Ser sustentável é mais trabalhoso do que parece

Para Rebecca Henderson, referência em sustentabilidade empresarial, estratégias ambientais podem transformar negócios — desde que cuidadosamente definidas

Depois de uma década no renomado instituto de Tecnologia de Massachusetts, nos Estados Unidos, onde deu aulas sobre o papel da tecnologia nos negócios, e há quase sete anos como professora na escola de negócios da Universidade Harvard, a engenheira britânica Rebecca Henderson está hoje à frente da Iniciativa de Negócios e Meio Ambiente da instituição. Trata-se de um grupo que auxilia executivos a desenvolver estratégias que lhes permitam superar desafios ambientais.

Segundo a especialista, metas genéricas em várias frentes — água, resíduos e emissões, entre outras — tendem a fracassar. Em vez disso, é preciso identificar oportunidades reais de ganhos de acordo com a especificidade do negócio.

Em seu último livro, Leading Sustainable Change: An Organizational Perspective(numa tradução livre, “Liderando uma mudança sustentável: uma perspectiva organizacional”), ela defende que negócios baseados em investimentos sustentáveis já se provaram bem-sucedidos, mas que muitas empresas não conseguem aplicá-los por causa de executivos descomprometidos com o tema, processos internos pouco eficientes e ausência de propósito. Rebecca virá a São Paulo em novembro para o evento HSM ExpoManagement, e, de Boston, falou a EXAME por telefone.

EXAME: Existe uma estratégia de sustentabilidade básica que se aplique a qualquer empresa?

Rebecca Henderson: Não há, absolutamente, nenhuma estratégia genérica que funcione. Toda empresa precisa pensar meticulosamente na sustentabilidade com base em suas características. Para algumas companhias, sustentabilidade diz respeito aos fornecedores, ou seja, garantir que vão ter os insumos e serviços de que precisam no curto e no longo prazo. No agronegócio, as mudanças climáticas tornaram a produção sustentável um imperativo de sobrevivência e de crescimento.

Já as empresas de bens de consumo precisam estar atentas ao que pode ser associado à imagem de suas marcas. Há ainda os casos em que essa estratégia diz respeito à inovação e ao preço: negócios como o site Airbnb, de aluguel de casas e apartamentos, tornaram-se multibilionários ao encontrar clientes por meio de caminhos inusitados e disruptivos.

EXAME: A senhora diz que há modelos de negócios que, baseados na sustentabilidade, podem elevar a lucratividade das empresas. Que modelos são esses?

Rebecca Henderson: Um deles está centrado na eficiência operacional, isto é, no uso de sistemas inteligentes de gestão que permitem economizar insumos, como combustíveis. O varejista Walmart hoje consegue economizar 1 bilhão de dólares por ano em sua rede logística dessa maneira.

Outro modelo nasce de uma boa política de prevenção e gestão de riscos. Temos visto muitas empresas em busca de insumos de origem sustentável — como óleo de palma, soja, couro e carne bovina. O objetivo delas é proteger suas marcas das polêmicas que giram em torno dessas matérias-primas, que pode lhes custar muito. Há ainda aquelas cujos produtos sustentáveis estão no cerne do negócio. É o caso do varejista Whole Foods e da fabricante de carros elétricos Tesla.

EXAME: Esses exemplos são casos isolados ou podemos falar em uma tendência?

Rebecca Henderson: O caso da fabricante de bens de consumo Unilever é emblemático. Em 2010, para evitar ter sua marca de chás Lipton associada a questões como  desmatamento e violações dos direitos humanos, ela se comprometeu a vender apenas chá de origem certificada. Já havia ali um entendimento de que não se posicionar sobre o tema poderia fazê-la perder uma parcela de seu mercado. A empresa atualmente responde por cerca de 30% das vendas de chá em vários países do mundo.

Quando essa decisão foi tomada, não estava muito claro de que maneira isso era um bom negócio. Mais tarde, porém, os executivos da empresa descobriram que era possível ampliar sua participação em mercados estratégicos, como Itália e Índia, uma vez que esse tipo de mensagem, de fato, atrai o consumidor de hoje. Conclusão: num negócio com pouquíssima margem para diferenciação — um saquinho de chá é apenas um saquinho de chá —, a Unilever se deu muito bem.

EXAME: A correlação entre sustentabilidade e lucro ainda não é um consenso. Estamos perto de comprovar isso?

Rebecca Henderson: As muitas pesquisas feitas nos últimos anos nessa seara sugerem que empresas movidas por um propósito podem ser mais produtivas e inovadoras do que suas concorrentes. Mas, se a pergunta é se já existe uma evidência indiscutível de que uma empresa orientada pela premissa da sustentabilidade lucra mais, a resposta é: não, essa evidência ainda não existe. Por outro lado, também não há evidência indiscutível de que a sustentabilidade diminui a lucratividade, o que é uma ótima notícia. Afinal, estamos falando de empresas  que estão fazendo a coisa certa sem perder dinheiro por isso.

EXAME: A senhora associa propósito e sustentabilidade. Mas para muitos executivos, propósito é um conceito etéreo. Como torná-lo mais concreto?

Rebecca Henderson: Uma empresa movida por um propósito é aquela que tem objetivos que ultrapassam a maximização do lucro. E há uma correlação direta entre propósito e cultura de uma companhia — e é isso que vai determinar quanto a visão de sustentabilidade permeia um negócio ou não. Prova disso é o fato de que um dos aspectos mais importantes para a produtividade nas empresas é o engajamento dos funcionários — e isso depende de altos níveis de confiança entre chefes e equipes.

