Bayer quer acabar com nome ‘Monsanto’ para tentar limpar sua barra

A Monsanto é conhecida pela péssima reputação entre ativistas

A fusão entre a Bayer e a Monsanto, anunciada em setembro de 2016, criou a maior companhia integrada de pesticidas e sementes do planeta. O negócio foi estimado na casa dos 249 bilhões de reais e deu ao grupo alemão o controle de todos os produtos da marca.

Dois anos após a compra a Bayer acaba de anunciar a supressão do nome da Monsanto. Ou seja, a partir de agora todas as sementes e pesticidas produzidas pela empresa norte-americana serão comercializadas com a logo da gigante de medicamentos.

A notícia causou revolta de entidades de defesa do meio ambiente e agricultores, que acusam a Bayer de tentar se distanciar da Monsanto, durante décadas alvo de manifestações e protestos sobre os efeitos nocivos para a saúde e ambiente causados por seus produtos.

A Bayer é acusada de tentar omitir o nome da Monsanto para evitar polêmicas. Fotos: foto 1: Wikipédia/foto 2: Pixabay

A Bayer se pronunciou dizendo que a própria Monsanto já havia estudado trocar seu nome, mas por razões desconhecidas isso não se concretizou. O presidente da companhia alemã criticou ainda o que chamou de “frentes ideológicas”.

“Estamos ouvindo os que nos criticam para trabalharmos, porém o progresso não deve ser detido pelo fortalecimento das frentes ideológicas”, finalizouWerner Baumann.

As agências responsáveis pela regulamentação da concorrência nos Estados Unidos e Europa autorizaram a fusão, mas exigiram que a Bayer vendesse parte de suas atividades à rival BASF. O negócio faz da nova empresa a maior do setor e dona de um faturamento perto dos 20 bilhões de euros.

Presente na lista das 10 companhias mais odiadas da América, a Monsanto foi fundada em 1901 pelo químico John Francis Queeny e desde a década de 1990 se destacou na química agrícola. Sua má reputação foi construída pela presença na linha de produção itens como o Roundup, um dos herbicidas mais usados do mundo apesar de ser classificado como cancerígeno.

Fonte – Hypeness de junho de 2018

Retirada do símbolo de identificação transgênico: da temeridade ambiental à afronta aos direitos constitucionais

Foto: Comiva

A decisão da Comissão de Meio Ambiente do Senado, de aprovar a retirada do símbolo de identificação de transgênico em rótulos de produtos alimentícios, atende aos interesses do mercado e é “uma temeridade sob o ponto de vista ambiental” e “um crime contra direitos constitucionais, uma afronta à legislação, no que tange a direitos dos consumidores”, diz o engenheiro agrônomo Leonardo Melgarejo à IHU On-Line. Para ele, a argumentação da Comissão de Meio Ambiente do Senado se baseia em uma “mitologia criada pelas indústrias beneficiadas pela ocultação de danos e riscos associados aos transgênicos. Afirmam que ‘inexistem evidências de danos’, quando há farta bibliografia apontando problemas. Afirmam que há farta bibliografia apontando inexistência de riscos, quando a maior parte destes estudos são elaborados, patrocinados ou associados às empresas beneficiadas. Afirmam que tais estudos são robustos, quando existem evidências de fragilidade no prazo de análise, no tamanho e na representatividade das amostras”.

Segundo ele, se a medida for aprovada definitivamente, “facilitará alocação de recursos públicos para as lavouras transgênicas, bem como a rolagem e o perdão de dívidas do agronegócio a elas associado”. A decisão, frisa, também “beneficiará o mercado de agrotóxicos, especialmente de herbicidas, com as implicações conhecidas”. Na entrevista a seguir, concedida por e-mail, Melgarejo diz que a tendência de aprovação da medida “é enorme” e “a única possibilidade de reversão neste processo de degradação das normas e contratos sociais reside na reação da população, o que depende de acesso a informações que não circulam na grande mídia”.

IHU On-Line – Como avalia a decisão da Comissão de Meio Ambiente do Senado, de aprovar a retirada da identificação de transgênicos em rótulos de produtos alimentícios?

Leonardo Melgarejo – Uma temeridade sob o ponto de vista ambiental, já que estimulará o consumo e, portanto, o cultivo de lavouras transgênicas, potencializadoras do uso de agrotóxicos a elas associados. Um crime contra direitos constitucionais, uma afronta à legislação, no que tange a direitos dos consumidores. Encaminhamento de retrocesso desta natureza, com origem na comissão de meio ambiente só pode ser entendido como sinal de contaminação das decisões daquela comissão, em benefício de interesses contrários a seus compromissos com a precaução e a proteção ambiental.

IHU On-Line – O que está em jogo na disputa de manter ou não o símbolo de transgênico nos rótulos dos alimentos?

Leonardo Melgarejo – Interesses de mercado e expansão do domínio da mídia corporativa sobre a consciência coletiva. De um lado, os consumidores não poderão optar pela rejeição aos produtos transgênicos, significando que não poderão sinalizar ao governo, quanto a suas preferências por políticas públicas para a agricultura. Isto facilitará alocação de recursos públicos para as lavouras transgênicas, bem como a rolagem e o perdão de dívidas do agronegócio a elas associado. Da mesma forma, beneficiará o mercado de agrotóxicos, especialmente de herbicidas, com as implicações conhecidas.

Pulverizações aéreas, contaminação de lavouras vizinhas, de aquíferos, de áreas de proteção, passeio e lazer, com ampliação de danos à saúde da população e aos serviços ambientais, serão alguns dos aspectos negativos. Com o agravante de que não será possível estabelecer nexo causal entre aquelas lavouras e os danos para a saúde da população, desresponsabilizando as empresas e seus agentes, quanto aos problemas futuros.

IHU On-Line – Por que razões tem se proposto a retirada da identificação de transgênicos dos rótulos de produtos alimentícios e quais foram os argumentos apresentados pela Comissão para justificar a retirada do símbolo de identificação dos rótulos de alimentos?

Leonardo Melgarejo – Os proponentes se baseiam em mitologia criada pelas indústrias beneficiadas pela ocultação de danos e riscos associados aos transgênicos. Afirmam que “inexistem evidências de danos”, quando há farta bibliografia apontando problemas. Afirmam que há farta bibliografia apontando inexistência de riscos, quando a maior parte destes estudos são elaborados, patrocinados ou associados às empresas beneficiadas. Afirmam que tais estudos são robustos, quando existem evidências de fragilidade no prazo de análise, no tamanho e na representatividade das amostras. Afirmam que são cultivados em todo o planeta, quando na verdade as lavouras se concentram nos EUA, Brasil, Argentina e Canadá.

A mitologia que sustenta a decisão da Comissão se escora numa prática simples, que combina a ocultação de informações contrárias, a desqualificação de estudos contrários e justificação enganosa (como a de que não seria possível alimentar o mundo sem os transgênicos, ou de que eles estariam contribuindo para redução no uso de agrotóxicos, proteção ambiental e dos consumidores/trabalhadores), com apoio da grande mídia e formadores de opinião seletivamente recrutados a opinar.

Com agroecologia e reforma agrária, a sociedade pode fazer mais e melhor, em termos de produção de alimentos, geração de empregos e proteção à saúde e ao ambiente. É impressionante o fato de a Comissão de Meio Ambiente não apenas fechar os olhos a isto como ainda propor avanços, na contramão, em rumo oposto.

IHU On-Line – Na sua avaliação, o símbolo de identificação de transgênico deve ou não permanecer nos rótulos de alimentos? Por quê?

Leonardo Melgarejo – Deve permanecer. Pelos motivos já referidos. Trata-se de direito constitucional e de necessidade comum a toda dona de casa que frequenta mercados, onde compra itens para alimentar sua família. O direito de acesso a informações para tomada de decisões responsáveis, no momento da opção pela aquisição de alimentos, não pode ser destruído por vontade de grupo golpista, em fim de mandato e claramente desinteressado em preservar direitos fundamentais da população.

A ocultação desta informação, a retirada do “T”, implicará em retrocesso inaceitável, que servirá aos interesses comerciais em desprezo aos direitos republicanos, e que deve ser denunciada: estamos perto de engolir mais uma afronta ao contrato social que nos mantém como sociedade organizada.

IHU On-Line – O que as pesquisas que têm sido feitas demonstram sobre a segurança dos transgênicos para a saúde?

Leonardo Melgarejo – As pesquisas patrocinadas pelas empresas e interesses associados têm se relevado comprometidas. A bibliografia internacional mostra isso. Estudo recente, avaliando mais de mil artigos, apontava que em 70% dos casos avaliados havia indícios de conflitos de interesse, levando a resultados sistematicamente favoráveis aos desejos corporativos. Além disso, os dados básicos destas pesquisas, onde os interesses empresariais afetam resultados, costumam ser ocultados, de forma a impedir sua revisão crítica.

De outro lado, em estudos independentes, via de regra negligenciados pelas agências avaliadoras de risco, os resultados são opostos. Na maioria destes casos são apontados indícios de problemas, falhas de metodologia, ocultação ou subvalorização de achados indicativos de problemas, entre outros elementos contrários ao que se divulga nas campanhas de marketing.

