Arquidiocese italiana e cinco ordens religiosas cortam investimentos em combustíveis fósseis

Statkraft

Nove organizações católicas, incluindo cinco ordens religiosas e uma arquidiocese na Itália, pretendem cortar investimentos em empresas de combustíveis fósseis em uma ação programada para enviar uma mensagem para o próximo encontro do G7 a ser realizado na Sicília, Itália.

Representantes dos grupos disseram que se inspiraram na Encíclica do Papa Francisco de dois anos atrás, “Laudato Si’ sobre os cuidados para a nossa casa comum“.

A decisão foi tomadas pelas Irmãs Franciscanas de Wheaton e as Filhas dos Sagrados Corações de Jesus e Maria, de Wheaton, Illinois; a MGR Foundation, em Nova Iorque; a Congregação Missionária das Servos do Espírito Santo; a Província de São José da Ordem Passionista, no Reino Unido; e, na Itália, a Arquidiocese de Pescara-Penne, a revista Il Dialogo, a Companhia de Jesus, a Rede de ação interdiocesana New Lifestyles e a Comunidade Monástica de Siloé.

O anúncio foi feito como parte de uma campanha global de corte de investimentos, de 5 a 13 de maio, em fundos de empresas de extração de carvão, petróleo e gás natural. Elas redirecionarão os investimentos em empresas que desenvolvem energia renovável.

Mais de 97% dos especialistas atribuem as mudanças climáticas à atividade humana, pelo menos em grande parte.

O anúncio é feito quando os países do G-7 se preparam para um encontro no sul da Itália, de 26 a 27 de maio, e uma reunião de representantes de cerca de 200 países em Bonn, na Alemanha, em 18 de maio, para negociar a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima.

“Este anúncio destaca a urgência da crise climática. É um lembrete de que o mundo precisa fazer uma transição extremamente rápida dos combustíveis fósseis para a energia limpa”, disse Tomas Insua, diretor-executivo Global Catholic Climate Movement, uma associação de mais de 100 organizações. “É uma resposta ao apelo do Papa Francisco na ‘Laudato Si’ para cuidar de nossa casa comum e cuidar dos pobres e dos nossos filhos, que sofrerão as piores consequências das mudanças climáticas.”

As organizações comprometeram-se a começar o corte de investimentos assim que possível. O corte completo de investimentos deve demorar vários anos para ocorrer.

Ao anunciar a ação, o Global Catholic Climate Movement divulgou declarações dos representantes das organizações envolvidas.

A Irmã Sheila Kinsey, das Irmãs Franciscanas Wheaton, disse que sua ordem religiosa tem considerado as “causas da violência” na sociedade há muito tempo e que é preciso acabar com todos os investimentos em combustíveis fósseis. “Através do nosso estudo e discernimento, respondemos com compaixão a necessidades contundentes imediatas e sistêmicas em nível local e global”, disse ela. “Consideramos necessário deixarmos os combustíveis fósseis para trás devido ao seu impacto sobre o meio ambiente.”

Na Itália, o Pe. Mario Parente, prior da Comunidade monástica de Siloé, disse que a comunidade é “fortemente comprometida com as questões do cuidado e da proteção da criação, e por isso consideramos que é importante fazer parte de uma iniciativa em profunda harmonia com os valores em que acreditamos e que resposta concretamente ao chamado do Papa Francisco em sua Encíclica ‘Laudato Si” para uma conversão ecológica real e uma nova forma de habitar a Terra”.

O Arcebispo Tomasso Valentinetti de Pescara-Penne, na Itália, apoiou a guinada em direção às energias limpas. “Esta iniciativa pretende ser o primeiro compromisso concreto na lógica da ecologia integral e do cuidado da casa comum, a que o Papa Francisco nos convoca na carta encíclica ‘Laudato Si’,’ com uma visão de um processo progressivo e efetivo de corte de investimentos”, disse ele.

Segundo o Global Catholic Climate Movement, 27 entidades católicas aderiram à iniciativa.

Fontes – Dennis Sadowski, Catholic News Service / tradução Luísa Flores Somavilla, IHU de 11 de maio de 2017

Uma megausina solar em deserto no Marrocos pretende abastecer a Europa

Enorme complexo fica ao pé da cordilheira do Atlas, a 10 km de OuarzazateEnorme complexo fica ao pé da cordilheira do Atlas, a 10 km de Ouarzazate. Getty Images

O micro-ônibus atravessa um enorme planalto em uma estrada recém-pavimentada do deserto de Marrocos. O chão é de terra seca e está cheio de rachaduras.

Ainda assim, a região não parece tão desolada quanto já foi no passado. Neste ano, ela virou o lar de uma das maiores usinas solares do mundo.

Centenas de espelhos cruzados, cada um deles maior que um ônibus, estão enfileirados cobrindo 1,4 km² de deserto, uma área do tamanho de 200 campos de futebol.