Em empresas nas quais o nível de confiança é muito baixo, os funcionários são menos previsíveis, menos produtivos e, por consequência, menos confiáveis. Acredito que é possível gerir esses ambientes de maneira diferente — e isso passa por um relacionamento transparente com funcionários e fornecedores. Em outras palavras, isso tem a ver com cultura — um conceito difícil, mas importante no mundo dos negócios. É preciso mostrar que há uma correlação clara entre os valores de fundação de uma empresa e seu desempenho.

EXAME: Há setores que estão mais aptos que outros a fazer essa transição para modelos de negócios sustentáveis?

Rebecca Henderson: Empresas de agronegócio, de bens de consumo e, sobretudo, de energia estão liderando esse movimento. Algumas das maiores companhias de energia do mundo têm sido bastante sistemáticas em seus investimentos em fontes renováveis. Ao mesmo tempo em que respondem a desafios ambientais, sobretudo ao aquecimento global, essas empresas estão reduzindo o risco associado a seu portfólio — e antecipando mudanças regulatórias previstas, como a taxação do carbono.

É claro que, com isso, não quero dizer que uma petroleira como a Chevron vai se transformar na nova Patagônia (empresa americana de artigos esportivos que desincentiva o consumo desenfreado).

EXAME: Empresas sustentáveis tendem a ser mais inovadoras?

Rebecca Henderson: Uma das vantagens estratégicas da sustentabilidade é o potencial que esse tema tem de se desdobrar em inovações. Ela gera novos mercados, novos produtos, novos tipos de cliente, diferentes fontes de lucro. Em empresas movidas por um propósito — e não só por lucro — o nível de abertura à inovação tende a ser mais alto. Isso lhes rende uma capacidade muito maior de lidar com dificuldades e conflitos gerados por mudanças drásticas, a exemplo do que aconteceu recentemente com os mercados de transporte e hotelaria.

Não quero com isso dizer que toda companhia pode lucrar muito por meio de estratégias de sustentabilidade, mas que isso é um caminho para muitas delas. As empresas de energia Schneider Electric e General Electric são bons exemplos: hoje constroem negócios bilionários a partir da demanda por eficiência energética.

Fonte – Renata Vieira, Exame de 27 de outubro de 2016

Objetivos do desenvolvimento sustentável no Antropoceno

Nosso planeta está passando por uma série de processos de transformação muito fortes e rápidos, com o potencial de dificuldades importantes para as gerações futuras em termos de viabilidade como sociedade sustentável.

Certamente estamos caminhando neste início de Antropoceno a um planeta com clima mais instável e violento, além da evidente escassez de recursos naturais. E somos nós que estamos promovendo tais mudanças, muitas das quais sequer nos demos conta.

Nosso planeta Terra tem uma história longa, de cerca de 4,5 bilhões de anos. O homem moderno só apareceu muito recentemente (200 mil anos atrás), e a civilização tal qual a conhecemos hoje existe há apenas 6 mil anos, minúsculo intervalo na vida de nosso planeta.

Foi, contudo, nesse último milênio, que o nosso planeta passou por mudanças significativas, estando hoje muito diferente do que era àquela época.

Mudanças no uso do solo em larga escala tiveram início no desenvolvimento da agricultura, inicialmente em pequena escala, mas que hoje tomaram proporções planetárias.

A partir do século 19, o homem descobriu que queimar carvão, petróleo ou gás natural poderia produzir trabalho mecânico, e com esta descoberta na Inglaterra teve início a revolução industrial, que tantos progressos trouxe à humanidade.

Porém, com o progresso vieram também os problemas, e um deles é o uso excessivo de recursos naturais como água, minerais, combustíveis fósseis e outros, que são finitos.

Com uma crescente população de 7 bilhões de pessoas em 2016, cuja estimativa é que tenhamos cerca de 10 bilhões de pessoas em algumas décadas, é fundamental pensarmos na sustentabilidade do planeta a longo prazo.

“Certamente estamos caminhando neste início de Antropoceno a um planeta com clima mais instável e violento, além da evidente escassez de recursos naturais”

Entre as 9 milhões de espécies biológicas em nosso planeta, somos uma única, controlando a biosfera da Terra, a tal ponto que estamos alterando a composição da atmosfera e o clima de nosso planeta, com fortes consequências para todas as 9 milhões de espécies.

Áreas enormes das Américas, Europa e Ásia que eram florestas, há alguns séculos, hoje são áreas cultivadas ou com estradas e áreas urbanas, o que significa forte mudança no uso do solo, com reflexos em várias propriedades que regulam o clima do planeta, tais como o balanço radioativo.

Hoje, temos cerca de 1,3 bilhão de automóveis circulando na Terra; estima-se que podemos ter 2 bilhões de automóveis em algumas décadas. Parece claro que não se pode continuar dessa forma, pois estamos esgotando rapidamente os finitos recursos naturais de nosso planeta.

Para estudar essa questão, um grupo de cientistas mundiais fundou uma atividade chamada em inglês de Future Earth, ou “Terra Futura” (site:http://www.futureearth.org/). Essa iniciativa visa a entender como o desenvolvimento de nosso planeta pode se tornar sustentável a longo prazo.

O objetivo do Future Earth é produzir o conhecimento científico necessário para minimizar os riscos das mudanças climáticas globais e realizar a transição para a sustentabilidade global, se é que isso pode ser possível.

