Como a sua mente reage aos estímulos de consumo

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Conheça as situações que nos induzem a comprar por impulso e aprenda a evitar as ciladas e a resistir à tentação de comprar algo que você não precisa.

Você se prepara psicologicamente para o bombardeio de ofertas da Black Friday, no fim de novembro? Pode parecer uma piada, mas saber lidar emocionalmente com esse tipo de situação é essencial. Há muitas influências psicológicas (conscientes e inconscientes) que afetam as pessoas em suas decisões de consumo, especialmente em ocasiões como essa. O comércio sabe disso e bombardeia os potenciais compradores com anúncios tentadores, além abordá-los com vendedores insistentes e bem treinados.

Para evitar compras desnecessárias e que ultrapassem o seu orçamento, é importante que você entenda como a sua mente reage diante dos estímulos associados a uma data comercial como a Black Friday, que promete descontos “imperdíveis” antes do Natal, quando boa parte da população acaba de receber o 13º salário. É ótimo aproveitar as promoções para comprar produtos que você realmente precisa, mas é preciso evitar cair em tentações de consumo que sejam prejudiciais para você, para a sociedade e para o meio ambiente.

Empresas e comerciantes conseguem induzir o consumidor a comprar com estímulos que nem registramos conscientemente. Essas técnicas se baseiam em aprendizados da chamada Economia Comportamental, campo da ciência que se vale da psicologia para criar modelos econômicos que descrevem de maneira mais realista as escolhas dos indivíduos. Ao conhecer algumas estratégias mais frequentes, podemos evitar estar tão vulneráveis a esses estímulos.

“A tomada de decisão do consumo é influenciada pelo cansaço, pela preguiça e outras condições humanas. Com o autoconhecimento, o consumidor pode criar estratégias para se precaver das tentações”, explica Flávia Ávila, que estuda o assunto há 15 anos. Fundadora da consultoria InBehaviour Lab, ela é economista e coordenadora da primeira pós-gradução e MBA do Brasil em Economia Comportamental, na Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), e conversou sobre o assunto com o Akatu.

Flávia afirma que, na hora de fazer uma compra, é importante buscar ativar a parte mais “racional” do cérebro. Ela faz referência ao trabalho do psicólogo Daniel Kahneman, ganhador do Prêmio Nobel de Economia de 2002 , que explica que a mente humana utiliza dois sistemas para tomar uma decisão: um deles é mais intuitivo, automático e rápido; o outro é mais reflexivo, racional, funciona de forma mais lenta e exige concentração.

Ambos os sistemas têm papéis importantíssimos em nossas vidas. O lado intuitivo e espontâneo é essencial para a sobrevivência humana – é responsável por reações rápidas, executadas quase que imediatamente, em função de algum evento externo. É aquele impulso que nos faz tirar a mão de uma superfície quente, por exemplo. Mas como está sempre “ligado” aos arredores, o sistema “rápido” também responde aos estímulos como os da Black Friday, o que leva à compra por impulso.

Um momento de pausa e reflexão aciona o lado racional do cérebro, o que trará uma nova perspectiva sobre o que realmente está acontecendo. Será que essa oferta é tão imperdível assim? Conhecer algumas das estratégias de venda de produtos ajuda a perceber uma sensação induzida.

Aprenda a identificar alguns comportamentos que nos levam a fazer compras desnecessárias. Reconhecendo-os, você terá melhores condições para evitar consequências indesejadas. Veja os exemplos a seguir:

Efeito manada

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Quando uma pessoa não sabe o que fazer, segue o grupo e tende a fazer o que os outros estão fazendo, diz Flávia Ávila. “O consumidor que não pensa segue a correnteza. Se vê todo mundo fazendo compra, quer fazer também.”

Um dos motivos que leva a pessoa a seguir outros é o medo de perder algo interessante. “As pessoas gostam de mostrar que aproveitaram uma promoção, que fizeram a melhor compra no momento”, diz Flávia. Se todos os amigos, familiares ou colegas estão falando sobre a Black Friday, a nossa reação natural é seguir a “manada”.

Portanto, se você quer evitar compras desnecessárias, cuidado para não se deixar levar pelo comportamento alheio. Não é porque a loja está cheia e todo mundo está com sacolas que a promoção realmente vale a pena (pode ser que muitas pessoas também estejam comprando por impulso) e que você precisa fazer o mesmo.

Cedendo à pressão

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Há diversas situações de pressão que podem induzir a uma compra desnecessária. Os vendedores se valem disso e comentam que o artigo que está sendo apresentado a você “é a última peça”, por exemplo. Fazer compra com crianças também pode pressionar o consumidor a fazer uma compra sem pensar direito, já que tira o foco da atenção. Nesses casos, é melhor fazer uma pausa para sair desse momento de pressão. Na dúvida, saia da loja.

Lembre-se de que você não deve nada ao vendedor, mesmo que ele seja solícito e sorridente. Caso a compra não seja do seu interesse, agradeça o atendimento e saia da loja tranquilamente, com orgulho de não ter feito uma compra desnecessária.

No caso das compras online, cuidado com as “ampulhetas virtuais”, que fazem a contagem regressiva para você finalizar uma compra. Lembre-se de que esse tipo de pressão costuma ser artificial, apenas para induzir à compra sem reflexão.

Comprar para não perder a viagem

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Você foi atraído por um anúncio da Black Friday nas redes sociais, mas quando vai pagar percebe que o produto não está mais disponível. Como você já passou um tempão navegando, resolve comprar algum outro produto para não “perder a viagem”. Esse comportamento pode acabar em um compra desnecessária.

É óbvio, mas não custa lembrar: nessas situações, você pode sair da loja, shopping, mercado, loja online ou outlet de mãos vazias. O dinheiro que você poderia ter gasto com algo que não precisa pode ser economizado para um plano futuro ou usado na compra de um produto que você realmente procura e precisa.

Imediatismo

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“Promoção imperdível, compre já!” Na Black Friday, o comércio cria uma situação de “urgência” para estimular o consumidor a tomar uma decisão impulsiva de compra, na pressa. Buscar essa satisfação imediata, o prazer da compra, pode levar a compras desnecessárias ou pagamentos a perder de vista.

Por isso, antes de qualquer compra, pergunte a si mesmo: vale a pena fazer essa compra agora ou estou sendo levado a acreditar que ela é vantajosa? Se você precisa de um produto, pesquise o preço dele e espere pelo momento certo para fazer a compra, por um preço realmente vantajoso. Sem ter referência do preço do produto, não é possível saber se um desconto vale a pena ou não.

Uma dica é usar as ferramentas que enviam alertas quando um preço baixar até o patamar definido pelo consumidor. Há diversos sites que oferecem o recurso para diversos tipos de produtos como eletrônicos, passagens aéreas e calçados.

“Só hoje, eu posso”

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Uma “desculpa” para soltar o cartão de crédito na Black Friday é: “só hoje, eu posso fazer essa compra”. É um raciocínio semelhante ao adotado pelas pessoas que querem comer doces ou guloseimas e fugir da dieta controlada – saem da linha um dia, mas acabam por extrapolar por mais tempo que o previsto.

Por isso, em vez de permitir o “descontrole” das compras em uma única data, aproveite a época de promoções para avaliar se os descontos são reais e para fazer a compra se realmente valer a pena. Consumir com consciência deve ser um hábito permanente. E, em especial na Black Friday, essa consciência é ainda mais importante para lembrar que comprar algo desnecessário pela metade do preço é caro demais !!!

Fonte – Akatu de 17 de novembro de 2017

A matéria foi escrita para o black friday mas serve para o ano inteiro. Pare de babar e salivar por algum produto. Você está sendo induzido, escravizado. Crie um mantra parecido com este “quem tem que ter para parecer e aparecer é para não ter que ser”. Feliz Natal!

