Roundup, herbicida cancerígeno, gera centenas de processos judiciais contra a Monsanto

Estudo realizado pela Monsanto em 1983 já apontava os riscos e os efeitos do glifosato, mas sua gravidade foi ocultada. - Créditos: Divulgação MonsantoEstudo realizado pela Monsanto em 1983 já apontava os riscos e os efeitos do glifosato, mas sua gravidade foi ocultada. / Divulgação Monsanto

A partir do dia 7 de julho, o estado da Califórnia passou a incluir o glifosato, principal ingrediente do herbicida RoundUp, fabricado pela Monsanto (componente de outros herbicidas como Faena, Rival, Machete e outras marcas), na lista de substâncias cancerígenas. Em até um ano, o produto deverá ser etiquetado como agente cancerígeno. A Monsanto apelou à decisão, alegando que afeta seus interesses comerciais e afirmando que não há provas de que o glifosato cause câncer. Mas os estudos da própria empresa realizados na década de 1980 mostram o contrário.

A Monsanto enfrenta, em uma corte do distrito de São Francisco, nos Estados Unidos, 91 processos iniciados por pessoas e parentes de pessoas que sofrem de linfoma non-Hodgkin (um tipo de câncer que afeta o sistema linfático). Essas pessoas acusam a Monsanto pela exposição ao glifosato, que sabe e oculta que o componente pode causar câncer.

Os casos, apresentados em diversos distritos, foram combinados no mesmo litígio, que deve ser julgado pelo juiz Vince Chhabria em dezembro deste ano. Há outras cem ações judiciais de pessoas que apresentaram casos similares contra a Monsanto em diferentes cortes [1].

O agrotóxico glifosato foi inventado pela Monsanto e é amplamente usado na agricultura e na jardinagem, mas seu uso aumentou em até 2000% devido ao cultivo de soja, milho e outros transgênicos resistentes a este herbicida.

Um documento-chave que faz parte do processo e que a Monsanto tentou descartar é um estudo da própria empresa, publicado em 1983, sobre os efeitos do glifosato. O teste, realizado com 400 ratos de laboratório, mostra que um número significativo de ratos expostos ao glifosato através da alimentação desenvolveram tumores. A Monsanto apresentou o estudo, mas nas conclusões não revelou a gravidade dos riscos.

Em 1984, o toxicólogo William Dykstra da EPA (Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos) revisou o estudo completo e declarou que ele indicava claramente que o glifosato é oncogênico, e capaz de causar carcinoma tubular renal, um tipo de tumor raro, relacionado a doses administradas. A Monsanto respondeu que os tumores não eram causados pelo glifosato e teriam outras causas. Mas em 1985, depois de novas revisões do estudo realizado anteriormente, os toxicólogos e especialistas responsáveis pela revisões declararam em consenso que o glifosato é um potencial componente cancerígeno em humanos.

Nesse momento, a Monsanto iniciou uma campanha agressiva para convencer os funcionários e pesquisadores da EPA – inclusive empregando alguns na empresa – até conseguir que alguns declarassem que não estava claro se os tumores estavam relacionados ao glifosato. A história do caso e as subsequentes manipulações obscuras por parte da empresa foram detalhadas pela famosa jornalista Carey Gillam, no Environmental Health News, em junho de 2017 [2].

Outro estudo, realizado por Gilles-Eric Séralini em 2012, que realizou testes de alimentação em ratos com milho transgênico com glifosato, apresentou resultados similares aos dos estudos da Monsanto de 1983. Ambos coincidem com as conclusões do estudo de revisão do grupo internacional de especialistas da Agência Internacional de Investigação sobre o Câncer (IARC), que motivou a Organização Mundial da Saúde a declarar, em 2015, que o glifosato é uma substância potencialmente cancerígena.

Christopher Portier, ex-diretor do Centro Nacional de Saúde Ambiental e dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos, foi convidado como especialista para a revisão realizada pelo IARC. Portier afirmou que a avaliação aplicada pelos órgãos regulamentadores estadunidenses ao glifosato é cientificamente errônea e que coloca em risco a saúde pública. O especialista também acrescentou que os dados destes estudos indicam fortemente a capacidade do glifosato de causar câncer em seres humanos e em animais; e não há nenhuma razão para acreditar que os resultados das pesquisas se devem ao acaso [3].

A onda de processos contra a Monsanto continua crescendo e cada vez mais surgem evidências de como a empresa transnacional conhecia os danos do glifosato e dos transgênicos, mas empreendeu uma série de manobras para ocultá-los, aumentando os lucros à custa da saúde das pessoas e do meio ambiente.

A luta das comunidades indígenas e apicultores na península de Yucatán, no México, se dá justamente para impedir que a plantação de soja transgênica resistente ao glifosato adoeça e mate as comunidades, as abelhas, a água e o meio ambiente. A ação judicial das comunidades de Quintana Roo, outro estado mexicano, está em processo, enquanto em Campeche e Yucatán, a Suprema Corte de Justiça ordenou a realização de consultas, cuja realização foi sabotada, paradoxalmente, pela comissão de biossegurança do país (CIBIOGEM) e pela comissão dos povos indígenas (CDI). [5]

Paralelamente, Sol Ortiz García, secretaria executiva da comissão de biossegurança, em um simpósio internacional sobre o tema, realizado em um hotel de luxo no município de Guadalajara em junho, declarou que no México há excesso de regulação e que a oposição aos transgênicos é um problema de comunicação [4]. Neste evento, a Monsanto esteve presente em 11 conferências, a Dupont em 9, a Syngenta em 3 e a Bayer em 1, além da presença de outras empresas da Agrobio (Associação das Empresas de Biotecnologia na Agricultura e Agroindústria) e outras instituições e pessoas ligadas à indústria biotecnológica. Mas camponeses atingidos pelo agronegócio e pesquisadores críticos, não havia nenhum. Será que esta é a comunicação a qual a Cibiogem se refere? Já que em Campeche e em Yucatán assediam e ameaçam os camponeses para que não possam falar. Será necessário que morram de câncer para que sejam considerados evidências? Ainda que, nesse caso, a Monsanto (e a Cibiogem?) possivelmente dirão que a morte se deve a outras causas. É um problema de comunicação. Ou melhor: de quem paga por ela.

[1] http://tinyurl.com/lfpych4 [texto em inglês];

[2] http://tinyurl.com/ychhe3yv [texto em inglês];

[3] http://tinyurl.com/ybpuvl8y, citado por C. Gillam [texto em inglês];

[4] http://tinyurl.com/yadn9sqz [texto em espanhol];

[5] http://tinyurl.com/ybe49o4t [texto em espanhol].

Silvia Ribeiro é pesquisadora e integrante do Grupo ETC – Grupo de Ação sobre Erosão, Tecnologia e Concentração.

Fonte – Edição Vivian Neves Fernandes, tradução Luiza Mançano, Brasil de Fato de 11 de julho de 2017

“Colocam a humanidade no limite”. Para Vandana Shiva, Monsanto é culpada de ecocídio

Shiva pressionou o tribunal civil internacional que julgou a Monsanto e a considerou culpada de ecocídio. Ela pediu ao Supremo Tribunal a suspensão da Soja Intacta RR2da empresa Monsanto, pelos sérios riscos envolvidos.

Vandana Shiva pediu para ser considerada como amicus curiae para emitir opiniões sobre a soja da Monsanto.

“É um dia para lembrar que somos parte da Terra e que todos nós temos o dever de cuidar dela. Que dois séculos de desenvolvimento impulsionado por combustíveis fósseis estão colocando a humanidade no limite. E nós temos que mudar de rumo.”

Com esta decisão, a filósofa e ecofeminista indiana Vandana Shiva, ganhadora do Prêmio Nobel Alternativo de 1993, começou a carta reproduzida em todo o mundo a partir do Dia Mundial do Meio Ambiente, comemorado em 5 de junho. Mas o rumo de suas preocupações, cujo foco agora é os problemas ambientais que assolam o planeta, fica na Argentina.

Algumas semanas atrás, Shiva conseguiu que um documento judicial chegasse ao Supremo Tribunal, para participar no julgamento que a ONG Naturaleza de Derechos iniciou contra a empresa Monsanto e o Estado Nacional, tentando proibir a liberação e comercialização da soja transgênica RR2 em território argentino.

Tendo se tornado uma das principais referências mundiais dentro dos movimentos ambientais, Vandana Shiva foi uma das promotoras da criação do Tribunal Civil da Monsanto, que durante outubro de 2016 recebeu dezenas de testemunhos de todo o mundo sobre as implicações dos pesticidas e órgãos geneticamente modificadospara a saúde e o ambiente e, em abril do ano passado, declarou a Monsanto culpada pelo crime de ecocídio no Tribunal Internacional de Haia.

