Califórnia listará glifosato como causador de câncer

agrotoxico-herbicida-glifosato-quimico (Foto: Thinkstock)Aplicação do herbicida glifosato (Foto: Thinkstock)

Molécula é princípio ativo do principal defensivo agrícola comercializado pela Monsanto, que promete reação

O glifosato, ingrediente ativo do herbicida Roundup, da Monsanto, será colocado em uma lista do Estado da Califórnia (EUA) de produtos químicos avaliados como causadores de câncer no dia 7 de julho, disse o Escritório de Avaliação da Perda de Saúde Ambiental (OEHHA) na segunda-feira.

A Monsanto prometeu continuar sua batalha legal contra a designação, baseada uma lei estadual conhecida como Proposição 65, e chamou a decisão “injustificada com base na ciência e na lei”.

A listagem é o mais recente revés judicial para a empresa de sementes e produtos químicos, que enfrentou litígios crescentes relacionados ao glifosato, uma vez que a Agência Internacional de Pesquisa sobre Câncer da Organização Mundial de Saúde disse que é “provavelmente carcinogênico” em uma decisão controversa em 2015.

Dicamba, um herbicida projetado para uso com a próxima geração de culturas biotecnológicas da Monsanto, está sob escrutínio no Estado do Arkansas depois que um conselho do Estado votou na semana passada para proibir o produto químico.

A OEHHA disse que a designação de glifosato no âmbito da Proposição 65 prosseguirá após uma tentativa infrutífera da Monsanto de bloquear a listagem no tribunal de julgamento e após os pedidos de permanência foram negados por um tribunal de apelação do estado e pela Suprema Corte da Califórnia.

O apelo da Monsanto ao julgamento do tribunal de primeira instância está pendente.

“Este não é o último passo no processo, e não tem qualquer influência sobre os méritos do caso. Continuaremos desafiando agressivamente essa decisão imprópria”, disse Scott Partridge, vice-presidente de estratégia global da Monsanto.

A listagem de glifosato como um carcinógeno sob a Proposição 65 da Califórnia exigiria que as empresas vendessem o produto químico no estado para adicionar etiquetas de advertência às embalagens. Advertências também seriam necessárias se o glifosato estiver sendo pulverizado em níveis considerados inseguros pelos reguladores.

Os usuários do produto químico incluem paisagistas, campos de golfe, pomares, vinhas e fazendas.

A Monsanto e outros produtores de glifosato teriam cerca de um ano a partir da data da lista para redistribuir os produtos ou removê-los das prateleiras da loja se novos desafios legais forem perdidos.

A Monsanto não calculou o custo de qualquer esforço de refazer a rotulagem e não divulga dados de vendas de glifosato por estado, disse Partridge.

Grupos ambientais saudaram o movimento da OEHHA para listar o produto químico.

“A decisão da Califórnia torna o líder nacional na proteção de pessoas contra os pesticidas que causam câncer”, disse Nathan Donley, cientista sênior do Centro de Diversidade Biológica.

Fonte – Reuters, tradução redação Globo Rural de 27 de junho de 2017

Terra, um planeta envenenado

Os solos estão contaminados por conta das atividades dos homens, que descartam uma grande quantidade de produtos químicos nas áreas utilizadas para produzir alimentos. O alerta é da Organização das nações unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO). Há no solo excesso de nitrogênio e metais pesados, como arsênico, cadmio, chumbo e mercúrio, segundo a FAO. “Quando esses compostos entram na cadeia alimentar representam riscos para a segurança alimentar, para os recursos hídricos, para a subsistência das populações rurais e para a saúde das pessoas”, assinalou um relatório da FAO divulgado dia 23 de junho. E destaca ainda que o combate à contaminação dos solos e a busca por uma gestão sustentável dos recursos agrícolas é essencial para fazer frente às mudanças climáticas e à insegurança alimentar que se acerca.

A poluição dos solos é um problema cada vez mais importante e que acontece de muitas maneiras. A única forma da combate-la é aumentar a disponibilidade de informações a respeito e promover a gestão sustentável da terra. “É preciso intensificar a colaboração global na busca de provas científicas confiáveis para que se mude a forma de plantar e o uso dos agrotóxicos”, disse Ronald Vargas, secretário geral da Aliança Mundial pelo Solo.

A assembleia da Aliança Mundial pelo Solo é uma plataforma neutra e multipartite para discutir os temas globais em relação aos solos e busca agrupar conhecimentos sobre boas práticas de manejo, “além de estimular medidas para manter os solos saudáveis para que sigam garantindo os serviços ambientais que garantem alimentos para todos”, disse Maria Helena Semedo, diretora geral adjunta da FAO.

A Assembleia realizada no final de junho aprovou novas iniciativas para facilitar a troca de informações sobre solo, a criação da Rede Global de Laboratórios de Solos, que deverá coordenar e criar modelos de medição para uso entre todos os países, a Rede Internacional e Solos Negros, que pretende melhorar o conhecimento sobre os solos agrícolas mais férteis, que também são conhecidos por seu alto conteúdo de carbono.

Cerca de um terço dos solos do mundo estão contaminados, devido principalmente a práticas insustentáveis de gestão. Além disso bilhões de toneladas de terra se perdem a cada ano na agricultura e uma das causas principais é a poluição por agrotóxicos e pelo manejo ineficiente do solo. Em alguns países cerca de um quito de todas as terras cultiváveis estão comprometidas com contaminações diversas.

Contaminação do solo significa a presença na terra de substâncias químicas que estão fora de lugar ou em concentrações superiores às normais, por ação de mineração, atividades industriais ou má gestão das águas.

A FAO alerta que em alguns casos as contaminações se estendem por grandes áreas por conta das chuvas e dos ventos. Os insumos agrícolas, como os fertilizantes, os herbicidas e os pesticidas, incluindo os antibióticos que são encontrados nos estercos dos animais, são importantes contaminantes que provocam problemas também por conta de suas fórmulas que são constantemente alteradas.

“A contaminação dos solos é um risco traiçoeiro porque é mais difícil de ser observada do que outros processos de degradação, como a erosão. Os perigos estão, também, em como os contaminantes reagem com os elementos já presentes no solo e a velocidade com que esses contaminantes penetram nos ecossistemas”, alerta o documento da FAO. Segundo a organização, a diversidade de contaminantes e tipos de solos, assim como as formas que agem, fazem com que os estudos para determinar os riscos sejam especialmente difíceis e caros.

Solos Negros

A nova rede internacional de solos negros define como negros aqueles que contém ao menos 25 centímetros de húmus e com uma taxa de carbono orgânico superior a dois por cento. Segundo essa definição estão em um território de 916 milhões de hectares e cobrem 7% da superfície do planeta.

Cerca de 25% dos solos negros são do tipo clássico, co um metro de húmus, e se encontram em regiões de plantios de cereais da Europa Oriental e Ásia Central, além de antigas pradarias da América do Norte, disse o informe da FAO. São considerados solos de extrema importância para a segurança alimentar da humanidade. A Rede Internacional de Solos Negros tem como missão a conservação da produtividade a longo prazo desses solos através da colaboração técnica e intercâmbio de conhecimentos.

Fonte – IPS, traduzido por Dal Marcondes, Envolverde de 04 de julho de 2017

Estudo relaciona uso de agrotóxicos com câncer no sangue

Informação sobre linfoma não-Hodgkin foi apresentada por pesquisadora do Instituto Nacional de Câncer durante audiência pública na Assembleia Legislativa de São Paulo

O primeiro estudo realizado no Brasil sobre a relação do uso de agrotóxicos com o surgimento do linfoma não-Hodgkin (LNH), um tipo de câncer hematológico que nas últimas décadas tem afetado com mais frequência a população mundial, foi um dos destaques da audiência pública realizada nesta terça-feira (27), pela Comissão de Saúde da Assembleia Legislativa de São Paulo, para debater os efeitos causados na saúde e no meio ambiente pelo uso de agrotóxico.

O alerta foi feito por Márcia Sarpa de Campos de Mello, pesquisadora do Instituto Nacional de Câncer (Inca) e uma das três autoras do estudo. A pesquisa mostrou que os agrotóxicos 2,4-D, diazinona, glifosato e malationa estão relacionados a esse tipo de câncer – glifosato e 2,4-D são os dois agrotóxicos mais utilizados no Brasil.

“Diante desse cenário de extrema vulnerabilidade da população brasileira a doenças causadas pelos agrotóxicos, diretrizes regulatórias e legislações mais restritivas são urgentes, assim como o investimento em serviços de saúde e a promoção de políticas de prevenção de doenças crônicas não transmissíveis”, diz o trecho final do estudo Exposição ambiental e ocupacional a agrotóxicos e o linfoma não-Hodgkin.

A relação dos agrotóxicos com o LNH se soma a muitas pesquisas e estudos desenvolvidos tanto no Brasil quanto no exterior, que apontam a conexão entre o uso de venenos na lavoura e o surgimento de diversos tipos de câncer – a segunda maior causa de mortes no Brasil. Segundo estimativa do Inca, cerca de 600 mil novos casos de câncer surgiram em 2016 no país.

