Desmatamento vai aquecer ainda mais o clima do planeta

Desmatamento de florestas vai provocar um aquecimento do clima global muito mais intenso do que o estimado originalmente, devido às alterações nas emissões de compostos orgânicos voláteis e as co-emissões de dióxido de carbono com gases reativos e gases de efeito estufa de meia-vida curta. Um time internacional de pesquisadores, com a participação do Instituto de Física da USP e na UNIFESP-Campus Diadema, calculou a forçante radiativa do desmatamento, levando em conta não somente o CO2 emitido, mas também o metano, o black carbon, a alteração no albedo de superfície e todos os efeitos radiativos conhecidos. O resultado final aponta que a temperatura vai subir mais do que o previsto anteriormente.

A pesquisa foi publicada recentemente na revista Nature Communications, e utilizou detalhados modelos climáticos globais acoplados à química de gases e partículas em alta resolução.  Descobriu-se que as emissões de florestas que resfriam o clima (compostos orgânicos voláteis biogênicos, os BVOCs) ficarão menores, implicando que o desflorestamento pode levar a temperaturas mais altas do que o considerado em estudos anteriores. O físico Paulo Artaxo, do IFUSP, um dos autores do estudo, afirma que a maior parte dos estudos dos impactos climáticos do desmatamento publicados anteriormente focou somente nas emissões de CO2. “Neste novo estudo, levamos em conta a redução das emissões de BVOCs, a emissão de black carbon, metano e os demais gases de efeito estufa de vida curta”, explica.

Esses BVOCs, segundo Artaxo, produzem partículas nanométricas que crescem, refletem radiação solar de volta ao espaço e esfriam o clima. Os BVOCs participam de complexas reações químicas e podem produzir ozônio e metano, ambos gases de efeito estufa de meia vida curta (SLCF) que aquecem o planeta. O estudo levou em conta todos estes fatores conjuntamente, além das mudanças no albedo de superfície, quando derrubamos uma floresta e a trocamos para pastagem ou plantações”, acrescenta.

Levando em conta todos estes fatores, observou-se que as emissões das florestas que esfriam o clima têm um papel enorme na regulação da temperatura do planeta. “Derrubando as florestas, acabamos com este efeito esfriador, e aumentamos o aquecimento global”. Artaxo coloca que o efeito global é de um aquecimento adicional de 0.8oC, em um cenário de desmatamento total. “Isso é um valor alto, comparável ao atual aquecimento médio global (cerca de 1.2oC) ocorrido com todas as emissões antropogênicas desde 1850”, diz o físico.

A figura abaixo mostra que esse aquecimento é desigual, sendo maior nos trópicos, onde foi previsto um aquecimento de cerca de 2 graus na Amazônia.

Luciana Rizzo, professora da Universidade Federal de São Paulo, campus de Diadema, outra co-autora do estudo, salienta que, nos trópicos, o efeito atual das emissões de VOCs resfriando o clima é mais forte do que em florestas temperadas. “Portanto, o desmatamento nos trópicos tem um efeito mais importante no clima global”, conclui.

Mais informações

O artigo na revista Nature Communications, Impact on short-lived climate forcers increases projected warming due to deforestation pode ser baixado livremente online no link:  https://www.nature.com/articles/s41467-017-02412-4

Para informações adicionais, contate o prof. Paulo Artaxo no fone (11)30917016, ou artaxo@if.usp.br. Este trabalho foi parcialmente financiado pela FAPESP através dos projetos temáticos AEROCLIMA e GoAmazon.

Figura com os efeitos radiativos dos aerossóis devido ao desmatamento global. Na figura à esquerda temos o efeito direto dos aerossóis e na direita o efeito indireto, ou seja, através das modificações nas nuvens. O papel das regiões tropicais é mais importante que o das florestas temperadas.

Figuras para ilustração

Anexos 
Fonte – Instituto de física da USP de 28 de fevereiro de 2017

Quase 600 cidades desmataram a Mata Atlântica entre 2015 e 2016

A Fundação SOS Mata Atlântica e o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) lançam hoje (13/12) o Atlas dos Municípios da Mata Atlântica, que traz um panorama da situação da cobertura vegetal do bioma nos 3.429 municípios da Mata Atlântica. O estudo indica que foram destruídos 30.569 hectares entre 2015 e 2016. Os desmatamentos aconteceram em 598 (17,4%) dos municípios do bioma. O Atlas avalia diferentes formações naturais que compõem a Mata Atlântica, como floresta, mangue e restinga.

Municípios baianos foram os que mais desmataram no período avaliado. Foram 12.420 hectares destruídos em 130 cidades, 40% do total dos desmatamentos no período. Localizada na Costa do Descobrimento, no sul da Bahia, Santa Cruz Cabrália (BA) foi responsável pela eliminação de 3.126 ha de florestas nativas, uma área de tamanho semelhante a Madre de Deus, o menor município do estado, que tem 3.220 ha de área total. A vice-liderança é de Belmonte (BA), com supressão de 2.122 ha.

Na sequência, completando as 10 primeiras posições do ranking nacional, estão Manuel Emídio (PI), com 1.281 ha desmatados; Wanderley (BA), com 1.180 ha; Porto Seguro (BA), com 856 ha; Águas Vermelhas (MG); com 753 ha; São João do Paraíso (MG), com 573 ha; Jequitinhonha (MG); com 450 ha; Canto do Buriti (PI); com 641 ha; e Alvorada do Gurguéia (PI), com 625 ha.

Segundo Marcia Hirota, diretora executiva da Fundação SOS Mata Atlântica, é lamentável que os municípios ainda permitam o desmatamento. “A Mata Atlântica é o bioma mais ameaçado do país, restam somente 12,4% da área original. Um total de 72% da população brasileira vive na Mata Atlântica, assim como mais da metade dos animais ameaçados de extinção do país. Ao desmatar, estamos prejudicando nosso próprio bem-estar e qualidade de vida”, afirma ela.

O estudo, que conta com patrocínio de Bradesco Cartões e execução técnica da empresa de geotecnologia Arcplan, apresenta a situação da cobertura florestal e o histórico do desmatamento nos 3.429 municípios dos 17 estados do bioma. Todas as informações estão disponíveis no site e aplicativo www.aquitemmata.org.br, que oferece uma busca personalizada por meio de mapas interativos e gráficos.

“Este aplicativo foi produzido para contribuir com as atividades de pesquisa, educação ambiental e mobilização. Qualquer pessoa pode ter acesso e conhecer o histórico da situação da Mata Atlântica local e ajudar a defendê-la”, afirma Flavio Ponzoni, pesquisador e coordenador do Atlas pelo INPE.

Sobre a Mata Atlântica

A Mata Atlântica está distribuída ao longo da costa atlântica do país, atingindo áreas da Argentina e do Paraguai nas regiões Sudeste e Sul. De acordo com o Mapa da Área de Aplicação da Lei nº 11.428, a Mata Atlântica abrangia originalmente 1.309.736 km2 no território brasileiro. Seus limites originais contemplavam áreas em 17 estados: PI, CE, RN, PE, PB, SE, AL, BA, ES, MG, GO, RJ, MS, SP, PR, SC e RS.

Sobre a Fundação SOS Mata Atlântica

A Fundação SOS Mata Atlântica atua desde 1986 na proteção dessa que é a floresta mais ameaçada do país. A ONG realiza diversos projetos nas áreas de monitoramento e restauração da Mata Atlântica, proteção do mar e da costa, políticas públicas e melhorias das leis ambientais, educação ambiental, campanhas sobre o meio ambiente, apoio a reservas e Unidades de Conservação, dentre outros. Todas essas ações contribuem para a qualidade de vida, já que vivem na Mata Atlântica mais de 72% da população brasileira. Os projetos e campanhas da ONG dependem da ajuda de pessoas e empresas para continuar a existir. Saiba como você pode ajudar em www.sosma.org.br.

Sobre o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE)

O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) atua nas áreas de Observação da Terra, Meteorologia e Mudanças Climáticas, Ciências Espaciais e Atmosféricas e Engenharia Espacial. Possui laboratórios de Computação Aplicada, Combustão e Propulsão, Física de Materiais e Física de Plasmas. Presta serviços operacionais de monitoramento florestal, previsão do tempo e clima, rastreio e controle de satélites, medidas de queimadas, raios e poluição do ar.

O INPE aposta na construção de satélites para produção de dados sobre o planeta Terra, e no desenvolvimento de pesquisas para transformar estes dados em conhecimento, produtos e serviços para a sociedade brasileira e para o mundo. Também se dedica à distribuição de imagens meteorológicas e de sensoriamento remoto, e à realização de testes e ensaios industriais de alta qualidade. Além disso, o Instituto transfere tecnologia, fomentando a capacitação da indústria espacial brasileira e o desenvolvimento de um setor nacional de prestação de serviços especializados no campo espacial. Mais informações em www.inpe.br.

Informações completas sobre todos os municípios do bioma estão disponíveis no site www.aquitemmata.org.br.

Fonte – Envolverde de 13 de dezembro de 2017

Estudo associa desmatamento e queda de produtividade da pesca na Amazônia

Pesca e desmatamentoPescador mostra um tambaqui, espécie de peixe da Amazônia com alto valor econômico, que se alimenta principalmente das frutas de árvores das planícies de inundação da flroesta amazônica; estudo mostra que desmatamento reduz produtividade pesqueira. Foto: Leandro Castello / Virginia Tech

Destruição de florestas adjacentes aos rios reduz abrigo e alimento dos peixes, levando a declínio do rendimento pesqueiro; trabalho foi liderado por pesquisador brasileiro da Virginia Tech, nos EUA

A conversão da floresta amazônica em áreas de plantio e de pasto tem sido apontada como responsável por redução das chuvas, aumento das secas e degradação dos ecossistemas aquáticos. Agora, um novo estudo liderado por um cientista brasileiro nos Estados Unidos mostra que o desmatamento também tem impactos na produção comercial de peixes.

A pesquisa, publicada na revista científica Fish and Fisheries, revela uma queda na produtividade da produção pesqueira em rios adjacentes a áreas desmatadas. O trabalho foi liderado por Leandro Castello, professor da Faculdade de Recursos Naturais e Meio Ambiente da Virginia Tech (Estados Unidos), especialista em ecologia e conservação da pesca na Amazônia.

De acordo com Castello, a pesquisa mostra que a qualidade de conservação das áreas de florestas adjacentes aos rios – as chamadas várzeas, ou planícies de inundação da Amazônia – têm um papel fundamental para a produção de peixes.

“As florestas em planícies de inundações podem fornecer estruturas que protegem os peixes e servem como habitat para insetos que são o alimento de muitas das espécies de peixes. Essas florestas também produzem plantas que fornecem comida para alguns deles”, afirmou Castello.

Para descobrir se a destruição das florestas de planícies de inundação tem influência nas populações de peixes e na produção pesqueira, os cientistas cruzaram dois conjuntos de dados.

O primeiro deles incluiu informações sobre a produtividade pesqueira em um período de 12 anos ao longo de uma área de mil quilômetros quadrados, o mapeamento de 1500 lagos e entrevistas com pescadores locais. Com isso, foi possível mapear o rendimento da pesca nessas áreas ao longo dos anos. “Compilamos dados de cerca de 36 mil pontos diferentes e, com isso, produzimos um mapa que mostra de onde vinham os peixes”, explicou Castello.