Todos os dias são Black Friday para destruir nosso planeta

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Um crescimento global de 3% significa que o tamanho da economia mundial se duplica a cada 24 anos. Esta é a razão pela qual a crise ambiental está se acelerando neste ritmo. Ainda assim, o plano é assegurar que se duplique e volte a duplicar, e continue duplicando eternamente. Em nossa busca por defender o mundo da voragem destrutiva podemos pensar que estamos lutando contra corporações e governos e a ignorância geral da humanidade. Mas, só são substitutos do verdadeiro problema: o crescimento perpétuo em um planeta que não está crescendo”, escreve George Monbiot, jornalista, escritor, acadêmico e ambientalista do Reino Unido.

Todos querem ter de tudo. Como irá funcionar? A promessa do crescimento econômico é que os pobres podem viver como os ricos e os ricos como os oligarcas. Mas, estamos superando as barreiras físicas do planeta que nos sustenta. O colapso climático, a perda do solo, a desintegração de habitats e espécies, o mar de plástico, o desaparecimento de insetos: tudo impulsionado pelo consumo. A promessa de luxo para todos não pode ser alcançada. Não existe suficiente espaço físico, nem ecológico para isso.

Contudo, o crescimento precisa continuar: este é o imperativo político em todas as partes. E temos que modificar nossos gostos de maneira concorde. Em nome da autonomia e a escolha, o marketing emprega as últimas descobertas em neurociência para derrubar nossas defesas. Os que tentam resistir serão silenciados, como os partidários da Vida Simples de Admirável Mundo Novo de Huxley, mas neste caso pelos meios de comunicação.

Com cada geração muda a referência do que constitui um consumo normal. Há trinta anos, era ridículo comprar água engarrafada em lugares nos quais a água da torneira é abundante e limpa. Hoje em dia, em nível mundial, usamos um milhão de garrafas de plástico a cada minuto.

Toda sexta-feira é sexta-feira preta – Black Friday -, todo Natal um festival maior de destruição adornado por guirlandas coloridas. Entre saunas com neve, geladeiras portáteis para melancias e smartphones para cachorros com os quais nos estimulam a encher nossas vidas, meu prêmio “Civilização extrema” vai para a PancakeBot: uma impressora 3D de massa que permite a você comer, todas as manhãs, a Mona Lisa, o Taj Mahal ou o traseiro de seu cachorro. Na prática, irá atrapalhar você, durante uma semana, até que perceba que não tem espaço na cozinha. Com porcarias como essa, estamos dilacerando o planeta e nossas próprias perspectivas de futuro. Temos que tirar tudo do caminho.

A promessa complementar a esta é que através do consumismo ecológico podemos reconciliar o crescimento perpétuo e a sobrevivência do planeta. No entanto, uma série de trabalhos de pesquisa demonstram que não há uma diferença significativa entre a pegada ecológica das pessoas que se preocupam e das que não. Um artigo recente, publicado pela revista Environment and Behaviour, destaca que aqueles que se identificam como consumidores comprometidos utilizam mais energia e produzem mais emissões que aqueles que não se preocupam com o meio ambiente.

Por quê? Porque a sensibilização ambiental costuma ser maior entre pessoas endinheiradas. Não são nossas posturas as que impactam no meio ambiente, mas nossas receitas. Quanto mais ricos somos, maior é a nossa pegada ecológica, sem importar nossas intenções. Segundo mostra o estudo, os que se percebem como consumidores ecológicos se concentram, principalmente, em comportamentos que tem “benefícios relativamente pequenos”.

Conheço pessoas que reciclam religiosamente, guardam as sacolas de plástico, medem com cuidado a quantidade de água ao fazer chá, e depois vão de férias ao Caribe, anulando abertamente suas economias ambientais. Cheguei a acreditar que a reciclagem delas justifica os voos transatlânticos. Convence as pessoas de que são ecológicas, permitindo-lhes ignorar impactos maiores.

Nada disto significa que não devemos tentar reduzir nosso impacto ambiental, mas temos que ser conscientes dos limites de nossas ações. Nosso comportamento dentro do sistema não pode mudar as consequências do sistema. O que é necessário mudar é o sistema.

Uma pesquisa da Oxfam sugere que o 1% mais rico do planeta – se seu lar possui um ingresso de 70.000 libras (ao redor de 79.000 euros) por ano ou mais, você é este 1%) produz 175 vezes mais carbono que os 10% mais pobres. Como, em um mundo no qual se supõe que todos temos que almejar rendimentos maiores, podemos evitar que a Terra, da qual depende todo o bem-estar, se converta em um saco de pó?

Mediante o desacoplamento (“decoupling”), os economistas não o dizem: separar nosso crescimento econômico de nosso uso de materiais. Como está funcionando isto? Um estudo publicado na revista Plos One descobriu que, enquanto em alguns países houve um desacoplamento relativo, “nenhum país conseguiu um desacoplamento total nos últimos 50 anos”. Isto significa que a quantidade de materiais e energia associada a cada aumento do PIB pode cair, mas enquanto o crescimento deixa para trás a eficiência, o uso total de recursos segue aumentando. O mais importante, revelado pelo estudo, é que, em longo prazo, o desacoplamento tanto relativo como absoluto, derivado do uso de recursos essenciais, é impossível, devido aos limites físicos da eficiência.

Um crescimento global de 3% significa que o tamanho da economia mundial se duplica a cada 24 anos. Esta é a razão pela qual a crise ambiental está se acelerando neste ritmo. Ainda assim, o plano é assegurar que se duplique e volte a duplicar, e continue duplicando eternamente. Em nossa busca por defender o mundo da voragem destrutiva podemos pensar que estamos lutando contra corporações e governos e a ignorância geral da humanidade. Mas, só são substitutos do verdadeiro problema: o crescimento perpétuo em um planeta que não está crescendo.

Aqueles que justificam o sistema insistem em que o crescimento econômico é central para a redução da pobreza. No entanto, um estudo na World Economic Review destaca que os 60% mais pobres do mundo recebem só 5% de receitas adicionais geradas pelo crescimento do PIB. Como resultado, são necessários 111 dólares (94 euros) adicionais para cada dólar destinado à redução da pobreza.

Por isso, segundo as tendências atuais, seriam necessários 200 anos para assegurar que todos recebam cinco dólares (quatro euros) por ano. Chegado esse ponto, o salário médio per capita chegaria ao um milhão de dólares (850.000 euros) por ano, e a economia seria 175 vezes maior que atualmente. Esta não é uma fórmula para vencer a pobreza. É uma fórmula para a destruição de tudo e de todos.

Quando ouvir que algo possui sentido em nível econômico, isto significa que é o contrário do sentido comum. Esses homens e mulheres sensatos que conduzem os Ministérios da Fazenda e os bancos centrais mundiais, que veem uma ascensão infinita do consumo como algo normal e necessário, são os destruidores: destroem as maravilhas do mundo e acabam com a prosperidade das gerações futuras para manter algumas cifras que tem cada vez menos relação com o bem-estar geral.

O consumismo responsável, o desacoplamento material, o crescimento sustentável: são todas ilusões, desenhadas para justificar um modelo econômico que está nos levando à catástrofe. O sistema atual, baseado no luxo privado e a miséria pública, tornará a todos miseráveis. Neste modelo, o luxo e a carência são uma besta com duas cabeças. Precisamos de um sistema diferente, que não seja baseado em abstrações econômicas, mas, ao contrário, em realidades físicas, que estabeleça os parâmetros pelos quais julguemos sua saúde. Precisamos construir um mundo em que o crescimento seja desnecessário, um grupo de suficiência privada e luxo público. E precisamos fazer isto antes que a catástrofe nos obrigue a agir.

