Tudo que você precisa é menos

Isabel Alves saía sempre exausta do trabalho em um escritório de moda em São Paulo. Para piorar, o trânsito infernal da capital paulista deixava a volta para casa ainda mais desgastante. Mas ela tinha uma solução para compensar todo aquele estresse: sempre comprava um presente para si própria. “A gente trabalha tanto, enfrenta congestionamento. Sentia a necessidade de mostrar para mim que aquilo tudo estava valendo a pena”, recorda.

Comprava roupas, maquiagem, sapatos ou qualquer comida muito gostosa. Mas esse tempo ficou para trás. Não que tenha sido fácil. Desde a adolescência, Alves nunca havia pensado em frear seus gastos: os pais haviam passado por uma crise durante sua infância e, quando o dinheiro deixou de ser problema, eles compensaram aqueles dias difíceis com muitos mimos.

Torrar dinheiro, afinal de contas, é uma delícia: libera uma boa dose de dopamina, a famosa substância química de prazer e bem-estar. Pesquisadores britânicos da Neuroco, uma empresa de neuromarketing, monitoraram os impulsos nervosos de voluntários durante um passeio no shopping. E, sem surpresas, quando essas pessoas compravam algo, o sistema dopaminérgico brilhava muito mais.

A hipótese dos cientistas é que nosso organismo guarda resquícios da memória de uma época de vacas magras, quando o ser humano dependia da caça e da coleta. Sem um supermercado repleto de produtos nas prateleiras, aqueles tempos ensinaram ao nosso corpo que o melhor a fazer é consumir e acumular uma reserva de gordura para os dias difíceis — nunca se sabia quando aqueles recursos estariam à disposição novamente. E essa regra influencia nosso comportamento até hoje.

Só que o tempo de escassez acabou. Ou melhor, acabou para alguns: os 795 milhões de pessoas no planeta que ainda passam fome não sabem o que é viver com abundância de recursos e, claro, não têm a menor chance de acumular nada, nem comida. Enquanto isso, a parcela endinheirada da população continua a reproduzir nosso instinto primitivo e consome quase todas as coisas produzidas no mundo.

De acordo com o Banco Mundial, os mais ricos, 20% da população global, abocanham 76,6% dos produtos. Já a classe média, 60%, consome 20% de tudo o que é produzido. O resto fica na (ínfima) conta dos mais pobres.

Nesse ritmo de acumulação e consumo, caminhamos para um desastre. A cada ano, a humanidade precisa de 1,7 planeta para se recuperar do uso excessivo de seus recursos naturais e da poluição causada por ela mesma, como revelam os cálculos da Global Footprint Network, responsável por avaliar os impactos ambientais gerados por alguns países. Uma conta que, definitivamente, não fecha.

Para Isabel Alves, a percepção desse problema ficou clara em 2015, quando viajou para Hamburgo, na Alemanha, e assistiu a uma palestra sobre moda sustentável. Depois do evento, a jovem decidiu mudar seus hábitos de compra. “Mostraram um vídeo com a quantidade de roupa descartada por ano, com a exploração das pessoas nessa cadeia de produção — quanto recebem por cada peça, quanto tempo trabalham”, lembra.

Ela ficou tão chocada com aquela realidade que colocou uma ideia na cabeça: passar um ano inteiro sem comprar coisas novas. Redescobriu peças pouco ou nunca utilizadas no guarda-roupa, acessórios e itens de maquiagem intocados.

E encontrou, enfim, seu próprio estilo. A designer de moda cortou também o consumo de carne, abriu um brechó virtual, trocou produtos de limpeza por opções naturais e passou a se preocupar mais com o lixo produzido. Foi uma revolução. E, um ano depois, a mudança em sua vida era irreversível.

Alves faz parte de um grupo de pessoas que cortou os excessos. É o que chamam de minimalismo ou simplicidade voluntária. Não se trata apenas de viver em uma casa pequena, com poucos móveis. O que interessa é a mudanças de valores — o desapego às coisas materiais — no ritmo que cabe a cada um.

“Alguns se importam com o meio ambiente, outros com o estresse causado por seus empregos. Outros buscam uma vida mais espiritualizada ou querem mais tempo com a família. Não existe uma motivação padrão”, afirma o psicólogo Tim Kasser, do Knox College, nos Estados Unidos, e autor do livro The High Price of Materialism (em tradução livre, O Alto Preço do Materialismo — editora Bradford Book, 195 páginas, R$ 80, sem edição no Brasil).

“A única certeza que se tem nessa sociedade cheia de opções é que, se há dez produtos e você escolhe apenas um, você perdeu os outros nove. E aí algumas pessoas escolhem as dez coisas. São obesos do desejo”, diz o psicanalista Jorge Forbes, autor de Você Quer o que Deseja? (Editora Best-Seller, 212 páginas, R$ 34,90). “Até que um dia a pessoa descobre que é muito pouco criativo ser consumista e muito covarde diante da subjetividade do desejo humano — quando você compra tudo, abre mão da sua escolha.”

No Brasil, uma das discussões mais recentes sobre essa tendência aconteceu nas redes sociais. Participante da edição 2017 do programa MasterChef, a pequisadora Caroline Martins foi criticada pelos internautas por sempre aparecer com as mesmas peças de roupas.

A resposta dela foi clara: “Eu vivia cheia de dívidas. Me desprender do consumismo excessivo foi uma das minhas melhores decisões. Então, coleguinhas que me perguntam, a resposta é: Sim! Só tenho estas roupas! E sim, só tenho duas botinhas! Com muito orgulho!”.

Não é uma apologia à pobreza, mas sim à sobriedade, como disse o ex-presidente do Uruguai Pepe Mujica no documentário Humano. Nas palavras dele: “Quando eu compro algo, ou você, não se paga com dinheiro. Pagamos com o tempo de vida que tivemos de gastar para ter aquele dinheiro. Mas tem um detalhe: a única coisa que não se compra é a vida. A vida se gasta. E é lamentável desperdiçar a vida para perder a liberdade”.

Fonte – Reportagem Carol Castro, edição Thiago Tanji, design João Pedro Brito, Galileu de 24 de agosto de 2017

Mensagens publicitárias atuam como instrumento de controle

“Já é hora de dormir / não espere mamãe mandar”: o jingle dos Cobertores Parayba foi desenvolvido para um comercial de TV da década de 1960 e era exibido todos os dias às 21 horas – Foto: Divulgação

Andar na moda, seguir as celebridades em suas atitudes e reações, padrões de beleza e de vida revelam os verdadeiros objetivos das mensagens publicitárias, os quais estão longe de apenas comunicar e vender. Muitas vezes você pensa que escolhe suas roupas, o que vai comer, o que vai estudar, o que vai ensinar aos seus filhos, mas não se surpreenda em saber que suas escolhas são direcionadas pelo poder e penetração das mídias massivas, que exercem quase uma ditadura por meio da linguagem publicitária que atua sobre os indivíduos desde a mais tenra idade: “criança, durma agora, ‘não espere mamãe mandar. Um bom sono para você e um alegre despertar’”. Izabela Domingues, no artigo da revista Estudos Semióticos, procura entender como a publicidade agiu ao longo do século 20 sobre os corpos e mentes dos consumidores e cidadãos, moldando hábitos e condutas, no controle de posturas e modos de vida.

