Exposição a resíduos químicos pode “ser a maior causa de mortes no mundo”

Foto: Banco Mundial/Curt Carnemark

Especialista independente destaca que 90% da incidência de doenças associadas ao problema ocorrem em países de baixa ou média rendas; relator sobre substâncias perigosas fala de países que promovem direitos humanos no exterior ignorando questões domésticas.

Um relator das Nações Unidas alertou esta quinta-feira que a exposição aos resíduos químicos pode ser a maior causa de doenças e mortes em todo o mundo.

Em Genebra, o relator especial Baskut Tuncak* disse que comunidades de baixa renda sofrem as consequências da falta de ação em relação à poluição tóxica.

Grupos minoritários

Para Tuncak,  o problema mata os pobres de forma desproporcional com mais de 90% da incidência de doenças associadas ocorrendo em países de baixa ou média rendas. Crianças e grupos minoritários são os mais afetados.

O especialista destacou ainda que bilhões de pessoas estão do “lado errado” do que chamou de “divisão tóxica” e não conseguem obter compensação diante da grande indústria.

Crise

Tuncak disse que os impactos da poluição e dos resíduos tóxicos são “evidentes”, mas muito pouco é feito para enfrentar esta crise de saúde pública. As declarações do relator constam de um informe apresentado ao Conselho dos Direitos Humanos.

Para o especialista o motivo dessa inação é dos Estados que promovem os direitos humanos no exterior, ignorando as questões domésticas.

Tuncak declarou ainda que os efeitos da exposição à poluição no ar, na água e nos alimentos domésticos aumentam o impacto nos grupos vulneráveis.

Brexit

A saída do Reino Unido da União Europeia, UE, que ficou conhecida como Brexit, é uma razão de preocupação para  o especialista porque pode ameaçar a série de proteções dos direitos humanos estabelecidos sobre produtos perigosos.

Para ele, o Brexit “abre a porta” ao Reino Unido para se tornar “depósito de lixo para as indústrias sujas” pela falta clareza do governo sobre a substituição dos órgãos da UE que devem proteger as pessoas de materiais tóxicos.

Este ano, Baskut visitou o Reino Unido onde registou avanços na gestão das ameaças impostas pelas substâncias perigosas mas não em relação à poluição do ar que está associada a cerca de 40 mil mortes por ano.

*Baskut Tuncak é relator sobre as implicações da gestão e eliminação ambientalmente racional de substâncias e resíduos perigosos.

Eleutério Guevane, da ONU News em Nova Iorque.

Apenas um a cada 50 casos de intoxicação por agrotóxico é notificado

“Agrotóxico mata”, o mote da Campanha Permanente contra Agrotóxicos e Pela Vida, é mais do que uma frase de impacto. Há diversas pesquisas nacionais e internacionais que abordam os malefícios para a saúde do consumo de produtos cultivados com agrotóxicos.

Segundo dado da Organização Mundial da Saúde (OMS), citado pelo pesquisador Leonardo Melgarejo, membro da Associação Brasileira de Agroecologia e coordenador da Campanha, apenas um de cada 50 casos de intoxicação por agrotóxico é notificado. Estima-se que cerca de 300 mil casos permaneçam ocultos. O assunto foi debatido nesta sexta-feira (5), durante a 2ª Feira Nacional da Reforma Agrária, na capital paulista, no seminário “Agrotóxicos e Transgênicos: impactos sobre o alimentação, saúde e meio ambiente”.

Os casos notificados geralmente são decorrentes da intoxicação aguda, que rapidamente se agrava e pode levar ao óbito. A região Nordeste, por exemplo, foi cenário de 41,8% das mortes desse tipo. Porém, Melgarejo alerta que esses casos não são maioria. “A maior parte dos problemas com agrotóxicos são a longo prazo, vão aparecer em uma semana, um ano, dez anos e esses números não estão sendo identificados ou monitorados”, afirma.

64% dos alimentos produzidos no Brasil atualmente estão contaminados - Créditos: Campanha Permanente contra Agrotóxicos e Pela Vida64% dos alimentos produzidos no Brasil atualmente estão contaminados / Campanha Permanente contra Agrotóxicos e Pela Vida

Para a professora da Universidade Federal do Cariri, médica e pesquisadora do projeto interdisciplinar Trabalho, Meio Ambiente e Saúde (Tramas) Ada Cristina, os fetos e as crianças são os mais vulneráveis às ações nocivas dos agrotóxicos.

Segundo ela, os embriões quando estão nos primeiros trimestres de formação, passam por suscetíveis mudanças morfológicas que podem alterar a forma do feto e trazer disfunções no metabolismo. “Os agrotóxicos são substâncias  que atuam no organismos das pessoas, simulam outros produtos que existem no corpo humano só que provocam consequência desastrosas”, diz ao citar o caso de uma criança que nasceu na comunidade sem os membros inferiores e posteriores.

Segundo dados da Anvisa de 2012, cada brasileiro consome cerca de cinco litros de agrotóxicos por ano.

Uma relação perigosa

A correlação entre commodities agrícolas geneticamente modificadas e agrotóxicos já foi explorada por diversos estudos de entidades internacionais e nacionais, a exemplo da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco).

Notícia recente divulgada pela consultoria Céleres, afirmou que o plantio de transgênicos de soja, milho e algodão avança para 93,4% do total do Brasil. Melgarejo afirma que a alteração genética das plantas causa rebatimentos, consequências pouco estudadas. “Esses rebatimentos implicam em  alteração na própria qualidade da planta. Por exemplo, a soja hoje temos menos proteína do que tinha há 30 anos quando era a soja não transgênica”. Ou seja, há menos benefícios e mais veneno.

Retrocessos

Nivea Regina da Silva, da direção do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra), ressalta o contexto de retrocesso trazido pelo governo golpista de Michel Temer no caso do agrotóxicos. “Há uma flexibilização do ponto de vista do monitoramento, da legislação e uma abertura para o maior impacto dos agrotóxicos na saúde humana como a questão do câncer por exemplo”.

Pautar a reforma agrária nesse contexto diz respeito também a prezar pela saúde do trabalhador do campo, também exposto à ação dos produtos nocivos. Para Neiva, é preciso “repensar uma outra forma de apropriação social ecológica e desta natureza e desta terra”

“A gente quer uma alimentação limpa não só de não ter veneno, mas no sentido de alcançar uma justiça ambiental também”

Regulamentação

A CNTBio (Comissão Técnica Nacional de Biossegurança) é uma estrutura subordinada à Diretoria Técnica, nomeada pela Presidência da República. É o órgão que decide sobre a liberação comercial do transgênicos e dos agrotóxicos no país. No entanto, os movimentos populares denunciam a falta de comprometimento com a pauta e a forte pressão que os membros sofrem de setores do agronegócio. Em 2016, a comissão fez 25 deliberações, ou seja, analisou um projeto a cada 2 minutos e meio. A maioria dos pedidos das empresas foi aprovado.