Depois de sua visita à Argentina no ano passado, durante o Festival de Cinema Ambiental, realizado na cidade de Buenos Aires, Shiva vinculou-se a organizações socioambientais locais, formando uma ponte para que no último 22 de maio pudesse recorrer ao Supremo Tribunal por escrito, declarando seu interesse em “apresentar-se no processo judicial como Amicus Curiae, a fim de opinar ao Tribunal quanto à necessidade de decretar a suspensão da Soja Intacta RR2 da empresa Monsanto Argentina SAIC, que representa um risco de dano grave e irreparável à agricultura tradicional, à saúde humana, ao ambiente e à biodiversidade”.

No mesmo documento, Shiva explica ao Supremo Tribunal a necessidade de uma audiência pública antes do tratamento do caso que acaba de chegar a suas mãos, consultando a opinião de especialistas independentes sobre os Organismos Geneticamente Modificados (OGM). Sem esse passo, para a filósofa hindu, é impossível determinar os efeitos sociais e ambientais dos agrotóxicos da Monsanto, cuja inocuidade alimentar e ambiental -alegada pela multinacional desde seu começo – nunca foi provada em estudos de longo prazo. Além disso, Shiva aponta que o cultivo transgênico do RR2 está preparado para um solo, dos mais de dez sub-biomas da Argentina, e que os efeitos que podem causar sobre o resto do território são desconhecidos.

Logo após receber uma menção especial em Nova Deli por sua “vida de serviço à Terra” durante o Dia Mundial do meio ambiente, Shiva participou do funeral de Madhav Dave, o ministro do Meio Ambiente hindu que havia sido ameaçado por desaprovar a mostarda transgênica da Monsanto na Índia e que foi encontrado morto em sua casa em 18 de maio. Ao chegar em sua cidade natal, Dehradun, Vandana Shiva concedeu a entrevista para discutir o cenário ambiental complexo no qual estamos imersos.

Quais são os problemas ambientais mais graves que a humanidade enfrenta atualmente?

O problema mais profundo é a continuidade da visão de mundo mecanicista, que vê a natureza como algo inerte, como matéria-prima a ser explorada, como um depósito para os nossos resíduos. Esta visão de mundo ganhou força com os combustíveis fósseis, e ganhou o mundo através do colonialismo, destruindo as culturas Bhoomi, Pachamama, Gaia, que veem a Terra como um ser vivo, e os seres humanos como parte da terra. Todas as várias expressões da crise ecológica – o caos climático, a erosão da biodiversidade, a extinção de espécies, o desaparecimento e poluição da água, a desertificação, a poluição tóxica – estão relacionadas a este paradigma mecanicista cristalizado.

Quais são as expressões materiais mais perigosas deste paradigma mecanicista?

Como ecologista e ativista, vejo a agricultura industrial como a fonte mais importante de destruição da saúde do planeta e da nossa saúde. Setenta e cinco por cento da destruição do solo, da falta de água, da erosão da biodiversidade relacionam-se com o impacto dos produtos químicos na agricultura. Estes produtos químicos são derivados de combustíveis fósseis e a agricultura industrial é responsável por metade dos gases de efeito estufa que poluem a atmosfera e causam instabilidade climática. Os alimentos desta agricultura também são responsáveis por 75% das doenças crônicas que afetam a humanidade. A pulverização de Roundup na Argentina, na soja Roundup Ready, levou a uma epidemia de câncer. A Monsanto sabia disso desde 1984. No entanto, eles mentiram que o glifosato do Roundup era seguro. Mas temos uma alternativa comprovada na agroecologia de cultivo de alimentos sem venenos. A agricultura livre tornou-se uma alternativa para o ambiente e a saúde. E acredito que está acontecendo uma grande mudança de consciência.

Que possibilidades abrem-se para proibir o cultivo transgênico depois que Haia condenou a Monsanto por crimes contra o meio ambiente?

Acredito que está se tornando inaceitável para as pessoas que empresas que cometem crimes e governos desonestos destruam a terra sem se responsabilizar de forma alguma, violando o princípio de que o poluidor deve pagar. Acho que o mundo está se abrindo para entender o ecocídio como um verdadeiro crime contra a natureza.

Há poucas semanas, depois de visitar a Argentina em 2016, a senhora enviou um documento ao Supremo Tribunal para testemunhar contra a corporação Monsanto. Quais são suas impressões sobre a situação no país?

Na Argentina e na Índia, a Monsanto está atacando as leis de patentes que reconhecem que somos parte da família da Terra, que as plantas e os animais não são invenções humanas e, portanto, não são patenteáveis. A ganância da Monsanto ao cobrar direitos autorais através de patentes sobre sementes está levando-a a atacar nossas leis nacionais e a soberania das sementes.

Que países já proibiram o uso de culturas geneticamente modificadas?

A maior parte da Europa é livre de OGM, a maior parte da Ásia é livre de OGM. Com exceção do algodão transgênico, a Índia não tem nenhum cultivo de alimentos geneticamente modificados. A Monsanto tentou empurrar a berinjela transgênica. Audiências públicas foram organizadas em todo o país e eles pararam. Por dois anos, a Monsanto-Bayer vem tentando empurrar uma mostarda transgênica que conseguimos deter até agora. O Satyagraha (um termo cunhado por Mahatma Gandhi para se referir à “força da verdade”) e a não-cooperação com o Cartel del Veneno são nossas últimas estratégias de organização para ter zonas livres de OGM e venenos.

As mudanças ambientais, sobretudo o aquecimento global, agora ameaçam erradicar a vida no planeta a curto ou médio prazo. Você acha que é possível reverter esta situação?

O mundo não vai acabar com o aquecimento global. O que vão terminar são as condições de vida humana na terra. Cientistas como Stephen Hawking dizem que vamos ser extintos em 100 anos ou devemos fugir para outros planetas. Mas há uma terceira opção, reconhecer que somos terráqueos, membros da família da terra. Podemos rejuvenescer este planeta, nosso lar, através da agroecologia, e criar condições para a continuação da vida humana e de outros seres vivos na Terra. A Agroecologia não é apenas a solução para a epidemia de veneno e de doença. É a solução para a mudança climática, porque através das plantas e da biodiversidade se extrai o excesso de carbono e nitrogênio do ar, que são devolvidos ao solo, como escrevi no livro Soil not Oil. Ficar aqui e cuidar da Terra também nos permite cuidar do nosso futuro. Esta é a nossa melhor opção. É um imperativo ecológico.

Fontes – Diego Fernández Romeral, Página/12, tradução Henrique Denis Lucas, IHU de 04 de julho de 2017

Califórnia listará glifosato como causador de câncer

agrotoxico-herbicida-glifosato-quimico (Foto: Thinkstock)Aplicação do herbicida glifosato (Foto: Thinkstock)

Molécula é princípio ativo do principal defensivo agrícola comercializado pela Monsanto, que promete reação

O glifosato, ingrediente ativo do herbicida Roundup, da Monsanto, será colocado em uma lista do Estado da Califórnia (EUA) de produtos químicos avaliados como causadores de câncer no dia 7 de julho, disse o Escritório de Avaliação da Perda de Saúde Ambiental (OEHHA) na segunda-feira.

A Monsanto prometeu continuar sua batalha legal contra a designação, baseada uma lei estadual conhecida como Proposição 65, e chamou a decisão “injustificada com base na ciência e na lei”.

A listagem é o mais recente revés judicial para a empresa de sementes e produtos químicos, que enfrentou litígios crescentes relacionados ao glifosato, uma vez que a Agência Internacional de Pesquisa sobre Câncer da Organização Mundial de Saúde disse que é “provavelmente carcinogênico” em uma decisão controversa em 2015.

Dicamba, um herbicida projetado para uso com a próxima geração de culturas biotecnológicas da Monsanto, está sob escrutínio no Estado do Arkansas depois que um conselho do Estado votou na semana passada para proibir o produto químico.

A OEHHA disse que a designação de glifosato no âmbito da Proposição 65 prosseguirá após uma tentativa infrutífera da Monsanto de bloquear a listagem no tribunal de julgamento e após os pedidos de permanência foram negados por um tribunal de apelação do estado e pela Suprema Corte da Califórnia.

O apelo da Monsanto ao julgamento do tribunal de primeira instância está pendente.

“Este não é o último passo no processo, e não tem qualquer influência sobre os méritos do caso. Continuaremos desafiando agressivamente essa decisão imprópria”, disse Scott Partridge, vice-presidente de estratégia global da Monsanto.

A listagem de glifosato como um carcinógeno sob a Proposição 65 da Califórnia exigiria que as empresas vendessem o produto químico no estado para adicionar etiquetas de advertência às embalagens. Advertências também seriam necessárias se o glifosato estiver sendo pulverizado em níveis considerados inseguros pelos reguladores.

Os usuários do produto químico incluem paisagistas, campos de golfe, pomares, vinhas e fazendas.

A Monsanto e outros produtores de glifosato teriam cerca de um ano a partir da data da lista para redistribuir os produtos ou removê-los das prateleiras da loja se novos desafios legais forem perdidos.

