Câmara dos Deputados debate riscos do fracking

Impactos ao solo, ao clima, à saúde, às economias locais e às águas subterrâneas, como o Aquífero Guarani, foram tema de audiência pública na Comissão de Meio Ambiente

Os impactos da técnica do fraturamento hidráulico para exploração do gás de xisto, o fracking, foi tema de audiência pública na Comissão de Meio Ambiente da Câmara dos Deputados na manhã desta quinta-feira (07). Participaram do debate, a convite do deputado Nilto Tatto (PT-SP), presidente da Comissão, o Procurador da República Dr. Luís Roberto Gomes, o Procurador da Fazenda Pública de Martinópolis (SP), Dr. Galileu Marinho das Chagas, e o Procurador-geral da Agência Nacional do Petróleo e Gás (ANP), Evandro Pereira Caldas.

A audiência “Os impactos da exploração do gás de folhelho (xisto) e a suspensão judicial da 12a Rodada de Licitações da promovida pela ANP na Bacia do Rio Paraná” contou com a apresentação de dados sobre os impactos às diversas localidades que tiveram blocos leiloados pela ANP, mas principalmente a região de Presidente Prudente, oeste do Estado de São Paulo, onde fica localizado o Aquífero Guarani, o segundo maior da América Latina e um dos mais importantes reservatórios de água doce do mundo.

“O fracking traz uma contaminação letal em cadeia. Milhares de pessoas já se colocaram contra essa prática por todos os males que ela causa ao ambiente, ao clima, à saúde e às economias locais. Se diz não por meio do povo que vai às ruas, por meio das centenas de cidades que já aprovaram legislações banindo essa técnica, por meio das várias ações judiciais movidas junto ao MPF. Eu sempre digo que, como pagamento pelo tempo que passamos nesse planeta, devemos deixar pelo menos aquilo que aqui encontramos, principalmente a água, de qualidade e limpa”, frisou o Dr. Galileu Marinho.

Já o Procurador Luís Roberto lembrou a falta de transparência com que o processo de licitação dos blocos tem sido conduzido: sem consulta pública, violando os princípios da informação e da precaução. “Há estudos suficientes nos Estados Unidos sobre os impactos disso. É contaminação garantida. Esse é o legado do fracking. Podemos correr o risco de permitir esse tipo de atividade? Colocar em risco nossa grande riqueza, como a biodiversidade e os aquíferos? O desenvolvimento que queremos é o desenvolvimento sustentável, nao esse trazido pelo fracking.”

Para lembrar que o fracking traz apenas a ilusão de desenvolvimento para as regiões, o deputado Nilto Tatto leu um testemunho de Gerson de Souza, representante do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra de São Paulo (MTST- SP), que não pôde estar na audiência. “O pontal do paranapanema é uma das regiões onde se concentra mais assentamentos sem terra no Brasil e a segunda região mais pobre do Estado. Nunca foi foco de projeto de desenvolvimento que considerasse a agricultura familiar, as comunidades locais e os trabalhadores do campo. A exploração do gás de xisto vem para reforçar essa desigualdade”, diz um trecho da carta.

Também foi lida uma moção do Comitê de Bacia Hidrográfica do Pontal do Paranapanema, que reforça os diversos riscos que a técnica de exploração não convencional pode ocasionar: “Além de trazer problemas ambientais, como a contaminação do solo e água superficial, a utilização excessiva de água durante o processo e o ocasionamento de abalos sísmicos; e considerando a inexistência de estudos geológicos nas áreas leiloadas, e que os órgãos ambientais não estão preparados para monitorar esses riscos, o Comitê resolve manifestar-se contrariamente a quaisquer trabalhos referentes a essa exploração em sua área de abrangência.”

Nicole Figueiredo de Oliveira, diretora da 350.org Brasil e América Latina, e o advogado ambientalista José Lira, coordenador regional da COESUS (Coalizão Não Fracking Brasil pelo Clima, Água e Vida), cobraram uma postura mais transparente da ANP e reforçaram a posição contrária da sociedade com relação a essa técnica. “As decisões dessa agência não nos representam. Não houve nenhum tipo de consulta pública e a população não foi ouvida. Pior, foi barrada diversas vezes nos leilões da ANP, inclusive violando uma decisão judicial que permitia a nossa entrada na 14a Rodada. Não queremos mais subsídios para combustíveis fósseis. Queremos uma transição para energias renováveis, livres e justas”, afirmou Nicole.

José Lira convidou os presentes e o representante da ANP a ver o dito “progresso” que o fracking trouxe à sua região: “Presidente Prudente é uma das regiões mais pobres do país. Muita gente está passando fome enquanto espera o desenvolvimento e os novos empregos prometidos pela ANP com a exploração do gás de xisto. Mas vocês que nos aguardem. O trabalho de mobilização, conscientização e de levar informação à população está apenas começando”, sentenciou o coordenador da COESUS.

Em sua fala, o procurador da ANP disse que o tema gera muita “paixão” e “ideologia”, mas que isso não pode impedir os planos de “desenvolvimento” do governo federal. Nilto Tatto rebateu dizendo que todo posicionamento sobre qualquer matéria, seja contra ou a favor, parte de uma base ideológica. “Tudo é ideologia, Sr. Caldas. Também foi por ideologia que aprovaram esta semana uma Medida Provisória que dá isenção trilionária às petroleiras”, afirmou o deputado, fazendo alusão à MP 795 – a famosa MP do Trilhão -, que foi aprovada esta semana na Câmara e agora aguarda votação no Senado, e contra a qual foi entregue aos presidentes das duas Casas uma carta assinada por 156 organizações da sociedade civil.

Fonte – 350.org de 07 de dezembro de 2017

Escócia proíbe fracking após avassaladora oposição do público ao uso desta técnica

Foto: Maverick Photo Agency/Friends of the Earth Scotland

Uma consulta pública revelou que 99% dos 60 mil escoceses interrogados eram contra a fracturação hidráulica na Escócia.

O governo da Escócia anunciou que vai estender por tempo indeterminado a moratória que proíbe a fracturação hidráulica (“fracking”) no país. A decisão, anunciada pelo ministro escocês da Energia, Paul Wheelhouse, foi tomada após uma consulta pública feita pelo governo que revelou a “avassaladora oposição” dos escoceses ao fracking.

“A decisão que estou a anunciar hoje significa que o ‘fracking’ não tem e continuará a não ter lugar na Escócia”, disse o ministro.
Cerca de 99% dos 60 mil escoceses consultados opunham-se à técnica, por razões principalmente ambientais e pelos escassos benefícios económicos. O fracking implica a injeção de água com produtos químicos a alta pressão no subsolo para fraturar as rochas e libertar os hidrocarbonetos (petróleo ou gás), existindo o risco de contaminação do solo e da água.

“As opiniões expressas através da nossa consulta demonstraram que as comunidades da Escócia, particularmente as de zonas densamente povoadas onde os desenvolvimentos poderiam ter lugar, não estão convencidas da existência de um forte argumento económico nacional quando se compara este com o risco e os distúrbios que antecipam nas zonas”, declarou Paul Wheelhouse.