Fonte – Juliana Gonçalves, Brasil de Fato / Dal Marcondes, edição Anelize Moreira, Evolverde de 01 de setembro de 2017

Pesquisa revela que exposição a pesticidas durante a gravidez aumenta os resultados adversos de nascimento

pulverização de agrotóxicos

Embora uma opinião comum sustente que a exposição a pesticidas aumenta os resultados adversos de nascimento, o conjunto de evidências científicas existentes é ambíguo. Barreiras logísticas e éticas – os dados de uso de pesticidas não estão amplamente disponíveis e os ensaios de controle randomizados são impossíveis – não permitiram conclusões mais precisas.

Um novo estudo, realizado por pesquisadores da UC Santa Barbara, aborda a questão de forma inovadora – analisando os resultados de nascimentos no Vale de San Joaquin, Califórnia.

Com mais de um terço dos vegetais dos EUA e dois terços de suas frutas e nozes produzidas lá, no Vale de San Joaquin, não é de surpreender que seja uma região de intenso uso de pesticidas. A equipe da UCSB investigou o efeito da exposição durante a gravidez nesta área agrícola e observou um aumento nos resultados adversos, que acompanham níveis muito altos de exposição a pesticidas. Suas descobertas aparecem no jornal Nature Communications.

“Para a maioria dos nascimentos, não há impacto estatisticamente identificável da exposição a pesticidas no resultado do parto”, diz o autor principal Ashley Larsen, professora-assistente na Bren School of Environmental Science & Management da UCSB. “No entanto, as mães expostas a níveis extremos de pesticidas, definidas aqui como os 5% superiores da distribuição de exposição a pesticidas, experimentaram entre 5 e 9% de aumento na probabilidade de resultados adversos, com uma diminuição de aproximadamente 13 gramas no peso ao nascer”.

Usando registros de certidão de nascimento para mais de 500 mil nascimentos únicos entre 1997 e 2011, combinado a dados de uso de pesticidas em uma escala espacial e temporal, os cientistas puderam determinar se a exposição residencial de pesticidas agrícolas durante a gestação – por trimestre e por toxicidade – influenciariam peso de nascimento, duração gestacional ou anormalidades de nascimento.

Eles encontraram efeitos negativos da exposição a pesticidas para todos os resultados de nascimento – baixo peso ao nascer, gestação, parto prematuro, anormalidades de nascimento, mas apenas para gestantes expostas a níveis muito altos de pesticidas – os 5% superiores da exposição nesta amostra. Este grupo foi exposto a 4.200 kg de pesticidas aplicados em áreas de 1 Km2 abrangendo seus endereços durante a gravidez.

“Se podemos identificar onde e por que esses níveis extremamente elevados de uso estão ocorrendo, particularmente perto de assentamentos humanos, formuladores de políticas e profissionais de saúde podem trabalhar para reduzir exposições extremas perto de comunidades agrícolas, através de campanhas de informação ou divulgação aos agricultores”, explicou Larsen.

Numerosos produtos químicos são usados diariamente nas proximidades de áreas residenciais, dificultando a verificação de um agente responsável específico. Como resultado, neste estudo, os pesquisadores analisaram os resultados combinados de todos os pesticidas utilizados na região.

“Nós não temos uma boa compreensão de como diferentes produtos químicos interagem uns com os outros no meio ambiente”, disse Larsen. “É necessário um trabalho adicional para entender quais produtos químicos ou combinações de produtos químicos são mais perigosos para a saúde humana”.

Referência

Agricultural pesticide use and adverse birth outcomes in the San Joaquin Valley of California
Ashley E. Larsen, Steven D. Gaines & Olivier Deschênes
Nature Communications 8, Article number: 302 (2017)
doi:10.1038/s41467-017-00349-2
https://www.nature.com/articles/s41467-017-00349-2

Fonte – Julie Cohen, University of California, Santa Barbara / tradução e edição Henrique Cortez, EcoDebate de 31 de agosto de 2017

É impossível remover agrotóxicos dos alimentos

De vez em quando, as redes sociais desencavam uns assuntos mofados, um monte de gente curte e compartilha e com isso, certos mitos voltam.
Com a crença em remover agrotóxicos dos alimentos, aconteceu o mesmo. É impossível remover agrotóxicos dos alimentos.

Receitas caseiras a base de água sanitária, água oxigenada, iodo, hipoclorito, bicarbonato, carvão ativado, vinagre, limão ou argila são, além de ineficazes, muitas vezes não recomendadas. Observe que o hipoclorito afeta a tireoide.

Os agrotóxicos são substâncias químicas ou biológicas normalmente utilizadas para combater possíveis pragas que podem vir a causar danos aos cultivos. Existem três tipos: herbicidas (combatem ervas daninhas), inseticidas (combatem pragas) e fungicidas (obviamente sobre fungos). Os agrotóxicos dividem-se basicamente em dois grupos de transmissão: por contato ou sistêmicos – os agrotóxicos sistêmicos, mais usados atualmente penetram no fruto desde a seiva e incorporam-se ao DNA do vegetal. Seu acúmulo no organismo leva ao câncer, alergias em geral, doenças generativas e desequilíbrios hormonais. Em gestantes, pode causar má formação fetal.

Higienizar os vegetais é fundamental para eliminar possíveis parasitas, contudo remove apenas a parte do agrotóxico usado nas plantações. Para eliminar parasitas em geral, o mais recomendado é deixar de molho em soluções à base de cloro ou cloreto de sódio e permanganato de potássio, produtos tradicionalmente à venda em supermercados e distribuídos gratuitamente em postos de saúde mantidos pelo SUS. Na ausência de ambos, soluções de limão ou vinagre diluídos em água resolvem perfeitamente.

O brasileiro já consome em média 5 litros anuais de agrotóxico, muitos proibidos em outros países ou adulterados e contrabandeados sem qualquer controle. Comprar orgânicos, além de ser melhor para a saúde, fortalece a agricultura familiar, mantém a terra nas mãos de pequenos produtores, não financia a agroindústria transgênica e claro, qualquer produtor de fertilizantes sintéticos, que não contaminam apenas os alimentos, mas também o solo e os lençóis freáticos do entorno.

Deixando seus orgânicos de molho, não esqueça de usar bacias, deixar em água corrente não vai cobrir toda a superfície e ainda desperdiçar mais água.

Trago abaixo dois artigos e deixo também a Nota Técnica de Esclarecimento sobre o Risco de Consumo de Frutas e Hortaliças cultivadas com Agrotóxicos divulgada pela ANVISA para baixar do link ou ler diretamente do meu slideshare.

Lavar alimentos pode ser inútil para tirar agrotóxicos, dizem especialistas

Defensivos agrícolas podem ficar dentro dos alimentos.
Instituto pede regras mais rígidas para controlar venenos.

Deixar vegetais de molho no vinagre antes de levá-los à mesa pode ser ótimo para matar micróbios, mas nem sempre vai funcionar quando se quer tirar agrotóxicos de frutas e verduras, relataram especialistas ouvidos pelo G1.

