Brasil é citado em relatório britânico contra Aedes transgênico

al jazeera.jpgCresce constatação de que efetividade dos mosquitos transgênicos na redução da população do Aedes não seria exatamente a anunciada pela empresa detentora da patente desta tecnologia

Documento entregue às autoridades das Ilhas Cayman, no Caribe, aponta riscos à saúde e a ineficácia dos mosquitos, e pede a suspensão da liberação pela Oxitec. A empresa é a mesma que opera no Brasil

organização britânica GeneWatch Uk divulgou este mês relatório que aponta riscos à saúde e a ineficácia dos mosquitos transgênicos da Oxitec na redução da população do Aedes aegyptiselvagem, transmissor do vírus das infecções dengue, chikungunya e zika. O estudo acompanhou os resultados do experimento nas Ilhas Cayman, no Caribe – arquipélago pertencente ao Reino Unido e mais conhecido como paraíso fiscal.

documento, que foi encaminhado às autoridades de saúde das ilhas, tem como base um relatório anual de um órgão governamental local, o MCRU (sigla em inglês para Unidade de Controle e Pesquisa do Mosquito/Mosquito Resarch and Control Unit). O objetivo é informá-las sobre os riscos, já que a liberação dos espécimes transgênicos pelas autoridades locais foi acertada antes da divulgação dos estudos pelo MCRU.

Brasil

O documento menciona o caso brasileiro, onde a Oxitec também atua. Na página de número 7, cita uma reportagem da rede de TV do mundo árabe Al Jazeera (assista vídeo abaixo).

Com duração de 24 minutos, o jornalístico, que foi ao ar em 29 de novembro passado, chega a questionar, entre outras coisas, os índices de eficácia da tecnologia.  Enquanto a Oxitec fala em redução de 90% da população de Aedes selvagem, o programa mostra dados bem menores, de 60%.

Ouvido pelo programa da Al Jazeera, o pesquisador brasileiro Danilo Carvalho confirmou à RBA a redução de 60% na população – uma diferença de um terço em relação ao divulgado pela empresa.

De acordo com o pesquisador, que estudou a população para seu mestrado e doutorado pelo Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB/USP), os dados podem variar de acordo com o período avaliado.

“A avaliação que eu fiz utilizou os dados sem nenhum tipo prévio de análise/tratamento e contemplou todo o período de liberação do inseto independentemente de ajustes de parâmetros”, disse. “A avaliação da Oxitec considera o período posterior em que todos os ajustes da técnica já haviam sido feitos. Em outras palavras, esse seria o período mais eficiente de utilização do inseto.”

Ainda segundo o pesquisador, as interpretações a respeito desse dado, apesar de distantes (60% para 90%) são diferentes. Mesmo assim, mostram uma redução significativa. “Eu mantenho minha declaração de 60 a 70% de redução, mas quero ressaltar novamente que isso depende do período e da forma como se faz a análise.”

Procurada pela reportagem para comentar o relatório da GeneWatch, a Oxitec preferiu não se manifestar.

De origem britânica – nasceu em encubadora na Universidade de Oxford, na Inglaterra – a Oxitec é atualmente uma subsidiária da Intrexon, empresa estadunidense líder mundial em biologia sintética.

Os mosquitos transgênicos, que já são liberados em 14 bairros de Piracicaba, no interior de São Paulo, e estão prestes a ser vendidos para a prefeitura de Juiz de Fora (MG), foram aprovados para uso comercial pela Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) em abril de 2014. A autorização vale para comercialização em todo o país.

No começo de agosto, a CTNBio aprovou uma nova linhagem de mosquitos, que deverá ser solta em Indaiatuba, também em São Paulo. A aprovação das duas linhagens não levou em consideração os riscos, apenas a versão da empresa detentora da tecnologia.

Saiba mais

Mosquitos transgênicos ganham espaço em meio a falhas e manipulações

Novo Aedes transgênico reforça tese da ineficácia da tecnologia e de seus riscos à saúde

Fonte – Cida de Oliveira, RBA de 26 de setembro de 2017

Na mira do MPF, irregularidades na CTNBio vêm à tona com a cana transgênica

cana.jpgNo começo de junho, a CTNBio liberou a comercialização da cana transgênica. A planta é das mais estudadas pelo presidente do órgão, agora em meio a suspeitas de conflitos de interesses

Comando da comissão tem no currículo pesquisas financiadas por indústrias de agrotóxicos e de sementes transgênicas. Ligações podem respaldar ação do MP contra planta geneticamente modificada

Os conflitos de interesses envolvendo integrantes da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) estão na mira dos procuradores da Câmara de Meio Ambiente do Ministério Público Federal (MPF). Entre outras coisas, eles apuram ligações de ex e atuais integrantes com entidades voltadas ao lobby pró-transgênicos, com indústrias de sementes, de agrotóxicos e de alimentos que terão lucros com a biotecnologia, bem como posicionamentos públicos em desacordo com a função que ocupam na comissão. É o caso de componentes que assinam cartas abertas à comunidade científica em defesa desses organismos geneticamente modificados (OGM).

Por mais transparência dos procedimentos e processos, o MPF enviou ofício à CTNBio no dia 15 de maio. O coordenador da Câmara de Meio Ambiente, o subprocurador-geral da República Nívio de Freitas, que assinou o ofício, elenca medidas a serem tomadas no órgão criado para assessorar o governo federal em tema por natureza tão complexo, que são os transgênicos.

Entre elas, dar mais objetividade e especificidade ao regimento, inclusive com hipóteses expressas para a conduta ética dos seus integrantes, para que interesses públicos e particulares não sejam confundidos em prejuízo da sociedade brasileira. Do mesmo modo, criar mecanismos para a distribuição equânime, equilibrada e impessoal dos eventos submetidos a análise na comissão e dar publicidade às reuniões. Tudo isso à luz das leis 12.846/13, mais conhecida como “lei anticorrupção” e a 12.813/13, que caracteriza a presença do conflito de interesses sempre que a atribuição no exercício do cargo proporcionar informação privilegiada capaz de trazer vantagem econômica para o agente público.

No entanto, esse princípio estabelecido pela legislação que dispõe sobre essas relações no poder executivo ainda não é adotado no órgão. Pelo regimento interno, o conflito é reduzido, de maneira genérica, à participação de membro na análise de processo na unidade operativa da instituição proponente com a qual possua vínculo institucional, assim como a vinculação do membro à comissão interna de biossegurança da instituição onde trabalha. A CTNBio afirma já estar discutindo alterações em seu regimento, que preveem ampla revisão da legislação vigente. O tema estará na pauta da próxima reunião, em agosto.

Assédio econômico

O conhecido assédio econômico das grandes corporações transnacionais, comum em todo o mundo, encontraria terreno fértil também em falhas normativas internas. Especialmente a ausência de critérios claros e objetivos para a distribuição isenta dos processos para liberação de transgênicos e para definir impedimentos e até a suspeição de determinados componentes em relação a procedimentos. Ou mesmo para a escolha dos pedidos de liberação que serão analisados e colocados em votação. Outro aspecto destacado pelos procuradores é a dificuldade de acesso da sociedade civil às reuniões, principalmente aquelas que liberam, para pesquisa ou comercialização, novos transgênicos. A comissão, por sua vez, argumenta que todas as reuniões são públicas, exceto aquelas para discussões referentes às informações sigilosas.

