Renováveis crescem e consumo de carvão tem queda histórica na China

Renováveis crescem e consumo de carvão tem queda histórica na ChinaA China planeja investir US$ 360 bilhões para ampliar a participação das renováveis na sua matriz energética. | Foto: iStock by Getty Images

A produção de carvão no país teve um recuo recorde de 9%

O governo chinês acaba de divulgar dados que confirmam que a transformação do setor elétrico avançou a passos largos no ano passado. De acordo com o Comunicado Estatístico de 2016 sobre Desenvolvimento Econômico e Social do Escritório Nacional de Estatísticas da China, o país alcançou no ano passado um recorde mundial em energia solar, com 33,2 gigawatts (GW) instalados – o dobro do recorde anterior, também chinês, de 15GW instalados em 2015. A energia solar no grid cresceu 34% ano sobre ano para 39TWh em 2016. Até 2020, a China planeja investir US$ 360 bilhões para ampliar a participação das renováveis na sua matriz energética, impulsionando novos empregos e o desenvolvimento tecnológico.

“A transformação no setor elétrico da China continua. A demanda por energia se dissociou da atividade econômica e, quando isso é combinado com o recorde de instalações de energia renovável, o resultado é que a China continua a se afastar do carvão mais rapidamente do que se esperava”, analisa Tim Buckley, diretor de Estudos de Finanças Energéticas do Institute for Energy Economics and Financial Analysis (IEEFA). “O carvão é o maior perdedor no mercado de energia chinês. Pelo terceiro ano consecutivo, a produção e o consumo caíram, enquanto a taxa de utilização dos geradores a carvão baixou para 47,5%, o mais baixo de todos os tempos”, completa.

Em energia eólica, a China instalou 17,3GW em 2016, abaixo do de 29GW alcançado em 2015. A geração eólica cresceu 19% para 211TWh. Em termos de geração de energia eólica offshore, a análise coloca o Shanghai Electric Wind Power Equipment (Sewind) da China como o maior desenvolvedor de 2016 globalmente, comissionando 489MW de nova capacidade. Quando solar e eólica são combinadas com 18GW por ano de novas capacidades em energia hidrelétrica e 5GW por ano de capacidade nuclear instalada em toda a China nos últimos quatro anos, a geração de eletricidade de emissão zero atendeu 70% do crescimento na demanda por eletricidade na China após 2013. O consumo total de energia em 2016 cresceu apenas 1,4%, contra 6,7% do PIB. A demanda de energia tem se desvinculado da atividade econômica.

A produção de carvão da China teve um recuo recorde de 9,0%, para 3,410 milhões de toneladas (Mt) em 2016. Isso reduziu a média de três anos para 4,9% ao ano; um declínio de 564Mt no total. Esta inversão dramática levou a Agência Internacional de Energia (AIE) a concluir, em novembro de 2016, que o consumo de carvão da China provavelmente atingiu seu pico em 2013.

O consumo de carvão da China em 2016 diminuiu 4,7% em relação ao ano anterior, apesar do crescimento de 3,6% na geração térmica. Com o crescimento no consumo de gás natural de 8% face ao ano anterior, estes dois números sugerem uma redução dramática na queima direta de carvão em usos residenciais e industriais de auto-uso.

Entre 2013 e 2016 a China adicionou um total de 200GW de geração de eletricidade a carvão que hoje estão parcialmente ociosos. A consequência foi um colapso para uma taxa recorde de 47,5% de utilização da capacidade de carvão para o setor de energia a carvão em 2016, abaixo de um pico de curto prazo de 79% da utilização da capacidade em 2011. A mudança da China de 330 dias por ano de mineração de carvão para 276 dias em maio de 2016, seguido de uma retração em outubro de 2016, causou estragos na importação de carvão, que ficaram em 255Mt em 2016, uma queda líquida de 72Mt em relação ao pico de 327Mt alcançado em 2013. O movimento para restringir a mineração de carvão a 276 dias e cortar a produção visa evitar um colapso financeiro semelhante ao das empresas norte-americanas de carvão, como a Peabody Energy, líder desse segmento, que pediu falência em abril de 2016.

Fonte – Ciclovivo de 06 de março de 2017

Estudo britânico diz que petróleo pode entrar em decadência em três anos

topo - energia solar (Foto: Getty Images)Energia solar (Foto: Getty Images)

Pesquisadores do Imperial College e da Carbon Tracker afirmam que queda acelerada no custo de tecnologias limpas pode gerar uma ruptura no mercado de energia

O fim da era do petróleo pode estar mais perto do que se imagina. Bem mais perto. Segundo um estudo britânico, a demanda global por petróleo e carvão mineral pode parar de crescer a partir de 2020. E começar a cair a partir daí. Os pesquisadores avaliam que a queda no custo de energias renováveis deve inviabilizar os investimentos em combustíveis fósseis e acelerar uma transição para uma economia mais limpa.

O estudo Espere o inesperado – O poder disruptivo das tecnologias de baixo carbono é uma parceria do Imperial College, de Londres, com a Carbon Tracker, instituição de pesquisa em financiamento de tecnologias limpas. Os pesquisadores levaram em conta as informações mais atualizadas sobre a evolução dos custos de tecnologias de energia solar e de carros elétricos. Também consideraram as metas assumidas pelos países no Acordo de Paris. Não está claro se os pesquisadores consideram uma possível defecção americana do Acordo na gestão Trump.

As projeções são ousadas. Segundo os pesquisadores, a energia solar poderia atender 23% da demanda global de energia em 2040 e 29% em 2050. Isso seria a aposentadoria do carvão e deixaria o gás com apenas 1% do mercado. Os pesquisadores também traçam um cenário em que os carros elétricos teriam 35% do transporte rodoviário em 2035. Essa fatia cresceria para dois terços em 2050.

“Estamos cientes da redução drámatica nos custos das células fotovoltaicas e das baterias de íon e do potencial de veículos elétricos para causar uma ruptura no mercado de energia”, diz Ajay Ghambir, pesquisador do Imperial College.

Os pesquisadores afirmam que as empresas de energia precisam rapidamente rever seus cenários, para dar conta das mudanças tecnológicas aceleradas que estão viabilizando a energia renovável. O custo de um módulo de energia solar caiu 99% desde 1976. Poucos previram esse tipo de evolução, escrevem os pesquisadores. Para eles, o preço da miopia foi alto. “As cinco maiores empresas de energia da Europa perderam € 100 bilhões de valor entre 2008 e 2013 porque falharam em prever o avanço das tecnologias limpas. As empresas agora reconhecem que entraram no mercado de baixo carbono com dez anos de atraso”, escrevem os autores do estudo.

Fonte = Alexandre Mansur, Blog do Planeta de 10 de fevereiro de 2017

Banco Mundial lança atlas da energia solar

O Global Solar Atlas é um mapa do mundo capaz de identificar os locais com maior potencial para o aproveitamento de energia solar. Lançado pelo Banco Mundial, em parceria com a Aliança Internacional da Energia Solar (ISA), este instrumento web é gratuito e pretende auxiliar investidores e decisores políticos de todo o mundo.