Tendo como característica a disciplina, a sociedade de hoje “é subordinada ao comando do capital e do Estado, tendendo, gradualmente, mas com uma continuidade inevitável, a ser governada apenas pelo critério da produção” e vive-se, de acordo com Domingues, sob ordens, mensagens subliminares que impõem disciplina aos sujeitos “a partir da identidade ou identificação, pelo adestramento, ou ainda, apelo ao risco ou medo”. A publicidade é vista pela autora como o avesso da democracia, um instrumento disciplinar, que atua no inconsciente, em constante vigilância.

A publicidade é vista pela autora como o avesso da democracia, um instrumento disciplinar, que atua no inconsciente, em constante vigilância. Foto: Future of Life Institute

A publicidade nos meios massivos operam de maneira quase imperceptível aos sujeitos que não têm consciência de estarem sendo induzidos a corrigir, a retirar as ditas imperfeições de seu próprio corpo, “submetido, utilizado, transformado e aperfeiçoado, em um ato de submissão”, de acordo com a noção de docilidade atribuída pelo filósofo e pensador Michel Foucault. As mídias buscam controlar o que é bom para os indivíduos em relação ao trabalho, ao lazer, ao amor e ao sexo.

A autora observa a questão do “sequestro das subjetividades” pela publicidade, a exercer uma pressão oculta nas pessoas, subliminarmente, traduzindo aspirações sociais dominantes, como a valorização do status no grupo social. A publicidade é mestra em criar estratégias para buscar estabelecer vínculos de identificação entre consumidores e marcas, torna-se uma aliada da docilização dos sujeitos já nos primeiros anos de vida, na regulação contínua, uniforme e estável do sujeito em todos os setores de sua vida, com vistas à produtividade e boa conduta social ao longo de toda a sua existência.

A disciplina manipula indivíduos como objetos – é o que a autora nos mostra no exemplo da propaganda dos cobertores Parahyba, veiculada no horário de encerramento da transmissão de um canal de TV nos anos 1960, com o intuito de forçar as crianças a desligarem a televisão, irem para a cama e enrolarem-se nos propalados cobertores, pois “Já é hora de dormir, não espere mamãe mandar. Um bom sono pra você e um alegre despertar”, ou seja, a publicidade ensina a autodisciplina, na contenção de vontades e desejos infantis.

A partir do final da década de 1970, com a revolução tecnológica e a globalização da produção, o homem contemporâneo está sempre com medo, competindo, inseguro do futuro em todas as áreas. “O sujeito urbano torna-se alvo de maior vigilância e controle por parte do poder público, mas também por parte da iniciativa privada que cria, como diferencial de mercado, produtos e serviços de segurança diversificados.” Para Domingues, é preciso derrubar o muro, acordar, pois as mudanças virão com a postura crítica de cada indivíduo, cada cidadão, na medida em que nos libertarmos, rompendo padrões impostos, despadronizando-nos, na coragem de sermos nós mesmos, e “dar passagem aos fluxos dos desejos, fabricando nossas singularidades”, desvinculando-nos das armadilhas da mídia.

Izabela Domingues é doutora e mestre em Comunicação Social pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), professora do Núcleo de Design e Comunicação do CAA/UFPE, pesquisadora da Rede Latinoamericana de Estudos sobre Vigilância, Tecnologia e Sociedade – LAVITS (Unicamp/CNPq) e do grupo de pesquisa Publicidade nas Novas Mídias e Narrativas do Consumo (UFPE/CNPq).

DOMINGUES, Izabela. Não espere mamãe mandar: a publicidade disciplinar e a linguagem publicitária no século XX. Estudos Semióticos, São Paulo, v. 12, n. 2, p. 58-65, dez. 2016. ISSN: 1980-4016. Disponível em: <http://www.revistas.usp.br/esse/article/view/127624>. Acesso em: 23/03/2017.

Fonte – Margareth Artur / Jornal da USP de 24 de maio de 2017

Qual é a indústria que mais polui o meio ambiente depois do setor do petróleo?

Homem vestindo-se Mesmo fibras naturais como o algodão tem forte impacto ambiental. THINKSTOCK

É fácil citar a indústria do petróleo como principal vilã da poluição. Mas poucos talvez saibam que o segundo lugar nesse ranking pertence à indústria da moda.

Se você veste calças ou malhas de poliéster, por exemplo, fique sabendo que a fibra sintética mais usada na indústria têxtil em todo o mundo não apenas requer, segundo especialistas, 70 milhões de barris de petróleo todos os anos, como demora mais de 200 anos para se decompor.

A viscose, outra fibra artificial, mas feita de celulose, exige a derrubada de 70 milhões de árvores todos os anos.

E, apesar de natural, o algodão é a uma fibra cujo cultivo é o que mais demanda o uso de substâncias tóxicas em seu cultivo no mundo – 24% de todos os inseticidas e 11% de todo os pesticidas, com óbvios impactos no solo e na água.

Nem mesmo o algodão orgânico escapa: uma simples camiseta necessitou de mais de 2.700 litros de água para ser confeccionada.

Mulheres passam em frente a uma vitrine em ParisA indústria da moda é uma das mais poluentes do mundo. GETTY IMAGES

Usar e jogar fora

Mas talvez o maior dano causado pela indústria da moda seja a tendência da “moda rápida”, marcada especialmente pelos preços baixos. O consumo multiplica os problemas ambientais.

“O custo da ‘moda rápida’: Uma peça de roupa que usamos menos de 5 vezes e jogamos fora após 1 mês produz mais 400% de emissões de carbono que uma usada 50 vezes e mantida por 1 año”. Fonte: HBS

Brasileiro trabalha, em média, mais de 25 dias para comprar um smartphone

O Instituto Akatu calculou quanto tempo o brasileiro de renda média precisa trabalhar para comprar alguns itens; objetivo é conscientizar sobre a importância de evitar compras por impulso e desnecessárias

Na hora de comprar um produto, você já parou para pensar em quanto tempo trabalhou para ganhar o dinheiro para pagá-lo? Essa reflexão ajuda a perceber que uma compra por impulso de um produto, que muitas vezes vai para o lixo ou fica encostado, representa não é só um gasto inútil de dinheiro e de recursos naturais, mas também de um precioso tempo de vida.