Essas informações foram então cruzadas com dados de satélites da Nasa sobre características do habitat nessas áreas, para determinar se a presença de florestas tinha impacto sobre a produtividade pesqueira.

“Queríamos saber, essencialmente, se a nas áreas com florestas de várzea a produtividade da pesca é maior,  se é a mesma, ou se é menor do que em áreas onde essas florestas foram devastadas”, explicou Castello.

“Nossos resultados indicam que os lagos com florestas de várzea fornecem aos pescadores uma produtividade maior. Isso nos permite inferir que, quando as florestas são cortadas, o rendimento da pesca nesses lagos é reduzido. O desmatamento não é apenas uma questão terrestre – ele pode reduzir o número de peixes disponíveis para uma das populações mais pobres do mundo”, disse o cientista.

De acordo com Castello, para manter a produção de alimentos e a renda das populações ribeirinhas, é necessário proteger esses habitats.

“As planícies de inundação produzem mais peixe que qualquer outro sistema de água doce no mundo. Neste momento, a Amazônia é um caso único, já que a maior parte das suas várzeas ainda está intacta. Mas, se as florestas continuarem sendo derrubadas e os habitats modificados, isso reduzirá a quantidade de peixes que as pessoas têm para se alimentar e ganhar a vida. Se não protegermos essas áreas, vamos perder os rios e os peixes”, afirmou Castello.

Pesca e desmatamentoPescadores descansam às margens de um lago desmatado, onde as florestas foram substituídas por gramíneas. Foto: Leandro Castello / Virginia Tech

Gado e pesca

“O conflito entre a criação de gado e a gestão da pesca é uma preocupação compartilhada pelos habitantes das planícies de inundação, mas até agora não haviam sido feitos estudos rigorosos de como a perda de florestas afeta a produtividade da pesca nessas áreas”, disse outro dos autores do estudo, David McGrath, diretor do Instituto de Inovação da Terra (Estados Unidos).

“Esse estudo nos dá as ferramentas que precisamos para mostrar as trocas que existem entre a criação de gado e a gestão da pesca em planícies de inundação. Podemos utilizar esse trabalho para mostrar às comunidades o que elas perdem quando não há controle da densidade de gado nas várzeas e da conversão das florestas em pastos”, disse McGrath.

O estudo tem implicações diretas para a gestão e a conservação da Amazônia, de acordo com outra das autoras do estudo, Victoria Isaac, professora da Universidade Federal do Pará (UFPA), que foi responsável pela coleta de dados sobre a pesca.

“O uso da terra sem planejamento e outras interferências humanas estão modificando drasticamente a paisagem da Amazônia. As políticas para proteção do meio ambiente e para evitar o desmatamento deveriam ser mais robustas, para garantir a segurança alimentar das populações locais e a produtividade da pesca”, afirmou Victoria.

“Um estudo dessa escala sobre a pesca e a cobertura florestal ainda não havia sido feito na Amazônia. Foi muito importante descobrir uma forte evidência de associação entre desmatamento e queda no rendimento da pesca”, declarou outra das autoras da pesquisa, Laura Hess, pesquisadora do Instituto de Pesquisas da Terra, da Universidade da Califórnia (Estados Unidos).

Fonte – Fábio de Castro, O Estado de S. Paulo de 13 de dezembro de 2017

Desmatamento avança em 88 cidades do Paraná

 | Henry Milleo/ Gazeta do Povo/ ArquivoFoto: Henry Milleo/ Gazeta do Povo/ Arquivo

Levantamento da Fundação SOS Mata Atlântica aponta 3.468 hectares de mata foram suprimidos em um ano

O desmatamento não dá trégua no Paraná. Imagens de satélite analisadas pela Fundação SOS Mata Atlântica indicam que houve redução de floresta nativa, no período entre 2015 e 2016, em 88 cidades do estado. O levantamento identificou a derrubada de 3.468 hectares, uma área superior ao tamanho somado dos bairros curitibanos Boqueirão e Hauer. O levantamento leva em conta apenas áreas com mais de três hectares (três campos de futebol) e também somente áreas de floresta inalterada.

Os cinco municípios que registraram os maiores índices de desmatamento ficam na região Centro Sul do estado, que ainda concentra importantes remanescentes de Floresta de Araucária. Prudentópolis – que liderou no ranking no ano anterior, com 189 hectares – aumentou a pressão sobre a mata: agora foi identificado o corte de 326 hectares. Bituruna, segunda colocada no mais recente levantamento, com 242 hectares desmatados, é a cidade paranaense que mais supriu Mata Atlântica nos últimos 15 anos. Foram 5,8 mil hectares – equivalente a 36 vezes o tamanho do Parque Barigui.

No acumulado dos últimos 30 anos, o Paraná foi o estado que mais suprimiu Mata Atlântica, sendo responsável por um quarto de tudo o que foi derrubado deste tipo de formação florestal no país. No Brasil, restam menos de 12,5% da área original de Mata Atlântica. No Paraná, o índice cai para 8%.
Análise

A diretora executiva da SOS Mata Atlântica, Marcia Hirota, também coordenadora do levantamento, comenta que a repetição das mesmas regiões de desmatamento reforça a importância da fiscalização, por parte dos órgãos ambientais. “O alerta fica justamente para esses municípios em que continua acontecendo”, diz.

Procurado pela Gazeta do Povo, o Instituto Ambiental do Paraná (IAP) preferiu não comentar os resultados do estudo e informou que deve divulgar, nos próximos dias, um levantamento próprio.

Fiscalize

Com o entendimento de que o poder público sozinho não vai conseguir conter o desmatamento – e de que é preciso conhecer para preservar – a SOS Mata Atlântica elaborou um site em que os moradores de cada cidade conseguem verificar quais são as áreas nativas remanescentes. Basta consultar o endereço Aqui tem mata.

“É uma estratégia de aproximação, para mostrar que a floresta não está longe, está próxima”, explica. Marcia conta que o site tem sido usado como ferramenta de educação em muitas escolas.

Desmatamento da Mata Atlântica no Paraná

DETALHAMENTO POR MUNICÍPIO

Em hectares
* Área de mata atlântica
** Área desmatada entre 2015 e 2016

Município Área * Desmatamento **
Prudentópolis 35.082 326
Bituruna 22.833 242
Pinhão 25.554 221
Coronel Domingos Soares 38.096 179
General Carneiro 23.978 161
Guarapuava 42.377 151
Cruz Machado 26.788 129
Castro 32.097 126
Inácio Martins 25.457 110
Reserva do Iguaçu 23.196 104
São Mateus do Sul 16.068 97
Lapa 31.991 95
Reserva 19.593 80
Matelândia 31.149 79
União da Vitória 20.760 67
Boa Ventura de São Roque 4.840 63
Mallet 15.406 61
Doutor Ulysses 8.960 58
Campina do Simão 5.031 55
Turvo 18.399 53
Campina da Lagoa 4.164 47
Palmas 24.215 45
Laranjeiras do Sul 5.348 42
Imbituva 12.187 41
Rio Azul 11.846 40
Nova Tebas 3.047 38
São João do Triunfo 13.178 38
Ortigueira 30.644 35
Cândido de Abreu 17.841 34
Pitanga 17.155 31
Londrina 17.986 31
Nova Laranjeiras 14.173 31
Chopinzinho 12.117 29
Ivaí 6.503 28
Faxinal 9.052 26
Mangueirinha 13.497 26
Rio Negro 8.091 25
Tibagi 28.458 23
Itapejara d’Oeste 418 21
Telêmaco Borba 26.286 21
Guaraniaçu 12.413 20
Fernandes Pinheiro 7.056 19
Almirante Tamandaré 2.455 18
Sapopema 7.458 15
Ipiranga 11.264 15
Antônio Olinto 5.095 13
Pinhal de São Bento 512 12
Paulo Frontin 5.323 12
Verê 665 12
Irati 10.814 10
Porto Barreiro 2.052 10
Paula Freitas 7.419 9
Guamiranga 1.739 9
Jandaia do Sul 1.542 9
Braganey 1.867 8
Campo do Tenente 3.257 8
Cerro Azul 8.156 8
Coronel Vivida 3.149 8
Clevelândia 8.998 7
Bocaiúva do Sul 28.482 7
Pranchita 2.050 7
Luiziana 12.415 6
Tunas do Paraná 18.350 6
Capitão Leônidas Marques 1.063 6
Quitandinha 4.743 6
São Jerônimo da Serra 9.971 6
Mandirituba 4.814 6
Candói 16.193 5
Ampére 1.089 5
Boa Esperança do Iguaçu 619 5
Sengés 4.159 5
Iretama 4.189 5
Ventania 5.508 4
Goioxim 5.047 4
Ramilândia 2.878 4
Teixeira Soares 17.907 4
Marquinho 2.141 4
Piraí do Sul 9.028 4
Palmital 5.353 4
Honório Serpa 5.692 3
Planalto 2.256 3
Palmeira 14.546 3
Rebouças 6.148 3
Santa Maria do Oeste 5.947 3
Altamira do Paraná 2.279 3
Contenda 1.475 1
Santo Antônio do Sudoeste 1.204 1

Fontes – SOS Mata Atlântica / Katia Brembatti, Gazeta do Povo de 13 de dezembro de 2017

Infografia – Gazeta do Povo

Esquema ilegal de chineses na Amazônia repercute no ‘The Guardian’

Chineses foram denunciados nas ações do MPFChineses foram denunciados nas ações do MPF

Dois empresários chineses pagaram milhões de dólares para uma companhia brasileira que subornou funcionários ambientais de um estado da Amazônia para exportar ilegalmente madeiras preciosas para a China, noticia o jornal inglês The Guardian. Mas, “em um raro sucesso contra o aumento do desmatamento na Amazônia”, a polícia e os promotores brasileiros conseguiram parar o esquema antes das exportações. Os danos evitados superariam R$ 100 milhões.

No total, 31 pessoas foram denunciadas por crimes contra o sistema financeiro, lavagem de dinheiro, organização criminosa, corrupção ativa e passiva, inserção de dados falsos em sistema de informações e falsidade ideológica. Entre elas, os dois empresários chineses, empresários brasileiros, autoridades de meio ambiente e ex-chefe do instituto de licenciamento ambiental do estado do Amapá.

Foram identificados investimentos na empresa Pangea feitos pelos chineses Xiaoliang Xu e Xie Ping com a finalidade de exportar madeira em larga escala para a China. Sílvio Veriano Porto, sócio da empresa Pangea Mineração, confirmou, em depoimento, o recebimento de pelo menos R$ 10 milhões, em espécie ou em contas de terceiros. Os chineses foram denunciados nas ações do MPF e contra Xiaoling Xu há, ainda, pedidos de prisão preventiva e de inclusão do seu nome na lista vermelha de procurados da Interpol.