Garantir a sustentabilidade de nossa sociedade vai envolver fortes mudanças de atitude de e para todos nós. A enorme desigualdade na distribuição das riquezas de nosso planeta traz instabilidade política, econômica e social, e é preciso minimizá-la para evitar conflitos ainda mais sérios.

Com estas preocupações em mente, as Nações Unidas estruturaram os chamados “Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS)”, que consistem em um conjunto de metas acordadas pelos 193 países membros da ONU, visando ao desenvolvimento sustentável de nosso planeta a longo prazo.

“Hoje, temos cerca de 1,3 bilhão de automóveis circulando na Terra; estima-se que podemos ter 2 bilhões de automóveis em algumas décadas”

Este é um dos resultados da Rio+20, e entraram em vigor em 1 de janeiro de 2016, com um prazo de realização até 31 de dezembro de 2030. Para cada ODS, são estruturados 169 metas e indicadores globais de acompanhamento da implementação dos ODS. Os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável são:

  1. Acabar com a pobreza em todas as suas formas, em todos os lugares
  2. Acabar com a fome, alcançar a segurança alimentar, melhorar a nutrição
  3. Assegurar uma vida saudável e promover o bem-estar para todos
  4. Garantir educação inclusiva, equitativa e de qualidade
  5. Alcançar a igualdade de gênero e empoderar todas as mulheres e meninas
  6. Garantir disponibilidade e manejo sustentável da água
  7. Garantir acesso à energia barata, confiável, sustentável
  8. Promover o crescimento econômico sustentado, inclusivo e sustentável
  9. Construir infraestrutura resiliente, promover a industrialização inclusiva
  10. Reduzir a desigualdade entre os países e dentro deles
  11. Tornar as cidades e os assentamentos humanos inclusivos, seguros, resilientes
  12. Assegurar padrões de consumo e produção sustentáveis
  13. Tomar medidas urgentes para combater a mudança do clima
  14. Conservar e promover o uso sustentável dos oceanos
  15. Proteger, recuperar e promover o uso sustentável das florestas
  16. Promover sociedades pacíficas e inclusivas para o desenvolvimento sustentável
  17. Fortalecer os mecanismos de implementação e revitalizar a parceria global

A figura abaixo ilustra de modo pictórico estes ODS, que são abrangentes e visam a construir uma nova sociedade em nosso planeta.

Estes objetivos fazem parte da Agenda 2030 para o desenvolvimento sustentável, estruturado pela ONU, onde desenvolvimento sustentável é definido como o desenvolvimento que procura satisfazer às necessidades da geração atual, sem comprometer a capacidade das futuras gerações de satisfazerem as suas próprias necessidades.

“Garantir a sustentabilidade de nossa sociedade vai envolver fortes mudanças de atitude de e para todos nós”

Desenvolvimento sustentável demanda um esforço conjunto para a construção de um futuro inclusivo, resiliente e sustentável para todas as pessoas e todo o planeta.

A questão das mudanças climáticas é um ponto central, onde se observa que a mudança do clima já impacta a saúde pública, segurança alimentar e hídrica, migração, paz e segurança.

A mudança do clima, se não for controlada, reduzirá os ganhos de desenvolvimento alcançados nas últimas décadas e impedirá possíveis ganhos futuros. As ações relacionadas à mudança do clima darão impulso ao desenvolvimento sustentável.

Se conseguirmos atingir a maior parte destes ODS, teremos um planeta mais igualitário, justo e sustentável. Os ODS, embora de natureza global e universalmente aplicáveis, dialogam com as políticas e ações nos âmbitos regional e local.

Na disseminação e no alcance das metas estabelecidas pelos ODS, é preciso promover a atuação dos governantes e gestores locais como protagonistas da conscientização e mobilização em torno dessa agenda global.

Paulo Artaxo é professor do Instituto de Física da Universidade de São Paulo.

Fonte – Jornal da USP / EcoDebate de 24 de junho de 2016

Cartilha ensina técnicas de bioconstrução

O material foi criado pelo MMA.

A bioconstrução se baseia no princípio de que é possível construir tendo um impacto ambiental muito baixo. Para promover este conceito e apresentar técnicas práticas, o Ministério do Meio Ambiente disponibiliza gratuitamente uma cartilha on-line para capacitação e informação acerca do tema e suas devidas metodologias.

Apesar de ter sido criado para um curso do Programa de Apoio ao Ecoturismo e à Sustentabilidade Ambiental do Turismo – Proecotur, o material é extremamente útil para quem deseja entender melhor a bioconstrução e conhecer detalhes de diferentes técnicas sustentáveis e ambientalmente corretas de construção.

Um dos intuitos desta cartilha é oferecer opções para que as comunidades tenham autonomia e sejam capazes de, através de técnicas tradicionais, garantirem suas necessidades sem a dependência de outros grupos. Neste sentido, o primeiro passo é pensar além do comum, é enxergar todos os materiais, sejam eles naturais ou residuais como matéria-prima em potencial.

Utilizar materiais locais, como terra, pedra, palha e madeira é outro ponto de destaque na cartilha. Com esta mudança de paradigmas, o programa passa para a segunda etapa, a observação das condições climáticas, para que os elementos naturais, como o sol e o vento, sejam usados como aliados na obra.

A apresentação de diferentes técnicas tradicionais e eficientes para a construção forma o terceiro bloco de instruções. Superadobe, adobe, COB, taipa de mão, taipa de pilão, são apenas algumas das metodologias apresentadas com detalhes e exemplos práticos. Os cuidados necessários com o abastecimento e saneamento também estão detalhados no material.

