O lado obscuro do chocolate: a destruição das florestas da África

Frank Kehren

Quando degustamos a nossa barra de chocolate, milhares de hectares de florestas africanas já desapareceram, matando animais e ecossistemas inteiros. Árvores pertencentes a parques nacionais e zonas que deviam ser protegidas tornaram-se vítimas do desmatamento, para deixar espaço para a indústria do cacau.

A denúncia, múltipla, que aponta o dedo para a cumplicidade do governo da Costa do Marfim e para a desatenção das principais empresas produtoras de cacau internacionais, vem de um detalhado relatório da organização não governamental Mighty Earth.

Para a ONG, 80% das florestas da Costa do Marfim, principal exportadora de grãos de cacau, já que é de lá que chega 40% do chocolate mundial, desapareceram nos últimos 50 anos.

Não só: o chocolate que chega às nossas mesas é muitas vezes “ilegal”, pois uma parte dos grãos provêm de áreas que deviam ser protegidas, mas, graças a um sistema de corrupção e favoritismo, é misturado aos envios legais de grãos.

No relatório, são citadas dezenas de empresas, incluindo Mars, Nestlé, Lindt, Olam, Cargill, Barry Callebaut ou a italiana Ferrero, que, como especificou o jornal The Guardian, publicação que divulgou os dados em primeira mão, não negam o problema, explicando que têm consciência do fato e se dizem empenhadas em fazer de tudo para pôr fim ao desmatamento das reservas.

Florestas que, antigamente, eram exuberantes em todo o tipo de árvores e biodiversidade, como as de Goin Debé, Scio, Haut-Sassandra, Tai, os parques de Mont Peko e Marahoué, hoje estão pouco a pouco desaparecendo e são queimadas para deixar espaço para os grãos: assim, morrem dezenas de animais, os chimpanzés são forçados a viver em pequenos pedaços de terra, ou os elefantes diminuem drasticamente.

“As autoridades da Costa do Marfim às vezes são cúmplices ou ineficazes”, declarou a ONG. Rick Scobey, presidente da World Cocoa Foundation, não negou o fato, dizendo que “esse é um problema conhecido há anos. No início do ano, 35 empresas do setor decidiram unir as suas forças para lançar uma nova parceria com o governo marfinense e acabar com o desflorestamento em Gana e na Costa do Marfim”.

Enquanto isso, nos últimos meses, o preço do cacau no mercado caiu 30%, e o preço mínimo garantido aos produtores passou de 1.100 para 700 francos da Costa do Marfim (1,17 dólares), embora a demanda de chocolate permaneça em alta.

Na cadeia de produção, os comerciantes de cacau que vendem às grandes marcas se voltam cada vez mais a cultivadores ilegais, que cultivam as plantas em áreas protegidas, as mesmas onde a floresta tropical reduziu-se de 80% desde 1960 até hoje.

O produto ilegal, assim, é misturado durante o processo de fornecimento com os grãos de cacau lícitos, tornando difícil a rastreabilidade.

Com isso, porém, lembra o relatório, a Costa do Marfim (mas também Gana) está perdendo as suas florestas a uma taxa muito rápida: hoje, menos de 4% do país estão cobertos por florestas tropicais, enquanto, antigamente, o número chegava a pelo menos 25%. Para a Mighty Earth, se não se pôr fim a tudo isso até 2030, não restarão mais vestígios das florestas.

Dentro dos parques, os cultivadores ilegais, apesar das palavras e do empenho de executivos e empresas, continuam queimando árvores para favorecer o crescimento das plantas de cacau, já que elas precisam de muito sol para crescer. O governo diz que quer combater essa prática e se envolver na conservação dos parques, mas, de acordo com a ONG e publicações internacionais que monitoram o problema, concretamente, ele não faz muito.

Ao longo dos anos, alguns ativistas e associações que se aproximaram da cadeia de produção do cacau na África Ocidental foram ameaçados ou afastados, e, em 2004, o jornalista Guy-André Kieffer, que estava trabalhando em uma reportagem sobre chocolate e corrupção, desapareceu, provavelmente morto.

Nesse contexto, no qual, aliás, muitos dos trabalhadores das plantações não têm sequer o dinheiro para comprar uma barra de chocolate, uma data muito esperada pelas ONGs é o mês de novembro: lá, na cúpula do clima de Bonn, o assunto deve estar na pauta. No início do ano, o príncipe Charles convocou diretores delegados e dirigentes de 34 empresas do setor justamente para exortá-los a agir contra o desmatamento: então, a promessa foi a de um plano concreto a ser proposto durante o encontro na Alemanha.

A esperança, usando os termos de chocolate, é que, desta vez, realmente prevaleça a doce linha do compromisso, e não a amarga da indiferença.

Fontes – Giacomo Talignani, jornal La Repubblica / tradução Moisés Sbardelotto, IHU de 14 de setembro de 2017

O que são os ‘rios voadores’ que distribuem a água da Amazônia

Nuvens carregadasOs “rios voadores” estão acelerando devido ao aquecimento global e causando chuvas mais intensas. GERARD MOSS

Neste momento, rios poderosos levam umidade para vastas regiões da América do Sul. Mas eles não são rios comuns. São “rios voadores”.

É assim que são popularmente conhecidos os fluxos aéreos maciços de água sob a forma de vapor que vêm de áreas tropicais do Oceano Atlântico e são alimentados pela umidade que se evapora da Amazônia.

Eles estão a uma altura de até dois quilômetros e podem transportar mais água do que o rio Amazonas.

Esses rios de umidade, que atravessam a atmosfera rapidamente sobre a Amazônia até encontrar com os Andes, causam chuvas a mais de 3 mil km de distância, no sul do Brasil, no Uruguai, no Paraguai e no norte da Argentina e são vitais para a produção agrícola e a vida de milhões de pessoas na América Latina.

Mas como eles nascem e se movem? E quais efeitos podem ter?

Rio em meio à floresta amazônicaOs rios voadores atravessam rapidamente a atmosfera transportando água sob a forma de vapor para o sul do Brasil, norte da Argentina, Uruguai e Paraguai. GETTY IMAGES

Para entender isso, a BBC Mundo falou com José Marengo, meteorologista e coordenador geral de pesquisa e desenvolvimento do Centro Nacional de Monitoramento e Alerta de Desastres Naturais (Cemaden), e Antonio Nobre, pesquisador do Centro de Ciência do Sistema Terrestre do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), ambos do Brasil.

Alta velocidade

“O oceano Atlântico tropical norte é um oceano quente e sua evaporação é muito intensa”, explica Marengo.

“Você pode imaginar que existam ventos mais ou menos fortes, os ventos alísios, que transportam toda essa umidade nos níveis mais baixos da atmosfera”, diz.

“Em qualquer rio, há áreas muito tranquilas e outras de alta velocidade, que chamamos de jatos de rio”, conta o especialista.

“Quando um rio voador se encontra com os Andes, ele adquire uma maior velocidade em seu núcleo que constitui um low jet level – ou jato de baixo nível – , aquele que transporta uma maior quantidade de umidade mais rápido”.

“Então, ele faz uma curva para o sudeste e chega à Bacia do Rio da Prata, causando chuvas no local”.

Árvores que transpiram

Outro componente essencial dos rios voadores é a umidade produzida pelas árvores da floresta amazônica.

Em artigos, Nobre relatou a incrível função que estas árvores cumprem. “Medimos a evaporação da floresta em milímetros, como se estivéssemos medindo a espessura de uma folha de água acumulada no chão”.

“No caso da Amazônia, o número é de cerca de 4 milímetros por dia. Isso significa que, em um metro quadrado haveria quatro litros de água. Podemos usar esses dados para calcular quanto transpira uma árvore no mesmo período apenas calculando a área ocupada pela sua copa”, disse Nobre à BBC Mundo (o serviço em espanhol da BBC).

Uma árvore frondosa, com uma copa de 20 metros de diâmetro, transpira mais de 1.000 litros em um único dia, acrescenta.

Árvore na floresta amazônicaUma árvore frondosa, com uma copa de 20 metros de diâmetro, transpira mais de mil litros em um único dia. GETTY IMAGES

“Na Amazônia, temos 5,5 milhões de quilômetros quadrados ocupados por florestas nativas, com aproximadamente 400 bilhões de árvores dos mais variados tamanhos”.

“Nós fizemos a conta, que também foi verificada de forma independente, e surgiu o incrível número de 20 bilhões de toneladas (ou 20 bilhões de litros) de água que são produzidos todos os dias pelas árvores da Bacia Amazônica”.