A decisão foi saudada por diversas organizações ambientalistas, que incitaram o governo a converter a moratória numa proibição completa.

Em junho, a Irlanda juntou-se a uma lista crescente de países que estão a proibir a fracturação hidráulica, que inclui a Alemanha, a França e a Bulgária.

Fonte – The UniPlanet de 12 de outubro de 2017

Cresce a resistência ao fracking no Brasil

Recém chegada do México, amiga minha relatava, enquanto caminhávamos com os cachorros, o horror que viveu durante o tremor do dia 7 naquele país, ainda nem de leve parecido com o que ocorreria dias depois, comparável ao terremoto de 32 anos atrás. A sirene de alarme, que surge e invade casas e conversas como um Grande Irmão, não dá chance de nada, a não ser descer escadas ou avançar portões para ficar na rua e torcer, muito, para que nada atinja sua cabeça. No caso da amiga de minha amiga, foi preciso fazer uma “escolha de Sofia”, deixando uma gata e um cachorro, velhos e doentes, no apartamento.

Felizmente todos voltaram ilesos. Felizmente minha amiga voltou para o Brasil. Felizmente estávamos conversando sobre tudo isso em nossa rua arborizada, que sofre de outros abalos, vez por outra, quando assaltantes decidem dar o ar da graça e nos atemorizam. Fora isso, é seguro.

Viver é trágico, não temos mesmo garantia de nada. Desde o início dos tempos, o homem luta contra o medo da morte, e este vem sendo o sentimento que nos governa. Ou melhor, nem só este. Porque desde que o capitalismo gerou a doença da ganância, cá estamos a incorrer em erros que sabemos fatais em nome de um desenvolvimento e de um progresso que, em regra geral, não chega a todos, como bem se sabe. Mas impacta, sobretudo, aqueles que têm pouco ou nenhum recurso.

Volto ao assunto sobre o qual aqueles jovens que estão viajando cidades em navio – escrevi sobre eles no meu post anterior – estão debatendo com muita gente mundo afora. É preciso se dar conta de que a necessidade de mudança de hábitos e consumo, hoje, é praticamente um gesto de solidariedade com aqueles que não têm tanto peso na responsabilidade das emissões poluentes, mas serão as primeira vítimas dos eventos gerados por este excesso. Exemplo disso são as nações-ilhas do Pacífico.

É de justiça social e de desigualdade social, que estamos falando, portanto, quando conduzimos o pensamento para a questão do abuso de bens naturais. E o principal deles é o combustível fóssil. Sabe-se que a maneira gananciosa com que a humanidade foi em cima do óleo que gera energia criou problemas, e não são poucos. Para tentar amenizar um deles, a dependência dos povos árabes, os Estados Unidos se lançaram em busca de uma nova forma de retirar energia dos bens naturais. Surgiu o gás de xisto, que é extraído das entranhas da Terra através de uma técnica desconfortável chamada fracking, ou fraturamento hidráulico, que consiste na perfuração de um poço vertical de centenas de metros que, ao atingir a rocha portadora do gás, se ramifica em um ou vários poços horizontais.

É uma técnica agressiva. Não, eu não estou dizendo que gera terremotos, não há estudos científicos comprovando este fato. Estou apenas compartilhando com os leitores um profundo sentimento de indignação. Quando ouço relatos como o que eu ouvi de minha amiga sobre o pavor de lidar com terremotos, fico imaginando se os técnicos capazes de criar uma tecnologia tão invasora quanto o fracking, em algum momento pensaram na possibilidade de que tal técnica, assim como tantos outros extrativismos, pode mexer muito com o equilíbrio do ecossistema do planeta. Imaginar que não gera impactos, sinceramente, para mim é impossível.

O fracking não chegou ao Brasil ainda, mas um relatório do Departamento de Energia dos Estados Unidos (EIA/ARI) dá conta de que aqui existem 245 trilhões de metros cúbicos do gás, chamado de “não convencional”. As reservas se situam, sobretudo, nas bacias do Paraná, Solimões e Amazonas.

Com toda essa carga de preocupação que cerca a atividade, há um fato novo nessa possibilidade de que o Brasil passe a ser um território de exploração do gás de xisto, como é chamado o produto que sai da investida do fracking. É que ele está gerando, antes mesmo de uma conquista do mercado,  uma resistência da cidadania. É o que se vê, por exemplo, na publicação Fracking e a exploração de recursos não convencionais no Brasil: riscos e ameaças”, lançado pelo Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase) na terça-feira passada (26), que pode ser acessada no site da organização, gratuitamente.

O livro tem oito artigos de especialistas no tema, que listam os impactos da atividade não só ao meio ambiente como às pessoas que tenham a má sorte de estar por perto da extração. Problemas respiratórios, causados pela inalação involuntária da areia usada para fazer pressão e chegar às profundezas da rocha, são um dos males. Há casos relatados de câncer também. E foi lançado um dia antes de um novo leilão da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis – ANP, para exploração de petróleo e gás. Havia dois anos que não aconteciam leilões, e dessa vez a ANP resolveu oferecer 287 blocos em áreas localizadas em nove bacias sedimentares brasileiras, terrestres e marítimas, incluindo blocos localizados na camada do pré-sal.

“A ameaça – não mais do que ameaça, pois a exploração pelo fracking no Brasil ainda não aconteceu – despertou a resistência. O território, com tudo o que comporta, é criado como bem comum, de todos, nem privado e nem estatal. Simplesmente um comum a defender. O problema é que a lógica da extração do possível gás tem tentáculos e sustentação muito longe do território local. Mas é aí, no local, que cidadania e democracia deixam de ser grandes conceitos e passam a ser bandeiras de luta enraizadas, que agregam e levam a resistir”, escreve Cândido Grzybowski, diretor do Ibase, um dos autores da publicação.

Coalizão Não Fracking Brasil também vem se inscrevendo como importante protagonista na luta contra essa atividade.

O fracking é, em última instância, como lembra Cândido Grzybowski, a manutenção do mesmo modo de produção e vida que tem sido, recorrentemente, alvo de reflexões e críticas. Ou se leva a sério, por exemplo, o Acordo feito em Paris, em que se pretende baixar as emissões (o que inclui mudança de hábitos e de consumo de combustíveis fósseis), ou vamos nos deixar retroceder. Donald Trump já fez a escolha e retirou Estados Unidos do Acordo. Não por acaso, vêm de lá os primeiros investimentos no gás de xisto, o que tem sido interpretado por estudiosos em políticas internacionais como uma “revolução energética”. A reserva americana de gás de xisto é estimada em 2,7 trilhões de metros cúbicos, segundo dados de 2010 da Administração de Informação sobre Energia (EIA).

Vale a pena ler a publicação do Ibase e refletir a respeito.