O livreto é indicado para qualquer pessoa que queira aprofundar seus conhecimentos acerca da bioconstrução e também para quem deseja iniciar uma obra sustentável e não sabe por onde começar. Além de ter menos impactos ambientais, este tipo de construção custa muito menos do que as tradicionais.

Fonte – CicloVivo

Manual de permacultura

A permacultura se baseia no planejamento de sistemas em escala humana criados em total harmonia com a natureza.

A permacultura é um conceito diretamente ligado à sustentabilidade. Criado na década de 70, pelos ecologistas australianos Bill Mollison e David Holmgren, a ideia se baseia no planejamento de sistemas em escala humana criados em total harmonia com a natureza.

Logo que os idealizadores apresentaram o conceito em uma rádio australiana, a metodologia atraiu cada vez mais interessados. Logo eles estavam compartilhando os princípios em eventos acadêmicos em todo o mundo, espalhando a ideia de que é possível viver cuidando da Terra e das pessoas.

A inspiração de Mollison surgiu a partir de uma inquietação de que o ser-humano é um dos grandes culpados por boa parte dos problemas que afetam todo o planeta Terra. “Não temos desenvolvido em nenhum lugar do mundo ocidental (e duvido muito que em qualquer outro lugar, a não ser em áreas tribais) nenhum sistema sustentável de agricultura ou manejo de florestas. Nós não temos um sistema”, diz o australiano no manual “Introdução à Permacultura”.

A partir daí e com a observação e experiência das comunidades aborígenes, ele passou a desenvolver um formato ideal, que permite uma harmonia em termos de habitação, produção de alimentos, economia e cuidado com os recursos naturais.

O manual de introdução à permacultura foi desenvolvido com base em um curso ministrado por Mollison em 1981. Dividido em 15 panfletos, o material apresenta soluções sustentáveis para os mais diversos tipos de ambientes, mostrando como é possível aproveitar os recursos naturais sem interferir em sua manutenção, independente se a área disponível está na montanha ou à beira do mar. Existem soluções para todos os tipos de espaços e necessidades.

Se você tem interesse em saber mais sobre o conceito de permacultura e entender como ele pode ser aplicado, leia o manual completo acima.

Fonte – CicloVivo

Crescimento e demografia em xeque

Gary Gardner, Tom Prugh e Michael Renner, diretores do projeto O Estado do Mundo 2015, do Worldwatch Institute, criticam a busca incessante do crescimento pelos países ricos.

O estudo usa a expressão “ameaças veladas à sustentabilidade”. Que ameaças são essas? As informações sobre a crise ambiental já não são bem conhecidas?

A consciência a respeito das muitas ameaças ambientais de fato aumentou nos últimos anos, e as pesquisas comprovam a vontade das pessoas ao redor do mundo para enfrentá-las. Mas frequentemente falta senso de urgência que responda à gravidade das ameaças. Além disso, muitas questões de sustentabilidade subjacentes são premissas – sobre a viabilidade do crescimento econômico infinito e o papel da energia barata, por exemplo – que ainda não foram examinadas. Confrontar esses pressupostos de forma aberta e direta é essencial para criar um caminho rumo a um futuro sustentável.

Que mensagens este estudo de 2015 traz como substancialmente novas em relação aos anos anteriores?

Destacamos três. A primeira, de que os danos ambientais têm um impacto econômico muito subestimado. A noção de stranded assets – ativos que poderão nunca ser aproveitados por motivos ambientais – estão levando os principais analistas financeiros a reavaliar carteiras de investimento em todo o mundo. Um exemplo são as reservas de petróleo, que podem nunca ser bombeadas por causa de questões climáticas. A escassez de água na China está levando ao abandono de lavouras e hidrelétricas. Como as condições ambientais vão se deteriorar em muitas regiões e de forma global, carteiras de investimento vão sofrer. A segunda refere-se à preocupação de que mais de 60% das 400 doenças infecciosas em seres humanos que surgiram nos últimos 70 anos foram de origem animal. Essa transmissão é cada vez mais provável com o crescimento do comércio internacional e as viagens, a pecuária intensiva, e a ocupação humana de áreas selvagens. E a terceira é de que o crescimento econômico, por muito tempo um objetivo político de governos nacionais, pode já não ser aconselhável, pelo menos nos países ricos, em que grandes economias continuam a ultrapassar os limites ambientais. Há anos que ativistas pedem o não-crescimento, mas agora pesquisadores acadêmicos no Canadá demonstraram que esse objetivo pode ser gerido de uma forma que reduza o emprego, aumente a equidade, freie as emissões de carbono e outros danos ambientais. Os países pobres ainda precisam crescer para gerar prosperidade e oportunidade para o seu povo, mas os ricos devem encontrar maneiras de manter um elevado nível de bem-estar para a população, em vez de uma produção cada vez maior de bens por pessoa.

O estudo cita Naomi Klein para frisar que o grande nó está no sistema econômico dominante – o capitalismo e a busca do crescimento, ainda que “verde”. Que revisões ou reformas estruturantes são necessárias neste sistema, e até que ponto são viáveis?