O enigma do desmatamento

Mas muitas dessas árvores estão em perigo. Os últimos dados divulgados pelo Inpe indicam que o desmatamento está no seu nível mais alto desde 2008.

E uma das grandes incógnitas é o efeito que isso pode ter sobre os rios voadores. Os dados existentes não permitem que isso seja determinado.

“O que foi identificado é que as chuvas estão mais intensas”, disse Marengo à BBC Mundo.

“Imagine um ônibus que vai parando de lugar em lugar. Agora imagine um ônibus expresso que não para do início ao fim. O que estamos vendo é que as chuvas estão cada vez mais concentradas em alguns dias no sul do Brasil, norte da Argentina, Uruguai”, explicou o meteorologista.

“Parece que os ventos estão mais fortes, que o jato, os rios estão mais fortes. São as conclusões das projeções dos modelos climáticos para o futuro”.

“Isso que nos preocupa. Se houver chuvas mais intensas em áreas vulneráveis ​​como São Paulo ou Rio de Janeiro, a possibilidade no futuro de desastres naturais associados a fortes chuvas, como deslizamentos de terra e inundações em áreas urbanas e rurais, também aumenta”, adverte.

“No Brasil, esses fenômenos causam grandes perdas de vida”.

Chuva em outras frentes

Mas nem toda chuva na região centro-sul da América do Sul ocorre por causa dos rios voadores.

“A chuva do Uruguai, por exemplo, não é exclusivamente da Amazônia. Uma parte vem da Amazônia e outra das frentes frias do sul”, disse Marengo.

“Algo que não poderíamos identificar é o quanto de chuvas vem de uma determinada região. Por exemplo, para o sul do Brasil saem da Amazônia e de outras fontes, como as frentes frias ou brisa do oceano. Ou até mesmo por evaporação de regiões agrícolas do Centro-Oeste e Pantanal”.

“É uma das maiores questões: poder quantificar a água que sai da Amazônia para a Bacia do Prata, que inclui Uruguai, norte da Argentina e sul do Brasil.”

Área desmatada na AmazôniaEntre agosto de 2015 e julho de 2016, o desmatamento na Amazônia aumentou 29% em relação ao período anterior. GETTY IMAGES

Mas quando a chuva cai em um campo do Uruguai ou Argentina, talvez muitas pessoas não imaginam que parte dessa água começou sua viagem a milhares de quilômetros.

Neste sistema de interconexões tão delicado e profundo, fica claro por que é tão vital para todos proteger a floresta amazônica.

A importância destes fluxos de água se popularizou no Brasil graças ao projeto Rios Voadores, criado pelo aviador e ambientalista Gerard Moss.

Ele se inspirou nas investigações de Marengo e Nobre e voou milhares de quilômetros seguindo as correntes de ar, pegando amostras de vapor de água.

Moss queria que o conhecimento sobre esses fluxos chegasse ao sistema educacional. Seu programa já alcançou cerca de 900 mil crianças no Brasil.

Rios na AmazôniaA chuva no Uruguai ou no norte da Argentina deve-se, em parte, a essas árvores da floresta amazônica. GETTY IMAGES

“Fico feliz em ver que, depois de passar pelo programa, uma criança nota pela primeira vez uma grande árvore na frente de sua escola”, disse Moss à BBC Mundo.

“Antes, nem crianças nem adultos tinham a noção de que, sem os rios do céu, secam os rios da terra”, diz, por sua vez, Antonio Nobre.

“Não se entendia que os rios de vapor são tão vulneráveis ​​às perturbações humanas como outros rios”, acrescentou.

“E, principalmente, muitas pessoas não sabiam que as florestas que bombeiam umidade são essenciais para que os rios voadores sigam cruzando a atmosfera”.

Fonte – BBC Brasil de 01 de setembro de 2017

Desmatamento e uso de terras para agropecuária são negligenciados como contribuintes para as mudanças climáticas

desmatamento

No que diz respeito à luta contra as alterações climáticas, o foco muitas vezes depende da redução do uso de combustíveis fósseis e do desenvolvimento de fontes de energia sustentáveis. Mas um novo estudo da Universidade de Cornell mostra que o desmatamento e o uso subsequente de terras para agricultura ou pastagem, especialmente em regiões tropicais, contribuem mais para a mudança climática do que se pensava anteriormente.

O novo artigo, “Are the Impacts of Land Use on Warming Underestimated in Climate Policy? “, publicado em Environmental Research Letters , também mostra quão significativo esse impacto foi subestimado. Mesmo que todas as emissões de combustíveis fósseis sejam eliminadas, se as atuais taxas de desmatamento tropical se manterem firmes até 2100, ainda haverá um aumento de 1.5 graus no aquecimento global.

“Muita da ênfase da política climática é a conversão para a energia sustentável a partir de combustíveis fósseis”, disse Natalie M. Mahowald, principal autor e diretor de ambiente do meio ambiente para o Atkinson Center for a Sustainable Future. “É um passo incrivelmente importante a tomar, mas, ironicamente, as partículas liberadas da queima de combustíveis fósseis – que são gravemente prejudiciais para a saúde humana – têm um efeito refrescante sobre o clima. A remoção dessas partículas efetivamente torna mais difícil atingir as temperaturas mais baixas estabelecido no acordo de Paris “.

Ela disse que, além de eliminar os combustíveis fósseis, as comunidades científicas e políticas devem prestar atenção às mudanças no uso da terra, para acabar com o aquecimento global, já que os efeitos do desmatamento não são “insignificantes”.

Enquanto o dióxido de carbono coletado por árvores e plantas é liberado durante o corte e queima do desmatamento, outros gases de efeito estufa – especificamente óxido nitroso e metano – são liberados depois que as terras naturais foram convertidas em uso agrícola e humano. Os gases compõem o efeito da capacidade do dióxido de carbono de capturar a energia do sol na atmosfera, contribuindo para forçar a radiação – energia absorvida pela Terra versus energia irradiada – e um clima mais quente.

Como resultado, enquanto apenas 20 por cento do aumento do dióxido de carbono causado pela atividade humana se origina do uso do solo e da mudança da cobertura do solo, essa proporção de aquecimento do uso da terra (em comparação com outras atividades humanas) aumenta para 40 por cento, uma vez que as co-emissões como o óxido nitroso e o metano são tidos em conta.

“No curto prazo, o uso da terra tende a ter o dobro do forçamento radiativo, que deveria ter obtido do dióxido de carbono devido às co-emissões, então é duas vezes mais importante”, disse Mahowald.

A descoberta de Mahowald ressoa com um artigo anterior publicado em Global Biogeochemical Cycles em janeiro, “Interactions Between Land Use Change and Carbon Cycle Feedbacks,” , que mostrou que o carbono liberado por uma área desmatada é realmente duplicado ao longo do tempo porque o futuro potencial dessa área para funcionar como um sorvedouro natural – ou seja, um habitat que pode absorver dióxido de carbono da atmosfera – foi eliminado.

“Normalmente, as pessoas só pensam sobre o que está acontecendo agora quando pensam sobre o orçamento de carbono”, disse Mahowald. “Mas se você pensa sobre o que acontecerá ao longo da vida dessa terra, por muito tempo no futuro, você deve multiplicar essa conversão de terras por dois para entender o efeito líquido dele”.

À medida que a agricultura se expande em áreas tropicais e as pressões para transformar a floresta em terras agrícolas aumentam, Mahowald enfatiza a importância de usar prazos prolongados para avaliar o impacto que essas práticas têm no clima.

“Temos uma boa frase: o legado multicentenário das decisões atuais de uso da terra”, disse ela. “Quando pensamos nas mudanças climáticas, não podemos parar no final do século. As consequências continuam por mais alguns séculos”.

Fonte – David Nutt / Lindsey Hadlock, Cornell University / tradução e edição de Henrique Cortez, EcoDebate de 06 de setembro de 2017

Por que não dá para celebrar a queda do desmatamento

Gado na Floresta Nacional do Jamanxim, no Pará (Foto: Greenpeace)

Inflexão na taxa ainda não compensa subida dos dois anos anteriores; pior ainda, dados do Imazon apontam pressão de grileiros sobre áreas protegidas do sul do Amazonas que Eliseu Padilha quer tesourar

Só falta agora o Ministério do Meio Ambiente comemorar os dados de desmatamento do Imazon, publicados nesta terça-feira (22). O governo é crítico contumaz da ONG de pesquisas paraense, que criou o primeiro sistema independente de monitoramento da devastação da maior floresta tropical do mundo. Mas agora esse sistema, o SAD, deu uma notícia que interessa ao ministro Sarney Filho (PV-MA): a taxa de desmatamento em 2017, primeiro ano cheio de sua gestão, caiu 21%. Partiu soltar foguete?

