Ter menos filhos é ação mais eficaz contra aquecimento global

Mulheres passeando com carrinho de bebêPesquisadores calcularam que controle populacional tem impacto muito maior para redução de emissões do que alternativas mais conhecidas. GETTY IMAGES

Um estudo publicado neste mês na Suécia prega que ter menos filhos é a ação que pode ter mais impacto no combate às mudanças climáticas.

Mas os pesquisadores da Universidade Lund recomendam tal controle da natalidade apenas em países desenvolvidos, usando como argumento o fato de que nações como os EUA, por exemplo, são responsáveis pelas maiores emissões de carbono na atmosfera (16 toneladas por ano de CO2 per capita) e, por isso, teriam que fazer cortes mais drásticos para atingir “níveis seguros de emissões”.

De acordo com os termos do Acordo Climático de Paris, assinado em 2015, 195 países se comprometem a limitar a média global de aumento da temperatura em menos de dois graus Celsius.

Para isso, cientistas estimam que, até o ano de 2050, o volume de emissões per capita não possa ultrapassar 2,1 toneladas de carbono (no Brasil, segundo dados do Banco Mundial, a emissão é de 2,5 toneladas).

Seth Wynes e Kimberly Nicholas afirmam que a redução não poderá ser obtida sem que famílias ou indivíduos tenham um filho a menos, apesar desta não ser a única medida recomendada.

“Não estamos sugerindo que isso vire lei ou coisa parecida. Sabemos que a decisão de ter ou não filhos é talvez a maior que alguém pode ter na vida, e que muitas pessoas não têm o clima como fator preponderante. Vejo isso mais como uma questão pessoal do que de política pública”, afirmou Nicholas, em entrevista à BBC Brasil.

Casal comprando carrinho de bebêImpacto ambiental não costuma fazer parte de planejamento familiar. GETTY IMAGES

“Apenas quisemos mostrar o impacto que decisões pessoais podem ter nos esforços de prevenção de mudanças climáticas. É importante que as pessoas saibam dessas coisas em suas vidas. Especialmente quando mostramos que ações como a reciclagem ou o uso de lâmpadas LED”, completa a especialista.

As conclusões são derivadas de análises e cálculos que, segundo os pesquisadores, levam em conta uma gama de ações individuais, das mais complexas como o controle da natalidade às mais simplórias como a reciclagem de lixo.

Escolhas pessoais para reduzir a contribuição para as alterações climáticasEscolhas pessoais para reduzir a contribuição para as alterações climáticas. Seth Wynes/Kimberly Nicholas / Environmental Research Letters

Wynes e Nicholas concluem, por exemplo, que ter um filho a menos contribuiria para uma redução média de 58,6 toneladas de CO2 na atmosfera por ano, uma quantidade muito maior que as outras três principais alternativas recomendadas: viver sem carro (2,4 toneladas), evitar viagens de avião (1,6) e adotar uma dieta vegetariana (0,8).

Usina despeja fumaça no céuRecomendação de ter menos filhos é direcionada para países desenvolvidos. GETTY IMAGES

O impacto da opção por menos filhos teve como base de cálculo o total estimado de emissões dos filhos e demais descendentes divididos pela expectativa de vida dos pais.

A questão do crescimento populacional já faz parte dos debates sobre impacto humano no meio ambiente e, na última semana, um estudo publicado por acadêmicos da Universidade Stanford (EUA) culpou humanos pelo que classificou como “aniquilação biológica” – a extinção em massa de bilhões de espécies por causa da superpopulação e do consumo.

Segundo Nicholas, não há um número “mágico” de filhos a ser tidos ou evitados para obter um melhor resultado ambiental. Para Wynes, que também falou à BBC Brasil, as características de desenvolvimento dos países deve ser levado em conta no cálculo. No caso do Brasil, um país ainda em desenvolvimento, o consumo de carne e a quantidade de emissão per capita é muito inferior ao dos habitantes dos países altamente desenvolvidos. Por isso, as emissões são menores por pessoa e a diminuição no número de filhos não seria tão significativa.

“Nosso estudo se limitou a avaliar as grandes oportunidades de redução individual de emissões em países em que há as maiores taxas per capita desse tipo de poluição. Naturalmente, escolher ter famílias menores tem um impacto menor no Brasil. Nos países mais prósperos, o consumo de carne é mais alto, e isso aumenta o gasto de água, a necessidade de pastagens e também a liberação de gases. Daí que ter um membro a menos na família em países como os Estados Unidos é relevante para o meio ambiente”, diz Wynes.

Em conjunto com a redução do número de filhos, a adoção em massa de uma dieta baseada em vegetais é uma medida importante no combate ao aquecimento global, aponta Wynes.

“Queremos chamar a atenção para um fator que terá influência justamente sobre o futuro das próximas gerações, que herdarão o mundo. E não mostramos apenas a questão populacional, mas também o impacto de uma dieta vegetariana e de uma vida sem carro. Elas também têm impacto positivo”, conclui Nicholas.

Fonte – Fernando Duarte, BBC de 16 de julho de 2017

Quatro fatos mostram que o homem se transformou numa força geológica

Há mais de 7 bilhões de pessoas na TerraHá mais de 7 bilhões de pessoas na Terra. Pavel Novak/ Wikimedia Commons

Tem gente que não acredita que o funcionamento geológico e biológico do planeta anda sendo profundamente alterado pela ação dos seres humanos. Para essas pessoas, o impacto do Homo sapiens pode até ser considerável em escala local, mas jamais seria significativo em escala global. Peço licença para discordar e apresento alguns números que deveriam ser mais conhecidos.

1) População: essa deveria ser óbvia, mas não custa ressaltar. Com mais de 7 bilhões de Homo sapiens caminhando pela Terra neste exato momento, alcançamos um nível populacional jamais sonhado por qualquer outra espécie de mamífero de grande porte. Os únicos bichos de tamanho igual ou superior ao humano que se aproximam da nossa exuberância demográfica são os que nós criamos (1,5 bilhão de bois, 1,1 bilhão de ovelhas, 1 bilhão de cabras).

2) Produtividade primária: eis um termo bem menos intuitivo do que “população”, mas igualmente importante. Produtividade primária é como os ecólogos designam a capacidade que certas criaturas têm de transformar energia derivada de fontes não vivas (em geral, a luz solar) em massa viva. É a mágica que as plantas e muitos micro-organismos fazem, e dela depende todo o resto da vida –eu e você, no fundo, não passamos de parasitas de plantas.

A invenção da agricultura e das demais atividades que fornecem comida e matéria-prima de origem biológica para a nossa espécie corresponde à capacidade humana de se apropriar da produtividade primária da Terra. Quão eficientes temos sido nisso? Muito –cálculos mais recentes indicam que hoje nós usamos 25% da produtividade primária do globo. Em outras palavras, um quarto de tudo o que a vida produz vai para a nossa conta bancária hoje.

3) Concreto “y otras cositas más”: a explosão da nossa capacidade tecnológica nos últimos dois séculos tem um subproduto curioso: a criação, em quantidades elevadas, de materiais que jamais foram produzidos por fenômenos naturais ou por outras espécies. É o caso do concreto, originalmente uma invenção dos velhos romanos, que a civilização global de hoje ama de paixão. Ama tanto que, nos últimos 20 anos, produziu concreto suficiente para cobrir cada metro quadrado do planeta com 100 gramas do material. Ou o alumínio na forma metálica pura. Ou o plástico, que você certamente é capaz de enxergar pra tudo quanto é lado. Se todos os humanos sumissem por um passe de mágica e uma nave alienígena pousasse aqui, seus tripulantes seriam capazes de deduzir a existência pregressa de uma civilização tecnológica só com base na presença de tais materiais.

4) Gases-estufa: feito um cobertor planetário, são os responsáveis por reter perto da superfície da Terra o calor trazido pela luz solar e, portanto, têm papel crucial no clima. O mais importante deles, o CO2, hoje tem uma concentração de 400 p.p.m (partes por milhão) na atmosfera.

Ocorre que essa concentração era de 280 p.p.m. antes que começássemos a bombear loucamente CO2 na atmosfera por meio da queima de combustíveis fósseis, a partir do século 19. Faz pelo menos 1 milhão de anos que não se via tanto gás carbônico no ar. É óbvio que isso fará a Terra esquentar –como temos visto.

Independentemente da sua coloração ideológica, os quatro pontos acima são fatos, não opiniões. Podemos discutir o que fazer a respeito –mas não fazer nada não me parece a melhor das ideias.

Reinaldo José Lopes é jornalista de ciência com graduação, mestrado e doutorado pela USP. É autor do blog “Darwin e Deus” e do livro “Os 11 Maiores Mistérios do Universo”. Escreve aos domingos, a cada 2 semanas.

Fonte – Folha de S. Paulo de 02 de julho de 2017

O impressionante crescimento da população humana através da história

a expansao do Homo sapiens sapiens

Um vídeo do Museu de História Natural norte-americano mostra a evolução da população humana, desde o surgimento do Homo Sapiens – há cerca de 200 mil anos – até os dias atuais, contando a expansão da presença humana e as migrações em apenas 5 minutos.

Como descrevi no artigo, “Somos todos afrodescendentes” (21/09/2016), o Homo Sapiens surgiu na África e iniciou seu processo de migração para fora do continente por volta de 90 mil anos atrás. O número total de indivíduos da espécie permaneceu baixo (menos de um milhão de pessoas) até o início da revolução agrícola que ocorreu aproximadamente 10 mil anos atrás.

Mas com o crescimento da produção agrícola e o avanço das cidades, a população mundial, aproveitando a ampla disponibilidade de recursos naturais, chegou a 5 milhões de habitantes por volta do ano 8 mil anos atrás. No ano de nascimento de Cristo, ano 1 da era cristã, a população mundial era de 170 milhões. No ano 1000 a população mundial alcançou a cifra de 330 milhões. Por volta de 1350 a população chegou a 370 milhões e pela primeira vez teve uma queda devido à peste bubônica.

Na época das grandes navegações e do descobrimento do Brasil, a população mundial estava por volta de 450 milhões de pessoas, gastando cerca de 1500 anos para dobrar de tamanho. Por volta de 1800, com o início da Revolução Industrial e Energética, a população mundial chegou a 1 bilhão de habitantes. Ou seja, demorou 200 mil anos para a humanidade atingir o volume de mil milhões de pessoas.

A marca de 2 bilhões de habitantes foi atingida em 1927. Os 3 bilhões foi em 1960, 4 bilhões em 1974, 5 bilhões em 1987, 6 bilhões em 1999 e 7 bilhões em 2011. Assim, a humanidade tem adicionado 1 bilhão de habitantes a cada 12 ou 13 anos. A marca de 8 bilhões deve ser atingida em 2023 ou 2024.

O gráfico abaixo, com base nas projeções da Divisão de População da ONU, mostra que a população mundial em 2100 pode variar entre, aproximadamente, 7 bilhões e 17 bilhões de habitantes. Com estimativa média de 11 bilhões. Tudo depende, fundamentalmente, da taxa de fecundidade.

população mundial entre 1950 e 2015 e cenários de projeção até 2100

A taxa de fecundidade total (TFT), no mundo, começou a cair a partir de 1960, passando de 5,02 filhos por mulher em 1960-65, para 2,53 filhos no quinquênio 2005-10. Ou seja, em 50 anos a TFT caiu pela metade. A queda média neste período foi de meio (1/2) filho por década. O destaque foram as décadas de 1960, 1970 e 1980 com uma queda conjunta de 2 filhos por mulher, pois a TFT mundial estava em 5,02 filhos no quinquênio 1960-65 e caiu para 3,04 filhos no quinquênio 1990-95. A maior redução aconteceu na década de 1970, com uma queda de 0,84 filhos, sendo que países como a China e o Brasil tiveram reduções expressivas.