A Monsanto não calculou o custo de qualquer esforço de refazer a rotulagem e não divulga dados de vendas de glifosato por estado, disse Partridge.

Grupos ambientais saudaram o movimento da OEHHA para listar o produto químico.

“A decisão da Califórnia torna o líder nacional na proteção de pessoas contra os pesticidas que causam câncer”, disse Nathan Donley, cientista sênior do Centro de Diversidade Biológica.

Fonte – Reuters, tradução redação Globo Rural de 27 de junho de 2017

Estudo relaciona uso de agrotóxicos com câncer no sangue

Informação sobre linfoma não-Hodgkin foi apresentada por pesquisadora do Instituto Nacional de Câncer durante audiência pública na Assembleia Legislativa de São Paulo

O primeiro estudo realizado no Brasil sobre a relação do uso de agrotóxicos com o surgimento do linfoma não-Hodgkin (LNH), um tipo de câncer hematológico que nas últimas décadas tem afetado com mais frequência a população mundial, foi um dos destaques da audiência pública realizada nesta terça-feira (27), pela Comissão de Saúde da Assembleia Legislativa de São Paulo, para debater os efeitos causados na saúde e no meio ambiente pelo uso de agrotóxico.

O alerta foi feito por Márcia Sarpa de Campos de Mello, pesquisadora do Instituto Nacional de Câncer (Inca) e uma das três autoras do estudo. A pesquisa mostrou que os agrotóxicos 2,4-D, diazinona, glifosato e malationa estão relacionados a esse tipo de câncer – glifosato e 2,4-D são os dois agrotóxicos mais utilizados no Brasil.

“Diante desse cenário de extrema vulnerabilidade da população brasileira a doenças causadas pelos agrotóxicos, diretrizes regulatórias e legislações mais restritivas são urgentes, assim como o investimento em serviços de saúde e a promoção de políticas de prevenção de doenças crônicas não transmissíveis”, diz o trecho final do estudo Exposição ambiental e ocupacional a agrotóxicos e o linfoma não-Hodgkin.

A relação dos agrotóxicos com o LNH se soma a muitas pesquisas e estudos desenvolvidos tanto no Brasil quanto no exterior, que apontam a conexão entre o uso de venenos na lavoura e o surgimento de diversos tipos de câncer – a segunda maior causa de mortes no Brasil. Segundo estimativa do Inca, cerca de 600 mil novos casos de câncer surgiram em 2016 no país.

Márcia Sarpa enfatizou que a classificação toxicológica dos agrotóxicos leva em conta apenas os “efeitos agudos”, que afetam normalmente os trabalhadores que manipulam diretamente os produtos. Algo que, para ela, é um grave erro. O glifosato, por exemplo, é classificado como “pouco tóxico”.

“A toxicidade aguda é a pontinha do iceberg”, afirmou a pesquisadora do Inca. Para ela, o problema maior está na toxicidade crônica, aquela relacionada à exposição frequente a pequenas doses do produto. Entre os efeitos conhecidos da toxicidade crônica estão problemas de fertilidade, no desenvolvimento do feto, a má formação congênita, a desregulamentação endócrina, mutações e variados tipos de câncer.

“Já temos certeza de todas essas toxicidades, de todos esses efeitos”, afirmou Márcia Sarpa, lembrando que a literatura médica indica que entre 15% e 20% dos cânceres são relacionados à predisposição genética, enquanto entre 80% e 85% são causados por “fatores ambientais”.

Saúde pública

Desde 2008, o Brasil é o país que mais consome agrotóxicos no mundo. Mais da metade das substâncias presentes nestes produtos químicos adotados nas lavouras brasileiras são proibidas em países da Europa e nos Estados Unidos. De acordo com o Dossiê Abrasco, cerca de 70% dos alimentos in natura consumidos no país estão contaminados por algum tipo de agrotóxico, sendo que, desses, segundo dados da Anvisa, 28% contêm substâncias não autorizadas para uso no Brasil. Além disso, conforme a Organização Mundial da Saúde (OMS), os agrotóxicos causam, anualmente, 70 mil intoxicações agudas e crônicas na população dos países em desenvolvimento.

Os efeitos nocivos do uso de agrotóxico na saúde humana, no meio ambiente, os interesses econômicos e políticos do agronegócio, incluindo a tramitação do Projeto de Lei 6.299/2002, o chamado “pacote do veneno”, foram os temas que predominaram durante as quase três horas da audiência pública, solicitada pelos deputados estaduais do PT Carlos Neder e Marcos Martins.

“É importante dizer que a Fundação Oswaldo Cruz tem clareza que o uso de agrotóxico é um problema de saúde pública, que precisa ser enfrentado e que está afetando a vida das futuras gerações”, afirmou Luis Claudio Meirelles, pesquisador em saúde pública da Fiocruz.

Para ele, a falta de informações oficiais confiáveis sobre o uso de agrotóxico no Brasil causa um cenário de “embate técnico”. Meirelles disse que há uma lacuna na transparência e no direito à informação, tanto em nível federal quanto estadual. “Em vez de melhorar, nos últimos anos conseguimos piorar.”

O pesquisador destacou que, embora a literatura internacional seja “inequívoca” com relação aos perigos causados pelos agrotóxicos, os órgãos de controle e fiscalização no Brasil são frágeis. Como exemplo, citou o caso da água, dos alimentos processados ou de origem animal, cujo monitoramento é “parcial ou inexistente”.

“No Brasil, se usa produtos perigosos ou já banidos em outros países. A Europa está falando em banir o glifosato e aqui a gente ainda nem discute o tema”, criticou. O pesquisador da Fiocruz enfatizou o caminho errado adotado pelo país para lidar com o assunto, ponderando que, enquanto a Organização das Nações Unidas (ONU) defende regulamentar e eliminar o uso de agrotóxicos, privilegiando práticas sustentáveis, no Brasil tramita o “pacote do veneno” – uma série de medidas com o objetivo de facilitar ainda mais o uso de agrotóxicos.

“Não é uma questão trivial, é complexa, mas podemos produzir os mesmos alimentos sem o uso de veneno”, afirmou Meirelles.

Proposta de transição

Coube a Carla Bueno, representante da Campanha Permanente contra os Agrotóxicos e Pela Vida, trazer à audiência pública informações que traçam o cenário atual da realidade do campo no Brasil. Entre os dados apresentados, destaque para o fato de míseros 1% dos agricultores do país serem donos de 45% das terras boas para a agricultura. Apesar da enorme concentração de terra, entre 2003 e 2010 os latifúndios aumentaram sua área em 5%, enquanto os minifúndios, pequenas e médias propriedades, diminuíram de tamanho. “Estamos concentrando ainda mais terra”, afirmou.

Segundo Carla, quanto maior a concentração de terra, mais baixo é o PIB per capita e maior a pobreza. “O agronegócio é dependente do veneno e não consegue sair dele. Eles não sabem como parar de produzir sem veneno.”

Apesar do cenário difícil, ela propõe que haja um debate público e um modelo de transição para o agronegócio diminuir o uso de agrotóxicos. Algo que tornou-se realidade por meio da Política Nacional de Redução de Agrotóxicos (PNaRA), transformada em dezembro do ano passado no Projeto de Lei 6.670/2016.

“O projeto é uma proposta de transição do modelo da agricultura, baseado em menos insumos químicos. O que estamos propondo para o Brasil é a construção, de forma gradual e cuidadosa, de uma transição de modelo de produção, algo mais do que necessário no processo em que vivemos, inclusive internacional, de cuidar da natureza, da nossa população e evitar ao máximo o uso dessas substâncias”, explicou a representante da Campanha Permanente contra os Agrotóxicos e Pela Vida.

“Sabemos que esse Congresso não representa o desejo e o que pensa o povo brasileiro. Nossa tarefa é fazer a mobilização social fora do Congresso para então estimular o debate lá dentro e tentar, de alguma forma, colocar uma consciência mais humana nos deputados que lá estão.”

O PL 6.670 começará a tramitar em comissão especial criada para analisar o tema. Após alcançar o número mínimo de deputados, a expectativa é que a comissão seja instalada em breve.

“A audiência de hoje teve o caráter de denúncia, mas também caminhamos para a busca de alternativas. Vamos nos dedicar cada vez mais a pensarmos alternativas no marco legal, na produção de políticas e na geração de produtos sem o uso de agrotóxicos. Continuaremos essa discussão no sentido de pensar um fórum permanente, que se articule com o fórum paulista e a campanha nacional, para que São Paulo esteja na dianteira dessa luta contra o uso de agrotóxico e os prejuízos causados à saúde e ao meio ambiente”, disse, ao final da audiência, o deputado Carlos Neder.

