Melhor uso de recursos naturais renderia US$2 tri para economia

Mineração de cascalho; recursos naturaisMineração de cascalho (zozzzzo/Thinkstock)

Se as tendências atuais continuarem, o uso anual de recursos per capita crescerá mais de 70% em meados do século, alerta relatório da ONU

Escassez de água, poluição do ar e do solo, desmatamento, perda de biodiversidade, desertificação, bilhões de toneladas de resíduos descartados todos os anos…A lista crescente de problemas ambientais tem um denominador comum: o nosso padrão insustentável de produção e consumo.

É como se as gerações do presente estivessem escrevendo a fórmula para o caos na Terra daqui a algumas décadas. Não precisa ser assim. Tudo depende de como extraímos, usamos e descartamos os recursos naturais que o Planeta generoso nos oferta.

Um uso mais inteligente e eficiente, além de reduzir a pressão ambiental, pode trazer benefícios econômicos anuais da ordem de US$ 2 trilhões, superior ao PIB da Itália, revelam dados de um novo relatório produzido pelo Painel de Recursos Internacional, um grupo de especialistas em meio ambiente da ONU.

Segundo o estudo, com esse ganho econômico, o mundo poderia compensar os custos de implementação de medidas de mitigação e adaptação às mudanças climáticas.

Uma conta que não para de crescer

Ao longo dos últimos 50 anos, os seres humanos vêm alterando os ecossistemas em um ritmo mais acelerado e intenso do que em qualquer outro período da história humana.

Tendo em vista que a população global deverá crescer 28% até meados do século, a conta ecológica vai aumentar sobremaneira — estimativas apontam que 71% mais recursos per capita serão necessário até 2050.

Sem ações urgentes para aumentar a eficiência, a utilização global de metais, biomassa, minerais, areia e outros materiais aumentará de 85 para 186 bilhões de toneladas por ano até 2050, o que soma ainda mais para a dívida ecológica.

O relatório “Eficiência de Recursos: Implicações Potenciais e Econômicas”, lançado nesta semana na reunião do G20 em Berlim destaca que a utilização mais sustentável dos materiais e da energia não só cobriria o custos para manter o aquecimento da Terra abaixo de 2 graus Celsius, evitando os piores efeitos das mudanças climáticas, mas poderia contribuir para o crescimento econômico e a criação de emprego.

Por exemplo, entre 2005 e 2010, um programa britânico reciclou e reutilizou sete milhões de toneladas de lixo destinados ao aterro sanitário. Esse movimento evitou a emissão de seis milhões de toneladas de dióxido de carbono e poupou perto de 10 milhões de toneladas de materiais virgens e mais de 10 milhões de toneladas de água.

Também aumentou as vendas dos negócios em US$ 217 milhões, reduziu os custos empresariais em US$ 192 milhões e criou 8.700 postos de trabalho.

“Este é um ambiente ganha-ganha”, disse Erik Solheim, Chefe de Ambiente da ONU. “Usando melhor os recursos do planeta, vamos injetar mais dinheiro na economia para criar empregos e melhorar os meios de subsistência. E, ao mesmo tempo, criaremos os fundos necessários para financiar uma ação climática ambiciosa”.

Além de benefícios econômicos, a análise também mostra que a eficiência reduziria o uso de recursos globais em cerca de 28% em 2050 em comparação com as tendências atuais.

O relatório constatou, ainda, que os ganhos econômicos da eficiência dos recursos serão distribuídos de forma desigual. A extração mais lenta de recursos poderia reduzir as receitas e afetar os empregos em alguns setores, como mineração e pedreiras.

Mas mesmo com essas considerações, os países ganharão mais com a mudança de políticas para facilitar a transição para práticas mais eficientes do que por continuar a apoiar atividades predatórias.

Fonte – Vanessa Barbosa, Exame de 17 de março de 2017

A encruzilhada do lítio: a chave do futuro ou uma nova escravidão para a América do Sul?

O mundo atravessa uma transição energética que está desencadeando uma nova disputa global. A matriz elétrica irá ganhando preeminência e, nesse plano, entre outros elementos, o lítio cobrará uma singular importância. 80% mais rentável e mais fácil de extrair estão no Chile, na Bolívia e na Argentina, um novo desafio que já inquieta a região.

Bruno Fornillo, Doutor em Ciências Sociais, pesquisador do Conicet e autor do livro “Sudamérica Futuro”, explicou o que significarão, nas próximas décadas, as mudanças na matriz energética. Para Fornillo, existe a possibilidade de um novo jogo geopolítico onde os países centrais busquem como aconteceu no passado, um novo tipo de dominação sobre os países subdesenvolvidos (muitas vezes, donos dos recursos em questão), desta vez, baseado no mercado das energias não renováveis. Neste contexto, o especialista se referiu, ademais, ao papel que exerce a China nesta chamada “terceira revolução industrial”. “Junto com Alemanha e com Os Estados Unidos, China está na vanguarda de tudo o que signifique desenvolvimento verde”, admitiu.

Por outro lado, o jornalista David Brooks, correspondente do jornal mexicano La Jornada, em Nova Iorque, explicou as sérias dificuldades que possuem os partidos não tradicionais para concorrerem nas eleições presidenciais estadunidenses. “Os partidos Democrata e Republicano desenharam as regras do jogo, de tal modo que mantêm o controle do poder”, afirmou. Segundo Brooks, nestas eleições – “as mais desprestigiadas pelos cidadãos na história recente”–, a carta principal que jogam tanto Clinton como Trump é a do ódio contra o outro.

