Mundo vive a sexta extinção em massa (e a culpa é dos humanos)

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A sexta extinção em massa de vida na Terra está a acontecer de forma mais rápida do que se previa, resultando numa “aniquilação biológica” da vida selvagem, alertam os autores de um novo estudo científico.

Segundo este estudo, desenvolvido por investigadores da Universidade de Stanford, na Califórnia, Estados Unidos, mais de 30% das espécies vertebradas estão em declínio, tanto em termos de população como de distribuição geográfica.

“Trata-se de uma aniquilação biológica que ocorre a nível global, mesmo que as espécies a que pertencem estas populações ainda existam em alguns locais na Terra”, afirma um dos autores da pesquisa, Rodolfo Dirzo, professor de biologia na Universidade de Stanford. O estudo foi publicado na revista Proceedings of the National Academy of Sciences.

De acordo com a Agência France Presse, os investigadores traçaram a carta da distribuição geográfica de 27.600 espécies de pássaros, anfíbios, mamíferos e répteis – uma amostra que representa quase metade dos vertebrados terrestres conhecidos – e analisaram declínios de população numa amostra de 177 espécies de mamíferos entre 1990 e 2015.

Destes 177 mamíferos, todos perderam pelo menos 30% das suas áreas geográficas e quase metade perdeu pelo menos 80%. Cerca de 40% dos mamíferos, entre eles rinocerontes, orangotangos, gorilas e grandes felinos, sobrevivem com 20% menos de território do que seria desejável.

O declínio dos animais selvagens é atribuído sobretudo ao desaparecimento do seu habitat, ao consumo excessivo de recursos, à poluição e ao desenvolvimento de espécies invasivas e de doenças. As alterações climáticas também têm contribuído e este declínio tem-se acelerado, alertam os investigadores.

“Algumas das espécies que estavam relativamente seguras há 10 ou 20 anos”, como os leões e as girafas, “estão agora em perigo”, avisam.

Esta “perda massiva” em termos de população e de espécies “é um prelúdio do desaparecimento de muitas outras espécies e do declínio do ecossistema que torna a civilização possível”, lembrou o autor principal do estudo, Gerardo Ceballos, da Universidade Nacional Autónoma do México.

Os autores concluíram que a extinção populacional é mais notória do que tinham previsto anteriormente, argumentando que o mundo não pode esperar para enfrentar os danos feitos à biodiversidade pois a janela de tempo que nos permite agir é muito pequena, “provavelmente duas ou três décadas no máximo.”

“A sexta extinção em massa da Terra desenvolveu-se mais depressa do que a maioria gostaria de assumir”, diz o estudo.

No estudo, os investigadores observaram que as suas descobertas eram um pouco “limitadoras” uma vez que os fatores que influenciam a extinção de espécies e as perdas de população estavam a tomar proporções gigantescas, o que inclui perdas de habitats, sobreexploração, organismos invasores, poluição, alterações climáticas e uma potencial guerra nuclear a larga escala.

Ceballos considera que esta perda massiva de população e de espécies é um “reflexo da nossa falta de empatia” pela vida selvagem, acrescentando que o desaparecimento de espécies era também uma ameaça à rede ecológica de animais, plantas e microorganismos que poderiam causar problemas nos ecossistemas tornando-os menos resistentes, afectando a sua capacidade de sobreviver num mundo em rápida mudança.

Os investigadores apelam ainda a que se faça algo contra as causas deste declínio da vida selvagem, em especial a sobrepopulação e o excesso de consumo.

Numa entrevista ao jornal espanhol El Mundo, a professora catedrática de Biodiversidade e Ecossistemas na Universidade College de Londres, no Reino Unido, já tinha salientado em 2016 que “todas as evidências indicam que estamos perto da sexta grande extinção”.

E será “uma extinção em massa”, prevê a também directora do Centro para a Investigação da Biodiversidade e do Meio Ambiente da College de Londres, provocada não pelo “sistema terrestre ou por efeitos extraterrestres”, como no caso das cinco extinções que já se verificaram no nosso planeta, mas “pelas pessoas”.

Além disso, um estudo de 2015 já falava no desaparecimento de animais a um ritmo 100 vezes superior ao de uma normal extinção em massa e que os humanos poderiam estar entre as primeiras vítimas.

Fontes – ZAP / Lusa de 11 de julho de 2017

300 espécies de primatas estão à beira da extinção

300 espécies de primatas estão à beira da extinçãoFoto: domínio público/pixabay

As futuras gerações podem não ter a chance de conhecer algumas espécies de primatas, parentes mais próximos do ser humano. Se nada for feito, gorilas, orangotangos, macacos e lemurs poderão ser encontrados somente em museus e imagens de livros e internet.

O alerta assustador foi dado por um grupo de pesquisadores em artigo divulgado na publicação Science Advances. Em “A iminente crise de extinção dos primatas no mundo: por que os primatas são importantes?”, os cientistas relatam que 60% dos primatas que vivem hoje na natureza estão a caminho da extinção. Isso significa que das 504 espécies conhecidas pela biologia atualmente, 300 podem simplesmente deixar de existir e outras tantas estão com declínio de sua população.

Para chegar a estes números estarrecedores, os pesquisadores usaram informações de estudos científicos internacionais, do banco de dados das Nações Unidas e da lista vermelha da União Internacional pela Conservação da Natureza (IUCN, na sigla em inglês).

O responsável por esta nova onda de extinção em massa é o homem, afirmam os autores do artigo. Segundo eles, entre as principais causas para o possível desaparecimento dos primatas estão as atividades humanas, como a expansão da agricultura industrial e a pecuária sobre as florestas, desmatamento provocado pela indústria madeireira, mineração e exploração de combustíveis fósseis. Todas estas atividades têm destruído o habitat de milhares de animais no mundo todo. Só entre 1990 e 2010, a agricultura ocupou 1,5 milhão de km2 de áreas, onde antes, viviam primatas. Para se ter uma ideia do tamanho da destruição, isso equivalente a três Franças.

“A atual escala de extinção é massiva”, afirmou Anthony Rylands, pesquisador chefe da IUCN, em entrevista ao The Guardian. “Considerando o grande número de espécies ameaçadas e com população em declínio, o mundo enfrentará em breve uma nova grande onda de extinção, caso nada seja feito imediatamente!”.

300 espécies de primatas estão à beira da extinção

O lemur de Madagascar, um dos primatas que pode desaparecer do planeta. Foto: domínio público/pixabay

O estudo publicado na Science Advances mostra detalhadamente onde os primatas sofreram a maior perda de habitat. Espalhados por cerca de 90 países, em zonas denominadas neotropicais, 2/3 deles vivem em somente quatro países: Brasil, Madagascar, Indonésia e Congo.

