Inventário de fauna e flora em São Paulo surpreende pela alta biodiversidade

Inventário de fauna e flora em São Paulo surpreende pela alta biodiversidadeSeis novas espécies de plantas foram descobertas, uma onça-pintada foi observada no limite sul do município e espécies típicas do Cerrado são intensificadas (foto:Rhamphasto toco/Anelisa Magalhães)

Em uma determinada área, do tamanho de 140 mil campos de futebol, é possível encontrar tucanos-toco (Ramphastos toco) do Cerrado, o muriqui-do-sul (Brachyteles arachnoides) – o maior primata brasileiro – e o sagui-da-serra-escuro (Callithrix aurita), animal endêmico da Mata Atlântica e em risco de extinção.

Há ainda seis espécies de plantas até então desconhecidas pela ciência, além de carismáticas capivaras (Hydrochoerus hydrochaeris), suçuaranas (Puma concolor capricornensis) e até mesmo uma onça-pintada (Panthera onca), o maior felino das Américas, contabilizando um total de 1.113 espécies da fauna e 4.768 da flora.

Os números são surpreendentes, principalmente se for levado em conta que a área em questão está no município de São Paulo. Há uma biodiversidade latente entre o cimento, o asfalto e as poucas áreas verdes, sobretudo nos cinturões verdes do Norte e do Sul da cidade. É o que concluiu o mais recente inventário de fauna e flora do município, divulgado pela Secretaria Municipal do Verde e Meio Ambiente (SVMA).

O esforço de fazer um inventário da biodiversidade da capital paulista reuniu servidores da Secretaria do Verde e do Meio Ambiente, instituição parceira do Programa BIOTA-FAPESP com o Projeto Atlas Ambiental.

O levantamento da fauna silvestre é feito desde 1993 e em 2016 foram incluídos dados sobre a flora pela primeira vez. A equipe obtém os dados a partir do levantamento primário em mais de 100 localidades (136 localidades em 2016) e por meio do atendimento de animais silvestres entregues à Divisão Técnica de Medicina Veterinária e Manejo da Fauna Silvestre da prefeitura. Os resultados incluem ainda registros cumulativos de mais de 20 anos de trabalho e alguns estudos realizados por pesquisadores parceiros.

No caso das plantas, foi feita uma compilação de diferentes fontes de dados, incluindo amostras de plantas herborizadas documentadas no Herbário Municipal, relatórios de vistorias técnicas do Herbário Municipal e referências bibliográficas como levantamentos florísticos ou fitossociológicos realizados no município desde 1911.

O que impressiona é a possibilidade de encontrar espécies novas e a resistência não só de espécies pouco exigentes ecologicamente, como as capivaras do rio Pinheiros, como daquelas que precisam de um ecossistema equilibrado para sobreviver.

É o caso de uma onça-pintada de quase 100 quilos que teve tranquilo andar captado, em janeiro de 2016, enquanto passeava pelo Núcleo Curucutu do Parque Estadual da Serra do Mar, limite sul da capital paulista. O flagrante foi feito por armadilhas fotográficas do Instituto Pró-Carnívoros, um parceiro do trabalho.

“Tanto o muriqui-do-sul, que ainda não tinha registro recente no município de São Paulo, quanto o sagui e a onça-pintada são espécies exigentes ecologicamente. A presença deles indica uma cadeia preservada, já que não suportam alterações ambientais. É surpreendente e, sem dúvida, uma boa notícia”, disse Anelisa Magalhães, servidora da Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente que coordenou a parte de fauna do Inventário da Biodiversidade do Município de São Paulo – 2016, à Agência FAPESP.

Logo na estreia da pesquisa de flora no inventário foram registradas seis espécies desconhecidas pelos pesquisadores. Há ainda mais uma – árvore da família Lauraceae – sendo analisada como provavelmente nova. Todas elas estão relacionadas aos esforços de coleta realizados durante o projeto “Flora Fanerogâmica do Estado de São Paulo”, financiado pela FAPESP.

“A Leandra lapae D’El Rei Souza & Baumgratz, um arbusto da família Melastomataceae, só foi registrada até o presente momento a partir de uma coleta realizada em uma mata ao lado de Parelheiros”, disse Ricardo Garcia, curador do Herbário Municipal e responsável pela parte de flora do inventário.

Cerrado na metrópole

Fazer o levantamento da biodiversidade de uma megalópole como São Paulo de forma periódica tem justamente a função de acompanhar a evolução e alteração das espécies no município, assim como para servir de embasamento científico de políticas públicas.

“Com esse trabalho, ficamos sabendo tanto de espécies que eram documentadas historicamente em alguns locais da cidade e que desapareceram, como aquelas que surgiram. Isso ocorre por causa das intensas mudanças ambientais promovidas pela urbanização”, disse Magalhães.

O inventário mostra que tanto a flora como a fauna do Cerrado estão se tornando mais presentes. “O tucano-toco, por exemplo, é uma espécie comum no Cerrado e que está sendo registrada agora com maior frequência aqui”, disse.

Até mesmo a pomba asa-branca (Patagioenas picazuro) é um exemplo de colonização do ambiente urbano. Na década de 1990, ela era vista poucas vezes e em poucas épocas do ano, atualmente o animal se estabeleceu em toda a cidade. “Quando os habitats são reduzidos pela urbanização e atividades humanas muitas espécies vão desaparecer enquanto outras vão se adaptar e aumentar suas populações”, disse Magalhães.

Com a flora não é diferente. Do total, 47 espécies foram registradas pela primeira vez na cidade depois de mais de 50 anos sem coletas. São, portanto, espécies que poderiam ser consideradas extintas, mas que foram reencontradas.

“Isto pode indicar tanto falta de coletas nesse intervalo de tempo como, também, que porções do território estão sendo reocupadas por espécies campestres, dadas as atuais condições ambientais. Dentre estas, 20 espécies ocorrem nos biomas Mata Atlântica e Cerrado”, disse Garcia.

Originalmente, os campos cerrados, matas, vegetação de várzea e campos alto-montanos eram os tipos de vegetação que cobriam o município de São Paulo. Apenas na área do Centro Histórico é que predominavam os campos mais secos (nos morros) e vegetação de várzea nas baixadas. Hoje, essas vegetações originais foram quase extintas por completo. Porém, observou-se uma intensificação também da flora típica do Cerrado nos últimos anos. No conjunto das 3.474 espécies vasculares nativas no município, 18 são consideradas como exclusivas do bioma Cerrado, sendo que cinco delas possuem registros recentes em ambientes naturais (não foram cultivadas).

O levantamento possibilitou outra constatação importante: os parques da cidade de São Paulo têm função essencial ao servirem como ponto de parada para aves. “Eles dão suporte para alimentação e descanso durante os deslocamentos das aves entre os fragmentos de mata. É o caso do Parque Ibirapuera, do Parque da Aclimação e do Parque Buenos Aires, que recebem a visita da araponga [Procnias nudicolis] durante a primavera, por exemplo. A malha de parques municipais, com sua miscelânea de vegetação nativa e exótica, tem maior relevância ecológica para as aves florestais e migratórias do que se supunha”, disse Magalhães.