Em 15 de 20 culturas analisadas pela Anvisa foram encontrados ingredientes ativos em processo de reavaliação toxicológica junto à agência, como o endossulfan em pepino e pimentão; acefato em cebola e cenoura; e metamidofós em pimentão, tomate, alface e cebola.

“Dentre as medidas necessárias está a reavaliação toxicológica das substâncias pela Anvisa, uma vez que vários agrotóxicos utilizados no Brasil já foram proibidos em outros países, diante das evidências de seus riscos”, comunicou a ONG em nota ao G1.

Para o engenheiro de alimentos Carlos Eduardo Sassano, professor da Universidade de Guarulhos, o problema seria resolvido se os agrotóxicos fossem utilizados da maneira correta. “Se fossem usados dentro dos padrões permitidos, não teria problema”, defende.

Segundo ele, o consumo de alimentos orgânicos poderia ser uma boa alternativa, mas é difícil haver produção suficiente. “Estamos falando de uma sociedade moderna, onde a produtividade tem que ser alta. Por isso a gente não vislumbra agricultura sem agrotóxico.”

O médico Angelo Trapé, professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), discorda da opinião dos colegas. Segundo ele, as irregularidades encontradas pela Anvisa não mostram que haja perigo ao consumidor, pois a quantidade de agrotóxicos nos alimentos é muito pequena. “A população pode ingerir alimentos de maneira segura que não vai causar nenhum dano à sua saúde.”

De 3.130 amostras coletadas pela agência, 29% apresentaram algum tipo de irregularidade.A dificuldade cresce nas situações em que há penetração da substância. “Nesse quadro, a fervura pode inativá-la, mas há agrotóxicos à base de zinco ou estanho, à base de metais, que são chamados estáveis”, afirma Wong. “Quando isso ocorre, o aquecimento não inativa, logo não reduz o perigo.”

Já existe no Brasil uma “indicação de banimento” para as três substâncias. Dirceu Barbano, diretor da Anvisa, afirmou na quarta-feira (23) que esses ingredientes causam problemas neurológicos, reprodutivos, de desregulação hormonal e até câncer.

De acordo com Pignati, a estatísticas não mostram essas doenças relacionadas a agrotóxicos porque é difícil fazer exames para identificar substâncias tóxicas no organismo. “Aqui em Mato Grosso, se eu quiser fazer uma análise de suspeita de resíduos de agrotóxicos no sangue ou na urina, tenho que mandar a amostra para o Rio de Janeiro ou São Paulo”.

Os fabricantes de defensivos agrícolas, por meio da Associação Nacional de Defesa Vegetal (Andef), defendem que os produtores rurais estão cada vez mais preocupados em aplicar corretamente os agrotóxicos.

“A Andef considera fundamental tranqüilizar a população quanto à segurança dos alimentos tratados com defensivos aplicados de acordo com as recomendações agronômicas e oficialmente registrados”, afirmou a instituição em nota divulgada à imprensa.

A preocupação com resíduos tóxicos na comida ganhou força nesta quarta-feira (24), quando um relatório da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) apontou alta presença de agrotóxicos nos alimentos brasileiros.

Segundo Anthony Wong, diretor médico do Centro de Assistência Toxicológica (Ceatox) da Faculdade de Medicina da USP, “se o agrotóxico for de superfície, de aplicação limitada à parte externa do alimento, elimina-se o risco na maioria das vezes lavando bem”, diz. Os casos do morango e do tomate, por exemplo, poderiam ser “facilmente resolvidos” assim.

O médico Wanderlei Pignati, professor de Saúde Ambiental na Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), é mais cético em relação à água. “[Lavar os alimentos] não resolve praticamente nada. Vai eliminar o agrotóxico que tem na casca, mas o grande problema está dentro”, afirma.

Segundo Wong, do Ceatox, a total eliminação de situações de risco depende do governo. “Aí, só fiscalização mesmo. Não tem como eliminar por lavagem ou fervura.”O Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec) defende regras mais rígidas para agrotóxicos.

Frutas e Verduras têm índices alarmantes de agrotóxicos

Fonte O Globo, 16 de abril de 2009

O pimentão é o alimento com maior contaminação por agrotóxicos no Brasil, de acordo com o programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos divulgado pela ANVISA.Como reduzir os riscos

O morango, a uva e a cenoura também apresentam alto índice de irregularidades. A pesquisa revelou ainda que pesticidas proibidos continuama ser aplicados e há casos de uso excessivo de agrotóxicos em algumas plantações.A ANVISA analisou 1.773 amostras de alimentos (vide tabela abaixo). Do total avaliado, 15% das amostras estavam insatisfatórias. De 101 amostras de pimentão analisadas em supermercados de 25 estados no ano passado, 65 apresentavam índice elevado de agrotóxicos.Em 2008, o Brasil tornou-se o maior consumidor de agrotóxicos do mundo, ultrapassando os EUA. Segundo a Associação Brasileira da Indústria Química, esse mercado movimentou mais de US$06,9 bilhões em 2008.Alguns pesticidas proibidos em outros países, como o acefato e o endossulfam e o forato, continuam em uso no Brasil. Esses e outros dez agrotóxicos estão em revisão pela ANVISA. Muitos dos que são tidos como cancerígenos causadores de problemas hormonais e, no caso de grávidas, potencialmente geradores de deformações em fetos. O metamidofós, por exemplo, foi banido da China, mas grande parte de seus estoques tem sido enviada para o Brasil. Em 2008, produtores brasileiros importaram US$15,8milhões em metamidofós. Esse pesticida pode intoxicar o tecido nervoso humano.

Especialistas explicam que agricultores usam diferentes tipos de agrotóxicos. Os produtos de uso externo, que são pulverizados, e aqueles que são aplicados na terra. O excesso do primeiro tipo de agrotóxico pode ser eliminado lavando-se bem os alimentos de maneira correta. Já o segundo dificilmente é retirado. Antes de serem lavados, os alimentos devem ser colocados na geladeira por 2 horas. Isto é necessário porque as frutas e as hortaliças, quando em contato com a água na mesma temperatura, absorvem as impurezas então na casca. Então, para evitar esse risco, elas precisam estar geladas na hora em que forem lavadas.Ainda em baixa temperatura, as frutas e hortaliças devem ser colocadas numa solução de uma colher de sopa de água sanitária para cada litro de água. Ou, se preferir, numa solução de 50 mililitros de vinagre para cada litro de água. Os alimentos devem permanecer submersos por cerca de 10 minutos. Ainda existe a opção de deixá-los de molho em pastilhas de cloro. Há quem recomende o usos de detergente neutro na lavagem, mas nesse caso, é preciso enxaguar bem, caso contrário o consumidor pode ingerir resíduos de sabão.

