Adepto do minimalismo garante: você só precisa de uma unidade de cada objeto que tem em casa. Faça o exercício!

Adepto do minimalismo garante: você só precisa de uma unidade de cada objeto que tem em casa. Faça o exercício!Foto: Rubén Pérez Planillo/Creative Commons

Eu sou fã do minimalismo! Já escrevi aqui, aqui e aqui no The Greenest Post sobre isso. E o assunto continua me instigando. Afinal, quanto do meu precioso tempo já ganhei por não precisar ficar muito tempo na frente do armário escolhendo minha roupa – pelo simples fato de não ter muita roupa? Ou quanto espaço já não economizei em casa por ter poucos objetos?

O autor do blog Becoming Minimalist, Joshua Becker, tem uma teoria muito bacana sobre o minimalismo: tudo que você precisa é apenas uma unidade. Dizer isso pode ser “chover no molhado”, mas colocar em prática é um exercício mais difícil do que parece nos dias de hoje, em que o consumo ainda dita muitas regras e, muitas vezes, nos define como pessoas.

A teoria de Joshua vai contra quase todo instinto humano, de marcação e conquista de território. A sociedade de consumo reforça a nossa necessidade intrínseca de ter. Ficamos vidrados com tudo isso. Colocamos culpa na facilidade e satisfação que isso nos traz, mas será mesmo?

Recentemente mudei de apartamento junto com meu namorado. Eu pensava que era minimalista e que tinha poucas coisas, mas precisei de algumas viagens com carro para conseguir – finalmente! – levar tudo para a casa nova. Com filho, a mudança ficou ainda mais desafiadora, já que ele, apesar de pequeno, tem muito mais roupas do que eu, uma vez que suja muito mais peças do que um adulto.

O meu namorado, entretanto, fez toda sua mudança em apenas uma viagem de carro. E isso me levou a muita reflexão. O que são as tantas coisas que eu precisava transportar e ele não? Será que eu realmente precisava de tudo aquilo?

Segundo Joshua, não. A alegria está na simplicidade de ter apenas uma unidade. “Quando começamos a limpar nossa casa, percebemos uma tendência preocupante: repetições. Temos repetições de tudo: roupas de cama, jaquetas, tênis, velas, televisões e até mesmo controles remoto para um mesmo aparelho!”, revela.

Costumamos pensar: se ter um objeto é bom, ter mais que um é melhor ainda. Mas não é bem assim que funciona. Bens materiais acabam enchendo sua vida e cabeça de coisas que não importam tanto. O que um dia foi sinal de fartura para mim, hoje já perdeu totalmente o sentido.

A família de Joshua adotou a filosofia e conseguiu encontrar prazer em possuir apenas uma televisão, um casaco de frio, um cinto, uma garrafa d’água, um shampoo, etc. – sem backups! Assim, com menos “tranqueiras” em casa vou passa a achar suas coisas mais importantes, cuida mais delas e, consequentemente, precisa repô-las com menos frequência. Quer mais? Ao economizar com o supérfluo você pode passar a investir nas coisas que, de fato, te trazem bem-estar, como viagens, alimentação e lazer em geral. E aí, topa o desafio?

Fonte – Jéssica Miwa, The Greenest Post de 01 de maio de 2017

No Dia das Mães (e sempre), o melhor presente é estar presente

Crédito da foto: Carlos Bento/Creative Commons

Antes de atender ao reflexo automático de correr para o shopping center, pare e pense no que realmente importa para a sua mãe – use a criatividade para surpreendê-la e busque uma transformação no seu comportamento que faça a diferença para ela

Você é um bom filho ou uma boa filha e por isso vai comprar um presente caro para a sua mãe, à altura da sua gratidão. Ela vai se sentir valorizada e te dar um abraço, emocionada e sorridente. Com a proximidade do Dia das Mães (14/5), essa narrativa é repetida de diversas formas nos anúncios publicitários para convencer as pessoas a fazerem compras generosas. Mas será que é disso que as mães precisam?

Provavelmente a prioridade dela nesta data não é ganhar um presente, mas estar perto das pessoas de quem gosta. Para mais de 60% da população brasileira, felicidade é ter saúde e bom convívio social com a família e amigos, segundo a pesquisa “Rumo à Sociedade do Bem-Estar”, do Instituto Akatu. Apenas 3 em cada 10 brasileiros associa o sentimento a questões financeiras.

Por isso, a proposta do Akatu nesse Dia das Mães é te desafiar a refletir sobre as verdadeiras necessidades e os desejos da sua mãe para, assim, oferecer uma experiência inesquecível e, melhor ainda, uma mudança permanente no seu comportamento que a beneficie todos os dias.

Dicas para oferecer um momento especial no Dia das Mães:

Cozinhe a comidinha preferida dela

Você sabe qual é o prato preferido da sua mãe? Se não sabe, é hora de descobrir. Mesmo que você não saiba cozinhar, prepare você mesmo a receita – busque ajuda de alguém, se for necessário. Caso se sinta muito inseguro, talvez seja melhor convocar todo mundo para a cozinha – pode ser divertido se todos se empenharem na produção da refeição. Só não vale deixar todo o trabalho (e a louça suja) para ela!

Encontre fotos antigas e organize uma “exposição”

Que tal resgatar aquelas velhas fotos de família? Você pode fazer um “varal” para que todos se lembrem dos bons momentos ou preparar uma sessão nostalgia na tela da TV ou do computador.

Propicie um momento de relaxamento e bem-estar

Dedique algumas horas do dia para cuidar do corpo e do bem-estar da sua mãe. Em um SPA ou mesmo em casa, ofereça uma massagem relaxante, um escalda-pés com essência ou uma máscara de hidratação para os cabelos dela.

Faça uma seleção das músicas que ela gosta

Qual é a trilha sonora da sua história com a sua mãe? Que música vocês costumavam ouvir juntos desde a infância? Fazer esse resgate pode ser divertido e acabar em dança!

Organize um programa cultural

Música, teatro, dança, exposições, cinema. Seja lá qual for a preferência da sua mãe, faça uma pesquisa e providencie as entradas – se a grana estiver curta, pesquise opções gratuitas.

Faça um piquenique no parque ou ao ar livre

Se o tempo estiver bom, prepare as comidinhas, escolha um parque ou local agradável e estenda a toalha sob a sombra de uma árvore. Divirtam-se!

Dicas de mudança de comportamento para melhorar definitivamente a vida das mães:

Prepare as refeições (ou ajude na cozinha)

No papel de companheiro ou filho (a), divida com a mãe as tarefas. Uma pesquisa do Instituto Qualibest, divulgada em 2016, revelou que 63% das entrevistadas confessam considerar a vida de mãe hoje em dia “difícil e exaustiva” pelo excesso de tarefas no dia a dia. Por isso, não espere a comida pronta. Seja ativo e ajude no preparo das refeições, nem que seja como aprendiz – um dia você chega lá.

Mantenha a limpeza doméstica

Todos moram na casa, todos sujam, então todos limpam. Mesmo que a mãe se dedique totalmente às tarefas domésticas, cabe a todos colaborar para manter a casa limpa.

Vá à feira ou ao mercado

Manter a geladeira e a despensa cheia dá trabalho. Portanto, participe do processo de “abastecimento” da casa. Há várias maneiras de ajudar: você pode ir às compras ou organizar uma lista com o que está faltando na casa, por exemplo.

