O Cerrado está extinto e isso leva ao fim dos rios e dos reservatórios de água

Vista típica de hábitats de Cerrado. Chapada do Veadeiros, Goiás. Em primeiro plano campo sujo, seguido por campo úmido e vereda / mata de galeria. Foto: Cristiano de Campos Nogueira

Uma das maiores autoridades sobre o tema, professor da PUC Goiás diz que destruição do bioma é irreversível e que isso compromete o abastecimento potável em todo o País

Uma ilha ambiental em meio à metrópole está no Campus 2 da Pon­tifícia Universidade Católica de Goiás (PUC Goiás). É lá o local onde Altair Sales Barbosa idealizou e realizou uma obra que se tornou ponto turístico da capital: o Memorial do Cerrado, eleito em 2008 o local mais bonito de Goiânia e um dos projetos do Instituto do Trópico Subúmido (ITS), dirigido pelo professor.

Foi lá que Altair, um dos mais profundos conhecedores do bioma Cerrado, recebeu a equipe do Jornal Opção. Como professor e pesquisador, tem graduação em Antropologia pela Universidade Católica do Chile e doutorado em Arqueologia Pré-Histórica pelo Museu Nacional de História Natural, em Washington (EUA). Mais do que isso, tem vivência do conhecimento que conduz.

É justamente pela força da ciência que ele dá a notícia que não queria: na prática o Cerrado já está extinto como bioma. E, como reza o dito popular, notícia ruim não vem sozinha, antes de recuperar o fôlego para absorver o impacto de habitar um ecossistema que já não existe, outra afirmação produz perplexidade: a devastação do Cer­rado vai produzir também o desaparecimento dos reservatórios de água, localizados no Cerrado, o que já vem ocorrendo — a crise de a­bastecimento em São Paulo foi só o início do problema. Os sinais dos tempos indicam já o começo do período sombrio: “Enquanto se es­tá na fartura, você é capaz de re­partir um copo d’água com o ir­mão; mas, no dia da penúria, ninguém repartirá”, sentencia o professor.

“Memorial do Cerrado” – o nome deste espaço de preservação criado pelo sr. aqui no Campus 2 da PUC Goiás, é uma expressão pomposa. Mas, tendo em vista o que vivemos hoje, é algo quase que tristemente profético. O Cerrado está mesmo em vias de extinção?

Para entender isso é preciso primeiramente entender o que é o Cerrado. Dos ambientes recentes do planeta Terra, o Cerrado é o mais antigo. A história recente da Terra começou há 70 milhões de anos, quando a vida foi extinta em mais de 99%. A partir de então, o planeta começou a se refazer novamente. Os primeiros sinais de vida, principalmente de vegetação, que ressurgem na Terra se deram no que hoje constitui o Cerrado. Por­tanto, vivemos aqui no local onde houve as formas de ambiente mais antigas da história recente do planeta, principalmente se levarmos em consideração as formações vegetais. No mínimo, o Cerrado começou há 65 milhões de anos e se concretizou há 40 milhões de anos.

O Cerrado é um tipo de am­biente em que vários elementos vi­vem intimamente interligados uns aos outros. A vegetação depende do solo, que é oligotrófico [com nível muito baixo de nutrientes]; o solo depende de um tipo de clima especial, que é o tropical subúmido com duas estações, uma seca e outra chuvosa. Vários outros fatores, incluindo o fogo, influenciaram na formação do bioma – o fogo é um elemento extremamente importante porque é ele que quebra a dormência da maioria das plantas com sementes que existem no Cerrado.

Assim, é um ambiente que de­pen­de de vários elementos. Isso significa que já chegou em seu clímax evolutivo. Ou seja, uma vez degradado não vai mais se recuperar na plenitude de sua biodiversidade. Por isso é que falamos que o Cerrado é uma matriz ambiental que já se encontra em vias de extinção.

Por que o sr. é tão taxativo?

Uma comunidade vegetal é medida não por um determinado tipo de planta ou outro, mas, sim, por comunidades e populações de plantas. E já não se encontram mais populações de plantas nativas do Cerrado. Podemos encontrar uma ou outra espécie isolada, mas encontrar essas populações é algo praticamente impossível.

Outra questão: o solo do Cerrado foi degradado por meio da ocupação intensiva. Retiraram a gramínea nativa para a implantação de espécies exóticas, vindas da África e da Austrália. A introdução dessas gramíneas, para o pastoreio, modificou radicalmente a estrutura do solo. Isso significa que naquele solo, já modificado, a maioria das plantas não conseguirá brotar mais.

Como se não bastasse tudo isso, o Cerrado foi incluído na política de ex­pansão econômica brasileira co­mo fronteira de expansão. É uma á­rea fácil de trabalhar, em um planalto, sem grandes modificações geomorfológicas e com estações bem definidas. Junte-se a isso toda a tecnologia que hoje há para correção do solo. É possível tirar a acidez do solo utilizando o calcário; aumentar a fertilidade, usando adubos. Com isso, altera-se a qualidade do solo, mas se afetam os lençóis subterrâneos e, sem a vegetação nativa, a água não pode mais infiltrar na terra.

Onde há pastagens e cultivo, então, o Cerrado está inviabilizado para sempre, é isso?

Onde houve modificação do solo a vegetação do Cerrado não brota mais. O solo do Cerrado é oligotrófico, carente de nutrientes básicos. Quando o agricultor e o pecuarista enriquecem esse solo, melhorando sua qualidade, isso é bom para outros tipos de planta, mas não para as do Cerrado. Por causa disso, não há mais como recuperar o ambiente original, em termos de vegetação e de solo.

Mas o mais importante de tudo isso é que as águas que brotam do Cerrado são as mesmas águas que alimentam as grandes bacias do continente sul-americano. É daqui que saem as nascentes da maioria dessas bacias. Esses rios todos nascem de aquíferos. Um aquífero tem sua área de recarga e sua área de descarga. Ao local onde ele brota, formando uma nascente, chamamos de área de descarga. Como ele se recarrega? Nas partes planas, com a água das chuvas, que é absorvida pela vegetação nativa do Cerrado. Essa vegetação tem plantas que ficam com um terço de sua estrutura exposta, acima do solo, e dois terços no subsolo. Isso evidencia um sistema radicular [de raízes] extremamente complexo. Assim, quando a chuva cai, esse sistema radicular absorve a água e alimenta o lençol freático, que vai alimentar o lençol artesiano, que são os aquíferos.

Quando se retira a vegetação na­tiva dos chapadões, trocando-a por outro tipo, alterou-se o ambiente. Ocorre que essa vegetação introduzida – por exemplo, a soja ou o al­go­dão ou qualquer outro tipo de cul­tura para a produção de grãos – tem uma raiz extremamente superficial. Então, quando as chuvas caem, a água não infiltra como deveria. Com o passar dos tempos, o nível dos lençóis vai diminuindo, afetando o nível dos aquíferos, que fica menor a cada ano.

“As plantas  do cerrado são de crescimento muito lento. Quando Pedro Álvares Cabral chegou ao Brasil, os Buritis que vemos hoje estavam nascendo. eles demoram 500 anos para ter de 25 a 30 metros. também por isso, o dano ao bioma é irreversível”

Qual é a consequência imediata desse quadro?

Em média, dez pequenos rios do Cerrado desaparecem a cada ano. Esses riozinhos são alimentadores de rios maiores, que, por causa disso, também têm sua vazão diminuída e não alimentam reservatórios e outros rios, de que são afluentes. Assim, o rio que forma a bacia também vê seu volume diminuindo, já que não é abastecido de forma suficiente. Com o passar do tempo, as águas vão desaparecendo da área do Cerrado. A água, então, é outro elemento importante do bioma que vai se extinguindo.

Hoje, usa-se ainda a agricultura irrigada porque há uma pequena reserva nos aquíferos. Mas, daqui a cinco anos, não haverá mais essa pequena reserva. Estamos colhendo os frutos da ocupação desenfreada que o agronegócio impôs ao Cerrado a partir dos anos 1970: entraram nas áreas de recarga dos aquíferos e, quando vêm as chuvas, as águas não conseguem infiltrar como antes e, como consequência, o nível desses aquíferos vai caindo a cada ano. Vai chegar um tempo, não muito distante, em que não haverá mais água para alimentar os rios. Então, esses rios vão desaparecer.

Por isso, falamos que o Cerrado é um ambiente em extinção: não existem mais comunidades vegetais de formas intactas; não existem mais comunidades de animais – grande parte da fauna já foi extinta ou está em processo de extinção; os insetos e animais polinizadores já foram, na maioria, extintos também; por consequência, as plantas não dão mais frutos por não serem polinizadas, o que as leva à extinção também. Por fim, a água, fator primordial para o equilíbrio de todo esse ecossistema, está em menor quantidade a cada ano.

Como é a situação desses aquíferos atualmente?

Há três grandes aquíferos na região do Cerrado: o Bambuí, que se formou de 1 bilhão de anos a 800 milhões de anos antes do momento presente; os outros dois são divisões do Aquífero Guarani, que está associado ao Arenito Botucatu e ao Arenito Bauru que começou a se formar há 70 milhões de anos. O Guarani alimenta toda a Bacia do Rio Paraná: a maior parte dos rios de São Paulo, de Mato Grosso, de Mato Grosso do Sul – incluindo o Pantanal Mato-Grossense – e grande parte dos rios de Goiás que correm para o Paranaíba, como o Meia Ponte. Toda essa bacia depende do Aquífero Guarani, que já chegou em seu nível de base e está alimentando insuficientemente os rios que dependem dele. Por isso, os rios da Bacia do Paraná diminuem sua vazão a cada ano que passa.

Então, podemos ter nisso a explicação para a crise da água em São Paulo?

Exato. Como medida de urgência, já estão perfurando o Arenito Bauru – que é mais profundo que o Botucatu, já insuficiente –, tentando retirar pequenas reservas de água para alimentar o sistema Cantareira [o mais afetado pela escassez e que abastece a capital paulista]. Mesmo se chover em grande quantidade, isso não será suficiente para que os rios juntem água suficiente para esse reservatório.

Assim como ocorre no Can­tareira, outros reservatórios espalhados pela região do Cerrado – Sobradinho, Serra da Mesa e outros – vão passar pelo mesmo problema. Isso porque o processo de sedimentação no fundo do lago de um reservatório é um processo lento. Os sedimentos vão formando argila, que é uma rocha impermeável. Então, a água daquele lago não vai alimentar os aquíferos. Mesmo tendo muita quantidade de água superficial, ela não consegue penetrar no solo para alimentar os aquíferos. Se não for usada no consumo, ela vai simplesmente evaporar e vai cair em outro lugar, levada pelas correntes aéreas. Isso é outro motivo pelo qual os aquíferos não conseguem recuperar seu nível, porque não recebem água.

“Geologicamente sendo o mais antigo, seria natural que o Cerrado fosse o primeiro bioma a desaparecer. Mas isso em escala geológica, de milhões de anos. Mas, pelo que o sr. diz, a antropização [ação humana no ambiente] multiplicou em muitíssimas vezes esse processo de extinção.”

