Em um mês, o equivalente a 5 mil campos de futebol foram desmatados na Bacia do Xingu


A TI Ituna Itatá foi uma das mais desmatadas neste ano por conta da grilagem de terras|Juan Doblas-ISA

Destruição da floresta é resultado da abertura de áreas para garimpo, exploração agropecuária e grilagem de terras

O ritmo de desmatamento em março aumentou na Bacia do Xingu. Mesmo no inverno amazônico, debaixo de forte chuva, 5.238 hectares de vegetação natural foram destruídas em apenas um mês para exploração garimpeira, grilagem de terras, pecuária e a conversão de áreas de manejo florestal em lavoura de grãos.

Dividida entre os estados do Mato Grosso e o Pará, os padrões de desmatamento da Bacia do Xingu são distintos mas seguem a mesma tendência: polígonos menores na porção paraense, indicando incidência de garimpo e grilagem, e polígonos maiores no Mato Grosso, fruto da monocultura agropecuária.

A destruição de florestas no interior das áreas protegidas preocupa. No Pará, 86% do desmatamento aconteceu nessas regiões: dos 1.609 hectares derrubados no período, 492 foram em Terras Indígenas e 900 em Unidades de Conservação. “Esses números indicam a tendência do desmatamento de penetrar nessas áreas face ao esgotamento dos recursos nas demais regiões”, alerta Juan Doblas, assessor do ISA.

Os dados foram detectados pelo Sirad X, o novo sistema de monitoramento de desmatamento do ISA. [Saiba mais no Boletim nº2]

Campeã de desmatamento

A Área de Proteção Ambiental (APA) Triunfo do Xingu, no Pará, foi a área protegida mais desmatada no período. Ao todo, foram 900 hectares destruídos em março para abertura de pasto para pecuária, que se somam aos mais de 550 detectados em janeiro e fevereiro. O município de São Félix do Xingu, onde a UC incide, tem o maior rebanho bovino do Brasil e a APA constitui uma enorme reserva de recursos. A região possui o triste registro de ser a Unidade de Conservação mais desmatada no Brasil nos últimos anos.

A APA vem sendo desmatada de forma cada vez mais intensa – em sintonia com o aumento das exportações brasileiras de carne e o fortalecimento das grandes cadeias de frigoríficos. O maior polígono desmatado detectado em março, de mais de 800 hectares, indica um investimento mínimo de R$1 milhão só para realizar a derrubada da floresta.

A área, no entanto, não possui zoneamento nem plano de manejo. As operações de fiscalização, apesar de serem pontualmente efetivas, não conseguem estancar o desmatamento que vem crescendo de forma assustadora.

Biodiversidade da APA Triunfo do Xingu, Unidade de Conservação mais desmatada no Brasil, está em risco|Ideflor-Bio

Terras Indígenas em perigo

Garimpo no limite nordeste da TI Kayapo|Divulgação

Foi registrado um grande desmatamento no interior da Terra Indígena Trincheira-Bacajá, do povo Mebengokre Kayapo. Foram mais de 350 hectares, abertos por um grupo vindo do município de Pacajá, no Pará. “É especialmente preocupante pois revela a enorme sensação de impunidade em relação ao crime ambiental na região”, atenta Doblas.

É igualmente preocupante a extensão das áreas de garimpo na TI Kayapó [Saiba mais]. Os garimpeiros não mostram sinais de recuo e estão atingindo novas áreas, contaminando rios e colocando a saúde da população indígena em perigo. Em março, foram detectadas mais 34 áreas novas áreas de garimpo. A elevada cotação do ouro no mercado internacional sustenta essa atividade de forte risco e que implica em enormes prejuízos ambientais.

Fonte – Instituto Socioambiental de 02 de maio de 2018

Carne alemã contribui para desmatamento na América do Sul

Vista aérea de floresta desmatada próxima a Santarém, no Pará

“Há mais de 650 milhões de hectares já desmatados onde se pode cultivar soja”, diz relatório

Milhares de hectares de floresta sul-americana são desflorestados para cultivo de soja, que alimenta gado no país europeu, aponta relatório. Organização ambiental alerta para expansão da produção no Cerrado brasileiro.

A produção de carne na Alemanha está diretamente ligada ao desmatamento na América do Sul, aponta um relatório da organização de proteção ambiental Mighty Earth. Segundo o estudo, milhares de hectares do Gran Chaco – região na fronteira entre Argentina, Bolívia e Paraguai e que inclui parte do Pantanal brasileiro – são desflorestados para o cultivo de soja, planta que serve de alimento para o gado na Alemanha e em outros países da Europa.

Além do desmatamento, a organização acusa o uso de “enormes quantidades de fertilizantes químicos e pesticidas tóxicos, como o produto fitossanitário glifosato“.

Segundo a Mighty Earth, três quartos da soja produzida mundialmente são transformados em alimentos para animais. Em 2016, a Europa importou um total de 27,8 milhões de toneladas de soja da América Latina – grande parte, ou 3,7 milhões de toneladas de grãos e farinha de soja por ano, teve a Alemanha como destino.

“Assim que a soja chega à Alemanha, é comprada por produtores de ração para animais ou de carne e usada para criação de animais. De lá [dessas empresas], a soja chega a supermercados e restaurantes e é comprada pelos consumidores”, alerta a organização.

De acordo com a Mighty Earth, redes de supermercado na Alemanha com frequência vendem salsichas, Schnitzel e hambúrgueres como sustentáveis e de origem local. “[Mas] enquanto o frango e a carne suína e bovina vendidos por eles [supermercados] normalmente são criados na Alemanha, os alimentos desses animais costumam ser comprados a milhares de quilômetros de distância e, assim, têm consequências muito mais amplas para o meio ambiente”, diz a organização em um texto publicado em seu site.

Além do mercado alemão, a Holanda, a França e a Espanha estão entre os países que mais importam soja latino-americana, aponta a organização ambiental.

Cultivo de soja no Estado do Mato Grosso com uso de herbicidas

Soja na América Latina é cultivada com uso de herbicidas; foto mostra cultivo do grão no Cerrado

Desmatamento evitável

As pesquisas da Mighty Earth documentam como a soja plantada para a ração animal alemã faz avançar o desmatamento nos dois principais países produtores de soja na América do Sul, a Argentina e o Paraguai.