Em Madagascar, a situação é a pior de todas. Lá, 87% dos primatas são considerados em risco eminente de extinção.

Uma nova onda de extinção em massa

Este não é o primeiro grande alerta sobre uma nova era de extinção no planeta. Em 2015, foi lançado o documentário Racing Extinction (A Corrida da Extinção, em tradução livre), que mostrava o que pesquisadores têm afirmado há muito tempo: metade das espécies que conhecemos hoje podem desaparecer até o final deste século.

Todos os anos, milhares de plantas, insetos, aves, mamíferos, reptéis e anfíbios morrem. Simplesmente deixam de existir. De acordo com historiadores, a Terra já passou por cinco grandes períodos de extinção. No último deles, o choque de um meteoro gigante teria provocado a morte dos dinossauros.

Cientistas acreditam que agora estamos na sexta era de extinção. Mamíferos gigantes, os chamados grandes predadores, podem deixar de viver. Baleias, tubarões, rinocerontes, elefantes, gorilas, tigres e leões morreriam e sumiriam dos mares, florestas e savanas do mundo.

A importância dos primatas no planeta

Os primatas são os parentes biológicos mais próximos do ser humano. São essenciais para o entendimento da evolução de nossa espécie na Terra. E são também fundamentais para a biodiversidade do planeta.

Os animais ajudam a dispersar sementes e, assim, recuperar florestas e matas. Estudos mostram que muitos primatas foram identificados ainda como polinizadores, já que algumas espécies se alimentam de flores e néctar.São ainda importantes indicadores da saúde do ecossistema onde vivem.

Em Madagascar, por exemplo, a presença dos lemurs está relacionada com o crescimento de árvores de grande porte, com grandes sementes. Caso sejam extintos, não se sabe ainda o impacto que isso pode ter sobre a floresta.

Fonte – Suzana Camargo, Conexão Planeta de 25 de janeiro de 2017

Humanos, e não mudança climática, destruíram a megafauna australiana

Novas evidências envolvendo a antiga megafauna que uma vez percorreu a Austrália indicam que a causa primária de sua extinção, cerca de 45.000 anos atrás, foi provavelmente a ação de seres humanos, não a mudança climática.

O estudo, feito por pesquisadores da Universidade Monash, em Victoria, na Austrália, e da Universidade do Colorado em Boulder, nos EUA, usou informações de um núcleo de sedimentos perfurado no Oceano Índico ao largo da costa sudoeste do país, a fim de ajudar a reconstruir o clima passado e ecossistemas da região.

Não há evidência de mudança climática significativa durante a extinção dos enormes animais que viveram na região.

A extinção

O núcleo de sedimentos contém camadas cronológicas de material soprado pelo vento e lavado no oceano, incluindo poeira, pólen, cinzas e esporos de um fungo chamado Sporormiella que prosperou no esterco de mamíferos que comiam plantas.

Isso permitiu que os cientistas olhassem para trás no tempo, abrangendo o último ciclo glacial total da Terra.

Esporos fúngicos de esterco de mamíferos eram abundantes nas camadas de 150.000 anos atrás até cerca de 45.000 anos atrás, quando começaram a diminuir bastante.

“A abundância desses esporos é uma boa evidência de que havia um grande número de grandes mamíferos na paisagem australiana do sudoeste até cerca de 45.000 anos atrás”, disse Gifford Miller, da Universidade do Colorado, um dos autores do novo estudo. “Então, em uma janela de tempo que durou apenas alguns milhares de anos, a população de megafauna desmoronou”.

A megafauna

A coleção australiana de megafauna, cerca de 50.000 anos atrás, incluía cangurus de 450 kg, vombates de 2 toneladas, lagartos de 7 metros de comprimento, aves não voadoras de 180 kg, leões marsupiais de 130 kg e tartarugas do tamanho de carros.

Mais de 85% dos mamíferos, pássaros e répteis da Austrália que pesavam mais de 100 quilos foram extintos logo após a chegada dos primeiros seres humanos.

O núcleo de sedimentos oceânicos mostrou que o sudoeste é uma das poucas regiões no continente australiano que tinha densas florestas há 45.000 anos, e as possui até hoje, tornando-se um viveiro para a biodiversidade.

“É uma região com algumas das primeiras evidências de seres humanos no continente, e onde esperamos que muitos animais tenham vivido”, disse Miller. “Devido à densidade de árvores e arbustos, poderia ter sido um de seus últimos habitats cerca de 45.000 anos atrás. Não há evidência de mudança climática significativa durante essa época da extinção megafauna”.

Caça exagerada

Os cientistas vêm debatendo as causas das extinções da megafauna australiana há décadas.

Alguns afirmam que os animais não poderiam ter sobrevivido a mudanças no clima, incluindo uma há cerca de 70.000 anos, quando grande parte da paisagem do sudoeste da Austrália passou de um ambiente de floresta de eucaliptos para uma paisagem árida, com vegetação escassa.

Outros sugeriram que os animais foram caçados à extinção pelos primeiros imigrantes que colonizaram a maior parte do continente há 50 mil anos, ou ainda uma combinação de excesso de caça e mudança climática.

Miller afirma que a extinção pode ter sido causada por uma caça “exagerada imperceptível”. Um estudo realizado em 2006 por pesquisadores australianos indica que mesmo a caça de baixa intensidade da megafauna australiana – como a morte de um mamífero juvenil por pessoa por década – poderia ter resultado na extinção de uma espécie em apenas algumas centenas de anos.

Fonte – Phys / HypeScience de 22 de janeiro de 2017

O que é a ‘6ª extinção em massa’ e por que já passou da hora de nos preocuparmos (e muito!)

Enquanto demagogos e lunáticos insistem em questionar o aquecimento global e a efeito dos destrutivos hábitos humanos que vem colocando em risco o meio ambiente na terra, os efeitos de tais hábitos seguem se intensificando em direções cada vez mais alarmantes. O que antes sempre era anunciado como uma possibilidade em um futuro remoto, agora já se torna palpável e próximo, ao passo que possivelmente muitos de nós que aqui estamos poderemos enxerga-lo: cientistas anunciam que uma sexta extinção em massa poderá acontecer na Terra até o ano de 2050.

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É considerado extinção em massa quando 3 de cada 4 espécies desaparecem literalmente da face da terra – e é isso que a ação do homem vem provocando nos últimos séculos. Em um ritmo de diminuição de 2% da vida selvagem ao ano, em 2020 nós poderemos ter perdido já dois terços da vida animal do planeta (só na última década, um quinto dos elefantes desapareceu).

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Em 2050, ano em que possivelmente atingiremos essa terrível marca de uma nova extinção em massa, estima-se que haverá mais plástico do que peixes nos oceanos.

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Essa seria a primeira extinção desde a era mesozoica, há 66 milhões de anos – a diferença é que essa será inteiramente causada pelo homem.