Márcia Sarpa enfatizou que a classificação toxicológica dos agrotóxicos leva em conta apenas os “efeitos agudos”, que afetam normalmente os trabalhadores que manipulam diretamente os produtos. Algo que, para ela, é um grave erro. O glifosato, por exemplo, é classificado como “pouco tóxico”.

“A toxicidade aguda é a pontinha do iceberg”, afirmou a pesquisadora do Inca. Para ela, o problema maior está na toxicidade crônica, aquela relacionada à exposição frequente a pequenas doses do produto. Entre os efeitos conhecidos da toxicidade crônica estão problemas de fertilidade, no desenvolvimento do feto, a má formação congênita, a desregulamentação endócrina, mutações e variados tipos de câncer.

“Já temos certeza de todas essas toxicidades, de todos esses efeitos”, afirmou Márcia Sarpa, lembrando que a literatura médica indica que entre 15% e 20% dos cânceres são relacionados à predisposição genética, enquanto entre 80% e 85% são causados por “fatores ambientais”.

Saúde pública

Desde 2008, o Brasil é o país que mais consome agrotóxicos no mundo. Mais da metade das substâncias presentes nestes produtos químicos adotados nas lavouras brasileiras são proibidas em países da Europa e nos Estados Unidos. De acordo com o Dossiê Abrasco, cerca de 70% dos alimentos in natura consumidos no país estão contaminados por algum tipo de agrotóxico, sendo que, desses, segundo dados da Anvisa, 28% contêm substâncias não autorizadas para uso no Brasil. Além disso, conforme a Organização Mundial da Saúde (OMS), os agrotóxicos causam, anualmente, 70 mil intoxicações agudas e crônicas na população dos países em desenvolvimento.

Os efeitos nocivos do uso de agrotóxico na saúde humana, no meio ambiente, os interesses econômicos e políticos do agronegócio, incluindo a tramitação do Projeto de Lei 6.299/2002, o chamado “pacote do veneno”, foram os temas que predominaram durante as quase três horas da audiência pública, solicitada pelos deputados estaduais do PT Carlos Neder e Marcos Martins.

“É importante dizer que a Fundação Oswaldo Cruz tem clareza que o uso de agrotóxico é um problema de saúde pública, que precisa ser enfrentado e que está afetando a vida das futuras gerações”, afirmou Luis Claudio Meirelles, pesquisador em saúde pública da Fiocruz.

Para ele, a falta de informações oficiais confiáveis sobre o uso de agrotóxico no Brasil causa um cenário de “embate técnico”. Meirelles disse que há uma lacuna na transparência e no direito à informação, tanto em nível federal quanto estadual. “Em vez de melhorar, nos últimos anos conseguimos piorar.”

O pesquisador destacou que, embora a literatura internacional seja “inequívoca” com relação aos perigos causados pelos agrotóxicos, os órgãos de controle e fiscalização no Brasil são frágeis. Como exemplo, citou o caso da água, dos alimentos processados ou de origem animal, cujo monitoramento é “parcial ou inexistente”.

“No Brasil, se usa produtos perigosos ou já banidos em outros países. A Europa está falando em banir o glifosato e aqui a gente ainda nem discute o tema”, criticou. O pesquisador da Fiocruz enfatizou o caminho errado adotado pelo país para lidar com o assunto, ponderando que, enquanto a Organização das Nações Unidas (ONU) defende regulamentar e eliminar o uso de agrotóxicos, privilegiando práticas sustentáveis, no Brasil tramita o “pacote do veneno” – uma série de medidas com o objetivo de facilitar ainda mais o uso de agrotóxicos.

“Não é uma questão trivial, é complexa, mas podemos produzir os mesmos alimentos sem o uso de veneno”, afirmou Meirelles.

Proposta de transição

Coube a Carla Bueno, representante da Campanha Permanente contra os Agrotóxicos e Pela Vida, trazer à audiência pública informações que traçam o cenário atual da realidade do campo no Brasil. Entre os dados apresentados, destaque para o fato de míseros 1% dos agricultores do país serem donos de 45% das terras boas para a agricultura. Apesar da enorme concentração de terra, entre 2003 e 2010 os latifúndios aumentaram sua área em 5%, enquanto os minifúndios, pequenas e médias propriedades, diminuíram de tamanho. “Estamos concentrando ainda mais terra”, afirmou.

Segundo Carla, quanto maior a concentração de terra, mais baixo é o PIB per capita e maior a pobreza. “O agronegócio é dependente do veneno e não consegue sair dele. Eles não sabem como parar de produzir sem veneno.”

Apesar do cenário difícil, ela propõe que haja um debate público e um modelo de transição para o agronegócio diminuir o uso de agrotóxicos. Algo que tornou-se realidade por meio da Política Nacional de Redução de Agrotóxicos (PNaRA), transformada em dezembro do ano passado no Projeto de Lei 6.670/2016.

“O projeto é uma proposta de transição do modelo da agricultura, baseado em menos insumos químicos. O que estamos propondo para o Brasil é a construção, de forma gradual e cuidadosa, de uma transição de modelo de produção, algo mais do que necessário no processo em que vivemos, inclusive internacional, de cuidar da natureza, da nossa população e evitar ao máximo o uso dessas substâncias”, explicou a representante da Campanha Permanente contra os Agrotóxicos e Pela Vida.

“Sabemos que esse Congresso não representa o desejo e o que pensa o povo brasileiro. Nossa tarefa é fazer a mobilização social fora do Congresso para então estimular o debate lá dentro e tentar, de alguma forma, colocar uma consciência mais humana nos deputados que lá estão.”

O PL 6.670 começará a tramitar em comissão especial criada para analisar o tema. Após alcançar o número mínimo de deputados, a expectativa é que a comissão seja instalada em breve.

“A audiência de hoje teve o caráter de denúncia, mas também caminhamos para a busca de alternativas. Vamos nos dedicar cada vez mais a pensarmos alternativas no marco legal, na produção de políticas e na geração de produtos sem o uso de agrotóxicos. Continuaremos essa discussão no sentido de pensar um fórum permanente, que se articule com o fórum paulista e a campanha nacional, para que São Paulo esteja na dianteira dessa luta contra o uso de agrotóxico e os prejuízos causados à saúde e ao meio ambiente”, disse, ao final da audiência, o deputado Carlos Neder.

Fonte – Luciano Velleda, Rede Brasil Atual de 27 de junho de 2017

Vídeo sobre os agroquímicos: Nuvens de veneno

A nuvem se espraia pelas plantações. Em vez de molhar, seca. Ela não traz a chuva, traz o veneno. O Brasil é um dos maiores produtores mundiais de soja, algodão, milho e também um dos maiores consumidores de fertilizantes químicos e agrotóxicos. Nuvens de veneno expõe as preocupações com as consequências do uso desses agroquímicos no ambiente, especialmente, na saúde do trabalhador. Um documentário revelador que faz refletir sobre a forma que crescemos e sobre o tipo de desenvolvimento que queremos.

Ficha técnica

Direção e roteiro: Beto Novaes
Produção executiva: Beto Novaes, Carlos Minayo, Wanderley Pignati
Assessoria de conteúdo: Wanderley Pignati e Carlos Minayo
Fotografia: Cleisson Vidal
Edição: Gislaine Lima
Trilha original: Bernardo Gebara
Produção: Terra Firme, VideoSaúde e MP2 Produções
Distribuição: VideoSaúde – Distribuidora da Fiocruz
Duração: 23 minutos
Ano: 2013
Idioma: português
Legendas: inglês e espanhol

Glifosato: Carta aberta de médico alerta para falhas das agências europeias

Glifosato usado na agricultura

Numa carta aberta, o médico Christopher Portier apontou falhas na avaliação das agências europeias sobre o risco para a saúde do glifosato

Numa carta aberta a Jean-Claude Juncker, presidente da Comissão Europeia, o médico Christopher Portier apontou falhas na avaliação das agências europeias sobre o risco para a saúde do glifosato.

“A classificação de risco do glifosato é um bom exemplo de como a falta de transparência sobre os dados científicos que estão por trás de decisões importantes sobre a saúde pública pode minar a confiança do público”, escreve o cientista.

Portier teve acesso ao estudo elaborado a partir de dados transmitidos confidencialmente pela indústria do glifosato à EFSA (Agência Europeia de Segurança dos Alimentos) e à ECHA (Agência Europeia de Produtos Químicos) e acusa as agências de não terem levado em conta “oito casos de aumentos significativos de tumores após exposição ao glifosato”.

“Estas omissões tornam impossível aos cientistas exteriores julgarem a qualidade dos estudos, o rigor dos métodos usados para analisar os dados, ou determinar se existem razões legítimas nas discussões para que os tumores identificados (…) tenham sido excluídos”, acrescenta.

Em 2016, um grupo de 100 cientistas, liderados por Portier, alertou para os problemas para a saúde ligados ao uso do glifosato. Nesse mesmo ano, Bruxelas prolongou a licença do glifosato por mais 18 meses, enquanto esperava pelo relatório da ECHA.

Na carta Portier propõe que as avaliações das agências europeias sejam repetidas e que os dados em que essas avaliações se baseiam sejam tornados públicos.