Fonte – Luciano Velleda, Rede Brasil Atual de 27 de junho de 2017

Glifosato: Carta aberta de médico alerta para falhas das agências europeias

Glifosato usado na agricultura

Numa carta aberta, o médico Christopher Portier apontou falhas na avaliação das agências europeias sobre o risco para a saúde do glifosato

Numa carta aberta a Jean-Claude Juncker, presidente da Comissão Europeia, o médico Christopher Portier apontou falhas na avaliação das agências europeias sobre o risco para a saúde do glifosato.

“A classificação de risco do glifosato é um bom exemplo de como a falta de transparência sobre os dados científicos que estão por trás de decisões importantes sobre a saúde pública pode minar a confiança do público”, escreve o cientista.

Portier teve acesso ao estudo elaborado a partir de dados transmitidos confidencialmente pela indústria do glifosato à EFSA (Agência Europeia de Segurança dos Alimentos) e à ECHA (Agência Europeia de Produtos Químicos) e acusa as agências de não terem levado em conta “oito casos de aumentos significativos de tumores após exposição ao glifosato”.

“Estas omissões tornam impossível aos cientistas exteriores julgarem a qualidade dos estudos, o rigor dos métodos usados para analisar os dados, ou determinar se existem razões legítimas nas discussões para que os tumores identificados (…) tenham sido excluídos”, acrescenta.

Em 2016, um grupo de 100 cientistas, liderados por Portier, alertou para os problemas para a saúde ligados ao uso do glifosato. Nesse mesmo ano, Bruxelas prolongou a licença do glifosato por mais 18 meses, enquanto esperava pelo relatório da ECHA.

Na carta Portier propõe que as avaliações das agências europeias sejam repetidas e que os dados em que essas avaliações se baseiam sejam tornados públicos.

Após o parecer positivo da EFSA e da ECHA, os comissários europeus decidiram recentemente “retomar as conversações com os Estados-membros sobre uma possível renovação da autorização do glifosato durante 10 anos”.

Fonte – The UniPlanet de 31 de maio de 2017

Um rótulo sem OGM para Portugal

A Plataforma Transgénicos Fora está a criar o selo “Sem OGM”, que irá garantir ao consumidor que os produtos com este rótulo não usam OGM

A Plataforma Transgénicos Fora defende uma agricultura sustentável orientada para a proteção da biodiversidade e do direito dos povos à soberania sobre o seu património genético comum. Neste momento, esta plataforma encontra-se a criar a certificação “Sem OGM” um sistema ambicioso que irá garantir ao consumidor que os produtos identificados com o Rótulo SEM OGM não usam transgénicos.

O UniPlanet falou com Ricardo Marques, da Plataforma Transgénicos Fora, para ficar a conhecer melhor este projeto.

UniPlanet (UP): A Plataforma Transgénicos Fora está a criar a certificação “Sem OGM”. Podem explicar-nos como irá funcionar?

Funcionará de forma idêntica à certificação biológica, a rotulagem Sem OGM pode ser requisitada por qualquer produtor de géneros alimentícios a nível nacional. A iniciativa e o referencial Sem OGM são supervisionados pela Plataforma Transgénicos Fora, mas a implementação no terreno cabe às empresas de certificação. Os produtos que solicitarem e que se comprove que não foram produzidos com OGM poderão usar o rótulo Sem OGM.

UP: Existem muitos produtos fabricados com recurso a OGM e que não estão rotulados como tal. Podem dar-nos alguns exemplos?

A maioria dos ovos, carnes, peixes e lacticínios são produzidos com soja e milho transgénico, no entanto, essa informação não está disponível para o consumidor. Também produtos com uma percentagem de OGM até 0,9% não necessitam de ser rotulados. Este rótulo irá ajudar o consumidor a diferenciar os produtos.

UP: Como podemos ajudar a que o Rótulo sem OGM se torne realidade?

O mais importante é, sem dúvida, apoiar o crowdfunding.
Visite também o nosso facebook, a página SEM OGM e partilhe a informação.

UP: Onde podemos encontrar mais informação sobre a Plataforma Transgénicos Fora?

Para saber mais sobre a Plataforma Transgénicos Fora e as suas intervenções consulte o nosso site e em especial o nosso dossier de atividades.

Fonte – The UniPlanet de 13 de junho de 2017

De Olho nos Ruralistas faz twittaço na quarta-feira: “O Agro não é pop”

Observatório questiona campanha da Globo, JBS e Ford, iniciada em 2016 para promover modelo que defende latifúndios e grandes empresas agropecuárias

O Agro é Pop? O Agro É Tech? O Agro É Tudo? Assim dizem – de modo exclamativo – a Rede Globo e os patrocinadores de uma propaganda televisiva em horário nobre: a Ford e o grupo JBS, responsável pelas marcas Seara e Vigor. A campanha está no ar desde 2016, nos intervalos dos principais programas da Globo, como o Jornal Nacional, o Fantástico e a novela das nove.

Campanha da Globo gera paródias.

Um observatório sobre agronegócio no Brasil, De Olho nos Ruralistas questiona em um twittaço, nesta quarta-feira (28/06), a ideia defendida pelo comercial. Hashtag principal: #OAgroNãoÉPop. Complementares: #OAgroNãoÉTech, #OAgroNãoÉTudo. O comercial da Globo se encerra sempre da seguinte forma: “Agro é tech. Agro é pop. Agro é tudo. Tá na Globo”.

O twittaço marca uma fase decisiva da campanha de arrecadação do De Olho, que depende de assinaturas para chegar até 2018. O projeto tem o objetivo de conseguir mil parceiros. Hashtags: #DeOlhoNosRuralistas, #DeOlhoNosMilParceiros. No ano passado, em dezembro, o observatório realizou uma oficina sobre imprensa e questão agrária, com o mesmo tema: “O agro é pop?”

O twittaço será realizado das 13 às 15 horas. O perfil do De Olho no Twitter, @deolhonoagro, divulgará informações e material de apoio durante esse período. Quem quiser acessar antes parte desse material pode entrar na página do observatório no Facebook. A mesma rede social tem um grupo de apoio ao projeto: De Olho nos Ruralistas – Apoio.

O agro é bom?

A multinacional Bayer também lançou vídeos em defesa do agronegócio. O bordão da campanha lembra o da Globo: “O Agro é bom”. Traz a história de fazendeiros, ligados ao modelo do agronegócio, descritos quase como se fossem pequenos agricultores.

Projeto iniciado em setembro de 2016, com o objetivo de investigar os impactos sociais e ambientais do agronegócio, divulgando notícias sobre o poder político e econômico dos ruralistas, o De Olho nos Ruralistas pergunta aos internautas: o agro é bom?

O observatório mostrou no dia 11 que a propaganda específica sobre cana-de-açúcar traz imagens de engenhos com mão-de-obra escrava, exaltando os 500 anos de exploração de trabalhadores no Brasil: ““Agro é pop”: propaganda da Globo sobre cana tem imagens de escravos“.

Imprensa e questão agrária

Comercial sobre cana exalta a cana com imagens de escravos feita por um senhor-de-engenho. (Imagem: Reprodução)

Confira aqui o link da campanha De Olho nos Mil Parceiros. A partir de R$ 12 mensais cada assinante tem direito a receber um boletim semanal, com a seleção do que saiu na semana em um dos quatro boletins diários do observatório: De Olho no Agronegócio, De Olho no Ambiente, De Olho na Comida e de Olho nos Conflitos.

A partir de R$ 25 mensais o parceiro escolhe pelo menos um dos boletins diários, com uma seleção do que saiu na mídia (jornais, revistas, imprensa regional, institucional e independente) sobre cada um dos temas.

Uma das realizações do observatório em 2018 será o lançamento de um livro sobre imprensa e questão agrária, escrito pelo editor do De Olho, Alceu Luís Castilho. O comercial da Globo – e também a relação específica da família Marinho com o agronegócio – será um dos assuntos.

Fonte – De Olho nos Ruralistas de 26 de junho de 2017

 

Le Monde: as práticas irregulares da Monsanto

Le Monde: as práticas irregulares da Monsanto

Já fomos atacados no passado, já sofremos campanhas de difamação, mas somos desta vez o alvo de uma campanha orquestrada, de amplitude e duração inéditas.” Essas foram as palavras iniciais de Christopher Wild  diretor do Centro Internacional de Pesquisas sobre o Câncer (CIRC).

Christopher Wild pesou cada palavra com uma gravidade à altura da situação. Há dois anos, inúmeros ataques foram feitos à instituição que ele dirige: a credibilidade e a integridade de seu trabalho são desafiadas, seus especialistas difamados, pressionados por meio de advogados, seus financiamentos fragilizados. Encarregada há cerca de meio século, sob os auspícios da Organização Mundial da Saúde (OMS), de fazer o inventário das substâncias cancerígenas, a venerável agência começa a vacilar sob o assalto.