Neste programa, também se analisou a decisão da Argentina, do Brasil, do Paraguai e do Uruguai de assumirem, por decreto, a presidência rotativa do bloco MERCOSUL, que está exercendo e lhe corresponde, a Venezuela, desde julho passado. Os quatro países advertiram que se a Venezuela não adota as regras de compatibilidade faltantes pode ficar suspensa. Caracas relembrou que os estatutos do MERCOSUL informam que qualquer decisão deve ser tomada por consenso e que “a Tríplice Aliança viola a legalidade do MERCOSUL”. Esta crise é interpretada por muitos especialistas como um ataque dos novos governos de direita contra a Venezuela por suas políticas socialistas.

Em Voces del Mundo se informou sobre outras duas questões de importância. A primeira foi a apresentação do Ministério Público Brasileiro contra o ex-presidente Lula da Silva e sua esposa. Ele é acusado de ser “o principal comandante da corrupção na PETROBRAS” em um momento em que certos setores judiciais estão contra os governos progressistas da região. A segunda foi a decisão do novo presidente das Filipinas, Rodrigo Duterte, de adotar uma política “independente” dos interesses de Washington. Por esta razão, cancelou os exercícios conjuntos com o Pentágono no estratégico Mar da China, solicitou a retirada das tropas norte-americanas da base militar em Mindanao e pôs fim à dependência das Filipinas em relação à indústria de armas dos EUA, anunciando a compra de armas da Rússia e da China, em condições mais favoráveis.

Fonte – Telma Luzzani, Voces de Mundo, tradução de Elissandro dos Santos Santana para FUNVERDE

Estudo aponta que somente o veganismo é solução para o desmatamento zero no futuro

Um estudo publicado na conceituada revista científica Nature Communications demonstrou que somente o veganismo poderia livrar a humanidade futura de uma crise global de desmatamento e falta de recursos naturais até 2050.

No estudo, os cientistas do Institute of Social Ecology, de Viena, desenvolveram 500 tipos de cenários (futuros possíveis), baseados em previsões de colheitas futuras, áreas para agricultura, alimentação de animais, criados para alimentação e dietas humanas.

Em todos estes cenários, o desmatamento deveria ser próximo de zero. Destas 500 previsões, uma sociedade vegana tornaria possível todos os cenários. Em uma sociedade proto-vegetariana (ingestão de ovos, leites, mel e afins), 94% dos cenários seriam possíveis, mas se 6% deles viessem a acontecer, o desmatamento das florestas aconteceria de forma predatória. Em uma sociedade cuja dieta fosse majoritariamente flexitariana (come-se de tudo), mas sem excessos, 66% dos cenários seriam possíveis e com uma dieta típica dos Estados Unidos apenas 15% dos cenários seriam possíveis.

Desta maneira, os autores demonstram o que hoje já é sabido pelos dados da FAU: uma alimentação com carnes e derivados animais destrói florestas e outros ecossistemas, pois a principal causa do desmatamento destes biomas é a limpeza do local para produção de pasto para criação de animais ou de colheitas para produção de vegetais, que terminarão por virar ração de animais de criação.

Assim, é importantíssimo que mais e mais pessoas optem pelo veganismo, pois, caso isto não aconteça, teremos um sério problema de falta de recursos naturais, já que as florestas não só contribuem com oxigênio e biodiversidade, mas são importantíssimas na manutenção de nascentes de água doce e na saúde do solo.

Fonte – Cultura Veg de 05 de setembro de 2016

Nós consumimos um ano em recursos naturais em menos de 8 meses

Foto: ESA

Hoje (08 de agosto de 2016) é o Earth Overshoot Day — o dia no qual a humanidade já consumiu mais recursos naturais que o nosso planeta consegue gerar. Surpreendentemente, este dia está acontecendo cada vez mais cedo com o passar dos anos.

De acordo com a GFN (Global Footprint Network), uma instituição internacional preocupada com a sustentabilidade ambiental, nesta segunda-feira (8) nós já consumimos nosso estoque de recursos renováveis da Terra — e ainda temos mais 145 dias para o fim do ano.

“Nós usamos mais recursos naturais e serviços que a natureza pode regenerar através da pesca em excesso, destruição de florestas e a emissão de mais dióxido de carbono na atmosfera do que as florestas conseguem capturar”, observa o site da GFN.

No ano passado, o Earth Overshoot day, também conhecido como dia do débito ecológico, foi em 13 de agosto. Em 2014, em 19 de agosto. O primeiro ano em que a data foi registrada foi em 1987, quando o dia em que isso ocorreu foi em 19 de dezembro. Tem acontecido cada vez mais cedo, o que significa que estamos indo na direção errada.

Para colocar este consumo crescente em perspectiva, nós precisaríamos de uma Terra e meia para atender a nossa demanda global por recursos renováveis. Analisando por país, nós precisaríamos de 5,4 Terras se a população mundial vivesse de acordo com a da Austrália, e 4,8 Terras para viver como nos Estados Unidos. O consumo do Brasil está um pouco acima da média mundial: seria necessário 1,8 Terra para suprir o consumo de recursos se o mundo vivesse como os brasileiros.