Os dados do Imazon, publicados pelo site G1 e disponibilizados depois na página da organização na internet, de fato sinalizam que algo mudou em relação ao ano passado. O corte raso detectado pelo SAD entre agosto de 2016 e julho de 2017 foi de 2.834 quilômetros quadrados, contra 3.579 quilômetros quadrados nos 12 meses anteriores. A queda na degradação florestal, a destruição silenciosa que precede o desmatamento total, foi ainda mais expressiva: 41% (de 6.225 km2 para 3.671 km2).

Embora o SAD use satélites “míopes” para produzir seus alertas mensais de desmatamento e por isso não sirva para fazer cálculos de área desmatada, ele raramente diverge da tendência geral que será mostrada pelo Prodes, o sistema do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) que calcula a taxa oficial anual. Se alguém botasse uma arma na minha cabeça e me mandasse chutar um número, eu diria que o Prodes mostrará neste ano uma queda ao redor de 15% em relação a 2016.

O governo Temer botará sua máquina de propaganda e suas mãozinhas nervosas em ação para dizer que, ao contrário do que afirmam os ambientalistas, não há retrocesso algum em sua administração — vejam só, a taxa de desmatamento caiu, dir-lhes-ei. Sarney já vem batendo nessa tecla desde o retorno da tragicômica viagem presidencial à Noruega, em junho, quando chamou a imprensa num sábado de manhã para dizer, ao lado de um deputado ruralista, que está tudo bem com a Amazônia e que toda a culpa do desmatamento nos últimos dois anos é do governo Dilma.

“É cedo para falar em retomada da queda do desmatamento”, afirma Antônio Victor Fonseca, pesquisador do Imazon e coordenador do SAD. E é cedo por dois motivos.

Primeiro porque, embora seja a primeira desaceleração registrada pelo SAD em cinco anos, ela ainda é insuficiente para compensar a elevação de 62% em 2015 e de 7% em 2016. “Em 2016 tivemos a maior área estimada pelo SAD em seus oito anos de monitoramento”, disse o pesquisador. Supondo que a taxa oficial do Inpe mostre os mesmos 21% de queda apontados pelo sistema do Imazon, não compensará o aumento de 29% medidos pelo Prodes do ano passado e os 24% do ano retrasado. Com quase 8.000 quilômetros quadrados aferidos pelo sistema do Inpe (cujos dados não podem ser comparados com os do Sad devido à diferença de metodologia) em 2016, a trajetória de queda ainda está longe dos 4.500 quilômetros quadrados de 2012, ano de menor desmatamento já medido na Amazônia.

Segundo, porque o desmate detectado pelo Imazon em julho deste ano foi basicamente idêntico ao de julho de 2016. E o período onde as derrubadas ocorrem de fato é a partir de junho e julho, quando começa a estação seca (o “verão”) na Amazônia. “Entrar no verão amazônico com esse nível de desmatamento é algo que chama atenção”, diz Fonseca.

Isso não significa que o Ministério do Meio Ambiente não tenha feito sua parte. Após o colapso econômico produzido pelo governo Dilma, que levou o Ibama a perder 30% de ser orçamento em 2016, Sarney conseguiu botar para rodar um acordo feito por sua antecessora, Izabella Teixeira, para usar dinheiro do Fundo Amazônia (doação da Noruega) para a fiscalização ambiental. Prova de que o trabalho do Ibama em campo está surtindo efeito é que madeireiros da região de Novo Progresso emboscaram e incendiaram uma cegonheira com oito picapes do órgão ambiental em julho. Agora, a chefe de fiscalização do Ibama no sudoeste do Pará, Maria Luiza de Souza (apelidada de “diabo loiro” pelos criminosos ambientais da região) está ameaçada de morte.

Ocorre que aquilo que o governo dá com uma mãozinha nervosa ele tira com a outra. E ganha uma passagem de ida para Trairão quem adivinhar qual é a mão maior.

No mês passado, Temer deu dois presentões ao pessoal do setor de ocupação de terras públicas do Norte: primeiro, assinou uma lei que anistia toda a grilagem feita entre 2004 e 2011 e permite regularização de grandes áreas invadidas. Depois, mandou para o Congresso um projeto de lei entregando 350 mil hectares da Floresta Nacional do Jamanxim, no Pará, a pessoas que em sua maioria ocuparam o local após ele ser decretado área protegida (na semana passada, Sarney chamou de “erro” a criação da Flona).

Quando o poder público faz isso, indica que áreas protegidas não são mais sagradas e esvazia-as de sua principal função na Amazônia, que é conter a apropriação criminosa. Se uma unidade de conservação ou uma terra indígena não inibem a grilagem, nada mais inibirá: os invasores e especuladores entenderão que o crime compensa e partirão para o roubo de terras públicas onde quiserem. Esta é a receita para o desmatamento sair do controle — e não haverá diabo loiro que dê jeito nisso.

O pessoal parece já ter captado a mensagem do mesoclítico guru. Em 2017, pelo segundo ano consecutivo, unidades de conservação são a segunda categoria fundiária mais desmatada nos dados do SAD (com 22% de toda a derrubada registrada), atrás apenas de áreas privadas. A nova frente de pressão está no norte de Rondônia e no sul do Amazonas. Essa região é onde o ministro da Casa Civil de Temer, Eliseu Padilha, ele próprio acusado de grilagem de terras e suspeito de desmatamento ilegal, anda orquestrando com a bancada do Amazonas no Congresso o próximo ataque a áreas protegidas.

Cinco unidades de conservação no sul do Estado, criadas por Dilma Rousseff em 2016, estão na mira dos ruralistas. Essas áreas são parte de um lote de 3 milhões de hectares doado pelo Incra ao Ministério do Meio Ambiente em 2014 porque não interessavam a ninguém. Pelo visto agora interessam. As imagens de satélite parecem sugerir que elas estão sendo paulatinamente invadidas e desmatadas, a fim de criar um fato consumado e uma expectativa de regularização futura. Quem duvida pode olhar o último gato enfiado na proposta de lei de licenciamento ambiental em discussão no Congresso, que dispensa da exigência de licença qualquer propriedade rural “em regularização ambiental” (grileiros geralmente inscrevem seus grilos no Cadastro Ambiental Rural, de forma que, no papel, a terra roubada é uma propriedade “em regularização”).

Enquanto perdurar a aliança de Michel Temer com os ruralistas, a fiscalização do desmatamento estará condenada a empurrar a pedra montanha acima só para vê-la rolar montanha abaixo em seguida. Um ano de desaceleração na taxa pode ser conveniente para a propaganda. Mas esse número, como tudo na administração Temer, é insustentável.

Fonte – Claudio Angelo, Observatório do Clima de 22 de agosto de 2017

Não é só Temer. Nosso padrão de consumo ajuda a derrubar a Amazônia

Queima de pastagem em área desmatada na Amazônia. Foto: Rodrigo Baleia/ Greenpeace

 

Não é novidade que Michel Temer tem rifado a qualidade de vida desta e das futuras gerações em nome da manutenção no poder de seu grupo político denunciado por corrupção. Faz a vontade de uma parte do setor produtivo e do Congresso Nacional que prega uma política de terra arrasada em nome de uma ideia distorcida de progresso. A redução da proteção na Floresta Nacional do Jamanxim, no Pará, ou o ataque direito aos direitos de populações indígenas a seus territórios (que apresentam, em média, taxas de conservação maiores que as unidades sob responsabilidade direta do governo) são exemplos disso.

Também não é novidade que Dilma Rousseff não se importava com a questão ambiental. Um dos maiores crimes cometidos contra a Amazônia, seus povos e trabalhadores em nossa história recente responde pelo nome de usina hidrelétrica de Belo Monte, menina dos olhos da ex-presidente. Comunidades indígenas e ribeirinhas impactadas e deslocadas, trabalhadores mortos, tráficos de pessoas para exploração sexual a fim de atender aos canteiros de obras, criação de novos vetores de desmatamento, ocupação desordenada do solo urbano e rural, tudo contribuindo para mudanças climáticas. Ironicamente Dilma estava ao lado de um modelo de desenvolvimento predatório e violento que foi levado a cabo durante a ditadura contra a qual ela bravamente lutou.