Este mapa faz uso de dados do sistema de informação geográfica (SIG) e permite a aproximação a áreas com grande detalhe, com uma resolução espacial de 1 km, dando, ainda, a conhecer o potencial médio de energia solar anual numa determinada localização. Possibilita, também, a impressão de mapas e a utilização dos dados em outras aplicações. Os dados apresentados são os mais precisos e recentes, sendo fruto de 22 anos de informação recolhida via satélite, que tem sido validada através de medições de alta qualidade no terreno, onde elas existam. Para reduzir a margem de incerteza, o Banco Mundial, com financiamento do programa de assistência ESMAP (Energy Sector Management Assistance Program), pretende instalar, durante os próximos quatro anos, estações de medição em vinte países em desenvolvimento.

Em comunicado, o Banco Mundial refere que o mapa Global Solar Atlas “vai ajudar governos a poupar milhões de dólares em pesquisa e vai proporcionar aos investidores e promotores de energia solar uma plataforma uniforme e de fácil acesso, que permite comparar o potencial entre localizações e entre múltiplos países”.

A apresentação do Atlas decorreu num evento do ISA, na Conferência Mundial de Energia do Futuro, no passado dia 17 de Janeiro, em Abu Dhabi.

O mapa pode ser acedido aqui e todos os dados serão tornado públicos na plataforma Energydata.info.

Fonte – Banco Mundial

Todos os trens da Holanda já são movidos a energia eólica

Todos os trens da Holanda já são movidos com energia eólicaFoto: divulgação NS

Desde o começo de janeiro, 100% dos trens que circulam pela Holanda estão sendo abastecidos exclusivamente com energia produzida por turbinas eólicas. A notícia foi divulgada pela companhia NS, que administra a rede ferroviária do país.

Em setembro de 2015, antecipamos aqui o anúncio do acordo firmado entre a NS e a empresa de energia Eneco, que previa que todos os trens holandeses funcionariam movidos somente com energia gerada pelo vento até o final de 2018.

Acontece que, com a inauguração de novas plantas eólicas (tanto onshore como offshore, ou seja, na costa), foi possível cumprir a meta um ano antes do previsto.

Cerca de 600 mil passageiros usam este sistema de transporte público diariamente. São aproximadamente 5.500 viagens por dia. É utilizada 1,4 TWh de eletricidade para poder suprir a demanda dos trens holandeses. É um volume gigantesco, o equivalente ao consumido por todas as residências dos Países Baixos.

Segundo os engenheiros da Eneco, uma turbina eólica funcionando por uma hora tem capacidade para gerar eletricidade para que um trem percorra 200 quilômetros.

O próximo objetivo da companhia é reduzir a demanda de energia dos trens – por passageiro -, em 35%, até 2020.

Todos os países escandinavos têm investido fortemente em fontes renováveis de energia: mais limpas e sustentáveis. Todavia, nesta região, a eólica é mais eficiente, já que o clima e geografia locais são mais favoráveis a ela. Em julho do ano passado, a Dinamarca bateu um novo recorde mundial, quando divulgou que 42% da energia produzida no país foi gerada a partir de usinas eólicas (leia mais neste outro post).

Estas e outras iniciativas comprovam como a dependência aos combustíveis fósseis, como óleo, gasolina, carvão e petróleo – extremamente poluentes – está com os dias contados. Diversos países mostram, na prática, como o uso de energias limpas é viável, econômico e eficaz.

Fonte – Suzana Camargo, Conexão Planeta de 30 de janeiro de 2017

Energia limpa está em momento irreversível

Obama em visita a planta de geração solar na Flórida, em 2009. REUTERS/Jim YoungObama em visita a planta de geração solar na Flórida, em 2009. REUTERS/Jim Young

Prestes a terminar seu mandato de oito anos, no qual priorizou o combate às mudanças climáticas, o presidente americano listou quatro razões econômicas e científicas pelos quais ele acredita e defende que não será possível voltar atrás no rumo da energia limpa

A apenas dez dias de deixar o cargo, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, que elegeu o combate às mudanças climáticas como uma prioridade, especialmente em seu segundo mandato, publicou nesta segunda-feira (9) um artigo defendendo o “momento irreversível da energia limpa”.

O tema foi central na política climática de Obama, que estabeleceu metas para a redução de gases de efeito estufa nas usinas termoelétricas ao mesmo tempo em que trouxe incentivos para a geração de energia limpa, como eólica e solar. Mas Plano de Energia Limpa está na lista de políticas do democrata que podem ser desmontadas pelo presidente eleito Donald Trump, que assume no próximo dia 20.

Em seu artigo na revista Science, Obama pede que as questões políticas sejam colocadas de lado e que evidências econômicas e científicas sejam levadas em consideração. Ele, então, enumera quatro razões, recheadas de números, pelas quais ele diz acreditar que a economia em torno da energia limpa vai continuar e que as oportunidades para aproveitar essa tendência só vão crescer.

Economia cresce, emissões caem

“Os Estados Unidos estão mostrando que a necessária mitigação de gases de efeito estufa não entram em conflito com o crescimento econômico. Ao contrário, pode impulsionar eficiência, produtividade e inovação”, escreve Obama.

Segundo o democrata, as emissões de CO2 do setor de energia caíram 9,5% de 2008 a 2015, enquanto a economia cresceu 10% no período. Ele destacou também avanços em eficiência energética. A quantidade de energia consumida para a produção de US$ 1 do Produto Interno Bruto caiu quase 11% no período, diz, ao passo que a quantidade de CO2 emitido por unidade de energia consumida caiu 8% e a quantidade do gás de efeito estufa emitido por dólar do PIB reduziu 18%.

“Esta ‘dissociação’ das emissões do setor energético e do crescimento econômico deveria pôr fim ao argumento de que o combate às alterações climáticas exige a aceitação de um menor crescimento ou de um nível de vida mais baixo”, afirma, rebatendo o principal argumento de Trump para não lidar com a questão.

Por outro lado, lembra, “qualquer estratégia econômica que ignore a poluição por carbono irá impor grandes custos à economia global e resultará em menos empregos e menor crescimento econômico a longo prazo”. O democrata cita estimativas de que um aquecimento de 4°C sobre os níveis pré-industriais pode levar a danos econômicos equivalentes a 1% a 5% do PIB global por ano até 2100, de US $ 340 bilhões a US$ 690 bilhões anualmente.

Redução das emissões no setor privado

“Além do caso macroeconômico, as empresas estão chegando à conclusão de que a redução de emissões não é apenas boa para o meio ambiente, mas também pode aumentar os lucros, reduzir os custos para os consumidores e oferecer retornos para os acionistas”, continua Obama.
Ele destaca várias empresas americanas que reduziram o desperdício de energia para economizar dinheiro e investir em outras áreas de seus negócios. Esforços que, em última instância, contribuem para a criação de empregos.