As hostilidades foram iniciadas numa data bem precisa: 20 de março de 2015. Naquele dia, o CIRC anunciou as conclusões de sua pesquisa que deixou o mundo todo chocado. Ao contrário da maioria das agências regulamentares, o CIRC julga genotóxico – pois prejudica o DNA –, cancerígeno para o animal e  “provavelmente cancerígeno” para o homem, o pesticida mais utilizado do planeta. Este pesticida é o glifosato, principal componente do Roundup, o produto farol de uma das empresas mais célebres do mundo: a Monsanto.

É também o Leviatã da indústria agroquímica. Utilizado há mais de quarenta anos, o glifosato entra na composição de nada menos de 750 produtos comercializados por uma centena de empresas, em mais de 130 países.

O glifosato, pedra angular da Monsanto

Entre 1974, data em que foi posto no mercado, e 2014, seu uso passou de 3.200 toneladas por ano a 825.000 toneladas. Um aumento espetacular, devido à adoção maciça de sementes geneticamente modificadas para tolerá-lo. De todas as empresas agroquímicas que poderiam ser atingidas por medidas de restrição ou de proibição do produto, há uma que arrisca sua própria sobrevivência. Monsanto, que o criou, fez do glifosato a pedra angular de seu modelo econômico. Ela fez sua fortuna vendendo o Roundup e as sementes que o suportam.

Então, quando o CIRC anuncia que o glifosato é “provavelmente cancerígeno”, a empresa americana reage com uma brutalidade inacreditável. Em um comunicado, ela vilipendia a “junk science” (a “ciência podre”) do CIRC: uma “seleção viesada” de “dados limitados”, estabelecida em função de “motivações ocultas”, levando a uma decisão tomada depois de apenas “algumas horas de discussão no decorrer de uma reunião de uma semana”. Jamais uma empresa questionara em termos tão crus a integridade de uma agência situada sob a responsabilidade das Nações Unidas. A ofensiva estava lançada. Pelo menos aquela que se desenvolve a céu aberto.

Um ano de trabalho para avaliar o pesticida

Internamente, a Monsanto toca uma música totalmente diferente. Esta avaliação do glifosato, como ela sabe muito bem, foi realizada por um grupo de especialistas que, depois de um ano de trabalho, reuniu-se durante vários dias em Lyon para deliberar. Os procedimentos do CIRC requerem que os industriais afetados pelo produto examinado tenham o direito de comparecer a esta reunião final.

Para a avaliação do glifosato, a Monsanto tinha, portanto, enviado um “observador”, o epidemiologista Tom Sorahan, professor da Universidade de Birmingham (Reino Unido) que ela utiliza em missões de consultoria. O informe que ele dirigiu, em 14 de março de 2015, a seu comanditários, confirma isso: tudo se passou de acordo com as regras. “Achei o presidente [do grupo de trabalho], os copresidentes e os especialistas convidados muito amigáveis e dispostos a responder a todos os comentários que eu fiz”, escreve Sorahan, em uma carta dirigida a um quadro da Monsanto e que integra os “Monsanto papers” – um conjunto de documentos internos da empresa que a justiça americana começou a tornar públicos no início de 2017, no contexto do processo em curso.

“A reunião realizou-se de acordo com os procedimentos do CIRC, acrescenta o observador da empresa americana. O Dr. Kurt Straif, diretor das monografias, tem um conhecimento íntimo das regras em vigor e insistiu em que elas fossem respeitadas”.

Contra-ataque

O cientista – que não respondeu às solicitações do Le Monde– parece, aliás, muito constrangido com a ideia de que seu nome seja associado ao ataque da Monsanto: “Não desejo aparecer em nenhum dos documentos de seus comunicadores”, escreve ele, ao mesmo tempo em que oferece sua “ajuda para formular elementos de linguagem” do contra-ataque, inevitável, que o grupo está preparando.

Alguns meses mais tarde, os cientistas não americanos que eram membros do grupo de especialistas do CIRC sobre o glifosato recebem todos a mesma carta. Enviada por Hollingsworth, o escritório de advogados da Monsanto, esta os intima a liberar a totalidade dos arquivos relacionados a seu trabalho sobre a pesquisa batizada de “monografia 112”. Rascunhos, comentários, planilhas de dados… tudo que tenha passado pelo sistema de informática do CIRC. “Caso o senhor recuse, advertem os advogados, solicitamos expressamente que tomem imediatamente todas as medidas razoáveis de que dispõem para preservar esses arquivos intactos, aguardando uma demanda formal formulada por um tribunal americano.”

“Sua carta é intimidatória e deletéria, insurge-se um dos cientistas em sua resposta, datada de 4 de novembro de 2016. Considero sua iniciativa repreensível e carente da cortesia habitual, mesmo segundo os parâmetros contemporâneos.” O patologista Consolato Maria Sergi, professor na universidade de Alberta (Canadá), prossegue: “Sua carta é perniciosa, pois busca instilar, com maldade, ansiedade e apreensão no seio de um grupo independente de especialistas.”

Manobras de intimidação

As pressões exercidas sobre os membros americanos do grupo do CIRC deram-se por outros meios, ainda mais intimidatórios. Nos Estados Unidos, as leis sobre a liberdade de informação (Freedom of Information Act, ou FOIA) permitem a todo cidadão, sob certas condições, solicitar acesso aos documentos produzidos pelos órgãos públicos e seus funcionários: memorandos, cartas, relatórios internos etc.

Segundo nossas informações, o escritório Hollingsworth e Sidley Austin entrou com cinco demandas, a primeira já em novembro de 2015, só junto aos National Institutes of Health (NIH), aos quais estão vinculados dois dos especialistas. No que se refere aos outros cientistas, as demandas destinam-se à Agência Californiana de Proteção ao Meio Ambiente (CalEPA), à Texas A & M University ou ainda à Universidade do Estado do Mississipi. Algumas dessas instituições foram mesmo designadas pelos advogados da Monsanto no contexto de procedimentos judiciais em curso, envolvendo o glifosato, sendo assim obrigadas a fornecer alguns de seus documentos internos.

Seria o objetivo dessas manobras de intimidação fazer calar a crítica? Cientistas de renome mundial, em geral abertos às solicitações dos meios de comunicação, não responderam às solicitações do Monde, mesmo quanto a conversas informais. Ou, em alguns casos, com a condição de falar por uma linha privada, fora do horário de trabalho.

Os parlamentares americanos, por sua vez, não precisam lançar mão do FOIA para pedir contas às instituições científicas federais. Membro da Câmara de representantes, onde preside a comissão de controle e reforma do Estado, o republicano Jason Chaffetz escreve ao diretor dos NIH, Francis Collins, em 26 de setembro de 2016.

As escolhas do CIRC “suscitaram numerosas controvérsias”, escreve ele. E, apesar de seu “histórico de polêmicas, de retratações e de incoerências”, o CIRC recebe “financiamentos significativos dos contribuintes” americanos por meio das subvenções dadas pelos NIH. De fato, 1,2 milhões de euros sobre os 40 milhões do orçamento anual do CIRC provêm de uma subvenção dos NIH. A seu diretor, pois, Jason Chaffetz, solicita detalhes e justificativa de toda a despesa dos NIH relacionada ao CIRC.

Personagens quase saídos de um romance policial

Esta iniciativa foi aplaudida no mesmo dia pelo American Chemistry Council (ACC). A poderosa organização de lobby da indústria química americana, de que a Monsanto é membro, “espera que a luz será feita sobre a relação estreita e um tanto opaca” entre o CIRC e as instituições científicas americanas.

O lobby da indústria química encontrou no Sr. Chaffetz um aliado precioso. Já um março, o eleito republicano escrevia à direção de um outro órgão de pesquisa federal – o National Institute of Environmental Health Sciences –, para pedir-lhe contas sobre as pesquisas que financia sobre os efeitos nocivos do bisfenol A, um composto muito difundido em certos plásticos.

Que melhor meio de neutralizar uma instituição do que cortar seus víveres? Nos meses que se seguiram à publicação da «monografia 112 «, Croplife International, a organização que defende os interesses dos industriais dos pesticidas e das sementes em nível mundial procura os representantes de alguns dos 25 Estados membros do conselho de governança do CIRC para queixar-se da qualidade do trabalho da agência. Ora, estes “Estados participantes” contribuem com cerca de 70% para o orçamento total do CIRC. Pelo menos três deles – Canadá, Países Baixos e Austrália – foram procurados, segundo o CIRC.  Nenhum dos representantes desses Estados respondeu ao Monde.

No decorrer de 2016, personagens quase saídos de um romance apareceram na saga do glifosato. Em junho, um homem que se apresenta como jornalista mas não se anuncia nem se inscreve como tal, participa do encontro que o CIRC organiza em Lyon por ocasião de seu 50º aniversário.

O estranho Sr. Watts

Transitando de cientista a funcionário internacional, o indivíduo interroga uns e outros sobre o funcionamento do CIRC, seu financiamento, seu programa de monografias, etc. “Ele me fez pensar nessas pessoas dúbias que a gente cruza nos meios humanitários – nunca se sabe quem são, mas a gente adivinha que buscam informações”, testemunha uma participante do encontro, que deseja guardar o anonimato.