Quantas Terras precisaríamos para viver como os cidadãos dos países acima. Crédito: GFN

A GFN diz que as emissões de carbono são o maior vilão do débito ecológico, com uma pegada de carbono acima de 60% do que nossa civilização demanda da natureza. Para conseguirmos adotar os objetivos estabelecidos no acordo climático de Paris adotado em dezembro de 2015, a GFN diz que nós precisamos mudar nossa forma de viver.

“Esta nova forma de viver vem com novas vantagens e leva um tempo para ter efeito”, observou Mathis Wackernagel, cofundador e CEO da Global Footprint Network, em um comunicado. “A boa notícia é que isso é possível com nossa tecnologia atual e é financeiramente vantajoso com os benefícios gerais excedendo os custos.”

Wackernagel diz que tal mudança irá estimular setores emergentes como o de energias renováveis, enquanto reduz o riscos e custos associados com os impactos da mudança climática. Ele afirma que o único recurso que falta para isso é a vontade política.

Dito isto, a organização diz que alguns países estão correspondendo ao desafio. A Costa Rica conseguiu gerar 97% da energia elétrica local de fontes renováveis nos primeiros três meses do ano. A GFN também elogiou o Reino Unido, Alemanha e Portugal por terem estabelecido novos recordes para energia renovável, além de terem ações pedindo para que o público levem uma forma de viver mais sustentável.

Fontes – George Dvorsky, Global Footprint Network / Earth Overshoot Day / Gizmodo de 08 de agosto de 2016

Economia de acumulação

Humanidade já está usando 30% a mais do limite suportável do planeta
Foto: Ian Britton/Flickr/CC

É preciso estar atento, ao menos, para dois pontos específicos vindos da economia, que atuam no sentido de promover intensa pressão sobre o meio ambiente: 1) a dinâmica do capitalismo industrial é consolidada mediante mais produção e consumo, portanto, mais crescimento econômico; 2) o nível de extração de recursos naturais para “alimentar” o processo produtivo não pode, sob nenhuma circunstância, exceder o de regeneração, uma vez que sua ultrapassagem implica no completo esgotamento da base física que serve de suporte à atividade econômica.

Dito isso, o enunciado a seguir é verossímil: a economia mundial não pode mais “funcionar” – do jeito que vem funcionando – sob o paradigma do crescimento/acumulação. Tal assertiva leva a conclusão de que o desafio colocado à frente, caso haja o interesse em preservar as condições de vida no planeta, é um só: procurar “encaixar” a atividade econômica dentro dos limites ecossistêmicos.

O desrespeito a esses limites, a partir do momento em que a atividade econômica se apropria da natureza, desequilibra o meio ambiente, gerando como “produto final” poluição (veja especialmente o caso chinês, com mais de 700 mil mortes ao ano) e aquecimento global.

A relação produção-consumo-crescimento econômico-emissão de gases de efeito estufa (GEE)-perda ambiental e ecológica está intimamente interligada

Essa é a questão central da crise ambiental. Não por acaso, a humanidade já está usando 30% a mais do limite suportável do planeta – lamentavelmente, já assimilamos o overshoot (transbordamento) com certa naturalidade.

Hoje, são extraídas 60 bilhões de toneladas de recursos anualmente; 30 anos atrás, essa extração não passava de 30 bilhões de toneladas.

Nesses últimos 30 anos de intensa extração de recursos, “conseguimos”, sem muita habilidade, mas com tamanha agressividade, chegar próximo ao esgotamento de 60% dos principais serviços ecossistêmicos; basta atentar para a situação atual dos pesqueiros (das 17 reservas pesqueiras conhecidas, 11 delas possuem taxas de retirada maior do que a capacidade de reposição.

Ainda em relação aos peixes, 75% dos estoques mundiais das espécies mais vendidas no mundo estão no limite da sua capacidade de recuperação ou além desse limite. Entre 1995 e 2005, algumas espécies como o bacalhau, o hadoque, o badejo e o linguado caíram 95% no Atlântico Norte), o encolhimento de florestas (a cada minuto a Terra perde 21 hectares de florestas, equivalente a 42 campos de futebol), a deterioração de pradarias e terras firmes (das terras firmes conhecidas do mundo, 4 bilhões de hectares encontram-se esgotados. Por ano, perde-se mais de 7 milhões de hectares.

São 20 mil hectares por dia, o que equivale a uma superfície diária que corresponde a duas vezes o tamanho de Paris), a contaminação de reservatórios de água, a elevação acintosa dos níveis de dióxido de carbono (a cada minuto 10 mil toneladas de dióxido de carbono são lançadas na atmosfera) e o constante desaparecimento de espécies (defaunação – a União Internacional para a Conservação da Natureza estima que, no mundo, por volta de 11% das espécies de aves, 25% dos mamíferos, 25% dos anfíbios, 20% dos répteis, 34% dos peixes e 12% das plantas estão ameaçadas de desaparecer para sempre nos próximos cem anos).

Portanto, a relação produção-consumo-crescimento econômico-emissão de gases de efeito estufa (GEE)-perda ambiental e ecológica está intimamente interligada.

Sendo a produção econômica termodinâmica – ainda que para os arautos da economia neoclássica isso possa parecer absurdo – simplesmente torna-se impossível dissociar crescimento econômico da emissão de GEE e, evidentemente, do resultado disso tudo: desequilíbrio climático e ambiental.