Confira a reportagem na íntegra

Brazilian police foil million-dollar fraud to export precious Amazon wood to China

Fonte – Jornal do Brasil de 18 de dezembro de 2017

Desmatamento do cerrado é economicamente irracional

Estudo mostra que milhões de hectares da soja plantada no cerrado estão em áreas de alto ou médio risco produtivoEstudo mostra soja plantada no cerrado em áreas de alto ou médio risco produtivo. Divulgação

Levantamento divulgado nesta terça (5) pelo Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) indica que boa parte do desmatamento no cerrado para a prática da agricultura é economicamente irracional.

Segundo o estudo do pesquisador Tiago Reis, 5,6 milhões de hectares da soja plantada no cerradoestão em áreas de alto ou médio risco produtivo, inadequadas para a agricultura por causa do clima e do solo. Essas áreas, que apresentam produtividade muito baixa, representam 27% de toda a área de soja no cerrado.

“Estamos cansados de saber que o desmatamento é irracional do ponto de vista social, e o levantamento mostra que ele também é irracional do ponto de vista econômico; essas são áreas para onde a agricultura não deveria se expandir”, diz Reis.

Os produtores não só estão plantando em áreas de baixa produtividade, onde o padrão de chuvas é irregular e o solo não é bom, como eles estão deixando de produzir em regiões mais adequadas para a agricultura, que já foram abertas para a pecuária e não “precisariam” ser desmatadas.

De acordo com o estudo do Ipam, apresentado durante o Seminário Nacional do Cerrado, 33 milhões de hectares de pastagens no cerrado estão em área de baixo risco produtivo (muito adequadas para agricultura). Isso corresponde a 58% de todas as pastagens plantadas do cerrado e equivale a quase 80% de toda a área de grãos no Brasil.

“É um desperdício, essas áreas poderiam ser utilizadas para a soja”, diz Reis. “E a pecuária poderia ser conduzida em áreas de baixa ou média produtividade agrícola, por exemplo, ou de forma mais intensiva.”

Ele aponta que o lucro operacional da soja em áreas já abertas é de R$ 423 por hectare, diante de R$ 100 por hectare da pecuária. Já o lucro operacional obtido em áreas onde a vegetação original é desmatada para se plantar soja no cerrado é muito menor: R$ 87 por hectare.

Segundo estimativas dos especialistas, mais de 50% da vegetação original do bioma já foi destruída –e o desmatamento vem acelerando nos últimos anos. No biênio 2014-2015, o desmate anual do cerrado foi de 10 mil quilômetros quadrados (equivalente a cinco municípios de São Paulo), mais de 50% superior à taxa de desmatamento da Amazônia.

Na região do Matopiba (que compreende os Estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia), há 7,7 milhões de hectares de pastagens em áreas de alta probabilidade de lucro para plantação de soja, aponta o estudo.

“Existe uma área enorme de pastagem no cerrado que poderia atender à demanda de produção agrícola até 2050 sem gerar desmatamento”, diz Arnaldo Carneiro, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia.

Hoje em dia, segundo Carneiro, 70% da expansão agrícola no cerrado já se dá em áreas de pastagens. Ele aponta para a necessidade de construir infraestrutura –armazéns e estradas– nessas regiões de pastagens, e não na proximidade de regiões de vegetação nativa, uma vez que a infraestrutura é um dos vetores da expansão agrícola.

Bernardo Pires, gerente de sustentabilidade da Abiove (Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais), aponta, no entanto, para a dificuldade de convencer os produtores a abrir mão de desmatar ou produzir em áreas já abertas sem oferecer incentivos econômicos para isso, e a complexidade de lidar com as cerca de 3 milhões de fazendas no cerrado.

Agropecuária no cerrado – Plantações e pasto disputam espaço

5,6 mi de hectares
de plantações estão em áreas de risco elevado (inadequadas para a agricultura), somando 27% de toda área produtiva do cerrado

33 mi de hectares
de pastagens plantadas no cerrado estão em áreas adequadas para agricultura (baixo risco)

7,7 mi de hectares
de pastagens no Matopiba (MA, TO, PI e BA) estão em área de elevada probabilidade de lucro para soja

51,9%
de toda soja plantada no Brasil está no cerrado

Fonte: Ipam, Mapbiomas

Fonte – Patrícia Campos Mello, Folha de S. Paulo de 06 de dezembro de 2017

Em 15 anos, Cerrado perde 11% de cobertura vegetal nativa por causa do desmatamento

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O resultado do desmatamento no Cerrado entre 2000 e 2015 é uma perda de 11% da cobertura da vegetação nativa do bioma, informa Tiago Reis, pesquisador no Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia – Ipam, e autor de um estudo recente que mede o desmatamento no Cerrado e na Amazônia. Segundo ele, o aumento do desmatamento no Cerrado nos últimos 15 anos representa “um prejuízo gigantesco, quase que inestimável para a sociedade brasileira e global, porque estamos perdendo uma quantidade inestimável de patrimônio genético, de capacidade de recarga de aquíferos e de formação de chuvas, que alimenta, abastece e permite a agricultura no bioma”.

Na entrevista a seguir, concedida por telefone à IHU On-LineReis expõe as causas doaumento do desmatamento e explica suas consequências negativas tanto para a tentativa brasileira de atingir as metas para o enfrentamento das mudanças climáticas, quanto para o abastecimento dos rios e aquíferos do país. “O solo do Cerrado tem algumas particularidades, ou seja, ele é fácil de se compactar, e o que predomina nesse solo é justamente sua capacidade de compactação. Então, quando se tira a vegetação nativa dessas áreas, o solo se compacta e com isso é mais difícil para a água da chuva, que já é escassa no bioma, abastecer os aquíferos e lençóis freáticos que abastem e mantêm o nível dos rios”, diz.

Reis informa ainda que o desmatamento do bioma se concentra no Mato Grosso e nos quatro estados que formam o MatopibaMaranhãoTocantinsPiauí e Bahia, ou seja, “aqueles quatro estados que, inclusive, receberam um plano de desenvolvimento agropecuário decretado em 2015, justamente para fomentar a construção de infraestrutura e direcionar a expansão das empresas”.

Thiago Reis é graduado em Relações Internacionais pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro – PUC-RJ e mestre em Política Ambiental pela University College Dublin, na Irlanda. Atualmente é pesquisador do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia – Ipam.

IHU On-Line — Como foi feito o estudo que identifica que o desmatamento do Cerrado foi maior que o da Amazônia entre 2000 e 2015? Como chegou a esse resultado?

Tiago Reis — O estudo foi feito com o cruzamento de dados oficiais de monitoramento do uso do solo, que já existiam. Então, usamos dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais – Inpe, que foram obtidos com o monitoramento do Cerrado entre os anos de 2000 e 2010, e depois usamos dados também do INPE para período de 2013 a 2015. Esses dados foram usados para submissão brasileira de nível de referência das emissões florestais para Convenção Quadro Para a Mudança do Clima, para captar recursos por resultados de redução de desmatamento sob mecanismo REDD+. Apesar de a submissão brasileira, chamada FREL Cerrado, utilizar apenas as áreas de fisionomia florestal, o dado espacial disponibilizado pelo INPE mostra todas as conversões de vegetação nativa, incluindo as fisionomias não florestais. Utilizamos esses dados e, como havia essa lacuna de informação entre 2010 e 2013, juntamos os dados do TerraClass Cerrado, que também é gerado pelo Inpe, e também complementamos com dados de alertas de desmatamento do Lapig da Universidade Federal de Goiás. Esses dados do INPE deverão compor um sistema a ser chamado Prodes Cerrado, com metodologia semelhante ao Projeto de Monitoramento do Desmatamento na Amazônia Legal por Satélite – Prodes da Amazônia, que já é divulgado anualmente. A diferença principal deverá ser o monitoramento de todos os tipos de vegetação nativa no bioma Cerrado, enquanto o Prodes Amazônia só monitora florestas..

Qual é o defeito desse processamento? O defeito é que não sabemos, exatamente, em que ano a conversão aconteceu, primeiro porque o dado de conversão do Inpe é bianual e, além disso, tem essa lacuna entre 2010 e 2013. Mas com o dado do TerraClass, que é de 2013, temos informações sobre o uso do solo e, com isso, é possível identificar que áreas são de pasto, agricultura, vegetação nativa, enfim, conseguimos separar o que são áreas remanescentes de vegetação nativa, do que são áreas convertidas para uso humano. Ao juntar esses dois dados conseguimos saber tudo o que foi convertido no período total, entre 2000 e 2015, mas não é possível saber com precisão em que ano essa conversão ocorreu.

IHU On-Line — Esse resultado já era esperado, considerando a realidade tanto do Cerrado quanto da Amazônia, especialmente porque os estudos apontam para um aumento do desmatamento do Cerrado nos últimos anos?

“Não existe esse pacote de políticas de combate ao desmatamento que temos para Amazônia, que é uma conquista para a sociedade brasileira e global, para o Cerrado”

Tiago Reis — O resultado foi um pouco surpreendente. A Amazônia tem uma área que é quase duas vezes e meia maior que a do Cerrado, mas é mais isolada, tem menos infraestrutura, é um local de difícil acesso e tem menos pessoas vivendo ali. O Cerrado, por outro lado, apesar de ser quase duas vezes e meia menor que a Amazônia, está mais permeado e habitado, tem estradas e ferrovias, ou seja, tem toda uma facilidade logística e produtiva que facilita o desmatamento. Além disso, tem todo um arcabouço de políticas públicas e acordos privados que incidem na Amazônia e não incidem no Cerrado; não existe esse pacote de políticas de combate ao desmatamento que temos para a Amazônia, que é uma conquista para a sociedade brasileira e global, para o Cerrado.

IHU On-Line — Pela análise dos dados, foi possível identificar em que regiões do Cerrado o desmatamento tem crescido significativamente nesses 15 anos?

Tiago Reis — Claramente o padrão e a fronteira de desmatamento se concentram no Cerrado do Mato Grosso e do Matopiba — MaranhãoTocantinsPiauí e Bahia—, aqueles quatro estados que, inclusive, receberam um plano de desenvolvimento agropecuário decretado em 2015, justamente para fomentar a construção de infraestrutura e direcionar a expansão das empresas. Essas são as duas regiões mais críticas, com um agravante para o Matopiba, porque no Cerrado do Mato Grosso as áreas que eram altamente aptas para a agricultura, áreas mecanizáveis, com topografia plana, já foram ocupadas. Logo, o que resta de remanescente do Cerrado no Mato Grosso são áreas de baixa aptidão agrícola ou com restrições topográficas para a mecanização.

IHU On-Line — Segundo o estudo, o Cerrado perdeu 236 mil quilômetros quadrados de mata nesse período. Qual é o significado desse valor considerando a extensão do Cerrado?

Tiago Reis — Estamos falando de cerca de 11% da área total do bioma. Perder 11% da cobertura de vegetação nativa de todo o bioma, em apenas 15 anos, é um prejuízo gigantesco, quase que inestimável para a sociedade brasileira e global. Isso porque estamos perdendo uma quantidade inestimável de patrimônio genético, de capacidade de recarga de aquíferos e de formação de chuvas, que alimenta, abastece e permite a agricultura no bioma. Não somos nem capazes de quantificar economicamente esse prejuízo.

IHU On-Line — Quais são as causas envolvidas no crescente desmatamento do Cerrado?