Poderíamos citar todos os mandatários da Nova República e dar especial ênfase aos ditadores entre 1964 e 1985 nessa lista suja. Mas o que as pessoas esquecem é que esse modelo de terra arrasada serve para abastecer um padrão de consumo, vendido em publicidades brilhantes, propagandas excitantes e merchãs delirantes, que nós abraçamos bovinamente sem questionar.

Sim, a panela de alumínio com a qual muitos resumem sua participação na vida pública bebeu energia e comeu minerais extraídos da Amazônia brasileira para abastecer as indústrias nacional e estrangeira. Sim, muitos bens de consumo têm em seu custo o desaparecimento de aldeias indígenas e o desmatamento ilegal.

De onde você acha que vem o aço de nossos automóveis? E o couro dos estofados? E a madeira utilizada no processo de construção de nossas casas e apartamentos? E a carne que comemos diariamente? E a soja que está em muitos de nossos produtos industrializados e na ração de outros animais? E o dendê dos agrocombustíveis? E o ouro dos circuitos eletrônicos? Nem todos são produzidos de forma danosa ao meio e ao ser humano, claro, mas muita coisa se vai sem controle algum.

Há hidrelétricas de grande porte planejadas para serem construídas na Amazônia Legal, em rios como o Tapajós, o Tocantins e o Apiacás, dependendo apenas da retomada econômica. Tendo em vista os graves impactos causados no meio ambiente, em trabalhadores rurais e em populações tradicionais em processos como os das usinas de Estreito, Jirau, Santo Antônio e Belo Monte, temos ideia do festival de loucuras que isso vai causar.

Do que adianta não questionar os padrões de comportamento ao qual todos nós – e não me excluo desse coletivo – estamos inseridos e depois colocar uma foto nas redes sociais do tipo ”SOS Amazônia”? Você busca se informar sobre o impacto de seu consumo e, a partir daí, questiona-los e aos fornecedores dos seus produtos preferidos?

Muitos defendem a mudança no comportamento da sociedade para combater a destruição do meio ambiente, mas, no sigilo do carrinho de supermercado, continuam comprando um produto mesmo sabendo que ele está envolvido em danos ambientais. Autointulam-se ecoconscientes, porque é bonito e pega bem (é hype, sabe?), mas sustentam uma pegada ecológica do tamanho de um mundo.

No âmbito da disputa de discursos, a necessidade de garantir o futuro do planeta já está relativamente bem posicionado na sociedade brasileira, mesmo não sendo a sua prioridade principal. O problema é como esse discurso é usado ou absorvido.

Por exemplo, muitos ruralistas ao dizerem que concordam com ”desmatamento zero” estão apenas lavando sua marca. Mas não explicitam as ressalvas que impõem – o que é igual àquelas propagandas de carros em que o cidadão vê apenas as “36 vezes de R$ 300,00”, mas quando vai comprar quase tem um ataque cardíaco porque na letrinha miúda aparecem outras quatro parcelas intermediárias de R$ 40.000,00 que o anúncio não informou. Ou seja, sem mais desmate além do permitido pela reserva legal na Amazônia, mas com um amplo e irrestrito perdão das burradas já feitas, com a autorização para pôr o vizinho Cerrado abaixo, com rios de dinheiro para manter a floresta de pé, ignorando direitos de indígenas e quilombolas a seus territórios…

Como escreveu Cecília Meireles no Romanceiro da Inconfidência, “todos querem a liberdade, mas quem por ela trabalha?” Desconfio que poucos. A maioria segue escondida no conforto do anonimato, defendendo o seu, fazendo meia dúzia de ações insignificantes para dormir sem o peso da consciência e o resto que se dane.

Não querem mudanças no modelo de desenvolvimento que impactaria nosso ”American Way of Life” que importamos, apenas reciclam latinhas de alumínio e dão três descargas a menos no vaso sanitário por dia. E, pior, acreditam em promessas sem lastro, só por um discurso bonitinho, mas completamente ordinário, que não vale o esterco em que são adubadas em tempos de eleições.

Dessa forma, seguimos nossa cruzada em prol do desenvolvimento a todo o custo. Para produzir e, assim, exportar, gerar divisas, pagar juros de empréstimos, e assim poder contrair mais empréstimos e investir na produção. Não sem antes destruir outro lugar e outra comunidade. Que pode ser indígena, mas também ribeirinha, camponesa, quilombola, caiçara ou mesmo moradores da periferia de grandes cidades.

Estou falando algo além do boicote, que é um instrumento muito importante, mas não resolve sozinho de forma estrutural. Precisamos fazer acompanhamento crítico de nosso consumo no cotidiano.

Porque consumir é um ato político. Quando você compra algo, está depositando seu voto na forma como aquele produto foi feita, não apenas em sua estética, mas também em sua ética.

Como já disse aqui antes, isso não é um chamado à culpa, o que não leva a nada. E só podemos defender consumo consciente se, antes, ajudarmos a população a se informar sobre o que acontece. Atuo com a investigação de cadeias produtivas do agronegócio e do extrativismo desde 2003, tendo coordenado o rastreamento de mais de mil unidades produtivas. Ao mesmo tempo, tenho um doutorado exatamente sobre esse tema. Isso não me torna autoridade de nada, mas me permite dar meu testemunho pessoal: a mudança é lenta, muito lenta, mas possível.

Isso é um lembrete que todos temos responsabilidade, uns mais outros menos. A nossa, claro, é menor do que a dos governos e de empresários do agronegócio, do extrativismo, da indústria, do varejo e do sistema financeiro. Mas temos um papel a cumprir, preferindo políticos e produtos que atuam em nome da qualidade de vida e excluindo do rol de possibilidades quem não se importa com o meio e as pessoas que nele vivem. Lembrando que não há debate possível que não passe por repensar o próprio capitalismo.

Lutar contra a pilhagem da Amazônia, do Cerrado e do Pantanal é difícil, porque aprendemos a gostar do conforto das coisas a um preço baixo. Mas necessário. Porque se pagamos um valor módico é que alguém, a milhares de quilômetros de onde você se encontra, está pagando um preço muito caro pela sua alegria.

Fonte – Blog do Sakamoto de 30 de agosto de 2017

O que ainda precisamos perder para nos preocuparmos com o Cerrado?

Desmatamento no Cerrado (Foto: WWF)Desmatamento no Cerrado (Foto: WWF)

O segundo maior bioma da América do Sul segue como campeão de desmatamento

O Cerrado é o bioma brasileiro mais desmatado no Brasil, superando em duas vezes o índice de desmatamento da Amazônia. Segundo dados recém-lançados pelo Ministério do Meio Ambiente, o Cerrado perde quase um milhão de hectares de vegetação nativa por ano. Se esse ritmo alarmante se mantiver, haverá, até 2050, o maior processo de extinção de espécies já registrado na história da ciência global, com perdas três vezes maiores do que as já registradas desde 1500.

Uma de cada quatro espécies de fauna que estão ameaçadas de extinção vive no Cerrado, o que significa que um total de 137 espécies estão em risco de desaparecer. Mesmo que paremos o desmatamento hoje, mais de 50% do bioma já foi dizimado e o que resta está comprometido pela expansão da nova fronteira agrícola nos estados do Maranhão, do Tocantins, do Piauí e da Bahia. Conhecida como Matopiba, essa é uma das poucas regiões que ainda concentram grande quantidade de vegetação nativa preservada.

A degradação do bioma não significa apenas extinção de espécies, pela fragmentação e falta de conectividade entre as áreas de remanescentes florestais – tanto espécies vegetais quanto animais dependem dessas conexões e das trocas genéticas que a conectividade possibilita para garantir a viabilidade de importantes populações na região –, significa também aumento nas emissões de gases de efeito estufa do país, o exaurimento de um modelo produtivo insustentável e ameaças à comunidades tradicionais e indígenas associadas.

Os impactos dessa devastação já estão evidentes na falta de água em Brasília, nas estiagens e secas mais severas como no caso da região do Matopiba, que apresentou queda de 30% na safra de grãos de 2015-2016, escassez hídrica desde 2013 na região do São Francisco, fazendo com que os reservatórios das hidrelétricas chegassem aos menores índices da história, afetando a vida de nove em cada dez brasileiros que consomem eletricidade produzida com águas do Cerrado.

Nem parece que estamos falando do Cerrado, berço das águas, considerado a caixa-d’água do Brasil. No bioma nascem as principais bacias do país, que vertem as águas que alimentam as bacias do São Francisco, do Tocantins-Araguaia, do Paraná e Paraguai – esta última, tão importante para a vida no Pantanal.