A bióloga explica que, além da importância dos parques ser confirmada, há ainda necessidade de acompanhar a arborização urbana. “O que você escolhe para plantar na sua cidade vai influenciar na biodiversidade”, disse.

Ao longo dos 20 anos de realização do inventário, ele já serviu de base para compensação ambiental de grandes obras. “ No fim, isso tudo depende de decisões políticas, mas com o inventário podemos instrumentalizar as decisões”, disse.

Magalhães conta que nas obras do Rodoanel, trecho sul, por exemplo, foram criados por compensação ambiental quatro parques naturais, com base nas informações do inventário de fauna e flora. O mesmo ocorreu com a alteração da fiação elétrica da Eletropaulo, em áreas rurais, para um menor risco para a fauna, baseado nos casos de eletrocussão relatados pela Divisão de Fauna.

“Isso porque conseguimos provar que havia impacto e que animais estavam morrendo eletrocutados. Caso contrário, poderiam sempre falar que em São Paulo não tem bicho nem planta”, disse.

Fonte – Maria Fernanda Ziegler, Agência FAPESP de 08 de maio de 2017

Alternativas para a proteção de espécies silvestres ameaçadas de extinção

Foto – seam.gov.py

No Brasil, com o desmatamento de áreas naturais, pressão imobiliária nas cidades, crescimento urbanístico horizontal e consequente diminuição de espaços florestais nativos, muitas espécies silvestres correm riscos de desaparecimento total, ou seja, de extinção. Pensando nisso, cientistas ambientais, ambientalistas e pessoas em geral preocupadas com o meio ambiente, em vertente ampla, estão em busca de alternativas voltadas para a proteção e para a mitigação dos problemas que desencadeiam a extinção.

De imediato, torna-se oportuno esclarecer que todas as alternativas que serão apresentadas são frutos de leituras e reflexões a partir de teóricos como G. Tyler Miller e Scott Spoolman. Em Ecologia e Sustentabilidade, por exemplo, eles elencam as seguintes situações necessárias e importantes para a proteção das espécies ameaçadas de extinção: redução da crescente taxa de extinção de espécies para ajudar a proteger a biodiversidade global por meio da criação e da aplicação de leis ambientais nacionais e tratados internacionais, criação de uma série de santuários protegidos da vida selvagem e medidas de precaução para evitar danos aos animais no Planeta.

No capítulo “Como podemos proteger as espécies silvestres da extinção?” no livro mencionado, os autores tocam em pontos específicos para a realidade dos Estados Unidos, mas muitos deles também podem ser aplicados em outros países como é o caso do Brasil. Dentre as alternativas, relatam tratados internacionais e leis nacionais como elementos imprescindíveis que podem ajudar a proteger as espécies, a Lei de Espécies Ameaçadas dos Estados Unidos, estabelecimentos de refúgios de vida selvagem e de outras áreas protegidas, bancos de genes, jardins botânicos, fazendas de vida selvagem e a criação de zoológicos e aquários.

No plano legislativo, conforme G. Tyler Miller e Scott Spoolman, diversos tratados e convenções internacionais ajudaram a proteger as espécies selvagens ameaçadas ou em risco de extinção. Segundo eles, a Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB), ratificada por 191 países (mas até 2010, não pelos Estados Unidos), legalmente obriga os governos participantes a reduzirem a taxa mundial de perda de biodiversidade e repartir, de maneira equitativa, os benefícios da utilização dos recursos genéticos do mundo. Isto incluiria esforços para prevenir ou controlar a disseminação de espécies invasoras ecologicamente prejudiciais.

Sobre o estabelecimento de refúgios de vida selvagem e de outras áreas protegidas, os dois teóricos objetos dessa análise historicizam o processo de criação dos refúgios, dizendo que o primeiro deles nos EUA foi criado em 1903 durante o governo de Theodore Roosevelt e que demorou muito para que os refúgios trouxessem resultados satisfatórios, portanto, positivos. Ao discorrerem sobre a importância dos refúgios, não pouparam críticas ao fato de que as notícias sobre os refúgios não são todas boas, pois de acordo com um estudo do Government Accountability Office – GAO, as atividades consideradas prejudiciais para a vida selvagem, como mineração, extração de petróleo e a utilização de veículos off-road, ocorrem em quase 60% dos refúgios de vida selvagem dos EUA.

No que concerne aos refúgios de vida selvagem, assim como os que foram criados nos Estados Unidos, ajudando na preservação e proteção de animais como o veado-campeiro, o pelicano-pardo, o bisão americano e o cisne trombeteiro da Flórida, no Brasil, eles também são cruciais para a proteção de vários animais silvestres ameaçados de extinção.

No tangente aos bancos de genes ou de sementes, segundo eles, preservam as informações genéticas de espécies vegetais ameaçadas de extinção, armazenando as sementes em ambientes refrigerados, de baixa umidade. Conforme os dois teóricos, mais de 100 bancos de sementes ao redor do mundo detêm, juntos, 3 milhões de amostras.

Com relação aos bancos de sementes, o Brasil possui poucas experiências, mas os que existem corroboram que o projeto é possível. O problema é que os órgãos que desenvolvem pesquisa nessa ótica recebem pouco apoio tanto das esferas públicas quanto das privadas no país.

Acerca da criação de zoológicos e aquários, tenho muitas críticas e não vejo neles espaços de proteção, ainda que muitos estudiosos pensem o contrário. Nesse sentido, as experiências na criação de zoos pelo mundo inteiro, em especial, no Brasil e em outros países do Continente Americano, têm demonstrado que esses locais não possuem as condições biológicas mínimas para a manutenção da perpetuação da vida.

Ainda que teça críticas e que não veja de forma positiva os zoológicos e aquários, é interessante externar o que trazem G. Tyler Miller e Scott Spoolman acerca desse quesito: os zoológicos, aquários, parques florestais e centros de pesquisa de animais estão sendo usados para conservar alguns indivíduos de espécies de animais criticamente em perigo, com o objetivo, a longo prazo, de reintrodução das espécies em habitats selvagens protegidos.

Para discorrerem sobre a importância dos zoológicos e dos aquários, os autores citados falam sobre técnicas de preservação de espécies, técnicas de aumento de populações, programas de reprodução e outras questões.

Acerca dos aquários públicos que exibem espécies exóticas e atrativas de peixes e alguns animais marinhos, eles apresentam que no caso de focas, golfinhos e de outros animais, ajudam a educar o público sobre a necessidade de proteger essas espécies. Contudo, principalmente por causa dos recursos limitados, esses aquários não têm servido como bancos de genes eficientes para as espécies marinhas ameaçadas, especialmente de mamíferos marinhos que precisam de grandes volumes de água, como a lontra marinha do Sul em risco de extinção nos EUA.

Na mesma linha de raciocínio que a minha, os referidos pesquisadores evidenciam que os usos dos jardins zoológicos, aquários e jardins botânicos não são uma solução biológica ou economicamente viável para o problema crescente da extinção de espécies.