Na década de 1990 a taxa de fecundidade continuou caindo, mas já apresentou uma desaceleração, pois a redução foi de 0,45 filho por mulher. Mas a quase estagnação aconteceu na primeira década do século XXI, com uma queda de somente 0,09 filho, pois a TFT estava em 2,59 filhos por mulher no quinquênio 2000-05 e caiu para 2,5 filhos por mulher no quinquênio 2010-15.

A projeção média da Divisão de População da ONU indica que a redução na fecundidade média da população mundial vai continuar desacelerando ao longo do século XXI. Ou seja, em 50 anos a TFT caiu 2,5 filhos por mulher, mas as projeções indicam que deve cair apenas meio (0,5) filho por mulher nos próximos 90 anos. No caso da hipótese média da ONU, que pressupõe a estabilização da TFT ao nível de reposição, o volume total de população mundial ficaria ao redor de 11 bilhões de habitantes em 2100. Se a TFT ficar meio (0,5) filho acima do nível de reposição a população mundial chegaria a quase 17 bilhões de habitantes em 2100. Mas se a TFT ficar meio (0,5) filho abaixo do nível de reposição a população mundial ficaria abaixo de 7 bilhões de habitantes em 2100.

taxa de fecundidade total (TFT)

Portanto, uma variação de apenas meio (0,5) filho por mulher pode fazer a população mundial variar em torno de 10 bilhões de habitantes nos próximos 90 anos, ou seja, entre 7 e 17 bilhões de indivíduos da raça humana, em 2100. O futuro está aberto.

A questão é que o mundo, em 2017, já conta com 7,5 bilhões de habitantes e já tem uma Pegada Ecológica 64% maior do que a biocapacidade da Terra. Além disto já ultrapassou 4 das 9 fronteiras planetárias, segundo metodologia do Stockholm Resilience Centre. A concentração de CO2 na atmosfera se aproxima de 410 partes por milhão (ppm), quando o nível minimamente seguro é 350 ppm. O aquecimento global e a subida do nível dos oceanos ameaça diretamente 2 bilhões de pessoas que vivem a menos de 2 metros do nível do mar. A degradação dos ecossistemas agrava as perspectivas ambientais para as próximas décadas. O Antropoceno está provocando a 6ª extinção em massa das espécies da Terra. Um acréscimo de quase 4 bilhões de habitantes nos próximos 85 anos vai colocar um grande desafio para a humanidade, pois a destruição da comunidade biótica pode inviabilizar a continuidade do progresso humano, sendo que o ecocídio é também um suicídio.

Em entrevista ao site IHU (25/03/2017), o sociólogo Giuseppe Fumarco mostra que mesmo pessoas preocupadas com a ecologia e com a possibilidade de uma catástrofe ambiental (como o Papa na encíclica Laudato si’) não abordam de maneira adequada a questão demográfica. Ele reafirma: “Partimos de uma primeira constatação banal: os 7 bilhões de indivíduos que povoam o planeta (entre os 8 e os 9 bilhões previstos para 2050) há muito tempo já superaram a capacidade do ecossistema que os sustenta. Cada alerta neste campo já é irremediavelmente tardio. A humanidade – em particular desde a Revolução Industrial – prosseguiu antropizando selvagem e destrutivamente a biocenose e o biótopo em que habitava e, assim, se metamorfoseou […]. Poderá (talvez) sobreviver, mas em condições psiquicamente alienadas. Para rastrear uma relação mais equilibrada com a natureza, devemos remontar para bem antes da Revolução Industrial”.

De forma semelhante, Charles St. Pierre (16/11/2016), tratando da armadilha do crescimento, mostra que todo sistema econômico e todo sistema auto-organizado que não se autolimita dentro das fronteiras estabelecidas pelo seu meio ambiente, cresce até exceder a capacidade do ecossistema para apoiá-lo e sustentá-lo. Em seguida, ele colapsa.

Mas em vez de se auto limitar diversos governos estão restringindo o acesso aos meios de regulação da fecundidade. Os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM) colocaram como objetivo a “universalização dos serviços de saúde reprodutiva” até 2015. Evidentemente, este objetivo não foi alcançado. De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS) existem cerca de 225 milhões de mulheres, em período reprodutivo, sem acesso aos métodos contraceptivos. O governo Donald Trump está atacando os direitos reprodutivos e restringindo a atuação da Planned Parenthood Federation e cortando verbas para o apoio que a ONU fornece aos países menos desenvolvidos para melhorar a saúde sexual e reprodutiva.

A crise já bate à porta. O secretário-geral-adjunto para Assuntos Humanitários e Emergências da ONU, Stephen O’Brien, alertou, em março de 2017, que o mundo está sofrendo a maior crise humanitária nos mais de 70 anos de história da instituição. Ele pede recursos urgentes para Iêmen, Sudão do Sul, Nigéria e Somália, para evitar que um desastre como o da Segunda Guerra Mundial não voltasse a ocorrer, pois o que se vê atualmente é uma série de conflitos envenenados, em diversos lugares, que traça um balanço sinistro. O secretário-geral Antonio Guterres fez uma visita de emergência à Somália, afetada por uma grave seca que deixou ao país no limiar de uma epidemia de fome.

A população humana gastou 1500 anos para dobrar de tamanho e deve gastar menos de 100 anos para quadruplicar de 2 bilhões em 1927 para 8 bilhões em 2025. Mesmo já ultrapassando a capacidade de carga do Planeta e já tendo dificuldades para garantir a segurança alimentar e a manutenção da biodiversidade, as projeções indicam que a população mundial pode chegar a mais de 11 bilhões de habitantes em 2100.

A continuidade do crescimento demoeconômico e da pegada antrópica, no contexto do metabolismo entrópico, pode levar ao colapso da economia moderna. Os custos sociais e ambientais podem ser catastróficos se a queda da fecundidade não se acelerar e se não houver um decrescimento da produção e do consumo da população mundial.

Referências

Human Population Through Time. American Museum of Natural History, 4/11/2016
https://www.youtube.com/watch?v=PUwmA3Q0_OE

Charles St. Pierre. The Growth Trap, Resilience, 16/11/2016
http://www.resilience.org/stories/2016-11-16/the-growth-trap

Erik Lindberg. Growthism: Part 1 and Part 2, Resilience, December, 2016
http://www.resilience.org/stories/2016-12-12/growthism/
http://www.resilience.org/stories/2016-12-22/growthism-part-2/

Chris Martenson. As We Enter 2017, Keep The Big Picture In Mind, PeakProsperity, 31/12/2016
https://www.peakprosperity.com/blog/105291/we-enter-2017-keep-big-picture-mind

KATES, Robert. Population, Technology, and the human environment: a thread through time. 1977
https://www.nap.edu/read/4767/chapter/4

ALVES, JED. A humanidade já ultrapassou a capacidade de carga do Planeta, SCRIBD, 27/11/2016
https://pt.scribd.com/document/332441912/A-Humanidade-Ja-ultrapassou-a-Capacidade-de-Carga-do-Planeta

ALVES, JED. O crescimento da população mundial até 2100, Ecodebate, RJ, 31/07/2015
http://www.ecodebate.com.br/2015/07/31/o-crescimento-da-populacao-mundial-ate-2100-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/

ALVES, JED. Somos todos afrodescendentes, Ecodebate, RJ, 21/09/2016
https://www.ecodebate.com.br/2016/09/21/somos-todos-afrodescendentes-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/

ALVES, JED. Os riscos ambientais e a queda da natalidade, Ecodebate, RJ, 20/07/2016
https://www.ecodebate.com.br/2016/07/20/os-riscos-ambientais-e-a-queda-da-natalidade-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/

ALVES, JED. O mundo com 10 bilhões de habitantes em 2053, Ecodebate, RJ, 28/09/2016
https://www.ecodebate.com.br/2016/09/28/o-mundo-com-10-bilhoes-de-habitantes-em-2053-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/

FUMARCO, Giuseppe. A humana é uma “espécie anômala” – explodiu os mecanismos espontâneos de autorregulação das populações animais que habitam o nosso pequeno e frágil planeta. Entrevista IHU (João Vitor Santos), 25 Março 2017
http://www.ihu.unisinos.br/566113-o-desafio-de-compreender-o-apelo-a-civilizacao-das-ideias-entrevista-especial-com-giuseppe-fumarco

José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal.

Fonte – EcoDebate de 05 de abril de 2017

A humana é uma “espécie anômala” – explodiu os mecanismos espontâneos de autorregulação das populações animais que habitam o nosso pequeno e frágil planeta

planetaryvisions

O papa Francisco vem denunciando um complexo estado de crises, não apenas ambiental, mas também civilizacional. O sociólogo Giuseppe Fumarco vai ao pensamento de Edgar Morin para tentar compreender esse estado. Segundo o professor, antes de pensar em saídas, é preciso compreender a complexidade em que estamos imbricados. Por isso, recupera o pensamento de Morin quando diz que “a complexidade não é uma receita que se oferece para nós, mas sim o apelo à ‘civilização das ideias’. A barbárie das ideias significa também que os sistemas de ideias são bárbaros uns em relação aos outros. As teorias não sabem dialogar umas com as outras. A palavra barbárie, de fato, quer dizer ‘fora de controle’”. Para Fumarco, o autor evidencia que “embora aparentemente progrida a ‘civilização’ de muitos povos, ao mesmo tempo, têm-se incríveis regressões”. É o caso do Ocidente, que vive seu fetichismo pelo consumo enquanto países do Oriente são destroçados.

Na entrevista a seguir, concedida por e-mail à IHU On-Line, o sociólogo também reflete sobre Donald Trump, alinhado como força contrária a Francisco. “A escolha de Trump nos permite entender o que significa quando se fala de ‘novas ignorâncias’. Como muitos ilustres pedagogos do século XX tinham previsto, sem uma sistemática ‘educação ao civismo’, a democracia só pode degenerar”, destaca. E, ainda, avalia a inabilidade da esquerda mundial para compreender crises. “A esquerda também aderiu aos desvios neoliberais, já que não amadureceu ao longo do tempo uma consciência intelectual que lhe torne capaz de enfrentar os desafios totalmente novos que a globalização coloca’, dispara.

Giuseppe Fumarco é sociólogo na Itália, foi professor de Direito e Economia nas escolas superiores, formador de adultos em várias entidades e pesquisador do Istituti Regionali di Ricerca Educativa – IRRE Piemonte (ex-IRRSAE). Escreveu um livro de história do pensamento econômico sobre J. A. Schumpeter e dois estudos sobre a autonomia escolar e a profissão docente. Mais recentemente, ocupou-se do pensamento da complexidade, chegando, por fim, à vasta produção de Edgar Morin, sobre a qual realiza palestras e seminários.

IHU On-Line – A partir de Edgar Morin [1], como compreender o conceito de globalização? E de que forma sua perspectiva pode iluminar compreensões sobre o nosso tempo e nossas crises?