Em primeiro lugar, é preciso redescobrir o papel essencial da formulação de políticas de interesse público. Para isso é preciso afastar-se da ideia de que as forças do mercado vão resolver os problemas sociais e ambientais. Isso exige que as empresas privadas não cresçam tanto a ponto de ficar mais poderosas do que órgãos dirigentes democraticamente eleitos. Em segundo, precisamos transformar as normas pelas quais as empresas privadas são regidas – passando do interesse restrito ao acionista para o amplo interesse dos stakeholders, que incluem os trabalhadores, as comunidades impactadas pelas empresas e o ambiente natural. Temos visto o surgimento das “B-corp”, mas ainda são raras. Outras alternativas são as empresas controladas pelos trabalhadores e as cooperativas. Mas isso requer apoio dos governos e do público para ser bem-sucedido.

O estudo coloca a civilização humana como vítima de seu sucesso. Os avanços tecnológicos permitiram expandir a população e a pressão sobre recursos naturais. Para reduzir essa pegada, basta recorrer novamente à tecnologia, ou uma diminuição demográfica se faz necessária?

O número de pessoas que a Terra pode suportar depende muito da maneira como as pessoas querem viver. Nações ricas, auxiliadas por tecnologia e energia abundante, conseguiram um estilo de vida material outrora inimaginável, mas, depois de um certo nível, o aumento de felicidade não seguiu o mesmo ritmo do aumento da riqueza. Usada com sabedoria, a tecnologia pode ajudar a aliviar a crescente pressão sobre a biosfera, mas provavelmente não será capaz de criar uma civilização sustentável até que o número de seres humanos decline. O objetivo deve ser o de atingir um menor número de pessoas ao longo do tempo buscando a equidade na distribuição da riqueza, melhor educação e oportunidades econômicas para as mulheres, e outras políticas de “aterrissagem suave”.

Fonte – Amália Safatle, Página 22 de 02 de fevereiro de 2016

Globo Rural conta a vida e a obra da agrônoma Ana Maria Primavesi

Assista, clicando aqui.

Manejo ecológico dos solos é o centro do trabalho de Primavesi. Em mais de 60 anos de carreira, ela escreveu livros e ganhou prêmios.

Focando seu trabalho no manejo ecológico dos solos, Ana Maria Primavesi é a agrônoma que desvendou mistérios da vida no solo. Seu estudo é um ponto de virada da agricultura tropical. Ao longo de mais de 60 anos de carreira, ela deu aulas, escreveu livros, fez conferências e ganhou prêmios em vários países.

A doutora Primavesi, hoje com 92 anos, passou a vida toda no campo, estudando e aprendendo com a natureza. Ao longo da carreira, ela sempre defendeu uma agricultura natural, sem agrotóxico e que valoriza a vida no solo. “Para mim é fascinante como a terra melhora, como a água nasce, como tudo está se desenvolvendo. A minha paixão é o solo, porque tudo depende do solo, inclusive os homens”, explica.

A renomada cientista nasceu em um vilarejo na Áustria. De família nobre, teve educação de qualidade, com muita leitura e estudo de várias línguas. Vivia em um ambiente ao mesmo tempo sofisticado e muito ligado às coisas simples do campo. A propriedade em que morava era também uma fazenda, com gado de leite, trigo e outros produtos.

Segundo a geógrafa e professora, Virgínia Knabben, que está escrevendo um livro sobre Primavesi, o contato com a agricultura, desde cedo, foi fundamental para que ela resolvesse estudar agronomia e ciências florestais na Universidade Rural de Viena e, posteriormente, fizesse um doutorado sobre nutrição de plantas e solos.

Em 1946, Ana se casou com Artur Primavesi, de quem pegaria o sobrenome. Quando chegaram ao Brasil, em 1949, ambos começaram a trabalhar como agrônomos, dando início a uma relação profunda com o mundo rural brasileiro.

Visitando fazendas, conversando com agricultores, aos poucos, o casal aprendeu português e começou a escrever livros e manuais. Ao longo da vida, a doutora Primavesi publicou 12 livros e 94 textos e artigos científicos inéditos.

Para o agrônomo João Pedro Santiago, o pensamento de Primavesi é um marco na agricultura tropical e começa com uma ideia simples: o agricultor deve valorizar a vida do solo. “O solo orgânico pode ter, em um punhado de terra, até cinco bilhões de seres vivos, desde os grandes, como minhocas, até bactérias, fungos e algas. É um universo de vida e quem fez a gente enxergar isso foi a Primavesi. Na época em que ela começou a defender essas ideias, o foco era dado apenas para a adubação química e o para o veneno”, conta.

Segundo Primavesi, as plantas que crescem em um ambiente rico em matéria orgânica ficam mais fortes e mais resistentes ao ataque de pragas e doenças. Ela é totalmente contra ao uso de agrotóxicos. “Quando você tem um ambiente em que não usa veneno, a vida é diversificada, uns competem com os outros. É um controle biológico natural. Quando você joga veneno, vira praga. O tóxico mata a vida”, defende.

De todos os livros da doutora Primavesi, o mais famoso é o “Manejo ecológico do solo”, lançado em 1979. Com força e pioneirismo, as ideias da agrônoma se espalharam pelas faculdades de agronomia e se tornaram referência obrigatória, principalmente para quem estuda manejo de solos e agricultura orgânica.

Os ensinamentos de Primavesi

A mensagem da doutora Primavesi também entrou no dia-a-dia de agricultores de várias regiões do Brasil. É o caso do produtor orgânico Fernando Ataliba. Em seu sítio de 36 hectares, em Indaiatuba, interior de São Paulo, ele planta hortaliças, frutas e grãos.

