Documentário O uso inseguro dos agrotóxicos

Pedro Abreu – Doutorando em Saúde Coletiva – FCM/UnicampPedro Abreu – Doutorando em Saúde Coletiva – FCM/Unicamp

Documentário Curta-metragem a respeito da inviabilidade do paradigma do “uso seguro” de agrotóxicos no contexto da agricultura familiar brasileira.

Acaba de ser lançado o documentário curta-metragem:  O Uso Inseguro de Agrotóxicos , que revela a inviabilidade do paradigma do “uso seguro” de agrotóxicos no contexto da agricultura familiar brasileira.

Esta é uma ferramenta de uso público e irrestrito para ser utilizada em toda forma de luta, educação/formação e busca por mudanças do contexto injusto, manipulado e falacioso do uso de agrotóxicos pelos verdadeiros responsáveis pela alimentação em nosso País, os pequenos agricultores.

Baseado na dissertação de mestrado – “ O agricultor familiar e o uso (in)seguro de agrotóxicos no município de Lavras-MG “, o documentário é uma parceria do Departamento de Saúde Coletiva da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp com o Coletivo Ninho de Guaxo e com a Catumba Filmes, e contou com o financiamento do Fundo de Apoio ao Ensino Pesquisa e Extensão (FAEPEX) da Pró-Reitora de Pesquisa da Unicamp.

Concepção e roteiro

Pedro Abreu – Doutorando em Saúde Coletiva – FCM/Unicamp
Herling Alonzo – Prof. Dr. em Saúde Coletiva – FCM/Unicamp

Produção

Otávio Rangel – Produção, direção de fotografia e montagem
Lídia Lino – Câmera, áudio e textos
Marina Alvarenga Botelho – Câmera, logger e legendas
João Maurício Souza – Câmera e áudio
Marlon Franco – Divulgação e apoio gráfico
Sandro Azevedo – Criação de logomarcas e vinhetas
Alexandra Az – Locução

Apoio 

Fundo de Apoio ao Ensino, Pesquisa e Extensão – Pró-reitoria de Pesquisa/Unicamp e CNPq

Não queremos mais venenos!

Fonte – Elizabeth Regina de Melo Cabral, Nosso Foco de 15 de setembro de 2017

Agrotóxico não é Perfumaria! Agrotóxico Mata!

Agrotóxico não é Perfumaria.Agrotóxico Mata!

Agrotóxico não é Perfumaria! Agrotóxico Mata! A palavra oferece risco até na pronuncia. Então, prepare-se, pois o leque de doenças é assustador!

Agrotóxicos e CÂNCER

Agrotóxicos e câncer

E se, infelizmente, a informação não chega até você como deveria, ainda contamos com alguns políticos que querem mudar o nome de agrotóxico para fitossanitário. Percebe a diferença? Isto é Tóxico! Isto é Veneno! Para Isto é fitossanitário. Percebe melhor agora a diferença na repercussão da pronuncia? Então, o que dirá sobre seu impacto na saúde, comprovadamente devastador?

Leia – Dossiê Abrasco

Impactos dos Agrotóxicos na Saúde! 

É uma grande incoerência destes políticos que nos representam, como Senador Alvaro Dias (PV) e Deputado Covatti Filho (PP), pois no lugar de assegurar nossa Saúde e nossa Soberania Alimentar – afinal foram eleitos para isso – temos que nos mobilizar muito para rejeitar seus projetos “capciosos” que insultam a saúde mental, moral e física da Nação Brasileira. Isto é muito sério neste momento!

O projeto 3200/2015 do Deputado Ruralista Covatti Filho , por exemplo, além da mudança de nome para fitossanitário , caso seja aprovado, irá retirar atribuições do IBAMA (meio ambiente), da ANVISA (saúde) e dos órgãos estaduais de fiscalização, centralizando todas as ações e tomadas de decisão sobre os agrotóxicos no Brasil pelo MAPA – Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento.

O MAPA , ancorado na política do agronegócio, é um dos maiores apoiadores dentro deste “lucrativo” mercado de agrotóxicos. Utiliza fortes políticas de subvenção, praticando incentivos fiscais que chegam na casa dos 100% em certos estados. E por conta de termos atualmente 70% dos alimentos contaminados por venenos proibidos em outros países, o Mapa por sua vez ; vem trilhando um faturamento por volta de 12 bilhões de dólares/ano!

A alteração também confundirá a distinção entre as substâncias utilizadas nas culturas orgânicas e não orgânicas.

A nova denominação não exigirá o registro de herbicidas, como o 2,4D, o paraquat e oglifosato, os mais consumidos no Brasil, já que estes não pertencem ao conceito de defensivos fitossanitários previsto no projeto de lei. No entanto, pesquisas já apontaram a forte relação entre esses agrotóxicos e a incidência de câncer.

Trata-se de um verdadeiro Projeto Desastre!

Covatti Filho - Projeto Desastre para o Brasil

Covatti Filho, Autor do Projeto Desastre 3200/2015 para o Brasil. Atitude para um novo tempo com muito mais Veneno no seu Prato. Katia Abreu, ex-Ministra da Agricultura não abraçava a iniciativa não apoiava o PRONARA Programa Nacional de Redução de Agrotóxicos. E sem o aval da Ministério da Agricultura , será impossível este programa sair do papel.

E agora , com o atual Ministro, Conhecido com o “Rei da Soja e da Motosserra”, Blairo Maggi, Produtor Mundial de Soja, declarou inclusive ao jornal The New York Times: “Um aumento de 40% no desmatamento da Amazônia não significa nada. Não sinto a menor culpa pelo que estamos fazendo por aqui”.

Fica fácil de se presumir que se o Projeto de Covatti Filho do PP for aprovado, podemos assistir o PRONARA ir para a gaveta do esquecimento neste Ministério.

Você acha isso coerente? Incoerente mesmo será permitirmos que se aprove o “Monopólio do Veneno” um verdadeiro retrocesso para a Soberania Alimentar de uma Nação.

Essa corrida “maluca” nos faz perceber “com demasiada tristeza e desapontamento” que afinal de contas não é a nossa segurança alimentar que está em pauta. E sim os 12 bilhões de dólares gerados neste mercado de veneno por ano! Afinal, são tantos os benefícios!

O Brasil foi escalado para esta Seleção desastrosa e se rendeu ao grande técnico: a Multinacional Monsanto! E no decorrer de sua partida com a expansão dos transgênicos fez um verdadeiro gol de placa arrebatador. Tornou-se o Campeão Mundial no uso de Agrotóxicos.

Sim! Esta taça é nossa é do Brasil Infelizmente! Mas existe uma pergunta que não quer calar nem que “a vaca tussa”: em um país onde a carga tributária é considerada uma das maiores do mundo existe uma subvenção política pra lá de privilegiada para este setor. Por que agrotóxicos recebem tantos incentivos fiscais?

Além de isenções federais, há as isenções complementares determinadas por alguns estados. No Ceará, por exemplo, a isenção de impostos chega a 100%.

Em 2015 o Instituto Nacional do Câncer estabeleceu forte relação entre os casos de câncer e agrotóxicos.

Leia o parecer.

Mesmo assim Governo e Congresso mantiveram a sua política que beneficia grandes multinacionais com isenção de impostos para o comércio, a distribuição e o uso generalizado de pesticidas agrícolas.

Pertinente e amarga indignação nos força a perguntar de forma rasgada: Por que estes produtos altamente tóxicos que envenenam nossos alimentos e causam inúmeras doenças recebem tantos benefícios fiscais?

Uso de agrotóxicos no Brasil atinge 70% dos alimentos

Mais da metade das substâncias usadas aqui é proibida em países da UE e nos EUA.