Giuseppe Fumarco – Vou responder expondo por inteiro a definição que Morin nos dá da “idade do ferro planetária” que estamos vivendo:

“‘A idade do ferro planetária’ indica que entramos na era planetária na qual todas as culturas e todas as civilizações já estão em interconexão permanente. Mas indica também que, apesar de todas essas intercomunicações, estamos em uma barbárie total nas relações entre raças, culturas, etnias, potências, nações e superpotências. Nós estamos nesta idade do ferro, e ninguém sabe ‘se’ e ‘quando’ sairemos dela. A coincidência entre a idade do ferro planetária e a ideia de que estamos na pré-história da mente humana, na era da barbárie das ideias, não é uma coincidência fortuita. Pré-história da mente humana significa que, no plano do pensamento consciente, estamos apenas no início. Ainda estamos submetidos a modelos mutilantes e disjuntivos do pensamento e é bastante difícil pensar de modo complexo. A complexidade não é uma receita que se oferece para nós, mas sim o apelo à ‘civilização das ideias’. A barbárie das ideias significa também que os sistemas de ideias são bárbaros uns em relação aos outros. As teorias não sabem dialogar umas com as outras. A palavra barbárie, de fato, quer dizer ‘fora de controle’. Por exemplo, a ideia de que o progresso da civilização é acompanhado pelo progresso da barbárie é uma ideia totalmente aceitável apenas se compreendermos a complexidade do mundo histórico-social. A recente atomização das relações humanas (também resultantes dos processos de civilização urbana com todos os fatores de bem-estar que ela trouxe consigo) leva a agressões, à barbárie, a insensibilidades incríveis. É preciso superar as ilusões eufóricas do Progresso sem cair nas visões apocalípticas ou milenaristas; trata-se de entrever que estamos, talvez, no fim de certos tempos e, esperamos, no início de tempos novos.”

IHU On-Line – Como compreender a nova era que vivemos, o Antropoceno[2] ?

Giuseppe Fumarco – O termo “antropoceno” não foi cunhado por Morin, mas pelo químico holandês Paul Crutzen [3], no ano 2000. É composto pelo grego ἄνϑρωπος (“homem”), com o acréscimo do segundo elemento, “ceno”. Pode-se definir assim a época geológica atual em que o ambiente terrestre, no conjunto das suas características físicas, químicas e biológicas, é fortemente condicionado, tanto em escala local quanto em escala global, pelos efeitos da ação humana: com particular referência ao aumento das concentrações de CO2 na atmosfera, o derretimento das geleiras, o aumento tendencial médio da temperatura terrestre e a consequente elevação do nível dos mares, o desmatamento e a desertificação de algumas partes do planeta etc. E, mais em geral, a poluição de toda a biosfera. Na realidade, a classificação por eras geológicas à qual se atêm os especialistas desse setor continua nos colocando no Holoceno [4], que iniciou há 11 mil anos e ainda não se concluiu.

Antropoceno”, portanto, significa conotar uma época a partir da qual a presença e a intervenção do homem sobre a natureza e sobre os equilíbrios ambientais está se tornando cada vez mais “pesado” e alcança um limiar crítico para além do qual alguns desses aspectos de degradação ecológica tornam-se irreversíveis.

IHU On-Line – No que consistem e quais os desafios para se compreender a crise ecológica, definida pelo papa Francisco?

Giuseppe Fumarco – O desenvolvimento (evolutivo e involutivo, ao mesmo tempo) das nossas sociedades na era do antropoceno se “rapidizou” (em espanhol, “rapidación”), no sentido de que sofreu – particularmente depois da revolução industrial do século XX – um processo de aceleração devido à evolução da tecnociência que não tem nada a ver com os tempos dos processos biológicos e ecológicos naturais do planeta.

Como ressalta o Papa: “embora a mudança faça parte da dinâmica dos sistemas complexos, a velocidade que hoje lhe impõem as ações humanas contrasta com a lentidão natural da evolução biológica”, acrescentando, em um parágrafo posterior: “Depois dum tempo de confiança irracional no progresso e nas capacidades humanas, uma parte da sociedade está entrando em uma etapa de maior consciencialização. Nota-se uma crescente sensibilidade relativa ao meio ambiente e ao cuidado da natureza, e cresce uma sincera e sentida preocupação pelo que está acontecendo ao nosso planeta” (Laudato si’, par. 18 e 19].

A Encíclica [5] prossegue evidenciando a “cegueira da tecnologia” (par. 20), o problema da má eliminação dos resíduos, da poluição: “A terra, nossa casa, parece transformar-se cada vez mais em um imenso depósito de lixo” (par. 21). É essa “cultura do descarte” que deriva também da circunstância de que “ainda não se conseguiu adotar um modelo circular de produção” (par. 22).

Depois, é reproposta a problemática do aquecimento climático global, devido ao uso intensivo de combustíveis fósseis e à consequente necessidade, para a humanidade, de mudar de estilos de vida, de produção e de consumo (par. 23).

Círculos viciosos

A Encíclica também acena aos numerosos “círculos viciosos ambientais” (cfr. conceito de “recursividade” em Morin), dando o exemplo do derretimento das geleiras polares e das elevadas altitudes que são “efeito” do aumento global da temperatura e, ao mesmo tempo, “causa” de um aumento adicional dela (por redução do efeito de espelho da irradiação solar das geleiras, que, em consequência da sua reduzida superfície refletora, permanece ainda mais aprisionada na atmosfera). Depois, é citado outro círculo vicioso, ligado ao desmatamento selvagem que reduz a capacidade do patrimônio florestal global de capturar dióxido de carbono e liberar oxigênio, combatendo, assim, o aumento da toxicidade da atmosfera (par. 24). A Encíclica conecta tais comportamentos negativos ao estilo de vida “ocidental” com o seu impacto negativo sobre as populações mais pobres do planeta: “As mudanças climáticas dão origem a migrações animais e vegetais…”, que são muitas vezes recursos para as populações locais, as quais também se veem, assim, forçadas a emigrar: “É trágico o aumento de emigrantes em fuga da miséria agravada pela degradação ambiental” (par. 25).

Uma terra cada vez mais cinzenta e limitada

A Encíclica continua examinando criticamente a questão da água (por exemplo, a pobreza de água pública na África) (par. 27 e ss.), da perda da biodiversidade (par. 32 e ss.), do impacto ambiental das iniciativas econômicas “a serviço das finanças e do consumismo” (par. 34), da retirada descontrolada dos recursos hídricos (par. 40), e como tudo isso tem como consequência o fato de que “esta terra onde vivemos se torne realmente menos rica e bela, cada vez mais limitada e cinzenta”[6] .

IHU On-Line – É possível afirmar que a crise civilizacional é o núcleo do estado de crises que vivemos? Por quê?

Giuseppe Fumarco – Morin afirma: “Pré-história da mente humana significa que, no plano do pensamento consciente, estamos apenas no início. Ainda estamos submetidos a modelos mutilantes e disjuntivos do pensamento e é bastante difícil pensar de modo complexo. A complexidade não é uma receita que se oferece para nós, mas sim o apelo à ‘civilização das ideias’. A barbárie das ideias significa também que os sistemas de ideias são bárbaros uns em relação aos outros. As teorias não sabem dialogar umas com as outras. A palavra barbárie, de fato, quer dizer ‘fora de controle’. Por exemplo, a ideia de que o progresso da civilização é acompanhado pelo progresso da barbárie é uma ideia totalmente aceitável apenas se compreendermos a complexidade do mundo histórico-social”.

Esta última observação significa que, embora aparentemente progrida a “civilização” de muitos povos, ao mesmo tempo, têm-se incríveis regressões. Enquanto no Ocidente se vive no fetichismo mercantilista e no hiperconsumismo que desperdiça (sem, por isso, ter eliminado a pobreza e o desemprego, que, ao contrário, na última década, aumentaram quase por toda a parte), em outros contextos do mundo em desenvolvimento não foram resolvidos problemas essenciais, tais como o de saciar a todos ou garantir a todos o acesso à água potável. Além disso, observamos que alguns grandes países de antiga civilização da Ásia seguem insensatamente o modelo ocidental, com perigosas consequências para os equilíbrios ecológicos.

Em nível de “noosfera” (a esfera de pensamento e das ideias), quase inacreditavelmente, recuperaram vigor contrastes mortíferos que alguns autores definiram – em nossa opinião, erroneamente – como “choques de civilizações”. Basta ver aquilo que acontece em nível de nações de religiosidade muçulmana, tanto como conflitos internos (xiitas contra sunitas) quanto como “contradependência indesejada” desses países em relação ao Ocidente.

“Em vez de buscar a unidade na diversidade e de salvaguardar a diversidade na unidade, ainda hoje, as relações entre os Estados e as nações são em nível de barbárie”

Psicopatologia das relações entre os povos

Nas relações internacionais, particularmente, prevalecem lógicas imperialistas, de domínio, de prevaricação, de fanatismo e de extremização das diferenças religiosas e espirituais etc. Em vez de buscar “a unidade na diversidade” e de salvaguardar “a diversidade na unidade”, ainda hoje, em 2017, as relações entre os Estados e as nações são em nível de barbárie.

Os Estados Unidos persistem em uma visão unilateral das suas relações com o resto do mundo, e, assim, torna-se difícil mover-se rumo àqueles equilíbrios multipolares que, sozinhos, poderiam garantir paz e segurança para as gerações futuras. Nestes últimos anos, em particular, pode-se fazer uma leitura daquilo que acontece em nível geopolítico internacional nos termos de uma verdadeira “psicopatologia das relações entre os povos” causada, ao mesmo tempo, pelo comportamento paranoico de alguns importantes expoentes das classes políticas dirigentes nacionais e pelo comportamento hiperegoísta das classes que detêm o poder em nível econômico transnacional (a nova classe capitalista transnacional). Todos comportamentos que impulsionam “de facto” muitas nações a agirem umas em relação às outras na lógica bárbara e atávica do “amigo/inimigo” (ou você está comigo ou está contra mim).

IHU On-Line – Qual sua leitura de Laudato si’? Como analisa a forma que Francisco tece a teia de relações entre as crises até chegar à formulação de uma crise ecológica?

Giuseppe Fumarco – Só posso concordar plenamente com a análise do papa Francisco, assim como argumentado na minha intervenção publicada na newsletter do [Centro de Estudos] “Sereno Regis”: “A encíclica Laudato Si’, o pensamento de Edgar Morin, a complexidade da realidade” [7].

IHU On-Line – De que forma o documento apostólico pode inspirar outras concepções que levem a pensar para além da crise ecológica? E, nesse sentido, quais os limites do documento?

Giuseppe Fumarco – Um dos limites mais problemáticos da Laudato si’ consiste na circunstância de que o Papa, lá, não aborda a questão demográfica. No meu livro “Complexus” [8] , eu defendia:

“Partimos de uma primeira constatação banal: os 7 bilhões de indivíduos que povoam o planeta (entre os 8 e os 9 bilhões previstos para 2050) há muito tempo já superaram a capacidade do ecossistema que os sustenta. Cada alerta neste campo já é irremediavelmente tardio. A humanidade – em particular desde a Revolução Industrial – prosseguiu antropizando selvagem e destrutivamente a biocenose e o biótopo em que habitava e, assim, se metamorfoseou […]. Poderá (talvez) sobreviver, mas em condições psiquicamente alienadas. Para rastrear uma relação mais equilibrada com a natureza, devemos remontar para bem antes da Revolução Industrial.”

Devemos sempre recordar que todos os problemas que estamos elencando seriam de origem muito inferior se, em vez de sermos 7 bilhões, fôssemos, por exemplo, na ordem de alguns milhões sobre todo o planeta. No meu texto, eu citava o grande etólogo austríaco Konrad Lorenz [9], que, em um livreto publicado em 1973, intitulado Os oito pecados capitais da nossa civilização, colocava de forma significativa entre os dois primeiros “pecados” a “superpopulação mundial” e a consequente “redução/devastação do espaço vital”.

Pode-se estar de acordo ou não com o elenco das criticidades propostas por Lorenz (que aqui, por razões de espaço, não retomamos), mas o fato, significativo para nós, é que um etólogo atento às lógicas dos comportamentos animais coloca na raiz dos muitos desvios atuais da humanidade justamente o dado quantitativo do excessivo povoamento do planeta por parte da espécie Homo sapiens. A humana é uma “espécie anômala”, que fez explodir os mecanismos espontâneos de autorregulação das populações animais que habitam o nosso pequeno e frágil planeta.