Tabela de grau de contaminação de alimentos
(percentual de contaminação acima do permitido pela ANVISA)
Pimentão _____ 64,36%
Morango ______36,05%
Uva _________32,67%
Cenoura ______30,39%
Alface _______ 19,80%
Tomate ______ 18,27%
Mamão ______ 17,31%
Laranja ______ 14,85%
Abacaxi ______09,47%
Repolho ______08,82%
Arroz ________04,41%
Maçã ________03,92%
Feijão ________02,92%
Cebola _______02,91%

Filmes sobre o assunto

O mundo segundo a Monsanto

“O veneno está na mesa 1 e 2”

“Nuvens de Veneno”

Fonte – Carol Daemon

Remover agrotóxicos de alimentos

agrotóxidos: pulverização aérea

Não, não se iluda. Não acredite no que a indústria do veneno quer fazer você acreditar, porque você NAO consegue remover o veneno do seu alimento. A única opção é comprar comida não envenenada, isto é, orgânica!

Existe uma crença que boa lavagem, cloro ou iodo possam remover agrotóxicos dos alimentos. Pelo que se depreende, atualmente ocorre absorção dos agrotóxicos pelo metabolismo das culturas vegetais. Por isso, se imagina que seja tarefa impossível a remoção dos agrotóxicos dos alimentos.

Receitas caseiras a base de água sanitária, água oxigenada, iodo, hipoclorito, bicarbonato e carvão ativado, podem afetar a tireoide.

Os agrotóxicos são substâncias químicas ou biológicas normalmente utilizadas para combater possíveis pragas que podem vir a causar danos aos cultivos. São herbicidas que combatem ervas daninhas, inseticidas que combatem pragas e fungicidas que atuam sobre fungos e uma série de outras substâncias.

Os agrotóxicos são divididos basicamente em grupos de transmissão por contato ou sistêmicos. Os agrotóxicos sistêmicos, mais usados atualmente penetram no fruto desde a seiva e se incorporam ao ácido desoxirribonucleico (DNA) do vegetal. Logo, não podem ser removidos como resíduo físico. Seu acúmulo no organismo leva ao câncer, alergias em geral, doenças generativas e desequilíbrios hormonais. Em gestantes, podem ser teratogênicos e causar má formação fetal.

Higienizar os vegetais é fundamental para eliminar possíveis parasitas contudo, remove apenas parte ínfima dos agrotóxicos usados nos cultivos. Para eliminar micro-organismos biológicos e parasitas em geral, o mais recomendado é deixar de molho em soluções à base de cloro ou cloreto de sódio e permanganato de potássio, produtos tradicionalmente à venda em supermercados e distribuídos gratuitamente em postos de saúde mantidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Na ausência de ambos, soluções de limão ou vinagre diluídos em água resolvem perfeitamente.

O brasileiro já consome em média 5 litros anuais de agrotóxicos, muitos dos quais proibidos em outros países, que são adulterados e contrabandeados sem qualquer controle. Consumir produtos orgânicos, além de ser mais recomendável para a saúde, fortalece a agricultura familiar, mantém a terra nas mãos de pequenos produtores, não financia a agroindústria de agrotóxicos e de transgênicos e qualquer produtor de fertilizantes sintéticos, que não contaminam apenas os alimentos, mas também o solo e os lençóis freáticos do entorno.

Deixar vegetais de molho no vinagre antes de levá-los à mesa pode ser ótimo para matar micróbios, mas nem sempre vai funcionar quando se quer tirar agrotóxicos de frutas e verduras, relataram especialistas ouvidos por sites de órgãos de comunicação como G1.

Em 15 de 20 culturas analisadas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), foram encontrados ingredientes ativos em processo de reavaliação toxicológica junto à agência, como o endossulfan em pepino e pimentão; acefato em cebola e cenoura; e metamidofós em pimentão, tomate, alface e cebola.

Para o engenheiro de alimentos Carlos Eduardo Sassano, professor da Universidade de Guarulhos, o problema seria resolvido se os agrotóxicos fossem utilizados da maneira correta. “Se fossem usados dentro dos padrões permitidos, não teria problema”, defende. Se questiona se existe maneira correta e adequada de manejar esta venenama.

Ocorre lembrar de experiência pessoal emblemática. Colaboradora do serviço de higienização de um grande hospital, referência no centro-oeste brasileiro, dentro de sua concepção humilde e sincera, certa noite numa ala destinada a pacientes com câncer terminal, fez constatação diagnóstica da maior relevância.

Indivíduos de origem europeia, expostos a substâncias cancerígenas desde a primeira revolução industrial, da máquina a vapor, estão exibidos ao contágio de substâncias químicas potencialmente cancerígenas. Aduziu que estes pacientes eram amplamente hegemônicos na referida ala hospitalar.

Cidadãos de origem afrodescendentes, segundo a colaboradora, costumavam ir a óbito por “unha encravada” numa clara alusão de um “chiste”, ”blague” ou pilhéria jocosa.

De 3.130 amostras coletadas pela agência, 29% apresentaram algum tipo de irregularidade. A dificuldade cresce nas situações em que há penetração da substância.

De acordo com o médico Wanderlei Pignati, as estatísticas não mostram essas doenças relacionadas a agrotóxicos porque é difícil fazer exames para identificar substâncias tóxicas no organismo. “Aqui em Mato Grosso, se eu quiser fazer uma análise de suspeita de resíduos de agrotóxicos no sangue ou na urina, tenho que mandar a amostra para o Rio de Janeiro ou São Paulo”.

Os fabricantes de defensivos agrícolas, por meio da Associação Nacional de Defesa Vegetal (ANDEF), defendem que os produtores rurais estão cada vez mais preocupados em aplicar corretamente os agrotóxicos.

“A ANDEF considera fundamental tranquilizar a população quanto à segurança dos alimentos tratados com defensivos aplicados de acordo com as recomendações agronômicas e oficialmente registrados”, afirmou a instituição em nota divulgada à imprensa.

A preocupação com resíduos tóxicos na comida ganhou força quando um relatório da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) indica a alta presença de agrotóxicos nos alimentos brasileiros.

Segundo Anthony Wong, diretor médico do Centro de Assistência Toxicológica (CEATOX) da Faculdade de Medicina da USP, “se o agrotóxico for de superfície, de aplicação limitada à parte externa do alimento, elimina-se o risco na maioria das vezes lavando bem”, diz. Os casos do morango e do tomate, por exemplo, poderiam ser “facilmente resolvidos” assim. Mas como já se viu, hoje os agrotóxicos empregados são predominantemente sistêmicos ou metabólicos.

O médico Wanderlei Pignati, professor de Saúde Ambiental na Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), é mais cético em relação à água. Para ele, “lavar os alimentos não resolve praticamente nada. Vai eliminar o agrotóxico que tem na casca, mas o grande problema está dentro”, afirma.

Ocorre enfatizar que nada é contra a livre-iniciativa. Que sem dúvida sempre foi e parece que sempre será o sistema que melhor recepciona a liberdade e a democracia. Mas uma nova autopoise sistêmica para o arranjo social, é urgente, principalmente nesta exposição irresponsável a que se submete a vida humana.