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Como qualquer criança sabe, a extinção de uma espécie somente pode provocar intenso desequilíbrio no meio ambiente, afetando direta e indiretamente um sem fim de outras espécies ao redor. Incêndios, desmatamentos, culturas predatórias, poluição, uso excessivo de combustível fóssil, o crescimento irrefreável da população humana, excesso de pesca e, principalmente o excesso de produção de carne bovina são apontados como os principais motivos para esse horizonte apocalíptico que se anuncia.

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Ainda que o aquecimento global esteja somente começando, e que a eleição de uma figura como Trump – que nega tais fenômenos como se não passassem de propaganda, contrariando toda a comunidade científica – sejam notícias ainda mais assustadoras, é possível adotar pequenas medidas que, em massa, poderão impactar positivamente para transformarmos esse destino trágico.

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Deixar de usar sacos plásticos, trocar suas lâmpadas por luzes LED, diminuir o consumo de carne vermelha e pressionar os políticos a adotarem e investirem em energia limpa são excelentes exemplos de atitudes concretas que podem ser tomadas hoje. Ou então, o que será preciso acontecer para que levemos a sério o que está se sucedendo dia após dia diante de nossos olhos? Até o momento que nem esse dia após o outro estiver garantido.

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Fonte – Hypeness

Temos 20 anos, no máximo, para prevenir a 6ª extinção em massa

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A próxima extinção em massa da Terra – a primeira causada pelos seres-humanos – está no horizonte. E as consequências são inacreditáveis: três quartos das espécies podem desaparecer.

Isso só aconteceu cinco vezes na história do planeta – incluindo a extinção em massa que matou os dinossauros. O que é diferente agora é que os seres humanos estão causando essas mudanças.

Como?

“Bem, estamos queimando combustíveis fósseis e consequentemente aquecendo o planeta; transformando pedaços maciços de terra em fazendas; causando a disseminação de espécies e doenças invasoras em todo o mundo; impulsionando nossa própria quantidade e consumindo mais e mais recursos; e causando todos os tipos de problemas para os oceanos, desde a sobrepesca até encher ele com plástico. (Você sabia que os pesquisadores esperam que o oceano contenha partes iguais de peixes e plástico, em peso, em 2050?)”, escreve o jornalista John D. Sutter, autor do projeto “2 degrees”, que traz matérias que alertam sobre o aquecimento global, na rede americana de TV CNN.

Em sua coluna, Sutter fala sobre um dado alarmante: um relatório do World Wildlife Fund, um grupo de defesa ambiental, afirma que há um declínio de 58% em certas populações de animais vertebrados desde 1970, e diz que se as tendências continuarem, então dois terços de todas essas aves, peixes, anfíbios, répteis e mamíferos desaparecerão até 2020.

Alguns cientistas vêem esses números como potencialmente enganadores. Stuart Pimm, ecologista da Universidade de Duke, nos EUA, disse a Sutter que 58% é “um número bastante tolo do relatório, porque mistura o que está acontecendo no oceano com o que está acontecendo na terra. Ele mistura estudos sobre as populações de aves na Europa com populações de mamíferos na África. Tem poucos pontos de dados na América do Sul”.

População de animais comuns diminuindo

Sutter afirma que concorda que os números podem ser enganosos, mas também conversou com outros cientistas que possuem opiniões diferentes.

Anthony Barnosky, diretor executivo do Jasper Ridge Biological Preserve, da Universidade de Stanford, nos EUA, por exemplo, diz que a coisa mais importante a lembrar é que o relatório é limitado no seu escopo – tem poucos dados de algumas regiões tropicais importantes, por exemplo, e abrange apenas animais com com coluna vertebral.

Mas destaca um fato importante e pouco considerado. “Não é apenas que as espécies estão sendo extintas a uma taxa alarmante – pelo menos 100 vezes o que poderia ser considerado “normal”, e talvez muito mais do que isso -, mas que as populações de animais ainda comuns estão diminuindo muito rapidamente”, alerta.

“Eu não discuto com a tendência que eles estão apontando – estamos perdendo indivíduos de espécies e áreas geográficas a um ritmo realmente rápido”, diz Barnosky. “Se continuarmos assim, a extinção de muitas espécies é inevitável”.

Uma extinção em massa, por definição, significa que três quartos de todas as espécies desaparecem. Isso pode acontecer em 100 ou 200 anos, disse Barnosky, mas não em 2020.

Tempo quase esgotado para agir

Mas isso não significa que temos tempo de sobra para reverter este quadro. Barnosky diz que temos talvez 10 ou 20 anos para impedir que a sexta extinção se torne uma inevitabilidade.

Se não fizermos nada, devemos esperar que três quartos das espécies desapareçam ao longo do próximo século ou do seguinte. Em outras palavras, o que fizermos (ou não fizermos) agora irá moldar as próximas gerações do planeta.

“Sim, as espécies estão sendo extintas muito, muito mais rápido do que deveriam ser”, diz Pimm, “o que significa que estamos privando inúmeras gerações de ver a diversidade extremamente rica que herdamos de nossos pais”.

E outros especialistas, incluindo Paul Ehrlich, professor de estudos populacionais na Universidade de Stanford, dizem que a sexta extinção já está aqui.

“Nós provavelmente perdemos, digamos, 200 espécies – de animais grandes – ao longo dos últimos cem anos, mas podemos muito bem ter perdido na ordem de um bilhão de populações diferentes”, disse ele.

“Estamos basicamente aniquilando a vida em nosso planeta e essa é a única vida conhecida que conhecemos em todo o universo, e é a vida que moldou o planeta, que tornou possível para nós vivermos aqui e continua tornando possível que vivamos aqui. Se não tivermos a diversidade de outros organismos, estamos acabados”, relaciona.

Pimm diz que temos “uma geração humana” para fazer algo antes que seja tarde demais.

Ações

“Se não começarmos a fazer um monte de coisas para parar a extinção, vamos ver perdas muito significativas de espécies”, disse ele. “Há um monte de coisas que podemos fazer e eu prefiro concentrar nas positivas em vez de apenas chafurdar neste número realmente terrível apresentado pelo World Wildlife Fund”, afirma.

“Nos últimos 50 anos, aproximadamente, nós perdemos 50% dos indivíduos nestas espécies,” Barnosky diz. “Se perdemos outros 50% nos próximos 50 anos, estaremos com 25% do número original”. Em um par cem anos quase todas estas espécies que nós estamos falando ficariam em risco, se nós continuarmos nessa taxa.

Segundo Sutter, nós sabemos como retardar a taxa de extinção. Precisamos parar a disseminação de espécies invasoras e temos que dar um jeito no comércio ilegal como o do marfim, que Barnosky diz, poderia varrer os elefantes da África em 20 anos se as taxas de caça furtiva continuarem.