Sim. Até meados dos anos 1950, tínhamos o Cerrado praticamente intacto no Centro-Oeste brasileiro. Desde então, com a implantação de infraestrutura viária básica, com a construção de grandes cidades, como Brasília, criou-se um conjunto que modificou radicalmente o ambiente. A partir de 1970, quando as grandes multinacionais da agroindústria se apossaram dos ambientes do Cerrado para grandes monoculturas, aí começa o processo de finalização desse bioma. Ou seja, o homem sendo responsável pelo fim desse ambiente que é precioso para a história do planeta Terra.

Em que o Cerrado é tão precioso?

De todas as formas de vegetação que existem, o Cerrado é a que mais limpa a atmosfera. Isso ocorre porque ele se alimenta basicamente do gás carbônico que está no ar, porque seu solo é oligotrófico.

Diz-se que o Cerrado é o contrário da Amazônia: uma floresta invertida, em confirmação à definição que o sr. deu sobre o fato de dois terços de cada planta do Cerrado estarem debaixo da terra. Ou seja, a destruição do Cerrado é muito mais séria do que alcança a nossa visão com o avanço da fronteira agrícola. É uma devastação muito maior, porque também ocorre longe dos olhos, subterrânea.

Isso faz sentido, porque, na parte subterrânea, além do sequestro de carbono está armazenada a água, sem a qual não prospera nenhuma atividade econômica. A Amazônia terminou de ser formada há apenas 3 mil anos, um processo que começou há 11 mil anos, com o fim da glaciação no Hemisfério Norte. A configuração que tem hoje existe na plenitude só há 3 mil anos. A Mata Atlântica tem 7 mil anos. São ambientes que, se degradados, é possível recuperá-los, porque são novos, estão em formação ainda.

Já com o Cerrado isso é impossível, porque suas árvores já atingiram alto grau de especialização. Tanto que o processo de quebra da dormência de determinadas sementes são extremamente sofisticados. Uma semente de araticum, por exemplo, só pode ter sua dormência quebrada no intestino delgado de um canídeo nativo do Cerrado – um lobo guará, uma raposa. Como esses animais estão em extinção, fica cada vez mais difícil quebrar a dormência de um araticum, que é uma anonácea [família de plantas que inclui também a graviola e a ata (fruta-do-conde), entre outras].

As abelhas europeias e africanas são recentes, foram introduzidas no século passado. O professor Warwick Kerr, que introduziu a abelha africana no Brasil, na década de 1950, ainda é vivo e atua na Universidade Federal de Uber­lândia (UFU). São boas produtoras de mel, mas não estão adaptadas para fazer a polinização das plantas do Cerrado. As abelhas nativas do Cerrado, que não tem ferrão e são chamadas de meliponinas – jataí, mandaçaia, uruçu – eram os maiores agentes polinizadores naturais, juntamente com os insetos, em função de sua anatomia. Hoje estão praticamente extintas, como esses insetos, pelo uso de herbicidas e outros tipos de veneno, que combatiam pragas de vegetações exóticas em lavouras e pastagens. Quando se utiliza o pesticida para extinguir essas pragas também se mata o inseto nativo, que é polinizador das plantas do Cerrado. Por isso, se encontram muitas plantas nativas sem fruto, por não terem sido polinizadas.

A flora do Cerrado é geralmente desprezada. O que ela representa, de fato?

Nós vivemos em meio à mais diversificada flora do planeta. O Cerrado contém a maior biodiversidade florística. Isso não está na Amazônia, nem na Mata Atlântica, nem em uma savana africana ou em uma savana australiana. Nem qualquer outro ambiente da Terra. São 12.365 plantas catalogadas no Cerrado. Só as que conhecemos. A cada expedição que fazemos, cada vez que vamos a campo, pelo menos 50 novas espécies são descobertas. Dessas 12.365 plantas conhecidas, somos capazes de multiplicar em viveiro apenas 180. Isso é cerca de 1,5% do total, quase nada em relação a esse universo. E só conseguimos fazer mudas de plantas arbóreas.

Para as demais, que são extremamente importantes para o equilíbrio ecológico, para o sequestro de carbono e para a captação de água, não temos tecnologia para fazer mudas. Por exemplo, o capim-barba-de-bode, a canela-de-ema, a arnica, o tucum-rasteiro, esses dois últimos com raízes extremamente complexas. Se tirarmos um tucum-rasteiro, que está no máximo 40 centímetros acima do nível do solo, e olharmos seu tronco, vamos encontrar milhares ou até milhões de raízes grudados naquele tronco. Se tirarmos um pedaço pequeno dessas raízes e levarmos ao microscópio, veremos centenas de radículas que saem delas. Uma pequena plantinha com um sistema radicular extremamente complexo, que retém a água e alimenta os diversos ambientes do Cerrado. É algo que não se consegue reproduzir em viveiro, porque não há tecnologia. O que conseguimos é em relação a algumas plantas arbóreas.

Outro aspecto que indica que o Cerrado já entrou em vias de extinção é que as plantas do Cerrado são de crescimento muito lento. Uma canela-de-ema atinge a idade adulta com mil anos de idade. O capim-barba-de-bode fica adulto com 600 anos. Um buriti atinge 30 metros de altura com 500 anos. Nossas veredas – que existiam em abundância até pouco tempo – eram compostas de plantas “nenês” quando Pedro Álvares Cabral chegou ao Brasil, estavam nascendo naquela época e sua planta mais comum, o buriti, está hoje com 25 metros, 30 metros.

“Tragédia urbana começa com drama no campo”

Mas a tecnologia e a biotecnologia não fornecem nenhuma alternativa para mudar esse quadro?

Para se ter ideia da complexidade, vamos tomar o caso do buriti, que só pode ser plantado em uma lama turfosa, cheia de turfa, com muita umidade. Se o solo estiver seco, o buriti não vai vingar ali. Mas, mesmo se conseguíssemos plantar – o que é difícil, porque não existe mais o solo apropriado –, aquele buriti só atingiria a idade adulta e dar frutos depois de muitos séculos. Então, não tem como tentar dizer que se pode usar técnicas para revitalizar o Cerrado. Isso é praticamente impossível.

A interface do Cerrado, para falar em uma linguagem moderna, não é amigável para o uso da tecnologia conhecida. Não tem como acelerar o crescimento de um buriti como se faz com a soja.

Não dá para fazer isso, até porque as plantas do Cerrado convivem com uma porção de outros elementos que, para outras plantas, seriam nocivos. Por exemplo, certos fungos convivem em simbiose com espécies do Cerrado. Um simples fungo pode impedir a biotecnologia. Seria possível desenvolver, por meio de tecidos, tal planta em laboratório. Mas sem aquele fungo a planta não sobrevive. E com o fungo, mas em laboratório, ela também não se desenvolve. Ou seja, é algo extremamente complicado, mais do que podemos imaginar.

Mesmo que os mais pragmáticos menosprezem a importância de um determinado animal ou uma “plantinha” em relação a uma obra portentosa, como uma hidrelétrica, há algo que está sob ameaça com o fim do Cerrado, como a água. Isso é algo básico para todos. A contradição é que o Cerrado – assim como a caatinga e os pampas – não são ainda patrimônio nacional, ao contrário da Mata Atlântica, o Pantanal e a Amazônia. Há uma lei, a PEC 115/95 [proposta de emenda constitucional], de autoria do então deputado Pedro Wilson (PT-GO), que pede essa isonomia há quase 20 anos. Essa lei ajudaria alguma coisa?

Na prática, não poderia ajudar mais em nada, porque o que tinha de ser ocupado do Cerrado já foi. O bioma já chegou em seu limiar máximo de ocupação. Mas o governo brasileiro é tão maquiavélico e inteligente que, para evitar maiores discussões, no ano passado redesenhou todo o mapa ambiental brasileiro. Dessa forma, separou o Pantanal do Cerrado – embora o primeiro seja um subsistema do segundo –, transformou-o em patrimônio nacional e a área do Cerrado já ocupada foi ignorada e incluída no plano de desenvolvimento como área de expansão da fronteira agrícola. Ou seja, o Cerrado, em sua totalidade, já foi contemplado para não ser protegido.

O que os parques nacionais poderiam agregar em uma política de subsistência do Cerrado?

Existe um manejo inadequado dos parques existentes na região do Cerrado. Esse manejo começa com o fogo, quando se cria uma brigada para evitar incêndios no Parque Nacional das Emas, por exemplo. O fogo natural é importante para a preservação do Cerrado. Ora, se se trabalha com o intuito de preservar o Cerrado é preciso conviver com o fogo; agora, se se trabalha com a visão do agrônomo, o fogo é prejudicial, porque acentua o oligotrofismo do solo. O Cerrado precisa desse solo oligotrófico, mas, se o fogo é eliminado, as condições do solo serão alteradas e a planta nativa vai deixar de existir, porque o solo vai adquirir uma melhoria e aquela planta precisa de um solo pobre. Assim, quando se barra o uso do fogo em um parque de Cerrado, o trabalho se dá não com a noção de preservação do ambiente, mas dentro da visão da agricultura. Raciocina-se como agrônomo, não como biólogo.

Outra questão nos parques é que o entorno dos parques já foi tomado por vegetações exóticas. Entre essas vegetações existe o brachiaria, que é uma gramínea extremamente invasora que, à medida que espalha suas sementes, alcança até as áreas dos parques, tomando o lugar das gramíneas nativas. No Parque Nacional das Emas já temos gramínea que não é nativa, o que faz com que haja também vegetação arbórea, de porte maior, também não nativa. Os animais, em função do isolamento do parque, não têm mais contato com áreas naturais, como os barreiros, que forneceriam a eles cálcio e sais naturais. Quando encontramos um osso de animal morto em um parque vemos que está sem calcificação completa, porque falta esse elemento, que é obtido lambendo cinzas queimadas ou visitando os barreiros, que são salinas naturais em que existe esse o elemento. Geralmente há poucos barreiros nos parques, o que torna mais difícil a sobrevivência do animal, que acaba entrando em vias de extinção, o que está acontecendo.

Não há, em nenhum parque nacional criado, aumento da vegetação nativa ou da fauna nativa. O que há é a diminuição dos caracteres nativos daquela vegetação, bem como da fauna. Isso prova que esse isolamento não trouxe benefícios. O que poderia funcionar seria se essas áreas de preservação estivessem interligadas por meio de corredores de migração faunística. Isso evitaria uma série de erros cometidos quando se delimita uma área.

Mas, pelo que o sr. diz, hoje isso seria impossível.

Praticamente impossível, por­que as matas ciliares, que de­ve­riam servir como corredores ecológicos, de migração, foram totalmente degradadas. A maioria dos rios foi ocupada, em suas margens, por ambientes urbanos, com a presença do homem, que é um elemento extremamente predatório. Mais que isso: os sistemas agrícolas implantados chegam, em alguns locais, até a margem de córregos e rios, impedindo, também, a existência desses corredores de migração.

Fica, assim, um cenário praticamente inviável. É triste falar isso , mas, na realidade, falamos baseados em dados científicos, no que observamos. Sou o amante número um do Cerrado. Gostaria que ele existisse durante milhões e milhões de anos ainda, mas infelizmente não é isso que vemos acontecer. Se, por exemplo, você observar as nascentes dos grandes rios, verá que elas ou estão secando ou estão migrando cada vez mais para áreas mais baixas. Quando isso ocorre, é sinal de que o lençol que abastece essa nascente está rebaixando.