O enorme complexo está em um local ensolarado ao pé da cordilheira do Atlas, a 10 km de Ouarzazate, uma cidade cujo apelido significa “porta do deserto”. Com cerca de 330 dias de sol por ano, é o lugar ideal.

Além de suprir as demandas domésticas de energia, o Marrocos espera um dia poder exportar energia solar à Europa. Essa usina tem o potencial para ajudar a definir o futuro energético da África e do mundo.

Centenas de enormes espelhos curvados estão enfileirados na usinaCentenas de enormes espelhos curvados estão enfileirados na usina. Getty Images

No dia da visita da reportagem da BBC, porém, o céu estava coberto de nuvens. “Nenhuma eletricidade será produzida hoje”, disse Rachid Bayed, da Agência Marroquina de Energia Solar (Masen, na sigla em inglês), responsável por implementar o projeto.

Um dia de “folga” não os preocupa. Atualmente, a energia solar está sendo adotada por vários países que passaram a vê-la como a mais abundante fonte de energia limpa.

Essa usina marroquina é apenas uma entre várias outras na África, e outras parecidas estão sendo construídas no Oriente Médio, na Jordânia, nos Emirados Árabes Unidos e na Arábia Saudita. O custo cada vez menor da energia solar a tornou uma alternativa viável mesmo nas regiões mais ricas em petróleo do mundo.

Noor 1, a primeira fase da usina marroquina, já ultrapassou expectativas em termos de quantidade de energia produzida. É um resultado encorajador para o objetivo do Marrocos de reduzir a produção de combustíveis fósseis ao focar em energias renováveis e ainda assim atender às necessidades domésticas, que crescem em 7% todos os anos.

A estabilidade do governo e da economia do Marrocos ajudou o país a conseguir investimento da União Europeia, que financiou 60% dos custos do projeto Ouarzazate.

Com cerca de 330 dias de sol ao ano, a região de Ouarzazate é um local ideal para a usina solarCom cerca de 330 dias de sol ao ano, a região de Ouarzazate é um local ideal para a usina solar. Sandrine Ceurstemont

O país planeja gerar 14% de sua energia através do sol até 2020 e acrescentar outras fontes renováveis como vento e água ao plano com o objetivo de produzir 52% de sua própria energia até 2030.

Isso torna o Marrocos mais ou menos alinhado com países como o Reino Unido, que quer gerar 30% de sua eletricidade através de energias renováveis até o fim da década, e os Estados Unidos, onde o ex-presidente Barack Obama havia determinado índice de 20% até 2030.

Donald Trump ameaçou cortar o financiamento às energias renováveis, mas talvez suas ações não tenham grande impacto, já que muitas políticas são controladas por Estados e que grandes companhias já começaram a adotar fontes mais limpas e baratas.

Os refletores da usina geralmente podem ser ouvidos enquanto eles se movem para seguir o sol como um campo gigantesco de girassóis. Os espelhos filtram a energia do sol e esquenta um óleo sintético que segue por uma rede de canos.

As temperaturas podem chegar a 350 ºC e o óleo quente é usado para produzir vapores de água em alta temperatura, alimentando um gerador movido a turbinas. “É o mesmo processo dos combustíveis fósseis, só que usamos o calor do sol como fonte”, diz Bayed.

A usina continua gerando energia mesmo após o pôr do sol, quando a demanda chega ao pico. Parte dessa energia é guardada em reservatórios feitos de nitrato de sódio e potássio, o que mantém a produção por até mais três horas. Na próxima fase da usina, a produção continuará por até oito horas após o sol se pôr.

Quando estiver em força total, a usina empregará entre 50 e cem funcionáriosQuando estiver em força total, a usina empregará entre 50 e cem funcionários. Sandrine Ceurstemont

Além de aumentar a produção de energia do Marrocos, o projeto Ouarzazate está ajudando a economia local. Cerca de 2 mil funcionários foram contratados durante os dois anos iniciais da construção, sendo que muitos deles são marroquinos.

Estradas foram construídas para criar acesso à planta e conectá-la às cidades mais próximas, ajudando as crianças a chegar até a escola. Além disso, uma grande quantidade de água foi levada ao complexo através de encanamentos, dando acesso a água para mais 33 vilarejos.

Masen também ensinou práticas sustentáveis a fazendeiros da área. No pequeno vilarejo de Asseghmou, a 48 km da cidade de Ouarzazate, a forma como ovelhas são criadas mudou.

A maioria dos fazendeiros ali dependiam apenas de sua experiência, mas agora estão entrando em contato com técnicas mais confiáveis, como simplesmente separar os animais em suas gaiolas, o que está aumentando a produtividade.

A Masen também doou ovelhas para criação a 25 fazendas. “Agora eu tenho mais segurança nos alimentos”, diz Chaoui, dono de uma fazenda local. E sua amendoeira está prosperando graças às dicas de cultivo.

Ainda assim, alguns locais se preocupam com a usina. Abdellatif, que viva na cidade de Zagora, 120 quilômetros ao sul dali, onde há taxas mais altas de desemprego, acha que Masen deveria se concentrar em criar empregos permanentes.