O primeiro passo, entretanto, é nos darmos conta da crise que vivemos e de sua monstruosa abrangência. “A melhor maneira de imaginar a sexta extinção em massa”, diz Barnosky, “é olhar para a natureza e imaginar que três em cada quatro das espécies que eram comuns se foram”.

Fonte – Hype Science de 21 de dezembro de 2016

Crescimento da população humana ameaça a girafa… e todas as outras espécies

girafaGirafa, queda de 40% da população em três decadas. Foto: Wikimedia Commons

Saiu mais um dado oficial da União Mundial de Conservação (UICN), informando as alterações de espécies na Lista Vermelha de Animais Ameaçados de Extinção 2016. Os dados são, como sempre, estarrecedores:  mais 700 espécies de aves (das quais 13 estão consideradas extintas) foram adicionadas à lista, enquanto outras anteriormente incluídas, como o papagaio cinza (Psittacus erithacus), passaram de categoria VU – Vulnerável, para a categoria EN – Em Perigo de Extinção.  O mesmo acontece com o tubarão-baleia (Rhincodon typus).  Das 6 espécies de gorilas, 4 estão na categoria CR – Criticamente Ameaçada, que esse ano passou a incluir o Gorila do Leste (Gorilla beringei). A lista marca a extinção de Petaurus australis, uma espécie de roedor endêmico da Austrália, a primeira extinção de um mamífero atribuída a mudanças climáticas.  Dentre outros aspectos a serem ressaltados, chama a atenção alteração de status de algumas espécies como o ornitorrinco  (Ornithorhynchus anatinus), a zebra (Equus quagga) e o cervo de  Borneu (Muntiacus atherodes) , os quais eram classificadas como LC – Pouco Preocupante, e que agora passaram à categoria NT – Quase Ameaçadas.

No infame  jogo da extinção, algumas espécies pularam várias casas:  o carismático Koala (Phascolarctos cinereus), o marsupial australiano Petauroides volans, e a girafa (Giraffa camelopardalis), foram da pouco preocupante categoria LC diretamente para a incômoda VU.  Desses, a icônica girafa vem ganhando grande destaque na mídia, uma vez que sua população declinou surpreendentes 40% nos últimos 30 anos.   Das 9 subespécies de girafa, apenas 3 da parte sul da África estão estáveis. As demais 5, espalhadas pelo continente, encontram-se a caminho da extinção.  Durante o Congresso Mundial de Conservação, realizado pela IUCN no Havaí esse ano, representantes de governos e ONGs passaram uma resolução pedindo a criação de áreas protegidas para conservação da girafa e do okapi, um animal raro, um “mix” de zebra, girafa e búfalo, que se encontra na categoria CR – Criticamente Ameaçado.

“A caça ilegal, perda de habitat, avanço da agricultura e problemas sociais estão levando a girafa à extinção”. Troque a palavra “girafa” por qualquer outro animal de sua escolha e a frase seguirá sendo verdadeira.”

A lista vermelha do Brasil, onde constam 1.173 espécies, foi apresentada pelo ICMBio na 13a Cúpula das Nações Unidas pela Biodiversidade (COP 13), e foi matéria de ((O))Eco da semana passada.

Conservacionistas de todo o mundo estão acostumados a ver a Lista Vermelha de Animais Ameaçados aumentando a cada nova edição, salvo alguns raros casos de sucesso, como o do carismático Panda (Ailuropoda melanoleuca), que esse ano passou de EN para VU graças a um esforço (ainda não comprovado) do governo chinês.

Mas o que realmente causa surpresa é que – pelo menos no caso das girafas – a IUCN leva a mão à palmatória e admite abertamente que a causa da queda brutal da espécie é o crescimento descontrolado da população humana.  Esse assunto vinha sendo uma espécie de tabu entre os tomadores de decisão, um elefante no meio da sala que todos fingiam ignorar.  Segundo o relatório desse ano a IUCN afirma que “a crescente população humana está causando um impacto negativo nas populações de girafa.  A caça ilegal, perda de habitat, avanço da agricultura e problemas sociais estão levando a girafa à extinção”.  Troque a palavra “girafa” por qualquer outro animal de sua escolha e a frase seguirá sendo verdadeira.

Desde 1992, com o surgimento do movimento socioambiental, quase nenhum congresso e evento da IUCN ou de outras organizações ousaram sequer falar sobre o assunto da superpopulação humana e a necessidade de seu controle.  Ao contrário, grande ênfase é dada aos direitos e necessidades de nossa espécie sobre as demais 8,699 milhões de espécies estimadas no planeta. Áreas de proteção integral de onde não se extrai recursos caíram em desuso face a criação de áreas extrativistas, em busca de uma utópica sustentabilidade ambiental, econômica e social que pudesse preservar a biodiversidade, mas com os serem humanos dominando tudo.  Não apenas ineficiente, essa mentalidade é um tanto quando demagógica, e por que não dizer, ingênua, pois o impacto negativo que agora chega às girafas, eventualmente chegará a nós.

Admitir que somos nós os grandes vilões da Terra, agindo como células cancerígenas que adoecem o planeta, em nome de nosso egocêntrico bem-estar, não é algo fácil de se admitir em um universo que valoriza apenas nossos direitos. Mas reconhecer um problema é o primeiro passo na direção de solucioná-lo. E a IUCN finalmente fez essa admissão.

Fonte – Silvana Campello, O Eco de 12 de dezembro de 2016

COP 13: o desafio da maior extinção de espécies desde os dinossauros

Fonte: Geografia para todos

A Conferência das Partes sobre Biodiversidade, que está acontecendo em Cancún, no México, até dia 17, tem o desafio de trabalhar o que o impacto da humanidade sobre a biodiversidade do planeta

O Brasil tem a responsabilidade sobre uma megabiodiversidade espalhada por seus seis biomas principais e por centenas de outros cenários ambientais, como a costa marítima de quase 10 mil quilômetros com seus mangues e áreas oceânicas. Ignacy Sachs, economista de tripla nacionalidade, brasileiro, francês e polonês, definiu o atual período geológico da Terra como “antropoceno”, onde explica que a influência humana sobre o planeta, os biomas e sua biodiversidade é de tal maneira arrasadora que pode ser comparada a uma das extinções em massa ocorrida nas eras geológicas.

Um dos impactos mais importantes da ação humana é a extinção de espécies ao redor do planeta, desde grandes animais, assim com de plantas e organismos menores. Para se ter uma ideia do desconhecimento que ainda vigora sobre o tema, os cientistas não tem nenhum consenso sobre o número de espécies existentes na Terra, que pode ser de 5 milhões ou de 30 milhões. Ou pode ser ainda muito mais do que isso.

