Estudo mostra que consumidor sabe pouco sobre a origem do que compra

Estudo mostra que consumidor sabe pouco sobre a origem do que compraNove entre cada dez brasileiros acreditam que um sistema de bem-estar produz uma carne de melhor qualidade. | Foto: iStock by Getty Images

Dois em cada três brasileiros declaram desconhecer a forma como se cria os animais cuja carne é por eles consumida.

A World Animal Protection lançou na semana passada o relatório “Consumo às cegas: percepção do consumidor sobre bem-estar animal na América Latina”. O relatório, confeccionado a partir de pesquisa encomendada à Ipsos, contextualiza a produção e o consumo de proteína animal no Brasil, analisa os principais resultados de uma pesquisa nos quatro países latino-americanos consultados (Brasil, Chile, Colômbia e México) e compila uma série de recomendações e de ações que podem ser tomadas com finalidade de conscientização.

De forma geral, aponta-se que o consumidor latino-americano pouco sabe sobre a origem do que consome. Dois em cada três brasileiros declaram desconhecer a forma como se cria os animais cuja carne é por eles consumida (66% dos respondentes). Esse índice é semelhante nos demais países latino-americanos consultados, variando de 57% dos entrevistados no México, 64% com a mesma resposta no Chile e 66% dos respondentes na Colômbia.

O atributo “produção com bem-estar animal” figura em 6ª posição nos quesitos de exigência dos consumidores entrevistados no Brasil, Chile e no México e sobe para 5º lugar na Colômbia. Isso significa que nesses três países, com exceção da Colômbia, a “marca” é mais importante do que a “produção com bem-estar animal” (ainda que algumas marcas possam estar relacionadas à ideia de bem-estar animal).

Um dos dados mais relevantes encontrados está relacionado aos produtos com selo de bem-estar animal e intenção de compra: um 82% dos brasileiros compraria esses produtos se existissem no mercado. E um 72% compraria apenas esses produtos, sempre que o preço fosse o mesmo que os produtos sem a certificação. Nove entre cada dez brasileiros acreditam que um sistema de bem-estar produz uma carne de melhor qualidade; e jovens de 18 a 29 anos, no geral, têm maior preocupação com os métodos de abate.

carne_vermelha_consumoFoto: iStock by Getty Images

Dos dados coletados, conclui-se que o consumo de proteína animal é alto no Brasil: 68% dos entrevistados consomem carne quatro vezes ao longo da semana. A carne bovina é a favorita, mas frango e ovos são os mais consumidos (possivelmente por conta da acessibilidade ao produto). Quando questionados sobre a importância do bem-estar dos animais de fazenda, apenas 3% respondeu que não era nada importante. Mas, ao mesmo tempo, esses mesmos consumidores sabem muito pouco sobre os métodos de criação dos animais, muitas vezes com uma visão bucólica da situação na década de 50, assim como sobre o bem-estar e como este se aplica aos animais de fazenda.

Os resultados do Brasil elucidam vários aspectos relacionados ao hábito de compra e visão sobre o bem-estar dos animais de fazenda. Fica evidente que, na visão dos brasileiros, o bem-estar dos animais está intimamente relacionado à qualidade do produto. Para eles também o fator mais importante no momento da compra é qualidade, seguido por preço e aparência da carne.

Quando questionadas sobre o valor agregado ao produto oriundo de animais com um bom bem-estar, os entrevistados dizem acreditar que esses seriam mais caros simplesmente por serem mais éticos do que os outros. Sabemos hoje que isso não necessariamente é verdade: é possível produzir com bem-estar sem aumentar o custo de produção.

“Um elo importante desta cadeia é o consumidor, que ainda não descobriu a força que possui para mover o sistema de produção. Faltam educação e conscientização sobre a produção ética e sustentável e sobre a acessibilidade deste tipo de produto”, afirma José Ciocca, Gerente de Campanhas da World Animal Protection do Brasil.

Fonte – CicloVivo de 20 de dezembro de 2016

Comprar roupas está ficando fora de moda no Reino Unido

Uma tendência chamada “Novo Consumismo” está crescendo cada vez mais e fazendo com que as pessoas comprem de forma mais consciente do que antes. Em vez de comprarem roupas, as pessoas no Reino Unido estão preferindo investir em viagens de férias e idas a restaurantes. O lucro das maiores varejistas do país despencou porque suas vendas caíram 4,4% em cinco dos últimos seis meses. As vendas entraram em declínio pela primeira vez em mais de 20 anos.

As maiores lojas da Grã-Bretanha estão sofrendo como resultado. Marks and Spencer , o maior varejista de roupas com 10% do mercado, está cortando postos de trabalho depois de relatar a sua maior queda trimestral em vendas de roupas há mais de uma década, em julho. French Connection não tem reportado aumento do lucro desde 2012. Mesmo algumas das marcas de rua mais famosas parecem estar lutando para enfrentar a pressão da concorrência e fazer constantes descontos.

A rede de lojas John Lewis teve uma queda nos lucros semestrais de 75%, e a rede de fast fashion Primark , cujas lojas de rua são as mais visitadas, informou a primeira queda em vendas em suas lojas no Reino Unido em 16 anos. A empresa culpou o Outono quente no ano passado e a primavera fria deste ano. Segundo uma pesquisa de consumo feita com 15.000 britânicos pela empresa Kantar Worldpanel, os consumidores acreditam que o tempo está se tornando menos previsível, o que significa que eles estão esperando que o frio do inverno ou a onda de calor do verão se materializem antes de comprar qualquer coisa.

Comprar roupas está ficando fora de moda no Reino Unido stylo urbano

Mas essa mudança de consumo de moda acontece em outros países, como a França e os EUA, que estão experimentando uma desaceleração semelhante nas vendas de roupas, embora não tão grande como no Reino Unido, sugerindo que a mudança climática pode ser apenas uma parte do todo. As razões pelas quais a compra de roupas pode estar ficando fora de moda:

• Diante de um clima imprevisível, as pessoas estão esperando para comprar roupas de verão ou inverno até que precisem realmente delas;
• Os clientes agora esperam pelas liquidações antes de comprar para não pagar o preço cheio das peças;
• Desde o lançamento do jeans skinny há dez anos, os varejistas dizem que não houve nenhuma grande tendência varrendo a moda nos últimos anos para forçar os consumidores conscientes a mudarem seus guarda-roupas;
• Os consumidores da Geração Y estão economizando seu dinheiro com experiências, tais como férias ou jantares, em vez de gastá-lo com moda. “A comida é a nova moda. As lojas de varejo podem parecer chatas, ao passo que existem muitos restaurantes com conceitos alimentares inspiradores.”

Mas outro fator importante que poderia estar influenciando essa mudança, é que as pessoas estão cansadas de gastar tanto tempo e dinheiro com coleções de moda que só remixam estilos do passado. Era uma questão de tempo para que os compradores fizessem uma pausa. Em 2016, no Reino Unido, um consumidor médio comprou 60 peças de roupa nova, a primeira queda em sete anos, de acordo com analistas de mercado. Vendas agora acontecem mensalmente, por isso é fácil para os compradores esperarem por pechinchas. Há descontos em abundância.

O consumo de moda está perdendo sua influência sobra a geração Y

É justamente na geração do milênio ou geração Y, que houve uma queda perceptível no consumo de roupas. Os consumidores menores de 25 anos estão comprando menos enquanto as pessoas mais velhas, de 45 a 50 anos, aumentaram a quantidade de gastos com roupas para os seus filhos, filhas e assim por diante. Alguns varejistas têm culpado a indústria da moda. No início deste ano, Richard Hayne, presidente-executivo da Urban Outfitters, disse que a última grande tendência da moda aconteceu há 10 anos com o jeans skinny.

“Desde então nós tivemos todas as variedades de skinny: de cintura baixa a cintura alta, mas hoje, o cliente está com o armário cheio desses modelos skinny. Sem uma nova moda para impulsionar as compras, os clientes podem facilmente adiar seus gastos” disse ele ao site The Independent. Richard Hayne acredita que a moda pode ter “perdido um pouco de sua magia com a geração do milênio.”

Os consumidores de hoje estão reavaliando suas prioridades e questionando o que eles realmente acham que tem valor. Isso se encaixa na tendência crescente de “Novo Consumismo“, um termo cunhado pela empresa de pesquisa Euromonitor para descrever um movimento generalizado que prioriza o consumo conscientes sobre o consumo impulsivo. Há oito principais tendências que compõem o Novo Consumismo:

1) A economia circular (onde tudo é utilizado e nada é desperdiçado)
2) A inovação frugal (significa eliminação de características não essenciais e muitas vezes dispendiosas de um produto ou serviço)
3) Negociação (os consumidores tornaram-se compradores mais inteligentes, não tem vergonha de procurar pechinchas e a tecnologia contribuiu para isso.)
4) A economia de compartilhamento (que liga a oferta e a procura, interrompendo a forma tradicional de condução de negócios)
5) Experiência (a priorização do fazer, ver e sentir sobre o “possuir mais coisas”)
6) Tempo para si próprio (um aumento das tarefas terceirizadas para se ter mais conveniência)
7) Reavaliar a própria utilização do espaço (ou seja, eu realmente preciso viver numa casa grande?)
8) A economia ‘gig’ (caracterizado por contratos de curto prazo de trabalho e freelancer, bem como a capacidade de se movimentar)

No mundo da moda, o Novo Consumismo se traduziu em demanda por maior transparência, valores de marca autêntica, processos de produção sustentáveis, economia de compartilhamento e experiências de varejo originais, entre outras coisas. Será que os jovens da geração do milênio estão se cansando do hiper consumismo do fast fashion e estão buscando algo melhor para si mesmos e para o mundo?

Fonte – Renato Cunha, Stylo Urbano de 12 de outubro de 2016

Itália aprova lei contra desperdício de comida e espera economizar 12 bilhões de euros por ano

ßlϋeωãvε

O objetivo é poupar 1 milhão de toneladas de comida por ano e distribuí-la para a caridade

Um projeto de lei contra o desperdício alimentar foi aprovado no Senado italiano no dia 2 de agosto. O objetivo é poupar 1 milhão de toneladas de comida por ano. Isso significa uma economia de cerca de 12 bilhões de euros anualmente, ou seja, o equivalente a 1% do PIB do país. Cada italiano joga no lixo, em média, 76 quilos de alimentos por ano, segundo uma pesquisa realizada pela Confederação Nacional de Cultivadores Diretos (Coldiretti). “É um dado inaceitável”, ressalta o ministro da Agricultura, Maurizio Martina, em entrevista à agência Ansa.