Agravando mais ainda essa situação, a humanidade parece que redobrou seu voraz apetite pelo consumo de mercadorias (a dinâmica da acumulação capitalista, puxada essencialmente pelos norte-americanos, tem se concentrado na esfera financeira fazendo do crédito e do endividamento familiar elementos fundamentais para a “elevação” do poder aquisitivo), uma vez que, claramente, estamos vivendo na era da economia de acumulação, posto que a produção econômica, nesse último século, “não se baseia no capital do planeta, mas em seu estoque”, para usarmos as palavras da ambientalista francesa Dominique Voynet.

Engolidos pelo consumo, vamos cada vez mais pisando firme no acelerador do crescimento econômico, sem, contudo, nos darmos conta que, logo mais à frente, pela “estrada” em que trafegamos, encontraremos um enorme abismo que sugará a todos, ricos e pobres, desenvolvidos ou emergentes, uma vez que essa “estrada” é a mesma para todos, com um único sentido de direção.

Fonte – Marcus Eduardo de Oliveira é economista e professor de economia da FAC-FITO e do Unifieo, em São Paulo, EcoD de 23 de outubro de 2016

Exploração mundial de matérias-primas triplicou em 40 anos

Em quatro décadas, a humanidade passou a consumir de 22 bilhões a 70 bilhões de toneladas de matéria-prima em todo o mundo

Em quatro décadas, a humanidade passou a consumir de 22 bilhões a 70 bilhões de toneladas de matéria-prima em todo o mundo

O aumento do consumo, alimentado por uma classe média global em crescimento, triplicou a quantidade de matérias-primas extraídas da Terra nas últimas quatro décadas, aponta o novo relatório do Painel Internacional de Recursos (IRP, sigla em inglês) do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma).

“O ritmo alarmante em que estamos extraindo materiais já está tendo um grave impacto sobre a saúde humana e a qualidade de vida das pessoas”, declarou Alicia Bárcena, co-presidente do IRP. “Isso demonstra que os padrões imperantes de produção e consumo são insustentáveis”.

De acordo com o relatório Fluxo de materiais e produtividade dos recursos em escala mundial (em inglês), a quantidade de matéria-prima extraída da Terra passou de 22 bilhões de toneladas em 1970 para 70 bilhões em 2010. Os países mais ricos consomem em média 10 vezes mais materiais que os países mais pobres e duas vezes mais que a média global.

Mantido os padrões atuais de extração e consumo e cumprida a expectativa de crescimento demográfico global neste século, em 2050 precisaríamos extrair mais de 180 bilhões de toneladas de matéria-prima para satisfazer a demanda de nove bilhões de habitantes. Esse montante representa o triplo do consumo atual de matéria-prima e provavelmente elevaria a acidificação e a eutrofização dos solos e da água em todo o mundo, aumentaria a erosão do solo, e produziria maiores volumes de resíduos e mais contaminação tóxica.

“Devemos enfrentar urgentemente este problema, antes que esgotemos de forma irreversível os recursos que impulsionam nossas economias e retiram as pessoas da pobreza. Este problema exige replanejar a governança da extração de recursos naturais com o objetivo de maximizar sua contribuição ao desenvolvimento sustentável em todos os níveis”, defende Bárcena.

Uma dimensão delicada desse aumento no uso de recursos naturais é a dos combustíveis fósseis. O aumento drástico no consumo desses combustíveis resulta na maior concentração de gases de efeito estufa (GEE) na atmosfera terrestre, influenciando diretamente na mudança do clima.

Em escala global, o uso de materiais vem se acelerando desde 2000, na medida em que economias emergentes como China e Índia experimentam transformações industriais e urbanas que requerem grandes quantidades de ferro, aço, cimento, energia e materiais de construção. Em contrapartida, o mundo avançou pouco na eficiência no uso de recursos naturais desde os anos 1990 – na realidade, a eficiência caiu nos últimos 15 anos. Hoje, a economia global requer mais materiais por unidade de Produto Interno Bruto (PIB) do que no começo deste século, pois a produção passou de economias eficientes nesse aspecto (como Japão, Coreia do Sul e países europeus) para economias muito menos eficientes (como China, Índia e Sudeste Asiático). Isto resultou em maior pressão sobre o meio ambiente por unidade de atividade econômica.

Desacoplar o uso de recursos naturais do crescimento econômico é “imperativo da política ambiental moderna, e é essencial para a prosperidade da sociedade humana e um entorno natural saudável”, apontou o IRP no relatório. Esse desacoplamento, fundamental para o sucesso dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS), requer políticas bem desenhadas. Porém, não basta investir em eficiência: para o IRP, é importante que os preços das matérias-primas incorporem os custos sociais e ambientais de sua extração, tanto como um incentivo para reduzir o consumo quanto para financiar pesquisa para setores da economia intensivos no uso desses materiais.

Fonte – Página 22 de 21 de julho de 2016

NPK – Fósforo, a próxima guerra? Depois da água, claro!

Lei do Mínimo = Lei de Liebig (originalmente descrita partir de estudos sobre nutrição vegetal): sob condições de estado constante, o nutriente presente em menor quantidade (concentração próxima à mínima necessária) tende a ter efeito limitante sobre a planta.