Forças de mercado no setor elétrico

A terceira razão listada por Obama é a mudança que ocorreu no setor de energia elétrica, que começou em 2008 a substituir o carvão por gás natural em grande parte por conta das forças do mercado. Em 2008, o gás respondia por 21% da geração de energia, hoje por 33%. O combustível, apesar de também ser fóssil e emitir gases de efeito estufa, tem bem menos carbono que o carvão e é mais barato.

“Como o custo da nova geração de eletricidade usando gás natural deverá permanecer baixo em relação ao carvão, é improvável que as concessionárias mudem de rumos e optem por construir usinas de carvão, o que seria mais caro do que as usinas de gás natural, independentemente de mudanças de longo prazo na política federal”, escreve, em referência à promessa de Trump de desmantelar o Plano de Energia Limpa.

O presidente lembra também que os custos de eletricidade renovável tiveram uma queda dramática entre 2008 e 2015 – 41% na eólica e 54% para telhados solares –, o que teria motivado movimentos como o do Google, que anunciou no mês passado que pretende alcançar 100% de suas operações usando energia renovável em 2017. Ou do Walmart, que diz ter a mesma meta para os próximos anos.

Momento global

Por fim, Obama destaca o impulso global no campo de energia limpa, que estava faltando há pouco tempo atrás, e que foi possível graças ao Acordo de Paris, obtido em 2015, quando as nações concordaram que todos os países deveriam apresentar políticas climáticas inteligentes.

“É um bom negócio e uma boa economia liderar uma revolução tecnológica e definir as tendências do mercado”, conclui. “A mais recente ciência e economia fornecem um guia útil para o que o futuro pode trazer.”

Fonte – Giovana Girardi, O Estado de S. Paulo de 09 de janeiro de 2017

Mercados financeiros estão perdendo rapidamente a confiança nos combustíveis fósseis

Mercados financeiros estão perdendo rapidamente a confiança nos combustíveis fósseisO desinvestimento nos combustíveis fósseis ultrapassa US$ 5 trilhões. | Foto: iStock by Getty Images

A indústria de petróleo e gás está atualmente experimentando um nível sem precedentes de fatores negativos.

O desinvestimento global dos combustíveis fósseis dobrou nos últimos 15 meses, com o comprometimento assumido por instituições e indivíduos que controlam US$ 5.197 trilhões em ativos. De acordo com uma nova análise divulgada no início de dezembro por Arabella Advisors, 688 instituições e 58.399 pessoas em 76 países já se comprometeram a alienar seus investimentos em combustíveis fósseis.

Os setores que historicamente impulsionaram o movimento – incluindo universidades, fundações e organizações religiosas – respondem por 75% dos novos compromissos. Representantes de finanças, filantropia, fé, entretenimento, educação e outros anunciaram esses números e mostraram seu apoio ao movimento em uma conferência de imprensa internacional simultânea em Nova York e Londres – incluindo o ex-executivo da Mobil Oil, Lou Allstadt, que ajudou a implementar a fusão da Exxon-Mobil.

“Um ano após a adoção do histórico Acordo Climático de Paris, está claro que a transição para um futuro de energia limpa é inevitável, benéfico e em andamento, e que os investidores têm um papel fundamental a desempenhar”, disse o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon.

“Eu elogio o anúncio de que um número crescente dos investidores está apoiando o afastamento das fontes de energia mais intensivas em carbono em favor de fontes energia seguras e sustentáveis. Investir em energia limpa é a coisa certa a fazer – e a maneira esperta de construir a prosperidade para todos, protegendo o nosso planeta e garantindo que ninguém seja deixado para trás. ”

“No momento em que o ano mais quente na história chega ao fim, torna-se inegável o sucesso do movimento mundial de desinvestimento dos combustíveis fósseis. O que começou em alguns campus universitários nos Estados Unidos se espalhou para todos os cantos do mundo e diretamente para o mainstream financeiro. O desinvestimento tem permeado todos os setores da sociedade: desde universidades e fundos de pensão, até instituições filantrópicas e culturais, cidades, grupos religiosos, companhias de seguros e muito mais. Agora, ao atingir US$ 5 trilhões, o movimento não poderá ser detido. As instituições e os investidores devem escolher se estão do lado certo da história”, disse May Boeve, diretora executiva da 350.org, a organização cujos membros lideraram a campanha de desinvestimento.

O apoio ao movimento pelos early adopters está sendo cada vez mais equiparado pelo apoio de instituições voltadas para o lucro, como grandes fundos de pensão, seguradoras privadas e bancos, que representam US$ 4,5 trilhões em ativos, citando riscos climáticos para suas carteiras de investimento.

À medida que mais instituições financeiras se comprometem a desinvestir, a indústria enfrenta um escrutínio maior. “A indústria de petróleo e gás está atualmente experimentando um nível sem precedentes de fatores negativos – de lucros reduzidos a um aumento de empréstimos para pagar dividendos – enquanto os custos de energia solar, eólica e baterias continuam a cair.”, declarou Lou Allstadt, ex-vice-presidente executivo da Mobil Oil.

“Os mercados financeiros estão rapidamente perdendo a confiança nos combustíveis fósseis. Uma revolução tecnológica está em andamento nos setores de energia e transporte, com a energia solar e os carros elétricos mais baratos cortando a demanda por carvão e petróleo.”, disse Mark Campanale, fundador e diretor executivo da Carbon Tracker Initiative.

Esses compromissos globais e sem precedentes dos setores público e privado estão cimentando ainda mais o apelo para uma transição de energia limpa – e desafiam a política energética norte-americana do governo Trump, que está ganhando contornos que favorecem a expansão dos financeiramente arriscados e ambientalmente destrutivos combustíveis fósseis.

Para obter mais informações sobre o anúncio e para baixar o relatório de Arabella Advisors, visite www.divestinvest.org

Fonte – CicloVivo de 26 de dezembro de 2016

As tendências mundiais da transição para as energias renováveis

solarTransição: com entrada em vigor do Acordo de Paris, deveremos ver uma expansão sem precedentes de fontes de energias mais limpas e sustentáveis nas próximas décadas. (Sean Gallup/Getty Images)

Estudo mostra que a mudança para fontes renováveis está se acelerando e quem ficar para trás enfrentará riscos financeiros cada vez maiores

Com a recente entrada em vigor do Acordo de Paris, documento que sela um compromisso global de combate às mudanças climáticas,  deveremos testemunhar uma expansão sem precedentes de fontes de energias mais limpas e sustentáveis nas próximas décadas.

Um estudo do Instituto de Economia e Análise Financeira de Energia (IEEFA) mostra que a transição para as energias renováveis está acelerando, e a um ritmo mais rápido que o previsto. Quem ficar para trás enfrentará riscos financeiros cada vez maiores.

As transformações ocorridas no setor ao longo deste ano dão o tom do que se pode esperar, conforme o estudo 2016: Year in Review – Three Trends Highlighting the Accelerating Global Energy Market Transformation, que identifica as tendências em energia que marcaram o ano.