Ele tem amigos que foram contratados para trabalhar lá, mas apenas por alguns meses. Uma vez que entrar em operação total, a usina empregará entre 50 e 100 funcionários, apenas. “Os componentes da usina são feitos no exterior, mas seria melhor produzi-los aqui para gerar trabalho contínuo para os moradores locais”, diz.

A usina solar usa uma enorme quantidade de água da represa El MansourA usina solar usa uma enorme quantidade de água da represa El Mansour. Sandrine Ceurstemont

Um problema maior é a enorme quantidade de água que a usina utiliza da represa de El Mansour Eddahbi. Nos últimos anos, a escassez de água tem sido um problema na região semidesértica e houve cortes no fornecimento.

A agricultura ao sul do Vale Draa depende da água da represa –ocasionalmente despejada no rio local, que geralmente é seco. O coordenador da usina, Mustapha Sellam, diz que a água usada pelo complexo representa 0,05% do abastecimento, pouco comparado à sua capacidade.

Ainda assim, o consumo da usina é o bastante para fazer uma diferença na vida dos fazendeiros locais, que já enfrentam dificuldades. É por isso que a usina está tentando reduzir a quantidade de água que consome, utilizando ar pressurizado para limpar os espelhos.

Além disso, a água usada para resfriar o vapor produzido pelos geradores é reutilizada para produzir mais eletricidade.

Há novas sessões da usina em construção no momento. A Noor 2 será parecida com a 1, mas a 3 terá um design diferente. Em vez de espelhos enfileirados, ela vai capturar e guardar a energia solar através de uma torre única, que acredita-se ser mais eficiente.

Sete milhares de espelhos retos serão dispostos ao redor da torre para capturar e refletir os raios de sol em direção a um capturador no topo dela, usando menos espaço do que as filas de espelhos exigem hoje. Sais derretidos no interior da torre vão capturar e armazenar o calor diretamente, sem a necessidade do óleo quente.

Sistemas parecidos já estão em uso na África do Sul, na Espanha e em alguns lugares nos Estados Unidos, como no deserto Mojave, na Califórnia, e em Nevada. Mas, com uma altura de 26 metros, a estrutura de Ouarzazate será a mais alta do tipo no mundo inteiro.

A quantidade de sol da África pode tornar o continente um exportador de energia solar no futuroA quantidade de sol da África pode tornar o continente um exportador de energia solar no futuro. Getty Images

Outras usinas similares estão em construção no Marrocos. O sucesso dessas usinas no Marrocos e na África do Sul podem incentivar outros países africanos a adotar a energia solar.

A África do Sul já entrou na lista dos dez maiores produtores de energia solar do mundo, e Ruanda tem a primeira usina do tipo no leste africano, criada em 2014. Há também planos de construção de usinas solares em Gana e Uganda.

O sol da África pode um dia transformar o continente em um exportador de energia para o resto do mundo. Ao menos Sellam tem grandes expectativas em relação a Noor. “Nosso principal objetivo é a independência energética, mas, se um dia estivermos produzindo a mais, podemos suprir outros países”, diz.

Fonte – Sandrine Ceurstemont, BBC Brasil de 07 de maio de 2017

É possível um mundo sustentado por 100% de energia renovável até 2050?

“Se você construiu castelos no ar, não pense que desperdiçou seu trabalho;

eles estão onde deveriam estar. Agora construa os alicerces”

Duzentos anos do nascimento de Henry Thoreau (1817-1862)

Projected Ebergy Suppy & Demand

Existe um sonho na praça que vai acirrar o debate entre os tecnófilos e os tecnofóbicos. O mundo pode ser abastecido 100% pelas energias renováveis até 2050. A lógica para tal revolução energética adviria dos altos custos ambientais da energia fóssil e da possibilidade do custo das energias renováveis (solar, eólica, geotérmica, ondas, etc.) permanecer abaixo do custo de produção dos combustíveis fósseis. Nesta situação, o fim dos subsídios aos combustíveis fósseis e as próprias forças do mercado promoveriam a substituição das fontes geradoras de altos níveis de dióxido de carbono para as fontes de baixa geração de carbono.

Artigo de Thomas Overton, no site Power Mag (03/01/17), mostra que o boom das energias renováveis, impulsionado pela queda dramática dos custos, levou alguns especialistas e figuras políticas a começar a falar seriamente sobre o que outrora era ficção científica: um mundo totalmente alimentado por geração de energia renovável. Ele questiona se é realmente viável ou econômico viabilizar tal projeto. O gráfico abaixo mostra que o preço da energia solar caiu 100 vezes de 1911 a 2013 (e continua caindo). Desta forma, uma série de estudos sugere que é – embora com algumas ressalvas importantes.