Após o parecer positivo da EFSA e da ECHA, os comissários europeus decidiram recentemente “retomar as conversações com os Estados-membros sobre uma possível renovação da autorização do glifosato durante 10 anos”.

Fonte – The UniPlanet de 31 de maio de 2017

Europa a um passo de proibir pesticidas que prejudicam as abelhas

Os inseticidas neonicotinóides poderão ser proibidos na UE, se as propostas da Comissão Europeia forem aprovadas

Os insecticidas mais usados no mundo poderão ser proibidos na UE, se as propostas da Comissão Europeia, às quais o jornal britânico The Guardian teve acesso, forem votadas favoravelmente pela maioria dos Estados-membros. Os documentos mencionam “riscos agudos para as abelhas” e a proibição poderá entrar em vigor ainda este ano.

As abelhas e os outros polinizadores são responsáveis pela polinização e fertilização de três quartos das colheitas agrícolas do mundo e as suas populações têm sofrido um declínio acentuado nas últimas décadas, devido à perda de habitat, doenças e utilização de pesticidas.

Os inseticidas em questão, os neonicotinóides, são usados há mais de 20 anos e são muito tóxicos para as abelhas.

As propostas da Comissão Europeia (CE), que poderão ser votadas já em maio, foram baseadas nas avaliações de risco da Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos, publicadas em 2016, e contemplam a proibição da utilização de três neonicotinóides – imidacloprida, clotianidina e tiametoxam – nos campos, com uma exceção aberta para as plantas cultivas em estufas.

“A quantidade de provas científicas sobre a toxicidade destes inseticidas é tão elevada que não existe nenhuma razão para estes químicos continuarem à venda no mercado”, disse Martin Dermine da PAN Europe. “A PAN Europe lutará, juntamente com os seus parceiros, de forma a obter o apoio da maioria dos Estados-membros para esta proposta.”

Para Matt Shardlow, diretor executivo da organização Buglife, estas propostas são bem-vindas. “A EFSA confirmou mais de 70 riscos elevados nas sementes tratadas com neonicotinóides.”

Um relatório recente realizado por peritos da ONU considerou um “mito” a ideia de que os pesticidas são necessários para alimentar o mundo e preconizou a criação de um novo tratado global para controlar a sua utilização. “Dado o fracasso da indústria de pesticidas em fazer face, ou mesmo reconhecer, o desastre ecológico causado pelos pesticidas neonicotinóides, concordamos que existe uma necessidade premente de uma nova convenção mundial”, disse Matt Shardlow.

Fonte – The Uniplanet de 29 de maio de 2017

De Olho nos Ruralistas faz twittaço na quarta-feira: “O Agro não é pop”

Observatório questiona campanha da Globo, JBS e Ford, iniciada em 2016 para promover modelo que defende latifúndios e grandes empresas agropecuárias

O Agro é Pop? O Agro É Tech? O Agro É Tudo? Assim dizem – de modo exclamativo – a Rede Globo e os patrocinadores de uma propaganda televisiva em horário nobre: a Ford e o grupo JBS, responsável pelas marcas Seara e Vigor. A campanha está no ar desde 2016, nos intervalos dos principais programas da Globo, como o Jornal Nacional, o Fantástico e a novela das nove.

Campanha da Globo gera paródias.

Um observatório sobre agronegócio no Brasil, De Olho nos Ruralistas questiona em um twittaço, nesta quarta-feira (28/06), a ideia defendida pelo comercial. Hashtag principal: #OAgroNãoÉPop. Complementares: #OAgroNãoÉTech, #OAgroNãoÉTudo. O comercial da Globo se encerra sempre da seguinte forma: “Agro é tech. Agro é pop. Agro é tudo. Tá na Globo”.

O twittaço marca uma fase decisiva da campanha de arrecadação do De Olho, que depende de assinaturas para chegar até 2018. O projeto tem o objetivo de conseguir mil parceiros. Hashtags: #DeOlhoNosRuralistas, #DeOlhoNosMilParceiros. No ano passado, em dezembro, o observatório realizou uma oficina sobre imprensa e questão agrária, com o mesmo tema: “O agro é pop?”

O twittaço será realizado das 13 às 15 horas. O perfil do De Olho no Twitter, @deolhonoagro, divulgará informações e material de apoio durante esse período. Quem quiser acessar antes parte desse material pode entrar na página do observatório no Facebook. A mesma rede social tem um grupo de apoio ao projeto: De Olho nos Ruralistas – Apoio.

O agro é bom?

A multinacional Bayer também lançou vídeos em defesa do agronegócio. O bordão da campanha lembra o da Globo: “O Agro é bom”. Traz a história de fazendeiros, ligados ao modelo do agronegócio, descritos quase como se fossem pequenos agricultores.

Projeto iniciado em setembro de 2016, com o objetivo de investigar os impactos sociais e ambientais do agronegócio, divulgando notícias sobre o poder político e econômico dos ruralistas, o De Olho nos Ruralistas pergunta aos internautas: o agro é bom?

O observatório mostrou no dia 11 que a propaganda específica sobre cana-de-açúcar traz imagens de engenhos com mão-de-obra escrava, exaltando os 500 anos de exploração de trabalhadores no Brasil: ““Agro é pop”: propaganda da Globo sobre cana tem imagens de escravos“.

Imprensa e questão agrária

Comercial sobre cana exalta a cana com imagens de escravos feita por um senhor-de-engenho. (Imagem: Reprodução)

Confira aqui o link da campanha De Olho nos Mil Parceiros. A partir de R$ 12 mensais cada assinante tem direito a receber um boletim semanal, com a seleção do que saiu na semana em um dos quatro boletins diários do observatório: De Olho no Agronegócio, De Olho no Ambiente, De Olho na Comida e de Olho nos Conflitos.

A partir de R$ 25 mensais o parceiro escolhe pelo menos um dos boletins diários, com uma seleção do que saiu na mídia (jornais, revistas, imprensa regional, institucional e independente) sobre cada um dos temas.

Uma das realizações do observatório em 2018 será o lançamento de um livro sobre imprensa e questão agrária, escrito pelo editor do De Olho, Alceu Luís Castilho. O comercial da Globo – e também a relação específica da família Marinho com o agronegócio – será um dos assuntos.

Fonte – De Olho nos Ruralistas de 26 de junho de 2017

 

Le Monde: as práticas irregulares da Monsanto

Le Monde: as práticas irregulares da Monsanto

Já fomos atacados no passado, já sofremos campanhas de difamação, mas somos desta vez o alvo de uma campanha orquestrada, de amplitude e duração inéditas.” Essas foram as palavras iniciais de Christopher Wild  diretor do Centro Internacional de Pesquisas sobre o Câncer (CIRC).

Christopher Wild pesou cada palavra com uma gravidade à altura da situação. Há dois anos, inúmeros ataques foram feitos à instituição que ele dirige: a credibilidade e a integridade de seu trabalho são desafiadas, seus especialistas difamados, pressionados por meio de advogados, seus financiamentos fragilizados. Encarregada há cerca de meio século, sob os auspícios da Organização Mundial da Saúde (OMS), de fazer o inventário das substâncias cancerígenas, a venerável agência começa a vacilar sob o assalto.

As hostilidades foram iniciadas numa data bem precisa: 20 de março de 2015. Naquele dia, o CIRC anunciou as conclusões de sua pesquisa que deixou o mundo todo chocado. Ao contrário da maioria das agências regulamentares, o CIRC julga genotóxico – pois prejudica o DNA –, cancerígeno para o animal e  “provavelmente cancerígeno” para o homem, o pesticida mais utilizado do planeta. Este pesticida é o glifosato, principal componente do Roundup, o produto farol de uma das empresas mais célebres do mundo: a Monsanto.

É também o Leviatã da indústria agroquímica. Utilizado há mais de quarenta anos, o glifosato entra na composição de nada menos de 750 produtos comercializados por uma centena de empresas, em mais de 130 países.

O glifosato, pedra angular da Monsanto

Entre 1974, data em que foi posto no mercado, e 2014, seu uso passou de 3.200 toneladas por ano a 825.000 toneladas. Um aumento espetacular, devido à adoção maciça de sementes geneticamente modificadas para tolerá-lo. De todas as empresas agroquímicas que poderiam ser atingidas por medidas de restrição ou de proibição do produto, há uma que arrisca sua própria sobrevivência. Monsanto, que o criou, fez do glifosato a pedra angular de seu modelo econômico. Ela fez sua fortuna vendendo o Roundup e as sementes que o suportam.

Então, quando o CIRC anuncia que o glifosato é “provavelmente cancerígeno”, a empresa americana reage com uma brutalidade inacreditável. Em um comunicado, ela vilipendia a “junk science” (a “ciência podre”) do CIRC: uma “seleção viesada” de “dados limitados”, estabelecida em função de “motivações ocultas”, levando a uma decisão tomada depois de apenas “algumas horas de discussão no decorrer de uma reunião de uma semana”. Jamais uma empresa questionara em termos tão crus a integridade de uma agência situada sob a responsabilidade das Nações Unidas. A ofensiva estava lançada. Pelo menos aquela que se desenvolve a céu aberto.

