Cadastro ambiental não evitou desmate nem restaurou florestas

Propriedades rurais em módulo de consulta pública do CAR (Foto: reprodução)

Estudo feito em propriedades rurais do Pará e de Mato Grosso mostra que apenas 6% dos fazendeiros registrados no CAR adotaram ações de recuperação de corte ilegal, e 76% disseram que só o farão se forem coagidos

O Cadastro Ambiental Rural, instituído para monitorar a preservação e a recuperação de florestas em propriedades privadas, acaba de ganhar um lugar de destaque no rol das boas intenções que pavimentam o caminho do inferno. Um estudo publicado nesta segunda-feira (03) mostra que o CAR até aqui falhou em ambos os objetivos: o desmatamento ilegal nas fazendas não caiu após sua adoção e apenas 6% dos proprietários estão adotando alguma ação de restauro.

Um grupo de pesquisadores do Ipam (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) e da Universidade Federal de Minas Gerais avaliou o efeito do cadastro entre 2008 e 2013 em mais de 49 mil propriedades de Mato Grosso e Pará, Estados que primeiro implementaram o CAR e que também lideram o ranking de desmatamento no país.

A análise sugere que a adesão inicial foi alta, mas que, uma vez no sistema, os fazendeiros não encontraram incentivos para restaurar as florestas desmatadas ilegalmente em suas áreas. Pior ainda, não se sentiram coibidos em continuar desmatando.

Os resultados, publicados no periódico PNAS, da Academia Nacional de Ciências do EUA, contradizem o discurso do governo ao vender a reforma do Código Florestal, em 2012, como uma vitória para o meio ambiente.

A mudança na lei anistiou desmatamentos ilegais praticados até 2008 e reduziu áreas de preservação permanente, como encostas e margens de rio, além de cortar pela metade a exigência de recuperação de reservas legais ao permitir o plantio de espécies exóticas para esse fim.

Na época, o governo afirmou que, mesmo com as mudanças, o código representaria ganho ambiental, ao estender o CAR – inventado no final dos anos 1990 em Mato Grosso – a todos os Estados. O Brasil ganharia, com isso, “o maior programa de recuperação de florestas do mundo”.

Pelo cadastro, cada fazendeiro declara quanto tem de vegetação nativa em sua propriedade e onde ela está. Usando imagens de satélite, o governo conseguiria saber, fazenda por fazenda, qual era o tamanho do passivo ambiental a recuperar e acompanhar ano a ano a evolução de cada área. Desmatamento ilegal seria flagrado pela tela do computador e o malfeitor, autuado remotamente.

A experiência pioneira de Mato Grosso e do Pará mostra que, na prática, a teoria foi outra. Nesses Estados, o CAR é exigido desde 2008 como condição para a obtenção de crédito rural nos municípios campeões de desmatamento. Após uma adesão inicial maciça, porém, os proprietários relaxaram, vendo que as multas não chegavam e os incentivos econômicos para manter as florestas em pé não avançavam.

Nas pequenas propriedades, o desmatamento caiu no primeiro ano, mas ao final do terceiro não havia diferença significativa nas taxas de derrubada em fazendas dentro e fora do cadastro. Nas grandes propriedades, o CAR não teve nenhum efeito discernível sobre o desmatamento, que cresceu ou caiu no período analisado por outras razões.

Os pesquisadores, liderados por Andréa Azevedo, então no Ipam, e Raoni Rajão, da UFMG, também entrevistaram quase uma centena de proprietários rurais em 20 municípios. Destes, 6% disseram estar adotando alguma ação de recuperação em suas áreas, 18% disseram que não adotavam nem pretendiam fazê-lo e 76% responderam que só se mexeriam caso o mercado exigisse ou o governo multasse.

A atitude dos fazendeiros era plenamente lógica. “Os proprietários perceberam que não entrar no CAR tinha um custo elevado, por causa do acesso ao crédito. Entrar e não fazer nada era o melhor cenário”, disse Azevedo ao OC.

“O porrete é pequeno e a cenoura é pequena”, resumiu Rajão. O problema, segundo ele, é que hoje não existe nenhum benefício em estar regular: uma vez cadastrado, o fazendeiro acessa crédito e pode fazer o que bem entender em sua área, apostando na impunidade. “O custo de oportunidade de não desmatar era muito alto e o risco de multa era baixo”, prosseguiu o pesquisador.

Um dos problemas, segundo a dupla, foi a hesitação inicial dos governos estaduais em multar cadastrados que delinquiam. Mesmo sabendo dos malfeitos, as autuações não eram enviadas para não desestimular a adesão ao CAR.

“A utilidade do CAR no combate ao desmatamento dependia muito da atitude dos secretários estaduais de meio ambiente”, afirmou Azevedo.

Efeito Orloff

Nenhum dos dois se disse surpreso com os resultados. Em 2012, a dupla publicou, juntamente com Marcelo Stábile, também do Ipam, uma avaliação de oito anos do SLAPR, o sistema de cadastro rural de Mato Grosso que deu origem ao CAR. Eles descobriram que, após o terceiro ano de implementação, o desmatamento nas propriedades cadastradas era sistematicamente maior do que nas não cadastradas. Isso porque os proprietários usavam o SLAPR para obter licença ambiental de suas fazendas e, uma vez com o papel na mão, botavam tudo abaixo sem serem incomodados.

“A elite rural percebeu o sistema e o subverteu”, disse o cientista mineiro.

Para evitar que o CAR tenha o mesmo destino que seu precursor, o grupo diz que tanto o governo quanto o setor privado terão de mudar.

O governo precisa fazer o que disse que faria desde o início: usar o cadastro para expor os malfeitores publicamente – há enorme resistência à transparência do CAR por parte de entidades do setor rural, que já pediram a cabeça do ministro Sarney Filho (Meio Ambiente) quando ele abriu a base de dados do cadastro, o SICAR, em 2016 – e mandar as multas pelo correio. Também ajuda a sensação de impunidade as sucessivas prorrogações do início da vigência do cadastro para efeito de crédito (exceto nos municípios críticos da Amazônia, onde isso já é praxe) e conversão de multas.

O setor privado, por outro lado, precisa incorporar o CAR à lista de exigências das cadeias de suprimento de produtos como soja e carne, que já têm algum tipo de controle hoje. “Algumas dessas cadeias são livres de desmatamento, mas não livres de ilegalidade”, disse Rajão.

“O CAR tem potencial, mas precisa ter um direcionamento político”, afirmou Andréa Azevedo. “O Código Florestal é o ambiente em que o setor produtivo deveria se ancorar, principalmente agora, num momento de fragilidade do setor após as denúncias em relação à carne.”

Controle remoto

Responsável pela base de dados nacional do CAR, o diretor do Serviço Florestal Brasileiro, Raimundo Deusdará Filho, diz que o estudo se refere a coisas que aconteceram até 2012, antes do lançamento do sistema nacional, o SICAR, em 2014. “De lá para cá muita coisa mudou.”

Ele admitiu que o governo tirou o dedo do gatilho e evitou multar os fazendeiros durante a fase de inserção dos proprietários no sistema – hoje o SICAR já tem 4,1 milhões de propriedades e mais de 400 milhões de hectares cadastrados. Também não há um monitoramento sistemático de quem está recuperando ou deixando de recuperar florestas, nem de quem desmatou ilegalmente após entrar no sistema.

Mas disse que o Ibama já começou a usar o CAR para mandar multas pelo correio, numa operação chamada Controle Remoto, que teria ocorrido de forma experimental em Mato Grosso e será ampliada para outros Estados.

É preciso entender, no entanto, ele afirma, que o CAR acontece nos Estados e, em última análise, são eles os responsáveis por punir os infratores. “Quem detém o chicote são os Estados”, disse Deusdará, e “os Estados não fizeram o dever de casa nos programas de regularização ambiental”.

Mesmo assim, prossegue, hoje o sistema está mais preciso e permite melhor verificação remota. “O Pará, por exemplo, já cancelou mais de 3 milhões de hectares de cadastros com sobreposição [com terras indígenas, áreas protegidas ou outras propriedades].”

* Atualizado às 20h17 com declarações do diretor do SFB.

Fonte – Claudio Angelo, Observatório do Clima de 03 de julho de 2017

Brasil destrói 128 campos de futebol de floresta por hora

Operação de fiscalização em Rondônia: exploração ilegal de madeira na Floresta Nacional do Jamari, área protegida pela UniãoFiscalização em Rondônia: exploração ilegal de madeira na Floresta Nacional do Jamari (Henrique Donadio/Revista EXAME)

A reportagem de EXAME percorreu a Amazônia e constatou que o aumento no desmatamento é um retrato do Brasil que deu errado

Escondidos no meio da floresta amazônica, nove agentes de fiscalização do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais (Ibama) aguardam o momento certo para uma emboscada. É noite, e quem garante a segurança do grupo na escuridão da mata são dez policiais que levam a tiracolo fuzis do tipo 762. O objetivo é pegar em flagrante pessoas que exploram ilegalmente a madeira da região. Ainda sob a luz do dia, as provas do crime já haviam sido encontradas: um caminhão carregado de madeira de lei e um trator deixados às pressas para trás quando os criminosos perceberam a presença dos fiscais federais — que chegaram de helicóptero à área de difícil acesso por terra.

Depois de o grupo caminhar sem sucesso por mais de 4 horas na floresta à procura desses madeireiros, a estratégia foi esperar que a carga do caminhão — cinco toras de angelim, árvore utilizada na confecção de móveis e na construção civil — motivasse a volta dos infratores durante a noite. O raciocínio foi certeiro. Na madrugada do dia 29 de abril, três homens tentaram mover o caminhão de um atoleiro no meio da floresta.