O brasileiro trabalha, em média, 1737 horas por ano, mais que o japonês (1729 horas), o canadense (1703 horas) e o italiano (1719 horas). Isso corresponde a 20% do tempo total de vida de uma pessoa em um ano – sem contar o tempo gasto no deslocamento entre a casa e o local de trabalho. Por isso, no Dia Internacional do Trabalhador (1/5), o Instituto Akatu calculou o tempo de trabalho gasto pelo brasileiro de renda média para comprar alguns itens.

Para comprar um tênis que custa R$ 200, por exemplo, o brasileiro de renda média precisa trabalhar 25 horas e 48 minutos, ou seja, mais de 3 dias (veja abaixo como fizemos esse cálculo). A compra de um cosmético de R$ 20, como um creme hidratante ou um xampu, exige que um brasileiro de renda média trabalhe 2 horas e 15 minutos. Isso traz para a consciência o fato dessas compras representarem, na verdade, a entrega de um tempo de vida em troca de um produto.

Assim, se as compras foram motivadas por um impulso momentâneo ou se os produtos ficarem encostados no fundo do armário, o tempo gasto de vida para sua compra foi, na verdade, jogado fora. Este comportamento não é raro: mais de um terço dos consumidores (33%) no Brasil compram sem necessidade, motivados por promoções, de acordo com um levantamento do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil) e pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL). Nas classes C, D e E, esse percentual sobe para 35%. Outra pesquisa do SPC, divulgada em 2015, revelou que mais da metade dos consumidores brasileiros (53%) admitem ter realizado pelo menos uma compra por impulso nos últimos três meses*.

Até mesmo a feira da semana, se não for bem planejada, pode resultar em uma compra em excesso, que pode levar parte do alimento a estragar antes de ser ingerido. Por exemplo, se uma compra mal planejada deixa apodrecer 1 quilo de bananas compradas por R$ 5, se terá jogado fora não só o dinheiro, que custou 40 minutos de trabalho de um brasileiro de renda média – mas também os recursos naturais usados na produção, como a água consumida para cultivar a fruta. Para se ter uma ideia, são gastos 790 litros de água para produzir 1 quilo de banana, na estimativa da ONG Water Footprint.

Um outro exemplo tem a ver com a troca de celular que ocorre a cada um ano e um mês para a média dos brasileiros, segundo um levantamento feito por um fabricante de celulares em 2015. Para comprar um smartphone de R$ 1.500, um brasileiro de renda média trabalha 193 horas ou 25 dias e meio de trabalho. Para a quase totalidade das pessoas, não há como evitar o uso de tempo para ganhar dinheiro para adquirir bens de consumo que são úteis e necessários.

Por isso, nesse processo, é importante avaliar o quanto somos induzidos pela publicidade a fazer uma troca de um equipamento eletrônico, com a promessa de ficarmos mais eficientes e “modernos”, sem que tal troca seja realmente necessária. Por isso, antes de fazer uma compra, pense nas seguintes perguntas: por que comprar? Eu preciso mesmo disso ou estou sendo seduzido por promoções e anúncios? Além de levar em consideração os limites do planeta – afinal, os recursos naturais dos quais dependemos são finitos – é essencial que as pessoas reflitam sobre o que é importante na vida delas e como vão usar o seu tempo. Na correria do dia a dia, é importante encontrar um jeito de avaliar se a nossa rotina reflete as nossas prioridades e valores, se estamos aplicando nosso tempo no que realmente é importante para nós. Aquilo que eu gosto de fazer, que me faz feliz, está no meu cotidiano ou nos meus planos? Estou usando bem o tempo que dediquei ao trabalho, buscando comprar o que eu realmente necessito?

É verdade que muitas pessoas não tem a opção de trabalhar menos horas por dia, caso decidam consumir menos. Isso não quer dizer que devem usar o dinheiro ganho no trabalho para comprar o que não necessitam. Mas, sim que, quem consome menos, tem a oportunidade de colocar recursos na poupança ou em uma previdência privada, o que trará uma maior tranquilidade futura, por exemplo.

E caso haja a possibilidade de trabalhar menos tempo, é interessante que cada pessoa tenha consciência do que fazer com o seu tempo livre. Passar mais tempo ao lado da família e dos amigos, por exemplo, pode ser mais importante do que a compra de presentes para essas mesmas pessoas. Ter uma experiência inesquecível, como uma viagem ao lado de uma pessoa especial, pode ser mais gratificante e trazer mais felicidade do que comprar um bem que impressione os conhecidos. É bom lembrar que o que precisamos nem sempre é material.

Como calculamos

Dois números foram considerados como base para nossos cálculos de horas trabalhadas pelos brasileiros: segundo o escritório de St. Louis, do Federal Reserve (FED), o banco central americano, a média anual dos brasileiros foi de 1711 horas de trabalho por ano, em 2014. Para a OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), essa média foi de 1763 horas por ano. Fazendo uma média entre essas duas estimativas, chegamos a 1737 horas trabalhadas ao ano, que corresponde a quase 20% do tempo da vida de uma pessoa em um ano. Considerando que um brasileiro trabalha 1737 horas por 11 meses (1 mês de férias), isso significa que trabalha 158 horas por mês. Considerando o rendimento médio mensal dos brasileiros de R$ 1.226 (segundo o IBGE), o ganho por hora é de cerca de R$ 7,75 – valor que foi considerado para fazer os cálculos  acima. Vale considerar que a apresentação desses cálculos tem apenas objetivos didáticos, visando ilustrar o quanto de horas de trabalho uma pessoa dedica para comprar um determinado produto.

Fonte – Instituto Akatu de 28 de abril de 2017

Qual é a indústria que mais polui o meio ambiente depois do setor do petróleo?

Homem vestindo-seMesmo fibras naturais como o algodão tem forte impacto ambiental. THINKSTOCK

É fácil citar a indústria do petróleo como principal vilã da poluição. Mas poucos talvez saibam que o segundo lugar nesse ranking pertence à indústria da moda.

Se você veste calças ou malhas de poliéster, por exemplo, fique sabendo que a fibra sintética mais usada na indústria têxtil em todo o mundo não apenas requer, segundo especialistas, 70 milhões de barris de petróleo todos os anos, como demora mais de 200 anos para se decompor.

A viscose, outra fibra artificial, mas feita de celulose, exige a derrubada de 70 milhões de árvores todos os anos.