Um ano de trabalho para avaliar o pesticida

Internamente, a Monsanto toca uma música totalmente diferente. Esta avaliação do glifosato, como ela sabe muito bem, foi realizada por um grupo de especialistas que, depois de um ano de trabalho, reuniu-se durante vários dias em Lyon para deliberar. Os procedimentos do CIRC requerem que os industriais afetados pelo produto examinado tenham o direito de comparecer a esta reunião final.

Para a avaliação do glifosato, a Monsanto tinha, portanto, enviado um “observador”, o epidemiologista Tom Sorahan, professor da Universidade de Birmingham (Reino Unido) que ela utiliza em missões de consultoria. O informe que ele dirigiu, em 14 de março de 2015, a seu comanditários, confirma isso: tudo se passou de acordo com as regras. “Achei o presidente [do grupo de trabalho], os copresidentes e os especialistas convidados muito amigáveis e dispostos a responder a todos os comentários que eu fiz”, escreve Sorahan, em uma carta dirigida a um quadro da Monsanto e que integra os “Monsanto papers” – um conjunto de documentos internos da empresa que a justiça americana começou a tornar públicos no início de 2017, no contexto do processo em curso.

“A reunião realizou-se de acordo com os procedimentos do CIRC, acrescenta o observador da empresa americana. O Dr. Kurt Straif, diretor das monografias, tem um conhecimento íntimo das regras em vigor e insistiu em que elas fossem respeitadas”.

Contra-ataque

O cientista – que não respondeu às solicitações do Le Monde– parece, aliás, muito constrangido com a ideia de que seu nome seja associado ao ataque da Monsanto: “Não desejo aparecer em nenhum dos documentos de seus comunicadores”, escreve ele, ao mesmo tempo em que oferece sua “ajuda para formular elementos de linguagem” do contra-ataque, inevitável, que o grupo está preparando.

Alguns meses mais tarde, os cientistas não americanos que eram membros do grupo de especialistas do CIRC sobre o glifosato recebem todos a mesma carta. Enviada por Hollingsworth, o escritório de advogados da Monsanto, esta os intima a liberar a totalidade dos arquivos relacionados a seu trabalho sobre a pesquisa batizada de “monografia 112”. Rascunhos, comentários, planilhas de dados… tudo que tenha passado pelo sistema de informática do CIRC. “Caso o senhor recuse, advertem os advogados, solicitamos expressamente que tomem imediatamente todas as medidas razoáveis de que dispõem para preservar esses arquivos intactos, aguardando uma demanda formal formulada por um tribunal americano.”

“Sua carta é intimidatória e deletéria, insurge-se um dos cientistas em sua resposta, datada de 4 de novembro de 2016. Considero sua iniciativa repreensível e carente da cortesia habitual, mesmo segundo os parâmetros contemporâneos.” O patologista Consolato Maria Sergi, professor na universidade de Alberta (Canadá), prossegue: “Sua carta é perniciosa, pois busca instilar, com maldade, ansiedade e apreensão no seio de um grupo independente de especialistas.”

Manobras de intimidação

As pressões exercidas sobre os membros americanos do grupo do CIRC deram-se por outros meios, ainda mais intimidatórios. Nos Estados Unidos, as leis sobre a liberdade de informação (Freedom of Information Act, ou FOIA) permitem a todo cidadão, sob certas condições, solicitar acesso aos documentos produzidos pelos órgãos públicos e seus funcionários: memorandos, cartas, relatórios internos etc.

Segundo nossas informações, o escritório Hollingsworth e Sidley Austin entrou com cinco demandas, a primeira já em novembro de 2015, só junto aos National Institutes of Health (NIH), aos quais estão vinculados dois dos especialistas. No que se refere aos outros cientistas, as demandas destinam-se à Agência Californiana de Proteção ao Meio Ambiente (CalEPA), à Texas A & M University ou ainda à Universidade do Estado do Mississipi. Algumas dessas instituições foram mesmo designadas pelos advogados da Monsanto no contexto de procedimentos judiciais em curso, envolvendo o glifosato, sendo assim obrigadas a fornecer alguns de seus documentos internos.

Seria o objetivo dessas manobras de intimidação fazer calar a crítica? Cientistas de renome mundial, em geral abertos às solicitações dos meios de comunicação, não responderam às solicitações do Monde, mesmo quanto a conversas informais. Ou, em alguns casos, com a condição de falar por uma linha privada, fora do horário de trabalho.

Os parlamentares americanos, por sua vez, não precisam lançar mão do FOIA para pedir contas às instituições científicas federais. Membro da Câmara de representantes, onde preside a comissão de controle e reforma do Estado, o republicano Jason Chaffetz escreve ao diretor dos NIH, Francis Collins, em 26 de setembro de 2016.

As escolhas do CIRC “suscitaram numerosas controvérsias”, escreve ele. E, apesar de seu “histórico de polêmicas, de retratações e de incoerências”, o CIRC recebe “financiamentos significativos dos contribuintes” americanos por meio das subvenções dadas pelos NIH. De fato, 1,2 milhões de euros sobre os 40 milhões do orçamento anual do CIRC provêm de uma subvenção dos NIH. A seu diretor, pois, Jason Chaffetz, solicita detalhes e justificativa de toda a despesa dos NIH relacionada ao CIRC.

Personagens quase saídos de um romance policial

Esta iniciativa foi aplaudida no mesmo dia pelo American Chemistry Council (ACC). A poderosa organização de lobby da indústria química americana, de que a Monsanto é membro, “espera que a luz será feita sobre a relação estreita e um tanto opaca” entre o CIRC e as instituições científicas americanas.

O lobby da indústria química encontrou no Sr. Chaffetz um aliado precioso. Já um março, o eleito republicano escrevia à direção de um outro órgão de pesquisa federal – o National Institute of Environmental Health Sciences –, para pedir-lhe contas sobre as pesquisas que financia sobre os efeitos nocivos do bisfenol A, um composto muito difundido em certos plásticos.

Que melhor meio de neutralizar uma instituição do que cortar seus víveres? Nos meses que se seguiram à publicação da «monografia 112 «, Croplife International, a organização que defende os interesses dos industriais dos pesticidas e das sementes em nível mundial procura os representantes de alguns dos 25 Estados membros do conselho de governança do CIRC para queixar-se da qualidade do trabalho da agência. Ora, estes “Estados participantes” contribuem com cerca de 70% para o orçamento total do CIRC. Pelo menos três deles – Canadá, Países Baixos e Austrália – foram procurados, segundo o CIRC.  Nenhum dos representantes desses Estados respondeu ao Monde.

No decorrer de 2016, personagens quase saídos de um romance apareceram na saga do glifosato. Em junho, um homem que se apresenta como jornalista mas não se anuncia nem se inscreve como tal, participa do encontro que o CIRC organiza em Lyon por ocasião de seu 50º aniversário.

O estranho Sr. Watts

Transitando de cientista a funcionário internacional, o indivíduo interroga uns e outros sobre o funcionamento do CIRC, seu financiamento, seu programa de monografias, etc. “Ele me fez pensar nessas pessoas dúbias que a gente cruza nos meios humanitários – nunca se sabe quem são, mas a gente adivinha que buscam informações”, testemunha uma participante do encontro, que deseja guardar o anonimato.

Alguns meses mais tarde, no fim de outubro de 2016, o homem reaparece. Desta vez no encontro anual organizado pelo Instituto Ramazzini, um célebre órgão de pesquisa independente e respeitado sobre o câncer, instalado perto de Bolonha, na Itália. Mas por que, diabo, o Ramazzini? Um relatório, talvez, com o anúncio, feito alguns meses antes pelo instituto italiano, de que ia levar adiante seu próprio estudo sobre cancerogeneticidade do glifosato?

Christopher Watts – é seu nome – faz perguntas sobre a independência do instituto, suas fontes de financiamento. Como utilizou um endereço de email que terminava por “@economist.com”, seus interlocutores não duvidaram de seu vínculo com o prestigiado hebdomadário britânico The Economist. Aos cientistas que lhe pedem detalhes, diz trabalhar para a Economist Intelligence Unit (EIU), uma empresa de consultoria filial do grupo de imprensa britânico.

Na EIU, confirmam que o Sr. Watts de fato produziu vários relatórios, mas disseram “não poder dizer porque ele participara” dos dois encontros. “Não foi publicado”, acrescentam. Surpreendente, pois na redação do jornal, declaram não ter “nenhum jornalista com esse nome”.

Só a denominação de uma empresa cuja criação o Sr. Watts mencionou, no final de 2014, parece clara: Corporate Intelligence Advisory Company (companhia de consultoria em informação para as empresas). O Sr.Watts, cujo endereço pessoal fica, segundo os documentos administrativos, na Albânia, não quis responder às perguntas do Monde.

Guerrilha burocrática

Em alguns meses, foram pelo menos cinco indivíduos que se apresentaram como jornalista, pesquisador independente ou assistente de escritórios de advocacia procurando cientistas do CIRC e pesquisadores associados a seus trabalhos. Todos buscando informações muito específicas sobre os procedimentos e os financiamentos da agência.

