Qual é a indústria que mais polui o meio ambiente depois do setor do petróleo?

Homem vestindo-seMesmo fibras naturais como o algodão tem forte impacto ambiental. THINKSTOCK

É fácil citar a indústria do petróleo como principal vilã da poluição. Mas poucos talvez saibam que o segundo lugar nesse ranking pertence à indústria da moda.

Se você veste calças ou malhas de poliéster, por exemplo, fique sabendo que a fibra sintética mais usada na indústria têxtil em todo o mundo não apenas requer, segundo especialistas, 70 milhões de barris de petróleo todos os anos, como demora mais de 200 anos para se decompor.

A viscose, outra fibra artificial, mas feita de celulose, exige a derrubada de 70 milhões de árvores todos os anos.

E, apesar de natural, o algodão é a uma fibra cujo cultivo é o que mais demanda o uso de substâncias tóxicas em seu cultivo no mundo – 24% de todos os inseticidas e 11% de todo os pesticidas, com óbvios impactos no solo e na água.

Nem mesmo o algodão orgânico escapa: uma simples camiseta necessitou de mais de 2.700 litros de água para ser confeccionada.

Mulheres passam em frente a uma vitrine em ParisA indústria da moda é uma das mais poluentes do mundo. GETTY IMAGES

Usar e jogar fora

Mas talvez o maior dano causado pela indústria da moda seja a tendência da “moda rápida”, marcada especialmente pelos preços baixos. O consumo multiplica os problemas ambientais.

O custo da “moda rápida”

Uma peça de roupa que usamos menos de 5 vezes e jogamos fora após 1 mês produz mais 400% de emissões de carbono que uma usada 50 vezes e mantida por 1 ano. Fonte: HBS

Zygmunt Bauman, “seus netos continuarão pagando os 30 anos da orgia consumista”

Devolver dinheiro para bancos não pode ser solução para crise, pois é sua continuação, revela Bauman em entrevista a Laura Britt e Petros Panayotídis, do Monitor Mercantil.

“A metade do problema é o excessivo consumismo, o esbanjamento que predomina. E é por isso mesmo que nenhum provável partido de poder não promete aos seus eleitores que combaterá o consumismo”, continua o sociólogo polonês, vice-reitor da London School of Economics, que se define um pessimista a curto prazo em relação ao futuro da sociedade.

Monitor Mercantil – A Grécia e o Sul Europeu atravessam uma prolongada crise econômica e são atingidos, incessantemente, por severas medidas de frugalidade. Qual é a opinião do senhor sobre tudo isto que está acontecendo?

Zygmunt Bauman – As medidas são ligadas com os empréstimos que foram solicitados. É importante, contudo, alguém verificar para qual objetivo são utilizados os empréstimos que foram concedidos à Grécia. Se foram utilizados para recapitalização dos bancos, então, simplesmente, alimenta-se a raiz do problema e as políticas de frugalidade continuarão irredutíveis. As crises econômicas destinam-se não com a destruição de riqueza, mas com sua redistribuição. Em cada crise existem sempre alguns que ganham mais dinheiro em detrimento de outros. Nos EUA, por exemplo, após a crise observa-se uma lenta recuperação, mas 93% do Produto Interno Bruto (PIB) adicional criado beneficiou, somente, 1% da população.

M.M.– Em seus livros, o senhor muitas vezes refere-se ao consumismo da atual, pós-nova sociedade. Em que grau existe conciliação entre consumismo e medidas de frugalidade?

Z.B. – Após 1970, existiu uma dominante cultura de poupança e os homens não gastavam dinheiro, a menos que o tivessem ganho anteriormente. Após 1970 e com a colaboração de políticos como Ronald Reagan, Margaret Thatcher e, teóricos com o Milton Friedman (Escola de Chicago), o sistema capitalista percebeu que, havia terreno virgem que poderia ser conquistado. Rosa Luxemburgo foi aquela que havia dito que, ‘o capitalismo rejuvenesce por intermédio de novas regiões virgens’. Mas, previu equivocadamente que, ‘quando o sistema conquistar todas as regiões virgens, desabará’.

Porém, aquilo que não previu era que o capitalismo adquiriria a capacidade de criar, tecnicamente, regiões virgens e apoderar-se delas. E uma destas são os homens que não têm dívidas. Assim, foram inventadas as cartas de crédito. Então, conformou-se uma cultura diferente daquela de poupança. Já agora, poderá alguém gastar o dinheiro que não ganhou ainda.

A fase de grande crescimento econômico, que durou desde os meados da década de 1970 até o início do século XXI baseou-se sobre esta pressão para endividamento. E quando alguém era devedor a reação dos bancos não era como antigamente, de enviarem o encarregado de cobrança, mas, ao contrário, enviavam uma carta muito gentil, com a qual, ofereciam um novo empréstimo, para resgatar o anterior!

Isto prosseguiu durante três décadas até que Bill Clinton (então presidente dos EUA) introduziu os empréstimos hipotecados de alto risco, significando que até os homens que não poderiam cobrir seus gastos poderiam contrair empréstimos habitacionais. Finalmente, esta situação atingiu o inviável e, assim, foi criada a crise financeira. Apesar de tudo isso, a economia capitalista parece resistir. Temos o exemplo do movimento Ocupem Wall Street, o qual atraiu a atenção da mídia internacional. Mas o único lugar em que não foi sentida era a própria Wall Street, a qual continua funcionando com a exatamente mesma forma!

E este é problema. Predomina a ideia no cérebro, também, da senhora Angela Merkel (chanceler alemã) e dos outros políticos, que a única forma é apoiar os bancos para terem condição de concederem mais empréstimos. Mas esta é uma política de andar às cegas, considerando que a região virgem do capitalismo já está esgotada. Quem pudesse endividar-se, já endividou-se! Até, inclusive, os netos de vocês já estão endividados, não resta dúvida nenhuma. Eles – seus netos – continuarão pagando os 30 anos da orgia consumista. E enquanto, no início a região virgem dos homens que endividavam-se resultava gigantescos lucros, gradualmente, esses lucros foram reduzidos e agora são mínimos, de acordo com a lei do desgaste de desempenho. Aquilo que acontece na Grécia agora é que o país investe em fantasmas.

M.M.- Qual é a saída?

Z.B. – Me pedem para responder a uma pergunta, a qual, homens muito inteligentes, como Stiglitz (Joseph, Prêmio Nobel de Economia), têm dificuldade para responderem. É muito difícil serem encontradas soluções radicais. E aquilo que me preocupa, é que, entre as instituições políticas de que dispomos, não existe sequer uma em condição de proporcionar soluções de longo prazo. Todos os governos são submissos às – de acordo com o Dr. R.D.Laing – duplas instituições que, no caso dos governos, para utilizar uma analogia, são constituídas das pressões que recebem. Por um lado para serem reeleitos, devem ouvir as reivindicações do povo – querendo ou sem querer – e prometerem que irão atendê-lo. Por outro, todos os governos – de direita e de esquerda – são incapazes de cumprirem seus compromissos pré-eleitorais, por causa das bolsas de valores e dos bancos.