Observe, por exemplo, o caso das nascentes do Rio São Francis­co, na Serra da Canastra; o caso das nascentes do Rio Araguaia ou do Rio Tocantins, que tem o Rio Uru em sua cabeceira mais alta. A cada dia que passa as nascentes vão descendo mais. Vai ocorrer o dia em que chegarão ao nível de base do lençol que as abastece e desaparecerão.

Ao mesmo tempo em que o­cor­re esse fenômeno, temos um au­mento rápido do consumo de água.

Há o aumento da população. Mas, além do mais, o Cerrado entrou, nos últimos anos, por um processo extremamente complicado, que chamamos de desterritorialização. O grande capital chegou às áreas do Cerrado e expulsou os posseiros que lá moravam, por meio da falsificação de documentos, da negociata com cartórios e com políticos. Com a grilagem, adquiriu milhares de hectares e tirou os moradores antigos da região. Isso desestruturou comunidades inteiras.

Isso ainda ocorre em Goiás e em diversos lugares?

Ocorreu e está ocorrendo. E o que isso provoca? O aumento das cidades. Quase não há mais cidadezinhas na região do Cerrado, elas são de médio ou grande porte, porque a população do campo, desamparada e sem terra, veio para a zona urbana. Essas pessoas vêm buscar abrigo na cidade, que oferece a eles algum tipo de serviço. Na cidade, se transformam em outro tipo de categoria social: os sem-teto. Estes vivem aqui e ali, ocupando as áreas mais periféricas da cidade. Vão ocupar planícies de inundação, beiras de córregos, entre outros ambientes desorganizados.

Um homem que vive em um ambiente assim, que nasce, é criado e compartilha dessa desorganização, terá uma mente que tende a ser desorganizada. Ou seja, ao fazer a desterritorialização trabalhamos contra a formação de pessoas sadias. Formamos pessoas transtornadas, mutiladas mentalmente, ocupando as periferias. Não existe plano diretor que dê conta de acompanhar o desenvolvimento das áreas urbanas no Brasil, porque a cada dia chegam novas famílias nessas áreas.

Crescendo em um ambiente desorganizado, sem perspectivas para o futuro, essas pessoas acabam caindo em neuroses para a fuga. A neurose mais comum desse tipo é o uso de drogas. Acabam cometendo o que chamamos de atos ilícitos, mas provocados por uma situação socioeconômica de limitação, vivendo em ambientes precários. Essas pessoas constroem sua vida nesses locais, formam famílias e passam anos ou décadas nesses locais. Só que um dia vem um fenômeno natural qualquer – como El Niño ou La Niña – que, por exemplo, acomete aquele local com uma quantidade muito maior de chuva. Então, o córrego enche e encontra, em sua área de inundação, os barracos daquela população. Aí começa a tragédia urbana, com desabrigados e mortos. Aumenta, ainda mais, o processo de sofrimento no qual estão inseridas essas populações.

Hoje vejo muitos profissionais, principalmente arquitetos, falando em mobilidade urbana. Falam em construir monotrilhos, linhas específicas para ônibus, corredores para bicicletas, mas ninguém toca na ferida: o problema não está ali, mas na desestruturação do homem do campo. Quanto mais se desestrutura o campo, mais pessoas vêm para a cidade, que não consegue absorvê-las, por mais que se implantem linhas novas, estações e bicicletários. O problema está no drama do campo, não na cidade.

Antigamente, se usava a expressão “fixação do homem no campo”. Isso parece que ficou para trás na visão dos governos.

Desistiram porque o que manda é o grande capital. Os bancos estatais se alegram com as safras recordes, fazem propaganda disso. Eles patrocinam os grandes proprietários, só que estes não têm grande quantidade de funcionários, têm uma agricultura intensiva, mecanizada. Isso não ajuda de forma alguma a manter as pessoas na zona rural.

Uma notícia grave é a extinção do Cerrado. Outra, tão ou mais grave, que – pelo que o sr. diz – já pode ser dada, é que em pouco tempo não teremos mais água. A crise da água no Brasil é uma bomba-relógio?

A extinção do Cerrado envolve também a extinção dos grandes mananciais de água do Brasil, porque as grandes bacias hidrográficas “brotam” do Cerrado. O Rio São Francisco é uma consequência do Cerrado: ele nasce em área de Cerrado e é alimentado, em sua margem esquerda, por afluentes do Cerrado: Rio Preto, que nasce em Formosa (GO); Rio Paracatu (MG); Rio Carinhanha, no Oeste da Bahia; Rio Formoso, que nasce no Jalapão (TO) e corre para o São Francisco. Se há a degradação do Cerrado, não há rios para alimentar o São Francisco. Você po­de contar no mínimo dez afluentes por ano desses grandes rios que estão desaparecendo.

Como o sr. analisa a transposição do Rio São Francisco?

É um ato muito mais político do que científico. Ela atende muito mais a interesses políticos de grandes proprietários do Nordeste na área da Caatinga, no sertão nordestino. A transposição está sendo feita em dois canais, um norte, com 750 quilômetros e outro, leste, com pouco mais de 600 quilômetros. A água é sugada da barragem de Sobradinho (BA), através de uma bomba, para abastecer esses canais, com 10 metros de profundidade e largura de 25 metros. Ao fazer essa obra, se altera toda a mecânica do São Francisco: o rio, que corria lento, passa a correr mais rapidamente, porque está tendo sua água sugada. Seus afluentes, então, também passam a seguir mais velozes. Isso acelera o processo de assoreamento e de erosão.

Consequente­mente, aceleram a morte dos afluentes. Fazer a transposição do São Francisco simplesmente é estabelecer uma data para a morte do rio, para seu desaparecimento total. Podem até atender interesses econômicos e sociais de maneira efêmera, em curto prazo, mas em dez anos acabou tudo.

E será um processo rápido, assim?

Sim, é um processo de décadas. Basta ver o Rio Meia Ponte, na altura do Setor Jaó. Onde havia uma bonita cachoeira, na antiga barragem, há só um filete d’água. O nível da água do Meia Ponte é o mesmo do Córrego Botafogo há décadas atrás. Este praticamente não existe mais, a não ser por uma nascente muito rica no Jardim Botânico, que ainda o alimenta. Mas ele só parece mesmo exis­tir quando as chuvas o en­chem rapidamente. Mas, no outro dia, ele vira novamente um filete.

Goiânia foi planejada em função também dos cursos d’água. Tendo em vista o que ocorre hoje, podemos dizer que ela é, então, o cenário de uma tragédia hidrográfica?

Eu não diria que apenas Goiânia está realmente dessa forma. Mas foi toda uma política de ocupação do centro e do interior do Brasil que motivou essa ocupação desordenada, desde a época da Fundação Brasil Central, da Expedição Roncador–Xingu, depois a construção de Goiânia e de Brasília, a divisão de Mato Grosso e a criação do Tocan­tins. Isso é fruto do capital dinâmico que transforma a realidade. Vem uma urbanização rápida de áreas de campo, aumentando as ilhas de calor e, consequentemente, pela pavimentação, impedindo que as águas das chuvas se infiltrem para alimentar os mananciais que deram origem a essas mesmas cidades. Se continuar dessa forma, com esse tipo de desordenamento, podemos prever grandes colapsos sociais e econômicos no Centro-Oeste do Brasil. E não só aqui, mas nas áreas que aqui brotam.

O que significa quase toda a área do Brasil, não?

Sim, até mesmo a Amazônia. O Rio Amazonas é alimentado por três vetores: as águas da Cordilheira dos Andes, que é um sistema de abastecimento extremamente irregular; as águas de sua margem esquerda, principalmente do Solimões, que também é irregular, em que duas estiagens longas podem expor o assoreamento, ilhas de areias – ali foi um deserto até bem pouco tempo, chamado Deserto de Óbidos. Ou seja, o Amazonas é alimentado mesmo pelos rios que nascem no Cerrado, como Teles Pires (São Manuel), Xingu, Tapajós, Madeira, Araguaia, Tocantins. Estes caem quase na foz do Amazonas, mas contribuem com grande parte de seu volume. Ou seja, temos o São Francisco, já drasticamente afetado; o Amazonas, também afetado; e a Bacia do Paraná, afetada quase da mesma forma que o São Francisco, provavelmente com período de vida muito curto.

Será um processo tão rápido assim?

Uma vez que se inicia tal processo de degradação e de diminuição drástica do nível dos lençóis, isso é irreversível. Em alguns casos duram algumas décadas; em outros, até menos do que isso. Temos exemplos clássicos no mundo de transposições de rios que não deram certo e até secaram mares inteiros. No Mar de Aral, no Leste Europeu, há navios ancorados em sal. Sua drenagem é endorreica, fechada, sem saída para o oceano. A União Soviética, na ânsia de se tornar autossuficiente na produção de algodão, fez a transposição dos dois rios que abasteciam o mar. Resultado: no prazo de uma década, as plantações não vingaram, o mar secou e uma grande quantidade de tempestades de poeira e sal afetam 30 milhões de pessoas, causando doenças respiratórias graves, incluindo o câncer.

Com nossos rios, acontecerá o mesmo processo. A diferença é que o processo de ocupação aqui foi relativamente recente, a partir dos anos 1970. São 40 e poucos anos. Ou seja: em menos de meio século, se devastou um bioma inteiro. Não acabou totalmente porque ainda há um pouco de água. Mas, quando isso acabar, imagine as convulsões sociais que ocorrerão. Enquanto se está na fartura, você é capaz de repartir um copo d’água com o irmão; mas, no dia da penúria, ninguém repartirá. Isso faz parte da natureza do ser humano, que é essencialmente egoísta. Isso está no princípio da evolução da humanidade. A Igreja Católica chama isso de “pecado original”, mas nada mais é do que o egoísmo, apossar-se de determinados bens e impedir que outros usufruam deles. Isso já levou outros povos e raças à extinção. E pode nos levar também à extinção.

Até bem pouco tempo tínhamos duas humanidades: o homem-de-neanderthal, o Homo sapiens neanderthalensis; e o Homo sapiens sapiens. Hoje podemos falar também em duas humanidades: uma humanidade subdesenvolvida, tentando soerguer em meio a um lodo movediço; e outra humanidade, que nada na opulência. A questão é que, se essa situação persistir, brevemente teremos a pós e a sub-humanidade.

É um cenário doloroso.

É doloroso, mas são os dados que a ciência mostra. Tem jeito, tem perspectiva para um futuro melhor? Possivelmente, a saída esteja na pesquisa. Mas uma pesquisa precisa de um longo tempo para que apareçam resultados positivos. E nossas universidades não incentivam a pesquisa, o que é muito triste, porque essa é a essência de uma universidade.

O sr. vê, em algum lugar do mundo, trabalhos e pesquisas pensando em um mundo mais sustentável?

Não. O que existe é muito localizado e incipiente. Não tem grande repercussão. Mas, mesmo se fossem proveitosas, jamais poderiam ser aplicadas ao Cer­rado, que é um ambiente muito peculiar. Teria de haver pesquisa dirigida especialmente para nosso bioma. Como recuperar uma nascente de Cerrado? Eu não sei dizer. Um engenheiro ambiental também não lhe dará resposta. Nenhum cientista brasileiro sabe a resposta, porque não temos pesquisas sobre isso. Talvez poderíamos ter um futuro melhor se houvesse investimentos em pesquisa.

E a educação ocupa que papel nesse contexto sombrio?