As irregularidades comuns desde que a CTNBio foi criada, em 2005, estariam associadas à aprovação de todos os processos de liberação desses organismos submetidos à comissão formada por especialistas em diversas áreas, todos com título mínimo de doutor, cujos mandatos de dois anos podem ser renovados por mais duas gestões conforme as indicações de seus respectivos segmentos.

Em outras palavras, até hoje a ampla maioria desses doutores, muitos deles na área de saúde, com larga experiência inclusive em câncer e outras doenças diretamente associadas aos agrotóxicos e, indiretamente, aos transgênicos, aprovaram e continuam aprovando os OGMs apesar da insuficiência e falhas das pesquisas científicas a respeito. Nessa maioria estão nomes reconhecidos mundialmente e até representantes de entidades sindicais de empresas estatais, em descompasso com os sindicatos cada vez mais convergentes na defesa da saúde pública, ambiental e do princípio da precaução.

Preocupação

“Outra preocupação que temos é com a falta de clareza dos critérios para colocação dos pedidos de liberação em pauta de votação. Não sabemos quais definem o que que vai ser colocado em votação, o que não vai. É importante que isso fique claro para que as pessoas saibam quais são os processos que vão entrar me votação”, afirma o coordenador do grupo de trabalho Agrotóxicos e Transgênicos da Câmara de Meio Ambiente do MPF, o procurador Marco Antônio Delfino.

Em 8 de junho passado, pouco mais de um mês após receber as recomendações do MPF, a CTNBio aprovou a liberação comercial da cana de açúcar modificada geneticamente para a inserção de toxinas inseticidas, que a princípio seriam capazes de matar a broca da cana, sua praga mais comum. O pedido, protocolado no final de dezembro de 2015, tramitou em regime de urgência.

Em 17 meses o OGM estava aprovado. E isso apesar das falhas apontadas por um parecer a respeito dos testes apresentados pelo Centro de Tecnologia Canavieira (CTC). Para especialistas, essas pesquisas estão longe de atender às próprias regras da comissão. Muito menos de garantir a segurança da biotecnologia em questão quanto à saúde e ao meio ambiente. Tampouco sua eficácia, que será minimizada com o esperado aumento da resistência das pragas conforme demonstrado em pesquisas de longo prazo realizadas nos Estados Unidos, apresentadas à comissão na única audiência pública realizada, em outubro passado. Não é à toa que novas canas geneticamente modificadas, dessa vez resistentes a herbicidas, estão na fila.

Liberação

Segundo integrantes da CTNBio, que ainda não divulgou ata da sessão de 8 de junho, entre os 15 doutores que votaram pela liberação da cana transgênica está o presidente da comissão, Edivaldo Domingues Velini. Professor da Faculdade de Ciências Agronômicas da Unesp de Botucatu desde 1985, e seu diretor de 2009 a 2013, o agrônomo dedicou grande parte de seu tempo a pesquisar plantas daninhas, herbicidas e a cana.

Em seu currículo Lattes, disponível na base de dados do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), Velini declara que, além das agências oficiais de fomento, como a Fundação de Amparo à Pesquisa no Estado de São Paulo (Fapesp) e o próprio CNPq, indústrias de agrotóxicos e de sementes transgênicas têm financiado boa parte de suas pesquisas – o que levanta indícios de conflito de interesses.

Arysta Lifescience, empresa de atuação global, detentora de mais de 200 ingredientes ativos utilizados em fungicidas, herbicidas, inseticidas e tratamento de sementes, está entre os maiores financiadores de pesquisa conduzidas por ele em parceria com outros colaboradores, entre eles alunos e sócios em seus negócios privados.

A parceria com a indústria começou em 2005, para o desenvolvimento de aplicação de herbicida contra ervas daninhas da cana, e continua por meio de um estudo iniciado em 2008, para avaliar mecanismos para determinar condições de seletividade de herbicidas inibidores da fotossíntese da cana de açúcar. Nesse meio tempo, foram financiados outros três, geralmente envolvendo agrotóxicos e cana.

Com atuação no mercado de agrotóxicos e sementes transgênicas, a alemã Basf financiou dois estudos. Um de longa duração, entre 2003 e 2008, em busca de informações quanto ao melhor uso de um de seus herbicidas em cana de açúcar, e outro entre 2008 e 2011 para instalação de ensaio de eficácia biológica em cana e eucalipto.

De 2008 para cá, a concorrente Syngenta tem pago pela avaliação do desempenho de herbicidas em cana de açúcar. E de 2004 a 2007, outra gigante do setor, a Dow Agroscience, financiou testes de Velini para o desenvolvimento de método para estimativas para aplicações comerciais de agrotóxicos.

Outra ligação

O presidente da CTNBio tem outra ligação com o mundo dos herbicidas e da cana. De acordo com a Junta Comercial de São Paulo (Jucesp), até março passado ele era sócio da empresa de consultoria Agro-Analítica. Empresa, aliás, que financiou algumas de suas pesquisas com herbicidas e cana no período de 2005 a 2007, e de 2008 a 2010.

Outra coincidência seria o foco da atuação da Agro-Analítica no setor canavieiro. Desde 2007, a consultoria é responsável pela organização do Encontro Tecnológico da Cultura da Cana de Açúcar – Tecnocana, grande evento do segmento. A Tecnocana deste ano, realizada nos dias 15 e 16 de março, enquanto Velini ainda era sócio da consultoria, obteve patrocínio da Arysta, Basf, Bayer, Dow, Du Pont e Syngenta, entre outras.

Para Marco Antônio Delfino, do MPF, a CTNBio sempre mereceu atenção – e preocupação – dos procuradores da Câmara de Meio Ambiente. Questionado sobre os dados levantados pela reportagem, ele destaca a necessidade de mais elementos a serem apurados. Mas adianta: “Falando de maneira objetiva, Velini não poderia ter colocado o processo em votação e nem votado. Então, se ele votou, é possível ser anulada a sessão que liberou a cana porque haveria um conflito de interesses manifesto.”

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Fonte – Cida de Oliveira, RBA de 21 de junho de 2017

Autismo, Parkinson, Alzheimer, anencefalia, câncer. O que o glifosato tem a ver com isso?

monsanto.pngA marcha internacional deste ano teve como tema os efeitos nocivos do glifosato, o agrotóxico mais vendido no mundo

Na propaganda, é pouco tóxico. Mas estudos mostram que o agrotóxico mais usado no mundo altera a produção e a ação de aminoácidos, vitaminas e minerais que protegem o organismo desses e outros males

Milhares de ativistas em mais de 30 países, em todos os continentes, foram às ruas no dia vinte de maio na 6ª Marcha Internacional contra a Monsanto, gigante do setor agroquímico e de biotecnologia de origem norte-americana. O alvo das manifestações, dessa vez, é o Roundup, nome comercial do agrotóxico mais vendido no mundo. Seu princípio ativo, o glifosato, vem sendo usado cada vez mais desde meados da década de 1970, com a entrada no mercado das sementes transgênicas, a grande maioria delas produzidas pela própria Monsanto. Com a suposta promessa de maior produção, essas sementes foram geneticamente modificadas para resistir a doses cada vez maiores desse e de outros venenos.