“Os resultados batem com o nosso estudo anterior sobre o desmatamento em grande escala para a produção de soja no Cerrado brasileiro e na Bacia Amazônica na Bolívia. Somados, esses quatro países são responsáveis pela maior parcela da produção de soja latino-americana”, constata a Mighty Earth.

O que é trágico no quadro pintado pelos ambientalistas americanos é que a destruição poderia ser “completamente” evitada. “Há mais de 650 milhões de hectares já desmatados só na América Latina, onde se pode cultivar soja ou criar gado sem ameaçar os ecossistemas nativos”, explica o texto.

“Especialistas que conseguiram praticamente eliminar o desmatamento para a soja na região amazônica do Brasil estimam que a ampliação do sistema de vigilância da floresta a outras regiões produtoras de soja latino-americanas – incluindo o Gran Chaco – custaria apenas entre 750 mil e um milhão de dólares”, afirma a Mighty Earth, citando a chamada “Moratória da soja”, pacto ambiental firmado em 2006 por ongs ambientais e empresas produtoras de soja, como a Cargill e a Bunge.

“Infelizmente, essa iniciativa se restringe apenas à região amazônica brasileira, possibilitando a continuidade do amplo desmatamento na Argentina, no Paraguai, na Bolívia e no Cerrado brasileiro”, acusa a organização.

Tina Lutz, consultora da Mighty Earth para florestas tropicais, afirma que, respostas dadas por empresas alemãs cujas cadeias produtivas ou de fornecimento incluem a soja evidenciaram que “não existe um sistema exato o suficiente para que as empresas reconheçam a origem da soja que utilizam ou para que constatem se os seus produtos contribuem para a destruição do meio ambiente”.

A Mighty Earth e outras organizações pedem que os produtores de soja ampliem o sistema da Moratória da Soja a outras áreas de produção do grão na América Latina, incluindo o Gran Chaco, a região amazônica da Bolívia e o Cerrado no Brasil.

Além disso, a organização também pede que empresas alemãs compradoras de soja aumentem o controle que têm sobre a origem do grão, contribuindo assim para a preservação das florestas.

“Já que 97% da soja usada para a produção de ração na Europa são importados, é responsabilidade da Europa exigir que essa soja não contribua para o desmatamento das florestas e [a destruição] dos ecossistemas locais”, diz a Mighty Earth.

Fontes – RK/dpa/ots/DW de 26 de março de 2018

Cana-de-Açúcar da Amazônia: Uma Ameaça à Floresta

Queima de cana de açúcar da indústria Jayoro, em Presidente Figueiredo, no Amazonas (Foto: Alberto César Araújo/Amazônia Real/2013). Leia mais aqui.

Na quinta-feira passada o Senado Federal surpreendeu pautando para esta terça-feira, 27 de março, a votação em plenário do projeto de lei que propõe abrir a Amazônia para plantio de cana-de-açúcar. Segue abaixo uma tradução da nossa carta que já estava aceita para publicação na revista Science em 30 de Março (1). Face à votação iminente, a Science publicou a carta online hoje, assim possibilitando a sua divulgação na Amazônia Real. Uma versão atualizada será publicada na revista impressa no dia 30. A Science é a segunda revista científica do mundo em termos de impacto, apenas superada pela revista Nature. Segue a tradução em português do texto original:

A vegetação da Amazônia varia de florestas densas a áreas de savana, e as florestas da região e sua biodiversidade são vulneráveis ao avanço contínuo das mudanças no uso da terra para agricultura e pecuária (2). No Brasil, o cultivo de cana-de-açúcar é atualmente proibido nos Biomas do Pantanal e Amazônia (3). A cana-de-açúcar está entre as culturas com os maiores aumentos de produção na última década, e o Brasil é o maior produtor de cana-de-açúcar do mundo, segundo dados da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura-FAO (4).

As plantações de cana estão projetadas para aumentar devido à demanda por biocombustíveis (5). Já têm demonstrado que as plantações de cana-de-açúcar ameaçam a biodiversidade, com seus efeitos se estendendo além das áreas cultivadas até as florestas adjacentes (6).

O Senado Federal agendou uma decisão para 2018 sobre um projeto de lei que propõe a abertura da região amazônica à cana-de-açúcar (7). Essa cultura seria supostamente plantada em áreas degradadas, em pastagens naturais da Amazônia e nos “hotspots” de biodiversidade no Cerrado. Devido aos possíveis efeitos catastróficos sobre a floresta amazônica e sobre a biodiversidade e os serviços ecossistêmicos da América do Sul e a produtividade agrícola do Brasil, instamos o Senado a não aprovar esse projeto.

Plantação de cana de açúcar da indústria Jayoro, em Presidente Figueiredo, no Amazonas (Foto: Alberto César Araújo/Amazônia Real/2013)

A ameaça da cana-de-açúcar é apenas uma das muitas causas de destruição da Amazônia (5). As florestas amazônicas desempenham um papel importante no clima da América do Sul, com contribuições substanciais de precipitação para a agricultura no sudeste do Brasil (8–9). Em médio e longo prazo, a perda florestal ameaçaria a própria produção agrícola e de biocombustíveis do Brasil, sendo a área com maior produção agrícola localizada no sul e sudeste do País (10), que depende do vapor de água da região amazônica (8–9).

Os tomadores de decisão políticos e as instituições nacionais e internacionais que financiam grandes empresas agrícolas não devem ser enganados pelo doce sabor de uma nova fronteira agrícola a ser explorada. Eles devem ser orientados pela necessidade de evitar a perda da biodiversidade da Amazônia, do patrimônio genético e dos valiosos serviços ecossistêmicos, incluindo a regulamentação climática para a área com a maior população e produção agrícola da América do Sul (10–11).

 Notas

1. Ferrante, L. & P.M. Fearnside. 2018. Amazon sugarcane: A threat to the forest; Sciencemag.

2. P. M. Fearnside, in Oxford Research Encyclopedia of Environmental Science, H. Shugart, Ed. (Oxford University Press, New York, 2017).