Como regra, deve-se afirmar que faltam pesquisas e falta transparência para as pesquisas disponíveis. As agências reguladoras carecem de recursos, de mecanismos e talvez inclusive de interesse em qualificar suas atividades para melhor defender a saúde humana e ambiental. Como agravante, temos o fato de que a sociedade vem sendo enganada por campanhas de marketing e manipulação de informações, o que em conjunto acaba levando à apatia e à formação de uma consciência coletiva ingênua e equivocada, sobre os riscos inerentes ao que ocorre neste campo.

IHU On-Line – Qual é a probabilidade de que a decisão da Comissão seja aprovada definitivamente? Como essa questão possivelmente será vista pela Comissão de Transparência, Governança, Fiscalização e Controle e Defesa do Consumidor?

Leonardo Melgarejo – A tendência de aprovação é enorme. A única possibilidade de reversão neste processo de degradação das normas e contratos sociais reside na reação da população, o que depende de acesso a informações que não circulam na grande mídia. Iniciativas como esta, do IHU, contribuem de forma expressiva, mas são insuficientes para dar conta do problema. Precisamos de uma Voz do Brasil, umacadeia de mídia verdadeira preocupada e comprometida com os interesses nacionais.

IHU On-Line – Como o senhor avalia o Projeto de Lei do deputado Luis Carlos Heinze (PP-RS), PLC 34/2015, sobre o uso do símbolo dos transgênicos, que será votado na Comissão de Agricultura e Reforma Agrária do Senado possivelmente na próxima semana?

Leonardo Melgarejo – Todos os comentários acima sustentam a necessidade de uma posição de rejeição a esta proposta. Ela implica em ofensa a direitos constitucionais. Ela trará/agravará ameaças à saúde humana e ambiental. Ela simplesmente não atende aos interesses nacionais.

Espero, sinceramente, que deputados como este sejam percebidos e interpretados com clareza, em função das implicações de seus esforços e iniciativas, tanto pela sociedade, no presente, como por seus filhos e netos, no futuro.

Leonardo Melgarejo é engenheiro agrônomo e doutor em Engenharia de Produção. É vice-presidente regional Sul da Associação Brasileira de Agroecologia.

Fonte – Patricia Fachin, IHU de 24 de abril de 2018

Assessor da Opas diz que Anvisa errou em debate sobre rotulagem de alimentos

Foto: arquivo da World Public Health Nutrition Association.

O brasileiro Fabio Gomes, da Organização Panamericana de Saúde, considera que agência se abriu ao diálogo com as empresas sem ter clareza do objetivo a ser alcançado

A Anvisa colocou o time em campo sem estudar o adversário? Na opinião de Fabio Gomes, assessor regional em Nutrição e Atividade Física da Organização Panamericana de Saúde (Opas), sim. Ele entende que a agência não treinou o suficiente antes de iniciar o debate público sobre rotulagem frontal de alimentos. E, agora, está perdida dentro das quatro linhas, sem saber se vai na base do chutão ou se tenta algo mais refinado.

“Os países que obtiveram sucesso em formular sua proposta foram países que, sim, ofereceram espaço para a indústria opinar, mas que desde o princípio formularam suas propostas de saúde pública e que estavam preparados para o debate com os atores que não têm como interesse primário a saúde pública”, ele lamenta.

Gomes está há dois anos vivendo entre Washington e o aeroporto. Ele circula as Américas tentando oferecer respostas para a epidemia de obesidade que se espalhou dos Estados Unidos pelo continente abaixo. Impostos sobre bebidas açucaradas e alertas em rótulos de produtos ultraprocessados são duas inovações latino-americanas que acabaram sendo adotadas por outros países, estados e municípios.

No Brasil, a Anvisa estuda qual sistema de rotulagem adotar. A Aliança pela Alimentação Adequada e Saudável encampa uma proposta baseada no modelo chileno, de advertências sobre excesso de sal, gordura e açúcar. A Associação Brasileira das Indústrias de Alimentação (Abia) quer um semáforo com cores verde, amarelo e vermelho para cada nutriente. Um dos criadores desse sistema, Mike Rayner, da Universidade de Oxford, não só admite que ele não funciona a contento, como figura em abaixo-assinado que pede que a Anvisa adote o sistema do Chile.

A agência segue em dúvida. E coloca no mesmo patamar de respeitabilidade as evidências científicas apresentadas pela sociedade e pela indústria. Recentemente, o órgão regulador anunciou que estuda também a adoção do NutriScore, modelo desenvolvido na França. No Brasil, esse sistema foi inscrito depois do prazo e por uma associação com laços fortes com as empresas.

Ex-presidente da Associação Mundial de Nutrição e Saúde Pública e pesquisador do Instituto Nacional de Câncer, o carioca Fabio Gomes estuda como o conflito de interesses entre saúde pública e lucro afeta a elaboração de políticas efetivas.

Ele conversou conosco durante uma passagem por São Paulo, em março. Confira a seguir.

Como surgiu seu interesse por estudar o conflito de interesses?

A interferência da indústria nos processos de políticas públicas é a principal razão para essas políticas existirem ou não existirem, serem mais fortes ou mais fracas, serem implementadas de forma mais rápida ou mais lenta. Qualquer que seja a política, se for efetiva, a indústria vai tentar impedir ou atrasar. E vai usar todas as armas que tem. Distorcer a evidência científica que vai servir para guiar a política. E interferir na formulação da política.

A ideia de que a indústria tem que participar da formulação obviamente tenta defender seus interesses, mas vem com o discurso de que tem uma contribuição técnica a fazer.

Depois, na implementação. Se você não se valeu de evidências independentes, se não excluiu evidências enviesadas… Se você separou no processo de formulação e fez uma política independente dessa influência, ainda assim na implementação vão tentar impedir para que não chegue a ser implementada.

Depois, mesmo que consiga sucesso na implementação, muitas vezes é mais barato para a indústria violar a lei do que cumprir. Podem se usar da fragilidade das sanções para simplesmente ignorar a política.

As políticas que são necessárias de ser implementadas dão às pessoas a condição de livrá-las dessa pressão para que realmente possam tomar decisões autônomas. Posso desenhar as melhores políticas, mas elas vão ficar estacionadas se eu não conseguir proteger esse espaço de formulação.

Circulando pelo continente, você consegue enxergar padrões repetidos dessa interferência?

Isso se dá de diferentes formas. Os países também estão em diferentes estágios de formulação. Mas em todas as etapas os fabricantes têm uma entrada para interferir. Do ponto de vista da formação profissional e da distorção da evidência que vai servir como base para a formulação da política, isso se dá com todo mundo, em todas as esferas. Em todos os países há um grupo de pesquisadores que é capturado e utilizado para defender os interesses de determinada corporação.

Em alguns casos você tem essa interferência nos parlamentos, no Executivo, nos vários níveis de governo.

Outra coisa que a gente percebe é que existe uma conexão. Não são empresas que estão atuando isoladamente num país. Especialmente na América Latina, essas empresas, por mais que exista uma certa competição, no momento em que uma política regulatória restringe a operação ou a capacidade de expandir, elas se juntam. Isso constitui uma ameaça para todas elas.

Outra coisa bem peculiar da América Latina é que elas se escondem atrás de associações de indústrias. Em geral, não é tornado visível quais empresas estão se opondo. A grande estratégia é se opor sem ser percebida como opositora. Em todos os países se posicionam como atores que estão contribuindo para o processo. A forma de se posicionar nesse processo não é a de um ator que está atrasando. É quem está aportando evidência, contribuindo para o país.

Outra coisa que acontece é a duplicidade de discursos. Isso sempre vai acontecer. Existe um discurso para os acionistas, um discurso para a população e um discurso para os governos. Quando estão falando para a população ou se opondo a alguma coisa, você não enxerga as marcas dessas empresas. Isso vale mais do que qualquer coisa para eles. Em alguns países isso foi utilizado no sentido contrário, para tentar frear essa pressão. Expor a imagem deles foi algo que aconteceu nos países que conseguiram avançar.

Outra coisa que aconteceu nos países que conseguiram avançar foi que se prepararam antes de abrir o diálogo com a indústria. Então, a exigência da indústria de que deve fazer parte do processo é uma exigência que deve ser atendida, mas de forma apropriada. Ouvir o setor que será regulado faz parte, mas esse momento tem que ser aberto quando você está preparado para ouvir e discutir. Quando você tem clareza do que quer.

Se você vai para esse diálogo sem ter certeza do que quer como governo, como poder público, você nunca vai sair do lugar. Você sempre vai partir de um zero e a indústria sempre vai tentar gerar a dúvida. Aumentar a falta de certeza que o regulador tem. Se você não tem clareza do que quer fazer como governo, é um prato cheio para eles.

Nesse sentido, como você enxerga o debate sobre rotulagem frontal no Brasil?

Isso é um cuidado que deveria ter sido tomado. Os países que obtiveram sucesso em formular sua proposta foram países que, sim, ofereceram espaço para a indústria opinar, mas que desde o princípio formularam suas propostas de saúde pública e que estavam preparados para o debate com os atores que não têm como interesse primário a saúde pública.

Se meu interesse primário é a saúde pública, minha proposta tem que estar preparada nesse sentido. Eu preciso ouvir os outros setores sobre o impacto, mas com clareza sobre o que vou fazer.