Por exemplo, quando a senhora Merkel e o senhor Sarkozy (Nicolas, então presidente da França) encontraram-se numa sexta-feira para trocarem idéias sobre o memorando da Grécia, tomaram e também divulgaram algumas decisões que os fizeram tremer durante o fim de semana inteiro até abrirem as bolsas de valores na segunda-feira. Não sei se a opinião do Dr. Laing está certa ou errada com a relação a família, mas julgo que tenho razão quando sustento que vigora no caso dos governos.

O mundo vota por decepção. Temos cada vez mais frequentes alternativas entre direita e esquerda. No âmbito da mesmo crise, o esquerdista Zapatero (José Luis Rordiguez, ex-primeiro-ministro da Espanha) foi derrotado pelo direitista Mariano Rajoy, enquanto, na França, o direitista Sarkozy foi derrotado pelo socialista François Hollande. Isto, exatamente, é o que quero dizer com o termo duplas instituições. Por um lado, a pressão da massa de eleitores e, por outro, o capital mundial, bolsas de valores e investidores que superam (em poder) qualquer governo.

Até, inclusive, os EUA estão superendividados. Imaginem os credores do governo norte-americano (China é o maior) exigirem resgate imediato de dívida. A economia norte-americana despencará num piscar de olhos. Em condições de duplas instituições, tanto na psicologia, quanto na macroeconomia, não existe escape bem-sucedido. Deve ser mudado o sistema inteiro desde os alicerces, e isto demanda tempo.

Sim, precisa-se de solução radical. Qual é a opinião de vocês sobre os movimentos do Sul Europeu? Nós esperamos que os movimentos de base parecem sendo apoiados cada vez mais. É a primeira vez em que na Grécia observam-se semelhanças com os meados da década de 1970, após a queda da ditadura. Existe um ‘cerrar de fileiras’ dos cidadãos e julgamos que isto é um muito bom prenúncio e esperançoso. É a única esperança.

No Diário de um Ano Mau, o escritor sul-africano Coetzee reexamina os princípios básicos que ordenam nosso pensamento, os alicerces de nossa imaginação, que consideram-se fundamentais. Os aceitamos silenciosamente. Kutsi não tem certeza e diz: “Se queremos guerra, teremos guerra. Se queremos paz, podemos adquiri-la. Se decidirmos que as nações devem agir em regime de antagonismos e não de colaboração amigável, isto será feito”.

Consequentemente, qualquer mudança é viável. É questão de vontade política. Em lugar de empresas privadas, podemos ter parcerias. Conforme disse em meu discurso por ocasião de minha nomeação para o cargo de vice-reitor de LSE (London School of Economics), meu tema era análise sociológica do movimento trabalhista britânico. Como desde a sua decadência no final do século XIX consolidou-se e adquiriu poder no século XX. Não aconteceu graças aos bancos e sequer foi financiado por instituições. Mas foi apoiado pela Associação dos Consumidores Rothschild, que foi a primeira associação de consumidores no século XIX. Seus membros decidiram deixar de adquirir das lojas, para não terem que pagar os capitalistas, mas, distribuírem as arrecadações da associação aos seus membros e as comunidades locais.1

Rothschild não era o único, existiam outros, também. Existiam o fundos de ajuda mútua que, com um pagamento mínimo, os membros em caso de dificuldades poderiam contrair empréstimos para não recorrem aos bancos. Estes fundos não eram especuladores. E, consequentemente, não são produtos da imaginação de Kutsi, mas é viável o fato de serem realizadas mudanças. Mas pressupõem revolução em nível de cultura e da forma de pensar. Se, finalmente, a mudança da forma de pensar já começou, é um lento processo a longo prazo que deve derrotar adversários fortíssimos. Assim, quando falamos em soluções, o problema maior não é o que encontraremos, mas, o que é necessário de ser feito. E nisto podemos conseguir conjugação de pontos de vista. A questão é quem o fará.

M.M.– Talvez os cidadãos indignados?

Z.B. – Seguramente, não os partidos políticos de qualquer coloração. E muito menos os governos, que não controlam a economia cujas forças são mundiais. Os Estados, por definição são obrigados a agirem nos âmbitos de fronteiras físicas e institucionais. A economia não ocupa-se mais com o nível local, a legislação da nação, as preferências ou sistema de valores de seus habitantes. Assim que for constatado choque, pegam os laptop, os iPad e iPhones e transferem-se em países como o Bangldesh, onde encontram fácil acesso em mão-de-obra que custa US$ 2 por dia. Existe aquilo que o sociólogo espanhol Manuel Castels denomina ‘espaço dos fluxos’ (space of flows). Milhões de dólares são transferidos, apertando apenas uma tecla no computador. Assim, então, por um lado temos o poder que é liberado do controle político e, por outro, temos a política que, incessantemente, sofre e déficit de poder, de vez que, o poder desaparece no ‘espaço dos fluxos’.

M.M. – O senhor quer dizer que a política é local, enquanto, o poder é mundial…

Z.B. – Exatamente. O mais fraco elo não é a comunidade, a cidade ou qualquer outra forma de localização, mas, o próprio estado, que é preso na armadilha entre dois fogos, da nação por um lado e, dos mercados por outro. E as iniciativas que vocês mencionaram nascem no nível subnacional. As instituições do nível nacional (partidos políticos, governo, parlamento e outros) não podem enfrentar esta dupla pressão. Já os cidadãos, em seu esforço para protegerem-se das consequências destas forças anônimas dos mercados, reagem de forma tradicional, isto é, organizam-se com seus conhecidos, vizinhos e todos aqueles com os quais percebem juntos que a melhoria de seu espaço físico terá repercussão positiva em todos e não é jogo de antagonismo com vencedores e vencidos.

Fala-se muito nestes dias sobre redes sociais…Sabem, enfrento este termo com descrença. As redes sociais estão relacionadas com a comunicação e a comunicação engloba, simultaneamente, a dinâmica da ligação e a dinâmica do desligamento. Prefiro falar sobre comunidade, porque este termo contém o sentido do compromisso, algo que não vigora no caso das redes sociais. Hoje, qualquer um pode ter centenas de amigos em uma rede online e, simplesmente, em algum momento, encerrar a comunicação com alguns, sem ser preciso explicar a razão ou pedir desculpa.