Os manifestantes querem chamar atenção para a presença indesejável, nociva e cada vez maior de resíduos não só nos grãos, legumes, verduras e frutas que recebem esse agrotóxico como também em amostras de água da chuva, no leite materno, em fórmulas para alimentação infantil e até em vacinas.

O tema é de grande importância para o Brasil, que tornou-se o maior consumidor de agrotóxicos do mundo. Nos últimos dez anos, segundo o IBGE, a venda de pesticidas no mercado agrícola brasileiro saltou de R$ 6 bilhões para R$ 26 bilhões, o que permitiu ultrapassar a marca de 1 milhão de toneladas – um consumo médio de 5,2 kg de veneno para cada habitante. Para piorar o quadro, avançam projetos de lei que pretendem incentivar ainda mais esse mercado.

Estudos que a indústria e muitas agências governamentais tentam ignorar ou até mesmo desqualificar apontam que o advento do glifosato está associado ao crescente registro de doenças pouco comuns até o produto passar a ser largamente utilizado. São diversos tipos de câncer, alterações neurológicas, endocrinológicas, digestivas e intestinais direta ou indiretamente associadas a distúrbios degenerativos e do desenvolvimento, como no Mal de Parkinson e no autismo, e malformações congênitas, como a microcefalia e anencefalia, entre outras igualmente graves, incapacitantes e mortais.

Anencefalia

Recentemente, o chamado caso Yakima Valley, no estado norte-americano de Washington, chamou atenção para o aumento incomum de nascimento de bebês com anencefalia, condição neurológica caracterizada pelo cérebro em tamanho bem menor que o normal para a idade, que coloca em risco a vida e o desenvolvimento motor e cognitivo. Segundo o próprio departamento estadual de Saúde, os registros aumentaram 8 vezes entre os anos de 2010 e 2013, tornando-se quatro vezes maior que a média nacional. E isso pouco tempo depois que o estado implementou um programa de capina química à base de glifosato, que contaminou rios.

O estabelecimento da relação com o câncer sofre reveses conforme pressões do fabricante sobre as agências que deveriam zelar pela saúde pública. Em março passado, um juiz distrital dos Estados Unidos determinou a divulgação de documentos que comprovam que, na década de 1980, a Monsanto influenciou a agência de proteção ambiental do país para esconder, entre outras coisas, estudos sobre o potencial carcinogênico do veneno.

Há ainda estudos famosos, como os chefiados por Gilles-Eric Séralini, da Universidade de Caen Normandie, na França, que constataram danos ao fígado e rins e distúrbios hormonais em ratos alimentados com o milho transgênico NK603, da Monsanto. E que além desses efeitos graves, foi detectado o desenvolvimento de inúmeros tipos de tumores. Essas sementes foram desenvolvidas justamente para resistir a banhos de glifosato.

Tamanha repercussão levou a Monsanto a agir, desqualificando a pesquisa e exigindo, via pressão nos bastidores, a exclusão da publicação na revista Food and Chemical Toxicologyque teve seu corpo editorial reformulado com a entrada de um nome forte por ela indicado. Acabou que os mesmos resultados foram depois publicados em detalhes na Environmental Sciences Europe, mostrando todos os danos causados.

Mecanismo de ação

“Entre os mecanismos de ação do glifosato sobre as estruturas do organismo humano mais conhecidos estão a interferência de suas moléculas sobre a produção e a ação de aminoácidos, vitaminas e minerais essenciais para o bom funcionamento do corpo, e cujo déficit está associado a alterações que levam ao surgimento dessas doenças”, afirma o agrônomo e consultor José Luiz Moreira Garcia. Graduado pela Escola Nacional de Agronomia do Rio de Janeiro, hoje incorporada à Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ).

Com mestrado em Fisiologia Pós-Colheita pela Universidade Estadual do Michigan, nos Estados Unidos, e em Fisiologia e Bioquímica de Plantas pela USP, estuda há 20 anos nutrição e saúde humana. O interesse pelo glifosato surgiu em palestras com pesquisadores norte-americanos, como o professor emérito da Universidade de Purdue, em Indiana, e Stephanie Seneff, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT).

“Pedra nos sapatos” da Monsanto, ambos têm inúmeros estudos que apontam o envolvimento do Roundup em diversas doenças. Em parceria com o pesquisador norte-americano Anthony Samsel, Seneff desenvolveu pesquisas que classificam o glifosato como o mais importante agente causador da epidemia da doença celíaca, causada por inflamações intestinais que levam a deficiências nutricionais, alterações no sistema reprodutivo, inclusive infertilidade, e aumentam as chances de desenvolvimento de doenças na tireóide, insuficiência renal e também o câncer. Inflamações essas muito semelhantes àquelas encontradas por outros estudos que constataram alterações em bactérias intestinais de peixes expostos a esse herbicida.

Em cinco trabalhos que revisou todas as pesquisas feitas até então, a dupla Samsel & Seneff encontrou elevadas correlações entre as quantidades usadas de glifosato e a incidência de Alzheimer e Parkinson. Há inclusive uma apresentação que ela disponibiliza na internet. Em inglês acessível, traz muita informação para os mais interessados.

Autismo

Segundo explica Garcia, o organismo humano e dos animais depende do chamado microbioma intestinal, ou flora intestinal, composto por trilhões de células de dezenas de milhares de espécies de bactérias e leveduras – todos eles afetados pela ação do glifosato.

“Essa flora intestinal, que evoluiu com o ser humano por bilhões de anos, é constituída por 9 trilhões de células, quando todas as células do nosso corpo somam 1 trilhão. É por isso que somos considerados apenas 10% humanos pela escritora inglesa Alanna Collen”, diz. “Esses 90% do nosso corpo não humano são afetados por essa substância.”

Esta constatação é a relação mais robusta entre o autismo e o glifosato. Conforme o agrônomo, estudos mostram que crianças autistas têm níveis reduzidos de manganês no sangue, um mineral do qual os lactobacillus e outros microorganismos que colonizam o microbioma intestinal são extremamente dependentes.

Além disso, o manganês atua no processo de conversão dos aminoácidos glutamato a glutamina, essenciais na redução do nível de amônia que no cérebro causam alterações, as chamadas encefalopatias. “Crianças autistas têm problemas de encefalopatia crônica de baixo grau”, afirma Garcia. Outra evidência vem de uma pesquisa de 2012, que aponta baixo teor de manganês na primeira dentição associado ao autismo.