E, apesar de natural, o algodão é a uma fibra cujo cultivo é o que mais demanda o uso de substâncias tóxicas em seu cultivo no mundo – 24% de todos os inseticidas e 11% de todo os pesticidas, com óbvios impactos no solo e na água.

Nem mesmo o algodão orgânico escapa: uma simples camiseta necessitou de mais de 2.700 litros de água para ser confeccionada.

Mulheres passam em frente a uma vitrine em ParisA indústria da moda é uma das mais poluentes do mundo. GETTY IMAGES

Usar e jogar fora

Mas talvez o maior dano causado pela indústria da moda seja a tendência da “moda rápida”, marcada especialmente pelos preços baixos. O consumo multiplica os problemas ambientais.

O custo da “moda rápida”

Uma peça de roupa que usamos menos de 5 vezes e jogamos fora após 1 mês produz mais 400% de emissões de carbono que uma usada 50 vezes e mantida por 1 ano. Fonte: HBS

Zygmunt Bauman, “seus netos continuarão pagando os 30 anos da orgia consumista”

Devolver dinheiro para bancos não pode ser solução para crise, pois é sua continuação, revela Bauman em entrevista a Laura Britt e Petros Panayotídis, do Monitor Mercantil.

“A metade do problema é o excessivo consumismo, o esbanjamento que predomina. E é por isso mesmo que nenhum provável partido de poder não promete aos seus eleitores que combaterá o consumismo”, continua o sociólogo polonês, vice-reitor da London School of Economics, que se define um pessimista a curto prazo em relação ao futuro da sociedade.

Monitor Mercantil – A Grécia e o Sul Europeu atravessam uma prolongada crise econômica e são atingidos, incessantemente, por severas medidas de frugalidade. Qual é a opinião do senhor sobre tudo isto que está acontecendo?

Zygmunt Bauman – As medidas são ligadas com os empréstimos que foram solicitados. É importante, contudo, alguém verificar para qual objetivo são utilizados os empréstimos que foram concedidos à Grécia. Se foram utilizados para recapitalização dos bancos, então, simplesmente, alimenta-se a raiz do problema e as políticas de frugalidade continuarão irredutíveis. As crises econômicas destinam-se não com a destruição de riqueza, mas com sua redistribuição. Em cada crise existem sempre alguns que ganham mais dinheiro em detrimento de outros. Nos EUA, por exemplo, após a crise observa-se uma lenta recuperação, mas 93% do Produto Interno Bruto (PIB) adicional criado beneficiou, somente, 1% da população.

M.M.– Em seus livros, o senhor muitas vezes refere-se ao consumismo da atual, pós-nova sociedade. Em que grau existe conciliação entre consumismo e medidas de frugalidade?

Z.B. – Após 1970, existiu uma dominante cultura de poupança e os homens não gastavam dinheiro, a menos que o tivessem ganho anteriormente. Após 1970 e com a colaboração de políticos como Ronald Reagan, Margaret Thatcher e, teóricos com o Milton Friedman (Escola de Chicago), o sistema capitalista percebeu que, havia terreno virgem que poderia ser conquistado. Rosa Luxemburgo foi aquela que havia dito que, ‘o capitalismo rejuvenesce por intermédio de novas regiões virgens’. Mas, previu equivocadamente que, ‘quando o sistema conquistar todas as regiões virgens, desabará’.

Porém, aquilo que não previu era que o capitalismo adquiriria a capacidade de criar, tecnicamente, regiões virgens e apoderar-se delas. E uma destas são os homens que não têm dívidas. Assim, foram inventadas as cartas de crédito. Então, conformou-se uma cultura diferente daquela de poupança. Já agora, poderá alguém gastar o dinheiro que não ganhou ainda.

A fase de grande crescimento econômico, que durou desde os meados da década de 1970 até o início do século XXI baseou-se sobre esta pressão para endividamento. E quando alguém era devedor a reação dos bancos não era como antigamente, de enviarem o encarregado de cobrança, mas, ao contrário, enviavam uma carta muito gentil, com a qual, ofereciam um novo empréstimo, para resgatar o anterior!

Isto prosseguiu durante três décadas até que Bill Clinton (então presidente dos EUA) introduziu os empréstimos hipotecados de alto risco, significando que até os homens que não poderiam cobrir seus gastos poderiam contrair empréstimos habitacionais. Finalmente, esta situação atingiu o inviável e, assim, foi criada a crise financeira. Apesar de tudo isso, a economia capitalista parece resistir. Temos o exemplo do movimento Ocupem Wall Street, o qual atraiu a atenção da mídia internacional. Mas o único lugar em que não foi sentida era a própria Wall Street, a qual continua funcionando com a exatamente mesma forma!

E este é problema. Predomina a ideia no cérebro, também, da senhora Angela Merkel (chanceler alemã) e dos outros políticos, que a única forma é apoiar os bancos para terem condição de concederem mais empréstimos. Mas esta é uma política de andar às cegas, considerando que a região virgem do capitalismo já está esgotada. Quem pudesse endividar-se, já endividou-se! Até, inclusive, os netos de vocês já estão endividados, não resta dúvida nenhuma. Eles – seus netos – continuarão pagando os 30 anos da orgia consumista. E enquanto, no início a região virgem dos homens que endividavam-se resultava gigantescos lucros, gradualmente, esses lucros foram reduzidos e agora são mínimos, de acordo com a lei do desgaste de desempenho. Aquilo que acontece na Grécia agora é que o país investe em fantasmas.

M.M.- Qual é a saída?

Z.B. – Me pedem para responder a uma pergunta, a qual, homens muito inteligentes, como Stiglitz (Joseph, Prêmio Nobel de Economia), têm dificuldade para responderem. É muito difícil serem encontradas soluções radicais. E aquilo que me preocupa, é que, entre as instituições políticas de que dispomos, não existe sequer uma em condição de proporcionar soluções de longo prazo. Todos os governos são submissos às – de acordo com o Dr. R.D.Laing – duplas instituições que, no caso dos governos, para utilizar uma analogia, são constituídas das pressões que recebem. Por um lado para serem reeleitos, devem ouvir as reivindicações do povo – querendo ou sem querer – e prometerem que irão atendê-lo. Por outro, todos os governos – de direita e de esquerda – são incapazes de cumprirem seus compromissos pré-eleitorais, por causa das bolsas de valores e dos bancos.

Por exemplo, quando a senhora Merkel e o senhor Sarkozy (Nicolas, então presidente da França) encontraram-se numa sexta-feira para trocarem idéias sobre o memorando da Grécia, tomaram e também divulgaram algumas decisões que os fizeram tremer durante o fim de semana inteiro até abrirem as bolsas de valores na segunda-feira. Não sei se a opinião do Dr. Laing está certa ou errada com a relação a família, mas julgo que tenho razão quando sustento que vigora no caso dos governos.