Combine praticar um esporte ou atividade cultural em dupla ou em grupo

Seja um incentivador da vida ativa, convidando-a para praticar alguma atividade física ou cultural que seja do seu interesse. Às vezes uma boa caminhada, além de ser um bom exercício, é uma boa oportunidade para colocar o assunto em dia.

Permita que ela desfrute dos amigos e tenha um tempo para si

A vida familiar é importante, mas é essencial que as mães tenham tempo para suas necessidades pessoais como manter hobbies, sair com os amigos, cuidar do corpo e da saúde, entre outras.

Promova um encontro inusitado em um lugar marcante

Sabe aquele amigo de juventude da sua mãe que ela não encontra faz tempo? Talvez seja interessante organizar esse encontro, de preferência em algum lugar que eles estavam habituados a frequentar juntos.

Fonte – Akatu de 02 de maio de 2017

Estudo mostra que consumidor sabe pouco sobre a origem do que compra

Estudo mostra que consumidor sabe pouco sobre a origem do que compraNove entre cada dez brasileiros acreditam que um sistema de bem-estar produz uma carne de melhor qualidade. | Foto: iStock by Getty Images

Dois em cada três brasileiros declaram desconhecer a forma como se cria os animais cuja carne é por eles consumida.

A World Animal Protection lançou na semana passada o relatório “Consumo às cegas: percepção do consumidor sobre bem-estar animal na América Latina”. O relatório, confeccionado a partir de pesquisa encomendada à Ipsos, contextualiza a produção e o consumo de proteína animal no Brasil, analisa os principais resultados de uma pesquisa nos quatro países latino-americanos consultados (Brasil, Chile, Colômbia e México) e compila uma série de recomendações e de ações que podem ser tomadas com finalidade de conscientização.

De forma geral, aponta-se que o consumidor latino-americano pouco sabe sobre a origem do que consome. Dois em cada três brasileiros declaram desconhecer a forma como se cria os animais cuja carne é por eles consumida (66% dos respondentes). Esse índice é semelhante nos demais países latino-americanos consultados, variando de 57% dos entrevistados no México, 64% com a mesma resposta no Chile e 66% dos respondentes na Colômbia.

O atributo “produção com bem-estar animal” figura em 6ª posição nos quesitos de exigência dos consumidores entrevistados no Brasil, Chile e no México e sobe para 5º lugar na Colômbia. Isso significa que nesses três países, com exceção da Colômbia, a “marca” é mais importante do que a “produção com bem-estar animal” (ainda que algumas marcas possam estar relacionadas à ideia de bem-estar animal).

Um dos dados mais relevantes encontrados está relacionado aos produtos com selo de bem-estar animal e intenção de compra: um 82% dos brasileiros compraria esses produtos se existissem no mercado. E um 72% compraria apenas esses produtos, sempre que o preço fosse o mesmo que os produtos sem a certificação. Nove entre cada dez brasileiros acreditam que um sistema de bem-estar produz uma carne de melhor qualidade; e jovens de 18 a 29 anos, no geral, têm maior preocupação com os métodos de abate.

carne_vermelha_consumoFoto: iStock by Getty Images

Dos dados coletados, conclui-se que o consumo de proteína animal é alto no Brasil: 68% dos entrevistados consomem carne quatro vezes ao longo da semana. A carne bovina é a favorita, mas frango e ovos são os mais consumidos (possivelmente por conta da acessibilidade ao produto). Quando questionados sobre a importância do bem-estar dos animais de fazenda, apenas 3% respondeu que não era nada importante. Mas, ao mesmo tempo, esses mesmos consumidores sabem muito pouco sobre os métodos de criação dos animais, muitas vezes com uma visão bucólica da situação na década de 50, assim como sobre o bem-estar e como este se aplica aos animais de fazenda.

Os resultados do Brasil elucidam vários aspectos relacionados ao hábito de compra e visão sobre o bem-estar dos animais de fazenda. Fica evidente que, na visão dos brasileiros, o bem-estar dos animais está intimamente relacionado à qualidade do produto. Para eles também o fator mais importante no momento da compra é qualidade, seguido por preço e aparência da carne.

Quando questionadas sobre o valor agregado ao produto oriundo de animais com um bom bem-estar, os entrevistados dizem acreditar que esses seriam mais caros simplesmente por serem mais éticos do que os outros. Sabemos hoje que isso não necessariamente é verdade: é possível produzir com bem-estar sem aumentar o custo de produção.

“Um elo importante desta cadeia é o consumidor, que ainda não descobriu a força que possui para mover o sistema de produção. Faltam educação e conscientização sobre a produção ética e sustentável e sobre a acessibilidade deste tipo de produto”, afirma José Ciocca, Gerente de Campanhas da World Animal Protection do Brasil.

Fonte – CicloVivo de 20 de dezembro de 2016

Comprar roupas está ficando fora de moda no Reino Unido

Uma tendência chamada “Novo Consumismo” está crescendo cada vez mais e fazendo com que as pessoas comprem de forma mais consciente do que antes. Em vez de comprarem roupas, as pessoas no Reino Unido estão preferindo investir em viagens de férias e idas a restaurantes. O lucro das maiores varejistas do país despencou porque suas vendas caíram 4,4% em cinco dos últimos seis meses. As vendas entraram em declínio pela primeira vez em mais de 20 anos.

As maiores lojas da Grã-Bretanha estão sofrendo como resultado. Marks and Spencer , o maior varejista de roupas com 10% do mercado, está cortando postos de trabalho depois de relatar a sua maior queda trimestral em vendas de roupas há mais de uma década, em julho. French Connection não tem reportado aumento do lucro desde 2012. Mesmo algumas das marcas de rua mais famosas parecem estar lutando para enfrentar a pressão da concorrência e fazer constantes descontos.

A rede de lojas John Lewis teve uma queda nos lucros semestrais de 75%, e a rede de fast fashion Primark , cujas lojas de rua são as mais visitadas, informou a primeira queda em vendas em suas lojas no Reino Unido em 16 anos. A empresa culpou o Outono quente no ano passado e a primavera fria deste ano. Segundo uma pesquisa de consumo feita com 15.000 britânicos pela empresa Kantar Worldpanel, os consumidores acreditam que o tempo está se tornando menos previsível, o que significa que eles estão esperando que o frio do inverno ou a onda de calor do verão se materializem antes de comprar qualquer coisa.

Comprar roupas está ficando fora de moda no Reino Unido stylo urbano

Mas essa mudança de consumo de moda acontece em outros países, como a França e os EUA, que estão experimentando uma desaceleração semelhante nas vendas de roupas, embora não tão grande como no Reino Unido, sugerindo que a mudança climática pode ser apenas uma parte do todo. As razões pelas quais a compra de roupas pode estar ficando fora de moda:

• Diante de um clima imprevisível, as pessoas estão esperando para comprar roupas de verão ou inverno até que precisem realmente delas;
• Os clientes agora esperam pelas liquidações antes de comprar para não pagar o preço cheio das peças;
• Desde o lançamento do jeans skinny há dez anos, os varejistas dizem que não houve nenhuma grande tendência varrendo a moda nos últimos anos para forçar os consumidores conscientes a mudarem seus guarda-roupas;
• Os consumidores da Geração Y estão economizando seu dinheiro com experiências, tais como férias ou jantares, em vez de gastá-lo com moda. “A comida é a nova moda. As lojas de varejo podem parecer chatas, ao passo que existem muitos restaurantes com conceitos alimentares inspiradores.”