Um deles, Miguel Santos-Neves, que trabalha para a Ergo, uma empresa de inteligência econômica sediada em Nova York, foi pinçado pela justiça americana por usurpação de identidade. Como relatou o New York Times em julho de 2016, o Sr. Santos-Neves pesquisava em nome da empresa Uber sobre uma personalidade em litígio com a empresa, e tinha interrogado seu entorno profisssional sob falsos pretextos. A Ergo não deu sequência às solicitações do Monde. Como Christopher Watts, duas organizações gêmeas, de reputação sulfurosa se interessam não só pelo CIRC, mas também pelo Instituto Ramazzini. Energy And Environmental Legal Institute (E &E Legal) se apresenta como uma organização sem fins lucrativos, sendo uma de suas missões ‘pedir contas àqueles que desejam uma regulamentação governamental excessiva e destruidora, baseada em decisões políticas de intenções ocultas, na ciência podre e na histeria”.

Quanto à Free Market Environmental Law Clinic, “busca ser um contrapeso ao movimento em defesa do meio ambiente, que promove um regime regulamentar economicamente destruidor nos Estados Unidos”. Segundo os elementos de que dispõe Le Monde, elas iniciaram não menos de dezessete demandas de acesso aos documentos junto aos NIH e à Agência americana de proteção ao meio ambiente. Engajadas em uma guerrilha jurídica, burocrática, intrusiva, exigem as correspondências de vários funcionários americanos “contendo os termos “CIRC”, “glifosato”, “Guyton”” (como Kathryn Guyton, a cientista do CIRC responsável pela «monografia 112»). Solicitam os mínimos detalhes sobre bolsas, subvenções e outras relações, financeiras ou não, entre esses órgãos americanos, o CIRC, certos cientistas e o Instituto Ramazzini.

“Não deixe nada passar”

As duas organizações são dirigidas por David Schnare, um cético declarado em relação ao aquecimento global, conhecido por ter pressionado climatólogos. Em novembro de 2016, o Schnare deixou temporariamente a E & E Legal para unir-se à equipe de transição de Donald Trump. Encontra-se também, entre os dirigentes da organização, Steve Milloy, uma figura célebre da propaganda financiada pela indústria do fumo. Às perguntas sobre suas motivações e fontes de financiamento, o presidente da E & E Legal respondeu por email: “Saudações, não estamos interessados.”

O eco dessas demandas de acesso aos documentos é amplificado pelas matérias publicadas em certos meios de comunicação. Especialmente The Hill, um site político de leitura obrigatória para todo ator da vida parlamentar em Washington. Seus autores: um esquadrão de propagandistas, cuja associação US Right to Know (USRTK) documentou os laços de longa data com os industriais da agroquímica ou dos think tanks conservadores, como o Heartland Institute ou o George C. Marshall Institute, conhecidos pelo papel preponderante na maquinária “climatocética”. Os mesmos argumentos aparecem em vários textos. E às vezes, os mesmos sintagmas de um autor a outro: fustiga-se a«ciência feita nas coxas» de um CIRC que, corroído pelos conflitos de interesses, seria “amplamente criticado” – sem que jamais seja dito por quem.

Os advogados implicados nos procedimentos jurídicos americanos revelaram que a Monsanto empregava também meios mais discretos. Respondendo sob juramento às questões dos advogados de pessoas enfermas que atribuem seu câncer ao Roundup, responsáveis pela firma relataram a implantação de um programa confidencial batizado de “Let Nothing Go” (Não deixe nada passar», destinado a responder a todas as críticas.

As transcrições dessas audições permanecem confidenciais. Mas, memorandos transmitidos pelos escritórios de advogados implicados nas perseguições permitem saber um pouco mais. Segundo eles, a Monsanto recorre a empresas terceirizadas, que “empregam indivíduos, aparentemente sem conexões com a indústria, para fazer comentários positivos à margem dos artigos publicados, e posts no Facebook, a fim de defender a Monsanto, seus produtos químicos e os OGM”.

A máquina parece acelerar-se com a chegada do Sr. Trump

No decorrer dos últimos meses, a coalizão contra o CIRC ampliou-se. No final de janeiro de 2017, alguns dias apenas depois da entronização de Donald Trump na Casa Branca, o American Chemistry Council somou-se a suas fileiras.

O lobby americano da química abriu uma frente sobre as redes sociais na forma de uma campanha pela exatidão na pesquisa em saúde pública. Objetivo anunciado: obter uma “reformulação” do programa das monografias do CIRC. Em um site e pelo Twitter, a poderosa organização de lobby aperta o cerco: “Um pedaço de bacon ou um pedaço de plutônio? É a mesma coisa, segundo o CIRC” O texto é acompanhado de uma fotomontagem mostrando duas barras verdes fluorescentes que mergulham em ovos fritos. O CIRC de fato classificou, em outubro de 2015, os embutidos “cancerígenos” com certeza e a carne vermelha como “provavelmente cancerígena”, como o glifosato.

Talvez seu acesso direto ao círculo mais próximo ao presidente Trump dê a esses industriais da química e da agroquímica um sentimento de grande poder? A mais alta responsável pelo lobby do American Chemistry Council, Nancy Beck, não acaba de assumir suas funções como diretora adjunta do serviço encarregado da regulamentação dos produtos químicos e dos pesticidas na Agência americana de proteção ao meio ambiente, o serviço que, precisamente, completa o reexame do dossier glifosato? E Donald Trump em pessoa não confiou a Andrew Liveris, dono da Dow Chemical, empresa membro do American Chemistry Council, a direção de sua Manufacturing Jobs Initiative (Iniciativa para o emprego industrial)?

A máquina parece acelerar-se com a chegada da era Trump. No final de março, o republican texano Lamar Smith, presidente da comissão da Câmara dos representantes sobre a ciência, o espaço e a tecnologia, interpela o novo ministro da saúde, Tom Price. Ele concentra suas questões nos laços financeiros entre o National Institute of Environmental Health Sciences (NIEHS) e o Instituto Ramazzini a fim, escreve ele, de “assegurar-se que os beneficiários das subvenções aderem aos mais altos parâmetros de integridade científica”.

Ignorância e mentira

Publicada pouco depois na National Review, a tribuna ataca pessoalmente Linda Birnbaum, a diretora do NIEHS, acusada de promover um programa “quimiofóbico”, e Christopher Portier, seu antigo diretor adjunto, que acompanhou os trabalhos do CIRC como especialista convidado,aqui qualificado como “militante anti-glifosato bem conhecido”, e ambos membros do Ramazzini.  Eis, segundo eles, “um exemplo mais sobre a maneira como a ciência foi politizada”. A informação é igualmente, e entre outras, retomada pelo Breitbart News, o site de extrema direita fundado por Steve Bannon, o conselheiro estratégico do presidente Trump.

Qualificar o instituto ou o collegium Ramazzini (os dois são confundidos) “de obscura organização” aqui, ou de “espécie de Rotary Club para cientistas militantes” em outros locais, é na melhor das hipóteses, ignorância e, na pior, mentira. Fundado em 1982 por Irving Selikoff e Cesare Maltoni, duas grandes figuras da saúde pública, o Collegium Ramazzini é uma academia de 180 cientistas especializados em saúde profissional e relacionada ao meio ambiente.

Linda Birnbaum e Christopher Portier são fellows (membros). É também o caso do diretor do programa das monografias do CIRC, Kurt Straif, e de quatro especialistas do grupo de trabalho da monografia 112. Cada um em sua especialidade, cientistas de alto nível.

“Não temos medo”

O lançamento, pelo Instituto Ramazzini, em maio de 2016, de um estudo de toxicologia a longo prazo sobre o glifosato concentrou os tiros sobre o órgão, reputado por sua competência em matéria de câncer. A diretora de pesquisa do instituto, Fiorella Belpoggi, foi uma das raras cientistas que aceitou falar com o Monde: “Nós não somos muitos, temos pouco dinheiro, mas somos bons cientistas e não temos medo”.

Os ataques contra o Ramazzini e o CIRC certamente não vão parar tão cedo. Pois, depois do glifosato, outros produtos químicos estratégicos figuram na lista das prioridades do CIRC para o período 2014-2019. Pesticidas, ainda, mas também o biofenol A (BPA) e o aspartame. Ora, é justamente o NIEHS um dos principais financiadores no mundo da pesquisa sobre a toxicidade do BPA. Quanto ao aspartame, o estudo que alertou sobre as propriedades cancerígenas do edulcorante foi realizada há vários anos… pelo Instituto Ramazzini.

“Eu não tinha consciência, antes de tudo isso, murmura Fiorella Belpoggi, mas, se se livrarem do CIRC, do NIEHS e do Instituto Ramazzini, livrar-se-ão de três símbolos da independência da ciência”. De uma ciência que se tornou uma ameaça para interesses econômicos calculados em centenas de bilhões de euros.