Mas o que fazer com a comida que seria desperdiçada? O plano dos italianos é promover a doação desses alimentos para setores mais vulneráveis da população. Hoje a taxa de desemprego no país está em 20% e milhões de pessoas vivem na pobreza.

E quais alimentos poderiam ser doados? Há alguns pré-requisitos: os que mantiverem os padrões de segurança e higiene mas que por algum motivo não forem vendidos, os que tiverem com o prazo de validade para vencer, e aqueles que não foram colocados no comércio por erro no rótulo.

Restaurantes e supermercados que desejarem ceder seus excedentes à caridade devem apresentar uma declaração cinco dias antes. Também terão incentivos fiscais e descontos em impostos para doarem comida e remédios. Já os agricultores poderão dar o que não for vendido para instituições beneficentes, sem incorrer em custos adicionais.

O ministro explicou para a agência Ansa que o projeto se trata de uma herança da Exposição Universal de Milão, realizada em 2015, cujo tema foi “Alimentando o Planeta, energia para a Vida”.

A França também aprovou, recentemente, uma lei que proíbe o desperdício de alimentos, mas é mais severa do que a legislação italiana, pois prevê punições para os responsáveis. Os donos de estabelecimentos com mais de 400 m², por exemplo, são obrigados a assinar contratos de doação com instituições beneficentes, do contrário podem pagar multas em até 75 mil euros e ter uma pena de dois anos de prisão.

Esse problema não é só da Itália e da França. Segundos dados da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO), cerca de um terço da comida produzida em todo o mundo é desperdiçada e este número sobe para os 40% no caso da Europa. Todos esses alimentos jogados fora poderiam alimentar cerca de 200 milhões de pessoas.

O desperdício de alimentos deve ser evitado ao máximo, já que a produção consome muitos recursos do ambiente. E a redução do desperdício deve ser buscada não somente no consumo final, mas também nas etapas de plantio, armazenagem, processamento e distribuição de alimentos. Cada consumidor pode fazer a sua parte, com pequenas mudanças em suas práticas cotidianas. Adotar como critérios para a compra não só o preço, mas também a qualidade, a origem, as informações sobre os impactos sociais e ambientais causados pela empresa fabricante, pode trazer grandes benefícios para sua saúde, para a sociedade e para o meio ambiente. E nunca jogar comida no lixo, mas procurar reaproveitar as sobras em outras receitas saudáveis ou doá-las.

Fonte – Akatu de 05 de agosto de 2016

Produção de alimentos é suficiente, mas ainda há fome no país, diz pesquisador

Conferência Green Rio 2015 discute estratégias para a economia verde e o setor de alimentos orgânicos no Jardim Botânico (Fernando Frazão/Agência Brasil)

Estudo revela que o Brasil produz mais que o suficiente para alimentar sua população, mas a desigualdade de renda e o desperdício fazem com que 7,2 milhões ainda sejam afetadas pelo problema Arquivo/Agência Brasil

A produção nacional de alimentos é suficiente para os mais de 204 milhões de brasileiros, mas a desigualdade de renda e o desperdício ainda fazem com que 7,2 milhões de pessoas sejam afetadas pelo problema da fome no país, revela estudo conduzido pelo professor Danilo Rolim Dias de Aguiar, pesquisador do Departamento de Economia do Campus Sorocaba da Universidade Federal de São Carlos.

“Temos uma concentração de renda muito grande. Se, por um lado, temos pessoas passando fome, por outro, temos o problema da obesidade, que é cada vez maior. Haveria, então, um problema ligado à renda e à educação, que estaria dificultando o acesso aos alimentos. Aí também entra a questão das perdas”, disse Aguiar.

Na pesquisa, Aguiar fez um levantamento sobre o que é produzido no país, pegando os principais alimentos – arroz, feijão, trigo, ovos, leite, milho, soja, banana, açúcar, mandioca e carnes de frango, de porco e bovina – e os transformou em um indicador comum que permitisse uma comparação mais adequada entre eles, calculando todos os itens em número de calorias ou proteínas.

Segundo o pesquisador, a quantidade média necessária para consumo individual por dia, e que foi considerada neste estudo, é de 2 mil calorias e 51 gramas de proteína.

“Peguei tudo aquilo que ficou no Brasil para consumo humano e transformei isso em calorias e proteínas. O que verificamos foi que, em termos de calorias e proteínas, temos mais que [o suficiente para] as necessidades humanas aqui no Brasil. Se pegarmos calorias, que é uma situação um pouco pior, chegamos, em 2013, com 118% das necessidades individuais, uma folga de quase 20%. Em termos de proteína, teríamos uma folga de mais de 60%, ou seja, estariam sobrando alimentos”, explicou Aguiar.

Comida jogada no lixo

Desperdício de alimentos é um dos fatores que contribui para agravar a questão da fome Arquivo/Agência Brasil

Em entrevista à Agência Brasil, o pesquisador disse que muitas pessoas ainda passam fome no Brasil principalmente pela dificuldade de acesso à alimentação. Apesar de o país ocupar o quinto lugar no ranking mundial da obesidade, ainda há mais de 7 milhões de pessoas passando fome e 30 milhões de subnutridos.

No estudo, Aguiar analisa também o volume de produtos exportados pelo Brasil. Para o professor, o volume de alimentos exportados poderia, por exemplo, alimentar duas vezes toda a população brasileira. Quando se transforma o total que é vendido para o exterior em calorias, percebe-se que a quantidade seria suficiente para alimentar quase 700 milhões de pessoas.

“Peguei todos os produtos que o Brasil exporta, como milho, soja, carne bovina e carne de frango, transformei em calorias e proteínas e dividi pelas necessidades de cada pessoa para saber quantas poderiam ser alimentadas no exterior com as exportações brasileiras. Em 2013, as proteínas que o país exportou dariam para nutrir 700 milhões de pessoas. Em termos de calorias, seriam 380 milhões de pessoas. Aquilo que estamos vendemos lá fora seria capaz de alimentar duas vezes a população brasileira em termos de calorias e três vezes em termo de proteínas”, detalhou Aguiar.

No entanto, isso não ocorre em realidade porque muito do que é exportado pelo Brasil vira comida para animais, disse o professor. “Isso não está alimentando tanta gente porque boa parte do que se exporta – como milho e soja – não vai virar diretamente comida para pessoas, mas comida para animais.”

O pesquisador classifica de “cruel” essa situação em que “as pessoas de baixa renda acabam concorrendo com os animais, porque aquilo que poderia ser utilizado para alimentação humana vai para a alimentação animal, pois as pessoas de maior renda querem cada vez mais consumir carne. Como resultado disso, o preço dos produtos básicos sobe, porque há pouco, e fica cada vez mais difícil o acesso por parte dos pobres”.

Políticas públicas

carne

Brasileiros estão produzindo muito mais carne do que arroz e feijão porque a carne dá mais rentabilidade, diz o professor Danilo Aguiar, do Campus Sorocaba da Universidade Federal de São Carlos Arquivo/Agência Brasil

Para Aguiar, políticas públicas são necessárias para diminuir o consumo de carne. Ele destacou que o crescimento do consumo da carne é acompanhado pelo aumento da crise ambiental, já que, por exemplo, a produção da carne bovina é responsável por 10% das emissões de gases de efeito estufa na atmosfera e é o principal emissor do agronegócio.

De acordo com o pesquisador, outro problema relacionado ao aumento do consumo de carne no país é que muito da produção de milho e soja, por exemplo, acaba sendo destinado à alimentação dos animais.

“Por que os produtores brasileiros estão produzindo muito mais carne do que arroz e feijão? É porque isso, para eles, dá maior rentabilidade. Temos que ter políticas que incentivem a produção de alimentos que atinjam as classes de renda mais baixa e que sejam menos danosas ao meio ambiente.”

Aguiar alertou, no entanto, que essas políticas precisam ser articuladas mundialmente. “Temos que entrar com políticas, mas articuladas em termos mundiais. Não dá para o Brasil tomar uma decisão unilateral, de não querer produzir tanta carne, se o mundo inteiro quer comprar carne. Tem que haver uma articulação maior para que se atinjam esses objetivos. E uma coisa que vai ajudar muito é a educação. Cerca de 99% das pessoas não têm noção se aquilo que elas estão comendo tem algum impacto ambiental.”

Fonte – Elaine Patricia Cruz / Edição Nádia Franco, Agência Brasil de 16 de julho de 2016

O custo ambiental de comer carne

O custo ambiental de comer carne

Na medida em que as ciências ambientais avançam, é cada vez mais evidente que o apetite humano por carne animal agrava a maioria dos problemas ambientais, como o desmatamento, a erosão, a escassez de água potável, a contaminação atmosférica e da água, a mudança climática e a perda de biodiversidade, a injustiça social, a desestabilização das comunidades e a expansão das doenças”.

 

Gostemos ou não, comer carne é um problema para todos no planeta.

Pergunte se comer carne é um assunto de preocupação pública e verá que a maioria das pessoas fica surpresa. Comer ou não carne (ou o quanto) é um tema pessoal, dirão. Talvez haja algumas implicações para o seu coração, especialmente se você tem sobrepeso. No entanto, não é um tema público importante que se espera que os candidatos à Presidência ou o parlamento abordem, como a educação, a economia e a saúde da população.

Inclusive, se você é um dos poucos que reconhecem que comer carne tem importantes implicações ambientais, estas podem parecer relativamente pequenas. Sim, houve relatórios sobre a derrubada da mata tropical para favorecer os latifundiários, e as pastagens nativas estão sendo destruídas pela pecuária. Mas, até pouco tempo, poucos ambientalistas tinham apontado que comer carne tem a mesma importância que os assuntos abordados pelo Greenpeace ou Amigos da Terra.

Na medida em que as ciências ambientais avançam, é cada vez mais evidente que o apetite humano por carne animal agrava a maioria dos problemas ambientais, como o desmatamento, a erosão, a escassez de água potável, a contaminação atmosférica e da água, a mudança climática e a perda de biodiversidade, a injustiça social, a desestabilização das comunidades e a expansão das doenças.

Como é que um tema aparentemente pequeno como o consumo individual de carne passou tão rapidamente das margens da discussão sobre a sustentabilidade ao centro do debate? Em primeiro lugar, porque o consumo de carne per capita mais do que duplicou no último meio século, apesar do aumento da população mundial. Por conseguinte, a demanda de carne se multiplicou por cinco. O que aumentou a pressão sobre a disponibilidade de água, terras, pastos, fertilizantes, energia, a capacidade de tratamento de resíduos (nitratos), e a maior parte dos limitados recursos do planeta.