Mas outro fator importante que poderia estar influenciando essa mudança, é que as pessoas estão cansadas de gastar tanto tempo e dinheiro com coleções de moda que só remixam estilos do passado. Era uma questão de tempo para que os compradores fizessem uma pausa. Em 2016, no Reino Unido, um consumidor médio comprou 60 peças de roupa nova, a primeira queda em sete anos, de acordo com analistas de mercado. Vendas agora acontecem mensalmente, por isso é fácil para os compradores esperarem por pechinchas. Há descontos em abundância.

O consumo de moda está perdendo sua influência sobra a geração Y

É justamente na geração do milênio ou geração Y, que houve uma queda perceptível no consumo de roupas. Os consumidores menores de 25 anos estão comprando menos enquanto as pessoas mais velhas, de 45 a 50 anos, aumentaram a quantidade de gastos com roupas para os seus filhos, filhas e assim por diante. Alguns varejistas têm culpado a indústria da moda. No início deste ano, Richard Hayne, presidente-executivo da Urban Outfitters, disse que a última grande tendência da moda aconteceu há 10 anos com o jeans skinny.

“Desde então nós tivemos todas as variedades de skinny: de cintura baixa a cintura alta, mas hoje, o cliente está com o armário cheio desses modelos skinny. Sem uma nova moda para impulsionar as compras, os clientes podem facilmente adiar seus gastos” disse ele ao site The Independent. Richard Hayne acredita que a moda pode ter “perdido um pouco de sua magia com a geração do milênio.”

Os consumidores de hoje estão reavaliando suas prioridades e questionando o que eles realmente acham que tem valor. Isso se encaixa na tendência crescente de “Novo Consumismo“, um termo cunhado pela empresa de pesquisa Euromonitor para descrever um movimento generalizado que prioriza o consumo conscientes sobre o consumo impulsivo. Há oito principais tendências que compõem o Novo Consumismo:

1) A economia circular (onde tudo é utilizado e nada é desperdiçado)
2) A inovação frugal (significa eliminação de características não essenciais e muitas vezes dispendiosas de um produto ou serviço)
3) Negociação (os consumidores tornaram-se compradores mais inteligentes, não tem vergonha de procurar pechinchas e a tecnologia contribuiu para isso.)
4) A economia de compartilhamento (que liga a oferta e a procura, interrompendo a forma tradicional de condução de negócios)
5) Experiência (a priorização do fazer, ver e sentir sobre o “possuir mais coisas”)
6) Tempo para si próprio (um aumento das tarefas terceirizadas para se ter mais conveniência)
7) Reavaliar a própria utilização do espaço (ou seja, eu realmente preciso viver numa casa grande?)
8) A economia ‘gig’ (caracterizado por contratos de curto prazo de trabalho e freelancer, bem como a capacidade de se movimentar)

No mundo da moda, o Novo Consumismo se traduziu em demanda por maior transparência, valores de marca autêntica, processos de produção sustentáveis, economia de compartilhamento e experiências de varejo originais, entre outras coisas. Será que os jovens da geração do milênio estão se cansando do hiper consumismo do fast fashion e estão buscando algo melhor para si mesmos e para o mundo?

Fonte – Renato Cunha, Stylo Urbano de 12 de outubro de 2016

Itália aprova lei contra desperdício de comida e espera economizar 12 bilhões de euros por ano

ßlϋeωãvε

O objetivo é poupar 1 milhão de toneladas de comida por ano e distribuí-la para a caridade

Um projeto de lei contra o desperdício alimentar foi aprovado no Senado italiano no dia 2 de agosto. O objetivo é poupar 1 milhão de toneladas de comida por ano. Isso significa uma economia de cerca de 12 bilhões de euros anualmente, ou seja, o equivalente a 1% do PIB do país. Cada italiano joga no lixo, em média, 76 quilos de alimentos por ano, segundo uma pesquisa realizada pela Confederação Nacional de Cultivadores Diretos (Coldiretti). “É um dado inaceitável”, ressalta o ministro da Agricultura, Maurizio Martina, em entrevista à agência Ansa.

Mas o que fazer com a comida que seria desperdiçada? O plano dos italianos é promover a doação desses alimentos para setores mais vulneráveis da população. Hoje a taxa de desemprego no país está em 20% e milhões de pessoas vivem na pobreza.

E quais alimentos poderiam ser doados? Há alguns pré-requisitos: os que mantiverem os padrões de segurança e higiene mas que por algum motivo não forem vendidos, os que tiverem com o prazo de validade para vencer, e aqueles que não foram colocados no comércio por erro no rótulo.

Restaurantes e supermercados que desejarem ceder seus excedentes à caridade devem apresentar uma declaração cinco dias antes. Também terão incentivos fiscais e descontos em impostos para doarem comida e remédios. Já os agricultores poderão dar o que não for vendido para instituições beneficentes, sem incorrer em custos adicionais.

O ministro explicou para a agência Ansa que o projeto se trata de uma herança da Exposição Universal de Milão, realizada em 2015, cujo tema foi “Alimentando o Planeta, energia para a Vida”.

A França também aprovou, recentemente, uma lei que proíbe o desperdício de alimentos, mas é mais severa do que a legislação italiana, pois prevê punições para os responsáveis. Os donos de estabelecimentos com mais de 400 m², por exemplo, são obrigados a assinar contratos de doação com instituições beneficentes, do contrário podem pagar multas em até 75 mil euros e ter uma pena de dois anos de prisão.

Esse problema não é só da Itália e da França. Segundos dados da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO), cerca de um terço da comida produzida em todo o mundo é desperdiçada e este número sobe para os 40% no caso da Europa. Todos esses alimentos jogados fora poderiam alimentar cerca de 200 milhões de pessoas.

O desperdício de alimentos deve ser evitado ao máximo, já que a produção consome muitos recursos do ambiente. E a redução do desperdício deve ser buscada não somente no consumo final, mas também nas etapas de plantio, armazenagem, processamento e distribuição de alimentos. Cada consumidor pode fazer a sua parte, com pequenas mudanças em suas práticas cotidianas. Adotar como critérios para a compra não só o preço, mas também a qualidade, a origem, as informações sobre os impactos sociais e ambientais causados pela empresa fabricante, pode trazer grandes benefícios para sua saúde, para a sociedade e para o meio ambiente. E nunca jogar comida no lixo, mas procurar reaproveitar as sobras em outras receitas saudáveis ou doá-las.

Fonte – Akatu de 05 de agosto de 2016

Produção de alimentos é suficiente, mas ainda há fome no país, diz pesquisador

Conferência Green Rio 2015 discute estratégias para a economia verde e o setor de alimentos orgânicos no Jardim Botânico (Fernando Frazão/Agência Brasil)

Estudo revela que o Brasil produz mais que o suficiente para alimentar sua população, mas a desigualdade de renda e o desperdício fazem com que 7,2 milhões ainda sejam afetadas pelo problema Arquivo/Agência Brasil

A produção nacional de alimentos é suficiente para os mais de 204 milhões de brasileiros, mas a desigualdade de renda e o desperdício ainda fazem com que 7,2 milhões de pessoas sejam afetadas pelo problema da fome no país, revela estudo conduzido pelo professor Danilo Rolim Dias de Aguiar, pesquisador do Departamento de Economia do Campus Sorocaba da Universidade Federal de São Carlos.