O mundo vota por decepção. Temos cada vez mais frequentes alternativas entre direita e esquerda. No âmbito da mesmo crise, o esquerdista Zapatero (José Luis Rordiguez, ex-primeiro-ministro da Espanha) foi derrotado pelo direitista Mariano Rajoy, enquanto, na França, o direitista Sarkozy foi derrotado pelo socialista François Hollande. Isto, exatamente, é o que quero dizer com o termo duplas instituições. Por um lado, a pressão da massa de eleitores e, por outro, o capital mundial, bolsas de valores e investidores que superam (em poder) qualquer governo.

Até, inclusive, os EUA estão superendividados. Imaginem os credores do governo norte-americano (China é o maior) exigirem resgate imediato de dívida. A economia norte-americana despencará num piscar de olhos. Em condições de duplas instituições, tanto na psicologia, quanto na macroeconomia, não existe escape bem-sucedido. Deve ser mudado o sistema inteiro desde os alicerces, e isto demanda tempo.

Sim, precisa-se de solução radical. Qual é a opinião de vocês sobre os movimentos do Sul Europeu? Nós esperamos que os movimentos de base parecem sendo apoiados cada vez mais. É a primeira vez em que na Grécia observam-se semelhanças com os meados da década de 1970, após a queda da ditadura. Existe um ‘cerrar de fileiras’ dos cidadãos e julgamos que isto é um muito bom prenúncio e esperançoso. É a única esperança.

No Diário de um Ano Mau, o escritor sul-africano Coetzee reexamina os princípios básicos que ordenam nosso pensamento, os alicerces de nossa imaginação, que consideram-se fundamentais. Os aceitamos silenciosamente. Kutsi não tem certeza e diz: “Se queremos guerra, teremos guerra. Se queremos paz, podemos adquiri-la. Se decidirmos que as nações devem agir em regime de antagonismos e não de colaboração amigável, isto será feito”.

Consequentemente, qualquer mudança é viável. É questão de vontade política. Em lugar de empresas privadas, podemos ter parcerias. Conforme disse em meu discurso por ocasião de minha nomeação para o cargo de vice-reitor de LSE (London School of Economics), meu tema era análise sociológica do movimento trabalhista britânico. Como desde a sua decadência no final do século XIX consolidou-se e adquiriu poder no século XX. Não aconteceu graças aos bancos e sequer foi financiado por instituições. Mas foi apoiado pela Associação dos Consumidores Rothschild, que foi a primeira associação de consumidores no século XIX. Seus membros decidiram deixar de adquirir das lojas, para não terem que pagar os capitalistas, mas, distribuírem as arrecadações da associação aos seus membros e as comunidades locais.1

Rothschild não era o único, existiam outros, também. Existiam o fundos de ajuda mútua que, com um pagamento mínimo, os membros em caso de dificuldades poderiam contrair empréstimos para não recorrem aos bancos. Estes fundos não eram especuladores. E, consequentemente, não são produtos da imaginação de Kutsi, mas é viável o fato de serem realizadas mudanças. Mas pressupõem revolução em nível de cultura e da forma de pensar. Se, finalmente, a mudança da forma de pensar já começou, é um lento processo a longo prazo que deve derrotar adversários fortíssimos. Assim, quando falamos em soluções, o problema maior não é o que encontraremos, mas, o que é necessário de ser feito. E nisto podemos conseguir conjugação de pontos de vista. A questão é quem o fará.

M.M.– Talvez os cidadãos indignados?

Z.B. – Seguramente, não os partidos políticos de qualquer coloração. E muito menos os governos, que não controlam a economia cujas forças são mundiais. Os Estados, por definição são obrigados a agirem nos âmbitos de fronteiras físicas e institucionais. A economia não ocupa-se mais com o nível local, a legislação da nação, as preferências ou sistema de valores de seus habitantes. Assim que for constatado choque, pegam os laptop, os iPad e iPhones e transferem-se em países como o Bangldesh, onde encontram fácil acesso em mão-de-obra que custa US$ 2 por dia. Existe aquilo que o sociólogo espanhol Manuel Castels denomina ‘espaço dos fluxos’ (space of flows). Milhões de dólares são transferidos, apertando apenas uma tecla no computador. Assim, então, por um lado temos o poder que é liberado do controle político e, por outro, temos a política que, incessantemente, sofre e déficit de poder, de vez que, o poder desaparece no ‘espaço dos fluxos’.

M.M. – O senhor quer dizer que a política é local, enquanto, o poder é mundial…

Z.B. – Exatamente. O mais fraco elo não é a comunidade, a cidade ou qualquer outra forma de localização, mas, o próprio estado, que é preso na armadilha entre dois fogos, da nação por um lado e, dos mercados por outro. E as iniciativas que vocês mencionaram nascem no nível subnacional. As instituições do nível nacional (partidos políticos, governo, parlamento e outros) não podem enfrentar esta dupla pressão. Já os cidadãos, em seu esforço para protegerem-se das consequências destas forças anônimas dos mercados, reagem de forma tradicional, isto é, organizam-se com seus conhecidos, vizinhos e todos aqueles com os quais percebem juntos que a melhoria de seu espaço físico terá repercussão positiva em todos e não é jogo de antagonismo com vencedores e vencidos.

Fala-se muito nestes dias sobre redes sociais…Sabem, enfrento este termo com descrença. As redes sociais estão relacionadas com a comunicação e a comunicação engloba, simultaneamente, a dinâmica da ligação e a dinâmica do desligamento. Prefiro falar sobre comunidade, porque este termo contém o sentido do compromisso, algo que não vigora no caso das redes sociais. Hoje, qualquer um pode ter centenas de amigos em uma rede online e, simplesmente, em algum momento, encerrar a comunicação com alguns, sem ser preciso explicar a razão ou pedir desculpa.

M.M. – Como poderá ocorrer a mudança? Como é possível o sistema do mercado permanecer tão estável em um ambiente de liquidez generalizada, para utilizar os próprios termos do senhor?

Z.B. – Como lhes disse, não vejo alguma autoridade capaz de impor algo diferente e, creio que, para existir passarão décadas, não é algo que surgirá até as próximas eleições. A única solução radical que vejo é a consolidação de uma forma de vida, que tornará o sistema existente fora de uso. Quer dizer, encerrar-se o ceticismo de alguém contrair empréstimo para adquirir automóvel ou em nível de estados, de recorrerem ao endividamento para reduzirem os tributos para os muito ricos e adotar-se uma forma de vida que proporcionará – em algum grau – segurança para todos. Assim, em ambiente semelhante, os especuladores não poderão fazer muito.