Devem ser tantos os benefícios que a nossa Segurança Alimentar ficou em último ou nenhum plano! Não existe argumento plausível nem mesmo o de que estes incentivos são necessários para alimentar a grande população do Brasil.

Consentir que estas multinacionais entrem em nosso país sem pagar impostos e ainda “arregaçando” o alimento do povo brasileiro com veneno, muitos deles já proibidos em outros países tamanha a sua toxidade, não é nem de longe uma justificativa racional, nem para os mais ingênuos no assunto.

E que nos perdoe , vossa excelentíssima ex-ministra, ex-Senadora Katia Abreu e demais políticos da bancada ruralista, quando afirmam categoricamente que levantamos essa bandeira sobre os impactos dos agrotóxicos na saúde para que a causa seja bonita e assim possamos sensibilizar de forma geral a opinião pública.

Bonito mesmo seria uma política de subvenção dentro do atual Ministério apoiando amplamente uma agricultura sustentável neste país!

Por que é isso que esperamos. É isso que queremos. Bonito mesmo seria destinar todos estes inúmeros benefícios para que o povo Brasileiro tenha em seu prato uma comida digna , saudável e sem veneno.

Bonito mesmo seria este Ministério se preocupar com a extraordinária contaminação do nosso solo, pois estes produtos matam componentes importantes para a sua regeneração natural, contaminam rios, o ar, afetando profundamente todo o nosso ecossistema.

Enquanto o Ministério da Agricultura não sinalizar este caminho, começando com a institucionalização do PRONARA , serão muitas campanhas de alerta a população brasileira.

Entre elas, temos o importante trabalho da Campanha permanente contra os agrotóxicos e pela vida, que desempenha um papel de altíssimo valor em informar a população sobre os impactos dos agrotóxicos na saúde e de apontar novos caminhos rumo a Agroecologia.

Entidade que há cinco anos luta por um novo modelo de desenvolvimento agrário. Por uma agricultura que valoriza a agroecologia ao invés dos agrotóxicos e transgênicos, que acredita no campesinato e não no agronegócio, que considera a vida mais importante do que o lucro das empresas.

Conheça mais sobre este importante trabalho. Acesse a campanha, os materiais e aos fóruns existentes. Participe!

Nova pergunta, nova reflexão. Caso não houvesse tantos incentivos fiscais destinados aos agrotóxicos, teríamos um legítimo equilíbrio de mercado em relação aos alimentos e produtos orgânicos?

Ou seja os orgânicos perderiam por completo este estigma de que são produtos caros? Orgânicos são para a elite?

Vamos pensar um pouco. Enquanto não alcançamos respostas fieis a estas indagações, devemos alcançar isto: agrotóxico mata! Agrotóxico mata você aos poucos. Mata você a cada dia!

O leque de doenças causados direta ou indiretamente pelos agrotóxicos é absurdo. Doenças que podem aparecer em meses, anos ou até décadas depois de consumidos.

Mesmo a ingestão diária de pequenas doses terá impacto sobre a saúde, dados já comprovados na literatura científica.

Entre as principais doenças citamos: câncer, câncer de mama, câncer de próstata, câncer de cérebro, câncer de rim, câncer de fígado, distúrbios neurológicos, hiperatividade em crianças, doenças crônicas dos pulmões, doenças crônicas do fígado, doenças crônicas dos rins, doenças crônicas da pele, leucemia, autismo, linfoma, mieloma múltiplo, efeitos sobre o sistema imunológico, infertilidade, impotência, abortos, partos prematuros, malformações congênitas, cólica, vômitos, dificuldade respiratória, diarreias, espasmos, depressão, suicídio. Que tal?

Fora todas estas doenças, não podemos esquecer dos impactos que causam ao meio ambiente com esta utilização intensiva de agrotóxicos em nossas lavouras.

Eles poluem rios, contaminam o solo e estão matando animais e insetos polinizadores em quantidades alarmantes, podendo até leva-los a extinção, comprometendo drasticamente o ecossistema do planeta.

É importante destacar que a expansão do uso de sementes transgênicas no Brasil foi a responsável em potencial por colocar o país em primeiro lugar dentro do ranking mundial no consumo de agrotóxicos.

Mais uma vez, a multinacional Monsanto, não satisfeita com seus lucros bilionários colhidos com os transgênicos, ainda quer derramar aqui e pelo mundo a fora todos os seus “venenos”!

E por que será que o nosso país recebeu a MONSANTO de braços tão abertos?

Mas o mundo está acordando!

E já é hora do Brasil acordar também! E para acordar precisamos nos unir. Precisamos uns dos outros.

Não dá mais para esperar por esta transição. Enquanto o Ministério da Agricultura continuar com esta postura retrógrada de que a Agroecologia não é possível neste país!

Ou , esperar destes políticos que se elegeram a custa dos nossos votos para nos representar e, em contrapartida abarrotam o Senado Federal com projetos que insultam descaradamente o senso critico e moral de uma Nação Inteira!

Está em nossas mãos! Está em nossas mãos dizer: eu não quero agrotóxico no meu prato. Está em nossas mãos mudar o modelo de agricultura neste país. E faremos isto nos mobilizando de todas as formas, rejeitando projetos incompatíveis para que esta mudança aconteça, apoiando a produção e consumo de alimentos orgânicos, despertando para novas alternativas sociais exigindo a implantação do PRONARA.

Já está mais do que provado que a Agroecologia é um caminho crivelmente possível. “Temos que aplaudir e enaltecer o grande trabalho que o CONSEA realiza com os brasileiros e brasileiras por todos os cantos do Brasil. Um trabalho que se fortalece ao fortalecer a participação da sociedade brasileira nas discussões sobre a Segurança Alimentar e Nutricional. Pelo tremendo esforço para expandir o conhecimento sobre os perigos da produção de alimentos transgênicos e envenenados pelos agrotóxicos. Enfatizando sempre a Agroecologia e a Produção Orgânica como política pública que se tornou o carro chefe da transição Agroecológica no governo Lula/Dilma.”, ressaltou Paulo Cezar Mendes Ramos – PHD – Analista ambiental/GT sobre Transgênicos e Agrotóxicos – ASCEMA – Associação dos Servidores da Carreira de Especialistas em Meio Ambiente/Coordenador da Seção Sindical – SINDSEP-ICMBIO/, Membro do Comitê da Campanha contra os Agrotóxicos no Distrito Federal.

Saiba mais sobre este importante trabalho realizado pelo Consea. Conheça o relatório Mesa de Controvérsias sobre os impactos dos Agrotóxicos!

Mudar nosso modelo atual de agricultura é possível! É possível sim começar a planejar uma subvenção governamental de apoio no mesmo patamar para sistemas agroecológicos em nosso país!

Reconhecida personalidade no assunto: Oliver De Schutter , relator especial das Nações Unidas para o direito à alimentação, garante em seu relatório que é possível duplicar a produção de alimentos em uma década utilizando métodos ecologicamente sustentáveis.

E por que será que até agora o Ministério da Agricultura não apostou neste caminho? Assista ao filme: O Veneno está na Mesa e tire suas próprias conclusões para responder a esta pergunta.

Neste canal você encontrará muita informação e muitas dicas para contribuir com esta transição. Para mudar de Foco. Acompanhe!