A partir da denúncia do “Clube de Roma” [10] de Aurelio Peccei [11] (fim dos anos 1960), muitas foram as tomadas de posição de personagens renomados em favor da temática da redução da natalidade e das políticas de contenção da população.

“O homem não é só sapiens, mas também demens, isto é, destrutivo, agressivo”

IHU On-Line – Como pensar outro modelo de desenvolvimento global? E quais os desafios para conscientizar a humanidade de que cada um é parte do todo nessa construção de outro modelo civilizacional?

Giuseppe Fumarco – Pergunta, por si só, “complicada” demais, mais do que complexa. Um novo “modelo de civilização”, por enquanto, é impensável. O homem não é só “sapiens”, mas também “demens”, isto é, destrutivo, agressivo etc. Sofre a hubris (desmesura, do grego) em consequência das contínuas turbas que irrompem no seu cérebro “triúnico” sujeito a uma dialética permanente entre paixões e racionalidade, instintos e emoções…

Quanto a pensar em um “novo modelo de desenvolvimento” (abriria mão do “global”), por enquanto, para mim, isso significa retornar para as questões não resolvidas que o século XX nos deixou. Uma acima de todas: qual deve ser o papel de um Estado “suficientemente” democrático (pois a democracia também é uma ideologia, eu diria muito “utópica”) para um novo “welfare state” que não tropece nas tesouras da dívida pública? A resposta keynesiana parecia adequada, mas, neste momento, os economistas sofrem maciçamente a nefasta influência do pensamento liberal neoclássico.

Por fim: não tenho respostas sobre a questão de como “conscientizar a humanidade” para fazer com que ela compreenda que “cada um é parte do todo”. As taxas de escolarização aumentaram um pouco em todos os países, mas, por enquanto, não parece que isso tenha tido um impacto tão positivo sobre as “tomadas de consciência”… A confusão e o “ruído” da hipercomunicação de massa atordoam as mentes, e novas ignorâncias, paradoxalmente, crescem precisamente agora.

IHU On-Line – O mundo vive um momento ímpar com a ascensão da “extrema-direita”, que prega o nacionalismo radical e recusa o outro, como exemplo a figura de Donald Trump[12] e suas propostas que recusam o enfrentamento da crise ecológica. Como chegamos a esse momento?

Giuseppe Fumarco – O “soberanismo” e o retorno ao “particular” constituem a lógica reação por parte dos povos que veem justamente na globalização (assim como ela está acontecendo) riscos, inseguranças, novos medos etc. A nova classe capitalista transnacional parece caracterizada por uma não eticidade impressionante. Novas injustiças na distribuição de renda desenham um mundo onde os ricos se tornam cada vez mais ricos e os pobres, cada vez mais pobres. Sem sinais significativos de inversão dessas tendências, a humanidade certamente não terá um futuro “vivível”.

“O caso estadunidense e a escolha de Trump nos permitem entender o que significa quando se fala de ‘novas ignorâncias’”

O caso estadunidense e a escolha de Trump nos permitem entender o que significa quando se fala de “novas ignorâncias”. Como muitos ilustres pedagogos do século XX tinham previsto, sem uma sistemática “educação ao civismo”, a democracia só pode degenerar e reabrir o caminho para todo tipo de neototalitarismos. Trump e a direita são os primeiros sinais. Jornalismo e meios de comunicação de massa têm uma grande parte de responsabilidade nessas regressões globais: muito poucos se movem contra a corrente.

IHU On-Line – E, por outro lado, em que medida é possível afirmar que a “esquerda” global é inábil na compreensão da complexidade da teia da vida, para muito além do paradigma do consumo e desenvolvimento?

Giuseppe Fumarco – A esquerda (salvo raras exceções minoritárias) também aderiu aos desvios neoliberais, já que não amadureceu ao longo do tempo uma consciência intelectual que lhe torne capaz de enfrentar os desafios e os pontos nodais totalmente novos que a globalização (ou, melhor: a “planetarização”) coloca. Além disso, na Europa, os chamados movimentos “populistas” pregam que não se pode mais pensar em termos de direita e de esquerda: erro muito grave, pois essa atitude ambígua e “agnóstica” aumenta o nível de confusão. O pós-ideologismo certamente não devia ser abordado em termos de simplificação, mas, sim, como aceitação do desafio da complexidade.

IHU On-Line – A maior das desigualdades de nosso tempo consiste em quê? E como enfrentá-la?

Giuseppe Fumarco – Há diversos níveis de desigualdades: a desigualdade das oportunidades desde o nascimento, as desigualdades entre os diversos países, as diversas nações e os diversos grupos étnicos, as desigualdades dentro dos países individuais e das nações individuais, as desigualdades de gênero etc. Temos diante dos nossos olhos um desconfortante panorama de desigualdades de todos os tipos.

Esta também é a minha tristeza mais profunda, que se liga a uma sensação pessoal negativa de impotência. Eu admiro o Papa pelo otimismo que ele consegue expressar e difundir ao seu redor. Mas temo que não seja suficiente: Francisco é escutado e aplaudido, mas os chamados poderes fortes e o establishment transnacional continuarão se movendo de modo automático de acordo com os próprios mecanismos endógenos perversos.

Infelizmente, o “desafio da complexidade” impunha a adoção de novos registros conceituais, de novos mapas mentais capazes de tentar, ao menos, enfrentar, senão resolver também e “sobretudo” esses problemas. A desigualdade em nível planetário – como bem escreveu o Papa – se liga à degradação ecológica. O “todo” é complexo precisamente por ser inter-relacionado, conectado… às vezes por fios invisíveis.

Ninguém tem nem terá, a meu ver, a coragem de enfrentar, no futuro próximo vindouro, o “desafio dos desafios”, o mais radical, que certamente não é a busca do igualitarismo absoluto, mas, pelo menos, de uma igual oportunidade para todos no nascimento. Hoje, isso é pura Utopia. Amanhã… quem viver verá (João Paulo II).

IHU On-Line – Deseja acrescentar algo?

Giuseppe Fumarco – Bergoglio vem das minhas terras, de um vilarejo em Asti. Os meus parentes são “monferrinos” exatamente como os seus antepassados antes da migração para a Argentina. Eu ainda tenho parentes distantes na Argentina, com os quais às vezes estou em contato. Isso criou, desde já, um feeling subterrâneo com esse papa de ar tão bondoso; a minha gente, muitas vezes, foi definida pelos escritores justamente como que caracterizada por uma certa bondade natural.

Notas

[1] Edgar Morin (1921): sociólogo francês, autor da célebre obra O Método. Os seis livros da série foram tema do Ciclo de Estudos sobre “O Método”, promovido pelo IHU em parceria com a Livraria Cultura de Porto Alegre em 2004. Embora seja estudioso da complexidade crescente do conhecimento científico e suas interações com as questões humanas, sociais e políticas, se recusa a ser enquadrado na sociologia e prefere abarcar um campo de conhecimentos mais vasto: filosofia, economia, política, ecologia e até biologia, pois, para ele, não há pensamento que corresponda à nova era planetária. Além de O Método, é autor de, entre outros, A religação dos saberes. O desafio do século XXI (Bertrand do Brasil, 2001). Confira a edição especial sobre esse pensador, intitulada Edgar Morin e o pensamento complexo, de 10-09-2012. O IHU, na seção Notícias do Dia, em seu sítio, vem publicando uma série de textos e reflexões sobre o pensamento de Morin. (Nota da IHU On-Line)

[2] Antropoceno: termo usado por alguns cientistas para descrever o período mais recente na história do Planeta Terra. O sítio do Instituto Humanitas Unisinos – IHU tem tratado dessa perspectiva em diversas publicações. Entre elas “Antropoceno: ou mudamos nosso estilo de vida, ou vamos sucumbir”. Entrevista especial com Wagner Costa Ribeiro, publicada nas Notícias do Dia, de 29-02-2016. (Nota da IHU On-Line)

[3] Paul Josef Crutzen (1933): químico holandês, laureado com o Nobel de Química de 1995, por seu estudo sobre a formação e decomposição do ozônio na atmosfera. Membro da Pontifícia Academia das Ciências em 25 de junho de 1996. É professor do Instituto Max Planck de Química em Mainz, Alemanha. O asteroide 9679 Crutzen é denominado em sua homenagem. Ele cunhou o termo antropoceno e desenvolveu a teoria a que este corresponde. (Nota IHU On-Line)

[4] Holoceno: divisão da escala de tempo geológico, é a última e atual época geológica do Quaternário. O começo de o Holoceno é definido na mudança climática correspondente à do final do episódio frio conhecido como o Dryas recente, após a última glaciação, e abrange os últimos 11.784 anos, tendo 2000 como referência de tempo base. Ele é um período interglacial em que a temperatura foi mais suave e diferentes calotas desapareceu ou diminuição do volume, o que causou uma elevação do nível do mar. (Nota da IHU On-Line)

[5] O entrevistado se refere a Encíclica Laudato Si’: encíclica do Papa Francisco, na qual critica o consumismo e desenvolvimento irresponsável e faz um apelo à mudança e à unificação global das ações para combater a degradação ambiental e as alterações climáticas. Publicada oficialmente em 18 de junho de 2015, mediante grande interesse das comunidades religiosas, ambientais e científicas internacionais, dos líderes empresariais e dos meios de comunicação social, o documento é a segunda encíclica publicada por Francisco. A primeira foi Lumen fidei em 2013. No entanto, Lumen fidei é na sua maioria um trabalho de Bento XVI. Por isso Laudato Sí’ é vista como a primeira encíclica inteiramente da responsabilidade de Francisco. A revista IHU On-Line publicou uma edição em que analisa debate a Encíclica. (Nota da IHU On-Line)

[6] As referências às afirmações do Papa Francisco são tiradas diretamente dos parágrafos numerados da encíclica “Laudato si’: Encíclica sobre o cuidado da casa comum”, Livraria Editora Vaticana, Roma, 2015. (Nota do entrevistado)

[7] O texto foi publicado em Português pelo IHU, no Cadernos Teologia Pública número 114. (Nota da IHU On-Line)

[8] “Complexus. Leggere il presente sulle orme di Edgar Morin”, Effetto Farfalla, 2013. Istituto per l’Ambiente e l’Educazione “Scholé Futuro”, Onlus, Turim. (Nota do entrevistado)

[9] Konrad Zacharias Lorenz (1903-1989): foi um zoólogo, etólogo e ornitólogo austríaco. Foi agraciado com o Nobel de Fisiologia ou Medicina de 1973, por seus estudos sobre o comportamento animal, a etologia. Em 1935 descreveu o processo de aprendizagem nos gansos e criou o conceito de “imprinting”. Este é um fenômeno exibido por vários animais filhotes, principalmente pássaros tais quais pintinhos e patinhos. Após saírem dos ovos seguirão o primeiro objeto em movimento que eles encontrarem no ambiente, o qual pode ser a mãe, mas não necessariamente. (Nota da IHU On-Line)

[10] Clube de Roma: é um grupo de pessoas ilustres que se reúnem para debater um vasto conjunto de assuntos relacionados a política, economia internacional e, sobretudo, ao meio ambiente e o desenvolvimento sustentável. Foi fundado em 1966 pelo industrial italiano Aurelio Peccei e pelo cientista escocês Alexander King. Tornou-se muito conhecido a partir de 1972, ano da publicação do relatório intitulado Os Limites do Crescimento, elaborado por uma equipe do MIT, contratada pelo Clube de Roma e chefiada por Dana Meadows. O relatório, que ficaria conhecido como Relatório do Clube de Roma ou Relatório Meadows, tratava de problemas cruciais para o futuro desenvolvimento da humanidade, tais como energia, poluição, saneamento, saúde, ambiente, tecnologia e crescimento populacional, foi publicado e vendeu mais de 30 milhões de cópias em 30 idiomas, tornando-se o livro sobre ambiente mais vendido da história. (Nota do IHU On-Line)