Diante dessa situação, é urgente buscar uma série de soluções que precisam ser adotadas por toda a sociedade, pelos governos e pelo setor privado. Ações como o uso de pastagens degradadas para expansão dos plantios de oleaginosas e eucalipto, adoção da rastreabilidade das cadeias produtivas do agronegócio e acordos setoriais evitando o consumo de produtos advindos do desmatamento no Cerrado.

Mais do que isso, é fundamental criar programas de monitoramento periódico do desmatamento, a exemplo do Prodes-Cerrado, a fim de informar a taxa de perda de vegetação anual, ajudando na prevenção e combate do desmatamento e o fortalecimento de políticas de financiamento para recuperação de áreas de Cerrado em propriedades privadas, buscando atender aos passivos ambientais em conformidade com o novo Código Florestal.

Faz-se necessário, ainda, o cumprimento das metas de Aichi da Convenção da Diversidade Biológica, em que o Brasil é signatário e prevê que 17% das zonas terrestres e de águas continentais devem estar protegidas por lei, já que no Cerrado o percentual de áreas protegidas é de apenas 7,73%, sendo que na categoria de proteção integral o índice é de míseros 2,89%. É urgente, também, aprovar um marco legal de proteção do bioma, caso da aprovação da PEC 504/2010, que trata de incluir na Constituição Federal, o Cerrado e a Caatinga como patrimônio nacional, e do PL 25/2015, que dispõe sobre a conservação e a utilização sustentável da vegetação nativa do bioma.

Precisamos de um grande pacto contra a destruição do Cerrado, do contrário, em alguns anos, restará muito pouco desse bioma tão precioso. Está na hora de assumir que a agropecuária só pode se expandir sob pastos degradados e não sob ecossistemas naturais, ou seja, estabelecer um pacto pelo desmatamento zero no bioma, de modo que possamos salvar o Cerrado e fazer algo de concreto em prol do uso inteligente e sustentável. É o momento de a sociedade brasileira fazer uma escolha. Estamos atrasados.

Julio César Sampaio é coordenador do Programa Cerrado Pantanal do WWF

Fonte – Blog do Planeta de 12 de setembro de 2017

Extinção de reserva é “ataque à Amazônia”, dizem ativistas

Desmatamento na Amazônia

Extinção da Renca não fomentará apenas desmatamento, mas também alimentará conflitos fundiários, dizem críticos

Para Amazon Watch, medida é maior investida até agora em “pacote de ameaças” ao meio ambiente do governo Temer. WWF Brasil condena falta de transparência e diálogo com sociedade. Mídia internacional repercute decisão.

decisão do governo brasileiro de abrir uma reserva na Amazônia maior que o território da Dinamarca para exploração mineral, anunciada nesta semana, atraiu críticas afiadas de ambientalistas. Eles alertam para o possível aumento do desmatamento, conflitos fundiários e ameaça à biodiversidade.

A extinção da Reserva Nacional de Cobre e Associados (Renca), localizada na divisa entre o sul e sudoeste do Amapá com o noroeste do Pará, foi alvo de denúncias de organizações como WWF Brasil, Amazon Watch e da modelo Gisele Bündchen.

Bündchen publicou uma imagem em seu Twitter convocando os brasileiros a dizerem não ao abrandamento da proteção da Amazônia e a “mostrar ao governo que não estamos de acordo com o fatiamento da Amazônia para exploração”.

“VERGONHA! Estão leiloando nossa Amazônia! Não podemos destruir nossas áreas protegidas em prol de interesses privados”, escreveu ainda a modelo, que frequentemente se pronuncia sobre causas ambientais.

A área ficou mais de 30 anos fechada à atividade de mineração e agora poderá voltar a ser explorada pela iniciativa privada. Apesar de trazer cobre no nome, a região tem alto potencial para exploração de ouro, mas também de tântalo, minério de ferro, níquel, manganês, além de outros minerais nobres.

O coordenador de políticas públicas do WWF Brasil, Michel de Souza, alertou em entrevista ao jornal O Globo para o risco de uma corrida do ouro, que acarreta o risco de repetir tragédias como a de Mariana.

Para o diretor executivo da organização, Maurício Voivodic, “além da exploração demográfica, desmatamento, perda da biodiversidade e comprometimento dos recursos hídricos, haverá acirramento dos conflitos fundiários e ameaça a povos indígenas e populações tradicionais”.

A WWF Brasil também mostrou preocupação com a falta de diálogo e de transparência do governo em abrir a área por meio de decreto, sendo que o território abriga nove áreas protegidas, incluindo unidades de conservação e terras indígenas.

Em sua defesa, o presidente Michel Temer disse que a meta não é apenas dar força à indústria da mineração, mas também controlar uma atividade já praticada por mineradoras ilegais que usam métodos destrutivos e contaminam rios com mercúrio.

“O governo não alterou nenhuma reserva ambiental da nossa Amazônia. Reorganizamos uma área mineral, hoje alvo do garimpo. É bem diferente”, disse Temer no Twitter.

A Secretaria Especial de Comunicação Social da Presidência da República também rebateu as críticas de ambientalistas e afirmou que “como explicita o nome, o que deixou de existir foi uma antiga reserva mineral – e não ambiental. Nenhuma reserva ambiental da Amazônia foi tocada pela medida”.

Destruição e conflitos

Apesar das palavras de Temer, críticos se mostram descrentes, uma vez que a extinção da reserva e a liberação da mineração na região terão impacto sobre áreas protegidas que estão nos limites da reserva, podendo fomentar atividades de extração ilegal, invasão de terras públicas, desflorestamento e conflitos.

A Amazon Watch ressaltou a importância de colocar a decisão dentro um contexto de esforços do governo Temer para reduzir áreas protegidas, enfraquecer o licenciamento ambiental e erodir os direitos indígenas em prol de interesses privados.

“A abolição do Renca causará destruição na floresta e nas comunidades indígenas atendendo aos interesses do pequeno grupo dos economicamente poderosos que mantêm Temer no poder”, disse Christian Poirer, da Amazon Watch ao jornal britânico The Guardian. “Este é o maior ataque até agora em um pacote de ameaças.”

Moira Birss, também da Amazon Watch, ressaltou à emissora Al Jazeera que a medida é extremamente míope por acabar com proteções ambientais e indígenas, levando à destruição de recursos e, em muitos casos, beneficiando companhias estrangeiras.

“Maior ataque nos últimos 50 anos”

A decisão de extinguir a Renca também teve repercussão na imprensa internacional. A americana CNN destacou que a área da reserva tem duas vezes o tamanho do estado de New Jersey e que a Amazônia produz 20% do oxigênio do mundo.

A emissora disse ser difícil determinar a verdadeira escala da mineração no Brasil, pois as operações de mineradoras ilegais são difíceis de localizar. “O desmatamento e a mineração estão destruindo a floresta tropical numa velocidade impressionante”, afirmou a CNN.

Com a manchete “Brasil libera enorme parque natural para mineração”, o site da revista alemã Der Spiegel  noticiou que a oposição do governo Temer e ambientalistas estão altamente alarmados após a decisão do governo.

O britânico The Guardian citou uma declaração dada pelo senador brasileiro Randolfe Rodrigues (Rede) ao jornal O Globo. Randolfe classificou o decreto de Temer como “o maior ataque contra a Amazônia nos últimos 50 anos”.

The Guardian apontou ainda que desde o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, Temer “agiu rapidamente para desfazer proteções ambientais para agradar o poderoso lobby da agricultura e da mineração”.

Fonte – DW de 25 de agosto de 2017

A máquina que move o desmatamento da Amazônia

Criação ilegal de gado na Floresta do Jamanxim, Pará: tramita no Congresso projeto para reduzir proteçãoCriação ilegal de gado na Floresta do Jamanxim, Pará: tramita no Congresso projeto para reduzir proteção

Pecuária avança por áreas protegidas e está por trás de 65% do desflorestamento. No Amazonas, moradores de unidades de uso sustentável tentam conter destruição da mata

Na lógica que move a destruição da Floresta Amazônica, ainda é raro encontrar histórias de transformação como a de Roberto Brito de Mendonça, de 43 anos. Foram necessários 100 anos para que se rompesse – por suas mãos – uma vocação que parecia natural na família: o desmatamento ilegal.

Aos 12 anos, iniciado pelo pai e o avô, derrubou sua primeira árvore, às margens do rio Negro, no Amazonas. Trinta anos depois, abandonou a motosserra – e a ilegalidade. “Eu era revoltado com o governo que nos pedia para preservar. Na minha ignorância, eu falava: ‘Não estou nem aí, quero aproveitar a floresta da forma que eu conheço'”, conta Roberto, que dependia da madeira para sustentar a família.