Além dos pontos apresentados no parágrafo anterior, pontuo que outro elemento também deve ser abordado para explicar a inviabilidade da manutenção dos aquários e zoológicos, o fato de que estes espaços jamais despontarão como ecossistemas autênticos de manutenção da vida. Também é necessário pontuar que em muitos zoológicos brasileiros e de outras partes do mundo há registros na mídia de maus-tratos aos animais.

Como consideração final, é crucial trazer o princípio da precaução como uma das alternativas para a proteção dos animais ameaçados e, nesse campo, G. Tyler Miller e Scott Spoolman esclarecem que os cientistas da biodiversidade pedem que tomemos medidas de precaução para evitar mais extinções e maiores perdas da biodiversidade.

Para alargar ainda mais o debate em torno dos mitigadores que poderão propiciar a preservação e a conservação da fauna ameaçada, é interessante trazer à tona algo que afirmou Edward O. Wilson: o grande desafio do século XXI é elevar as pessoas em todos os lugares a um padrão de vida decente ao mesmo tempo em que se preserve o resto da vida tanto quanto possível.

Referências para a construção do texto

Ciência ambiental, de G. Tyler Miller

Ecologia e Sustentabilidade, G. Tyler Miller e Scott Spoolman

Por Elissandro dos Santos Santana, para FUNVERDE. Colunista socioambiental e tradutor do Portal Desacato, colunista de meio ambiente da FUNVERDE, membro do Conselho Editorial da Revista Letrando e especialista em sustentabilidade, desenvolvimento e gestão de projetos sociais.

Canetada do governador do Amazonas ameaça a maior floresta tropical do mundo

Lei sancionada pelo governador do Amazonas, José Melo, pode causar destruição em cadeia ao permitir a introdução de espécies de peixes não nativos e o barramento dos igarapés.

Curimatã, pirarucu, filhote, aruanã, gurijuba, pacu, todos com os dias contados. Matrichã, tambaqui, piramutaba, piranha, pirapatinga, todos ameaçados. Pirananbu, apapá, peixe-cachorro, curimbatá, jatuarana, jaú, todos condenados.

São mais de três mil espécies de peixes, a maior biodiversidade aquática do planeta. Toda ela ameaçada pela inconsequência de uma lei estadual, a 79 de 2016, sancionada no começo desta semana, por uma canetada do governador do Amazonas, José Melo (Pros). A preservação dessa diversidade de peixes e de mamíferos aquáticos – como botos, peixes-boi e golfinhos – deve-se ao fato da bacia amazônica manter-se livre de populações de peixes exóticos, ou seja provenientes de outros lugares do planeta. Esse fenômeno, a introdução de espécies exóticas, acontece na maioria dos ambientes aquáticos e é responsável pela destruição da diversidade local.

A lei em questão faz justamente isso: libera a introdução de espécies não-nativas nos rios e igarapés da maior floresta tropical do mundo no estado do Amazonas. Um exemplo ilustrativo pode ser a introdução da tilápia. As tilápias são peixes originários da África que tendem a dominar os ambientes onde são introduzidos, pois competem com muita eficiência pelos recursos alimentares, por espaço e por locais de desova, levando ao desaparecimento outras espécies de peixes. Imagine as tilápias nadando faceiras nos rios amazônicos…

Seria possível enumerar um enorme conjunto de consequências desastrosas para a Amazônia, derivadas dessa inconsequência, mas bastam duas:

1) O comprometimento da biodiversidade aquática levará a uma degradação em cadeia. O desaparecimento das espécies de peixes causará a extinção de muitas outras espécies, tanto de fauna como de flora, o que transformará o ambiente e levará a destruição do ecossistema. Ou seja, se esse dispositivo legal permanecer, podemos começar a ensaiar a marcha fúnebre para nossa maior floresta.

2) Não há volta para a introdução de espécies na Amazônia, ou seja, não dá para experimentar e depois decidir que deu errado. Uma vez introduzidas, o dano será irreversível, por isso a lei é inconsequente.

Fica, como sempre, a questão no ar: será que os responsáveis pela aquicultura e pela pesca no estado do Amazonas apoiaram tal dispositivo legal, pois ignoram as consequências drásticas e irreversíveis para a bacia? Se assim é, não deveriam ser responsáveis por algo que não compreendem. Ou será que apoiaram essa lei por causa da pressão de grupos econômicos interessados no cultivo de espécies exóticas na Amazônia? Se for assim, tampouco deveriam estar onde estão.

Por fim, vale lembrar que a malfadada lei – como se fosse pouco ter o potencial de causar tamanha destruição – permite ainda o barramento de igarapés para atividades de aquicultura, também com consequências nefastas para todo o ecossistema amazônico, que depende dos ciclos naturais de cheias e vazantes dos rios para sua manutenção.

Há, nesse momento, manifestações e abaixo-assinados circulando na internet contra essa lei (participe). Incrível é que precisaremos de milhares de assinaturas para tentar salvar nossa floresta, enquanto que bastou uma, a do governador do Amazonas, para colocar em marcha um processo irreversível de destruição da Amazônia.

Nurit Bensusan, coordenadora adjunta do Programa de Política e Direito do ISA e especialista em Biodiversidade

Fonte – Instituto Socioambiental de 01 de junho de 2016

A maior diversidade de plantas do mundo

Botânicos registram 46 mil espécies e identificam em média 250 por ano no Brasil

Depois de sete anos de trabalho, um grupo de 575 botânicos do Brasil e de outros 14 países concluiu a versão mais recente de um amplo levantamento sobre a diversidade de plantas, algas e fungos do Brasil, agora calculada em 46.097 espécies. Quase metade, 43%, é exclusiva (endêmica) do território nacional. O total coloca o Brasil como o país com a maior riqueza de plantas no mundo – a primeira versão do levantamento, publicada em 2010, listava 40.989 espécies. Esse número não vai parar de crescer tão cedo porque novas espécies são identificadas e descritas continuamente em revistas científicas. Em média, os botânicos apresentam cerca de 250 novas espécies por ano.

Os cinco artigos detalhando a segunda versão da Lista de espécies da flora do Brasil foram publicados em dezembro do ano passado na Rodriguésia, do Jardim Botânico do Rio de Janeiro (JBRJ), como forma de prestigiar a revista, que completou 80 anos em 2015. Dali também brota um alerta para as perdas contínuas de variedades únicas de plantas. Enquanto o levantamento era feito, um grupo de botânicos identificou uma espécie nova de bromélia com uma inflorescência vermelha, a Aechmea xinguana, em uma área de mata já coberta pela água do reservatório da usina de Belo Monte, em construção no norte do Pará. “Alguns exemplares dessa espécie foram resgatados e estavam na casa de vegetação do reservatório, mas as populações naturais se perderam na área alagada”, disse Rafaela Campostrini Forzza, pesquisadora do JBRJ e coordenadora do levantamento.