Fonte – GikaBiloba, Nosso Foco

Agrotóxicos representam até 25% do custo variável do arroz

Relatório publicado nesta semana pela Conab mostra que margem de lucro no arroz é mínima. Quase todo dinheiro arrecadado se destina a agrotóxicos, fertilizantes e sementes

Foi lançado nesta quarta-feira (21) o 4º volume da série Compêndio de Estudos da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). A publicação faz uma análise sobre os custos de produção do arroz e revela algo que já temos alertado há tempos: o “espetacular PIB do agronegócio”, aquele que sempre “salva” a economia, na verdade salva apenas o bolso das empresas transnacionais. No final, bem pouco ou quase nada fica no bolso dos produtores.

O relatório faz uma análise dos custos variáveis, ou seja, aqueles custos necessários somente quando há produção: agrotóxicos, fertilizantes, operação com máquinas e sementes. Em alguns casos, esses itens abocanham quase tudo que o produtor recebe: em Itaqui/Uruguaiana (RS), os custos variáveis em 2016 foram em média de R$34 por saca de arroz, ao passo que o produtor ganhou apenas R$41 vendendo a mesma saca. O relatório não fala sobre o custo total, mas incluindo os custos fixos e de logística, é bem provável que haja prejuízo.

O primeiro ponto curioso é a relação entre custo variável e produtividade. Diriam os defensores do agronegócio: “É justo gastar mais com insumos e tecnologia, pois a produtividade será maior”. Pois o gráfico mostrado no relatório diz justamente o contrário: os dois municípios com maior gasto em tecnologia – Balsas (MA) e Sorriso (MT) – tiveram o pior desempenho em produtividade.

Em relação aos agrotóxicos, na produção em Sorriso (MT), 25% do custo variável foi gasto com agrotóxicos. No final das contas, dos R$54 reais recebidos por saca de 60kg, R$9 foram gastos com agrotóxicos. Vê-se claramente que o preço do veneno, profundamente dependente do mercado externo, impacta diretamente o preço do alimento. Sinop foi quem mais gastou com agrotóxico, e que teve o preço da saca mais caro. Com os fertilizantes, o efeito é ainda mais extremo: chega a representar 43% do custo variável.

Mais uma vez, fica provado a quem o modelo do agronegócio serve: às transnacionais da sementes, agrotóxicos, fertilizantes, logística, processamento, etc. Os ruralistas brasileiros, que defendem com unhas e dentes esse modelo, são na verdade patetas brigando pelas migalhas. Não somos nós que dizemos: é a própria Conab.

Fpmte – Alan Tygel, Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida de 25 de dezembro de 2017

Glifosato: o veneno da monsanto está em todo lugar

Altas doses do herbicida da Monsanto foram encontradas em alimentos nos EUA e consumidos em várias partes do mundo, inclusive no Brasil

O primeiro teste em alimentos para resíduos de glifosato realizado por laboratório registrado na Administração de Alimentos e Medicamentos dos Estados Unidos (FDA, na sigla em inglês) encontrou níveis alarmantes de contaminação em produtos dos mais tradicionais no país e mostrou o quão inadequada é a regulação dos resíduos de pesticidas. O estudo Glifosato: inseguro em qualquer prato, feito pelo laboratório de testes de segurança alimentar Aresco por solicitação do Food Democracy Now! e The Detox Project, reuniu também pesquisas independentes, realizadas em outros países, que chegaram aos mesmos resultados.

Glifosato é o herbicida mais consumido no mundo. O ingrediente ativo do Roundup da Monsanto é o “mata mato” mais pesadamente utilizado na agricultura industrial na história da humanidade – consequência da adoção generalizada de culturas transgênicas, hoje cultivadas em mais de 80% dos 70 milhões de hectares nos EUA e mais de 120 milhões de hectares em escala global. O Brasil cultivou uma área de 44,2 milhões de hectares de transgênicos na safra 2015-2016.

No meio urbano, o glifosato é usado na manutenção de gramados em parques, praças e condomínios. O mercado do herbicida foi avaliado em US$ 5,46 bilhões em 2012 e tem como meta chegar a US$ 8,79 bilhões até 2019.

Ingestão “aceitável”

Os reguladores dos EUA consideram como Ingestão Diária Aceitável (IDA) de glifosato 1.75 miligramas por kilo do peso corporal (1.75 mg/kg/dia). Na União Europeia esse limite é de 0.3 mg/kg/dia. Esses níveis de tolerância foram definidos com base em estudos patrocinados pela próprias corporações fabricantes de agrotóxicos e mantidos em sigilo em nome do segredo industrial. Uma equipe de cientistas internacionais reclama um IDA muito mais baixo, de 0.025 mg/kg/dia – 12 vezes inferior ao definido atualmente na Europa e 70 vezes inferior ao permitido nos EUA.

A União Europeia aprovou sua comercialização até o fim de 2017, à espera das conclusões da Agência Europeia de Produtos Químicos, mas propôs restringir sua utilização em parques e outros espaços públicos. Uma campanha envolvendo organizações não governamentais de 15 países europeus luta para que essa permissão não seja renovada.

No Brasil o limite de ingestão é de 0.042 mg/Kg/dia, com um detalhe: o glifosato não está incluído nos testes da Anvisa para resíduos de agrotóxicos em alimentos, muito embora seja o mais consumido no país. Mais de 8 milhões de toneladas foram despejados nas terras brasileiras somente entre 2010 e 2014.

Novas evidências

As novas evidências científicas mostram que não há níveis seguros de glifosato para a saúde humana e animal. Os danos prováveis podem começar em níveis ultrabaixos, de 0.1 partes de glifosato por bilhão (ppb). Até mesmo 0.05 ppb podem provocam danos nos rins e fígado de ratos, pela alteração nas funções de 4.000 genes.

Os testes promovidos pela Food Democracy Now! revelaram que produtos alimentares muitos populares nos EUA e no mundo – como o salgadinho Doritos, da Pepsico, os flocos de milho da Kellogg’s e o biscoito Oreo, da Kraft Foods, por exemplo, muito consumidos também no Brasil – tiveram resultados entre 289,47 ppb e 1.125,3 ppb.

Danos causados pelo Glifosato/Roundup em números (ppb)

0,1 ppb: dano severo em órgãos de ratos
0,1 ppb: nível permitido de glifosato e todos os outros herbicidas na água de torneira na União Europeia
10 ppb: efeitos tóxicos no fígado de peixes
700 ppb: alterações em rins e fígado de ratos
700 ppb: nível permitido de glifosato na água de torneira dos EUA
11.900 ppb: encontrado em soja transgênica
1.125,3 ppb: encontrado na Cheerios da General Mills

As doenças

Desordens gastrointestinais, obesidade, diabetes, doenças cardíacas, depressão, autismo, infertilidade, câncer, mal de Alzheimer, mal de Parkinson, intolerância ao glúten. A lista dos males atribuídos à ingestão de glifosato não para de crescer. O estudo detalha algumas delas.

Câncer

A despeito da insistência da Monsanto de que o glifosato é perfeitamente seguro, “mais que sal de mesa”, um número crescente de estudos revisados pela comunidade científica está encontrando ligações entre glifosato e câncer. Em março de 2015, a Agência de Pesquisa sobre Câncer (IARC, na sigla em inglês) da Organização Mundial de Saúde (OMS) declarou ser o glifosato “provável causador de câncer humano”. A decisão foi baseada em pesquisas de 17 especialistas em câncer de 11 países, que reuniu-se para avaliar a carcinogenicidade de cinco pesticidas. A revisão do glifosato levou o Parlamento Europeu a proibir seu uso não-comercial em áreas públicas e restringir seriamente o uso na agricultura. A Monsanto é alvo de várias ações judiciais nos EUA, com base em avaliações de que o glifosato é o agente causador de câncer em fazendeiros, trabalhadores rurais, aplicadores do pesticida e outras pessoas expostas a ele com frequência. Há preocupação especial com relação aos seguintes tipos de câncer: Linfoma Não Hodgkin, câncer de osso, câncer do cólon, câncer de rim, câncer de fígado, melanoma, câncer do pâncreas, câncer de tiroide.