Fonte – Stéphane Foucart e Stéphane Horel/ Tradução: Ana Corbusier, Desacato de 06 de junho de 2017

O Custo Humano dos Agrotóxicos: fotojornalista argentino retrata vítimas da contaminação

Argentino Pablo Piovano, autor do trabalho documental ‘O Custo Humano dos Agrotóxicos’ | Foto: Guilherme Santos/Sul21

O fotojornalista argentino Pablo Ernesto Piovano, que trabalha no jornal Página 12, apresentou nesta sexta-feira (12), durante o FestFoto, realizado no Centro Cultural CEEE Erico Verissimo, em Porto Alegre, o trabalho fotográfico “O Custo Humano dos Agrotóxicos”. A obra documental é o resultado de cinco viagens que ele fez a regiões agrícolas do país vizinho para retratar vítimas de contaminação por venenos agrícolas. São imagens de pessoas com manchas e caroços na pele, mãos, braços e pernas deformadas, crianças com problemas resultantes de malformações fetais.

Piovano conta que a ideia para o projeto surgiu em 2014, após ser apresentado a dados médicos sobre a contaminação de pessoas pela utilização de agrotóxicos. “O que acontecia é que logo após pulverizações de agrotóxicos, as salas médicas se enchiam de crianças. Com o tempo, perceberam que os casos se tornavam cada vez mais perigosos”, diz o fotojornalista. O que lhe chamou mais a atenção é que, com o tempo, foi se percebendo que a contaminação não causava apenas problemas na pele e no sistema respiratório, mas também doenças mais graves, como câncer.

Ele diz que, como a força dos grandes latifundiários que utilizam agrotóxicos e dos fabricantes desses produtos é muito grande na Argentina, o tema da contaminação não é pauta na imprensa tradicional do país, apenas em veículos independentes. “O maior barulho que se fazia era o silêncio”.

De forma independente e com recursos próprios, ele partiu, no final de 2014, para uma viagem pelas regiões norte, litoral do Pacífico e central, principais áreas agrícolas do país, onde se produz especialmente soja. Esta viagem inicial – a primeira de cinco – durou cerca de um mês. “Ali, me dei conta que o tema era muito sério”, diz.

O fotojornalista explica que o material era tão intenso que lhe “queimava as mãos”, mas não conseguia publicá-lo na Argentina.  Tive que fazer a dupla tarefa de divulgá-lo”, afirma, salientando que passou então a postular a possibilidade de captar financiamentos e apresentar o trabalho já realizado em festivais internacionais. Acabou conseguindo o financiamento no meio das cinco viagens e, atualmente, prepara um livro a ser publicado ainda este ano na Alemanha.

Ao longo do caminho, contou com a companhia de jornalistas que escreveram textos para acompanhar suas fotos, publicadas na Argentina e no exterior. Conseguiu ainda exibir o trabalho em um museu de Buenos Aires, mas, quando foi realizar uma segunda exposição em outro local, foi avisado dois dias antes do lançamento que tinha sido cancelada.

A soja transgênica e o uso do glifosato foram autorizados na Argentina em 1996. Em duas décadas, 60% da área cultivável do país passou a ser ocupada por lavouras transgênicas que recebem, anualmente, mais de 300 milhões de litros de agrotóxicos. Segundo Pablo, com viés de esquerda, os governos Kirchner não fizeram muito para barrar esse avanço. No entanto, desde que o liberal Maurício Macri assumiu o poder, o governo tem trabalhado para liberar ainda mais o comércio desses produtos.

Eles querem contar suas histórias

Antes de iniciar suas viagens, Piovano conta que realizou um trabalho de produção e investigação em que se relacionou com cientistas, médicos e ativistas que foram lhe ajudando a identificar as personagens de seu trabalho. Uma vez lá, no entanto, descobriu que o contato com a maioria das famílias atingidas era fácil, porque elas “sentiam a necessidade de terem suas histórias narradas”. “Centenas de portas foram abertas para mim e isso é muito delicado, porque é a intimidade das pessoas”, relata.

Nessas conversas, percebeu que, salvo exceções, a maioria dos agricultores não utiliza os equipamentos de proteção adequados. “Eu entrevistei uma pessoa que pilotava um avião pulverizador. O filho tinha câncer e seguia dizendo que não acontecia nada. Diante de mim, tomou uma tampinha com glifosato. Isso aconteceu em 2014. Em 2015, a Organização Mundial da Saúde declara que o glifosato é possivelmente cancerígeno. Voltei a vê-lo, o discurso era outro e não voltou a tomar o veneno”, relata Piovano. Segundo ele, na época, não soube se o homem tinha problemas de saúde, mas diz que sabe-se que a região em que mora, San Salvador, tem alta incidência de câncer.

Por outro lado, verificou que, com o passar do tempo, com o aumento das pesquisas e investigações sobre o tema, as famílias foram tomando conhecimento sobre os efeitos dos agrotóxicos e os danos que traziam à saúde. Perceberam ao menos que a incidência de malformações em crianças, muito acima nos povos onde ocorria a pulverização do que a média nacional, estava relacionada à utilização de agrotóxicos. Os índices de câncer são três vezes maiores nessas regiões. “Ele começam a fazer uma associação entre as enfermidades e o agrotóxico”.

O que não tinham era alternativa, uma vez que o modelo de produção está “implementado de tal forma que é muito difícil fugir dele”, diz. “Na província das Misiones, onde há produção de tabaco, as pessoas que compram a produção são as mesmas que vendem os agrotóxicos. Então, as pequenas chácaras, de um, dois ou três hectares, para poder vender, têm que comprar os químicos”, diz.

Confira algumas das fotografias de Piovano

Foto: Pablo Piovano/Divulgação

Foto: Pablo Piovano/Divulgação

Foto: Pablo Piovano/Divulgação

Foto: Pablo Piovano/Divulgação

Foto: Pablo Piovano/Divulgação

Fonte – Luís Eduardo Gomes, Sul 21 de 14 de maio de 2017

Veneno invisível

Dá para fugir dos agrotóxicos? Brasileiro consome 7 litros por ano sem perceber e país lidera o uso

Brasileiro consome 7 litros de agrotóxicos por ano

O pensamento comum é de que frutas, legumes, grãos, cereais e outros alimentos naturais viram um banquete de nutrientes e vitaminas que se transformam em mais saúde para o corpo. Seria perfeito mesmo, não fosse a presença de ingredientes adicionados à grande maioria deles ainda na terra: os agrotóxicos.

Estas substâncias químicas são usadas aos montes na agricultura brasileira, a tal ponto que, desde 2008, o Brasil ocupa o posto de campeão mundial no uso de agrotóxicos para manter as pragas longe das lavouras, segundo dados do Ibama.

Se de um lado o agronegócio progride com a garantia de colheitas sem prejuízos, por outro nos tornamos consumidores de substâncias desconhecidas, muitas delas consideradas, inclusive, cancerígenas. Um levantamento da Fundação Oswaldo Cruz aponta que cada brasileiro consome, em média, 7 litros desse veneno por ano.

Mais perigoso que o cigarro

Mas como comemos tanta comida contaminada? Uma pesquisa da ESALQ/USP (Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz”), da Universidade de São Paulo, revelou que os agrotóxicos, inclusive os mais perigosos, estão muito presentes na alimentação da população.

A pesquisadora Jacqueline Gerage Marques, mestra em ciência e tecnologia de alimentos, cruzou dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) com informações da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) para analisar 743 itens alimentares bastante comuns no nosso cardápio, entre eles, abacaxi, abóbora, arroz, batata, café e cebola. A conclusão foi que 69 compostos excediam o valor de ingestão diária aceitável para não afetar a saúde de uma pessoa.

O foco do estudo era entender a contaminação crônica, causada pelo consumo de pequenas quantidades de resíduos de agrotóxicos por um longo período. O chamado efeito cumulativo dessas microdoses de venenos ao longo da vida é apontado pela OMS (Organização Mundial da Saúde), como responsável pelo aparecimento de diversas doenças, sobretudo, o câncer.

“Antigamente, os fabricantes negavam que o cigarro causasse câncer e pudesse matar. Mesmo assim, a escolha de fumar sempre foi individual. Com os agrotóxicos, a situação é mais grave, pois a população está adoecendo e não tem direito de escolha” Karen Friedrich, biomédica, toxicologista e pesquisadora da Escola Nacional de Saúde Pública da Fiocruz

Brasileiro precisa pagar mais caro para se livrar do veneno

Assista: Alimentos orgânicos são uma saída, mas ainda pesam no bolso.

Como é o uso de agrotóxicos no Brasil e no mundo

50% dos agrotóxicos usados aqui são proibidos em outro países

Getty Images

Cenário brasileiro

– 50% dos agrotóxicos usados no Brasil estão proibidos na Europa, EUA, Canadá e Austrália.

– O carbofurano, que pode causar câncer, mutações e malformações fetais, ainda é permitido no país.

– Na contramão dos países desenvolvidos, o Brasil segue o caminho para ter leis mais flexíveis sobre o uso de agrotóxicos, inclusive os que já são proibidos, graças às pressões da bancada ruralista, defensora do agronegócio.

– Apesar de proibido, o metamidofós que é altamente tóxico, continua sendo utilizado no país, onde entra via contrabando.