No sítio de Fernando estão vários exemplos concretos do que ele chama de “manejo Primavesi”. Por exemplo, em todos os cultivos, as entrelinhas devem estar sempre cobertas, o que ajuda a manter o solo úmido, fofo e fresco. “Tudo isso enriquece a vida do solo, que vai sendo alimento de fungos e bactérias. Quanto mais formas de vida, mais saudável e mais sustentável ele fica”, explica o agricultor.

Outra recomendação de Primavesi adotada no sítio é a rotação de culturas. A prática é positiva para a saúde do solo e também ajuda no controle de pragas e doenças. Além de não usar veneno industrial, Fernando evita também as caldas e defensivos orgânicos.

Outra dica de manejo, particularmente importante para a agricultura tropical, é o uso de quebra-vento. “O vento constante desidrata as plantas, carreia a umidade do solo e das folhas, fazendo as plantas se estressarem com essa situação”, explica Fernando.

Com todos esses cuidados e seguindo à risca as ideias da doutora Primavesi, a propriedade vem conseguindo resultados positivos em termos de produção. “Respeitando o equilíbrio do solo e a natureza das plantas, nós conseguimos explorar todo o potencial genético das plantas. Isso quer dizer que eu estou produzindo acima da produtividade convencional um produto de alta qualidade”, garante Fernando.

Fonte – Globo Rural

Insetos elevam produtividade agrícola

Visitantes da flor de café na Chapada Diamantina baiana: A) besouro, B) vespa, C) abelha e D) borboleta

Visitantes de flores de maçã na Chapada Diamantina: A) besouro, B) vespa, C) abelha e D) borboleta

Estudo em 12 países indica que abelhas e outros polinizadores respondem por 24% do ganho em pequenas propriedades

Embora estejam mais escassos no campo, por causa da redução da área das matas e do uso intensivo de fertilizantes químicos, as abelhas e outros insetos polinizadores respondem em média por 24% do ganho em produtividade agrícola em pequenas propriedades rurais (até 2 hectares). Os outros 76% estão associados à irrigação e a nutrientes e técnicas de cultivo, de acordo com estudo publicado na revista Science no dia 22 de janeiro. Segundo esse trabalho, quanto maior o número de polinizadores, maior tende a ser a produtividade agrícola, principalmente nas pequenas propriedades.

A pesquisa foi financiada pelo Fundo Mundial para o Meio Ambiente (GEF) da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), integra-se ao Projeto Polinizadores do Brasil,do Ministério do Meio Ambiente e foi coordenado por Lucas Garibaldi, da Universidade Nacional de Rio Negro e diretor do Instituto de Investigaciones en Recursos Naturales, Agroecología y Desarrollo Rural, da Argentina, com a participação de 35 pesquisadores de 18 países, incluindo o Brasil, por meio de 12 instituições de pesquisa de oito estados.

Estudos anteriores já haviam ressaltado a importância dos polinizadores para a agricultura (ver Pesquisa FAPESP nº 171) e fornecido uma estimativa dos ganhos de produtividade com polinização por abelhas, equivalente a 10% do valor da produção agrícola mundial (ver Pesquisa FAPESP nº 218). Não existiam, no entanto, análises numéricas tão detalhadas sobre os benefícios econômicos dos polinizadores auferidas pelos mesmos critérios em escala mundial.

Nesse trabalho, os pesquisadores analisaram o número de polinizadores, a biodiversidade e o rendimento de 33 cultivos dependentes de polinizadores (maçã, pepino, caju, café, feijão, algodão e canola, entre outras) em 334 propriedades pequenas e grandes da África, Ásia e América do Sul durante cinco anos (2010-2014), por meio de métodos padronizados e uniformes. Nos 12 países analisados, o rendimento agrícola cresceu de acordo com a densidade de polinizadores, indicando que, inversamente, populações reduzidas de abelhas e outros insetos poderia ser parcialmente responsável pela queda de produtividade.

“Demonstramos o potencial do aumento da densidade de polinizadores como forma de aumentar a produtividade agrícola”, disse Antonio Mauro Saraiva, coordenador do Núcleo de Pesquisa em Biodiversidade e Computação (Biocomp) e professor da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli-USP), que participou do trabalho de organização, registro e análise dos bancos de dados. “Nesse trabalho testamos duas hipóteses, o efeito do aumento da densidade de polinizadores e da riqueza de espécies”, disse ele. Para as pequenas propriedades, o ganho de produtividade dependeu da quantidade de polinizadores e não esteve ligado à diversidade desses animais na propriedade. Para as grandes fazendas, em contrapartida, a única forma de se tornarem mais produtivas seria aumentar tanto a quantidade de polinizadores quanto a diversidade de plantas e animais na área cultivada.

“O que mais contribuiu para a diferença entre as taxas de produção mais altas e mais baixas foi o aumento na densidade de polinizadores”, disse Leandro Freitas, pesquisador do Jardim Botânico do Rio de Janeiro e um dos autores do trabalho. “O incremento no uso de técnicas convencionais de intensificação agrícola, como o uso de fertilizantes sintéticos e monoculturas, apresentou uma contribuição equivalente à dos polinizadores.”

Freitas examinou o cultivo de tomates no norte do estado do Rio de Janeiro com a equipe de Maria Cristina Gaglianone, da Universidade Estadual do Norte Fluminense. “O grau de informação técnica dos produtores era muito baixo”, ele observou. “Muitos não sabiam que a visitação das flores por abelhas estava relacionada à produção dos tomates.” Um estudo recente da equipe de Breno Freitas, professor da Universidade Federal do Ceará e também coautor do estudo da Science, indicou que a soja, como o tomate e outros cultivos, não depende de polinizadores, mas pode aumentar sua produtividade com eles.