O ronco do motor foi o sinal para os fiscais, acampados a 2 quilômetros dali, correrem até o local. A perseguição, porém, durou pouco. A bordo de uma moto e a pé, os madeireiros conseguiram novamente fugir. Antes, porém, sabotaram o caminhão e o trator para impedir sua retirada do local. Alguns dos fiscais tentaram durante horas ligar os veículos, mas não houve jeito. Diante dessa situação, os agentes do Ibama viram-se obrigados a seguir um ritual: em clima de catarse coletiva, incendiaram o caminhão e o trator para impedir a ação — pelo menos por um período — das quadrilhas de extração ilegal de madeira que vêm atuando em regiões virgens da Amazônia. As toras também viraram cinzas.

O episódio, acompanhado por EXAME durante uma operação de fiscalização, ocorreu na Floresta Nacional do Jamari, uma área no norte do estado de Rondônia cujos 220.000 hectares deveriam estar intocados ou sendo explorados de maneira sustentável. Explica-se: nessa mesma floresta fica a operação da empresa brasileira Amata. Ela ganhou do governo, em 2008, o direito de, numa área de 46.000 hectares, explorar a madeira seguindo à risca regras para quantidade e idade das árvores que podem ser derrubadas, de modo a favorecer a regeneração da floresta e sua perpetuidade.

Mas fazer valer o binômio exploração-conservação não está fácil. Isso porque, entre outras razões, a área da Floresta Jamari sob concessão da Amata também está sendo alvo de ataques dos madeireiros ilegais. “Como não temos poder de polícia, relatamos os roubos aos órgãos competentes e esperamos que façam algo”, diz Patrick Reydams, gerente de operações da Amata em Rondônia.

O Ibama está tentando controlar a situação, mas a tarefa tem se provado inglória. A Floresta Jamari não é um caso isolado. Hoje, 12% do desmatamento registrado na Amazônia ocorrem em áreas protegidas — fatia que dobrou desde 2008. Na terra indígena dos caxararis, às margens da BR-364, também em Rondônia, as clareiras de devastação em meio à mata fechada impressionam. Em pouco mais de 4 horas de uma difícil incursão em meio à lama deixada pela chuva do dia anterior, as equipes do Ibama apreenderam e queimaram um trator e dois caminhões carregados de madeira da área. “As árvores de valor comercial do entorno estão praticamente extintas. É aí que as áreas protegidas se tornam alvo”, afirma o coordenador da operação acompanhada por EXAME, cujo nome foi omitido na reportagem para sua proteção. Vítimas de ameaças frequentes, os fiscais envolvidos nessas operações tentam preservar a própria identidade.

Os últimos dados do Prodes, sistema do governo que monitora com satélites o desmatamento da Amazônia, mostram que o ritmo de destruição da floresta cresceu cerca de 30% de agosto de 2015 a julho de 2016. Foram quase 8.000 quilômetros quadrados eliminados em um ano — algo como derrubar 128 campos de futebol de floresta por hora, ou uma área equivalente à região metropolitana de São Paulo nesse período. É a maior extensão desmatada desde 2008 na Amazônia Legal. Boa parte do avanço concentrou-se nos estados de Pará, Mato Grosso, Rondônia e Amazonas.

Trata-se de um retrocesso histórico. Em 2004, o Brasil perdeu quase 28 000 quilômetros quadrados de floresta — uma área equivalente à do estado de Alagoas. Dali em diante, até 2014, o ritmo de desmatamento caiu 80%. Em 2015, os satélites voltaram a registrar alta — naquele ano, de 24%. Não foi algo episódico. Em 2016, o incremento de 29% tornou a curva de destruição ascendente. “Tivemos uma redução extraordinária de desmatamento na última década. Mas não podemos mais dizer que o desmatamento da região esteja sob controle”, afirma Adalberto Veríssimo, cofundador e pesquisador sênior do Imazon, instituto de pesquisas sobre a Amazônia.

A região já perdeu quase 20% da cobertura original — o que equivale à superfície de uma França e meia. Estudos apontam que mudanças profundas nos ciclos naturais do bioma, como variação de temperatura e a consequente ameaça à vida animal, podem ocorrer com a perda de 20% a 30% de floresta. Não falta muito para chegarmos lá.

Raízes do problema

A equação por trás dessa retomada não é simples. Para entender o problema, a reportagem de EXAME percorreu 1 418 quilômetros na floresta durante dez dias. E questionou mais de 40 especialistas no tema, entre empresários, políticos, acadêmicos e representantes de ONGs. Um fator preponderante desponta: o enfraquecimento das políticas públicas de comando e controle. Em outras palavras, faltou fiscalização e intimidação ao crime.

O Ibama perdeu 30% do orçamento de 2015 para 2016 e, desde então, vem fazendo malabarismos para diminuir o impacto desse aperto nas operações de campo. “Uma motosserra é capaz de desmatar quase 3 hectares de floresta por dia. Imagine o estrago que grupos inteiros de madeireiros ilegais conseguem fazer ao menor sinal de ausência de fiscalização”, afirma Luciano Evaristo, diretor de proteção ambiental do Ibama.

Em setembro do ano passado não houve um agente sequer em campo. Uma saída encontrada para contornar a situação foi apelar, em novembro, para os recursos do Fundo Amazônia. Administrado pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, o fundo capta dinheiro para projetos como pesquisa em universidades e planejamento de assentamentos sustentáveis. Mas acabou tendo de ajudar o Ibama a bancar, até o final deste ano, com 56 milhões de reais, algo básico: o aluguel de carros e helicópteros que monitoram a região.

No dia 22 de junho, uma decisão colocou em xeque a perenidade desses recursos. A Noruega, que já fez aportes no valor de 2,8 bilhões de reais no fundo, anunciou que vai cortar pela metade o montante repassado ao Brasil neste ano. Cerca de 200 milhões de reais foram suspensos. A razão: a incapacidade, pelo menos até agora, de o país conter o desmatamento. Hoje, 960 fiscais estão em campo no país, 351 a menos em relação a 2010. O Ibama pediu ao Ministério do Planejamento a criação de 1 500 vagas. Desde 2012, não há novos concursos para a autarquia.

A fiscalização também compete aos estados. Nesse caso, a situação — agravada pela crise — não é melhor. De acordo com a Associação Brasileira de Entidades Estaduais do Meio Ambiente, as secretarias perderam, em média, um terço do orçamento em 2016. Em paralelo, a dinâmica do desmatamento tem se sofisticado. Para enganar os satélites, as quadrilhas preservam as árvores de copas mais altas enquanto derrubam outras espécies. Elas também desmatam pequenos polígonos, e não grandes áreas de uma vez só. É o chamado desmatamento multiponto.

As quadrilhas passaram a desmatar também durante o período chuvoso, quando a dificuldade de se deslocar na floresta é compensada pelas nuvens que prejudicam a detecção pelos satélites. As artimanhas passam até mesmo por contratar profissionais de geoprocessamento. Eles não só monitoram as queimadas para estabelecer pastos após a extração da madeira como também criam registros falsos de áreas invadidas para lhes conferir legalidade.

Um esquema desse tipo foi desmantelado no ano passado pela Operação Rios Voadores, que uniu Ibama, Ministério Público Federal, Polícia Federal e Receita Federal. Na operação, o empresário paulista Antônio Junqueira Vilela Filho e outras 24 pessoas foram denunciados, acusados de movimentar quase 2 bilhões de reais entre 2012 e 2015 com desmatamento ilegal e grilagem de terras públicas para criação de gado no Pará.

Quase 25% do desmatamento da Amazônia ocorre hoje em terras públicas, como as atacadas por Vilela. Nessas áreas, a velocidade de destruição é 60 vezes maior do que a que ocorre dentro de áreas protegidas. Isso porque, apesar de públicas, elas não têm uso definido. Não foram repassadas a produtores nem demarcadas como unidades de conservação ou terras indígenas. Também não são áreas militares nem de pesquisa. Em português claro, são terras de ninguém. Somam cerca de 80 milhões de hectares à mercê de grilagem, ocupações ilegais, degradação ambiental e sangrentos conflitos. É uma extensão equivalente a 20 vezes o estado do Rio de Janeiro — e representa 17% de toda a Amazônia. “Depois de anos de avanços, é um escárnio o que estão fazendo hoje com a Amazônia”, afirma Tasso Azevedo, um dos mais respeitados ambientalistas do país.

Índios na Amazônia: as terras indígenas se tornaram alvo dos madeireiros ilegaisÍndios na Amazônia: as terras indígenas se tornaram alvo dos madeireiros ilegais (Lunae Parracho/Reuters)

A fragilidade da fiscalização, somada à sensação de que é possível driblar as regras, só aumenta os incentivos econômicos para o desmatamento. “A vantagem que alguém tem ao desmatar uma área proibida compensa o risco de sanção”, afirma Jair Schmitt, ex-coordenador-geral de fiscalização do Ibama e há dois meses diretor de políticas de combate ao desmatamento do Ministério do Meio Ambiente. Apenas 30% das multas aplicadas pelo Ibama são, de fato, pagas. Boa parte dos infratores conta com a morosidade da Justiça para escapar do prejuízo. E, em muitos casos, mantêm a posse de bens apreendidos em operação, como motosserras, enquanto corre o processo penal.

Aparentemente vantajosa para quem desmata, essa lógica não favorece a economia local. Ao contrário. Um levantamento feito por instituições dedicadas a estudar a Amazônia, como o Ipam e o Imazon, revela que o PIB agropecuário da região cresce em proporção inversa ao ritmo do desmatamento. Nos anos de 2004 e 2005, quando a taxa de desflorestamento passou dos 27 000 quilômetros quadrados anuais, a riqueza gerada pela agricultura e pela pecuária na região alcançou cerca de 25 bilhões de reais. Já entre 2012 e 2013, quando a área desmatada havia caído vertiginosamente para pouco mais de 4 000 quilômetros quadrados anuais, a produção rural gerou 50 bilhões de reais.