O artigo relembra que, em 1950, a ideia de alimentar um país inteiro com energia solar era ficção científica. Mas em 2017, muitos especialistas e políticos estão falando que é um objetivo inteiramente viável. Diversos municípios em todo o mundo fizeram da meta de 100% renovável​​ uma questão de lei. Grandes corporações como Google, Apple e Amazon declararam intenções de atender todas as suas necessidades de energia a partir de fontes renováveis. Até alguns países como a Dinamarca estão alvejando a geração 100% renovável. O tratado climático da COP21, o Acordo de Paris, estabeleceu uma meta de 100% de renováveis ​​em todo o mundo até 2050, no conceito “equivalente a 100% renovável”.

o preço da energia solar, por watt

Diversos trabalhos acadêmicos publicados tratam da meta “100% renovável”. O professor Mark Jacobson e o pesquisador Mark Delucchi escreveram uma série de estudos detalhando como o mundo e os EUA poderiam satisfazer todas as necessidades energéticas com uma combinação de geração hidrelétrica, geotérmica, eólica e solar. Eles descrevem como uma estimativa de 20,6 TW da demanda mundial total de energia em 2050 poderia ser fornecida por cerca de 52,1 TW de capacidade renovável mais ganhos de armazenamento e eficiência energética:

■ 2,5 milhões de turbinas eólicas de 5 MW (mistura 60/40 de on- e off-shore) (37%)

■ 409.000 geradores de onda de 0,75 MW (0,5%)

■ 935 usinas geotérmicas de 100 MW (0,7%)

■ 1.058 usinas hidrelétricas de 1,3 GW (4%)

■ 30.000 turbinas de maré de 1 MW (0,06%)

■ 1,8 bilhões de sistemas residenciais fotovoltaicos (PV) de telhado residencial de 5 kW (15%)

■ 75 milhões de sistemas fotovoltaicos comerciais de 100 kW (12%)

■ 250.000 usinas fotovoltaicas de 50 MW (21%)

■ 21.500 centrais de 100 MW de energia solar concentrada (CSP em inglês) com armazenamento térmico (10%)

■ 13.000 CSP de 100 MW

A combinação de tecnologias que os autores chamam de “vento, água, e solar” (ou WWS em inglês) poderia fornecer o mix energético necessário. A lista acima inclui recursos já existentes, particularmente hidroelétricos. A estimativa pressupõe avanços em eficiência energética, redução da demanda e redução do consumo de energia em um mundo sem combustíveis fósseis. Sob este cenário, o mundo alcançaria 80% de fontes renováveis ​​até 2030 e cerca de 95% até 2040.

O roteiro para a transição para 100% de energia renovável global prevê um mundo alimentado quase inteiramente por energia solar e eólica, com pequenas quantidades de energia hidrelétrica e geotérmica. Mas existem gargalos em termos de recursos naturais. Um dos quais é a disponibilidade de neodímio (Nd) necessária para geradores de turbinas eólicas, pois a produção mundial de Nd precisaria ser quintuplicada para atender à demanda, algo que talvez não seja viável. O mesmo acontece com o Lítio que é um recurso escasso e pode não ser suficiente para as baterias caseiras e dos carros elétricos. A reciclagem destes materiais teria que ser de uma eficiência além do que é conhecido hoje.

Quanto custaria tudo isso? Segundo Thomas Overton, custaria muito. Em valores de 2013, o custo estimado é de US$ 125 trilhões, mais do que o PIB mundial atual. Mas se argumenta que grande parte desse dinheiro seria gasto de qualquer maneira em outros recursos energéticos fósseis. O principal beneficiário seria evitar impactos na saúde e ao desastre das mudanças climáticas. Ainda segundo o artigo, embora a maioria dos estudos recomendem uma variedade de políticas para apoiar a transição, a questão de saber se tal programa é politicamente e socialmente viável permanece aberta.

Artigo de David Roberts (Vox, 07/04/2017) diz que há razões para ceticismo e para otimismo em relação à meta de 100% energia renovável até 2050. Para o caso dos EUA, o vento e a energia solar geram um pouco mais de 5% da eletricidade (Nuclear gera 20 por cento). A luta para passar de 5% para 60% deverá ser épica. As barreiras políticas e sociais devem retardar esse crescimento do que qualquer limitação técnica, especialmente a curto e médio prazo. Os especialistas em energia entrevistados pela REN21, acreditarem que a previsão de 100% das energias renováveis é uma hipótese “razoável e realista”, mas eles não esperem que isso aconteça em meados do século.

Contudo, mesmo que os 100% de energia renovável na rede elétrica sejam alcançados, a mudança da matriz energética é apenas um dos elementos para evitar a degradação do meio ambiente. Pode ser que 2050 já seja uma data muito remota para evitar o colapso ambiental e o agravamento da crise ecológica até um ponto de não retorno. As necessidades de transformação do modelo “Extrai-Produz-Descarta” e o aumento da entropia requerem uma grande transformação da forma de produção e consumo do mundo. As mudanças requeridas são gigantescas. Mas, certamente, a mudança da matriz energética é uma necessidade indispensável e inadiável na busca de qualquer solução para salvar o Planeta.