Essa é uma lição que o Brasil deve levar em relação a outros temas que foram discutidos. Como o tabaco. Você tem uma definição clara do seu objetivo e dos beneficiários desse objetivo.

Se você desde o princípio envolve aqueles que não têm como interesse primário a saúde pública, não vai bem. É isso que está acontecendo. Eu entendo a agência reguladora envolver a indústria na discussão, mas é o momento errado, antes de ter uma proposta concreta.

Todos os países que conseguiram avançar em um bom tempo dialogaram com a indústria, mas trabalharam com uma produção de evidências independente, com uma proposta focada em atender os interesses da saúde pública para que então pudessem discutir isso com os outros setores que sofreriam o impacto.

Os sinais de advertência têm o objetivo declarado de desestimular o consumo de ultraprocessados. Como garantir que ocorra isso, e não um simples ranqueamento de ultraprocessados?

A rotulagem frontal de advertência nutricional não resolve todos os problemas.

Essa advertência tem que competir com outros elementos de promoção dos produtos que são muito mais poderosos. Isso não significa que a advertência não tenha que existir. Significa que precisa ser combinada com outras políticas públicas que possam permitir que essa competição seja mais equilibrada. Boa parte dos estudos feitos no Uruguai apontaram a advertência como um sistema que funciona melhor porque compete de forma mais eficiente com outros elementos persuasivos.

Esses outros elementos são poderosos para induzir a compra, assim como a publicidade. São poderosos de maneira tal que podem fazer com que as pessoas consumam esses produtos. A advertência nutricional, entre os sistemas existentes, é o que permite diminuir esse efeito persuasivo dos elementos, mas não é um super-herói.

Para reduzir a demanda de ultraprocessados precisa combinar essa advertência com restrições mais rigorosas. Como as políticas fiscais. Precisamos aplicar os impostos de maneira coerente com a saúde pública.

A outra coisa é a regulação da publicidade. Se a gente continuar tendo o estímulo irrestrito a esses produtos, a possibilidade da advertência frontal será mais limitada.

E outra política é a restrição nos ambientes. Escolas, prédios públicos, universidades, outros espaços que a gente possa restringir a oferta e a promoção desses produtos.

Voltando à sua pergunta, os dados que temos do Chile mostram dois movimentos. Um movimento das pessoas que compram produtos com menos selos. E um movimento das pessoas que deixam de comprar esses produtos. Agora, obviamente que a advertência frontal nos fecha no mundo dos processados e ultraprocessados, e a maior parte da alimentação não deve vir desses alimentos. Então, como a gente preserva o sistema alimentar? A rotulagem frontal é um elemento de restrição da demanda da parte do sistema que a gente precisa reduzir.

A mensagem que a gente deve trazer é de consumir menos produtos ultraprocessados, não importa quantos selos ele tem. No Chile há uma estratégia para promover a culinária, a alimentação. Isso é muito importante. O Guia Alimentar do Brasil existe para dar conta disso.

Quais as políticas mais efetivas para estimular a alimentação saudável? Na América Latina, um cidadão da periferia pode ter dificuldade de acesso a produtos frescos, ou pode perder cinco horas por dia em transporte.

Uma questão é o abastecimento das cidades. A gente vê um processo de monopolização da produção e da distribuição. Obviamente isso dificulta a capilaridade desse sistema.

Mas, pensando no lado positivo, as feiras livres, a ideia de fechar uma rua de todo bairro pelo menos uma vez por semana para dar acesso a produtos frescos, são um grande aliado.

É bem diferente do modelo europeu ou americano, que elitizou muito a feira. No Brasil, a feira torna o produto acessível, tanto do ponto de vista físico como econômico. Isso foi degradado nos últimos anos pela concentração nos mercados, assim como os Ceasas e os mercados municipais foram degradados. Era uma forma de se pensar a distribuição de alimentos e o abastecimento da cidade de forma que pudesse chegar a todo mundo. Os carrinhos de frutas são um exemplo de tecnologia tradicional. Alguns países que não tinham isso começaram a importar, algo que a gente tem na América Latina há muitos anos.

Mas a gente também precisa resgatar o tempo que as pessoas dedicam à alimentação. A gente pode pensar em formas de facilitar isso considerando que o tempo não vai mudar, mas isso também cola com outras agendas. Como a gente se move na cidade. É pensar a mobilidade aliada ao abastecimento, à melhor chegada dos alimentos. Pensar a saúde urbana conectada a transporte e sistema alimentar.

Em relação à culinária, ela tem ganho mais espaço. Tem havido mais interesse. Mas tenho a percepção de que muitas vezes entra mais como entretenimento do que como uma ação cotidiana. Tudo o que se faz em relação ao ato de cozinhar é importante e fundamental, mas a gente precisa criar condições para que esse estímulo possa refletir uma ação concreta no dia a dia.

Em alguns países, por conta de situações emergenciais, criaram cozinhas coletivas. Algumas se mantiveram como espaço coletivo de preparo e de partilha do alimento. Isso não é algo simples de pensar. Precisa pensar em equipamentos urbanos que facilitem a culinária. Mas hoje, pra começar, a gente pode pensar nas escolas, especialmente no Brasil, que tem um exemplo de alimentação escolar. A gente já teve no Brasil a culinária no currículo escolar. Isso se perdeu. A gente pode pensar em políticas públicas para induzir ações nas escolas. Garantir aulas de culinária.

Temos visto a indústria e setores acadêmicos ligados a ela dizerem que o Guia Alimentar e a classificação NOVA carecem de fundamentação científica. Como você vê essa crítica?

Todos os modelos de classificação de alimentos que definem uma alimentação saudável sempre chegam no mesmo lugar. É no processamento. Alguns países e alguns cientistas criticam é o conceito em si. Mas, do ponto de vista da evidência científica, todo padrão de alimentação saudável chega à mesma conclusão: quanto menos processado o que você come, melhor.

A classificação tem fundamento científico. Já foi usada em vários países. Ajuda a explicar a má alimentação em países com uma alimentação muito diferente, mas com um elemento em comum: o ultraprocessamento.

A crítica vem muito em relação a que você pode ter um alimento ultraprocessado com um perfil de nutrientes adequado. Mas, quando a gente está falando de obesidade e de alimentação não saudável, a gente está falando de nutrientes e de modos de comer.

A gente precisa olhar o perfil nutricional e o perfil não nutricional. O perfil não nutricional dos alimentos é aquele que promove um consumo excessivo, promove a compulsão alimentar. Isso não tem a ver só com nutrientes. Posso promover um consumo excessivo de um produto que é baixo em sal e açúcar se eu adicionar um realçador de sabor.

Tenho usado muito o conceito do perfil não nutricional. Um alimento desenhado para provocar um consumo excessivo e para desarmar todas as armas que a gente tem para controlar o consumo.

Algumas pessoas criticam no sentido de que o grupo de ultraprocessados é muito heterogêneo. Mas você ainda pode classificar os ultraprocessados.

Um dos motivos mais subjacentes dessa crítica… os países do Norte têm uma quantidade de ultraprocessados muito grande. Então, aceitar que o ultraprocessado é um problema é muito frustrante. Eu sinto uma resistência de certos pesquisadores. O ultraprocessado é a maior conquista que a indústria teve. Nesse momento, não consigo fazer uma pessoa que vive num ambiente em que 60% do que ela come são ultraprocessados não enxergar aquilo como alimento. É muito difícil. Porque isso foi conquistado.

Um outro fator, não sei se é uma percepção minha. Em várias ocasiões, algumas pessoas comentaram comigo que essa classificação é uma invenção de um grupo de pesquisadores brasileiros e que não é baseado em evidências. Qual o problema de ter sido inventado por um brasileiro? Se tivesse sido inventado por um grupo de ingleses, essa crítica não existiria. Essa crítica aparece várias vezes. E aparece mais na América Latina. Mas lá no Norte eu sinto que aparece também. Há um preconceito porque não foi inventado nos EUA, na Europa, na Austrália e no Canadá. Inventado, não: alguém encontrou uma forma de classificar o que está acontecendo.

Todas as pessoas que dizem que não há evidência deveriam apresentar a evidência de que isso não se aplica. Ninguém provou que comer mais ultraprocessados é melhor para a saúde. Ninguém.

Fonte – João Peres, O Joio e o Trigo de 12 de abril de 2018

Onde a Anvisa quer chegar com a rotulagem de alimentos?

Imagem: Tânia Rêgo. Arquivo Agência Brasil.

Agência não deixa claro se pretende garantir uma comparação entre produtos com excesso de sal, gordura e açúcar, ou um desestímulo ao consumo

Onde a Anvisa pretende chegar com a definição de um novo modelo de rotulagem frontal de alimentos? A elementar pergunta ainda não tem resposta, ao menos publicamente. Existe uma diferença grande entre as duas assertivas possíveis: promover um ranqueamento de ultraprocessados ou desestimular o consumo desses produtos. Em outras palavras, a ideia é que as pessoas escolham entre o Nescau e o Toddy, ou que reduzam drasticamente a ingestão desses itens?