Hoje, os dez municípios campeões do desmatamento — a maioria no Pará, no Amazonas e em Rondônia — estão entre os mais pobres da Amazônia e do Brasil, na rabeira do ranking do desenvolvimento humano das cidades do país. Dados mostram que 60% do desmatamento vira pasto, mas a ocupação dessas terras segue majoritariamente a lógica do esgotamento: uma quantidade pequena de bois para uma ampla extensão de pastagens que, sem manejo, alcançam avançados estágios de degradação em menos de uma década. O resultado: baixa produtividade e um apetite ainda maior pelo desmatamento de novas áreas.

Além disso, a atenção internacional dada a temas relacionados ao desmatamento ilegal elevou o risco de reputação de grandes produtores, principalmente os de carne e soja. “Em pouco tempo, o Brasil será o maior produtor agrícola mundial. Não podemos abrir mão disso jogando pelo ralo a credibilidade de nossos produtos”, diz José Penido, membro da Coalizão Brasil Clima Florestas e Agricultura e presidente do conselho de administração da fabricante de celulose Fibria.

Muitos estudos demonstram a interdependência entre o agronegócio e a floresta. Num dos mais recentes, o professor Paulo Artaxo, do Instituto de Física da Universidade de São Paulo, mostrou que o desmatamento altera o ciclo das chuvas na Amazônia. A análise de Artaxo baseia-se nas mudanças climáticas registradas no estado de Rondônia, que nos últimos 30 anos perdeu quase metade de sua cobertura florestal.

Os dados revelam que a transformação da mata em pastagem faz com que chova menos na superfície desmatada e mais na região de floresta ao lado da área desmatada. No sudeste do estado, a estação seca já se mostrou cerca de 30% mais seca do que a média. No noroeste do estado, o nível de precipitação é 30% maior e não se trata de um problema exclusivamente regional. “Há consenso na comunidade científica de que a Floresta Amazônica tem papel determinante no regime de chuvas no centro-sul do país”, diz Artaxo.

Na contramão dessa espiral negativa, há saídas para manter a floresta em pé. A reportagem de EXAME viu de perto que as mais bem-sucedidas são justamente as que colaboram para a geração de renda local e, potencialmente, criam uma nova economia em torno da preservação da floresta. Para ganhar escala, essas experiências ainda esbarram em obstáculos. Um deles é a herança histórica da pecuária extensiva, há décadas o modo de produção predominante.

Ainda assim, um esforço empreendido em grande parte por ONGs em consórcio com pequenos produtores da região mostra que é possível reverter essa realidade. Com mais bois em menos espaço, pode-se reduzir a derrubada da mata, além de elevar a produtividade. A técnica consiste em dividir o pasto em vários cercados e concentrar o rebanho em um deles por vez, no lugar de deixá-lo livre por toda a propriedade.

Outra tentativa de tornar a preservação mais rentável do que a derrubada predatória de árvores é remunerar quem mantém a floresta. A ideia é pagar pelos benefícios ecossistêmicos que elas trazem, como manutenção do ciclo de chuvas e absorção de carbono pelas árvores. Esse sistema já funciona bem em países como Costa Rica, que começou a pagar produtores para desistir da pecuária extensiva e conservar a floresta. Deu certo. Por aqui, embora o novo Código Florestal, de 2012, mencione esse mecanismo, ainda não há regulamentação nacional para disseminá-lo país afora. Hoje, voluntariamente, alguns estados, como o Pará, já têm programas desse tipo.

Indefinição semelhante paira sobre outro mecanismo que poderia financiar a manutenção de áreas de floresta no país, o REDD+ (da sigla em inglês), ou a redução das emissões de gases de efeito estufa por desmatamento e degradação florestal. Desenvolvido durante as conferências do clima da Organização das Nações Unidas, o conceito propõe a compra de créditos de carbono, seja por governos, seja por empresas, poupados por florestas em regiões sob forte pressão de derrubada. Na ausência de regras que guiem a implementação disso no Brasil, as iniciativas são voluntárias e pontuais. Por aqui, o Acre é o único a estabelecer um programa de REDD+. Pela queda de 75% no desmatamento desde 2004, o estado já recebeu 100 milhões de reais do banco de desenvolvimento alemão, o KFW.

Empresários também estão apostado nessa ideia. Douglas de Souza, presidente do grupo paranaense Triângulo, que fabrica painéis e pisos de madeira para exportação, é um deles. EXAME visitou a área de manejo florestal que abastece a produção do grupo, a Fazenda Manoa, a 50 quilômetros de Cujubim, em Rondônia. Em contraste com os vizinhos, 75 000 hectares de mata estão rodeados por milhares de hectares em processo de desmatamento. Uma análise mostrou que as árvores nativas da área são capazes de reter um volume de carbono equivalente às emissões de gases de efeito estufa de 150 000 carros rodando 20 quilômetros por dia durante 12 meses.

O objetivo agora é transformar essa reserva de carbono em créditos a ser vendidos a empresas com metas de redução de emissões. Ao preço de 10 reais a tonelada, a Manoa poderá arrecadar 1,5 milhão de reais por ano. “Isso poderá ser investido no monitoramento dos limites da fazenda e em educação ambiental para a comunidade”, diz Souza, presidente do Triângulo. A mensuração do potencial da área foi encabeçada pela Biofílica, primeira e maior empresa brasileira especializada no comércio de créditos de carbono nesses moldes.

Na mesma lógica de criar incentivos econômicos à preservação, as concessões florestais têm sido um antídoto, embora embrionário, contra a extração ilegal de madeira no país. Hoje, cerca de 1 milhão de hectares de matas da União na Amazônia estão sob concessão de empresas privadas. Por meio de contratos de manejo, elas podem explorar comercialmente a madeira de florestas públicas. Juntas, em 2016 produziram 170 000 metros cúbicos de madeira. Somado a outros contratos de concessão já assinados, mas ainda sem operação comercial, esse volume representa uma pequena fatia de 5,5% da demanda nacional.

Mas a oferta pode crescer. Outros sete contratos estão em negociação com o governo federal e o objetivo é alcançar quase 7 milhões de hectares de manejo até 2022. Esse volume tornaria as florestas nacionais responsáveis por 30% da madeira comercializada no Brasil. Chegar lá não será fácil. A Amata, em operação há sete anos na Floresta do Jamari, em Rondônia, obteve lucro pela primeira vez no ano passado. Isso só foi possível porque, já há alguns anos, a empresa exporta 98% de sua produção anual para a Europa. Ela desistiu de vender no mercado interno por causa da concorrência desleal dos que exploram madeira ilegalmente.

Estima-se que 80% da madeira comercializada no Brasil seja ilegal — ou “falsamente legal”. Na prática, o produto fornecido ao mercado vem de madeireiras que burlam os sistemas de controle do governo. A 600 quilômetros de Jamari, no Amazonas, está o distrito de Santo Antônio do Matupi, ao qual só é possível chegar por um esburacado trecho de terra batida da Rodovia Transamazônica. Um dos maiores polos madeireiros do estado, até pouco mais de um ano a região concentrava dezenas de madeireiras. Quase 30 foram fechadas pela fiscalização federal. Hoje, apenas três têm aval para funcionar, e todas estão sob investigação.

No dia 5 de maio, os fiscais acompanhados por EXAME encontraram mais de dez toras de madeira com tarjas de identificação raspadas num terreno baldio atrás de uma das serrarias. Os madeireiros costumam saber da presença dos fiscais por meio de uma rede de contatos que monitoram os passos das equipes na Amazônia. Então removem de seus pátios a madeira ilegal, dificultando a associação entre a carga e a serraria.

Para especialistas nesse mercado, a praga da ilegalidade poderia ser extirpada com a transparência. É o que promete uma plataforma de tecnologia lançada em dezembro de 2015 pela BVRio, ONG que desenvolve mecanismos de mercado que facilitam o cumprimento de leis ambientais. O sistema se apoia no cruzamento de um grande volume de dados públicos para avaliar o risco de ilegalidade da madeira da Amazônia. Desde o lançamento, foi usado por centenas de compradores de madeira, no Brasil e no exterior, para triar compras no valor de mais de 1 bilhão de dólares. O uso desse big data poderá melhorar se os governos federal e estaduais tornarem públicos todos os dados de extração, processamento e transporte da madeira no país.

Transparência nas informações também é o nome do jogo para mudar o modus operandi da pecuária na Amazônia, principal vetor de seu desmatamento. Desde 2009, frigoríficos brasileiros são obrigados a se mexer. Sob a mira do Ministério Público e da ONG Greenpeace, muitos deles foram acusados de comprar carne de pecuaristas que desrespeitavam a legislação ambiental. O maior deles, o JBS, hoje imerso num dos maiores escândalos de corrupção do país, desenvolveu um sistema de tecnologia para monitorar 70 000 fornecedores Brasil afora — 40 000 deles na Amazônia.

O JBS passou a cruzar dados dos pecuaristas com informações públicas, como a lista de embargos do Ibama e do Ministério do Trabalho, e a suspender as compras de quem não cumpre a lei. Na época, o Greenpeace elogiou a medida. Recentemente, porém, começou a cobrar mais empenho no monitoramento da cadeia. Afinal, o sistema não consegue rastrear, entre outras coisas, o primeiro elo: as fazendas que vendem novilhos aos produtores que engordam os animais antes de enviá-los aos frigoríficos. No final de março, o JBS e outros 13 frigoríficos foram autuados pelo Ibama na Operação Carne Fria.

