7 dicas para tornar sua viagem ambientalmente amigável

Parque Nacional do Pantanal é uma sugestão de destino para viagem nacional. Créditos: ICMBioParque Nacional do Pantanal é uma sugestão de destino para viagem nacional. Créditos: ICMBio

Passeios podem ter menor ou maior impacto na natureza, basta fazer boas escolhas

Viajar e descansar são momentos bastante esperados, mas podem pesar na conta do meio ambiente se envolver atividades que o prejudicam. Para que seu tempo de lazer não se torne um pesadelo para a natureza, basta tomar alguns cuidados.

Confira 7 dicas para reduzir os impactos da sua viagem e até contribuir para a conservação da natureza:

1 – A opção mais econômica e ambientalmente amigável é aproveitar o que sua cidade tem para oferecer. Visitar parques, praças, museus e outras atrações locais é a opção mais acessível financeiramente e a mais amiga da natureza também. Dessa forma, você evita o uso de transportes como ônibus rodoviários ou aviões, um dos modais menos eficientes do ponto de vista energético. Caso o destino escolhido seja distante, não há como evitar a viagem de avião. A dica aqui então é optar por voos diretos, que têm impacto menor, já que a decolagem e o pouso são os grandes consumidores de energia, de acordo com o coordenador e professor da Academia de Ciências Aeronáuticas Positivo (ACAP) da Universidade Positivo (UP), Fabio Jacob. Estender as férias, evitando fazer diversas viagens ao longo do ano, também é indicado. E lembre-se que levar bagagens leves contribuem para a economia de combustível durante o voo.

2 – Para se locomover na cidade visitada, a sugestão é utilizar transporte público, como ônibus, trens e metrô, poupando o meio ambiente de emissões de gases de mais um carro. Além disso, esses meios de transporte proporcionam ao visitante uma experiência mais real com a cidade, trazendo mais proximidade com os moradores e a rotina local. De acordo com o membro da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza e secretário-executivo do Observatório do Clima, Carlos Rittl, essa atitude contribui com uma preocupação nacional que é a redução das emissões de GEEs. “As emissões nacionais de gases de efeito estufa subiram 8,9% em 2016, em comparação com o ano anterior. É o nível mais alto desde 2008 e a maior elevação vista desde 2004. As consequências disso são e serão sentidas por todo o planeta se não agirmos rapidamente”.

3 – Explorar as opções turísticas do Brasil e ainda apoiar as unidades de conservação nacionais é uma ótima forma de aproveitar as férias. O Brasil tem mais de 70 parques nacionais, consideradas unidades de conservação de proteção integral, de acordo com o Sistema Nacional de Unidade de Conservação da Natureza (SNUC). Além do objetivo primário de conservação, essas áreas também possibilitam a prática de turismo e promovem a aproximação com a natureza, que traz diversos benefícios para a sociedade. De acordo com Teresa Magro, professora da Universidade de São Paulo (USP) no Departamento de Ciências Florestais e membro da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza, estar próximo de áreas verdes ajuda a evitar o “transtorno de déficit de natureza”, ou seja, um dos impactos do nosso distanciamento das áreas naturais, além de aliviar o estresse e melhorar a capacidade de concentração. O site www.wikiparques.org é uma espécie de fórum online em que os viajantes podem indicar e compartilhar experiências em Parques Nacionais e áreas protegidas, e pode ser um bom guia para quem procura por esses destinos.

4 – Aproveitar o período de férias para se comprometer com alguma causa ambiental é uma ótima alternativa. Há, inclusive, agências de viagens que oferecem opções de voluntariado de diversos tipos, como o auxílio a pessoas em situação de risco, tratamento de animais em extinção e conservação de florestas e áreas naturais, em diversas regiões do mundo. No Brasil, a Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza mantém em uma de suas Reservas Naturais um programa de voluntariado que recebe voluntários há 20 anos. A Reserva Natural Salto Morato, localizada no litoral paranaense, recebe voluntários cujo trabalho agrega conhecimento e traz melhorias para a unidade de conservação, que ganha reforço nas ações de preservação da natureza e atendimento aos visitantes. De acordo com o administrador da Reserva, Bruno Rosa Alves, o tempo mínimo para o voluntariado é de um mês. “Nesse período, o voluntário consegue conhecer e se adaptar à rotina de trabalho e vivência no local. Além disso, tem tempo suficiente para compartilhar ideias e vivências, contribuindo para criar novas experiências e implementar melhorias às atividades na reserva”, explica.

5 – Continuar com os hábitos de conservação que se utiliza em casa é obrigatório. Não é porque você está em um hotel que deixará de apagar a luz quando sair, ou desligar os aparelhos como ventilador/aquecedor/ar-condicionado. Outra sugestão é reutilizar as roupas de cama e toalhas. Na sua casa, você troca as toalhas todos os dias? Então na viagem também não é necessário. Leide Takahashi, gerente de projetos ambientais da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza, reforça: “Se você vai visitar um lugar, tem que cuidar do impacto que vai gerar. Não é só separar o lixo. É analisar se o seu comportamento não interfere na cultura local e se é adequado”. O mesmo vale para as compras: ao escolher aquela lembrança para familiares e amigos, dê preferência a mercadorias que valorizam a mão de obra local e produtos de fornecedores certificados, de baixo consumo, feitos com materiais “ambientalmente amigáveis” – material reciclado ou reciclável, fontes renováveis e que possibilitem reutilização. A especialista explica que o turismo sustentável ocorre em cadeia e atende tanto as necessidades dos turistas, quanto das comunidades.

6 – Evite atrações que utilizam exploração animal. Nado com golfinhos, performance de animais em circos e aquários, passeios em elefantes e visitas a zoológicos que permitem que você tire foto com animais silvestres, são alguns exemplos. Muita gente não sabe, mas para que esses animais fiquem disponíveis para os turistas, é preciso submetê-los a diversas privações físicas, sociais e psicológicas que não fazem parte da sua natureza selvagem. Se você quer conhecer animais, o melhor é observá-los em seu habitat natural, como Parques Nacionais, Reservas Naturais e outras categorias de unidades de conservação. Apesar disso, quando executado com cautela, o turismo de interação pode ser uma prática importante na sensibilização ambiental da sociedade para a conservação da natureza, como relata a pesquisadora Vera da Silva, coordenadora do projeto “Distribuição e estimativa populacional de boto-vermelho (Inia geoffrensis) e tucuxi (Sotalia fluviatilis) no baixo rio Negro, Amazonas”, realizado pela Associação Amigos do Peixe-boi (AMPA) com apoio da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza e que também é membro da Rede de Especialistas de Conservação da Natureza e coordenadora do Laboratório de Mamíferos Aquáticos do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa). “O boto-vermelho e o tucuxi não são bem vistos na região e estão sendo caçados quase à beira da extinção. O turismo de interação é uma das únicas formas de conseguir a empatia da sociedade e a conscientização da necessidade de proteção desses carismáticos animais”, conta a pesquisadora.

7 – Quando for à praia, lugares que geralmente oferecem menos acesso à lixeiras e serviços públicos de limpeza, leve uma sacola para recolher seu lixo. Grande parte do lixo deixado na areia vai para o mar e pode causar prejuízos ambientais graves, como a perda do potencial turístico causado pela alteração estética, contaminação dos oceanos e a morte de animais marinhos, que confundem o lixo com alimento. Segundo estudos, 54% de todas as espécies de mamíferos marinhos, todas as espécies de tartarugas marinhas e 56% espécies de aves marinhas já foram afetadas pelo emaranhamento ou ingestão acidental de lixo. A dica aqui é seguir os mandamentos do turismo ecológico: não tirar nada a não ser fotografias; não deixar nada além de pegadas; não matar nada além do tempo e não queimar nada além de calorias.

Fontes – Rede de Especialistas de Conservação da Natureza / EcoDebate de 02 de fevereiro de 2018

Não apenas commodities: o mundo precisa de uma apreciação mais ampla das contribuições da natureza para as pessoas

Não apenas commodities: o mundo precisa de uma apreciação mais ampla das contribuições da natureza para as pessoas

INTERGOVERNMENTAL PLATFORM ON BIODIVERSITY AND ECOSYSTEM SERVICES*

Alimentos abundantes, água limpa e ar saudável estão entre os benefícios mais valiosos e visíveis da natureza para as pessoas. Isso reforçou a crença generalizada e cada vez mais controversa de que a natureza é principalmente uma fonte de serviços ou commodities.

Escrevendo no prestigiado jornal Science, trinta especialistas globais associados à Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços de Ecossistemas (IPBES) e liderados pelo Professor Sandra Diaz e Professor Unai Pascual, apresentaram uma nova abordagem inovadora: a idéia de usar todas as contribuições da natureza para as pessoas para informar políticas e decisões.

“Por mais de uma década, as políticas sobre a natureza foram dominadas pelo conhecimento das ciências naturais e da economia”, disse Sandra Diaz. “A pesquisa vibrante desenvolvida a partir dessa abordagem de serviços ecossistêmicos ”- popularizada pela histórica Avaliação do Ecossistema do Milênio de 2005 – tem sustentabilidade avançada, mas evidências e ferramentas amplamente excluídas das ciências sociais, humanidades e outras visões de mundo-chave. A noção muito mais amena das contribuições da natureza para as pessoas enfatiza que a cultura é central para todos os laços entre as pessoas e a natureza e reconhece outros sistemas de conhecimento, como, por exemplo, as comunidades locais e os povos indígenas, muito mais do que antes “.