Justamente pelo desconhecimento ainda profundo da realidade, é preciso estabelecer regras que permitam conter esse genocídio da natureza, que pode levar, em um grau maior, à extinção da própria humanidade. Esse é o foco da COP 13 – Conferência das Partes sobre Diversidade Biológica, que acontece na cidade mexicana de Cancún, de 2 a 17 de dezembro. O Brasil leva a essa COP propostas que incluem, principalmente, proteção florestal, planejamento espacial marinho, ecoturismo, agricultura sustentável e segurança alimentar.

O ministro brasileiro do Meio Ambiente, Sarney Filho, está apresentando na reunião sua principal pauta para a proteção de biodiversidade na América do Sul, que é a consolidação de corredores do Projeto Áreas Protegidas da Amazônia – ARPA, e a importância dos Corredores Ecológicos na América Latina, além da defesa da implantação do conjunto de Metas de Aichi, um conjunto de objetivos para reduzir a perda da biodiversidade a nível mundial decididos durante a COP 10, realizada em Nagoia, no Japão, e que estabelece uma Plano Estratégico de Biodiversidade com vigência de 2011 a 2020.

São basicamente cinco objetivos Estratégicos, delimitados em 20 metas, que preveem:

  • Tratar das causas fundamentais de perda de biodiversidade, através da conscientização do governo e sociedade das preocupações com a biodiversidade;
  • Reduzir as pressões diretas sobre a biodiversidade e promover o uso sustentável;
  • Melhorar a situação da biodiversidade, através da salvaguarda de ecossistemas, espécies e diversidade genética;
  • Aumentar os benefícios de biodiversidade e serviços ecossistêmicos para todos;
  • Aumentar a implantação, por meio de planejamento participativo, da gestão de conhecimento e capacitação.

“O papel do Brasil nessa COP é fundamental” explica o diretor da Fundação Amazonas Sustentável, Virgílio Viana, que está no México a convite da Associação Nacional de Autoridades Ambientais Estatais daquele país. Para ele a Amazônia é um bioma de visibilidade global e que enfrenta o desafio de proteger a biodiversidade e, ao mesmo tempo, promover o desenvolvimento e a inclusão de uma população de deca de 25 milhões de pessoas.

Viana dirige uma entidade que tem desenvolvido inúmeras políticas de inclusão social e econômica associada à preservação e manejo da biodiversidade, entre elas o Bolsa Floresta, instituído pelo governo do Estado do Amazonas e gerenciado pela Fundação Amazonas Sustentável – FAS. Em sua participação, no último dia 9, defendeu uma ação coordenada dos países da América do Sul, em especial da Amazônia, para a implantação das Metas de Aichi. Além disso, a Fundação também foi destaque no painel “Instrumentos financeiros para o fortalecimento das capacidades das autoridades ambientais na América Latina. Federalismo, descentralização e governança”, em parceria com a organização The Nature Conservancy.

Já neste último final de semana os mais de 190 países reunidos em Cancún conseguiram estabelecer alguns consensos, entre eles que “A vida no planeta Terra e nosso futuro comum estão em jogo”. Também reconheceram que “É urgente tomar medidas contundentes de forma responsável para garantir a sobrevivência da riqueza biológica”. Essas declarações contundentes estão em linha com um comunicado da organização WWF, de que em 2020 “é possível que o mundo seja testemunha de uma diminuição de dois terços da fauna mundial em apenas 50 anos”. No entanto, o diretor do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente – Pnuma, Erick Solheim, alertou que os documentos apresentados pelos países para a COP 13 demonstra que muito pouco foi feito em direção ao cumprimento das Metas de Aichi, “nesse ritmo podemos não cumprir o prazo de 2020”, disse, mas ressaltou que é apenas uma questão de decisão política, orque a natureza, com sua grande resiliência, “é capaz de cumprir sua parte”.

Fonte – Dal Marcondes, Envolverde de 12 de dezembro de 2016

Earth’s sixth great extinction

 

One of the most hotly debated issues in contemporary ecology is whether humanity will cause a sixth mass-extinction—rivaling the great extinctions in the geological past that claimed much if not most of Earth’s biodiversity.

In this brief essay, scientific icon Paul Ehrlich and I argue emphatically that the evidence is overwhelming: The world’s sixth mass extinction is upon us:

Radical overhaul needed to halt Earth’s sixth great extinction event.
Life has existed on Earth for roughly 3.7 billion years. During that time we know of five mass extinction events — dramatic episodes when many, if not most, life forms vanished in a geological heartbeat. The most recent of these was the global calamity that claimed the dinosaurs and myriad other species around 66 million years ago.

Growing numbers of scientists have asserted that our planet might soon see a sixth massive extinction — one driven by the escalating impacts of humanity. Others, such as the Danish economist Bjørn Lomborg, have characterised such claims as ill-informed fearmongering.

We argue emphatically that the jury is in and the debate is over: Earth’s sixth great extinction has arrived.

Collapse of biodiversity

Mass extinctions involve a catastrophic loss of biodiversity, but what many people fail to appreciate is just what “biodiversity” means. A shorthand way of talking about biodiversity is simply to count species. For instance, if a species goes extinct without being replaced, then we are losing biodiversity.

But there’s much more to biodiversity than just species. Within each species there usually are substantial amounts of genetic, demographic, behavioural and geographic variation. Much of this variation involves adaptations to local environmental conditions, increasing the biological fitness of the individual organism and its population.

Natural variation within two species of sea snails. Upper row: Littorina sitkana. Lower row: Littorina obtusata. Copyright David Reid/Ray Society.

And there’s also an enormous amount of biodiversity that involves interactions among different species and their physical environment.

Many plants rely on animals for pollination and seed dispersal. Competing species adapt to one another, as do predators and their prey. Pathogens and their hosts also interact and evolve together, sometimes with remarkable speed, whereas our internal digestive systems host trillions of helpful, benign or malicious microbes.

Hence, ecosystems themselves are a mélange of different species that are continually competing, combating, cooperating, hiding, fooling, cheating, robbing and consuming one another in a mind-boggling variety of ways.

All of this, then, is biodiversity – from genes to ecosystems and everything in between.

The modern extinction spasm

No matter how you measure it, a mass extinction has arrived. A 2015 study that one of us (Ehrlich) coauthored used conservative assumptions to estimate the natural, or background rate of species extinctions for various groups of vertebrates. The study then compared these background rates to the pace of species losses since the beginning of the 20th century.

Even assuming conservatively high background rates, species have been disappearing far faster than before. Since 1900, reptiles are vanishing 24 times faster, birds 34 times faster, mammals and fishes about 55 times faster, and amphibians 100 times faster than they have in the past.

For all vertebrate groups together, the average rate of species loss is 53 times higher than the background rate.