Com base em projeções recentes, o estudo afirma que o Brasil tem potencial para 880 GW de geração a partir de energia eólica. O país se beneficia dos recursos eólicos ao longo de seu extenso litoral, o que o coloca em quarto lugar mundial em termos de potencial para expandir a geração por essa fonte, atrás de Estados Unidos, China e Alemanha.

O relatório assinala ainda que “os enormes e subdesenvolvidos recursos solares do país” também têm potencial para dar um grande impulso às energias renováveis por aqui, especialmente com a realização do 2º Leilão de Energia de Reserva, que acontece em dezembro.

Segundo a Empresa de Pesquisa Energética, até agosto foram cadastrados 1.260 projetos no leilão, sendo 419 deles de fonte solar fotovoltaica e  841 de projetos eólicos. O início de suprimento dos contratos das duas fontes será em 1º de julho de 2019, com prazo de vinte anos.

Veja abaixo algumas tendências em renováveis que marcaram 2016, conforme a pesquisa.

A transição global para as energias renováveis está se acelerando 

Em 2016, mais países tiveram períodos nos quais 100% do consumo de eletricidade foi atendido pelas energias renováveis. O Reino Unido, berço da Revolução Industrial a carvão, por exemplo, registrou uma maior geração de eletricidade por painéis solares do que por carvão nos seis meses entre abril e setembro deste ano.

A Escócia foi ainda mais longe. Em 7 de agosto, seus ventos produziram eletricidade suficiente para alimentar todo o país. Portugal, por sua vez, foi inteiramento suprido por energia solar, eólica e hidroelétrica durante quatro dias no mês de maio.

Poucos dias depois, um evento semelhante na Alemanha levou os preços da eletricidade a cifras negativas em 15 de maio, com a energia limpa suprindo toda a necessidade energética do país.

Além desses avanços, o relatório destacou o imenso potencial do continente africano na revolução energética. Segundo o estudo, a África tem tudo para se tornar o primeiro continente onde a energia renovável será o principal motor do desenvolvimento.

Em grande medida, a expansão da energia solar tem passado ao largo da região, lar da maioria das nações menos desenvolvidas do mundo – mais de metade das 1,3 bilhão de pessoas sem acesso à eletricidade vivem lá. Isto apesar dos países africanos terem de 52% a 117% mais radiação solar que a líder dessa fonte de energia entre os países desenvolvidos, a Alemanha.

Mas isso deve mudar, segundo o relatório, com as melhorias tecnológicas, as reduções de custos e o crescente interesse em micro-redes. Pelas previsões da Agência Internacional de Energia Renovável (IRENA), a África poderia ter 70GW de geração solar em vigor até 2030.

O ritmo da mudança é muito mais rápido do que o previsto

O relatório também aponta importantes mudanças em níveis institucionais que ajudam a gerar vantagens significativas para o desenvolvimento de novas fontes limpas.

O rápido crescimento do mercado dos chamados títulos verdes (ou green bonds) — títulos de dívida emitidos por empresas e instituições  financeiras para viabilizar projetos com impacto ambiental positivo — é uma indicação de que o capital privado está saindo dos combustíveis fósseis para a energia renovável.

Ser um líder em energias limpas agora pode ser aplicado como um modelo de negócio sustentável que proporciona retornos superiores aos acionistas. Tesla, BYD, Nextera Energia, Softbank, ENEL, China Longyuan e Brookfield Renewable Partners todos demonstram isso.

Ainda segundo a pesquisa, o consumo de petróleo poderá atingir o pico em 2030, com o crescimento exponencial e continuado dos veículos elétricos, eficiência energética e energia renovável.

Quem fica para trás enfrenta crescentes riscos financeiros

Ao contribuir para reduzir as taxas de utilização, as energias renováveis continuarão a comprometer a viabilidade da produção a carvão.  De acordo com o estudo, o consumo mundial de carvão está em declínio, tendo atingido um pico em 2013 e declinado em 2016 pelo terceiro ano consecutivo. Um crescimento da demanda abaixo do esperado, em conjunto com o aumento da oferta de gás natural, deverá golpear ainda mais forte esse mercado.

Fonte – Vanessa Barbosa, Exame de 07 de novembro de 2016

Quem tem a força?

Como em um cabo de guerra, de um lado há o grande esforço das fontes renováveis de energia para ganhar escala; de outro, o poder monumental das fontes fósseis

Os suíços Bertrand Piccard e André Borschberg passaram dez anos construindo um avião e em julho passado finalmente deram uma volta ao mundo. Saíram de Nagoya, no Japão, sobrevoaram quatro continentes (Ásia, África, Europa e América), mais o Oceano Atlântico, e 5 dias e 5 noites depois pousaram no Havaí (EUA), bem no meio do Pacífico – o último ponto de aterrissagem antes de alcançar Nagoya pela outra costa. Até aí nada demais. Só que, para percorrer esses mais de 40 mil quilômetros, o avião dos suíços não usou nenhuma gota de combustível sequer. Consumiu apenas energia solar, mesmo durante a noite.

O projeto Solar Impulse – Clean Technologies to Fly Around the World, com todo o seu arrojo e ineditismo, é uma entre as incontáveis inovações em energia renovável que pipocam todos os dias mundo afora, seja no setor automotivo, seja em green building (edificações verdes), em comunicação etc. Toda essa fertilidade mostra que a barreira tecnológica, que poderia ser o grande impeditivo para os países alcançarem a tão urgente transição energética de fontes fósseis para fontes renováveis a tempo de manter o aquecimento global abaixo de 2 graus, praticamente já não existe. Ou seja, hoje, os dois maiores desafios para se promover uma revolução energética no mundo são: vontade política para implementar os instrumentos necessários à descarbonização das matrizes geradoras de energia e dinheiro, muito dinheiro.

O andar da carruagem

O WWF da França publicou recentemente um estudo em que aponta 15 sinais de que o planeta já está vivenciando essa transição energética. O mais impactante deles é o fato de que 90% de toda a nova produção de energia elétrica adicionada no mundo em 2015 são de fontes renováveis – contra 50% no ano anterior. Outro sinal importante é a queda em mais de 80%, acumulada desde 2009, nos custos operacionais das tecnologias fotovoltaicas. A unidade francesa do WWF estima que esses custos seguirão em tendência de queda e estarão cerca de 60% mais baixos até 2025.

São dados nada desprezíveis. Mas, como nos filmes de suspense, o secretário-executivo do Observatório do Clima (OC), Carlos Rittl, teme que haja um descompasso entre o timing de toda essa efervescência das renováveis e o efetivo cumprimento das metas de redução dos gases de efeito estufa estabelecidas na COP 21, de Paris, em 2015. “Na China, a cada hora sobe mais uma turbina eólica, a cada hora, 10 mil metros de painéis solares são instalados. O que a China instalou em solar só nos primeiros seis meses deste ano equivale ao total de toda a matriz de eletricidade brasileira. É uma escala impressionante!”, avalia. Para ele, mesmo que a temperatura global venha a ultrapassar os limites almejados, o ganho em redução de emissões, ainda assim, terá sido extraordinário.