M.M. – Como poderá ocorrer a mudança? Como é possível o sistema do mercado permanecer tão estável em um ambiente de liquidez generalizada, para utilizar os próprios termos do senhor?

Z.B. – Como lhes disse, não vejo alguma autoridade capaz de impor algo diferente e, creio que, para existir passarão décadas, não é algo que surgirá até as próximas eleições. A única solução radical que vejo é a consolidação de uma forma de vida, que tornará o sistema existente fora de uso. Quer dizer, encerrar-se o ceticismo de alguém contrair empréstimo para adquirir automóvel ou em nível de estados, de recorrerem ao endividamento para reduzirem os tributos para os muito ricos e adotar-se uma forma de vida que proporcionará – em algum grau – segurança para todos. Assim, em ambiente semelhante, os especuladores não poderão fazer muito.

M.M.– Quer dizer uma forma anticonsumista de vida?

Z.B. – Exatamente. A metade do problema é o excessivo consumismo, o esbanjamento que predomina. E é por isso mesmo que nenhum provável partido de poder não promete aos seus eleitores que combaterá o consumismo. Não falamos, naturalmente, para frugalidade, mas para mudança da forma de pensar e de forma de vida, com ênfase na satisfação das necessidades e não a satisfação dos consumidores. O mundo, então, não esbanja dinheiro para adquirir diversos gadgets como, por exemplo, você adquirir um novo telefone celular, enquanto o antigo continua funcionando perfeitamente.

M.M.– Qual o senhor considera que será o papel dos intelectuais neste esforço?

Z.B. – O intelectualismo já tornou-se, também, um produto que vende-se e compra-se e isto vale para todos, tanto conservadores, quanto progressistas. Antigamente, vamos dizer na década de 1930, existiam intelectuais com algum sonho, comunista ou até fascista. Hoje, os intelectuais com algum sonho são muito poucos.

M.M.– Esta falta relaciona-se com a forma de ser e a comercialização do conhecimento?

Z.B. – Os processos da comercialização, da desregulação, do individualismo caracterizam todos os lados da atual sociedade. Assim, não existem mais ‘centros de peso’, pontos de encontro e ‘fábricas de solidariedade’. O mundo não tem percebido que vivemos a revolução industrial. Consequentemente, se agora vivemos uma pós-líquida revolução, somente seus filhos deverão conscientizar-se. Tudo é disperso, líquido.

M.M. – Isto é excepcionalmente interessante!

Z.B. – O filósofo greco-francês Cornélios Castoriádis, quando – por motivo de suas posições radicais – foi perguntado se sua meta era mudar o mundo, respondeu: ‘Nem pensar. Nunca passou pela minha cabeça mudar o mundo. Aquilo que desejo é mudar a humanidade por si só, a exemplo de como já se fez tantas e tantas vezes no passado’. Esta é a ótica de homem otimista.

M.M. – O senhor concorda com esta avaliação, em análise final?

Z.B. – Não terei tempo de vê-la, porque será a longo prazo. Contudo, espero que o século XXI será dedicado à religação de poder e política, dentro de uma ação de silogismo e metas comuns. A diferença entre posição otimista e pessimista é, pela minha opinião logicamente equivocada, considerando que esgota todas as possibilidades. Quem é o otimista? Aquele que acredita que o mundo como está aqui e agora, é o melhor possível. Quem é o pessimista? Aquele que pensa de que talvez o otimista tem razão. Existe, também, Castoriádis entre as duas posições, que diz que um outro mundo é viável e espera que, em algum momento, isto será realizado. Quanto a mim, sou pessimista em curto prazo e otimista em longo prazo. Não vejo mudanças radicais muito em breve, mas estou seguro de que estão no programa.

Fonte – Revista Pazes de 18 de outubro de 2016

Vamos mesmo precisar de dois novos planetas para manter o atual estilo de vida da humanidade?

Gettyimages

Diante do atual ritmo de consumo e produção, as Nações Unidas pedem prioridade ao uso racional dos recursos naturais

Se a população global de fato chegar a 9,6 bilhões em 2050, serão necessários quase três planetas Terra para proporcionar os recursos naturais necessários a fim de manter o atual estilo de vida da humanidade. A voracidade com que se consomem tais recursos fez as Nações Unidas incluírem o consumo em sua discussão sobre os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) para 2030.

A meta número 12 dos ODS não poupa os países desenvolvidos nem os em desenvolvimento. Insta todos a diminuir o desperdício de alimentos – um terço deles é jogado fora anualmente –, repensar os subsídios aos combustíveis fósseis e reduzir a quantidade de resíduos lançados sem tratamento no meio ambiente, entre outras tarefas urgentes.

A América Latina e o Caribe têm desafios importantes a cumprir nesses e em outros quesitos. Atualmente, a região joga fora 15% da comida que produz. Conseguiu diminuir de 1% para 0,68% o percentual do Produto Interno Bruto gasto em subsídios para os combustíveis fósseis entre 2013 e 2015, mas alguns países ainda dedicam cerca de 10% do PIB a eles. Finalmente, cada latino-americano produz até 14kg de lixo por dia, dos quais 90% poderiam ser reciclados ou transformados em combustível caso fossem separados por origem.

Conheça a seguir quatro metas de consumo sustentável que valem para a região e para todo o mundo até 2030.

Reduzir à metade o desperdício mundial de alimentos per capita na venda a varejo

Estima-se que a cada ano cerca de um terço dos alimentos produzidos – o equivalente a 1,3 bilhões de toneladas, avaliadas em cerca de US$ 1 trilhão – acaba apodrecendo no lixo dos consumidores ou dos varejistas, ou estraga devido a métodos ineficientes de coleta e transporte. A degradação e queda de fertilidade dos solos, o uso insustentável da água e a pesca excessiva estão reduzindo a quantidade de recursos naturais disponíveis para produção de alimentos. Por isso, é essencial não só pensar em formas de preservar e recuperar tais recursos, mas também de reduzir o desperdício para alimentar as 8,3 bilhões de pessoas que o planeta deverá ter até 2030.

Alcançar uma gestão sustentável e uso eficiente dos recursos naturais

A voracidade com que os recursos naturais estão sendo usados fica clara quando se observam alguns números relativos a consumo de energia. Em 2013, apenas um quinto da energia utilizada no mundo veio de fontes renováveis, como água, vento e luz solar. Todo o resto foi gerado com petróleo, carvão, gás natural e urânio. E quais setores avançam mais rapidamente no consumo de energia? Em primeiro lugar, o de transportes: até 2020, o transporte aéreo global deve triplicar, enquanto as distâncias percorridas pelos carros aumentarão 40%. Já o uso de energia para comércios e residências fica em segundo. A boa notícia é que as medidas para poupar podem facilmente começar dentro de casa. Segundo estimativas dasNações Unidas, se toda a população mundial começasse a usar lâmpadas de baixo consumo, seria possível economizar US$ 120 bilhões anualmente.