Fonte – Amelia Gonzalez, G1 de 30 de setembro de 2017

Argentina: Fracking ameaça a água e o vinho de Mendoza

No caminho do vinho, Mendoza é o maior destaque, e seus rótulos possuem tanto reconhecimento quanto os vinhos franceses e italianos. Ao todo, são mais de 1.200 vinícolas, produzindo milhões de Hectolitros por ano, geralmente armazenados em barrica de roble francés (barris de carvalho francês) pelas bodegas. Fonte do texto e imagem: Instinto Viajante

Sem consultar a população, governo autoriza a perfuração de um poço ao Sudoeste da província, colocando toda a sociedade em alerta para os riscos de contaminação

A confirmação de que no departamento de Malargüe, na província de Mendoza, na Argentina, está sendo realizado um ‘projeto piloto’ para exploração não convencional de petróleo por fraturamento hidráulico, ou fracking, em inglês, caiu como uma bomba para todos os demais departamentos.

Segundo informações da imprensa regional, a autorização para o início do trabalho em Malargüe foi dada pelo governador da província, Alfredo Cornejo, a atinge em cheio a bacia do rio Salado. A decisão foi mantida em segredo até o momento dos testes, iniciados agora em agosto, uma atitude que abala a confiança dos cidadãos da província no governo, que em grande proporção se opõem a tal medida.

Localizada na patagônia argentina e ladeada pela Cordilheira dos Andes, Mendoza possui umas das regiões produtoras de vinho mais extraordinárias do mundo, bem no coração de um quente e árido deserto. Com um sistema de irrigação herdado dos povos tradicionais, os Andes são a fonte mais importante de água através do degelo, que é controlado por canais chamados de ‘acéquias’. Desta forma, os ‘oásis’ garantem os vinhedos e a produção de vinho, principal atividade econômica da província, além da sobrevivência de aproximadamente 1,7 milhão de habitantes.

E por que, agora, o fato do governo ter autorizado a perfuração de um poço por fracking assusta os mendocinos? Eles conhecem muito bem os impactos ambientais, econômicos e sociais que essa tecnologia provoca, bem como seu legado de contaminação, destruição e morte.

Encravada na patagônia argentina, Vaca Muerta é hoje um deserto radioativo que contamina à água, o solo e as pessoas e comprova a devastação do gás não convencional.

As províncias vizinhas de Neuquén e Río Negro, assim como o sul de Mendoza, estão localizadas na região conhecida como Vaca Muerta, um extenso campo de petróleo e gás não convencional. Chamada de ‘zona de sacrifício’, Vaca Muerta gera energia a partir do xisto para todo o país a custas do aniquilamento da tradicional produção de peras e maçãs, da contaminação das reservas de água de superfície e subterrâneas, além de impactos nocivos à saúde das pessoas e animais. Isto sem contar o verdadeiro genocídio do povo indígena Mapuche, que teve suas terras expropriadas por conta do fracking, e sofre com doenças crônicas decorrentes da contaminação por produtos tóxicos, muitos deles cancerígenos e até radioativos.

Desde que o fracking começou na província vizinha há mais de dez anos, há o temor de se perder o trabalho de produção de uvas no deserto, que começou com as primeiras mudas trazidas pelos espanhóis há cinco séculos. Hoje, os produtores de peras e maçãs de Allen, em Río Negro, não conseguem mais exportar sua produção, que é rejeitada pelo mercado internacional e até interno em função da contaminação causada pelos químicos usados no processo de extração do petróleo e gás não convencional.

Produção de maças argentinas é rejeitada pelo mercado internacional por causa do fracking e sofre com a concorrência. E é exatamente isso que os mendozinos querem evitar. ao lutar contra o gás não convencional.

Em junho de 2013, o Departamento de General Alvear, que faz divisa com Neuquén, aprovou por unanimidade a Portaria 3934/13, que proíbe o fracking exatamente para proteger o meio ambiente, as reservas de água e a economia local.

Importante salientar ainda que a água tem uma importância vital para os habitantes de Mendoza. Para garantir a sobrevivência no deserto, após grande mobilização popular foi aprovada a Lei 7722 em 11 de Junho de 2007, que baniu a mineração a céu aberto com o objetivo de proteger a água da contaminação. Desde então, produtos químicos, tais como cianeto, mercúrio, ácido sulfúrico, e outras substâncias tóxicas semelhantes usadas na mineração estão proibidos para proteger as fontes de recursos hídricos. As companhias recorreram, mas a Justiça confirmou em 2015 a constitucionalidade da proibição.

Para marcar os dez anos da aprovação da Lei 7722, foi realizado em General Alvear o 1º Congresso Regional sobre os impactos e proteção do meio ambiente (CRIPA17).  que representei a 350.org Argentina e COESUS – Coalizão América Latina contra o fracking, pela Água, Vida e Agricultura Sustentável. Como representante das duas entidades, pude relatar a luta contra o fracking e os combustíveis fósseis no Brasil e América Latina. O contato direto com as lideranças dos movimentos contra o fracking, mineração e energia nuclear da província mostrou que a união das pessoas é o combustível para a resistência. Neste contexto, a COESUS, através da 350.org Argentina e 350.org Uruguai, intensificam a mobilização das lideranças, parlamentares e os povos latino-americanos para participar deste movimento em defesa da água, da vida e do clima.

E para fazer um enfrentamento direto à decisão do governo de Mendoza, o Departamento de General Alvear, através da Multisectorial, já lançou um comunicado rechaçando a autorização em Malargüe e solicitando a imediata suspensão da perfuração ao Ministério de Energia e Mineração.

Ao que parece, uma nova luta se anuncia no horizonte com mais força, experiência e determinação. Tudo para conter o avanço dos combustíveis fósseis na Argentina e em todo o planeta.

Leia a versão em espanhol

Comunicado

La Multisectorial de General Alvear quiere hacer público su RECHAZO a la aprobación inconsulta de proyectos piloto de fracking, extracción de petróleo de manera no convencional, en el Departamento de Malargüe, sobre la cuenca del Río Salado, con fecha agosto de 2017.

Nuestra postura al respecto se manifestó claramente en El Congreso CRIPA 17, organizado por nuestra entidad desde al 16 al 20 de junio del presente año, donde especialistas de diferentes partes del mundo expusieron los riesgos de esta actividad con fundamento técnico.

Es por esto que estamos elevando a la brevedad pedidos de reunión a la DPA (Dirección de Protección Ambiental) y al Ministerio de Energía y Minería para manifestar nuestra postura y exigir explicaciones respecto a la decisión tomada de manera apresurada y pareciera “a escondidas”, aduciendo una simple “adecuación de infraestructura” para el inicio de la fractura hidráulica en pozos en actual explotación tradicional. Esto evitó la presentación de nuevas evaluaciones de impacto ambiental y la realización de la audiencia pública correspondiente.

Asimismo informamos que hemos mantenido una primera reunión con representantes del Departamento General de Irrigación por el mismo motivo. En la misma se informó que no se aprobará el uso de agua dulce para futuros proyectos de fracking a escala industrial y que ya se está haciendo el control y monitoreo del agua en la zona, enviando las muestras hídricas a la Universidad Nacional de Cuyo.

Desde la Multisectorial solicitamos la suspensión de los proyectos iniciados hasta tanto no se cumplan los pasos exigidos por Ley. El pueblo tiene derecho a expresar de qué manera elige vivir.