O trabalho não terminou. Neste mês de março os especialistas em cada grupo de plantas devem começar a incluir as descrições, distribuição geográfica detalhada e outras características de cada espécie no banco de dados on-line Flora do Brasil (floradobrasil.jbrj.gov.br) para servir de base para o Flora do Brasil Online, que deve estar concluído até 2020 para integrar o World Flora Online, com informações sobre todas as plantas conhecidas do mundo. Na trilha dos botânicos, os zoólogos se organizaram e apresentaram também em dezembro de 2015 a primeira versão do Catálogo Taxonômico da Fauna do Brasil (CTFB), resultado do trabalho de cerca de 500 especialistas, que começaram a detalhar as informações sobre 116.092 espécies, a maioria artrópodes, com quase 94 mil espécies ou 85% do total (http://fauna.jbrj.gov.br/fauna/listaBrasil/PrincipalUC/PrincipalUC.do.)

Elaborado a pedido do Ministério do Meio Ambiente, com financiamento do governo federal, instituições privadas e fundações estaduais como a FAPESP, o Flora do Brasil indica que a Amazônia abriga a maior diversidade do grupo das plantas sem frutos e com sementes expostas, as gimnospermas, que predominaram de 300 milhões até 60 milhões de anos atrás, quando os dinossauros circulavam pela Terra. Seus representantes mais conhecidos são árvores em formato de cone típicas do clima frio do sul do país, como a araucária, com uma única espécie no Brasil, e quatro espécies de Podocarpus. Dispersas nas matas da região Norte, porém, vivem seis espécies de cipós de folhas largas do gênero Gnetum, que crescem sob o clima quente e úmido ao redor de árvores. Suas sementes vermelhas ou lilases são tão parecidas com frutos que já confundiram até os botânicos.

Os quase 50 mil exemplares de espécies nativas colocam o Brasil como o país con-tinental com maior diversidade de espécies do mundo, seguido por China, Indonésia, México e África do Sul. Em número de espécies endêmicas, perde apenas para grandes ilhas como Austrália, Madagascar e Papua Nova Guiné, cujo isolamento favorece a formação de variedades únicas, e para apenas uma área continental, o Cabo da Boa Esperança, na África do Sul. O total de espécies não chega aos 60 mil das estimativas mais otimistas, mas é maior que o da Colômbia, antes vista como o país da América do Sul com maior diversidade, e é mais que o dobro das 22.767 espécies descritas na monumental Flora brasiliensis, coleção de 15 volumes e 10.367 páginas escrita por 65 botânicos de vários países sob a coordenação de Carl Friedrich Philipp von Martius, August Wilhelm Eichler e Ignatz Urban, e publicada de 1840 a 1906.

Na Flora brasiliensis, o grupo predominante, com 32.813 espécies, são as plantas com sementes protegidas por frutos carnosos ou secos, as chamadas angiospermas. Nesse grupo estão as árvores como o ipê e o jacarandá, a roseira e outras espécies ornamentais, o feijão, o amendoim, o milho e a maioria dos vegetais usados na alimentação. Somente de feijões, pertencentes aos gêneros Vigna, Canavalia e Phaseolus, a flora brasileira registra cerca de 30 espécies nativas e naturalizadas, “a maioria delas com um potencial para a alimentação humana ainda pouco investigado”, comentou Vinicius Souza, professor da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da Universidade de São Paulo (USP) que participou da produção e organização das informações desse trabalho.

As angiospermas se espalharam quando o clima se tornou quente e úmido, depois da extinção dos dinossauros. As mudanças do clima eliminaram a maioria das gimnospermas, hoje raras em todo o mundo: os botânicos encontraram apenas 30 espécies, sendo 23 nativas, desse grupo no Brasil. Por sua vez, as samambaias e as licófitas – plantas sem sementes e sem flores, que se reproduzem por esporos, também com origem antiga – estão representad​as por 1.253 espécies no Brasil​; algumas ​delas ​atingem 20 metros de altura, lembrando as variedades gigantes que marcavam a paisagem terrestre há 300 milhões de anos.

Alegria e inquietação

Os botânicos agora convivem com a satisfação de ver mais uma etapa do projeto concluída e, ao mesmo tempo, uma desagradável inquietação, porque eles sabem que a distribuição geográfica das coletas de amostras de plantas, sobre as quais o trabalho foi feito, não era equilibrada: havia muito mais informações sobre as regiões Sul e Sudeste, onde se concentram as coletas, os grupos de especialistas e as instituições de pesquisa, do que nas outras partes do país. Enquanto no Rio de Janeiro havia 5,8 coletas por quilômetro quadrado (km2) e no Espírito Santo, 3,9 por km2, no Pará e no Amazonas essa relação era de 0,10 e 0,17 por km2.

Provavelmente por causa do número de coletas aquém do desejado pelos botânicos, o estado do Amazonas aparece em terceiro lugar entre os estados com maior diversidade, seguindo Minas Gerais, em primeiro, e Bahia. Os botânicos não estão satisfeitos com esse resultado. “No Amazonas poderia haver pelo menos mais 20 mil espécies ainda não amostradas”, disse Souza.

São Paulo encontra-se em quarto lugar de diversidade. Além de ser um espaço bastante percorrido por expedições botânicas, o estado apresenta uma variedade de relevos, com planícies a oeste e montanhas a leste, e de tipos de vegetação que favorecem a formação de novas espécies. “Tanto as formações vegetais de clima frio que vêm do sul quanto as de clima quente, como o Cerrado, param em São Paulo”, disse José Rubens Pirani, professor do Instituto de Biociências (IB) da USP.

“Infelizmente, mantivemos a distorção do trabalho de Von Martius, que coletou principalmente na Mata Atlântica, Caatinga e Cerrado e andou pouco pela Amazônia”, comentou Rafaela. “Precisamos de um plano nacional de mapeamento das espécies de plantas da Floresta Amazônica para resolver o problema da subamostragem do maior bioma brasileiro, que representa metade do território nacional.”

Elaborado com informações mantidas em herbários e em bases on-line como o Reflora, atualmente com 1.390.218 registros de plantas nativas (ver Pesquisa FAPESP nº 229), o levantamento apontou a Mata Atlântica como o bioma com maior diversidade de angiospermas, samambaias, licófitas e fungos, em razão de coletas mais numerosas e da variedade de altitudes, climas e latitudes. Em segundo lugar está a Amazônia e em terceiro, o Cerrado.

“Ainda estamos longe dos prováveis números reais”, observou Souza. “Quanto maior o número de coletas por região ou estado, maior o número de espécies.” Uma evidência de sua afirmação é que, por causa das coletas mais numerosas, a diversidade de plantas do Tocantins aumentou 70% e a do Piauí, 40%, em relação ao registrado na primeira versão da Flora, de 2010. “Não estávamos trabalhando lá e as plantas não apareciam”, comentou Pirani. Em 2013, com sua equipe, ele identificou uma espécie nova de arbusto, Simaba tocantina, em uma área de Cerrado pouco conhecida no interior e nas proximidades do parque do Jalapão, leste do Tocantins, marcada por vastos areais como os descritos no livro Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa.