O professor do programa de pós-graduação em Energia do Instituto de Energia e Ambiente da Universidade de São Paulo (IEE/ USP), Célio Bermann, discorda totalmente dessa percepção de que o mundo estaria vivenciando uma revolução energética, embora admita que, no contexto mundial, várias regiões de alguma forma têm procurado aumentar a participação das fontes denominadas renováveis na oferta energética. “Existe um esforço nessa direção, mas, sob um ponto de vista concreto, a escala de inserção de energias renováveis na oferta energética mundial é extremamente reduzida quando comparada com os combustíveis fósseis”, afirma. Segundo ele, 87% da energia produzida no mundo ainda têm origem nos combustíveis fósseis.

A própria China, ao mesmo tempo que reduz drasticamente o consumo interno de energia fóssil, financia usinas de carvão mineral em vários países asiáticos. E, de quebra, aproveita para exportar o minério. A informação é do diretor-executivo do Centro Brasil no Clima, Alfredo Sirkis, que lançou recentemente, com outros participantes, o livro Moving the Trillions, sobre precificação de carbono e ações de mitigação. “A Índia, por sua vez, embora tenha interesse em elevar a participação de solar na sua matriz energética, mantém ainda uma previsão de aumento de consumo de carvão”, diz.

Para Sirkis, o que há de mais importante neste cenário de transição são as campanhas de desinvestimento. “Muitos investidores importantes, como o Fundo Soberano da Noruega, grandes universidades americanas e fundos de pensão estão retirando seus investimentos da indústria de carvão”, afirma. No mínimo, essas ações sugerem um movimento de regressão da fonte que mais emite carbono. Mas não é suficiente. De onde virão os trilhões necessários à transição? Os governos estão todos endividados e com déficits públicos, portanto um novo Plano Marshall (Programa de Recuperação Europeia elaborado pelos Estados Unidos para reconstrução dos países aliados da Europa após a Segunda Guerra Mundial) injetando recursos a fundo perdido, como nos anos 1940, está descartado. “O dinheiro do mundo está no circuito do mercado financeiro. Lá você encontra cerca de US$ 220 trilhões que dificilmente chegariam ao setor produtivo”.

Para tirar dinheiro da bolha financeira a fim de frear o avanço dos fósseis, além do corte de subsídios aos combustíveis fósseis, existem os instrumentos econômicos da precificação de carbono – os principais são a taxação da intensidade de carbono e o sistema de comércio de emissões. São mecanismos que operam segundo os princípios do poluidor- -pagador e do conservador-recebedor: quem polui remunera aqueles que conservam. O artigo 108 do Acordo de Paris estabelece que os países desenvolvam novos mecanismos que atribuam valor econômico às atividades de mitigação, privilegiando o conservador- -pagador. A isso o Acordo de Paris chamou de “precificação positiva de carbono”.

Entre avanços e dificuldades, a energia solar fotovoltaica no momento parece ser a grande líder desse movimento que, no entanto, para deslanchar e ter alguma chance de vitória, conta com a retaguarda dos moinhos de vento, das usinas hidrelétricas, das biomassas, das marés, entre tantas outras fontes alternativas, limpas e renováveis.

Em meio a toda essa efervescência e nesse momento crucial de turning point da mudança do clima, o que dizer do papel das usinas nucleares, cujo processo de geração de energia não emite gases de efeito estufa? Dado o risco que representam para a vida (a exemplo de Fukushima e Chernobyl) e os rejeitos perigosíssimos e duradouro que geram, as nucleares vêm sendo substituídas na Alemanha em boa parte por termelétricas movidas a carvão mineral, o grande vilão do aquecimento global (mais sobre energia nuclear na seção Olha Isso).

Se for para substituir por termelétricas, o consultor em energia Joaquim Carvalho (foi pesquisador associado ao Instituto de Energia e Ambiente da USP e diretor industrial da Nuclen), embora seja contra a instalação de novas usinas nucleares, acha razoável que países com pouca opção em suas matrizes, e que já possuem infraestrutura nuclear, encarem essa fonte como uma espécie ponte de emergência até a renovação total de suas matrizes.

“Com tanto potencial para renováveis, somos, no momento, apenas um grande mercado para companhias que exploram energia eólica, solar, entre outras fontes”

E o que dizer também da retomada dos investimentos no pré-sal brasileiro, quando o mundo já debate e em alguma medida pratica desinvestimentos em petróleo? Aliás, aos mais empolgados com a ideia da transição energética, o sociólogo Ricardo Abramovay, professor sênior do Instituto de Energia e Ambiente da Universidade de São Paulo (IEE/ USP), manda a seguinte mensagem: “Cuidado com a ideia de que a era dos fósseis terminou, porque os gigantes do petróleo não vão desistir tão fácil das explorações”.

Independentemente do que aconteça com o clima do planeta nos próximos anos, no capítulo que trata das energias haverá o time dos protagonistas e o dos coadjuvantes. O Brasil, contrariando expectativas, está se integrando ao segundo. Gilberto Jannuzzi, professor do Departamento de Energia da Faculdade de Engenharia Mecânica da Universidade de Campinas (Unicamp), enxerga uma mudança robusta no panorama energético mundial e lamenta que o País siga passivo diante dos acontecimentos no setor, apenas recebendo influências. “Com tanto potencial para fontes renováveis, não conseguimos alavancar uma economia baseada nelas. Na verdade somos, no momento, apenas um grande mercado para companhias que exploram energia eólica, solar, entre outras fontes.”

Neste quadro geral, não se pode esquecer também do papel da eficiência energética, a mais limpa de todas as fontes, pois representa a energia não gerada. Para o físico José Goldemberg, presidente da Fundação Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), a intensidade energética (o consumo de energia em relação ao Produto Interno Bruto) está diminuindo em todos os países desenvolvidos, que, juntos, respondem por metade de toda a energia produzida no mundo. “Na medida em que o tempo passa, os países ricos fazem a mesma coisa com menos energia”, afirma.

No entanto, o avanço do processo de eficiência energética vai de encontro a uma situação paradoxal. O aumento da eficiência, somado à forte transição dos países ricos para o setor de serviços e à entrada das energias renováveis, puxa para baixo o consumo de derivados de petróleo (conforme Goldemberg, nos EUA a redução foi da ordem de 1% ao ano nos últimos 10 anos), e consequentemente o preço do fóssil também cai. Quanto menor o preço, mais competitivo fica o petróleo em relação às renováveis, o que, por questões de competitividade, acaba dificultando o processo de descarbonização das matrizes energéticas.

Em meio a essa disputa de gigantes, a sociedade civil vai aos poucos se empoderando na defesa das renováveis por meio da climate justice, um tipo de ação civil pública em que o cidadão pode processar as empresas e governantes por causa dos impactos negativos dos combustíveis fósseis. Segundo Barbara Rubim, da Campanha de Clima e Energia do Greenpeace Brasil, no ano passado, o judiciário da Holanda deu ganho de causa aos cidadãos e condenou o governo a ter uma meta de redução de gases de efeito estufa. “Barack Obama [presidente dos Estados Unidos] também está sendo processado por ter sido lento nas decisões em relação à mudança climática. São iniciativas simbólicas, mas mostram que a sociedade civil está cada vez mais se envolvendo no assunto”.