Desmatamento

O desmatamento foi o primeiro dano ambiental importante causado pelo desenvolvimento da civilização. Grandes superfícies de matas foram cortadas para dedicá-las à agricultura, que incluía a domesticação tanto de plantas comestíveis como de animais. Os animais domésticos requerem muito mais superfícies que as plantações para produzir a mesma quantidade de calorias, mas isso não importou realmente durante os 10.000 anos em que sempre existiram mais terras para descobrir e expropriar. Em 1990, no entanto, o Programa de Fome no mundo, da Brown University, calculou que as plantações mundiais, se fossem distribuídas equitativamente e sem destinar uma porcentagem importante ao gado, poderiam fornecer uma dieta vegetariana para 6 bilhões de pessoas, ao passo que uma dieta abundante em carne, como a dos moradores dos países ricos, podia alimentar somente 2,6 bilhões.

Em outras palavras, com uma população atual de 6,4 bilhões, isso quer dizer que já padecemos de um déficit de terras, agravado pela sobre-exploração pesqueira dos oceanos, que estão sendo rapidamente arruinados. A curto prazo, a única maneira de alimentar toda a população mundial, se continuarmos comendo carne na mesma porcentagem ou se a população mundial continuar crescendo ao ritmo previsto (8,9 bilhões em 2050), é derrubar mais matas. A partir de agora, a questão se obtemos nossas proteínas de calorias de animais ou de plantas tem implicações diretas sobre a quantidade de mata restante que precisamos arrasar.

Na América Central, 40% das matas tropicais foram cortadas ou queimadas nos últimos 40 anos, principalmente para pastagens do gado para o mercado de exportação, muitas vezes para a carne dos hambúrgueres dos Estados Unidos. A carne é muito cara para os pobres nos países exportadores de carne, mas, no entanto, em muitos casos, os pastos para o gado substituíram as formas de agricultura tradicional muito produtivas.

Os relatórios do Center for International Forestry Research destacam que o rápido crescimento nas vendas de carne bovina brasileira acelerou a destruição da mata tropical da Amazônia.

A destruição das campinas foi acelerada com a expansão das manadas de animais domesticados, e o meio ambiente no qual viviam os animais selvagens como bisontes e antílopes foi pisoteado e replantado com monoculturas de plantas forrageiras para o gado.

As reservas de água doce

A água doce, da mesma maneira que a terra, parecia inesgotável durante os primeiros 10 milênios da civilização. Desse modo, parecia não importar a quantidade de água que uma vaca consumia. Porém, há alguns anos, os especialistas calcularam que nós, seres humanos, consumimos a metade da água doce disponível no planeta, deixando a outra metade para ser dividida entre um milhão ou mais de espécies. Em razão de dependermos de muitas dessas espécies para a nossa própria sobrevivência (fornecem todo o alimento que comemos e o oxigênio que respiramos, entre outros serviços), esse monopólio da água apresenta um dilema. Se analisarmos em detalhe, espécie por espécie, descobrimos que o uso mais significativo da água se deve aos animais que criamos para carne. Uma das maneiras mais fáceis para reduzir a demanda de água é consumir menos carne.

A dieta comum de uma pessoa no ocidente requer 16.000 litros de água por dia (para dar de beber aos animais, irrigar as plantações, processar, lavar e cozinhar, entre outros usos). Uma pessoa com uma dieta vegetariana requer somente 1.100 litros diários.

Um relatório do Instituto Internacional de Gestão da Água, após assinalar que 840 milhões de pessoas no mundo sofrem desnutrição, recomenda produzir mais alimentos com menos água. O relatório destaca que são necessários 550 litros de água para produzir suficiente farinha para uma ração de pão nos países em desenvolvimento, mas até 7.000 litros de água para produzir 100 gramas de carne bovina.

Se você toma banho uma vez por dia, e cada banho dura uma média de sete minutos, utilizando oito litros por minuto, gastará 19.300 litros por ano para um banho diário. Quando você compara esse número com a quantidade que a Fundação para a Educação da Água calcula que é utilizada na produção de cada quilo de carne bovina (20.515 litros), perceberá algo extraordinário. Hoje, você poderia poupar mais água não comendo um quilo de carne que deixando de tomar banho durante um ano inteiro.

Manejo de resíduos

O aterro de resíduos, da mesma maneira que a oferta de água, parecia que não tinha limites. Sempre havia novos lugares onde jogar o lixo, e durante séculos a maior parte dos dejetos se decompuseram convenientemente ou desapareceram de vista. Assim como não nos preocupou a quantidade de água que uma vaca consome, tampouco a quantidade que excreta. Mas, hoje, os resíduos de nossos colossais estábulos superam a capacidade de absorção do planeta. Os rios que recebem resíduos pecuários vertem tal quantidade de nitrogênio em bahias e golfos que já contaminaram grandes áreas do mundo marinho.

As enormes estâncias de animais, que podem alojar centenas de milhares de porcos, frangos e bois, produzem quantidades imensas de resíduos. Para dizer a verdade, ao menos nos Estados Unidos, estas “Fábricas de Gado” geram 130 vezes mais resíduos que toda a população.

Consumo energético

O consumo de energia, até há muito pouco, parecia um assunto dos frigoríficos, que nada tinha a ver com a carne e o leite de seu interior. Contudo, quanto prestamos mais atenção na análise do ciclo de vida dos objetos que compramos, é evidente que a viagem do filé até chegar a nosso refrigerador consumiu quantidades surpreendentes de energia. Podemos começar o ciclo com a plantação dos cereais para alimentar o gado, que requer grandes quantidades de produtos químicos agrícolas derivados do petróleo. Posteriormente, é preciso acrescentar o combustível requerido para transportar o gado aos matadouros e dali para os mercados. Hoje, a maior parte da carne consumida percorre milhares de quilômetros. E, em seguida, após ser congelada ou posta no frigorífico, precisa ser cozinhada.

São necessários 8,3 litros de petróleo para produzir um quilo de carne bovina alimentada com ração nos Estados Unidos. Parte da energia foi consumida no estábulo ou nos transportes e armazenamento frigorífico, mas a maior parte foi consumida em fertilizantes de milho e na soja para ração, com a qual são alimentadas as cabeças de gado. O consumo médio anual de carne bovina de uma família de quatro pessoas requer 983 litros de petróleo.

Em termo médio, são necessárias 28 calorias de energia de combustíveis fósseis para produzir uma caloria de proteína de carne para o consumo humano, ao passo que se fazem necessárias 3,3 calorias de energia de combustíveis fósseis para produzir uma caloria de proteína de cereais para o consumo humano.

A transição da agricultura mundial, de cereais para alimentos a cereais para ração, representa uma nova forma de maldade humana, com consequências possivelmente maiores e mais prolongadas no tempo que qualquer das más ações anteriores infligidas pelos homens contra seus semelhantes. Hoje, mais de 70% dos cereais e da soja produzida nos Estados Unidos são destinados à alimentação do gado, em sua maior parte para o gado. Alimentar com cereais os animais é muito ineficiente e é um uso absurdo dos recursos.

Mudança climática

O aquecimento do planeta se deve ao consumo de energia, na medida em que as principais fontes de energia contêm carbono que, ao se queimar, emitem dióxido de carbonos e outros gases contaminantes. Como já se destacou, a produção e a comercialização da carne precisam do consumo de grande quantidade de tais combustíveis. No entanto, a gado também emite diretamente gases de efeito estufa, como um subproduto da digestão. O gado emite importantes quantidades de metano, um potente gás de efeito estufa.

Uma tonelada de metano, o principal gás de estufa emitido pela pecuária, tem um potencial de aquecimento do planeta de 23 toneladas de dióxido de carbono por cada tonelada de metano. Uma vaca leiteira produz aproximadamente 75 quilogramas de metano por ano, equivalentes a mais de 1,5 tonelada de dióxido de carbono. A vaca, é claro, faz isto de forma natural. Mas, as pessoas tendem a esquecer, parece, que a pecuária é uma indústria. Derrubamos as matas, cultivamos as plantas forrageiras transgênicas e alimentamos o gado de forma industrial. É uma empresa humana, não natural. Somos muito eficientes, e por isso as concentrações atmosféricas de metano aumentaram em 150% em relação a 250 anos atrás, ao passo que as concentrações de dióxido de carbono cresceram só 30%.

Há uma estreita relação entre a dieta humana e as emissões de metano da pecuária. Ao crescer ou diminuir o consumo de carne bovina, também aumentará ou se reduzirá o número de cabeças e as emissões de metano relacionadas. A América Latina registra as maiores emissões de metano per capita, atribuíveis principalmente às grandes quantidades de gado dos países exportadores de carne, como Brasil e Argentina.

A produção de alimentos das terras de cultivo cresce menos que a população. Quando Paul Ehrlich advertiu há três décadas que “centenas de milhões” de pessoas morreriam de fome, provavelmente exagerou, por agora. (Só morreram de fome dezenas de milhões). A revolução verde, uma injeção de fertilizantes e técnicas de fabricação em série, aumentou os rendimentos das colheitas e só atrasou a escassez. Isso, combinado com uma utilização mais intensiva das terras cultiváveis através da irrigação e o uso massivo de fertilizantes e praguicidas químicos baseados nos combustíveis fósseis, nos permitiu guardar o passo mais ou menos com o crescimento da população durante outra geração. A estabilização da população não se produzirá antes de outro meio século, e só nos resta uma alternativa importante: reduzir drasticamente o consumo de carne, porque a conversão das áreas de pastos para plantações de alimentos aumentará a quantidade de alimentos produzida.

Doenças

As enfermidades transmissíveis não se deslocam de um lugar para o outro sozinhas, é preciso haver um vetor de transmissão, seja a água suja, o sangue infectado de ratos e insetos ou a carne contaminada.

Os resíduos animais contêm agentes patogênicos que causam doenças como a Salmonella, E. coli, Cryptosporidiume coliformes fecais, que podem estar de 10 a 100 vezes mais concentrados que nas fezes humanas. Mais de 40 doenças podem ser transferidas aos seres humanos através de estrume. Um relatório do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos estima que 89% da carne moída dos hambúrgueres contêm vestígios de E. coli.