Na região Norte, as áreas menos estudadas são as mais propícias ao avanço das novas plantações de soja e cana-de-açúcar. “O desmatamento é muito mais rápido do que nossa capacidade de conhecer a floresta”, queixou-se a botânica paulista Daniela Zappi, pesquisadora do Kew Gardens, de Londres. “É um desespero. Parece que não vai dar tempo de chegar nessas áreas, principalmente no Arco do Desmatamento, entre o norte do Mato Grosso e o sul do Pará.”

As cactáceas, um dos grupos em que ela é especialista, apresentam uma elevada diversidade no Brasil – em Minas vivem 103 espécies e na Bahia, 98 –, mas 32% das 260 espécies desse grupo encontram-se em grau variável de risco de extinção. As áreas que ocupam são continuamente substituídas por plantações de eucalipto, agricultura ou mineração. Os cactos são explorados como plantas ornamentais e colhidos para servir como alimento para o gado ou para pessoas, que também os usam como fonte de medicamentos, geralmente sem se preocupar em repor as populações originais. Outro problema é que muitas espécies crescem apenas em áreas específicas. É o caso do Arrojadoa marylaniae, um cacto colunar com anéis de flores vermelhas que cresce apenas sobre uma jazida de quartzo branco de valor comercial no interior da Bahia.

O trabalho de identificação e estudo da distribuição geográfica de cada espécie está atrelado a um plano de ação, de modo a estudar e favorecer a polinização e germinação de espécies em maior risco de extinção. As ações de preservação incluem a participação de pesquisadores não acadêmicos. Gerardus Oolstrom, um criador de cactos comerciais em Holambra, interior paulista, trabalhou com botânicos acadêmicos na identificação de uma espécie nova, a Rhipsalis flagelliformis, que ele viu pela primeira vez cultivada em um sítio que havia sido do paisagista Roberto Burle Marx no bairro de Guaratiba, na cidade do Rio de Janeiro. “Os colecionadores, quando integrados com os grupos de pesquisa, podem ajudar muito no trabalho de localização e preservação das espécies”, observou Daniela.

Rafaela também trabalha com o advogado Elton Leme, um botânico não profissional, na caracterização de três novas espécies do gênero Encholirium, que vivem entre rochas em morros da Bahia e de Minas Gerais. Por sua vez, pesquisadores da Fundação Zoo-Botânica de Belo Horizonte espalharam cartazes com o título “Procura-se” e fotos e informações sobre o faveiro-de-wilson, uma árvore rara, e conseguiram localizar muitos exemplares com a ajuda de moradores do interior de Minas (ver Pesquisa Fapesp no 235).

“Não precisamos plantar apenas rosas e azaleias”, propôs Pirani enquanto caminhava pelos corredores amplos e ensolarados do herbário do IB-USP no início de janeiro. “Cultivar plantas ornamentais nativas em nossas casas, nas ruas e nas margens de estradas é uma forma de preservar a diversidade.” Em seguida ele apresentou um arbusto de flores azuis, a canela-de-ema, duas bromélias, o gravatá e a macambira, e outras plantas coletadas na serra de Grão Mogol, norte de Minas Gerais, que ele procura adaptar ao clima da capital. “Aqui chove mais do que em Minas, mas, mesmo assim, algumas delas florescem todo ano.”

Artigos científicos

COSTA, D. P. e PERALTA, D. F. Bryophytes diversity in Brazil. Rodriguésia. v. 66, n. 4, p. 1063-71. 2015.

MAIA, L. C. et al. Diversity of Brazilian Fungi. Rodriguésia. v. 66, n. 4, p. 1033-45. 2015.

MENEZES, M. et al. Update of the Brazilian floristic list of Algae and Cyanobacteria. Rodriguésia. v. 66, n. 4, p. 1047-62. 2015.

PRADO, J. et al. Diversity of ferns and lycophytes in Brazil. Rodriguésia. v. 66, n. 4, p. 1073-83. 2015.

THE BRAZIL FLORA GROUP. Growing knowledge: an overview of seed plant diversity in Brazil. Rodriguésia. v. 66, n. 4, p. 1085-113. 2015.

Fonte – Carlos Fioravanti, Revista Pesquisa FAPESP de março de 2016

Frutíferas e Plantas Úteis na Vida Amazônica

O livro integra saberes científicos e tradicionais sobre ecologia, economia e usos de 21 espécies de árvores, cipós e palmeiras.

A obra contém informações científicos recentes sobre a ecologia das espécies, aspectos culturais, nutrição e uso medicinal dessas espécies na vida Amazônica. O livro (300 páginas, ilustrado) aborda duas grandes regiões distintas da Amazônia: as florestas do Estado do Acre o leste do Pará. Nas palavras da ex-Ministra Marina Silva, o livro “é um extraordinário poema à Amazônia”.

Shanley, P., & Medina, G. 2005. Frutíferas e Plantas Úteis na Vida Amazônica (p. 300). Belém: Imazon.

Fonte – Imazon

Em 40 anos, a biodiversidade marinha do planeta foi reduzida à metade

Populações de peixes importantíssimas para a segurança alimentar da humanidade estão em declínio no mundo inteiro, e sob risco de colapso total, de acordo com um novo estudo divulgado pela Rede WWF hoje. O Living Blue Planet Report (“Relatório Planeta Azul Vivo”, em tradução livre) mostra que muitas das atividades que ameaçam os oceanos podem ser evitadas e que existem soluções para resolver este problema.

A mais recente versão do estudo de mamíferos marinhos, aves, répteis e peixes mostra que essas populações foram reduzidas à metade nas últimas quatro décadas, com algumas populações de peixes disponíveis para consumo apresentando declínio de até 75%. As informações dão conta de que este é um problema de todas as nações do mundo, com destaque especial para os países em desenvolvimento.

Para reverter este quadro de declínio, os líderes globais devem garantir que a recuperação dos oceanos e dos habitats costeiros seja um assunto-chave na discussão sobre a implementação dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentáveis (ODS) das Nações Unidas, que serão formalmente aprovados no final deste mês. As negociações para um novo acordo climático global também são importantes oportunidades para “forçar” acordos e consensos no auxílio à saúde dos oceanos.

Prejuízo

“Nós publicamos este estudo com urgência para trazer a mais atualizada fotografia do estado dos oceanos”, disse o diretor-geral do WWF Internacional, Marco Lambertini. “No espaço de uma única geração, a atividade humana prejudicou seriamente os oceanos, pescando mais rapidamente do que a velocidade de reprodução dos peixes, ao mesmo tempo em que destruímos seus berçários. Precisamos de mudanças profundas para garantir vida oceânica abundante para as futuras gerações”.

O relatório do WWF indica que espécies essenciais para a pesca comercial e de subsistência – e, consequentemente, para o suprimento de comida do planeta – estão sofrendo declínios acentuados. Além da severa queda nos estoques de peixes comerciais, o relatório detalha a dramática perda de 74% de indivíduos nos estoques de peixes que incluem atuns, cavalas e bonitos.