Alterações hormonais

Um número crescente de evidências científicas aponta o glifosato como desregulador endócrino. Há mais de duas décadas estudos vêm mostrando que mesmo um baixo nível de exposição a certos produtos químicos, o glifosato entre eles, podem alterar a produção e recepção de hormônios vitais para o corpo, podendo causar problemas reprodutivos, aborto, reduzir a fertilidade e que a mudança nos níveis hormonais podem resultar no início prematuro da puberdade, obesidade, diabetes, problemas com a função imune e comportamentais, como déficit de atenção e hiperatividade.

Efeito bactericida

Enquanto a Monsanto continua a negar qualquer impacto na saúde humana e animal, novas pesquisas geram crescente preocupação quanto aos prováveis efeitos do glifosato no equilíbrio do microbioma gastrointestinal, ou bactérias intestinais benéficas, enquanto aumenta o número de espécies patogênicas, podendo levar a problemas de saúde como a síndrome do intestino irritável e a intolerância a glúten. Um estudo pioneiro da Nova Zelândia descobriu, em 2015, que a exposição contínua ao Roundup pode levar bactérias a se tornar resistentes a antibióticos, um problema crescente para a saúde humana e animal.

Doenças crônicas

Cientistas descobriram que pessoas cronicamente doentes têm níveis “significativamente mais altos de glifosato na urina do que pessoas saudáveis”. Verificaram também que as pessoas com dieta convencional têm muito mais resíduos de glifosato do que aquelas que se alimentam com comida orgânica.

Imersos em veneno

O estudo da Food Democracy Now! mostra que o uso generalizado de glifosato nos EUA levou o veneno a espalhar-se livremente pelo ambiente. Nos últimos anos, foram descobertos resíduos do veneno na água e alimentos consumidos no dia a dia, na urina humana, no leite materno e na cerveja, entre outras substâncias. Vale lembrar que a contaminação dos alimentos não pode ser removida pela lavagem e não é eliminada com cozimento, congelamento ou processamento da comida.

Os níveis de Roundup e outros herbicidas com glifosato usados no agronegócio dos EUA são hoje tão altos que o órgão de Pesquisa Geológica dos EUA (U.S. Geological Survey – USGS) encontrou o veneno em mais de 75% das amostras de água da chuva no Meio-Oeste do país. A pulverização aérea de Roundup leva o herbicida às culturas e também aos corpos d’água e também às nuvens, pela evaporação, e elas podem precipitar-se em locais muito distantes da aplicação. O número crescente de “ervas daninhas” resistentes ao glifosato está levando fazendeiros a usar mais e mais herbicida contra as “superervas daninhas”.

Com base nos resultados desse estudo, o Food Democracy Now! está solicitando investigação federal sobre os prováveis danos causados à saúde humana e ambiental pelo herbicida glifosato e sobre a relação entre reguladores e indústrias reguladas – que resultou nos níveis alarmantes do herbicida a que a população está exposta, como demonstra crescente número de estudos científicos.

O relatório conclui afirmando que o único modo de evitar a contaminação por glifosato é comer alimentos cultivados organicamente. “Um estudo publicado em 2014 na Revista de Pesquisa Ambiental confirmou que famílias que adotaram uma dieta de orgânicos removeram, em não mais que uma semana, 90% dos pesticidas do seu corpo, o que foi comprovado por testes de urina”.

Fonte – Inês Castilho, De olho nos ruralistas de 06 de março de 2017

Glifosato: o veneno está em todo lugar

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Altas doses do herbicida da Monsanto foram encontradas em alimentos nos EUA e consumidos em várias partes do mundo, inclusive no Brasil

O primeiro teste em alimentos para resíduos de glifosato realizado por laboratório registrado na Administração de Alimentos e Medicamentos dos Estados Unidos (FDA, na sigla em inglês) encontrou níveis alarmantes de contaminação em produtos dos mais tradicionais no país e mostrou o quão inadequada é a regulação dos resíduos de pesticidas. O estudo Glifosato: inseguro em qualquer prato, feito pelo laboratório de testes de segurança alimentar Aresco por solicitação do Food Democracy Now! e The Detox Project, reuniu também pesquisas independentes, realizadas em outros países, que chegaram aos mesmos resultados.

Glifosato é o herbicida mais consumido no mundo. O ingrediente ativo do Roundup da Monsanto é o “mata mato” mais pesadamente utilizado na agricultura industrial na história da humanidade – consequência da adoção generalizada de culturas transgênicas, hoje cultivadas em mais de 80% dos 70 milhões de hectares nos EUA e mais de 120 milhões de hectares em escala global. O Brasil cultivou uma área de 44,2 milhões de hectares de transgênicos na safra 2015-2016.

No meio urbano, o glifosato é usado na manutenção de gramados em parques, praças e condomínios. O mercado do herbicida foi avaliado em US$ 5,46 bilhões em 2012 e tem como meta chegar a US$ 8,79 bilhões até 2019.

Ingestão ‘inaceitável’

Os reguladores dos EUA consideram como Ingestão Diária Aceitável (IDA) de glifosato 1.75 miligramas por kilo do peso corporal (1.75 mg/kg/dia). Na União Europeia esse limite é de 0.3 mg/kg/dia. Esses níveis de tolerância foram definidos com base em estudos patrocinados pela próprias corporações fabricantes de agrotóxicos e mantidos em sigilo em nome do segredo industrial. Uma equipe de cientistas internacionais reclama um IDA muito mais baixo, de 0.025 mg/kg/dia – 12 vezes inferior ao definido atualmente na Europa e 70 vezes inferior ao permitido nos EUA.

A União Europeia aprovou sua comercialização até o fim de 2017, à espera das conclusões da Agência Europeia de Produtos Químicos, mas propôs restringir sua utilização em parques e outros espaços públicos. Uma campanha envolvendo organizações não governamentais de 15 países europeus luta para que essa permissão não seja renovada.

No Brasil o limite de ingestão é de 0.042 mg/Kg/dia, com um detalhe: o glifosato não está incluído nos testes da Anvisa para resíduos de agrotóxicos em alimentos, muito embora seja o mais consumido no país. Mais de 8 milhões de toneladas foram despejados nas terras brasileiras somente entre 2010 e 2014.

Novas evidências

As novas evidências científicas mostram que não há níveis seguros de glifosato para a saúde humana e animal. Os danos prováveis podem começar em níveis ultrabaixos, de 0.1 partes de glifosato por bilhão (ppb). Até mesmo 0.05 ppb podem provocam danos nos rins e fígado de ratos, pela alteração nas funções de 4.000 genes.

Os testes promovidos pela Food Democracy Now! revelaram que produtos alimentares muitos populares nos EUA e no mundo – como o salgadinho Doritos, da Pepsico, os flocos de milho da Kellogg’s e o biscoito Oreo, da Kraft Foods, por exemplo, muito consumidos também no Brasil – tiveram resultados entre 289,47 ppb e 1.125,3 ppb.

Danos causados pelo Glifosato/Roundup em números (ppb)
0,1 ppb: dano severo em órgãos de ratos
0,1 ppb: nível permitido de glifosato e todos os outros herbicidas na água de torneira na União Europeia
10 ppb: efeitos tóxicos no fígado de peixes
700 ppb: alterações em rins e fígado de ratos
700 ppb: nível permitido de glifosato na água de torneira dos EUA
11.900 ppb: encontrado em soja transgênica
1.125,3 ppb: encontrado na Cheerios da General Mills

As doenças

Desordens gastrointestinais, obesidade, diabetes, doenças cardíacas, depressão, autismo, infertilidade, câncer, mal de Alzheimer, mal de Parkinson, intolerância ao glúten. A lista dos males atribuídos à ingestão de glifosato não para de crescer. O estudo detalha algumas delas.