As doenças do estilo de vida, especialmente as coronárias, não eram consideradas um problema “ambiental” há uma geração. Mas, hoje, é evidente que a maioria dos problemas de saúde pública é ambiental e não genético. Além disso, a maioria das doenças evitáveis são o resultado das complicadas relações entre os seres humanos e seu meio ambiente, e não de causas singulares. As doenças coronárias se relacionam com a obesidade resultante do consumo excessivo de açúcar, sal e gordura (especialmente gordura animal) e da falta de exercício resultante de um mapa urbano baseado no automóvel. Os problemas ambientais do crescimento suburbano, a contaminação atmosférica, o consumo de combustíveis fósseis e as péssimas políticas de uso do solo são também fatores que agravam as doenças cardíacas e o câncer.

A ironia do sistema de produção de alimentos é que milhões de consumidores endinheirados nos países desenvolvidos morrem das doenças da opulência, os ataques cardíacos, as apoplexias, os diabetes e o câncer, causadas por se encherem de carne bovina e de outros animais, alimentados com cereais e soja transgênica, ao passo que os pobres do Terceiro Mundo morrem por causa de doenças da pobreza, porque lhes é negado o acesso às terras para cultivar os cereais com os quais alimentar diretamente suas famílias.

Não só a mortalidade por doenças coronárias é mais baixa nos vegetarianos que nos não vegetarianos, como também as dietas vegetarianas também tiveram êxito em frear as doenças do coração. Os dados científicos demonstram uma relação positiva entre a dieta vegetariana e a redução do risco por obesidade, doenças das artérias coronárias, hipertensão, diabetes e alguns tipos de câncer.

Albert Einstein, mais conhecido por seus trabalhos em física e matemáticas que por seu interesse pelo mundo vivente, uma vez disse: “Nada beneficiará tanto a saúde humana e aumentará as oportunidades de sobrevivência da vida na Terra como uma dieta vegetariana”. Não acreditamos que apenas se referia à alimentação. Neste artigo, não dissemos nada sobre o papel da carne na dieta, ainda que haveria muito a ser dito, além das doenças do coração. Também não abordamos a ética do vegetarianismo ou os direitos dos animais. O propósito dessas supressões não é se omitir dessas preocupações, mas destacar que apenas com base em fundamentos ecológicos e econômicos, comer carne já é uma ameaça para a espécie humana.

A era de uma alimentação baseada fundamentalmente na carne passará, assim como a do petróleo, e ambos declínios estão estreitamente relacionados.

Fontes – Mundo Nuevo / Rebelión / Tradução Cepat / IHU / EcoDebate de 18 de julho de 2016

Por que o consumo de água aumentou?

 

Dizem várias fontes de informação, neste início de junho, que a economia de água em condomínios na cidade de São Paulo caiu de 82% – que chegara a registrar em abril de 2015 – para 32% em abril de 2016, com o fim dos incentivos da Sabesp. É pena que a disposição para economizar, na maior parte, advenha só das vantagens financeiras para quem economiza, com pouca ou nenhuma relação com a necessidade maior de contribuir para a economia de um bem escasso. Os números de agora são inferiores até aos do período fevereiro de 2013/janeiro de 2014. E o recuo se deveria às notícias de “fim da crise” de abastecimento e retirada de subsídios para a economia.

Estranho, porque a seca e o calor afetaram os reservatórios de São Paulo. Dos 6 mananciais abastecedores, 4 chegaram ao menor índice de chuvas desde os anos 30. No Cantareira, houve apenas 3,9 milímetros em 28 dias de abril. E, ao mesmo tempo, aumentava a demanda por água, como registrou editorial deste jornal (29/3). Por essas e outras, o Estado já busca água em Minas Gerais e tem de discutir com o Rio de Janeiro o uso dos recursos do Rio Paraíba do Sul. Já foi até encaminhado à Assembleia Legislativa do Estado o projeto para o Plano de Recursos Hídricos do Estado, que garanta os usos múltiplos.

Não são problemas só nossos. Segundo relatório do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Eco-Finanças, 23/5), o crescimento rápido da demanda, o alto consumo, a desertificação, a degradação do solo, os efeitos de mudanças do clima “estão estressando” os recursos naturais e impedindo que sejam compensados pela recuperação natural do meio ambiente: “Com a tendência atual, a humanidade terá dificuldade para alimentar-se nas próximas décadas”, porque “a escassez hídrica ameaça bilhões de pessoas, principalmente nos países mais pobres”, pois “já se observa um colapso na produção de comida”. E a América Latina é um dos lugares mais problemáticos, principalmente nas regiões que mais dependem da água que escorre dos Andes – e que está diminuindo.

Quase um quarto das mortes no mundo decorre de “riscos ambientais”, diz a Organização Mundial da Saúde (OMS) – entre eles a água de má qualidade, proveniente de locais de trabalho em condições precárias, banheiros e chuveiros inadequados, tubulações perfuradas, etc. Talvez a cidade que mais se tenha adequado às necessidades seja Nova York, onde em cinco anos foram aplicados quase US$ 2,5 bilhões para melhorar as condições do sistema de abastecimento de água. Isso incluirá o fechamento para reparos do Aqueduto Delaware, por onde passam mais de 80 bilhões de litros de água por dia para a rede de água de quase 11 mil quilômetros de extensão. Na usina de tratamento, que manda água para mil estações, foram investidos mais de US$ 1,5 bilhão (The New York Times, 24/3).

Diante de números tão graves, é quase inacreditável que esteja em tramitação no Brasil a Proposta de Emenda Constitucional 65/2012, que dispensa de licenciamento ambiental (Terra, 28/5) projetos de obras públicas, inclusive no setor de água. Os estudos prévios de impacto passariam a implicar autorização para executá-los. Tudo tão absurdo que o Instituto dos Advogados do Brasil aprovou moção de repúdio ao texto, que, a seu ver, desrespeita a própria Constituição. Configuraria uma espécie de “bolsa empreiteira”. A moção foi encaminhada ao Congresso Nacional.

Na área rural, a situação seria tão grave quanto esta, principalmente no Nordeste. Em recente seminário (Comunicação do Ministério do Meio Ambiente, 28/4) discutiu-se a situação do Semiárido, onde, por exemplo, 74,2% das áreas de Sergipe já são de terra degradada; e apenas 17% da vegetação originária da Caatinga permanece – quando seriam utilizáveis com manejo adequado dos recursos naturais em 13% da área. Já se conhecem ali projetos sustentáveis, como o do barramento zero ou o do fogão ecológico. No Polo Gesseiro da região do Araripe, Nordeste brasileiro, conseguiu-se, com programas adequados, reduzir para pouco mais de 20% do que era o consumo de água.

Muitos cientistas insistem na implantação de um vasto plano de fontes solares em telhados, para avançar com os projetos de combate à fome na região. Até mesmo porque as áreas de desertificação já avançaram 11 mil quilômetros quadrados em Pernambuco (Rema Brasil, 23/11/2015); a represa de Sobradinho chegou a entrar no volume morto, quando tem potencial de acumulação de água equivalente a 14 vezes o da Baía da Guanabara; o Rio São Francisco, com vazão histórica de 3 mil metros cúbicos por segundo, baixou até a 900 metros cúbicos. Para isso contribuem até a redução de águas da Amazônia vindas pelas correntes na atmosfera e a redução de água no subsolo do Cerrado. Desde 2004 já desapareceram 1.200 pequenos afluentes do São Francisco. Estiagens prolongadas no Cerrado têm reduzido as safras de grãos (Estado, 11/5). E podem prolongar-se até 2017 (O Popular, 27/4).

O Rio São Francisco já não tem mais volume necessário para a geração de energia (www.fundaj.gov.br, 21/10/2015). Técnicos sugerem difundir experiências do Instituto Nacional do Semiárido, como as de Santana do Seridó, onde já se tratam 258 mil litros de água para uma população de 2.526 pessoas (Rema, 3/12/2015), irrigação de bancadas de forragem de palma, estoques de feijão guandu e sorgo para o gado – além de urgência com projetos de captação de águas de chuvas, reutilização de água tratada de esgotos, impedir o desperdício e apressar projetos contra desmatamento. Não basta esperar pela transposição de águas, projeto iniciado em 2007, que deveria estar concluído em 2012 e já custou uma fortuna.

É preciso ter urgência. Convém lembrar que o Deserto do Saara já teve, há 5 mil anos (EcoViagem, 31/3), o maior lago de água doce do mundo, com 360 mil quilômetros quadrados. Hoje, tem 1.350, menos de 1%.

UNEP – Green economy report.

Fonte – Washington Novaes, O Estado de S. Paulo de 03 de junho de 2016

 

Em breve, ser dono de carro pode virar coisa do passado

Automação total pode dar impulso a modelo de compartilhamento de carros. Foto: Jeff Kowalsky / Bloomberg News

Henry Ford era um homem inteligente, mas ele nunca fez as contas antes de dizer que fabricaria um carro para cada família americana.

Um século depois do Ford T, o mundo enfrenta um problema com os carros. Os Estados Unidos e a China vão comprar cerca de 40 milhões de automóveis em 2015, de acordo com a empresa americana de pesquisas e análises IHS Inc. No mundo todo, o número deve chegar a 100 milhões de veículos em 2020.

É uma inundação de carros diante da qual tanto legisladores quanto cidadãos comuns tem se mostrando impotentes. Mesmo na superpoluída Pequim, o apetite pelo automóvel — um símbolo de status e de sucesso pessoal na frágil mentalidade pós-colonial — não está diminuindo, apesar de limites à propriedade e o crescente alarme do governo.

O absurdo dessa velha abordagem à mobilidade é capturado nas estatísticas. Nos EUA, por exemplo, a taxa de utilização dos carros é de cerca de 5%. Para os restantes 95% do tempo, os carros dos americanos simplesmente ficam parados, queimando dinheiro.

Mas, e se esses carros pudessem ser compartilhados? E não me refiro ao consumo colaborativo no transporte do tipo da Uber — simbólico e transitório e que deve durar somente até que a automação total aconteça e o motorista se torne desnecessário.

Dentro de uma geração, os automóveis sairão das fábricas com o chamado Nível 4 de automação, ou seja, capazes de se dirigirem sozinhos. Isso fará com que o consumidor possa “chamar” um carro sem motorista, via um aplicativo de celular, de onde estiver. E não um carro qualquer que esteja passando pela área, mas exatamente o carro necessário para a ocasião, limpo e abastecido, pelo período desejado. E, depois de usado – pronto! – o carro vai embora.