Sir Robert Watson, presidente da IPBES e ex-copresidente da Avaliação dos Ecossistemas do Milênio, disse: “As contribuições da natureza para as pessoas são de importância crítica para os ricos e os pobres em países desenvolvidos e em desenvolvimento. A natureza sustenta o bem-estar e as ambições de cada pessoa – da saúde e felicidade para prosperidade e segurança. As pessoas precisam entender melhor o valor total da natureza para garantir sua proteção e uso sustentável ”.

“Este novo quadro inclusivo demonstra que, embora a natureza ofereça uma recompensa de bens e serviços essenciais, como alimentos, proteção contra inundações e muito mais, possui um rico significado social, cultural, espiritual e religioso – o que também precisa ser avaliado na elaboração de políticas ”.

“A comida é um ótimo exemplo”, disse Unai Pascual, “Todos recebemos alimentos da natureza e a segurança alimentar é um aspecto fundamental que geralmente foi incluído em políticas e decisões em todo o mundo, muitas vezes medido no contexto de calorias por dia, biológico os processos e o valor econômico, por exemplo. Mas sabemos que a comida é muito mais. Está no centro das identidades culturais, da arte e do prazer humano básico. São esses tipos de contribuições não-materiais da natureza que a nova abordagem busca representar e incluem decisões sobre a maneira como nos relacionamos com a natureza ”.

Uma das muitas aplicações concretas desta nova abordagem é a sua utilização em avaliações de peritos em larga escala e como estas são conduzidas. Os professores Diaz e Pascual concordam que as contribuições da natureza para as pessoas são um avanço científico que abarca, mas vai além da abordagem dos serviços ecossistêmicos, o que aumentará a eficácia e a legitimidade das políticas e decisões sobre a natureza. “Esta inclusão e equidade entre os sistemas de conhecimento e as perspectivas não só tornarão os processos de avaliação mais legítimos, mas também levará a melhores resultados de políticas, porque desenharemos a partir de uma base de informação muito mais ampla e ampla”.

Quatro avaliações regionais da IPBES (descritas em https://www.ipbes.net/sites/default/files/downloads/general_message_primer_en.pdf) da biodiversidade e dos serviços ecossistêmicos, que deverão ser divulgadas em março deste ano, foram incluídos esforços sem precedentes para aproveitar o conhecimento indígena e local e as contribuições da natureza para as pessoas são já é uma característica central da avaliação global do IPBES, prevista para 2019.

“As contribuições da natureza para as pessoas são uma importante evolução e complemento do conceito de serviços ecossistêmicos”, disse Anne Larigauderie, Secretária Executiva do IPBES e um dos autores do artigo. “Isso pode melhorar a forma como enquadramos e compreendemos a diversidade e as relações complexas entre as pessoas e a natureza. Essa abordagem mais inclusiva também aumentará a relevância e o valor da evidência pericial sobre a natureza na abordagem de compromissos de desenvolvimento internacional, como os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável”.

Referência

Assessing nature’s contributions to people. Sandra Díaz, Unai Pascual, Marie Stenseke, Berta Martín-López, Robert T. Watson, Zsolt Molnár, Rosemary Hill, Kai M. A. Chan, Ivar A. Baste, Kate A. Brauman, Stephen Polasky, Andrew Church, Mark Lonsdale, Anne Larigauderie, Paul W. Leadley, Alexander P. E. van Oudenhoven, Felice van der Plaat, Matthias Schröter, Sandra Lavorel, Yildiz Aumeeruddy-Thomas, Elena Bukvareva, Kirsten Davies, Sebsebe Demissew, Gunay Erpul, Pierre Failler, Carlos A. Guerra, Chad L. Hewitt, Hans Keune, Sarah Lindley, Yoshihisa Shirayama. Science 19 Jan 2018: Vol. 359, Issue 6373, pp. 270-272. DOI: 10.1126/science.aap8826. http://science.sciencemag.org/content/359/6373/270

Fonte – tradução e edição Henrique Cortez, EcoDebate de 22 de janeiro de 2018

Abaixo a fitoxenofobia! A intolerância atinge o reino vegetal

<i>Cocos nucifera</i> (origem incerta, mas muito provavelmente exótica), também usada por Fernando Chacel<br />Foto Eduardo Barra Cocos nucifera (origem incerta, mas muito provavelmente exótica), também usada por Fernando Chacel. Foto Eduardo Barra

“Seria ideal plantarem-se apenas as espécies nativas, mas isso, em certas áreas, talvez não produzisse um jardim”. Roberto Burle Marx, Roberto Burle Marx: arte & paisagem (1)

Descobrimento do Brasil

Após séculos de predomínio das espécies vegetais exóticas em nossos jardins, em que copiamos modismos importados e conflitantes com as condições climáticas e as paisagens tropicais, eis que o brasileiro vence o torpor e dá a partida em um movimento de descobrimento e valorização da flora nativa. Não que isso tenha ocorrido de um dia para o outro, mas como resultado de um longo processo provavelmente iniciado no século 19, quando Glaziou incorporou espécies brasileiras ainda não experimentadas no paisagismo em suas significativas obras realizadas no Rio de Janeiro e arredores; mais tarde, em meados do século seguinte, quando Roberto Burle Marx cercou-se de botânicos e outros especialistas para empreender pesquisas de campo com o fim de conhecer novas espécies e estudar a associação natural entre famílias botânicas; em 1972, foi a vez da Conferência Mundial de Estocolmo desencadear a onda ecológica das últimas décadas, trazendo como resultado a consciência ambiental que terminou por condenar ao ostracismo as até então onipresentes roseiras, camélias e magnólias.

As sapucaias introduzidas por Glaziou na Quinta da Boa Vista. Foto Eduardo Barra

A compreensão da importância do emprego da flora autóctone em obras de intervenção paisagística alcançou profissionais de várias áreas de conhecimento e matizes, que, em lugar de entender o paisagismo apenas como atividade cosmética, passaram a enxergá-lo através das lentes da coerência ecossistêmica e da sustentabilidade, buscando a adaptação do jardim ao meio e sua interação direta com a fauna, bem como a racionalização dos serviços de manutenção, a eliminação ou redução radical de replantios, podas de condução e sistemas de irrigação, e, consequentemente, alto desempenho ambiental e baixo custo.

Chacel e suas obras ecogenéticas na Barra da Tijuca. Foto Eduardo Barra

É fato que alguns paisagistas apenas substituíram o exotismo anterior por outro de gosto mais recente, apostando na tendência de kaizukas, pinheiros natalinos, ciprestes e buxinhos topiarizados, que não mantêm qualquer sintonia ambiental e morfológica com a flora tropical e nossas paisagens. Mas ainda alimento a esperança de que esses colegas, em futuro próximo, compreendam que, para atender às necessidades prementes das relações entre jardim, fauna, clima e ecossistema, torna-se fundamental adotar, prioritariamente, as espécies vegetais da região e, na continuidade, admitir composições jardinísticas com estética orgânica e… naturalística (na falta de melhor expressão). Com tais princípios em mente, o arquiteto paisagista Fernando Chacel conseguiu materializar, a partir do final dos anos 1980, os conceitos da ecogênese em projetos que se tornaram emblemáticos e estabeleceram novos paradigmas para o paisagismo brasileiro (2).

Chacel e suas obras ecogenéticas na Barra da Tijuca. Foto Eduardo Barra

Entretanto, com o tempo, o conceito de vegetação nativa se ampliou – e desvirtuou –, passando a designar a flora do território geopolítico brasileiro. Em outras palavras, sem que percebêssemos, trocamos a percepção do regional e do ecossistêmico por uma equivocada noção de nacionalismo. Esse raciocínio, que sequer considera a decantada diversidade e o endemismo dos biomas brasileiros, admite como nativa qualquer planta originária do território nacional, independentemente do local em que virá a ser plantada (3). É lógico que isso nada tem a ver com coerência ambiental e sustentabilidade, tendo em vista que em Manaus, por exemplo, uma bromélia característica das encostas da Serra do Mar parece ser tão exótica quanto as kaizukas asiáticas que condenei acima. Em contrapartida, tornou-se admissível empregar um indivíduo do bioma amazônico tanto faz se no Rio de Janeiro ou em Serra Talhada, apesar de conhecermos vários exemplos não muito felizes desta prática.

De acordo com o conceito de espécies nativas vigente, tornaram-se não muito desejáveis até mesmo as espécies comprovadamente não-invasoras e até pouco tempo consideradas “naturalizadas”, ou seja, morfológica, cultural e ambientalmente adaptadas ao Brasil, como as asiáticas mangueira (Mangifera indica) e fruta-pão (Artocarpus altilis). A defesa intransigente da flora brasileira – geralmente sustentada por profissionais que não costumam compor jardins – tomou proporções assustadoras, como se até mesmo os pequenos recantos devessem assumir a missão de salvação do planeta e espécies exóticas fossem incapazes de cumprir funções biológicas e mecânicas, como fotossíntese, sequestro de carbono, abrigo da fauna, sombreamento, proteção contra ruídos e absorção de poeira, entre outras. É como se tentássemos desesperadamente recuperar o tempo perdido e remediar a destruição ambiental provocada pela urbanização desenfreada, pelas queimadas criminosas e pelas atividades extrativistas – quase uma estratégia de guerrilha e, nesse contexto, uma planta exótica estaria roubando o espaço de uma nativa.