3. Brasil, Presidência da República, Decreto Nº 6.961, DE (17 de setembro de 2009).

4. Food and Agriculture Organization of the United Nations, Commodities by Country(2018).

5. P. M. Fearnside, in Biofuels and Neotropical Forests: Trends, Implications, and Emerging Alternatives, E.J. Garen, J. Mateo-Vega, Eds., (Environmental Leadership & Training Initiative, Yale University, New Haven, CT, 2009), p. 29–36.

6. L. Ferrante et al., J. Biogeogr. 44, 1911 (2017).

7. Brasil, Senado Federal, Projeto de Lei do Senado N° 626 (2011).

8. P. M. Fearnside. Ciênc. Hoje. 34, 63 (2004).

9. D. C. Zemp et alAtmosp. Chem. Phys. 14, 13337 (2014).

10. IBGE, Levantamento Sistemático da Produção Agrícola (2018).

11. IBGE, Coordenação de População e Indicadores Sociais, Estimativas da população residente para os municípios e para as unidades da federação brasileiros com data de referência em 1º de julho de 2017 (2017).

 

Lucas Ferrante é biólogo e doutorando em Ecologia no estuda do impacto da mudança climática sobre biodiversidade, tendo como professor Philip Fearnside, no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA). Na instituição fez também o mestrado em Ecologia. Formado em Ciências Biológicas pela Universidade Federal de Alfenas (UNIFAL), é pesquisador associado ao Centro de Estudos Integrados da Biodiversidade Amazônica (CENBAM), ao Programa de Pesquisa em Biodiversidade (PPBio), e ao Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia dos Serviços Ambientais da Amazônia (INCT-SERVAMB).  Leia mais aqui.

Philip Martin Fearnside é doutor pelo Departamento de Ecologia e Biologia Evolucionária da Universidade de Michigan (EUA) e pesquisador titular do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), em Manaus (AM), onde vive desde 1978. É membro da Academia Brasileira de Ciências e também coordena o INCT (Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia) dos Serviços Ambientais da Amazônia. Recebeu o Prêmio Nobel da Paz pelo Painel Intergovernamental para Mudanças Climáticas (IPCC), em 2007. Tem mais de 500 publicações científicas e mais de 200 textos de divulgação de sua autoria que estão disponíveis neste link.

Fonte – Amazonia Real de 26 de março de 2018

Projeto que libera cultivo de cana-de-açúcar afeta meio ambiente

Baseado na monocultura, cultivo de cana-de-açúcar é considerado agressivo ao meio ambiente; poluição hídrica está entre os danos. Foto: Elza Fiúza/Agência BrasilBaseado na monocultura, cultivo de cana-de-açúcar é considerado agressivo ao meio ambiente; poluição hídrica está entre os danos. Foto: Elza Fiúza/Agência Brasil

Especialistas apontam ainda risco de aumento de conflitos por terra e impacto econômico negativo para o país

O Projeto de Lei do Senado (PLS) 626/2011, que está na pauta de votações do plenário da Casa, vem causando grande preocupação a ambientalistas e entidades de defesa do meio ambiente. De autoria do senador tucano Flexa Ribeiro (PA), o PLS propõe a liberação do cultivo da cana-de-açúcar no bioma amazônico.

A região teve limites definidos para o plantio em 2009, quando foi editado um decreto de zoneamento agroecológico. Dezenas de entidades da sociedade civil organizada soltaram um manifesto esta semana em repúdio ao PLS. Elas apontam que a alteração tende a impulsionar o processo de desmatamento na região, que, segundo o Greenpeace, perde cerca de 6 mil km² de área ao ano.

“A Amazônia está sendo devorada. Isso dá 600 mil campos de futebol por ano. É um número abissal”, afirma o coordenador de Políticas Públicas da ONG, Márcio Astrini.

O engenheiro florestal João Dagoberto, pesquisador da Universidade de São Paulo (USP), destaca que a plantação de cana é bastante agressiva ao meio ambiente. Baseada especialmente na monocultura, prática comum em latifúndios, ela traz impactos diversos.

“Ela tem um sistema de manejo e de cultivo extremamente pesado à base de adubação pesada, com muito herbicida. É altamente impactante pros recursos hídricos, pra biodiversidade e pros processos ecológicos de maneira geral”, explica.

Economia

O projeto também tende a trazer impactos econômicos para o país. Márcio Astrini aponta que a medida retrocede na política brasileira de biocombustíveis, que virou referência no mundo pela produção sustentável de etanol.

A expansão da cana na Amazônia tende a gerar novos conflitos agrários e sociais, sujando a imagem do Brasil no comércio exterior, o que dificultaria a venda do etanol brasileiro. O país produz 20% da cana mundial e responde por 40% das exportações do produto, segundo dados da União da Indústria de Cana-de-açúcar (Única).

Um dos concorrentes do produto brasileiro é o etanol de milho produzido nos Estados Unidos, que poderia ser beneficiado com a mudança.

“Eles vão comemorar muito a possibilidade de manchar a imagem do etanol brasileiro. Isso incapacita o produto brasileiro de concorrer lá fora, num mundo que está discutindo mudanças climáticas”, destaca Astrini.

Por conta disso, o PLS 626/2011 encontra resistência até mesmo dentro da Única, que, nessa quarta-feira (28), manifestou-se publicamente sobre o assunto pedindo a reprovação do projeto. O Fórum Nacional Sucroenergético, que reúne entidades do setor canavieiro, também publicou nota contra a medida.

Segundo dados da entidade, o país produz 28 bilhões de etanol ao ano, 38 milhões de toneladas de açúcar e 21 TW/h (terawhat-hora) de bioeletricidade.

Impacto social

Do ponto de vista social, o impacto pode ser ainda mais alarmante. A Amazônia legal é uma das regiões mais violentas do país em termos de disputa territorial.

Segundo dados divulgados no ano passado pela Comissão Pastoral da Terra (CPT), em 2016 a região respondeu por 79% dos assassinatos por conflitos no campo no país. Foram, ao todo, 61 mortes.

A militante Ayala Ferreira, da direção nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), destaca que a expansão do cultivo da cana tende a atingir diretamente a vida de camponeses, quilombolas, indígenas, povos das florestas e das águas na região amazônica. Ela acrescenta que são comunidades que vivem do cultivo sustentável da terra para suprir as suas próprias necessidades e as das cidades.