“O Brasil emitiu meio bilhão de dióxido de carbono, ou seja, já emitiu 40% do valor que precisamos reduzir para 2025”

Tiago Reis — Primeiro, diria que é essa facilidade de acesso, porque o Cerrado tem mais infraestrutura e ele está mais habitado, isto é, tem mais gente vivendo ali. Além disso, há um arcabouço de políticas públicasclaramente insuficientes, ou seja, temos poucas áreas protegidas publicamente no Cerrado — aproximadamente 8% do bioma está protegido em Unidades de Conservação de domínio público ou terra indígena, enquanto na Amazônia já temos mais de 50% do bioma em áreas protegidas.

Além disso, o Código Florestal estabelece que haja áreas de Reserva Legal, dentro de imóveis rurais  do bioma Amazônia com fitofisionomia florestal, de 80%. No Cerrado, no entanto, essa área é de 35% ou 20%, isto é, as únicas áreas do Cerrado em que as propriedades privadas têm que manter 35% de Reserva Legal são no Mato Grosso e em Tocantins, porque esses são os estados que fazem parte da Amazônia Legal. Na parte do Cerrado do Maranhão, que fica fora da Amazônia Legal, este percentual é de 20%, assim como na Bahia, em Goiás e em Minas Gerais. Então, isso agrava muito a situação, porque a maior parte deste desmatamento no Cerrado é legal, e o que não é legal é legalizável, porque todo o desmatamento precisa de licenciamento do órgão ambiental estadual. Mas como o Código Florestal permite esse desmatamento, não há dificuldades em desmatar, porque o produtor faz a solicitação e em dois ou três meses a licença sai. O produtor licencia para muito mais do que ele é capaz de desmatar naquele ano, assim ele vai desmatando aos poucos à medida que vai tendo recursos para isso.

Claramente esse arcabouço de política pública insuficiente é uma causa, e a infraestrutura — facilidade de acesso — é outro vetor que favorece o desmatamento. Também existe um processo associado, que é a especulação de terras — grilagem —, isto é, existem atores operando no Cerrado, principalmente nessa região do Matopiba, que é onde tem menos governança, porque nas fronteiras agrícolas existem menos instituições trabalhando. Esses atores ocupam terras públicas, desmatam e valorizam a terra. Com isso, essas terras posteriormente são vendidas para a agricultura e a pecuária. Claramente as produções agrícola e pecuária têm um papel nessa segunda fase: primeiro tem uma especulação e depois tem uma ocupação pelo uso agropecuário, mas essa especulação não existe sem a demanda da agropecuária, portanto não dá para dissociar esse processo.

IHU On-Line — Segundo o Ipam, a expansão da agropecuária no Cerrado tem sido feita sem planejamento territorial adequado. Quais são as dificuldades de fazer um planejamento adequado para a agropecuária no bioma?

Tiago Reis — Além das dificuldades, há falta de informação, ou até a falta de disseminação da informação. Ainda temos pouca informação e pouco conhecimento sobre o Cerrado. A Amazônia, por ser foco há mais tempo e ser valorizada e reconhecida pelo seu valor social, ambiental e econômico há mais tempo, tem mais instrumentos de monitoramento e de geração de dados do que o Cerrado. Por isso, o primeiro passo é aumentarmos esse ferramental, esse conjunto de instrumentos de monitoramento, como, por exemplo, tendo um Prodes do Cerrado, um TerraClass, que faz o monitoramento do uso do solo a cada dois anos, como tem na Amazônia. Esses são dados oficiais, porque extraoficialmente já temos trabalhado muito e a sociedade tem produzido uma iniciativa chamada Projeto de Mapeamento Anual da Cobertura e Uso do Solo do Brasil – MapBiomas, que tenta preencher essas lacunas de informações oficiais, mas é claro que ainda há vários ajustes que precisam ser feitos. Mas essa é uma produção muito interessante porque ela é colaborativa, envolve cerca de 30 organizações, fundações e empresas de tecnologia.

Então, como disse, faltam informações: precisamos ter mais informações, estudos, análises e monitoramento sobre o Cerrado, e essas informações precisam ser disseminadas e utilizadas pelos tomadores de decisão tanto do setor público quanto do privado — apesar de não ter todas as informações de que gostaríamos, já temos muitas informações. As empresas agrícolas poderiam utilizar essas informações para planejar a expansão de suas infraestruturas de armazenagem e de esmagamento de grãos. Por exemplo, se sou um trader de soja e tenho que construir silos de armazenagem e plantas de processamento de grãos, por que vou colocar essa infraestrutura em áreas de vegetação nativa, quando sei que tem, pelo menos, 30 milhões de hectares de pasto degradado, com alta aptidão agrícola no bioma Cerrado? Isso é inteligência territorial e precisa ser feito. Se uma empresa instala uma planta de processamento numa área de vegetação nativa, ela está emitindo um sinal de que quer que os produtores desmatem aquela área e produzam no local, porque existe uma questão de viabilidade econômica da produção que depende da distância entre as áreas produtivas e as plantas de processamento das empresas. Então, o tomador de decisão privada tem uma função muito importante de fomentar a produção agrícola em áreas que já estão abertas, pois existem áreas abertas onde pode ser feita a produção.

Do mesmo modo, os atores públicos podem usar as informações que já existem para fazer zoneamento ecológico econômico, para determinar quais são as áreas que vão receber incentivos econômicos e fiscais para a expansão ocorrer. O Plano Safra, que financia a agricultura brasileira de maneira altamente subsidiada, com o nosso dinheiro, deveria atentar para esse tipo de situação. Eu não gostaria de financiar a expansão agricultura para áreas de vegetação nativa, por exemplo. Existem informações e dados mostrando que muitas áreas desmatadas não estão sendo utilizadas. Se é assim, por que o financiamento público não poderia reorientar a expansão para esse tipo de área?

IHU On-Line — Qual é o impacto desse desmatamento para as mudanças climáticas? Como esses dados do desmatamento no Cerrado comprometem as metas nacionais do Brasil no enfrentamento das mudanças climáticas?

“O Cerrado é extremamente relevante para a mitigação e adaptação da mudança do clima”

Tiago Reis — O Brasil tem uma meta climática de chegar a 2025 emitindo 1,3 bilhão de toneladas de dióxido de carbono ou gases equivalentes. Hoje o Brasil está emitindo pouco mais de 2 bilhões e precisa começar a reduzir esse valor. O Brasil emitiu, em média anual entre 2000 e 2015, meio bilhão de toneladas de dióxido de carbono. Ou seja, se mantivermos este ritmo de desmatamento no Cerrado, chegaremos a 2025 com 40% de nossa meta da NDC já comprometida. E isso diz respeito a apenas a conversão em um bioma, não considera o desmatamento nos outros, tampouco os demais setores de emissão, como energia, resíduos, etc.

Cerrado sempre foi muito negligenciado em relação à capacidade de estoque de carbono, porque não se tinha a completa dimensão de quanto de carbono era estocado nas raízes das plantas do Cerrado, mas estudos publicados em 2016 e 2017 mostram que existe uma quantidade de carbono mais significativa abaixo e no solo do que acima do solo. O Cerrado é extremamente relevante para a mitigação e adaptação da mudança do clima, porque ele armazena muito carbono e tem resiliência, ou seja, é um bioma que queima naturalmente e rebrota e, nessa rebrota, remove carbono da atmosfera e presta esse papel de mitigação.

IHU On-Line — De outro lado, que impactos esse desmatamento gera para as bacias hidrográficas localizadas no bioma e quais são as consequências para os recursos hídricos em geral?

Tiago Reis —  O solo do Cerrado tem algumas particularidades, uma delas é que grandes porções são de fácil compactação. Então, quando se tira a vegetação nativa dessas áreas, incluindo formações campestres, o solo se compacta mais facilmente e com isso é mais difícil para a água da chuva, que já é escassa no bioma, infiltrar e abastecer os aquíferos e lençóis freáticos que abastecem e mantêm o nível dos rios. Algumas bacias importantes têm as nascentes no Cerrado, e outras recebem a águas que nascem no Cerrado.

Cerrado ocupa essa área central no Brasil, que é uma área mais alta e que tem muita sensibilidade para a recarga dos aquíferos. Então, quando a água da chuva cai, ela escorre, porque o solo está compacto, mas quando há vegetação, a chuva cai e infiltra no solo e abastece os lençóis freáticos. Isso já está registrado em diversas pesquisas, e as pessoas que vivem no Cerrado dizem que o volume de chuva em algumas regiões ainda é o mesmo de outros períodos, mas os rios têm baixado cada vez mais. O que explica isso? Quando chove, o rio enche de uma vez, a água vai embora e depois o rio quase seca. Então, a vegetação nativa tem o papel de regular o ciclo hidrológico, ou seja, permite a infiltração da água e mantém o rio mais equilibrado.

IHU On-Line — Hoje discute-se no Brasil a possibilidade do fim ao licenciamento ambiental para alguns empreendimentos. Que impacto isso pode gerar em termos de aumento do desmatamento?

Tiago Reis — Esta proposta de licenciamento que está tramitando no Congressodiminui a avaliação dos impactos para as atividades, quer dizer, muitas atividades que tinham de ser avaliadas no sentido de verificar que impactos geram, não serão mais analisadas, então essas atividades vão acontecer sem que sejam feitos estudos ambientais. O licenciamento ambiental é chamado de burocracia pelo setor produtivo, mas isso não é uma burocracia, ao contrário, trata-se de um princípio de precaução, uma salvaguarda em relação a algumas atividades que geram impactos ambientais. O que essas análises fazem é verificar possíveis impactos e prejuízos e encontrar maneiras de contornar e mitigar esses efeitos. Com o licenciamento ambiental é possível encontrar maneiras de resolver impactos ou verificar que uma atividade não pode acontecer em determinadas regiões, mas isso deixará de ser feito, e perderemos um instrumento de controle. Isso será um prejuízo para toda a sociedade.

Fonte – Patricia Fachin, IHU de 28 de novembro de 2017

O Cerrado está extinto e isso leva ao fim dos rios e dos reservatórios de água

Vista típica de hábitats de Cerrado. Chapada do Veadeiros, Goiás. Em primeiro plano campo sujo, seguido por campo úmido e vereda / mata de galeria. Foto: Cristiano de Campos Nogueira

Uma das maiores autoridades sobre o tema, professor da PUC Goiás diz que destruição do bioma é irreversível e que isso compromete o abastecimento potável em todo o País

Uma ilha ambiental em meio à metrópole está no Campus 2 da Pon­tifícia Universidade Católica de Goiás (PUC Goiás). É lá o local onde Altair Sales Barbosa idealizou e realizou uma obra que se tornou ponto turístico da capital: o Memorial do Cerrado, eleito em 2008 o local mais bonito de Goiânia e um dos projetos do Instituto do Trópico Subúmido (ITS), dirigido pelo professor.

Foi lá que Altair, um dos mais profundos conhecedores do bioma Cerrado, recebeu a equipe do Jornal Opção. Como professor e pesquisador, tem graduação em Antropologia pela Universidade Católica do Chile e doutorado em Arqueologia Pré-Histórica pelo Museu Nacional de História Natural, em Washington (EUA). Mais do que isso, tem vivência do conhecimento que conduz.