“Temos uma concentração de renda muito grande. Se, por um lado, temos pessoas passando fome, por outro, temos o problema da obesidade, que é cada vez maior. Haveria, então, um problema ligado à renda e à educação, que estaria dificultando o acesso aos alimentos. Aí também entra a questão das perdas”, disse Aguiar.

Na pesquisa, Aguiar fez um levantamento sobre o que é produzido no país, pegando os principais alimentos – arroz, feijão, trigo, ovos, leite, milho, soja, banana, açúcar, mandioca e carnes de frango, de porco e bovina – e os transformou em um indicador comum que permitisse uma comparação mais adequada entre eles, calculando todos os itens em número de calorias ou proteínas.

Segundo o pesquisador, a quantidade média necessária para consumo individual por dia, e que foi considerada neste estudo, é de 2 mil calorias e 51 gramas de proteína.

“Peguei tudo aquilo que ficou no Brasil para consumo humano e transformei isso em calorias e proteínas. O que verificamos foi que, em termos de calorias e proteínas, temos mais que [o suficiente para] as necessidades humanas aqui no Brasil. Se pegarmos calorias, que é uma situação um pouco pior, chegamos, em 2013, com 118% das necessidades individuais, uma folga de quase 20%. Em termos de proteína, teríamos uma folga de mais de 60%, ou seja, estariam sobrando alimentos”, explicou Aguiar.

Comida jogada no lixo

Desperdício de alimentos é um dos fatores que contribui para agravar a questão da fome Arquivo/Agência Brasil

Em entrevista à Agência Brasil, o pesquisador disse que muitas pessoas ainda passam fome no Brasil principalmente pela dificuldade de acesso à alimentação. Apesar de o país ocupar o quinto lugar no ranking mundial da obesidade, ainda há mais de 7 milhões de pessoas passando fome e 30 milhões de subnutridos.

No estudo, Aguiar analisa também o volume de produtos exportados pelo Brasil. Para o professor, o volume de alimentos exportados poderia, por exemplo, alimentar duas vezes toda a população brasileira. Quando se transforma o total que é vendido para o exterior em calorias, percebe-se que a quantidade seria suficiente para alimentar quase 700 milhões de pessoas.

“Peguei todos os produtos que o Brasil exporta, como milho, soja, carne bovina e carne de frango, transformei em calorias e proteínas e dividi pelas necessidades de cada pessoa para saber quantas poderiam ser alimentadas no exterior com as exportações brasileiras. Em 2013, as proteínas que o país exportou dariam para nutrir 700 milhões de pessoas. Em termos de calorias, seriam 380 milhões de pessoas. Aquilo que estamos vendemos lá fora seria capaz de alimentar duas vezes a população brasileira em termos de calorias e três vezes em termo de proteínas”, detalhou Aguiar.

No entanto, isso não ocorre em realidade porque muito do que é exportado pelo Brasil vira comida para animais, disse o professor. “Isso não está alimentando tanta gente porque boa parte do que se exporta – como milho e soja – não vai virar diretamente comida para pessoas, mas comida para animais.”

O pesquisador classifica de “cruel” essa situação em que “as pessoas de baixa renda acabam concorrendo com os animais, porque aquilo que poderia ser utilizado para alimentação humana vai para a alimentação animal, pois as pessoas de maior renda querem cada vez mais consumir carne. Como resultado disso, o preço dos produtos básicos sobe, porque há pouco, e fica cada vez mais difícil o acesso por parte dos pobres”.

Políticas públicas

carne

Brasileiros estão produzindo muito mais carne do que arroz e feijão porque a carne dá mais rentabilidade, diz o professor Danilo Aguiar, do Campus Sorocaba da Universidade Federal de São Carlos Arquivo/Agência Brasil

Para Aguiar, políticas públicas são necessárias para diminuir o consumo de carne. Ele destacou que o crescimento do consumo da carne é acompanhado pelo aumento da crise ambiental, já que, por exemplo, a produção da carne bovina é responsável por 10% das emissões de gases de efeito estufa na atmosfera e é o principal emissor do agronegócio.

De acordo com o pesquisador, outro problema relacionado ao aumento do consumo de carne no país é que muito da produção de milho e soja, por exemplo, acaba sendo destinado à alimentação dos animais.

“Por que os produtores brasileiros estão produzindo muito mais carne do que arroz e feijão? É porque isso, para eles, dá maior rentabilidade. Temos que ter políticas que incentivem a produção de alimentos que atinjam as classes de renda mais baixa e que sejam menos danosas ao meio ambiente.”

Aguiar alertou, no entanto, que essas políticas precisam ser articuladas mundialmente. “Temos que entrar com políticas, mas articuladas em termos mundiais. Não dá para o Brasil tomar uma decisão unilateral, de não querer produzir tanta carne, se o mundo inteiro quer comprar carne. Tem que haver uma articulação maior para que se atinjam esses objetivos. E uma coisa que vai ajudar muito é a educação. Cerca de 99% das pessoas não têm noção se aquilo que elas estão comendo tem algum impacto ambiental.”

Fonte – Elaine Patricia Cruz / Edição Nádia Franco, Agência Brasil de 16 de julho de 2016

O custo ambiental de comer carne

O custo ambiental de comer carne

Na medida em que as ciências ambientais avançam, é cada vez mais evidente que o apetite humano por carne animal agrava a maioria dos problemas ambientais, como o desmatamento, a erosão, a escassez de água potável, a contaminação atmosférica e da água, a mudança climática e a perda de biodiversidade, a injustiça social, a desestabilização das comunidades e a expansão das doenças”.

 

Gostemos ou não, comer carne é um problema para todos no planeta.

Pergunte se comer carne é um assunto de preocupação pública e verá que a maioria das pessoas fica surpresa. Comer ou não carne (ou o quanto) é um tema pessoal, dirão. Talvez haja algumas implicações para o seu coração, especialmente se você tem sobrepeso. No entanto, não é um tema público importante que se espera que os candidatos à Presidência ou o parlamento abordem, como a educação, a economia e a saúde da população.

Inclusive, se você é um dos poucos que reconhecem que comer carne tem importantes implicações ambientais, estas podem parecer relativamente pequenas. Sim, houve relatórios sobre a derrubada da mata tropical para favorecer os latifundiários, e as pastagens nativas estão sendo destruídas pela pecuária. Mas, até pouco tempo, poucos ambientalistas tinham apontado que comer carne tem a mesma importância que os assuntos abordados pelo Greenpeace ou Amigos da Terra.

Na medida em que as ciências ambientais avançam, é cada vez mais evidente que o apetite humano por carne animal agrava a maioria dos problemas ambientais, como o desmatamento, a erosão, a escassez de água potável, a contaminação atmosférica e da água, a mudança climática e a perda de biodiversidade, a injustiça social, a desestabilização das comunidades e a expansão das doenças.

Como é que um tema aparentemente pequeno como o consumo individual de carne passou tão rapidamente das margens da discussão sobre a sustentabilidade ao centro do debate? Em primeiro lugar, porque o consumo de carne per capita mais do que duplicou no último meio século, apesar do aumento da população mundial. Por conseguinte, a demanda de carne se multiplicou por cinco. O que aumentou a pressão sobre a disponibilidade de água, terras, pastos, fertilizantes, energia, a capacidade de tratamento de resíduos (nitratos), e a maior parte dos limitados recursos do planeta.