Referência

http://caroldaemon.blogspot.com.br/2015/06/e-impossivel-remover-agrotoxicos-dos.html

Dr. Roberto Naime, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em Geologia Ambiental. Integrante do corpo Docente do Mestrado e Doutorado em Qualidade Ambiental da Universidade Feevale.

Fonte – EcoDebate de 24 de agosto de 2017

Pivô da crise dos ovos na Europa, pesticida fipronil é utilizado em larga escala no Brasil

(Foto: EBC)

Substância foi encontrada em mananciais no Paraná; pesquisadores apontam morte de abelhas e dizem que ela pode afetar a pressão arterial e o sistema reprodutivo

Na Europa, comoção. Relatos alarmistas, manchetes, debates, interdição de granjas, prisões. Foi ele o pivô de uma crise sem precedentes em um dos principais produtos da agricultura do velho continente, o ovo. Trata-se do pesticida fipronil, que já alastrou contaminações em mais de 17 países europeus. Diversas pesquisas apontam os riscos desse pesticida para animais e seres humanos. No Brasil, ele tem um mercado de larga escala.

O fipronil age no sistema nervoso central dos insetos considerados pragas de animais e de monoculturas, como o gado e o milho. A crise na cadeia de ovos começou porque a Chickfriend, empresa holandesa, teria desinfectado aves com fipronil comprado da Bélgica. Acontece que a Europa proíbe o uso para os animais que entram na cadeia alimentar humana. O consumo de um produto contaminado pode causar náuseas, dores de cabeça e estômago, relata o El País Brasil. E, em casos mais graves, atinge fígado, rim e tireoide.

Segundo o Ministério de Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), o pesticida é regulamentado no Brasil desde 1994. A assessoria de imprensa da pasta afirma que cinco empresas estão autorizadas a produzir e comercializar o fipronil para uso veterinário: Merial Saúde Animal Ltda; Hertape Saúde Animal S/A; Vétoquinol Saúde Animal Ltda; Ourofino Saúde Animal Ltda e Virbac do Brasil Indústria e Comércio Ltda.

Mapa e Anvisa não demonstram preocupação sobre uma possível crise no Brasil. A Anvisa alega, por meio da assessoria de imprensa, que ele não é utilizado em aves. O fipronil é utilizado em quase todas as monoculturas do agronegócio brasileiro, em especial nos produtos responsáveis pela fama desse modelo no país: cana, soja, milho e até laranja. Um dos alimentos das aves no Brasil é justamente o milho.

Diz a Anvisa:

– Em nosso país, o acesso das aves ao fipronil poderia ser resultante da ingestão de ração com resíduos, haja vista que este agrotóxico é autorizado para o milho. Entretanto não temos indícios de que isso possa acontecer, haja vista que o Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos (Para) pesquisou o fipronil em 729 amostras de milho entre 2013 e 2015, não detectando este ingrediente.

O Mapa não fala de uma das marcas que teriam atuado no Brasil. É a Eventra, cuja regulamentação pode ter chegado antes da hora. O site Ecodebate cita uma reportagem de 2012 da Folha. A reportagem aponta que, no dia 10 de outubro de 2011, o Mapa registrou o inseticida. Nessa data, porém, o produto se chamava Fipronil Alta 800 WG. A marca Eventra só teria sido publicada no Diário Oficial da União em 25 de outubro, em substituição à marca anterior.

O Ministério da Agricultura não quis se pronunciar sobre o assunto.

AUMENTO DA PRESSÃO

A ciência não estabelece o mesmo nível de riscos para animais e humanos. A contaminação em pessoas, alegam cientistas e a própria Anvisa, é nulo ou moderado. Alguns pesquisadores apontam o contrário.

João Leandro Chaguri, farmacêutico toxicologista da Universidade Estadual Paulista (Unesp) em Botucatu (SP), estudou o pesticida e suas consequências na pressão arterial de ratos. O pesquisador escreveu a dissertação de mestrado “Efeitos da exposição ao pesticida fipronil nas alterações pressóricas em ratos acordados”. Os animais tiveram considerada elevação da pressão arterial ao serem expostos à substância.

O pesquisador não descarta que o mesmo efeito possa ocorrer em humanos:

– Uma pesquisa feita usando animais nos dá uma noção do que pode acontecer com humanos, porém é sempre um indício que precisa ser melhor investigado. Modelos de estudos com animais são utilizados amplamente e os riscos de efeitos prejudiciais de agentes químicos para o ser humano são avaliados, baseados em modelos toxicocinéticos e fisiológicos. Porém deve-se atentar para alguns aspectos como variações interespécies e limitações experimentais.

IMPACTO NO SISTEMA REPRODUTOR

Doutora em Farmacologia pela Unesp, Aline Lima de Barros estudou os efeitos do pesticida no sistema reprodutivo dos ratos. Professora da Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD) em Mato Grosso do Sul, ela escreveu a tese de doutorado “Influência da exposição perinatal ao inseticida fipronil: repercussão tardia em parâmetros reprodutivos masculinos e femininos, em ratos”.

A pesquisadora explica que escolheu o Fipronil pela ampla utilização do pesticida na cultura da cana-de-açúcar. Esse aspecto não era explorado pelas pesquisas. “A exposição foi realizada durante a prenhez e início da lactação, períodos em que ocorre o desenvolvimento dos órgãos sexuais e diferenciação sexual do cérebro em ratos”, descreve. A prole foi avaliada durante todo o desenvolvimento sexual até a vida adulta. “Nós observamos alterações, nas condições experimentais do estudo, no desenvolvimento reprodutivo de fêmeas”.

Aline afirma que os resultados demonstraram efeitos a longo prazo nos espermatozoides dos machos. Apesar de não afetar a fertilidade dos animais, segundo a pesquisadora, o pesticida altera o sistema reprodutor. A preocupação da especialista é o que pode ocorrer com o sistema reprodutivo humano:

– Os praguicidas são conhecidos por apresentarem efeitos cumulativos e o homem está exposto a estas substâncias durante toda a vida. Acredita-se que a exposição ao fipronil possa ter impacto sobre o sistema reprodutor do homem, já que o modelo experimental utilizado no estudo (ratos) apresenta capacidade reprodutiva muito maior que o homem. Assim, as alterações observadas em ratos poder ter um impacto muito maior no homem.

DESAPARECIMENTO DAS ABELHAS

Natural de Ribeirão Preto (SP), o professor Dr. Lionel Segui Gonçalves é mundialmente conhecido como especialista em abelhas. Professor aposentado da Universidade de São Paulo (USP), o geneticista aponta que há mais de 10 anos as abelhas têm desaparecido em diversos países do mundo. O principal culpado, segundo ele, são os agrotóxicos. Contamos em agosto essa história: “Pesquisador explica por que agrotóxicos são principais culpados por desaparecimento de abelhas“.