O consumidor não paga pelo carro. Paga pelos quilômetros e só por eles. Precisa de um utilitário esportivo por três fins de semana por ano, mas não quer pagar pelos outros 49 fins de semanas? Precisa de um carro para buscar a esposa no aeroporto? Em uma década, as montadoras vão brigar pelo privilégio de enviar carros à la carte para os consumidores seja para a única perna de uma viagem ou para uma tarde, um fim de semana, um mês.

Na era do carro que se dirige sozinho, os táxis e os congestionamentos serão vistos pelo consumidor como coisa do passado. Os pais vão deixar de sofrer com a possibilidade de perder seus filhos em acidentes de trânsito, já que as mortes por esta causa cairão drasticamente. E os outros custos relacionados ao automóvel — a queda de produtividade, o gasto excessivo de combustível em trânsito descoordenado — serão eliminados. “Além dos benefícios práticos, os carros autônomos poderiam contribuir com a economia de US$ 1,3 trilhão anuais só nos EUA”, escreveu Ravi Shanker, um analista da firma de serviços financeiros Morgan Stanley. Mundialmente, as economias poderiam chegar perto de US$ 5,6 trilhões.

Danny Shapiro circulava recentemente pelo salão do automóvel de Frankfurt com uma bomba para a indústria automobilística em sua maleta. Lá, o diretor sênior da área automotiva da Nvidia, firma de tecnologia do Vale do Silício, levava uma placa-mãe de computador conhecida como Drive PX, que vai transformar o setor. A placa foi construída em torno de dois processadores centrais, cada um tão poderoso quanto o supercomputador mais rápido disponível alguns anos atrás. Segundo Shapiro, uma versão dessa tecnologia dará aos carros o Nível 4 de automação – a capacidade de operar independentemente de humanos.

A Drive PX interpreta dados sensoriais e constrói um modelo tridimensional de tudo que está acontecendo ao redor do carro, permitindo, por exemplo, que ele diferencie uma ambulância de um caminhão do FedEx, e que responda apropriadamente.

“Ela pode ler sinais de trânsito”, diz Shapiro, “e detectar faixas, e antecipar quando um pedestre vai colocar o pé na pista. E quando ela notar alguma coisa que não reconhece, ela pode gravar a imagem e transmiti-la ao centro de dados para que ela seja incluída na próxima atualização de software.” O processo, conhecido como “aprendizado profundo” é baseado no cérebro humano. “À medida que você vai adicionando informação ao sistema, ele vai ficando cada vez mais inteligente”, diz Shapiro.

Toda essa revolução poderia resultar em um declínio nas vendas das montadoras. Mas, em mercados maduros, como os EUA e a Europa, o volume de vendas permanecerá praticamente estável. O que mudaria é o número de passageiros que usaria cada veículo — incluindo um vasto número de pessoas que hoje não dirigem. “O Nível 4 de automação, no qual o veículo não requer um motorista humano, permitiria o transporte para cegos, deficientes ou aqueles jovens demais para dirigir”, afirmou o centro de estudos sem fins lucrativos Rand Corporation, em um estudo recente. Os mesmos benefícios estenderiam o retorno à mobilidade a milhões de indivíduos às margens do mercado, incluindo idosos e pobres, entre outros.

Em agosto passado, a Morgan Stanley quase dobrou sua meta de preço para a Tesla, para US$ 465 por ação, com base em análise do plano de mobilidade compartilhada da montadora americana, que ainda é mantido em segredo. “Nós vimos isso como uma oportunidade de negócios”, escreveu Adam Jonas, analista do banco. “Isso poderia mais que triplicar o potencial de faturamento da [Tesla] até 2029”, acrescentou.

Todas essas mudanças não querem dizer que a propriedade de carros por indivíduos vai desaparecer. Algumas pessoas continuarão a ter carros e os adorarão. Mas essas pessoas e seus carros serão considerados clássicos. Em 25 anos, a maioria das pessoas estará feliz em compartilhar os veículos que as transportam.

Fonte – Dan Neil, The Wall Street Journal

Crescimento e demografia em xeque

Gary Gardner, Tom Prugh e Michael Renner, diretores do projeto O Estado do Mundo 2015, do Worldwatch Institute, criticam a busca incessante do crescimento pelos países ricos.

O estudo usa a expressão “ameaças veladas à sustentabilidade”. Que ameaças são essas? As informações sobre a crise ambiental já não são bem conhecidas?

A consciência a respeito das muitas ameaças ambientais de fato aumentou nos últimos anos, e as pesquisas comprovam a vontade das pessoas ao redor do mundo para enfrentá-las. Mas frequentemente falta senso de urgência que responda à gravidade das ameaças. Além disso, muitas questões de sustentabilidade subjacentes são premissas – sobre a viabilidade do crescimento econômico infinito e o papel da energia barata, por exemplo – que ainda não foram examinadas. Confrontar esses pressupostos de forma aberta e direta é essencial para criar um caminho rumo a um futuro sustentável.

Que mensagens este estudo de 2015 traz como substancialmente novas em relação aos anos anteriores?

Destacamos três. A primeira, de que os danos ambientais têm um impacto econômico muito subestimado. A noção de stranded assets – ativos que poderão nunca ser aproveitados por motivos ambientais – estão levando os principais analistas financeiros a reavaliar carteiras de investimento em todo o mundo. Um exemplo são as reservas de petróleo, que podem nunca ser bombeadas por causa de questões climáticas. A escassez de água na China está levando ao abandono de lavouras e hidrelétricas. Como as condições ambientais vão se deteriorar em muitas regiões e de forma global, carteiras de investimento vão sofrer. A segunda refere-se à preocupação de que mais de 60% das 400 doenças infecciosas em seres humanos que surgiram nos últimos 70 anos foram de origem animal. Essa transmissão é cada vez mais provável com o crescimento do comércio internacional e as viagens, a pecuária intensiva, e a ocupação humana de áreas selvagens. E a terceira é de que o crescimento econômico, por muito tempo um objetivo político de governos nacionais, pode já não ser aconselhável, pelo menos nos países ricos, em que grandes economias continuam a ultrapassar os limites ambientais. Há anos que ativistas pedem o não-crescimento, mas agora pesquisadores acadêmicos no Canadá demonstraram que esse objetivo pode ser gerido de uma forma que reduza o emprego, aumente a equidade, freie as emissões de carbono e outros danos ambientais. Os países pobres ainda precisam crescer para gerar prosperidade e oportunidade para o seu povo, mas os ricos devem encontrar maneiras de manter um elevado nível de bem-estar para a população, em vez de uma produção cada vez maior de bens por pessoa.

O estudo cita Naomi Klein para frisar que o grande nó está no sistema econômico dominante – o capitalismo e a busca do crescimento, ainda que “verde”. Que revisões ou reformas estruturantes são necessárias neste sistema, e até que ponto são viáveis?

Em primeiro lugar, é preciso redescobrir o papel essencial da formulação de políticas de interesse público. Para isso é preciso afastar-se da ideia de que as forças do mercado vão resolver os problemas sociais e ambientais. Isso exige que as empresas privadas não cresçam tanto a ponto de ficar mais poderosas do que órgãos dirigentes democraticamente eleitos. Em segundo, precisamos transformar as normas pelas quais as empresas privadas são regidas – passando do interesse restrito ao acionista para o amplo interesse dos stakeholders, que incluem os trabalhadores, as comunidades impactadas pelas empresas e o ambiente natural. Temos visto o surgimento das “B-corp”, mas ainda são raras. Outras alternativas são as empresas controladas pelos trabalhadores e as cooperativas. Mas isso requer apoio dos governos e do público para ser bem-sucedido.

O estudo coloca a civilização humana como vítima de seu sucesso. Os avanços tecnológicos permitiram expandir a população e a pressão sobre recursos naturais. Para reduzir essa pegada, basta recorrer novamente à tecnologia, ou uma diminuição demográfica se faz necessária?

O número de pessoas que a Terra pode suportar depende muito da maneira como as pessoas querem viver. Nações ricas, auxiliadas por tecnologia e energia abundante, conseguiram um estilo de vida material outrora inimaginável, mas, depois de um certo nível, o aumento de felicidade não seguiu o mesmo ritmo do aumento da riqueza. Usada com sabedoria, a tecnologia pode ajudar a aliviar a crescente pressão sobre a biosfera, mas provavelmente não será capaz de criar uma civilização sustentável até que o número de seres humanos decline. O objetivo deve ser o de atingir um menor número de pessoas ao longo do tempo buscando a equidade na distribuição da riqueza, melhor educação e oportunidades econômicas para as mulheres, e outras políticas de “aterrissagem suave”.

Fonte – Amália Safatle, Página 22 de 02 de fevereiro de 2016

Instituto Alana promove debates online para discutir o consumismo infantil


Com a proximidade do Dia das Crianças, os pequenos são bombardeados com inúmeras publicidades que os estimulam ao consumo. Para discutir as diferentes questões contemporâneas que envolvem a infância e alertar pais e responsáveis sobre o consumismo, o Instituto Alana, por meio do Projeto Criança e Consumo, realiza uma semana especial de debates virtuais gratuitos, ao vivo, entre os dias 5 e 9 de outubro.

Com temas variados, os debates com especialistas abordam a relação do consumo com a nutrição, as brincadeiras, a família, a sustentabilidade e a publicidade infantil, tendo como pano de fundo os direitos da criança de viver uma infância plena. Os internautas podem interagir enviando perguntas para os entrevistados durante o debate que terá duração de uma hora. Mais informações estão disponíveis aqui.

Veja a programação das entrevistas:

Tema: Nutrição

05/10 | 2ª-feira – às 15h – Francine Lima

Criadora e a responsável pelo projeto Do campo à mesa.

Temas: Importância do brincar

06/10 | 3ª-feira- às 14h – David Reeks

Documentarista e coordenador do projeto Território do Brincar ao lado de Renata Meirelles.

Tema: Relação familiar

07/10 | 4ª-feira – às 14h – Ana Olmos

Psicoterapeuta infantil e Conselheira do Projeto Criança e Consumo.

Tema: Sustentabilidade

08/10 | 5ª-feira – às 14h – André Palhano

Idealizador da Virada Sustentável.

Tema: Publicidade Infantil

09/10 | 6ª-feira – às 14h – Pedrinho Fonseca

Pai, fotógrafo e ex-publicitário, criador do blog Pedrinho Fonseca.

Crise hídrica de São Paulo foi negligenciada

“Numa situação de crise aguda, que poderemos ter num futuro próximo, já que a possibilidade de colapso ainda não foi descartada, temos de optar por fontes não potáveis para fins não potáveis”, sugere o especialista em engenharia de Sanaeamento e ex-tecnólogo da Sabesp.