Ofuscada pela Operação Carne Fraca, conduzida pela Polícia Federal, a investigação indicou a compra de quase 60 000 cabeças de gado de áreas embargadas. Trata-se de um sinal claro de que os frigoríficos precisam fazer mais. Um dos avanços necessários é considerar na análise dos fornecedores não só o CPF dos donos do gado mas também as imagens das fazendas. Não raro, produtores com áreas embargadas usam pessoas com CPF limpo como laranjas para passar adiante os bois.

Outra exigência do Greenpeace foi que frigoríficos como o JBS se empenhassem em cobrar do governo o acesso a dados como a guia de transporte animal, a GTA, documento sem o qual os pecuaristas não conseguem tirar os animais de suas fazendas. Essa medida permitiria rastrear com mais facilidade a origem do gado.

A atenção internacional só reforça o fato de que o desmatamento da Amazônia não é uma questão local. Durante a Conferência do Clima de Paris, em 2015, o Brasil prometeu diminuir 43% de suas emissões até 2030, prazo estabelecido também para zerar o desmatamento ilegal. O cenário atual, no entanto, coloca em dúvida a capacidade de atingir a meta. O desmatamento em 2016 acrescentou 130 milhões de toneladas de gás carbônico equivalentes às emissões do Brasil. É o dobro da emissão anual de Portugal. “A tolerância ao desmatamento precisa diminuir drasticamente”, afirma Carlos Nobre, um dos maiores climatologistas brasileiros. Para o bem do Brasil — e do planeta.

Fonte – Ana Luíza Herzog, Renata Vieira, Revista Exame de 29 de junho de 2017

“No Brasil, proteção ambiental ainda é vista como custo”

Bildergalerie Amazon Regenwald Rodung (Reuters)Patrulha no Parque Nacional de Jamanxim, no oeste do Pará

Para pesquisador, propostas que alteram limites de floresta e parque no Pará, a serem aprovadas por Temer, ameaçam cumprimento de metas de controle de desmatamento assumidas perante a comunidade internacional.

Nos próximos 15 dias, o presidente Michel Temer terá que decidir se as Medidas Provisórias 756/2016 e 758/2016, ambas aprovadas pelo Congresso, viram lei. Elas alteram os limites da Floresta Nacional de Jamanxim e do Parque Nacional de Jamanxim, no oeste do Pará.

Organizações como o Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) pedem o veto do presidente. Para a entidade, as propostas ameaçam a integridade da floresta e o cumprimento de metas de controle de desmatamento assumidas perante a comunidade internacional.

Segundo o Ipam, a Floresta Nacional do Jamaxim, principal unidade de conservação afetada pela decisão do Congresso, perderá 486 mil hectares. A desafetação dessa área seria uma vitória da grilagem: o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade calcula que 67,7% dos ocupantes entraram pouco antes ou logo após a unidade de conservação ser criada.

“Cortar esse pedaço da reserva para comportá-los é legitimar a ilegalidade ou, melhor dizendo, a grilagem”, critica Paulo Moutinho, pesquisador do Ipam, em entrevista à DW.

DW: Qual a mensagem o governo brasileiro transmite com essas medidas?

Paulo Moutinho: Falta de seriedade quanto aos compromissos assumidos perante aos brasileiros e a comunidade internacional. Um país que, de forma corajosa, assumiu reduções expressivas de emissões nacionais de gases de efeito estufa e, em especial, prometendo acabar com o desmatamento ilegal até 2030, passa agora duas MPs que legalizam a grilagem e que podem resultar em um aumento expressivo do desmatamento nos próximos anos. O Ipam estima que cerca de 160 milhões de toneladas de CO2 serão emitidos por estas MPs até 2030. Algo próximo ao que o país emite em um ano inteiro pelo seu setor industrial.

Áreas protegidas são criadas para cumprirem uma função – conservação da biodiversidade, conter avanço do desmatamento, etc. Na visão do Ipam, o que leva o governo a abolir essas áreas nesse momento?

Podemos adicionar às listas de funções das áreas protegidas aquela de manter o regime de chuvas funcionando. Algo que é fundamental inclusive para o agronegócio. Sem florestas, sem chuvas regulares, não há produtividade no campo. Mas o governo não parece atentar para este e outros benefícios de se manter florestas de pé. Parece ceder ao argumento, falacioso, de que o país precisa de mais áreas de produção agrícola no futuro e que manter florestas conservadas não resulta em crescimento econômico. Eles se esquecem que a região já tem mais de 15 milhões de hectares de áreas abertas e subutilizadas. Áreas que serviriam para expandir a agricultura.

Além disso, florestas protegidas são barreiras ao avanço da infraestrutura e à especulação com terras. Enquanto não houver uma visão mais ampla do que representa para o país e os brasileiros manter um clima saudável e um meio ambiente minimamente integro, continuaremos a ver vida sendo objeto de barganha político e interesses setoriais e não nacionais.

As taxas de desmatamento aumentaram, inclusive na Floresta Atlântica. Vocês acreditam que esse fato se deve a falhas nas políticas de combate ou a uma ação coordenada de quem tenta lucrar com o enfraquecimento da proteção ambiental?

Proteção ambiental, infelizmente é visto ainda como custo para o país e para os chamados setores privados – e não como investimento ou, pelo menos, controle de risco. É o que explica o movimento que quer flexibilizar os procedimentos do licenciamento ambiental. Parte-se do principio de que quanto mais “burocracia” ambiental puder ser removida, melhor. Certamente há muita burocracia, mas há muitas salvaguardas importantes e procedimentos de proteção que precisam ser seguidos. No final do dia, o que se quer é desmantelar o licenciamento ambiental em prol do “progresso”. E de um modo totalmente esquizofrênico.

O próprio Ministério de Meio Ambiente foi, aparentemente, traído em sua proposição de um novo licenciamento, quando os ditos aliados do governo no Congresso mutilaram, sem aviso prévio, a proposta que o ministério vinha construindo com a participação de vários entes.

É temerário, num momento de fragilidade do governo, que várias conquistas da sociedade na proteção ambiental estejam sendo objeto de negociação.

Como as medidas provisórias votadas ameaçam os compromissos assumidos pelo Brasil no Acordo de Paris e outros acordos internacionais?

Não fizemos o cálculo ainda. Mas, os prejuízos serão expressivos. Especialmente porque essas MPs representam um caminho para a legalização futura de desmatamento ilegal. Elas dão o sinal governamental de que a invasão de áreas protegidas pode ser realizada que o poder publico depois vai dar um jeito na situação. É a receita para uma nova onda de grilagem.

Com esse cenário, o Brasil deve perder a relevância nas negociações climáticas que ganhou nos últimos anos?

Está em risco de perder não apenas a relevância, mas a legitimidade conseguida a duras penas nos últimos dez anos. O país demonstrou, por exemplo, que é capaz de ter governança sobre o desmatamento na Amazônia.

A destruição da floresta caiu 80% de 2005 para cá. Foi o país que mais contribuiu com reduções efetivas de emissões. Algo equivalente a todo o ETS europeu, o qual envolveu vários países.

O desmatamento agora aumentou em 30%. As MPs devem dar uma força nesta tendência. Qual a explicação para os brasileiros e para o mundo que o Brasil dará eu ainda não sei, mas será algo bem difícil de engolir.

Dex ações contra as mudanças climáticas

Três quartos dos gases estufa são produzidos pela combustão de carvão, petróleo e gás natural; o resto, pela agricultura e desmatamento. Como se podem evitar gases poluentes? Veja dez dicas que qualquer um pode seguir.

Windräder vor Kraftwerk NeurathUsar menos carvão, petróleo e gás – A maioria dos gases estufa provém das usinas de energia, indústria e transportes. O aquecimento de edifícios é responsável por 6% das emissões globais de gases poluentes. Quem utiliza a energia de forma eficiente e economiza carvão, petróleo e gás também protege o clima.

Mobisol Photovoltaik Technologie in RuandaProduzir a própria energia limpa – Hoje, energia não só vem de usinas termelétricas a carvão, óleo combustível e gás natural. Há alternativas, que atualmente são até mesmo mais econômicas. É possível produzir a própria energia e, muitas vezes, mais do que se consome. Os telhados oferecem bastante espaço para painéis solares, uma tecnologia que já está estabelecida.

Energiekommunen Apoiar boas ideias – Cada vez mais municípios, empresas e cooperativas investem em fontes energéticas renováveis e vendem energia limpa. Este parque solar está situado em Saerbeck, município alemão de 7,2 mil habitantes que produz mais energia do que consome. Na foto, a visita de uma delegação americana à cidade.

Projekt Fossil Free MünsterNão apoiar empresas poluentes – Um número cada vez maior de cidadãos, companhias de seguro, universidades e cidades evita aplicar seu dinheiro em companhias de combustíveis fósseis. Na Alemanha, Münster é a primeira cidade a aderir ao chamado movimento de desinvestimento. Em nível mundial, essa iniciativa abrange dezenas de cidades. Esse movimento global é dinâmico – todos podem participar.

Niederlande Fahrradfahrer in AmsterdamAndar de bicicleta, ônibus e trem – Bicicletas, ônibus e trem economizam bastante CO2. Em comparação com o carro, um ônibus é cinco vezes mais ecológico, e um trem elétrico, até 15 vezes mais. Em Amsterdã, a maior parte da população usa a bicicleta. Por meio de largas ciclovias, a prefeitura da cidade garante o bom funcionamento desse sistema.

Symbolbild Ryanair Flugzeug hebt abMelhor não voar – Viajar de avião é extremamente prejudicial ao clima. Os fatos demonstram o dilema: para atender às metas climáticas, cada habitante do planeta deveria produzir, em média, no máximo 5,9 toneladas de CO2 anualmente. No entanto, uma viagem de ida e volta entre Berlim e Nova York ocasiona, por passageiro, já 6,5 toneladas de CO2.