“O capital não tem essa noção de pensar o respeito e a sustentabilidade do território que ele vai buscar. É uma busca desenfreada, cada vez mais expansiva e mais intensiva, pra continuar obtendo lucros”, critica.

O PLS 626/2011 estava com a tramitação parada no Senado, até que, nas últimas semanas, os parlamentares aprovaram o regime de urgência da matéria para votação no plenário da Casa, o que pode ocorrer na próxima semana.

Autor

Brasil de Fato tentou contato com a assessoria do senador Flexa Ribeiro (PSDB-PA), mas as ligações não foram atendidas. Em declarações dadas à imprensa esta semana, o parlamentar disse que o projeto libera o cultivo da cana somente em áreas já degradadas. Ele argumentou ainda que a medida ajudaria a gerar emprego e renda na região amazônica por conta da expansão do plantio.

Ribeiro é membro da bancada ruralista e ingressou na Casa em 2005. Um ano antes, foi preso juntamente com outras 27 pessoas numa operação da Polícia Federal que apurava fraudes em licitações no Pará. Ele negou as acusações e foi solto pela Justiça logo na sequência.

Entre outras coisas, ele apresentou, em 2005, um projeto de lei que alterava o Código Florestal e foi bastante criticado por setores ambientalistas. Três anos depois, causou polêmica no Congresso ao defender a empresa Pagrisa, produtora paraense de cana e etanol acusada pelo Ministério Público do Trabalho (MPT) de manter mais de 1 mil trabalhadores em condições análogas à escravidão.

Engenheiro civil de formação, Flexa Ribeiro é próximo dos setores econômicos da área e, na década de 1990, chegou a presidir o Sindicato da Indústria da Construção Civil do Pará e ainda a Federação das Indústrias do Estado do Pará (Fiepa).

No ano passado, o senador votou a favor da reforma trabalhista, que precariza as relações de trabalho ao suprimir os avanços da CLT,  e votou também contra a cassação do senador tucano Aécio Neves, acusado de quebra de decoro parlamentar.

Fonte – Cristiane Sampaio, edição Juca Guimarães, Brasil de Fato de 30 de Março de 2018

FAO: países já têm conhecimento para acabar com desmatamento, mas falta vontade política

Mudanças climáticas ameaçam a Amazônia e, consequentemente, disponibilidade de recursos hídricos para países da região. Foto: Flickr (CC) / Dams999Amazônia. Foto: Flickr (CC) / Dams999

Ao longo dos últimos 25 anos, a taxa global de desmatamento caiu mais de 50%, segundo a ONU. Para as Nações Unidas, redução prova que um futuro com zero destruição de florestas pode deixar de ser uma aspiração para virar realidade. Mas será necessário mais vontade política, alertou o organismo internacional nesta semana (20) em conferência da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), em Roma.

Ao longo dos últimos 25 anos, a taxa global de desmatamento caiu mais de 50%, segundo a ONU. Para as Nações Unidas, redução prova que um futuro com zero destruição de florestas pode deixar de ser uma aspiração para virar realidade. Mas será necessário mais vontade política, alertou o organismo internacional nesta semana (20) em conferência da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), em Roma.

“Temos o conhecimento e as ferramentas para acabar com o desmatamento global, mas isso exige uma ação ambiciosa e coordenada em todos os setores da agricultura e outros, (uma ação) fundamentada em vontade política e social”, afirmou a vice-diretora-geral da FAO para Clima e Recursos Naturais, Maria Helena Semedo, na abertura do evento.

De acordo com a FAO, o rápido crescimento populacional no planeta tem impulsionado a demanda por produtos e serviços que vêm das florestas, como lenha, fibras, combustível, comida e remédios. Para lidar com esses desafios, é preciso inovar em termos de política, institucionalização e governança.

Mudanças são ainda mais críticas em países tropicais de renda baixa, onde uma das principais causas do desmatamento é a procura por produtos agrícolas e a conversão das florestas em terras cultiváveis.

Também presente na conferência na capital italiana, o diretor do Fórum da ONU sobre Florestas, Manoel Sobral Filho, lembrou a queda nos índices de desmatamento ao longo das últimas duas décadas. Segundo o especialista, se esforços forem mantidos e se países investirem mais em restauração e replantio, será possível chegar a um futuro sem desflorestamento.

O evento em Roma reuniu representantes de governos, sociedade civil, cooperativas, setor privado e povos indígenas.

Fonte – ONU Brasil de 22 de fevereiro de 2018

Desmatamento na Amazônia está prestes a atingir limite irreversível

Desmatamento na Amazônia está prestes a atingir limite irreversívelCom mudanças climáticas e uso indiscriminado do fogo, se o nível de desflorestamento atingir entre 20% e 25% o ciclo hidrológico do bioma pode ser severamente degradado, alertam cientistas (foto: Inpe)

O desmatamento da Amazônia está prestes a atingir um determinado limite a partir do qual regiões da floresta tropical podem passar por mudanças irreversíveis, em que suas paisagens podem se tornar semelhantes às de cerrado, mas degradadas, com vegetação rala e esparsa e baixa biodiversidade.

O alerta foi feito em um editorial publicado nesta quarta-feira (21/02) na revista Science Advances. O artigo é assinado por Thomas Lovejoy, professor da George Mason University, nos Estados Unidos, e Carlos Nobre, coordenador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Mudanças Climáticas – um dos INCTs apoiados pela FAPESP no Estado de São Paulo em parceria com o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) – e pesquisador aposentado do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

“O sistema amazônico está prestes a atingir um ponto de inflexão”, disse Lovejoy à Agência FAPESP. De acordo com os autores, desde a década de 1970, quando estudos realizados pelo professor Eneas Salati demonstraram que a Amazônia gera aproximadamente metade de suas próprias chuvas, levantou-se a questão de qual seria o nível de desmatamento a partir do qual o ciclo hidrológico amazônico se degradaria ao ponto de não poder apoiar mais a existência dos ecossistemas da floresta tropical.