Desmatamento

O desmatamento foi o primeiro dano ambiental importante causado pelo desenvolvimento da civilização. Grandes superfícies de matas foram cortadas para dedicá-las à agricultura, que incluía a domesticação tanto de plantas comestíveis como de animais. Os animais domésticos requerem muito mais superfícies que as plantações para produzir a mesma quantidade de calorias, mas isso não importou realmente durante os 10.000 anos em que sempre existiram mais terras para descobrir e expropriar. Em 1990, no entanto, o Programa de Fome no mundo, da Brown University, calculou que as plantações mundiais, se fossem distribuídas equitativamente e sem destinar uma porcentagem importante ao gado, poderiam fornecer uma dieta vegetariana para 6 bilhões de pessoas, ao passo que uma dieta abundante em carne, como a dos moradores dos países ricos, podia alimentar somente 2,6 bilhões.

Em outras palavras, com uma população atual de 6,4 bilhões, isso quer dizer que já padecemos de um déficit de terras, agravado pela sobre-exploração pesqueira dos oceanos, que estão sendo rapidamente arruinados. A curto prazo, a única maneira de alimentar toda a população mundial, se continuarmos comendo carne na mesma porcentagem ou se a população mundial continuar crescendo ao ritmo previsto (8,9 bilhões em 2050), é derrubar mais matas. A partir de agora, a questão se obtemos nossas proteínas de calorias de animais ou de plantas tem implicações diretas sobre a quantidade de mata restante que precisamos arrasar.

Na América Central, 40% das matas tropicais foram cortadas ou queimadas nos últimos 40 anos, principalmente para pastagens do gado para o mercado de exportação, muitas vezes para a carne dos hambúrgueres dos Estados Unidos. A carne é muito cara para os pobres nos países exportadores de carne, mas, no entanto, em muitos casos, os pastos para o gado substituíram as formas de agricultura tradicional muito produtivas.

Os relatórios do Center for International Forestry Research destacam que o rápido crescimento nas vendas de carne bovina brasileira acelerou a destruição da mata tropical da Amazônia.

A destruição das campinas foi acelerada com a expansão das manadas de animais domesticados, e o meio ambiente no qual viviam os animais selvagens como bisontes e antílopes foi pisoteado e replantado com monoculturas de plantas forrageiras para o gado.

As reservas de água doce

A água doce, da mesma maneira que a terra, parecia inesgotável durante os primeiros 10 milênios da civilização. Desse modo, parecia não importar a quantidade de água que uma vaca consumia. Porém, há alguns anos, os especialistas calcularam que nós, seres humanos, consumimos a metade da água doce disponível no planeta, deixando a outra metade para ser dividida entre um milhão ou mais de espécies. Em razão de dependermos de muitas dessas espécies para a nossa própria sobrevivência (fornecem todo o alimento que comemos e o oxigênio que respiramos, entre outros serviços), esse monopólio da água apresenta um dilema. Se analisarmos em detalhe, espécie por espécie, descobrimos que o uso mais significativo da água se deve aos animais que criamos para carne. Uma das maneiras mais fáceis para reduzir a demanda de água é consumir menos carne.

A dieta comum de uma pessoa no ocidente requer 16.000 litros de água por dia (para dar de beber aos animais, irrigar as plantações, processar, lavar e cozinhar, entre outros usos). Uma pessoa com uma dieta vegetariana requer somente 1.100 litros diários.

Um relatório do Instituto Internacional de Gestão da Água, após assinalar que 840 milhões de pessoas no mundo sofrem desnutrição, recomenda produzir mais alimentos com menos água. O relatório destaca que são necessários 550 litros de água para produzir suficiente farinha para uma ração de pão nos países em desenvolvimento, mas até 7.000 litros de água para produzir 100 gramas de carne bovina.

Se você toma banho uma vez por dia, e cada banho dura uma média de sete minutos, utilizando oito litros por minuto, gastará 19.300 litros por ano para um banho diário. Quando você compara esse número com a quantidade que a Fundação para a Educação da Água calcula que é utilizada na produção de cada quilo de carne bovina (20.515 litros), perceberá algo extraordinário. Hoje, você poderia poupar mais água não comendo um quilo de carne que deixando de tomar banho durante um ano inteiro.

Manejo de resíduos

O aterro de resíduos, da mesma maneira que a oferta de água, parecia que não tinha limites. Sempre havia novos lugares onde jogar o lixo, e durante séculos a maior parte dos dejetos se decompuseram convenientemente ou desapareceram de vista. Assim como não nos preocupou a quantidade de água que uma vaca consome, tampouco a quantidade que excreta. Mas, hoje, os resíduos de nossos colossais estábulos superam a capacidade de absorção do planeta. Os rios que recebem resíduos pecuários vertem tal quantidade de nitrogênio em bahias e golfos que já contaminaram grandes áreas do mundo marinho.

As enormes estâncias de animais, que podem alojar centenas de milhares de porcos, frangos e bois, produzem quantidades imensas de resíduos. Para dizer a verdade, ao menos nos Estados Unidos, estas “Fábricas de Gado” geram 130 vezes mais resíduos que toda a população.

Consumo energético

O consumo de energia, até há muito pouco, parecia um assunto dos frigoríficos, que nada tinha a ver com a carne e o leite de seu interior. Contudo, quanto prestamos mais atenção na análise do ciclo de vida dos objetos que compramos, é evidente que a viagem do filé até chegar a nosso refrigerador consumiu quantidades surpreendentes de energia. Podemos começar o ciclo com a plantação dos cereais para alimentar o gado, que requer grandes quantidades de produtos químicos agrícolas derivados do petróleo. Posteriormente, é preciso acrescentar o combustível requerido para transportar o gado aos matadouros e dali para os mercados. Hoje, a maior parte da carne consumida percorre milhares de quilômetros. E, em seguida, após ser congelada ou posta no frigorífico, precisa ser cozinhada.

São necessários 8,3 litros de petróleo para produzir um quilo de carne bovina alimentada com ração nos Estados Unidos. Parte da energia foi consumida no estábulo ou nos transportes e armazenamento frigorífico, mas a maior parte foi consumida em fertilizantes de milho e na soja para ração, com a qual são alimentadas as cabeças de gado. O consumo médio anual de carne bovina de uma família de quatro pessoas requer 983 litros de petróleo.

Em termo médio, são necessárias 28 calorias de energia de combustíveis fósseis para produzir uma caloria de proteína de carne para o consumo humano, ao passo que se fazem necessárias 3,3 calorias de energia de combustíveis fósseis para produzir uma caloria de proteína de cereais para o consumo humano.

A transição da agricultura mundial, de cereais para alimentos a cereais para ração, representa uma nova forma de maldade humana, com consequências possivelmente maiores e mais prolongadas no tempo que qualquer das más ações anteriores infligidas pelos homens contra seus semelhantes. Hoje, mais de 70% dos cereais e da soja produzida nos Estados Unidos são destinados à alimentação do gado, em sua maior parte para o gado. Alimentar com cereais os animais é muito ineficiente e é um uso absurdo dos recursos.

Mudança climática

O aquecimento do planeta se deve ao consumo de energia, na medida em que as principais fontes de energia contêm carbono que, ao se queimar, emitem dióxido de carbonos e outros gases contaminantes. Como já se destacou, a produção e a comercialização da carne precisam do consumo de grande quantidade de tais combustíveis. No entanto, a gado também emite diretamente gases de efeito estufa, como um subproduto da digestão. O gado emite importantes quantidades de metano, um potente gás de efeito estufa.