Essa resposta teria abreviado bastante o debate travado a portas fechadas em Brasília. Foi o que fez o Canadá, onde metade da ingestão calórica média provém dos ultraprocessados e onde um em cada quatro adultos está acima do peso. O Ministério da Saúde decidiu que quer frear o consumo de produtos com excesso de sal, gordura e açúcar. E, assim, começou o debate dando como certa a adoção de um modelo de advertências inspirado no sistema do Chile.

“O NutriScore e o sistema de advertências não respondem ao mesmo objetivo”, disse ao Joio a epidemiologista Chantal Julia, uma das criadoras do NutriScore, sistema adotado de forma voluntária na França em outubro do ano passado. “Enquanto o NutriScore visa a oferecer uma base para comparar produtos, entre categorias e dentro dessas categorias (para ajudar em substituições), o sistema de alertas objetiva identificar os alimentos não saudáveis.”

Na Anvisa, quem defende o NutriScore é a Associação Brasileira de Nutrologia (Abran). Já as advertências chilenas foram a inspiração para um sistema apresentado pelo Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec) e pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), com o apoio da Aliança pela Alimentação Adequada e Saudável.

O outro sistema em jogo, apresentado pela Associação Brasileira das Indústrias de Alimentação (Abia), é um semáforo com as cores verde, amarelo e vermelho para os principais nutrientes. A ideia desse modelo é… Bem, a maior parte das evidências científicas mostram que é um sistema que pouco funciona, a ponto de um dos criadores, Mike Rayner, ter aderido a um abaixo-assinado que pede que a Anvisa adote os triângulos de advertência.

“No semáforo é difícil se definir por um produto. Se há uma cor verde e uma vermelha, isso confunde as pessoas. O que é mais importante: açúcar ou gordura?”, diz Gastón Ares, do Centro de Investigação Básica em Psicologia da Universidade da República, no Uruguai. Ele é uma das referências no estudo desses sistemas. E não tem dúvidas de que o semáforo apresentado no Brasil consegue piorar um modelo que não deu certo no Reino Unido.

A Anvisa tem dado sinais pouco claros sobre os rumos que pretende seguir. E dificulta ainda mais a situação quando não responde a perguntas básicas: um pedido de entrevista do Joioestá parado nos e-mails da assessoria de comunicação da agência desde agosto de 2017.

A reiterada alegação da agência de que as evidências científicas não permitem concluir pela melhor eficácia de qualquer dos modelos irrita os representantes da sociedade civil. A declaração de que o sistema a ser adotado não deve induzir o consumidor a ter “medo” dos produtos pode ser entendida como um dos alinhamentos dos agentes públicos ao discurso dos fabricantes de ultraprocessados, que alegam que os sinais de advertência causam repulsa.

Para Gastón, esse é um falso argumento. “Precisamos ter claro qual o objetivo de saúde pública que estamos buscando. O objetivo é diminuir o consumo excessivo de sal, gordura e açúcar. Portanto, o que deveríamos pensar é qual sistema modifica a intenção de compra do consumidor. Não é se as pessoas gostam mais do semáforo porque tem cores ou se gostam mais do sistema chileno. É se o sistema cumpre o objetivo de saúde pública.”

A equipe de Gastón é a única com resultados já publicados de comparação entre o NutriScore e as advertências. Os dois modelos representam justamente a diferença-chave de que falamos no começo do texto. Como o tema é novo, as evidências científicas sobre o funcionamento no mundo real ainda estão se acumulando. E algumas novas propostas têm surgido no desenrolar do debate.

No Uruguai, o resultado da pesquisa ficou dentro do esperado: o NutriScore garantiu a melhor comparação entre produtos, ao passo que os alertas deram maior facilidade à identificação de alimentos não saudáveis. De todo modo, essa pesquisa é apenas a primeira e não permite fechar posição. Em parte porque estamos comparando lógicas diferentes.

O NutriScore cruza os principais dados nutricionais do produto e define uma nota de A a E. É um resumo.

Os triângulos alertam sobre o excesso de nutrientes específicos.

“Ouvir o setor que será regulado faz parte, mas esse momento tem que ser aberto quando você está preparado para ouvir e discutir. Quando você tem clareza do que quer”, critica Fabio Gomes, assessor regional em Nutrição e Atividade Física da Organização Panamericana de Saúde (Opas). “Se meu interesse primário é a saúde pública, minha proposta tem que estar preparada nesse sentido. Eu preciso ouvir os outros setores sobre o impacto, mas com clareza sobre o que vou fazer.”

O processo que está em curso na Anvisa é o desdobramento das conclusões de um grupo de trabalho que funcionou entre dezembro de 2014 e abril de 2016. Lá, a indústria de ultraprocessados já estava presente, tanto em assentos diretos como em representações de institutos de pesquisa ligados aos fabricantes. Como bem assinala o relatório final, é difícil chegar a um acordo frente a interesses tão conflitantes. Mas, se a agência tem como missão defender a saúde pública, como outros interesses foram parar ali dentro?

A Anvisa chegou ao fim desse processo com algumas diretrizes que são genéricas. O modelo de rotulagem deve “atrair a atenção do consumidor”, “ter um design gráfico atrativo”, “focar nos ingredientes negativos”.

Espera-se ainda que o novo modelo de rotulagem esteja alinhado ao Guia Alimentar para a População Brasileira. Eis a mensagem-chave do documento do Ministério da Saúde: faça de alimentos in natura ou minimamente processados a base de sua alimentação e evite alimentos ultraprocessados. As evidências acumuladas até aqui mostram que o sistema chileno é o mais eficaz nesse sentido.

Podemos também analisar a questão de um ponto de vista mais geográfico. O NutriScore foi desenvolvido na Europa. As advertências, na América do Sul.

Os países do Norte são a morada dos grandes fabricantes, como Nestlé e Danone, que de lá pautaram a ideia de que os ultraprocessados davam resposta a todas as necessidades alimentares. Hoje, em algumas nações esses produtos correspondem a mais da metade da ingestão calórica diária, acompanhados por altos índices de obesidade. Mesmo a França, que um dia foi modelo, não é mais.

“O ultraprocessado é a maior conquista que a indústria teve. Nesse momento, não consigo fazer uma pessoa que vive num ambiente em que 60% do que ela come são ultraprocessados não enxergar aquilo como alimento”, acrescenta Fabio Gomes.

Na América Latina, o boom dos ultraprocessados veio mais tarde. Mas veio com tudo. O Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde (Nupens) da USP constatou que esses produtos representavam 28% da ingestão calórica dos brasileiros na virada da década. O crescimento é rápido e a situação é preocupante.

Porém, ainda há uma cultura culinária forte que pode ser valorizada e estimulada, ou seja, é possível se alimentar sem lançar mão de produtos altos em sal, gordura e açúcar.

“As empresas querem dizer que esses produtos é que são a comida. Que isso está dado. Que ninguém mais vai cozinhar”, diz Marcela Reyes, do Instituto de Nutrição e Tecnologia de Alimentos da Universidade do Chile e uma das responsáveis pela definição dos sinais de advertência. “Então, dizem que nós é que estamos contra a comida e queremos que o país volte a um cenário de desnutrição.”

Os pesquisadores do Nupens, responsáveis pela elaboração do Guia Alimentar, têm chamado atenção para a correlação entre ultraprocessados e obesidade. Ao analisar os dados da Europa, encontraram que para cada aumento de um ponto na taxa de ingestão média calórica de ultraprocessados, o índice de obesidade avança 0,25%. Então, aquilo que consiga frear o consumo tem uma chance de ajudar a conter o crescimento dos níveis de sobrepeso.

A Confederação Nacional da Indústria (CNI) protocolou na Anvisa uma análise do cenário chileno pela Euromonitor, uma das principais consultorias de mercado do mundo. O documento não é conclusivo nem para um lado, nem para o outro. “É ingênuo pensar que a colocação em prática de uma lei vai criar mudanças imediatas em nível de hábitos saudáveis, que por sua vez dependem de muitos outros fatores. No entanto, há que começar por alguma parte. Então, nesses termos se poderia dizer que a lei foi exitosa porque foi capaz de impulsionar o tema nas empresas e nos meios de comunicação, que influirão lentamente no consumidor”, relata a empresa.

Na verdade, as pesquisas de opinião mostram que a maioria das pessoas promoveu mudanças de hábitos alimentares. Falta entender o quanto essas mudanças terão impacto. E se elas se manterão a salvo de capturas por outros interesses que não a saúde.

É aqui que qualquer dos modelos demanda atenção. Se há um consenso entre Anvisa, indústria e sociedade é o de que a rotulagem, sozinha, não resolverá o problema.

Há uma divisão sobre o que deveria ser o propósito central da rotulagem: desestimular o consumo ou estimular a reformulação. Essa reformulação é um movimento que já começou no mundo todo, com diferentes graus de intensidade, e que dá sinais de ser acelerado quando se adota um sistema de rotulagem. Carlos Monteiro, coordenador do Nupens e professor da Faculdade de Saúde Pública da USP, e Gyorgy Scrinis, professor da Universidade de Melbourne, entendem que a reformulação é um instrumento limitado e com potencial perigoso. Com o olhar da população muito voltado a sal, gordura e açúcar, as empresas podem acabar trocando esses ingredientes por outros cujo grau de nocividade sequer está devidamente mapeado. A mera troca de açúcar por adoçantes, por exemplo, não seria uma boa.