Nós, como educadores, deveríamos pensar mais nisso – e eu penso: talvez ainda seja tempo de salvar o que ainda resta, mas se não dermos uma guinada muito violenta não terá como fazer mais nada. É preciso haver real mudança de hábitos e mudar a forma de observar os bens patrimoniais do planeta e da nossa região. A água tinha de ser uma questão de segurança nacional. A vegetação nativa, da mesma forma. Os bens naturais teriam de ser tratados assim também, porque deles depende o bem-estar das futuras gerações. Mas isso só se consegue com investimento muito alto em educação, mudando mentalidade de educadores. As escolas têm de trabalhar a consciência e não apenas o conhecimento. Uma coisa é conhecer o problema; outra, é ter consciência do problema. A consciência exige um passo a mais. Exige atitude revolucionária e radical. Ou mudamos radicalmente ou plantaremos um futuro cada vez pior para as gerações que virão.

Fonte – Marcelo Gouveia, Jornal Opção de 04 de outubro de 2017

Indústria do chocolate está a levar à destruição das florestas e áreas protegidas da Costa do Marfim

A indústria do chocolate está a impulsionar a destruição maciça e ilegal das florestas da Costa do Marfim e do Gana, avisa um novo relatório.

A indústria do chocolate está a impulsionar, indiretamente, a destruição maciça e ilegal de florestas na África Ocidental, especialmente na Costa do Marfim e no Gana, os dois maiores produtores de cacau do mundo, revelaram investigações da organização Mighty Earth e do jornal The Guardian.

“As empresas que fornecem cacau à Nestlé, Mars, Mondelez, Ferrero, Lindt, Hershey’s e outras marcas compram os grãos produzidos ilegalmente dentro das áreas protegidas e parques nacionais da Costa do Marfim, país que perdeu 80% da sua cobertura florestal desde 1960.”

Nas cadeias de fornecimento, o cacau ilegal mistura-se com o de origem legal. Isto significa que produtos como os chocolates Ferrero Rocher, Milka, M&M’s, Kitkat, Nutella, Mars, entre outros, podem ser feitos com o cacau produzido à custa da destruição de florestas protegidas.

“Os resultados da nossa investigação comprometem quase todas as grandes marcas de chocolate”, escreveram os investigadores da Mighty Earth (ME), no seu relatório.

Uma seleção de chocolates de algumas das maiores empresas de chocolate do mundo, que a Mighty Earth ligou à desflorestação na Costa do Marfim | Foto: Alex Costa/Mighty Earth

Até 2030, deixará de haver florestas na Costa do Marfim

A Costa do Marfim – responsável por 40% da produção mundial de cacau – está a perder as suas florestas a um ritmo mais elevado do que qualquer outro país africano. De acordo com estatísticas e mapas do governo costa-marfinense, menos de 11% do país continua coberto por florestas e menos de 4% está densamente florestado.

“Se não forem tomadas medidas preventivas, até 2030, o país perderá todas as suas florestas, alerta a ME.”

“Muitas das florestas dos parques nacionais e das áreas protegidas da Costa do Marfim foram totalmente ou quase totalmente desflorestadas e substituídas por operações de cultivo de cacau”, escreve a organização. “Um estudo realizado por investigadores da Universidade de Ohio e diversas instituições académicas costa-marfinenses examinou 23 áreas protegidas do país e descobriu que sete delas tinham sido quase totalmente convertidas em plantações de cacau. Estima-se que mais de 90% do território destas áreas protegidas esteja coberto por cacaueiros.”

No Gana, a situação é semelhante. “Sem que sejam tomadas medidas, o Gana perderá todas as florestas restantes fora dos seus parques nacionais na próxima década.”

Florestas despojadas das suas árvores

Os vestígios desta desflorestação são bem visíveis. Dentro da floresta protegida de Monte Tia, “os cepos de enormes árvores antigas são tudo o que resta da floresta”, contam os jornalistas do The Guardian“Queimei-a pouco a pouco”, confessa um agricultor, explicando que os seus cacaueiros precisam de sol para crescer e que as árvores fazem sombra.

Nos últimos anos, a taxa anual de desflorestação dentro dos parques duplicou e, tanto na Costa do Marfim como no Gana, é duas vezes superior à desflorestação em áreas não-protegidas.

“O cacau é um monstro que, eventualmente, se devorará a si mesmo, dizem os cientistas.”

O impacto do chocolate na vida selvagem

A conversão de florestas em monoculturas de cacau tem dizimado as populações de elefantes, chimpanzés e outros animais selvagens em ambos os países.

Na Costa do Marfim, restam entre 200 e 400 elefantes de uma população original com centenas de milhares destes animais. O país orgulhava-se, em tempos, de possuir uma das taxas mais elevadas de biodiversidade do continente africano, com milhares de espécies endémicas.

De acordo com o estudo da Universidade de Ohio anteriormente referido, 13 das 23 áreas protegidas costa-marfinenses analisadas tinham perdido as suas populações de primatas e, em cinco áreas protegidas, metade das espécies de primatas tinham desaparecido.

Elefantes-da-floresta (Loxodonta cyclotis) | Foto: Thomas Breuer

Como noutros países, a caça furtiva é uma grande ameaça à sobrevivência dos elefantes. Devido à desflorestação provocada pela produção de cacau, estes animais foram empurrados para pequenos corredores de floresta, o que os deixa ainda mais vulneráveis aos caçadores furtivos.

Outros animais ameaçados pela rápida perda de habitat são os hipopótamos-pigmeus, esquilos-voadores, pangolins, leopardos e crocodilos.

“A toda a volta, costumava haver árvores, mas os agricultores queimaram-nas para plantar cacau”, conta um dos habitantes locais ao The Guardian. Quando ele era mais novo, costumava ver chimpanzés e elefantes a vaguear pelo parque nacional de Marahoué; hoje, não são estes os habitantes dos parques nacionais.

Vilas construídas dentro de parques nacionais protegidos

Os investigadores da ME depararam-se com um fenómeno que já é comum na Costa do Marfim. Trata-se do surgimento de vilas e aldeias, designadas “acampamentos”, dentro dos parques nacionais e florestas protegidas do país. Alguns destes acampamentos têm milhares de habitantes, escolas públicas, igrejas, mesquitas, lojas, centros de saúde – tudo isto perfeitamente à vista das autoridades governamentais.

Segundo algumas estimativas, existirão 50 aldeias ilegais só no parque nacional de Marahoué. “Os guardas-florestais têm a missão de garantir que nenhuma árvore é cortada, que nenhum animal selvagem é caçado e, certamente, que nenhuma aldeia é construída no parque”, escreve Ruth Maclean para o The Guardian“Estranhamente, parecem não reparar na chegada de tijolos e cimento para a igreja e para a mesquita, nem nos camiões carregados de grãos de cacau.”

A desflorestação “invade” as áreas protegidas da Costa do Marfim (Mighty Earth)

Um mundo de subornos

Ocasionalmente, no entanto, os guardas vão “à caça”: dirigem-se a uma plantação, capturam alguns agricultores todas as semanas e prendem-nos até que a comunidade pague pela sua libertação – 100 mil francos CFA ocidentais (150€) por pessoa ou 150 mil francos se forem apanhados com uma mota.

“Eles vêm às aldeias, recolhem o dinheiro – alguns milhões de francos de cada vez – e depois vão-se outra vez embora”, conta um dos habitantes locais.

Os subornos são a forma de estas pessoas permanecerem nas áreas protegidas. Segundo contaram ao jornal britânico, em maio, entregaram mais de 14 mil euros, o maior suborno até agora, ao chefe do OIPR (Office Ivorien des Parcs et Réserves).

Muitas das pessoas entrevistadas pela ME dizem que a Sodefor, a agência de proteção das reservas florestais, também está a lucrar com a desflorestação ilegal. “A Sodefor vem e pede-nos dinheiro e, se lho damos, não há problema”, conta um agricultor na área protegida de Goin Débé. “A Sodefor só nos diz para cultivarmos o cacau a alguns metros de distância da estrada para que a mesma pareça ter árvores.”

Em troca destes subornos, os agricultores podem ficar e produzir cacau, que vendem a compradores nas cidades vizinhas, os quais, por sua vez, o vendem a cooperativas. “No total, identificámos sete cooperativas que compraram o cacau [produzido] nas áreas protegidas que visitámos e que confirmaram que o vendem aos grandes comerciantes internacionais, Cargill, Olam e Barry Callebaut”, contam os investigadores da ME. Juntas, estas três empresas controlam cerca de metade do comércio global de cacau.

“Nem sequer perguntamos aos produtores de onde vem [o cacau]. As grandes empresas também nunca perguntam a sua origem”, diz um comprador de cacau.

O diretor da Sodefor estima que 40% do cacau da Costa do Marfim seja produzido em áreas protegidas. Em 2015, segundo estimativas da Universidade de Ohio, foram produzidas cerca de 177 400 toneladas de cacau nas 23 áreas protegidas analisadas. Uma vez que existem 244 áreas protegidas no país, o volume real deverá ser muito mais elevado.

O custo humano do chocolate

Nas plantações de cacau são comuns as violações dos direitos humanos. Estima-se que 2,1 milhões de crianças da África Ocidental trabalhem na colheita de cacau. Segundo o Departamento do Trabalho dos EUA, mais de 100 000 destas crianças passam pelas piores formas de trabalho infantil e cerca de 10 000 são vítimas de tráfico humano ou de escravatura.

“Há mais 21% de crianças a trabalhar ilegalmente nas explorações agrícolas de cacau no Gana e na Costa do Marfim do que havia há cinco anos”, disse o departamento.

Foto: Daniel Rosenthal

“Muitos [dos produtores de cacau] vivem em pobreza, sendo frequentemente explorados e mal pagos pelas suas colheitas”, conta o The Guardian“A maioria nem tem dinheiro para comprar um luxo básico no ocidente: uma barra de chocolate.”

Nos anos 80, os produtores recebiam, em média, 16% do valor de uma barra de chocolate. Hoje em dia, esse valor desceu para 6,6%. “São os ocidentais que comem chocolate, nós não”, afirmou um dos produtores.

Recentemente, o governo costa-marfinense intentou uma ação judicial contra a desflorestação causada pela produção de cacau, expulsando os produtores do Parque Nacional de Monte Péko. A organização Human Rights Watch declarou que os despejos tinham sido mal planeados e executados em violação das normas internacionais de direitos humanos. Hoje em dia, o parque voltou a ser ocupado por agricultores que explicam que só precisaram de pagar subornos mais elevados para poderem voltar a cultivar as suas terras no parque.

Os ativistas também têm sido avisados para não interferirem no negócio do cacau. Em 2004, o jornalista franco-canadiano Guy-André Kieffer, que trabalhava numa reportagem sobre o cacau e a corrupção, desapareceu. Acredita-se que tenha sido morto.

O que dizem as empresas?

Mighty Earth contactou 70 empresas do sector do chocolate relativamente às descobertas da sua investigação. “Nas suas respostas, nenhuma das empresas negou adquirir cacau de áreas protegidas ou contestou qualquer dos factos apresentados”, conta a organização. Algumas empresas reconheceram a necessidade de se agir, mas poucas revelaram medidas concretas.