Referência

ALVES, JED. Energia renovável: um salto na evolução? Ecodebate, RJ, 29/01/2010

http://www.ecodebate.com.br/2010/01/29/energia-renovavel-um-salto-na-evolucao-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/

ALVES, JED. Energia renovável com baixa emissão de carbono, RJ, Cadernos Adenauer 3, 2014

http://www.kas.de/wf/doc/15610-1442-5-30.pdf

ALVES, JED. 100% energia renovável, Rio de Janeiro, Cidadania & Meio Ambiente, n. 54, v. X, p. 6-10, 2015. (2177-630X) http://pdf.ecodebate.com.br/rcman54.pdf

Thomas Overton. A 100% Renewable Grid: Pipe Dream or Holy Grail?, PowerMag, 03/01/2017

http://www.powermag.com/100-renewable-grid-pipe-dream-holy-grail/?pagenum=1

David Roberts. Is 100% renewable energy realistic? Here’s what we know. Vox, 07/04/2017

http://www.vox.com/energy-and-environment/2017/4/7/15159034/100-renewable-energy-studies

José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE.

Fonte – EcoDebate de 28 de abril de 2017

Revolução da energia barata chegou e o carvão está de fora

DavidR400

As energias eólica e solar estão prestes a se tornarem invencíveis, a produção de gás natural e petróleo está se aproximando do pico e os carros elétricos e baterias para as redes de eletricidade esperam o momento de assumir o controle. Este é o mundo que Donald Trump herdou como presidente dos EUA. E ainda assim o plano energético dele é eliminar restrições para ressuscitar um setor que nunca voltará: o de carvão.

As instalações de energia limpa quebraram novos recordes em todo o mundo em 2016 e as energias eólica e solar estão recebendo duas vezes mais financiamento que os combustíveis fósseis, segundo novas informações divulgadas na terça-feira pela Bloomberg New Energy Finance (BNEF). Isso se deve em grande parte ao fato de os preços continuarem caindo. A energia solar está se tornando, pela primeira vez, a forma mais barata de gerar eletricidade nova no mundo.

Mas com os planos de desregulamentação de Trump, o que “vamos ver é a era da abundância — turbinada”, disse o fundador da BNEF, Michael Liebreich, durante apresentação em Nova York. “É uma boa notícia economicamente, mas há um pequeno senão: o clima.”

Os subsídios governamentais têm ajudado as energias eólica e solar a garantirem presença nos mercados globais de energia, mas as economias de escala são o verdadeiro motor por trás da queda dos preços. As energias eólica e solar não subsidiadas estão começando a ganhar a concorrência contra o carvão e o gás natural em um grupo cada vez maior de países.

Os EUA podem não liderar o mundo em energias renováveis enquanto porcentagem da produção de sua rede, mas vários estados estão superando as expectativas.

As energias eólica e solar decolaram — a tal ponto que as operadoras de rede da Califórnia estão enfrentando alguns dos mesmos desafios de regular as oscilações das energias renováveis de alta densidade que têm afetado a revolução energética da Alemanha. A expansão nos EUA não é a primeira, mas tem sido notável.

A demanda por eletricidade nos EUA vem caindo, em grande parte devido à eficiência energética maior em tudo, de lâmpadas e TVs à indústria pesada. Em um ambiente como esse, o combustível mais caro perde, e este perdedor, cada vez mais, tem sido o carvão.

Com a entrada das energias renováveis na matriz, até mesmo as usinas de combustíveis fósseis que ainda estão em operação estão sendo usadas com menor frequência. Quando o vento está soprando e o sol está brilhando, o custo marginal dessa eletricidade é essencialmente gratuito, e energia gratuita sempre ganha. Isso significa também lucros menores para usinas de energia baseadas na queima de combustível.

A má notícia para as produtoras de carvão fica ainda pior. Os equipamentos de mineração dos EUA se tornaram maiores, melhores e muito mais eficientes. Talvez o que mais afeta os empregos na indústria do carvão sejam os equipamentos de mineração melhores. O estado da Califórnia atualmente emprega mais gente na indústria de energia solar do que a indústria do carvão em todo o país.

Fonte – Tom Randall, Bloomberg de 26 de abril de 2017

Renováveis crescem e consumo de carvão tem queda histórica na China

Renováveis crescem e consumo de carvão tem queda histórica na ChinaA China planeja investir US$ 360 bilhões para ampliar a participação das renováveis na sua matriz energética. | Foto: iStock by Getty Images

A produção de carvão no país teve um recuo recorde de 9%

O governo chinês acaba de divulgar dados que confirmam que a transformação do setor elétrico avançou a passos largos no ano passado. De acordo com o Comunicado Estatístico de 2016 sobre Desenvolvimento Econômico e Social do Escritório Nacional de Estatísticas da China, o país alcançou no ano passado um recorde mundial em energia solar, com 33,2 gigawatts (GW) instalados – o dobro do recorde anterior, também chinês, de 15GW instalados em 2015. A energia solar no grid cresceu 34% ano sobre ano para 39TWh em 2016. Até 2020, a China planeja investir US$ 360 bilhões para ampliar a participação das renováveis na sua matriz energética, impulsionando novos empregos e o desenvolvimento tecnológico.