Fontes – El Diario / tradução Cepat, IHU / EcoDebate de 23 de novembro de 2017

Tudo que você precisa é menos

Isabel Alves saía sempre exausta do trabalho em um escritório de moda em São Paulo. Para piorar, o trânsito infernal da capital paulista deixava a volta para casa ainda mais desgastante. Mas ela tinha uma solução para compensar todo aquele estresse: sempre comprava um presente para si própria. “A gente trabalha tanto, enfrenta congestionamento. Sentia a necessidade de mostrar para mim que aquilo tudo estava valendo a pena”, recorda.

Comprava roupas, maquiagem, sapatos ou qualquer comida muito gostosa. Mas esse tempo ficou para trás. Não que tenha sido fácil. Desde a adolescência, Alves nunca havia pensado em frear seus gastos: os pais haviam passado por uma crise durante sua infância e, quando o dinheiro deixou de ser problema, eles compensaram aqueles dias difíceis com muitos mimos.

Torrar dinheiro, afinal de contas, é uma delícia: libera uma boa dose de dopamina, a famosa substância química de prazer e bem-estar. Pesquisadores britânicos da Neuroco, uma empresa de neuromarketing, monitoraram os impulsos nervosos de voluntários durante um passeio no shopping. E, sem surpresas, quando essas pessoas compravam algo, o sistema dopaminérgico brilhava muito mais.

A hipótese dos cientistas é que nosso organismo guarda resquícios da memória de uma época de vacas magras, quando o ser humano dependia da caça e da coleta. Sem um supermercado repleto de produtos nas prateleiras, aqueles tempos ensinaram ao nosso corpo que o melhor a fazer é consumir e acumular uma reserva de gordura para os dias difíceis — nunca se sabia quando aqueles recursos estariam à disposição novamente. E essa regra influencia nosso comportamento até hoje.

Só que o tempo de escassez acabou. Ou melhor, acabou para alguns: os 795 milhões de pessoas no planeta que ainda passam fome não sabem o que é viver com abundância de recursos e, claro, não têm a menor chance de acumular nada, nem comida. Enquanto isso, a parcela endinheirada da população continua a reproduzir nosso instinto primitivo e consome quase todas as coisas produzidas no mundo.

De acordo com o Banco Mundial, os mais ricos, 20% da população global, abocanham 76,6% dos produtos. Já a classe média, 60%, consome 20% de tudo o que é produzido. O resto fica na (ínfima) conta dos mais pobres.

Nesse ritmo de acumulação e consumo, caminhamos para um desastre. A cada ano, a humanidade precisa de 1,7 planeta para se recuperar do uso excessivo de seus recursos naturais e da poluição causada por ela mesma, como revelam os cálculos da Global Footprint Network, responsável por avaliar os impactos ambientais gerados por alguns países. Uma conta que, definitivamente, não fecha.

Para Isabel Alves, a percepção desse problema ficou clara em 2015, quando viajou para Hamburgo, na Alemanha, e assistiu a uma palestra sobre moda sustentável. Depois do evento, a jovem decidiu mudar seus hábitos de compra. “Mostraram um vídeo com a quantidade de roupa descartada por ano, com a exploração das pessoas nessa cadeia de produção — quanto recebem por cada peça, quanto tempo trabalham”, lembra.

Ela ficou tão chocada com aquela realidade que colocou uma ideia na cabeça: passar um ano inteiro sem comprar coisas novas. Redescobriu peças pouco ou nunca utilizadas no guarda-roupa, acessórios e itens de maquiagem intocados.

E encontrou, enfim, seu próprio estilo. A designer de moda cortou também o consumo de carne, abriu um brechó virtual, trocou produtos de limpeza por opções naturais e passou a se preocupar mais com o lixo produzido. Foi uma revolução. E, um ano depois, a mudança em sua vida era irreversível.

Alves faz parte de um grupo de pessoas que cortou os excessos. É o que chamam de minimalismo ou simplicidade voluntária. Não se trata apenas de viver em uma casa pequena, com poucos móveis. O que interessa é a mudanças de valores — o desapego às coisas materiais — no ritmo que cabe a cada um.

“Alguns se importam com o meio ambiente, outros com o estresse causado por seus empregos. Outros buscam uma vida mais espiritualizada ou querem mais tempo com a família. Não existe uma motivação padrão”, afirma o psicólogo Tim Kasser, do Knox College, nos Estados Unidos, e autor do livro The High Price of Materialism (em tradução livre, O Alto Preço do Materialismo — editora Bradford Book, 195 páginas, R$ 80, sem edição no Brasil).

“A única certeza que se tem nessa sociedade cheia de opções é que, se há dez produtos e você escolhe apenas um, você perdeu os outros nove. E aí algumas pessoas escolhem as dez coisas. São obesos do desejo”, diz o psicanalista Jorge Forbes, autor de Você Quer o que Deseja? (Editora Best-Seller, 212 páginas, R$ 34,90). “Até que um dia a pessoa descobre que é muito pouco criativo ser consumista e muito covarde diante da subjetividade do desejo humano — quando você compra tudo, abre mão da sua escolha.”

No Brasil, uma das discussões mais recentes sobre essa tendência aconteceu nas redes sociais. Participante da edição 2017 do programa MasterChef, a pequisadora Caroline Martins foi criticada pelos internautas por sempre aparecer com as mesmas peças de roupas.

A resposta dela foi clara: “Eu vivia cheia de dívidas. Me desprender do consumismo excessivo foi uma das minhas melhores decisões. Então, coleguinhas que me perguntam, a resposta é: Sim! Só tenho estas roupas! E sim, só tenho duas botinhas! Com muito orgulho!”.

Não é uma apologia à pobreza, mas sim à sobriedade, como disse o ex-presidente do Uruguai Pepe Mujica no documentário Humano. Nas palavras dele: “Quando eu compro algo, ou você, não se paga com dinheiro. Pagamos com o tempo de vida que tivemos de gastar para ter aquele dinheiro. Mas tem um detalhe: a única coisa que não se compra é a vida. A vida se gasta. E é lamentável desperdiçar a vida para perder a liberdade”.

Fonte – Reportagem Carol Castro, edição Thiago Tanji, design João Pedro Brito, Galileu de 24 de agosto de 2017

Mensagens publicitárias atuam como instrumento de controle

“Já é hora de dormir / não espere mamãe mandar”: o jingle dos Cobertores Parayba foi desenvolvido para um comercial de TV da década de 1960 e era exibido todos os dias às 21 horas – Foto: Divulgação

Andar na moda, seguir as celebridades em suas atitudes e reações, padrões de beleza e de vida revelam os verdadeiros objetivos das mensagens publicitárias, os quais estão longe de apenas comunicar e vender. Muitas vezes você pensa que escolhe suas roupas, o que vai comer, o que vai estudar, o que vai ensinar aos seus filhos, mas não se surpreenda em saber que suas escolhas são direcionadas pelo poder e penetração das mídias massivas, que exercem quase uma ditadura por meio da linguagem publicitária que atua sobre os indivíduos desde a mais tenra idade: “criança, durma agora, ‘não espere mamãe mandar. Um bom sono para você e um alegre despertar’”. Izabela Domingues, no artigo da revista Estudos Semióticos, procura entender como a publicidade agiu ao longo do século 20 sobre os corpos e mentes dos consumidores e cidadãos, moldando hábitos e condutas, no controle de posturas e modos de vida.

Tendo como característica a disciplina, a sociedade de hoje “é subordinada ao comando do capital e do Estado, tendendo, gradualmente, mas com uma continuidade inevitável, a ser governada apenas pelo critério da produção” e vive-se, de acordo com Domingues, sob ordens, mensagens subliminares que impõem disciplina aos sujeitos “a partir da identidade ou identificação, pelo adestramento, ou ainda, apelo ao risco ou medo”. A publicidade é vista pela autora como o avesso da democracia, um instrumento disciplinar, que atua no inconsciente, em constante vigilância.