“Nós estamos numa ‘corrida para pegar peixes’ que pode acabar com pessoas famintas, sem uma fonte de alimento vital, impactando uma engrenagem econômica muito importante. A sobrepesca, a destruição dos habitats marinhos e as mudanças climáticas terão consequências para toda a população humana, sendo que as comunidades mais pobres serão as mais afetadas. O colapso dos ecossistemas oceânicos seria o estopim de um declínio econômico seríssimo – e enfraqueceria a nossa luta para erradicar a pobreza e a desnutrição”, disse Lambertini.

O relatório mostra o declínio de 49% das populações marinhas entre 1970 e 2012. A análise monitorou 5.829 populações de 1.234 espécies, fazendo com que o conjunto de dados seja quase duas vezes maior que o de estudos anteriores e trazendo uma fotografia mais clara e precisa da saúde dos oceanos.

Os resultados são baseados no Living Planet Index, uma base de dados mantida e analisada pelos pesquisadores da Sociedade de Zoologia de Londres (ZSL, no original em inglês). Numa espécie de “resposta” às estatísticas alarmantes do Living Planet Report, publicado pela Rede WWF em 2014, este estudo analisa como a sobrepesca, os danos aos habitats marinhos e as mudanças climáticas estão afetando a biodiversidade marinha.

Corais, manguezais e algas

Somando-se à crise da queda de populações de peixes, o resultado mostra também uma queda abrupta em recifes de corais, manguezais e algas marinhas, que ajudam na manutenção de populações de peixes. Mais de um terço dos peixes monitorados pelo relatório dependem de recifes de corais – que apresentaram um declínio perigoso de 34% em suas populações entre 1970 e 2010.

O relatório mostra ainda que os recifes de corais podem ser considerados extintos por volta de 2050 devido às mudanças climáticas. Com mais de 25% de todas as espécies marinhas vivendo nos recifes de corais e cerca de 850 milhões de pessoas se beneficiando diretamente de seus serviços econômicos, sociais e culturais, a perda dos recifes de corais seria uma extinção catastrófica, com consequências dramáticas para a humanidade.

“O oceano é uma parte integral de nossas vidas. Nós estamos vivos por conta do ar puro, da água e de outros serviços que ele oferece. Mais que isso, nós estamos cercados pelo oceano e sua vida selvagem; e podemos perceber isso seja numa viagem para o litoral, visitando um aquário ou um zoológico. Este estudo sugere que bilhões de animais foram varridos dos oceanos durante a minha vida. É um terrível e perigoso legado para deixar para os nossos netos”, disse o Diretor de Ciências da ZSL, Ken Norris.

Mudanças climáticas

Enquanto a exploração predatória é identificada como a maior ameaça para a biodiversidade do oceano, o estudo mostra que as mudanças climáticas estão causando mudanças mais rápidas que em qualquer outro período em milhões de anos. O aumento das temperaturas e do nível de acidez dos oceanos, causado pelo dióxido de carbono emitido na atmosfera, agravam os impactos negativos da sobrepesca e de outros problemas, como a degradação dos habitats e a poluição.

Além do óbvio dano à natureza, as pressões aos oceanos põem em risco uma economia global de U$ 2,5 trilhões, além de arriscar uma base de ativos globais de pelo menos U$ 24 trilhões, de acordo com um estudo anterior da Rede WWF.

Segundo o relatório, as decisões tomadas na Conferência do Clima de Paris vão impactar diretamente o futuro da saúde dos oceanos. Os compromissos internacionais assumidos até agora não foram capazes de interromper o aumento dos níveis de aquecimento e acidificação que estão se mostrando catastróficos para os ecossistemas oceânicos e todas as pessoas que dependem deles.

“A boa noticia é que as soluções existem e nós sabemos o que precisa ser feito. O oceano é um recurso renovável que pode estar disponível às futuras gerações se lidarmos hoje com as pressões ambientais de maneira adequada”, disse Lambertini. “Se vivermos dentro de limites sustentáveis, o oceano vai contribuir com a segurança alimentar, a economia e os nossos sistemas naturais. A equação é simples. Nós devemos pegar essa oportunidade de ajudar os oceanos e reverter os danos enquanto podemos”.

Possíveis soluções

O Living Blue Planet Report detalha ainda as oportunidades existentes para que governos, empresas e comunidades garantam um oceano vivo e saudável. Medidas importantes para a conservação dos recursos oceânicos incluem a priorização da sustentabilidade, conservação e recuperação de capital marinho e consumo mais inteligente e responsável.

Este ano, um estudo do WWF atestou que cada dólar investido na criação de áreas protegidas marinhas pode render o triplo na forma de benefícios – por conta de fatores como empregos, proteção de litorais e produção pesqueira. Essa análise mostrou que o crescimento da proteção de habitats críticos poderia resultar em benefícios que podem variar entre U$ 490 e U$ 920 milhões acumulados no período 2015-2050.

Em setembro, os governantes assinarão a Agenda de Desenvolvimento Sustentável para 2030 – cujas prioridades incluem a redução da pobreza e o aumento da segurança alimentar, temas que tem ligação direta com a saúde dos oceanos. É essencial que a implementação política e financeira da agenda de desenvolvimento sustentável traga resoluções sobre destruição de habitats, sobrepesca, pesca ilegal e poluição marinha.

No Brasil

Em junho deste ano, no Dia Mundial dos Oceanos, o WWF-Brasil lançou seu Programa Marinho. A iniciativa contribuirá inicialmente para a compreensão e o atendimento dos impactos de três áreas: sobrepesca, turismo e poluição. O trabalho será desenvolvido a partir de quatro estratégias: gestão da qualidade de destinos costeiros; valorização da pesca sustentável; e fortalecimento e expansão das unidades de conservação (UC’s).

Com 10,8 mil km de extensão, a costa brasileira percorre 395 cidades, em 17 estados. Uma imensidão azul que abriga ¼ da população brasileira em um ecossistema único com 3 mil km de recifes de corais e 12% dos manguezais do mundo. É também um habitat com alta relevância econômica para o Brasil, tendo no turismo, na pesca e na exploração mineral seus principais alicerces, mas também com grande potencial biotecnológico e energético.

“Vivemos um momento crítico na conservação dos recursos marinhos do Brasil, que sofrem com a pesca excessiva, fraca fiscalização, poluição, exploração mineral, necessidade de políticas públicas adequadas para o bioma, além da forte especulação imobiliária e consequente ocupação desordenada das cidades costeiras. Nossa atuação nos mares brasileiros visa chamar a atenção da sociedade para essa triste realidade, a importância da saúde dos oceanos para nossas vidas e como podemos nos mobilizar para protegê-los”, explica a coordenadora do Programa Marinho e Mata Atlântica, Anna Carolina Lobo.

Apesar dos recentes avanços de sua conservação no País, menos de 2% de toda essa biodiversidade está protegida. Preocupado com a situação e motivado pela necessidade de mudança, o WWF-Brasil está ampliando sua atuação para o bioma Marinho. Com ampla atuação em biomas como Amazônia, Cerrado, Pantanal e Mata Atlântica, a conservação da vida marinha fortalece e amplia as atividades da organização na proteção do meio ambiente em diferentes frentes.