Os dados divulgados pela Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo – Sabesp, de que o índice de volume útil de água é de 15,3% no Sistema Cantareira, “consideram tanto a primeira quanto a segunda fase volume morto. Na realidade, se fosse considerado só o volume útil, como se utilizava antes, o volume de água hoje seria 13,9% negativo”, ou seja, há um déficit de “14 mil litros por segundo”, diz Marzeni Pereira à IHU On-Line. De acordo com ele, atualmente a região. De acordo com ele, atualmente a região Metropolitana de São Paulo tem um “déficit de mais de 30 mil litros por segundo, porque a entrada de água nas represas é muito menor do que sai para o tratamento”.
Na entrevista a seguir, concedida por telefone, o ex-tecnólogo da Sabesp, que atuou na empresa durante 23 anos, conta os detalhes da crise hídrica que assusta a região metropolitana de São Paulo e diz ter sido demitido da empresa por conta do seu “ativismo”, ao dar detalhes da crise de abastecimento para a imprensa.

Segundo ele, o déficit dos sistemas de abastecimento em São Paulo já estava sendo observado há mais de uma década, em 2004 o Cantareira quase secou e chegou a 1,6% de sua capacidade. Em 2009, o Sistema Cantareira estava com um nível de água de 99,7%, em 2010 o pico baixou para 93%, em 2011, para 66%, em 2012 caiu para 62% e desde então só vem caindo. Nesses períodos a quantidade de água que se distribuía era maior do que a quantidade de água que chegava aos reservatórios”, relata.

Apesar da situação de crise ter sido demonstrada em estudos da Secretaria de Meio Ambiente, Pereira frisa que “a Sabesp e o governo do estado de São Paulo optaram por adotar uma política de expansão de venda de água”. Na avaliação dele, “o governo deveria ter tomado medidas para evitar que a crise de abastecimento ocorresse, mas elas não foram tomadas. Pelo contrário, a situação foi negligenciada”.

Pereira disse ainda que a crise de abastecimento poderia ter sido evitada se as perdas de 30% de água do sistema de distribuição tivessem sido controladas. “Esse valor é o quanto o Sistema Cantareira fornece de água, hoje. Logo, seria possível termos evitado essa situação se tivesse se reduzido pelo menos metade dessas perdas. Se isso tivesse sido feito, de 2009 para cá, teríamos minimizado a crise”.

Marzeni Pereira é graduado em tecnologia e pós-graduado em Engenharia de Saneamento Básico pela Universidade de São Paulo – USP. Ele integra o Coletivo Água Sim, Lucro Não!.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Qual é a atual situação do Sistema Cantareira? Ainda há risco de crise de abastecimento em São Paulo?

Marzeni Pereira – A Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo – Sabesp divulga um índice de 15,3% de volume útil de água no Sistema Cantareira, só que esse volume considera tanto a primeira quanto a segunda fase volume morto. Na realidade, se fosse considerado só o volume útil, como se utilizava antes, o volume de água hoje seria 13,9% negativo. Essa é a atual situação do Sistema Cantareira: 13,9% negativo. Apesar do Sistema Cantareira ser o maior, o que mais preocupa hoje, não é ele, mas, sim, o Sistema do Alto Tietê, que vive uma situação dramática, porque foi utilizado para socorrer o Sistema Cantareira. Hoje, o Alto Tietê está apenas com 13,5% de sua capacidade, já considerando uma pequena reserva de volume morto, de 6,9%. Se não chover nos próximos 90 dias — esperamos que chova — o Sistema Alto Tietê entrará em colapso, acaba a água.

IHU On-Line – Por que, quando se fala da crise de abastecimento em São Paulo, se dá mais evidência ao Sistema Cantareira do que ao do Alto Tietê?

Marzeni Pereira – O Sistema do Alto Tietê abastece cerca de 4,5 milhões de pessoas, e o Cantareira abastecia, antes da crise, 9 milhões de pessoas, por isso se dá tanta importância para ele. Mas o Alto Tietê também é muito importante e, se ele secar, teremos um grave problema de abastecimento. Recentemente, passou a ser tirada uma vazão maior do Sistema Cantareira do que estava sendo retirada no início do ano. Como ele foi poupado durante um período, voltou a ser usado com mais intensidade e está tratando cerca de 15 mil litros de água por segundo. Ontem (02-09-2015), por exemplo, o Sistema Cantareira tratou 17,2 mil litros de água por segundo; só que no Cantareira entraram, pelos rios — ou seja, pela afluência —, 6 mil litros por segundo, e saíram, no tratamento, 17 mil litros por segundo. Além disso, foi dada uma descarga de 3 mil litros por segundo para a região de Campinas. Então, houve uma entrada de 6 mil litros de água e uma saída total de 20 mil litros. Isso mostra que há um déficit de 14 mil litros por segundo.

A entrada de água no Alto Tietê foi de 5 mil litros por segundo, enquanto a saída foi de 15 mil litros por segundo, ou seja, teve um déficit de 10 mil litros. Em todos os sistemas que existem em São Paulo, o Alto Tietê, Alto Cotia, Cantareira, Rio Grande, Rio Claro, Guarapiranga, a entrada total de água foi de 26 mil litros por segundo e o tratamento, de 58 mil litros por segundo. Então, há um déficit de mais de 32 mil litros por segundo, porque a entrada de água é muito menor do que é tratado e distribuído. Essa situação é insustentável e pode se tornar ainda pior nos próximos meses, se não chover. Pois, teremos meses mais quentes, aumentando a evaporação, a infiltração no solo, bem como o consumo.

IHU On-Line – Se esses dois sistemas maiores, Alto Tietê e Cantareira, colapsarem, os demais sistemas de abastecimento teriam condições de abastecer o restante da cidade?

Marzeni Pereira – Se eles entrarem em colapso, os outros sistemas que existem não têm condições de manter o abastecimento. Rio Claro, por exemplo, ontem, tinha 8 bilhões de litros d’água, Rio Grande tinha 90 bilhões, o Cotia tinha 8,75 bilhões de litros, o Guarapiranga, 115 bilhões, o Alto Tietê tinha 70 bilhões de litros, e o Cantareira, que só tem o volume morto, 349 bilhões. A capacidade do volume morto do Cantareira é maior do que a soma dos sistemas Guarapiranga, Alto Cotia, Rio Grande e Rio Claro. A capacidade dele só não é maior do que a do Alto Tietê, que tem 520 bilhões de litros, em oposição a 510 bilhões do volume morto do Cantareira.

“O déficit desses sistemas está sendo observado desde 2010”

IHU On-Line – Desde quando os sistemas de abastecimento de água vêm atuando com déficit?

Marzeni Pereira – O déficit desses sistemas está sendo observado há mais de uma década, mas desde 2010 a queda foi constante. Em 2009, eles chegaram a 100%, e a partir de 2010 o nível de água começou a cair e já havia indícios de que haveria uma crise. Em 2009, o Sistema Cantareira estava com um nível de água de 99,7%, em 2010 o pico baixou para 93%, em 2011, para 66%, em 2012 caiu para 62% e desde então só vem caindo. Nesses períodos a quantidade de água que se distribuía era maior do que a quantidade de água que chegava aos reservatórios. Ou seja, pelo menos, desde 2010 a contabilidade não estava fechando, mas a Sabesp e o governo do Estado de São Paulo optaram por adotar uma política de expansão de venda de água e começaram a procurar mais clientes, como indústrias, que foram convencidas a comprar água da Sabesp. Muitas dessas empresas utilizavam água de poços, mas foram convencidas a comprar água da Sabesp, com preços mais baixos. Mas o problema não foi só esse. De outro lado, também houve uma expansão do consumo, se estendeu mais redes de água e, em contrapartida, não houve expansão dos mananciais.

IHU On-Line – A crise poderia ter sido evitada? Que percentual da crise pode ser atribuído à falta de chuvas e que parte da crise está relacionada a problemas técnicos ou de gestão?

Marzeni Pereira – Aí está a questão. Muitas pessoas dizem que não era possível evitar a crise, mas se não era possível antes, não será possível fazer nada daqui para frente. Mas o fato é que já existiam vários estudos mostrando que haveria problemas de abastecimento. Vou citar um estudo que o próprio governo do Estado de São Paulo tem desde 2009, o qual foi elaborado pela Secretaria de Meio Ambiente, intitulado Cenários Ambientais 2020, que traçava três cenários: o cenário de referência, que é o mais provável de acontecer; o cenário alvo, que é aquele que se almeja; e o cenário ideal, que é aquele em que é aquele em que não haveria problema algum. O cenário de referência da Secretaria de Meio Ambiente já apontava que entre 2015 e 2018 haveria uma guerra pela água em São Paulo. Inclusive, a página 39 desse documento traça um cenário catastrófico. Esse cenário era o mais provável de acontecer, e o governo — a instituição, não estou falando de uma gestão específica — já tinha esse estudo na mão, porque inclusive, foi ele quem o encomendou.

Nesse sentido, o governo deveria ter tomado medidas para evitar que a crise de abastecimento ocorresse, mas elas não foram tomadas. Pelo contrário, a situação foi negligenciada. Então, a crise de abastecimento poderia ter sido evitada até este momento. Por exemplo, a perda no sistema de água, por causa do vazamento, é de 30% em São Paulo. Esse valor é o quanto o Sistema Cantareira fornece de água, hoje. Logo, seria possível termos evitado essa situação se tivesse se reduzido pelo menos metade dessas perdas. Se isso tivesse sido feito, de 2009 para cá, teríamos minimizado a crise.

IHU On-Line – Quais são as causas da perda de água na distribuição?

Marzeni Pereira – As perdas na distribuição de água de água têm algumas causas, e a primeira delas é o serviço mal feito. A Sabesp poderia fazer esse serviço com mão de obra própria, mas opta por terceirizar essa atividade, embora muitas empresas não tenham mão de obra qualificada para a realização do serviço, acrescente aí redução de custo pelas empreiteiras e serviço feito às pressas. O segundo problema é o uso dos materiais: ainda se usa materiais ultrapassados, como PVC e Ferro Fundido, que a cada seis metros tem um ponto vulnerável de vazamento. Hoje já existem materiais mais modernos, que têm menos emendas. Tudo isso poderia evitar os vazamentos da água. Com certeza se os vazamentos fossem controlados, não teríamos a crise de abastecimento que existe hoje.