Os primeiros modelos elaborados para responder a essa questão mostraram que esse ponto de inflexão seria atingido se o desmatamento da floresta amazônica atingisse 40%. Nesse cenário, as regiões Central, Sul e Leste da Amazônia passariam a registrar menos chuvas e ter estação seca mais longa. Além disso, a vegetação das regiões Sul e Leste poderiam se tornar semelhantes à de savanas.

Nas últimas décadas, outros fatores além do desmatamento começaram a impactar o ciclo hidrológico amazônico, como as mudanças climáticas e o uso indiscriminado do fogo por agropecuaristas durante períodos secos – com o objetivo de eliminar árvores derrubadas e limpar áreas para transformá-las em lavouras ou pastagens.

A combinação desses três fatores indica que o novo ponto de inflexão a partir do qual ecossistemas na Amazônia oriental, Sul e Central podem deixar de ser floresta seria atingido se o desmatamento alcançar entre 20% e 25% da floresta original, ressaltam os pesquisadores.

O cálculo é derivado de um estudo realizado por Nobre e outros pesquisadores do Inpe, do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) e da Universidade de Brasília (UnB), publicado em 2016 na revista Proceedings of the National Academy of Sciences.

“Apesar de não sabermos o ponto de inflexão exato, estimamos que a Amazônia está muito próxima de atingir esse limite irreversível. A Amazônia já tem 20% de área desmatada, equivalente a 1 milhão de quilômetros quadrados, ainda que 15% dessa área [150 mil km2] esteja em recuperação”, ressaltou Nobre.

Margem de segurança

Segundo os pesquisadores, as megassecas registradas na Amazônia em 2005, 2010 e entre 2015 e 2016, podem ser os primeiros indícios de que esse ponto de inflexão está próximo de ser atingido.

Esses eventos, juntamente com as inundações severas na região em 2009, 2012 e 2014, sugerem que todo o sistema amazônico está oscilando. “A ação humana potencializa essas perturbações que temos observado no ciclo hidrológico da Amazônia”, disse Nobre.

“Se não tivesse atividade humana na Amazônia, uma megasseca causaria a perda de um determinado número de árvores, que voltariam a crescer em um ano que chove muito e, dessa forma, a floresta atingiria o equilíbrio. Mas quando se tem uma megasseca combinada com o uso generalizado do fogo, a capacidade de regeneração da floresta diminui”, explicou o pesquisador.

A fim de evitar que a Amazônia atinja um limite irreversível, os pesquisadores sugerem a necessidade de não apenar controlar o desmatamento da região, mas também construir uma margem de segurança ao reduzir a área desmatada para menos de 20%.

Para isso, na avaliação de Nobre, será preciso zerar o desmatamento na Amazônia e o Brasil cumprir o compromisso assumido no Acordo Climático de Paris, em 2015, de reflorestar 12 milhões de hectares de áreas desmatadas no país, das quais 50 mil km2 são da Amazônia.

“Se for zerado o desmatamento na Amazônia e o Brasil cumprir seu compromisso de reflorestamento, em 2030 as áreas totalmente desmatadas na Amazônia estariam em torno de 16% a 17%”, calculou Nobre.

“Dessa forma, estaríamos no limite, mas ainda seguro, para que o desmatamento, por si só, não faça com que o bioma atinja um ponto irreversível”, disse

O editorial Amazon tipping point (doi: 10.1126/sciadv.aat2340), assinado por Thomas Lovejoy e Carlos Nobre, pode ser lido na revista Science Advances em http://advances.sciencemag.org/content/4/2/eaat2340.

O artigo Land-use and climate change risks in the Amazon and the need of a novel sustainable development paradigm (doi: 10.1073/pnas.1605516113), de Carlos Nobre, Gilvan Sampaio, Laura Borma, Juan Carlos Castilla-Rubio, José Silva e Manoel Cardoso, pode ser lido na revista PNAS em http://www.pnas.org/content/113/39/10759.

Fonte – Agência FAPESP de 21 de fevereiro de 2018

Desmatamento vai aquecer ainda mais o clima do planeta

Desmatamento de florestas vai provocar um aquecimento do clima global muito mais intenso do que o estimado originalmente, devido às alterações nas emissões de compostos orgânicos voláteis e as co-emissões de dióxido de carbono com gases reativos e gases de efeito estufa de meia-vida curta. Um time internacional de pesquisadores, com a participação do Instituto de Física da USP e na UNIFESP-Campus Diadema, calculou a forçante radiativa do desmatamento, levando em conta não somente o CO2 emitido, mas também o metano, o black carbon, a alteração no albedo de superfície e todos os efeitos radiativos conhecidos. O resultado final aponta que a temperatura vai subir mais do que o previsto anteriormente.

A pesquisa foi publicada recentemente na revista Nature Communications, e utilizou detalhados modelos climáticos globais acoplados à química de gases e partículas em alta resolução.  Descobriu-se que as emissões de florestas que resfriam o clima (compostos orgânicos voláteis biogênicos, os BVOCs) ficarão menores, implicando que o desflorestamento pode levar a temperaturas mais altas do que o considerado em estudos anteriores. O físico Paulo Artaxo, do IFUSP, um dos autores do estudo, afirma que a maior parte dos estudos dos impactos climáticos do desmatamento publicados anteriormente focou somente nas emissões de CO2. “Neste novo estudo, levamos em conta a redução das emissões de BVOCs, a emissão de black carbon, metano e os demais gases de efeito estufa de vida curta”, explica.

Esses BVOCs, segundo Artaxo, produzem partículas nanométricas que crescem, refletem radiação solar de volta ao espaço e esfriam o clima. Os BVOCs participam de complexas reações químicas e podem produzir ozônio e metano, ambos gases de efeito estufa de meia vida curta (SLCF) que aquecem o planeta. O estudo levou em conta todos estes fatores conjuntamente, além das mudanças no albedo de superfície, quando derrubamos uma floresta e a trocamos para pastagem ou plantações”, acrescenta.

Levando em conta todos estes fatores, observou-se que as emissões das florestas que esfriam o clima têm um papel enorme na regulação da temperatura do planeta. “Derrubando as florestas, acabamos com este efeito esfriador, e aumentamos o aquecimento global”. Artaxo coloca que o efeito global é de um aquecimento adicional de 0.8oC, em um cenário de desmatamento total. “Isso é um valor alto, comparável ao atual aquecimento médio global (cerca de 1.2oC) ocorrido com todas as emissões antropogênicas desde 1850”, diz o físico.