Um lugar ao sol

Se a cotação do petróleo desceu próxima ao rés do chão, o preço das placas fotovoltaicas também despencou nos últimos dois anos, seja por causa do ganho de escala, seja pela redução da curva de aprendizado para lidar com o sistema. Então, por que em um país eminentemente solar como o Brasil não chega a 5 mil o número de telhados captando e gerando energia elétrica com a luz do sol? O líder do Global Strategic Communications Council (GSCC) ( Uma rede internacional de facilitação da comunicação em mudança climática) no Brasil, Delcio Rodrigues, aponta as três maiores barreiras ao desenvolvimento da energia fotovoltaica no País.

A primeira diz respeito ao custo inicial da instalação. Na energia elétrica convencional que chega pela rede, esse custo está diluído na tarifa do sistema e o consumidor mal o percebe. Para ter energia, o consumidor se responsabiliza apenas pela compra dos fios elétricos da residência. “No caso da solar, e aí está toda a injustiça, por se tratar de geração distribuída (GD) ( Situação em que o consumidor gera a sua própria energia e lhe é permitido injetar o excedente na rede, o que no Brasil foi regulamentado pela Resolução Normativa Aneel nº 482/2012), a responsabilidade com o custo inicial [todo o equipamento e a instalação] é do consumidor”, explica Rodrigues. Nem todo mundo tem entre R$ 20 mil e R$ 40 mil para arcar com o custo inicial de instalação que será amortizado somente em 5 ou 6 anos, com a economia na conta de energia elétrica da rede.

A segunda barreira está no sistema financeiro brasileiro. Como os juros ao consumidor são elevadíssimos, fica impensável a busca por financiamento no Brasil. Se fossem razoáveis – na Europa encontram-se financiamentos com juro negativo para GD renovável –, a própria economia na conta de luz daria conta da amortização do valor do equipamento e da instalação. No Brasil, com os juros ao consumidor que passam, na melhor das hipóteses, de 30% ao ano, essa conta fica impossível”, lamenta Rodrigues.

A terceira diz respeito à equidade de taxação, que já está em vias de ser suplantada. Havia até pouco tempo uma dupla taxação de ICMS generalizada. O sistema fazia o balanço de quanto o consumidor usou de energia da rede e de quanto injetou de volta, e os governos estaduais cobravam o imposto não apenas pelo fornecimento de energia, mas também pelo recebimento. “O Greenpeace atuou fortemente nessa discussão e conseguiu que o Confaz [Conselho Nacional de Política Fazendária] baixasse uma resolução permitindo aos secretários estaduais da Fazenda eliminar essa duplicidade”, conta Rodrigues. A maioria dos estados já fez os ajustes.

Com barreiras ou sem barreiras, o Brasil segue “engatinhando” quando comparado aos países que já captam a energia do sol com bastante desenvoltura ou cujas metas são muito ambiciosas. Não é só a China que está em ebulição, as fotovoltaicas prometem entrar na Índia com força total. Nas palavras de Carlos Rittl, o governo indiano pretende sair do zero e chegar em 100 gigawatts de capacidade instalada em solar no prazo de oito anos. “Difícil dizer se terá chegado a tanto em um prazo tão curto, mas muito provavelmente terá se aproximado.”

E, junto a isso, a Índia também se comprometeu a não ter mais carros movidos a combustão em 2030. Ou seja, o país pretende promover um boom na indústria de carros elétricos e, para chegar lá, está planejando um novo modelo de crédito ao consumidor: o valor do financiamento corresponderá à diferença entre o preço da gasolina e o da eletricidade consumida pelo veículo, segundo Rittl. Se todos esses planos forem adiante, populações como a de Nova Délhi, considerada hoje a cidade mais poluída do mundo, em breve poderão respirar aliviadas.

Nos EUA, principalmente na Califórnia, a energia solar contribui para baixar a emissão de carbono, além de gerar muitos empregos. “Entre 8 e 12 vezes mais do que a média dos demais setores”, diz o secretário-executivo do OC. Sem falar na facilidade para se instalar painéis fotovoltaicos em qualquer telhado californiano. Basta ir a uma loja de material de construção e energia, alguém avaliará a localização do imóvel, o tamanho do telhado e a capacidade de geração. Os painéis são então instalados sem custo nenhum e a empresa que realiza o serviço comercializará a energia excedente até conseguir amortizar o valor do investimento. “O prossumidor [aquele que é produtor e consumidor ao mesmo tempo] não tira um centavo do bolso”, afirma Carlos Rittl.

Associado a tudo isso, ele lembra que são crescentes também os investimentos em soluções tecnológicas para o armazenamento de energia em escala. Um exemplo é o Powerwall, uma superbateria doméstica que arma-zena energia produzida por painéis solares durante o dia para ser usada à noite lançada pela empresa americana Tesla.

De vento em popa

Durante uma madrugada qualquer do ano passado, a Alemanha experimentou um feito: seu sistema gerador de energia eólica foi a fonte com maior peso na oferta de energia durante alguns instantes. “Foi só por um momento, no meio da madrugada, mas foi muito significativo”, avalia Célio Bermann. O feito alemão é resultado do rápido crescimento dos sistemas de energia eólica no mundo nas últimas duas décadas. Segundo recente relatório do Greenpeace [R]evolução Energética, as eólicas passaram de 48 gigawatts instalados para 370 GW em 10 anos.

Porém, a fonte eólica não teria sido líder em oferta de energia na Alemanha (o terceiro país com maior capacidade instalada, depois de China e EUA), nem por aquele instante fugaz, se a rede elétrica do país não estivesse totalmente interligada. O consultor em energia Joaquim Carvalho explica que uma eólica sozinha está sujeita a intermitência do vento, mas uma vez interligadas se beneficiam do que ele chama de “efeito portfólio”.

É como se fosse uma carteira de ações da Bolsa de Valores. Uma ação sozinha é volátil, mas um portfólio de ações tem muito menos variação. No entanto, no Brasil, o 10o maior país em energia eólica instalada, só uma ou outra turbina está interligada entre si e na rede. “Falta também um smart grid que permita injetar energia eólica no sistema em benefí- cio da economia de água nos reservatórios das usinas hidrelétricas”, atenta Carvalho.

O caminho a percorrer para integração das várias fontes no sistema elétrico é longo e nada trivial, embora, de acordo com Gilberto Jannuzzi, “não seja impossível”. As fontes intermitentes estão sendo um desafio em todos os países que vêm aumentando escala. O Brasil tem a vantagem de contar com os grandes reservatórios de água das usinas hidrelétricas, que neste caso exercem a função das baterias, isto é, armazenam energia. “Precisamos desenvolver um sistema para guardar toda essa água e só usá-la quando não tiver vento”, explica Jannuzzi. Isso evitaria o acionamento das termelétricas, estas, sim, interligadas às hidrelétricas durante os períodos de seca.