Câncer. A despeito da insistência da Monsanto de que o glifosato é perfeitamente seguro, “mais que sal de mesa”, um número crescente de estudos revisados pela comunidade científica está encontrando ligações entre glifosato e câncer. Em março de 2015, a Agência de Pesquisa sobre Câncer (IARC, na sigla em inglês) da Organização Mundial de Saúde (OMS) declarou ser o glifosato “provável causador de câncer humano”. A decisão foi baseada em pesquisas de 17 especialistas em câncer de 11 países, que reuniu-se para avaliar a carcinogenicidade de cinco pesticidas. A revisão do glifosato levou o Parlamento Europeu a proibir seu uso não-comercial em áreas públicas e restringir seriamente o uso na agricultura. A Monsanto é alvo de várias ações judiciais nos EUA, com base em avaliações de que o glifosato é o agente causador de câncer em fazendeiros, trabalhadores rurais, aplicadores do pesticida e outras pessoas expostas a ele com frequência. Há preocupação especial com relação aos seguintes tipos de câncer: Linfoma Não Hodgkin, câncer de osso, câncer do cólon, câncer de rim, câncer de fígado, melanoma, câncer do pâncreas, câncer de tiroide.

Alterações hormonais. Um número crescente de evidências científicas aponta o glifosato como desregulador endócrino. Há mais de duas décadas estudos vêm mostrando que mesmo um baixo nível de exposição a certos produtos químicos, o glifosato entre eles, podem alterar a produção e recepção de hormônios vitais para o corpo, podendo causar problemas reprodutivos, aborto, reduzir a fertilidade e que a mudança nos níveis hormonais podem resultar no início prematuro da puberdade, obesidade, diabetes, problemas com a função imune e comportamentais, como déficit de atenção e hiperatividade.

Efeito bactericida. Enquanto a Monsanto continua a negar qualquer impacto na saúde humana e animal, novas pesquisas geram crescente preocupação quanto aos prováveis efeitos do glifosato no equilíbrio do microbioma gastrointestinal, ou bactérias intestinais benéficas, enquanto aumenta o número de espécies patogênicas, podendo levar a problemas de saúde como a síndrome do intestino irritável e a intolerância a glúten. Um estudo pioneiro da Nova Zelândia descobriu, em 2015, que a exposição contínua ao Roundup pode levar bactérias a se tornar resistentes a antibióticos, um problema crescente para a saúde humana e animal.

Doenças crônicas. Cientistas descobriram que pessoas cronicamente doentes têm níveis “significativamente mais altos de glifosato na urina do que pessoas saudáveis”. Verificaram também que as pessoas com dieta convencional têm muito mais resíduos de glifosato do que aquelas que se alimentam com comida orgânica.

Imersos em veneno

O estudo da Food Democracy Now! mostra que o uso generalizado de glifosato nos EUA levou o veneno a espalhar-se livremente pelo ambiente. Nos últimos anos, foram descobertos resíduos do veneno na água e alimentos consumidos no dia a dia, na urina humana, no leite materno e na cerveja, entre outras substâncias. Vale lembrar que a contaminação dos alimentos não pode ser removida pela lavagem e não é eliminada com cozimento, congelamento ou processamento da comida.

Os níveis de Roundup e outros herbicidas com glifosato usados no agronegócio dos EUA são hoje tão altos que o órgão de Pesquisa Geológica dos EUA (U.S. Geological Survey – USGS) encontrou o veneno em mais de 75% das amostras de água da chuva no Meio-Oeste do país. A pulverização aérea de Roundup leva o herbicida às culturas e também aos corpos d’água e também às nuvens, pela evaporação, e elas podem precipitar-se em locais muito distantes da aplicação. O número crescente de “ervas daninhas” resistentes ao glifosato está levando fazendeiros a usar mais e mais herbicida contra as “superervas daninhas”.

Com base nos resultados desse estudo, o Food Democracy Now! está solicitando investigação federal sobre os prováveis danos causados à saúde humana e ambiental pelo herbicida glifosato e sobre a relação entre reguladores e indústrias reguladas – que resultou nos níveis alarmantes do herbicida a que a população está exposta, como demonstra crescente número de estudos científicos.

O relatório conclui afirmando que o único modo de evitar a contaminação por glifosato é comer alimentos cultivados organicamente. “Um estudo publicado em 2014 na Revista de Pesquisa Ambiental confirmou que famílias que adotaram uma dieta de orgânicos removeram, em não mais que uma semana, 90% dos pesticidas do seu corpo, o que foi comprovado por testes de urina”.

Inês Castilho – Jornalista e cineasta, estudou Ciências Sociais na USP e foi editora de meio ambiente da revista “Visão”, editora do semanário “Shopping News”, editora do jornal “Mulherio” e cofundadora do “Nós Mulheres”. Realizadora dos curtas-metragens “Histerias” e “Mulheres da Boca”, integra desde 2012 a equipe do “Outras Palavras”. É repórter, redatora e tradutora em “De Olho Nos Ruralistas”.

Fonte – De olho nos ruralistas de 06 de março de 2017

Relatório da ONU denuncia “mito” de que pesticidas são essenciais para alimentar o mundo

Segundo um novo relatório elaborado por especialistas da ONU em alimentação e poluição, a ideia de que os pesticidas são essenciais para alimentar a população mundial crescente é um mito.

O relatório, apresentado na quarta-feira ao Conselho de direitos humanos da ONU, acusa as corporações mundiais que fabricam pesticidas de negarem sistematicamente os danos causados pelos seus produtos, de “táticas de marketing pouco éticas e agressivas”, de transferirem a culpa dos impactos evitáveis dos pesticidas para os utilizadores, assim como de uma intensa atividade de lobbying junto dos governos, que tem “impedido reformas e paralisado restrições” à utilização destes produtos.

Os pesticidas têm “impactos catastróficos no ambiente, na saúde humana e na sociedade como um todo”, estimando-se que, por ano, morram 200 mil pessoas vítimas de envenenamento agudo. “É chegada a altura de se criar um processo global de transição para uma produção agrícola e alimentar mais segura e saudável”, dizem os autores do trabalho
Embora a indústria dos pesticidas – cujo mercado vale 47 bilhões de euros por ano – defenda que os seus produtos são essenciais para a proteção das culturas e o abastecimento de alimentos para uma população mundial crescente (que alcançará os 9 mil milhões de habitantes até 2050), os autores do relatório contra-argumentam estas alegações.

É um mito. Usar pesticidas nada tem a ver com acabar com a fome. De acordo com a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), já conseguimos alimentar 9 mil milhões de pessoas hoje em dia. A produção está definitivamente a aumentar, mas o problema é a pobreza, a desigualdade e a distribuição”, declarou Hilal Elver, relatora especial da ONU para o direito à comida, acrescentando que muitos pesticidas são usados em plantações de produtos como o óleo de palma e não na comida necessária para acabar com a fome.

“Apesar de a investigação científica confirmar os efeitos adversos dos pesticidas, é um desafio considerável provar uma ligação definitiva entre a exposição e os problemas de saúde nos seres humanos ou danos nos ecossistemas. Este desafio tem sido exacerbado por uma negação sistemática, impulsionada pela indústria dos pesticidas e pela agro-indústria, da magnitude dos danos infligidos por estes químicos e por táticas de marketing pouco éticas e agressivas”, diz o relatório.