No princípio deste ano, 34 das principais empresas do sector do chocolate juntaram-se ao Príncipe Charles de Gales e comprometeram-se a anunciar um plano, em novembro de 2017, para acabar com a desflorestação na indústria. “Poderá ser demasiado cedo para se ficar otimista, visto que as iniciativas anteriores para a sustentabilidade do cacau foram demasiado fracas para produzir resultados significativos em todo o sector”, defende a ME.

Alguns dos produtores de cacau já vivem nas áreas protegidas há décadas e um dos grandes problemas que a indústria e o governo precisam de abordar em novembro é a melhor forma de os reinstalar e de lhes encontrar novas ocupações.

O compromisso dos governos para proteger as florestas nacionais também é essencial. “As empresas por si só não podem resolver esta situação e o governo por si só não pode resolvê-la”, disse Richard Scobey do grupo World Cocoa Foundation.

Fonte – The UniPlanet de 15 de setembro de 2017

Quando os pecuaristas terão orgulho de mostrar suas fazendas na Amazônia?

Gado apreendido dentro dos limites da Flona do Jamanxim na Operação Boi Pirata (Foto: Nelson Feitosa/Ibama)Gado apreendido dentro dos limites da Flona do Jamanxim na Operação Boi Pirata (Foto: Nelson Feitosa/Ibama)

Cada vez mais os consumidores buscam informação sobre a origem dos produtos. Mas no Brasil muitos pecuaristas resistem a revelar de onde vêm seus bois

Em uma de nossas idas a trabalho à cidade de Madison, nos Estados Unidos, conhecemos o Graze (pastar, na tradução para o português), um restaurante que tem orgulho de mostrar a origem dos ingredientes que utiliza em sua culinária. Logo na entrada, nos impressionou um mapa do estado (Wisconsin) mostrando o restaurante conectado a dezenas de fazendas, suas fornecedoras de vegetais, carne, queijos e outros produtos. Já dentro do restaurante, bastante cheio, observamos um imenso painel com a foto do produtor homenageado do mês e as características de seus produtos e da fazenda. Curiosos, entramos no site do Graze e encontramos o mapa e a lista de suas fazendas fornecedoras.

Mostrar a fonte dos alimentos é uma tendência mundial, pois cada vez mais os consumidores buscam informação sobre a origem dos produtos que consomem, seja por preocupações com a qualidade, com o cuidado com os animais, com os trabalhadores ou com o impacto ambiental da produção.

Entretanto, no Brasil, muitos produtores rurais resistem a revelar o que há em suas fazendas. Problemas ambientais, trabalhistas e fiscais explicam essa resistência. Mas agora há uma batalha para aumentar a transparência sobre as fazendas como forma de eliminar esses problemas, especialmente na Amazônia, que abriga 40% do total do rebanho bovino nacional. Na região, cerca de 86 milhões de cabeças de gado pastam em 61 milhões de hectares, distribuídos em 400 mil fazendas. Os pastos equivalem a dois terços do desmatamento total na região, que muitas vezes é ilegal e em todos os casos libera uma enorme quantidade de fumaça quando a floresta é queimada. Para agravar a imagem da pecuária, o setor ainda lidera a ocorrência de trabalho escravo e conflitos de terra.

Como é difícil controlar tantos fazendeiros, a pressão contra o desmatamento e o trabalho escravo chegou aos frigoríficos que compram gado das fazendas e fornecem carne e subprodutos aos supermercados e açougues e couro para a indústria. Em 2009, o Ministério Público Federal (MPF) no Pará processou frigoríficos que compravam gado de áreas embargadas por desmatamento ilegal e alertou os receptadores da carne e do couro que eles também poderiam ser processados se continuassem a comprar dessas empresas. Ademais, o Greenpeace aumentou a pressão ao protestar contra grandes empresas que compravam desses frigoríficos.

Para não perder o mercado, 13 frigoríficos no Pará assinaram compromissos (Termos de Ajustamento de Conduta – TAC) de não comprar mais gado de áreas desmatadas após 2009 e a atender a outros quesitos, como ter registro no Cadastro Ambiental Rural – CAR (que contém um mapa da fazenda), não estar em Terras Indígenas e Unidades de Conservação (onde a existência de fazendas é proibida) e não constar nas listas de embargo do Ibama e de trabalho escravo do Ministério do Trabalho e Emprego. Desde então, o acordo se espalhou. Atualmente, metade dos frigoríficos na Amazônia, que somam 70% da capacidade de abate total na região, assinou o TAC da Pecuária. Para a metade que não assinou, que soma 30% da capacidade de abate, não encontramos evidências que estejam controlando a origem do gado. Após o acordo, o desmatamento caiu até 2012, mas desde então aumentou em 75% até 2016.

O sucesso do TAC é limitado pela falta de informação pública e confiável sobre as fazendas, a origem do gado e a implementação dos acordos por alguns dos frigoríficos.
Alguns dos frigoríficos signatários do TAC estão checando as informações da fazenda de engorda de onde compram o gado gordo – isto é, verificam se a fazenda está registrada no CAR, cruzam o mapa do CAR com o mapa do desmatamento e se a fazenda não está na lista de áreas embargadas do Ibama e a lista de trabalho escravo. Porém, as informações sobre o CAR não são plenamente confiáveis, pois o registro é declaratório. Por exemplo, ouvimos casos de que fazendeiros deixaram parte do desmatamento ilegal fora do mapa de seus imóveis, mas continuaram a usar a área desmatada ilegalmente. Encontramos ainda casos em que o fazendeiro redesenhou o mapa do imóvel depois do primeiro registro no CAR para omitir o desmatamento ilegal. Fazendeiros também declaram que criam gado em fazendas sem CAR (inclusive em Terras Indígenas e Unidades de Conservação) e depois vendem o gado por meio de fazendas com CAR; caracterizando uma lavagem do boi ilegal.

Esse tipo de manobra provavelmente explique por que a bancada ruralista queria substituir o ministro do Meio Ambiente depois que ele autorizou a divulgação dos polígonos dos imóveis registrados no CAR – o que é uma transparência parcial, pois o ideal seria divulgar inclusive quem são seus donos.  O medo da transparência fez o Confederação Nacional da Agricultura – que representa os produtores rurais – prometer processá-lo, afirmando que a “divulgação desses dados coloca em risco, inclusive, a segurança nacional”. Essa atitude contrasta com o consenso mundial de que a transparência fundiária ajuda os negócios, pois facilita as transações comerciais. Existe inclusive um ranking global da transparência dos bens imóveis que é publicado pela empresa pública JLL (Jones Lang LaSalle), sediada em Londres desde 1783. Dentre os 139 itens considerados no índice está a acessibilidade pública ao registro de imóveis. Entre 109 países, o Brasil é classificado como semitransparente, ocupando a 33ª posição, abaixo da China, na 32ª posição. Nos Estados Unidos (quarto na lista) os dados sobre os donos e os valores dos imóveis ficam disponíveis na internet.

Porém, mesmo que os mapas do CAR fossem perfeitos, apenas a checagem da fazenda de engorda não é suficiente para deter o desmatamento. Isso porque tais fazendas muitas vezes compram bezerros e novilhos de outras fazendas (chamadas de cria e recria) que não são verificadas pelos frigoríficos. O segundo maior frigorífico do Brasil indicou que 50% dos bois abatidos em suas plantas na Amazônia Legal pastaram apenas em uma fazenda. A outra metade, ainda segundo esse frigorífico, passou por mais de uma propriedade antes de chegar ao frigorífico. E essa parte da produção segue desconhecida e sem monitoramento. Assim, o fazendeiro criador (um fornecedor indireto para o frigorífico) pode desmatar e não ser detectado pelo frigorífico.

Bebedouro para o gado. Com o suprimento de água, os bois não pisoteiam as margens dos rios (Foto: Divulgação - Pecsa)Bebedouro para o gado. Com o suprimento de água, os bois não pisoteiam as margens dos rios (Foto: Divulgação – Pecsa)

Uma forma de verificar a origem indireta do gado seria registrar a identidade e o histórico de criação de cada animal. Um animal rastreado é identificado após o nascimento e recebe um marcador (como um brinco ou uma cápsula inserida em seu estômago) que segue por todas as fazendas por onde passa. Assim, o frigorífico poderia checar se o boi gordo pastou em alguma fazenda desmatada ilegalmente – isso se as informações sobre as fazendas e do gado estivessem disponíveis publicamente.

Fazendeiros brasileiros que vendem para mercados mais exigentes, como a União Europeia, adotam o rastreamento individual dos animais (Serviço Brasileiro de Rastreabilidade da Cadeia Produtiva de Bovinos e Bubalinos – Sisbov). Mas a maioria dos fazendeiros não adota o rastreamento, pois o mercado nacional, responsável por cerca de 80% do consumo do gado brasileiro, não demanda. Além disso, houve intenso lobby do setor rural para enfraquecer o Sisbov, pois a pecuária também tem sido usada para sonegação fiscal, lavagem de dinheiro e corrupção, como mostram casos associados à Operação Lava Jato (JBS, petrolão).

O medo da transparência também faz políticos e fazendeiros barrarem o acesso ao único dado governamental sobre o transporte de gado entre as fazendas, as Guias de Trânsito Animal (GTA). Antes de transportar o gado, os fazendeiros devem preencher nas guias a quantidade de animais, a faixa de idade, a finalidade (se para engorda em outra fazenda, para abate etc.) e a identificação da origem (município, nome da fazenda, CPF ou CNPJ do proprietário) e do destino (município, nome da fazenda ou do frigorífico, CPF e CNPJ). Essa ficha acompanha o gado até o destino, e os dados, no final, são registrados pelo governo para ajudar na identificação de possíveis fontes de doenças, como a febre aftosa.

Embora os dados da GTA não identifiquem cada animal individualmente, eles ajudariam a identificar se uma fazenda comprou de outras onde ocorreu desmatamento e, assim, detectar riscos. Os órgãos de controle sanitário costumam negar o acesso público à GTA justificando que os fazendeiros passariam a fraudar o documento se soubessem que os dados são usados para o controle ambiental. Mas no Pará, o MPF demandou que a Adepará – Agência que emite as GTAs no estado – disponibilizasse as GTAs para que o Ibama avaliasse a venda de gado de áreas embargadas por desmatamento ilegal. A partir dessa informação o Ibama executou a Operação Carne Fria, que embargou frigoríficos acusados de comprar gado de fazendas embargadas. Infelizmente, o ministro do Meio Ambiente divulgou um vídeo dizendo que a operação foi inoportuna, pois o setor e a economia nacional já estavam bastante prejudicados pela Operação Carne Fraca, deflagrada uma semana antes, que revelou fraudes sobre a fiscalização da qualidade de carne.

Se os frigoríficos instalados na Amazônia operassem com capacidade máxima de produção, poderiam alimentar 16 milhões de pessoas anualmente. Dessa forma, é um risco e um custo muito alto para o setor seguir escondendo os bois a troco de irregularidades ambientais desnecessárias. Desnecessárias porque a Amazônia tem mais de 10 milhões de hectares de pastos degradados e a recuperação de partes deles seria suficiente para triplicar a produtividade, aumentando ganhos econômicos e reduzindo a pressão sobre a floresta (se acompanhada de fiscalização), sem a necessidade de derrubar uma árvore sequer. Enquanto isso não ocorre, os fazendeiros que desmatam ilegalmente, usam trabalho análogo a escravo e praticam corrupção, sonegação fiscal e lavagem de dinheiro consolidam uma imagem negativa do setor e continuam tentando esconder o boi. Até quando?