“A transformação no setor elétrico da China continua. A demanda por energia se dissociou da atividade econômica e, quando isso é combinado com o recorde de instalações de energia renovável, o resultado é que a China continua a se afastar do carvão mais rapidamente do que se esperava”, analisa Tim Buckley, diretor de Estudos de Finanças Energéticas do Institute for Energy Economics and Financial Analysis (IEEFA). “O carvão é o maior perdedor no mercado de energia chinês. Pelo terceiro ano consecutivo, a produção e o consumo caíram, enquanto a taxa de utilização dos geradores a carvão baixou para 47,5%, o mais baixo de todos os tempos”, completa.

Em energia eólica, a China instalou 17,3GW em 2016, abaixo do de 29GW alcançado em 2015. A geração eólica cresceu 19% para 211TWh. Em termos de geração de energia eólica offshore, a análise coloca o Shanghai Electric Wind Power Equipment (Sewind) da China como o maior desenvolvedor de 2016 globalmente, comissionando 489MW de nova capacidade. Quando solar e eólica são combinadas com 18GW por ano de novas capacidades em energia hidrelétrica e 5GW por ano de capacidade nuclear instalada em toda a China nos últimos quatro anos, a geração de eletricidade de emissão zero atendeu 70% do crescimento na demanda por eletricidade na China após 2013. O consumo total de energia em 2016 cresceu apenas 1,4%, contra 6,7% do PIB. A demanda de energia tem se desvinculado da atividade econômica.

A produção de carvão da China teve um recuo recorde de 9,0%, para 3,410 milhões de toneladas (Mt) em 2016. Isso reduziu a média de três anos para 4,9% ao ano; um declínio de 564Mt no total. Esta inversão dramática levou a Agência Internacional de Energia (AIE) a concluir, em novembro de 2016, que o consumo de carvão da China provavelmente atingiu seu pico em 2013.

O consumo de carvão da China em 2016 diminuiu 4,7% em relação ao ano anterior, apesar do crescimento de 3,6% na geração térmica. Com o crescimento no consumo de gás natural de 8% face ao ano anterior, estes dois números sugerem uma redução dramática na queima direta de carvão em usos residenciais e industriais de auto-uso.

Entre 2013 e 2016 a China adicionou um total de 200GW de geração de eletricidade a carvão que hoje estão parcialmente ociosos. A consequência foi um colapso para uma taxa recorde de 47,5% de utilização da capacidade de carvão para o setor de energia a carvão em 2016, abaixo de um pico de curto prazo de 79% da utilização da capacidade em 2011. A mudança da China de 330 dias por ano de mineração de carvão para 276 dias em maio de 2016, seguido de uma retração em outubro de 2016, causou estragos na importação de carvão, que ficaram em 255Mt em 2016, uma queda líquida de 72Mt em relação ao pico de 327Mt alcançado em 2013. O movimento para restringir a mineração de carvão a 276 dias e cortar a produção visa evitar um colapso financeiro semelhante ao das empresas norte-americanas de carvão, como a Peabody Energy, líder desse segmento, que pediu falência em abril de 2016.

Fonte – Ciclovivo de 06 de março de 2017

Estudo britânico diz que petróleo pode entrar em decadência em três anos

topo - energia solar (Foto: Getty Images)Energia solar (Foto: Getty Images)

Pesquisadores do Imperial College e da Carbon Tracker afirmam que queda acelerada no custo de tecnologias limpas pode gerar uma ruptura no mercado de energia

O fim da era do petróleo pode estar mais perto do que se imagina. Bem mais perto. Segundo um estudo britânico, a demanda global por petróleo e carvão mineral pode parar de crescer a partir de 2020. E começar a cair a partir daí. Os pesquisadores avaliam que a queda no custo de energias renováveis deve inviabilizar os investimentos em combustíveis fósseis e acelerar uma transição para uma economia mais limpa.

O estudo Espere o inesperado – O poder disruptivo das tecnologias de baixo carbono é uma parceria do Imperial College, de Londres, com a Carbon Tracker, instituição de pesquisa em financiamento de tecnologias limpas. Os pesquisadores levaram em conta as informações mais atualizadas sobre a evolução dos custos de tecnologias de energia solar e de carros elétricos. Também consideraram as metas assumidas pelos países no Acordo de Paris. Não está claro se os pesquisadores consideram uma possível defecção americana do Acordo na gestão Trump.

As projeções são ousadas. Segundo os pesquisadores, a energia solar poderia atender 23% da demanda global de energia em 2040 e 29% em 2050. Isso seria a aposentadoria do carvão e deixaria o gás com apenas 1% do mercado. Os pesquisadores também traçam um cenário em que os carros elétricos teriam 35% do transporte rodoviário em 2035. Essa fatia cresceria para dois terços em 2050.