[11] Aurelio Peccei (1908-1984): foi um estudioso e industrial italiano, mais conhecido como o fundador e primeiro presidente do Clube de Roma – uma organização que Levantou a atenção pública considerável em 1972 com seu relatório os limites ao crescimento. (Nota da IHU On-Line)

[12] Donald John Trump (1946): é um empresário, ex-apresentador de reality show e presidente eleito dos Estados Unidos. Na eleição de 2016, Trump foi eleito o 45º presidente norte-americano pelo Partido Republicano, ao derrotar a candidata democrata Hillary Clinton no número de delegados do colégio eleitoral; no entanto, perdeu no voto popular. Trump tomou posse em 20 de janeiro de 2017 e, aos 70 anos de idade, é a pessoa mais velha a assumir a presidência. Entre suas bandeiras estão o protecionismo norte-americano, por onde passam questões econômicas e sociais, como a relação com imigrantes nos Estados Unidos. Trump é presidente do conglomerado The Trump Organization e fundador da Trump Entertainment Resorts. Sua carreira, exposição de marcas, vida pessoal, riqueza e modo de se pronunciar contribuíram para torná-lo famoso. (Nota da IHU On-Line)

Fonte – João Vitor Santos, tradução Moisés Sbardelotto, IHU de 25 de março de 2017

O mundo teria déficit ambiental mesmo eliminando os países ricos

pegada ecológica, biocapacidade e déficit ambiental, 2012

“Precisamos pegadas menores, mas também precisamos de menos pés”.
(Enough is Enough, 2010)

O mundo passou por uma grande transformação desde o início da Revolução Industrial e Energética que teve início no último quartel do século XVIII. Nos 240 anos entre 1776 e 2016, a população mundial passou de cerca de 800 milhões de habitantes para 7,4 bilhões. Foi um crescimento de quase 9 vezes. Mas no mesmo período, a economia global cresceu cerca de 121 vezes. A renda per capita cresceu 13 vezes, superando todos os recordes históricos. Segundo Angus Maddison, a esperança de vida ao nascer do mundo era de cerca de 25 anos em 1800 e chegou a 70 anos no quinquênio 2010-15. Portanto, houve um grande progresso da civilização e um aumento significativo do padrão de vida da humanidade.

Mas o sucesso humano aconteceu em função do retrocesso do meio ambiente, pois é impossível manter o crescimento das atividades antrópicas no fluxo metabólico entrópico. O fato é que a presença humana já ultrapassou a capacidade de carga do Planeta, conforme mostram os dados da Footprint Network.

A Pegada Ecológica é uma metodologia que mede o impacto humano sobre as áreas terrestres e aquáticas, consideradas biologicamente produtivas e necessárias à disponibilização de recursos ecológicos e serviços, como alimentos, fibras, madeira, terreno para construção e para a absorção do dióxido de carbono (CO2) emitido pela combustão de combustíveis fósseis etc. A biocapacidade mede a quantidade de área biologicamente produtiva – zona de cultivo, pasto, floresta e pesca – disponível para responder às necessidades da humanidade.

A tabela acima mostra que a população mundial era de 7,08 bilhões de habitantes em 2012 e tinha uma pegada ecológica per capita de 2,84 hectares globais (gha) e uma biocapacidade de 1,7 gha. No total, a pegada ecológica mundial era de 20,1 bilhões de gha e a biocapacidade total era de 12,5 bilhões de gha. O déficit ecológico era de 7,9 bilhões de gha em 2012.

A pegada ecológica per capita dos países de alta renda (desenvolvidos) foi de 6,2 gha, em 2012, para uma população de 1,1 bilhão de habitantes, o que representava uma pegada total de 6,8 bilhões de gha. A biocapacidade per capita era de 3,2 gha e um montante de 3,5 bilhões de gha. Portanto, os países de alta renda tinham um déficit ecológico de 3,3 bilhões de gha. Os países ricos tinham cerca de 15% da população mundial, mas eram responsáveis por aproximadamente 42% do déficit ecológico total.

Sem dúvida, o alto consumo dos países desenvolvidos pressiona a pegada ecológica do mundo. Mas mesmo numa situação hipotética de eliminação destes países ricos da contabilidade ambiental, o mundo continuaria numa situação de déficit, mesmo que menor, de 3,9 bilhões de hectares globais (gha).

Portanto, mesmo eliminando os países ricos do cálculo da Pegada Ecológica mundial as atividades antrópicas do resto da população do globo continuam superiores à capacidade de regeneração da biosfera. Os cálculos acima não tiram as responsabilidades dos países desenvolvidos como os maiores poluidores do Planeta. Apenas mostram a real dimensão dos problemas causados pelos tamanhos do consumo e da população.

É compreensível que as populações dos países pobres aspirem níveis mais elevados de desenvolvimento e consumo. Mas reproduzir o modelo dos países ricos e poluidores seria um desastre total. Também é compreensível que as camadas populacionais excluídas do mundo lutem por melhores escolas, hospitais, transporte público, lazer, etc. Mas não é aceitável e nem viável se promover o desenvolvimento humano às custas do empobrecimento do Planeta e da biodiversidade.

O fato é que as populações dos países ricos consomem além de qualquer medida de sustentabilidade e os países em desenvolvimento, mesmo com um nível de consumo menor, possuem um tamanho de população que faz elevar o déficit ecológico. A única forma de equacionar o dilema da insustentabilidade global é caminhar para um mundo com menos gente, menos consumo, menor desigualdade social e maior qualidade de vida humana e ambiental.

Por isto, o livro Enough is Enough (2010), com prefácio de Herman Daly, diz: “We need smaller footprints, but we also need fewer feet” (“Precisamos pegadas menores, mas também precisamos de menor número de pés”, p. 12).

Como mostrou Charles St. Pierre (16/11/2016), tratando da armadilha do crescimento, todo sistema econômico e todo sistema auto-organizado que não se autolimita dentro das fronteiras estabelecidas pelo seu meio ambiente, cresce até exceder a capacidade do ecossistema para apoiá-lo e sustentá-lo. Em seguida, ele colapsa. O colapso da economia moderna pode ser catastrófico.

Referências

ALVES, JED. Desenvolvimento humano e o aumento da Pegada Ecológica, Ecodebate, 01/06/2016

ALVES, JED. População, Pegada Ecológica e Biocapacidade: como evitar o colapso? Ecodebate, 04/07/2012.

Charles St. Pierre. The Growth Trap, Resilience, 16/11/2016

O’Neill, D.W., Dietz, R., Jones, N. (Editors), Enough is Enough: Ideas for a sustainable economy in a world of finite resources. The report of the Steady State Economy Conference. Center for the Advancement of the Steady State Economy and Economic Justice for All, UK, 2010.

José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal.

Fonte – EcoDebate de 23 de novembro de 2016

Ser humano: maior espécie invasora

população mundial 8000 aC - 2100 dC

“O ser humano é um ectoparasita que está matando o seu hospedeiro”
Alves (28/09/2016)

“Há 10.000 anos os seres humanos e seus animais representavam menos de um décimo de um por cento da biomassa dos vertebrados da terra. Agora, eles são 97 por cento”
Patterson (07/05/2014)

Em 2012, escrevi um artigo provocativo no Portal Ecodebate perguntando se a expansão do ser humano por todos os cantos e espaços do Planeta poderia ser considerada uma atividade semelhante ao que acontece na biologia com as espécies invasoras.

A ideia do conflito irreconciliável e antagônico entre o ser humano e a natureza não é nova. Diversos autores já trataram a humanidade como um câncer, uma praga ou erva daninha que ataca a biodiversidade da Terra. Por exemplo, o grande ambientalista David Attenborough disse: “Somos uma praga sobre a Terra. Não é apenas a mudança climática; é o espaço absoluto, lugares para cultivar alimentos para esta enorme horda. Ou nós limitamos o nosso crescimento populacional ou o mundo natural fará isso por nós. Aliás o mundo natural já começou a fazer isso para nós agora”.

Na mesma linha, o filósofo britânico John Gray, em entrevista à revista Época (29/05/2006), apresenta um prognóstico pessimista sobre a humanidade: “A espécie humana expandiu-se a tal ponto que ameaça a existência dos outros seres. Tornou-se uma praga que destrói e ameaça o equilíbrio do planeta. E a Terra reagiu. O processo de eliminação da humanidade já está em curso e, a meu ver, é inevitável. Vai se dar pela combinação do agravamento do efeito estufa com desastres climáticos e a escassez de recursos. A boa notícia é que, livre do homem, o planeta poderá se recuperar e seguir seu curso”.

Também o Dr. David Suzuki (2016) considera que os seres humanos estão no topo dos predadores do mundo. Predação é uma função natural importante. Mas como a população humana cresceu, passou a influir na dinâmica dos ecossistemas rompendo os equilíbrios naturais. Ele diz que precisamos parar de procurar bodes expiatórios e olhar no espelho e perceber que a principal causa do declínio das espécies são o agigantamento das atividades antrópicas.

Agora em abril de 2016, a revista Nature publicou o texto “Post-invasion demography of prehistoric humans in South America” (GOLDBERG, et. al. 2016) que trata da “invasão” humana na América do Sul. O texto reconstrói os padrões espaço-temporais de crescimento da população humana na América do Sul, usando um banco de dados recém-agregados de 1.147 sítios arqueológicos e 5.464 datações calibradas abrangendo quatorze mil a dois mil anos atrás. Demonstra que, em vez de uma expansão exponencial constante, a história demográfica dos sul-americanos é caracterizada por duas fases distintas. Em primeiro lugar, os humanos se espalharam rapidamente por todo o continente desde 14 mil anos, mas manteve-se com população baixa até 8.000 anos atrás, incluindo um período de oscilações (boom and bust) sem crescimento líquido por 4.000 anos. Só com sedentarismo generalizado a partir de 5,5 mil anos atrás houve uma segunda fase demográfica de crescimento exponencial da população. A capacidade da humanidade para modificar seu ambiente e para aumentar acentuadamente a capacidade de carga na América do Sul é, portanto, um fenômeno recente.

archaeological sites in database

O estudo estabelece uma base para a compreensão de como os seres humanos contribuíram para a maior extinção do Pleistoceno de grandes mamíferos, como preguiças, cavalos e criaturas chamadas gomphotheres. Em seguida, o estudo considera que, de acordo com outras espécies invasoras, os seres humanos parecem ter sido submetidos a um declínio da população, consistente com a ideia da sobre-exploração dos recursos naturais. Mas com o surgimento de sociedades sedentárias houve novamente crescimento exponencial da população.

Hoje em dia parece que o crescimento populacional ultrapassou a capacidade de carga novamente. A pergunta que fica é se os avanços tecnológicos serão capazes de superar os limites da capacidade de carga ou se a pressão das atividades antrópicas vai provocar uma grande extinção em massa das espécies endêmicas e dos demais seres vivos do Planeta.

O artigo publicado na revista PLoS Biology, em agosto de 2016, estima que o mundo natural contém cerca de 8,7 milhões de espécies. Mas a grande maioria ainda não foi identificada. Os autores alertam que muitas espécies serão extintas antes que possam ser estudadas.

As estatísticas mostram que as áreas de proteção ambiental cobrem apenas 20 milhões de quilômetros quadrados, ou cerca de 15% do planeta, número que está abaixo das Metas de Aichi de Biodiversidade, adotadas por mais de 190 países em 2010, que prevê 17% de cobertura em 2020. As Metas de Aichi são consideradas o maior acordo global sobre biodiversidade em nível mundial e estão voltadas à redução da perda da biodiversidade, em todo o planeta. Reunidas em cinco objetivos estratégicos, as 20 Metas de Aichi são assim chamadas, pois foram definidas durante a 10ª Conferência das Partes da Convenção sobre Diversidade Biológica (COP-10), realizada em Nagoya, Província de Aichi, Japão. No entanto, segundo o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), as conquistas em número e tamanho têm de ser acompanhadas de melhoras em sua qualidade, com a proteção de lugares com maior diversidade biológica.