Ele criou a campanha Bee or not to be (Sem Abelhas, Sem Alimento), que divulga a importância das abelhas para a sobrevivência da agricultura e da alimentação em todo o mundo. O professor explica que as diversas agressões ao meio ambiente estão relacionadas à chamada Colony Colapse Disorder (CDC), algo como Transtorno do Colapso das Colônias. Um dos pesticidas que podem desencadear esse colapso é exatamente o fipronil:

– Sem dúvida o uso do inseticida fipronil apresenta um sério risco para as abelhas no Brasil. Este pesticida já é largamente utilizado em várias culturas no Brasil como nas plantações de soja, cana-de-açúcar, pastagens, milho, algodão, e constantemente está relacionado a mortes em massa de abelhas trazendo sérios prejuízos econômicos aos apicultores, uma vez que são altamente tóxicos às abelhas.

O professor explica que o fipronil atinge o sistema nervoso das abelhas “alterando os padrões de comportamento cognitivo”. “Prejudica a navegação das mesmas, levando-as a se perderem no campo por não serem capazes de retornar a suas colmeias, causando uma diminuição na atividade de forrageamento ou coleta de alimento, fenômeno conhecido como CCD ou síndrome do desaparecimento”, relata.

Segundo o especialista, os riscos do fipronil são mais abrangentes do que se pensa. Ele menciona o uso nas plantações de eucalipto, para o combate ao cupim, e fala de casos graves relacionados ao nabo forrageiro. Gonçalves aponta que São Paulo, Rio Grande do Sul e Minas Gerais são os estados que têm registrado o maior número de casos de morte de abelhas em razão do fipronil e outros pesticidas. Mas já existem relatos em mais de 13 Unidades da Federação.

MANANCIAIS CONTAMINADOS

Um dos estados ameaçados é o Paraná. Um artigo de pesquisadores da Universidade Federal da Fronteira Sul afirma que os mananciais da região sudoeste estão contaminados pelo pesticida. Os autores avaliam a permanência desse e outros componentes nos rios das cidades Salto do Lontra, Santa Izabel do Oeste, Nova Prata do Iguaçu, Planalto e Ampére.

Entre as amostras que mais contaminaram os locais avaliados está o fipronil:

– De todas as amostras, os analitos encontrados e quantificados em maior número de amostras foram atrazina (11 amostras), simazina (7 amostras), penoxulam Vieira, M. G. et al. 000 Rev. Virtual Quim (4 amostras), seguido malationa (5 amostras), iprodiona (3 amostras), epoxiconazol, fipronil e tebuconazol (1 amostra).

Sobre as resoluções e normativas que estabelecem a quantidade permitida em cada um dos produtos, os pesquisadores lembram que o fipronil “não possui limite máximo de resíduos estabelecidos na legislação brasileira”.

O que o governo diz

Questionado sobre os riscos do fipronil à saúde humana, o Mapa afirmou, por meio da assessoria de imprensa, que “o uso da molécula está alinhado às normas do Codex Alimentarius, que a registrou e não tem restrição ao uso”. Segundo a pasta, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) também não tem restrição ao uso. “O Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) faz estudos constantes e não há evidência de riscos à saúde humana pelo uso do produto”, informa a pasta.

A Anvisa nega riscos de contaminação pela utilização do pesticida no Brasil:

– O fipronil está registrado no Brasil como agrotóxico desde meados de 1994, tendo várias marcas comerciais disponíveis no mercado, de diversas empresas. Ainda não foi evidenciado um risco para a população brasileira, considerando o tipo de contaminação ocorrida nos ovos na Europa, conforme demonstram os dados de monitoramento disponíveis.

Fonte – Izabela Sanchez, De Olho nos Ruralistas de 01 de setembro de 2017

O massacre das abelhas pelo agrotóxico

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O fenômeno do desaparecimento das abelhas pode ser explicado cientificamente, diz Lionel Segui Gonçalves, especialista em genética de abelhas, à IHU On-Line. Segundo ele, esse fenômeno que tem ocorrido no mundo todo, e particularmente no Brasilestá associado ao uso de agrotóxicos que contêm neonicotinoides. No Brasil“já temos várias ocorrências. Lamentavelmente, o país é um dos maiores consumidores mundiais de agrotóxicos, e as abelhas estão sofrendo com isso. (…) Gostaria de deixar claro que está havendo um massacre, principalmente nas nossas condições aqui no Brasil, em que a cada dia que passa nós temos mais ocorrência de perda de abelhas”, enfatiza.

De acordo com o professor Gonçalves, “as moléculas desse agrotóxico atuam diretamente no sistema nervoso das abelhas e, principalmente, no cérebro delas, causando um transtorno na comunicação das células nervosas. Com isso, a abelha acaba tendo uma deficiência na sua comunicação, o que faz com que ela fique desorientada, isto é, o plano de navegação dela fica prejudicado, de forma que ela não consegue voltar para sua fonte de origem, que são as colmeias, e acaba se perdendo”, explica.

Lionel Segui Gonçalves informa, na entrevista concedida por telefone, que o Brasiljá perdeu mais de 20 mil colônias de abelhas, o que representa mais de um bilhão de abelhas mortas nos últimos anos por conta do uso indiscriminado de agrotóxicos. Se o uso desse tipo de substância não for barrado, o pesquisador diz que a tendência é que a polinização feita pelas abelhas seja substituída pela polinização humana, como já tem sido feito na China e no Brasil, como nas culturas de maracujá. “Existe uma região na China, a qual tive o prazer de visitar, onde há 20 anos houve o uso indiscriminado de agrotóxicos e as abelhas acabaram desaparecendo. Hoje, os chineses estão fazendo a polinização das suas árvores com suas mãos, utilizando uma vareta com pena de passarinho, onde colocam o pólen nas plantas, isto é, fazem o papel da abelha. Estou prevendo que esse também será o nosso futuro, caso não haja nenhuma atitude governamental no sentido de proibir ou, pelo menos, de haver um controle no uso de agrotóxicos”.

O pesquisador informa ainda que as abelhas são responsáveis por “70% da polinização das plantas utilizadas para a produção de alimentos e, com o desaparecimento das plantas, o primeiro impacto negativo que teremos é a falta de alimentos”. Na avaliação dele, a solução para interromper esse fenômeno é “incentivar a pesquisa para produzir a ‘praga da praga’, isto é, utilizar o controle biológico para eliminar as pragas da agricultura”.

Lionel Segui Gonçalves é graduado em História Natural, que atualmente corresponde às Ciências Biológicas, pela Unesp de Rio Claro-SP, e doutor em Genética de Abelhas pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto – FMRP-USP. É professor aposentado da USP, professor emérito do CNPq e membro titular da Academia Brasileira de Ciências e da Academia de Ciências do Estado de São Paulo.

IHU On-Line — Que relações o senhor estabelece entre o uso de agrotóxicos e o desaparecimento das abelhas? O senhor tem dito que particularmente os agrotóxicos que possuem nicotina em suas fórmulas bloqueiam a comunicação entre as células do sistema nervoso das abelhas. Por que isso ocorre?