Outro fator que os preocupa é o fato de que políticas públicas que estimulem a reformulação poderiam acabar por legitimar produtos ruins à saúde. Por isso, apontam, o melhor é apostar no estímulo à troca de ultraprocessados por alimentos com um grau mínimo de processamento.

Os resultados da lei chilena ainda não são claros quanto a isso. Houve aumento no consumo de produtos light, ou seja, troca de açúcar por adoçante. Mas também houve queda no consumo de chocolates e margarina. Há que esperar mais tempo para ver se as pessoas migraram para fora do reino dos ultraprocessados ou se simplesmente trocaram um produto por outro.

Nesse sentido, qual dos modelos é mais fácil de tapear? Complicado dar uma resposta categórica. O perfil nutricional escolhido é muito importante. Trata-se dos indicadores que definirão se um alimento tem excesso desse ou daquele nutriente, no caso das advertências, e que são usados para dar a nota do produto, no caso do NutriScore.

O modelo de nutrientes da Organização Panamericana de Saúde (Opas), usado no sistema de advertências, é mais rigoroso. E foi criado pensando em evidenciar os excessos dos ultraprocessados. Em tese, seria mais difícil por meio da reformulação conseguir eliminar triângulos de alerta. A grande maioria dos produtos hoje nas gôndolas receberia ao menos um triângulo. A indústria argumenta que esse alerta generalizado poderia criar uma situação de indiferença: se é tudo ruim, vou seguir comendo qualquer um.

Para evitar a substituição de açúcar por adoçante, o modelo do Idec defende que se adote um triângulo alertando para a presença dessas substâncias.

O NutriScore, como dissemos, é um sistema de resumo. “Os esquemas foram desenvolvidos considerando a oferta geral de alimentos [na França], e portanto podem não ser transponíveis de uma cultura para outra”, adverte Chantal Julia.

Nesse sistema, os ingredientes negativos (calorias, açúcar, gordura saturada, gordura e sal) somam pontos. Quanto maior a pontuação, pior o produto. E há ingredientes positivos que subtraem pontos (vegetais, fibras, proteínas, entre outros), melhorando a pontuação. Embora esses tenham um peso menor na nota final, é possível fazer uma adição de elementos positivos meramente para subir de ranking, sem uma transformação profunda do perfil nutricional. Um iogurtinho com mais frutas, mas ainda com excesso de gordura e açúcar.

Ainda falta aprofundar as comparações entre o NutriScore e o sistema de advertências. Mas, antes, a Anvisa precisa dizer onde quer chegar.

Fonte – João Peres, O Joio e o Trigo de 18 de abril de 2018

Glifosato. Cientistas argentinos descobrem danos ao crescimento ovariano de crustáceos

Cientistas argentinos descobriram que tanto o glifosato como os herbicidas a base de glifosato afetam o crescimento ovariano dos crustáceos, durante novos estudos revisados por pares in vivo e in vitro sobre a espécie modelo: o caranguejo de estuário Neohelice granulata.

A reprodução de crustáceos é um processo complexo, que implica o crescimento ovariano em fêmeas adultas, durante o período crítico anterior à desova (denominado como período pré-reprodutivo). Durante este período, os ovócitos imaturos (pré-vitelogênicos) se desenvolvem em oócitos maduros (vitelogênicos), que acumulam uma grande quantidade de gema (por exemplo, lipoproteínas constitutivas do vitelo), que em parte se sintetiza pelos mesmos ovócitos. Além disso, este processo é regulado por vários hormônios, alguns secretados pelo sistema nervoso (por exemplo, neuro-hormônios) e outras por células endócrinas específicas, localizadas em vários tecidos, incluído o ovário.

O glifosato é atualmente um dos herbicidas mais utilizados em todo o mundo, especialmente nos países onde a agricultura representa um elemento importante na produção nacional de produtos básicos, como no caso da Argentina. Recentemente, os pesquisadores deste país caracterizaram vários efeitos do glifosato, puros e formulados, sobre o crescimento ovariano do caranguejo de estuário Neohelice granulata. Esta espécie de crustáceo foi amplamente estudada durante os últimos 30 anos, em relação a quase todos os seus aspectos biológicos. De fato, N. granulata foi considerada uma espécie modelo, representativa de uma grande quantidade de grupos de crustáceos.

Um dos ensaios realizados sobre o caranguejo N. granulata foi a exposição das fêmeas durante o inverno, ou seja, nos três meses do período pré-reprodutivo que o ovário necessita para amadurecer, antes da desova durante a primavera. Ao final do período de exposição, observou-se uma incidência significativa da reabsorção de ovócitos no ovário dessas fêmeas expostas à formulação de glifosato Roundup Ultramax, que tem uma concentração de glifosato (como o ingrediente ativo) de 0,2 mg/L, uma concentração que pode ser encontrada no meio ambiente.

Além disso, o conteúdo diminuído de vitelogenina por grama de ovário também foi encontrado nas mesmas fêmeas. Este último efeito também foi verificado in vitro, após incubar peças isoladas do ovário com a mesma formulação comercial e a mesma concentração utilizada in vivo. Por outra parte, por meio da avaliação da incorporação de um aminoácido radiomarcado às proteínas de ovário, é possível estabelecer, em comparação com um grupo de controle, que uma inibição parcial da síntese de proteínas foi a responsável pela diminuição do conteúdo de vitelogenina observado tanto in vivo como in vitro.

O glifosato, como ingrediente ativo das formulações comerciais, é responsável pelos efeitos nocivos?

Em ensaios adicionais, os pesquisadores buscaram elucidar a contribuição real do glifosato, em si mesmo, aos efeitos nocivos sobre o ovário dos caranguejos, causados pela formulação comercial ensaiada. A isto, um novo ensaio in vivo foi realizado durante todo o período pré-reprodutivo. Assim como se notou com a formulação comercial, observou-se uma incidência significativa de reabsorção de oócitos, mas com uma concentração mais alta (1 mg/l). Tomados em conjunto, os resultados obtidos tanto com o glifosato puro como com o formulado sugerem a existência de alguns efeitos sinérgicos entre o glifosato puro e os coadjuvantes apresentados na formulação comercial ensaiada.

O glifosato puro não reduziu o conteúdo de vitelogenina por grama de ovário, mas um novo efeito do herbicida aparentemente mascarado na formulação comercial, devido aos efeitos inibidores que esta formulação causou na síntese de vitelogenina, foi o aumento do tamanho dos pré-vitelogênicos imaturos, ovócitos, ao final do ensaio in vivo. Os dois efeitos causados pelo glifosato puro (reabsorção de oócitos e aumento do tamanho de ovócitos pré-vitelogênicos) também corroboraram, mediante ensaios in vitro, expondo pedaços de ovário isolados a uma concentração de glifosato de 0,2 mg/l. O aumento anormal no tamanho dos ovócitos imaturos foi consistente com um possível efeito disruptor endócrino causado pelo glifosato puro, provavelmente alterando a secreção e/ou o mecanismo de transdução de um ou mais hormônios que controlam o crescimento ovariano nos crustáceos. Esta hipótese está atualmente sob verificação.

Este estudo foi apoiado por subsídios do CONICET (PIP2015) e da Universidade de Buenos Aires (programa científico UBACYT 2016).

Os autores do trabalho são os pesquisadores Luciana Avigliano, Ivana S. Canosa, Daniel A. Medesani e Enrique M. Rodríguez, pertencem ao Departamento de Biodiversidade e Biologia Experimental, FCEN, Universidade de Buenos Aires. Instituto de Biodiversidade, Biologia Experimental e Aplicada(IBBEA), CONICET-UBA. Cidade Universitária de Buenos Aires, Argentina.

Fontes – Graciela Vizcay Gomez, America Latina en Movimiento (ALAI) / tradução Cepat / IHU de 11 Fevereiro 2018

O glifosato e uma Europa sem visão

“Hoje é o caso de encontrar a coragem para uma revolução produtiva, que objetive recuperar uma harmonia entre a necessidade urgente de alimentar uma população mundial crescente e a necessidade de conservar os recursos naturais para as gerações futuras”.

Se for verdade, como afirmado pela Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer e pela Organização Mundial da Saúde que o “glifosato é provavelmente cancerígeno para os seres humanos”, então a decisão a ser tomada só pode ser uma: o seu banimento. Se, ao contrário, como defende a Autoridade Europeia para a Segurança Alimentar, “é improvável que o glifosato seja cancerígeno”, por que não assumir o compromisso de levar a cabo o processo de autorização completo como para as outras moléculas químicas utilizadas em produtos fitofarmacêuticos?

A decisão tomada pelos membros da UE há poucos dias coloca-se no meio termo, e prorroga por mais cinco anos (escolha cautelar em relação aos 10 anos propostos pelos fabricantes), e, portanto, poderemos continuar a usar o glifosato na agricultura e consumi-lo em nossa alimentação. A escolha chegou depois de meses de negociações e conversações, com acalorados debates entre aqueles que, como o Slow Food, argumentavam que está na hora de sua proibição e aqueles que louvavam o magnífico destino desse herbicida.