Cabe lembrar que o Art. 4º da Resolução SMAC nº 492, de 05/07/2011, que regulamenta o Programa Municipal de Controle de Espécies Exóticas Invasoras Vegetais, do Rio de Janeiro, diz que “os projetos de recuperação ambiental e de arborização pública no município deverão privilegiar (grifo meu) o uso de espécies e vegetais autóctones, exceto em casos devidamente justificados”. No meu entender, privilegiar as nativas é diferente de abolir as exóticas, ou seja, a lei me parece mais flexível que seus intérpretes.

Nesse ponto, preciso deixar claro que não prego o uso indiscriminado de plantas estrangeiras (4), pois estou convicto de que sempre se deve dar preferência às nativas, e endosso a ideia do pequeno jardim como fragmento do ecossistema envolvente, tendo em vista sua adaptabilidade e, em consequência, a própria sustentabilidade da área verde. Mas também temos que levar em conta outras informações, como as limitações do mercado produtor nacional e, mais tristemente ainda, da produção regional de mudas para uso paisagístico, sobretudo quando atuamos em biomas pouco valorizados e conhecidos, como ocorre com o Cerrado e a Caatinga. E em certas circunstâncias, esse pequeno detalhe pode inviabilizar completamente a criação de jardins com espécies nativas.

Considero importantíssimo o papel do paisagista, do ponto de vista educativo e como elemento que deve contribuir para o rompimento do círculo vicioso dos viveiristas dedicados à produção de plantas ornamentais, mas sabemos que as mudanças no setor ocorrem de forma bem mais lenta do que desejamos, sem qualquer sincronia com os cronogramas apertados estabelecidos por nossos clientes.

O homem e o meio

Ao longo de sua existência, o homem passou de mero coadjuvante no reino animal a poderoso transformador do meio, alterando a seu gosto praticamente toda a superfície do globo. Desde muito cedo, aprendeu a fazer queimadas e empregou tal conhecimento como estratégia de domínio de novos territórios, limpando campos para facilitar a visualização do terreno e tornar a caça mais vulnerável. Além disso, as clareiras serviam para afastar animais selvagens, bruxas e monstros da floresta – perigos reais e imaginários. Os indígenas, os aborígenes e os construtores de loteamentos fazem assim até hoje.

Yuval Harari (5) conta que os homens modernos já tinham dominado a técnica da queimada quando chegaram à Austrália, há longínquos 45 mil anos. Diante daquele ambiente estranho e quiçá hostil, não perderam tempo para atear fogo em extensas florestas impenetráveis. Hoje, quando um brasileiro pensa na Austrália, logo vem à mente a praga dos eucaliptos (6), mas na época eles eram raros na região de origem e, por serem muito resistentes ao fogo – em virtude de reterem muita água em seu cerne –, foram os únicos que sobreviveram, espalhando-se por toda parte, enquanto outras espécies de árvores e arbustos desapareceram.

Os homens modificaram brutalmente não só a ecologia australiana, mas também a de outras grandes regiões, eliminando plantas e animais locais julgados inconvenientes e introduzindo os já domesticados trazidos de longe. Vacas, cabras, javalis e galinhas, que antes estavam limitados a pequenos nichos na África e na Ásia, hoje estão disseminados por todo o mundo. Os povos da América Central domesticaram o milho e o feijão, enquanto os sulamericanos se dedicaram às batatas e os do norte às abóboras. Atualmente, esses alimentos são cosmopolitas. Da Nova Guiné, herdamos a cana-de-açúcar e a banana; da China, o arroz; do Oriente Médio, o trigo – uma gramínea silvestre entre tantas outras, inicialmente confinada a uma pequena região, mas que converteu-se em um dos pilares da alimentação mundial. Se fôssemos aplicar o conceito brasileiro em voga no momento, do plantio exclusivo de espécies nativas, só cultivaríamos batata e inhame por aqui.

Na Europa Central, por exemplo, já não existe nenhum espaço intocado (7). As florestas originais desapareceram há séculos, inicialmente queimadas ou derrubadas a golpes de machado, e mais tarde pelos arados dos agricultores ancestrais. Os bosques agora encontrados aqui e ali decorrem de hercúleas empreitadas de plantio, ou seja, não são florestas naturais. Portanto, não se tem certeza se todas as espécies vegetais encontradas nesses locais são exatamente as originais da região, e é até mais provável que não sejam, já que os conceitos de ecossistema e respeito às suas relações bióticas são bastante recentes, bem posteriores ao estabelecimento de muitos desses arvoredos. Em suma, que espécies devem ser consideradas nativas em lugar tão alterado?

O homem sempre manifestou fascinação pelo diferente, pelo exótico, pelo que não existe em sua região, e transferiu de um lado para outro tudo que encontrou pelo caminho, de gladíolos a temperos, de gardênias a frutas e, mesmo sem desconfiar, de ervas daninhas a pragas. Como se sabe, o Jardim Botânico do Rio de Janeiro iniciou suas atividades no despertar do século 19 com o intuito explícito de aclimatar plantas exóticas, entre elas, especiarias e árvores frutíferas. Naquele momento, tratava-se de questão econômica de vital importância para a Coroa. Os naturalistas Spix e Martius, que aqui estiveram menos de uma década após sua fundação, relatam (8) que o sítio já contava com mangueiras e alamedas de “árvores-do-pão do Oceano Pacífico”, sendo o chá chinês “o mais importante objeto de cultivo”, entre diversas plantas da Índia Oriental, como “a caneleira, o craveiro-da-índia, a pimenteira, o ¿gneto?, a noz-moscada, a caramboleira”, e por aí vai. É muito pouco provável que hoje se possa medir com precisão as alterações provocadas pela implantação do Jardim Botânico naquele trecho de Mata Atlântica, bem como a real área de abrangência da intervenção.

Há que se considerar ainda o estrago que os descobridores europeus provocaram em quase todo nosso território, em busca do pau-brasil, do ouro e de outras riquezas pátrias. Outro caso notável no Rio de Janeiro vem a ser a supressão total da vegetação da região hoje denominada Floresta da Tijuca, em função da cultura cafeeira, posteriormente reflorestada pelo Major Archer e sua equipe de escravos com critérios certamente diferentes dos que adotaríamos hoje. Com isso, quero dizer que também não conhecemos as nossas matas nativas, com exceção do que sobreviveu através de relatos dos viajantes naturalistas e de pequenos trechos que supomos inalterados, sem saber se são mesmo.

Nos últimos anos, desenvolvemos uma série de preocupações com relação à introdução de espécies estranhas aos ecossistemas, pois adquirimos conhecimentos mais profundos sobre plantas invasoras, pragas e seus respectivos predadores, polinização, associações entre espécies e famílias botânicas, interações entre flora e fauna, disseminação de sementes e diversas outras informações inerentes ao equilíbrio ecológico, até bem pouco tempo desconhecidas ou negligenciadas. O problema é que todo esse conhecimento veio acompanhado por um certo radicalismo.

Nativas x exóticas

Como comentei antes, hoje consideramos nativas as espécies vegetais que pensamos ser originais (9) do nosso extenso território, mas para que determinada espécie seja considerada efetivamente nativa, é preciso levar em conta uma região muito menor e se orientar pela natureza, e não pelas fronteiras criadas pelo homem. Plantas são organismos autóctones que se instalam em locais que possam prover suas necessidades biológicas e físicas, como oferta de água, tipo de solo, topografia, ventos etc (10).

Bosque denso formado na margem do rio Mambucaba. Foto Eduardo Barra

Cito um exemplo. Em Mambucaba, vila residencial situada no município de Paraty RJ, tive a oportunidade de desenvolver projetos de regeneração ambiental para duas pequenas áreas distantes apenas 600 metros entre si, mas que representam ecossistemas com características completamente distintas – restinga e mata ciliar da planície costeira. Na certa, boa parte das espécies nativas plantadas em uma das áreas não teria chance de sobreviver na outra, jogando por terra qualquer ideia ampla e generalista de espécie nativa.

Parque de educação ambiental implantado em terreno costeiro situado próximo à foz do rio Mambucaba. Apesar da pequena distância entre as duas áreas, encontramos ecossistemas completamente diferentes entre si. O conceito generalista de espécies nativas não. Foto Eduardo Barra

Sabemos que existe uma grande diferença entre espécie exótica – imigrante, como denomina Wohlleben (11) – e espécie invasora. Ambas estão fora do seu bioma original, mas a espécie imigrante não se reproduz descontroladamente e, portanto, não ameaça os ecossistemas nativos. Como exemplo, temos a falsa-seringueira ou ficus-italiano (Ficus elastica), cuja polinização depende de uma vespa que só existe em seu hábitat natural, a Índia; aqui, só se reproduz por estaca e, portanto, depende do homem. Wohlleben afirma que a maioria das espécies imigrantes é inofensiva para as árvores nativas e que, sem a ajuda do homem, muitas desapareceriam em, no máximo, dois séculos. Quanto a isso, não posso garantir, mas o autor é especialista no assunto.