Alguns meses mais tarde, no fim de outubro de 2016, o homem reaparece. Desta vez no encontro anual organizado pelo Instituto Ramazzini, um célebre órgão de pesquisa independente e respeitado sobre o câncer, instalado perto de Bolonha, na Itália. Mas por que, diabo, o Ramazzini? Um relatório, talvez, com o anúncio, feito alguns meses antes pelo instituto italiano, de que ia levar adiante seu próprio estudo sobre cancerogeneticidade do glifosato?

Christopher Watts – é seu nome – faz perguntas sobre a independência do instituto, suas fontes de financiamento. Como utilizou um endereço de email que terminava por “@economist.com”, seus interlocutores não duvidaram de seu vínculo com o prestigiado hebdomadário britânico The Economist. Aos cientistas que lhe pedem detalhes, diz trabalhar para a Economist Intelligence Unit (EIU), uma empresa de consultoria filial do grupo de imprensa britânico.

Na EIU, confirmam que o Sr. Watts de fato produziu vários relatórios, mas disseram “não poder dizer porque ele participara” dos dois encontros. “Não foi publicado”, acrescentam. Surpreendente, pois na redação do jornal, declaram não ter “nenhum jornalista com esse nome”.

Só a denominação de uma empresa cuja criação o Sr. Watts mencionou, no final de 2014, parece clara: Corporate Intelligence Advisory Company (companhia de consultoria em informação para as empresas). O Sr.Watts, cujo endereço pessoal fica, segundo os documentos administrativos, na Albânia, não quis responder às perguntas do Monde.

Guerrilha burocrática

Em alguns meses, foram pelo menos cinco indivíduos que se apresentaram como jornalista, pesquisador independente ou assistente de escritórios de advocacia procurando cientistas do CIRC e pesquisadores associados a seus trabalhos. Todos buscando informações muito específicas sobre os procedimentos e os financiamentos da agência.

Um deles, Miguel Santos-Neves, que trabalha para a Ergo, uma empresa de inteligência econômica sediada em Nova York, foi pinçado pela justiça americana por usurpação de identidade. Como relatou o New York Times em julho de 2016, o Sr. Santos-Neves pesquisava em nome da empresa Uber sobre uma personalidade em litígio com a empresa, e tinha interrogado seu entorno profisssional sob falsos pretextos. A Ergo não deu sequência às solicitações do Monde. Como Christopher Watts, duas organizações gêmeas, de reputação sulfurosa se interessam não só pelo CIRC, mas também pelo Instituto Ramazzini. Energy And Environmental Legal Institute (E &E Legal) se apresenta como uma organização sem fins lucrativos, sendo uma de suas missões ‘pedir contas àqueles que desejam uma regulamentação governamental excessiva e destruidora, baseada em decisões políticas de intenções ocultas, na ciência podre e na histeria”.

Quanto à Free Market Environmental Law Clinic, “busca ser um contrapeso ao movimento em defesa do meio ambiente, que promove um regime regulamentar economicamente destruidor nos Estados Unidos”. Segundo os elementos de que dispõe Le Monde, elas iniciaram não menos de dezessete demandas de acesso aos documentos junto aos NIH e à Agência americana de proteção ao meio ambiente. Engajadas em uma guerrilha jurídica, burocrática, intrusiva, exigem as correspondências de vários funcionários americanos “contendo os termos “CIRC”, “glifosato”, “Guyton”” (como Kathryn Guyton, a cientista do CIRC responsável pela «monografia 112»). Solicitam os mínimos detalhes sobre bolsas, subvenções e outras relações, financeiras ou não, entre esses órgãos americanos, o CIRC, certos cientistas e o Instituto Ramazzini.

“Não deixe nada passar”

As duas organizações são dirigidas por David Schnare, um cético declarado em relação ao aquecimento global, conhecido por ter pressionado climatólogos. Em novembro de 2016, o Schnare deixou temporariamente a E & E Legal para unir-se à equipe de transição de Donald Trump. Encontra-se também, entre os dirigentes da organização, Steve Milloy, uma figura célebre da propaganda financiada pela indústria do fumo. Às perguntas sobre suas motivações e fontes de financiamento, o presidente da E & E Legal respondeu por email: “Saudações, não estamos interessados.”

O eco dessas demandas de acesso aos documentos é amplificado pelas matérias publicadas em certos meios de comunicação. Especialmente The Hill, um site político de leitura obrigatória para todo ator da vida parlamentar em Washington. Seus autores: um esquadrão de propagandistas, cuja associação US Right to Know (USRTK) documentou os laços de longa data com os industriais da agroquímica ou dos think tanks conservadores, como o Heartland Institute ou o George C. Marshall Institute, conhecidos pelo papel preponderante na maquinária “climatocética”. Os mesmos argumentos aparecem em vários textos. E às vezes, os mesmos sintagmas de um autor a outro: fustiga-se a«ciência feita nas coxas» de um CIRC que, corroído pelos conflitos de interesses, seria “amplamente criticado” – sem que jamais seja dito por quem.

Os advogados implicados nos procedimentos jurídicos americanos revelaram que a Monsanto empregava também meios mais discretos. Respondendo sob juramento às questões dos advogados de pessoas enfermas que atribuem seu câncer ao Roundup, responsáveis pela firma relataram a implantação de um programa confidencial batizado de “Let Nothing Go” (Não deixe nada passar», destinado a responder a todas as críticas.

As transcrições dessas audições permanecem confidenciais. Mas, memorandos transmitidos pelos escritórios de advogados implicados nas perseguições permitem saber um pouco mais. Segundo eles, a Monsanto recorre a empresas terceirizadas, que “empregam indivíduos, aparentemente sem conexões com a indústria, para fazer comentários positivos à margem dos artigos publicados, e posts no Facebook, a fim de defender a Monsanto, seus produtos químicos e os OGM”.

A máquina parece acelerar-se com a chegada do Sr. Trump

No decorrer dos últimos meses, a coalizão contra o CIRC ampliou-se. No final de janeiro de 2017, alguns dias apenas depois da entronização de Donald Trump na Casa Branca, o American Chemistry Council somou-se a suas fileiras.

O lobby americano da química abriu uma frente sobre as redes sociais na forma de uma campanha pela exatidão na pesquisa em saúde pública. Objetivo anunciado: obter uma “reformulação” do programa das monografias do CIRC. Em um site e pelo Twitter, a poderosa organização de lobby aperta o cerco: “Um pedaço de bacon ou um pedaço de plutônio? É a mesma coisa, segundo o CIRC” O texto é acompanhado de uma fotomontagem mostrando duas barras verdes fluorescentes que mergulham em ovos fritos. O CIRC de fato classificou, em outubro de 2015, os embutidos “cancerígenos” com certeza e a carne vermelha como “provavelmente cancerígena”, como o glifosato.

Talvez seu acesso direto ao círculo mais próximo ao presidente Trump dê a esses industriais da química e da agroquímica um sentimento de grande poder? A mais alta responsável pelo lobby do American Chemistry Council, Nancy Beck, não acaba de assumir suas funções como diretora adjunta do serviço encarregado da regulamentação dos produtos químicos e dos pesticidas na Agência americana de proteção ao meio ambiente, o serviço que, precisamente, completa o reexame do dossier glifosato? E Donald Trump em pessoa não confiou a Andrew Liveris, dono da Dow Chemical, empresa membro do American Chemistry Council, a direção de sua Manufacturing Jobs Initiative (Iniciativa para o emprego industrial)?

A máquina parece acelerar-se com a chegada da era Trump. No final de março, o republican texano Lamar Smith, presidente da comissão da Câmara dos representantes sobre a ciência, o espaço e a tecnologia, interpela o novo ministro da saúde, Tom Price. Ele concentra suas questões nos laços financeiros entre o National Institute of Environmental Health Sciences (NIEHS) e o Instituto Ramazzini a fim, escreve ele, de “assegurar-se que os beneficiários das subvenções aderem aos mais altos parâmetros de integridade científica”.

Ignorância e mentira

Publicada pouco depois na National Review, a tribuna ataca pessoalmente Linda Birnbaum, a diretora do NIEHS, acusada de promover um programa “quimiofóbico”, e Christopher Portier, seu antigo diretor adjunto, que acompanhou os trabalhos do CIRC como especialista convidado,aqui qualificado como “militante anti-glifosato bem conhecido”, e ambos membros do Ramazzini.  Eis, segundo eles, “um exemplo mais sobre a maneira como a ciência foi politizada”. A informação é igualmente, e entre outras, retomada pelo Breitbart News, o site de extrema direita fundado por Steve Bannon, o conselheiro estratégico do presidente Trump.