“O poder que as corporações têm sobre os governos e sobre a comunidade científica é extremamente importante”, disse Hilal Elver ao The Guardian. “Se se quer lidar com os pesticidas, tem de se lidar com as empresas – é por isso que [usamos] estas palavras duras. Elas dirão, naturalmente, que não é verdade, mas existem os testemunhos das pessoas.”

Embora alguns países desenvolvidos tenham normas “apertadas” para o uso de pesticidas, apenas 35% dos países em desenvolvimento têm um regime regulamentar para o uso destes químicos. O relatório descobriu ainda a produção de pesticidas para exportação em países nos quais a sua utilização já foi proibida.

O trabalho recomenda a criação de um tratado global para gerir a utilização de pesticidas, uma viragem para práticas sustentáveis, incluindo métodos naturais para controlar as pragas e a rotação de culturas, e o incentivo à produção de alimentos biológicos.

“A indústria utiliza frequentemente o termo ‘uso indevido intencional’ para transferir a culpa dos impactos evitáveis dos pesticidas perigosos para o utilizador”, diz o trabalho. “No entanto, a responsabilidade pela proteção dos utilizadores e de outros ao longo do ciclo de vida do pesticida e ao longo da cadeia de retalho é claramente do fabricante do pesticida.”

“A exposição crónica aos pesticidas tem sido associada ao cancro, à doença de Alzheimer e de Parkinson, à disrupção hormonal, a problemas de desenvolvimento e esterilidade.” Igualmente exposto no relatório está o risco para as crianças da contaminação da comida por pesticidas, que levou a 23 mortes na Índia, em 2013, e 39 na China, em 2014.

Fonte – UniPlanet de 08 de março de 2017

Estudo identifica agrotóxicos mais frequentes em alimentos consumidos no Brasil

Foto: Agência BrasilDe acordo com estimativas, o brometo de metila é o agrotóxico mais encontrado nos alimentos consumidos rotineiramente pela população brasileira – Foto: Agência Brasil

Entre as substâncias autorizadas no País está o brometo de metila, utilizado como inseticida e para o controle de pragas

A dieta dos brasileiros é rica em agrotóxicos, inclusive os mais tóxicos. Ao cruzar os dados sobre o que come habitualmente a população brasileira com a lista de agrotóxicos autorizados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) a serem aplicados na cultura desses alimentos, pesquisa realizada na USP identificou 68 compostos que excediam o valor de ingestão diária aceitável de acordo com limites estabelecidos pela própria Anvisa.

Entre os 283 agrotóxicos verificados, o brometo de metila (BM) – pertencente à classe dos inseticidas, formicidas e fungicidas e listado como extremamente tóxico – foi a substância com maior estimativa de frequência nos alimentos. Os resultados fazem parte da dissertação de mestrado de Jacqueline Mary Gerage, defendida na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da USP, em 2016. A ideia foi avaliar o risco de exposição crônica de agrotóxicos na dieta da população, sabendo-se do uso regular dessas substâncias em cultivos como arroz, feijão, soja e frutas.

A mesma substância também foi identificada por meio de outra pesquisa da Esalq, cujo enfoque foi estimar a ingestão de agrotóxicos a partir da dieta dos alunos das escolas urbanas da rede municipal de ensino da cidade de Guariba, interior de São Paulo. Os dois trabalhos tiveram a orientação da professora Marina Vieira da Silva, do Departamento Agroindústria, Alimentos e Nutrição da Esalq.

Foto: Gilberto Marques/SEE-SPAlimentos potencialmente contaminados por agrotóxicos autorizados também estão na dieta de alunos da rede pública de ensino – Foto: Gilberto Marques/SEE-SP

O BM é um gás que age como inseticida para desinfestação de solo, controle de formigas e fumigação de produtos de origem vegetal. Mata insetos, fungos e bactérias, ervas daninhas ou qualquer outro ser vivo presente no solo. Embora tenha esta utilidade na agricultura, Jacqueline relata que o produto é altamente prejudicial à saúde humana e ao meio ambiente. “Seu uso está em descontinuação global por causar danos à camada de ozônio e provocar riscos à saúde de trabalhadores rurais e moradores de regiões próximas às áreas de produção agrícola.” Em 1990, na assinatura do Protocolo de Montreal, houve um comprometimento de 180 países para diminuir o uso de produtos semelhantes ao BM na agricultura. O Brasil aderiu ao tratado internacional com a promessa de diminuir gradualmente o manejo ao longo dos anos.

Passo a passo

Baseada em dados da Pesquisa de Orçamentos Familiares de 2008/2009 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Jacqueline obteve os alimentos que compunham a dieta habitual de 33.613 brasileiros, com idade superior a dez anos. Foram considerados 743 itens alimentares. Em seguida procurou saber da Anvisa, a quantidade de agrotóxicos que era autorizada para alimentos que compunham o banco de pesquisa, chegando a 283 compostos. Destes, Jacqueline verificou que 68 excediam o valor máximo permitido pela agência.

Protesto no Dia Internacional de Luta contra os Agrotóxicos (2014) - Foto: Fernando Frazão/Agência BrasilProtesto no Dia Internacional de Luta contra os Agrotóxicos (2014) – Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Para avaliar a exposição da população aos agrotóxicos, foi aplicado o cálculo de Ingestão Diária Máxima Teórica (IDMT), que relaciona o consumo médio dos alimentos e as concentrações médias de agrotóxicos. O resultado obtido do cálculo IDMT foi então comparado ao parâmetro de Ingestão Diária Aceitável (IDA), para caracterização do risco de exposição. Apresentando valores acima do Limite Máximo de Resíduos (LMR), os índices eram considerados preocupantes. Periodicamente, a Anvisa publica informações técnicas sobre os agrotóxicos autorizados para uso no Brasil.

Apesar de este tipo de exposição não ter sido avaliado por meio da pesquisa, a especialista ressalta que na área rural há também os riscos de intoxicação aguda envolvidos com a aplicação destes produtos, ao inalar ou manipulá-los diretamente.

Já a pesquisa Ingestão de resíduos de agrotóxicos potencialmente contidos na dieta habitual de escolares foi conduzida pela nutricionista Ana Paula Gasques Meira, aluna da Pós-Graduação da Esalq, com base em informações disponíveis e na análise de dados locais que levantou. Os resultados obtidos em Guariba, cidade do interior de São Paulo, seguiram a tendência das informações observadas nacionalmente: o brometo de metila se confirmou como uma das maiores médias de ingestão. Nesta pesquisa, participaram 341 crianças e adolescentes, com idade entre 7 e 16 anos.

Dos 9 agrotóxicos cujo consumo se estima superar os limites da Anvisa…

Mais informações com Ana Paula Gasques Meira – e-mail anapuava@gmail.com; e Marina Vieira da Silva – e-mail marinavieiradasilva@usp.br

Com colaboração de Caio Albuquerque/ Divisão de Comunicação da Esalq

Fonte – Ivanir Ferreira, Editorias Ciências Agrárias, Ciências da Saúde, Jornal da USP de 06 de dezembro de 2016

Ecologistas prestam pouca atenção nos químicos sintéticos, diz estudo

(Foto: Stockphoto.com/SCA)

Produtos utilizados nos fertilizantes, por exemplo, têm grande impacto ambiental, mas não costumam motivar pesquisas

Produtos químicos sintéticos podem alterar os processos ecológicos, embora poucos cientistas estejam estudando o papel deles na mudança ambiental global. É o que diz um grupo de pesquisadores alemães e estadunidenses num artigo científico publicado em janeiro no jornal Frontiers in Ecology and the Environment.