Couroupita guianensis, da Amazônia, introduzida por Burle Marx e Luiz Emygdio no Rio de Janeiro. Foto Eduardo Barra

Em seu artigo “Vegetação nativa: desdobramentos e perspectivas no processo paisagístico” (12), Lucia Maria Sá Antunes Costa relata que Roberto Burle Marx e o botânico Luiz Emygdio de Mello Filho introduziram diversas espécies de outros biomas brasileiros no Rio de Janeiro (grande parte no Parque do Flamengo), bem como espécies asiáticas, com efeitos notáveis, que contribuem para despertar o interesse da população pelos elementos naturais e, consequentemente, pela própria natureza, sem registros de que tenham provocado problemas ambientais. Há pouco assisti no YouTube a um vídeo em que o agrônomo Harri Lorenzi orgulhosamente apresenta uma trepadeira de bela floração amarela (13) que introduziu em seu jardim botânico privado, contando que planeja apresentá-la aos viveiristas, para que entre em produção comercial. Que embates Lorenzi e os produtores de plantas ornamentais ainda enfrentarão com os radicais verdes?

Pseudobombax ellipticum, da América Central, introduzida por Burle Marx e Luiz Emygdio no Rio de Janeiro. Foto Eduardo Barra

No outro lado do grupo das espécies exóticas, encontram-se as invasoras (14), que demonstram proliferação exagerada e ameaçam os biomas, provocando a redução da biodiversidade. Essas devem ser evitadas a todo custo e criteriosamente extirpadas sempre que possível. Um dos casos mais terríveis e bastante conhecido dos brasileiros vem a ser a leucena (Leucaena leucocephala), trazida ingenuamente da América Central na década de 1940, como forrageira, mas que alastrou-se desastrosamente por todo o País. Outro exemplo digno de nota é a jaqueira (Artocarpus heterophyllus), que dispersa anualmente centenas ou até mesmo milhares de sementes viáveis, ampliando ainda a área de dispersão natural quando situada em encostas – como é corriqueiro nas vertentes da Floresta da Tijuca, no Rio de Janeiro.

Leucena, invasora agressiva. Foto Eduardo Barra

Jaqueira, invasora agressiva. Foto Eduardo Barra

Jardim, produto cultural

A concepção de que a natureza precisa ser transformada para poder ser plenamente usufruída pelo homem vem dos primórdios da nossa existência, com certeza intensificada e aprimorada a partir do momento em que as sociedades começaram a substituir práticas nômades pelo sedentarismo (15).

O jardim é um produto cultural resultante de intervenções humanas que levam em conta o ambiente, os recursos naturais, a paisagem envolvente, aspectos socioeconômicos, a concepção estética do momento e de vida de seus usuários, e uma gama enorme de outras condicionantes. Jardim, portanto, é um produto artificial, podendo se aproximar mais ou menos de um resultado estético naturalístico e respeitoso com as relações bióticas envolvidas em sua composição.

Roberto Burle Marx deixava clara sua posição a respeito:

“Se me indagassem qual a primeira atitude filosófica assumida para o meu jardim, logo responderia ser exatamente a mesma que traduz o comportamento do homem neolítico: aquela de alterar a natureza topográfica, para ajustar à existência humana, individual e coletiva, utilitária e prazerosa. Existem duas paisagens: a natural, existente, e a humanizada, construída” (16).

E José Tabacow complementa:

“Uma de suas frases mais frequentes, ‘o jardim é natureza organizada pelo homem e para o homem’, elimina qualquer dúvida quanto a uma intenção ‘naturalística’ em suas composições” (17).

Na prática, o paisagista brasileiro ainda tem que enfrentar a limitação do mercado produtor de espécies ornamentais, tendo em vista que as exóticas gozam de favoritismo, detalhe que reflete a demanda do público em geral e dos colegas paisagistas em particular (18).

Pretender que um punhado de jardineiras de concreto sobre a laje de um prédio ou mesmo o pequeno quintal isolado de uma residência urbana venha a contribuir efetivamente para a recuperação ambiental da região, soa como fantasia. A expectativa de quem defende esse pensamento é de que esses microambientes venham a se somar, coalescendo em uma grande mancha verde salvadora. Pode ser, vamos torcer, mas para que o conjunto desempenhe efetivamente esse papel, precisaríamos que todos os projetos do conjunto se integrassem dentro de um planejamento regional, que levasse em conta a diversidade de espécies, a densidade de indivíduos arbóreos por hectare, as interações com a fauna e muitos outros aspectos.

A verdade é que não existe planejamento urbano ambiental e muito menos planejamento macropaisagístico, e os órgãos que poderiam se responsabilizar pela matéria sequer analisam os projetos paisagísticos que caem em suas mesas, limitando-se a revisar suas insossas listas de plantas. A meu ver, deveriam tentar compreender as condicionantes científicas, físicas e artísticas que levaram os profissionais projetistas a especificar estas ou aquelas plantas, as associações, interações e contrastes morfológicos propostos, mas não o fazem. Talvez por isso, sintam-se com liberdade para vetar espécies e determinar o uso de outras não consideradas pelos autores dos projetos.

Desventuras de um paisagista

Além de enfrentar o reduzido elenco de plantas nativas oferecidas pelo mercado produtor, o paisagista precisa aprender a conviver com uma série de critérios obscuros e objeções incompreensíveis ao desenvolver projetos para áreas públicas (19).

O projeto que desenvolvi para a extensa área afetada pelas obras da Linha 4 do metrô carioca na Barra da Tijuca (Estação Jardim Oceânico e arredores), escavada em terreno arenoso repleto de conchas e outras evidências praianas pelo menos até a profundidade de 10 metros – constatação feita durante visita às obras –, teve espécies como Andira fraxinifoliaNeomitranthes obscuraSophora tomentosa e a cactácea Piloscereus arrabidae rejeitadas pelo órgão competente, por tratarem-se de “espécies de restinga que apenas apresentam bom desenvolvimento em solos arenosos”. Deu para entender? O órgão estava tentando me explicar que espécies de restinga não se adaptam bem na Barra da Tijuca.

As escavações para as obras do metrô, na Barra da Tijuca, demonstram a natureza arenosa do subsolo a cerca de 8 metros de profundidade. Foto Eduardo Barra

Nessa mesma oportunidade, fui informado que não seria mais admitido o plantio de qualquer espécie do gênero Erythrina, tendo em vista que E. speciosa vinha apresentando problemas fitossanitários na cidade e, a partir deste fato, considerou-se preferível condenar o gênero por completo.

Obras da estação metroviária Jardim Oceânico: muitas conchas visíveis na cota -10,00m. Foto Eduardo Barra

Caso similar ocorreu com a espécie Triplaris brasiliana. Como o exemplar jovem da espécie mantém semelhança morfológica com T. surinamensis – essa sim, inscrita na lista das espécies exóticas invasoras do município (Resolução SMAC nº 554, de 28/03/14) –, sua utilização “requer comprovação da identificação botânica” (todas requerem) e, como pode ser confundida, também foi sumariamente proibida.

Em outro projeto, enfrentei situação parecida com relação ao emprego de Dracaena arborea. Levando em conta que a planta tem origem incerta – portanto, exótica – e que outra espécie do gênero, D. fragrans, apresenta potencial invasor, o órgão decidiu por vetá-la. Ou seja, se seu primo é criminoso, você também será tratado como tal.

Em substituição a argumentos técnicos convincentes, os órgãos públicos costumam determinar que se evite algumas espécies simplesmente por serem “de difícil obtenção e produção em viveiro”, verdade institucional que se sobrepõe à própria vivência profissional do projetista. Nos casos em questão, relatei que havia adquirido, pouco tempo antes, mudas desenvolvidas daquelas espécies e o plantio havia sido bem sucedido, mas meu depoimento não soou convincente para os técnicos. Talvez pelas dificuldades administrativas e financeiras do Rio de Janeiro, ou por dificuldade de assumir responsabilidades, fico com a impressão de que os técnicos não querem arriscar novas alternativas, preferindo optar pela mesmice e recomendar enfaticamente o restrito rol das espécies que “deram certo”. Por exemplo, aldrago (Pterocarpus violaceus) é considerada espécie bem vinda, portanto, deve ser especificada e substituição a qualquer outra mais “complicada”; sem qualquer justificativa técnica, “recomenda-se” usar Handroanthus serratifolius em lugar de H. chrysotrichus (da restinga), mesmo em regiões de restinga, e substituir a proibida Erythrina speciosa por Paubrasilia echinata, assim como Tibouchina granulosa por Schinus molle, apesar das diferenças de porte e floração entre elas, contando ainda com o detalhe desta última ocorrer predominantemente em campos de altitude ou regiões subtropicais brasileiras.