“Temos uma tradição muito conservadora de planejamento e operação do sistema elétrico”, prossegue Jannuzzi. “Precisamos de uma geração de técnicos que desenvolvam sistemas capazes de gerenciar essas fontes intermitentes.”

Para acompanhar essa inserção das energias renováveis no Brasil, Célio Bermann afirma ter criado um grupo de pesquisa na USP que recentemente detectou a existência de 240 empreendimentos eólicos parados, cujas obras não foram nem sequer iniciadas, e que representariam algo em torno de 6 mil megawatts de capacidade instalada. Segundo ele, se a situação já não era simples por causa do quadro econômico que vinha provocando retração dos investimentos, piorou depois da troca de governo. As expectativas com relação à alteração das regras dos leilões são desestimuladoras. “O quadro difícil fica pior quando se mudam as regras”.

O Greenpeace também vislumbra dificuldades relacionadas aos leilões de renováveis: “Recentemente, para a contratação de novas usinas eólicas nos leilões, passou a ser exigida a garantia de conexão em linhas de transmissão. Além de ser um entrave para o crescimento da fonte, a medida transfere a responsabilidade e os riscos, que antes eram do setor de transmissão, para o setor de geração”, informa o relatório Revolução Energética.

Planeta água

Enquanto a solar e a eólica vão dando um show em inovações tecnológicas, nesse campo a hidroeletricidade sai de cena. “Trata-se de um montão de água movendo uma turbina, um princípio físico anterior à revolução dos semicondutores”, descreve Ricardo Abramovay. Suas críticas não se concentram tanto nos impactos socioambientais negativos (Grandes obras como as hidrelétricas, principalmente em regiões sensíveis como a Amazônia, além de exigirem o desmatamento de extensas áreas e alterarem o fluxo dos rios, causam perturbações e sobrecargas de toda ordem no tecido social, podendo prejudicar principalmente os grupos populacionais vulnerabilizados, como indígenas, mulheres e crianças) que a instalação de grandes hidrelétricas costumam provocar, mas sim no fato de que energia é um vetor básico de inovações e, no caso da hidroeletricidade, isso não existe. “Na literatura a hidroeletricidade já nem entra mais como energia renovável moderna, por ser uma fonte finita e por não ter esse processo acelerado de inovação que está presente não só no campo das renováveis, mas inclusive no de petróleo e gás.”

A descoberta do pré-sal brasileiro ajudou a reavivar o simbolismo de que o petróleo representa a solução dos problemas do País

Jannuzzi calcula que o Brasil não tenha chegado nem a 50% de seu potencial em energia hídrica. No entanto, como a maior parte desse potencial está localizada na Amazônia, e como as reais consequências de alteração do clima e meio ambiente na região são desconhecidas, ele se diz contrário à exploração de novas usinas hidrelétricas. “Isso é um limitante sério, mas temos condições de desenvolver outras fontes”, afirma.

Já José Goldemberg é favorável à expansão do sistema hidrelétrico como meio de evitar o avanço dos fósseis. “O importante é não permitir o retrocesso”, alerta. “Nos últimos tempos, com a crise hídrica, o Brasil produziu 25% da sua eletricidade utilizando combustível fóssil.” Essa experiência mostrou, de acordo com o físico, que o País precisa combinar uma expansão das eólicas e hidrelétricas e interligá-las. Na opinião dele, há um certo exagero nos argumentos sobre os impactos das hidrelétricas na Amazônia: “É possível executar projetos com impactos mínimos”.

O OURO NEGRO

Não é só Ricardo Abramovay – para quem “o poder de mobilização de recursos da indústria fóssil é muito maior do que a euforia com as renováveis deixaria suspeitar” – que vê com uma certa desconfiança as previsões de um desinvestimento maciço em petróleo nas pró- ximas décadas. Seu colega da USP, Célio Bermann, também. Para este, a dependência que o mundo tem do petróleo, principalmente no setor de transportes, é extrema. “A questão da escala é tão significativa que complica a possibilidade de sucesso de programas de substituição por agrocombustíveis [ou biocombustíveis], como etanol ou biodiesel”.

Além disso, é preciso levar em consideração que o preço do barril de petróleo no mercado internacional, que cinco anos atrás estava a US$ 150, caiu a US$ 30 e hoje estabilizou-se em US$ 45. “Esse custo desestimula os investimentos em agrocombustíveis”, afirma.

Questões de mercado à parte, a descoberta do pré-sal brasileiro ajudou a reavivar o simbolismo de que o petróleo representa a solução de todos os problemas do País. A historiadora ambiental Natascha Otoya, que recentemente defendeu dissertação de mestrado sobre o começo da industrialização do petróleo no Brasil, na década de 1930, crê que toda a retórica atual em torno da defesa do pré-sal (em decorrência do projeto de lei proposto pelo ministro das Relações Exteriores, José Serra, que suprime a exigência de presença da Petrobras nas explorações) está muito apegada à velha ideia de que o petróleo é progresso e por causa dele o Brasil será grande.

Na opinião dela, esse sentimento “colou” na sociedade brasileira ainda no primeiro governo Vargas, quando se encontrou o primeiro poço de petróleo no bairro de Lobato, em Salvador, na Bahia. “A exploração do petróleo no Brasil e no mundo teve consequências não antecipadas muito graves e sérias em termos ambientais. Mas seguem sendo percebidas e filtradas por uma ideologia de progresso”, diz.

Para saber mais

The World After the Paris Climate Agreement of December 2015

G20 Green Finance Study Group

Grandes seguradoras exortam líderes do G20 a eliminar os subsídios aos combustíveis fósseis

Chineses querem mais energia renovável (custe o que custar)

Fonte – Magali Cabral, Página 22 out/nov 2016

Energia para um mundo menos contaminado

Energia para um mundo menos contaminado

/LUIS TINOCO

As empresas aceleram sua transformação antes da chegada do carro elétrico e do impulso das energias renováveis

A pouco mais de um mês da próxima cúpula do clima, em Marrakech, inúmeros fóruns, estudos, projeções e mensagens públicas continuam discutindo as conclusões da cúpula anterior sobre as mudanças climáticas – a COP21 de Paris –, que foi encerrada com o compromisso de que o mundo manterá o aumento médio da temperatura muito abaixo dos dois graus centígrados. “Gostamos de pensar que faremos isso de uma maneira agradável e controlada, e não vivendo em um planeta hostil, onde desaparecerão grandes populações humanas. Mas, de uma forma ou de outra, teremos que fazer”, sorri Dimitri Zenghelis.

Para o pesquisador, é uma questão de escolher entre o susto e a morte. Ao fim de setembro, participou de uma conferência em Madri, na qual lançou um punhado de frases provocativas: “Embora haja uma enorme quantidade de combustíveis fósseis, grande parte das reservas de gás e carbono terão que ficar debaixo da terra”, foi uma delas. “Agora a temperatura da terra está um grau acima do que era na época pré-industrial. O que aconteceria se a temperatura subisse quatro ou cinco graus? Provavelmente, pensamos que não faria diferença, mas, na última vez que isso ocorreu, havia jacarés nos polos”.