A publicidade é vista pela autora como o avesso da democracia, um instrumento disciplinar, que atua no inconsciente, em constante vigilância. Foto: Future of Life Institute

A publicidade nos meios massivos operam de maneira quase imperceptível aos sujeitos que não têm consciência de estarem sendo induzidos a corrigir, a retirar as ditas imperfeições de seu próprio corpo, “submetido, utilizado, transformado e aperfeiçoado, em um ato de submissão”, de acordo com a noção de docilidade atribuída pelo filósofo e pensador Michel Foucault. As mídias buscam controlar o que é bom para os indivíduos em relação ao trabalho, ao lazer, ao amor e ao sexo.

A autora observa a questão do “sequestro das subjetividades” pela publicidade, a exercer uma pressão oculta nas pessoas, subliminarmente, traduzindo aspirações sociais dominantes, como a valorização do status no grupo social. A publicidade é mestra em criar estratégias para buscar estabelecer vínculos de identificação entre consumidores e marcas, torna-se uma aliada da docilização dos sujeitos já nos primeiros anos de vida, na regulação contínua, uniforme e estável do sujeito em todos os setores de sua vida, com vistas à produtividade e boa conduta social ao longo de toda a sua existência.

A disciplina manipula indivíduos como objetos – é o que a autora nos mostra no exemplo da propaganda dos cobertores Parahyba, veiculada no horário de encerramento da transmissão de um canal de TV nos anos 1960, com o intuito de forçar as crianças a desligarem a televisão, irem para a cama e enrolarem-se nos propalados cobertores, pois “Já é hora de dormir, não espere mamãe mandar. Um bom sono pra você e um alegre despertar”, ou seja, a publicidade ensina a autodisciplina, na contenção de vontades e desejos infantis.

A partir do final da década de 1970, com a revolução tecnológica e a globalização da produção, o homem contemporâneo está sempre com medo, competindo, inseguro do futuro em todas as áreas. “O sujeito urbano torna-se alvo de maior vigilância e controle por parte do poder público, mas também por parte da iniciativa privada que cria, como diferencial de mercado, produtos e serviços de segurança diversificados.” Para Domingues, é preciso derrubar o muro, acordar, pois as mudanças virão com a postura crítica de cada indivíduo, cada cidadão, na medida em que nos libertarmos, rompendo padrões impostos, despadronizando-nos, na coragem de sermos nós mesmos, e “dar passagem aos fluxos dos desejos, fabricando nossas singularidades”, desvinculando-nos das armadilhas da mídia.

Izabela Domingues é doutora e mestre em Comunicação Social pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), professora do Núcleo de Design e Comunicação do CAA/UFPE, pesquisadora da Rede Latinoamericana de Estudos sobre Vigilância, Tecnologia e Sociedade – LAVITS (Unicamp/CNPq) e do grupo de pesquisa Publicidade nas Novas Mídias e Narrativas do Consumo (UFPE/CNPq).

DOMINGUES, Izabela. Não espere mamãe mandar: a publicidade disciplinar e a linguagem publicitária no século XX. Estudos Semióticos, São Paulo, v. 12, n. 2, p. 58-65, dez. 2016. ISSN: 1980-4016. Disponível em: <http://www.revistas.usp.br/esse/article/view/127624>. Acesso em: 23/03/2017.

Fonte – Margareth Artur / Jornal da USP de 24 de maio de 2017

Qual é a indústria que mais polui o meio ambiente depois do setor do petróleo?

Homem vestindo-se Mesmo fibras naturais como o algodão tem forte impacto ambiental. THINKSTOCK

É fácil citar a indústria do petróleo como principal vilã da poluição. Mas poucos talvez saibam que o segundo lugar nesse ranking pertence à indústria da moda.

Se você veste calças ou malhas de poliéster, por exemplo, fique sabendo que a fibra sintética mais usada na indústria têxtil em todo o mundo não apenas requer, segundo especialistas, 70 milhões de barris de petróleo todos os anos, como demora mais de 200 anos para se decompor.

A viscose, outra fibra artificial, mas feita de celulose, exige a derrubada de 70 milhões de árvores todos os anos.

E, apesar de natural, o algodão é a uma fibra cujo cultivo é o que mais demanda o uso de substâncias tóxicas em seu cultivo no mundo – 24% de todos os inseticidas e 11% de todo os pesticidas, com óbvios impactos no solo e na água.

Nem mesmo o algodão orgânico escapa: uma simples camiseta necessitou de mais de 2.700 litros de água para ser confeccionada.

Mulheres passam em frente a uma vitrine em ParisA indústria da moda é uma das mais poluentes do mundo. GETTY IMAGES

Usar e jogar fora

Mas talvez o maior dano causado pela indústria da moda seja a tendência da “moda rápida”, marcada especialmente pelos preços baixos. O consumo multiplica os problemas ambientais.

“O custo da ‘moda rápida’: Uma peça de roupa que usamos menos de 5 vezes e jogamos fora após 1 mês produz mais 400% de emissões de carbono que uma usada 50 vezes e mantida por 1 año”. Fonte: HBS

Brasileiro trabalha, em média, mais de 25 dias para comprar um smartphone

O Instituto Akatu calculou quanto tempo o brasileiro de renda média precisa trabalhar para comprar alguns itens; objetivo é conscientizar sobre a importância de evitar compras por impulso e desnecessárias

Na hora de comprar um produto, você já parou para pensar em quanto tempo trabalhou para ganhar o dinheiro para pagá-lo? Essa reflexão ajuda a perceber que uma compra por impulso de um produto, que muitas vezes vai para o lixo ou fica encostado, representa não é só um gasto inútil de dinheiro e de recursos naturais, mas também de um precioso tempo de vida.

O brasileiro trabalha, em média, 1737 horas por ano, mais que o japonês (1729 horas), o canadense (1703 horas) e o italiano (1719 horas). Isso corresponde a 20% do tempo total de vida de uma pessoa em um ano – sem contar o tempo gasto no deslocamento entre a casa e o local de trabalho. Por isso, no Dia Internacional do Trabalhador (1/5), o Instituto Akatu calculou o tempo de trabalho gasto pelo brasileiro de renda média para comprar alguns itens.

Para comprar um tênis que custa R$ 200, por exemplo, o brasileiro de renda média precisa trabalhar 25 horas e 48 minutos, ou seja, mais de 3 dias (veja abaixo como fizemos esse cálculo). A compra de um cosmético de R$ 20, como um creme hidratante ou um xampu, exige que um brasileiro de renda média trabalhe 2 horas e 15 minutos. Isso traz para a consciência o fato dessas compras representarem, na verdade, a entrega de um tempo de vida em troca de um produto.

Assim, se as compras foram motivadas por um impulso momentâneo ou se os produtos ficarem encostados no fundo do armário, o tempo gasto de vida para sua compra foi, na verdade, jogado fora. Este comportamento não é raro: mais de um terço dos consumidores (33%) no Brasil compram sem necessidade, motivados por promoções, de acordo com um levantamento do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil) e pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL). Nas classes C, D e E, esse percentual sobe para 35%. Outra pesquisa do SPC, divulgada em 2015, revelou que mais da metade dos consumidores brasileiros (53%) admitem ter realizado pelo menos uma compra por impulso nos últimos três meses*.

Até mesmo a feira da semana, se não for bem planejada, pode resultar em uma compra em excesso, que pode levar parte do alimento a estragar antes de ser ingerido. Por exemplo, se uma compra mal planejada deixa apodrecer 1 quilo de bananas compradas por R$ 5, se terá jogado fora não só o dinheiro, que custou 40 minutos de trabalho de um brasileiro de renda média – mas também os recursos naturais usados na produção, como a água consumida para cultivar a fruta. Para se ter uma ideia, são gastos 790 litros de água para produzir 1 quilo de banana, na estimativa da ONG Water Footprint.