A comunidade onde ele vive está dentro da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Rio Negro, no Amazonas, criada em 2008 para preservar a mata e o modo de vida das populações tradicionais. Com 103 mil hectares e 693 famílias espalhadas por 19 vilarejos, a unidade de conservação, no entanto, não está livre do risco.

“Hoje já temos a pressão de grandes fazendeiros migrando dos estados do Pará e Rondônia para o Amazonas, com grandes empresários fazendo investimentos”, afirma Renê Luis de Oliveira, coordenador-geral de fiscalização ambiental do Ibama.

Em toda a Amazônia Legal, a sistemática do desmatamento segue um roteiro conhecido pelos fiscais: o invasor derruba a floresta em terra pública, vende madeira para se capitalizar, planta capim e coloca o gado. Mais tarde, as terras de interesse da agricultura dão lugar ao cultivo de soja, arroz e milho.

O método “boivigia”

Em sobrevoos de fiscalização, é possível avistar áreas desmatadas sem qualquer construção –apenas os bois vigiam o terreno. “Os grileiros invadem esperando, um dia, a regularização fundiária de uma terra que é pública”, afirma Oliveira.

O rebanho bovino na Amazônia Legal saltou de 37 milhões de cabeças em 1995, o que era equivalente a 23% do total nacional, para 85 milhões em 2016 – cerca de 40%. “A pecuária para a criação de gado é a atividade que mais contribui para o desmatamento na Amazônia, ocupando 65% da área desmatada”, afirma o estudo recente do Imazon (Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia).

Marlene Alves da Costa, uma das lideranças comunitárias na RDS Rio Negro, já precisou barrar invasores que queriam trazer gado para as terras. “Gado aqui é proibido. O que ainda acontece é o roubo de madeira. Cortam de dia, escondido, e levam embora à noite. Mas nós denunciamos”, conta.

Os moradores tradicionais de Reserva Extrativista Jaci-Paraná, em Rondônia, não conseguiram o mesmo. Segundo o Ibama, trata-se de uma unidade de conservação mais desmatada do estado. “Fazendeiros tomaram conta. São mais de 50 mil cabeças de gado na reserva”, relata Oliveira.

As áreas ocupadas por populações tradicionais, extrativistas, não barram os invasores. “É comum a gente verificar aliciamento desses povos dentro das reservas extrativistas e de uso sustentável. Eles acabam vendendo sua terra e, muitas vezes, são até afugentados pelos grandes proprietários”, relata Oliveira. “É muito complexo”.

Alvo fácil para grileiros

As florestas públicas sem destinação são o alvo mais fácil para os grileiros e seus bois. “São 60 milhões de hectares de florestas não destinadas na Amazônia. São terras públicas que estão à mercê da grilagem”, afirma Cristiane Mazzetti, especialista em Desmatamento Zero do Greenpeace. O tamanho da área em questão equivale a quase o dobro do território da Alemanha.

“Os povos da floresta são fundamentais para a conservação. Qualquer planejamento tem que levar em consideração as populações tradicionais, os indígenas, garantir o direito à terra e atividades econômicas que mantenham a floresta em pé”, diz Mazzetti a favor do aumento das unidades de conservação.

A pecuária não entraria nesta lista. O controle dessa atividade, inclusive, virou prioridade para coibir a destruição do ecossistema. Em mais de um ano de investigação, o Ibama multou 14 frigoríficos que compraram produtos vindos de áreas desmatadas ilegalmente ou embargadas.

Mazzetti destaca ainda o peso da política: “É fundamental que o governo não aprove medidas que sigam na direção contrária. E o que a gente vê é o contrário: propostas discutidas no Congresso que dão a expectativa de redução de unidades de conservação, ou desafetação, o que acaba contribuindo com a invasão dessas áreas.”

Após a aprovação da chamada MP da Grilagem (MP 759/16), tramita no Congresso o projeto que reduz a proteção na Floresta Nacional do Jamanxim, Pará. Na última quarta-feira, o governo federalpublicou um decreto que extingue a Reserva Nacional de Cobre e Associados (Renca), na Amazônia. A reserva, criada em 1984, possui cerca de 47 mil quilômetros quadrados.

Desmatamento e vocação

Embora o balanço divulgado pelo Imazon tenha apontado queda de 21% do desmatamento entre agosto de 2016 e julho de 2017, a situação não é de alívio. “A gente ainda está em 2017 muito aquém de onde deveríamos estar para dizer: ‘Estamos no rumo da eliminação do desmatamento e de cumprir as metas estabelecidas no Acordo de Paris'”, comenta Carlos Rittl, secretário-executivo do Observatório do Clima.

Para ele, Brasília erra ao mandar o seguinte recado: “Com a anistia do Código Florestal, da grilagem, de invasão de áreas protegidas, retirada de direitos de povos indígenas, flexibilização de leis ambientais, eles mostram que o crime florestal compensa.”

Rittl dirige a crítica ao governo Temer e às concessões à bancada ruralista. “O chefe da bancada, inclusive, se esquece que a agricultura, que ele em tese defende, depende de água, que depende de floresta. Então preservar floresta nada mais é que assegurar um serviço ambiental para a produção agrícola nacional”, comenta, sobre a entrevista concedida pelo deputado e chefe da bancada ruralista Nilson Leitão à DW Brasil. “Ele demonstrou ter uma visão muito míope sobre o papel das florestas.”

Das margens do rio Negro, Roberto acompanha preocupado esses embates. O ex-desmatador, agora empreendedor, espera que nada atrapalhe sua nova vocação. Para ele, é a falta de conhecimento que atiça o instinto de destruição. “Passamos 100 anos para descobrir que a floresta tem valor”, menciona, lembrando a história de sua família. “O meu sonho é que as pessoas locais tenham a mesma oportunidade. Porque é através das pessoas locais que a preservação vai começar.”

Fonte – Nadia Pontes, DW de 24 de agosto de 2017

Desmatamento na Amazônia cai 21%, mas aumenta 22% em unidades de conservação

Vista aérea de floresta e riosVista aérea de floresta e rios da Amazônia. Valter Campanato/Arquivo/Agência Brasil

O desmatamento na Amazônia Legal caiu 21% em um ano, interrompendo as sucessivas altas verificadas nos últimos cinco anos, apontam dados do Sistema de Alerta de Desmatamento (SAD) do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), divulgados hoje (22). Entre agosto de 2016 a julho de 2017 foi desmatada uma área de 2.834 quilômetros quadrados (km²). No período anterior, o acumulado chegou a 3.579 km². Apesar da melhora, a área desmatada corresponde a quase ao dobro do território da cidade de São Paulo (a capital paulista tem área de 1.521 km²). Já o desmatamento em unidades de conservação subiu 22%.

De acordo com Antônio Victor, pesquisador do Imazon, um dos motivos que podem explicar essa redução é o fato de a base de comparação do ano anterior ser alta. “Em 2016 tivemos a maior área já desmatada em um ano. Foi o maior pico de desmatamento já detectado pelo SAD desde 2008. Estamos comparando 2017 com um número bastante elevado”, disse. Além disso, ele destaca que, apesar de ser importante o recuo no desmatamento, o volume ainda impressiona. “É uma área considerável, pensando que o objetivo do Brasil é reduzir a zero.”

Unidades de conservação

desmatamentoA maioria das áreas desmatadas estão em terras privadas (61%) , seguida pelos assentamentos (15%) e terras indígenas (2%)Arquivo/Agência Brasil

Victor também chama atenção para o aumento do desmatamento em unidades de conservação. Em julho, foi a segunda área mais afetada, com 22% do total. “Há grande incidência do crescimento de alertas, nos últimos anos, na região do sul do Amazonas, envolvendo o estado do Amazonas e de Rondônia, onde há uma concentração de unidades de conservação, que estão sofrendo forte pressão para redução, alteração dos limites ou mesmo a extinção”, disse.

A maioria das áreas desmatadas estão em terras privadas (61%) , seguida pelos assentamentos (15%) e terras indígenas (2%) .

O levantamento, feito mensalmente, considera o período de agosto a julho por reunir os períodos de maior e menor quantidades de chuvas. “A chuva é um fator importante na logística de quem pratica o desmatamento, pois dificulta muito o acesso”, explicou. Victor explica que, historicamente, nos meses de julho a outubro – o verão amazônico, período com menos precipitações – costuma aumentar o desmatamento. “Se forem tomadas medidas de controle, fiscalização e de punição, tende a passar a mensagem que o Estado está atuante e tende a levar a uma redução”, disse.