Os prejuízos aos níveis de manganês, bem como de outros minerais vitais à saúde – o cobalto, ferro, zinco, cobre, selênio, cálcio, magnésio, enxofre e molibdênio – são reconhecidos pela Monsanto. “Em uma das três diferentes patentes para a molécula original, a companhia alega que o glifosato é um poderoso quelatizante capaz de bloquear esses minerais.”

Parkinson e depressão

Na segunda patente, segundo Garcia, a Monsanto afirma que o glifosato interfere em uma via bioquímica do metabolismo vegetal que participa da síntese de alguns aminoácidos importantes tanto para as plantas como para o organismo humano. É o caso do triptofano, que o cérebro utiliza para produzir serotonina, mais conhecido como o hormônio do bem estar, a fenilalanina, que entra na composição de muitas proteínas necessárias para o organismo, e a tirosina, que atua na produção de neurotransmissores envolvidos em funções neurológicas relacionadas a funções cognitivas, de memória e humor, entre outras. Daí estar associado a quadros cada vez mais comuns de Parkinson.

“E ao bloquear a síntese desses aminoácidos, o glifosato impede a produção de alguns neurotransmissores, como a serotonina.Vale dizer que a falta de serotonina produz depressão, uma verdadeira epidemia em nossos dias. E depressão é deficiência de serotonia. Não de antidepressivos”, ressalta o agrônomo.

Já na terceira patente, a Companhia declara que o glifosato tem ação antibiótica.”A essa altura, fica claro que se a pessoa ingerir, por tempo indeterminado, um antibiótico que mata a maioria das formas de vida microbiológicas e um quelatizante, haverá consequências nunca antes aventadas na história da Medicina”.

O especialista acredita ainda que um dos principais efeitos deletérias do componente ativo do Roundup é confundir o organismo, já que sua molécula tem configuração e ação muito semelhante à glicina, um aminoácido que atua na nutrição de algumas células.”Isso permite que ele substitua a glicina, sendo incorporado a inúmeras proteínas e enzimas, alterando assim a sua conformação estrutural e espacial. Então esse aminoácido fake afeta a vida no seu princípio mais básico ao deixar de cumprir funções básicas que somente a original pode desempenhar”.

Uma outra teoria que ele defende é que o glifosato afetaria as enzimas do sistema hepático com papel de desintoxicar o organismo da ação de toxicinas externos. “Ao afetar esse importante mecanismo, a substância contribuiria, indiretamente, para a nossa intoxicação. Mas essa evidência necessita ser ainda melhor estudada”.

Fonte – Cida de Oliveira, RBA de 20 de maio de 2017

Relatório da UE sobre segurança do glifosato copiou texto da Monsanto

relatório da EFSA

A EFSA fez “copy paste” de parágrafos inteiros de um relatório da Monsanto para que a licença do glifosato seja renovada na Europa.

A Autoridade Europeia para a Segurança Alimentar (EFSA) fez “copy paste” de parágrafos inteiros de páginas de um estudo da Monsanto sobre o glifosato (principal ingrediente do RoundUp) para o seu relatório que será analisado para a futura renovação da licença deste herbicida na Europa.

A EFSA tinha ficado de elaborar um relatório científico independente sobre os efeitos deste herbicida na saúde humana. Em 2015, um estudo da Agência Internacional para a Investigação do Cancro (IARC) da Organização Mundial de Saúde (OMS) tinha considerado o glifosato como um “carcinogénio provável”, enquanto que a EFSA considerou que não existiam tais indícios.

Os parágrafos copiados do relatório da Monsanto incluem informação sobre a relação entre o glifosato e a mutação de células associadas a doenças cancerígenas ou reprodutivas.

Em resposta a estas alegações, a EFSA argumentou que o relatório elaborado pela entidade alemã BfR se baseou nos “estudos e literatura científica disponíveis”.

“Quer isto seja uma questão de negligência ou seja propositado, é completamente inaceitável”, afirmou Franziska Achterberg responsável pela política alimentar da Greenpeace na Europa.

A Comissão Europeia decidiu, no dia 28 de junho de 2016, prolongar por 18 meses (até 31 de dezembro de 2017) a licença do glifosato. A França votou contra; Portugal, Alemanha, Itália e Áustria abstiveram-se.

Fonte – The UniPlanet de 17 de setembro de 2017

Roundup, herbicida cancerígeno, gera centenas de processos judiciais contra a Monsanto

Estudo realizado pela Monsanto em 1983 já apontava os riscos e os efeitos do glifosato, mas sua gravidade foi ocultada. - Créditos: Divulgação MonsantoEstudo realizado pela Monsanto em 1983 já apontava os riscos e os efeitos do glifosato, mas sua gravidade foi ocultada. / Divulgação Monsanto

A partir do dia 7 de julho, o estado da Califórnia passou a incluir o glifosato, principal ingrediente do herbicida RoundUp, fabricado pela Monsanto (componente de outros herbicidas como Faena, Rival, Machete e outras marcas), na lista de substâncias cancerígenas. Em até um ano, o produto deverá ser etiquetado como agente cancerígeno. A Monsanto apelou à decisão, alegando que afeta seus interesses comerciais e afirmando que não há provas de que o glifosato cause câncer. Mas os estudos da própria empresa realizados na década de 1980 mostram o contrário.

A Monsanto enfrenta, em uma corte do distrito de São Francisco, nos Estados Unidos, 91 processos iniciados por pessoas e parentes de pessoas que sofrem de linfoma non-Hodgkin (um tipo de câncer que afeta o sistema linfático). Essas pessoas acusam a Monsanto pela exposição ao glifosato, que sabe e oculta que o componente pode causar câncer.

Os casos, apresentados em diversos distritos, foram combinados no mesmo litígio, que deve ser julgado pelo juiz Vince Chhabria em dezembro deste ano. Há outras cem ações judiciais de pessoas que apresentaram casos similares contra a Monsanto em diferentes cortes [1].

O agrotóxico glifosato foi inventado pela Monsanto e é amplamente usado na agricultura e na jardinagem, mas seu uso aumentou em até 2000% devido ao cultivo de soja, milho e outros transgênicos resistentes a este herbicida.

Um documento-chave que faz parte do processo e que a Monsanto tentou descartar é um estudo da própria empresa, publicado em 1983, sobre os efeitos do glifosato. O teste, realizado com 400 ratos de laboratório, mostra que um número significativo de ratos expostos ao glifosato através da alimentação desenvolveram tumores. A Monsanto apresentou o estudo, mas nas conclusões não revelou a gravidade dos riscos.

Em 1984, o toxicólogo William Dykstra da EPA (Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos) revisou o estudo completo e declarou que ele indicava claramente que o glifosato é oncogênico, e capaz de causar carcinoma tubular renal, um tipo de tumor raro, relacionado a doses administradas. A Monsanto respondeu que os tumores não eram causados pelo glifosato e teriam outras causas. Mas em 1985, depois de novas revisões do estudo realizado anteriormente, os toxicólogos e especialistas responsáveis pela revisões declararam em consenso que o glifosato é um potencial componente cancerígeno em humanos.