M.M.– Quer dizer uma forma anticonsumista de vida?

Z.B. – Exatamente. A metade do problema é o excessivo consumismo, o esbanjamento que predomina. E é por isso mesmo que nenhum provável partido de poder não promete aos seus eleitores que combaterá o consumismo. Não falamos, naturalmente, para frugalidade, mas para mudança da forma de pensar e de forma de vida, com ênfase na satisfação das necessidades e não a satisfação dos consumidores. O mundo, então, não esbanja dinheiro para adquirir diversos gadgets como, por exemplo, você adquirir um novo telefone celular, enquanto o antigo continua funcionando perfeitamente.

M.M.– Qual o senhor considera que será o papel dos intelectuais neste esforço?

Z.B. – O intelectualismo já tornou-se, também, um produto que vende-se e compra-se e isto vale para todos, tanto conservadores, quanto progressistas. Antigamente, vamos dizer na década de 1930, existiam intelectuais com algum sonho, comunista ou até fascista. Hoje, os intelectuais com algum sonho são muito poucos.

M.M.– Esta falta relaciona-se com a forma de ser e a comercialização do conhecimento?

Z.B. – Os processos da comercialização, da desregulação, do individualismo caracterizam todos os lados da atual sociedade. Assim, não existem mais ‘centros de peso’, pontos de encontro e ‘fábricas de solidariedade’. O mundo não tem percebido que vivemos a revolução industrial. Consequentemente, se agora vivemos uma pós-líquida revolução, somente seus filhos deverão conscientizar-se. Tudo é disperso, líquido.

M.M. – Isto é excepcionalmente interessante!

Z.B. – O filósofo greco-francês Cornélios Castoriádis, quando – por motivo de suas posições radicais – foi perguntado se sua meta era mudar o mundo, respondeu: ‘Nem pensar. Nunca passou pela minha cabeça mudar o mundo. Aquilo que desejo é mudar a humanidade por si só, a exemplo de como já se fez tantas e tantas vezes no passado’. Esta é a ótica de homem otimista.

M.M. – O senhor concorda com esta avaliação, em análise final?

Z.B. – Não terei tempo de vê-la, porque será a longo prazo. Contudo, espero que o século XXI será dedicado à religação de poder e política, dentro de uma ação de silogismo e metas comuns. A diferença entre posição otimista e pessimista é, pela minha opinião logicamente equivocada, considerando que esgota todas as possibilidades. Quem é o otimista? Aquele que acredita que o mundo como está aqui e agora, é o melhor possível. Quem é o pessimista? Aquele que pensa de que talvez o otimista tem razão. Existe, também, Castoriádis entre as duas posições, que diz que um outro mundo é viável e espera que, em algum momento, isto será realizado. Quanto a mim, sou pessimista em curto prazo e otimista em longo prazo. Não vejo mudanças radicais muito em breve, mas estou seguro de que estão no programa.

Fonte – Revista Pazes de 18 de outubro de 2016

Vamos mesmo precisar de dois novos planetas para manter o atual estilo de vida da humanidade?

Gettyimages

Diante do atual ritmo de consumo e produção, as Nações Unidas pedem prioridade ao uso racional dos recursos naturais

Se a população global de fato chegar a 9,6 bilhões em 2050, serão necessários quase três planetas Terra para proporcionar os recursos naturais necessários a fim de manter o atual estilo de vida da humanidade. A voracidade com que se consomem tais recursos fez as Nações Unidas incluírem o consumo em sua discussão sobre os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) para 2030.

A meta número 12 dos ODS não poupa os países desenvolvidos nem os em desenvolvimento. Insta todos a diminuir o desperdício de alimentos – um terço deles é jogado fora anualmente –, repensar os subsídios aos combustíveis fósseis e reduzir a quantidade de resíduos lançados sem tratamento no meio ambiente, entre outras tarefas urgentes.

A América Latina e o Caribe têm desafios importantes a cumprir nesses e em outros quesitos. Atualmente, a região joga fora 15% da comida que produz. Conseguiu diminuir de 1% para 0,68% o percentual do Produto Interno Bruto gasto em subsídios para os combustíveis fósseis entre 2013 e 2015, mas alguns países ainda dedicam cerca de 10% do PIB a eles. Finalmente, cada latino-americano produz até 14kg de lixo por dia, dos quais 90% poderiam ser reciclados ou transformados em combustível caso fossem separados por origem.

Conheça a seguir quatro metas de consumo sustentável que valem para a região e para todo o mundo até 2030.

Reduzir à metade o desperdício mundial de alimentos per capita na venda a varejo

Estima-se que a cada ano cerca de um terço dos alimentos produzidos – o equivalente a 1,3 bilhões de toneladas, avaliadas em cerca de US$ 1 trilhão – acaba apodrecendo no lixo dos consumidores ou dos varejistas, ou estraga devido a métodos ineficientes de coleta e transporte. A degradação e queda de fertilidade dos solos, o uso insustentável da água e a pesca excessiva estão reduzindo a quantidade de recursos naturais disponíveis para produção de alimentos. Por isso, é essencial não só pensar em formas de preservar e recuperar tais recursos, mas também de reduzir o desperdício para alimentar as 8,3 bilhões de pessoas que o planeta deverá ter até 2030.

Alcançar uma gestão sustentável e uso eficiente dos recursos naturais

A voracidade com que os recursos naturais estão sendo usados fica clara quando se observam alguns números relativos a consumo de energia. Em 2013, apenas um quinto da energia utilizada no mundo veio de fontes renováveis, como água, vento e luz solar. Todo o resto foi gerado com petróleo, carvão, gás natural e urânio. E quais setores avançam mais rapidamente no consumo de energia? Em primeiro lugar, o de transportes: até 2020, o transporte aéreo global deve triplicar, enquanto as distâncias percorridas pelos carros aumentarão 40%. Já o uso de energia para comércios e residências fica em segundo. A boa notícia é que as medidas para poupar podem facilmente começar dentro de casa. Segundo estimativas dasNações Unidas, se toda a população mundial começasse a usar lâmpadas de baixo consumo, seria possível economizar US$ 120 bilhões anualmente.

” Em 2013, apenas um quinto da energia utilizada no mundo veio de fontes renováveis, como água, vento e luz solar “

Racionalizar os subsídios aos combustíveis fósseis

Segundo o estudo Indicadores de Desenvolvimento Global (WDI), do Banco Mundial, os países mais ricos do mundo são os que mais gastam com subsídios ao petróleo, carvão e gás natural (quase 14% do PIB). Depois, vêm as economias de renda média-baixa, que incluem países da América Central como Guatemala e Nicarágua e gastam em média 11% do PIB com subsídios. Para a ONU, os subsídios ineficientes incentivam o consumo perdulário. Para racionalizá-los – e estimular, portanto, o uso de fontes de energia que impactem menos o meio ambiente –, é preciso adotar medidas que removam as distorções do mercado, como reestruturar os sistemas tributários nacionais, segundo a instituição.