” Em 2013, apenas um quinto da energia utilizada no mundo veio de fontes renováveis, como água, vento e luz solar “

Racionalizar os subsídios aos combustíveis fósseis

Segundo o estudo Indicadores de Desenvolvimento Global (WDI), do Banco Mundial, os países mais ricos do mundo são os que mais gastam com subsídios ao petróleo, carvão e gás natural (quase 14% do PIB). Depois, vêm as economias de renda média-baixa, que incluem países da América Central como Guatemala e Nicarágua e gastam em média 11% do PIB com subsídios. Para a ONU, os subsídios ineficientes incentivam o consumo perdulário. Para racionalizá-los – e estimular, portanto, o uso de fontes de energia que impactem menos o meio ambiente –, é preciso adotar medidas que removam as distorções do mercado, como reestruturar os sistemas tributários nacionais, segundo a instituição.

Alcançar uma gestão ambientalmente racional dos produtos químicos ao longo de seu ciclo de vida

Ao incluir essa meta no ODS 12, as Nações Unidas buscam minimizar o impacto dos resíduos químicos tanto na saúde quanto no meio ambiente. A geração de lixo tóxico per capita praticamente dobrou no mundo inteiro entre o fim dos anos 1990 e da década de 2000. Nos países de renda média, como o Brasil, a quantidade subiu de 17kg per capita entre 1996 e 2000 para 42kg entre 2006 e 2011. Mas nem de longe eles são os mais poluentes: os de alta renda, mas que ainda não se uniram à OCDE (a qual exige boas práticas nas políticas públicas), despejaram 981kg de lixo tóxico per capita entre 2006 e 2011.

Outro dado preocupante é que cerca de 200 milhões de pessoas podem ser afetadas pelos resíduos presentes em 3,000 locais em todo o mundo. Para reverter o quadro, a ONU destaca a importância de incentivar indústrias a buscar formas sustentáveis de gerenciar seus resíduos. E, ainda, de estimular os consumidores a reduzir o consumo e reciclar o lixo.

Como se vê, o conceito de consumo vai muito além do simples gesto diário de fazer compras, e torná-lo sustentável passa por uma série de desafios que envolvem toda a sociedade. É uma meta que precisará ser levada cada vez mais a sério para não causar novos danos aos limitados recursos do planeta.

Análise do Banco Mundial, in EcoDebate, 09/09/2016

Economia de acumulação

Humanidade já está usando 30% a mais do limite suportável do planeta
Foto: Ian Britton/Flickr/CC

É preciso estar atento, ao menos, para dois pontos específicos vindos da economia, que atuam no sentido de promover intensa pressão sobre o meio ambiente: 1) a dinâmica do capitalismo industrial é consolidada mediante mais produção e consumo, portanto, mais crescimento econômico; 2) o nível de extração de recursos naturais para “alimentar” o processo produtivo não pode, sob nenhuma circunstância, exceder o de regeneração, uma vez que sua ultrapassagem implica no completo esgotamento da base física que serve de suporte à atividade econômica.

Dito isso, o enunciado a seguir é verossímil: a economia mundial não pode mais “funcionar” – do jeito que vem funcionando – sob o paradigma do crescimento/acumulação. Tal assertiva leva a conclusão de que o desafio colocado à frente, caso haja o interesse em preservar as condições de vida no planeta, é um só: procurar “encaixar” a atividade econômica dentro dos limites ecossistêmicos.

O desrespeito a esses limites, a partir do momento em que a atividade econômica se apropria da natureza, desequilibra o meio ambiente, gerando como “produto final” poluição (veja especialmente o caso chinês, com mais de 700 mil mortes ao ano) e aquecimento global.

A relação produção-consumo-crescimento econômico-emissão de gases de efeito estufa (GEE)-perda ambiental e ecológica está intimamente interligada

Essa é a questão central da crise ambiental. Não por acaso, a humanidade já está usando 30% a mais do limite suportável do planeta – lamentavelmente, já assimilamos o overshoot (transbordamento) com certa naturalidade.

Hoje, são extraídas 60 bilhões de toneladas de recursos anualmente; 30 anos atrás, essa extração não passava de 30 bilhões de toneladas.

Nesses últimos 30 anos de intensa extração de recursos, “conseguimos”, sem muita habilidade, mas com tamanha agressividade, chegar próximo ao esgotamento de 60% dos principais serviços ecossistêmicos; basta atentar para a situação atual dos pesqueiros (das 17 reservas pesqueiras conhecidas, 11 delas possuem taxas de retirada maior do que a capacidade de reposição.

Ainda em relação aos peixes, 75% dos estoques mundiais das espécies mais vendidas no mundo estão no limite da sua capacidade de recuperação ou além desse limite. Entre 1995 e 2005, algumas espécies como o bacalhau, o hadoque, o badejo e o linguado caíram 95% no Atlântico Norte), o encolhimento de florestas (a cada minuto a Terra perde 21 hectares de florestas, equivalente a 42 campos de futebol), a deterioração de pradarias e terras firmes (das terras firmes conhecidas do mundo, 4 bilhões de hectares encontram-se esgotados. Por ano, perde-se mais de 7 milhões de hectares.

São 20 mil hectares por dia, o que equivale a uma superfície diária que corresponde a duas vezes o tamanho de Paris), a contaminação de reservatórios de água, a elevação acintosa dos níveis de dióxido de carbono (a cada minuto 10 mil toneladas de dióxido de carbono são lançadas na atmosfera) e o constante desaparecimento de espécies (defaunação – a União Internacional para a Conservação da Natureza estima que, no mundo, por volta de 11% das espécies de aves, 25% dos mamíferos, 25% dos anfíbios, 20% dos répteis, 34% dos peixes e 12% das plantas estão ameaçadas de desaparecer para sempre nos próximos cem anos).

Portanto, a relação produção-consumo-crescimento econômico-emissão de gases de efeito estufa (GEE)-perda ambiental e ecológica está intimamente interligada.

Sendo a produção econômica termodinâmica – ainda que para os arautos da economia neoclássica isso possa parecer absurdo – simplesmente torna-se impossível dissociar crescimento econômico da emissão de GEE e, evidentemente, do resultado disso tudo: desequilíbrio climático e ambiental.