Garibaldi, o coordenador do trabalho, percorreu as plantações de framboesa da Patagônia e observou: “A visão dos agricultores tem mudado nos últimos anos, mas ainda não dão muita importância aos polinizadores. A prioridade é o retorno econômico de curto prazo, sem uma visão de longo prazo.” Ele ressaltou: “Existem alternativas ao modelo mais adotado de produção agrícola, com base em monocultura e fertilizantes”.

Os autores do artigo da Science ressaltam o conceito de intensificação ecológica, que consiste em adotar medidas de promoção da biodiversidade capazes de aumentar a produtividade agrícola, sem abandonar as práticas convencionais. Essas medidas podem oferecer condições de vida mais amigáveis aos polinizadores, como o plantio de plantas com flores em faixas dos terrenos ou à margem das estradas, a construção de cercas-vivas, a redução do uso de pesticidas e a recuperação das matas nativas próximas aos cultivos. Em um artigo de 2014 na Frontiers in Ecology and the Environment, Garibaldi e sua equipe detalham as possibilidades de implantar essas e outras medidas para ampliar a densidade de polinizadores nas propriedades rurais.

“O próximo passo é implementar essas práticas agroecológicas”, disse Garibaldi. “Aproveitamos todas as oportunidades para apresentar essas possibilidades, para escutar e aprender.” A próxima oportunidade será na quarta reunião da Plataforma Internacional para Biodiversidade e Serviços Ambientais (IPBES), um órgão intergovenamenal criado em 2012 e aberto a todos os países membros das Nações Unidas, marcada para os dias 22 a 28 de fevereiro em Kuala Lumpur, Malásia.

Artigos

GARIBALDI, L. A. ​et al. Mutually beneficial pollinator diversity and crop yield outcomes in small and large farms. Science, v. 351, n. 6271, 22 jan. 2016, p. 388-391.

GARIBALDI, L. et al. From research to action: enhancing crop yield through wild pollinators. Frontiers in Ecology and the Environment, v. 12, n. 8, p. 439–447, 2014.

MILFONT, M. de O et al. Higher soybean production using honeybee and wild pollinators, a sustainable alternative to pesticides and autopollination. Environmental Chemistry Letters, v. 11, n. 4, p. 335-341, 2013.

Fonte – Revista Pesquisa FAPESP

Terra de Ninguém

“Eu sou ninguém. E você?/ É ninguém também?/ Tornamo-nos par, hein? Segredo/ Ou mandam-nos pro degredo/ Que enfadonho ser alguém!” Emily Dickinson, Uma centena de poemas.

Quem são os donos da Amazônia? Não se sabe ao certo. Quem possui determinada área e onde? Não se sabe ao certo também. Em regra, não se sabe quem são os proprietários de terras amazônicas, e não existe um controle efetivo sobre as dimensões das terras. Isso estimula o desmatamento ilegal, a violência, e a grilagem de terras amazônicas por dificultar a responsabilização dos infratores.

A tentativa de regularizar as terras no Brasil é antiga, tendo se iniciado no século XIX. Com a Lei nº. 601 (Lei de Terras) de 1850, proprietários e possuidores de terras deveriam cadastrar as suas propriedades ou posses junto aos vigários das paróquias. Uma mera declaração bastava, ou seja, documentos ou a medição da área não eram necessários. Mesmo sem converter posse em propriedade, essa primeira iniciativa governamental mostra a falta de controle histórico sobre as terras brasileiras.

Primeiro, pelo improviso. Uma atividade profissional é delegada aos párocos das Igrejas locais, cuja prioridade certamente não era a regularização fundiária. Segundo, pela histórica confusão público-privado. Terceiro, pelo resultado. O caráter declaratório do cadastro não resolvia conflitos existentes e possibilitava, como ocorreu, o surgimento de mais conflitos e fraudes.

Nova iniciativa de resolver o problema fundiário brasileiro ocorreu com o Estatuto da Terra. Aí as exigências documentais foram maiores. Mas, para a Amazônia, cuja colonização ocorreu nos anos 70, a lei foi insuficiente para o problema em formação.

Novas iniciativas desenvolvidas nos anos de 1997, 1999, 2001 e 2004 apresentaram melhores resultados, por exemplo, a recuperação de 20 milhões de hectares de terras públicas. Os resultados, porém, são insuficientes, seja pela quantidade de processos arquivados sem resolução, seja pela demora na efetiva regularização fundiária.

Na área estadual, a situação é similar. Embora estados amazônicos tenham desenvolvido sistemas de monitoramento e licenciamento ambiental de propriedades rurais, o que requer o cadastramento das propriedades rurais em tais sistemas, nem sempre se consegue um alto índice de adesão ao sistema.

O Estado de Mato Grosso, por exemplo, tem um sistema, o SIMLAM, amplamente considerado como modelo para sistematizar o registro de propriedades rurais e licenciamento do uso da terra. Até 2011, apenas 30% das áreas das propriedades privadas rurais estavam registradas no SIMLAM, estimulando (nas propriedades não cadastradas) novos desmatamentos ilegais, a emissão de gases de efeito estufa além da impunidade.

Uma verdade: a falta de um registro de propriedades e posses na Amazônia estimula a “grilagem de terras”. O termo grilagem de terras vem do grilo, um inseto, que era colocado entre documentos falsos de terras para produzir o envelhecimento do título de propriedade. Algumas características desses títulos fraudados são: a) a apropriação usual de terras públicas por particulares; b) a utilização de violência na apropriação dessas terras, sobretudo, contra posseiros, ribeirinhos e outros membros de comunidades tradicionais.