Nos últimos séculos, especialmente após a revolução industrial, os recursos naturais do planeta sofreram intensa exploração pelo homem. Isso se deve ao aumento explosivo da população humana e à mudança de seus hábitos. Hoje a população mundial passa de sete bilhões de indivíduos, com estimativa para 2100 de onze bilhões, de acordo com o artigo publicado na revista Science “World population stabilization unlikely this century”, sendo que essa população consome milhares de toneladas de alimentos e outros recursos diariamente.

Para suprir a crescente demanda mundial por alimentos, a produção agrícola de vários países entrou na fase da agroindustrialização, deixando para trás o padrão extensivo tradicional e assumindo um padrão intensivo, no qual a produtividade tornou-se a principal fonte de lucratividade.

Surge assim uma agricultura mecanizada onde as características físicas do solo são mais importantes que as químicas, ou seja, o solo deve funcionar como um bom suporte para as plantas, capaz de sustentar as lavouras e ainda tornar possível a mecanização, sendo, até certo ponto, dispensável uma boa fertilidade natural.

Um bom exemplo dessa situação é a agricultura de larga escala que é praticada no cerrado brasileiro, um dos principais celeiros agrícolas do mundo, mas que só produz com a implementação da adubação e da correção da acidez. Em um artigo publicado em 2012 o renomado pesquisador brasileiro Alfredo Scheid Lopes e colaboradores, estes afirmam que nos solos do Brasil predominam graves limitações para a produção agrícola em termos de baixa fertilidade natural, sendo ainda, ácidos e pobres em nitrogênio disponível (N), fósforo (P), potássio (K), de cálcio (Ca), magnésio (Mg), enxofre (S), boro (B), cobre (Cu), molibdénio (Mo) e zinco (Zn).

Nesse caso, quando o solo não disponibiliza naturalmente os nutrientes em quantidades adequadas, há a possibilidade de elevada produtividade somente com o suprimento dos nutrientes deficitários através de adubação. Nutrientes como fósforo, nitrogênio e potássio são necessários para o crescimento e produção das plantas. O nitrogênio pode ser obtido por meio de fixação biológica ou processos industriais, mas outros nutrientes, como por exemplo, o fósforo é obtido em grande parte através da mineração ou em menor quantidade por reciclagem.

A demanda por fertilizantes no cenário internacional é crescente, em especial pelos fosfatados. A maior procura e a oferta limitada causou um aumento no custo do fosfato de rocha. Em 1961 a tonelada custava cerca de 80 dólares saltando para até 450 dólares em 2008, o preço deste insumo, desde então, têm flutuado, mas agora está em cerca de 700 dólares a tonelada, segundo relatório de 2015 do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA).

O mundo é altamente dependente do fósforo como nutriente para produção de alimentos, no entanto, estima-se que a maior mina de fósforo dos EUA estará esgotada em 20 anos e um balanço da vida útil das reservas que podem suprir à agroindústria e à população humana estão limitadas a cerca de 60 a 250 anos. Assim, o equilíbrio geopolítico do poder pode ficar abalado quando nações e corporações começarem a competir pelas reservas remanescentes em lugares como Marrocos.

A FAO – órgão das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação acendeu a luz vermelha em fevereiro de 2011 alertando que oitenta países se encontravam em situação de insegurança alimentar. Essa situação pode se agravar, e muito, com a escassez das reservas de fósforo, quando haverá considerável redução na produtividade agrícola em decorrência da falta desse nutriente (vide Lei do Mínimo), principalmente em lavouras de solos tropicais que tem baixas concentrações de fósforo disponível e no decorrer dos ciclos de culturas pode acabar se esgotando.

Surge então uma equação nada fácil de resolver, em que se percebe um cenário global que projeta uma crise de oferta de fósforo, e consequentemente de alimentos, em um futuro não muito distante, podendo culminar em conflitos entre nações pelo domínio das ultimas reservas ou por solos com capacidade produtiva de alimentos.

Será que esse é o destino da humanidade? Padecer por falta de alimento, recorrer a mecanismos como a guerra para garantir a sobrevivência? De acordo com os relatos na literatura existem meios para evitar mais essa tragédia humana. A solução irá exigir um esforço proporcional à magnitude do problema, por exemplo, estudos realizados no Departamento de Ciência do Solo da Universidade Federal de Lavras (DCS/UFLA) procuram uma alternativa para minimizar a necessidade de altas doses de aplicação de fósforo com o uso de bactérias solubilizadoras desse nutriente, enquanto que um outro publicado na renomada revista Nature em 2015 pelo cientista do solo Ronald Amundson e colaboradores apontam que a diminuição das taxas de perda de nutrientes do solo pela erosão hídrica e a reciclagem dos nutrientes são saídas a considerar. Segundo esses autores deve haver parcerias para desenvolver métodos eficientes de reciclagem de nutrientes e sistemas de redistribuição em ambientes urbanos.

Nessa realidade onde a reciclagem é indicada para suprir os nutrientes do solo é aconselhável incentivar o aproveitamento dos resíduos compostáveis e a produção e consumo local de alimentos, uma vez que diminui a demanda por alimentos produzidos pela agroindústria que fatalmente continuará consumindo os fertilizantes das fontes em esgotamento. A reciclagem do fósforo pode ser tomada como a principal saída para contornar a escassez das reservas desse nutriente e evitar a uma grande guerra mundial motivada pela disputa por este recurso.