A votação foi fundamentada em um pressuposto hipócrita que nos leva a confirmar, infelizmente, pela enésima vez, que muitas vezes as decisões europeias não são feitas no interesse dos cidadãos, mas seguindo a lógica dos ‘agradinhos’ e da administração do consenso, especialmente o financeiro. A situação é paradoxal. As instituições que deveriam zelar pela nossa saúde não só não chegam a conclusões científicas definitivas, mas não têm a coragem de tomar uma posição clara nos confrontos de uma decisão que tem um impacto sobre milhões de pessoas, principalmente sobre quem produz. Uma atitude digna de Pilatos que vai levar cada país a elaborar medidas de forma independente (a França já declarou a proibição do uso de glifosato em 2019, na Alemanha muitos supermercados já o retiraram das prateleiras), que minam a unidade jurídica da União.

Além disso, além da indecorosa indecisão, o caso é acompanhado por uma falta de qualquer visão futura. Como será a agricultura do futuro? É concebível reduzir a sua dependência da química? Como pode ser feito?

Vimos as organizações de agricultores tomar as ruas após o anúncio de Macron e foi lido em vários lugares que “os agricultores franceses, sem o glifosato, não saberiam como continuar suas colheitas”. Mas o problema é político, além de agronômico: o sistema alimentar como o conhecemos é quase totalmente baseado no uso de produtos químicos ou derivados de petróleo. É o resultado daquela revolução verde que transformou nas décadas de 1950-60-70, a relação entre o homem e o meio ambiente, entre alimentos e meio ambiente.

Hoje é o caso de encontrar a coragem para uma revolução produtiva, que objetive recuperar uma harmonia entre a necessidade urgente de alimentar uma população mundial crescente e a necessidade de conservar os recursos naturais para as gerações futuras. Soluções existem, mas precisam ser encorajadas e às vezes forçadas.

A decisão sobre o glifosato é uma situação que deve ser vista a partir dessa perspectiva, mas parece que as instituições europeias não têm a capacidade de olhar mais longe do que os estoques que as multinacionais dos fitofármacos precisam gastar. E então, além de temer pela nossa saúde, uma vez que foi renovada a autorização para o uso de uma substância provavelmente tóxica, precisamos expressar a decepção por ter que esperar ainda um longo tempo antes que se inicie um processo virtuoso de que a humanidade tem desesperada necessidade.

Carlo Petrini é fundador e presidente do movimento Slow Food.

Fontes – La Repubblica / tradução é de Luisa Rabolini, IHU de 01 de dezembro de 2017

Indústria omite presença de transgênicos em carnes e derivados

Suzi.jpgPresença de transgênicos é omitida pela indústria de alimentos. Peito de peru e patês foram os itens com maior concentração de derivados de soja e milho. ARQUIVO/EBC

Pesquisa da Universidade Federal de Santa Catarina encontrou soja e milho em metade dos produtos analisados. Contrariando a lei, nenhum deles indicava presença de componentes geneticamente modificados

Metade das carnes e derivados contém em sua composição ingredientes transgênicos e o consumidor nem desconfia. É o que sugere uma pesquisa do Departamento de Nutrição da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) divulgada durante o Agroecologia 2017 – 6º Congresso Latino-Americano de Agroecologia, 10º Congresso Brasileiro de Agroecologia e 5º Seminário de Agroecologia do Distrito Federal e Entorno.

Dos 496 produtos analisados, 49,2% continham pelo menos um ingrediente derivado de soja ou milho.  A maior concentração foi encontrada nos subgrupos de peito de peru e patês. A proteína de soja, detectado em 217 alimentos do grupo (43,7%), foi o ingrediente mais usado.  (43,7%), seguido do amido de milho, que estava em 27 itens (5,4%).

Do total, 209 alimentos continham ingredientes derivados de soja, 18 deles continham derivados de milho e outros 21, derivados de ambos.

Os ingredientes derivados de milho e soja identificados na tabela dos rótulos destes alimentos são a proteína de soja, o amido de milho, lecitina de soja, óleo de milho, farinha de soja, farinha de milho, óleo de soja, xarope de milho, molho de soja e dextrose de milho.

Suzi 1.jpg

As lavouras brasileiras de soja e milho são, em sua maioria, geneticamente modificadas. De acordo com a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO), os organismos geneticamente modificados (OGM) estão cada vez mais presentes na alimentação da população mundial, seja como alimento ou como ingrediente de alimentos industrializados.

O Brasil é o segundo país que mais planta transgênicos no mundo e desde 2003 têm aprovado para cultivo e consumo soja, milho, algodão e, mais recentemente, um feijão transgênico, que ainda não está disponível para consumo. Atualmente, 94% da soja, 85% do milho e 73% do algodão cultivados no Brasil são transgênicos.

“Tais cultivos dão origem a subprodutos que são utilizados pela indústria alimentícia como constituintes de muitos alimentos.  Considerando a crescente produção de alimentos transgênicos no Brasil, presume-se uma grande possibilidade de que os ingredientes derivados de milho e soja, presentes nesses produtos, também sejam transgênicos”, afirmou a professora da UFSC e líder da pesquisa, Suzi Barletto Cavalli.

Mais agrotóxicos

Essa notícia é ruim porque plantas transgênicas recebem muito mais agrotóxicos durante seu cultivo. Sem contar outros riscos à saúde e ao meio ambiente que sequer foram dimensionados.

No Brasil, o Decreto no 4.680/2003 estabelece que todos os alimentos e ingredientes alimentares que contenham ou sejam produzidos a partir de transgênicos, com presença acima de 1% do produto, devem ser rotulados.

Contudo, estudos brasileiros revelaram a presença destes ingredientes em alimentos com quantidade superior a 1% sem, no entanto, informar a presença destes componentes no rótulo, apesar da legislação de rotulagem.

Para chegar a essas conclusões, as pesquisadoras Rayza Dal Molin Cortese, Suellen Secchi Martinelli, Rafaela Karen Fabri e Rossana Pacheco Proença, do Núcleo de Nutrição em Produção de Refeições(NUPPRE/UFSC), analisaram os rótulos das embalagens de carnes e preparações à base de carnes comercializados em um grande supermercado do Brasil pertencente a uma das dez maiores redes brasileiras, segundo a Associação Brasileira de Supermercados (Abras).

Foram registradas informações como denominação, nome comercial, marca, fabricante e país de origem. Todos os rótulos foram fotografados para posterior identificação, transcrição e análise da lista de ingredientes e a presença do símbolo “T” referente à identificação de transgênicos na rotulagem. As carnes foram classificadas em subgrupos e analisadas por meio de um software específico.

Origem

Foram considerados subprodutos de soja e milho aqueles ingredientes que continham a determinação da origem, como óleo de milho, proteína de soja. Ingredientes como óleo vegetal ou amido não foram considerados, se não contivessem essa especificação. Também foi analisada a frequência dos ingredientes, com o intuito de verificar quais ingredientes derivados de soja e/ou milho estavam entre os mais frequentes nos alimentos analisados.

Do total de carnes e preparações à base de carnes analisadas, 49,2% traziam em sua composição pelo menos um ingrediente derivado de soja ou milho, sendo que a maioria dos subgrupos apresentava mais da metade dos alimentos com esses componentes.

Em apenas dois subgrupos (caviar e charque) não havia nenhum alimento contendo ingredientes derivados de soja e/ou milho. Os subgrupos que continham mais alimentos com ingredientes passíveis de serem transgênicos foram os subgrupos 13 – peito de peru; 14 – patês; 11 – preparações de carnes com farinhas ou empanadas e 1 – almôndegas a base de carnes.

Suzi 2.jpg

Os achados são semelhantes aos de estudos internacionais e nacionais, que demonstraram a utilização de proteína de soja pela indústria alimentícia como um ingrediente em produtos processados à base de carne.

Estudos apontaram a presença de soja transgênica em carnes como presunto, mortadela de frango e steak de frango; outra, em 12 de 50 amostras de alimentos derivados de mortadela, salsichas, salame, patê, linguiça, frios e rocambole de carne, e em 11 de 30 amostras de salsichas contendo soja.

No caso de carnes e preparações à base de carnes, as proteínas de soja são amplamente utilizadas por suas propriedades de ligação de água, ligação de gordura, textura e capacidade emulsionante, além das características organolépticas como aparência, firmeza e corte.

No estudo catarinense, nenhum dos alimentos analisados continha identificação da presença de transgênicos no rótulo. Contudo, estudos brasileiros identificaram a presença de soja e milho em diversos alimentos, incluindo carne processada e produtos à base de soja em quantidade superior a 1% sem, no entanto, declarar a presença de transgênicos no rótulo, conforme a legislação de rotulagem.

“Assim, considerando que 94% da soja e 85% do milho cultivados no país são transgênicos, é provável que os ingredientes derivados de soja e milho identificados no presente estudo também o sejam”, disse Suzi Cavalli.

Segundo ela, esses resultados são preocupantes porque, segundo a Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) 2008-2009, 24,5% da quantidade per capita média diária de consumo da população brasileira são provenientes de produtos de origem animal, incluindo carnes, leite e derivados e ovos.

Além da grande quantidade de ingredientes possivelmente transgênicos adicionados pela indústria alimentícia em carnes e preparações a base de carnes, animais alimentados com ração produzida com milho e/ou soja transgênicas também podem constituir fonte de transgênicos na alimentação humana.