Tibouchina granulosa. Efeitos paisagísticos completamente diferentes, mas não levados em consideração pelo órgão competente. Foto Eduardo Barra

De outra vez, tentei utilizar o nativo e já citado Piloscereus arrabidae em um jardim ornamental, mas como o jardim não se situava na beira da praia – e sim na encosta voltada para o mar, submetida a ventos fortes carregados de salinidade –, o órgão competente achou que não mantinha “relação com a área do plantio”. Na verdade, nenhuma herbácea praiana, mesmo que nativa, foi admitida na situação de encosta – todas aparentemente vetadas pela altitude, um novo conceito para mim –, com exceção da forrageira Sphagneticola trilobata, não prevista no projeto, que “apesar de ser mais comumente encontrada em restingas e, segundo a literatura, ter caráter invasor”, foi recomendada para o mesmo local, em substituição à exótica Spathiphyllum cannifolium, embora os portes, florações, folhagens e efeitos paisagísticos das duas espécies sejam completamente diferentes. E quanto ao “caráter invasor” da planta, nenhum comentário esclarecedor. Fiquei confuso.

Schinus molle à direita. Efeitos paisagísticos completamente diferentes, mas não levados em consideração pelo órgão competente. Foto Eduardo Barra

Há uma infinidade de plantas nativas ainda desconhecidas ou não experimentadas em paisagismo. A luta de todo paisagista consciente passa por sua valorização e difusão entre colegas, viveiristas e o público em geral. Fernando Chacel, por exemplo, dedicou-se particularmente à vegetação do manguezal e da restinga, e hoje vemos plantas por ele introduzidas sendo empregadas rotineiramente em projetos paisagísticos. Uma de suas grandes contribuições, penso ser a norantea (Schwartzia brasiliensis), de grande beleza e a cada dia mais presente nos jardins litorâneos, embora de forma ainda bastante tímida. Por outro lado, cabe lembrar que o próprio paisagista não se furtou a empregar espécies exóticas em seus jardins, sempre que as considerava compatíveis e harmoniosas com a flora local. A meu ver, uma atitude madura e consciente.

Pandanus utilis (exótica), usada por Fernando Chacel em seus trabalhos emblemáticos da Barra da Tijuca, com resultados fabulosos e completamente integrados à fisionomia do ecossistema. Foto Eduardo Barra

notas

1 – MARX, Roberto Burle. Roberto Burle Marx: arte & paisagem. Organização e comentários de José Tabacow. 2ª edição. São Paulo, Studio Nobel, 2004.

2 – Na Gleba E (atualmente Condomínio Península), no Parque Mello Barreto e em outros empreendimentos na Barra da Tijuca, na cidade do Rio de Janeiro, e posteriormente no Condomínio Jardim do Lago, em Búzios RJ.

3 – Apenas a título de exercício mental (e piada), podemos supor que o Brasil venha a conquistar países vizinhos, incorporando-os ao seu território, ou mesmo que estabeleça colônias do outro lado do Atlântico. Segundo a lógica atual, assim o país ampliaria consideravelmente seu plantel de espécies “nativas”, passíveis de serem utilizadas em qualquer ponto de seus domínios.

4 – Afinal, sou coorganizador de um livro que tem como objetivo principal a valorização da flora autóctone pelos profissionais de projeto: BARRA,‎ Eduardo; TÂNGARI,‎ Vera Regina; SCHLEE,‎ Mônica Bahia; BATISTA, Márcia Nogueira (org.). A vegetação nativa no planejamento e no projeto paisagístico. Rio de Janeiro, RioBooks, 2015.

5 – HARARI, Yuval Noah. Sapiens, uma breve história da humanidade. Porto Alegre, L&PM, 2017.

6 – Quem já teve a oportunidade de circular pelo interior do Espírito Santo, por exemplo, sabe do que estou falando.

7 – WOHLLEBEN, Peter. A vida secreta das árvores. Rio de Janeiro, Sextante, 2017.

8 – SPIX, Johann Baptist von; MARTIUS, Carl Friedrich Philipp von. Viagem pelo Brasil (1817-1820). São Paulo, Melhoramentos, 1976.

9 – Para tanto, precisamos estabelecer uma data, pois sabemos que os ecossistemas atuais se estabilizaram há apenas 4.000 anos, portanto, não mantêm as mesmas características da época dos dinossauros, por exemplo. Original, no caso, não se refere à origem.

10 – WOHLLEBEN, Peter. Op. cit.

11 – Idem, ibidem.

12 – BARRA,‎ Eduardo; TÂNGARI,‎ Vera Regina; SCHLEE,‎ Mônica Bahia; BATISTA, Márcia Nogueira (org.). Op. cit.

13 – Petraeovix bambusetorum, originária do sudeste asiático.

14 – Ver lista de espécies invasoras do Município do Rio de Janeiro. Resolução SMAC nº 554, de 28/03/2014.

15 – BARRA, Eduardo. Composição formal e organização funcional da vegetação nativa no projeto paisagístico. In BARRA,‎ Eduardo; TÂNGARI,‎ Vera Regina; SCHLEE,‎ Mônica Bahia; BATISTA, Márcia Nogueira (org.). Op. cit.

16 – MARX, Roberto Burle. Op. cit.

17 – Idem, ibidem.

18 – BARRA, Eduardo. Op. cit.

19 – Refiro-me ao município do Rio de Janeiro, pois desconheço a dinâmica de outros locais.

sobre o autor

Eduardo Barra é arquiteto (UFRJ, 1976) atuante nas áreas de arquitetura paisagística, desenho urbano e meio ambiente. Autor do livro Paisagens Úteis: escritos sobre paisagismo, publicado pelas editoras Senac São Paulo e Mandarim (2006) e vencedor do Prêmio IAB-RJ (2009) é titular exclusivo do Studio Eduardo Barra.

Fonte – Vitruvius, Arquitextos de 18 de janeiro de 2018

15 documentários para refletir sobre a vida, a humanidade e o meio ambiente

15 documentários para refletir sobre a vida, a humanidade e o meio ambienteFoto: Tom Shockey/Creative Commons

A fim de maratonar filmes na Netflix sobre a vida na Terra? Confira 23 filmes no catálogo que vão fornecer uma grande reflexão:

1. Terra
O documentário reflete sobre a relação que temos com outros seres no mundo. A humanidade tem se afastado da natureza e esquecido das outras criaturas. “Os animais são os refugiados que muitas vezes esquecemos” é a mensagem que “Terra” passa.

2. The True Cost
“The True Cost” é um soco no estômago de todos que ficam felizes por conseguirem um desconto na hora das compras. São expostas as condições, muitas vezes vexatórias e desumanas, em que as roupas são produzidas por trabalhadores na China, Bangladesh e Índia. O importante é conhecer novas formas sustentáveis e socialmente justas de produção.

3. Cowspiracy
Polêmico. “Cowspiracy” investiga os impactos ambientais da criação de animais para o consumo humano. Essa atividade tem grande impacto no aquecimento global. O documentário questiona ainda o hábito de consumir seres sencientes, que também têm capacidade de sofrer ou sentir prazer.

4. Blackfish
Pesadelo do grupo americano SeaWorld, “Blackfish” analisa como a vida em cativeiro pode afetar o comportamento das orcas. Lançado em 2013, o filme teve como gancho a morte da treinadora Dawn Brancheau, que foi atacada em 2010 pela orca Tilikum no parque SeaWorld de Orlando, na Flórida, em frente aos espectadores. Depois da estreia do documentário, a empresa viu os números de visitantes nos parques diminuírem drasticamente e anunciou, em 2016, o fim de programa de espetáculos com orcas.

5. Amazônia Eterna
A maior floresta tropical do mundo vive sob constante ameaça. Interesses econômicos entram em conflito com a preservação do meio ambiente. “Amazônia Eterna” mostra exemplos de que ainda existe esperança de alcançar um desenvolvimento sustentável. É preciso superar obstáculos e tomar atitudes próprias de uma sociedade em harmonia com o ambiente.

6. Antártica Extrema
Viaje para uma das paisagens mais inóspitas do planeta. Antártica Extrema segue uma equipe de cientistas ambientais que estudam o aquecimento global e seus efeitos nefastos no continente gelado. Navegando por ondas gigantes e icebergs perigosos, os cientistas viajam com um arsenal de tecnologia de ponta que mede as transformações na região.

7. Catching The Sun
“Catching the Sun” conta a história da transição global de energias a partir da perspectiva dos trabalhadores e empresários que constroem soluções para a desigualdade de renda e mudanças climáticas com as próprias mãos. São contadas as histórias de um trabalhador desempregado, um ativista e um empreendedor que se envolvem com a causa da sustentabilidade.

8. GMO OMG
Você sabe o que é OGM? É muito provável que não, mas está presente em grande parte do que você come. São alimentos geneticamente modificados e “GMO OMG” provoca com a pergunta vinda de um pai: “Com o que alimentamos nossas famílias?”. Quais são os riscos dos organismos geneticamente modificados para o meio ambiente e para a saúde humana?

9. Em busca dos corais
Os corais são fundamentais para a biodiversidade do planeta e para o ecossistema marinho. Encontram-se cada vez mais ameaçados pelas mudanças climáticas e estão desaparecendo exponencialmente. Cientistas estimam que a Grande Barreira Australiana, considerada patrimônio mundial da humanidade pela Unesco, já perdeu 35% dos seus corais. “Em busca de corais” é um manifesto da luta pela saúde dos corais.