Quando os açougues, supermercados e restaurantes do Brasil e do mundo terão orgulho de mostrar as fazendas de gado de onde seus fornecedores compram gado na Amazônia?

Paulo Barreto e Ritaumaria Pereira são pesquisadores do Instituto do Homem e do Meio Ambiente da Amazônia (Imazon)

Fonte – Blog do Planeta de 11 de setembro de 2017

Como o Brasil sagrou-se campeão em corrupção e devastação ambiental?

 | Daniel Meneghetti/AENFoto: Daniel Meneghetti/AEN

O Brasil segue sendo o que parece ter sido programado para se tornar desde o princípio: uma terra que se arrasa e de onde se extrai rapidamente todas as riquezas por uma casta

Brasil: quinto maior país do globo em extensão territorial, com números de primeira grandeza. De um lado, abriga a maior floresta tropical do mundo, que garante o usufruto da maior reserva de água doce do mundo, com 12% do total disponível no planeta. De acordo com a Organização para Agricultura e Alimentação das Nações Unidas (FAO), esse porcentual é 42% superior ao da Europa. De outro, concentra maior produção de gado comercial do planeta – com mais de 215 milhões de animais – e a maior produção mundial de soja, revezando a primeira colocação com os EUA.

No gerenciamento das leis que regem a coexistência dessas grandiosidades até aqui, claramente paradoxais – floresta e água versus animais e soja –, temos outro expoente: a classe política brasileira, que responde pelos maiores crimes de corrupção mundiais.

O Brasil segue sendo o que parece ter sido programado para se tornar desde o princípio: uma terra que se arrasa e de onde se extrai rapidamente todas as riquezas por uma casta de privilegiados. No início, era a corte portuguesa que se fazia representada por exploradores enviados pelo império lusitano. Outros, como franceses, holandeses e espanhóis, tentaram o mesmo, mas nenhum, no entanto, foi páreo para a classe dominante que aqui já se instalara.

Fosse pela agricultura de subsistência, mineração, pecuária, exploração de madeira e afins, todas as atividades econômicas brasileiras foram, por séculos, “solodependentes”. Do pau-brasil ao café; do ouro à cana-de-açúcar, nosso território tem por mais de 500 anos servido aos senhores da terra. Desse período, pelo menos quatro séculos e meio, aproximadamente, solidificaram nossa cultura no trinômio extração mineral, desmatamento e plantio.

“Enganam-se aqueles que julgam ser o Sul do Brasil uma ilha de ética e prosperidade”

A maioria das famílias de imigrantes que nos séculos posteriores aqui chegaram também tirou da terra o sustento e seguiu com o mesmo comportamento destruidor aqui encontrado. Alemães, italianos e seus descendentes aniquilaram as florestas do Sul do Brasil no século passado. Nada mudou desde então; seguimos aprisionados no mesmo trinômio, reféns de um sistema político montado não para nos servir, mas para ser servido.

Quem poderia evitar a catástrofe se omitiu. Governantes eleitos e o Poder Judiciário foram historicamente omissos, quando não coniventes, na questão ambiental. E continuam sendo. De acordo com a revista Exame, estima-se que 80% da madeira comercializada no Brasil seja ilegal, ou “falsamente legal”. Na prática, o produto fornecido ao mercado vem de madeireiras que burlam os sistemas de controle do governo.

Mas como é possível tamanha falta de controle? Na verdade, é muito simples a resposta: Brasília governa para Brasília. A bancada ruralista que passou a dominar o governo (40% dos 513 deputados) enxerga o Brasil com o mesmo olhar espoliativo-extrativista secular. Mais do que isso: trata as autarquias públicas como se fossem uma extensão de seus negócios agrossilvopastoris. Vale deixar muito claro que não se faz aqui nenhuma crítica a partidos de direita ou de esquerda, já que o partido desses senhores seria melhor descrito como PPP, “partido do meu pirão primeiro“. O que aqui se critica é o descumprimento e a manipulação das leis ambientais.

Os comportamentos patrimonialistas e criminosos perpetrados pela classe política são a maior expressão do desprezo total pelos conceitos de cidadania, patriotismo e legado. O que lhes importa é o carpe diem da corte, como testemunhamos, estarrecidos, no caso da ruína financeira do Rio de Janeiro. Pedir que essa gente tenha escrúpulos com a natureza neste país é quase risível. Evidentemente que farão de tudo por seus interesses e o das suas bancadas que, ironicamente, se mantêm no poder graças aos seus “currais eleitorais” – termo duplamente adequado, pois, para eles, os eleitores não passam de gado. E, se somos todos gado, agro é realmente tudo neste país.

Enganam-se aqueles que julgam ser o Sul do Brasil uma ilha de ética e prosperidade. Veja-se, por exemplo, a irresponsabilidade e falta de consciência ecológica do governo do Paraná e da Assembleia Legislativa do estado, que desejam reduzir a Área de Proteção Ambiental (APA) da Escarpa Devoniana em 70%. Em Santa Catarina, uma medida provisória quer reduzir a área do Parque Nacional de São Joaquim em 20%, ou 17 mil hectares. Estamos falando de regiões com incidência das últimas áreas de Floresta com Araucária e Campos Naturais do planeta. Essas formações vegetais estão extremamente ameaçadas pela extinção e erosão genética e contam com menos de 1% de remanescentes em bom estado de conservação. Ironicamente, no Paraná, a mais alta honraria pública amplamente utilizada é chamada de Ordem do Pinheiro, uma referência à tão explorada árvore nativa, que enriqueceu muitas famílias tradicionais brasileiras.

Infelizmente, não são preocupações públicas que movem a maioria dos parlamentares. São objetivos de cunho privado que visam tão somente favorecer uma casta de privilegiados num país cujo sistema político faliu. Enquanto as reformas não vêm, é preciso que a Justiça brasileira ocupe seu lugar de maneira exemplar, não apenas em Curitiba, mas em todos os municípios e em todas as instâncias.

Fosse cumprido o artigo 225 da Constituição Federal – que trata do direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado –, certamente não estaríamos aqui lamentando um dos piores tipos de corrupção: aquela que nos rouba direitos inalienáveis e intergeracionais como nossa identidade cultural, qualidade do ar, da água e do clima.

Fonte – Giem Guimarães é empresário e diretor-executivo do Observatório de Justiça e Conservação de 23 de agosto de 2017

Reservas que podem ser reduzidas pelo Congresso são as que mais sofrem desmatamento

A Floresta Nacional do Jamanxim, no Pará, uma das unidades de conservação com maior índice de desmatamento na Amazônia (Foto: Divulgação/ICMBio)A Floresta Nacional do Jamanxim, no Pará, uma das unidades de conservação com maior índice de desmatamento na Amazônia (Foto: Divulgação/ICMBio)

Estudo mostra quais são as áreas protegidas da Amazônia que enfrentam desmatamento dentro de seus limites ou no entorno. A Jamanxim e as UCs do Amazonas estão na lista, mas as reservas estaduais são as mais vulneráveis

O Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) divulga nesta terça-feira (12) uma análise sobre o desmatamento nos limites e no entorno das unidades de conservação na Amazônia. O estudo mostra que as áreas protegidas mais ameaçadas estão na fronteira agrícola da Amazônia, nas proximidades de estradas e hidrelétricas – e muitas delas estão na mira do Congresso para ser reduzidas ou extintas.

O estudo avalia as unidades de conservação e Terras Indígenas (TI) em dois critérios. Um deles é o da “pressão” – é quando ocorre desmatamento dentro dos limites da área protegida, o que leva a desestabilização legal e ambiental da reserva.

Estas são as áreas protegidas com maior pressão na Amazônia:

1. APA Triunfo do Xingu (PA)
2. Florex Rio Preto-Jacundá (RO)
3. APA do Tapajós (PA)
4. Resex Jaci-Paraná (RO)
5. Flona do Amapá (AP)
6. Flona do Jamanxim (PA)
7. PES de Guajará-Mirim (PA)
8. ESEC da Terra do Meio (PA)
9. Parna Rio Novo (PA)
10. APA de Preseidente Figueiredo – Caverna do Moranga (AM)

A campeã de pressão por desmatamento é a Área de Proteção Ambiental Triunfo do Xingu, no Pará. Administrada pelo governo estadual, sofre pressão da pecuária extensiva. Outras unidades da mesma região, chamada Terra do Meio, próximas da BR-163 e da usina de Belo Monte, também estão na lista. Uma das unidade de conservação federais com mais pressão por desmatamento é a Floresta Nacional do Jamanxim, que o governo tentou reduzir por medida provisória e recuou posteriormente. Um projeto de lei no Congresso propõe diminuir a área da Jamanxim em mais de 300.000 hectares.

O outro critério é sobre as áreas protegidas ameaçadas. O Imazon definiu “ameaça” como as áreas protegidas com risco iminente de ter desmatamento dentro de deus limites. Esse risco é baseado no desmatamento que ocorre fora dos limites da reserva, em um raio de até 10 quilômetros. A mais ameaçada é a Floresta Nacional do Aripunã, o sul do Amazonas. Não por acaso, essa é uma das florestas que está na mira da bancada do Amazonas, que apresentou texto ao governo pedindo a redução ou extinção de sete reservas na região.

Estas são as áreas protegidas mais ameaçadas, segundo o estudo:

1. Flona do Aripunã (AM)
2. Flona do Iquiri (AM)
3. Parna Mapinguari (AM)
4. Parna dos Campos Amazônicos (AM)
5. TI Trincheira Bacajá (PA)
6. Flona de Itaituba (PA)
7. Florex Rio Preto-Jacundá (RO)
8. Flona do Trairão (PA)
9. Resex Guariba-Roosevelt (MT)
10. TI Karipuna (RO)

O desmatamento dentro de unidades de conservação e terras indígenas é ilegal. Muitas das áreas protegidas que constam nas listas foram criadas justamente para frear o desmatamento na área da fronteira agrícola ou no entorno de estradas.

Fonte – Bruno Calixto, Blog do Planeta de 12 de setembro de 2017

O lado obscuro do chocolate: a destruição das florestas da África

Frank Kehren

Quando degustamos a nossa barra de chocolate, milhares de hectares de florestas africanas já desapareceram, matando animais e ecossistemas inteiros. Árvores pertencentes a parques nacionais e zonas que deviam ser protegidas tornaram-se vítimas do desmatamento, para deixar espaço para a indústria do cacau.

A denúncia, múltipla, que aponta o dedo para a cumplicidade do governo da Costa do Marfim e para a desatenção das principais empresas produtoras de cacau internacionais, vem de um detalhado relatório da organização não governamental Mighty Earth.

Para a ONG, 80% das florestas da Costa do Marfim, principal exportadora de grãos de cacau, já que é de lá que chega 40% do chocolate mundial, desapareceram nos últimos 50 anos.

Não só: o chocolate que chega às nossas mesas é muitas vezes “ilegal”, pois uma parte dos grãos provêm de áreas que deviam ser protegidas, mas, graças a um sistema de corrupção e favoritismo, é misturado aos envios legais de grãos.