Um outro exemplo tem a ver com a troca de celular que ocorre a cada um ano e um mês para a média dos brasileiros, segundo um levantamento feito por um fabricante de celulares em 2015. Para comprar um smartphone de R$ 1.500, um brasileiro de renda média trabalha 193 horas ou 25 dias e meio de trabalho. Para a quase totalidade das pessoas, não há como evitar o uso de tempo para ganhar dinheiro para adquirir bens de consumo que são úteis e necessários.

Por isso, nesse processo, é importante avaliar o quanto somos induzidos pela publicidade a fazer uma troca de um equipamento eletrônico, com a promessa de ficarmos mais eficientes e “modernos”, sem que tal troca seja realmente necessária. Por isso, antes de fazer uma compra, pense nas seguintes perguntas: por que comprar? Eu preciso mesmo disso ou estou sendo seduzido por promoções e anúncios? Além de levar em consideração os limites do planeta – afinal, os recursos naturais dos quais dependemos são finitos – é essencial que as pessoas reflitam sobre o que é importante na vida delas e como vão usar o seu tempo. Na correria do dia a dia, é importante encontrar um jeito de avaliar se a nossa rotina reflete as nossas prioridades e valores, se estamos aplicando nosso tempo no que realmente é importante para nós. Aquilo que eu gosto de fazer, que me faz feliz, está no meu cotidiano ou nos meus planos? Estou usando bem o tempo que dediquei ao trabalho, buscando comprar o que eu realmente necessito?

É verdade que muitas pessoas não tem a opção de trabalhar menos horas por dia, caso decidam consumir menos. Isso não quer dizer que devem usar o dinheiro ganho no trabalho para comprar o que não necessitam. Mas, sim que, quem consome menos, tem a oportunidade de colocar recursos na poupança ou em uma previdência privada, o que trará uma maior tranquilidade futura, por exemplo.

E caso haja a possibilidade de trabalhar menos tempo, é interessante que cada pessoa tenha consciência do que fazer com o seu tempo livre. Passar mais tempo ao lado da família e dos amigos, por exemplo, pode ser mais importante do que a compra de presentes para essas mesmas pessoas. Ter uma experiência inesquecível, como uma viagem ao lado de uma pessoa especial, pode ser mais gratificante e trazer mais felicidade do que comprar um bem que impressione os conhecidos. É bom lembrar que o que precisamos nem sempre é material.

Como calculamos

Dois números foram considerados como base para nossos cálculos de horas trabalhadas pelos brasileiros: segundo o escritório de St. Louis, do Federal Reserve (FED), o banco central americano, a média anual dos brasileiros foi de 1711 horas de trabalho por ano, em 2014. Para a OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), essa média foi de 1763 horas por ano. Fazendo uma média entre essas duas estimativas, chegamos a 1737 horas trabalhadas ao ano, que corresponde a quase 20% do tempo da vida de uma pessoa em um ano. Considerando que um brasileiro trabalha 1737 horas por 11 meses (1 mês de férias), isso significa que trabalha 158 horas por mês. Considerando o rendimento médio mensal dos brasileiros de R$ 1.226 (segundo o IBGE), o ganho por hora é de cerca de R$ 7,75 – valor que foi considerado para fazer os cálculos  acima. Vale considerar que a apresentação desses cálculos tem apenas objetivos didáticos, visando ilustrar o quanto de horas de trabalho uma pessoa dedica para comprar um determinado produto.

Fonte – Instituto Akatu de 28 de abril de 2017

Qual é a indústria que mais polui o meio ambiente depois do setor do petróleo?

Homem vestindo-seMesmo fibras naturais como o algodão tem forte impacto ambiental. THINKSTOCK

É fácil citar a indústria do petróleo como principal vilã da poluição. Mas poucos talvez saibam que o segundo lugar nesse ranking pertence à indústria da moda.

Se você veste calças ou malhas de poliéster, por exemplo, fique sabendo que a fibra sintética mais usada na indústria têxtil em todo o mundo não apenas requer, segundo especialistas, 70 milhões de barris de petróleo todos os anos, como demora mais de 200 anos para se decompor.

A viscose, outra fibra artificial, mas feita de celulose, exige a derrubada de 70 milhões de árvores todos os anos.

E, apesar de natural, o algodão é a uma fibra cujo cultivo é o que mais demanda o uso de substâncias tóxicas em seu cultivo no mundo – 24% de todos os inseticidas e 11% de todo os pesticidas, com óbvios impactos no solo e na água.

Nem mesmo o algodão orgânico escapa: uma simples camiseta necessitou de mais de 2.700 litros de água para ser confeccionada.

Mulheres passam em frente a uma vitrine em ParisA indústria da moda é uma das mais poluentes do mundo. GETTY IMAGES

Usar e jogar fora

Mas talvez o maior dano causado pela indústria da moda seja a tendência da “moda rápida”, marcada especialmente pelos preços baixos. O consumo multiplica os problemas ambientais.

O custo da “moda rápida”

Uma peça de roupa que usamos menos de 5 vezes e jogamos fora após 1 mês produz mais 400% de emissões de carbono que uma usada 50 vezes e mantida por 1 ano. Fonte: HBS

Zygmunt Bauman, “seus netos continuarão pagando os 30 anos da orgia consumista”

Devolver dinheiro para bancos não pode ser solução para crise, pois é sua continuação, revela Bauman em entrevista a Laura Britt e Petros Panayotídis, do Monitor Mercantil.

“A metade do problema é o excessivo consumismo, o esbanjamento que predomina. E é por isso mesmo que nenhum provável partido de poder não promete aos seus eleitores que combaterá o consumismo”, continua o sociólogo polonês, vice-reitor da London School of Economics, que se define um pessimista a curto prazo em relação ao futuro da sociedade.

Monitor Mercantil – A Grécia e o Sul Europeu atravessam uma prolongada crise econômica e são atingidos, incessantemente, por severas medidas de frugalidade. Qual é a opinião do senhor sobre tudo isto que está acontecendo?

Zygmunt Bauman – As medidas são ligadas com os empréstimos que foram solicitados. É importante, contudo, alguém verificar para qual objetivo são utilizados os empréstimos que foram concedidos à Grécia. Se foram utilizados para recapitalização dos bancos, então, simplesmente, alimenta-se a raiz do problema e as políticas de frugalidade continuarão irredutíveis. As crises econômicas destinam-se não com a destruição de riqueza, mas com sua redistribuição. Em cada crise existem sempre alguns que ganham mais dinheiro em detrimento de outros. Nos EUA, por exemplo, após a crise observa-se uma lenta recuperação, mas 93% do Produto Interno Bruto (PIB) adicional criado beneficiou, somente, 1% da população.

M.M.– Em seus livros, o senhor muitas vezes refere-se ao consumismo da atual, pós-nova sociedade. Em que grau existe conciliação entre consumismo e medidas de frugalidade?

Z.B. – Após 1970, existiu uma dominante cultura de poupança e os homens não gastavam dinheiro, a menos que o tivessem ganho anteriormente. Após 1970 e com a colaboração de políticos como Ronald Reagan, Margaret Thatcher e, teóricos com o Milton Friedman (Escola de Chicago), o sistema capitalista percebeu que, havia terreno virgem que poderia ser conquistado. Rosa Luxemburgo foi aquela que havia dito que, ‘o capitalismo rejuvenesce por intermédio de novas regiões virgens’. Mas, previu equivocadamente que, ‘quando o sistema conquistar todas as regiões virgens, desabará’.