Nesse momento, a Monsanto iniciou uma campanha agressiva para convencer os funcionários e pesquisadores da EPA – inclusive empregando alguns na empresa – até conseguir que alguns declarassem que não estava claro se os tumores estavam relacionados ao glifosato. A história do caso e as subsequentes manipulações obscuras por parte da empresa foram detalhadas pela famosa jornalista Carey Gillam, no Environmental Health News, em junho de 2017 [2].

Outro estudo, realizado por Gilles-Eric Séralini em 2012, que realizou testes de alimentação em ratos com milho transgênico com glifosato, apresentou resultados similares aos dos estudos da Monsanto de 1983. Ambos coincidem com as conclusões do estudo de revisão do grupo internacional de especialistas da Agência Internacional de Investigação sobre o Câncer (IARC), que motivou a Organização Mundial da Saúde a declarar, em 2015, que o glifosato é uma substância potencialmente cancerígena.

Christopher Portier, ex-diretor do Centro Nacional de Saúde Ambiental e dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos, foi convidado como especialista para a revisão realizada pelo IARC. Portier afirmou que a avaliação aplicada pelos órgãos regulamentadores estadunidenses ao glifosato é cientificamente errônea e que coloca em risco a saúde pública. O especialista também acrescentou que os dados destes estudos indicam fortemente a capacidade do glifosato de causar câncer em seres humanos e em animais; e não há nenhuma razão para acreditar que os resultados das pesquisas se devem ao acaso [3].

A onda de processos contra a Monsanto continua crescendo e cada vez mais surgem evidências de como a empresa transnacional conhecia os danos do glifosato e dos transgênicos, mas empreendeu uma série de manobras para ocultá-los, aumentando os lucros à custa da saúde das pessoas e do meio ambiente.

A luta das comunidades indígenas e apicultores na península de Yucatán, no México, se dá justamente para impedir que a plantação de soja transgênica resistente ao glifosato adoeça e mate as comunidades, as abelhas, a água e o meio ambiente. A ação judicial das comunidades de Quintana Roo, outro estado mexicano, está em processo, enquanto em Campeche e Yucatán, a Suprema Corte de Justiça ordenou a realização de consultas, cuja realização foi sabotada, paradoxalmente, pela comissão de biossegurança do país (CIBIOGEM) e pela comissão dos povos indígenas (CDI). [5]

Paralelamente, Sol Ortiz García, secretaria executiva da comissão de biossegurança, em um simpósio internacional sobre o tema, realizado em um hotel de luxo no município de Guadalajara em junho, declarou que no México há excesso de regulação e que a oposição aos transgênicos é um problema de comunicação [4]. Neste evento, a Monsanto esteve presente em 11 conferências, a Dupont em 9, a Syngenta em 3 e a Bayer em 1, além da presença de outras empresas da Agrobio (Associação das Empresas de Biotecnologia na Agricultura e Agroindústria) e outras instituições e pessoas ligadas à indústria biotecnológica. Mas camponeses atingidos pelo agronegócio e pesquisadores críticos, não havia nenhum. Será que esta é a comunicação a qual a Cibiogem se refere? Já que em Campeche e em Yucatán assediam e ameaçam os camponeses para que não possam falar. Será necessário que morram de câncer para que sejam considerados evidências? Ainda que, nesse caso, a Monsanto (e a Cibiogem?) possivelmente dirão que a morte se deve a outras causas. É um problema de comunicação. Ou melhor: de quem paga por ela.

[1] http://tinyurl.com/lfpych4 [texto em inglês];

[2] http://tinyurl.com/ychhe3yv [texto em inglês];

[3] http://tinyurl.com/ybpuvl8y, citado por C. Gillam [texto em inglês];

[4] http://tinyurl.com/yadn9sqz [texto em espanhol];

[5] http://tinyurl.com/ybe49o4t [texto em espanhol].

Silvia Ribeiro é pesquisadora e integrante do Grupo ETC – Grupo de Ação sobre Erosão, Tecnologia e Concentração.

Fonte – Edição Vivian Neves Fernandes, tradução Luiza Mançano, Brasil de Fato de 11 de julho de 2017

“Colocam a humanidade no limite”. Para Vandana Shiva, Monsanto é culpada de ecocídio

Shiva pressionou o tribunal civil internacional que julgou a Monsanto e a considerou culpada de ecocídio. Ela pediu ao Supremo Tribunal a suspensão da Soja Intacta RR2da empresa Monsanto, pelos sérios riscos envolvidos.

Vandana Shiva pediu para ser considerada como amicus curiae para emitir opiniões sobre a soja da Monsanto.

“É um dia para lembrar que somos parte da Terra e que todos nós temos o dever de cuidar dela. Que dois séculos de desenvolvimento impulsionado por combustíveis fósseis estão colocando a humanidade no limite. E nós temos que mudar de rumo.”

Com esta decisão, a filósofa e ecofeminista indiana Vandana Shiva, ganhadora do Prêmio Nobel Alternativo de 1993, começou a carta reproduzida em todo o mundo a partir do Dia Mundial do Meio Ambiente, comemorado em 5 de junho. Mas o rumo de suas preocupações, cujo foco agora é os problemas ambientais que assolam o planeta, fica na Argentina.

Algumas semanas atrás, Shiva conseguiu que um documento judicial chegasse ao Supremo Tribunal, para participar no julgamento que a ONG Naturaleza de Derechos iniciou contra a empresa Monsanto e o Estado Nacional, tentando proibir a liberação e comercialização da soja transgênica RR2 em território argentino.

Tendo se tornado uma das principais referências mundiais dentro dos movimentos ambientais, Vandana Shiva foi uma das promotoras da criação do Tribunal Civil da Monsanto, que durante outubro de 2016 recebeu dezenas de testemunhos de todo o mundo sobre as implicações dos pesticidas e órgãos geneticamente modificadospara a saúde e o ambiente e, em abril do ano passado, declarou a Monsanto culpada pelo crime de ecocídio no Tribunal Internacional de Haia.

Depois de sua visita à Argentina no ano passado, durante o Festival de Cinema Ambiental, realizado na cidade de Buenos Aires, Shiva vinculou-se a organizações socioambientais locais, formando uma ponte para que no último 22 de maio pudesse recorrer ao Supremo Tribunal por escrito, declarando seu interesse em “apresentar-se no processo judicial como Amicus Curiae, a fim de opinar ao Tribunal quanto à necessidade de decretar a suspensão da Soja Intacta RR2 da empresa Monsanto Argentina SAIC, que representa um risco de dano grave e irreparável à agricultura tradicional, à saúde humana, ao ambiente e à biodiversidade”.

No mesmo documento, Shiva explica ao Supremo Tribunal a necessidade de uma audiência pública antes do tratamento do caso que acaba de chegar a suas mãos, consultando a opinião de especialistas independentes sobre os Organismos Geneticamente Modificados (OGM). Sem esse passo, para a filósofa hindu, é impossível determinar os efeitos sociais e ambientais dos agrotóxicos da Monsanto, cuja inocuidade alimentar e ambiental -alegada pela multinacional desde seu começo – nunca foi provada em estudos de longo prazo. Além disso, Shiva aponta que o cultivo transgênico do RR2 está preparado para um solo, dos mais de dez sub-biomas da Argentina, e que os efeitos que podem causar sobre o resto do território são desconhecidos.