É justamente pela força da ciência que ele dá a notícia que não queria: na prática o Cerrado já está extinto como bioma. E, como reza o dito popular, notícia ruim não vem sozinha, antes de recuperar o fôlego para absorver o impacto de habitar um ecossistema que já não existe, outra afirmação produz perplexidade: a devastação do Cer­rado vai produzir também o desaparecimento dos reservatórios de água, localizados no Cerrado, o que já vem ocorrendo — a crise de a­bastecimento em São Paulo foi só o início do problema. Os sinais dos tempos indicam já o começo do período sombrio: “Enquanto se es­tá na fartura, você é capaz de re­partir um copo d’água com o ir­mão; mas, no dia da penúria, ninguém repartirá”, sentencia o professor.

“Memorial do Cerrado” – o nome deste espaço de preservação criado pelo sr. aqui no Campus 2 da PUC Goiás, é uma expressão pomposa. Mas, tendo em vista o que vivemos hoje, é algo quase que tristemente profético. O Cerrado está mesmo em vias de extinção?

Para entender isso é preciso primeiramente entender o que é o Cerrado. Dos ambientes recentes do planeta Terra, o Cerrado é o mais antigo. A história recente da Terra começou há 70 milhões de anos, quando a vida foi extinta em mais de 99%. A partir de então, o planeta começou a se refazer novamente. Os primeiros sinais de vida, principalmente de vegetação, que ressurgem na Terra se deram no que hoje constitui o Cerrado. Por­tanto, vivemos aqui no local onde houve as formas de ambiente mais antigas da história recente do planeta, principalmente se levarmos em consideração as formações vegetais. No mínimo, o Cerrado começou há 65 milhões de anos e se concretizou há 40 milhões de anos.

O Cerrado é um tipo de am­biente em que vários elementos vi­vem intimamente interligados uns aos outros. A vegetação depende do solo, que é oligotrófico [com nível muito baixo de nutrientes]; o solo depende de um tipo de clima especial, que é o tropical subúmido com duas estações, uma seca e outra chuvosa. Vários outros fatores, incluindo o fogo, influenciaram na formação do bioma – o fogo é um elemento extremamente importante porque é ele que quebra a dormência da maioria das plantas com sementes que existem no Cerrado.

Assim, é um ambiente que de­pen­de de vários elementos. Isso significa que já chegou em seu clímax evolutivo. Ou seja, uma vez degradado não vai mais se recuperar na plenitude de sua biodiversidade. Por isso é que falamos que o Cerrado é uma matriz ambiental que já se encontra em vias de extinção.

Por que o sr. é tão taxativo?

Uma comunidade vegetal é medida não por um determinado tipo de planta ou outro, mas, sim, por comunidades e populações de plantas. E já não se encontram mais populações de plantas nativas do Cerrado. Podemos encontrar uma ou outra espécie isolada, mas encontrar essas populações é algo praticamente impossível.

Outra questão: o solo do Cerrado foi degradado por meio da ocupação intensiva. Retiraram a gramínea nativa para a implantação de espécies exóticas, vindas da África e da Austrália. A introdução dessas gramíneas, para o pastoreio, modificou radicalmente a estrutura do solo. Isso significa que naquele solo, já modificado, a maioria das plantas não conseguirá brotar mais.

Como se não bastasse tudo isso, o Cerrado foi incluído na política de ex­pansão econômica brasileira co­mo fronteira de expansão. É uma á­rea fácil de trabalhar, em um planalto, sem grandes modificações geomorfológicas e com estações bem definidas. Junte-se a isso toda a tecnologia que hoje há para correção do solo. É possível tirar a acidez do solo utilizando o calcário; aumentar a fertilidade, usando adubos. Com isso, altera-se a qualidade do solo, mas se afetam os lençóis subterrâneos e, sem a vegetação nativa, a água não pode mais infiltrar na terra.

Onde há pastagens e cultivo, então, o Cerrado está inviabilizado para sempre, é isso?

Onde houve modificação do solo a vegetação do Cerrado não brota mais. O solo do Cerrado é oligotrófico, carente de nutrientes básicos. Quando o agricultor e o pecuarista enriquecem esse solo, melhorando sua qualidade, isso é bom para outros tipos de planta, mas não para as do Cerrado. Por causa disso, não há mais como recuperar o ambiente original, em termos de vegetação e de solo.

Mas o mais importante de tudo isso é que as águas que brotam do Cerrado são as mesmas águas que alimentam as grandes bacias do continente sul-americano. É daqui que saem as nascentes da maioria dessas bacias. Esses rios todos nascem de aquíferos. Um aquífero tem sua área de recarga e sua área de descarga. Ao local onde ele brota, formando uma nascente, chamamos de área de descarga. Como ele se recarrega? Nas partes planas, com a água das chuvas, que é absorvida pela vegetação nativa do Cerrado. Essa vegetação tem plantas que ficam com um terço de sua estrutura exposta, acima do solo, e dois terços no subsolo. Isso evidencia um sistema radicular [de raízes] extremamente complexo. Assim, quando a chuva cai, esse sistema radicular absorve a água e alimenta o lençol freático, que vai alimentar o lençol artesiano, que são os aquíferos.

Quando se retira a vegetação na­tiva dos chapadões, trocando-a por outro tipo, alterou-se o ambiente. Ocorre que essa vegetação introduzida – por exemplo, a soja ou o al­go­dão ou qualquer outro tipo de cul­tura para a produção de grãos – tem uma raiz extremamente superficial. Então, quando as chuvas caem, a água não infiltra como deveria. Com o passar dos tempos, o nível dos lençóis vai diminuindo, afetando o nível dos aquíferos, que fica menor a cada ano.

“As plantas  do cerrado são de crescimento muito lento. Quando Pedro Álvares Cabral chegou ao Brasil, os Buritis que vemos hoje estavam nascendo. eles demoram 500 anos para ter de 25 a 30 metros. também por isso, o dano ao bioma é irreversível”

Qual é a consequência imediata desse quadro?

Em média, dez pequenos rios do Cerrado desaparecem a cada ano. Esses riozinhos são alimentadores de rios maiores, que, por causa disso, também têm sua vazão diminuída e não alimentam reservatórios e outros rios, de que são afluentes. Assim, o rio que forma a bacia também vê seu volume diminuindo, já que não é abastecido de forma suficiente. Com o passar do tempo, as águas vão desaparecendo da área do Cerrado. A água, então, é outro elemento importante do bioma que vai se extinguindo.

Hoje, usa-se ainda a agricultura irrigada porque há uma pequena reserva nos aquíferos. Mas, daqui a cinco anos, não haverá mais essa pequena reserva. Estamos colhendo os frutos da ocupação desenfreada que o agronegócio impôs ao Cerrado a partir dos anos 1970: entraram nas áreas de recarga dos aquíferos e, quando vêm as chuvas, as águas não conseguem infiltrar como antes e, como consequência, o nível desses aquíferos vai caindo a cada ano. Vai chegar um tempo, não muito distante, em que não haverá mais água para alimentar os rios. Então, esses rios vão desaparecer.

Por isso, falamos que o Cerrado é um ambiente em extinção: não existem mais comunidades vegetais de formas intactas; não existem mais comunidades de animais – grande parte da fauna já foi extinta ou está em processo de extinção; os insetos e animais polinizadores já foram, na maioria, extintos também; por consequência, as plantas não dão mais frutos por não serem polinizadas, o que as leva à extinção também. Por fim, a água, fator primordial para o equilíbrio de todo esse ecossistema, está em menor quantidade a cada ano.

Como é a situação desses aquíferos atualmente?

Há três grandes aquíferos na região do Cerrado: o Bambuí, que se formou de 1 bilhão de anos a 800 milhões de anos antes do momento presente; os outros dois são divisões do Aquífero Guarani, que está associado ao Arenito Botucatu e ao Arenito Bauru que começou a se formar há 70 milhões de anos. O Guarani alimenta toda a Bacia do Rio Paraná: a maior parte dos rios de São Paulo, de Mato Grosso, de Mato Grosso do Sul – incluindo o Pantanal Mato-Grossense – e grande parte dos rios de Goiás que correm para o Paranaíba, como o Meia Ponte. Toda essa bacia depende do Aquífero Guarani, que já chegou em seu nível de base e está alimentando insuficientemente os rios que dependem dele. Por isso, os rios da Bacia do Paraná diminuem sua vazão a cada ano que passa.

Então, podemos ter nisso a explicação para a crise da água em São Paulo?

Exato. Como medida de urgência, já estão perfurando o Arenito Bauru – que é mais profundo que o Botucatu, já insuficiente –, tentando retirar pequenas reservas de água para alimentar o sistema Cantareira [o mais afetado pela escassez e que abastece a capital paulista]. Mesmo se chover em grande quantidade, isso não será suficiente para que os rios juntem água suficiente para esse reservatório.

Assim como ocorre no Can­tareira, outros reservatórios espalhados pela região do Cerrado – Sobradinho, Serra da Mesa e outros – vão passar pelo mesmo problema. Isso porque o processo de sedimentação no fundo do lago de um reservatório é um processo lento. Os sedimentos vão formando argila, que é uma rocha impermeável. Então, a água daquele lago não vai alimentar os aquíferos. Mesmo tendo muita quantidade de água superficial, ela não consegue penetrar no solo para alimentar os aquíferos. Se não for usada no consumo, ela vai simplesmente evaporar e vai cair em outro lugar, levada pelas correntes aéreas. Isso é outro motivo pelo qual os aquíferos não conseguem recuperar seu nível, porque não recebem água.

“Geologicamente sendo o mais antigo, seria natural que o Cerrado fosse o primeiro bioma a desaparecer. Mas isso em escala geológica, de milhões de anos. Mas, pelo que o sr. diz, a antropização [ação humana no ambiente] multiplicou em muitíssimas vezes esse processo de extinção.”

Sim. Até meados dos anos 1950, tínhamos o Cerrado praticamente intacto no Centro-Oeste brasileiro. Desde então, com a implantação de infraestrutura viária básica, com a construção de grandes cidades, como Brasília, criou-se um conjunto que modificou radicalmente o ambiente. A partir de 1970, quando as grandes multinacionais da agroindústria se apossaram dos ambientes do Cerrado para grandes monoculturas, aí começa o processo de finalização desse bioma. Ou seja, o homem sendo responsável pelo fim desse ambiente que é precioso para a história do planeta Terra.

Em que o Cerrado é tão precioso?

De todas as formas de vegetação que existem, o Cerrado é a que mais limpa a atmosfera. Isso ocorre porque ele se alimenta basicamente do gás carbônico que está no ar, porque seu solo é oligotrófico.

Diz-se que o Cerrado é o contrário da Amazônia: uma floresta invertida, em confirmação à definição que o sr. deu sobre o fato de dois terços de cada planta do Cerrado estarem debaixo da terra. Ou seja, a destruição do Cerrado é muito mais séria do que alcança a nossa visão com o avanço da fronteira agrícola. É uma devastação muito maior, porque também ocorre longe dos olhos, subterrânea.