Porém, aquilo que não previu era que o capitalismo adquiriria a capacidade de criar, tecnicamente, regiões virgens e apoderar-se delas. E uma destas são os homens que não têm dívidas. Assim, foram inventadas as cartas de crédito. Então, conformou-se uma cultura diferente daquela de poupança. Já agora, poderá alguém gastar o dinheiro que não ganhou ainda.

A fase de grande crescimento econômico, que durou desde os meados da década de 1970 até o início do século XXI baseou-se sobre esta pressão para endividamento. E quando alguém era devedor a reação dos bancos não era como antigamente, de enviarem o encarregado de cobrança, mas, ao contrário, enviavam uma carta muito gentil, com a qual, ofereciam um novo empréstimo, para resgatar o anterior!

Isto prosseguiu durante três décadas até que Bill Clinton (então presidente dos EUA) introduziu os empréstimos hipotecados de alto risco, significando que até os homens que não poderiam cobrir seus gastos poderiam contrair empréstimos habitacionais. Finalmente, esta situação atingiu o inviável e, assim, foi criada a crise financeira. Apesar de tudo isso, a economia capitalista parece resistir. Temos o exemplo do movimento Ocupem Wall Street, o qual atraiu a atenção da mídia internacional. Mas o único lugar em que não foi sentida era a própria Wall Street, a qual continua funcionando com a exatamente mesma forma!

E este é problema. Predomina a ideia no cérebro, também, da senhora Angela Merkel (chanceler alemã) e dos outros políticos, que a única forma é apoiar os bancos para terem condição de concederem mais empréstimos. Mas esta é uma política de andar às cegas, considerando que a região virgem do capitalismo já está esgotada. Quem pudesse endividar-se, já endividou-se! Até, inclusive, os netos de vocês já estão endividados, não resta dúvida nenhuma. Eles – seus netos – continuarão pagando os 30 anos da orgia consumista. E enquanto, no início a região virgem dos homens que endividavam-se resultava gigantescos lucros, gradualmente, esses lucros foram reduzidos e agora são mínimos, de acordo com a lei do desgaste de desempenho. Aquilo que acontece na Grécia agora é que o país investe em fantasmas.

M.M.- Qual é a saída?

Z.B. – Me pedem para responder a uma pergunta, a qual, homens muito inteligentes, como Stiglitz (Joseph, Prêmio Nobel de Economia), têm dificuldade para responderem. É muito difícil serem encontradas soluções radicais. E aquilo que me preocupa, é que, entre as instituições políticas de que dispomos, não existe sequer uma em condição de proporcionar soluções de longo prazo. Todos os governos são submissos às – de acordo com o Dr. R.D.Laing – duplas instituições que, no caso dos governos, para utilizar uma analogia, são constituídas das pressões que recebem. Por um lado para serem reeleitos, devem ouvir as reivindicações do povo – querendo ou sem querer – e prometerem que irão atendê-lo. Por outro, todos os governos – de direita e de esquerda – são incapazes de cumprirem seus compromissos pré-eleitorais, por causa das bolsas de valores e dos bancos.

Por exemplo, quando a senhora Merkel e o senhor Sarkozy (Nicolas, então presidente da França) encontraram-se numa sexta-feira para trocarem idéias sobre o memorando da Grécia, tomaram e também divulgaram algumas decisões que os fizeram tremer durante o fim de semana inteiro até abrirem as bolsas de valores na segunda-feira. Não sei se a opinião do Dr. Laing está certa ou errada com a relação a família, mas julgo que tenho razão quando sustento que vigora no caso dos governos.

O mundo vota por decepção. Temos cada vez mais frequentes alternativas entre direita e esquerda. No âmbito da mesmo crise, o esquerdista Zapatero (José Luis Rordiguez, ex-primeiro-ministro da Espanha) foi derrotado pelo direitista Mariano Rajoy, enquanto, na França, o direitista Sarkozy foi derrotado pelo socialista François Hollande. Isto, exatamente, é o que quero dizer com o termo duplas instituições. Por um lado, a pressão da massa de eleitores e, por outro, o capital mundial, bolsas de valores e investidores que superam (em poder) qualquer governo.

Até, inclusive, os EUA estão superendividados. Imaginem os credores do governo norte-americano (China é o maior) exigirem resgate imediato de dívida. A economia norte-americana despencará num piscar de olhos. Em condições de duplas instituições, tanto na psicologia, quanto na macroeconomia, não existe escape bem-sucedido. Deve ser mudado o sistema inteiro desde os alicerces, e isto demanda tempo.

Sim, precisa-se de solução radical. Qual é a opinião de vocês sobre os movimentos do Sul Europeu? Nós esperamos que os movimentos de base parecem sendo apoiados cada vez mais. É a primeira vez em que na Grécia observam-se semelhanças com os meados da década de 1970, após a queda da ditadura. Existe um ‘cerrar de fileiras’ dos cidadãos e julgamos que isto é um muito bom prenúncio e esperançoso. É a única esperança.

No Diário de um Ano Mau, o escritor sul-africano Coetzee reexamina os princípios básicos que ordenam nosso pensamento, os alicerces de nossa imaginação, que consideram-se fundamentais. Os aceitamos silenciosamente. Kutsi não tem certeza e diz: “Se queremos guerra, teremos guerra. Se queremos paz, podemos adquiri-la. Se decidirmos que as nações devem agir em regime de antagonismos e não de colaboração amigável, isto será feito”.

Consequentemente, qualquer mudança é viável. É questão de vontade política. Em lugar de empresas privadas, podemos ter parcerias. Conforme disse em meu discurso por ocasião de minha nomeação para o cargo de vice-reitor de LSE (London School of Economics), meu tema era análise sociológica do movimento trabalhista britânico. Como desde a sua decadência no final do século XIX consolidou-se e adquiriu poder no século XX. Não aconteceu graças aos bancos e sequer foi financiado por instituições. Mas foi apoiado pela Associação dos Consumidores Rothschild, que foi a primeira associação de consumidores no século XIX. Seus membros decidiram deixar de adquirir das lojas, para não terem que pagar os capitalistas, mas, distribuírem as arrecadações da associação aos seus membros e as comunidades locais.1

Rothschild não era o único, existiam outros, também. Existiam o fundos de ajuda mútua que, com um pagamento mínimo, os membros em caso de dificuldades poderiam contrair empréstimos para não recorrem aos bancos. Estes fundos não eram especuladores. E, consequentemente, não são produtos da imaginação de Kutsi, mas é viável o fato de serem realizadas mudanças. Mas pressupõem revolução em nível de cultura e da forma de pensar. Se, finalmente, a mudança da forma de pensar já começou, é um lento processo a longo prazo que deve derrotar adversários fortíssimos. Assim, quando falamos em soluções, o problema maior não é o que encontraremos, mas, o que é necessário de ser feito. E nisto podemos conseguir conjugação de pontos de vista. A questão é quem o fará.

M.M.– Talvez os cidadãos indignados?

Z.B. – Seguramente, não os partidos políticos de qualquer coloração. E muito menos os governos, que não controlam a economia cujas forças são mundiais. Os Estados, por definição são obrigados a agirem nos âmbitos de fronteiras físicas e institucionais. A economia não ocupa-se mais com o nível local, a legislação da nação, as preferências ou sistema de valores de seus habitantes. Assim que for constatado choque, pegam os laptop, os iPad e iPhones e transferem-se em países como o Bangldesh, onde encontram fácil acesso em mão-de-obra que custa US$ 2 por dia. Existe aquilo que o sociólogo espanhol Manuel Castels denomina ‘espaço dos fluxos’ (space of flows). Milhões de dólares são transferidos, apertando apenas uma tecla no computador. Assim, então, por um lado temos o poder que é liberado do controle político e, por outro, temos a política que, incessantemente, sofre e déficit de poder, de vez que, o poder desaparece no ‘espaço dos fluxos’.