Extinction filters

To make matters worse, these modern extinctions ignore the many human-caused species losses before 1900. It has been estimated, for instance, that Polynesians wiped out around 1,800 species of endemic island birds as they colonised the Pacific over the past two millennia.

And long before then, early human hunter-gatherers drove a blitzkrieg of species extinctions — especially of megafauna such as mastodons, moas, elephant birds and giant ground sloths — as they migrated from Africa to the other continents.

In Australia, for instance, the arrival of humans at least 50,000 years ago was soon followed by the disappearance of massive goannas and pythons, predatory kangaroos, the marsupial “lion”, and the hippo-sized Diprotodon among others.

Changes in climate could have contributed, but humans with their hunting and fires were almost certainly the death knell for many of these species.

As a result of these pre-1900 extinctions, most ecosystems worldwide went through an “extinction filter”: the most vulnerable species vanished, leaving relatively more resilient or less conspicuous species behind.

Giant ground sloths such as this elephant-sized Megatherium vanished soon after humans arrived in the New World. Copyright Catmando.

And it’s the loss of these survivors that we are seeing now. The tally of all species driven to extinction by humans from prehistory to today would be far greater than many people realise.

Vanishing populations

The sixth great extinction is playing out in other ways too, especially in the widespread annihilation of millions (perhaps billions) of animal and plant populations. Just as species can go extinct, so can their individual populations, reducing both the genetic diversity and long-term survival prospects of the species.

For example, the Asian two-horned rhinoceros once ranged widely across Southeast Asia and Indochina. Today it survives only in tiny pockets comprising perhaps 3% of its original geographic range.

Three-quarters of the world’s largest carnivores, including big cats, bears, otters and wolves, are declining in number. Half of these species have lost at least 50% of their former range.

Likewise, except in certain wilderness areas, populations of large, long-lived trees are falling dramatically in abundance.

WWF’s 2016 Living Planet Report summarises long-term trends in over 14,000 populations of more than 3,700 vertebrate species. Its conclusion: in just the last four decades, the population sizes of monitored mammals, birds, fish, amphibians and reptiles have shrunk by an average of 58% worldwide.

And as populations of many species collapse, their crucial ecological functions decline with them, potentially creating ripple effects that can alter entire ecosystems.

Hence, disappearing species can cease to play an ecological role long before they actually go extinct.

Once a widespread and dominating predator, the tiger today is vanishingly rare across most of its former range. Copyright Matt Gibson

Paying the extinction debt

Everything we know about conservation biology tells us that species whose populations are in freefall are increasingly vulnerable to extinction.

Extinctions rarely happen instantly, but the conspiracy of declining numbers, population fragmentation, inbreeding and reduced genetic variation can lead to a fatal “extinction vortex”. In this sense, our planet is currently accumulating a large extinction debt that must eventually be paid.

And we’re not just talking about losing cute animals; human civilisation relies on biodiversity for its very existence. The plants, animals and microorganisms with which we share the Earth supply us with vital ecosystem services. These include regulating the climate, supplying clean water, limiting floods, running nutrient cycles essential to agriculture and forestry, controlling serious crop pests and carriers of diseases, and providing beauty, spiritual and recreational benefits.

Are we preaching doom? Far from it. What we’re saying, however, is that life on Earth is ultimately a zero-sum game. Humans cannot keep growing in number and consuming ever more land, water and natural resources and expect all to be well.

Limiting harmful climate change has become a catchphrase for battling such maladies. But solutions to the modern extinction crisis must go well beyond this.

We also have to move urgently to slow human population growth, reduce overconsumption and overhunting, save remaining wilderness areas, expand and better protect our nature reserves, invest in conserving critically endangered species, and vote for leaders who make these issues a priority.

Without decisive action, we are likely to hack off vital limbs of the tree of life that could take millions of years to recover.

The Slow Loris, a primitive primate, is a denizen of intact rainforests in southern Asia. Copyright hkhtt hj

Fontes – The Conversation / EcoDebate de 10 de novembro de 2016

Estamos muito perto de um mundo sem os nossos primos evolutivos

O homem pode viver sem os grandes primatas no planeta? Sim. Mas a Terra será um lugar diferente sem os nossos “parentes mais próximos”, acreditam os especialistas, que avisam que este é um perigo real e cada vez mais próximo.

Este mês, a União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN, sigla em inglês) divulgou mais um dos conhecidos relatórios da Lista Vermelha que inclui um retrato à escala mundial das espécies em perigo. Ali estava o alerta: “Quatro dos seis grandes primatas estão a um passo da extinção.” O PÚBLICO perguntou a alguns especialistas o que significaria o fim dos primatas e o que é possível fazer para travar este desastre ecológico. Agora que já mostramos que somos capazes de destruir os nossos “parentes mais próximos”, será que ainda vamos a tempo de os salvar?

“Cada vez que uma espécie desaparece, nós perdemos um fio da tapeçaria da vida, na qual todos os fios estão ligados entre si”, diz-nos a primatóloga e antropóloga britânica Jane Goodall, que estuda a vida social e familiar dos chimpanzés há mais de 40 anos, numa das respostas por e-mail ao PÚBLICO.

A verdade é que este tapete da vida já tem alguns buracos (o rinoceronte-branco-do-norte, por exemplo, foi extinto). Há uns pedaços que estão cada vez mais frágeis e em risco de romper, como é o caso dos seis “fios” a que pertencem as espécies de grandes primatas em risco de extinção: o chimpanzé, o bonobo, o gorila-do-ocidente, o gorila-do-oriente, o orangotango-de-samatra e o orangotango-do-bornéu. Os gorilas e os orangotangos estão apenas a “um passo” da extinção, avisa a IUCN.

“Atualmente, quatro das seis espécies de primatas estão em perigo crítico — isto significa que o declínio foi de 80% em três gerações. No caso dos gorilas, uma geração equivale a 20 anos, e o gorila-oriental sofreu um declínio de 77% numa só geração”, refere Andrew Plumptre, cientista que estuda gorilas e chimpanzés e que colabora com a IUCN na elaboração dos relatórios da Lista Vermelha. Se tudo continuar como está, e se este declínio não for travado, “existe o risco de termos um planeta sem os nossos primos primatas e nós seremos o único que irá restar”, diz o especialista, que, neste cenário, estima que os gorilas-orientais sejam extintos em dez ou 20 anos. Os números eliminam qualquer margem para dúvidas: há pouco mais de 20 anos existiam 16.900 gorilas-d as-planícies-orientais (gorila-de-grauer). Atualmente, há apenas 4600, diz o investigador.