Agravando mais ainda essa situação, a humanidade parece que redobrou seu voraz apetite pelo consumo de mercadorias (a dinâmica da acumulação capitalista, puxada essencialmente pelos norte-americanos, tem se concentrado na esfera financeira fazendo do crédito e do endividamento familiar elementos fundamentais para a “elevação” do poder aquisitivo), uma vez que, claramente, estamos vivendo na era da economia de acumulação, posto que a produção econômica, nesse último século, “não se baseia no capital do planeta, mas em seu estoque”, para usarmos as palavras da ambientalista francesa Dominique Voynet.

Engolidos pelo consumo, vamos cada vez mais pisando firme no acelerador do crescimento econômico, sem, contudo, nos darmos conta que, logo mais à frente, pela “estrada” em que trafegamos, encontraremos um enorme abismo que sugará a todos, ricos e pobres, desenvolvidos ou emergentes, uma vez que essa “estrada” é a mesma para todos, com um único sentido de direção.

Fonte – Marcus Eduardo de Oliveira é economista e professor de economia da FAC-FITO e do Unifieo, em São Paulo, EcoD de 23 de outubro de 2016

Exploração mundial de matérias-primas triplicou em 40 anos

Em quatro décadas, a humanidade passou a consumir de 22 bilhões a 70 bilhões de toneladas de matéria-prima em todo o mundo

Em quatro décadas, a humanidade passou a consumir de 22 bilhões a 70 bilhões de toneladas de matéria-prima em todo o mundo

O aumento do consumo, alimentado por uma classe média global em crescimento, triplicou a quantidade de matérias-primas extraídas da Terra nas últimas quatro décadas, aponta o novo relatório do Painel Internacional de Recursos (IRP, sigla em inglês) do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma).

“O ritmo alarmante em que estamos extraindo materiais já está tendo um grave impacto sobre a saúde humana e a qualidade de vida das pessoas”, declarou Alicia Bárcena, co-presidente do IRP. “Isso demonstra que os padrões imperantes de produção e consumo são insustentáveis”.

De acordo com o relatório Fluxo de materiais e produtividade dos recursos em escala mundial (em inglês), a quantidade de matéria-prima extraída da Terra passou de 22 bilhões de toneladas em 1970 para 70 bilhões em 2010. Os países mais ricos consomem em média 10 vezes mais materiais que os países mais pobres e duas vezes mais que a média global.

Mantido os padrões atuais de extração e consumo e cumprida a expectativa de crescimento demográfico global neste século, em 2050 precisaríamos extrair mais de 180 bilhões de toneladas de matéria-prima para satisfazer a demanda de nove bilhões de habitantes. Esse montante representa o triplo do consumo atual de matéria-prima e provavelmente elevaria a acidificação e a eutrofização dos solos e da água em todo o mundo, aumentaria a erosão do solo, e produziria maiores volumes de resíduos e mais contaminação tóxica.

“Devemos enfrentar urgentemente este problema, antes que esgotemos de forma irreversível os recursos que impulsionam nossas economias e retiram as pessoas da pobreza. Este problema exige replanejar a governança da extração de recursos naturais com o objetivo de maximizar sua contribuição ao desenvolvimento sustentável em todos os níveis”, defende Bárcena.

Uma dimensão delicada desse aumento no uso de recursos naturais é a dos combustíveis fósseis. O aumento drástico no consumo desses combustíveis resulta na maior concentração de gases de efeito estufa (GEE) na atmosfera terrestre, influenciando diretamente na mudança do clima.

Em escala global, o uso de materiais vem se acelerando desde 2000, na medida em que economias emergentes como China e Índia experimentam transformações industriais e urbanas que requerem grandes quantidades de ferro, aço, cimento, energia e materiais de construção. Em contrapartida, o mundo avançou pouco na eficiência no uso de recursos naturais desde os anos 1990 – na realidade, a eficiência caiu nos últimos 15 anos. Hoje, a economia global requer mais materiais por unidade de Produto Interno Bruto (PIB) do que no começo deste século, pois a produção passou de economias eficientes nesse aspecto (como Japão, Coreia do Sul e países europeus) para economias muito menos eficientes (como China, Índia e Sudeste Asiático). Isto resultou em maior pressão sobre o meio ambiente por unidade de atividade econômica.

Desacoplar o uso de recursos naturais do crescimento econômico é “imperativo da política ambiental moderna, e é essencial para a prosperidade da sociedade humana e um entorno natural saudável”, apontou o IRP no relatório. Esse desacoplamento, fundamental para o sucesso dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS), requer políticas bem desenhadas. Porém, não basta investir em eficiência: para o IRP, é importante que os preços das matérias-primas incorporem os custos sociais e ambientais de sua extração, tanto como um incentivo para reduzir o consumo quanto para financiar pesquisa para setores da economia intensivos no uso desses materiais.

Fonte – Página 22 de 21 de julho de 2016

Fotógrafo coletou imagens do volume de lixo para mostrar quanto desperdício o ser humano pode gerar

Prefira embalagens plásticas recicláveis e biodegradáveis que atendam normas brasileiras da ABNT. Exija sua certificação e selo correspondente impresso.

Para os oxibiodegradáveis a certificação ABNT é a PE-308.01

Para os compostáveis a certificação é a ABNT é a 15448-2:2008

A Photographer Collected Four Years Worth Of Trash To Show Just How Wasteful Humans Can Be

“We’re often told about the quantity of waste we produce, but I think the impact of pictures can be much powerful than words,” Antoine Repessé explains.

In 2011, self-taught photographer Antoine Repessé stopped throwing things away. Along with 200 friends and colleagues, he accumulated around 70 cubic meters (or 18,000 liquid gallons) of recyclable waste. After he filled his flat in France to the brim with toilet rolls, newspapers, water bottles, cans and boxes — he organized a photo shoot.

“We’re often told about the quantity of waste we produce, but I think the impact of pictures can be much powerful than words,” Repessé told The Huffington Post. And so he enlisted friends to pose amongst the heaps of trash that encrusted his floors and stretched up the walls like massive, invincible creatures. The series, titled “#365 Unpacked,” shows the invisible aftermath of our consumerist habits, a disturbing vision of the messes often kept out of sight and out of mind.

The most confounding aspect of Repessé’s project is not the substantial quantity of recyclable waste he and his friends collected themselves. The truly scary part is that many of us would end up with 1,600 milk bottles, 4,800 toilet rolls, and 800 kilograms of newspapers in our homes if we too took the time to acknowledge the materials we waste every day.

“I was interested in how an object can loose its singularity when you don’t use it as something single but as a part of something massive,” the artist said. “If you use the same shape so many times it becomes something very different from what it was before.”

The series is reminiscent of Chris Jordan’s 2004 “Intolerable Beauty: Portraits of American Mass Consumption,“ in which massive dumps of cell phones, crushed cars and circuit boards are framed to resemble dizzying landscapes at once disturbing and beautiful.