Outro lado

A Associação Brasileira das Indústrias da Alimentação (Abia) informou à redação, por meio de nota, que é bastante clara quanto a esse tema e recomenda às suas associadas o pleno cumprimento do Decreto 4.680/03, que determina a rotulagem de alimento ou ingrediente alimentício com a presença de Organismos Geneticamente Modificados (OGM). E que nos casos em que houver comprovação efetiva de desacordo com a legislação vigente estarão sujeitos às penalidades aplicadas pelas autoridades competentes.

Fonte – Cida de Oliveira, Rede Brasil Atual de 15 de setembro de 2017

Transgênicos estão com os dias contados

monsanto canada.jpgDetentores da tecnologias transgênicas enfrentam resistência popular em muitos países, como o Canadá. A Monsanto, dos Estados Unidos, que também fabrica agrotóxicos, está sendo comprada pela alemã Bayer. MARCHA CONTRA A MONSANTO/CANADÁ

Professor da Unicamp afirma que a maioria dos fabricantes do setor vai falir porque a tecnologia é cara, tem vida curta e já nasce ultrapassada. “A lei da natureza é mais forte”

Para o professor e ex-diretor do Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Mohamed Ezz El-Din Mostafa Habib, o setor de biotecnologia – que basicamente projeta e desenvolve organismos geneticamente modificados, os transgênicos – está em decadência, o que pode alterar significativamente a atual situação, de ampla presença destas tecnologias sobretudo na agricultura.

A certeza do cientista de 75 anos – egípcio naturalizado brasileiro, que chegou por aquil como refugiado no começo da década de 1970 depois de viver na Europa –, vem da leitura de aspectos econômicos, científicos, sociais e comportamentais em âmbito internacional sobre o setor.

“A maior empresa de biotecnologia do planeta, a Monsanto, foi comprada pela Bayer. Os jornais chamam de fusão, venda, mas isso significa que a Monsanto faliu. Esses processos de fusão, em que uma empresa compra a outra, são na verdade tentativas de sobrevivência no setor”, afirma Habib.

Ele lembra que até mesmo a Oxitec, empresa de origem britânica que desenvolveu os mosquitos transgênicos liberados no Brasil, foi comprada por um grupo maior, o Intrexon, dos Estados Unidos, depois de perder apoio da Universidade de Oxford, na Inglaterra, onde foi criada em uma incubadora de empresas. E que mesmo com a incorporação pelo grupo norte-americano, apresenta dados econômicos insatisfatórios – daí a pressão sobre políticos em diversos países para desovar os estoques dos famigerados mosquitos e atrair novos acionistas.

E não é só. A maioria das companhias do setor, segundo ele, está mergulhada em dívidas. “Em situação crítica, correm risco de falências. Eles pagam caro para fazer modificações genéticas nas plantas para torná-las resistentes a pragas ou herbicidas e, cinco anos depois, a natureza vence. As pragas e as plantas daninhas tornam-se resistentes. Já são 17 as plantas chamadas invasoras que criaram resistência ao glifosato, coisa que nós já vínhamos alertando há muito tempo. E o que eles fazem? Voltam a repetir o mesmo ciclo: inventam novas moléculas contra as quais os insetos não têm resistência e vão jogando mais veneno na lavoura e na natureza, quando a promessa da transgenia era diminuir o uso de venenos. E logo a natureza reage com a resistência dos insetos e plantas invasoras”.

A intensidade da adesão à tecnologia dos transgênicos chega a ser desoladora para quem se preocupa com a preservação ambiental e a saúde pública do país. Mais de 83% do milho plantado no Brasil é geneticamente modificado. Da soja, o percentual é ainda maior: 95%. E do algodão, 66%. Sem contar as versões transgênicas do feijão, do eucalipto e da cana, que já foram liberadas para produção e comercialização.

Há ainda o Aedes aegypti – os chamados mosquitos transgênicos que há mais de dois anos vêm sendo liberados em Piracicaba (SP), mesmo sem comprovar eficácia na redução da população do animal original e selvagem – transmissor de infecções como dengue, chikungunya e zika – além das incertezas sobre ser seguro à saúde e ao meio ambiente. Por essas e outras, a tecnologia desenvolvida pela Oxitec está sendo questionada por entidades estrangeiras, como a britânica GeneWatch, que quer a proibição da soltura desse tipo de Aedes.

Há também uma infinidade de outros projetos em curso dentro do setor, como da laranja e do fumo geneticamente modificada, em avaliação na Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio), colegiado criado para assessorar o governo federal em assuntos sobre transgênicos – e não para aprovar tudo sem critério científico algum, como sempre acontece.

Se ainda fosse pouco, empresas do setor, como as transnacionais Basf, Bayer, Dow, Du Pont, Monsanto e Syngenta, que financiam grande parte das pesquisas e seus pesquisadores, e da maioria dos parlamentares no Brasil, exercem poderoso lobby. A ameaça da vez é o relaxamento na legislação que obriga os fabricantes a incluir o símbolo dos transgênicos no rótulo dos alimentos – O T preto dentro do triângulo amarelo.

Apesar de não contemplar por completo os interesses da população, essa garantia de um mínimo de informação para que o consumidor possa fazer suas escolhas é uma pedra no sapato dos fabricantes, que não querem ter seus produtos visivelmente associados a uma biotecnologia envolta em riscos e incertezas que virou unanimidade entre os consumidores. Ninguém os quer justamente porque acha algo muito mal explicado.

Mas, apesar disso tudo, a situação tem tudo para mudar “logo, logo”, segundo Mostafa Habib. O titular da cadeira na CTNBio reservada a especialistas em meio ambiente, onde cumpre seu primeiro mandato, está convicto: “Comecem a se animar, porque isso tudo vai mudar logo, logo”, afirma.

A biotecnologia está envolta em riscos e incertezas que a transformaram em unanimidade entre os consumidores: todos torcem o nariz para esses produtos. REPRODUÇÃO

Lei da natureza

Segundo Habib, os laboratórios que desenvolvem plantas, sementes e outros tipos de organismos geneticamente modificados têm custos altíssimos. São altos também os riscos aos investidores nas diferentes fases, desde a pesquisa, o desenvolvimento, o uso e depois do uso. E há carências e fragilidades científicas envolvendo o risco inerente à biotecnologia e à biossegurança. Ou seja: não funcionar e ainda causar danos ambientais.

Além disso, os recursos humanos envolvidos são altamente especializados, caríssimos, apesar de pobres no conhecimento das ciências básicas. Sem contar a disputa entre as empresas. “E apesar dos carteis, há o imenso risco de, ao ser lançado, o produto biotecnológico ser ultrapassado em pouquíssimo tempo, ou mesmo nem servir. Uma semente transgênica desenvolvida para ser resistente a herbicidas, ou as plantas transgênicas que contêm bactérias tóxicas, para matar os insetos que as atacam, têm vida muito curta, abreviada pela grande concorrência e sobretudo pela força da lei da natureza.”

Uma lei, segundo ele, que determina que em quaisquer contatos constantes entre a população de qualquer ser vivo e um fator que a coloque em risco de vida, vai resultar em um desenvolvimento de resistência a esse fator. “Nessa lei da natureza, as plantas que são atacadas por agrotóxicos passam a ser resistentes a eles, por isso aumentam as quantidades e a toxicidade. Do mesmo modo, as toxinas das plantas transgênicas vão deixando de ser mortais para os insetos alvo.”

O resultado é uma das consequências da ultra especialização das biotecnologias. Um problema, conforme Habib, porque ao mesmo tempo em que os pesquisadores dominam um conhecimento bastante específico, perdem a visão holística da ciência e de como a vida como um todo funciona.

“O que acontece com essas indústrias é semelhante ao que acontece com a mídia comercial, que as apoia, inclusive. Elas perderam a credibilidade, e seguem pelo mesmo caminho”, diz, traçando paralelo entre dívidas gigantes com os governos, inclusive pela sonegação de impostos, como no caso da Globo, e escândalos envolvendo manipulações de informações, corrupção de outros crimes praticados por empresas de transgênicos e agrotóxicos, como a Monsanto, por exemplo. “Tudo isso seguido pela desvalorização da marca e das ações em bolsas de valores.”

A máscara caiu

“Os anúncios de novas invenções, que prometem uma planta capaz de ser resistente a mais de um herbicida e ainda sintetizar toxinas que combatem pragas, isso tudo é conversa para boi dormir. Não adianta criar inventos com múltiplas ações, que não resolve. Não pensem que, ao se adicionar mais um gene a uma semente de uma espécie vegetal, que tem mais de 40 mil genes, estaremos criando uma outra espécie, que vai durar para sempre. A natureza é mais forte do que a intervenção humana, que tem a pretensão de ser mais fortes do que a natureza.”

Todos esses fatores, conforme o professor, indicam que a máscara dessas indústrias caiu. “E isso precisa ficar claro para todos nós. Hoje em dia, em vários estados brasileiros, cresce o número de agricultores que está abandonando os transgênicos. E daqueles que nunca usaram essas sementes, agora é que não querem mesmo usar. Está mais do que provado que a transgenia é uma tecnologia que já nasceu morta, fracassada, que repete erros cometidos anteriormente e que não funciona. O que muda é a embalagem, a apresentação. Tanto é um fracasso comprovado que essas empresas vivem à procura de alternativas. O problema é: quem vai pagar esse estrago todo?”