USA Burger mit einer extra Scheibe FleischComer menos carne – Para o clima, também a agricultura é um problema. No plantio do arroz ou nos estômagos de bois, vacas, cabras e ovelhas é produzido o gás metano, que é muito prejudicial ao clima. A criação de gado e o aumento mundial de consumo de carne são críticos também devido à crescente demanda de soja para ração animal. Esse cultivo ocasiona o desmatamento de florestas tropicais.

Bildergalerie Artenvielfalt DeutschlandComprar alimentos orgânicos – O óxido nitroso é particularmente prejudicial ao clima. Sua contribuição para o efeito estufa global gira em torno de 6%. Ele é produzido em usinas de energia e motores, mas principalmente também através do uso de fertilizantes artificiais no agronegócio. Esse tipo de fertilizante é proibido na agricultura ecológica e, por isso, emite-se menos óxido nitroso, o que ajuda a proteger o clima.

Kolumbianisch-deutsche Schule fürs LebenSustentabilidade na construção e no consumo – Na produção de aço e cimento emite-se muito CO2, em contrapartida, ele é retirado da atmosfera no processo de crescimento das plantas. A escolha consciente de materiais de construção ajuda o clima. O mesmo vale para o consumo em geral. Para uma massagem, não se precisa de combustível fóssil, mas para copos plásticos, que todo dia acabam no lixo, necessita-se uma grande quantidade dele.

Energiekommunen Assumir responsabilidades – Como evitar gases estufa, para que, em todo mundo, as crianças e os filhos que elas virão a ter possam viver bem sem uma catástrofe do clima? Esses estudantes estão fascinados com a energia mais limpa e veem uma chance para o seu futuro. Todos podem ajudar para que isso possa acontecer.

Fonte – Nádia Pontes, DW de 31 de maio de 2017

Mapeamento revela que impacto da moratória da soja na redução de desflorestamentos é maior do que se estimava

Mapeamento revela que impacto da moratória da soja na redução de desflorestamentos é maior do que se estimava

Mapeamento realizado pela Universidade de Kansas, nos Estados Unidos, em parceria com a Embrapa, comprova que a moratória da soja teve contribuição decisiva na redução do desflorestamento no Estado de Mato Grosso. Pesquisas com dados mapeados de 2001 a 2014 mostraram que houve uma queda de 2,4 vezes no cultivo da cultura em áreas recém-desflorestadas. A ocupação média caiu de 9,4% para 3,9% num período analisado de cinco anos antes e depois da moratória.

Os dados são apresentados no artigo Soy moratorium impacts on soybean and deforestation dynamics in Mato Grosso, Brazil (Impactos da moratória da soja sobre a dinâmica da soja e do desmatamento em Mato Grosso, Brasil), publicado no periódico Plos One, no fim de abril. A autoria é dos pesquisadores da Universidade de Kansas Jude H. Kastens, J. Christopher Brown e Christopher R. Bishop, em parceria com Alexandre Camargo Coutinho e Júlio César Dalla Mora Esquerdo, da Embrapa Informática Agropecuária.

“Com base em nossa análise, encontramos um declínio muito mais forte do desmatamento coincidente com a moratória da soja do que outros estudos relataram”, disse Kastens ao boletim KU Today, da Universidade de Kansas. “A moratória da soja tem sido subestimada em algumas pesquisas como um fator na redução do desmatamento. Nossa análise do mesmo conjunto de dados de desmatamento usado por outros estudos revelou que um grande declínio no desmatamento ocorreu imediatamente após a moratória entrar em vigor. O desmatamento ainda está acontecendo, mas desacelerou, e menos desta área está sendo usada para a produção de soja”, ressaltou o pesquisador.

As análises mostram que o desmatamento histórico ocorrido em Mato Grosso foi reduzido em cinco vezes após a moratória. A pesquisa avaliou a dinâmica da atividade produtiva na região de 2001 a 2014 e com os mapas gerados permitiu identificar onde ocorreu a intensificação da agricultura. “Está se produzindo mais, mesmo sem grandes ganhos de área plantada. Os trabalhos intensivos em coleta de dados de campo, assim como os mapeamentos produzidos, demonstram esse fato numérica e espacialmente”, explica o pesquisador Júlio Esquerdo.

De acordo com o Projeto de Monitoramento do Desmatamento na Amazônia Legal por Satélite (Prodes), do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), entre 2001 e 2006, a taxa média anual de desflorestamento do estado foi de 1.028.779 hectares ao ano. Com o estabelecimento da moratória em 2006, restringindo a comercialização da soja a áreas não desflorestadas, esse número passou para 180.694 hectares por ano. Segundo o artigo, no período analisado de cinco anos antes da moratória, cerca de 14% das áreas desmatadas eram ocupadas por soja. Após a proibição, o índice caiu para 5,6%.

O estudo mapeou a agricultura anual no estado, composta principalmente por soja, milho e algodão, com base em imagens de satélite e técnicas de sensoriamento remoto. Além dos dados de campo coletados em cerca de três mil pontos amostrais, em várias viagens feita pela equipe, dados de soja e algodão foram comparados com os divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

“Pela primeira vez, esse tipo de análise foi promovida com mapeamentos específicos da cultura da soja e os resultados mostraram um impacto maior da moratória da soja na redução dos desflorestamentos, em comparação a estudos anteriores”, conta o pesquisador Alexandre Coutinho. Ele ainda destaca a grande repercussão que o trabalho obteve em canais de divulgação no exterior, especialmente por causa do compartilhamento das informações. Tanto os mapas quanto os dados citados no artigo científico estão disponíveis na internet com o intuito de contribuir para o trabalho de gestores e formuladores de políticas públicas no País.

Intensificação agropecuária

Com o amplo mapeamento no estado de Mato Grosso, a equipe identificou que, especialmente após a moratória da soja, houve uma forte intensificação agrícola na região, ou seja, os produtores passaram a produzir mais graças à adoção de tecnologia. A produção de algodão, milho e soja, que era de 12,8 milhões de toneladas em 2001, passou para 46,9 milhões em 2014, de acordo com o IBGE.

Entretanto, esse incremento na produção não ampliou as áreas plantadas na mesma proporção. O que houve foi uma alteração na dinâmica agrícola, com mais plantios sendo feitos em sistema de safra-safrinha, ou seja, com duas culturas produzidas no mesmo ano-safra. Para se ter uma ideia dessa mudança, em 2001 havia 3.289 quilômetros quadrados (km2) com plantio de soja na safra sucedida por plantios de safrinha, como milho, algodão e sorgo. Já em 2014, esse número passou para 43.843 km2, o que representou um aumento de 13 vezes. O algodão foi uma das culturas com maior expansão de área plantada durante a safrinha após a soja, passando de 110 km2 em 2001 para 5.383 km2 em 2014, enquanto o plantio de algodão durante a safra principal reduziu-se de 3.013 km2 para 466 km2 no mesmo período.

Outro aspecto que merece destaque é o desenvolvimento de cultivares de soja de ciclo mais curto como uma das medidas de controle da ferrugem-asiática, doença causada pelo fungo Phakopsora pachyrhizie, identificada pela primeira vez no Brasil em 2001 e que provocou grandes estragos na agricultura brasileira. “As variedades de soja precoces possibilitaram sua integração com a cultura do algodão em um mesmo ano-safra. São commodities agrícolas importantes e extremamente tecnificadas, que tiveram grande aumento de produtividade no estado”, declara Alexandre Coutinho.

A expansão das áreas dessas culturas não ocorreu de forma significativa em áreas florestais. Contudo, há indícios de que o plantio de soja esteja migrando para outros locais, com impacto em outros biomas, como é o caso da região do Matopiba, área abrangente de parte dos estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia e nova fronteira agrícola no bioma Cerrado, na qual a agricultura é baseada em tecnologias modernas de alta produtividade. Por isso, os pesquisadores alertam que é preciso estabelecer mecanismos mais avançados para o monitoramento agrícola, incluindo a rastreabilidade de grãos, além da implantação de novas ações de controle que ajudem na produção sustentável.

A identificação de processos de expansão ou intensificação agrícola é o principal objetivo do convênio de cooperação técnica que a Embrapa possui com a Universidade de Kansas há quase dez anos. Como resultados desse acordo, as equipes desenvolveram várias metodologias de coleta de dados em campo para o mapeamento de culturas agrícolas, a partir de diversos projetos de pesquisa, como o TerraClass Amazônia, o Mapagri (Metodologia de mapeamento da atividade agrícola no Brasil) e o Intagro (Intensificação agropecuária e commodities agrícolas no Brasil: territorialidade, sustentabilidade e competitividade).

Moratória

A moratória da soja é um compromisso criado em 2006 entre representantes da indústria, sociedade civil e o governo brasileiro. Esse instrumento proíbe o comércio, a aquisição e o financiamento de grãos produzidos em áreas desmatadas de maneira ilegal no bioma Amazônia, além de áreas embargadas pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e em propriedades que constem em lista de trabalho análogo ao escravo do Ministério do Trabalho e Previdência Social. Pela moratória, a Associação Brasileira das Indústrias dos Óleos Vegetais (Abiove) e a Associação Brasileira dos Exportadores de Cereais (Anec), que compram grãos no Brasil, se comprometem a não investir em produtores de soja que usam área da Floresta Amazônica da Amazônia Legal.

Leia o artigo completo:
Jude H. Kastens et al. Soy moratorium impacts on soybean and deforestation dynamics in Mato Grosso, Brazil, PLOS ONE (2017).

Nadir Rodrigues (MTb 26.948/SP) – Embrapa Informática Agropecuária
Colaboração: Giovanna Abbá – Embrapa Informática Agropecuária

Fonte – EcoDebate de  01 de junho de 2017

Que países perderam e ganharam mais árvores desde 1990?