Conflitos, desflorestação e destruição do habitat (sobretudo para exploração da madeira e cultura de óleo de palma), caça para consumo ou para comércio de mascotes, são alguns dos diversificados e requintados meios de destruição dos grandes primatas. Atrás deles, só há um culpado: o Homem. O mesmo que agora está perante o incrível desafio de os tentar salvar. São animais de crescimento lento que demoram vários anos a recuperar de um declínio acentuado, salienta a primatóloga Catarina Casanova, da Universidade Técnica de Lisboa, que também colabora com a IUCN e que estuda chimpanzés na Guiné-Bissau. “Há locais onde antes existiam milhares de indivíduos e agora existem 500, que é o mínimo para a viabilidade genética de uma espécie”, nota.

Cada vez que uma espécie desaparece, nós perdemos um fio da tapeçaria da vida, na qual todos os fios estão ligados entre si. Jane Goodall

Não reconhecemos as semelhanças apenas quando os olhamos nos olhos ou os vemos, num documentário ou noutro sítio qualquer, a cuidar das crias ou uns dos outros. “São os animais mais parecidos connosco geneticamente, a semelhança é na ordem dos 98%. Têm enormes capacidades intelectuais, têm capacidades de adaptação, têm flexibilidade comportamental mas não estão a conseguir ultrapassar este grande perigo que é a extinção”, confirma Eugénia Cunha, antropóloga da Universidade de Lisboa.

Os conservacionistas lutam pela preservação de espécies num mundo com cada vez mais gente, atingido pela pobreza e guerras entre outros poderosos males. A tarefa de convencer as pessoas de que vale a pena gastar tempo, dinheiro e recursos na conservação é quase heroica. “Alguns dos países onde vivem os gorilas e chimpanzés têm um nível socioeconômico tão baixo que a prioridade não são os animais, são as pessoas”, reconhece Eugénia Cunha. “Os organismos internacionais têm de reagir.”

Espécies “guarda-chuva”

Jane Goodall lembra que podemos perder “uma das principais espécies que distribuem pela floresta sementes de árvores frutíferas”, mas sublinha: “Acima de tudo, cada espécie é única e tem valor em si própria.” Ao papel de agricultor selvagem da floresta que semeia árvores, Andrew Plumptre junta ainda o fato de estes animais serem particularmente importantes para estudos genéticos ou de patologias como o cancro. “Há também quem defenda que estes animais são tão parecidos connosco que merecem ter direitos, tal como as pessoas marginalizadas merecem ter direitos”, diz o investigador.

“Estes primatas fazem falta por razões ecológicas, econômicas e de conservação dos ecossistemas em geral”, resume o biólogo Jorge Palmeirim, da Universidade de Lisboa. “Com eles desaparecerá um serviço ecológico que eles têm nos ecossistemas e que vai alterar as florestas”, afirma, falando ainda no benefício que estes primatas significam em termos turísticos para alguns países. “Os primatas são ‘espécies guarda-chuva’, a sua conservação protege muito mais do que eles próprios. Quando conservamos os gorilas, conservamos a floresta e, por isso, muitas outras espécies.”

Catarina Casanova não sabe se será possível evitar o pior. “Vivemos no mundo do dinheiro. Daquilo que rende. Um modelo que não se compadece nem com os humanos que morrem à fome quanto mais com gorilas e chimpanzés”, diz, inquieta.

Apesar de também achar que perdemos sabedoria, Jane Goodall acredita que é possível fazer alguma coisa para mudar o destino destes animais e que uma das frentes de ação está em começar por mudar o destino das pessoas que estão à volta deles. É o que o instituto que fundou faz com o programa TACARE, por exemplo.

Mas é preciso mais. Andrew Plumptre sugere que os cidadãos façam pressão junto dos seus governos para apoiar a conservação destes primatas e para que se “desarmem os grupos rebeldes na República Democrática do Congo”. “Pense nas consequências de pequenas escolhas que fazemos todos os dias: o que compramos, comemos, vestimos. Milhões de opções ética e ecologicamente responsáveis fazem uma enorme diferença”, diz, Jane Goodall.

São gestos simples que podem servir para proteger os gorilas. E também fazer com que pessoas como Andrew Plumptre tenham o “fantástico privilégio” de serem testemunhas de momentos como este: “Ver um gorila macho deitado de costas ao sol, com as suas mãos atrás da cabeça, e depois as mães vêm e deixam as suas crias para ele tomar conta enquanto vão juntas mastigar folhas de café.”

São os nossos parentes mais próximos. E, um dia, se apenas tivermos estas imagens em documentários e livros, ou estes animais em jardins zoológicos, teremos de explicar às crianças que os grandes primatas já não existem na floresta. E elas, seguramente, vão perguntar: “Porquê?” É preciso evitar a pergunta e a inevitável resposta que nos envergonhará.

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Fontes – Andrea Cunha Freitas, Público / IHU de 13 de setembro de 2016

 

Por que salvar as abelhas

A drástica redução, em todo o mundo, da quantidade desses insetos desperta preocupação porque, além da importância que têm para a biodiversidade, eles são responsáveis pela polinização que garante a existência de quase 40% dos alimentos consumidos por nós – muito mais que o mel, portanto

As picadas dolorosas e o zunido insistente no ouvido fazem com que, geralmente, as abelhas não sejam lembradas de maneira amistosa – a despeito das delícias do mel. E com uma ressalva fundamental: o mel está longe de ser a grande contribuição das abelhas para a humanidade. Sem elas, metade das gôndolas de alimentos dos supermercados estaria vazia. Por meio da polinização, esses insetos promovem o seu maior impacto na biodiversidade e na produção dos alimentos: 35% das lavouras e 94% das plantas silvestres dependem dessa atividade. A má notícia é que esse, por assim dizer, “serviço ecológico” está em risco diante de um fenômeno batizado de desordem do colapso das colônias. De 1940 até hoje, o número de abelhas diminuiu de forma drástica no mundo – nos Estados Unidos, o país mais afetado pelo problema, caiu pela metade. Ainda é misteriosa a razão por trás desse sumiço, apesar de existirem fortes hipóteses. Na segunda-feira 22, a ONU planeja chamar atenção para o assunto com a divulgação, em evento na Malásia, do relatório Polinizadores, Polinização e Produção de Alimentos. O documento, o primeiro fruto do órgão internacional Plataforma Intergovernamental para Políticas Científicas sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES), procura identificar, entre outros pontos, os motivos que levaram à desordem que faz sumir as colônias e as possíveis soluções.

O trabalho é resultado do esforço conjunto de 75 pesquisadores, de diversas nações. VEJA teve acesso a informações presentes no documento. Ele combina o conhecimento acadêmico que se tem sobre as abelhas e os demais animais polinizadores (como outros insetos, aves e morcegos) e suas contribuições, traz exemplos de boas práticas para a proteção das espécies e propõe soluções para a situação adversa – como a adoção de políticas ambientalistas. “É um tópico de enorme importância política, visto que o desaparecimento das colônias pode afetar negativamente a economia, além da dieta de cidadãos, de um país”, ressalta a bióloga Vera Lúcia Fonseca, do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (USP) e diretora do IPBES, o órgão da ONU. “Antes de tudo, o relatório procura conscientizar a todos da importância dos polinizadores, além de promover a união de governos para protegê-los”, completa Vera.