Isso faz sentido, porque, na parte subterrânea, além do sequestro de carbono está armazenada a água, sem a qual não prospera nenhuma atividade econômica. A Amazônia terminou de ser formada há apenas 3 mil anos, um processo que começou há 11 mil anos, com o fim da glaciação no Hemisfério Norte. A configuração que tem hoje existe na plenitude só há 3 mil anos. A Mata Atlântica tem 7 mil anos. São ambientes que, se degradados, é possível recuperá-los, porque são novos, estão em formação ainda.

Já com o Cerrado isso é impossível, porque suas árvores já atingiram alto grau de especialização. Tanto que o processo de quebra da dormência de determinadas sementes são extremamente sofisticados. Uma semente de araticum, por exemplo, só pode ter sua dormência quebrada no intestino delgado de um canídeo nativo do Cerrado – um lobo guará, uma raposa. Como esses animais estão em extinção, fica cada vez mais difícil quebrar a dormência de um araticum, que é uma anonácea [família de plantas que inclui também a graviola e a ata (fruta-do-conde), entre outras].

As abelhas europeias e africanas são recentes, foram introduzidas no século passado. O professor Warwick Kerr, que introduziu a abelha africana no Brasil, na década de 1950, ainda é vivo e atua na Universidade Federal de Uber­lândia (UFU). São boas produtoras de mel, mas não estão adaptadas para fazer a polinização das plantas do Cerrado. As abelhas nativas do Cerrado, que não tem ferrão e são chamadas de meliponinas – jataí, mandaçaia, uruçu – eram os maiores agentes polinizadores naturais, juntamente com os insetos, em função de sua anatomia. Hoje estão praticamente extintas, como esses insetos, pelo uso de herbicidas e outros tipos de veneno, que combatiam pragas de vegetações exóticas em lavouras e pastagens. Quando se utiliza o pesticida para extinguir essas pragas também se mata o inseto nativo, que é polinizador das plantas do Cerrado. Por isso, se encontram muitas plantas nativas sem fruto, por não terem sido polinizadas.

A flora do Cerrado é geralmente desprezada. O que ela representa, de fato?

Nós vivemos em meio à mais diversificada flora do planeta. O Cerrado contém a maior biodiversidade florística. Isso não está na Amazônia, nem na Mata Atlântica, nem em uma savana africana ou em uma savana australiana. Nem qualquer outro ambiente da Terra. São 12.365 plantas catalogadas no Cerrado. Só as que conhecemos. A cada expedição que fazemos, cada vez que vamos a campo, pelo menos 50 novas espécies são descobertas. Dessas 12.365 plantas conhecidas, somos capazes de multiplicar em viveiro apenas 180. Isso é cerca de 1,5% do total, quase nada em relação a esse universo. E só conseguimos fazer mudas de plantas arbóreas.

Para as demais, que são extremamente importantes para o equilíbrio ecológico, para o sequestro de carbono e para a captação de água, não temos tecnologia para fazer mudas. Por exemplo, o capim-barba-de-bode, a canela-de-ema, a arnica, o tucum-rasteiro, esses dois últimos com raízes extremamente complexas. Se tirarmos um tucum-rasteiro, que está no máximo 40 centímetros acima do nível do solo, e olharmos seu tronco, vamos encontrar milhares ou até milhões de raízes grudados naquele tronco. Se tirarmos um pedaço pequeno dessas raízes e levarmos ao microscópio, veremos centenas de radículas que saem delas. Uma pequena plantinha com um sistema radicular extremamente complexo, que retém a água e alimenta os diversos ambientes do Cerrado. É algo que não se consegue reproduzir em viveiro, porque não há tecnologia. O que conseguimos é em relação a algumas plantas arbóreas.

Outro aspecto que indica que o Cerrado já entrou em vias de extinção é que as plantas do Cerrado são de crescimento muito lento. Uma canela-de-ema atinge a idade adulta com mil anos de idade. O capim-barba-de-bode fica adulto com 600 anos. Um buriti atinge 30 metros de altura com 500 anos. Nossas veredas – que existiam em abundância até pouco tempo – eram compostas de plantas “nenês” quando Pedro Álvares Cabral chegou ao Brasil, estavam nascendo naquela época e sua planta mais comum, o buriti, está hoje com 25 metros, 30 metros.

“Tragédia urbana começa com drama no campo”

Mas a tecnologia e a biotecnologia não fornecem nenhuma alternativa para mudar esse quadro?

Para se ter ideia da complexidade, vamos tomar o caso do buriti, que só pode ser plantado em uma lama turfosa, cheia de turfa, com muita umidade. Se o solo estiver seco, o buriti não vai vingar ali. Mas, mesmo se conseguíssemos plantar – o que é difícil, porque não existe mais o solo apropriado –, aquele buriti só atingiria a idade adulta e dar frutos depois de muitos séculos. Então, não tem como tentar dizer que se pode usar técnicas para revitalizar o Cerrado. Isso é praticamente impossível.

A interface do Cerrado, para falar em uma linguagem moderna, não é amigável para o uso da tecnologia conhecida. Não tem como acelerar o crescimento de um buriti como se faz com a soja.

Não dá para fazer isso, até porque as plantas do Cerrado convivem com uma porção de outros elementos que, para outras plantas, seriam nocivos. Por exemplo, certos fungos convivem em simbiose com espécies do Cerrado. Um simples fungo pode impedir a biotecnologia. Seria possível desenvolver, por meio de tecidos, tal planta em laboratório. Mas sem aquele fungo a planta não sobrevive. E com o fungo, mas em laboratório, ela também não se desenvolve. Ou seja, é algo extremamente complicado, mais do que podemos imaginar.

Mesmo que os mais pragmáticos menosprezem a importância de um determinado animal ou uma “plantinha” em relação a uma obra portentosa, como uma hidrelétrica, há algo que está sob ameaça com o fim do Cerrado, como a água. Isso é algo básico para todos. A contradição é que o Cerrado – assim como a caatinga e os pampas – não são ainda patrimônio nacional, ao contrário da Mata Atlântica, o Pantanal e a Amazônia. Há uma lei, a PEC 115/95 [proposta de emenda constitucional], de autoria do então deputado Pedro Wilson (PT-GO), que pede essa isonomia há quase 20 anos. Essa lei ajudaria alguma coisa?

Na prática, não poderia ajudar mais em nada, porque o que tinha de ser ocupado do Cerrado já foi. O bioma já chegou em seu limiar máximo de ocupação. Mas o governo brasileiro é tão maquiavélico e inteligente que, para evitar maiores discussões, no ano passado redesenhou todo o mapa ambiental brasileiro. Dessa forma, separou o Pantanal do Cerrado – embora o primeiro seja um subsistema do segundo –, transformou-o em patrimônio nacional e a área do Cerrado já ocupada foi ignorada e incluída no plano de desenvolvimento como área de expansão da fronteira agrícola. Ou seja, o Cerrado, em sua totalidade, já foi contemplado para não ser protegido.

O que os parques nacionais poderiam agregar em uma política de subsistência do Cerrado?

Existe um manejo inadequado dos parques existentes na região do Cerrado. Esse manejo começa com o fogo, quando se cria uma brigada para evitar incêndios no Parque Nacional das Emas, por exemplo. O fogo natural é importante para a preservação do Cerrado. Ora, se se trabalha com o intuito de preservar o Cerrado é preciso conviver com o fogo; agora, se se trabalha com a visão do agrônomo, o fogo é prejudicial, porque acentua o oligotrofismo do solo. O Cerrado precisa desse solo oligotrófico, mas, se o fogo é eliminado, as condições do solo serão alteradas e a planta nativa vai deixar de existir, porque o solo vai adquirir uma melhoria e aquela planta precisa de um solo pobre. Assim, quando se barra o uso do fogo em um parque de Cerrado, o trabalho se dá não com a noção de preservação do ambiente, mas dentro da visão da agricultura. Raciocina-se como agrônomo, não como biólogo.

Outra questão nos parques é que o entorno dos parques já foi tomado por vegetações exóticas. Entre essas vegetações existe o brachiaria, que é uma gramínea extremamente invasora que, à medida que espalha suas sementes, alcança até as áreas dos parques, tomando o lugar das gramíneas nativas. No Parque Nacional das Emas já temos gramínea que não é nativa, o que faz com que haja também vegetação arbórea, de porte maior, também não nativa. Os animais, em função do isolamento do parque, não têm mais contato com áreas naturais, como os barreiros, que forneceriam a eles cálcio e sais naturais. Quando encontramos um osso de animal morto em um parque vemos que está sem calcificação completa, porque falta esse elemento, que é obtido lambendo cinzas queimadas ou visitando os barreiros, que são salinas naturais em que existe esse o elemento. Geralmente há poucos barreiros nos parques, o que torna mais difícil a sobrevivência do animal, que acaba entrando em vias de extinção, o que está acontecendo.

Não há, em nenhum parque nacional criado, aumento da vegetação nativa ou da fauna nativa. O que há é a diminuição dos caracteres nativos daquela vegetação, bem como da fauna. Isso prova que esse isolamento não trouxe benefícios. O que poderia funcionar seria se essas áreas de preservação estivessem interligadas por meio de corredores de migração faunística. Isso evitaria uma série de erros cometidos quando se delimita uma área.

Mas, pelo que o sr. diz, hoje isso seria impossível.

Praticamente impossível, por­que as matas ciliares, que de­ve­riam servir como corredores ecológicos, de migração, foram totalmente degradadas. A maioria dos rios foi ocupada, em suas margens, por ambientes urbanos, com a presença do homem, que é um elemento extremamente predatório. Mais que isso: os sistemas agrícolas implantados chegam, em alguns locais, até a margem de córregos e rios, impedindo, também, a existência desses corredores de migração.

Fica, assim, um cenário praticamente inviável. É triste falar isso , mas, na realidade, falamos baseados em dados científicos, no que observamos. Sou o amante número um do Cerrado. Gostaria que ele existisse durante milhões e milhões de anos ainda, mas infelizmente não é isso que vemos acontecer. Se, por exemplo, você observar as nascentes dos grandes rios, verá que elas ou estão secando ou estão migrando cada vez mais para áreas mais baixas. Quando isso ocorre, é sinal de que o lençol que abastece essa nascente está rebaixando.

Observe, por exemplo, o caso das nascentes do Rio São Francis­co, na Serra da Canastra; o caso das nascentes do Rio Araguaia ou do Rio Tocantins, que tem o Rio Uru em sua cabeceira mais alta. A cada dia que passa as nascentes vão descendo mais. Vai ocorrer o dia em que chegarão ao nível de base do lençol que as abastece e desaparecerão.

Ao mesmo tempo em que o­cor­re esse fenômeno, temos um au­mento rápido do consumo de água.

Há o aumento da população. Mas, além do mais, o Cerrado entrou, nos últimos anos, por um processo extremamente complicado, que chamamos de desterritorialização. O grande capital chegou às áreas do Cerrado e expulsou os posseiros que lá moravam, por meio da falsificação de documentos, da negociata com cartórios e com políticos. Com a grilagem, adquiriu milhares de hectares e tirou os moradores antigos da região. Isso desestruturou comunidades inteiras.

Isso ainda ocorre em Goiás e em diversos lugares?