Ao fracasso da tecnologia em aumentar a produtividade, que leva à sua rejeição entre os agricultores, e os riscos à saúde e ao meio ambiente, que levam manifestantes às ruas na Europa e nos Estados Unidos e Canadá, apontam para o sistema agrícola tão antigo quanto a humanidade. E fortalecem o conhecimento ancestral, dos povos tradicionais, que passa de geração em geração.

“Nós vamos aprender a cultivar em nossos quintais, como foi feito nas piores crises do Império Romano. Foi o conhecimento tradicional, das técnicas mais antigas, que sustentou a todos, e ainda hoje sustenta famílias de refugiados quando chegam a outros países. Foi assim comigo, quando deixei o Egito, há mais de 50 anos. Não é o trabalho intelectual, especializado, de engenheiro, advogado. Não sobrevivi trabalhando como professor universitário em um país que quando cheguei ainda não sabia falar o idioma, mas sim pelas habilidades manuais”, conta o professor.

Para Mohamed Habib, nunca é demais dizer que a agricultura com base altamente tecnológica e mecanizada não produz a comida que chega à mesa das pessoas em todo o mundo. “Só serve pra produzir matéria prima e energia. Só. Essas tecnologias não produzem arroz e feijão. Hortaliças? Não. Então, nós vamos sobreviver sim. Eles é que vão desaparecer. A inviabilidade econômica de um produto, para eles, é suficiente para saírem do mercado.”

E como essas biotecnologias são criadas unicamente para ganhar dinheiro, ele não tem dúvida de que uma crise prolongada pode até antecipar o fim do império dos transgênicos. “Eu não tenho dúvidas de que, com esse cenário de resistência crescente ao transgênicos e agrotóxicos, e a persistência de dificuldades econômicas no Brasil, eles deixarão o barco como fazem os ratos, que abandonam o navio que afunda. Serão os primeiros a ir embora”.

Fonte – Cida de Oliveira, Rede Brasil Atual de 02 de dezembro de 2017

 

Glifosato foi autorizado por mais 5 anos na UE

Foto: Yves Herman | Reuters

O uso do glifosato foi autorizada por mais cinco anos na União Europeia, após dois anos e meio de reautorizações temporárias e de adiamentos de votações.

Os estados-membros votaram, no dia 27 de novembro, e o prolongamento do uso do glifosato foi aprovado por maioria qualificada: 18 países votaram a favor (Alemanha, Bulgária, Dinamarca, Eslovénia, Eslováquia, Espanha, Estónia, Finlândia, Holanda, Hungria, Irlanda, Letónia, Lituânia, Polónia, Reino Unido, República Checa, Roménia e Suécia), 9 opuseram-se (França, Bélgica, Grécia, Croácia, Itália, Chipre, Luxemburgo, Malta e a Áustria) e Portugal absteve-se.

A atual licença do glifosato terminava no dia 15 de dezembro de 2017.

“Estamos muito desapontados, vemos que aqueles que deveriam proteger o ambiente e a nossa saúde não estão a fazer o que deviam. (…) Estão a trair a confiança que os europeus depositaram neles e deixam-nos com mais cinco anos de glifosato a contaminar o ambiente, os nossos corpos e a nossa alimentação”, afirmou Franziska Achterberg, ativista da Greenpeace.

A Quercus lamenta, mas não se surpreendeu com o prolongamento da licença. “Infelizmente, o lobby da agricultura intensiva e industrial continua a ser mais forte. O que é notório nesta votação é que para a maioria dos países da UE são mais importantes os negócios do que o ambiente e a saúde das pessoas”afirmou João Branco, presidente da Quercus.

O partido Os Verdes (PEV) disse, em comunicado, que “o Governo português dever-se-ia ter oposto a tal pretensão, pois seria a posição que melhor defende as populações, o ambiente e a saúde pública. Com esta autorização do uso do glifosato por mais cinco anos, a UE demite-se de encontrar alternativas à utilização deste herbicida prejudicial.”

Em 2015, um estudo da Agência Internacional para a Investigação do Cancro (IARC) da Organização Mundial de Saúde (OMS) considerou o glifosato, o herbicida mais usado em Portugal, como um “carcinogénio provável”.

Fonte – The UniPlanet de 28 de novembro de 2017

Fim do Glifosato na Europa pode ser um marco histórico na luta contra os agrotóxicos

É importante lembrar que está em curso o processo de compra da Monsanto, dos EUA, pela Bayer, da Alemanha. - Créditos: Guilherme Santos/Sul21É importante lembrar que está em curso o processo de compra da Monsanto, dos EUA, pela Bayer, da Alemanha. / Guilherme Santos/Sul21

“Resta saber por quanto tempo continuaremos engolindo o que não presta na Europa”

Está prevista para esta quinta-feira, dia 9 de novembro, a decisão final da Comissão Europeia sobre a renovação ou não da licença para o Glifosato.

O Glifosato é o ingrediente ativo do agrotóxico RoundUp, produzido principalmente pela Monsanto. O Glifosato é o agrotóxico mais utilizado no mundo, e no Brasil representa cerca 50% das vendas de venenos, de acordo com o Ibama.

Na Europa, ao contrário do Brasil, o registro de agrotóxicos tem validade definida. A validade de registro do Glifosato terminou em 2015, e desde então uma guerra vem sendo travada no contexto da sua renovação. Após sucessivas extensões, o atual prazo de validade do Glifosato é dia 15 de dezembro.

No mesmo ano de 2015, o IARC – Agência Internacional de Pesquisa em Câncer, ligada a Organização Mundial da Saúde, órgão da ONU – classificou o Glifosato como “provavelmente cancerígeno” após extensa revisão de publicações sobre o assunto.

As agências reguladoras da Alemanha e da União Europeia (EFSA) chegaram à conclusão inversa, ou seja, de que o Glifosato não causaria câncer. Umas das diferenças entre os estudos é que o IARC considerou mais pesquisas independentes. Grande parte das pesquisas avaliadas pela EFSA são financiadas pela indústria de agrotóxicos.

No dia 24 de outubro, o Parlamento Europeu, eleito pelos países membros, aprovou uma resolução não vinculativa, defendendo a proibição do Glifosato até 2022, com restrições de uso desde já ambientes urbanos. No mesmo dia, o Greenpeace entregou um abaixo-assinado com 1,3 milhões de assinaturas pelo banimento imediato da substância.

A proposta inicial da Comissão Europeia, formada por representantes dos 28 Estados-membro, previa a renovação da substância por 10 anos. No entanto, devido à resistência de vários países, sobretudo a França, já se fala em renovar por 5 anos ou menos. A Alemanha, por outro lado, vem defendendo o prazo maior.

A decisão deveria ter sido tomada no dia 25 de outubro, porém não se conseguiu formar uma maioria e a votação foi adiada para o dia 9 de novembro.

É importante lembrar que está em curso o processo de compra da Monsanto, dos EUA, pela Bayer, da Alemanha. E que a Alemanha é hoje o país economicamente mais forte da UE, e cujas decisões têm o maior peso.

A Monsanto, ciente de que a vida do glifosato está chegando ao fim, passou a investir em sementes transgênicas resistentes ao Dicamba. Interessante notar que, ao contrário do discurso que sustenta a inovação no setor agroquímico com foco em substâncias menos perigosas, o Dicamba é uma molécula antiga, registrada em 1967.

E nos Estados Unidos, o Dicamba já enfrenta forte resistência, e até suspensão de uso em alguns estados. Fazendeiros alegam que o produto é altamente volátil, e está atingindo propriedades vizinhas. Quem não usa a nova semente da Monsanto resistente ao Dicamba, perde a produção.

Na imprensa, uma guerra também vem sendo travada. A superpoderosa agência Reuters, a mesma que publicou o “Podemos tirar, se achar melhor”, vem produzindo uma série de ataques ao IARC, buscando desqualificar o relatório que classificou o Glifosato como provavelmente cancerígeno. Em resposta, o IARC afirmou que suas monografias “são resultado de deliberações científicas dos grupos de trabalho de cientistas independentes, livres de conflitos de interesse.”

Historicamente, desde a década de 1970, a indústria de agrotóxicos do Brasil se movimenta a partir daquilo que já não presta na Europa e EUA. Por se tratar de um setor fortemente regulado, as empresas buscam o máximo de lucro enquanto a substância é permitida nos países centrais. Depois, o objetivo passa a ser maximar o lucro na periferia, onde a regulação é mais fraca e mais barata de ser comprada.

O Paraquat, da Syngenta, teve há poucas semanas seu banimento decretado pela Anvisa, mas com prazo de 3 anos para entrar em vigor. O tempo foi concedido para que haja tempo da indústria reagir. A pergunta principal dos ruralistas agora é: o preço para fazer a Anvisa voltar atrás vale a pena, em comparação com os lucros gerados pelo Paraquat?

Dia 9 de novembro pode ser um dia histórico na luta contra os agrotóxicos no mundo. Resta saber, por quanto tempo mais nós no Brasil seremos obrigados a engolir o que já não presta na Europa.

Fonte – Alan Tygel, edição Luiz Felipe Albuquerque, Brasil de Fato de 08 de novembro de 2017