Então, diria que a crise é, em parte, um problema de má gestão, somada com o problema climático, e ainda com o desmatamento em larga escala, do Cerrado, da Amazônia, que também, é um problema de gestão federal. Tudo isso somado acabou acarretando a crise de abastecimento de água em São Paulo.

“Se o vazamento fosse controlado, não teríamos a crise de abastecimento que existe hoje”

IHU On-Line – Você faz algumas críticas à política da Sabesp de vender água com um valor reduzido a grandes empresas que utilizavam água de poços. Que alternativas poderiam ter sido adotadas nesse sentido? Que percentual de água essas empresas utilizam?

Marzeni Pereira – Muitas das empresas tinham poços e várias ainda continuam usando poços. O consumo de água do setor industrial não é igual ao residencial: o consumo residencial na região metropolitana de São Paulo é responsável por cerca de 80% da água que a Sabesp vende, e os outros 20% são divididos entre o consumo industrial, público e comercial. Mas mesmo que esses grandes consumidores utilizassem poços, isso tem impacto na quantidade de água reservada nas represas, porque à medida que se retira água do subsolo, parte da recarga do subsolo é feita pelas represas. Então, se a Sabesp não vendesse a água, essas empresas iriam utilizar a água do subsolo do mesmo jeito.

Os grandes consumidores que compram água num valor abaixo daquele vendido normalmente, não causam grande impacto, o problema é moral: como se vende água para grandes consumidores utilizarem para fins não potáveis, como dar descarga em banheiros, e se vende água num valor maior para as escolas, que vão usar para fins potáveis?

Do ponto de vista das residências, também tiveram políticas para aumentar o consumo. Antes de 1990, era comum as pessoas terem poços rasos em casa, mas foi desenvolvida uma política do Estado, nos últimos 20 anos, para que as pessoas fechassem os poços, com a justificativa de que eles estariam contaminados. Mas não foram feitas análises da água para verificar se de fato a água de todos os poços estava ou não contaminada. Eu acredito que grande parte da água estivesse, sim, contaminada, mas só é possível afirmar isso depois de fazer análise da água. Mas por que houve esse empenho em fechar os poços? Porque havia uma política de aumento da venda de água para aumentar a lucratividade, ou seja, aumentar a arrecadação da empresa.

IHU On-Line – Valeria a pena tratar a água dos poços ou utilizá-las de algum modo?

Marzeni Pereira – Poderia usar a água dos poços para fins não potáveis. Numa situação de crise aguda, que podemos ter num futuro próximo, já que a possibilidade de colapso ainda não foi descartada, temos que optar por fontes não potáveis para fins não potáveis, ou seja, fontes de água que as pessoas podem utilizar para regar plantas e jardins, para dar descarga no vaso sanitário, etc. Nesses casos, a água não precisa ser potável. Até mesmo para lavar roupa, não precisa ser água potável, tem que ser limpa, do mesmo modo que para tomar banho. Nós tomamos banho em rios e no mar e a água não necessariamente é potável.

Não estou dizendo que não temos que tomar cuidado com a qualidade das águas, mas numa situação de crise, temos que optar. Em minha casa tenho captação da água das chuvas, mas filtro, trato e faço o controle do PH dessa água, e a utilizo para tomar banho, lavar roupa. Claro que nem sempre teremos água de chuva, mas muitas vezes tenho mais água da chuva do que da rede pública.

IHU On-Line – Esse tipo de reutilização da água faz parte de uma política de reúso de água?

Marzeni Pereira – Não consideramos a utilização da água da chuva como reuso, porque a água de reuso é aquela que já foi utilizada uma vez, por exemplo, a água do banho que se coleta e se joga no vaso sanitário, ou a água que é acumulada na máquina de lavar roupa e é reutilizada. Só que o reuso de água pode ser feito em grande escala também. Em São Paulo há um volume enorme coletado de esgoto, mas o tratamento é muito pequeno, de cerca de 18 mil litros por segundo, enquanto o tratamento de água, em tempos normais, é de cerca de 73 mil litros por segundo. Então há uma diferença muito grande em relação ao que se trata de água e de esgoto.

Agora, parte ou a totalidade da água tratada de esgoto poderia ser utilizada para fins não potáveis. Uma indústria poderia utilizar a água do esgoto tratada, não potável, para dar descarga no vaso sanitário ou refrigerar equipamentos, por exemplo. Isso representaria uma redução na captação de água em novos mananciais. Imagina quanto não aumentaríamos de disponibilidade de água.

Ao invés de buscar novos mananciais para serem explorados, poderíamos criar alternativas que já estão na região metropolitana de São Paulo. Para você ter uma ideia, somente aqui nessa região, temos uma capacidade de coletar, em média anual, 15 mil litros de água de chuva por segundo. Isso representa o que já está tratando no Cantareira hoje. Entretanto, a coleta e uso das águas das chuvas não podem ser feitam sem técnicas e critérios. É necessário um programa governamental para isso, com verba, técnicos e projeto. Caso contrário, a população fazer coleta de água de chuva sem critérios podem ser gerados outros problemas de saúde pública, como epidemia de dengue, leptospirose, por exemplo.

“Somente na região metropolitana de São Paulo, temos uma capacidade de coletar, por ano, 15 mil litros de água de chuva por segundo. Isso representa o que já está faltando no Cantareira hoje”

IHU On-Line – E qual é a viabilidade de tornar um sistema de reúso de água disponível para a população?

Marzeni Pereira – Isso é perfeitamente possível, de forma planejada, só é preciso fazer tubulações das estações de tratamento de esgoto para postos de gasolinas, empresas, ou seja, basta ter uma tubulação exclusiva de água de reuso para isso. A utilização de carro-pipa também é uma alternativa que já existe, e a prefeitura de São Paulo já lava as ruas da cidade com água de reuso. O Polo Petroquímico do ABC também utiliza água de reuso, 500 litros por segundo fornecida pela Sabesp, para atividades não potáveis. Mas ainda é muito tímida a utilização. Soluções existem, o problema é que não querem gastar dinheiro, porque o interesse econômico fala mais alto do que os interesses ambientais e sociais.

IHU On-Line – Em que outros mananciais o Estado de São Paulo e a Sabesp estão buscando água para conter a crise de abastecimento?

Marzeni Pereira – Já está em construção o sistema chamado São Lourenço, que trará água do Vale do Ribeira, que dará um fôlego de 5 mil litros por segundo, a um custo de R$ 2,2 bilhões. Mas se esse dinheiro fosse investido nessas alternativas que mencionei, poderia haver uma maior disponibilidade de água.

Outra possibilidade encaminhada pelo governo, que já está em fase de licitação, é trazer em torno de 5 mil litros por segundo de água do Rio Paraíba do Sul e interligar à represa Atibainha no Sistema Cantareira. Essas são obras extremamente caras, que causam um impacto ambiental grande e que poderiam ser evitadas se cuidássemos melhor das águas que temos, porque existem muitos rios em São Paulo, mas estão todos poluídos.

Em São Paulo existem muitos rios, e a incidência de chuvas no estado é boa: chove quase três vezes o que chove no Sertão Nordestino. Só que esses rios são abastecidos, essencialmente, por esgotos. Se parar de chover dois meses, por exemplo, os córregos continuam tendo fluxo e isso significa que são abastecidos por esgotos. Mas a questão é: quem joga esgoto nesses córregos? São as companhias de saneamento e, em São Paulo, a Sabesp contribui muito com a vazão dos córregos.

Os nossos rios poderiam ser utilizados como mananciais, mas não são utilizados porque não cuidamos deles. Não vou atribuir a culpa disso somente a essa gestão atual do governo e da Sabesp, claro que não, isso seria leviandade. Pois houve sempre uma política de desprezo em relação aos rios; eles eram vistos como algo sem importância, mas agora estamos pagando essa conta pela negligência.

IHU On-Line – De quem é a responsabilidade pelo saneamento dos rios?

Marzeni Pereira – Existem vários níveis de responsabilização. O governo federal deveria ter uma política de recursos hídricos mais séria, deveria atuar mais através da Agência Nacional de Águas – ANA. Os governos estaduais, especialmente São Paulo, têm a política de saneamento e gestão sobre as águas, só que essa gestão não é eficiente. Em São Paulo existe a Agência Reguladora de Saneamento e Energia do Estado de São Paulo – Arsesp, que deveria fiscalizar e proibir que se jogasse esgoto nos córregos. Os municípios, que são os poderes concedentes, também deveriam atuar, fiscalizar e exigir que as empresas tratassem os esgotos antes de lança-los nos rios.

No entanto, vários municípios também têm suas empresas de saneamento, algumas têm o departamento de água e esgoto, que são os DAE, outros têm serviços autônomos de água e esgoto e, no caso de São Paulo, vários municípios não são geridos pela Sabesp, pela administração estadual. Então, grande parte desses municípios não trata seus esgotos em quantidade e qualidade suficiente para que os corpos d’água não sejam poluídos. Em Guarulhos, por exemplo, pouco se trata esgoto. Em Mogi das Cruzes, no Alto Tietê, jogam esgoto in natura nos rios. Mas, a maior parte, a responsabilidade é do governo do Estado, que tem a Sabesp como empresa de saneamento e tem recursos.

“A Sabesp tem de voltar a ser uma empresa pública, ela tem que ser reestatizada”

IHU On-Line – Em que consiste o plano de rodízio da Sabesp? Ele é uma alternativa adequada ou não?

Marzeni Pereira – O rodízio da Sabesp — que ela não assume — foi um dos motivos da minha demissão, depois de atuar na empresa por 23 anos, porque eu disse aos órgãos de imprensa — fui entrevistado pelo El País — que a Sabesp estava fazendo um rodízio, ou seja, a Sabesp fecha a saída do reservatório e faz o rodízio.

O rodízio é uma forma de segurar mais água. Caso a Sabesp não tivesse feito o rodízio, a água não teria sido suficiente para abastecer a população até o mês de fevereiro, que foi quando começou a chover. O rodízio, infelizmente, foi utilizado muito tardiamente.

A Sabesp tinha um plano de rodízio já no início de 2014, mas em função das pressões eleitoreiras – tinha uma eleição no meio do caminho – e em função de uma Copa do Mundo, o rodízio foi postergado, porque não queriam mostrar que o estado mais rico do Brasil, em um dos países mais ricos em água do mundo, estava enfrentando um problema de abastecimento de água em pleno período de Copa. Portanto, para evitar isso, não fizeram o rodízio como deveria ter sido feito. À época, o rodízio era necessário para garantir uma gestão segura do abastecimento, do ponto de vista da quantidade de água.