Embora existam 3 biliões de árvores no mundo, nos últimos 25 anos, o planeta perdeu 1,3 milhões de quilómetros quadrados de floresta.

E mbora existam 3 biliões de árvores no mundo, nos últimos 25 anos o planeta perdeu 1,3 milhões de quilómetros quadrados de floresta – uma área maior do que a África do Sul e o equivalente a 1000 campos de futebol por hora –, segundo dados do Banco Mundial.

Onde se perderam e ganharam florestas desde 1990?

Portugal foi um dos poucos países a contrariar a tendência de crescimento da Europa. Desde 1990, o país perdeu 7,4% da sua área florestal, passando de 34 360 km2 para 31 820 km2.

Aqui ao lado, a Espanha ganhou 33% de área florestal, o que a torna o 3ª país com o maior aumento percentual da Europa. Em segundo lugar encontra-se a Irlanda, com um crescimento de 62%, embora a sua área florestal não chegue aos 8000 km2. A Islândia ocupa o primeiro lugar, tendo duplicado a sua superfície verde, a qual, no entanto, só representa 0,5% do seu território.

A Finlândia é o país europeu com a maior percentagem do seu território ocupada por florestas, 83%, sendo a maioria destas sustentáveis.

1º e 2º mapa: Banco Mundial

A Rússia, o Brasil e o Canadá são os países com a maior área florestal do mundo, o que não é surpreendente dado o seu tamanho. Juntamente com os Estados Unidos, a China, o Congo, a Austrália, a Indonésia, o Peru e a Índia, estes países partilham dois terços das florestas do mundo.

“As florestas são fundamentais para se combater a pobreza rural, garantir a segurança alimentar e proporcionar às pessoas meios de subsistência”, disse o diretor-geral da FAO, José Graziano da Silva, salientando o contributo das florestas para a conservação da biodiversidade e para a qualidade do ar e da água.

Excluindo os países que não têm florestas (San Marino, Qatar, Gronelândia, Omã e Nauru), os 10 menos verdes são:

A América Latina e as Caraíbas, que possuem cerca de um quarto das florestas do mundo, viram a maior redução total de superfície florestal – 970 mil quilómetros quadrados – entre 1990 e 2015. São seguidas pela África subsaariana, que perdeu 830 mil quilómetros quadrados de área florestal.

Entre os países mais devastados estão o Togo (-73%), o Uganda (-56%) e a Nigéria (-59%), para além das Honduras (-44%), o Paquistão (-42%), a Coreia do Norte (-39%), o Nicarágua (-31%) e El Salvador (-30%).

O Brasil perde 2,5 milhões de hectares de floresta por ano. Desde 1990, o país perdeu 9,7% da sua área florestal. O Uruguai, por outro lado, destaca-se no continente sul-americano, tendo ganhado 131% de superfície florestal desde 1990.

A agricultura industrial, a urbanização, a exploração mineira e a construção de infraestruturas são algumas das principais causas que estão a levar à destruição das florestas do mundo.

Fonte – The UniPlanet de 02 de maio de 2017

Brasil aumenta desmatamento e perde apoio da Noruega

Shutterstock - Novas iniciativas de proteção ambiental na Amazônia devem, agora, ser engavetadas até que os recursos voltemNovas iniciativas de proteção ambiental na Amazônia devem, agora, ser engavetadas até que os recursos voltem. Shutterstock

Parcela de recursos que será enviada ao BNDES não será suficiente para novos projetos na Amazônia

Diante de um corte inédito de apoio financeiro da Noruega ao Brasil por causa do desmatamento florestal, a parcela de recursos que será enviada ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) em 2017 por Oslo não será suficiente sequer para atender a todos os novos projetos em consideração pelo governo para o Fundo da Amazônia.

O Estado apurou que, no total, o Brasil receberá no máximo US$ 35 milhões em 2017, um valor muito menor do que a média de US$ 110 milhões enviados anualmente. Os dados são do Ministério do Meio Ambiente da Noruega. O corte, que chega a R$ 250 milhões, terá um impacto real nos programas ambientais e de preservação.

O Fundo, que é administrado pelo BNDES, tem até agora em 2017 apenas três projetos aprovados. Mas outros 19 estavam sob análise ou em consultas. No total, para que fossem aprovados, o fundo precisaria desembolsar US$ 175 milhões, cinco vezes o valor que a Noruega repassará ao Brasil.

Para calcular o repasse de apenas US$ 35 milhões, a Noruega considerou a taxa de desmatamento. Quanto maior ela for, menor o dinheiro liberado. Por um acordo de 2008, a Noruega destinou já US$ 1,1 bilhão ao Brasil, para um fundo do BNDES. Mas outros US$ 500 milhões ainda seriam enviados até 2020.

O banco diz que metade do dinheiro que tem do Fundo da Amazônia já está comprometido e o restante ainda poderia ser usado. Mas fontes dentro do Ministério do Meio Ambiente admitem que tal lógica vale apenas para aqueles programas já aprovados, uma vez que muitos deles ainda precisam receber parcelas que são liberadas anualmente.

O risco seria para as novas iniciativas que, agora, podem ser engavetadas até que os recursos voltem. Os problemas, porém, podem ser ainda mais profundos nos próximos anos, se o desmatamento continuar. O governo norueguês indicou que o pagamento pode simplesmente desaparecer em 2018 ou 2019 – se o País não atingir as metas de redução de desmatamento.

Fonte – Jamil Chade, Folha de Londrina de 26 de junho de 2017

Hotel Amazônia

Foto: Antonio Gaudério | Folha ImagemFoto: Antonio Gaudério | Folha Imagem

Partamos do óbvio: não podemos viver sem florestas. Tal é, desde 2014, o mote da FAO sobre a necessidade de conservarmos o que resta desses sustentáculos da vida no planeta[I]. Como estruturas comunitárias vivas, nas quais árvores e outras plantas, animais, fungos e micro-organismos reproduzem e interagem, as florestas preservam o solo, regulam a água, os ciclos de nutrientes, o equilíbrio das trocas de gases na atmosfera e a estabilidade climática. As florestas são “o lar de mais de 80% de todas as espécies de animais, plantas e insetos”<[II], incluindo a maior parte das espécies ameaçadas. Defendem-nos também das secas e inundações, garantem a segurança alimentar da nossa e de inúmeras outras espécies e, enfim, mitigam os impactos crescentes das mudanças climáticas. Entre 2001 e 2013, o desmatamento das florestas tropicais emitiu por ano 2,23 bilhões de toneladas de CO2, o equivalente às emissões anuais totais da Rússia[III]. Um dos mais pacíficos consensos da história do saber é o axioma de que o futuro da biosfera (e, portanto, da humanidade) está ligado ao futuro das florestas.

Partamos novamente do óbvio: ao que tudo indica, as florestas não têm futuro. Essa afirmação pode parecer excessiva, mas decorre dos dados da FAO: ao final da última idade do gelo (11.700 anos AP), as florestas cobriam 60 milhões de km2. Em 2010, 85% dessa área não possuía mais florestas ou as possuía em estado degradado ou fragmentado[IV]. Entre 1950 e 2000, o desmatamento foi maior que em toda a história pregressa da civilização (desde a Revolução neolítica até 1950)[V]. A aceleração no século XXI é inequívoca. Thomas Crowther e coautores de 15 países calculam que mais de 15 bilhões de árvores são derrubadas por ano[VI]. E, segundo o Global Forest Watch, apenas “entre 2000 e 2012, o mundo removeu 2,3 milhões de km2 de cobertura florestal, o equivalente a perder 50 campos de futebol por minuto todos os dias”[VII]. Entre 2011 e 2014, verifica-se uma nova aceleração do desmatamento, com uma média anual de perda florestal de 210 mil km2.

A Mata Atlântica

No dia 27 de maio último, Dia da Mata Atlântica, constatamos uma nova aceleração da destruição de seus remanescentes. Segundo o Atlas da Mata Atlântica, realizado pela SOS Mata Atlântica em parceria com o INPE, em 12 meses (2015-2016) desmataram-se 291 km2, contra 184 km2 no mesmo período anterior, um aumento de quase 60%. Nunca perdemos tanto desde 2008. “A cada dois dias um Ibirapuera de Mata Atlântica desaparece”, calcula Vandré Fonseca[VIII]. De seus 1,3 milhão de km2 originais, restam hoje 112 mil km2 (8,5%) de mata com extensão contígua maior que 100 hectares. Nada no momento permite falar em reversão do processo de extinção desse que ainda é, apesar de tudo, um dos mais ricos biomas do planeta.

A destruição do Cerrado e o assalto final à Amazônia

O que ocorreu com a Mata Atlântica em cinco séculos está acontecendo com a floresta Amazônica e o Cerrado em decênios. Em quatro anos (agosto de 2013 a julho de 2016), as perdas por corte raso, apenas na Amazônia Legal, foram de 25 mil km2, uma área maior que Sergipe (21,9 mil km2). Somadas as perdas na Amazônia e no Cerrado, o Brasil perdeu 22,6 mil km2 de cobertura florestal tão somente em 2014![IX] Após os militares, os protagonistas da destruição são hoje o BNDESpar (que investiu na JBS, direta ou indiretamente, R$ 8,1 bilhões e é proprietário direto de 21,3% da empresa[X]), as madeireiras, os frigoríficos, o agronegócio e, sobretudo, a pecuária, tudo isso regado pelo sistema financeiro e fomentado pelas corporações de sementes, fertilizantes e agrotóxicos e pelos grandes traders internacionais. Desde que, em finais de 2012, essa coalizão impôs o novo Código Florestal, houve uma alta de quase 75% no desmatamento da Amazônia.