Logo após receber uma menção especial em Nova Deli por sua “vida de serviço à Terra” durante o Dia Mundial do meio ambiente, Shiva participou do funeral de Madhav Dave, o ministro do Meio Ambiente hindu que havia sido ameaçado por desaprovar a mostarda transgênica da Monsanto na Índia e que foi encontrado morto em sua casa em 18 de maio. Ao chegar em sua cidade natal, Dehradun, Vandana Shiva concedeu a entrevista para discutir o cenário ambiental complexo no qual estamos imersos.

Quais são os problemas ambientais mais graves que a humanidade enfrenta atualmente?

O problema mais profundo é a continuidade da visão de mundo mecanicista, que vê a natureza como algo inerte, como matéria-prima a ser explorada, como um depósito para os nossos resíduos. Esta visão de mundo ganhou força com os combustíveis fósseis, e ganhou o mundo através do colonialismo, destruindo as culturas Bhoomi, Pachamama, Gaia, que veem a Terra como um ser vivo, e os seres humanos como parte da terra. Todas as várias expressões da crise ecológica – o caos climático, a erosão da biodiversidade, a extinção de espécies, o desaparecimento e poluição da água, a desertificação, a poluição tóxica – estão relacionadas a este paradigma mecanicista cristalizado.

Quais são as expressões materiais mais perigosas deste paradigma mecanicista?

Como ecologista e ativista, vejo a agricultura industrial como a fonte mais importante de destruição da saúde do planeta e da nossa saúde. Setenta e cinco por cento da destruição do solo, da falta de água, da erosão da biodiversidade relacionam-se com o impacto dos produtos químicos na agricultura. Estes produtos químicos são derivados de combustíveis fósseis e a agricultura industrial é responsável por metade dos gases de efeito estufa que poluem a atmosfera e causam instabilidade climática. Os alimentos desta agricultura também são responsáveis por 75% das doenças crônicas que afetam a humanidade. A pulverização de Roundup na Argentina, na soja Roundup Ready, levou a uma epidemia de câncer. A Monsanto sabia disso desde 1984. No entanto, eles mentiram que o glifosato do Roundup era seguro. Mas temos uma alternativa comprovada na agroecologia de cultivo de alimentos sem venenos. A agricultura livre tornou-se uma alternativa para o ambiente e a saúde. E acredito que está acontecendo uma grande mudança de consciência.

Que possibilidades abrem-se para proibir o cultivo transgênico depois que Haia condenou a Monsanto por crimes contra o meio ambiente?

Acredito que está se tornando inaceitável para as pessoas que empresas que cometem crimes e governos desonestos destruam a terra sem se responsabilizar de forma alguma, violando o princípio de que o poluidor deve pagar. Acho que o mundo está se abrindo para entender o ecocídio como um verdadeiro crime contra a natureza.

Há poucas semanas, depois de visitar a Argentina em 2016, a senhora enviou um documento ao Supremo Tribunal para testemunhar contra a corporação Monsanto. Quais são suas impressões sobre a situação no país?

Na Argentina e na Índia, a Monsanto está atacando as leis de patentes que reconhecem que somos parte da família da Terra, que as plantas e os animais não são invenções humanas e, portanto, não são patenteáveis. A ganância da Monsanto ao cobrar direitos autorais através de patentes sobre sementes está levando-a a atacar nossas leis nacionais e a soberania das sementes.

Que países já proibiram o uso de culturas geneticamente modificadas?

A maior parte da Europa é livre de OGM, a maior parte da Ásia é livre de OGM. Com exceção do algodão transgênico, a Índia não tem nenhum cultivo de alimentos geneticamente modificados. A Monsanto tentou empurrar a berinjela transgênica. Audiências públicas foram organizadas em todo o país e eles pararam. Por dois anos, a Monsanto-Bayer vem tentando empurrar uma mostarda transgênica que conseguimos deter até agora. O Satyagraha (um termo cunhado por Mahatma Gandhi para se referir à “força da verdade”) e a não-cooperação com o Cartel del Veneno são nossas últimas estratégias de organização para ter zonas livres de OGM e venenos.

As mudanças ambientais, sobretudo o aquecimento global, agora ameaçam erradicar a vida no planeta a curto ou médio prazo. Você acha que é possível reverter esta situação?

O mundo não vai acabar com o aquecimento global. O que vão terminar são as condições de vida humana na terra. Cientistas como Stephen Hawking dizem que vamos ser extintos em 100 anos ou devemos fugir para outros planetas. Mas há uma terceira opção, reconhecer que somos terráqueos, membros da família da terra. Podemos rejuvenescer este planeta, nosso lar, através da agroecologia, e criar condições para a continuação da vida humana e de outros seres vivos na Terra. A Agroecologia não é apenas a solução para a epidemia de veneno e de doença. É a solução para a mudança climática, porque através das plantas e da biodiversidade se extrai o excesso de carbono e nitrogênio do ar, que são devolvidos ao solo, como escrevi no livro Soil not Oil. Ficar aqui e cuidar da Terra também nos permite cuidar do nosso futuro. Esta é a nossa melhor opção. É um imperativo ecológico.

Fontes – Diego Fernández Romeral, Página/12, tradução Henrique Denis Lucas, IHU de 04 de julho de 2017

Califórnia listará glifosato como causador de câncer

agrotoxico-herbicida-glifosato-quimico (Foto: Thinkstock)Aplicação do herbicida glifosato (Foto: Thinkstock)

Molécula é princípio ativo do principal defensivo agrícola comercializado pela Monsanto, que promete reação

O glifosato, ingrediente ativo do herbicida Roundup, da Monsanto, será colocado em uma lista do Estado da Califórnia (EUA) de produtos químicos avaliados como causadores de câncer no dia 7 de julho, disse o Escritório de Avaliação da Perda de Saúde Ambiental (OEHHA) na segunda-feira.

A Monsanto prometeu continuar sua batalha legal contra a designação, baseada uma lei estadual conhecida como Proposição 65, e chamou a decisão “injustificada com base na ciência e na lei”.

A listagem é o mais recente revés judicial para a empresa de sementes e produtos químicos, que enfrentou litígios crescentes relacionados ao glifosato, uma vez que a Agência Internacional de Pesquisa sobre Câncer da Organização Mundial de Saúde disse que é “provavelmente carcinogênico” em uma decisão controversa em 2015.

Dicamba, um herbicida projetado para uso com a próxima geração de culturas biotecnológicas da Monsanto, está sob escrutínio no Estado do Arkansas depois que um conselho do Estado votou na semana passada para proibir o produto químico.