10. Sustainable
Você sabe de onde vem sua comida? O documentário “Sustainable” mostra como o mundo se distanciou do alimento e da história por trás de sua produção. Mas um movimento crescente tem colocado o holofote sobre essas questões, destacando as ameaças ao atual sistema de produção de alimento e as oportunidades de uma produção mais local e ecológica, como noticiamos aqui no The Greenest Post.

11. Bikes versus Cars
“Bikes contra Carros” é disputa entre as duas e as quatro rodas no estabelecimento do espaço urbano. Enquanto carros dominam grandes cidades, ciclistas buscam justiça e vias adequadas para o método de locomoção mais simples, sustentável e eficiente. São Paulo e Los Angeles são exemplos dessa transformação em curso.

12. Oceano plástico
O plástico tem sido um problema crescente para os oceanos e para a vida aquática. É possível encontrar ilhas de depósito de lixo. Isso não afeta só os que vivem debaixo d’água, mas também toda a cadeia alimentar (incluindo nós humanos). O documentário “Oceano Plástico” mostra um pouco do impacto dessa poluição sem fim.

13. O Extermínio do Marfim
O elefante, maior mamífero do mundo, está desaparecendo a uma velocidade inacreditável: a cada 15 minutos, um morre. A caça é levada a cabo por uma rede perigosa de violência e corrupção que fatura bilhões no mercado asiático. A equipe de filmagem do documentário trabalhou ao lado de organizações de inteligência disfarçadas, ativistas, guardas e conservacionistas para se infiltrar na rede do tráfico de marfim.

14. The Human Experiment
Você já prestou atenção na quantidade de substâncias químicas presentes em produtos comuns do dia a dia? Elas estão em todos os lugares. Novas tecnologias e descobertas facilitam as nossas vidas, mas até que ponto isso é saudável? “The Human Experiment” mostra os riscos potenciais do relacionamento íntimo com elementos químicos.

15. Minimalism
Um documentário que ataca um problema crescente na sociedade: o consumo compulsivo. O excesso de “coisas” cobra um preço alto para o Planeta e para as pessoas no longo prazo. Simplificar e buscar aquilo que realmente te faz feliz é a proposta do minimalismo.

 

 Fonte – Mattheus Goto, The Greenest Post de 02 de janeiro de 2017

Conheça 3 tipos de vidros que não são recicláveis

Existem três tipos de vidros que não são recicláveis: os temperados, espelhos e vidros de automóveis. Existem três tipos de vidros que não são recicláveis: os temperados, espelhos e vidros de automóveis

Por mais que o vidro seja um dos materiais com melhor aproveitamento de reciclagem, há muitos tipos de vidro que não são recicláveis — em geral, são aqueles compostos por diversas substâncias diferentes ou fabricados com técnicas próprias, o que torna o processo de reciclagem muito trabalhoso ou até impossível de ser realizado.

Existem, sim, algumas tecnologias que conseguem reciclar esses vidros, mas elas ainda estão em desenvolvimento e não são realizadas nos sistemas de coleta usuais. A maioria das empresas não se interessa em realizar esse procedimento, pois ele ainda não é vantajoso economicamente.

Vale destacar que, embora a separação do lixo e reciclagem sejam ações essenciais para a preservação do meio ambiente de modo geral, a importância da reciclagem do vidro merece destaque especial já que este material apresente um período de decomposição que dura em torno de 5 mil anos. Justamente por isso, é essencial ficar atento ao tipo de vidro que você está separando para ter certeza de que ele realmente pode ser reciclado.

Tipos de vidro que não são recicláveis

Vidros temperados

Os vidros temperados costumam ser usados em utensílios de cozinha e em janelas, boxes e móveis. Sua utilização em todos esses casos é justificada por se tratar de um vidro bem mais resistente do que o comum. Eles até podem ser reciclados, mas seu resultado costuma ser de baixa qualidade, e isso faz com que ninguém queira investir neles.

Espelhos

Espelhos possuem uma lâmina traseira composta de alumínio, estanho e plástico. Na hora de reciclar, não dá para separar esses compostos do vidro, e isso torna a reciclagem não eficiente.

Vidros de automóveis

O problema principal com a composição dos vidros usados nos automóveis é a resina plástica. Da mesma forma que acontece com os espelhos, é muito difícil separar esse material do vidro em si.

Outros vidros que não são recicláveis por conta de sua composição são os cristais (usados em taças), os reflexivos (comuns em vidros de prédios) e os tubos de monitores (daqueles antigos e grandes).

O que fazer com os vidros não recicláveis?

É preciso abrir algumas aspas quando falamos de “não recicláveis”. A verdade é que, a grosso modo, todos os vidros podem passar por um processo de reciclagem. Entretanto, alguns deles podem exigir uma tecnologia mais recente e avançada, que é cara demais para a maioria das instituições e empresas que lidam com isso. Por isso, o mais complicado com esse tipo de vidro é encontrar alguém que possa e se interesse por reciclá-los.

Fonte – Dinâmica Ambiental de 22 de novembro de 2017

Nesse verão, dispense o canudinho

Hoje começa oficialmente o verão e o WWF-Brasil te convida a fazer uma reflexão: o que cada um de nós pode fazer para reduzir o plástico nos oceanos?

A poluição marinha é um problema global, que afeta pelo menos 267 espécies marinhas em todo o mundo. Empresas e Governo têm suas responsabilidades, mas nós, a sociedade civil, também podemos – e devemos – fazer algo para mudar esse cenário.

O WWF-Brasil atua com o tema desde 2016, através do projeto Plástico Vale Ouro, que busca reduzir a chegada de plástico na Baía de Guanabara, no Rio de Janeiro, promovendo desenvolvimento social para comunidades locais.

E você? Que tal ajudar também com um simples gesto: diga não aos canudinhos!

Se você é dono de um negócio, também pode diminuir a geração de resíduos plásticos no seu estabelecimento ou zerar completamente a geração deste tipo de lixo, juntando-se ao projeto Straw Wars (Guerra aos Canudos, em tradução livre).

Fontes

Relatório de 2016 do Fórum Econômico Mundial de Davos + Fundação Ellen MacArthur
Livro Plastiki, Across the Pacific on Plastic: An Adventure to Save Our Oceans, de David de Rothschild

Matéria de 2015 do Daily Mail entrevistando o pesquisador Richard Thompsom da Universidade de Plymout

Taís Meireles, WWF Brasil de 21 de dezembro de 2017

Como passar a mensagem da sustentabilidade a quem mais consome?

Château de la Hulpe, BE. Olivierbxl/ Flickr Creative CommonsFoto: Château de la Hulpe, BE. Olivierbxl/ Flickr Creative Commons

O excesso e o inútil são símbolos de poder e riqueza. Como comunicar a mensagem do “menos” a um público tão acostumado com o “mais”? E ainda fazer isso sem ser ecochato? De que forma sensibilizar, engajar essa turma? Está aí um belo desafio de comunicação para a sustentabilidade.

Um dos maiores, senão o principal desafio do movimento da sustentabilidade é conquistar corações e mentes dos públicos “não convertidos”. São parcelas da população que, por motivos diversos, ainda não aderiram plenamente à causa, nem por consciência, nem convicção, nem coerção.

Algumas não foram sensibilizadas o bastante, outras não sofreram punições ou ganharam incentivos suficientes para mudar de hábitos. E existem aquelas – a grande maioria – que, de tão preocupadas com a própria sobrevivência e da família, mal têm condições de pensar em um horizonte que não seja a urgência do tempo presente. Estão às voltas com questões como levar 4 ou 5 horas para se deslocar no trajeto casa-trabalho-casa em um ônibus lotado. Isso quando têm trabalho ou, até mesmo, casa.

Pode-se dizer o movimento da sustentabilidade ainda não atingiu em cheio desde as massas populares, vítimas das desigualdades, até o topo da pirâmide, dono da maior pegada ecológica considerando toda sua afluência e imensa capacidade de consumir.

Todos nós, somando 7 bilhões de pessoas, já consumimos 60% mais recursos naturais do que a Terra é capaz de regenerar. Imaginem em 2050, quando a estimativa é chegar a 9,7 bilhões de habitantes. Entretanto, mais que o aumento populacional, o cerne do problema está na forma como se produz e consome, especialmente quando é excessiva.

“Para se ter ideia, apenas 16% da população mundial é responsável por 78% do consumo total.”

“Se toda a humanidade consumisse como os habitantes mais ricos do mundo, seriam necessários quase cinco planetas”, lembra Helio Mattar, diretor-presidente do Akatu, organização voltada ao consumo consciente que recentemente lançou a campanha “Viva mais com menos”.

Resumindo, o grande nó da sustentabilidade está no consumo – notadamente o dos mais abonados, e especialmente daqueles propensos a adquirir um sem-número de itens desnecessários, supérfluos, fúteis, excessivos.

Como comunicar a mensagem do “menos” a um público tão acostumado com o “mais”? E ainda fazer isso sem ser ecochato? De que forma sensibilizar, engajar essa turma? Está aí um belo desafio de comunicação para a sustentabilidade.

Pois em plena CasaCor, meca dos mais renomados arquitetos, decoradores e paisagistas da América Latina, a mensagem da sustentabilidade foi passada de forma envolvente pelo historiador Leandro Karnal. O desafio de Karnal foi falar verdades inconvenientes para um público instalado em sua zona de conforto – e ser calorosamente aplaudido por essas pessoas.