Uma tonelada de metano, o principal gás de estufa emitido pela pecuária, tem um potencial de aquecimento do planeta de 23 toneladas de dióxido de carbono por cada tonelada de metano. Uma vaca leiteira produz aproximadamente 75 quilogramas de metano por ano, equivalentes a mais de 1,5 tonelada de dióxido de carbono. A vaca, é claro, faz isto de forma natural. Mas, as pessoas tendem a esquecer, parece, que a pecuária é uma indústria. Derrubamos as matas, cultivamos as plantas forrageiras transgênicas e alimentamos o gado de forma industrial. É uma empresa humana, não natural. Somos muito eficientes, e por isso as concentrações atmosféricas de metano aumentaram em 150% em relação a 250 anos atrás, ao passo que as concentrações de dióxido de carbono cresceram só 30%.

Há uma estreita relação entre a dieta humana e as emissões de metano da pecuária. Ao crescer ou diminuir o consumo de carne bovina, também aumentará ou se reduzirá o número de cabeças e as emissões de metano relacionadas. A América Latina registra as maiores emissões de metano per capita, atribuíveis principalmente às grandes quantidades de gado dos países exportadores de carne, como Brasil e Argentina.

A produção de alimentos das terras de cultivo cresce menos que a população. Quando Paul Ehrlich advertiu há três décadas que “centenas de milhões” de pessoas morreriam de fome, provavelmente exagerou, por agora. (Só morreram de fome dezenas de milhões). A revolução verde, uma injeção de fertilizantes e técnicas de fabricação em série, aumentou os rendimentos das colheitas e só atrasou a escassez. Isso, combinado com uma utilização mais intensiva das terras cultiváveis através da irrigação e o uso massivo de fertilizantes e praguicidas químicos baseados nos combustíveis fósseis, nos permitiu guardar o passo mais ou menos com o crescimento da população durante outra geração. A estabilização da população não se produzirá antes de outro meio século, e só nos resta uma alternativa importante: reduzir drasticamente o consumo de carne, porque a conversão das áreas de pastos para plantações de alimentos aumentará a quantidade de alimentos produzida.

Doenças

As enfermidades transmissíveis não se deslocam de um lugar para o outro sozinhas, é preciso haver um vetor de transmissão, seja a água suja, o sangue infectado de ratos e insetos ou a carne contaminada.

Os resíduos animais contêm agentes patogênicos que causam doenças como a Salmonella, E. coli, Cryptosporidiume coliformes fecais, que podem estar de 10 a 100 vezes mais concentrados que nas fezes humanas. Mais de 40 doenças podem ser transferidas aos seres humanos através de estrume. Um relatório do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos estima que 89% da carne moída dos hambúrgueres contêm vestígios de E. coli.

As doenças do estilo de vida, especialmente as coronárias, não eram consideradas um problema “ambiental” há uma geração. Mas, hoje, é evidente que a maioria dos problemas de saúde pública é ambiental e não genético. Além disso, a maioria das doenças evitáveis são o resultado das complicadas relações entre os seres humanos e seu meio ambiente, e não de causas singulares. As doenças coronárias se relacionam com a obesidade resultante do consumo excessivo de açúcar, sal e gordura (especialmente gordura animal) e da falta de exercício resultante de um mapa urbano baseado no automóvel. Os problemas ambientais do crescimento suburbano, a contaminação atmosférica, o consumo de combustíveis fósseis e as péssimas políticas de uso do solo são também fatores que agravam as doenças cardíacas e o câncer.

A ironia do sistema de produção de alimentos é que milhões de consumidores endinheirados nos países desenvolvidos morrem das doenças da opulência, os ataques cardíacos, as apoplexias, os diabetes e o câncer, causadas por se encherem de carne bovina e de outros animais, alimentados com cereais e soja transgênica, ao passo que os pobres do Terceiro Mundo morrem por causa de doenças da pobreza, porque lhes é negado o acesso às terras para cultivar os cereais com os quais alimentar diretamente suas famílias.

Não só a mortalidade por doenças coronárias é mais baixa nos vegetarianos que nos não vegetarianos, como também as dietas vegetarianas também tiveram êxito em frear as doenças do coração. Os dados científicos demonstram uma relação positiva entre a dieta vegetariana e a redução do risco por obesidade, doenças das artérias coronárias, hipertensão, diabetes e alguns tipos de câncer.

Albert Einstein, mais conhecido por seus trabalhos em física e matemáticas que por seu interesse pelo mundo vivente, uma vez disse: “Nada beneficiará tanto a saúde humana e aumentará as oportunidades de sobrevivência da vida na Terra como uma dieta vegetariana”. Não acreditamos que apenas se referia à alimentação. Neste artigo, não dissemos nada sobre o papel da carne na dieta, ainda que haveria muito a ser dito, além das doenças do coração. Também não abordamos a ética do vegetarianismo ou os direitos dos animais. O propósito dessas supressões não é se omitir dessas preocupações, mas destacar que apenas com base em fundamentos ecológicos e econômicos, comer carne já é uma ameaça para a espécie humana.

A era de uma alimentação baseada fundamentalmente na carne passará, assim como a do petróleo, e ambos declínios estão estreitamente relacionados.

Fontes – Mundo Nuevo / Rebelión / Tradução Cepat / IHU / EcoDebate de 18 de julho de 2016

Por que o consumo de água aumentou?

 

Dizem várias fontes de informação, neste início de junho, que a economia de água em condomínios na cidade de São Paulo caiu de 82% – que chegara a registrar em abril de 2015 – para 32% em abril de 2016, com o fim dos incentivos da Sabesp. É pena que a disposição para economizar, na maior parte, advenha só das vantagens financeiras para quem economiza, com pouca ou nenhuma relação com a necessidade maior de contribuir para a economia de um bem escasso. Os números de agora são inferiores até aos do período fevereiro de 2013/janeiro de 2014. E o recuo se deveria às notícias de “fim da crise” de abastecimento e retirada de subsídios para a economia.

Estranho, porque a seca e o calor afetaram os reservatórios de São Paulo. Dos 6 mananciais abastecedores, 4 chegaram ao menor índice de chuvas desde os anos 30. No Cantareira, houve apenas 3,9 milímetros em 28 dias de abril. E, ao mesmo tempo, aumentava a demanda por água, como registrou editorial deste jornal (29/3). Por essas e outras, o Estado já busca água em Minas Gerais e tem de discutir com o Rio de Janeiro o uso dos recursos do Rio Paraíba do Sul. Já foi até encaminhado à Assembleia Legislativa do Estado o projeto para o Plano de Recursos Hídricos do Estado, que garanta os usos múltiplos.

Não são problemas só nossos. Segundo relatório do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Eco-Finanças, 23/5), o crescimento rápido da demanda, o alto consumo, a desertificação, a degradação do solo, os efeitos de mudanças do clima “estão estressando” os recursos naturais e impedindo que sejam compensados pela recuperação natural do meio ambiente: “Com a tendência atual, a humanidade terá dificuldade para alimentar-se nas próximas décadas”, porque “a escassez hídrica ameaça bilhões de pessoas, principalmente nos países mais pobres”, pois “já se observa um colapso na produção de comida”. E a América Latina é um dos lugares mais problemáticos, principalmente nas regiões que mais dependem da água que escorre dos Andes – e que está diminuindo.