A figura abaixo mostra que esse aquecimento é desigual, sendo maior nos trópicos, onde foi previsto um aquecimento de cerca de 2 graus na Amazônia.

Luciana Rizzo, professora da Universidade Federal de São Paulo, campus de Diadema, outra co-autora do estudo, salienta que, nos trópicos, o efeito atual das emissões de VOCs resfriando o clima é mais forte do que em florestas temperadas. “Portanto, o desmatamento nos trópicos tem um efeito mais importante no clima global”, conclui.

Mais informações

O artigo na revista Nature Communications, Impact on short-lived climate forcers increases projected warming due to deforestation pode ser baixado livremente online no link:  https://www.nature.com/articles/s41467-017-02412-4

Para informações adicionais, contate o prof. Paulo Artaxo no fone (11)30917016, ou artaxo@if.usp.br. Este trabalho foi parcialmente financiado pela FAPESP através dos projetos temáticos AEROCLIMA e GoAmazon.

Figura com os efeitos radiativos dos aerossóis devido ao desmatamento global. Na figura à esquerda temos o efeito direto dos aerossóis e na direita o efeito indireto, ou seja, através das modificações nas nuvens. O papel das regiões tropicais é mais importante que o das florestas temperadas.

Figuras para ilustração

Anexos 
Fonte – Instituto de física da USP de 28 de fevereiro de 2017

Quase 600 cidades desmataram a Mata Atlântica entre 2015 e 2016

A Fundação SOS Mata Atlântica e o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) lançam hoje (13/12) o Atlas dos Municípios da Mata Atlântica, que traz um panorama da situação da cobertura vegetal do bioma nos 3.429 municípios da Mata Atlântica. O estudo indica que foram destruídos 30.569 hectares entre 2015 e 2016. Os desmatamentos aconteceram em 598 (17,4%) dos municípios do bioma. O Atlas avalia diferentes formações naturais que compõem a Mata Atlântica, como floresta, mangue e restinga.

Municípios baianos foram os que mais desmataram no período avaliado. Foram 12.420 hectares destruídos em 130 cidades, 40% do total dos desmatamentos no período. Localizada na Costa do Descobrimento, no sul da Bahia, Santa Cruz Cabrália (BA) foi responsável pela eliminação de 3.126 ha de florestas nativas, uma área de tamanho semelhante a Madre de Deus, o menor município do estado, que tem 3.220 ha de área total. A vice-liderança é de Belmonte (BA), com supressão de 2.122 ha.

Na sequência, completando as 10 primeiras posições do ranking nacional, estão Manuel Emídio (PI), com 1.281 ha desmatados; Wanderley (BA), com 1.180 ha; Porto Seguro (BA), com 856 ha; Águas Vermelhas (MG); com 753 ha; São João do Paraíso (MG), com 573 ha; Jequitinhonha (MG); com 450 ha; Canto do Buriti (PI); com 641 ha; e Alvorada do Gurguéia (PI), com 625 ha.

Segundo Marcia Hirota, diretora executiva da Fundação SOS Mata Atlântica, é lamentável que os municípios ainda permitam o desmatamento. “A Mata Atlântica é o bioma mais ameaçado do país, restam somente 12,4% da área original. Um total de 72% da população brasileira vive na Mata Atlântica, assim como mais da metade dos animais ameaçados de extinção do país. Ao desmatar, estamos prejudicando nosso próprio bem-estar e qualidade de vida”, afirma ela.

O estudo, que conta com patrocínio de Bradesco Cartões e execução técnica da empresa de geotecnologia Arcplan, apresenta a situação da cobertura florestal e o histórico do desmatamento nos 3.429 municípios dos 17 estados do bioma. Todas as informações estão disponíveis no site e aplicativo www.aquitemmata.org.br, que oferece uma busca personalizada por meio de mapas interativos e gráficos.

“Este aplicativo foi produzido para contribuir com as atividades de pesquisa, educação ambiental e mobilização. Qualquer pessoa pode ter acesso e conhecer o histórico da situação da Mata Atlântica local e ajudar a defendê-la”, afirma Flavio Ponzoni, pesquisador e coordenador do Atlas pelo INPE.

Sobre a Mata Atlântica

A Mata Atlântica está distribuída ao longo da costa atlântica do país, atingindo áreas da Argentina e do Paraguai nas regiões Sudeste e Sul. De acordo com o Mapa da Área de Aplicação da Lei nº 11.428, a Mata Atlântica abrangia originalmente 1.309.736 km2 no território brasileiro. Seus limites originais contemplavam áreas em 17 estados: PI, CE, RN, PE, PB, SE, AL, BA, ES, MG, GO, RJ, MS, SP, PR, SC e RS.

Sobre a Fundação SOS Mata Atlântica

A Fundação SOS Mata Atlântica atua desde 1986 na proteção dessa que é a floresta mais ameaçada do país. A ONG realiza diversos projetos nas áreas de monitoramento e restauração da Mata Atlântica, proteção do mar e da costa, políticas públicas e melhorias das leis ambientais, educação ambiental, campanhas sobre o meio ambiente, apoio a reservas e Unidades de Conservação, dentre outros. Todas essas ações contribuem para a qualidade de vida, já que vivem na Mata Atlântica mais de 72% da população brasileira. Os projetos e campanhas da ONG dependem da ajuda de pessoas e empresas para continuar a existir. Saiba como você pode ajudar em www.sosma.org.br.

Sobre o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE)

O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) atua nas áreas de Observação da Terra, Meteorologia e Mudanças Climáticas, Ciências Espaciais e Atmosféricas e Engenharia Espacial. Possui laboratórios de Computação Aplicada, Combustão e Propulsão, Física de Materiais e Física de Plasmas. Presta serviços operacionais de monitoramento florestal, previsão do tempo e clima, rastreio e controle de satélites, medidas de queimadas, raios e poluição do ar.