General Alvear es “DEPARTAMENTO LIBRE DE FRACKING” por ordenanza municipal. Pero la cuenca hídrica es más amplia y no conoce de límites políticos. Debemos protegerla para nosotros y las futuras generaciones.

Assista o vídeo que comprova o ‘projeto piloto’ para fracking em Mendoza.

Depoimento de Carlos Pía, diretor da Multisetorial, sobre a proibição de fracking em General Alvear

Fonte – Não Fracking Brasil de 29 de agosto de 2017

Mudanças Climáticas: Planeta em alerta

Casas alagadas em Rockport, Texas, por conta do furacão Harvey (Foto: Eric Gay/AP)

Como as mudanças climáticas unem o mundo, ignorando barreiras políticas, territoriais, de cor, de raça ou de credo

Como explicar a uma criança que não precisamos ter medo da chuva, quando ouvimos que mais de 1,2 mil pessoas morreram por conta das cheias e inundações causadas por tempestades no Nepal, na Índia e em Bangladesh nos últimos meses? Como dizer que não precisamos temer o vento, quando vemos ciclones como o Harvey, nos Estados Unidos, deixar pelo menos 18 mortos e dezenas de feridos em sua passagem pelo estado do Texas? Como tentar levar a vida normalmente, como se nada estivesse fora da ordem, quando, no Brasil, 1296 cidades estão em situação de emergência devido a extremos como secas e cheias?

Como convencer os habitantes do hemisfério Sul de que eles não serão afetados pelos eventos que acontecem no hemisfério Norte e vice-versa, uma vez que todos esses desastres estão, sim, conectados? Como seguir chamando os fenômenos de “naturais”, eximindo-nos de nossa própria responsabilidade, quando sabemos que as ações antrópicas são as principais intensificadoras do aquecimento global? Como dizer que o mundo está são quando continuamos queimando combustíveis fósseis mesmo tendo conhecimento há décadas de que eles são os maiores emissores dos gases que provocam o efeito estufa na atmosfera?

A causa comum dos desastres que estão acontecendo nesse momento em todos os cantos do mundo é uma só: as mudanças climáticas. Com a intensificação das emissões, o clima do planeta fica mais quente, desregulando o regime de chuvas e afetando o nível e a temperatura do mar, e causando impactos socioambientais irreversíveis. E nós humanos temos, sim, uma parcela significativa de culpa nisso tudo.

No caso do sul asiático, os países sofrem frequentemente com inundações durante a estação das monções, que ocorre de junho a setembro. Mas as agências internacionais de ajuda humanitária dizem que este ano as coisas estão piores, com milhares de vilas devastadas, pessoas desabrigadas, refugiadas longe de suas casas, privadas de comida e água limpa por dias. Nos Estados Unidos, segundo estimativas, mais de 6 milhões de pessoas estão sendo impactadas pelo Harvey, que foi anunciado como o fenômeno natural – pero no mucho – mais potente a atingir o país em 13 anos, e o furacão mais intenso no Texas desde 1961. Mais de 1.200 milímetros de água caíram em dois dias sobre Houston, a capital do petróleo.

Mas fenômenos com tamanha potência não ocorrem do nada. Em contato com mares quentes, os ciclones crescem até tornarem-se tempestades devastadoras. E o mar no Texas estava entre 2 e 7 graus acima do habitual antes do Harvey. Isso significa que mais água evaporou durante a tempestade e mais chuva caiu sobre as pessoas na costa. Por isso ele rapidamente se intensificou de uma tempestade tropical para um furacão de categoria 4, com ventos de aproximadamente 200km/h. Além disso, como efeito em cadeia, a força da tempestade aumenta ainda mais o nível do mar, que já cresceu pelo menos 30cm desde a década de 1960 no Golfo do México.

Enchente em Marechal Deodoro, Alagoas (Foto: Rita Moura/Folhapress).

Já no Brasil, segundo dados divulgados pelo Ministério da Integração Nacional, desde o início do ano um quarto dos municípios brasileiros já pediu socorro ao governo federal devido às fortes chuvas no Sul do país e a uma das secas mais severas já registradas no Nordeste. A maior parte das situações emergenciais (71%) é por conta de seca ou estiagem. Os outros 29% têm como causa tempestades, inundações, alagamentos, enxurradas e deslizamentos.

Em maio, as chuvas em Maceió mataram oito pessoas e deixaram milhares desabrigadas. Já em Fortaleza a seca afetou 900 mil habitantes. A capital, Brasília, que passa por racionamento de água e já completou 100 dias sem chuva, está em estado de emergência desde fevereiro. Na Paraíba, 196 das 223 cidades sofrem com a estiagem. No total, o Ministério da Integração diz ter repassado 200 milhões às cidades em situação de emergência, para ações de socorro, assistência humanitária, restabelecimento de serviços e recuperação de estruturas danificadas.

Como se vê, as alterações no clima não excluem ninguém, em nenhuma parte do globo. Na Argentina, em março, uma forte onda de calor matou dezenas de bezerros na província de La Pampa. Segundo o veterinário que avaliou animais mortos em uma das fazendas da região, eles sofreram ataques cardíacos provocados pela exposição contínua às elevadas temperaturas, que chegaram a 40oC numa época cuja média é 16oC.

Bezerros mortos por onda de calor na Argentina Foto: Reprodução G1).

Um planeta mais quente, com oceanos mais quentes, tornam mais prováveis eventos de intensificação rápida e rara, aumentando as ocorrências de desastres extremos, tornando corriqueiro o que antes era ocasional ou sazonal. Não é “natural” que milhões de pessoas sofram as consequências das ações de apenas alguns, que priorizam o lucro ao bem-estar das populações. Não podemos naturalizar a morte. Seja de familiares, vizinhos ou do mundo tal qual o conhecemos.

Negar ou ignorar a ciência não nos prepara física, psicológica ou financeiramente para lidar com os desastres e desafios climáticos que temos vivenciado cotidianamente em diversas regiões. Para frear essas catástrofes, devemos parar agora a indústria fóssil, impedindo que ela continue a colocar o carvão, petróleo e gás acima da sobrevivência da própria humanidade.

Isso significa que não pode haver mais nenhum poço para exploração desses combustíveis, sejam eles novos ou já existentes. Significa também que os governos mundiais têm que assumir a responsabilidade pelas mudanças climáticas, criando e colocando em prática políticas de resiliência e adaptação para todas as cidades, além de iniciar uma transição urgente para fontes renováveis de energia, que sejam justas, livres e acessíveis, em todos os setores da economia. E isso tem que ser feito já. Antes que seja tarde demais.

Fonte – Não Fracking Brasil de 30 de agosto de 2017

Novos estudos confirmam necessidade urgente de banir o fracking

Contaminação das águas de superfície e aquíferos, causa de doenças crônicas e impacto irreversível à biodiversidade são fatos comprovados que não podem ser ignorados´, afirmam especialistas

“A cada novo estudo divulgado, o fracking se revela mais mortal e devastador e nos certificamos que não queremos correr riscos”, defendeu Nicole Figueiredo de Oliveira, diretora da 350.org Brasil e América Latina durante palestra na 6ª Conferência Estadual das Cidades, realizada na noite desta quinta-feira (17) em Foz do Iguaçu, no Paraná.