M.M. – O senhor quer dizer que a política é local, enquanto, o poder é mundial…

Z.B. – Exatamente. O mais fraco elo não é a comunidade, a cidade ou qualquer outra forma de localização, mas, o próprio estado, que é preso na armadilha entre dois fogos, da nação por um lado e, dos mercados por outro. E as iniciativas que vocês mencionaram nascem no nível subnacional. As instituições do nível nacional (partidos políticos, governo, parlamento e outros) não podem enfrentar esta dupla pressão. Já os cidadãos, em seu esforço para protegerem-se das consequências destas forças anônimas dos mercados, reagem de forma tradicional, isto é, organizam-se com seus conhecidos, vizinhos e todos aqueles com os quais percebem juntos que a melhoria de seu espaço físico terá repercussão positiva em todos e não é jogo de antagonismo com vencedores e vencidos.

Fala-se muito nestes dias sobre redes sociais…Sabem, enfrento este termo com descrença. As redes sociais estão relacionadas com a comunicação e a comunicação engloba, simultaneamente, a dinâmica da ligação e a dinâmica do desligamento. Prefiro falar sobre comunidade, porque este termo contém o sentido do compromisso, algo que não vigora no caso das redes sociais. Hoje, qualquer um pode ter centenas de amigos em uma rede online e, simplesmente, em algum momento, encerrar a comunicação com alguns, sem ser preciso explicar a razão ou pedir desculpa.

M.M. – Como poderá ocorrer a mudança? Como é possível o sistema do mercado permanecer tão estável em um ambiente de liquidez generalizada, para utilizar os próprios termos do senhor?

Z.B. – Como lhes disse, não vejo alguma autoridade capaz de impor algo diferente e, creio que, para existir passarão décadas, não é algo que surgirá até as próximas eleições. A única solução radical que vejo é a consolidação de uma forma de vida, que tornará o sistema existente fora de uso. Quer dizer, encerrar-se o ceticismo de alguém contrair empréstimo para adquirir automóvel ou em nível de estados, de recorrerem ao endividamento para reduzirem os tributos para os muito ricos e adotar-se uma forma de vida que proporcionará – em algum grau – segurança para todos. Assim, em ambiente semelhante, os especuladores não poderão fazer muito.

M.M.– Quer dizer uma forma anticonsumista de vida?

Z.B. – Exatamente. A metade do problema é o excessivo consumismo, o esbanjamento que predomina. E é por isso mesmo que nenhum provável partido de poder não promete aos seus eleitores que combaterá o consumismo. Não falamos, naturalmente, para frugalidade, mas para mudança da forma de pensar e de forma de vida, com ênfase na satisfação das necessidades e não a satisfação dos consumidores. O mundo, então, não esbanja dinheiro para adquirir diversos gadgets como, por exemplo, você adquirir um novo telefone celular, enquanto o antigo continua funcionando perfeitamente.

M.M.– Qual o senhor considera que será o papel dos intelectuais neste esforço?

Z.B. – O intelectualismo já tornou-se, também, um produto que vende-se e compra-se e isto vale para todos, tanto conservadores, quanto progressistas. Antigamente, vamos dizer na década de 1930, existiam intelectuais com algum sonho, comunista ou até fascista. Hoje, os intelectuais com algum sonho são muito poucos.

M.M.– Esta falta relaciona-se com a forma de ser e a comercialização do conhecimento?

Z.B. – Os processos da comercialização, da desregulação, do individualismo caracterizam todos os lados da atual sociedade. Assim, não existem mais ‘centros de peso’, pontos de encontro e ‘fábricas de solidariedade’. O mundo não tem percebido que vivemos a revolução industrial. Consequentemente, se agora vivemos uma pós-líquida revolução, somente seus filhos deverão conscientizar-se. Tudo é disperso, líquido.

M.M. – Isto é excepcionalmente interessante!

Z.B. – O filósofo greco-francês Cornélios Castoriádis, quando – por motivo de suas posições radicais – foi perguntado se sua meta era mudar o mundo, respondeu: ‘Nem pensar. Nunca passou pela minha cabeça mudar o mundo. Aquilo que desejo é mudar a humanidade por si só, a exemplo de como já se fez tantas e tantas vezes no passado’. Esta é a ótica de homem otimista.

M.M. – O senhor concorda com esta avaliação, em análise final?

Z.B. – Não terei tempo de vê-la, porque será a longo prazo. Contudo, espero que o século XXI será dedicado à religação de poder e política, dentro de uma ação de silogismo e metas comuns. A diferença entre posição otimista e pessimista é, pela minha opinião logicamente equivocada, considerando que esgota todas as possibilidades. Quem é o otimista? Aquele que acredita que o mundo como está aqui e agora, é o melhor possível. Quem é o pessimista? Aquele que pensa de que talvez o otimista tem razão. Existe, também, Castoriádis entre as duas posições, que diz que um outro mundo é viável e espera que, em algum momento, isto será realizado. Quanto a mim, sou pessimista em curto prazo e otimista em longo prazo. Não vejo mudanças radicais muito em breve, mas estou seguro de que estão no programa.

Fonte – Revista Pazes de 18 de outubro de 2016

Vamos mesmo precisar de dois novos planetas para manter o atual estilo de vida da humanidade?

Gettyimages

Diante do atual ritmo de consumo e produção, as Nações Unidas pedem prioridade ao uso racional dos recursos naturais

Se a população global de fato chegar a 9,6 bilhões em 2050, serão necessários quase três planetas Terra para proporcionar os recursos naturais necessários a fim de manter o atual estilo de vida da humanidade. A voracidade com que se consomem tais recursos fez as Nações Unidas incluírem o consumo em sua discussão sobre os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) para 2030.

A meta número 12 dos ODS não poupa os países desenvolvidos nem os em desenvolvimento. Insta todos a diminuir o desperdício de alimentos – um terço deles é jogado fora anualmente –, repensar os subsídios aos combustíveis fósseis e reduzir a quantidade de resíduos lançados sem tratamento no meio ambiente, entre outras tarefas urgentes.

A América Latina e o Caribe têm desafios importantes a cumprir nesses e em outros quesitos. Atualmente, a região joga fora 15% da comida que produz. Conseguiu diminuir de 1% para 0,68% o percentual do Produto Interno Bruto gasto em subsídios para os combustíveis fósseis entre 2013 e 2015, mas alguns países ainda dedicam cerca de 10% do PIB a eles. Finalmente, cada latino-americano produz até 14kg de lixo por dia, dos quais 90% poderiam ser reciclados ou transformados em combustível caso fossem separados por origem.

Conheça a seguir quatro metas de consumo sustentável que valem para a região e para todo o mundo até 2030.

Reduzir à metade o desperdício mundial de alimentos per capita na venda a varejo

Estima-se que a cada ano cerca de um terço dos alimentos produzidos – o equivalente a 1,3 bilhões de toneladas, avaliadas em cerca de US$ 1 trilhão – acaba apodrecendo no lixo dos consumidores ou dos varejistas, ou estraga devido a métodos ineficientes de coleta e transporte. A degradação e queda de fertilidade dos solos, o uso insustentável da água e a pesca excessiva estão reduzindo a quantidade de recursos naturais disponíveis para produção de alimentos. Por isso, é essencial não só pensar em formas de preservar e recuperar tais recursos, mas também de reduzir o desperdício para alimentar as 8,3 bilhões de pessoas que o planeta deverá ter até 2030.