“Estamos cientes da redução drámatica nos custos das células fotovoltaicas e das baterias de íon e do potencial de veículos elétricos para causar uma ruptura no mercado de energia”, diz Ajay Ghambir, pesquisador do Imperial College.

Os pesquisadores afirmam que as empresas de energia precisam rapidamente rever seus cenários, para dar conta das mudanças tecnológicas aceleradas que estão viabilizando a energia renovável. O custo de um módulo de energia solar caiu 99% desde 1976. Poucos previram esse tipo de evolução, escrevem os pesquisadores. Para eles, o preço da miopia foi alto. “As cinco maiores empresas de energia da Europa perderam € 100 bilhões de valor entre 2008 e 2013 porque falharam em prever o avanço das tecnologias limpas. As empresas agora reconhecem que entraram no mercado de baixo carbono com dez anos de atraso”, escrevem os autores do estudo.

Fonte = Alexandre Mansur, Blog do Planeta de 10 de fevereiro de 2017

Banco Mundial lança atlas da energia solar

O Global Solar Atlas é um mapa do mundo capaz de identificar os locais com maior potencial para o aproveitamento de energia solar. Lançado pelo Banco Mundial, em parceria com a Aliança Internacional da Energia Solar (ISA), este instrumento web é gratuito e pretende auxiliar investidores e decisores políticos de todo o mundo.

Este mapa faz uso de dados do sistema de informação geográfica (SIG) e permite a aproximação a áreas com grande detalhe, com uma resolução espacial de 1 km, dando, ainda, a conhecer o potencial médio de energia solar anual numa determinada localização. Possibilita, também, a impressão de mapas e a utilização dos dados em outras aplicações. Os dados apresentados são os mais precisos e recentes, sendo fruto de 22 anos de informação recolhida via satélite, que tem sido validada através de medições de alta qualidade no terreno, onde elas existam. Para reduzir a margem de incerteza, o Banco Mundial, com financiamento do programa de assistência ESMAP (Energy Sector Management Assistance Program), pretende instalar, durante os próximos quatro anos, estações de medição em vinte países em desenvolvimento.

Em comunicado, o Banco Mundial refere que o mapa Global Solar Atlas “vai ajudar governos a poupar milhões de dólares em pesquisa e vai proporcionar aos investidores e promotores de energia solar uma plataforma uniforme e de fácil acesso, que permite comparar o potencial entre localizações e entre múltiplos países”.

A apresentação do Atlas decorreu num evento do ISA, na Conferência Mundial de Energia do Futuro, no passado dia 17 de Janeiro, em Abu Dhabi.

O mapa pode ser acedido aqui e todos os dados serão tornado públicos na plataforma Energydata.info.

Fonte – Banco Mundial

Todos os trens da Holanda já são movidos a energia eólica

Todos os trens da Holanda já são movidos com energia eólicaFoto: divulgação NS

Desde o começo de janeiro, 100% dos trens que circulam pela Holanda estão sendo abastecidos exclusivamente com energia produzida por turbinas eólicas. A notícia foi divulgada pela companhia NS, que administra a rede ferroviária do país.

Em setembro de 2015, antecipamos aqui o anúncio do acordo firmado entre a NS e a empresa de energia Eneco, que previa que todos os trens holandeses funcionariam movidos somente com energia gerada pelo vento até o final de 2018.

Acontece que, com a inauguração de novas plantas eólicas (tanto onshore como offshore, ou seja, na costa), foi possível cumprir a meta um ano antes do previsto.

Cerca de 600 mil passageiros usam este sistema de transporte público diariamente. São aproximadamente 5.500 viagens por dia. É utilizada 1,4 TWh de eletricidade para poder suprir a demanda dos trens holandeses. É um volume gigantesco, o equivalente ao consumido por todas as residências dos Países Baixos.

Segundo os engenheiros da Eneco, uma turbina eólica funcionando por uma hora tem capacidade para gerar eletricidade para que um trem percorra 200 quilômetros.

O próximo objetivo da companhia é reduzir a demanda de energia dos trens – por passageiro -, em 35%, até 2020.

Todos os países escandinavos têm investido fortemente em fontes renováveis de energia: mais limpas e sustentáveis. Todavia, nesta região, a eólica é mais eficiente, já que o clima e geografia locais são mais favoráveis a ela. Em julho do ano passado, a Dinamarca bateu um novo recorde mundial, quando divulgou que 42% da energia produzida no país foi gerada a partir de usinas eólicas (leia mais neste outro post).

Estas e outras iniciativas comprovam como a dependência aos combustíveis fósseis, como óleo, gasolina, carvão e petróleo – extremamente poluentes – está com os dias contados. Diversos países mostram, na prática, como o uso de energias limpas é viável, econômico e eficaz.

