biodiversidade da Terra.

concentração de CO2 na atmosfera, nos últimos 500 milhões de anos

O mundo corre sério perigo. O aumento da concentração de CO2 na atmosfera contribuiu para o fato do ano de 2016 ser o mais quente já registrado e aponta para novos recordes futuros de aquecimento. O efeito estufa trará custos enormes e as sociedades podem não estar preparadas para pagar o alto preço de limpar no futuro a sujeira feita no passado e no presente.

Artigo de David Spratt (26/01/2017) mostra que o degelo da Antártica atingiu um ponto de mutação e, a partir de 2016, se acelerou de forma preocupante. As principais conclusões do artigo são:

“O setor do Mar de Amundsen da Plataforma de Gelo da Antártica Ocidental, provavelmente foi desestabilizado e o recuo de gelo é imparável nas condições atuais;

Nenhuma aceleração adicional nas mudanças climáticas seria necessária para desencadear o colapso do restante da Plataforma de Gelo Antártico Ocidental em escalas de tempo de décadas;

Somente a Antártida tem o potencial de contribuir com mais de um metro de elevação do nível do mar até 2100;

Uma grande fração do gelo da bacia da Antártida Ocidental pode desaparecer dentro de dois séculos, causando um aumento do nível do mar de 3 a 5 metros;

Mecanismos semelhantes aos que estão causando a desglaciação da Antártica Ocidental também são encontrados, em menor grau, na Antártida Oriental;

• A desglaciação parcial da camada de gelo da Antártica Oriental é provável no atual nível de concentração de dióxido de carbono (CO2) atmosférico, contribuindo para 10 metros de aumento do nível do mar no longo prazo e 5 metros nos primeiros 200 anos”.

desglaciação parcial da camada de gelo da Antártica Oriental

Portanto, existe uma relação inexorável entre o aumento das emissões de gases de efeito estufa, provocadas pelo aumento das atividades antrópicas (crescimento demoeconômico do mundo), o aumento da concentração de CO2 na atmosfera, o aumento do aquecimento global, o aumento do degelo do Ártico, da Antártica, da Groenlândia e dos glaciares – tudo isto – provocando o aumento do nível dos oceanos e o naufrágio das áreas costeiras (urbanas e rurais) de todo o mundo.

No ritmo atual, as gerações futuras vão receber uma herança maldita, que pode provocar uma significativa mobilidade social e ambiental descendente. No longo prazo, o aumento da concentração de CO2 na atmosfera e o aquecimento global – filhos bastardos do progresso humano – são as maiores ameaças à vida na Terra e podem ser responsáveis pelo colapso da civilização.

Referências

Nicola Jones. How the World Passed a Carbon Threshold and Why It Matters, e360 Yale, 26/01/2017

David Spratt. Antarctic Tipping Points for a Multi-Metre Sea Level Rise. Resilience, 26/01/2017

José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal.

Fonte – EcoDebate de 01 de fevereiro de 2017