Em meio a espelhos d’água com seixos importados da Indonésia, paredes em mármore, poltronas revestidas de pele, potiches chineses pintados à mão, peças de cristal Baccarat e biombos translúcidos, a 31ª edição da CasaCor que segue em São Paulo até 23 de julho usou como mote… o “Foco no Essencial”.

Quem procurou se aproximar do tema foi a Casa Sustentável, projeto ecoeficiente criado pela jovem Mariana Crego. A arquiteta é a primeira no Brasil e terceira no mundo a receber o selo de sustentabilidade Aqua-HQEpara projetos de interiores, certificado pela Fundação Vanzolini.

Foi no ambiente de 63 metros quadrados da Casa Sustentável que Leandro Karnal vestiu suas luvas de pelica para desfiar a uma plateia seleta o histórico dos excessos que levaram a humanidade ao estágio atual: somos a primeira geração de humanos que pode cometer suicídio planetário ao extinguir a vida na Terra, mas também a única geração que pode mudar essa rota que segue rumo ao abismo.

Mas se a mensagem era pesada e direta no fígado, a forma como foi comunicada prendeu a atenção do público até o fim, com fino humor, tiradas sarcásticas e envolvente oratória. Nem doeu e ficou a dica.

Em sua palestra, Karnal ilustrou com imagens os exemplos de excessos e desperdício. Gramados, por exemplo. O surgimento de gramados na Inglaterra (como já referenciado pelo autor de Homo Deus, Yuval Harari), foi difundido na França pelo rei Francisco I e serviu para simbolizar riqueza e poder. O dono de um gramado é tão rico que pode imobilizar imensa área sem qualquer utilidade e manter pessoas regando-a e aparando-a para não produzir absolutamente nada, apenas realçar a beleza de sua propriedade.

“O excesso é símbolo do poder. Pé direito alto, mangas compridas, gramado”, disse. É como dizer: tenho tanto que posso desperdiçar. Quanto mais alto o pé direito de uma casa, mais espaço desperdiçado, maior o status.

O mais incrível é como esses valores culturais se propagaram ao longo do tempo: vêm de Francisco I e chegam aos americanos que gostam de se mostrar aparando a grama de suas casas nos subúrbios e cuidando do cachorro, em sinal de prestígio.

O inútil também simboliza riqueza – qual a necessidade do souplat, do aro do guardanapo e das flores na mesa? Os arranjos podem embelezar, mas ele lembrou às decoradoras e arquitetas de interiores da plateia que é perfeitamente possível comer sem flores à mesa. (Clique e ouça este trecho)

Para contrastar, Karnal resgatou a história do filósofo Diógenes que, em extremo desapego material, decidiu fazer de uma tina de vinho a sua casa, ao se dar conta de que o ato de “ter” leva à infelicidade. Quanto mais se tem coisas, mais coisas se deseja e se precisa ter. Uma casa grande leva à necessidade de preenchê-la com mais objetos, que exige mais funcionários para limpá-los, e assim por diante. É interminável.

Diógenes tinha apenas uma cumbuca para beber água. Mas quando viu um menino tomando água no rio usando as mãos, desfez-se do objeto: “Para que eu preciso de tanto?”, filosofou.

Karnal se valeu desses exemplos extremos para dizer que o modo como se habita o mundo é também um gesto de responsabilidade política, social, ecológica. Habitar não começa na casa, começa no interior da alma, na harmonia consigo mesmo.

O historiador remeteu ao sociólogo Zigmunt Bauman, que sugeriu descrever as lojas como farmácias, onde as pessoas, no ato de comprar, buscam remédios para aliviar dores emocionais e preencher seus vazios. Enquanto isso, elas olham para seus closets abarrotados e dizem: “Não tenho nada para vestir!”

Neste mundo atulhado, nenhuma fralda descartável, por exemplo, se decompôs até hoje, visto que duram de 450 a 500 anos. A geração que inventou a fralda descartável mal tinha noção de todos os estragos que produzia.

O Landau, automóvel cultuado na década de 1970, consumia “meia calota polar” por tanque. Hoje, estão disponíveis informações para o usuário de um SUV sobre os impactos que as emissões causam ao clima. O desafio não é tanto mais de informar, é de convencer. Sobretudo, estabelecer novos valores.

Karnal sintetiza assim a história da sustentabilidade: surgiu um conceito novo, segundo o qual não sou dono deste mundo, sou um locatário momentâneo, preciso entregá-lo em boas condições para as gerações que vêm aí. “Quanto mais civilizado sou, mais uso as coisas na medida. Nada mais cafona do que esbanjar, consumir muito, ostentar, ser através do ter”.

À plateia ainda atenta, ele frisa: “Não posso mudar o mundo, mas posso mudar a mim mesmo. Todo problema causado pelo ser humano tem uma solução humana. O problema é que somos bons em omitir a própria responsabilidade”, como relata neste áudio.

Mas a questão é quando os problemas causados pelo homem atingem uma dimensão tamanha que escapam ao controle humano. Estamos neste limiar e, em alguns casos, já o ultrapassamos. Ainda há o que se pode fazer para minimizar, mas vários efeitos das escolhas inconsequentes já são irreversíveis.

O que este texto – com uma abordagem bastante mais sombria – sugere é que a comunicação, principalmente por parte de quem produz o conhecimento, como os cientistas, tem sido tímida demais. Não é incisiva o suficiente para alertar que os efeitos da mudança do clima são mais graves e mais próximos do que pensávamos.

Vem aí fome, colapso econômico e um sol que nos irá cozinhar. O estrago está dado, o que resta à nossa geração é uma oportunidade exígua de calibrá-lo um pouco e se adaptar a ele, antes que os excessos do consumo nos consumam de vez.

A narrativa catastrofista, ainda que seja fiel à catástrofe que de fato se avizinha, pode repelir as pessoas, induzindo-as à negação e a aproveitar o máximo da vida enquanto podem. A pior opção será a da inação, o que valida bastante uma abordagem de comunicação mais envolvente como a experimentada por Karnal.

Fonte – Amália Safatle, Página 22 de 13 de junho de 2017

PR capacita professores da rede municipal para ensinar Educação Ambiental aos alunos

PR capacita professores da rede municipal para ensinar Educação Ambiental aos alunos

A educação infantil pode ter um papel importante no processo de aprendizado e conscientização quanto a questões da sustentabilidade. No entanto, o assunto ainda é abordado de forma rasa nas escolas do país. Para mudar essa realidade, na cidade de Foz do Iguaçu, no Paraná, o tema vem sendo trabalhado com diretores, coordenadores pedagógicos e professores da rede municipal de ensino, a fim de capacitá-los para abordar o assunto com seus alunos.

Até o fim de novembro, mais de 500 profissionais devem participar da ação, que faz parte do Programa Encontros e Caminhos, promovido pela Itaipu Binacional e pelo Conselho dos Municípios Lindeiros.

Os encontros presenciais têm 8 horas de duração, divididas entre atividades práticas – como as visitas técnicas ao aterro sanitário municipal e a um centro de triagem de materiais recicláveis – e teóricas – como a abordagem sobre a legislação que rege a necessidade da gestão dos resíduos em prédios públicos, como é o caso dos próprios Centros Municipais de Educação Infantil, os chamados CMEIs. Depois dos encontros, os participantes podem ainda acessar outras atividades em um ambiente virtual de aprendizagem.

A alimentação saudável e a destinação correta dos resíduos estão entre os temas abordados durante a capacitação, conforme explica Rosani Borba, professora e educadora ambiental da Prefeitura de Foz do Iguaçu: “São atividades que eles podem replicar com as crianças e também com os pais dos alunos. Trabalhamos, por exemplo, uma atividade que chama ‘O Açúcar Escondido nos Alimentos’, em que eles estudam os rótulos e aí falam ‘Olha, numa lata de refrigerante tem tantas colheres de açúcar’ e botam a quantidade de açúcar num saquinho para conseguirmos visualizar isso. Uma outra atividade é o ‘Mandando Bem’, em que eles pensam os tipos de resíduos que são gerados nos vários espaços do CMEI e trabalham qual é o seu destino correto: se vai para reciclagem, se vai para o aterro sanitário, se vai para logística reversa, se é possível reaproveitá-los na própria escola…”

Uma iniciativa e tanto para ser expandida por todo o país. Porque já passou da hora do tema ser dominado pelos professores e, consequentemente, passado com maestria às crianças desde cedo.

Fonte – The Greenest Post de 15 de novembro de 2017

Alexander von Humboldt e a invenção da natureza

“A invenção da natureza: A Vida e as Descobertas de Alexander von Humboldt” (2016)“A invenção da natureza: A Vida e as Descobertas de Alexander von Humboldt” (2016). Imagem: Google Books

Alexander von Humboldt (14/09/1769 – 06/05/1859) foi um geógrafo, naturalista e ambientalista alemão, que nasceu antes da consolidação do capitalismo urbano-industrial, testemunhou o avanço da 1ª Revolução Industrial e, no início do século XIX, percebeu, de maneira presciente, que a ampliação das atividades antrópicas e o desenvolvimento econômico baseado na contínua exploração do meio ambiente estava se transformando em uma força de destruição da natureza.