Fonte – WWF de 16 de setembro de 2015

Map of Life: a biodiversidade está próxima de você

Aplicativo diz quais espécies de animais e plantas vivem próximas a você com base na localização do seu celular

Não importa onde você esteja, o Map of Life (MOL), Mapa da Vida em tradução literal, pode dizer quais espécies de animais e plantas vivem próximas a você com base na localização do seu celular. Em vez de procurar por centenas de páginas em um guia impresso, naturalistas podem ter um guia de campo digital feito sob medida para a sua localização através de um aplicativo.

O MOL*, projeto da Universidade de Yale em parceria com a Nasa, eBird, Google, entre outros, acabou de lançar um aplicativo que integra fontes diferentes de dados de distribuição das espécies pelo mundo. Mapas de área de distribuição, pontos de ocorrência e áreas de proteção são fornecidos pela IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza, na sigla em inglês), WWF (Fundo Mundial para a Natureza, na sigla em inglês), GBIF (Sistema Global de Informação sobre a Biodiversidade, na sigla em inglês) entre outras instituições.

Ao acessar o aplicativo, você fornece sua localização e uma lista de espécies com área de ocorrência próxima ao lugar onde você se encontra aparece na tela do celular. Todos os dados são gerenciados, checados, armazenados e podem ser acessados via cloud hosting (sistema baseado na tecnologia de computação em nuvem que permite que um número ilimitado de máquinas funcionem como um sistema).

Fotos ajudam a identificar o animal ou planta e textos fornecem informações sobre as espécies. O usuário também pode criar listas pessoais de observação, contribuir com pesquisas científicas e projetos de conservação e ajudar a atualizar informações sobre a biodiversidade local.

“O aplicativo coloca uma parte significativa do nosso conhecimento global sobre a biodiversidade na palma da sua mão, e permite que você descubra e se conecte com a biodiversidade em um lugar, onde quer que esteja”, disse Walter Jetz, professor de ecologia e biologia evolutiva da Universidade de Yale e coordenador do MOL, em entrevista para o site YaleNews. Segundo Jetz, os guias de campo em forma de livros estão ultrapassados. O MOL é uma ferramenta que permite se conectar com a biodiversidade de uma forma mais eficiente e emocionante. “Esta vasta informação, personalizada para o lugar onde estamos, pode mudar a forma como identificamos e aprendemos sobre as coisas que vemos quando viajamos, caminhamos na mata, ou pisamos no nosso próprio quintal.”

O MOL está disponível em cinco idiomas (ainda não existe em português, mas as espécies da nossa fauna podem ser encontradas) para smartphones iPhone e Android. Para obter mais informações e baixar o aplicativo visite o site do Map of Life.

Fonte – Fábio Paschoal – National Geographic Brasil / Blog Curiosidade Animal / Planeta Sustentável de 25 de maio de 2015

O bosque sensorial e seus frutos

Jabuticaba a R$ 23,27 o quilo. Aproximadamente 20 jabuticabas a R$ 4,56.

Carambola a R$ 11,05 o quilo. 5 carambolas a R$ 4,29.

Acerola a R$ 16,17 o quilo. Um punhadinho de carambolas a R$ 7,76.

Nêspera a R$ 20,67 o quilo. Umas 10 nêsperas a R$ 9,30.

 

E a finalmente, a grande oferta do dia: jaca a R$ 4,12.

Ninguém está dizendo que frutas tem que ser distribuídas gratuitamente pelo comércio. Ninguém trabalha de graça. Quem trabalha tem que ganhar com o fruto – neste caso, as frutas – do seu trabalho.

O que nos causa estranheza é a dependência com o comércio que as pessoas tem para comer frutas. Primeiro, se perguntar para qualquer criança de 10 anos o nome dessas frutas, a esmagadora maioria não saberá o nome de sequer uma delas. Depois, essas frutas acabam apodrecendo nas gôndolas porque ninguém conhece e portanto ninguém compra.

O normal é comer o que? No sul, laranja e banana no dia a dia e mais raramente maçã e mamão. As outras vendem muito menos e nem se encontra normalmente nos supermercados, só em frutarias epecializadas em frutas não convencionais.

Ao analisarmos o consumo de frutas da população, tivemos a ideia do Projeto Bosque Sensorial em 2007, projeto que só iniciou em 2009. Serão bosques nos bairros ou no centro das cidades para as pessoas voltarem a ocupar as praças, fazerem piqueniques com suas famílias e ao mesmo tempo educar as crianças a respeitar a natureza e comer frutas que não comeriam normalmente.

Queríamos com o projeto também incentivar também as pessoas a plantarem frutas em seus quintais, em vasos, para aproximar a população urbana de um modo de vida mais saudável e natural, criando respeito e incentivando a conservação da natureza, da qual todo humano depende mas que se afastou tanto do meio natural que acha que sua vida independe do ambiente, que pode viver no meio artificial, esquecendo que o humano é um ser biológico, orgânico, e que depende da exclusivamente da natureza.

Então, se vocês estiverem em Maringá – por enquanto o projeto está sendo desenvolvido na cidade – você pode comer da época frutas gratuitamente quando for fazer sua caminhada no bosque sensorial. Estas e muitas outras espécies.

Contaminação por pesticidas pode causar impacto ambiental ‘sem precedentes’

Abelhas estão entre os principais afetados pelo uso de pesticidas

Após analisar mais de 800 artigos, cientistas concluem que o uso dessas substâncias oferece riscos à biodiversidade e aos ecossistemas terrestres

Um grande estudo realizado por uma equipe internacional de pesquisadores concluiu que alguns dos tipos de pesticidas mais utilizados atualmente representam uma grande ameaça para os ecossistemas e a biodiversidade. A primeira parte da pesquisa, que será publicada em série, foi divulgada nesta terça-feira no periódico Environmental Science and Pollution Research, com alguns dos principais resultados. Trinta cientistas fizeram parte da iniciativa, que analisou mais 800 artigos publicados nas últimas duas décadas sobre o assunto.

O estudo tem como alvo os neonicotinoides e o fipronil, pesticidas sistêmicos (são absorvidos por todas as partes da planta) que juntos representam cerca de um terço do mercado mundial desse tipo de produto. Seu principal uso é no controle de insetos em plantações, mas eles também são utilizados para afastar pragas em animais e pestes em residências.

Apesar de os pesticidas serem empregados na agricultura há décadas, os pesquisadores descreveram a situação atual como “sem precedentes”, e recomendam que as autoridades intensifiquem a legislação para restringir o uso desses produtos.

Os neonicotinoides ficaram conhecidos pela suspeita de que estariam afetando as abelhas. Ele é apontado como uma das principais causas da síndrome do colapso da colônia (CCD), fenômeno que faz as abelhas literalmente desaparecerem de suas colmeias, o que intriga os pesquisadores. As suspeitas levaram a União Europeia a banir, a partir de julho de 2013, o uso dos neonicotinoides de algumas culturas por um período de dois anos, apesar dos protestos de produtores agrícolas e de multinacionais químicas e agroalimentícias. No Brasil, tanto os neonicotinoides quanto o fipronil são permitidos.