Ocorreu e está ocorrendo. E o que isso provoca? O aumento das cidades. Quase não há mais cidadezinhas na região do Cerrado, elas são de médio ou grande porte, porque a população do campo, desamparada e sem terra, veio para a zona urbana. Essas pessoas vêm buscar abrigo na cidade, que oferece a eles algum tipo de serviço. Na cidade, se transformam em outro tipo de categoria social: os sem-teto. Estes vivem aqui e ali, ocupando as áreas mais periféricas da cidade. Vão ocupar planícies de inundação, beiras de córregos, entre outros ambientes desorganizados.

Um homem que vive em um ambiente assim, que nasce, é criado e compartilha dessa desorganização, terá uma mente que tende a ser desorganizada. Ou seja, ao fazer a desterritorialização trabalhamos contra a formação de pessoas sadias. Formamos pessoas transtornadas, mutiladas mentalmente, ocupando as periferias. Não existe plano diretor que dê conta de acompanhar o desenvolvimento das áreas urbanas no Brasil, porque a cada dia chegam novas famílias nessas áreas.

Crescendo em um ambiente desorganizado, sem perspectivas para o futuro, essas pessoas acabam caindo em neuroses para a fuga. A neurose mais comum desse tipo é o uso de drogas. Acabam cometendo o que chamamos de atos ilícitos, mas provocados por uma situação socioeconômica de limitação, vivendo em ambientes precários. Essas pessoas constroem sua vida nesses locais, formam famílias e passam anos ou décadas nesses locais. Só que um dia vem um fenômeno natural qualquer – como El Niño ou La Niña – que, por exemplo, acomete aquele local com uma quantidade muito maior de chuva. Então, o córrego enche e encontra, em sua área de inundação, os barracos daquela população. Aí começa a tragédia urbana, com desabrigados e mortos. Aumenta, ainda mais, o processo de sofrimento no qual estão inseridas essas populações.

Hoje vejo muitos profissionais, principalmente arquitetos, falando em mobilidade urbana. Falam em construir monotrilhos, linhas específicas para ônibus, corredores para bicicletas, mas ninguém toca na ferida: o problema não está ali, mas na desestruturação do homem do campo. Quanto mais se desestrutura o campo, mais pessoas vêm para a cidade, que não consegue absorvê-las, por mais que se implantem linhas novas, estações e bicicletários. O problema está no drama do campo, não na cidade.

Antigamente, se usava a expressão “fixação do homem no campo”. Isso parece que ficou para trás na visão dos governos.

Desistiram porque o que manda é o grande capital. Os bancos estatais se alegram com as safras recordes, fazem propaganda disso. Eles patrocinam os grandes proprietários, só que estes não têm grande quantidade de funcionários, têm uma agricultura intensiva, mecanizada. Isso não ajuda de forma alguma a manter as pessoas na zona rural.

Uma notícia grave é a extinção do Cerrado. Outra, tão ou mais grave, que – pelo que o sr. diz – já pode ser dada, é que em pouco tempo não teremos mais água. A crise da água no Brasil é uma bomba-relógio?

A extinção do Cerrado envolve também a extinção dos grandes mananciais de água do Brasil, porque as grandes bacias hidrográficas “brotam” do Cerrado. O Rio São Francisco é uma consequência do Cerrado: ele nasce em área de Cerrado e é alimentado, em sua margem esquerda, por afluentes do Cerrado: Rio Preto, que nasce em Formosa (GO); Rio Paracatu (MG); Rio Carinhanha, no Oeste da Bahia; Rio Formoso, que nasce no Jalapão (TO) e corre para o São Francisco. Se há a degradação do Cerrado, não há rios para alimentar o São Francisco. Você po­de contar no mínimo dez afluentes por ano desses grandes rios que estão desaparecendo.

Como o sr. analisa a transposição do Rio São Francisco?

É um ato muito mais político do que científico. Ela atende muito mais a interesses políticos de grandes proprietários do Nordeste na área da Caatinga, no sertão nordestino. A transposição está sendo feita em dois canais, um norte, com 750 quilômetros e outro, leste, com pouco mais de 600 quilômetros. A água é sugada da barragem de Sobradinho (BA), através de uma bomba, para abastecer esses canais, com 10 metros de profundidade e largura de 25 metros. Ao fazer essa obra, se altera toda a mecânica do São Francisco: o rio, que corria lento, passa a correr mais rapidamente, porque está tendo sua água sugada. Seus afluentes, então, também passam a seguir mais velozes. Isso acelera o processo de assoreamento e de erosão.

Consequente­mente, aceleram a morte dos afluentes. Fazer a transposição do São Francisco simplesmente é estabelecer uma data para a morte do rio, para seu desaparecimento total. Podem até atender interesses econômicos e sociais de maneira efêmera, em curto prazo, mas em dez anos acabou tudo.

E será um processo rápido, assim?

Sim, é um processo de décadas. Basta ver o Rio Meia Ponte, na altura do Setor Jaó. Onde havia uma bonita cachoeira, na antiga barragem, há só um filete d’água. O nível da água do Meia Ponte é o mesmo do Córrego Botafogo há décadas atrás. Este praticamente não existe mais, a não ser por uma nascente muito rica no Jardim Botânico, que ainda o alimenta. Mas ele só parece mesmo exis­tir quando as chuvas o en­chem rapidamente. Mas, no outro dia, ele vira novamente um filete.

Goiânia foi planejada em função também dos cursos d’água. Tendo em vista o que ocorre hoje, podemos dizer que ela é, então, o cenário de uma tragédia hidrográfica?

Eu não diria que apenas Goiânia está realmente dessa forma. Mas foi toda uma política de ocupação do centro e do interior do Brasil que motivou essa ocupação desordenada, desde a época da Fundação Brasil Central, da Expedição Roncador–Xingu, depois a construção de Goiânia e de Brasília, a divisão de Mato Grosso e a criação do Tocan­tins. Isso é fruto do capital dinâmico que transforma a realidade. Vem uma urbanização rápida de áreas de campo, aumentando as ilhas de calor e, consequentemente, pela pavimentação, impedindo que as águas das chuvas se infiltrem para alimentar os mananciais que deram origem a essas mesmas cidades. Se continuar dessa forma, com esse tipo de desordenamento, podemos prever grandes colapsos sociais e econômicos no Centro-Oeste do Brasil. E não só aqui, mas nas áreas que aqui brotam.

O que significa quase toda a área do Brasil, não?

Sim, até mesmo a Amazônia. O Rio Amazonas é alimentado por três vetores: as águas da Cordilheira dos Andes, que é um sistema de abastecimento extremamente irregular; as águas de sua margem esquerda, principalmente do Solimões, que também é irregular, em que duas estiagens longas podem expor o assoreamento, ilhas de areias – ali foi um deserto até bem pouco tempo, chamado Deserto de Óbidos. Ou seja, o Amazonas é alimentado mesmo pelos rios que nascem no Cerrado, como Teles Pires (São Manuel), Xingu, Tapajós, Madeira, Araguaia, Tocantins. Estes caem quase na foz do Amazonas, mas contribuem com grande parte de seu volume. Ou seja, temos o São Francisco, já drasticamente afetado; o Amazonas, também afetado; e a Bacia do Paraná, afetada quase da mesma forma que o São Francisco, provavelmente com período de vida muito curto.

Será um processo tão rápido assim?

Uma vez que se inicia tal processo de degradação e de diminuição drástica do nível dos lençóis, isso é irreversível. Em alguns casos duram algumas décadas; em outros, até menos do que isso. Temos exemplos clássicos no mundo de transposições de rios que não deram certo e até secaram mares inteiros. No Mar de Aral, no Leste Europeu, há navios ancorados em sal. Sua drenagem é endorreica, fechada, sem saída para o oceano. A União Soviética, na ânsia de se tornar autossuficiente na produção de algodão, fez a transposição dos dois rios que abasteciam o mar. Resultado: no prazo de uma década, as plantações não vingaram, o mar secou e uma grande quantidade de tempestades de poeira e sal afetam 30 milhões de pessoas, causando doenças respiratórias graves, incluindo o câncer.

Com nossos rios, acontecerá o mesmo processo. A diferença é que o processo de ocupação aqui foi relativamente recente, a partir dos anos 1970. São 40 e poucos anos. Ou seja: em menos de meio século, se devastou um bioma inteiro. Não acabou totalmente porque ainda há um pouco de água. Mas, quando isso acabar, imagine as convulsões sociais que ocorrerão. Enquanto se está na fartura, você é capaz de repartir um copo d’água com o irmão; mas, no dia da penúria, ninguém repartirá. Isso faz parte da natureza do ser humano, que é essencialmente egoísta. Isso está no princípio da evolução da humanidade. A Igreja Católica chama isso de “pecado original”, mas nada mais é do que o egoísmo, apossar-se de determinados bens e impedir que outros usufruam deles. Isso já levou outros povos e raças à extinção. E pode nos levar também à extinção.

Até bem pouco tempo tínhamos duas humanidades: o homem-de-neanderthal, o Homo sapiens neanderthalensis; e o Homo sapiens sapiens. Hoje podemos falar também em duas humanidades: uma humanidade subdesenvolvida, tentando soerguer em meio a um lodo movediço; e outra humanidade, que nada na opulência. A questão é que, se essa situação persistir, brevemente teremos a pós e a sub-humanidade.

É um cenário doloroso.

É doloroso, mas são os dados que a ciência mostra. Tem jeito, tem perspectiva para um futuro melhor? Possivelmente, a saída esteja na pesquisa. Mas uma pesquisa precisa de um longo tempo para que apareçam resultados positivos. E nossas universidades não incentivam a pesquisa, o que é muito triste, porque essa é a essência de uma universidade.

O sr. vê, em algum lugar do mundo, trabalhos e pesquisas pensando em um mundo mais sustentável?

Não. O que existe é muito localizado e incipiente. Não tem grande repercussão. Mas, mesmo se fossem proveitosas, jamais poderiam ser aplicadas ao Cer­rado, que é um ambiente muito peculiar. Teria de haver pesquisa dirigida especialmente para nosso bioma. Como recuperar uma nascente de Cerrado? Eu não sei dizer. Um engenheiro ambiental também não lhe dará resposta. Nenhum cientista brasileiro sabe a resposta, porque não temos pesquisas sobre isso. Talvez poderíamos ter um futuro melhor se houvesse investimentos em pesquisa.

E a educação ocupa que papel nesse contexto sombrio?

Nós, como educadores, deveríamos pensar mais nisso – e eu penso: talvez ainda seja tempo de salvar o que ainda resta, mas se não dermos uma guinada muito violenta não terá como fazer mais nada. É preciso haver real mudança de hábitos e mudar a forma de observar os bens patrimoniais do planeta e da nossa região. A água tinha de ser uma questão de segurança nacional. A vegetação nativa, da mesma forma. Os bens naturais teriam de ser tratados assim também, porque deles depende o bem-estar das futuras gerações. Mas isso só se consegue com investimento muito alto em educação, mudando mentalidade de educadores. As escolas têm de trabalhar a consciência e não apenas o conhecimento. Uma coisa é conhecer o problema; outra, é ter consciência do problema. A consciência exige um passo a mais. Exige atitude revolucionária e radical. Ou mudamos radicalmente ou plantaremos um futuro cada vez pior para as gerações que virão.