Foto: ReproduçãoFonte: Giuliana Miranda, “Novo Código Florestal contribuiu para aumento no desmatamento”. | Folha de São Paulo, 12/XII/2016

Os pecuaristas são responsáveis por 70% a 75% do desmatamento da Amazônia e, segundo a Forest Trends, por 90% de seu desmatamento ilegal[XI]. E também, ao que sugere o paralelismo dos gráficos abaixo, pelo aumento inaudito dos focos de incêndio da floresta no Estado da Amazônia (de ~ 40.000 em 2003 para ~240.000 em 2015)

Foto: ReproduçãoFonte: GISS (NASA) e Claudio Angelo, “Amazônia deve ter recorde de queimadas”, Observatório do Clima, 30/VI/2016

Após os incêndios, o pasto substitui a floresta e a pecuária avança. Em 1997, os pecuaristas abateram 14,9 milhões cabeças de gado. Em 2013, 34,4 milhões.

Reprodução

E como cerca de 80% da carne produzida no Brasil é consumida pelos próprios carnívoros brasileiros, é difícil ignorar a incômoda pergunta feita por João Meirelles, do Instituto Peabiru, num famoso texto de 2006: “Você já comeu a Amazônia hoje?”

O agronegócio e a mineração já destruíram 880 mil km2 da vegetação nativa do Cerrado (46% de sua área). Apenas cerca de 20% dele permanece intocado. “Entre 2002 e 2011, as taxas de desmatamento nesse bioma (1% ao ano) foram 2,5 vezes maior que na Amazônia. (…) Mantidas as tendências atuais, 31% a 34% da área do que resta da cobertura vegetal do Cerrado deve ser suprimida até 2050”[XII].

Assiste-se, ao mesmo tempo, ao assalto final à Amazônia. Um levantamento realizado por pesquisadores da Universidade Federal de Pernambuco mostra que, desde 1981, 70% dos 48 processos de Redução, Desclassificação ou Reclassificação (RDR) de áreas protegidas ocorreram após 2008. No governo Temer, a guerra de desgaste à floresta e a seus povos, típica do governo Dilma, tornou-se uma Blitzkrieg, com ao menos sete medidas provisórias e projetos de lei destinados a liquidar suas últimas defesas[XIII]. “Imagine um hotel que tenha 100 quartos, mas que só possa comercializar 20 unidades. As outras 80 ele tem que manter fechadas”, protestou na COP22 Blairo Maggi, Ministro da Agricultura, queixando-se da reserva legal prevista pelo Código Florestal nas propriedades rurais da Amazônia[XIV]. Raramente a percepção que o capitalismo tem da natureza terá sido melhor formulada.

[I] FAO, We can’t live without forests, 10/XII/2014 <http://www.fao.org/zhc/detail-events/en/c/262862/>.

[II] Cf. UN, 2015: Transforming our world: the 2030 Agenda for Sustainable Development. “Goal 15: Sustainably manage forests, combat desertification, halt and reverse land degradation, halt biodiversity loss”.

[III] Cf. Daniel J. Zarin et al., “Can carbon emissions from tropical deforestation drop by 50% in 5 years?”. Global Change Biology, 9/II/2016.

[IV] FAO State of the World forests 2012.

[V] Cf. Michael Williams, Deforesting the Earth, 2000. Epílogo: “Almost as much forest was cleared in the past as has been cleared in the last 50 years”.

[VI] Cf. Thomas W. Crowther et al., “Mapping tree density at a global scale”. Nature, 525, 7568,  10/IX/2015, pp. 201-205.

[VII] Cf. Matthew C. Hansen et al., “High-Resolution Global Maps of 21st-Century Forest Cover Change”. Science, 342, 6160, 15/XI/2013, pp. 850-853.

[VIII] Cf. V. Fonseca, “A cada dois dias, um Ibirapuera de Mata Atlântica desaparece”. ((o)) eco, 29/V/2017.

[IX] Cf. Global Forest Watch – Brasil <http://www.globalforestwatch.org/country/BRA>.

[X]Cf. A. Vieira, M. Camarotto, L.H. Mendes e R. Rocha, “Investimentos do BNDES na JBS entram na mira da Polícia Federal”. Valor econômico, 12/V/2017.

[XI] “Agropecuária é responsável por 90% do desmatamento ilegal no Brasil”. Carta Capital, 16/IX/2014.

XII] Cf. Bernardo B.N. Strassburg et al., “Moment of truth for the Cerrado hotspot”. Nature Ecology & Evolution, 2017.

[XIII] Ei-las, segundo levantamento feito pelo Greenpeace: (1) Enfraquecimento da Lei Geral de Licenciamento ambiental (PL 3.729/2004); (2) Atentado aos direitos indígenas e à demarcação de Terras Indígenas (PEC 215/2000 e PEC 132/2015); (3) Redução das áreas protegidas e Unidades de Conservação (UCs) no Pará (MP 756/2016 e MP 758/2016); (4) Liberação de agrotóxicos (PL 6299/2002); (5) Fim do conceito de função social da terra (MP 759/2016); (6) Ataque a direitos trabalhistas no campo e redefinição do conceito de trabalho escravo (PL 6422/2016 e PLS 432/2013); (7) Flexibilização do Código de Mineração (PL 37/2011). Cf. “Resista: Sociedade Civil se une contra Temer e os ruralistas” (em rede).

[XIV]Cf. Reinaldo Canto, “Blairo Maggi, constrangimento na COP22”. Carta Capital, 21/XI/2016.

Luiz Marques é professor livre-docente do Departamento de História do IFCH /Unicamp. Pela editora da Unicamp, publicou Giorgio Vasari, Vida de Michelangelo (1568), 2011 e Capitalismo e Colapso ambiental, 2015, 2a edição, 2016. Coordena a coleção Palavra da Arte, dedicada às fontes da historiografia artística, e participa com outros colegas do coletivo Crisálida, Crises SocioAmbientais Labor Interdisciplinar Debate & Atualização (crisalida.eco.br).

Fonte – Jornal da UNICAMP de 05 de junho de 2017

Seis gráficos mostram por que floresta no chão é sinônimo de retrocesso

Saiba por que o desenvolvimento do país não tem relação com o aumento do índice de desmatamento da Amazônia e como o ritmo atual de destruição da floresta coloca sob ameaça o cumprimento da meta brasileira no Acordo de Paris.

Fontes dos gráficos: Ipam, Imazon, SEEG e elaboração própria a partir de dados do IPS Amazônia, do SEEG e do Pnud.

Fonte – Observatório do Clima de 06 de junho de 2017

Desmatamento na BA cresce 207% em um ano; uma das causas, expansão da fronteira agrícola

Relatório da SOS Mata Atlântica em parceria com o Inpe mostra aumento de 57% no Brasil; pecuária, carvão e eucalipto aparecem como fatores de destruição

O nível de desmatamento da Mata Atlântica aumentou 57,7% em todo o território nacional em um ano. Os dados são do Atlas da Mata Atlântica, produzido pela SOS Mata Atlântica em parceria com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). O bioma está presente em 17 estados. Entre 2015 e 2016, período monitorado, perdeu 29 mil hectares de floresta nativa.

No período anterior (2014-2015), o desflorestamento da Mata Atlântica havia sido de 18 mil hectares. A diretora-executiva da SOS Mata Atlântica, Marcia Hirota, disse à Agência Brasil que há 10 anos a área não registrava um desmatamento dessas proporções.

“Tivemos um retrocesso muito grande, com índices comparáveis aos de 2005”, afirmou Marcia. No período entre 2005 e 2008, a Mata Atlântica perdeu 103 mil hectares de floresta, ou seja, média anual de 34 mil hectares a menos.

Pecuária desmata na Bahia

Fonte: SOS Mata Atlântica.

O estado com maior nível de desmatamento foi a Bahia. Foram 12.288 hectares desmatados, 207% a mais que no período anterior, quando foram destruídos 3.997 hectares de vegetação nativa. Os municípios de Santa Cruz Cabrália e Belmonte foram os que mais desmataram, com 3.058 hectares e 2.119 hectares.

A retirada da vegetação em outros municípios, conforme o Atlas da Mata Atlântica, como Porto Seguro e Ilhéus, mostra que cerca de 30% da destruição do bioma ocorreu em terras baianas. Em artigo no site da revista Época, Marcia Hirota e o diretor de Políticas Públicas da ONG, Mario Mantovani, apontam a pecuária e a silvicultura como causas:

– Florestas queimadas, destruídas, sem vida, em processo de retirada de madeira e limpeza de áreas onde o entorno apresenta forte atividade de silvicultura e pecuária. O mesmo padrão no município vizinho, Belmonte, que perdeu 2.122 hectares de floresta no período.

Santa Cruz Cabrália. (Foto: SOS Mata Atlântica)

Carvão e eucalipto em Minas Gerais

Minas Gerais aparece em segundo lugar no relatório, com 7.410 hectares desmatados. Os principais pontos de desflorestamento ocorreram nos municípios de Águas Vermelhas (753 hectares), São João do Paraíso (573 hectares) e Jequitinhonha (450 hectares). A Agência Brasil informa que, na região, a vegetação tem perdido lugar para a produção de carvão e o plantio de eucalipto.

Fonte: SOS Mata Atlântica.

No Paraná, o desmatamento do bioma passou de 1.988 hectares, entre 2014 e 2015, para 3.545 hectares entre 2015 e 2016, o que representa aumento de 74%. Segundo o relatório, a destruição está concentrada na região das araucárias, espécie ameaçada de extinção, com apenas 3% de florestas remanescentes.

Em seguida vem o Piauí, que pelo quarto ano consecutivo apresenta os maiores desmatamentos nos municípios de Manoel Emídio (1.281 hectares), Canto do Buriti (641 hectares) e Alvorada do Gurguéia (625 hectares), todos próximos do Parque Nacional Serra das Confusões. O estado – uma das principais fronteiras atuais da grilagem no Brasil – teve um aumento de 7%, comparado à avaliação anterior, e desmatou 3.125 hectares.