Quase um quarto das mortes no mundo decorre de “riscos ambientais”, diz a Organização Mundial da Saúde (OMS) – entre eles a água de má qualidade, proveniente de locais de trabalho em condições precárias, banheiros e chuveiros inadequados, tubulações perfuradas, etc. Talvez a cidade que mais se tenha adequado às necessidades seja Nova York, onde em cinco anos foram aplicados quase US$ 2,5 bilhões para melhorar as condições do sistema de abastecimento de água. Isso incluirá o fechamento para reparos do Aqueduto Delaware, por onde passam mais de 80 bilhões de litros de água por dia para a rede de água de quase 11 mil quilômetros de extensão. Na usina de tratamento, que manda água para mil estações, foram investidos mais de US$ 1,5 bilhão (The New York Times, 24/3).

Diante de números tão graves, é quase inacreditável que esteja em tramitação no Brasil a Proposta de Emenda Constitucional 65/2012, que dispensa de licenciamento ambiental (Terra, 28/5) projetos de obras públicas, inclusive no setor de água. Os estudos prévios de impacto passariam a implicar autorização para executá-los. Tudo tão absurdo que o Instituto dos Advogados do Brasil aprovou moção de repúdio ao texto, que, a seu ver, desrespeita a própria Constituição. Configuraria uma espécie de “bolsa empreiteira”. A moção foi encaminhada ao Congresso Nacional.

Na área rural, a situação seria tão grave quanto esta, principalmente no Nordeste. Em recente seminário (Comunicação do Ministério do Meio Ambiente, 28/4) discutiu-se a situação do Semiárido, onde, por exemplo, 74,2% das áreas de Sergipe já são de terra degradada; e apenas 17% da vegetação originária da Caatinga permanece – quando seriam utilizáveis com manejo adequado dos recursos naturais em 13% da área. Já se conhecem ali projetos sustentáveis, como o do barramento zero ou o do fogão ecológico. No Polo Gesseiro da região do Araripe, Nordeste brasileiro, conseguiu-se, com programas adequados, reduzir para pouco mais de 20% do que era o consumo de água.

Muitos cientistas insistem na implantação de um vasto plano de fontes solares em telhados, para avançar com os projetos de combate à fome na região. Até mesmo porque as áreas de desertificação já avançaram 11 mil quilômetros quadrados em Pernambuco (Rema Brasil, 23/11/2015); a represa de Sobradinho chegou a entrar no volume morto, quando tem potencial de acumulação de água equivalente a 14 vezes o da Baía da Guanabara; o Rio São Francisco, com vazão histórica de 3 mil metros cúbicos por segundo, baixou até a 900 metros cúbicos. Para isso contribuem até a redução de águas da Amazônia vindas pelas correntes na atmosfera e a redução de água no subsolo do Cerrado. Desde 2004 já desapareceram 1.200 pequenos afluentes do São Francisco. Estiagens prolongadas no Cerrado têm reduzido as safras de grãos (Estado, 11/5). E podem prolongar-se até 2017 (O Popular, 27/4).

O Rio São Francisco já não tem mais volume necessário para a geração de energia (www.fundaj.gov.br, 21/10/2015). Técnicos sugerem difundir experiências do Instituto Nacional do Semiárido, como as de Santana do Seridó, onde já se tratam 258 mil litros de água para uma população de 2.526 pessoas (Rema, 3/12/2015), irrigação de bancadas de forragem de palma, estoques de feijão guandu e sorgo para o gado – além de urgência com projetos de captação de águas de chuvas, reutilização de água tratada de esgotos, impedir o desperdício e apressar projetos contra desmatamento. Não basta esperar pela transposição de águas, projeto iniciado em 2007, que deveria estar concluído em 2012 e já custou uma fortuna.

É preciso ter urgência. Convém lembrar que o Deserto do Saara já teve, há 5 mil anos (EcoViagem, 31/3), o maior lago de água doce do mundo, com 360 mil quilômetros quadrados. Hoje, tem 1.350, menos de 1%.

UNEP – Green economy report.

Fonte – Washington Novaes, O Estado de S. Paulo de 03 de junho de 2016

 

Em breve, ser dono de carro pode virar coisa do passado

Automação total pode dar impulso a modelo de compartilhamento de carros. Foto: Jeff Kowalsky / Bloomberg News

Henry Ford era um homem inteligente, mas ele nunca fez as contas antes de dizer que fabricaria um carro para cada família americana.

Um século depois do Ford T, o mundo enfrenta um problema com os carros. Os Estados Unidos e a China vão comprar cerca de 40 milhões de automóveis em 2015, de acordo com a empresa americana de pesquisas e análises IHS Inc. No mundo todo, o número deve chegar a 100 milhões de veículos em 2020.

É uma inundação de carros diante da qual tanto legisladores quanto cidadãos comuns tem se mostrando impotentes. Mesmo na superpoluída Pequim, o apetite pelo automóvel — um símbolo de status e de sucesso pessoal na frágil mentalidade pós-colonial — não está diminuindo, apesar de limites à propriedade e o crescente alarme do governo.

O absurdo dessa velha abordagem à mobilidade é capturado nas estatísticas. Nos EUA, por exemplo, a taxa de utilização dos carros é de cerca de 5%. Para os restantes 95% do tempo, os carros dos americanos simplesmente ficam parados, queimando dinheiro.

Mas, e se esses carros pudessem ser compartilhados? E não me refiro ao consumo colaborativo no transporte do tipo da Uber — simbólico e transitório e que deve durar somente até que a automação total aconteça e o motorista se torne desnecessário.

Dentro de uma geração, os automóveis sairão das fábricas com o chamado Nível 4 de automação, ou seja, capazes de se dirigirem sozinhos. Isso fará com que o consumidor possa “chamar” um carro sem motorista, via um aplicativo de celular, de onde estiver. E não um carro qualquer que esteja passando pela área, mas exatamente o carro necessário para a ocasião, limpo e abastecido, pelo período desejado. E, depois de usado – pronto! – o carro vai embora.

O consumidor não paga pelo carro. Paga pelos quilômetros e só por eles. Precisa de um utilitário esportivo por três fins de semana por ano, mas não quer pagar pelos outros 49 fins de semanas? Precisa de um carro para buscar a esposa no aeroporto? Em uma década, as montadoras vão brigar pelo privilégio de enviar carros à la carte para os consumidores seja para a única perna de uma viagem ou para uma tarde, um fim de semana, um mês.

Na era do carro que se dirige sozinho, os táxis e os congestionamentos serão vistos pelo consumidor como coisa do passado. Os pais vão deixar de sofrer com a possibilidade de perder seus filhos em acidentes de trânsito, já que as mortes por esta causa cairão drasticamente. E os outros custos relacionados ao automóvel — a queda de produtividade, o gasto excessivo de combustível em trânsito descoordenado — serão eliminados. “Além dos benefícios práticos, os carros autônomos poderiam contribuir com a economia de US$ 1,3 trilhão anuais só nos EUA”, escreveu Ravi Shanker, um analista da firma de serviços financeiros Morgan Stanley. Mundialmente, as economias poderiam chegar perto de US$ 5,6 trilhões.