“As an American consumer myself, I am in no position to finger wag,” Jordan told The Huffington Post, “but I do know that when we reflect on a difficult question in the absence of an answer, our attention can turn inward, and in that space may exist the possibility of some evolution of thought or action. So my hope is that these photographs can serve as portals to a kind of cultural self-inquiry. It may not be the most comfortable terrain, but I have heard it said that in risking self-awareness, at least we know that we are awake.”

Whether Repessé’s photos leave you dazzled, horrified, or somewhere in between, hopefully they’ll bring you pause the next time you throw out an empty cereal box or soda can, thinking about where the little guys will end up, and just how many friends will be waiting.

Fonte – Priscilla Frank, The Huffington Post

Boletim do Instituto IDEAIS de 07 de julho de 2016

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‘Moda rápida’ alimenta rede global de reciclagem de roupas

Milhares de pessoas trabalham na zona econômica especial de Kandla, na Índia, separando toneladas de roupas, de lençóis e meias a bonés de baseball.

Enquanto montanhas de roupas descartadas vindas dos Estados Unidos caem numa esteira rolante, filas de mulheres vestidas com o tradicional sári indiano separam freneticamente as peças de acordo com o tipo — camisetas em um contêiner, jeans femininos em outro. Há moletons, roupa íntima, blusões, casacos e até peles.

Essa profusão é parte das milhares de toneladas de roupas usadas que chegam mensalmente ao porto de Kandla, na costa oeste da Índia, um centro na vasta rede global que compra roupas de segunda mão em países ricos e as revende nos mercados em desenvolvimento.

“Não entendo por que as pessoas jogam fora todas essas roupas”, diz uma das separadoras, sentada no chão de um armazém durante um intervalo no trabalho. “Talvez elas não tenham tempo de lavá-las.”

Na verdade, o excesso de roupa é resultado do crescimento da chamada moda rápida, que inundou o mundo com vestuário barato, frequentemente produzido nos mesmos países de salários baixos para onde as roupas acabam voltando. Lá, elas são vendidas em mercados populares ou reprocessadas em produtos como cobertores ou enchimento de travesseiros.

Para alguns, este é um círculo virtuoso, que minimiza o desperdício, ao mesmo tempo em que cria empregos e uma fonte de roupa barata para os pobres. Mesmo varejistas como a sueca Hennes & Mauritz AB e outras já coletam roupas usadas para reciclar. Desde que começou a fazer isso em suas lojas, em 2013, a H&M já reciclou mais de 20 mil toneladas de vestuário.

“Os EUA não precisam encher seus aterros [de lixo] quando há um uso melhor para isso”, diz Jaideep Sajdeh, diretor-gerente da Texool, uma processadora de roupas de Kandla.

Mas alguns fabricantes de roupas nos mercados emergentes dizem que a oferta sem fim de vestuário afeta o crescimento da indústria têxtil local. A Índia permite o processamento e a reexportação de roupas usadas, mas proíbe sua venda no mercado doméstico, assim como muitos países preocupados com o impacto do crescimento do comércio de roupas usadas.

Tais proibições, combinadas com a desaceleração econômica em partes da África, prejudicaram a demanda. Mas as roupas continuam chegando. A maioria dos itens é depositada em cestos de doações no Ocidente e, depois, vendida por associações de caridade a intermediários.

Milhares de pessoas trabalham na zona econômica especial de Kandla, separando toneladas de peças, de lençóis e meias a bonés de baseball, no início de uma cadeia de processamento que busca extrair cada centavo possível daquele fluxo têxtil. “Nada é desperdiçado”, diz Guvinder Toor, diretor-gerente da U.S. Clothing (India) Pvt. Ltd., processadora e exportadora de roupas usadas da Índia.

Primeiro, empresários pagam às empresas de processamento pelo direito de vasculhar as pilhas de roupas em busca de moedas, relógios e outros itens de valor.

Esses trabalhadores, que ganham cerca de US$ 5 por dia — um salário acima da média na Índia —, separam as roupas em 200 categorias diferentes para a revenda. Algumas empresas têm equipes que analisam as pilhas de roupas em busca de itens de alta costura — com o auxílio de pôsteres para ajudá-los a reconhecer itens de grifes como Giorgio Armani, Hermès e Prada.

O processo de separação tem várias etapas. Equipes de empregados removem as roupas manchadas, rasgadas ou — como é o caso dos embarques dos EUA — que simplesmente sejam grandes demais para revender. Calças de homens que superam 100 cm na cintura são vendidas para reprocessamento. Para as mulheres, o limite é 80 cm.

“Os tamanhos americanos são grandes demais e ninguém pode usá-los”, diz Bhavesh Mishra, gerente da U.S. Clothing. “Noventa por cento do que exportamos é para a África e eles não pedem esses números.”

Somente cerca de 30% das roupas que chegam são boas para a revenda, dizem executivos do setor. O resto é desmontado. Botões, zíperes e fechos são reaproveitados. O tecido é cortado em trapos para serem usados em fábricas e oficinas. Partes que não servem nem para serem usadas como trapos são transformadas em fibras, que são tratadas para a produção de fios. O fio, por sua vez, é usado na fabricação de cobertores baratos para organizações de ajuda humanitária.

Há sinais de que esse sistema de reciclagem global está começando a enfrentar dificuldades. Os preços baixos do petróleo e a desaceleração da demanda chinesa tornaram cobertores novos de acrílico mais baratos do que os feitos com material reciclado.

O custo da roupa usada caiu entre 30% e 50% em relação ao ano passado, diz Sajdeh, da Texool. Estoques estão aumentando de Kandla ao Canadá e algumas empresas de reciclagem fecharam as portas no Reino Unido e outros lugares, diz Alan Wheeler, diretor da Associação de Reciclagem de Tecidos do Reino Unido. “Há uma necessidade óbvia de novos mercados para o crescimento da reciclagem”, diz ele.

Fonte – Eric Bellman, The Wall Street Journal de 28 de junho de 2016

Imagem – Allison Joyce

Famílias brasileiras desperdiçam até R$ 171 por mês em alimentos

desperdicio-de-comida-Ribeirão-Preto-Reaproveitamento de alimentos que seriam desperdiçados - Feira na região central de Ribeirão Preto - Tomates desperdiçados jogados na rua durante a feira (Foto: Pierre Duarte/Ed. Globo)

O desperdício de alimento é algo que vem sendo combatido no Brasil (Foto: Pierre Duarte/Ed. Globo)

Conclusão é de uma estudo realizado por analista da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa)

Cerca de 20% do arroz que chega à casa do consumidor da classe média baixa brasileira vai parar no lixo. A conclusão é de uma estudo realizado por Gustavo Porpino, analista da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). No trabalho, ele também estimou perdas consideráveis de feijão, verduras, legumes, pão e macarrão.