Problemas do rodízio de água

Por outro lado, fazer rodízio também é um problema, porque pode contaminar a rede de abastecimento. Toda vez que se paralisa uma rede de abastecimento de água, aquele volume que tem dentro da rede precisa ser ocupado, pode ser por meio de ar ou qualquer outra substância que estiver fora, qualquer outro fluido, se a rede tiver vazamento. Onde tiver vazamento, há risco de água contaminada entrar na rede e contaminar, por exemplo, a água que está na caixa d’água, nas residências.

O rodízio, além do problema da qualidade da água, pode trazer outros problemas. Por exemplo, uma informação que é pouco veiculada na mídia: toda vez que se faz rodízio, entra ar na rede, e esse ar, depois, tem que sair e sairá no cavalete das pessoas e fará o hidrômetro girar favorável ao aumento da conta de água. Então, se todos os dias o abastecimento de água é paralisado, significa que todos os dias haverá mais ar na rede.

Além disso, também se gera um problema na estrutura de rede. Imagina que todos os dias uma rede de água tem uma pressão de 50 metros de coluna água (mca), ou seja, a água está pressurizando a rede e quando falta água, o que acontece? A pressão vai para zero. Esse processo causa, na rede, um efeito chamado de “efeito fadiga”, que é uma hora a incidência de pressão alta e, em outra, de pressão baixa. Se isso acontece com frequência, com o tempo a rede será comprometida, porque esse aumento e queda abrupto de pressão danificará a rede. Se continuar por mais tempo com o rodízio, a Sabesp terá que trocar toda a sua rede, porque estourará tudo, tanto a rede de ferro quanto a rede de PVC. É um problema sério para o futuro.

Falta d’água

Atualmente, a Sabesp está deixando muitos lugares sem água durante 13, 15, até 16 horas. Em alguns locais, esse tempo chega até 18 horas todos os dias. Mas como Em São Paulo, mais de 80% da população tem caixa d’água em casa, parte dessa população normalmente não percebe quando falta água, porque se chegar água em casa durante seis horas do dia, com exceção de quem fica em casa, poucos percebem que está faltando água.

Mas há um lado positivo no rodízio: Imagina que falta água 15 horas por dia, nesse período não tem vazamento, o que significa também, que nesse período não tem perda. Com esse rodízio, a Sabesp conseguiu reduzir significativamente suas perdas, porque o tempo de pressurização da rede é muito menor. Então, isso justifica, por exemplo, por que ainda temos água hoje. Poderíamos não termos mais água se não tivesse sido feito o rodízio.

Assim, toda vez que se paralisa a rede de água, há o risco de contaminação. Nesse sentido, o rodízio é um problema, mas em última análise, ele foi necessário. Fazer o rodízio foi uma atitude acertada, o que não foi acertada foi a política de orientação do governo do Estado de São Paulo, que não deixou a Sabesp fazer o rodízio antes e não é transparente. Se a Sabesp tivesse autonomia para atuar desde o início de 2014, a situação hoje seria mais confortável; não estou dizendo que seria segura, mas seria mais confortável.

“Se a Sabesp tivesse autonomia para atuar desde o início de 2014, a situação hoje seria mais confortável”

IHU On-Line – Como se deu seu processo de desligamento da Sabesp?

Marzeni Pereira – Eu era empregado público, mas não era estatutário, pois a Sabesp é uma empresa de economia mista, então a admissão se dá pelo concurso público, mas os funcionários trabalham sob o regime da CLT. Por isso, a Sabesp pode demitir, desde que tenha a justificativa adequada. Eles fizeram um corte de 604 trabalhadores no início deste ano. Eu já havia sido avisado no final do ano passado que seria demitido neste ano, por conta do meu ativismo e da minha forma de atuar. Internamente, eu deixei muito claro que a transparência é essencial, que tem que falar a verdade, porque a população precisa saber o que está acontecendo. Muitas pessoas sentem medo de falar alguma coisa, apesar de saberem, por medo de sofrer retaliações.

Quando comecei a dar entrevistas, evitava falar de questões que são segredos de empresa, aliás, nem existem muitos segredos, até porque uma empresa que presta serviço público nem deveria ter segredo, deveria ser totalmente aberta em relação às suas atividades, além disso, não tem concorrente. De todo modo, eu evitava falar de questões muito específicas, mas mesmo assim isso provocou uma ira muito grande na direção da empresa e do governo do Estado.

Estou entrando na justiça agora por conta da minha demissão. Saiu uma liminar dizendo que não deveria haver mais demissões, só que a liminar caiu e a Sabesp voltou a dizer que não irá readmitir ninguém. Minha demissão foi justificada como redução do fluxo de caixa, ou seja, eles dizem que houve uma redução do fluxo de caixa e por isso eles me demitiram. Ocorre que minha avaliação interna sempre foi muito boa, chegava próximo de 100%. Mas, enfim, eu não perdi horas de sono por causa disso; já estava preparado psicologicamente. Claro que eu não queria ser demitido, mas me preparei psicologicamente para não ficar abatido. Minha demissão é um caso claro de perseguição!.

IHU On-Line – Além do controle na perda da distribuição, das políticas de reúso e do rodízio, que medidas poderiam ajudar a resolver o problema da crise hídrica?

Marzeni Pereira – Não há ações imediatas que possam resolver a crise. Por exemplo, se não chover até o final do ano e prosseguir essa estiagem por mais dois ou três anos, com chuvas muito abaixo da média, teremos um caos em São Paulo. Para os próximos três ou quatro anos, é possível ter algumas opções de atuação. Por exemplo, se não chover nos próximos três ou quatro meses, o sistema Alto Tietê, Cotia e Rio Claro, irão secar e, com certeza, o Cantareira também. Nós não teremos água na região metropolitana para 20 milhões de pessoas, o que seria um caos, uma catástrofe.

Mas vai chover, pode ser abaixo da média, mas vai chover, então teremos água para mais uns meses. O que poderia ser feito para minimizar? Primeiro, temos de ter um programa ousado de coleta e uso da água de chuva. É preciso também que o governo abra mão da necessidade de arrecadação, porque aí também cai a arrecadação da empresa de saneamento, da Sabesp — o Estado usa parte dessa arrecadação até para as receitas estaduais, o que é um erro, pois o dinheiro do saneamento deveria ser utilizado no saneamento, mesmo o excedente.

Alternativas

Ainda no curto prazo, dependendo da situação, é preciso abrir poços em larga escala. O próprio governo deveria fazer isso para que a população não fique totalmente sem água. Além disso, a Sabesp tem de voltar a ser uma empresa pública, ela precisa ser reestatizada, só que não pode ser estatizada na forma como era antes, em que o governo tinha a maioria das ações, mas as empreiteiras continuavam mandando por dentro e dando as ordens de como e quais obras deveriam ser feitas. Tem que haver controle social dessa empresa. Nós estamos falando do setor de saneamento, que atinge diretamente a saúde das pessoas. O Ministério da Saúde divulgou que cerca de 80% das internações hospitalares vêm da falta de saneamento. Portanto, esse é um setor que está ligado diretamente à saúde pública.

Também é preciso um programa agressivo de preservação e recuperação de mananciais. Os mananciais que existem hoje têm que ter suas áreas preservadas, mas, mais que isso, é preciso fazer o reflorestamento com espécies nativas. Além disso, é preciso retirar os esgotos dos mananciais. Tem mananciais em São Paulo, como é o caso da represa Billings, do Guarapiranga, que estão em estado deplorável. A qualidade da água da Billings é pior que a qualidade da água do volume morto do Cantareira, muito pior. Então, é necessário retirar o esgoto dos mananciais, há a necessidade de tratar o esgoto urgentemente, não dá para jogar o Rio Pinheiros na Billings, na qualidade em que está hoje. Em médio e longo prazo seria indispensável esse tipo de atuação.

Também precisamos combater a especulação imobiliária, porque as áreas de mananciais são ocupadas ou pela especulação imobiliária para fazer novos loteamentos ou pelas populações mais pobres, que não conseguem comprar casas nas regiões mais centrais.

Atuação no médio e longo prazo

Em médio e longo prazo existe uma folga maior para atuar. Agora, o problema principal é no curtíssimo prazo. Inclusive uma das minhas críticas mais fortes na Sabesp era de que o governo estava fazendo uma administração de alto risco, porque já havia avisos e previsões mostrando que era preciso fazer algo com urgência. Inclusive à época da renovação da outorga do Sistema Cantareira, em 2004, já havia a previsão de que o governo do Estado deveria reduzir perdas e tratar esgotos para que se reduzisse a dependência do Cantareira, e isso não foi feito.

“Brasil exportou em 2013 o equivalente em água que poderia abastecer a região de São Paulo por 100 anos”

Mas para reduzir perdas é preciso ter pessoas qualificadas para fazer os serviços, não dá para contratar uma empreiteira e depois de dois anos contratar outra, com pessoas que nunca trabalharam no setor. Os funcionários da Sabesp têm 10, 15, 20 anos de trabalho na área e conhecem tudo de saneamento. Então esse profissional precisa ser preservado. É preciso também ter um combate ao lobby das empresas que vendem materiais, e não dá para submeter o interesse coletivo da população em geral aos interesses individuais, tanto das prestadoras de serviços, das empreiteiras, quanto das empresas que vendem materiais.

No meu ponto de vista, essa crise de abastecimento de água que sofremos, que é essencialmente é uma crise de gestão, tem que servir como balizador do que não deve ser feito, ou seja, não podemos deixar acontecer no futuro o que está acontecendo agora. Como é que vamos deixar uma região com 20 milhões de pessoas, correr o risco de ficar totalmente sem água? Não tem cabimento.

O problema não é só a questão da falta de chuva, é questão de gestão. Devemos tomar medidas que sirvam de precaução, e o princípio da precaução tem de estar sempre pautado. Se nós não temos certeza de que irá chover no ano que vem, o que vamos fazer? Vamos preparar a população, vamos pensar alternativas.

Gostaria ainda de lembrar que nós também temos um problema sério no uso da água no Brasil em relação à agricultura, que utiliza 70% da água hoje. Só para termos uma ideia — fiz um cálculo rápido com dados do Ministério do Desenvolvimento e Comércio —, só com quatro produtos — soja, carne, café e milho —, o Brasil exportou em 2013 o equivalente em água que poderia abastecer a região de São Paulo por 100 anos.

Fonte – Patricia Fachin, IHU de 04 de setembro de 2015