Outro problema que preocupa nações é a escassez de água potável no mundo. A água doce é uma pequena fração do total existente e uma diminuta parte dessa fração se encontra em rios e lagos, locais onde normalmente o homem usufrui.

A situação fica mais crítica devido à má distribuição espacial e temporal dos recursos hídricos que faz com que algumas áreas sofram permanentemente com a falta de água. Segundo Claudio Hehl Forjaz em seu livro “Água: Substância da Vida” somente 1% da água da Terra é potável, mas a quase totalidade ou é imprópria para o consumo ou está em inacessíveis geleiras.

A água era vista como um recurso inesgotável e ainda dotada de capacidade de autodepuração de todo tipo de contaminante. Esse pensamento levou à poluição e degradação dos recursos hídricos em todos os continentes do mundo, principalmente nos locais mais populosos e que culturalmente tem a água como destino final dos mais diversos resíduos.

Após séculos de utilização da água sem planejamento os recursos hídricos em todo o Mundo sofreram intensa degradação. Nesse contexto surge a preocupação em usar a água de forma sustentável com a proposta de fóruns internacionais para discutir o assunto após a publicação da Carta Européia da Água, na França em 1968. Os principais eventos que sucederam e que discutiram o uso da água no Mundo foram: a Conferência das Nações Unidas, em Estocolmo, no ano de 1972, a Conferência das Nações Unidas sobre a Água, no Uruguai no ano de 1977 e a Declaração de Dublin, na Irlanda em 1992, esta alertava que a água é um recurso esgotável e vulnerável.

Durante e após esse período de conscientização de autoridades começaram a surgir leis que passaram a proteger os recursos hídricos em diversos países. No entanto, muitas vezes a cultura arraigada de desobediência às leis e a busca pelo crescimento a qualquer custo colocou em segundo plano a proteção ao meio ambiente. Claudio Hehl Forjaz em seu livro afirma que o preço da prosperidade das nações é muito alto, podendo resultar em escassez de água potável. O mundo está prestes a viver uma crise de grandes proporções, podendo levar nações inteiras ao desespero, quando não às guerras.

O texto “Conflitos por causa da água” publicado na ‘Revista Horizonte Geográfico’ em abril de 2008 relata que nos últimos 50 anos foram registrados 1831 casos de disputas por água entre países, sendo que a maioria foi resolvida sem que evoluísse para conflitos armados. No entanto, em muitos locais a guerra pela água se tornou realidade, é o caso de vários países do Oriente Médio, em partes da Ásia, na África, Índia, China, Bolívia etc. A água atrai a cobiça daqueles que não podem obtê-la com facilidade e passa a ser considerada, cada vez mais, como um produto de valor.

Segundo o relatório da Organização das Nações Unidas ONU de 1992, por volta do ano 2020 a carência de água vai afetar 2/3 da população mundial. Essa situação pode se agravar em anos posteriores levando a conflitos armados pelo uso deste recurso.

Com o crescimento da população mundial que passa a demandar cada vez mais água, aliado ao agravamento das mudanças climáticas, há quem diga que se a humanidade enfrentar a III Guerra Mundial será decorrente da disputa por este recurso, considerado por muitos como a maior riqueza do terceiro milênio.

A falta de água potável para abastecimento humano é um problema atual que já se verifica em várias partes do mundo, e que, se não tratado com seriedade e com a aplicação de todas as tecnologias já adquiridas, só tende a agravar, portanto se tiver que ocorrer uma guerra mundial motivada por um recurso escasso, será primeiramente em função da demanda por água potável.

Fonte – Fábio José Gomes, EcoDebate de 18 de fevereiro de 2016

Veja onde descartar objetos obsoletos, como celulares e lâmpadas

De um ano para o outro, o seu computador fica obsoleto. O celular passa de item cobiçado a peça pré­ histórica em questão de meses. Imagine se esses produtos, e mais baterias de carro, exames de raio ­X e lâmpadas fluorescentes fossem dispensados como entulho comum

As baterias de carro contêm chumbo, que gera problemas ao sistema nervoso, enfraquece os ossos, causa anemia. Essas substâncias tóxicas podem se instalar em seu corpo de forma simples: uma vez despejadas no solo, têm suas matérias ­primas decompostas, são ingeridas por vermes e minhocas e, em contato com o lençol freático, entram na cadeia alimentar por meio das plantas. Como você é o último componente desse ciclo, consome as substâncias absorvidas ao longo do processo.

As lâmpadas fluorescentes contêm vidro e metal, e são compostas por fósforo e mercúrio. O fósforo favorece o surgimento de câncer e provoca lesões nos rins e no fígado; o mercúrio, se inalado, pode causar dor de cabeça, febre, fraqueza muscular. A esses “poluidores” se unem outros, como computador e pneu, todos com componentes tóxicos na composição.

O Brasil é o país que mais descarta computadores pessoais per capita ­­0,5 kg por habitante­­, segundo dados da Organização das Nações Unidas (ONU). Na China é de 0,2 kg por pessoa.
O número dessas máquinas vendidas no país sobe 15% a 20% ao ano: em 2010, atingiu 13,3 milhões, de acordo com a consultoria IT Data.

No mundo todo, são geradas 40 milhões de toneladas de resíduos eletrônicos anualmente, sendo que apenas 10% passam por reciclagem de forma apropriada.