A humanidade aumentou a produção de químicos, nas décadas recentes, de forma mais rápida do que ocorreu no caso de outras mudanças planetárias, na terra,  no ar e na água, como o aumento do dióxido de carbono na atmosfera e a destruição de habitats. Ainda não está estudando, no entanto, as consequências ecológicas dos contaminadores químicos. Menos de 2% dos financiamentos de uma das principais fontes de financiamento nos Estados Unidos e dos estudos publicados nos principais jornais ecológicos e apresentados nos encontros internacionais se referem ao estudo de químicos sintéticos.

Os pesquisadores analisaram tendências desde os anos 1970 na quantidade e número de diferentes químicos sintéticos. Eles utilizaram o valor global de mercado como um equivalente da quantidade total de químicos produzidos.

“A taxa de aumento na produção e na diversidade de farmacêuticos e pesticidas supera a dos mais reconhecidos agentes de mudança global e compete com a taxa de aumento do uso mundial de fertilizantes”, assinala a equipe liderada pela ecologista Emily Bernhardt, da Duke University. Os pesquisadores não informaram a quantidade de químicos que contaminam o ambiente.

Químicos sintéticos são uma das marcas da era moderna. Alguns deles e de seus derivados degradam lentamente. Eles podem entrar na cadeia alimentar e criar problemas de longo prazo para o ambiente. Outros químicos, ainda que se diluam rapidamente, são tão ubíquos que oferecem risco constante de impacto ambiental.

Apesar das recomendações ambientais sobre a rápida proliferação dos químicos sintéticos, concluíram os pesquisadores, os cientistas raramente estudam seus impactos ecológicos. Menos de 1% dos estudos ecológicos publicados nos últimos 25 anos mencionaram esses produtos, conforme uma amostra das 20 principais publicações ecológicas. Em uma conferência internacional, em 2015, 1,3% das apresentações mencionaram esses contaminadores. E apenas 0,006% dos financiamentos atuais da U.S. National Science Foundations Division of Environmental Biology — fonte importante para os ecologistas estadunidenses — voltaram-se para os estudos dos efeitos dos químicos sintéticos no ambiente. Houve apenas um financiamento de US$ 20 mil.

Os pesquisadores dizem que o “gap de conhecimento” resultante pode tornar mais difícil atingir metas de sustentabilidade como a saúde dos oceanos e a proteção da biodiversidade. Eles defendem que a NSF financie mais pesquisas ecológicas sobre contaminantes – especialmente aquelas que indaguem como a poluição química se relaciona com os efeitos de outros agentes, como o aumento das temperaturas, nas plantas e animais.

Por Lindsey Konkel – Ensia / De olho nos ruralistas de 13 de fevereiro de 2017

Projeto de Lei 6670: chega de agrotóxicos!

Voluntária do Greenpeace oferece tomate com agrotóxico a deputado
Cada vez mais próxima de se tornar realidade, política para redução de pesticidas no campo e na comida dos brasileiros vai tramitar em Comissão Especial

A presidência da Câmara dos Deputados assinou ontem (7) a criação de uma Comissão Especial para analisar a Política Nacional de Redução de Agrotóxicos (PNARA), o Projeto de Lei (PL) 6670/16. Com isso, o texto passa a tramitar em regime de prioridade.

A PNARA, uma iniciativa popular de organizações e entidades da sociedade civil, foi apresentada ao Congresso Nacional em novembro de 2016. Para isso, voluntários do Greenpeace serviram tomate aos congressistas com um “toque” de agrotóxico – eles usavam um borrifador com água para fingir espirrar veneno no tomate, uma alusão ao prato do brasileiro. Muitos deputados recusaram a fruta.

Na ocasião, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM/RJ), demonstrou simpatia com o projeto de redução de agrotóxicos. “Vamos trabalhar para criar uma Comissão Especial, para que a gente faça esse debate num ambiente exclusivo para discutir o tema, que é urgente na vida das famílias brasileiras”, afirmou Maia.

Logo no mês seguinte, em dezembro do ano passado, a matéria foi aprovada pela Comissão de Legislação Participativa da Câmara dos Deputados, se transformando no PL 6670/16. E agora, como prometido, Rodrigo Maia assina ato de criação de uma Comissão Especial para julgar o mérito da Política Nacional de Redução de Agrotóxicos.

“Essa é uma iniciativa de um conjunto de organizações da sociedade civil, ou seja, representa o que a população brasileira quer. Segundo pesquisa IBOPE, 81% dos brasileiros consideram que a quantidade de agrotóxicos aplicados nas lavouras é ‘alta’ ou ‘muito alta’. O Brasil é um dos campeões no uso destas substâncias. Precisamos começar a debater uma transição visando uma redução drástica do uso de pesticidas”, afirma Marina Lacorte, da Campanha de Agricultura e Alimentação do Greenpeace Brasil.

Entenda a PNARA

Em linhas gerais, a proposta trata de reduzir progressivamente o uso de agrotóxicos na produção agrícola, pecuária, extrativista e nas práticas de manejo dos recursos naturais, contribuindo para a promoção da saúde e sustentabilidade ambiental, com a produção de alimentos saudáveis.

Entre os objetivos da política está reduzir, gradual e continuamente, a disponibilidade, o acesso e o uso de agrotóxicos; promover a avaliação, o controle, a fiscalização e o monitoramento de resíduos de pesticidas; desestimular economicamente o uso de pesticidas e estimular os sistemas de produção sem químicos; estimular o desenvolvimento e implementação de práticas de manejo sustentável e agroecológico e criar zonas de uso restrito de agrotóxicos e zonas livres da influência de pesticidas e transgênicos.

Baixe aqui o texto completo da Política Nacional de Redução de Agrotóxicos.

Porém… tem quem deseje mais agrotóxicos…

A iniciativa popular se apresenta como contraponto ao PL 6299/2002, de autoria do senador Blairo Maggi (PP/MT). A proposta de Maggi, aprovada pelo Senado, já circula na Câmara e coloca em risco a atual legislação de agrotóxicos (Lei 7.802/89), causando seu desmonte e facilitando ainda mais a liberação e uso dessas substâncias para um dos maiores consumidores de pesticidas do mundo, o Brasil.

“Por isso é de extrema importância apoiar a tramitação e a aprovação da PNARA. Hoje temos diversas ameaças visando enfraquecer a Lei de Agrotóxicos no Congresso Nacional, e essa proposta de redução gradual de pesticidas nas lavouras brasileiras, que é uma iniciativa da sociedade civil, está se tornando cada vez mais próxima de se tornar realidade”, defende Lacorte.

A primeira reunião da Comissão Especial não foi marcada, mas pode acontecer ainda esse mês e terá como pauta a eleição do presidente da comissão e do relator dos trabalhos.

Fonte – Greenpeace de 08 de fevereiro de 2017

Temer antecipa ‘pacote do veneno’ e proíbe Anvisa de se manifestar sobre agrotóxicos

pacote veneno.jpgRecorde: em 2016 foram registrados 277 novos agrotóxicos, uma alta de 374% em relação ao ano anterior

Ministério da Agricultura assume controle das informações sobre venenos já registrados. Pasta dirigida por Blairo Maggi vai excluir Anvisa e Ibama e controlar sozinha registro de novos agroquímicos

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), subordinada ao Ministério da Saúde, não presta mais informações a respeito de agrotóxicos, inclusive sobre aqueles registrados antes de 2016. A informação é da assessoria de imprensa da agência. Indagada na tarde da quarta-feira (1º) sobre as substâncias registradas ano passado – um recorde, segundo nota do Ministério da Agricultura (Mapa) –, limitou-se a informar que os questionamentos devem ser encaminhados diretamente à Agricultura.