Dados

Em julho deste ano, o SAD detectou 544 km² desmatados na Amazônia Legal – área que engloba os sete estados da Região Norte, o Mato Grosso e parte do Maranhão. O valor é semelhante ao verificado em julho de 2016, quando foram verificados 539 km².

No período entre agosto de 2016 a julho de 2017, Mato Grosso é o estado que lidera em volume de desmatamento, com 810 km², mas reduziu 15% em um ano. Em seguida está o Pará, com 714 km², uma queda de 31% em relação aos 1.030 km² somados em 2016. A mair diminuição foi detectada em Roraima, que passou de 71 km² para 45 km², um decréscimo de 37%.

O monitoramento oficial do desmatamento na Amazônia é feito pelo Sistema Projeto de Monitoramento do Desmatamento na Amazônia Legal, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), divulgada anualmente. Ainda não há dados de 2016/2017. Victor explica que os modelos de monitoramento não permitem comparação, pois utilizam metodologias diferentes.

Fiscalização

Para o ministro do Meio Ambiente, Sarney Filho, a queda no desmatamento reflete o “reforço na fiscalização”. “A presença do Estado na Amazônia está muito forte e os resultados já estão sendo sentidos”, disse por meio de nota.

Entre as medidas destacadas pelo ministro está a recomposição orçamentária do Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). “Pela primeira vez, recursos do Fundo Amazônia foram destinados para ações adicionais de comando e controle”, diz o texto.

Sarney Filho também apontou o incentivo ao desenvolvimento sustentável na região. Segundo ele, além das operações de fiscalização, é necessário estabelecer medidas para fortalecer a economia e a conservação ambiental na região. “Estamos implantando um modelo sustentável que valoriza a floresta em pé”, disse.

* Matéria atualizada às 19h49 para acréscimo da posição do Ministério do Meio Ambiente

Fonte – Camila Maciel, edição Fábio Massalli, Agência Brasil de 22 de agosto de 2017

Estamos caminhando para o desaparecimento irreversível das florestas

(Gráfico: MPF)

Uma das evidências que confirma o “declínio” das florestas tropicais no mundo é que a “taxa de desmatamento no primeiro decênio deste século foi 62% maior que no último decênio do século passado, e desde 2011 constata-se uma aceleração dessa aceleração, sobretudo na Ásia e na Oceania”, adverte o historiador Luiz Marques à IHU On-Line.

No Brasil, afirma, embora tenha havido uma diminuição da taxa de desmatamento em quase uma década, “o desmatamento voltou a crescer, atingindo 7.989 km² nos 12 meses entre agosto de 2015 e julho de 2016”. Apenas depois da implantação do novo código florestal em 2012, informa, “houve um aumento de 75% na taxa anual de desmatamento”. Na avaliação de Marques, isso ocorreu porque “o governo de Dilma Rousseff após 2012 entregou a Amazônia e o Cerrado à sanha destruidora dos ruralistas. Só o governo de Michel Temer consegue agora nos convencer de que não há de fato um limite absoluto para a piora”.

Na entrevista a seguir, concedida por e-mail para IHU On-Line, Marques explica os fatores associados ao aumento do desmatamento das florestas tropicais e assinala que a globalização do capitalismo “transformou definitivamente a alimentação em commodities, negociadas nos mercados futuros. Nesse âmbito, o avanço das pastagens para o gado bovino, estimulado pelo aumento do carnivorismo no Brasil e no mundo todo, é, de longe, a principal causa do desmatamento”. Associado a esse fator, o aumento das secas e do aquecimento global está “levando as árvores à falência hidráulica por cavitação ou embolia vegetal, um fenômeno conhecido pelo termo dieback”, diz.

Luiz Marques lembra que as florestas são “imprescindíveis para a vida no planeta” porque “são fundamentais para o ciclo do carbono, para retardar a velocidade e amenizar as mudanças climáticas, para a manutenção dos recursos hídricos, para a regularização das chuvas, para a conservação dos solos etc.”

Luiz Marques é graduado em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Campinas e doutorado em História da Arte pela École des Hautes Études en Sciences Sociales – EHESS. Atualmente é professor de História na Universidade Estadual de Campinas. É cocriador do portal Crisálida. Crises socioambientais. Labor Interdisciplinar Debate & Atualização.

IHU On-Line – Como são feitas as projeções sobre qual será o estado das florestas nos próximos anos, como 2030 e 2050?

Luiz Marques – Por definição, projeções são feitas a partir de trajetórias observadas. Qualificam-se e quantificam-se os diversos dados e fatores conhecidos dos quais a forma da curva já observada é a resultante. A partir dessa análise, que inclui aceleração, manutenção ou desaceleração, causas diretas e indiretas ou sistêmicas, respostas do próprio ecossistema às pressões observadas (sua capacidade maior ou menor ou mesmo incapacidade de regeneração), detecção de regiões de concentração do desmatamento (hotspots), demandas do mercado, legislação, entre outros muitos fatores, criam-se então cenários futuros, quando possível com determinação de sua probabilidade e com margens de erro. Estes vão desde o mais pessimista ao mais otimista, passando pela manutenção do cenário de base (business as usual).

“Se continuarmos a pensar que a natureza é apenas um subsistema do sistema econômico, se continuarmos imersos em nossa ilusão antropocêntrica e hipnotizados pelo discurso hegemônico de que o crescimento econômico é a “saída”, como é ainda a crença da maior parte dos economistas, então estamos condenados a um colapso socioambiental”

Há várias projeções em pauta. Em geral, as projeções de curto prazo (15 a 35 anos) e, portanto, de maior confiabilidade, convergem para um quadro de declínio continuado, ou mesmo de ainda maior aceleração, da área, da integridade, da funcionalidade e da resiliência das florestas em escala global. O WWF, por exemplo, projeta que os cinco países asiáticos banhados pelo rio Mekong — Cambodia, Laos, Myanmar, Tailândia e Vietnã —, que perderam em média um terço de suas florestas nos últimos 35 anos, poderão ter em 2030, a se manter o ritmo atual da devastação, apenas entre 10% e 20% de sua cobertura florestal original (veja-se “Saving Forests at Risk”. WWF Living Forests Report. Capítulo 5). A Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico – OCDE afirma: “As florestas primárias, mais ricas em biodiversidade, devem perder até 2050 13% de sua área. As florestas primárias (…) têm decaído e estima-se que diminuirão constantemente até 2050, mantido o cenário de base” (veja-se: OECD Environmental Outlook to 2050: The Consequences of Inaction, 2012, pp. 22 e 157).

IHU On-Line – Qual é a situação das florestas tropicais no Brasil em comparação com a situação mundial?

Luiz Marques – O declínio das florestas tropicais como um todo está se acelerando. Trata-se de uma situação extremamente grave. A taxa de desmatamento no primeiro decênio deste século foi 62% maior que no último decênio do século passado, e desde 2011 constata-se uma aceleração dessa aceleração, sobretudo na Ásia e na Oceania. No que se refere ao Brasil, após uma diminuição notável da taxa de desmatamento da Amazônia entre 2004 e 2012 (de 27.774 km², entre agosto de 2003 e julho de 2004, para 4.656 km² entre agosto de 2011 a julho de 2012, segundo dados do INPE), o desmatamento voltou a crescer, atingindo 7.989 km² nos 12 meses entre agosto de 2015 e julho de 2016. Desde a implantação do novo código florestal em 2012, houve um aumento de 75% na taxa anual de desmatamento. O governo de Dilma Rousseff após 2012 entregou a Amazônia e o Cerrado à sanha destruidora dos ruralistas. Só o governo de Michel Temer consegue agora nos convencer de que não há de fato um limite absoluto para a piora.

IHU On-Line – No Brasil, as florestas tropicais são responsáveis por que percentual da cobertura vegetal do país?

“Historicamente, na Amazônia, mais de 80% do desmatamento é causado pela pecuária”

Luiz Marques – Depende do que se entende por florestas tropicais e do momento escolhido para definir essa porcentagem. Apenas no que se refere à floresta amazônica, dados do IBGE/PRODES para o período 1970-2013 indicam uma perda da ordem de 22% de sua área, 763 mil km² ou, por amor de precisão, 762.979 km². Em julho de 2016, totalizamos uma perda total, por corte raso, de 782.187 km². A cada ano, portanto, esse percentual diminui significativamente. Até 2020, teremos provavelmente perdido pouco mais ou menos de 800 mil km², mantida a trajetória atual. E isso sem falar na destruição já ocorrida de cerca de metade da área do Cerrado, e da destruição da Caatinga e dos resíduos da Mata Atlântica.