A OEHHA disse que a designação de glifosato no âmbito da Proposição 65 prosseguirá após uma tentativa infrutífera da Monsanto de bloquear a listagem no tribunal de julgamento e após os pedidos de permanência foram negados por um tribunal de apelação do estado e pela Suprema Corte da Califórnia.

O apelo da Monsanto ao julgamento do tribunal de primeira instância está pendente.

“Este não é o último passo no processo, e não tem qualquer influência sobre os méritos do caso. Continuaremos desafiando agressivamente essa decisão imprópria”, disse Scott Partridge, vice-presidente de estratégia global da Monsanto.

A listagem de glifosato como um carcinógeno sob a Proposição 65 da Califórnia exigiria que as empresas vendessem o produto químico no estado para adicionar etiquetas de advertência às embalagens. Advertências também seriam necessárias se o glifosato estiver sendo pulverizado em níveis considerados inseguros pelos reguladores.

Os usuários do produto químico incluem paisagistas, campos de golfe, pomares, vinhas e fazendas.

A Monsanto e outros produtores de glifosato teriam cerca de um ano a partir da data da lista para redistribuir os produtos ou removê-los das prateleiras da loja se novos desafios legais forem perdidos.

A Monsanto não calculou o custo de qualquer esforço de refazer a rotulagem e não divulga dados de vendas de glifosato por estado, disse Partridge.

Grupos ambientais saudaram o movimento da OEHHA para listar o produto químico.

“A decisão da Califórnia torna o líder nacional na proteção de pessoas contra os pesticidas que causam câncer”, disse Nathan Donley, cientista sênior do Centro de Diversidade Biológica.

Fonte – Reuters, tradução redação Globo Rural de 27 de junho de 2017

Estudo relaciona uso de agrotóxicos com câncer no sangue

Informação sobre linfoma não-Hodgkin foi apresentada por pesquisadora do Instituto Nacional de Câncer durante audiência pública na Assembleia Legislativa de São Paulo

O primeiro estudo realizado no Brasil sobre a relação do uso de agrotóxicos com o surgimento do linfoma não-Hodgkin (LNH), um tipo de câncer hematológico que nas últimas décadas tem afetado com mais frequência a população mundial, foi um dos destaques da audiência pública realizada nesta terça-feira (27), pela Comissão de Saúde da Assembleia Legislativa de São Paulo, para debater os efeitos causados na saúde e no meio ambiente pelo uso de agrotóxico.

O alerta foi feito por Márcia Sarpa de Campos de Mello, pesquisadora do Instituto Nacional de Câncer (Inca) e uma das três autoras do estudo. A pesquisa mostrou que os agrotóxicos 2,4-D, diazinona, glifosato e malationa estão relacionados a esse tipo de câncer – glifosato e 2,4-D são os dois agrotóxicos mais utilizados no Brasil.

“Diante desse cenário de extrema vulnerabilidade da população brasileira a doenças causadas pelos agrotóxicos, diretrizes regulatórias e legislações mais restritivas são urgentes, assim como o investimento em serviços de saúde e a promoção de políticas de prevenção de doenças crônicas não transmissíveis”, diz o trecho final do estudo Exposição ambiental e ocupacional a agrotóxicos e o linfoma não-Hodgkin.

A relação dos agrotóxicos com o LNH se soma a muitas pesquisas e estudos desenvolvidos tanto no Brasil quanto no exterior, que apontam a conexão entre o uso de venenos na lavoura e o surgimento de diversos tipos de câncer – a segunda maior causa de mortes no Brasil. Segundo estimativa do Inca, cerca de 600 mil novos casos de câncer surgiram em 2016 no país.

Márcia Sarpa enfatizou que a classificação toxicológica dos agrotóxicos leva em conta apenas os “efeitos agudos”, que afetam normalmente os trabalhadores que manipulam diretamente os produtos. Algo que, para ela, é um grave erro. O glifosato, por exemplo, é classificado como “pouco tóxico”.

“A toxicidade aguda é a pontinha do iceberg”, afirmou a pesquisadora do Inca. Para ela, o problema maior está na toxicidade crônica, aquela relacionada à exposição frequente a pequenas doses do produto. Entre os efeitos conhecidos da toxicidade crônica estão problemas de fertilidade, no desenvolvimento do feto, a má formação congênita, a desregulamentação endócrina, mutações e variados tipos de câncer.

“Já temos certeza de todas essas toxicidades, de todos esses efeitos”, afirmou Márcia Sarpa, lembrando que a literatura médica indica que entre 15% e 20% dos cânceres são relacionados à predisposição genética, enquanto entre 80% e 85% são causados por “fatores ambientais”.

Saúde pública

Desde 2008, o Brasil é o país que mais consome agrotóxicos no mundo. Mais da metade das substâncias presentes nestes produtos químicos adotados nas lavouras brasileiras são proibidas em países da Europa e nos Estados Unidos. De acordo com o Dossiê Abrasco, cerca de 70% dos alimentos in natura consumidos no país estão contaminados por algum tipo de agrotóxico, sendo que, desses, segundo dados da Anvisa, 28% contêm substâncias não autorizadas para uso no Brasil. Além disso, conforme a Organização Mundial da Saúde (OMS), os agrotóxicos causam, anualmente, 70 mil intoxicações agudas e crônicas na população dos países em desenvolvimento.

Os efeitos nocivos do uso de agrotóxico na saúde humana, no meio ambiente, os interesses econômicos e políticos do agronegócio, incluindo a tramitação do Projeto de Lei 6.299/2002, o chamado “pacote do veneno”, foram os temas que predominaram durante as quase três horas da audiência pública, solicitada pelos deputados estaduais do PT Carlos Neder e Marcos Martins.

“É importante dizer que a Fundação Oswaldo Cruz tem clareza que o uso de agrotóxico é um problema de saúde pública, que precisa ser enfrentado e que está afetando a vida das futuras gerações”, afirmou Luis Claudio Meirelles, pesquisador em saúde pública da Fiocruz.

Para ele, a falta de informações oficiais confiáveis sobre o uso de agrotóxico no Brasil causa um cenário de “embate técnico”. Meirelles disse que há uma lacuna na transparência e no direito à informação, tanto em nível federal quanto estadual. “Em vez de melhorar, nos últimos anos conseguimos piorar.”

O pesquisador destacou que, embora a literatura internacional seja “inequívoca” com relação aos perigos causados pelos agrotóxicos, os órgãos de controle e fiscalização no Brasil são frágeis. Como exemplo, citou o caso da água, dos alimentos processados ou de origem animal, cujo monitoramento é “parcial ou inexistente”.

“No Brasil, se usa produtos perigosos ou já banidos em outros países. A Europa está falando em banir o glifosato e aqui a gente ainda nem discute o tema”, criticou. O pesquisador da Fiocruz enfatizou o caminho errado adotado pelo país para lidar com o assunto, ponderando que, enquanto a Organização das Nações Unidas (ONU) defende regulamentar e eliminar o uso de agrotóxicos, privilegiando práticas sustentáveis, no Brasil tramita o “pacote do veneno” – uma série de medidas com o objetivo de facilitar ainda mais o uso de agrotóxicos.