O trabalho de desmontagem e o reaproveitamento é pouco conhecido por aqui, segundo o Cedir (Centro de Descarte e Reuso de Resíduos de Informática da USP).

Reaproveitamento

Para entender a importância de dar destino certo ao velho aparelho de TV ou ao computador, é preciso se dar conta de que quase 50% dos eletroeletrônicos é composto de plástico e ferro, insumos largamente aproveitáveis. O chumbo volta à ativa como matéria ­prima. O vidro das telas gera cerâmica vitrificada, empregada em pisos.

Grande parte do asfalto vem dos pneus que são dispensados adequadamente. Embora a valorização energética ­­em caldeiras de indústrias, por exemplo seja o principal destino, boa parte deles é utilizada para fazer asfalto ecológico, piso de quadras poliesportivas e artefatos de borracha, como tapetes e sapatos.

Segundo a Reciclanip, entidade responsável pela coleta de pneus e ligada à Anip (Associação Nacional da Indústria de Pneumáticos), em 2010 o Brasil reciclou mais de 300 mil toneladas de pneus, equivalente a quase 62 milhões de unidades de carros.

Onde descartar

Jogar o lixo no lugar certo ajuda a sustentabilidade do planeta porque significa economia e aproveitamento de matéria ­prima. Por isso, alguns países fazem recomendações oficiais para o descarte correto do produto.

No Brasil, uma iniciativa desse tipo seria de grande valia, porque só em São Paulo o volume mensal de compra de óleo é de mais de 20 milhões de litros, segundo pesquisa da Nielsen. Algumas empresas e hospitais fazem a coleta daquilo que já não serve mais para você.

Fonte – Rosana Faria de Freitas, Folha de S. Paulo de 22 de janeiro de 2016

Consumicídio: Acoplamento e Ter Humano

“A marca da cultura de consumo é a redução do ser para ter” – John Piper

“Quando começou a comprar almas, o diabo inventou a sociedade de consumo” – Millôr Fernandes

O consumo se transformou no ideal máximo da felicidade das pessoas. O “Ser humano” se transformou em “Ter humano” (Tavares, 2010). Coincidentemente, o ideal de felicidade dos produtores é atender a demanda dos consumidores e obter muito lucro neste processo. O capitalismo juntou a fome com a vontade de comer. O mundo está dominado pelo consumismo. Ter é mais importante do que Ser, como mostra Fred Tavares (2010):

“Segundo a filosofia, o ser pode ser compreendido de várias maneiras: substância, existência, essência, ser-em-si, ser-no-mundo, ser de razão. Num sentido que aparece na filosofia grega, o ser se opõe ao devir (…) Sorvendo-se dos olhares de Deleuze e Guattari, busca-se refletir o ser humano e as suas transformações psicossociais e culturais, através de uma nova representação: a do ‘ter humano’. Não como uma concepção metafísica da natureza humana, mas, sobretudo, sob uma perspectiva do devir, ou seja, na fluidez e mutabilidade do indivíduo como estratégia de uma virtualidade identitária. O consumidor contemporâneo pode ser classificado como “ter humano”. Pois, o desejo de consumir torna-o uma subjetividade em dobra, inacabada. Incessantemente, transformando-o em uma identidade líquida, fluida e virtual. Na cultura do consumo, o indivíduo passa a ser valorizado e reconhecido mais por ter do que ser, ou pelo menos, do parecer ter”.

Mas o vício consumista depende da generosidade da natureza em fornecer recursos materiais, sendo que o crescimento ilimitado da economia depende da oferta limitada de carvão, óleo, gás natural, minérios, areias raras, madeira, água, fertilidade do solo, peixes, biodiversidade, etc. A economia ecológica ensina que a economia faz parte da ecologia e é impossível a primeira sobrepujar a segunda. Ou seja, o tamanho do espaço ecológico é um determinante que impõe uma limitação intransponível à economia, pois a parte não pode ser maior que o todo. O crescimento do consumo e a multiplicação dos bens e das marcas não pode ocorrer por meio do esgotamento das riquezas do meio ambiente. Josep Maria Galí, autor do libro: “Consumicidio: Ensayo sobre el consumo (in)sostenible” faz uma crítica das condutas do consumo nas sociedades de economia capitalista e à lógica do consumismo (Gali, 2014).

Dito em outras palavras: é impossível manter um crescimento econômico infinito em um Planeta finito. Porém, existem pensadores utópicos ou cornucopianos que consideram ser possível manter o modelo de crescimento do consumo, mas desmaterializando os bens de consumo, quer seja pelo crescimento da sociedade da informação e do conhecimento ou pelo desacoplamento (decoupling) entre bens de consumo e recursos naturais.

A ideia do desacoplamento é tema central do Painel Internacional de Recursos da ONU (UNEP, 2015), que sonha em dissociar os efeitos do crescimento econômico do uso dos recursos naturais e dos seus impactos ambientais. Todavia a realidade tem mostrado que a degradação do patrimônio natural continua concomitantemente ao crescimento da poluição em todas as suas formas. O próprio Painel de Recursos da ONU reconhece que o uso global per capita de materiais (biomassa, combustíveis fosseis, minerais metálicos e minerais não metálicos) continua crescendo, pois era de seis toneladas, em 1970, passou para oito toneladas, em 2000 e chegou a dez toneladas, em 2010. Houve portanto aumento absoluto no uso e abuso dos materiais arrancados das entranhas da Terra. Mas também houve crescimento relativo, pois a quantidade de material (kg) para produzir uma unidade de PIB (US$) passou de 1,2 kg, em 2000 para 1,4 kg, em 2010.