Para Dave Goulson, pesquisador da Universidade de Sussex, na Grã-Bretanha, e um dos autores do estudo, a suspeita se confirma. “Existem outros fatores envolvidos no desaparecimento das abelhas, mas eu diria que é evidente que os neonicotinoides estão afetando as populações, e são importantes contribuintes de seu declínio”, disse o pesquisador ao site de VEJA.

Os cientistas constataram que as abelhas constituem o grupo mais estudado em relação aos efeitos nocivos desses pesticidas. Segundo os autores, as consequências da aplicação dessas substâncias são mais amplas — e pouco abordadas.

Contaminação

O fato de esses pesticidas permanecerem no ambiente por meses ou até anos após a sua aplicação e sua grande solubilidade na água possibilitaram que eles se espalhassem pelo solo, pela água e, consequentemente, até mesmo pelas plantas que não são diretamente tratadas com esses produtos. Assim, muitas espécies animais que não são o alvo dos agrotóxicos acabam se contaminando de forma indireta.

Segundo os pesquisadores, os testes feitos em laboratório ou no campo demonstram que mesmo o uso dentro dos limites da legislação resultam em níveis elevados de contaminação ambiental. Também é alvo de críticas a forma como os testes de laboratório feitos para a regulação desses produtos são conduzidos. Eles geralmente avaliam apenas a letalidade da substância, e em curto período de exposição, enquanto outros tipos de efeitos relevantes ecologicamente, como dificuldade em voar, se localizar, procurar comida e crescer, praticamente não são descritos. “Ficou claro que muitos destes testes não são longos o bastante para representar uma exposição crônica, e por isso lhes falta relevância ambiental”, escrevem os autores.

Nas concentrações encontradas no meio ambiente, diz o estudo, os neonicotinoides e o fipronil podem exercer efeitos negativos sobre uma grande diversidade de invertebrados, bem como outros animais, em habitats terrestres e aquáticos, afetando sua fisiologia e até mesmo ameaçando sua sobrevivência.

Os autores enfatizam também que muitos aspectos importantes relacionados aos pesticidas não estão sendo abordados pelos estudos. “Quase tão preocupante quanto o que sabemos sobre os neonicotinoides é o que não sabemos”, escrevem os autores. Existem poucos dados sobre os resíduos dessas substâncias presentes no ambiente, e dados de toxicidade a longo termo também são muito limitados.

Como os pesticidas afetam a biodiversidade

Invertebrados terrestres – Esses animais, como as minhocas, são expostos aos pesticidas principalmente pelo solo e pelas plantas, mas também são afetados pelas concentrações presentes na água e até no ar. Pesquisas mostraram que esses animais podem ser afetados mesmo por uma exposição considerada padrão, encontrada na agricultura, e os efeitos vão desde modificação do comportamento até inibição da alimentação e mortalidade. Além de serem importantes para a manutenção da biodiversidade, esses animais exercem uma papel fundamental na regulação dos nutrientes no solo, armazenamento de carbono e incentivo ao crescimento das plantas.

Insetos polinizadores – Abelhas, borboletas e outros polinizadores entram em contato com os pesticidas principalmente por meio do ar e das plantas nas quais se alimentam. A exposição a pólen e néctar contaminados, mesmo nos níveis utilizados na agricultura, são prejudiciais para esses animais, e podem estar relacionados ao colapso da colônia (CCD), redução verificada nas colônias de abelhas, que já começa a prejudicar a produção de certos alimentos.

Invertebrados aquáticos – Caracóis de água doce, pulgas-de-água e outros invertebrados que vivem em ambientes aquáticos entram em contato com essas substâncias pela água e, eventualmente, plantas contaminadas. Os efeitos observados nesse grupo são alimentação e crescimento reduzidos e problemas de mobilidade.

Pássaros e outros – Apesar de os vertebrados serem menos suscetíveis aos inseticidas, os pássaros são afetados por consumirem sementes tratadas com esses pesticidas sistêmicos, que afetam todas as partes da planta. Já os répteis são afetados pela falta de insetos disponíveis para sua alimentação. Há relatos de peixes e anfíbios afetados, principalmente após exposição prolongada ou de altas concentrações dos pesticidas.

No caso das abelhas, por exemplo, apenas quatro espécies das 25.000 conhecidas pelo mundo foram estudadas, e há pouca pesquisa com outros polinizadores, como borboletas e vespas. Os organismos que vivem no solo, como as minhocas, também recebem pouca atenção, principalmente levando-se em consideração sua importância para a manutenção da fertilidade. Além disso, a interação dos neonicotinoides e do fipronil com outros pesticidas e fatores ambientais, como doenças e stress, aparecem em poucas pesquisas — mas, quando o fazem, apresentam efeitos de grande relevância. Em abelhas, por exemplo, baixas doses de neonicoticoides podem torná-las mais suscetíveis a doenças virais.

Conheça a pesquisa

Título original: A review of the direct and indirect effects of neonicotinoids and fipronil on vertebrate wildlife

Onde foi divulgada: periódico Environmental Science and Pollution Research

Quem fez: David Gibbons, Christy Morrissey e Pierre Mineau

Instituição: University de Saskatchewan, no Canadá, e outras

Resultado: Os pesquisadores concluíram que os neonicotinoides e o fipronil, pesticidas amplamente utilizados, representam uma grande ameaça para o ecossistema e a biodiversidade

Fonte e imagem – Veja de 24 de junho de 2014

Como o Brasil jogou fora a riqueza natural do Vale do Paraíba

Quem pretende compreender por que a exploração predatória dos recursos naturais é mau negócio precisa conhecer a triste história do Vale do Paraíba. A região, que abrigava uma das florestas mais ricas do mundo, foi vítima do desmatamento voraz durante o ciclo do café. Os produtores praticaram uma agricultura itinerante baseada no avanço constante da fronteira agrícola, desmatando e queimando, deixando para trás terra esgotada, erodida, mal coberta por capim. Apensar dos avisos, prosseguiram no caminho insustentável e a riqueza durou pouco. Algumas das famílias outrora ricas terminaram pobres. As cidades sofisticadas entraram em decadência.

Essa história está lindamente mostrada no filme “O Vale” de Marcos Sá Corrêia e João Moreira Salles. No fim do ano passado, em homenagem aos 66 anos de Marcos, o Canal O Eco, fundado por ele, colocou no ar a versão completa do filme, cedida pela VídeoFilmes.

Em 56 minutos de cenas comoventes e entrevistas reveladoras, o filme mostra como uma região econômica próspera e educada pode seguir sem desvios para a autodestruição ecológica, pela incapacidade de visão. Explica por que parte dos estados do Rio de Janeiro e de São Paulo são como são hoje. É fundamental para valorizar o que restou daquela exuberante Mata Atlântica e entender a tragédia atual do desmatamento clandestino na Amazônia.

Alexandre Mansur, O Eco / Blog do Planeta de 01 de março de 2013

E como não aprendemos nunca, estamos destruindo outros ecossistemas, até finalmente conseguirmos nosso intento, que é destruir cada ser humano da face do planeta.