As perdas de alimentos no Brasil na lavoura, transporte, armazenagem e comercialização vêm sendo combatidas nos últimos anos por agricultores, associações, entidades, empresas e governos.

Apesar dos avanços, segundo estimativas de 2015 da FAO (Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura), 30% dos alimentos produzidos na América Latina ainda se perdem antes de chegar ao consumidor final.

A pesquisa recém-saída do forno, no entanto, aborda um aspecto pouco estudado: o desperdício de alimentos na ponta final da cadeia, ou seja, na casa das famílias brasileiras.

Após ver, várias vezes, na feira da Rua Caiowá, no bairro Sumarezinho, em São Paulo, montanhas de alimentos ainda próprios para consumo, mas impróprios para comercialização, virarem lixo no dia seguinte, Porpino decidiu pesquisar, para sua tese de doutorado na FGV, o comportamento dos consumidores das famílias da classe média baixa, que representam a maior fatia da população brasileira, em contraponto à ideia de que apenas os abastados esbanjam à mesa. Descobriu que, embora com poucos recursos, as famílias desperdiçam muito alimento todos os dias. Ou seja, jogam dinheiro no lixo.

Estimativas do Instituto Akatu, que há 15 anos trabalha com ações de incentivo ao consumo consciente, indicam que, em média, o brasileiro desperdiça 205 gramas de alimento por dia e cada família (de 3,3 integrantes, segundo o padrão do IBGE) manda para o lixo todo mês R$ 171 em alimentos. Enquanto isso, a Escala Brasileira de Insegurança Alimentar do IBGE aponta que cerca de 22,6% das famílias ainda são subalimentadas no Brasil, sendo que 3,2% dos domicílios enfrentam situação de fome (eram 7% em 2004).

As fases mais críticas do desperdício, segundo a pesquisa da Embrapa, ocorrem antes do preparo do alimento e no armazenamento pós-preparo. “Questões culturais influenciam o desperdício, por falta de planejamento na compra, preparo abundante e descarte das sobras das refeições”, diz Porpino.

Destino das sobras

Na hora do preparo, a dona de casa tende a exagerar, aliando dois hábitos brasileiros: fartura e hospitalidade. “Sempre pode chegar alguém” e “melhor sobrar do que faltar” são frases que Porpino ouviu aos montes. Depois, vem o principal problema identificado pelo analista: o preconceito contra as sobras.

“As famílias não acham legal aproveitar as sobras. Muitas mulheres me disseram que o marido não gosta do que chamam de ‘comida dormida’ e que o arroz tem de ser sempre fresquinho”, diz Porpino.

E o descarte não é só lixo; alguns destinam as sobras para os cachorros e gatos, mesmo que sejam os dos vizinhos ou da rua. E quem guarda o que sobrou, na maioria das vezes, usa recipientes inadequados e faz o que o analista chama de “procrastinação das sobras”. Ou seja, a comida é “esquecida” alguns dias na geladeira, geralmente em potes de margarina até sem tampa, para reduzir o sentimento de culpa. Mas, depois, o destino é mesmo o lixo.

“Embora a pesquisa tenha sido qualitativa, a partir das minhas observações, estimei que em torno de 20% do arroz preparado não é consumido. Quase a metade das famílias citou ter desperdiçado também feijão ao longo da semana e 38% reportaram ter desperdiçado tanto arroz quanto feijão”, disse o analista da Embrapa.

A pesquisa foi feita em campo com 20 famílias de Itaquaquecetuba, município da Zona Leste que tem a menor renda per capita (R$ 750) da Grande São Paulo, e com dez famílias de baixa renda de Itapoã, no entorno de Brasília. O analista também pesquisou 20 famílias de cinco localidades no condado de Tompkins, Nova York (EUA), que estão inseridas em programas de suplementação alimentar. O objetivo era estabelecer as diferenças entre os consumidores de baixa rendados dois países.

Descobriu-se que o comportamento de desperdício é semelhante, mas as mães americanas têm mais tendência de usar comidas processadas em vez de cozinhar do zero. Além disso, exageram na quantidade (30%), enchem os filhos e a família de guloseimas para mostrar carinho (20%), o que acaba elevando o volume de sobras das refeições, e têm mais sentimento de culpa do que as brasileiras por não aproveitar as sobras (20%).

No Brasil, 40% são desperdiçadoras de sobras e 25%, ao contrário, são versáteis, ou seja, desperdiçam menos porque reinventam pratos a partir das sobras e veem menos problemas em servir alimentos preparados anteriormente.

Gabriela Yamaguchi, gerente de comunicação e campanhas do Instituto Akatu, que trabalha há 15 anos promovendo ações de incentivo ao consumo consciente, diz que os resultados não surpreendem quem trabalha na área. Em outubro do ano passado, o instituto lançou uma pesquisa sobre os caminhos para estilos sustentáveis de vida.

“Identificamos que a adoção de práticas sustentáveis, como o consumo consciente de alimentos, não parece estar relacionada a ser mais jovem ou mais velho, rico ou pobre, homem ou mulher, mas sim à crença em uma visão de mundo que se traduz em práticas sustentáveis no cotidiano. São os valores adotados e compartilhados por essas pessoas que provocam a mudança”, diz ela.

Consumo consciente

Gabriela e Porpino citam várias ações que podem mudar o mapa das perdas de alimento no início da cadeia produtiva e o desperdício no final. A mais importante é conscientizar a população sobre o valor dos alimentos e da alimentação saudável. Eles sugerem a realização de campanhas que atinjam todo o país, como foi a do cinto de segurança ou a do Zé Gotinha.

“Precisamos de campanhas com personagens inspiradoras, admiradas e que sejam referência para vários tipos de público. Elas devem mostrar que aproveitar ao máximo os alimentos e as sobras não é vergonha. As pessoas têm de se conscientizar de que todo alimento que jogamos fora leva junto água, energia, tempo e trabalho usados para produzir essa comida, além do nosso dinheiro”, diz Gabriela. O Ikatu acrescenta que é necessário colocar o assunto no currículo escolar.

A aprovação da Lei do Bom Samaritano, projeto que está parado no Congresso desde 2005 e que isenta o varejista de problemas ao doar produtos próximos do final da validade para o Banco de Alimentos, é outro item necessário para a mudança, segundo Porpino, assim como alinhar os programas de combate à insegurança alimentar, como o Bolsa Família, a iniciativas de educação nutricional.