Fonte – Marcelo Gouveia, Jornal Opção de 04 de outubro de 2017

Indústria do chocolate está a levar à destruição das florestas e áreas protegidas da Costa do Marfim

A indústria do chocolate está a impulsionar a destruição maciça e ilegal das florestas da Costa do Marfim e do Gana, avisa um novo relatório.

A indústria do chocolate está a impulsionar, indiretamente, a destruição maciça e ilegal de florestas na África Ocidental, especialmente na Costa do Marfim e no Gana, os dois maiores produtores de cacau do mundo, revelaram investigações da organização Mighty Earth e do jornal The Guardian.

“As empresas que fornecem cacau à Nestlé, Mars, Mondelez, Ferrero, Lindt, Hershey’s e outras marcas compram os grãos produzidos ilegalmente dentro das áreas protegidas e parques nacionais da Costa do Marfim, país que perdeu 80% da sua cobertura florestal desde 1960.”

Nas cadeias de fornecimento, o cacau ilegal mistura-se com o de origem legal. Isto significa que produtos como os chocolates Ferrero Rocher, Milka, M&M’s, Kitkat, Nutella, Mars, entre outros, podem ser feitos com o cacau produzido à custa da destruição de florestas protegidas.

“Os resultados da nossa investigação comprometem quase todas as grandes marcas de chocolate”, escreveram os investigadores da Mighty Earth (ME), no seu relatório.

Uma seleção de chocolates de algumas das maiores empresas de chocolate do mundo, que a Mighty Earth ligou à desflorestação na Costa do Marfim | Foto: Alex Costa/Mighty Earth

Até 2030, deixará de haver florestas na Costa do Marfim

A Costa do Marfim – responsável por 40% da produção mundial de cacau – está a perder as suas florestas a um ritmo mais elevado do que qualquer outro país africano. De acordo com estatísticas e mapas do governo costa-marfinense, menos de 11% do país continua coberto por florestas e menos de 4% está densamente florestado.

“Se não forem tomadas medidas preventivas, até 2030, o país perderá todas as suas florestas, alerta a ME.”

“Muitas das florestas dos parques nacionais e das áreas protegidas da Costa do Marfim foram totalmente ou quase totalmente desflorestadas e substituídas por operações de cultivo de cacau”, escreve a organização. “Um estudo realizado por investigadores da Universidade de Ohio e diversas instituições académicas costa-marfinenses examinou 23 áreas protegidas do país e descobriu que sete delas tinham sido quase totalmente convertidas em plantações de cacau. Estima-se que mais de 90% do território destas áreas protegidas esteja coberto por cacaueiros.”

No Gana, a situação é semelhante. “Sem que sejam tomadas medidas, o Gana perderá todas as florestas restantes fora dos seus parques nacionais na próxima década.”

Florestas despojadas das suas árvores

Os vestígios desta desflorestação são bem visíveis. Dentro da floresta protegida de Monte Tia, “os cepos de enormes árvores antigas são tudo o que resta da floresta”, contam os jornalistas do The Guardian“Queimei-a pouco a pouco”, confessa um agricultor, explicando que os seus cacaueiros precisam de sol para crescer e que as árvores fazem sombra.

Nos últimos anos, a taxa anual de desflorestação dentro dos parques duplicou e, tanto na Costa do Marfim como no Gana, é duas vezes superior à desflorestação em áreas não-protegidas.

“O cacau é um monstro que, eventualmente, se devorará a si mesmo, dizem os cientistas.”

O impacto do chocolate na vida selvagem

A conversão de florestas em monoculturas de cacau tem dizimado as populações de elefantes, chimpanzés e outros animais selvagens em ambos os países.

Na Costa do Marfim, restam entre 200 e 400 elefantes de uma população original com centenas de milhares destes animais. O país orgulhava-se, em tempos, de possuir uma das taxas mais elevadas de biodiversidade do continente africano, com milhares de espécies endémicas.

De acordo com o estudo da Universidade de Ohio anteriormente referido, 13 das 23 áreas protegidas costa-marfinenses analisadas tinham perdido as suas populações de primatas e, em cinco áreas protegidas, metade das espécies de primatas tinham desaparecido.

Elefantes-da-floresta (Loxodonta cyclotis) | Foto: Thomas Breuer

Como noutros países, a caça furtiva é uma grande ameaça à sobrevivência dos elefantes. Devido à desflorestação provocada pela produção de cacau, estes animais foram empurrados para pequenos corredores de floresta, o que os deixa ainda mais vulneráveis aos caçadores furtivos.

Outros animais ameaçados pela rápida perda de habitat são os hipopótamos-pigmeus, esquilos-voadores, pangolins, leopardos e crocodilos.

“A toda a volta, costumava haver árvores, mas os agricultores queimaram-nas para plantar cacau”, conta um dos habitantes locais ao The Guardian. Quando ele era mais novo, costumava ver chimpanzés e elefantes a vaguear pelo parque nacional de Marahoué; hoje, não são estes os habitantes dos parques nacionais.

Vilas construídas dentro de parques nacionais protegidos

Os investigadores da ME depararam-se com um fenómeno que já é comum na Costa do Marfim. Trata-se do surgimento de vilas e aldeias, designadas “acampamentos”, dentro dos parques nacionais e florestas protegidas do país. Alguns destes acampamentos têm milhares de habitantes, escolas públicas, igrejas, mesquitas, lojas, centros de saúde – tudo isto perfeitamente à vista das autoridades governamentais.

Segundo algumas estimativas, existirão 50 aldeias ilegais só no parque nacional de Marahoué. “Os guardas-florestais têm a missão de garantir que nenhuma árvore é cortada, que nenhum animal selvagem é caçado e, certamente, que nenhuma aldeia é construída no parque”, escreve Ruth Maclean para o The Guardian“Estranhamente, parecem não reparar na chegada de tijolos e cimento para a igreja e para a mesquita, nem nos camiões carregados de grãos de cacau.”

A desflorestação “invade” as áreas protegidas da Costa do Marfim (Mighty Earth)

Um mundo de subornos

Ocasionalmente, no entanto, os guardas vão “à caça”: dirigem-se a uma plantação, capturam alguns agricultores todas as semanas e prendem-nos até que a comunidade pague pela sua libertação – 100 mil francos CFA ocidentais (150€) por pessoa ou 150 mil francos se forem apanhados com uma mota.

“Eles vêm às aldeias, recolhem o dinheiro – alguns milhões de francos de cada vez – e depois vão-se outra vez embora”, conta um dos habitantes locais.

Os subornos são a forma de estas pessoas permanecerem nas áreas protegidas. Segundo contaram ao jornal britânico, em maio, entregaram mais de 14 mil euros, o maior suborno até agora, ao chefe do OIPR (Office Ivorien des Parcs et Réserves).

Muitas das pessoas entrevistadas pela ME dizem que a Sodefor, a agência de proteção das reservas florestais, também está a lucrar com a desflorestação ilegal. “A Sodefor vem e pede-nos dinheiro e, se lho damos, não há problema”, conta um agricultor na área protegida de Goin Débé. “A Sodefor só nos diz para cultivarmos o cacau a alguns metros de distância da estrada para que a mesma pareça ter árvores.”

Em troca destes subornos, os agricultores podem ficar e produzir cacau, que vendem a compradores nas cidades vizinhas, os quais, por sua vez, o vendem a cooperativas. “No total, identificámos sete cooperativas que compraram o cacau [produzido] nas áreas protegidas que visitámos e que confirmaram que o vendem aos grandes comerciantes internacionais, Cargill, Olam e Barry Callebaut”, contam os investigadores da ME. Juntas, estas três empresas controlam cerca de metade do comércio global de cacau.

“Nem sequer perguntamos aos produtores de onde vem [o cacau]. As grandes empresas também nunca perguntam a sua origem”, diz um comprador de cacau.

O diretor da Sodefor estima que 40% do cacau da Costa do Marfim seja produzido em áreas protegidas. Em 2015, segundo estimativas da Universidade de Ohio, foram produzidas cerca de 177 400 toneladas de cacau nas 23 áreas protegidas analisadas. Uma vez que existem 244 áreas protegidas no país, o volume real deverá ser muito mais elevado.

O custo humano do chocolate

Nas plantações de cacau são comuns as violações dos direitos humanos. Estima-se que 2,1 milhões de crianças da África Ocidental trabalhem na colheita de cacau. Segundo o Departamento do Trabalho dos EUA, mais de 100 000 destas crianças passam pelas piores formas de trabalho infantil e cerca de 10 000 são vítimas de tráfico humano ou de escravatura.

“Há mais 21% de crianças a trabalhar ilegalmente nas explorações agrícolas de cacau no Gana e na Costa do Marfim do que havia há cinco anos”, disse o departamento.

Foto: Daniel Rosenthal

“Muitos [dos produtores de cacau] vivem em pobreza, sendo frequentemente explorados e mal pagos pelas suas colheitas”, conta o The Guardian“A maioria nem tem dinheiro para comprar um luxo básico no ocidente: uma barra de chocolate.”

Nos anos 80, os produtores recebiam, em média, 16% do valor de uma barra de chocolate. Hoje em dia, esse valor desceu para 6,6%. “São os ocidentais que comem chocolate, nós não”, afirmou um dos produtores.

Recentemente, o governo costa-marfinense intentou uma ação judicial contra a desflorestação causada pela produção de cacau, expulsando os produtores do Parque Nacional de Monte Péko. A organização Human Rights Watch declarou que os despejos tinham sido mal planeados e executados em violação das normas internacionais de direitos humanos. Hoje em dia, o parque voltou a ser ocupado por agricultores que explicam que só precisaram de pagar subornos mais elevados para poderem voltar a cultivar as suas terras no parque.

Os ativistas também têm sido avisados para não interferirem no negócio do cacau. Em 2004, o jornalista franco-canadiano Guy-André Kieffer, que trabalhava numa reportagem sobre o cacau e a corrupção, desapareceu. Acredita-se que tenha sido morto.

O que dizem as empresas?

Mighty Earth contactou 70 empresas do sector do chocolate relativamente às descobertas da sua investigação. “Nas suas respostas, nenhuma das empresas negou adquirir cacau de áreas protegidas ou contestou qualquer dos factos apresentados”, conta a organização. Algumas empresas reconheceram a necessidade de se agir, mas poucas revelaram medidas concretas.

No princípio deste ano, 34 das principais empresas do sector do chocolate juntaram-se ao Príncipe Charles de Gales e comprometeram-se a anunciar um plano, em novembro de 2017, para acabar com a desflorestação na indústria. “Poderá ser demasiado cedo para se ficar otimista, visto que as iniciativas anteriores para a sustentabilidade do cacau foram demasiado fracas para produzir resultados significativos em todo o sector”, defende a ME.

Alguns dos produtores de cacau já vivem nas áreas protegidas há décadas e um dos grandes problemas que a indústria e o governo precisam de abordar em novembro é a melhor forma de os reinstalar e de lhes encontrar novas ocupações.

O compromisso dos governos para proteger as florestas nacionais também é essencial. “As empresas por si só não podem resolver esta situação e o governo por si só não pode resolvê-la”, disse Richard Scobey do grupo World Cocoa Foundation.

Fonte – The UniPlanet de 15 de setembro de 2017