O INPE aposta na construção de satélites para produção de dados sobre o planeta Terra, e no desenvolvimento de pesquisas para transformar estes dados em conhecimento, produtos e serviços para a sociedade brasileira e para o mundo. Também se dedica à distribuição de imagens meteorológicas e de sensoriamento remoto, e à realização de testes e ensaios industriais de alta qualidade. Além disso, o Instituto transfere tecnologia, fomentando a capacitação da indústria espacial brasileira e o desenvolvimento de um setor nacional de prestação de serviços especializados no campo espacial. Mais informações em www.inpe.br.

Informações completas sobre todos os municípios do bioma estão disponíveis no site www.aquitemmata.org.br.

Fonte – Envolverde de 13 de dezembro de 2017

Estudo associa desmatamento e queda de produtividade da pesca na Amazônia

Pesca e desmatamentoPescador mostra um tambaqui, espécie de peixe da Amazônia com alto valor econômico, que se alimenta principalmente das frutas de árvores das planícies de inundação da flroesta amazônica; estudo mostra que desmatamento reduz produtividade pesqueira. Foto: Leandro Castello / Virginia Tech

Destruição de florestas adjacentes aos rios reduz abrigo e alimento dos peixes, levando a declínio do rendimento pesqueiro; trabalho foi liderado por pesquisador brasileiro da Virginia Tech, nos EUA

A conversão da floresta amazônica em áreas de plantio e de pasto tem sido apontada como responsável por redução das chuvas, aumento das secas e degradação dos ecossistemas aquáticos. Agora, um novo estudo liderado por um cientista brasileiro nos Estados Unidos mostra que o desmatamento também tem impactos na produção comercial de peixes.

A pesquisa, publicada na revista científica Fish and Fisheries, revela uma queda na produtividade da produção pesqueira em rios adjacentes a áreas desmatadas. O trabalho foi liderado por Leandro Castello, professor da Faculdade de Recursos Naturais e Meio Ambiente da Virginia Tech (Estados Unidos), especialista em ecologia e conservação da pesca na Amazônia.

De acordo com Castello, a pesquisa mostra que a qualidade de conservação das áreas de florestas adjacentes aos rios – as chamadas várzeas, ou planícies de inundação da Amazônia – têm um papel fundamental para a produção de peixes.

“As florestas em planícies de inundações podem fornecer estruturas que protegem os peixes e servem como habitat para insetos que são o alimento de muitas das espécies de peixes. Essas florestas também produzem plantas que fornecem comida para alguns deles”, afirmou Castello.

Para descobrir se a destruição das florestas de planícies de inundação tem influência nas populações de peixes e na produção pesqueira, os cientistas cruzaram dois conjuntos de dados.

O primeiro deles incluiu informações sobre a produtividade pesqueira em um período de 12 anos ao longo de uma área de mil quilômetros quadrados, o mapeamento de 1500 lagos e entrevistas com pescadores locais. Com isso, foi possível mapear o rendimento da pesca nessas áreas ao longo dos anos. “Compilamos dados de cerca de 36 mil pontos diferentes e, com isso, produzimos um mapa que mostra de onde vinham os peixes”, explicou Castello.

Essas informações foram então cruzadas com dados de satélites da Nasa sobre características do habitat nessas áreas, para determinar se a presença de florestas tinha impacto sobre a produtividade pesqueira.

“Queríamos saber, essencialmente, se a nas áreas com florestas de várzea a produtividade da pesca é maior,  se é a mesma, ou se é menor do que em áreas onde essas florestas foram devastadas”, explicou Castello.

“Nossos resultados indicam que os lagos com florestas de várzea fornecem aos pescadores uma produtividade maior. Isso nos permite inferir que, quando as florestas são cortadas, o rendimento da pesca nesses lagos é reduzido. O desmatamento não é apenas uma questão terrestre – ele pode reduzir o número de peixes disponíveis para uma das populações mais pobres do mundo”, disse o cientista.

De acordo com Castello, para manter a produção de alimentos e a renda das populações ribeirinhas, é necessário proteger esses habitats.

“As planícies de inundação produzem mais peixe que qualquer outro sistema de água doce no mundo. Neste momento, a Amazônia é um caso único, já que a maior parte das suas várzeas ainda está intacta. Mas, se as florestas continuarem sendo derrubadas e os habitats modificados, isso reduzirá a quantidade de peixes que as pessoas têm para se alimentar e ganhar a vida. Se não protegermos essas áreas, vamos perder os rios e os peixes”, afirmou Castello.

Pesca e desmatamentoPescadores descansam às margens de um lago desmatado, onde as florestas foram substituídas por gramíneas. Foto: Leandro Castello / Virginia Tech

Gado e pesca

“O conflito entre a criação de gado e a gestão da pesca é uma preocupação compartilhada pelos habitantes das planícies de inundação, mas até agora não haviam sido feitos estudos rigorosos de como a perda de florestas afeta a produtividade da pesca nessas áreas”, disse outro dos autores do estudo, David McGrath, diretor do Instituto de Inovação da Terra (Estados Unidos).

“Esse estudo nos dá as ferramentas que precisamos para mostrar as trocas que existem entre a criação de gado e a gestão da pesca em planícies de inundação. Podemos utilizar esse trabalho para mostrar às comunidades o que elas perdem quando não há controle da densidade de gado nas várzeas e da conversão das florestas em pastos”, disse McGrath.

O estudo tem implicações diretas para a gestão e a conservação da Amazônia, de acordo com outra das autoras do estudo, Victoria Isaac, professora da Universidade Federal do Pará (UFPA), que foi responsável pela coleta de dados sobre a pesca.

“O uso da terra sem planejamento e outras interferências humanas estão modificando drasticamente a paisagem da Amazônia. As políticas para proteção do meio ambiente e para evitar o desmatamento deveriam ser mais robustas, para garantir a segurança alimentar das populações locais e a produtividade da pesca”, afirmou Victoria.

“Um estudo dessa escala sobre a pesca e a cobertura florestal ainda não havia sido feito na Amazônia. Foi muito importante descobrir uma forte evidência de associação entre desmatamento e queda no rendimento da pesca”, declarou outra das autoras da pesquisa, Laura Hess, pesquisadora do Instituto de Pesquisas da Terra, da Universidade da Califórnia (Estados Unidos).