No último dia 10, o Mapa divulgou que foram registrados 277 novos agroquímicos, um recorde histórico segundo o próprio ministério. Do total, 161 são produtos técnicos equivalentes (PTEs) – os chamados genéricos –, o que corresponde a alta de 374% em comparação a 2015, quando foram registrados 43 PTEs, além de 139 novos produtos. A média histórica anual é de 140 registros.

No anúncio do recorde, o coordenador geral de agroquímicos e afins do Mapa, Júlio Sergio de Britto, observou “grande evolução na qualidade e no número de produtos ofertados, graças ao esforço dos técnicos dos ministérios da Agricultura, da Saúde (Anvisa) e do Meio Ambiente (Ibama)”.

Anvisa recebe solicitações de informações sobre facilidades dada pelo governo Temer à indústria de agrotóxicos, ainda sem resposta

Até a conclusão desta reportagem, a assessoria de imprensa do ministério que abrange ainda a Pecuária e o Abastecimento, cujo titular é o ruralista Blairo Maggi, o “rei da soja”, não havia respondido à solicitação de informações.

Ação coordenada

Para especialistas da área, a mudança no controle das informações faz parte de uma ação coordenada por representantes do agronegócio que trabalham para acelerar a tramitação e aprovação de projetos de lei que compõem o chamado pacote do veneno. São projetos que, entre outras coisas, vão facilitar a aprovação, o registro, a comercialização, a utilização, o armazenamento e o transporte de agrotóxicos, aumentando a presença dessas substâncias nas lavouras brasileiras.

“O controle de informações no Mapa ocorre paralelamente a outras medidas em curso, sugerindo que o ‘pacote do veneno’ está sendo implementado mesmo antes de ter sido aprovado no Congresso e sancionado por Temer”, diz o coordenador da Campanha Permanente contra os Agrotóxicos e pela Vida – Agrotóxico Mata, Alan Tygel.

O “pacote” inclui o Projeto de Lei (PL) 3.200/2015, do deputado federal Luis Antonio Franciscatto Covatti (PP-RS), que praticamente revoga a atual lei de agrotóxicos. Para ambientalistas, promotores federais, movimentos sociais e defesa do consumidor, a proposta é um retrocesso. Veta o termo “agrotóxico”, substituindo por “fitossanitário”, e cria a Comissão Técnica Nacional de Fitossanitários (CTNFito) no âmbito do Mapa.

Estão entre as prerrogativas dessa nova comissão apresentar “pareceres técnicos conclusivos aos pedidos de avaliação de novos produtos defensivos fitossanitários, de controle ambiental, seus produtos técnicos e afins”. O colegiado também indicará os 23 membros efetivos e suplentes, deixando de fora representantes dos consumidores, da Anvisa e do Ibama – um ataque aos princípios da precaução, conforme os críticos.

Também no “pacote” está o PL 6.299/2002, do então senador Blairo Maggi, que altera regras para a pesquisa, experimentação, produção, embalagem e rotulagem,  transporte,  armazenamento, comercialização, propaganda, utilização, importação, exportação, destino final dos resíduos e embalagens, registro, classificação, controle, inspeção e  fiscalização. Se for aprovado, a embalagem dos agroquímicos deixará de ter, por exemplo, a presença da caveira – símbolo de veneno conhecido universalmente, até mesmo por pessoas analfabetas e crianças.

“São alterações que vão afrouxar ainda mais as normas, como proibir apenas os venenos que causem intoxicação aguda, aquelas que ocorrem imediatamente à exposição ao produto. No entanto, estudos mostram que há intoxicações crônicas, que surgem tempo depois, pela exposição continuada a essas substâncias no ambiente de trabalho ou pelo acúmulo de substâncias nocivas no organismo depois de anos consumindo alimentos com agrotóxicos”.

Segundo Tygel, estudos recentes associam a exposição a agrotóxicos com o surgimento do Mal de Parkinson, doença degenerativa do sistema nervoso central, crônica e progressiva, que ocorre pela queda da produção de dopamina, neurotransmissor envolvido no fluxo de informação entre os neurônios. Já está estabelecido em estudos neurocientíficos que esta diminuição está associada a causas ambientais, e não apenas genéticas.

Omissão

A Campanha Permanente não estranha a submissão da Anvisa ao agronegócio e considera a agência omissa na defesa da saúde da população. Desde 2012 não divulga o Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos (Para), e em 2016 nem sequer coletou amostras de alimentos. Além disso, não avalia a presença de venenos em alimentos como carne, leite, ovos, industrializados para alimentação infantil e de adulto e água mineral, suspendeu a fiscalização das indústrias de agrotóxicos, não consolida nem divulga dados sobre esse mercado.

Outros aspectos graves são a lentidão nas reavaliações iniciadas em 2008, com resultados questionáveis, a falta de previsão de novas reavaliações apesar de decisões internacionais importantes sobre seus efeitos à saúde, de participação da sociedade civil nos processos decisórios,

Os sistemas informatizados para permitir organização, divulgação e acesso a dados seguem sem conclusão, fazendo com que a Anvisa descumpra integralmente a Lei de Acesso à Informação.

Coquetel venenoso

Presidente da Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (Agapan) e integrante da Associação  Brasileira de Agroecologia, o agrônomo Leonardo Melgarejo destaca a prevalência do viés comercial em detrimento da preocupação com a saúde nesse recorde de registros. “Não temos tamanha variedade de insetos e ervas daninhas que exijam tamanha diversidade de venenos”, diz.

E aponta falhas metodológicas. “No caso dos venenos genéricos, há uma confusão. Passam a ideia de que se trata de algo semelhante aos remédios, onde o princípio ativo é o que interessa. No caso dos agrotóxicos, devemos nos preocupar com os químicos utilizados no coquetel colocado à venda, junto com o princípio ativo”, afirma.

Conforme exemplifica, o herbicida 2,4-D contém entre as impurezas um grupo de substâncias, as dioxinas. Extremamente perigosas, estão entre os agentes cancerígenos. Além disso, há outros produtos associados igualmente tóxicos, que têm a função de desintegrar a gota de agrotóxico em contato com as folhas das plantas, facilitando sua absorção e a ação tóxica.

“Sem contar aqueles resultantes da transformação destes e de outros componentes, seja pela metabolização da planta, como o AMPA, a partir da aplicação do glifosato, pela ação do sol, de elementos químicos que compõem o solo”, destaca o agrônomo. “Estes subprodutos do princípio ativo e dos demais componentes geram novos riscos de combinações e sinergias perigosas. Portanto, liberar o uso de um agrotóxico sem estudos, apenas baseado na afirmação de que outros com o mesmo princípio ativo, com efeito similar, já foram aprovados, vale para o agronegócio mas não vale para a saúde e nem para o meio ambiente.”

Na avaliação de Melgarejo, a decisão da pasta conduzida por Blairo Maggi deveria ser repudiada pelo Ministério da Saúde e pelo Ministério do Meio Ambiente. “Nós, ambientalistas, consideramos que esta decisão só poderia ser tomada em um governo que não tem compromissos com o futuro. Quanto mais barato for um agrotóxico genérico, maior será o risco de problemas associados aos demais componentes, mesmo que o princípio ativo corresponda ao que se verifica em todas as formulações. São os trabalhadores rurais, os agricultores e os consumidores que verificarão isso no futuro.”

Fonte – Cida de Oliveira, Rede Brasil Atual de 03 de fevereiro de 2017