Lionel Segui Gonçalves — Inicialmente gostaria de dizer que o grande problema do desaparecimento das abelhas é um fenômeno internacional que já vem ocorrendo há alguns anos, e vem se intensificando muito em vários países, inclusive no Brasil, onde já temos várias ocorrências. Lamentavelmente, o país é um dos maiores consumidores mundiais de agrotóxicos, e as abelhas estão sofrendo com isso.

Colony Collapse Disorder – CCD, ou a Síndrome do Desaparecimento das Abelhas, é um fenômeno que vem ocorrendo e que foi detectado em vários países, mostrando que a presença de agrotóxicos do grupo dos neonicotinoides tem sido o principal responsável pelo desaparecimento, uma vez que as moléculas desse agrotóxico — que são muito fortes — atuam diretamente no sistema nervoso das abelhas e, principalmente, no cérebro delas, causando um transtorno na comunicação das células nervosas. Com isso, a abelha acaba tendo uma deficiência na sua comunicação, o que faz com que ela fique desorientada, isto é, o plano de navegação dela fica prejudicado, de forma que ela não consegue voltar para sua fonte de origem, que são as colmeias, e acaba se perdendo. Essa é a explicação científica do problema do desaparecimento. Agora, independentemente do nome que se dê, se é síndrome, desaparecimento ou morte, o que gostaria de deixar claro é que está havendo um massacre, principalmente nas nossas condições aqui no Brasil, em que a cada dia que passa nós temos mais ocorrências de perda de abelhas.

Desenvolvemos um aplicativo em Ribeirão Preto, chamado de Bee Alert, que permite que os apicultores, meliponicultores e demais interessados em abelhas obtenham informações diretamente dos locais onde ocorreram perdas, e façam um registro no Bee Alert. Quanto a isso, gostaria de dizer que, até dezembro de 2016, já haviam sido registradas mais de 300 ocorrências no Bee Alert, o que significa uma perda de mais de 20 mil colônias de abelhas, tanto apis melifera quanto abelhas sem ferrão e abelhas solitárias, de tal forma que as apis estão sendo prejudicadas em 87% e os meliponíneos em 13%. Isso representa um total de mais de um bilhão de abelhas mortas; e o principal causador são os agrotóxicos.

IHU On-Line — O que esse percentual significa? É possível estimar?

Lionel Segui Gonçalves — Não, não é possível, porque no Brasil existem dois grupos que estão fazendo esse levantamento. Um é o grupo do qual faço parte, que há três anos está fazendo coleta através do Bee Alert. O outro é o grupo chamado Projeto Colmeia, que também coleta dados com os apicultores, mas o grupo do Projeto Colmeia é financiado pelas multinacionais e nós não temos acesso às informações, apenas a um relatório que apresenta um número relativamente baixo de ocorrências. Nosso interesse é chamar a atenção para o uso indiscriminado dos agrotóxicos no Brasil.

IHU On-Line — É possível estimar a partir de que momento as colmeias de abelhas começaram a desaparecer no Brasil? Em que regiões do país o desaparecimento das abelhas é maior?

“O maior índice de desaparecimento das abelhas ocorre nos estados de São Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul”

Lionel Segui Gonçalves — Sim. Nós temos um mapa do Brasil onde estão lotados todos os registros mostrando a ocorrência da morte de abelhas nos estados brasileiros – 14 estados já foram atingidos, sendo que o maior índice de desaparecimento das abelhas ocorre nos estados de São Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul, e a maior frequência é no estado de São Paulo, com 55%. Curiosamente, tem um trabalho feito por uma pesquisadora da USP de São Paulo, que se chama Larissa Bombardi, onde ela faz um levantamento da distribuição ou da utilização dos agrotóxicos nos municípios do país. Ela também fez um mapa da distribuição geográfica desses agrotóxicos e essa distribuição bate, exatamente, com as ocorrências que temos registrado de morte de abelhas. Então, nosso mapa do Bee Alert coincide com o mapa da distribuição de agrotóxicos feito pela Bombardi em 2016.

IHU On-Line — Existe alguma discussão entre o seu grupo de pesquisa e os órgãos públicos, como o Ministério do Meio Ambiente, o Ministério da Agricultura e a Anvisa em relação aos danos causados às abelhas pelo uso de agrotóxicos, já que esses são os órgãos responsáveis pela autorização do registro dessas substâncias?

Lionel Segui Gonçalves — Sem dúvida. Esse é um tema que estamos discutindo há três anos: já estivemos no Ministério do Meio Ambiente, já estivemos em contato com o Ibama, já fizemos abaixo-assinado de e-mails de pessoas que têm interesse em chamar a atenção dessa situação, já entregamos um abaixo-assinado com 23 mil assinaturas tanto para o Ministério do Meio Ambiente quanto para o Ministério da Agricultura e para o Ibama. E, de lá para cá, nós temos participado de um número bastante significativo de reuniões no Brasil a respeito desse problema. Recentemente estivemos na Assembleia Legislativa do estado de São Paulo, onde foi discutida essa questão, sob a coordenação de um deputado do Partido Verdepadre Afonso, que está altamente interessado em chamar a atenção das autoridades a respeito do uso indiscriminado dos agrotóxicos. Logo, várias iniciativas têm sido feitas, mas, lamentavelmente, a frequência do uso dos agrotóxicos está cada vez maior.

IHU On-Line — Qual sua percepção sobre a recepção dos órgãos acerca dessas informações que o seu grupo de pesquisa tem levantado?

“85% da área verde é polinizada por abelhas. Logo, se não existirem abelhas, também haverá uma catástrofe ecológica”

Lionel Segui Gonçalves — A percepção é a de que temos uma perspectiva de que, no futuro, estaremos trabalhando — como é hoje na China — com a figura do homem-abelha, que passa a fazer a polinização com as mãos. Existe uma região na China, a qual tive o prazer de visitar, onde há 20 anos houve o uso indiscriminado de agrotóxicos e as abelhas acabaram desaparecendo. Hoje, os chineses estão fazendo a polinização das suas árvores com suas mãos, utilizando uma vareta com pena de passarinho, onde colocam o pólen nas plantas, isto é, fazem o papel da abelha. Estou prevendo que esse também será o nosso futuro, caso não haja nenhuma atitude governamental no sentido de proibir ou, pelo menos, de haver um controle no uso de agrotóxicos.

IHU On-Line — Como os chineses fazem esse processo de polinização? É possível fazer um processo de polinização adequado desse modo?

Lionel Segui Gonçalves — Você falou a palavra-chave: “adequado”. Lógico que não. O modo adequado é feito somente pelas abelhas; o homem fará uma tentativa de resolver alguns problemas. Nós, aqui no Brasil, já estamos fazendo isso com o maracujá, que é polinizado por uma abelha chamada mamangava, e essa abelha tem sido eliminada. Estão fazendo a polinização do maracujá com o próprio dedo ou com cotonete, mas isso jamais substituirá o papel da abelha. A perspectiva é muito ruim e vejo com uma preocupação muito grande o nosso futuro, uma vez que, até agora, nós não tivemos nenhuma resposta positiva do governo em relação ao controle dos agrotóxicos.