Ele antecipou a visão da Terra como um organismo vivo e integrado. Em sintonia com o idealismo e o romantismo alemão – de Kant e Goethe – Humboldt compreendia que as leis da natureza constituem um equilíbrio complexo e interligado, no qual os princípios das diversas ciências – astronomia, química, botânica, geografia e zoologia – formam um conjunto que mostra “uma teia comum, lícita e eterna que corre através de toda a natureza viva”. Alexander von Humboldt foi um pesquisador transdisciplinar e seminal. O rei prussiano Frederico Guilherme II dizia que ele era “o maior homem desde o dilúvio”.

A magnífica e premiada biografia escrita por Andrea Wulf, “A invenção da natureza: A Vida e as Descobertas de Alexander von Humboldt” (2016), busca resgatar a importância dos estudos de Humboldt e a influência que ele teve, especialmente no século XIX, além de explicar porque um cientista de tal dimensão ficou meio esquecido no mundo anglo-saxônico e em países como o Brasil que nunca deram muita importância para a preservação e a conservação da natureza.

Antes de completar 30 anos, Alexander von Humboldt, junto com o amigo francês Aimé Bonpland (1773-1858), conseguem um salvo-conduto da Coroa espanhola para visitar a América do Sul e desembarcam na atual Venezuela em julho de 1799. Equipados com um avançado arsenal de 42 instrumentos científicos – microscópios, telescópios, bússolas e relógios, etc. – Humboldt e Bonpland embarcam numa expedição de quatro meses e 2.750 km para explorar o rio Orinoco e chegar até a bacia amazônica, numa expedição absolutamente inovadora e rica em descobertas científicas. Em seguida, foram conhecer e estudar a ilha de Cuba. Não insatisfeitos, foram para Cartagena na atual Colômbia e dali para Lima, atravessando os Andes.

No Equador, os dois amigos (e seus auxiliares) escalaram o vulcão Chimborazo, no Equador, considerada, naquela época, a montanha mais alta do mundo, com 6.268 metros de altura. Tal feito teve importância fundamental para a ciência e a luta pela independência da América Latina.

Cientificamente, como escreveu Andrea Wulf, nas alturas dos contrafortes andinos, Humboldt começou a esboçar a sua teoria científica, chamada ‘Naturgemälde’, um termo alemão que traduz a ideia de unidade ou todo. Ele fez um desenho que ficou famoso e significou uma síntese das suas ideias, apresentada no formato de 90 cm por 60 cm, com colunas à direita e à esquerda trazendo informações sobre temperatura, pressão atmosférica e umidade, além de animais e plantas de cada altitude, traduzindo sua visão de mundo.

Esta viagem à América do Sul (e os livros que Humboldt publicou posteriormente) não influenciaram apenas a ciência. Alexander mostrou, por um lado, a riqueza ecológica da região, mas também fez uma crítica implacável ao regime colonial e, especialmente, condenou peremptoriamente a escravidão. As ideias de Humboldt foram fundamentais para a formação intelectual de Simon Bolívar, que conheceu e se tornou amigo do revolucionário naturalista alemão na Europa, quando decidiu voltar para a América Latina e lutar pela independência dos países da região.

Da América do Sul, Humboldt e Bonpland foram para o México, onde não só descreveram a geografia, mas também a riqueza da cultura Asteca. Em 1804, Humboldt se encontrou com o presidente Thomas Jefferson (1743-1826) e a nata da intelectualidade científica e política dos EUA (inclusive Alexander Hamilton que foi o primeiro Secretário do Tesouro dos EUA). Todos ficaram encantados e admirados com as descobertas e a inteligência de Alexander von Humboldt.

Ainda em 1804, aos 35 anos, Humboldt volta para a Europa, se dividindo entre Paris, Berlin e Londres e se reunindo com cientistas para discutir e classificar as mais de 60 mil plantas coletadas e todas as amostras geológicas, além das observações sociológicas sobre as tribos indígenas, etc.

As aventuras e as descobertas de Humboldt na América Latina inspiraram muita gente, inclusive Mary Shelley, que no livro “Frankenstein, ou o moderno Prometeu”, foi influenciada pelos experimentos humboldtianos e fez referência à América do Sul como alternativa de vida nova para a Criatura rejeitada na Europa.

Mas a influência mais marcante no campo da biologia foi sobre Charles Darwin (1809-82), que só embarcou no Beagle, em 1831, para fazer a famosa viagem científica ao redor do mundo, inspirado nas viagens e nas descobertas de Humboldt. Na volta da viagem e na preparação para o fundamental livro “A origem das espécies” Darwin se inspirou e se comunicou com Humboldt, tendo inclusive uma reunião presencial em 1842, quando o naturalista alemão acompanhava o imperador prussiano Frederico Guilherme 4º em visita à Londres.

A lista de grandes cientistas e filósofos influenciados pelo exemplo de vida e a grande produção acadêmica de Alexander von Humboldt é enorme. Destaca-se Johann Wolfgang von Goethe (1749 – 1832) – que foi amigo e também exerceu influência sobre Humboldt – Ralph Waldo Emerson (1803-82), Henry David Thoreau (1817-62), Júlio Verne (1828-1905), Ernst Haeckel (1834-1919) – o criador do termo ecologia – George Perkins Marsh (1801-1882), John Muir (1838-1914), Aldo Leopold (1887-1948), Arne Naess (1912-2009), James Lovelock (1919 – ) – autor da hipótese Gaia, etc.

A biografia de Andrea Wulf é uma obra que faz jus à grandeza de Friedrich Wilhelm Heinrich Alexander von Humboldt (nome completo). Ele foi uma pessoa capaz de armazenar e difundir uma quantidade enorme de conhecimentos que assusta as pessoas hoje em dia, acostumadas à crescente especialização e à falta de uma visão holística.

Wulf mostra que a principal lição de Humboldt é que, na natureza, tudo está ligado. Todas as espécies estão interligadas no tecido da vida. Se destruirmos a biodiversidade do Planeta (ecocídio), também seremos destruídos (suicídio). O incrível é que Alexander von Humboldt percebeu isto há mais de 200 anos. Seu modo de viver e suas ideias servem de inspiração para todas as pessoas que passam por este mundo, não para se servir da natureza, mas para servir à teia da vida que perpassa a dinâmica da terra, do mar e do ar.

José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE.

Fonte – EcoDebate de 04 de dezembro de 2017

UNIC Rio lança ‘Guia do Preguiçoso para Salvar o Mundo’ com dicas de pequenas atitudes para o dia a dia

Guia do Preguiçoso para Salvar o MundoGuia do Preguiçoso para Salvar o Mundo

Você quer ajudar a mudar e salvar o mundo mas tem preguiça até de levantar do sofá para pegar o controle remoto? Então confira o Guia do Preguiçoso para Salvar o Mundo, campanha digital que o Centro de Informação das Nações Unidas para o Brasil (UNIC Rio) lança neste 10 de dezembro – Dia Internacional dos Direitos Humanos.

O UNIC Rio produziu 42 postais em português adaptando o material criado em inglês que dá dicas de atitudes que podem ser tomadas para alcançar os Objetivos de Desenvolvimento sustentável (ODS) da Agenda 2030.

A Agenda é um plano de ação para as pessoas, para o planeta e para a prosperidade, com o objetivo de não deixar ninguém para trás. Os ODS buscam concretizar os direitos humanos de todos e são integrados e indivisíveis, equilibrando as três dimensões do desenvolvimento sustentável: econômica, social e ambiental.

“Este guia nos lembra que os direitos humanos são exercidos dia após dia, por cada um de nós, e todos podemos fazer uma diferença. Os direitos humanos não são unicamente políticos ou civis, mas também econômicos, sociais e culturais, e a cada dia mais ambientais”, avalia o diretor do UNIC Rio, Maurizio Giuliano.

O Guia do Preguiçoso traz dicas divididas em categorias: Sofá Superstar, Heroína ou Herói da Família e Pessoa Legal do Bairro, de acordo com o grau de envolvimento e dificuldade da mudança de comportamento.

Alguns exemplos: pagar as contas online e cancelar extratos bancários em papel evita a destruição de florestas. Apagar as luzes – inclusive da sala, se a iluminação da TV ou do computador forem suficientes – economiza energia. Comprar produtos que usem pouca embalagem.

Reaproveitar a água da chuva para limpar calçadas e regar plantas. Comprar em lojas de segunda mão: produtos novos não são necessariamente melhores.

O diretor do UNIC Rio lembra que muitas das ações estão ligadas ao meio ambiente: “Isto nos lembra algo muito crítico, quase dramático: temos todos que trabalhar para que o planeta Terra siga sendo habitável”, afirma Maurizio Giuliano.

A campanha tem 42 dicas que podem ser aplicadas no dia a dia de qualquer pessoa e entra no ar das redes da ONU Brasil a partir de 10 de dezembro. A data marca o Dia Internacional dos Direitos Humanos, quando a Assembleia Geral da ONU adotou, em 1948, a Declaração Universal dos Direitos Humanos, que completa 70 anos em 2018.

Fonte – ONU Brasil de 08 de dezembro de 2017