Danny Shapiro circulava recentemente pelo salão do automóvel de Frankfurt com uma bomba para a indústria automobilística em sua maleta. Lá, o diretor sênior da área automotiva da Nvidia, firma de tecnologia do Vale do Silício, levava uma placa-mãe de computador conhecida como Drive PX, que vai transformar o setor. A placa foi construída em torno de dois processadores centrais, cada um tão poderoso quanto o supercomputador mais rápido disponível alguns anos atrás. Segundo Shapiro, uma versão dessa tecnologia dará aos carros o Nível 4 de automação – a capacidade de operar independentemente de humanos.

A Drive PX interpreta dados sensoriais e constrói um modelo tridimensional de tudo que está acontecendo ao redor do carro, permitindo, por exemplo, que ele diferencie uma ambulância de um caminhão do FedEx, e que responda apropriadamente.

“Ela pode ler sinais de trânsito”, diz Shapiro, “e detectar faixas, e antecipar quando um pedestre vai colocar o pé na pista. E quando ela notar alguma coisa que não reconhece, ela pode gravar a imagem e transmiti-la ao centro de dados para que ela seja incluída na próxima atualização de software.” O processo, conhecido como “aprendizado profundo” é baseado no cérebro humano. “À medida que você vai adicionando informação ao sistema, ele vai ficando cada vez mais inteligente”, diz Shapiro.

Toda essa revolução poderia resultar em um declínio nas vendas das montadoras. Mas, em mercados maduros, como os EUA e a Europa, o volume de vendas permanecerá praticamente estável. O que mudaria é o número de passageiros que usaria cada veículo — incluindo um vasto número de pessoas que hoje não dirigem. “O Nível 4 de automação, no qual o veículo não requer um motorista humano, permitiria o transporte para cegos, deficientes ou aqueles jovens demais para dirigir”, afirmou o centro de estudos sem fins lucrativos Rand Corporation, em um estudo recente. Os mesmos benefícios estenderiam o retorno à mobilidade a milhões de indivíduos às margens do mercado, incluindo idosos e pobres, entre outros.

Em agosto passado, a Morgan Stanley quase dobrou sua meta de preço para a Tesla, para US$ 465 por ação, com base em análise do plano de mobilidade compartilhada da montadora americana, que ainda é mantido em segredo. “Nós vimos isso como uma oportunidade de negócios”, escreveu Adam Jonas, analista do banco. “Isso poderia mais que triplicar o potencial de faturamento da [Tesla] até 2029”, acrescentou.

Todas essas mudanças não querem dizer que a propriedade de carros por indivíduos vai desaparecer. Algumas pessoas continuarão a ter carros e os adorarão. Mas essas pessoas e seus carros serão considerados clássicos. Em 25 anos, a maioria das pessoas estará feliz em compartilhar os veículos que as transportam.

Fonte – Dan Neil, The Wall Street Journal

Crescimento e demografia em xeque

Gary Gardner, Tom Prugh e Michael Renner, diretores do projeto O Estado do Mundo 2015, do Worldwatch Institute, criticam a busca incessante do crescimento pelos países ricos.

O estudo usa a expressão “ameaças veladas à sustentabilidade”. Que ameaças são essas? As informações sobre a crise ambiental já não são bem conhecidas?

A consciência a respeito das muitas ameaças ambientais de fato aumentou nos últimos anos, e as pesquisas comprovam a vontade das pessoas ao redor do mundo para enfrentá-las. Mas frequentemente falta senso de urgência que responda à gravidade das ameaças. Além disso, muitas questões de sustentabilidade subjacentes são premissas – sobre a viabilidade do crescimento econômico infinito e o papel da energia barata, por exemplo – que ainda não foram examinadas. Confrontar esses pressupostos de forma aberta e direta é essencial para criar um caminho rumo a um futuro sustentável.

Que mensagens este estudo de 2015 traz como substancialmente novas em relação aos anos anteriores?

Destacamos três. A primeira, de que os danos ambientais têm um impacto econômico muito subestimado. A noção de stranded assets – ativos que poderão nunca ser aproveitados por motivos ambientais – estão levando os principais analistas financeiros a reavaliar carteiras de investimento em todo o mundo. Um exemplo são as reservas de petróleo, que podem nunca ser bombeadas por causa de questões climáticas. A escassez de água na China está levando ao abandono de lavouras e hidrelétricas. Como as condições ambientais vão se deteriorar em muitas regiões e de forma global, carteiras de investimento vão sofrer. A segunda refere-se à preocupação de que mais de 60% das 400 doenças infecciosas em seres humanos que surgiram nos últimos 70 anos foram de origem animal. Essa transmissão é cada vez mais provável com o crescimento do comércio internacional e as viagens, a pecuária intensiva, e a ocupação humana de áreas selvagens. E a terceira é de que o crescimento econômico, por muito tempo um objetivo político de governos nacionais, pode já não ser aconselhável, pelo menos nos países ricos, em que grandes economias continuam a ultrapassar os limites ambientais. Há anos que ativistas pedem o não-crescimento, mas agora pesquisadores acadêmicos no Canadá demonstraram que esse objetivo pode ser gerido de uma forma que reduza o emprego, aumente a equidade, freie as emissões de carbono e outros danos ambientais. Os países pobres ainda precisam crescer para gerar prosperidade e oportunidade para o seu povo, mas os ricos devem encontrar maneiras de manter um elevado nível de bem-estar para a população, em vez de uma produção cada vez maior de bens por pessoa.

O estudo cita Naomi Klein para frisar que o grande nó está no sistema econômico dominante – o capitalismo e a busca do crescimento, ainda que “verde”. Que revisões ou reformas estruturantes são necessárias neste sistema, e até que ponto são viáveis?

Em primeiro lugar, é preciso redescobrir o papel essencial da formulação de políticas de interesse público. Para isso é preciso afastar-se da ideia de que as forças do mercado vão resolver os problemas sociais e ambientais. Isso exige que as empresas privadas não cresçam tanto a ponto de ficar mais poderosas do que órgãos dirigentes democraticamente eleitos. Em segundo, precisamos transformar as normas pelas quais as empresas privadas são regidas – passando do interesse restrito ao acionista para o amplo interesse dos stakeholders, que incluem os trabalhadores, as comunidades impactadas pelas empresas e o ambiente natural. Temos visto o surgimento das “B-corp”, mas ainda são raras. Outras alternativas são as empresas controladas pelos trabalhadores e as cooperativas. Mas isso requer apoio dos governos e do público para ser bem-sucedido.

O estudo coloca a civilização humana como vítima de seu sucesso. Os avanços tecnológicos permitiram expandir a população e a pressão sobre recursos naturais. Para reduzir essa pegada, basta recorrer novamente à tecnologia, ou uma diminuição demográfica se faz necessária?

O número de pessoas que a Terra pode suportar depende muito da maneira como as pessoas querem viver. Nações ricas, auxiliadas por tecnologia e energia abundante, conseguiram um estilo de vida material outrora inimaginável, mas, depois de um certo nível, o aumento de felicidade não seguiu o mesmo ritmo do aumento da riqueza. Usada com sabedoria, a tecnologia pode ajudar a aliviar a crescente pressão sobre a biosfera, mas provavelmente não será capaz de criar uma civilização sustentável até que o número de seres humanos decline. O objetivo deve ser o de atingir um menor número de pessoas ao longo do tempo buscando a equidade na distribuição da riqueza, melhor educação e oportunidades econômicas para as mulheres, e outras políticas de “aterrissagem suave”.

Fonte – Amália Safatle, Página 22 de 02 de fevereiro de 2016