Fonte – Izabela Sanches, De Olho nos Ruralistas de 02 de junho de 2016

Chapada Diamantina: a caixa d’água da Bahia vai secar!

victor.marques

Conhecida por ser uma das principais atrações turísticas do Brasil, por conta de suas belezas naturais, o mundo desconhece a importância que a Chapada Diamantina tem no fornecimento de água para o estado da Bahia, e para o equilíbrio da rede hidrográfica brasileira.

Refém dos interesses comerciais de grandes produtores rurais, abandonada e maltratada pelo poder público, a Chapada está secando e seus rios estão morrendo. Comunidades ao longo da Chapada já sofrem com a escassez de água, conflitos que podem se tornar mais violentos estão se intensificando na região e a capital soteropolitana também vai sofrer com a falta d’água.

Em Utinga, os índios Payayás já perceberam há uns anos o tamanho do problema e começaram um trabalho de conscientização, articulação política e ação. Hoje, Otto Payayá, avalia que a ação é a única ferramenta que ele ainda crê. “Do governo a gente tá cansado. A gente junta a comunidade e vamos limpar o rio, plantar na beirada dele, fazer algo prático, recuperar a vegetação para que a água volte a correr”, afirmou.

Otto Payayá (foto: Cristiane Passos)

Viveiro com mudas produzidas pelos Payayás para reflorestamento (foto: Cristiane Passos)

A descrença de Otto não é à toa, além do abandono relegado pelo estado à região, quando ele enfim age, o faz sem planejamento e acaba por piorar a situação. O rio Utinga nasce na comunidade de Cabeceira do Rio, distante cerca de oito quilômetros da sede do município de Utinga. Ele é responsável pelo abastecimento de água das cidades de Utinga, Wagner, Lajedinho e Andaraí. Em 1977 foi construída uma barragem na cabeceira da nascente do rio Utinga, literalmente em cima da nascente e de seus fervedouros – nascentes de rios subterrâneos. E para piorar ainda mais, a retirada da mata ciliar na área da barragem provocou o desbarrancamento, o que tem assoreado o rio. O indígena relatou que recentemente conseguiu levar ao local o engenheiro responsável pela obra da barragem e que ele se emocionou ao ver o tamanho do erro que cometeram.

O rio Utinga é apenas um dos vários rios que compõem a bacia do Paraguaçu, responsável pelo abastecimento de várias cidades da região e da capital baiana, Salvador. Assim como o Jacuípe, que abastece, por exemplo, o distrito do município de Piritiba, França. No distrito, a Embasa (Empresa Baiana de Águas e Saneamento S.A.) joga no próprio rio os rejeitos da estação de tratamento. Além dos rejeitos, uso de agrotóxicos por produtores locais e plantações em área de preservação permanente têm poluído e assoreado o rio, cuja vazão tem diminuído a olhos vistos.

Rejeitos da estação da Embasa em França sendo despejados no rio (foto: Cristiane Passos)

O rio assoreado no distrito de França (foto: Cristiane Passos)

Seguindo o exemplo dos payayás, assentamentos da região têm se organizado para reflorestar as margens dos rios e assim tentar retomar a riqueza de águas da região. É o caso do assentamento São Sebastião, no município de Wagner, que após ver o rio Utinga quase secando, fez mutirões para plantação de mudas nativas nas margens do rio e para a limpeza do local. Os assentados descrevem com tristeza terem testemunhado o rio secar e os peixes morrerem. Mesmo com as ações, em fevereiro deste ano os assentamentos ficaram sem água. Na cidade de Wagner aconteceu o mesmo.

Sem a presença do poder público, grandes produtores, também impactados pela falta d’água, destilam acusações contra os assentados e pequenos produtores, acusando-os de serem os responsáveis pela escassez de água. Porém, são os grandes produtores que multiplicam bombas para alimentar sistemas de irrigação de suas produções, ao longo do rio. Segundo os produtores, nos últimos 10 anos houve um aumento do plantio irrigado de culturas, que absorvem um grande volume de água, saindo de aproximadamente 200 hectares para mais de 1.000 hectares. Isso é equivalente a mais de 1,6 milhão de plantas, que para manter sua produtividade necessita de 40 litros de água por dia para cada planta[1]. Sem controle, plano de manejo ou fiscalização, boa parte dessas bombas para irrigação não possui sequer outorga de uso do Inema (Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos da Bahia)[2].

Conflitos pela água: a violência iminente

A comunidade do povoado de São José, próximo a Lençóis (BA), ficou 120 dias sem água. Toda sua produção foi perdida. Endividados, pois conseguiram a terra em que vivem através do crédito fundiário e não pela reforma agrária, chegaram a passar fome. Em fevereiro desse ano, quando chegaram ao limite, bloquearam os dois sentidos da BR-242, na altura do km-308. Segundo relato das famílias, policiais militares da CIPA (Companhia Independente de Policiamento Ambiental) dispararam contra os manifestantes. Ninguém ficou ferido. A polícia teria, segundo eles, levado duas pessoas presas e, no trajeto até a delegacia, os próprios policiais teriam quebrado o vidro da janela da viatura e colocado a culpa em um dos manifestantes, que ficou preso por dois dias sob acusação de vandalismo. Ele foi solto somente após o pagamento de fiança no valor de R$ 2.800,00.

Régua para medir altura da água do rio que abastece a comunidade de São José (foto: Cristiane Passos)

Líderes da comunidade têm sofrido constantes ameaças por conta de sua atuação e denúncias feitas. As ameaças, conforme relataram, partem tanto de fazendeiros da região, quanto da polícia. Fazendeiros disseram também a eles que “se virassem” com caminhões pipa ou que “criassem camelos, que não bebem água”. “Quando é da natureza você tem que concordar. Mas a minha sensação é que não era da natureza essa falta d’água, era somente por que tem gente que se acha melhor do que a gente”, desabafou uma das moradoras da comunidade. Temerosos com o rio baixando novamente, os moradores declararam que vai haver mais embate, pois não irão aguentar novamente a falta d’água, quietos.

Bacia do Paraguaçu

A bacia hidrográfica do Paraguaçu é uma das mais importantes para o estado da Bahia, sendo fundamental para o abastecimento de água da região metropolitana de Salvador. Mais de três milhões de pessoas dependem das águas deste rio, cuja bacia se estende por mais de 55 mil km², abrangendo 86 municípios e 10% do território do estado. O Paraguaçu tem suas nascentes em áreas de Caatinga, Campos de Altitude e encraves de Mata Atlântica na Chapada Diamantina. Das nascentes até a foz, na Baía de Todos os Santos, o rio percorre 600 km, cruzando uma região com alta diversidade social, cultural e ecológica. Tamanha importância torna ainda mais preocupante o atual estado de degradação ambiental da bacia[3].

Além da sua importância no fornecimento de água e no equilíbrio da biodiversidade local, a região possui grande potencial turístico e econômico, mas nem mesmo isso tem livrado a Chapada da degradação. Um de seus cartões postais, a Cachoeira da Fumaça, localizada entre os municípios de Lençóis e Palmeiras, que possui 340 metros de altura e é a segunda maior cachoeira do Brasil, também enfrenta problemas com o desequilíbrio das águas na região. Segundo moradores da região, têm aumentado os momentos no ano em que a cachoeira seca. O Poço Azul, outra atração turística, atraente por sua gruta com águas cristalinas que ficam mais azuis com a entrada de feixes de luz do sol, está cercado de plantações irrigadas e que utilizam agrotóxicos.

Poço Azul – atração turística que também está ameaçada pelo uso de agrotóxicos e retirada indiscriminada de água em seus arredores. (foto: Cláudio Dourado – CPT Ruy Barbosa)

De acordo com Rogério Mucugê, da Conservação Internacional e coordenador do projeto “Semeando Águas no Paraguaçu”, todos esses fatores já citados, como poluição, retirada indiscriminada de água, ausência do Estado e de políticas públicas que garantam a conservação do ecossistema local, são agravados ainda pelas constantes queimadas. “A maioria dessas queimadas são criminosas”, afirmou ele. Além disso, espaços de reivindicação da sociedade civil para a resolução de problemas como esses, estão dominados pelos representantes de grandes empreendimentos rurais. O Comitê da Bacia Hidrográfica do Paraguaçu é um deles. Apesar da ideia de composição diversificada e democrática dos Comitês, a população em geral e as entidades de preservação ambiental são sempre voto vencido nas decisões sobre a Bacia.

Como disse o senhor Ramiro de Souza, do Assentamento São Sebastião, “dizem na televisão que o agro é tudo, mas não é, a água é tudo. Ninguém vive sem água”. Comungando dessa ideia e preocupada com a situação na região, a Comissão Pastoral da Terra (CPT) de Ruy Barbosa (BA) dará início a uma campanha de conscientização sobre a necessidade de ações imediatas de preservação das águas da Chapada Diamantina. Articulada com as comunidades locais e organizações de defesa do meio ambiente, ela espera visibilizar a situação crítica das águas da Chapada e, assim, mobilizar a sociedade para salvar esse patrimônio natural, bem como o mais fundamental de nossos recursos naturais, a água.

[1] http://folhadachapada.com.br/brasil/folha-da-chapada/chapada-diamantina-rio-utinga-pede-socorro/#more-37

[2] http://www.oparaguacu.com.br/cortado-duas-vezes-o-rio-utinga-sofre-grave-ameaca-de-morte/

[3] http://www.conservation.org/global/brasil/iniciativas-atuais/Pages/iniciativas-bacia-do-paraguacu.aspx

Fonte – Cristiane Passos, CPT de 07 de junho de 2017