Qualificar o instituto ou o collegium Ramazzini (os dois são confundidos) “de obscura organização” aqui, ou de “espécie de Rotary Club para cientistas militantes” em outros locais, é na melhor das hipóteses, ignorância e, na pior, mentira. Fundado em 1982 por Irving Selikoff e Cesare Maltoni, duas grandes figuras da saúde pública, o Collegium Ramazzini é uma academia de 180 cientistas especializados em saúde profissional e relacionada ao meio ambiente.

Linda Birnbaum e Christopher Portier são fellows (membros). É também o caso do diretor do programa das monografias do CIRC, Kurt Straif, e de quatro especialistas do grupo de trabalho da monografia 112. Cada um em sua especialidade, cientistas de alto nível.

“Não temos medo”

O lançamento, pelo Instituto Ramazzini, em maio de 2016, de um estudo de toxicologia a longo prazo sobre o glifosato concentrou os tiros sobre o órgão, reputado por sua competência em matéria de câncer. A diretora de pesquisa do instituto, Fiorella Belpoggi, foi uma das raras cientistas que aceitou falar com o Monde: “Nós não somos muitos, temos pouco dinheiro, mas somos bons cientistas e não temos medo”.

Os ataques contra o Ramazzini e o CIRC certamente não vão parar tão cedo. Pois, depois do glifosato, outros produtos químicos estratégicos figuram na lista das prioridades do CIRC para o período 2014-2019. Pesticidas, ainda, mas também o biofenol A (BPA) e o aspartame. Ora, é justamente o NIEHS um dos principais financiadores no mundo da pesquisa sobre a toxicidade do BPA. Quanto ao aspartame, o estudo que alertou sobre as propriedades cancerígenas do edulcorante foi realizada há vários anos… pelo Instituto Ramazzini.

“Eu não tinha consciência, antes de tudo isso, murmura Fiorella Belpoggi, mas, se se livrarem do CIRC, do NIEHS e do Instituto Ramazzini, livrar-se-ão de três símbolos da independência da ciência”. De uma ciência que se tornou uma ameaça para interesses econômicos calculados em centenas de bilhões de euros.

Fonte – Stéphane Foucart e Stéphane Horel/ Tradução: Ana Corbusier, Desacato de 06 de junho de 2017

Suprema Corte dos EUA revela que gerente da Monsanto encobriu provas relacionando o câncer ao uso de glifosato e PCBs

George Levinskas, antigo gerente da Monsanto, o mesmo que ajudou a esconder o potencial carcinogênico do DDT na década de 1970, parece ter também influenciado a Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA) em relação ao herbicida mais utilizado no mundo – o glifosato – nos anos 80, segundo documentos revelados pelo tribunal da Califórnia, nesta terça-feira (19).

Em março de 2015, o site Sustainable Pulse descobriu que, durante 30 anos, tanto a Monsanto quanto a EPA esconderam o provável potencial carcinogênico do herbicida mais utilizado no mundo – o glifosato. Esta omissão foi agora confirmada por documentos divulgados pelo Tribunal do Distrito dos EUA em São Francisco.

O US Right to Know (USRTK) informou nesta quarta-feira que mais de 50 ações judiciais contra a Monsanto estão pendentes no Tribunal de São Francisco, apresentadas por pessoas que alegam que a exposição ao Roundup, um herbicida à base de glifosato, causou a eles ou a seus familiares o linfoma não-Hodgkin, e dizem que a Monsanto encobriu os riscos.

No dia 13 de março de 2017, o juiz distrital dos Estados Unidos, Vince Chhabria, determinou –– sob as objeções da Monsanto – que os documentos obtidos nesta descoberta pudessem ser revelados.

Os documentos divulgados evidenciam como a Monsanto influenciou a EPA a alterar a classificação de 4 de março de 1985, do glifosato como carcinogênico de Classe C – mostrando potencial sugestivo de potencial carcinogênico – para a classe E, que sugere “não-carcinogenicidade para humanos”, em 1991.

Esta alteração na classificação do glifosato ocorreu durante o mesmo período em que a Monsanto desenvolvia suas primeiras colheitas transgênica de sementes resistentes ao glifosato – Roundup-Ready.

Logo após a descoberta, por parte da Agência Internacional de Pesquisa do Câncer (IARC), de que o glifosato causa câncer, em março de 2015, o Sustainable Pulse descobriu documentos da EPA de 1991 que mostram como a Monsanto financiou um estudo de segurança a longo prazo com glifosato em camundongos, que, segundo os especialistas da EPA, revelava o alto risco de uso da substância, foi “revisado” inúmeras vezes até que misteriosamente não mostrasse nenhum potencial cancerígeno.

A razão para a revisão e à mudança na classificação do glifosato em 1991, por parte da EPA, era desconhecida até esta semana. Agora, porém, ficou claro que a EPA foi fortemente influenciada pela Monsanto durante o processo de reclassificação.

O Homem da omissão da Monsanto: Dr. George Levinskas

O Dr. George Levinskas, começou a trabalhar na Monsanto em 1971 e tornou-se Diretor de Avaliação Ambiental e Toxicologia, foi um dos principais agentes na cobertura do potencial carcinogênico dos DDTs proibidos na década de 1970.

A Monsanto começou a encomendar estudos de toxicidade animal em PCBs no início dos anos 70, mas os resultados não foram bem. “Nossa interpretação é que os PCBs estão exibindo um maior grau de toxicidade neste estudo do que tínhamos previsto”, escreveu um executivo.

Em 1975, um laboratório apresentou seus resultados de um estudo usando ratos. Um esboço antecipado dizia que, em alguns casos, os PCBs haviam causado tumores. O Dr. Levinskas escreveu ao diretor do laboratório: “Podemos solicitar que o relatório seja alterado para dizer ‘não parece ser cancerígeno’”. O relatório final retirara todas as referências a tumores.

O agora falecido Dr. Levinskas parece ter sido também protagonista em esconder o potencial carcinogênico de glifosato. Ele escreveu uma carta interna na empresa, em 1985, afirmando o seguinte: “A alta administração da EPA está revisando uma proposta para classificar o glifosato como uma classe C “possível carcinogênico humano” por causa de adenomas renais em camundongos machos. O Dr. Marvin Kuschner irá rever as seções renais e apresentar a sua avaliação para a EPA em um esforço de persuadir a agência de que os tumores observados não estão relacionados com glifosato”.

Os 30 anos de omissão do câncer decorrente do uso do glifosato vão ficar na história como mais um fracasso – do governo dos EUA, da EPA e dos reguladores mundiais –, no que tange a colocar a saúde do público em geral antes da necessidade de proteger e expandir os lucros das empresas.

Fontes – Sustainable Pulse / Lila Almendra, Contra os agrotóxicos de 19 de maio de 2017

Monsanto usa táticas de desinformação

Monsanto usa táticas de desinformação

Monsanto usa táticas de desinformação para minar a ligação entre o Glifosato e o Câncer

E-mails não selados em uma ação na Califórnia em Março deste ano revelaram que a gigante do agronegócio Monsanto se envolveu em atividades destinadas a minar os esforços para avaliar uma possível ligação entre o glifosato – o ingrediente ativo do popular herbicida Roundup da empresa – e o câncer.

Os documentos revelam os planos da empresa para semear na literatura científica através de um de seus escritos para atrasar e prevenir o governo dos EUA nas avaliações da segurança do produto.

Muitos atores corporativos, incluindo a indústria do açúcar, as indústrias de petróleo egás e a indústria do tabaco, usaram táticas para negar provas científicas, atacar cientistas individuais, interferir nos processos de tomada de decisão do governo e fabricar falsificações de ciência através de seus escritos para convencer os políticos

Este caso ressalta a urgente necessidade de maior transparência e proteções mais apertadas para evitar esses tipos de táticas de desinformação corporativa que poderiam colocar o público em risco.

Monsanto usa táticas de desinformação ! Alto Risco : Glifosato X Câncer

O caso centra-se na questão científica de saber se o glifosato provoca um tipo de câncer conhecido como linfoma não-Hodgkin. Na ação na Califórnia, em que os documentos chave da empresa foram desprotegidos, os queixosos com linfoma não-Hodgkin afirmam que sua doença está relacionada à exposição ao glifosato.

Linfoma não Hodgkin

A ciência ainda não é clara sobre esta questão. O documento de emissão da EPA sobre este tópico disse que o glifosato é “provavelmente cancerígeno “, mas alguns de seus membros do Painel Científico Assessor (SAP) apontam lacunas de dados críticos e até sugerem que há “evidência limitada mas sugestiva de uma associação positiva” entre Glifosato e linfoma não Hodgkin.

A Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos (AESA) e a Agência Europeia dos Produtos Químicos concluíram que as evidências científicas não suportam a classificação do glifosato como cancerígeno.

Mais de 94 cientistas de instituições em todo o mundo pediram mudanças no processo de avaliação científica da EFSA.