Fonte – Fábio de Castro, O Estado de S. Paulo de 13 de dezembro de 2017

Desmatamento avança em 88 cidades do Paraná

 | Henry Milleo/ Gazeta do Povo/ ArquivoFoto: Henry Milleo/ Gazeta do Povo/ Arquivo

Levantamento da Fundação SOS Mata Atlântica aponta 3.468 hectares de mata foram suprimidos em um ano

O desmatamento não dá trégua no Paraná. Imagens de satélite analisadas pela Fundação SOS Mata Atlântica indicam que houve redução de floresta nativa, no período entre 2015 e 2016, em 88 cidades do estado. O levantamento identificou a derrubada de 3.468 hectares, uma área superior ao tamanho somado dos bairros curitibanos Boqueirão e Hauer. O levantamento leva em conta apenas áreas com mais de três hectares (três campos de futebol) e também somente áreas de floresta inalterada.

Os cinco municípios que registraram os maiores índices de desmatamento ficam na região Centro Sul do estado, que ainda concentra importantes remanescentes de Floresta de Araucária. Prudentópolis – que liderou no ranking no ano anterior, com 189 hectares – aumentou a pressão sobre a mata: agora foi identificado o corte de 326 hectares. Bituruna, segunda colocada no mais recente levantamento, com 242 hectares desmatados, é a cidade paranaense que mais supriu Mata Atlântica nos últimos 15 anos. Foram 5,8 mil hectares – equivalente a 36 vezes o tamanho do Parque Barigui.

No acumulado dos últimos 30 anos, o Paraná foi o estado que mais suprimiu Mata Atlântica, sendo responsável por um quarto de tudo o que foi derrubado deste tipo de formação florestal no país. No Brasil, restam menos de 12,5% da área original de Mata Atlântica. No Paraná, o índice cai para 8%.
Análise

A diretora executiva da SOS Mata Atlântica, Marcia Hirota, também coordenadora do levantamento, comenta que a repetição das mesmas regiões de desmatamento reforça a importância da fiscalização, por parte dos órgãos ambientais. “O alerta fica justamente para esses municípios em que continua acontecendo”, diz.

Procurado pela Gazeta do Povo, o Instituto Ambiental do Paraná (IAP) preferiu não comentar os resultados do estudo e informou que deve divulgar, nos próximos dias, um levantamento próprio.

Fiscalize

Com o entendimento de que o poder público sozinho não vai conseguir conter o desmatamento – e de que é preciso conhecer para preservar – a SOS Mata Atlântica elaborou um site em que os moradores de cada cidade conseguem verificar quais são as áreas nativas remanescentes. Basta consultar o endereço Aqui tem mata.

“É uma estratégia de aproximação, para mostrar que a floresta não está longe, está próxima”, explica. Marcia conta que o site tem sido usado como ferramenta de educação em muitas escolas.

Desmatamento da Mata Atlântica no Paraná

DETALHAMENTO POR MUNICÍPIO

Em hectares
* Área de mata atlântica
** Área desmatada entre 2015 e 2016

Município Área * Desmatamento **
Prudentópolis 35.082 326
Bituruna 22.833 242
Pinhão 25.554 221
Coronel Domingos Soares 38.096 179
General Carneiro 23.978 161
Guarapuava 42.377 151
Cruz Machado 26.788 129
Castro 32.097 126
Inácio Martins 25.457 110
Reserva do Iguaçu 23.196 104
São Mateus do Sul 16.068 97
Lapa 31.991 95
Reserva 19.593 80
Matelândia 31.149 79
União da Vitória 20.760 67
Boa Ventura de São Roque 4.840 63
Mallet 15.406 61
Doutor Ulysses 8.960 58
Campina do Simão 5.031 55
Turvo 18.399 53
Campina da Lagoa 4.164 47
Palmas 24.215 45
Laranjeiras do Sul 5.348 42
Imbituva 12.187 41
Rio Azul 11.846 40
Nova Tebas 3.047 38
São João do Triunfo 13.178 38
Ortigueira 30.644 35
Cândido de Abreu 17.841 34
Pitanga 17.155 31
Londrina 17.986 31
Nova Laranjeiras 14.173 31
Chopinzinho 12.117 29
Ivaí 6.503 28
Faxinal 9.052 26
Mangueirinha 13.497 26
Rio Negro 8.091 25
Tibagi 28.458 23
Itapejara d’Oeste 418 21
Telêmaco Borba 26.286 21
Guaraniaçu 12.413 20
Fernandes Pinheiro 7.056 19
Almirante Tamandaré 2.455 18
Sapopema 7.458 15
Ipiranga 11.264 15
Antônio Olinto 5.095 13
Pinhal de São Bento 512 12
Paulo Frontin 5.323 12
Verê 665 12
Irati 10.814 10
Porto Barreiro 2.052 10
Paula Freitas 7.419 9
Guamiranga 1.739 9
Jandaia do Sul 1.542 9
Braganey 1.867 8
Campo do Tenente 3.257 8
Cerro Azul 8.156 8
Coronel Vivida 3.149 8
Clevelândia 8.998 7
Bocaiúva do Sul 28.482 7
Pranchita 2.050 7
Luiziana 12.415 6
Tunas do Paraná 18.350 6
Capitão Leônidas Marques 1.063 6
Quitandinha 4.743 6
São Jerônimo da Serra 9.971 6
Mandirituba 4.814 6
Candói 16.193 5
Ampére 1.089 5
Boa Esperança do Iguaçu 619 5
Sengés 4.159 5
Iretama 4.189 5
Ventania 5.508 4
Goioxim 5.047 4
Ramilândia 2.878 4
Teixeira Soares 17.907 4
Marquinho 2.141 4
Piraí do Sul 9.028 4
Palmital 5.353 4
Honório Serpa 5.692 3
Planalto 2.256 3
Palmeira 14.546 3
Rebouças 6.148 3
Santa Maria do Oeste 5.947 3
Altamira do Paraná 2.279 3
Contenda 1.475 1
Santo Antônio do Sudoeste 1.204 1

Fontes – SOS Mata Atlântica / Katia Brembatti, Gazeta do Povo de 13 de dezembro de 2017

Infografia – Gazeta do Povo