A grilagem agrava ainda mais a deficiente regularização fundiária amazônica, pois cria novas situações de fato que carecerão de resolução jurídica. Ou seja, novos problemas são criados, alimentando permanentemente o problema da regularização fundiária amazônica.

Como punir os desmatadores se o Estado não sabe quem são os proprietários (responsáveis) pela área? Como controlar e punir se o Estado nem mesmo sabe a extensão e os limites das terras públicas?

Ser alguém na Amazônia pode causar um tipo de enfado positivo, aquele em que alguém não se esconde atrás do anonimato, assumindo suas responsabilidades para com a sua comunidade, o seu Estado, o seu país.

Artigo 5 da série de artigos Desenvolvimento Sustentável da Amazônia.

Fonte – Rinaldo Segundo, promotor de justiça no MPE/MT e mestre em direito (Harvard Law School), é autor do livro “Desenvolvimento Sustentável da Amazônia: menos desmatamento, desperdício e pobreza, mais preservação, alimentos e riqueza,” Juruá Editora.

Amazônia: grandes números, grandes contrastes

“… a grandeza sabe se reconhecer.” Shakespeare, Henrique IV.

A Amazônia é grande em todos os sentidos. Territorialmente, mais de 60% do território brasileiro é ocupado pela Amazônia Legal. Isso é meia Europa. Ambientalmente, 42% da Amazônia brasileira é área protegida (Onde o desmatamento é menor. Por isso, criar áreas de proteção tem sido estratégia eficaz para reduzir o desmatamento) Isso representa 2,15 milhões km².

Embora diminuindo nos últimos 10 anos, o desmatamento histórico também impressiona. Em 1994, o número do desmatamento foi de 14.896 km2 e em 1995, esse número foi de 29.059 km2. Nesses dois anos, mais de uma Suíça foi desmatada.

Todos esses números nos remetem a algumas questões: como os números acima se relacionam com a melhoria de vida da população amazônica? Para que tem servido o desmatamento na Amazônia?

O Censo de 2000 mostrou que os indicadores sociais melhoram com o desmatamento. Todavia, os ciclos de desenvolvimento não duram mais que 15 anos. Assim, os municípios com área desmatada – excetuando-se os destinados à soja (agricultura mecanizada) –, tendem aos mesmos índices sociais dos que iniciam o processo de colonização. Ou seja, social, ambiental e economicamente, a exploração é pouco sustentável.

Para entender isso, é preciso compreender a dinâmica das principais commodities amazônicas, a saber, madeiras, grãos, com destaque para soja e carne. Obviamente, essa análise é impossível de ser realizada aqui.

Analise-se, porém, o ciclo da madeira. Extrai-se madeira da Amazônia há mais de três séculos, e intensivamente desde 1970. Hoje, a Amazônia é uma das principais fontes brasileiras de produtos florestais. Isso se explica, dentre outras razões, pelo baixo preço da madeira amazônica; pela extração de madeiras de áreas públicas; pela existência de menos madeiras em outras regiões brasileiras.

De modo geral, o caráter predatório predomina na exploração florestal amazônica. Na prática, isso significa abrir pequenas estradas no meio da mata, permitindo explorar determinada área. A seguir, essa área é exaurida, através do corte raso das árvores, impossibilitando-se a recomposição da área florestal desmatada.

O desperdício alcança 40%, e ele seria muito maior com a inclusão no cálculo de árvores desnecessariamente destruídas devido à insustentabilidade da própria extração (potencial futuro de extração). Eis aí um grande contraste amazônico: de um lado, a riqueza amazônica, de outro, o desperdício dessa riqueza.

Outro contraste: a falta de maximização de lucros diante de um sistema econômico, o capitalista, cuja maximização é a regra. Prova disso são os impressionantes 6,9 milhões de hectares de terras produtivas sem utilização na Amazônia (desperdício de capital).

Embora pouco difundidos, contrastes também existem entre diferentes atividades econômicas. Assim, enquanto grãos são produzidos num modelo empresarial associado à tecnologia e produtividade em regra, a pecuária não segue similar padrão produtivo, acelerando desmatamentos desnecessários.

Isso se reflete nos índices de ocupação da terra. Assim, 4,8% dos estabelecimentos amazônicos são ocupados por agricultura, representando 5,75 milhões de hectares, enquanto as pastagens totalizam 42,3% da área dos estabelecimentos, ou seja, 51,15 milhões de hectares.

Isso significa que a área ocupada pela pecuária é quase 9 vezes a área ocupada pela agricultura. Logo, a pecuária impacta 9 vezes mais sobre o meio ambiente que a agricultura.

Outro contraste: o PIB e o IDH da maioria dos Estados da Amazônia Legal estão abaixo da média nacional. Numa terra farta de recursos naturais, incluindo alimento, comprar comida é caro na Amazônia. De 70 à 80% da renda da população pobre é gasta na alimentação.

Se reconhecida é a grande riqueza amazônica, grande também são os seus contrastes a serem corrigidos.

Artigo 4 da série de artigos Desenvolvimento Sustentável da Amazônia.

Fonte – Rinaldo Segundo, promotor de justiça no MPE/MT e mestre em direito (Harvard Law School), é autor do livro “Desenvolvimento Sustentável da Amazônia: menos desmatamento, desperdício e pobreza, mais preservação, alimentos e riqueza,” Juruá Editora.