“Não é uma questão trivial, é complexa, mas podemos produzir os mesmos alimentos sem o uso de veneno”, afirmou Meirelles.

Proposta de transição

Coube a Carla Bueno, representante da Campanha Permanente contra os Agrotóxicos e Pela Vida, trazer à audiência pública informações que traçam o cenário atual da realidade do campo no Brasil. Entre os dados apresentados, destaque para o fato de míseros 1% dos agricultores do país serem donos de 45% das terras boas para a agricultura. Apesar da enorme concentração de terra, entre 2003 e 2010 os latifúndios aumentaram sua área em 5%, enquanto os minifúndios, pequenas e médias propriedades, diminuíram de tamanho. “Estamos concentrando ainda mais terra”, afirmou.

Segundo Carla, quanto maior a concentração de terra, mais baixo é o PIB per capita e maior a pobreza. “O agronegócio é dependente do veneno e não consegue sair dele. Eles não sabem como parar de produzir sem veneno.”

Apesar do cenário difícil, ela propõe que haja um debate público e um modelo de transição para o agronegócio diminuir o uso de agrotóxicos. Algo que tornou-se realidade por meio da Política Nacional de Redução de Agrotóxicos (PNaRA), transformada em dezembro do ano passado no Projeto de Lei 6.670/2016.

“O projeto é uma proposta de transição do modelo da agricultura, baseado em menos insumos químicos. O que estamos propondo para o Brasil é a construção, de forma gradual e cuidadosa, de uma transição de modelo de produção, algo mais do que necessário no processo em que vivemos, inclusive internacional, de cuidar da natureza, da nossa população e evitar ao máximo o uso dessas substâncias”, explicou a representante da Campanha Permanente contra os Agrotóxicos e Pela Vida.

“Sabemos que esse Congresso não representa o desejo e o que pensa o povo brasileiro. Nossa tarefa é fazer a mobilização social fora do Congresso para então estimular o debate lá dentro e tentar, de alguma forma, colocar uma consciência mais humana nos deputados que lá estão.”

O PL 6.670 começará a tramitar em comissão especial criada para analisar o tema. Após alcançar o número mínimo de deputados, a expectativa é que a comissão seja instalada em breve.

“A audiência de hoje teve o caráter de denúncia, mas também caminhamos para a busca de alternativas. Vamos nos dedicar cada vez mais a pensarmos alternativas no marco legal, na produção de políticas e na geração de produtos sem o uso de agrotóxicos. Continuaremos essa discussão no sentido de pensar um fórum permanente, que se articule com o fórum paulista e a campanha nacional, para que São Paulo esteja na dianteira dessa luta contra o uso de agrotóxico e os prejuízos causados à saúde e ao meio ambiente”, disse, ao final da audiência, o deputado Carlos Neder.

Fonte – Luciano Velleda, Rede Brasil Atual de 27 de junho de 2017

Glifosato: Carta aberta de médico alerta para falhas das agências europeias

Glifosato usado na agricultura

Numa carta aberta, o médico Christopher Portier apontou falhas na avaliação das agências europeias sobre o risco para a saúde do glifosato

Numa carta aberta a Jean-Claude Juncker, presidente da Comissão Europeia, o médico Christopher Portier apontou falhas na avaliação das agências europeias sobre o risco para a saúde do glifosato.

“A classificação de risco do glifosato é um bom exemplo de como a falta de transparência sobre os dados científicos que estão por trás de decisões importantes sobre a saúde pública pode minar a confiança do público”, escreve o cientista.

Portier teve acesso ao estudo elaborado a partir de dados transmitidos confidencialmente pela indústria do glifosato à EFSA (Agência Europeia de Segurança dos Alimentos) e à ECHA (Agência Europeia de Produtos Químicos) e acusa as agências de não terem levado em conta “oito casos de aumentos significativos de tumores após exposição ao glifosato”.

“Estas omissões tornam impossível aos cientistas exteriores julgarem a qualidade dos estudos, o rigor dos métodos usados para analisar os dados, ou determinar se existem razões legítimas nas discussões para que os tumores identificados (…) tenham sido excluídos”, acrescenta.

Em 2016, um grupo de 100 cientistas, liderados por Portier, alertou para os problemas para a saúde ligados ao uso do glifosato. Nesse mesmo ano, Bruxelas prolongou a licença do glifosato por mais 18 meses, enquanto esperava pelo relatório da ECHA.

Na carta Portier propõe que as avaliações das agências europeias sejam repetidas e que os dados em que essas avaliações se baseiam sejam tornados públicos.

Após o parecer positivo da EFSA e da ECHA, os comissários europeus decidiram recentemente “retomar as conversações com os Estados-membros sobre uma possível renovação da autorização do glifosato durante 10 anos”.

Fonte – The UniPlanet de 31 de maio de 2017

Um rótulo sem OGM para Portugal

A Plataforma Transgénicos Fora está a criar o selo “Sem OGM”, que irá garantir ao consumidor que os produtos com este rótulo não usam OGM

A Plataforma Transgénicos Fora defende uma agricultura sustentável orientada para a proteção da biodiversidade e do direito dos povos à soberania sobre o seu património genético comum. Neste momento, esta plataforma encontra-se a criar a certificação “Sem OGM” um sistema ambicioso que irá garantir ao consumidor que os produtos identificados com o Rótulo SEM OGM não usam transgénicos.

O UniPlanet falou com Ricardo Marques, da Plataforma Transgénicos Fora, para ficar a conhecer melhor este projeto.

UniPlanet (UP): A Plataforma Transgénicos Fora está a criar a certificação “Sem OGM”. Podem explicar-nos como irá funcionar?

Funcionará de forma idêntica à certificação biológica, a rotulagem Sem OGM pode ser requisitada por qualquer produtor de géneros alimentícios a nível nacional. A iniciativa e o referencial Sem OGM são supervisionados pela Plataforma Transgénicos Fora, mas a implementação no terreno cabe às empresas de certificação. Os produtos que solicitarem e que se comprove que não foram produzidos com OGM poderão usar o rótulo Sem OGM.

UP: Existem muitos produtos fabricados com recurso a OGM e que não estão rotulados como tal. Podem dar-nos alguns exemplos?

A maioria dos ovos, carnes, peixes e lacticínios são produzidos com soja e milho transgénico, no entanto, essa informação não está disponível para o consumidor. Também produtos com uma percentagem de OGM até 0,9% não necessitam de ser rotulados. Este rótulo irá ajudar o consumidor a diferenciar os produtos.

UP: Como podemos ajudar a que o Rótulo sem OGM se torne realidade?

O mais importante é, sem dúvida, apoiar o crowdfunding.
Visite também o nosso facebook, a página SEM OGM e partilhe a informação.

UP: Onde podemos encontrar mais informação sobre a Plataforma Transgénicos Fora?

Para saber mais sobre a Plataforma Transgénicos Fora e as suas intervenções consulte o nosso site e em especial o nosso dossier de atividades.

Fonte – The UniPlanet de 13 de junho de 2017