– O herbicida glifosato, o mais usado no Brasil, e os inseticidas malationa e diazinona, foram apontados por uma pesquisa da IARC (Agência Internacional de Pesquisa em Câncer), publicada em 2015 na revista científica “The Lancet”, como prováveis agentes carcinogênicos.

– A cultura da soja transgênica é a maior responsável pelo uso excessivo de agrotóxicos no país.

Allen G. Breed/AP

Cenário internacional

– A União Europeia busca diminuir o uso de agrotóxicos na agricultura e quer barrar o consumo e a importação de produtos transgênicos.

– O carbofurano, classificado como altamente tóxico pela OMS, é proibido na Europa e na Califórnia.

– O tiram, fungicida autorizado no Brasil para uso em lavouras como arroz, feijão e milho, foi retirado do mercado americano por ser associado a mutações genéticas, problemas endócrinos e reprodutivos.

– Estados Unidos, China e Japão são os países que mais consomem agrotóxicos depois do Brasil.

– Em 2015, o Butão proibiu o uso de agrotóxicos na agricultura.

– Até 2020, a Dinamarca pretende transformar toda a produção agrícola do país em orgânica.

– O lactofen, usado no Brasil na cultura da soja, é proibido na União Europeia desde 2007 por ser considerado cancerígeno.

“O fato de a Europa autorizar um agrotóxico não significa que devemos permitir também, mas se outros países proibiram, deveríamos seguir o mesmo caminho.” Karen Friedrich, pesquisadora da Escola Nacional de Saúde Pública da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz).

Divulgação

“Descobri que os produtores não comiam o que plantavam”

Marcos Palmeira conta ao UOL como abraçou a causa de uma agricultura 100% livre de venenos

O ambiente rural é bastante conhecido pelo ator Marcos Palmeira, 53, que passou a infância nas fazendas de sua família na Bahia. Em 1997, o ator comprou uma propriedade em Teresópolis (RJ), batizada de Vale das Palmeiras, e se transformou em um produtor de hortaliças e laticínios orgânicos – alimentos que não recebem nenhum tipo de agrotóxico na produção. Adepto e defensor da causa, ele contou ao UOL que sua alimentação é quase totalmente orgânica e que o consumidor precisa brigar por mais orgânicos nos mercados.

Quando e por que você decidiu investir nesse segmento?

Quando eu comprei a fazenda, ela já produzia alimentos, mas eu achava que tudo era natural, então descobri que os produtores não comiam o que plantavam. Percebi que havia uma incoerência. Foi aí que eu me toquei que o adubo para fortificar o solo e o remédio para os bichos eram veneno para a gente. E resolvi fazer diferente.

Em sua opinião, quais as vantagens de se consumir alimentos orgânicos?

Quando você consome um produto orgânico, toda uma cadeia produtiva está sendo beneficiada, desde a preservação das águas, do solo, a recuperação de florestas. Tudo isso está dentro do produto orgânico, que é mais ético. As pessoas pensam que o alimento convencional é mais barato, mas não embutem no preço os remédios que precisarão tomar, os malefícios que o produtor têm ao plantar, a contaminação do meio ambiente.

Você consome apenas orgânicos?

Eu consumo basicamente 90% de produtos orgânicos em casa, se não 100%. Sempre me alimentei de forma natural, mas descobri que nem tudo o que é natural é saudável. Foi aí que comecei a consumir só produtos orgânicos.

Você notou alguma mudança em sua saúde em virtude disso?

A diferença é clara em termos de energia. Eu pratico esporte, me alimento bem, tenho uma vida saudável. Mas, com certeza, a alimentação me ajuda bastante.

Você percebe um aumento na procura pelos alimentos orgânicos?

O crescimento é constante. Dizem que é de 30% ao ano. É um aumento absurdo do consumo, não só no Brasil, mas em todo o mundo. Porém, ainda é ínfimo se comparado ao potencial do agronegócio.

Uma das principais críticas feitas aos orgânicos é o preço, em geral mais caro. Por que isso acontece?

O produtor orgânico não tem marketing nenhum. Já o convencional tem os atravessadores, grandes empresas e marcas. É preciso saber de onde vem o nosso alimento. Existe muita oferta de produtos orgânicos, mas os produtores ainda perdem o que não conseguem vender. O consumidor tem que cobrar que mais mercados vendam orgânicos.

Quais alimentos você produz na fazenda?

Eu produzo hortaliças, tomate, folhosas, legumes e algumas frutas. Mas meu carro chefe é o laticínio. Crio gado orgânico tratado com homeopatia que produz leite puro, de altíssima qualidade, e queijos (frescal, padrão e ricota), além de iogurte. Agora, vou incluir burrata, manteiga, cottage e requeijão cremoso light. Em breve, teremos uma linha sem lactose.

Quais são as técnicas usadas em sua fazenda para substituir agrotóxicos?

Nós trabalhamos com rotação de culturas, adubação verde, que é plantar algumas leguminosas para recuperar o solo, e adubação com compostagem. Fazemos o controle de pragas sem usar veneno. Um solo fértil vai ser menos propenso a doenças. Temos um cuidado com o pasto dos animais e no curral tem muita teia de aranha para ajudar no controle das moscas.

Você acha possível que a produção agrícola no país seja totalmente orgânica algum dia?

Eu acredito na agricultura orgânica. O discurso do agronegócio “se não for transgênico, não produz para todo mundo” não condiz com a realidade. Quem bota comida na nossa mesa é a agricultura familiar. A grande dificuldade é que não termos marketing ou uma bancada ecológica tão forte. Acho que é isso que falta. E é uma questão cultural também. É lamentável o Brasil ter o uso em larga escala de agrotóxico, mas acho que é um reflexo da industrialização de tudo. Eu sou a favor da prevenção que a agroecologia preconiza. Tem muita gente boa tentando fazer coisas diferentes e é dessa turma que vou me aproximando.

Informações sobre alimentos mais contaminados são controversas

O consumidor fica sem saber ao certo em que dados confiar

Lucas Lima/ UOL

Em 2012, pimentão era campeão em veneno

No Brasil, a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) é responsável por avaliar a presença de agrotóxicos nos alimentos. Entre 2009 e 2012, as análises apontaram a contaminação de 60 a 70% dos alimentos e pelo menos 30% de amostras analisadas consideradas impróprias para consumo, ou seja com agrotóxicos acima do limite ou não permitidos.

Segundo os dados do Programa de Análise de Resíduos Tóxicos em Alimentos 2011/2012, os campeões de contaminação foram: pimentão, cenoura, morango, pepino e alface.

iStock

Em 2016, laranja era campeã em risco de contaminação

A análise mais recente da Anvisa, publicada em 2016, gerou polêmica entre críticos dos agrotóxicos. Dessa vez, a Agência mudou seus métodos de análise e conclusões, levando em consideração apenas o risco de contaminação aguda, ou seja, logo após o consumo. O resultado foi que apenas 1% dos alimentos avaliados apresentaram risco.

De acordo com a nova análise, os alimentos com maior potencial de risco agudo são: laranja, abacaxi, couve, uva e alface.

“É como se, de repente, os alimentos se tornassem seguros, contrariando a série histórica. O relatório não parece ter sido feito por um órgão de saúde pública, pois minimiza o risco. A verdade é que a população está exposta a um perigo muito maior de contaminação crônica e precisa estar ciente disso.” Fernando Carneiro, pesquisador da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) no Ceará e um dos organizadores do Dossiê Abrasco (Associação Brasileira de Saúde Coletiva), um dos principais documentos sobre agrotóxicos no Brasil, publicado em 2015.

Agrotóxicos também estão presentes no pacote

Muita gente se engana por acreditar que só há agrotóxicos nos vegetais in natura. Pesquisas apontam que os venenos também são encontrados no leite, na carne e nos industrializados.

Em seu estudo, a pesquisadora Jacqueline Gerage Marques notou a presença de resíduos em sucos, mingau de arroz, chocolate, goiabada, salsicha, macarrão, ovos, carnes e leite.

“As pessoas não estão expostas apenas comendo salada, que é a ideia que a população em geral tem.” Jacqueline Gerage Marques

Em 2015, o INCA (Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva), publicou um documento posicionando-se contra o uso de agrotóxicos. O texto afirma que os industrializados, como biscoitos, salgadinhos, pães, cereais matinais, lasanhas e pizzas também contêm traços de veneno.

O pasto destinado à criação de gado no Brasil também recebe agrotóxicos, o que explica a contaminação da carne e do leite.

Por que é tão fácil usar agrotóxico no Brasil?

As leis brasileiras são frouxas, e a fiscalização mais ainda

Há um descompasso entre aprovações e proibições de produtos feitos pela Anvisa. O processo para proibições é lento, enquanto os registros de novos agrotóxicos é ágil.

“Só no ano passado, mais de 200 novos produtos foram registrados no país, o que demonstra que o órgão está mais preocupado com as necessidade de mercado do que com a saúde pública.” Karen Friedrich

Entenda abaixo, os principais motivos para o uso indiscriminado no Brasil:

– A lei brasileira permite que agrotóxicos hoje proibidos continuem a ser vendidos enquanto houver estoque.