Nicole apresentou um panorama dos estudos internacionais sobre os impactos do fracking e como cresce a cada dia a oposição em todo o mundo a essa tecnologia altamente contaminante. “Em função destas pesquisas, muitos países, estados, províncias e municípios já proibiram essa técnica. Inclusive nos Estados Unidos, os estados de Nova Iorque, Maryland e muitos outros estão debatendo o banimento”, informou. Recentemente, a Irlanda proibiu a tecnologia.

O fraturamento hidráulico é um método não convencional utilizado para explorar o gás de xisto (shale gas) contido no folhelho pirobetuminoso que fica no subsolo em grandes profundidades. Para quebrar a rocha, são necessários cerca de 35 milhões de litros de água, misturados à areia e um coquetel com mais de 700 substâncias químicas, muitas delas cancerígenas e até radioativas.

Os estudos recentes comprovam os riscos de contaminação da água, do solo e do ar. “Já estão disponíveis estudos de instituições internacionais, muitas americanas, que relacionam o fracking a doenças degenerativas, pulmonares, reprodutivas e vários tipos de câncer. Os mais impactados são as crianças e os idosos”, destacou Nicole.

Confira aqui a transmissão completa das palestras

Nicole  lembrou ainda que as emissões fugitivas dos gases de efeito estufa decorrentes do fracking estão contribuindo para o aquecimento global e intensificando as mudanças climáticas. “Uma pesquisa recente desmentiu a indústria ao demonstrar que as emissões são muito maiores que as previstas. O Brasil, caso aconteça o fracking aqui, passará de 5º para o 3º maior emissor desses gases”, completou.

O seminário sobre fracking foi mediado pelo professor e ex-secretário de Fazenda do município de Toledo, Neuroci Frizzo, que exaltou a importância da proibição. “Na nossa região, no Oeste do Paraná, temos duas safras por ano e não podemos ficar à mercê de interesses econômicos internacionais”, alertou. A região Oeste, que tem grande produção agrícola, de suínos e aves, foi a primeira do Brasil a ter uma mobilização popular e de gestores para proteger as cidades da contaminação do fracking.

Aquífero Guarani

O geólogo e professor da Universidade Federal de Santa Catarina, Luiz Fernando Scheibe, detalhou em sua palestra a relação da exploração do gás de xisto por fraturamento hidráulico e a contaminação das águas.

“Se olharmos as regiões do Brasil que tiveram os blocos vendidos para a exploração do gás de xisto vemos que coincidem com os nossos principais aquíferos. No Sul, o uso dessa tecnologia impactará diretamente os aquíferos Guarani e Serra Geral”, ressaltou Scheibe.

O Aquífero Guarani é uma reserva subterrânea de água doce, localizada na região sul da América do Sul, em partes do território do Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai. A reserva ocupa uma extensão de terra de, aproximadamente, 1,2 milhão de quilômetros quadrados. Para se ter uma ideia do tamanho, ela tem capacidade para abastecer, de forma sustentável, cerca de 400 milhões de habitantes, com 43 trilhões de metros cúbicos de água doce por ano.

Se houver fracking, toda a produção agrícola e a vida das pessoas nessas regiões estará comprometida. “As cidades precisam saber que haverá contaminação das águas de superfície e subterrâneas e barrar essa técnica”, enfatizou Scheibe.

Proibição total

“Por todos esses aspectos contaminantes e devastadores, é fundamental aprovar legislações banindo o fracking, seja nas cidades, estados e no país”. É o que defendeu Juliano Bueno de Araujo, coordenador de campanhas climáticas da 350.org Brasil e fundador da COESUS – Coalizão Não Fracking Brasil pelo Clima, Água e Vida.

Desde 2013 a COESUS realiza a campanha Não Fracking Brasil para impedir que o gás não convencional aconteça no país. Mais de 350 cidades brasileiras já aprovaram legislação que proíbe operações de fracking, adotando um modelo idealizado pela campanha e disponibilizado às Prefeituras e Câmaras de Vereadores.

Juliano lembrou que o Paraná é o primeiro estado brasileiro a ter uma legislação que trata do fracking. A Lei 18.948/2016 suspende por 10 anos a emissão de licenças para a exploração do gás de xisto, proibindo inclusive a pesquisa sísmica. “Foi uma grande conquista, mas não é a mesma garantia que nos dá uma lei que proibisse definitivamente esse método. Vamos continuar a lutar por uma legislação banindo o frackingdo Brasil por seus impactos à água, à vida e ao clima”, enfatizou Juliano.

A 6ª Conferência Estadual das Cidades foi organizada pelo Conselho das Cidades do Paraná (Concidades), da Secretaria de Estado do Desenvolvimento Urbano, e aprovou as propostas que serão levadas para a Conferência Nacional das Cidades, que acontecerá em Brasília, em data ainda não definida.

Fonte – Não Fracking Brasil de 18 de agosto de 2017

Águas residuais de fracking contaminam lago na Pensivânia, afirmam pesquisadores

Ainda não existe uma tecnologia eficaz para tratamento das águas residuais decorrentes do processo de fraturamento hidráulico, que ficam ‘armazenadas’ a céu aberto e contaminam o lençol freáticos, rios, córregos e nascentes. Foto: Internet

Fraturamento hidráulico tem possibilitado um incremento na oferta interna de petróleo e gás nos Estados Unidos, mas seu rápido crescimento levanta questões sobre o que fazer com os bilhões de litros de água contaminados resultante do processo

Pesquisadores relatam que o tratamento da água residuais de fracking (flowback) e a sua liberação nas águas de superfície levaram à contaminação da bacia hidrográfica da Pensilvânia com materiais radioativos e disruptores endócrinos químicos. O estudo surgiu na ACS’ jornal Enviroment Science & Techonology.

Em 2015, o método não convencional de extração de petróleo e gás conhecido como fraturamento hidráulico, ou “fracking”, contabilizou mais da metade do petróleo produzido e dois terços da produção de gás na América, segundo a U.S. Energy Informaton Administration.

A participação do método no mercado provavelmente irá crescer ainda mais. Embora a técnica tenha resultado num afastamento do uso do carvão, na qual poderia reduzir a emissão dos gases do efeito estufa, ela produz uma grande quantidade de águas residuais contendo material radioativo, sais, metais, disruptores endócrinos químicos e hidrocarbonetos policíclicos aromáticos que poderiam representar riscos para o meio ambiente e saúde humana.

Ativistas contra o fracking na Pensilvânia denunciaram a contaminação, agora comprovada por estudos. Foto: Internet

Um estudo desenvolvido na Pensilvânia em 2015 estimou que 10 mil fontes não convencionais de petróleo e gás no campo de Marcellus Shale produziram 1.7 bilhões de litros de água contaminada. As instalações coletoras da água apenas fornecem um tratamento limitado antes do lançamento nas águas da superfície. Bill Burgos e colegas das universidades da Pensilvânia, Colorado e Dartmouth quiseram verificar como está procedendo o impacto desta estratégia de tratamento e lançamento das águas contaminadas do fracking.