No relatório, são citadas dezenas de empresas, incluindo Mars, Nestlé, Lindt, Olam, Cargill, Barry Callebaut ou a italiana Ferrero, que, como especificou o jornal The Guardian, publicação que divulgou os dados em primeira mão, não negam o problema, explicando que têm consciência do fato e se dizem empenhadas em fazer de tudo para pôr fim ao desmatamento das reservas.

Florestas que, antigamente, eram exuberantes em todo o tipo de árvores e biodiversidade, como as de Goin Debé, Scio, Haut-Sassandra, Tai, os parques de Mont Peko e Marahoué, hoje estão pouco a pouco desaparecendo e são queimadas para deixar espaço para os grãos: assim, morrem dezenas de animais, os chimpanzés são forçados a viver em pequenos pedaços de terra, ou os elefantes diminuem drasticamente.

“As autoridades da Costa do Marfim às vezes são cúmplices ou ineficazes”, declarou a ONG. Rick Scobey, presidente da World Cocoa Foundation, não negou o fato, dizendo que “esse é um problema conhecido há anos. No início do ano, 35 empresas do setor decidiram unir as suas forças para lançar uma nova parceria com o governo marfinense e acabar com o desflorestamento em Gana e na Costa do Marfim”.

Enquanto isso, nos últimos meses, o preço do cacau no mercado caiu 30%, e o preço mínimo garantido aos produtores passou de 1.100 para 700 francos da Costa do Marfim (1,17 dólares), embora a demanda de chocolate permaneça em alta.

Na cadeia de produção, os comerciantes de cacau que vendem às grandes marcas se voltam cada vez mais a cultivadores ilegais, que cultivam as plantas em áreas protegidas, as mesmas onde a floresta tropical reduziu-se de 80% desde 1960 até hoje.

O produto ilegal, assim, é misturado durante o processo de fornecimento com os grãos de cacau lícitos, tornando difícil a rastreabilidade.

Com isso, porém, lembra o relatório, a Costa do Marfim (mas também Gana) está perdendo as suas florestas a uma taxa muito rápida: hoje, menos de 4% do país estão cobertos por florestas tropicais, enquanto, antigamente, o número chegava a pelo menos 25%. Para a Mighty Earth, se não se pôr fim a tudo isso até 2030, não restarão mais vestígios das florestas.

Dentro dos parques, os cultivadores ilegais, apesar das palavras e do empenho de executivos e empresas, continuam queimando árvores para favorecer o crescimento das plantas de cacau, já que elas precisam de muito sol para crescer. O governo diz que quer combater essa prática e se envolver na conservação dos parques, mas, de acordo com a ONG e publicações internacionais que monitoram o problema, concretamente, ele não faz muito.

Ao longo dos anos, alguns ativistas e associações que se aproximaram da cadeia de produção do cacau na África Ocidental foram ameaçados ou afastados, e, em 2004, o jornalista Guy-André Kieffer, que estava trabalhando em uma reportagem sobre chocolate e corrupção, desapareceu, provavelmente morto.

Nesse contexto, no qual, aliás, muitos dos trabalhadores das plantações não têm sequer o dinheiro para comprar uma barra de chocolate, uma data muito esperada pelas ONGs é o mês de novembro: lá, na cúpula do clima de Bonn, o assunto deve estar na pauta. No início do ano, o príncipe Charles convocou diretores delegados e dirigentes de 34 empresas do setor justamente para exortá-los a agir contra o desmatamento: então, a promessa foi a de um plano concreto a ser proposto durante o encontro na Alemanha.

A esperança, usando os termos de chocolate, é que, desta vez, realmente prevaleça a doce linha do compromisso, e não a amarga da indiferença.

Fontes – Giacomo Talignani, jornal La Repubblica / tradução Moisés Sbardelotto, IHU de 14 de setembro de 2017

O que são os ‘rios voadores’ que distribuem a água da Amazônia

Nuvens carregadasOs “rios voadores” estão acelerando devido ao aquecimento global e causando chuvas mais intensas. GERARD MOSS

Neste momento, rios poderosos levam umidade para vastas regiões da América do Sul. Mas eles não são rios comuns. São “rios voadores”.

É assim que são popularmente conhecidos os fluxos aéreos maciços de água sob a forma de vapor que vêm de áreas tropicais do Oceano Atlântico e são alimentados pela umidade que se evapora da Amazônia.

Eles estão a uma altura de até dois quilômetros e podem transportar mais água do que o rio Amazonas.

Esses rios de umidade, que atravessam a atmosfera rapidamente sobre a Amazônia até encontrar com os Andes, causam chuvas a mais de 3 mil km de distância, no sul do Brasil, no Uruguai, no Paraguai e no norte da Argentina e são vitais para a produção agrícola e a vida de milhões de pessoas na América Latina.

Mas como eles nascem e se movem? E quais efeitos podem ter?

Rio em meio à floresta amazônicaOs rios voadores atravessam rapidamente a atmosfera transportando água sob a forma de vapor para o sul do Brasil, norte da Argentina, Uruguai e Paraguai. GETTY IMAGES

Para entender isso, a BBC Mundo falou com José Marengo, meteorologista e coordenador geral de pesquisa e desenvolvimento do Centro Nacional de Monitoramento e Alerta de Desastres Naturais (Cemaden), e Antonio Nobre, pesquisador do Centro de Ciência do Sistema Terrestre do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), ambos do Brasil.

Alta velocidade

“O oceano Atlântico tropical norte é um oceano quente e sua evaporação é muito intensa”, explica Marengo.

“Você pode imaginar que existam ventos mais ou menos fortes, os ventos alísios, que transportam toda essa umidade nos níveis mais baixos da atmosfera”, diz.

“Em qualquer rio, há áreas muito tranquilas e outras de alta velocidade, que chamamos de jatos de rio”, conta o especialista.

“Quando um rio voador se encontra com os Andes, ele adquire uma maior velocidade em seu núcleo que constitui um low jet level – ou jato de baixo nível – , aquele que transporta uma maior quantidade de umidade mais rápido”.

“Então, ele faz uma curva para o sudeste e chega à Bacia do Rio da Prata, causando chuvas no local”.

Árvores que transpiram

Outro componente essencial dos rios voadores é a umidade produzida pelas árvores da floresta amazônica.

Em artigos, Nobre relatou a incrível função que estas árvores cumprem. “Medimos a evaporação da floresta em milímetros, como se estivéssemos medindo a espessura de uma folha de água acumulada no chão”.

“No caso da Amazônia, o número é de cerca de 4 milímetros por dia. Isso significa que, em um metro quadrado haveria quatro litros de água. Podemos usar esses dados para calcular quanto transpira uma árvore no mesmo período apenas calculando a área ocupada pela sua copa”, disse Nobre à BBC Mundo (o serviço em espanhol da BBC).

Uma árvore frondosa, com uma copa de 20 metros de diâmetro, transpira mais de 1.000 litros em um único dia, acrescenta.

Árvore na floresta amazônicaUma árvore frondosa, com uma copa de 20 metros de diâmetro, transpira mais de mil litros em um único dia. GETTY IMAGES

“Na Amazônia, temos 5,5 milhões de quilômetros quadrados ocupados por florestas nativas, com aproximadamente 400 bilhões de árvores dos mais variados tamanhos”.

“Nós fizemos a conta, que também foi verificada de forma independente, e surgiu o incrível número de 20 bilhões de toneladas (ou 20 bilhões de litros) de água que são produzidos todos os dias pelas árvores da Bacia Amazônica”.

O enigma do desmatamento

Mas muitas dessas árvores estão em perigo. Os últimos dados divulgados pelo Inpe indicam que o desmatamento está no seu nível mais alto desde 2008.

E uma das grandes incógnitas é o efeito que isso pode ter sobre os rios voadores. Os dados existentes não permitem que isso seja determinado.

“O que foi identificado é que as chuvas estão mais intensas”, disse Marengo à BBC Mundo.

“Imagine um ônibus que vai parando de lugar em lugar. Agora imagine um ônibus expresso que não para do início ao fim. O que estamos vendo é que as chuvas estão cada vez mais concentradas em alguns dias no sul do Brasil, norte da Argentina, Uruguai”, explicou o meteorologista.

“Parece que os ventos estão mais fortes, que o jato, os rios estão mais fortes. São as conclusões das projeções dos modelos climáticos para o futuro”.

“Isso que nos preocupa. Se houver chuvas mais intensas em áreas vulneráveis ​​como São Paulo ou Rio de Janeiro, a possibilidade no futuro de desastres naturais associados a fortes chuvas, como deslizamentos de terra e inundações em áreas urbanas e rurais, também aumenta”, adverte.

“No Brasil, esses fenômenos causam grandes perdas de vida”.

Chuva em outras frentes

Mas nem toda chuva na região centro-sul da América do Sul ocorre por causa dos rios voadores.

“A chuva do Uruguai, por exemplo, não é exclusivamente da Amazônia. Uma parte vem da Amazônia e outra das frentes frias do sul”, disse Marengo.

“Algo que não poderíamos identificar é o quanto de chuvas vem de uma determinada região. Por exemplo, para o sul do Brasil saem da Amazônia e de outras fontes, como as frentes frias ou brisa do oceano. Ou até mesmo por evaporação de regiões agrícolas do Centro-Oeste e Pantanal”.

“É uma das maiores questões: poder quantificar a água que sai da Amazônia para a Bacia do Prata, que inclui Uruguai, norte da Argentina e sul do Brasil.”

Área desmatada na AmazôniaEntre agosto de 2015 e julho de 2016, o desmatamento na Amazônia aumentou 29% em relação ao período anterior. GETTY IMAGES

Mas quando a chuva cai em um campo do Uruguai ou Argentina, talvez muitas pessoas não imaginam que parte dessa água começou sua viagem a milhares de quilômetros.

Neste sistema de interconexões tão delicado e profundo, fica claro por que é tão vital para todos proteger a floresta amazônica.

A importância destes fluxos de água se popularizou no Brasil graças ao projeto Rios Voadores, criado pelo aviador e ambientalista Gerard Moss.

Ele se inspirou nas investigações de Marengo e Nobre e voou milhares de quilômetros seguindo as correntes de ar, pegando amostras de vapor de água.

Moss queria que o conhecimento sobre esses fluxos chegasse ao sistema educacional. Seu programa já alcançou cerca de 900 mil crianças no Brasil.

Rios na AmazôniaA chuva no Uruguai ou no norte da Argentina deve-se, em parte, a essas árvores da floresta amazônica. GETTY IMAGES

“Fico feliz em ver que, depois de passar pelo programa, uma criança nota pela primeira vez uma grande árvore na frente de sua escola”, disse Moss à BBC Mundo.

“Antes, nem crianças nem adultos tinham a noção de que, sem os rios do céu, secam os rios da terra”, diz, por sua vez, Antonio Nobre.

“Não se entendia que os rios de vapor são tão vulneráveis ​​às perturbações humanas como outros rios”, acrescentou.

“E, principalmente, muitas pessoas não sabiam que as florestas que bombeiam umidade são essenciais para que os rios voadores sigam cruzando a atmosfera”.

Fonte – BBC Brasil de 01 de setembro de 2017

Desmatamento e uso de terras para agropecuária são negligenciados como contribuintes para as mudanças climáticas

desmatamento

No que diz respeito à luta contra as alterações climáticas, o foco muitas vezes depende da redução do uso de combustíveis fósseis e do desenvolvimento de fontes de energia sustentáveis. Mas um novo estudo da Universidade de Cornell mostra que o desmatamento e o uso subsequente de terras para agricultura ou pastagem, especialmente em regiões tropicais, contribuem mais para a mudança climática do que se pensava anteriormente.