Nos últimos 20 anos, o mundo perdeu 3,3 milhões de quilômetros quadrados, ou quase 10%, das suas áreas de natureza não domesticada, isto é, regiões praticamente intocadas pela ação humana, segundo cálculo do periódico científico “Current Biology”. Trata-se de uma perda catastrófica da vida selvagem. Em artigo publicado na revista Science, o biólogo americano Samuel Wasser mostra que cerca de 50 mil elefantes africanos são caçados por criminosos a cada ano, para uma população de 500 000 indivíduos. Uma taxa de 10% ao ano pode levar rapidamente à extinção da espécie.

Para mudar este quadro, o biólogo Edward Osborne Wilson acredita que o ser humano está provocando um “holocausto biológico” e para evitar a “extinção em massa de espécies”, ele propõe uma estratégia para destinar METADE DO PLANETA exclusivamente para a proteção dos animais. No livro O futuro da Vida, Osborne faz uma defesa da incrível diversidade de espécies que o Homo sapiens está destruindo antes mesmo de ter acumulado conhecimento sobre elas.

Como diz matéria da France Presse (06/11/2014): “O ser humano é, por excelência, a espécie mais invasora do planeta. Surgiu na África e se expandiu, modificando todos os ecossistemas”. É uma espécie autoinvasora, pois as migrações são seguidas de dominação e destruição.

A mesma conclusão é apresentada em interessante artigo de Fábio Olmos, em O Eco (19/09/2016) que mostra como a dominação do Planeta pelo Homo Sapiens provocou a extinção de inúmeras espécies nos últimos 50 mil anos. Ele sintetiza o artigo: “Uma conclusão é que somos a mais destruidora dentre as espécies exóticas e invasoras, embora não nos listem no catálogo oficial das espécies-praga danosas à biodiversidade”.

Portanto, se não tomar cuidado, a humanidade pode ser vítima de seu próprio sucesso, podendo fracassar devido ao retrocesso das demais espécies, como as abelhas que são fundamentais para a polinização e a produção de alimentos no mundo. O parasitismo humano está matando o hospedeiro e provocando um holocausto biológico. O invasor parasitário geralmente fracassa quando o egoísmo predomina sobre o altruísmo e se adota uma solução de terra arrasada.

Referencias

ALVES, JED. Ser humano: espécie invasora? Ecodebate, RJ, 25/07/2016

ALVES, JED. Planeta sitiado, #Colabora, RJ, 07/06/2016

ALVES, JED. Mundo cheio e decrescimento, Ecodebate, RJ, 03/06/2016

ALVES, JED. O mundo com 10 bilhões de habitantes em 2053, Ecodebate, RJ, 28/09/2016

WILSON, Edward O. O futuro da vida: um estudo da biosfera para a proteção de todas as espécies, inclusive a humana. Rio de Janeiro: Campus, 2002

ATTENBOROUGH, David. Humans are plague on Earth, The Telegraph, 22/01/2013

France Presse. Avanço de espécies invasoras ameaça biodiversidade no planeta, G1, O Globo, RJ, 06/11/2014

GOLDBERG, Amy, MYCHAJLIW, Alexis M. HADLY, Elizabeth A. Post-invasion demography of prehistoric humans in South America, Nature, 06/04/2016

PATTERSON, Ron. Of Fossil Fuels and Human Destiny, May 7, 2014

Dr. David Suzuki. The Planet’s Most Dangerous Predator Is Us, EcoWatch, Sep. 13, 2016

BBC. Monsters We Met – Episode 1 – The Eternal Frontier, 2013

Fabio Olmos. Humanos, a espécie invasora suprema, O Eco, 19/09/2016

Richard Black. Species count put at 8.7 million, BBC News, 23 August 2011

José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE.

Fonte – EcoDebate de 19 de dezembro de 2016

Padrão de consumo atual é insustentável para população de 7 bilhões

Foto: Marcos Santos/USP ImagensFoto: Marcos Santos/USP Imagens

Em palestra da série USP Talks, pesquisadores alertam para a necessidade de mudar o sistema socioeconômico e nosso modo de vida para reverter mudanças climáticas

O sistema socioeconômico construído e adotado pela humanidade desde a Primeira Revolução Industrial, em 1750, possui um padrão de consumo insustentável para um mundo com 7 bilhões de pessoas como o atual, e mais ainda para a população que se estima que habitará a Terra daqui a poucas décadas, de 9 a 10 bilhões de indivíduos.

A afirmação é do professor Paulo Artaxo, do Instituto de Física (IF) da USP, que, junto do professor Frederico Brandini, do Instituto Oceanográfico (IO) da USP, participou do USP Talks na quarta-feira, 30 de novembro, para tratar do tema Mudanças Climáticas: a Terra daqui a 100 anos.

“Quando a China, Índia e África, que juntas têm hoje mais de 3 bilhões de habitantes, resolverem ter o mesmo padrão de consumo dos países desenvolvidos – e isso não vai demorar -, não precisa ser muito inteligente para perceber que não vai dar certo. Precisamos mudar o sistema”, defende Artaxo, que é referência mundial no estudo da física aplicada a problemas ambientais.

O professor afirma não ver maior desafio para a ciência e a humanidade do que as mudanças climáticas, pois elas colocam em xeque nossa estrutura socioeconômica e nosso modo de viver. “Ainda tem gente que diz não acreditar nas mudanças climáticas, como o presidente eleito dos Estados Unidos, Donald Trump. Mas ele representa grandes interesses, assim como qualquer presidente. Não é uma questão de acreditar ou não, não é religião. As mudanças estão aí.”

“Quando a China, Índia e África resolverem ter o mesmo padrão de consumo dos países desenvolvidos – e isso não vai demorar -, não precisa ser muito inteligente para perceber que não vai dar certo. Precisamos mudar o sistema”

O professor ainda chama a atenção para um dilema ético causado pelas mudanças climáticas: “Temos o direito de causar a extinção em massa de inúmeras espécies que dividem o planeta conosco?”. De acordo com Artaxo, 40 bilhões de toneladas de gases estufa são lançadas na atmosfera todos os anos, uma taxa que ainda está em ascensão. Isso já gerou um aumento de 1ºC na temperatura média do planeta – no Brasil, o aumento foi de 1,5º a 1,8º, uma mudança crítica para ecossistemas como a Amazônia.

A floresta amazônica é um importante recurso para adiar os efeitos das mudanças climáticas, por ser o que se chama de uma bomba biológica, isto é, um grande sistema de retenção de carbono. Isso se dá porque o tronco das árvores necessita de enorme quantidade desse elemento para se formar. Porém, o professor Artaxo alerta que essa capacidade de armazenamento está se esgotando, pois as árvores não crescem para sempre, e árvores novas estão sendo sistematicamente desmatadas. “O Brasil desmatou, no último ano, 8 mil quilômetros quadrados de floresta primária na Amazônia. É uma quantidade enorme.”

Oceanos

O professor Frederico Brandini explica que, assim como a Amazônia, os oceanos também caracterizam uma bomba biológica, em virtude da absorção do carbono pelas algas unicelulares que os habitam. Além disso, eles são uma bomba de solubilidade, pois o dióxido de carbono (CO2) é muito solúvel em água, especialmente nos mares gelados próximos aos polos, que têm maior capacidade de dissolução da molécula e, por serem mais densos, levam-na ao fundo do oceano.

Porém, a capacidade da bomba biológica dos oceanos também está se esgotando, pois as algas concentram-se numa faixa limitada deles, aquela que recebe luz. Segundo o professor, apenas os 100 metros superficiais (cerca de 2% do oceano) são iluminados pela radiação solar.

Ao mesmo tempo a bomba de solubilidade é sobrecarregada pela desmedida emissão de carbono das atividades humanas, e, quanto mais carbono no fundo dos oceanos, mais ácida fica a água. “Hoje, a acidez da água dos oceanos é 30% maior do que 150 anos atrás. Isso prejudica, por exemplo, os corais, que são formados por substâncias básicas como o carbonato de cálcio. Estamos matando os recifes de coral”, afirma Brandini, estudioso da área de Oceanografia Biológica.

“Hoje, a acidez da água dos oceanos é 30% maior do que 150 anos atrás. Isso prejudica, por exemplo, os corais, que são formados por substâncias básicas como o carbonato de cálcio. Estamos matando os recifes de coral”

Esse esgotamento da capacidade da retenção de carbono das bombas biológicas é preocupante. De acordo com Brandini, 30% do gás carbônico absorvido fica retido nas florestas, outros 30% nos oceanos e o restante é o que ele chama de “carbono perdido”. “Não se sabe para onde vai essa porcentagem, é possível que parte dela fique presa às nossas roupas, por exemplo. A questão é que os outros 60% vão deixar de ser fixados pelas árvores e pelos oceanos, então teremos ainda mais gases estufa na atmosfera, o que vai agravar o aquecimento global.”

Há ainda outros problemas da ação humana para o equilíbrio dos oceanos. Brandini afirma que algumas substâncias presentes em cosméticos e remédios não são metabolizadas por nosso organismo e, uma vez excretadas, chegam aos oceanos por meio do esgoto. “Essas substâncias ficam por décadas circulando na água, há peixes e outros seres vivos espalhados pelos mares do mundo todo contaminados por elas”, explica. Além disso, o professor ressalta os impactos da poluição sonora e luminosa causada pelo homem. “O oceano não é um universo visual, a maior parte dele é escura. Os seres marinhos se comunicam principalmente pelo som ou por mecanismos químicos, e estamos desequilibrando isso também.”

Há esperança?

Com ressalvas, os professores se mostram otimistas em relação à possibilidade de superarmos as mudanças climáticas. Artaxo afirma que iniciativas como o Acordo de Paris, aprovado por 195 países em 2015, embora bem intencionadas, são insuficientes. O acordo prevê uma redução de 32% da emissão de gases estufa com o objetivo de limitar a no máximo 2ºC o aumento da temperatura média do planeta.

“Essa redução está longe de acontecer e, mesmo se acontecesse, não seria possível alcançar a meta proposta. Além disso, o aumento da temperatura global em 2ºC representaria no Brasil um aumento da ordem de 3ºC a 3,5ºC, em média. Imagine o que aconteceria em cidades como Cuiabá e Manaus.” Entretanto, se a ação do homem se mantiver como a atual pelos próximos 100 anos, o professor afirma que a temperatura média do planeta poderia aumentar de 5ºC a 7º C, o que seria uma catástrofe.

De acordo com Artaxo, um caminho para lidar com as mudanças climáticas, mais do que tratados internacionais, é uma mudança radical em nossa sociedade, desde os padrões de consumo até a política. “Temos que rever a forma como medimos o sucesso de um país. Por que, em vez de relacionar sucesso ao que é produzido pela indústria – portanto estimulando produção e consumo insustentáveis-, não medimos a felicidade da população com o sistema implementado?”

Além dessa ideia, que já é posta em prática no Butão, país do sul da Ásia, o professor sustenta a necessidade de um sistema global de governança. “Um presidente pensa no que vai acontecer nos quatro anos de seu mandato, assim como um empresário pensa no lucro de sua empresa naquele ano. Precisamos começar a pensar que todos dividimos a mesma casa, acabar com o conceito de ‘país’ e implementar políticas públicas globais em relação ao meio ambiente.”