Os pesquisadores examinaram amostras de sedimentos e água contida na rocha de um lago que corre junto de duas instalações que tratam águas contaminadas do fracking na Pensilvânia. Suas análises detectaram em todas as camadas de sedimentos altas concentrações de rádio, metais alcalinos terrosos, sais e materiais químicos orgânicos.

As duas maiores classes de poluentes orgânicos incluem etoxilatos de nonilfenol, os quais são disruptores endócrinos químicos, e hidrocarbonetos policíclicos aromáticos, que são cancerígenos. As altas concentrações coincidem com as camadas dos sedimentos depositadas de cinco há dez anos durante um período de alto descarte da água contaminada pelo fraturamento hidráulico. Elevados níveis de rádio também foram encontrados a 19 quilômetros rio abaixo da estação de tratamento. Pesquisadores dizem que os potenciais riscos associados à contaminação são desconhecidos, mas eles sugerem regulações mais restritivas no descarte de água contaminada para ajudar a proteger o meio ambiente e a saúde humana.

Fontes – Science NewsLine Nature & Earth / Tradução Silvia Calciolari / Gabriel Perez dos Santos, Não Fracking Brasil de 29 de agosto de 2017

Cresce movimento global contra o fracking

Países, estados, províncias e municípios mundo afora têm se mobilizado para banir a prática, que contamina águas rasas e subterrâneas, impacta a produção e a saúde da população, além de intensificar as mudanças climáticas

O movimento contra o fracking, técnica para exploração não convencional de petróleo e gás, principalmente de xisto, tem ganhado força em diversas regiões do planeta. Recentemente, mais um país da União Europeia baniu definitivamente o método. Em uma conquista emblemática, a Irlanda se juntou à França, Alemanha e Bulgária na vanguarda climática, aprovando uma lei que proíbe o fraturamento hidráulico em terra. A onda anti-frackingtambém tem crescido na América Latina. Somente no Brasil, mais de 350 cidades já aprovaram leis que proíbem a prática, protegendo o subsolo, a água e a saúde de suas populações.

Graças à campanha Não Fracking Brasil, coordenada pela 350.org Brasil e pela COESUS – Coalizão Não Fracking Brasil pelo Clima, Água e Vida, prefeitos, vereadores, voluntários e lideranças de entidades e movimentos sociais de diversos municípios estão mobilizados e tem ajudado a disseminar as informações sobre essa tecnologia altamente poluente, que utiliza mais de 600 substâncias químicas, cancerígenas e até radioativas misturadas a água para extrair o gás do folhelho de xisto de grandes profundidades.

“A campanha teve início em 2013, quando a Agência Nacional de Petróleo e Gás (ANP) leiloou os primeiros blocos para exploração não convencional pelo método do fracking. Desde então, realizamos centenas de audiências públicas, seminários, palestras e encontros para informar sobre os riscos e perigos do fracking, e a importância de nos mobilizarmos para impedir que essa prática, que já devastou outros países como os Estados Unidos e a Argentina, avance em nosso país”, afirmou Juliano Bueno de Araujo, coordenador de Campanhas Climáticas de 350.org e um dos fundadores da COESUS.

Dos 15 estados brasileiros na rota do fracking, o Paraná é o que concentra o maior número de áreas mapeadas e em fase de pesquisa sísmica para exploração não convencional. Dos 339 municípios, 122 entraram na 12ª Rodada de Licitações realizada em 2013, e outros 154 estão na lista para os próximos leilões. “Conseguimos mobilizar a população e sensibilizar o Ministério Público Federal, que obteve em 2014 liminar cancelando o leilão. Com essa medida mais de 5 milhões de paranaenses ficaram protegidos”, lembrou Juliano.

Mesmo a fase de pesquisa sísmica, já provoca impactos como contaminação da água e do solo, e poluição do ar, além de causar danos à saúde das pessoas e animais (Fotos: Internet)

Há ainda a Lei Estadual 18.947/2016, que comprova o pioneirismo do Paraná. Aprovada pela Assembleia Legislativa do Estado após intensa articulação da COESUS e 350.org Brasil junto aos parlamentares, ela suspende por 10 anos o licenciamento para operações de fracking.

“A proibição no estado do Paraná foi uma grande conquista, mas ainda precisamos expandir essa lei para o restante do país, e de forma permanente. O Brasil tem retrocedido em termos de emissões no setor energético e de florestas – mesmo o governo tendo prometido nacional e internacionalmente combater o aquecimento global de forma ‘inadiável’. Enquanto isso, outros países mundo afora avançam. Estamos perdendo uma grande oportunidade de liderar esse processo, apostando em energias alternativas e migrando para uma economia de baixo carbono”, declarou Nicole Figueiredo de Oliveira, diretora da 350.org Brasil e América Latina.

Diante dos efeitos comprovadamente irreversíveis à saúde da população e do ambiente, o fracking está sendo banido em diversos países e em outros a legislação está sendo revista. Estudos já comprovaram que o fraturamento hidráulico causa terremotos, elimina a biodiversidade, causa doenças como câncer, provoca infertilidade nas mulheres, aumenta a mortalidade infantil, além de intensificar as mudanças climáticas.

“O governo brasileiro está na contramão da história ao insistir em leiloar novos poços para fracking no país, o que certamente prejudicará a agricultura, as florestas, os rios e todos os ecossistemas. O Brasil não precisa do fracking. Há recursos naturais suficientes para a geração de energia limpa e renovável, como a solar e eólica, para ser exemplo para o mundo no desinvestimento em combustíveis fósseis”, frisou Nicole.

Avanço na América Latina

Membros da 350.org América Latina e da COESUS Latino-americana foram testemunhar os impactos do fracking na província de Neuquén, na Argentina (Foto: 350 América Latina)

Outros países da América Latina também têm sido alvo da indústria do fracking. Já foram mapeadas áreas para exploração na Bolívia, Chile, Colômbia, Venezuela, Paraguai, Uruguai, Argentina e México, sendo estes dois últimos, junto com o Brasil, os que contam com as maiores reservas de gás de xisto no continente.

Nos países onde já está sendo desenvolvido, o fracking tem avançado sobre comunidades indígenas, ribeirinhas, camponesas, bairros urbanos e áreas protegidas. Isso resulta no deslocamento de pessoas e no impacto direto a atividades produtivas, como pecuária e agricultura. As comunidades afetadas não têm respeitados os seus direitos humanos mais fundamentais, tais como a consulta e o consentimento livre, prévio e informado; o direito à participação social, à informação e o direito a um ambiente saudável e equilibrado.

Em paralelo, não são raras as reclamações sobre danos causados por incêndios, vazamentos, explosões, poluição da água, do ar e do solo por resíduos tóxicos, descarte de substâncias radioativas nos poços e nas reservas de água subterrâneas.