Fonte – Suzana Camargo, Conexão Planeta de 30 de janeiro de 2017

Energia limpa está em momento irreversível

Obama em visita a planta de geração solar na Flórida, em 2009. REUTERS/Jim YoungObama em visita a planta de geração solar na Flórida, em 2009. REUTERS/Jim Young

Prestes a terminar seu mandato de oito anos, no qual priorizou o combate às mudanças climáticas, o presidente americano listou quatro razões econômicas e científicas pelos quais ele acredita e defende que não será possível voltar atrás no rumo da energia limpa

A apenas dez dias de deixar o cargo, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, que elegeu o combate às mudanças climáticas como uma prioridade, especialmente em seu segundo mandato, publicou nesta segunda-feira (9) um artigo defendendo o “momento irreversível da energia limpa”.

O tema foi central na política climática de Obama, que estabeleceu metas para a redução de gases de efeito estufa nas usinas termoelétricas ao mesmo tempo em que trouxe incentivos para a geração de energia limpa, como eólica e solar. Mas Plano de Energia Limpa está na lista de políticas do democrata que podem ser desmontadas pelo presidente eleito Donald Trump, que assume no próximo dia 20.

Em seu artigo na revista Science, Obama pede que as questões políticas sejam colocadas de lado e que evidências econômicas e científicas sejam levadas em consideração. Ele, então, enumera quatro razões, recheadas de números, pelas quais ele diz acreditar que a economia em torno da energia limpa vai continuar e que as oportunidades para aproveitar essa tendência só vão crescer.

Economia cresce, emissões caem

“Os Estados Unidos estão mostrando que a necessária mitigação de gases de efeito estufa não entram em conflito com o crescimento econômico. Ao contrário, pode impulsionar eficiência, produtividade e inovação”, escreve Obama.

Segundo o democrata, as emissões de CO2 do setor de energia caíram 9,5% de 2008 a 2015, enquanto a economia cresceu 10% no período. Ele destacou também avanços em eficiência energética. A quantidade de energia consumida para a produção de US$ 1 do Produto Interno Bruto caiu quase 11% no período, diz, ao passo que a quantidade de CO2 emitido por unidade de energia consumida caiu 8% e a quantidade do gás de efeito estufa emitido por dólar do PIB reduziu 18%.

“Esta ‘dissociação’ das emissões do setor energético e do crescimento econômico deveria pôr fim ao argumento de que o combate às alterações climáticas exige a aceitação de um menor crescimento ou de um nível de vida mais baixo”, afirma, rebatendo o principal argumento de Trump para não lidar com a questão.

Por outro lado, lembra, “qualquer estratégia econômica que ignore a poluição por carbono irá impor grandes custos à economia global e resultará em menos empregos e menor crescimento econômico a longo prazo”. O democrata cita estimativas de que um aquecimento de 4°C sobre os níveis pré-industriais pode levar a danos econômicos equivalentes a 1% a 5% do PIB global por ano até 2100, de US $ 340 bilhões a US$ 690 bilhões anualmente.

Redução das emissões no setor privado

“Além do caso macroeconômico, as empresas estão chegando à conclusão de que a redução de emissões não é apenas boa para o meio ambiente, mas também pode aumentar os lucros, reduzir os custos para os consumidores e oferecer retornos para os acionistas”, continua Obama.
Ele destaca várias empresas americanas que reduziram o desperdício de energia para economizar dinheiro e investir em outras áreas de seus negócios. Esforços que, em última instância, contribuem para a criação de empregos.

Forças de mercado no setor elétrico

A terceira razão listada por Obama é a mudança que ocorreu no setor de energia elétrica, que começou em 2008 a substituir o carvão por gás natural em grande parte por conta das forças do mercado. Em 2008, o gás respondia por 21% da geração de energia, hoje por 33%. O combustível, apesar de também ser fóssil e emitir gases de efeito estufa, tem bem menos carbono que o carvão e é mais barato.

“Como o custo da nova geração de eletricidade usando gás natural deverá permanecer baixo em relação ao carvão, é improvável que as concessionárias mudem de rumos e optem por construir usinas de carvão, o que seria mais caro do que as usinas de gás natural, independentemente de mudanças de longo prazo na política federal”, escreve, em referência à promessa de Trump de desmantelar o Plano de Energia Limpa.

O presidente lembra também que os custos de eletricidade renovável tiveram uma queda dramática entre 2008 e 2015 – 41% na eólica e 54% para telhados solares –, o que teria motivado movimentos como o do Google, que anunciou no mês passado que pretende alcançar 100% de suas operações usando energia renovável em 2017. Ou do Walmart, que diz ter a mesma meta para os próximos anos.

Momento global

Por fim, Obama destaca o impulso global no campo de energia limpa, que estava faltando há pouco tempo atrás, e que foi possível graças ao Acordo de Paris, obtido em 2015, quando as nações concordaram que todos os países deveriam apresentar políticas climáticas inteligentes.

“É um bom negócio e uma boa economia liderar uma revolução tecnológica e definir as tendências do mercado”, conclui. “A mais recente ciência e economia fornecem um guia útil para o que o futuro pode trazer.”

Fonte – Giovana Girardi, O Estado de S. Paulo de 09 de janeiro de 2017