Alcançar uma gestão sustentável e uso eficiente dos recursos naturais

A voracidade com que os recursos naturais estão sendo usados fica clara quando se observam alguns números relativos a consumo de energia. Em 2013, apenas um quinto da energia utilizada no mundo veio de fontes renováveis, como água, vento e luz solar. Todo o resto foi gerado com petróleo, carvão, gás natural e urânio. E quais setores avançam mais rapidamente no consumo de energia? Em primeiro lugar, o de transportes: até 2020, o transporte aéreo global deve triplicar, enquanto as distâncias percorridas pelos carros aumentarão 40%. Já o uso de energia para comércios e residências fica em segundo. A boa notícia é que as medidas para poupar podem facilmente começar dentro de casa. Segundo estimativas dasNações Unidas, se toda a população mundial começasse a usar lâmpadas de baixo consumo, seria possível economizar US$ 120 bilhões anualmente.

” Em 2013, apenas um quinto da energia utilizada no mundo veio de fontes renováveis, como água, vento e luz solar “

Racionalizar os subsídios aos combustíveis fósseis

Segundo o estudo Indicadores de Desenvolvimento Global (WDI), do Banco Mundial, os países mais ricos do mundo são os que mais gastam com subsídios ao petróleo, carvão e gás natural (quase 14% do PIB). Depois, vêm as economias de renda média-baixa, que incluem países da América Central como Guatemala e Nicarágua e gastam em média 11% do PIB com subsídios. Para a ONU, os subsídios ineficientes incentivam o consumo perdulário. Para racionalizá-los – e estimular, portanto, o uso de fontes de energia que impactem menos o meio ambiente –, é preciso adotar medidas que removam as distorções do mercado, como reestruturar os sistemas tributários nacionais, segundo a instituição.

Alcançar uma gestão ambientalmente racional dos produtos químicos ao longo de seu ciclo de vida

Ao incluir essa meta no ODS 12, as Nações Unidas buscam minimizar o impacto dos resíduos químicos tanto na saúde quanto no meio ambiente. A geração de lixo tóxico per capita praticamente dobrou no mundo inteiro entre o fim dos anos 1990 e da década de 2000. Nos países de renda média, como o Brasil, a quantidade subiu de 17kg per capita entre 1996 e 2000 para 42kg entre 2006 e 2011. Mas nem de longe eles são os mais poluentes: os de alta renda, mas que ainda não se uniram à OCDE (a qual exige boas práticas nas políticas públicas), despejaram 981kg de lixo tóxico per capita entre 2006 e 2011.

Outro dado preocupante é que cerca de 200 milhões de pessoas podem ser afetadas pelos resíduos presentes em 3,000 locais em todo o mundo. Para reverter o quadro, a ONU destaca a importância de incentivar indústrias a buscar formas sustentáveis de gerenciar seus resíduos. E, ainda, de estimular os consumidores a reduzir o consumo e reciclar o lixo.

Como se vê, o conceito de consumo vai muito além do simples gesto diário de fazer compras, e torná-lo sustentável passa por uma série de desafios que envolvem toda a sociedade. É uma meta que precisará ser levada cada vez mais a sério para não causar novos danos aos limitados recursos do planeta.

Análise do Banco Mundial, in EcoDebate, 09/09/2016

Economia de acumulação

Humanidade já está usando 30% a mais do limite suportável do planeta
Foto: Ian Britton/Flickr/CC

É preciso estar atento, ao menos, para dois pontos específicos vindos da economia, que atuam no sentido de promover intensa pressão sobre o meio ambiente: 1) a dinâmica do capitalismo industrial é consolidada mediante mais produção e consumo, portanto, mais crescimento econômico; 2) o nível de extração de recursos naturais para “alimentar” o processo produtivo não pode, sob nenhuma circunstância, exceder o de regeneração, uma vez que sua ultrapassagem implica no completo esgotamento da base física que serve de suporte à atividade econômica.

Dito isso, o enunciado a seguir é verossímil: a economia mundial não pode mais “funcionar” – do jeito que vem funcionando – sob o paradigma do crescimento/acumulação. Tal assertiva leva a conclusão de que o desafio colocado à frente, caso haja o interesse em preservar as condições de vida no planeta, é um só: procurar “encaixar” a atividade econômica dentro dos limites ecossistêmicos.

O desrespeito a esses limites, a partir do momento em que a atividade econômica se apropria da natureza, desequilibra o meio ambiente, gerando como “produto final” poluição (veja especialmente o caso chinês, com mais de 700 mil mortes ao ano) e aquecimento global.

A relação produção-consumo-crescimento econômico-emissão de gases de efeito estufa (GEE)-perda ambiental e ecológica está intimamente interligada

Essa é a questão central da crise ambiental. Não por acaso, a humanidade já está usando 30% a mais do limite suportável do planeta – lamentavelmente, já assimilamos o overshoot (transbordamento) com certa naturalidade.

Hoje, são extraídas 60 bilhões de toneladas de recursos anualmente; 30 anos atrás, essa extração não passava de 30 bilhões de toneladas.

Nesses últimos 30 anos de intensa extração de recursos, “conseguimos”, sem muita habilidade, mas com tamanha agressividade, chegar próximo ao esgotamento de 60% dos principais serviços ecossistêmicos; basta atentar para a situação atual dos pesqueiros (das 17 reservas pesqueiras conhecidas, 11 delas possuem taxas de retirada maior do que a capacidade de reposição.

Ainda em relação aos peixes, 75% dos estoques mundiais das espécies mais vendidas no mundo estão no limite da sua capacidade de recuperação ou além desse limite. Entre 1995 e 2005, algumas espécies como o bacalhau, o hadoque, o badejo e o linguado caíram 95% no Atlântico Norte), o encolhimento de florestas (a cada minuto a Terra perde 21 hectares de florestas, equivalente a 42 campos de futebol), a deterioração de pradarias e terras firmes (das terras firmes conhecidas do mundo, 4 bilhões de hectares encontram-se esgotados. Por ano, perde-se mais de 7 milhões de hectares.

São 20 mil hectares por dia, o que equivale a uma superfície diária que corresponde a duas vezes o tamanho de Paris), a contaminação de reservatórios de água, a elevação acintosa dos níveis de dióxido de carbono (a cada minuto 10 mil toneladas de dióxido de carbono são lançadas na atmosfera) e o constante desaparecimento de espécies (defaunação – a União Internacional para a Conservação da Natureza estima que, no mundo, por volta de 11% das espécies de aves, 25% dos mamíferos, 25% dos anfíbios, 20% dos répteis, 34% dos peixes e 12% das plantas estão ameaçadas de desaparecer para sempre nos próximos cem anos).

Portanto, a relação produção-consumo-crescimento econômico-emissão de gases de efeito estufa (GEE)-perda ambiental e ecológica está intimamente interligada.

Sendo a produção econômica termodinâmica – ainda que para os arautos da economia neoclássica isso possa parecer absurdo – simplesmente torna-se impossível dissociar crescimento econômico da emissão de GEE e, evidentemente, do resultado disso tudo: desequilíbrio climático e ambiental.

Agravando mais ainda essa situação, a humanidade parece que redobrou seu voraz apetite pelo consumo de mercadorias (a dinâmica da acumulação capitalista, puxada essencialmente pelos norte-americanos, tem se concentrado na esfera financeira fazendo do crédito e do endividamento familiar elementos fundamentais para a “elevação” do poder aquisitivo), uma vez que, claramente, estamos vivendo na era da economia de acumulação, posto que a produção econômica, nesse último século, “não se baseia no capital do planeta, mas em seu estoque”, para usarmos as palavras da ambientalista francesa Dominique Voynet.

Engolidos pelo consumo, vamos cada vez mais pisando firme no acelerador do crescimento econômico, sem, contudo, nos darmos conta que, logo mais à frente, pela “estrada” em que trafegamos, encontraremos um enorme abismo que sugará a todos, ricos e pobres, desenvolvidos ou emergentes, uma vez que essa “estrada” é a mesma para todos, com um único sentido de direção.

Fonte – Marcus Eduardo de Oliveira é economista e professor de economia da FAC-FITO e do Unifieo, em São Paulo, EcoD de 23 de outubro de 2016