Zenghelis lembrou naquele fórum, organizado pela Câmara de Comércio dos EUA na Espanha e pelo Instituto Elcano, que milhares de empresas, e não apenas os cidadãos, motivam os governos a estabelecerem limites mais exigentes em políticas de meio-ambiente. “E não o fazem porque se dedicam a criar ursos polares, mas porque querem ser mais eficientes”. A eficiência, de fato, é a palavra mágica que deveria mudar as coisas em um setor que precisa bastante de uma correção de rumo.

Um relatório publicado neste verão pela BP aponta que, em 2015, o consumo de petróleo cresceu 1,9%, e o de gás, 5,4%, enquanto a demanda de carbono no planeta caiu 1,8%. O mix de consumo global continua preferindo um modelo que use fontes energéticas convencionais: o pegajoso combustível lidera o consumo de energia primária (por volta de 32%), seguido do carbono, com 29,2%, e em terceiro lugar aparece o gás natural, com 23,8%. As energias renováveis têm apenas 9,6% do bolo, e o resto do mercado, 4,4%, fica com a energia nuclear.

Energia para um mundo menos contaminado

Enquanto a energia renovável cresce a um ritmo superior a 200%, a queda do carbono pode ser vista nos números dos líderes do mercado. A anglo-suíça Xtrata-Glencore, a maior exportadora mundial de carbono térmico, faturou 170,497 bilhões de dólares (equivalente a R$ 550 bilhões), por volta de 20% a menos que em 2012. A anglo-australiana BHP Billition passou dos 72,260 bilhões em vendas (2012) para 44,636 bilhões em 2015. Quanto aos gigantes do petróleo, os preços baixos do barril causaram enormes feridas a suas receitas: a chinesa Sinopec reduziu seu faturamento em 146 bilhões de dólares nos últimos dois anos. A BP perdeu 156 bilhões (até os 222,894 bilhões), e a americana Exxon Mobile passou de vendas de 390,247 bilhões em 2013 para 236,810 bilhões (153 bilhões a menos), segundo dados da Bloomberg.

As grandes empresas elétricas, por outro lado, mantêm-se firmes diante das quedas dos preços: a State Grid, maior companhia de distribuição e transmissão do mundo (China), que ocupa a segunda posição entre as maiores empresas do planeta, atrás do Wallmart, teve uma queda de apenas 1% em suas receitas nos últimos dois anos. A EDF ou a E.ON tiveram quedas maiores, mas também não viveram grandes oscilações.

Energia para um mundo menos contaminado

El futuro

Pedro Linares, professor da escola de engenharia ICAI da Universidade de Comillas, em Madri, e coordenador da cátedra BP de Energia e Sustentabilidade, afirma que, com todas as cautelas – “há muitos futuros”, afirma -, existem dois elementos perturbadores que afetam o mercado como o conhecemos. A crescente competitividade da energia fotovoltaica e a maciça expansão do carro elétrico. “Todos consideram que, cedo ou tarde, as duas coisas vão acontecer, a questão é em que momento. Em 2050, parece estar claro que, na Europa, o transporte com petróleo será anedótico, independente de melhoras em motores de combustão interna”, acredita. Repsol, uma das principais empresas do país, faz contas sobre esses presságios. Antonio Merino, diretor de estudos da petroleira, analisa que, nos cenários que consideraram, projetam-se um aumento do consumo de gás para substituir o carbono e um crescimento da demanda de petróleo, da qual a China será responsável por 60%, segundo números do estudo A Energia na Espanha, do Ministério da Indústria. “Nós estudamos como reduzir as emissões na exploração, com processos mais eficientes”. Como? “Podemos armazenar e reutilizar o CO2 para reinjetá-lo. Embora a captura e sequestro do carbono sejam caras”.

Em sua projeção, o petróleo continuará sendo um combustível imprescindível e se avançará muito na eficiência dos motores, tanto a diesel quanto a gasolina. “Na China, estão sendo introduzidas medidas de eficiência. O que acontece é que temos uma demanda de transporte, de consumo de carburantes, que continua aumentando. Não sabemos quando será estabilizada, mas, no cenário central que foi concordado em Paris, há um crescimento de demanda até 2030 ou 2035”. Fernando Temprano, diretor de tecnologia da petroleira, admite que, uns anos atrás, discutiram internamente na Repsol sobre quem queriam ser: uma empresa de fornecimento de gasolina e diesel ou uma empresa que fornece energia para o transporte, seja qual for. Escolheram o segundo. “Temos que explicar socialmente a complexidade do tema energético. Não podemos ter mudanças bruscas. Os motores elétricos não substituirão os de combustão em um toque de mágica. A transição acontecerá por meio de veículos híbridos e de um aumento na eficiência dos motores”. No seu centro de I+D, trabalham em várias direções, tanto investigando tecnologias relacionadas com recargas e armazenamento de eletricidade, quanto com produtos que tornem sua atividade mais eficiente. O problema está nos destinatários dos seus produtos.

Energia para um mundo menos contaminado

Calcula-se que o custo da contaminação esteja entre 2% e 5% do PIB mundial por ano. Três horas no trânsito são três horas de produtividade perdidas por um trabalhador, às quais são acrescentadas as emissões do seu carro. Além da conscientização do consumidor, os consultados concordam que o ponto chave está e estará no transporte. O professor da IESE, Juan Luis López Cardenete, afirma que o problema é que 70% das emissões não estão vinculadas ao sistema elétrico. Fundamentalmente, partem do transporte terrestre, marítimo e aéreo. “O avanço dos motores de combustão tem sido extraordinário, mas não é suficiente. O potencial de redução de emissões com as tecnologias comerciais já existentes é enorme”. Dá um exemplo: com um galão (3,7 litros) de gasolina, os carros nos EUA percorrem, de acordo com o parque automobilístico atual, metade dos quilômetros dos europeus. “Para que o mundo possa continuar desenvolvendo-se, basta converter um parque automobilístico no europeu de hoje em dia”.

Mas tudo passa por outra variável, talvez a mais negligenciada de todas: os consumidores. “Os humanos gostam de colocar a culpa nos que oferecem e infantilizar os que demandam, que em última instância são os causadores do problema”, sorri López Cardenete. Trabalhar para que a sociedade perceba a importância da redução da sua demanda energética é uma tarefa que precisa ser executada, em conjunto, por governos e indústrias. Os primeiros, além disso, precisam tomar decisões drásticas, como fechar fábricas contaminantes antes que termine sua vida econômica.

Há muito a ser feito, dizem os especialistas, mas, em resumo, “basta ter uma visão diferente e não tradicional”, para enfrentar os novos desafios energéticos. A má notícia, acrescentam, é que um mundo muito fragmentado politicamente, onde o protecionismo ganha terreno, a governança global, essa a que aspiraram os signatários do acordo de Paris para evitar um mundo mais desigual, ameaça desaparecer.

Fonte – Maria Fernández, El País de 08 de outubro de 2016