IHU On-Line – O senhor aponta, como causas do declínio das florestas, pelo menos duas razões: o avanço da fronteira agropecuária e o sistema climático. Pode nos explicar por que e de que modo esses dois eventos têm implicações diretas sobre as florestas?

Luiz Marques – Na realidade, os fatores são múltiplos. Mas o mais importante é a globalização do capitalismo que transformou definitivamente a alimentação em commodities, negociadas nos mercados futuros. Nesse âmbito, o avanço das pastagens para o gado bovino, estimulado pelo aumento do carnivorismo no Brasil e no mundo todo, é, de longe, a principal causa do desmatamento. Historicamente, na Amazônia, mais de 80% do desmatamento é causado pela pecuária, e a figura abaixo mostra a íntima correlação entre pecuária e desmatamento nessa região entre 1988 e 2004.

Mas, além do desmatamento por corte raso, para dar lugar à soja e ao pasto, outros fatores concorrem para a destruição das florestas: as hidrelétricas, a mineração, a extração de madeira, a caça, o tráfico de espécies silvestres, as estradas e o avanço da urbanização e da indústria do turismo. Esses fatores causam degradação e fragmentação das florestas, aumento das linhas de borda, maior exposição à insolação e ao ressecamento pelos ventos e maior vulnerabilidade a incêndios (na maior parte provocados por fazendeiros) e defaunação, com diminuição dos animais dispersores de sementes.

Mudanças climáticas

“Estamos caminhando para o desaparecimento ou degradação irreversível desses ecossistemas num horizonte de tempo que não ultrapassa, em muitos casos, a primeira metade do século”

E há, enfim, as mudanças climáticas, em particular a ação combinada do aquecimento global e de secas maiores e mais recorrentes. Associados à ação destrutiva direta do agronegócio, das corporações mineradoras e de outras corporações, esses fatores climáticos estão levando as árvores à falência hidráulica por cavitação ou embolia vegetal, um fenômeno conhecido pelo termo dieback. Temperaturas mais elevadas (que fazem aumentar a transpiração das árvores) e/ou maior carência de água no solo levam as raízes das árvores a bombear mais intensamente água ao longo de seu sistema vascular. Uma consequência importante desse mais intenso bombeamento é a formação de bolhas de ar em seus xilemas (o tecido por onde circula a seiva), que diminuem ou bloqueiam a condução hidráulica.

O exame de 226 espécies de árvores pertencentes a diversos tipos de florestas de 81 diferentes latitudes do planeta mostra que 70% delas já operam com estreitas margens de segurança em relação à diminuição da umidade, de modo que a intensificação das secas em várias regiões do globo prevista pelos modelos climáticos pode lhes ser letal. “Todas as árvores e todas as florestas do globo”, afirma Hervé Cochard, um ecofisiologista da Université Blaise Pascal de Clermont-Ferrand e do Institut National de Recherche Agronomique – INRA de Avignon, “estão vivendo no limite de sua ruptura hidráulica. Há, portanto, uma convergência funcional global da resposta desses ecossistemas às secas”.

Em suma, estamos caminhando para o desaparecimento ou degradação irreversível desses ecossistemas num horizonte de tempo que não ultrapassa, em muitos casos, a primeira metade do século.

IHU On-Line – É possível conciliar a preservação das florestas com o desenvolvimento da agropecuária? O que seria adequado para o caso brasileiro nesse sentido?

“A única solução é a adoção de outro regime alimentar, uma alimentação sem carne ou com muito menos carne, o que traria, de resto, benefícios tangíveis à saúde humana”

Luiz Marques – Não há quadratura do círculo. A “solução”, por vezes proposta, de confinamento do gado bovino implica, além de um sofrimento ainda maior desses animais, algo a meu ver eticamente inaceitável, uma alimentação baseada em ração, o que supõe um aumento da área agrícola para o cultivo dessa ração (com mais desmatamento), além de uso crescente de hormônios e antibióticos “preventivos”, problemas insuperáveis de gestão dos resíduos, entre outros. A única solução é a adoção de outro regime alimentar, uma alimentação sem carne ou com muito menos carne, o que traria, de resto, benefícios tangíveis à saúde humana.

IHU On-Line – Em um artigo recente, o senhor informa que a perda anual de florestas nos países tropicais, com exceção do Brasil e da Indonésia, praticamente dobrou nesses 14 anos, passando de pouco mais de 31 mil km² em 2001 para pouco mais de 61 mil km² em 2014. Quais são as razões desse aumento? Como esses países estão lidando com essa questão?

Luiz Marques – No caso da Ásia e da Oceania, os fatores preponderantes são o cultivo do óleo de palma e a extração de madeira. Também na África esses fatores começam a atuar de modo expressivo, à medida que o continente se insere no agronegócio global. As políticas adotadas pelos países concernidos devem ser avaliadas por seus efeitos. A se admitir que sejam mais que simples propaganda, não são objetivamente, ao menos até agora e num futuro previsível, de natureza a inverter a curva do desmatamento.

IHU On-Line – Vários estudos chamam atenção para a diminuição do número de florestas no mundo. Quais são as implicações práticas da redução florestal?

Luiz Marques – Em 2014, a FAO lançou um documento chamado “Não podemos viver sem florestas”. É a simples e incontornável verdade. As florestas são imprescindíveis para a vida no planeta. Não apenas por serem o lar de (ainda) 80% da biodiversidade terrestre, mas porque são fundamentais para o ciclo do carbono, para retardar a velocidade e amenizar as mudanças climáticas, para a manutenção dos recursos hídricos, para a regularização das chuvas, para a conservação dos solos etc. Nosso sistema econômico, baseado no imperativo da expansão e do lucro, tem destruído as florestas a uma velocidade vertiginosa, sem perceber, em sua ganância, arrogância e ignorância, que estamos destruindo os alicerces sobre os quais a biosfera, e portanto nossas sociedades, se sustentam.

IHU On-Line – Que tipo de ação global poderia ser adotada para reverter o atual prognóstico em relação às florestas? O Acordo de Paris, do ponto de vista climático, lhe parece uma boa iniciativa?

“Uma ação global capaz de nos desviar da trajetória de colapso da biosfera e de mudanças climáticas catastróficas deve começar pela admissão da extrema gravidade das crises socioambientais contemporâneas”

Luiz Marques – Em seu compromisso (INDC) firmado no Acordo de Paris, o Brasil prometeu zerar o desmatamento ilegal e restaurar 120 mil km² de florestas até 2030. O custo dessa restauração foi recentemente avaliado entre 30 e 50 bilhões de reais. Não é nada se pensarmos na relação custo/benefício. Mas alguém acredita que o Estado brasileiro, se continuar dominado pelo agronegócio e por outros interesses corporativos, cumprirá essas promessas? Só os que amam se autoenganar.

Objetivos do Desenvolvimento Sustentável

O mesmo pode-se dizer do Objetivo 15 dos nobres 17 Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, também assinado em 2015 pelo Brasil. Esse Objetivo propõe um manejo sustentável das florestas, combate à desertificação, reverter a degradação do solo e a perda da biodiversidade. Nada disso é atingível no quadro atual das relações de força entre os interesses da sociedade e os interesses dos grandes conglomerados que dominam os fluxos estratégicos de investimento. Uma ação global capaz de nos desviar da trajetória de colapso da biosfera e de mudanças climáticas catastróficas deve começar pela admissão da extrema gravidade das crises socioambientaiscontemporâneas. Adotar essa premissa significa se compenetrar de que há risco real, crescente e iminente de inviabilização de qualquer sociedade organizada já no horizonte dos próximos decênios. Significa entender, de fato (e não apenas em palavras), que o futuro da atual geração e das próximas será pior ou muito pior que o presente se não tomarmos em mãos nosso destino, o que supõe arrebatá-lo do controle das elites econômicas. Se de fato entendermos que o que está em jogo é a existência mesma de nossas sociedades neste século, as soluções políticas e tecnológicas aparecerão.

Essas soluções passam todas, em todo o caso, por uma democratização radical da sociedade. Mas se continuarmos a pensar que a natureza é apenas um subsistema do sistema econômico, se continuarmos imersos em nossa ilusão antropocêntrica e hipnotizados pelo discurso hegemônico de que o crescimento econômico é a “saída”, como é ainda a crença da maior parte dos economistas, então estamos condenados a um colapso socioambiental de proporções ainda imponderáveis, mas, de qualquer forma, terrivelmente doloroso para os jovens de hoje.

Fonte – Patricia Fachin, IHU de 29 de agosto de 2017