O novo artigo, “Are the Impacts of Land Use on Warming Underestimated in Climate Policy? “, publicado em Environmental Research Letters , também mostra quão significativo esse impacto foi subestimado. Mesmo que todas as emissões de combustíveis fósseis sejam eliminadas, se as atuais taxas de desmatamento tropical se manterem firmes até 2100, ainda haverá um aumento de 1.5 graus no aquecimento global.

“Muita da ênfase da política climática é a conversão para a energia sustentável a partir de combustíveis fósseis”, disse Natalie M. Mahowald, principal autor e diretor de ambiente do meio ambiente para o Atkinson Center for a Sustainable Future. “É um passo incrivelmente importante a tomar, mas, ironicamente, as partículas liberadas da queima de combustíveis fósseis – que são gravemente prejudiciais para a saúde humana – têm um efeito refrescante sobre o clima. A remoção dessas partículas efetivamente torna mais difícil atingir as temperaturas mais baixas estabelecido no acordo de Paris “.

Ela disse que, além de eliminar os combustíveis fósseis, as comunidades científicas e políticas devem prestar atenção às mudanças no uso da terra, para acabar com o aquecimento global, já que os efeitos do desmatamento não são “insignificantes”.

Enquanto o dióxido de carbono coletado por árvores e plantas é liberado durante o corte e queima do desmatamento, outros gases de efeito estufa – especificamente óxido nitroso e metano – são liberados depois que as terras naturais foram convertidas em uso agrícola e humano. Os gases compõem o efeito da capacidade do dióxido de carbono de capturar a energia do sol na atmosfera, contribuindo para forçar a radiação – energia absorvida pela Terra versus energia irradiada – e um clima mais quente.

Como resultado, enquanto apenas 20 por cento do aumento do dióxido de carbono causado pela atividade humana se origina do uso do solo e da mudança da cobertura do solo, essa proporção de aquecimento do uso da terra (em comparação com outras atividades humanas) aumenta para 40 por cento, uma vez que as co-emissões como o óxido nitroso e o metano são tidos em conta.

“No curto prazo, o uso da terra tende a ter o dobro do forçamento radiativo, que deveria ter obtido do dióxido de carbono devido às co-emissões, então é duas vezes mais importante”, disse Mahowald.

A descoberta de Mahowald ressoa com um artigo anterior publicado em Global Biogeochemical Cycles em janeiro, “Interactions Between Land Use Change and Carbon Cycle Feedbacks,” , que mostrou que o carbono liberado por uma área desmatada é realmente duplicado ao longo do tempo porque o futuro potencial dessa área para funcionar como um sorvedouro natural – ou seja, um habitat que pode absorver dióxido de carbono da atmosfera – foi eliminado.

“Normalmente, as pessoas só pensam sobre o que está acontecendo agora quando pensam sobre o orçamento de carbono”, disse Mahowald. “Mas se você pensa sobre o que acontecerá ao longo da vida dessa terra, por muito tempo no futuro, você deve multiplicar essa conversão de terras por dois para entender o efeito líquido dele”.

À medida que a agricultura se expande em áreas tropicais e as pressões para transformar a floresta em terras agrícolas aumentam, Mahowald enfatiza a importância de usar prazos prolongados para avaliar o impacto que essas práticas têm no clima.

“Temos uma boa frase: o legado multicentenário das decisões atuais de uso da terra”, disse ela. “Quando pensamos nas mudanças climáticas, não podemos parar no final do século. As consequências continuam por mais alguns séculos”.

Fonte – David Nutt / Lindsey Hadlock, Cornell University / tradução e edição de Henrique Cortez, EcoDebate de 06 de setembro de 2017

Por que não dá para celebrar a queda do desmatamento

Gado na Floresta Nacional do Jamanxim, no Pará (Foto: Greenpeace)

Inflexão na taxa ainda não compensa subida dos dois anos anteriores; pior ainda, dados do Imazon apontam pressão de grileiros sobre áreas protegidas do sul do Amazonas que Eliseu Padilha quer tesourar

Só falta agora o Ministério do Meio Ambiente comemorar os dados de desmatamento do Imazon, publicados nesta terça-feira (22). O governo é crítico contumaz da ONG de pesquisas paraense, que criou o primeiro sistema independente de monitoramento da devastação da maior floresta tropical do mundo. Mas agora esse sistema, o SAD, deu uma notícia que interessa ao ministro Sarney Filho (PV-MA): a taxa de desmatamento em 2017, primeiro ano cheio de sua gestão, caiu 21%. Partiu soltar foguete?

Os dados do Imazon, publicados pelo site G1 e disponibilizados depois na página da organização na internet, de fato sinalizam que algo mudou em relação ao ano passado. O corte raso detectado pelo SAD entre agosto de 2016 e julho de 2017 foi de 2.834 quilômetros quadrados, contra 3.579 quilômetros quadrados nos 12 meses anteriores. A queda na degradação florestal, a destruição silenciosa que precede o desmatamento total, foi ainda mais expressiva: 41% (de 6.225 km2 para 3.671 km2).

Embora o SAD use satélites “míopes” para produzir seus alertas mensais de desmatamento e por isso não sirva para fazer cálculos de área desmatada, ele raramente diverge da tendência geral que será mostrada pelo Prodes, o sistema do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) que calcula a taxa oficial anual. Se alguém botasse uma arma na minha cabeça e me mandasse chutar um número, eu diria que o Prodes mostrará neste ano uma queda ao redor de 15% em relação a 2016.

O governo Temer botará sua máquina de propaganda e suas mãozinhas nervosas em ação para dizer que, ao contrário do que afirmam os ambientalistas, não há retrocesso algum em sua administração — vejam só, a taxa de desmatamento caiu, dir-lhes-ei. Sarney já vem batendo nessa tecla desde o retorno da tragicômica viagem presidencial à Noruega, em junho, quando chamou a imprensa num sábado de manhã para dizer, ao lado de um deputado ruralista, que está tudo bem com a Amazônia e que toda a culpa do desmatamento nos últimos dois anos é do governo Dilma.

“É cedo para falar em retomada da queda do desmatamento”, afirma Antônio Victor Fonseca, pesquisador do Imazon e coordenador do SAD. E é cedo por dois motivos.

Primeiro porque, embora seja a primeira desaceleração registrada pelo SAD em cinco anos, ela ainda é insuficiente para compensar a elevação de 62% em 2015 e de 7% em 2016. “Em 2016 tivemos a maior área estimada pelo SAD em seus oito anos de monitoramento”, disse o pesquisador. Supondo que a taxa oficial do Inpe mostre os mesmos 21% de queda apontados pelo sistema do Imazon, não compensará o aumento de 29% medidos pelo Prodes do ano passado e os 24% do ano retrasado. Com quase 8.000 quilômetros quadrados aferidos pelo sistema do Inpe (cujos dados não podem ser comparados com os do Sad devido à diferença de metodologia) em 2016, a trajetória de queda ainda está longe dos 4.500 quilômetros quadrados de 2012, ano de menor desmatamento já medido na Amazônia.

Segundo, porque o desmate detectado pelo Imazon em julho deste ano foi basicamente idêntico ao de julho de 2016. E o período onde as derrubadas ocorrem de fato é a partir de junho e julho, quando começa a estação seca (o “verão”) na Amazônia. “Entrar no verão amazônico com esse nível de desmatamento é algo que chama atenção”, diz Fonseca.

Isso não significa que o Ministério do Meio Ambiente não tenha feito sua parte. Após o colapso econômico produzido pelo governo Dilma, que levou o Ibama a perder 30% de ser orçamento em 2016, Sarney conseguiu botar para rodar um acordo feito por sua antecessora, Izabella Teixeira, para usar dinheiro do Fundo Amazônia (doação da Noruega) para a fiscalização ambiental. Prova de que o trabalho do Ibama em campo está surtindo efeito é que madeireiros da região de Novo Progresso emboscaram e incendiaram uma cegonheira com oito picapes do órgão ambiental em julho. Agora, a chefe de fiscalização do Ibama no sudoeste do Pará, Maria Luiza de Souza (apelidada de “diabo loiro” pelos criminosos ambientais da região) está ameaçada de morte.

Ocorre que aquilo que o governo dá com uma mãozinha nervosa ele tira com a outra. E ganha uma passagem de ida para Trairão quem adivinhar qual é a mão maior.

No mês passado, Temer deu dois presentões ao pessoal do setor de ocupação de terras públicas do Norte: primeiro, assinou uma lei que anistia toda a grilagem feita entre 2004 e 2011 e permite regularização de grandes áreas invadidas. Depois, mandou para o Congresso um projeto de lei entregando 350 mil hectares da Floresta Nacional do Jamanxim, no Pará, a pessoas que em sua maioria ocuparam o local após ele ser decretado área protegida (na semana passada, Sarney chamou de “erro” a criação da Flona).

Quando o poder público faz isso, indica que áreas protegidas não são mais sagradas e esvazia-as de sua principal função na Amazônia, que é conter a apropriação criminosa. Se uma unidade de conservação ou uma terra indígena não inibem a grilagem, nada mais inibirá: os invasores e especuladores entenderão que o crime compensa e partirão para o roubo de terras públicas onde quiserem. Esta é a receita para o desmatamento sair do controle — e não haverá diabo loiro que dê jeito nisso.

O pessoal parece já ter captado a mensagem do mesoclítico guru. Em 2017, pelo segundo ano consecutivo, unidades de conservação são a segunda categoria fundiária mais desmatada nos dados do SAD (com 22% de toda a derrubada registrada), atrás apenas de áreas privadas. A nova frente de pressão está no norte de Rondônia e no sul do Amazonas. Essa região é onde o ministro da Casa Civil de Temer, Eliseu Padilha, ele próprio acusado de grilagem de terras e suspeito de desmatamento ilegal, anda orquestrando com a bancada do Amazonas no Congresso o próximo ataque a áreas protegidas.

Cinco unidades de conservação no sul do Estado, criadas por Dilma Rousseff em 2016, estão na mira dos ruralistas. Essas áreas são parte de um lote de 3 milhões de hectares doado pelo Incra ao Ministério do Meio Ambiente em 2014 porque não interessavam a ninguém. Pelo visto agora interessam. As imagens de satélite parecem sugerir que elas estão sendo paulatinamente invadidas e desmatadas, a fim de criar um fato consumado e uma expectativa de regularização futura. Quem duvida pode olhar o último gato enfiado na proposta de lei de licenciamento ambiental em discussão no Congresso, que dispensa da exigência de licença qualquer propriedade rural “em regularização ambiental” (grileiros geralmente inscrevem seus grilos no Cadastro Ambiental Rural, de forma que, no papel, a terra roubada é uma propriedade “em regularização”).

Enquanto perdurar a aliança de Michel Temer com os ruralistas, a fiscalização do desmatamento estará condenada a empurrar a pedra montanha acima só para vê-la rolar montanha abaixo em seguida. Um ano de desaceleração na taxa pode ser conveniente para a propaganda. Mas esse número, como tudo na administração Temer, é insustentável.

Fonte – Claudio Angelo, Observatório do Clima de 22 de agosto de 2017