“Precisamos começar a pensar que todos dividimos a mesma casa, acabar com o conceito de ‘país’ e implementar políticas públicas globais em relação ao meio ambiente”

Apesar de parecer utópico, os professores dão exemplos práticos para mostrar que a mudança é possível. Artaxo lembra que já possuímos tecnologia suficiente para produzir carros 70% a 90% mais eficientes que os atuais, enquanto Brandini fala de energias alternativas que poderiam ser exploradas pelo Brasil, como a eólica, a solar e a das marés, tecnologias que não são comparativamente caras e cujas fontes existem em abundância no País. Artaxo defende também o desmatamento zero para manter a capacidade de retenção carbônica da Amazônia, e Brandini afirma que “se tivéssemos uma educação de qualidade, não seria necessário educação ambiental, pois as pessoas saberiam da importância do meio ambiente”.

Ambos confiam na capacidade do ser humano de superar dificuldades, por meio de esforço, conscientização e da ciência – a qual Artaxo defende que deveria ter maior influência em decisões políticas e na elaboração de políticas públicas. “As baleias já foram a maior commodity do planeta, pois o óleo de sua gordura era o que iluminava as cidades da Europa. Se não tivéssemos descoberto o petróleo, elas teriam sido extintas. Depois o petróleo trouxe outros tantos problemas, mas, como já fizemos antes, podemos resolvê-los”, diz Brandini.

A oitava e última edição do USP Talks em 2016 ocorreu na tarde de quarta-feira, 30 de novembro, no Teatro Eva Herz da Livraria Cultura. A série de eventos é uma iniciativa das Pró-Reitorias de Graduação e de Pesquisa da USP, em parceria com o jornal O Estado de S. Paulo e apoio da Livraria Cultura. Mais informações na página do Facebook.

Fonte – Diego C. Smime, Jornal da USP de 01 de dezembro de 2016

Veja como a população mundial cresceu com o passar dos anos

Demorou um bom tempo, mas assim que conseguimos, ficamos completamente sem controle, não?

Precisamos de 200.000 anos para chegar ao primeiro bilhão de humanos, mas apenas mais 200 anos para chegar a 7 bilhões. Veja este mapa que mostra como a população mundial cresceu e também como nos espalhamos ao redor do globo, com destaque para grandes impérios e eventos históricos que nos ajudaram a dominar a Terra como uma pandemia.

Fonte – Casey Chan, American Museum of Natural History / Digg / Gizmodo de 10 de novembro de 2016

E aí, vamos continuar nos calando sobre controle populacional? Igrejas continuam com seu mimimi de não podemos interferir nas decisões das pessoas quanto ao número de filhos que querem.”Crescei e multiplicai-vos, enchei e dominai a terra” deu no que deu. Basta!

Crescimento e demografia em xeque

Gary Gardner, Tom Prugh e Michael Renner, diretores do projeto O Estado do Mundo 2015, do Worldwatch Institute, criticam a busca incessante do crescimento pelos países ricos.

O estudo usa a expressão “ameaças veladas à sustentabilidade”. Que ameaças são essas? As informações sobre a crise ambiental já não são bem conhecidas?

A consciência a respeito das muitas ameaças ambientais de fato aumentou nos últimos anos, e as pesquisas comprovam a vontade das pessoas ao redor do mundo para enfrentá-las. Mas frequentemente falta senso de urgência que responda à gravidade das ameaças. Além disso, muitas questões de sustentabilidade subjacentes são premissas – sobre a viabilidade do crescimento econômico infinito e o papel da energia barata, por exemplo – que ainda não foram examinadas. Confrontar esses pressupostos de forma aberta e direta é essencial para criar um caminho rumo a um futuro sustentável.

Que mensagens este estudo de 2015 traz como substancialmente novas em relação aos anos anteriores?

Destacamos três. A primeira, de que os danos ambientais têm um impacto econômico muito subestimado. A noção de stranded assets – ativos que poderão nunca ser aproveitados por motivos ambientais – estão levando os principais analistas financeiros a reavaliar carteiras de investimento em todo o mundo. Um exemplo são as reservas de petróleo, que podem nunca ser bombeadas por causa de questões climáticas. A escassez de água na China está levando ao abandono de lavouras e hidrelétricas. Como as condições ambientais vão se deteriorar em muitas regiões e de forma global, carteiras de investimento vão sofrer. A segunda refere-se à preocupação de que mais de 60% das 400 doenças infecciosas em seres humanos que surgiram nos últimos 70 anos foram de origem animal. Essa transmissão é cada vez mais provável com o crescimento do comércio internacional e as viagens, a pecuária intensiva, e a ocupação humana de áreas selvagens. E a terceira é de que o crescimento econômico, por muito tempo um objetivo político de governos nacionais, pode já não ser aconselhável, pelo menos nos países ricos, em que grandes economias continuam a ultrapassar os limites ambientais. Há anos que ativistas pedem o não-crescimento, mas agora pesquisadores acadêmicos no Canadá demonstraram que esse objetivo pode ser gerido de uma forma que reduza o emprego, aumente a equidade, freie as emissões de carbono e outros danos ambientais. Os países pobres ainda precisam crescer para gerar prosperidade e oportunidade para o seu povo, mas os ricos devem encontrar maneiras de manter um elevado nível de bem-estar para a população, em vez de uma produção cada vez maior de bens por pessoa.

O estudo cita Naomi Klein para frisar que o grande nó está no sistema econômico dominante – o capitalismo e a busca do crescimento, ainda que “verde”. Que revisões ou reformas estruturantes são necessárias neste sistema, e até que ponto são viáveis?

Em primeiro lugar, é preciso redescobrir o papel essencial da formulação de políticas de interesse público. Para isso é preciso afastar-se da ideia de que as forças do mercado vão resolver os problemas sociais e ambientais. Isso exige que as empresas privadas não cresçam tanto a ponto de ficar mais poderosas do que órgãos dirigentes democraticamente eleitos. Em segundo, precisamos transformar as normas pelas quais as empresas privadas são regidas – passando do interesse restrito ao acionista para o amplo interesse dos stakeholders, que incluem os trabalhadores, as comunidades impactadas pelas empresas e o ambiente natural. Temos visto o surgimento das “B-corp”, mas ainda são raras. Outras alternativas são as empresas controladas pelos trabalhadores e as cooperativas. Mas isso requer apoio dos governos e do público para ser bem-sucedido.

O estudo coloca a civilização humana como vítima de seu sucesso. Os avanços tecnológicos permitiram expandir a população e a pressão sobre recursos naturais. Para reduzir essa pegada, basta recorrer novamente à tecnologia, ou uma diminuição demográfica se faz necessária?

O número de pessoas que a Terra pode suportar depende muito da maneira como as pessoas querem viver. Nações ricas, auxiliadas por tecnologia e energia abundante, conseguiram um estilo de vida material outrora inimaginável, mas, depois de um certo nível, o aumento de felicidade não seguiu o mesmo ritmo do aumento da riqueza. Usada com sabedoria, a tecnologia pode ajudar a aliviar a crescente pressão sobre a biosfera, mas provavelmente não será capaz de criar uma civilização sustentável até que o número de seres humanos decline. O objetivo deve ser o de atingir um menor número de pessoas ao longo do tempo buscando a equidade na distribuição da riqueza, melhor educação e oportunidades econômicas para as mulheres, e outras políticas de “aterrissagem suave”.

Fonte – Amália Safatle, Página 22 de 02 de fevereiro de 2016

World population stabilization unlikely this century

Abstract

The United Nations recently released population projections based on data until 2012 and a Bayesian probabilistic methodology. Analysis of these data reveals that, contrary to previous literature, world population is unlikely to stop growing this century. There is an 80% probability that world population, now 7.2 billion, will increase to between 9.6 and 12.3 billion in 2100. This uncertainty is much smaller than the range from the traditional UN high and low variants. Much of the increase is expected to happen in Africa, in part due to higher fertility and a recent slowdown in the pace of fertility decline. Also, the ratio of working age people to older people is likely to decline substantially in all countries, even those that currently have young populations.

The United Nations (UN) is the leading agency that projects world population into the future on a regular basis (1). Every two years it publishes revised data of the populations of all countries by age and sex, as well as fertility, mortality and migration rates, in a biennial publication called the World Population Prospects (WPP) (2). In July 2014, probabilistic projections for individual countries to 2100 were released Unlike previous projections, they allow us to quantify our confidence in projected future trends using established methods of statistical inference. They are based on recent data, including the results of the 2010 round of censuses and recent surveys until 2012, as well as the most recent data on incidence, prevalence and treatment for the countries most affected by the HIV/AIDS epidemic (3), which had not been included previously.

Our analysis of these data show that world population can be expected to increase from the current 7.2 billion people to 9.6 billion in 2050 and 10.9 billion in 2100 (Fig. 1A). These projections indicate that there is little prospect of an end to world population growth this century without unprecedented fertility declines in most parts of Sub-Saharan Africa still experiencing fast population growth.

Traditionally, the UN has also provided high and low projection scenarios (shown in Fig. 1A), obtained by adding or subtracting half a child from the total fertility rate (TFR, in children per woman) on which the main (or medium) projection is based, for each country and all future time periods. These scenarios have been criticized as having no probabilistic basis and leading to inconsistencies (4, 5). For example, while it is plausible that fertility could exceed the main projection by half a child in a given country and year, it is unlikely that this would be the case for all countries and all years in the future, as assumed in the high projection.

In a methodological innovation aimed at overcoming this limitation, we derived new probabilistic projections based on probabilistic Bayesian hierarchical models for major components of demographic change, namely fertility (6–8) and life expectancy (9, 10). These models incorporated available data and take advantage of data from other countries when making projections for a given country. They also incorporated external information through Bayesian prior distributions, including an upper bound of 1.3 years per decade on the asymptotic rate of increase of life expectancy, based on historic data on life expectancy in leading countries (11) and on changes in the maximum age at death (12). They included the assumption that the total fertility rate for a country will ultimately fluctuate around a country-specific long-term average which is estimated from the data; these long-term averages are between 1.5 and 2 children per woman for most countries with high probability (7).

Probabilistic population projections were then obtained by inputting the output from the statistical models to the standard cohort component projection method (4, 13). Aggregates were based on individual country projections, and take into account the correlations between countries’ fertility future trajectories (8). The models yielded probabilistic projections, and thus probabilistic limits for future quantities of interest, responding to calls for probabilistic population forecasting (5). See the supplementary materials and http://esa.un.org/unpd/ppp/ for summary tables, plots, assumptions and methodology. Here we summarize the overall trends and discuss their implications for world population in the future. The probabilistic projections of world population (Fig. 1A) provide a general statement of the confidence we can have in the projections. For example, there is a 95% probability that world population in 2100 will be between 9.0 and 13.2 billion. They also provide updated answers to longstanding questions about population change. Lutz et al. (14) gave an 85% probability that world population growth would end in the 21st century, but our probabilistic projection indicates that this probability is much lower, at only 30%. Lutz et al. (15) considered a doubling of world population from 1997 to 2100 to be unlikely, with a probability of one-third. We found a similar, but slightly lower probability of 25%. The probabilistic intervals were much narrower than those between the traditional high and low scenarios, which seem to overstate uncertainty about future world population.

Figure 1B shows the projections of total population for each continent to the end of the century. Asia will probably remain the most populous continent, although its population is likely to peak around the middle of the century and then decline. The main reason for the increase in the projection of the world population is an increase in the projected population of Africa. The continent’s current population of about one billion is projected to rise to between 3.1 and 5.7 billion with probability 95% by the end of the century, with a median projection of 4.2 billion. While this is large, it does not imply unprecedented population density: it would make Africa’s population density roughly equal to that of China today.