Fonte – Globo Rural de 07 de março de 2016

Pesquisa identifica fatores de desperdício de alimentos em famílias de baixa renda

Estudo da Embrapa, Fundação Getúlio Vargas (FGV) e Universidade de Cornell, nos Estados Unidos, identificou que a preferência das famílias brasileiras pela abundância de comida aliada à aversão pelo consumo das sobras das refeições gera desperdício de alimento e impacta negativamente nas tentativas de economizar nos gastos com alimentação. A pesquisa, publicada na edição de maio do International Journal of Consumer Studies , mostra que o hábito de comprar alimento em excesso e a conservação inapropriada são geradores de desperdício de comida em populações de baixa renda.

A pesquisa, liderada pelo analista da Embrapa Gustavo Porpino, doutorando pela FGV e pesquisador visitante do Cornell Food and Brand Lab, envolveu 20 famílias de baixa renda da zona Leste de São Paulo e fez parte de um projeto maior com coleta de dados também nos Estados Unidos. Porpino e os coautores Juracy Parente, da FGV, e Brian Wansink, professor da Universidade de Cornell, mostram evidências de que o desperdício de alimento também é um problema bastante presente em residências com orçamento familiar restrito. “Alguns fatores que levam ao desperdício de alimento nas famílias brasileiras são culturais, como gostar de preparar e servir comida em abundância e não desejar reaproveitar as sobras das refeições”, explica Porpino.

Uma tendência identificada na pesquisa é guardar sobras na geladeira, mas sem serem consumidas mais tarde. Às vezes, é simplesmente um mecanismo para mitigar a culpa imediata associada com o desperdício de alimentos.

Até recentemente, associava-se o desperdício de alimentos a famílias com mais recursos. No entanto, os estudos encontraram evidências, tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil, de que as famílias de baixa renda também desperdiçam quantidade considerável de alimentos.

No contexto de baixa renda, os autores salientam que estratégias tomadas pelas mães para economizar no orçamento com alimentação, como a preferência por embalagens de 5 kg, compra no atacado, a compra mensal abundante após receber o salário e o preparo diário da comida em casa, terminam por aumentar o desperdício sem economizar o que se pretendia. É o que o autor do estudo chamou de “paradoxo do desperdício de alimentos”, por causa das limitações financeiras enfrentadas por essas famílias mais carentes.

Em geral, os cinco principais comportamentos que levam ao desperdício de alimentos foram identificados na pesquisa: compra excessiva, preparo abundante, vontade de alimentar um animal de estimação, sobras não aproveitadas e conservação de alimentos inadequada.

Muitos dos fatores que ocasionam o desperdício de alimentos podem facilmente ser evitados com simples mudanças na compra de alimentos, preparação e armazenagem. “Do ponto de vista do comportamento do consumidor, faltam no Brasil iniciativas nacionais de educação nutricional. Os programas de enfrentamento da insegurança alimentar, como o Bolsa Família, que têm obtido bons resultados no combate à fome, podem alinhar-se mais à educação nutricional. Ainda nos falta essa capacidade de integrar políticas públicas para alcançarmos resultados melhores. Por fim, e para alcançar a sociedade, podemos usar campanhas educativas.”, explica Porpino.

Especialistas se reúnem para reduzir perdas e desperdícios de alimentos no Brasil e América Latina

A redução das perdas e desperdícios de alimentos é uma das frentes de atuação do Plano de Ação da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac) 2025 para a Segurança Alimentar, Nutrição e Erradicação da Fome. O Plano, desenvolvido e executado com o apoio da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), está sendo estruturado em torno dos pilares da Segurança Alimentar e Nutricional. Visa contribuir para a obtenção de resultados que garantam melhorias significativas na qualidade de vida das populações, proporcionando o direito à alimentação aos setores em situação de fome e vulnerabilidade.

Recentemente, a FAO publicou o Segundo Boletim de Perdas e Desperdícios de Alimentos da América Latina , a partir das contribuições de especialistas do grupo de trabalho do qual Murillo Freire, pesquisador da Embrapa Agroindústria de Alimentos, é integrante. O documento apresenta ações desenvolvidas na América Latina e Caribe para a redução de perdas e desperdícios de alimentos na região.

Um esforço complementar tem sido realizado pela Embrapa com a implantação do observatório de tendências sobre “Redução de perdas pós-colheita de frutas e hortaliças no Brasil”, ligado ao Sistema de Inteligência Estratégica da Embrapa (Agropensa). O instrumento vai reunir especialistas internos e externos para prospectar desafios tecnológicos e mercadológicos, além de qualificar e quantificar as demandas por novos conhecimentos e tecnologias. Deve capturar e prospectar tendências, identificar futuros possíveis e elaborar cenários que permitam à agropecuária brasileira melhor se preparar diante de potenciais desafios e oportunidades ligadas à redução de perdas na pós-colheita de alimentos.

A Embrapa Agroindústria de Alimentos também vem conduzindo uma série de eventos sobre Segurança Alimentar e Nutricional. A Oficina “Redução de Perdas e Desperdícios e Segurança Alimentar e Nutricional”, que ocorreu no final de abril, aprofundou o debate sobre esse tema. O evento contou com a presença de mais de 60 pessoas de instituições públicas, privadas e do terceiro setor interessadas em abordar possíveis soluções para reduzir perdas e desperdícios de alimentos no Brasil.

Pela complexidade e múltiplos atores envolvidos, foi consenso entre os participantes que a abordagem para a solução dessa questão deve ser multidisciplinar e interinstitucional.

O primeiro passo seria a elaboração de um diagnóstico mais recente sobre a questão de perdas e desperdício de alimentos no Brasil a ser realizado por instituições governamentais para a proposição de novas políticas públicas. Outra solução levantada foi o aproveitamento integral dos alimentos, inclusive daqueles fora do padrão de consumo, com a integração das práticas de pós-colheita, de processamento de alimentos e de aproveitamento de coprodutos, para geração de renda e agregação de valor à produção. A capacitação do produtor em boas práticas de manipulação e de transporte e a utilização de restos de comida para compostagem de hortas em áreas públicas e privadas também foram apontados pelos participantes.

Fonte – Aline Bastos, Embrapa de 17 de junho de 2016

Documentário – Muito além do peso

Pela primeira vez na história da raça humana, crianças apresentam sintomas de doenças de adultos. Problemas de coração, respiração, depressão e diabetes tipo 2. Todos têm em sua base a obesidade. O documentário discute por que 33% das crianças brasileiras pesam mais do que deviam. As respostas envolvem o governo, os pais, as escolas e a publicidade. Com histórias reais e alarmantes, o filme promove uma discussão sobre a obesidade infantil no Brasil e no mundo.

Muito Além do Peso, 2012
Direção Estela Renner
Produção Estela Renner, Luana Lobo e Marcos Nisti
Maria Farinha Filmes