Uma das maiores ameaças na América do Sul hoje é a fronteira de Entre Ríos, na Argentina, e o Uruguai, na região do Chaco Paranaense. Nesta região fica o Aquífero Guarani, a terceira maior reserva subterrânea de água doce do mundo e a principal da América do Sul, que abastece cerca de 55 milhões de pessoas.

Pensando em proteger essa rica fonte de água doce e as populações que dela dependem, a iniciativa de parceria contra o fracking que tem trazido bons resultados ao Brasil foi expandida também para países vizinhos como Uruguai e Argentina, onde foi criada a Coalizão Latino-americana contra o Fracking pela Água, Clima e Agricultura Sustentável.

No Uruguai, cinco províncias já aprovaram leis para banir a técnica – Paysandú, Tacuarembo, Salto, Rocha e Artigas –, além da província de Maldonado, onde a proposta já está em tramitação. Na Argentina, a província de Entre Ríos foi a primeira a aprovar a proibição.

Encontro em Montevideo marcou o lançamento da Coalizão Latino-americana contra o fracking (foto: 350 América Latina)

Fonte – Não Fracking Brasil de 28 de julho de 2017

Contaminação, escassez da água e terremotos minam ‘credibilidade’ do fracking

Este é o cenário de destruição no campo de petróleo da Chevorn em Sierra Nevada, na Califórnia. Foto: Newsweek/Percy Feinstein Corbis

Novo estudo qualitativo mostra que as pessoas estão preocupadas com os impactos ambientais e sociais e tendem a apoiar investimentos em energias renováveis

Berço do fraturamento hidráulico, ou fracking, os Estados Unidos vivem o que parecer ser o ocaso da tecnologia usada há décadas para extrair o petróleo e gás de xisto do subsolo. São incontáveis os sinais de que a fatura da produção de ‘energia barata’ que libertou os americanos da dependência do petróleo do Oriente Médio começa a ser cobrada. A primeira delas é a perda do apoio da população e a desconfiança nas instituições que sempre defenderam a tecnologia e omitiram seus riscos e perigos.

Basta dar um Google para constatar, quase que diariamente, o surgimento de novos estudos e pesquisas e notícias que comprovam o que desde o princípio já se sabia: O alto custo ambiental e social da utilização dessa tecnologia definitivamente não compensa seus riscos e impactos. Atualmente, o fracking já está relacionado à contaminação de reservas subterrâneas e de superfície de água, à ocorrência de terremotos, à fragmentação dos ecossistemas, ao agravamento da saúde das pessoas e animais e, para piorar, ao agravamento do aquecimento global pela emissão sistemática do metano e outros gases de efeito estufa.

Num recente estudo de pesquisadores da UC Santa Barbara foram incluídas questões-chave como o risco de contaminação da água, bem como preferências para as fontes de energia renováveis sobre os combustíveis fósseis para atender às necessidades energéticas nacionais. A pesquisa contou com a participação do Reino Unido, onde o fracking é tido pelo governo como uma ‘solução’ para alcançar a eficiência energética, o que é contestado pela maior parte da população.

Com base em mais de uma década de pesquisas desenvolvidas pelo Centro de Nanotecnologia na Sociedade da UCSB (CNS) e pela Universidade de Cardiff no País de Gales, o estudo demonstrou como os métodos deliberativos de engajamento público podem ser aplicados a esses objetivos. Este é o primeiro estudo qualitativo, interdisciplinar, transnacional de percepções públicas dos EUA e da U.K sobre a extração de xisto. Os resultados foram publicados na Revista Nature Energy.

“Este estudo encontrou surpreendentemente altos níveis de preocupação ambiental e social sobre fraturamento hidráulico em áreas sem experiência direta com a tecnologia”, disse a co-autora Barbara Harthorn, diretora do CNS e professora do Departamento de Antropologia da UCSB. “Esse método fornece fortes evidências de que diversos membros do público são capazes de pesar de forma crítica e refletir sobre as decisões locais e coletivas do sistema de energia e seus impactos”.

Metodologia

Os pesquisadores dos EUA e Reino Unido realizaram uma série de oficinas de deliberações cuidadosamente planejadas, com vários membros do público em quatro cidades: Los Angeles, Santa Barbara, Londres e Cardiff. Essas discussões aprofundadas permitiram aos pesquisadores olhar além das evidências existentes sobre opiniões públicas a respeito do fraturamento hidráulico baseadas principalmente em áreas já impactadas.

Os resultados mostraram que o desenvolvimento de xisto foi amplamente visto como uma correção de curto prazo, levando a uma dependência indesejada de combustíveis fósseis finitos em detrimento do desenvolvimento de energias renováveis. Os participantes em ambos os países observaram que a maioria dos benefícios propostos seria relativamente de curto prazo (empregos especializados de duração limitada), ao passo que os riscos seriam quase certamente de longo prazo (degradação ambiental).

Os impactos da exploração do petróleo e gás de xisto por fracking são irreversíveis. Fotos: Internet

O estudo concluiu que os entrevistados consideravam os impactos potenciais distribuídos de forma desigual, argumentando que os benefícios econômicos e de emprego atribuídos ao desenvolvimento do xisto não eram exclusivos e se aplicariam igualmente a investimentos significativos e a ampliação de tecnologias renováveis.

Ou seja, os participantes do estudo questionaram por que investir numa tecnologia altamente poluente, que pode causar danos permanentes e irreversíveis, ao invés de priorizar o desenvolvimento de uma matriz a partir de energias renováveis? Todos os olhares recaem sobre os gestores públicos.

Diferentes preocupações nos dois países refletiram diferentes modelos de governança das indústrias extrativas. Nos EUA, alguns participantes queriam mais diretrizes federais padronizadas e responsabilidade de longo prazo. Por outro lado, no Reino Unido, onde a regulamentação é predominantemente a nível nacional, houve pedidos de maior controle local. Independentemente da localização, os participantes expressaram profunda desconfiança do governo e das instituições.

Risco iminente

“Na Califórnia, experiências passadas e atuais com a indústria petrolífera regional minimizaram a preocupação com alguns sobre o futuro desenvolvimento do xisto”, disse o coautor Tristan Partridge, um pós-doutorado do CNS e do Departamento de Antropologia da UCSB. “No entanto, para outros, as experiências pessoais de escassez de água e terremotos amplificaram esse senso de risco”.

Na Inglaterra, onde a extração de petróleo e gás em terra é menos comum, os participantes se basearam em experiências tangenciais do carvão e das indústrias pesadas ao fazer sentido do que o desenvolvimento de xisto pode significar para eles no futuro.

“Isto – e outras pesquisas que temos realizado – mostra que o público em ambos os países claramente quer um movimento em direção a um sistema de energia mais limpo e mais sustentável no futuro”, disse o autor correspondente Nick Pidgeon, professor de psicologia ambiental na Universidade de Cardiff. “Os resultados confirmam que o desenvolvimento do xisto não é compatível com essa visão”.

O financiamento principal desta investigação foi fornecido pela National Science Foundation com apoio suplementar do programa de investigação e inovação Horizon 2020 da União Europeia.