– Quando agrotóxicos são proibidos, fabricantes recorrem à Justiça e processos podem levar anos.

– O Brasil concede a isenção de impostos à indústria produtora de agrotóxicos. O incentivo vai na contramão das medidas protetoras recomendadas pelas entidades contrárias ao uso dos venenos.

– Seria necessário respeitar as normas existentes sobre concentração e limites, além de fazer o manejo correto o que, na prática, não acontece.

– Muitos trabalhadores não usam o EPI (equipamento de produção individual), que é obrigatório, e nem sabem a classe toxicológica do agrotóxico que estão usando, fazendo misturas perigosas.

– O uso de aviões para pulverizar plantações pode causar contaminações no solo e nas águas, além de expor comunidades inteiras aos venenos. Estudos apontam que a nuvem com as substâncias tóxicas pode viajar por até 30 km.

– Outro problema grave é a deriva, quando o produto se espalha para plantações vizinhas.

Os dois lados da discussão

Pró-agrotóxicos – Eles alegam que a produção e a exportação das commodities são fundamentais para a economia brasileira e que é impossível produzir em larga escala sem utilizar esses produtos. A pressão da bancada ruralista para afrouxar a lei é grande. Uma Medida Provisória que está sendo preparada pelo governo Michel Temer com a consultoria do sindicato da indústria dos agrotóxicos tenta mudar o texto da atual legislação (7.802 de 1989). A ideia é permitir que os defensivos mais perigosos, inclusive os cancerígenos, possam ser utilizados com a inclusão da expressão “nas condições recomendadas para uso”. “Sou favorável ao uso racional, dentro das normas de segurança. Em grandes culturas, como a soja, aparecem várias pragas, uma delas é a ferrugem asiática, e é preciso combater para não ter prejuízo”, diz o engenheiro agrônomo Carlos Gilberto Raetano.

Pró-agroecologia – Existe um mito de que a agroecologia não é eficiente, pois produz pouco, e que o agronegócio alimenta o Brasil. O Censo Agropecuário do IBGE mostra que 70% dos brasileiros são alimentados pela agricultura familiar, ou seja, pelos pequenos produtores. “O problema é que os investimentos do governo priorizam o agronegócio e os venenos são responsáveis por 30 a 40% do custo dessas grandes culturas”, explica o biólogo Fernando Carneiro. Em busca de novas políticas públicas e de controle que barrem o avanço do uso de venenos nas produções, diversas instituições se uniram criando ações e documentos. Um exemplo é a Campanha Permanente Contra o Uso de Agrotóxicos e pela Vida, que reúne mais de 200 entidades. Outro é o Pronara (Programa Nacional de Redução de Agrotóxicos), lançado em 2014. “Infelizmente, a proposta foi engavetada”, diz Carneiro.

Como consumir menos veneno no dia a dia

Assista: Saber a época do alimento conta na hora de ficar longe dos agrotóxicos.

Diego Padgurschi/Folhapress

Prejuízos à saúde vão de intoxicação leve a câncer

O consumo de alimentos cheios de agrotóxicos traz consequências para a saúde em diferentes graus. A OMS (Organização Mundial de Saúde) estima que ocorram 3 milhões de casos de envenenamento por agrotóxicos a cada ano e 220 mil mortes, a maioria em países em desenvolvimento.

A contaminação pode ser do tipo aguda, que tem manifestação imediata, após o contato com herbicidas e inseticidas usados nas lavouras. Os principais sintomas da intoxicação aguda são vômitos, dores abdominais, diarreia, convulsões, tontura, sangramento nasal, dor de cabeça, irritação nos olhos e desmaios. Os trabalhadores rurais e suas famílias são as principais vítimas dessa forma de contaminação. Em 2006, uma nuvem de agrotóxicos causada pela pulverização em plantações de soja provocou intoxicação aguda em crianças e idosos da cidade de Lucas do Rio Verde (MT).

Já a contaminação crônica preocupa por ser silenciosa, pois decorre do efeito cumulativo de resíduos de agrotóxicos ao longo dos anos no organismo, que acontece justamente pelo consumo de produtos contaminados com estas substâncias. Os efeitos da contaminação crônica são preocupantes pois podem aparecer depois de muito tempo, até mesmo anos.

Os principais problemas do evenenamento ao longo da vida são mutações genéticas, doença de Parkinson, malformações fetais, aborto, problemas reprodutivos, respiratórios e vários tipos de câncer. Os tipos de tumores mais relacionados ao contato com os agrotóxicos são leucemia, linfoma não Hodgkin, câncer de rim, pulmão e tumores cerebrais.

Agrotóxicos eram usados como armas químicas

Muitos agrotóxicos são, na verdade, antigas armas químicas usadas originalmente em guerras, e que depois foram transportadas para a agricultura. Um exemplo disso é o herbicida 2,4-D, um dos ingredientes ativos do “agente laranja”, composto usado pelos Estados Unidos na Guerra do Vietnã que causou mortes e sequelas graves à milhões de pessoas, como câncer, distúrbios endócrinos e neurológicos.

Hoje em dia este agrotóxico é usado no Brasil em plantações como arroz, milho, soja, cana-de-açúcar e café. Em 2016, após consulta pública, a Anvisa manteve parecer favorável à substância, apesar dos comprovados riscos à saúde.

É possível reduzir o consumo de agrotóxicos no dia a dia

Lave mais de uma vez – Lave sempre frutas e legumes, como abacaxi e cenoura, com água corrente. Utilize uma escovinha para higienizar a casca. Descasque e lave novamente, secando em seguida com papel toalha. (Imagem: Reprodução)

Descarte as primeiras folhas – Ao higienizar as folhas das verduras, como alface e repolho, descarte as primeiras (que ficam do lado de fora do maço), elas recebem a maior carga de veneno. (Imagem: Reprodução/Food Service)

Fique de olho no cabinho – Repare se o chamado pedúnculo da fruta, o cabinho, tem uma espécie de penumbra branca, como se fosse um pó mesmo -isso é outro indicativo do excesso do agrotóxicos. (Imagem: Reprodução/MBG)

Cuidados com vegetais muito perfeitos – Desconfie dos vegetais que estão muito perfeitos e grandes demais, as substâncias químicas tornam frutas e legumes mais resistentes e maiores. (Imagem: Reprodução/Cool Pictures Every Day)

Prefira os alimentos da época – Compre apenas alimentos da safra, os que estão fora de época tendem a receber mais agrotóxicos na lavoura para progredirem. (Imagem: Lucas Lima/ UOL)

Examine a casca – Fique atento também a manchas esbranquiçadas nas cascas, que podem indicar resquícios da aplicação de venenos. (Imagem: Reprodução/Cush Cosmetics)

Deixe de molho – Antes de consumir as verduras e legumes, deixe-os de molho por meia hora em uma solução de bicarbonato de sódio (1 colher de sopa rasa para 1 litro de água). Isso ajuda a eliminar resíduos. Depois, lave novamente. (Imagem: Getty Images)

Água sanitária ou vinagre – Outra possibilidade é deixar os vegetais de molho por 20 minutos em uma solução de água sanitária própria para higienização de alimentos (hipoclorito de sódio), lavando-os bem em seguida. A medida são 10 gotas do produto para 1 litro de água. (Imagem: Reprodução)

Esquentar ajuda – Vegetais fervidos, cozidos ou assados têm menor índice de contaminação, já que as altas temperaturas também auxiliam na eliminação dos venenos. (Imagem: Getty Images)

Feiras e cestas orgânicas são a saída para baratear os custos

Compare preços – Vale pesquisar. Alguns itens orgânicos, como verduras e legumes, podem ter uma variação pequena em relação ao alimento convencional. Outros, porém, chegam a custar o dobro. É o caso do abacaxi pérola que em supermercados da capital é encontrado por R$ 8,49 a unidade enquanto em sites de produtos orgânicos sai por R$ 18,75. (Imagem: Ronaldo Marques/BOL)

Compre em feiras orgânicas – Para pagar menos, a melhor opção é a feira. No site do IDEC (Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor), há os endereços de todas as feiras orgânicas do Brasil: feirasorganicas.idec.org.br (Imagem: Junior Lago/UOL)

Descubra os produtores – Outra opção para baratear o preço é comprar diretamente dos produtores. Junte a família ou os amigos e faça compras maiores, assim o preço tende a cair. (Imagem: Getty Images)

Monte cestas orgânicas – Outra opção é o serviço de entrega de cestas orgânicas, cada vez mais comum nas grandes cidades. As compras são feitas pela internet com direito à entrega em casa uma vez por semana. (Imagem: Lucas Lima/ UOL)

Edição: Camila Rutka. Apresentação do vídeo: Gustavo Franceschini. Edição de vídeos: Juliana Fumero. Fotos: Lucas Rocha Lima. Fontes consultadas: biomédico Henrique Silveira, do Hospital de Câncer de Barretos, nutricionista Vivian Ragasso do Instituto Cohen de Ortopedia, Reabilitação e Medicina do Esporte e o agricultor Fernando Ataliba, militante movimento orgânico e presidente eleito da AAO (Associação de Agricultura Orgânica).

Fonte – Melissa Diniz, UOL