Alcançar uma gestão ambientalmente racional dos produtos químicos ao longo de seu ciclo de vida

Ao incluir essa meta no ODS 12, as Nações Unidas buscam minimizar o impacto dos resíduos químicos tanto na saúde quanto no meio ambiente. A geração de lixo tóxico per capita praticamente dobrou no mundo inteiro entre o fim dos anos 1990 e da década de 2000. Nos países de renda média, como o Brasil, a quantidade subiu de 17kg per capita entre 1996 e 2000 para 42kg entre 2006 e 2011. Mas nem de longe eles são os mais poluentes: os de alta renda, mas que ainda não se uniram à OCDE (a qual exige boas práticas nas políticas públicas), despejaram 981kg de lixo tóxico per capita entre 2006 e 2011.

Outro dado preocupante é que cerca de 200 milhões de pessoas podem ser afetadas pelos resíduos presentes em 3,000 locais em todo o mundo. Para reverter o quadro, a ONU destaca a importância de incentivar indústrias a buscar formas sustentáveis de gerenciar seus resíduos. E, ainda, de estimular os consumidores a reduzir o consumo e reciclar o lixo.

Como se vê, o conceito de consumo vai muito além do simples gesto diário de fazer compras, e torná-lo sustentável passa por uma série de desafios que envolvem toda a sociedade. É uma meta que precisará ser levada cada vez mais a sério para não causar novos danos aos limitados recursos do planeta.

Análise do Banco Mundial, in EcoDebate, 09/09/2016

Economia de acumulação

Humanidade já está usando 30% a mais do limite suportável do planeta
Foto: Ian Britton/Flickr/CC

É preciso estar atento, ao menos, para dois pontos específicos vindos da economia, que atuam no sentido de promover intensa pressão sobre o meio ambiente: 1) a dinâmica do capitalismo industrial é consolidada mediante mais produção e consumo, portanto, mais crescimento econômico; 2) o nível de extração de recursos naturais para “alimentar” o processo produtivo não pode, sob nenhuma circunstância, exceder o de regeneração, uma vez que sua ultrapassagem implica no completo esgotamento da base física que serve de suporte à atividade econômica.

Dito isso, o enunciado a seguir é verossímil: a economia mundial não pode mais “funcionar” – do jeito que vem funcionando – sob o paradigma do crescimento/acumulação. Tal assertiva leva a conclusão de que o desafio colocado à frente, caso haja o interesse em preservar as condições de vida no planeta, é um só: procurar “encaixar” a atividade econômica dentro dos limites ecossistêmicos.

O desrespeito a esses limites, a partir do momento em que a atividade econômica se apropria da natureza, desequilibra o meio ambiente, gerando como “produto final” poluição (veja especialmente o caso chinês, com mais de 700 mil mortes ao ano) e aquecimento global.

A relação produção-consumo-crescimento econômico-emissão de gases de efeito estufa (GEE)-perda ambiental e ecológica está intimamente interligada

Essa é a questão central da crise ambiental. Não por acaso, a humanidade já está usando 30% a mais do limite suportável do planeta – lamentavelmente, já assimilamos o overshoot (transbordamento) com certa naturalidade.

Hoje, são extraídas 60 bilhões de toneladas de recursos anualmente; 30 anos atrás, essa extração não passava de 30 bilhões de toneladas.

Nesses últimos 30 anos de intensa extração de recursos, “conseguimos”, sem muita habilidade, mas com tamanha agressividade, chegar próximo ao esgotamento de 60% dos principais serviços ecossistêmicos; basta atentar para a situação atual dos pesqueiros (das 17 reservas pesqueiras conhecidas, 11 delas possuem taxas de retirada maior do que a capacidade de reposição.

Ainda em relação aos peixes, 75% dos estoques mundiais das espécies mais vendidas no mundo estão no limite da sua capacidade de recuperação ou além desse limite. Entre 1995 e 2005, algumas espécies como o bacalhau, o hadoque, o badejo e o linguado caíram 95% no Atlântico Norte), o encolhimento de florestas (a cada minuto a Terra perde 21 hectares de florestas, equivalente a 42 campos de futebol), a deterioração de pradarias e terras firmes (das terras firmes conhecidas do mundo, 4 bilhões de hectares encontram-se esgotados. Por ano, perde-se mais de 7 milhões de hectares.

São 20 mil hectares por dia, o que equivale a uma superfície diária que corresponde a duas vezes o tamanho de Paris), a contaminação de reservatórios de água, a elevação acintosa dos níveis de dióxido de carbono (a cada minuto 10 mil toneladas de dióxido de carbono são lançadas na atmosfera) e o constante desaparecimento de espécies (defaunação – a União Internacional para a Conservação da Natureza estima que, no mundo, por volta de 11% das espécies de aves, 25% dos mamíferos, 25% dos anfíbios, 20% dos répteis, 34% dos peixes e 12% das plantas estão ameaçadas de desaparecer para sempre nos próximos cem anos).

Portanto, a relação produção-consumo-crescimento econômico-emissão de gases de efeito estufa (GEE)-perda ambiental e ecológica está intimamente interligada.

Sendo a produção econômica termodinâmica – ainda que para os arautos da economia neoclássica isso possa parecer absurdo – simplesmente torna-se impossível dissociar crescimento econômico da emissão de GEE e, evidentemente, do resultado disso tudo: desequilíbrio climático e ambiental.

Agravando mais ainda essa situação, a humanidade parece que redobrou seu voraz apetite pelo consumo de mercadorias (a dinâmica da acumulação capitalista, puxada essencialmente pelos norte-americanos, tem se concentrado na esfera financeira fazendo do crédito e do endividamento familiar elementos fundamentais para a “elevação” do poder aquisitivo), uma vez que, claramente, estamos vivendo na era da economia de acumulação, posto que a produção econômica, nesse último século, “não se baseia no capital do planeta, mas em seu estoque”, para usarmos as palavras da ambientalista francesa Dominique Voynet.

Engolidos pelo consumo, vamos cada vez mais pisando firme no acelerador do crescimento econômico, sem, contudo, nos darmos conta que, logo mais à frente, pela “estrada” em que trafegamos, encontraremos um enorme abismo que sugará a todos, ricos e pobres, desenvolvidos ou emergentes, uma vez que essa “estrada” é a mesma para todos, com um único sentido de direção.