Brasil contra o fracking

“Muito interessante essa percepção, pois no Brasil vivenciamos exatamente essa desconfiança da população em relação ao fracking, seja pelos impactos ambientais, econômicos e sociais omitidos por governantes e empresas, seja pela certeza de que essa indústria fóssil irá reproduzir aqui a mesma dinâmica perversa e devastadora de outros países”, diz Nicole Figueiredo de Oliveira, diretora da 350.org Brasil e América Latina e coordenadora nacional da COESUS – Coalizão Não Fracking Brasil pelo Clima, Água e Vida.

Campanha Não Fracking Brasil avança em todo o Brasil com centenas de cidades provando legislação proibindo operações para exploração do gás de xisto. Foto: COESUS/350Brasil

Desde 2013, a COESUS, 350.org Brasil e centenas de parceiros desenvolvem a campanha Não Fracking Brasil com o objetivo de impedir que o fraturamento hidráulico chegue ao país. Aproximadamente 300 cidades já aprovaram leis municipais para banir operações de fraturamento hidráulico para exploração de gás de xisto. O Estado do Paraná aprovou em dezembro da Lei 18.947/2016 que suspende por 10 anos o licenciamento para essa exploração, inclusive com a proibição dos testes sísmicos nesse período.

“As justificativas são os riscos que a tecnologia traz para a agricultura, para a saúde e para as reservas de água, a falta de transparência dos governantes e o simples fato de que a indústria do fracking mente sobre os impactos, especialmente para o clima, e está intimamente ligada aos casos de corrupção”, completa Nicole.

Para a diretora da 350.org Brasil e América Latina, “vivemos a insegurança das mudanças climáticas que já fazem milhões de vítimas no mundo e nos colocam como imperativo o desinvestimento em novos projetos fósseis e o cancelamento dos atuais. A única alternativa para garantirmos as condições necessárias para a existência humana e de todas as formas de vida neste planeta é investirmos em energias renováveis”.

O objetivo é alertar as pessoas e os líderes mundiais sobre os efeitos destruidores das mudanças climáticas e a urgência do rompimento com a indústria dos combustíveis fósseis.

Fontes – Silvia Calciolari, Nature Energy / UC Santa Barbara / Não Fracking Brasil de 22 de maio de 2017

Coerência e compromisso com a vida prevalecem em Wenceslau Braz (PR)

A população de Wenceslau Braz foi mobilizada e participou das discussões para barrar o fracking na cidade.

Para livrar a cidade da contaminação, vereadoras e vereadores derrubaram veto do Executivo e seguiram desejo da população que não querem a extração do gás de xisto do subsolo

As vereadoras e vereadores de Wenceslau Braz, cidade com pouco mais de 22 mil habitantes do Norte Pioneiro do Paraná, derrubaram essa semana o veto do Executivo ao projeto de Lei 01/2017 que proíbe operações de fraturamento hidráulico (fracking) para extração do gás de xisto do subsolo. Aprovado por unanimidade no começo do mês, o projeto contou com amplo apoio da comunidade, lideranças políticas, religiosas e dos movimentos ambientais da cidade.

“E foi também por unanimidade que nós derrubamos esse veto, numa clara demonstração que Wenceslau Braz está em sintonia com a sociedade para banir essa forma de produção de gás que contamina a água, o solo e ar, faz as pessoas adoecerem e ainda provoca terremotos. Não queremos fracking na nossa cidade”, afirmou o presidente da Câmara Municipal, Vereador Beto do Esporte, que também é autor da proposição. Com a decisão, o Executivo tem até segunda-feira, 24, para publicar. “Se não o fizerem, a Câmara fará valer a legislação”, adiantou.

Patrícia Watfe (à esquerda), Izabel Marson e o Vereador Beto do Esporte, Presidente da Câmara Municipal de Wenceslau Braz.

Riscos

A professora e voluntária da COESUS – Coalizão Não Fracking Brasil pelo Clima, Água e Vida, Izabel Marson, acompanhou a apreciação do veto e exaltou o resultado da votação. “Wenceslau Braz está em sintonia com dezenas de cidades do Norte Pioneiro, que já aprovaram legislação banindo a tecnologia altamente poluente que impacta o meio ambiente, a economia e a vida das pessoas”. Izabel esteve acompanhada de Patrícia Watfe, também voluntária da campanha na região.

Além da emissão de metano que contribui no aquecimento global, o fracking também provoca microssismos que em alguns casos desencadeiam tremores maiores que podem ser sentidos pelas populações locais. “Onde a técnica é empregada a vida deixa de existir devido ao alto nível de poluição. Não podemos permitir que esse tipo de empreendimento se instale em nossa região e devemos lutar em Wenceslau Braz e nas cidades vizinhas”, destacou Izabel.

Ela ainda relembra que a passagem pela região Norte Pioneiro do Paraná do comboio de caminhões vibradores contratados pela Agência Nacional de Petróleo e Gás (ANP) para prospectar petróleo e gás ainda permanece na memória dos paranaenses. Na memória e no bolso, já que mais de um ano após a realização dos testes para aquisição sísmica, quando são induzidos terremotos para verificar a composição geológica do subsolo, nenhum morador foi ressarcido. Centenas de residências na região apresentaram rachaduras, das quais dezenas tiveram danos que comprometem a sua utilização.

Dezenas de municípios já criaram suas regulamentações em relação à proibição do fracking no Norte e Norte Pioneiro do Paraná. Esta semana Conselheiro Mairinck teve publicada a Lei 618/2017, assim como Santo Antonio do Paraíso. No Brasil, estados como Ceará, Maranhão, São Paulo e Mato Grosso também avançam na discussão e aprovação de legislação. O Estado do Paraná foi o primeiro no país a suspender por 10 anos a emissão licenças para operações de fracking, inclusive para a fase dos testes sísmicos.

Em Jaguariaíva, vereadores e vereadoras também debatem os riscos e perigos do fracking.

Proibição

Juliano Bueno de Araujo, coordenador nacional da COESUS – Coalizão Não Fracking Brasil pelo Clima, Água e Vida – e coordenador de Campanhas climáticas da 350.org, acredita que o veto do Executivo foi fruto de um desconhecimento da lei e falta de consciência ambiental. “Essa proibição já vigora em mais de 300 municípios do Brasil, visto as consequências desastrosas do fracking, e nunca tivemos um veto. Porém, o compromisso com a vida e as futuras gerações falou mais alto e agora Wenceslau Braz está protegida”, disse.

Desde 2013 a campanha Não Fracking Brasil está mobilizando milhões de brasileiros em centenas de cidades para informar sobre os riscos e perigos do fracking e impedir que essa tecnologia seja implantada no país. “Além de todos os impactos, não podemos deixar de destacar o uso indevido de água nesse processo e a possibilidade de contaminação da mesma. Trocar água por minérios ou gases vai contra todas as vertentes de proteção ao meio ambiente e ao próprio patrimônio”, alertou Juliano.

Em Abatiá, discussão está avançada e uma audiência pública está programada para a semana que vem.

Fonte – Não Fracking Brasil de 20 de abril de 2017