Além disto, o nível de reciclagem é muito baixo e o montante de luxo e lixo é muito alto. Vale a pena ler os textos de Vaclav Smil sobre as ilusões do desacoplamento. Segundo a pesquisadora Maria Amélia Enríquez (ex-presidente da Eco Eco e membro do Painel Internacional de Recursos da ONU), o atual padrão de consumo global é insustentável e somente seria possível assegurar o bem-estar social global, se houvesse forte aumento na eficiência dos recursos, redução na intensidade de uso e aumento de produtividade. Coisa que não está ocorrendo devido ao “efeito rebote” e ao Paradoxo de Jevons.

O relatório “Connecting Global Priorities: Biodiversity and Human Health” (WHO, 2015) da Organização mundial da Saúde, constata:

“Os últimos 50 anos viram melhorias sem precedentes na saúde humana, tal como medido pela maioria métricas convencionais. Este florescimento humano tem, no entanto, sido realizado às custas da degradação extensa dos sistemas ecológicos e biogeoquímicos da Terra. Os impactos das transformações para estes sistemas; incluindo a aceleração da ruptura climática, degradação do solo, crescente escassez de água, a pesca predatória, poluição e perda de biodiversidade; já começaram a impactar negativamente a saúde humana. Se nada for feito essas mudanças ameaçam reverter os ganhos globais de saúde das últimas décadas e provavelmente vai se tornar a ameaça dominante para a saúde durante o corrente século” (p. xi).

Por tudo isto, a economia ecológica ensina que é impossível manter o crescimento das atividades antrópicas no cenário do fluxo metabólico entrópico. Segundo Nicholas Georgescu-Roegen, com base na segunda lei da termodinâmica – lei do aumento da entropia – as transformações naturais ocorrem com o aumento de energia não utilizável para fazer trabalho. O andamento dos processos naturais resulta num constante aumento de energia não aproveitável e do aumento do grau de desordem do sistema. Isto é, há um constante aumento da entropia (e do caos) associado ao processo de produção de bens voltados à felicidade do “Ter humano”.

Há 10.000 anos os seres humanos e seus animais representavam menos de um décimo de um por cento da biomassa dos vertebrados da terra. Agora, eles são 97 por cento (Ron Patterson, apud Alves 2014). Cresceram as áreas ecúmenas e diminuíram as áreas anecúmenas. O domínio humano sobre o Planeta (Antropoceno) está provocando a sexta extinção em massa das espécies. Infelizmente, a proposta dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) pouco faz para alterar a rota rumo ao precipício.

Portanto, tem sido uma ilusão conciliar os imperativos gêmeos da conservação e do desenvolvimento. A ideia do “desenvolvimento sustentável” tem sido apenas um bordão cada vez mais difícil de ser vendido aos cidadãos (transformados em consumidores) do mundo. O desenvolvimento sustentável virou uma contradição em termos. A dependência do consumo transforma a cidadania em doença consumista. Mas o CONSUMICÍDIO pode destruir todo o processo civilizatório que ocorre deste o surgimento do homo sapiens até a sua transformação em homo economicus. A Eco-nomia não pode viver sem a Eco-logia. Ou mudamos o estilo de vida e evitamos a degradação ambiental ou haverá um colapso da vida na Terra.

Referências

ALVES, JED. Para evitar o holocausto biológico: aumentar as áreas anecúmenas e reselvagerizar metade do mundo, Ecodebate, RJ, 03/12/2014

http://www.ecodebate.com.br/2014/12/03/para-evitar-o-holocausto-biologico-aumentar-as-areas-anecumenas-e-reselvagerizar-metade-do-mundo-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/

GALI, Josep M. Consumicídio: Ensayo sobre el consume (in)sostenible. Omniabooks, 2014

https://books.google.com.br/books?id=mBGTAgAAQBAJ&pg=PT2&lpg=PT2&dq=consumicidio+ensayo+sobre+el+consumo+%28in%29sostenible&source=bl&ots=bDX6fcdUas&sig=qcl0PMnikqxtpl9YUq6Axfq1o9M&hl=pt-BR&sa=X&ved=0CEYQ6AEwBWoVChMIrPaqhpHyxwIVQ4GQCh0gCAHa#v=onepage&q=consumicidio%20ensayo%20sobre%20el%20consumo%20%28in%29sostenible&f=false

UNEP. The International Resource Panel (IRP) United Nations Environment Programme,2011

http://www.unep.org/resourcepanel/KnowledgeResources/AssessmentAreasReports/Decoupling/tabid/133329/Default.aspx

TAVARES, Fred. Do Ser Humano ao Ter Humano. O Comportamento do Consumidor e a Teoria do Mosaico Fluído, 22/01/2010

http://www.portaldomarketing.com.br/Artigos2/Do_ser_humano_ao_ter_humano_o_comportamento_do_consumidor_e_a_teoria_do_mosaico_fluido.htm

WHO. Connecting Global Priorities: Biodiversity and Human Health, september 2015

www.cbd.int/health/stateofknowledge/default.shtml.

José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal.

Fonte – EcoDebate de 30 de setembro de 2015