Fonte – Marcus Eduardo de Oliveira é economista e professor de economia da FAC-FITO e do Unifieo, em São Paulo, EcoD de 23 de outubro de 2016

Exploração mundial de matérias-primas triplicou em 40 anos

Em quatro décadas, a humanidade passou a consumir de 22 bilhões a 70 bilhões de toneladas de matéria-prima em todo o mundo

Em quatro décadas, a humanidade passou a consumir de 22 bilhões a 70 bilhões de toneladas de matéria-prima em todo o mundo

O aumento do consumo, alimentado por uma classe média global em crescimento, triplicou a quantidade de matérias-primas extraídas da Terra nas últimas quatro décadas, aponta o novo relatório do Painel Internacional de Recursos (IRP, sigla em inglês) do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma).

“O ritmo alarmante em que estamos extraindo materiais já está tendo um grave impacto sobre a saúde humana e a qualidade de vida das pessoas”, declarou Alicia Bárcena, co-presidente do IRP. “Isso demonstra que os padrões imperantes de produção e consumo são insustentáveis”.

De acordo com o relatório Fluxo de materiais e produtividade dos recursos em escala mundial (em inglês), a quantidade de matéria-prima extraída da Terra passou de 22 bilhões de toneladas em 1970 para 70 bilhões em 2010. Os países mais ricos consomem em média 10 vezes mais materiais que os países mais pobres e duas vezes mais que a média global.

Mantido os padrões atuais de extração e consumo e cumprida a expectativa de crescimento demográfico global neste século, em 2050 precisaríamos extrair mais de 180 bilhões de toneladas de matéria-prima para satisfazer a demanda de nove bilhões de habitantes. Esse montante representa o triplo do consumo atual de matéria-prima e provavelmente elevaria a acidificação e a eutrofização dos solos e da água em todo o mundo, aumentaria a erosão do solo, e produziria maiores volumes de resíduos e mais contaminação tóxica.

“Devemos enfrentar urgentemente este problema, antes que esgotemos de forma irreversível os recursos que impulsionam nossas economias e retiram as pessoas da pobreza. Este problema exige replanejar a governança da extração de recursos naturais com o objetivo de maximizar sua contribuição ao desenvolvimento sustentável em todos os níveis”, defende Bárcena.

Uma dimensão delicada desse aumento no uso de recursos naturais é a dos combustíveis fósseis. O aumento drástico no consumo desses combustíveis resulta na maior concentração de gases de efeito estufa (GEE) na atmosfera terrestre, influenciando diretamente na mudança do clima.

Em escala global, o uso de materiais vem se acelerando desde 2000, na medida em que economias emergentes como China e Índia experimentam transformações industriais e urbanas que requerem grandes quantidades de ferro, aço, cimento, energia e materiais de construção. Em contrapartida, o mundo avançou pouco na eficiência no uso de recursos naturais desde os anos 1990 – na realidade, a eficiência caiu nos últimos 15 anos. Hoje, a economia global requer mais materiais por unidade de Produto Interno Bruto (PIB) do que no começo deste século, pois a produção passou de economias eficientes nesse aspecto (como Japão, Coreia do Sul e países europeus) para economias muito menos eficientes (como China, Índia e Sudeste Asiático). Isto resultou em maior pressão sobre o meio ambiente por unidade de atividade econômica.

Desacoplar o uso de recursos naturais do crescimento econômico é “imperativo da política ambiental moderna, e é essencial para a prosperidade da sociedade humana e um entorno natural saudável”, apontou o IRP no relatório. Esse desacoplamento, fundamental para o sucesso dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS), requer políticas bem desenhadas. Porém, não basta investir em eficiência: para o IRP, é importante que os preços das matérias-primas incorporem os custos sociais e ambientais de sua extração, tanto como um incentivo para reduzir o consumo quanto para financiar pesquisa para setores da economia intensivos no uso desses materiais.

Fonte – Página 22 de 21 de julho de 2016

Fotógrafo coletou imagens do volume de lixo para mostrar quanto desperdício o ser humano pode gerar

Prefira embalagens plásticas recicláveis e biodegradáveis que atendam normas brasileiras da ABNT. Exija sua certificação e selo correspondente impresso.

Para os oxibiodegradáveis a certificação ABNT é a PE-308.01

Para os compostáveis a certificação é a ABNT é a 15448-2:2008

A Photographer Collected Four Years Worth Of Trash To Show Just How Wasteful Humans Can Be

“We’re often told about the quantity of waste we produce, but I think the impact of pictures can be much powerful than words,” Antoine Repessé explains.

In 2011, self-taught photographer Antoine Repessé stopped throwing things away. Along with 200 friends and colleagues, he accumulated around 70 cubic meters (or 18,000 liquid gallons) of recyclable waste. After he filled his flat in France to the brim with toilet rolls, newspapers, water bottles, cans and boxes — he organized a photo shoot.

“We’re often told about the quantity of waste we produce, but I think the impact of pictures can be much powerful than words,” Repessé told The Huffington Post. And so he enlisted friends to pose amongst the heaps of trash that encrusted his floors and stretched up the walls like massive, invincible creatures. The series, titled “#365 Unpacked,” shows the invisible aftermath of our consumerist habits, a disturbing vision of the messes often kept out of sight and out of mind.

The most confounding aspect of Repessé’s project is not the substantial quantity of recyclable waste he and his friends collected themselves. The truly scary part is that many of us would end up with 1,600 milk bottles, 4,800 toilet rolls, and 800 kilograms of newspapers in our homes if we too took the time to acknowledge the materials we waste every day.

“I was interested in how an object can loose its singularity when you don’t use it as something single but as a part of something massive,” the artist said. “If you use the same shape so many times it becomes something very different from what it was before.”

The series is reminiscent of Chris Jordan’s 2004 “Intolerable Beauty: Portraits of American Mass Consumption,“ in which massive dumps of cell phones, crushed cars and circuit boards are framed to resemble dizzying landscapes at once disturbing and beautiful.

“As an American consumer myself, I am in no position to finger wag,” Jordan told The Huffington Post, “but I do know that when we reflect on a difficult question in the absence of an answer, our attention can turn inward, and in that space may exist the possibility of some evolution of thought or action. So my hope is that these photographs can serve as portals to a kind of cultural self-inquiry. It may not be the most comfortable terrain, but I have heard it said that in risking self-awareness, at least we know that we are awake.”

Whether Repessé’s photos leave you dazzled, horrified, or somewhere in between, hopefully they’ll bring you pause the next time you throw out an empty cereal box or soda can, thinking about where the little guys will end up, and just how many friends will be waiting.

Fonte – Priscilla Frank, The Huffington Post

Boletim do Instituto IDEAIS de 07 de julho de 2016

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