The increase in the projected population of Africa is due to persistent high levels of fertility, and the recent slowdown in the rate of fertility decline (16). Three-quarters of this anticipated growth is attributable to fertility levels above replacement level, and a quarter to mortality reduction and current youthful age structure (17). Since 1950, fertility has declined rapidly in Asia and Latin America, and has also started to decline in Africa. Demographers had projected that fertility in African countries would decline at a rate similar to what has been observed in Asia and Latin America.

However, while fertility has been declining in Africa over the past decade, it has been doing so at only about one-quarter of the rate at which it did in Asia and Latin America in the 1970s, when they were at a comparable stage of the fertility transition (16). Indeed, in some African countries, the decline seems to have stalled (18).

Bongaarts and Casterline (16) suggest two reasons for the slower fertility decline in Sub-Saharan Africa. First, they note that despite declines in fertility desires in Africa, the most recent levels of ideal family size are still high, with a median of 4.6 children per woman. This is in line with prevailing family norms (19), and the fact that total fertility before fertility started to decline was higher in Africa (6.5) than in the other regions (5.8) (20, 21). Second, the unmet need for contraception (the difference between the demand for contraception and its use) has remained substantial at about 25%, with no systematic decline over the past 20 years (22).

A stall in the decline in the past decade is apparent from the past and projected levels of TFR for Nigeria, the most populous country in Africa (Fig. 2A). The UN’s projection continues to project a decline, but the uncertainty bands are wide, indicating that the stall could continue for a considerable time. This continued high fertility for total population: would result in a projected increase of more than five-fold by 2100, from the current 160 to 914 million (Fig. 2B). There is considerable uncertainty about this, but there is still a 90% probability that Nigeria’s population in 2100 will exceed 532 million, a more than three-fold increase.

We also indicate the likely level of population aging in different countries. One measure of this is the Potential Support Ratio (PSR), equal to the number of people aged 20-64 divided by the number of people 65 and over (Fig. 3). This can be viewed very roughly as reflecting the number of workers per retiree. Currently, the country with the lowest PSR is Japan, with 2.6.

Germany’s PSR is currently 2.9, and is projected to decline rapidly at first, to about 1.7 in 2035, and then to 1.4 by the end of the century. While there is uncertainty about the level at the end of the century, with an 80% prediction interval of 1.1 to 1.7, it is likely that the German PSR will be well below the current Japanese one. The USA’s current PSR is 4.6, and this is projected to decline to 1.9 by 2100 (80% prediction interval 1.6–2.2).

While the population aging issues of developed countries have been widely discussed (23), the likely patterns in developing populations that currently have young populations are less well known. China’s PSR is projected to decline to 1.8 (80% prediction interval 1.4–2.3), from the current high level of 7.8. Brazil’s PSR is currently 8.6 and is projected to decline to 1.5 (1.0–2.0), which is well below the current Japanese level. India has a PSR of 10.9, but this is projected to decline to 2.3 (1.5–3.2) by the end of the century. The only country in Fig. 3 that is projected to have a PSR above 3 by the end of the century is Nigeria, whose PSR is currently at the high level of 15.8 and is projected to decline to 5.4 (3.4–7.8).

These results suggest some important policy implications. Rapid population growth in high-fertility countries can create a range of challenges: environmental (depletion of natural resources, pollution), economic (unemployment, low wages, poverty), health (high maternal and child mortality), governmental (lagging investments in health, education and infrastructure), and social (rising unrest and crime) (24).

Among the most robust empirical findings in the literature on fertility transitions are that higher contraceptive use and higher female education are associated with faster fertility decline (25). These suggest that the projected rapid population growth could be moderated by greater investments in family planning programs to satisfy the unmet need for contraception (26, 27), and in girls’ education. It should be noted, however, that the UN projections are based on an implicit assumption of a continuation of existing policies, but an intensification of current investments would be required for faster changes to occur. It should also be noted that the projections do not take into account potential negative feedback from the environmental consequences of rapid population growth. The addition of several billion people in Africa could lead to severe resource shortages which in turn could affect population size through unexpected mortality, migration or fertility effects.

The implications are not all negative, however. Rapid fertility decline brings with it the prospect of a potential long-lasting demographic dividend in countries that currently have high fertility, such as Nigeria; see Fig. 3. Figure 3 also suggests that developing countries with young populations but lower fertility (e.g., China, Brazil and India) are likely to face the problems of aging societies before the end of the century. This suggests that they need to invest some of the benefits from their demographic dividends in coming decades in provision for future seniors, such as social security, pension and senior health care funds.

References and Notes

1. W. Lutz, S. K C, Dimensions of global population projections: What do we know about future population trends and structures? Philos. Trans. R. Soc. London Ser. B 365, 2779–2791 (2010). doi:10.1098/rstb.2010.0133 pmid:20713384

2. United Nations, World Population Prospects: The 2012 Revision (Population Division, Dept. of Economic and Social Affairs, United Nations, New York, 2013).

3. UNAIDS, Global Report: UNAIDS Report on the Global AIDS Epidemic 2013 (UNAIDS, Geneva, Switzerland, 2013).

4. R. D. Lee, S. Tuljapurkar, Stochastic population forecasts for the United States: Beyond high, medium, and low. J. Am. Stat. Assoc. 89, 1175–1189 (1994). doi:10.1080/01621459.1994.10476857

5. National Research Council, Beyond Six Billion: Forecasting the World’s Population (National Academy Press, Washington, DC, 2000).

6. L. Alkema, A. E. Raftery, P. Gerland, S. J. Clark, F. Pelletier, T. Buettner, G. K. Heilig, Probabilistic projections of the total fertility rate for all countries. Demography 48, 815–839 (2011). doi:10.1007/s13524-011-0040-5 pmid:21748544

7. A. E. Raftery, L. Alkema, P. Gerland, Bayesian population projections for the United Nations. Stat. Sci. 29, 58–68 (2014). doi:10.1214/13-STS419

8. B. K. Fosdick, A. E. Raftery, Regional probabilistic fertility forecasting by modeling between-country correlations. Demogr. Res. 30, 1011–1034 (2014). doi:10.4054/DemRes.2014.30.35

9. A. E. Raftery, J. L. Chunn, P. Gerland, H. Sevčíková, Bayesian probabilistic projections of life expectancy for all countries. Demography 50, 777–801 (2013). doi:10.1007/s13524-012-0193-x pmid:23494599

10. A. E. Raftery, N. Lalic, P. Gerland, N. Li, G. Heilig, Joint probabilistic projection of female and male life expectancy. Demogr. Res. 30, 795–822 (2014). doi:10.4054/DemRes.2014.30.27

11. J. Oeppen, J. W. Vaupel, Broken limits to life expectancy. Science 296, 1029–1031 (2002). doi:10.1126/science.1069675 pmid:12004104

12. J. R. Wilmoth, L. J. Deegan, H. Lundström, S. Horiuchi, Increase of maximum life-span in Sweden, 1861–1999. Science 289, 2366–2368 (2000). doi:10.1126/science.289.5488.2366 pmid:11009426

13. A. E. Raftery, N. Li, H. Ševčíková, P. Gerland, G. K. Heilig, Bayesian probabilistic population projections for all countries. Proc. Natl. Acad. Sci. U.S.A. 109, 13915–13921 (2012). doi:10.1073/pnas.1211452109 pmid:22908249

14. W. Lutz, W. Sanderson, S. Scherbov, The end of world population growth. Nature 412, 543–545 (2001). doi:10.1038/35087589 pmid:11484054

15. W. Lutz, W. Sanderson, S. Scherbov, Doubling of world population unlikely. Nature 387, 803–805 (1997). doi:10.1038/42935 pmid:9194559

16. J. Bongaarts, J. Casterline, Fertility transition: Is sub-Saharan Africa different? Popul. Dev. Rev. 38 (suppl. 1), 153–168 (2013). doi:10.1111/j.1728-4457.2013.00557.x pmid:24812439

17. K. Andreev, V. Kantorová, J. Bongaarts, Technical Paper No. 2013/3: Demographic Components of Future Population Growth (Population Division, Dept. of Economic and Social Affairs, United Nations, New York, 2013).

18. United Nations, Population Facts No. 2013/10, December 2013 – Explaining Differences in the Projected Populations Between the 2012 and 2010 Revisions of World Population Prospects: The Role of Fertility in Africa (Population Division, Dept. of Economic and Social Affairs, United Nations, New York, 2013).

19. T. A. Moultrie, I. M. Timaeus, Rethinking African fertility: The state in, and of, the future sub-Saharan African fertility decline, paper presented at the Annual Meeting of the Population Association of America (2014);

20. J. C. Caldwell, P. Caldwell, The cultural context of high fertility in sub-Saharan Africa. Popul. Dev. Rev. 13, 409 (1987). doi:10.2307/1973133

21. J. C. Caldwell, P. Caldwell, Is the Asian family planning program model suited to Africa? Stud. Fam. Plann. 19, 19–28 (1988). doi:10.2307/1966736 pmid:3284023

22. United Nations, Model-Based Estimates and Projections of Family Planning Indicators: 2013 Revision (Population Division, Dept. of Economic and Social Affairs, United Nations, New York, 2014).

23. National Research Council, Aging and the Macroeconomy (National Academy Press, Washington, DC, 2012).

24. J. Bongaarts, Demographic trends and implications for development, IUSSP 2013 Meeting, Busan (2013);

25. C. Hirschman, Why fertility changes. Annu. Rev. Sociol. 20, 203–233 (1994). doi:10.1146/annurev.so.20.080194.001223 pmid:12318868

26. London Summit on Family Planning, Technical note: Data sources and methodology for developing the 2012 baseline, 2020 objective, impacts and costings (2012).

27. H. B. Peterson, G. L. Darmstadt, J. Bongaarts, Meeting the unmet need for family planning: Now is the time. Lancet 381, 1696–1699 (2013). doi:10.1016/S0140-6736(13)60999-X pmid:23683620

28. Acknowledgments: We thank all the team involved in the production of the 2012 Revision of the World Population Prospects, and in particular K. Andreev and F. Pelletier. We also thank two anonymous reviewers for helpful comments. Supported by NIH grants R01 HD054511 and R01 HD070936. Raftery’s research was also supported by a Science Foundation Ireland ETS Walton visitor award, grant reference 11/W.1/I2079. Views expressed in this article are those of the authors and do not necessarily reflect those of NIH or the United Nations.

Para detalhes das referências e notas, consulte o artigo original.

Patrick Gerland1,*,†, Adrian E. Raftery2,*,†, Hana Ševčíková3, Nan Li1, Danan Gu1, Thomas Spoorenberg1, Leontine Alkema4, Bailey K. Fosdick5, Jennifer Chunn6, Nevena Lalic7, Guiomar Bay8, Thomas Buettner9,‡, Gerhard K. Heilig9,‡, John Wilmoth1 – Author Affiliations
1Population Division, Department of Economic and Social Affairs, United Nations, New York, NY 10017, USA.
2Departments of Statistics and Sociology, University of Washington, Seattle, WA 98195–4322, USA.
3Center for Statistics and the Social Sciences, University of Washington, Seattle, WA 98195–4320, USA.
4Department of Statistics and Applied Probability and Saw Swee Hock School of Public Health, National University of Singapore, Singapore 117546.
5Department of Statistics, Colorado State University, Fort Collins, CO 80523–1877, USA.
6James Cook University Singapore, 600 Upper Thomson Road, Singapore 574421.
7Institutional Research, University of Washington, Seattle, WA 98195–9445, USA.
8Latin American and Caribbean Demographic Center (CELADE), Population Division of the United Nations ECLAC, Santiago, Chile.
9Population Division, United Nations, New York, NY, USA.
†Corresponding author. E-mail: gerland@un.org (P.G.); raftery@u.washington.edu (A.E.R.)
* These authors contributed equally to this work.
‡ Retired.
Science 18 Sep 2014: pp. DOI: 10.1126/science.1257469

Fonte – Science Magazine