Não é por acaso que a pesquisadora faz referência aos danos econômicos potenciais da desordem. Estima-se que um mercado de 218 bilhões de dólares anuais depende do serviço de polinização prestado pelas abelhas. Os Estados Unidos, o maior exportador agrícola do mundo, perderiam 15 bilhões de dólares por ano com a intensificação do problema – no Brasil, o prejuízo seria de 12 bilhões de dólares. Isso explica por que, em junho de 2014, o presidente americano Barack Obama transformou o alarme em questão de Estado, ao anunciar a criação de uma força-tarefa, composta de cientistas e políticos, para ir atrás de respostas.

Os estudiosos ainda investigam qual seria a raiz do problema. Acredita-se que sejam dois os principais fatores: a disseminação do uso de pesticidas, que enfraquecem as colônias, e a ação de parasitas, como o varroa, ácaro que ataca o organismo do animal, e o Acarapis woodi, que afeta o sistema respiratório. Entretanto, há consenso de que não existe apenas uma razão (ou duas), e sim um somatório que acabou por construir um cenário cruel para os insetos. As abelhas estão perdendo seu habitat quando florestas e jardins dão lugar a construções ou mesmo a plantações de uma única cultura – a espécie necessita de alimentação variada para sobreviver. As intensas mudanças climáticas pelas quais passa a Terra, em consequência do aumento da emissão de gases do efeito estufa pelo homem, também colaboram para o desaparecimento dos insetos. As estações menos definidas, além das elevações e quedas bruscas na temperatura e na umidade, acabam por bagunçar o ciclo de florescimento das flores, das quais as abelhas são dependentes.

Os Estados Unidos são tidos como o país que mais vem se movimentando para combater o ritmo da desordem. O comitê criado por Obama apresentou no ano passado o documento Estratégia Nacional para Promover a Saúde das Abelhas e Outros Polinizadores. Nele, estabeleceu-se como meta reduzir a baixa de abelhas durante o inverno a no máximo 15% em dez anos – hoje, a taxa é de 23%. Nas últimas décadas, após o inverno, as colônias não têm conseguido recuperar-se desses períodos de perda. Caso a diminuição das colônias seja menor nas estações de frio, o efeito esperado é que elas consigam se restabelecer na primavera e no verão. Também se planeja aumentar a presença de outros polinizadores, como a borboleta-monarca. O governo americano calcula que haja atualmente 30 milhões de exemplares dessa espécie colorida na América do Norte, diante dos 970 milhões que existiam em 1996. O que se espera é reverter a queda, alcançando ao menos o número de 225 milhões. Entre as estratégias para proteger os polinizadores está, por exemplo, a restauração de 28 000 quilômetros quadrados (o equivalente ao território do Havaí) de seus habitats nos próximos cinco anos.

Por que o lado ocidental do Hemisfério Norte tem sido mais prejudicado que o restante do planeta? O motivo é a dependência das plantações americanas e europeias de apenas um tipo de abelha, a Apis mellifera. Importada da África e da Ásia para a polinização de plantações comerciais, a espécie ganhou a preferência de apicultores por não ser agressiva e manter colônias enormes e resistentes. Agora, porém, ela é a maior vítima da amedrontadora desordem.

Na França, por exemplo, 100 000 colônias de Apis mellifera foram perdidas desde 1995, e a taxa de mortalidade das abelhas triplicou. Diante disso, Paris é uma das cidades que mais têm adotado medidas conservacionistas. Em junho do ano passado, o município assinou o protocolo Abelha: a Sentinela do Meio Ambiente. Nele, a capital francesa se comprometeu a proibir a venda de uma série de pesticidas, além de ampliar o apoio à apicultura. Até 2020, planeja-se o plantio de 20 000 árvores em jardins parisienses, além de 300 000 novos metros quadrados de espaços verdes – em torno de um quinto da dimensão do Parque do Ibirapuera, em São Paulo. Paris ainda é o centro urbano com a maior presença de criadouros de abelhas da Europa, com um total de 600, ocupando uma área de 4,6 quilômetros quadrados – parte deles instalada em tetos de edifícios e casas.

Há indícios de que a redução no número de abelhas esteja se repetindo, em ritmo acelerado, em outros locais, incluindo países pobres. No entanto, muitas vezes os dados coletados não são suficientes para corroborar a tese. É o caso do Brasil, que não conta com um histórico do número de abelhas em território nacional, de forma que os pesquisadores não têm como comparar o número atual com os anteriores. Assim, ficam sem saber se a redução é alarmante por aqui. “Mas há sinais de que também sofremos do mesmo mal”, afirma a bióloga Tereza Cristina Giannini, do Instituto Tecnológico Vale Desenvolvimento Sustentável. “Em pesquisas de campo, descobrimos que existem regiões nas quais as plantações apresentam déficit de polinização, refletido na baixa produção de frutas, flores e alimentos”, relata Tereza.

A favor do Brasil, contudo, pesa um ponto que nos deixa em posição de vantagem ante a desordem. O país não é dependente de apenas uma espécie, como ocorre com os Estados Unidos e a Europa. Uma pesquisa da revista científica Apidologie, especializada em apicultura, estima a existência de pelo menos 250 tipos de polinizadores em todo o território brasileiro, dos quais 87% são de abelhas.

Por que, então, mundo afora, apesar da essencialidade desses insetos para o equilíbrio do meio ambiente, as campanhas de proteção a eles não recebem tanta atenção quanto as destinadas aos ursos-polares ou aos elefantes-africanos, por exemplo? Explicou a VEJA a bióloga americana Heather Mattila, do Wellesley College: “O modo de funcionar do nosso sentimento de empatia está no centro desse dilema. Sentimo-nos próximos de animais parecidos conosco, grandes mamíferos que vivem em grupos e interagem socialmente. Devíamos, porém, olhar direito para as abelhas. Elas trabalham duro para alimentar suas crias, organizam-se em colônias e até se preocupam com a higiene e a segurança de suas casas. Não devia ser tão difícil para o homem identificar-se com esses elementos”. O.k., se o fator da empatia não funcionar com as abelhas, lembre-se então de quanto elas são fundamentais para garantir a existência de grande parte dos alimentos que chegam à nossa mesa. Perto disso, um zumbido chato não é nada.

Fonte – Raquel Beer, Veja de 19 de fevereiro de 2016

Imagem – Sorbus sapiens