É complexo. O que é claro, no entanto, é que os organismos científicos independentes devem estar conduzindo suas avaliações sobre o glifosato sem interferência de jogadores externos com participação na determinação final.

As apostas para a saúde pública e para a linha de fundo da Monsanto são enormes

O glifosato é um dos herbicidas mais utilizados nos EUA (E no Brasil também!). Vendido pela Monsanto sob o nome comercial Roundup, é o produto principal da empresa. Os agricultores dos EUA pulverizam cerca de 300 milhões de libras dele em milho, soja e uma variedade de outras culturas todos os anos para matar ervas daninhas.

Também é comumente usado nos EUA para o cuidado do gramado residencial. Como resultado da sua utilização generalizada, traços de Roundup foram encontrados em córregos e outras vias navegáveis e em nossos alimentos e os agricultores e trabalhadores agrícolas estão em risco de exposição potencialmente pesada para o produto químico.

(Mais sobre as ramificações de seu uso agrícola e da aceleração relacionada de ervas daninhas resistentes a herbicidas aqui).

Definindo a Cena para Manipulação da Ciência

Em 2009, a Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA) iniciou uma avaliação compulsória do risco de glifosato como parte de seu processo de registro de pesticidas. O processo da agência arriscou a possibilidade de que o produto químico poderia estar listado como um possível cancerígeno, já que a agência é obrigada a analisar novas evidências desde sua última revisão em meados da década de 1990 e determinar se causará efeitos adversos não razoáveis ​​ao meio ambiente e à saúde humana .

Do ponto de vista da Monsanto, essa mudança de classificação representou uma clara ameaça para seu lucrativo produto, possivelmente resultando em mudanças nos rótulos e na percepção pública da segurança do produto que poderia manchar a imagem da marca.

Em março de 2015, a Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer (IARC), patrocinada pela Organização das Nações Unidas, divulgou uma avaliação concluindo que o glifosato era um provável cancerígeno  humano após avaliar a pesquisa científica disponível sobre a ligação do glifosato ao linfoma não Hodgkin e Mieloma.

O IARC recomendou que o glifosato fosse classificado como um cancerígeno 2A, juntamente com pesticidas como DDT e malatião.

O IARC era uma determinação baseada em ciência, não de natureza regulatória. Mas a avaliação do IARC, a revisão pendente da EPA e uma avaliação programada por outra agência dos Estados Unidos – a Agência para Substâncias Tóxicas e Registro de Doenças (ATSDR) nos Centros de Controle de Doenças (CDC) – estimularam a Monsanto a usar pelo menos quatro Táticas separadas para influenciar inapropriadamente a percepção pública e o processo de avaliação.

 

Tática 1 : Suprimir a Ciência

Em uma revelação perturbadora, os e-mails sugerem que os representantes da Monsanto tiveram comunicações freqüentes com um funcionário do governo dos EUA: Jess Rowland, ex-diretor associado da Seção de Efeitos de Saúde do Escritório de Programas de Pesticidas da EPA.

Os e-mails internos da Monsanto indicam que Rowland derrubou a empresa para a avaliação do IARC antes do seu lançamento. Os e-mails também citam Rowland dizendo que ele iria trabalhar para anular o estudo da ATSDR sobre o glifosato, segundo as informações ditas oficiais da Monsanto:

Se eu posso matar isso eu deveria ter uma medalha.

Os e-mails sugerem que a Monsanto estava trabalhando com funcionários dentro de uma agência governamental dos Estados Unidos, fora das áreas estabelecidas de contribuição do público para os processos de tomada de decisão, de uma maneira completamente inadequada.

Tática 2 : Ataque o Mensageiro

Imediatamente após a avaliação do IARC, a Monsanto não só contestou as descobertas, mas atacou a credibilidade do IARC, tentando desacreditar a agência de renome internacional, alegando que tinha caído muito depressa no “viés orientado pela agenda“.

Os membros do grupo de trabalho do IARC ficaram chocados com as alegações da Monsanto questionando sua credibilidade. O IARC baseia-se em dados que estão no domínio público e segue critérios para avaliar a relevância e independência de cada estudo que ele cita.

Como um membro do IARC, o epidemiologista Francesco Forastiere, explicou: “… nenhum de nós tinha uma agenda política, simplesmente atuamos como cientistas, avaliando o corpo de evidências, de acordo com os critérios”. Apesar dos ataques da Monsanto, o IARC continua apoiando as conclusões de sua avaliação de 2015.

Tática 3 : Fabricação Falsificada da Ciência

E talvez a revelação mais preocupante, foram os e-mails que mostram que em fevereiro de 2015, a Monsanto discutiu a fabricação de uma falsificação da ciência em um estudo para a literatura científica que minimizaria os impactos do glifosato sobre a saúde humana  e deturpando a sua independência.

Monsanto usa táticas de desinformação

William Heydens, um executivo da Monsanto, sugeriu que a empresa poderia manter os custos baixos, escrevendo um artigo sobre a toxicidade do glifosato e ainda pagar para acadêmicos “editar e assinar seus nomes por assim dizer” e recomendou que a revista críticas Toxicology fosse contatada , pois já  “tinha feito tal publicação no passado” naquele jornal.

O artigo de Heydens referenciado em 2000, cujo autor principal é um membro do corpo docente do New York Medical College (NYMC), cita estudos da Monsanto, agradece a Monsanto pelo “apoio científico”, mas não divulga o financiamento da Monsanto ou outro envolvimento direto em sua publicação. Esse artigo concluiu que “o herbicida Roundup não representa  risco para a saúde humana”.

Tática 4 : prejudicar a avaliação científica independente

Os e-mails de outros documentos judiciais também documentam as maneiras pelas quais a Monsanto trabalhou para evitar que o EPA use um Painel Científico Consultivo (SAP) para revisar o documento de emissão da agência sobre o risco de câncer por glifosato.

Composição do painel. Dentro dos e-mails não selados, a Monsanto mencionou que se opunha ao plano do EPA para criar um SAP para analisar o glifosato porque “o escopo é mais provável do que não ser mais abrangente do que apenas IARC … SAPs iriam adicionar atrasos significativo, criar vulnerabilidades legais e seriam um processo falho. E que provavelmente  resultaria em um painel com determinações que são cientificamente questionáveis ​​e só resultaria em maior incerteza “.

Esta é uma afirmação falsa. Os painéis consultivos científicos, quando são totalmente independentes, são uma fonte crítica de aconselhamento científico.

As reuniões da EPA sobre o glifosato, programadas para começar em outubro de 2016, foram adiadas poucos dias antes de serem programadas para começar.

Isso ocorreu após um intenso lobby de CropLife America, uma organização de comércio agroquímico que representa a Monsanto e outros fabricantes de pesticidas ( Seus membros incluem a maior biotecnologia agrícola  do mundo dos Pesticidas, nomeadamente a BASF , a Bayer CropScience , a Dow AgroSciences , a DuPont , a FMC Corp. , a Monsanto , aSumitomo e a Syngenta ), onde questionou os motivos do SAP ao analisar os impactos do glifosato sobre a saúde.

CropLife enviou vários comentários ao EPA, incluindo um que atacou a integridade de um cientista nomeado da SAP. A agência anunciou subsequentemente a remoção do cientista do painel em novembro de 2016, um mês antes das reuniões reprogramadas para ocorrer.

Simultaneamente, a Monsanto criou seu próprio “painel de peritos” em julho de 2015 composto de 16 indivíduos, alguns cientistas e alguns lobistas, dos quais apenas quatro nunca foram empregados ou consultados pela Monsanto.

Quem precisa de avaliações independentes quando você tem cientistas do agronegócio prontos, dispostos e substancialmente financiados que se autodenominam “independentes”?

Defendendo o Processo Científico

As revelações dos e-mails da Monsanto não selados sublinham a necessidade vital de uma ciência independente de transparência para garantir a credibilidade, fomentar a confiança do público em nosso sistema de formulação de políticas científicas e impedir entidades como a Monsanto de minar as avaliações científicas objetivas.

Claramente, são necessários melhores controles e supervisão para salvaguardar o processo científico de táticas para desinformar e mais transparência e responsabilidade serão necessários para garantir que os organismos científicos sejam capazes de avaliar adequadamente os riscos e benefícios de um dado produto.

Dado  o que se sabe agora sobre as ações da Monsanto, a necessidade de pesquisas conduzidas independentemente e avaliações científicas imparciais sobre a segurança doglifosato é mais importante do que nunca.

Genna Reed é analista de ciência e política no Centro de Ciência e Democracia da União de Cientistas Preocupados. Em seu papel, ela investiga as influências políticas e corporativas sobre a tomada de decisões com base na ciência – trabalhando para informar o público sobre questões onde a ciência é sufocada ou obscurecida e para garantir que as políticas federais, estaduais e locais sejam baseadas em ciência rigorosa e independente. Veja a biografia completa de Genna.

Fontes – EcoWatch / Nosso Foco de 18 de abril de 2017