IHU On-Line — O senhor já disse que o trabalho desses insetos na natureza jamais será substituído pelas ações humanas nem pelos mais robustos ou aperfeiçoados robôs. Por que o trabalho que as abelhas fazem não pode ser substituído nem pela ação humana nem pela robótica?

“Por enquanto é uma ilusão imaginar o uso da robótica para fazer a polinização, porque as abelhas passaram centenas de milhares de anos se adaptando para realizar esse trabalho”

Lionel Segui Gonçalves — Existem propostas nesse sentido da robótica, mas por enquanto é uma ilusão imaginar o uso da robótica para fazer a polinização, porque as abelhas passaram centenas de milhares de anos se adaptando para realizar esse trabalho. Para que fosse possível que minirrobôs fizessem a polinização, seria necessário um ajuste muito grande na programação, porque temos abelhas específicas para determinados tipos de plantas e, também, tem que se considerar a adaptação das próprias abelhas. Portanto, não acredito que a robótica possa vir a substituir esse trabalho; poderá haver exemplos pontuais onde um determinado robô possa realizar a polinização de um determinado tipo de planta, mas isso ainda é ilusão.

As abelhas são responsáveis, hoje, por 70% da polinização das plantas utilizadas para a produção de alimentos e, com o desaparecimento das plantas, o primeiro impacto negativo que teremos é a falta de alimentos. Veja o exemplo das amêndoas: elas dependem 100% das abelhas. A Califórnia, nos Estados Unidos, que é o maior produtor de amêndoas, usa aproximadamente dois milhões de colmeias só para polinizar as amêndoas. Outras culturas, como a maçã, dependem 90% das abelhas. Enfim, as frutas, de modo geral, necessitam das abelhas para realizar a polinização.

Então, sem dúvida nenhuma, a extinção das abelhas pode levar à falta de alimentos. Além disso, existe o problema das áreas verdes, porque essas áreas — matas, florestas, campos etc. — também são polinizadas pelas abelhas: 85% dessa área verde é polinizada por abelhas. Logo, se não existirem abelhas, também haverá uma catástrofe ecológica. Esse é o grande problema e, infelizmente, não temos ainda soluções palpáveis, a não ser tentar combater radicalmente os agrotóxicos ou defender o uso de controle biológico. A solução mais correta seria incentivar a pesquisa para produzir a “praga da praga”, isto é, utilizar o controle biológico para eliminar as pragas da agricultura. Não sou 100% favorável à extinção dos agrotóxicos, mas sou bastante radical contra o uso indiscriminado, em que não se pensa em outra alternativa a não ser atingir as pragas em prejuízo das abelhas, que estão sendo atingidas.

IHU On-Line — Dado o uso contínuo de agrotóxicos no país, o que seria uma técnica de manejo apropriada para a criação de abelhas? O uso de insumos biológicos ou de agrotóxicos que não contêm essa substância resolveria os problemas?

Lionel Segui Gonçalves — Sem dúvida alguma. O problema dos agrotóxicos com neonicotinoides é que eles são altamente eficientes contra pragas, mas matam, inclusive, as abelhas; logo, são altamente eficientes para eliminar os polinizadores de modo geral. Se fossem utilizados e pesquisados tipos de agrotóxicos menos agressivos, que pudessem atingir determinadas pragas e também fosse feito um controle desse uso, de tal forma que a aplicação do agrotóxico fosse combinada com os apicultores, seria melhor.

Outra coisa: o uso dos agrotóxicos através das avionetas tem sido feito de maneira bastante eficaz no uso do agrotóxico, mas nem sempre eficaz no uso do combate à praga. Isso porque ocorre deriva, normalmente, em função do clima e do vento e, com isso, o agrotóxico atinge principalmente áreas onde não estão as culturas dirigidas para o tratamento, e atingem as abelhas; esse é o grande problema.

IHU On-Line — O senhor costuma mencionar uma frase que é atribuída a Einstein, quando comenta a importância das abelhas para o ecossistema: “Se as abelhas vierem a desaparecer da face da Terra, quatro anos depois o homem também desaparecerá”. É isso mesmo?

“Sugiro que seja incentivada a cultura de abelhas, ou seja, é preciso cuidar das colmeias, ter uma colmeia de jataí em casa”

Lionel Segui Gonçalves — Existe uma polêmica sobre a veracidade dessa declaração de Einstein. O importante é constatarmos — seja ou não verdade que ele tenha dito isso — o que está acontecendo: realmente as abelhas estão sendo eliminadas; esse é um ponto claríssimo para nós. Segundo, o papel das abelhas nos diferentes ecossistemas e na natureza é fundamental e isso já está devidamente comprovado através do papel delas na polinização.

Por outro lado, esse problema que você comentou, a respeito do desaparecimento do homem em função da falta de abelhas, como elas são responsáveis pela polinização das áreas verdes, faltando áreas verdes e as plantas que produzem oxigênio, logicamente isso atingirá o homem. E, não havendo a polinização, que é fundamental na natureza, nós teremos um déficit de plantas; havendo déficit de plantas, haverá um desequilíbrio de modo geral na ecologia e haverá falta de determinados organismos vegetais e animais. Com isso, acontecerá uma catástrofe mundial, porque o equilíbrio depende da presença das abelhas, que estão sendo eliminadas.

Eu não defendo a veracidade da declaração do Einstein, mas defendo a intenção que existe por trás disso, mostrando que se ocorrer o desaparecimento das abelhas, realmente haverá a possibilidade de sermos eliminados, não em quatro anos, como foi falado, mas em centenas ou milhares de anos.

IHU On-Line — Deseja acrescentar algo?

Lionel Segui Gonçalves — Gostaria de dizer que há a possibilidade de nossa comunidade responder a esse fenômeno, por exemplo, questionando: “Como eu posso ajudar?”. Uma maneira seria não utilizar esses pesticidas, ou seja, substituí-los por controle biológico.

Sugiro que seja incentivada a cultura de abelhas, ou seja, é preciso cuidar das colmeias, ter uma colmeia de jataí em casa, porque as crianças podem aprender a importância dos insetos para o homem e através dessa cultura poderia ser difundida a relevância das abelhas.

Sugiro que as abelhas sejam protegidas e que sejam plantadas árvores para aumentar a fonte de alimento delas, que são as flores. Logo, havendo um incentivo para plantar árvores e cultivar flores, isso ajudará demais. E, também, precisamos questionar as nossas autoridades sobre a importância de se controlar o meio ambiente e não permitir qualquer tipo de ação na natureza que acabe destruindo o nosso meio ambiente. Essas iniciativas são importantes.

Fonte – Patricia Fachin, IHU de 04 de setembro de 2017

Um Atlas de nossa agricultura envenenada

Professora da USP produz primeira série de mapas sobre uso, abuso e tragédias relacionadas aos agrotóxicos no Brasil. Dados demonstram: alternativa é rever modelo baseado no agronegócio

Os mapas produzidos por Larissa Mies Bombardi são chocantes. Quando você acha que já chegou ao fundo do poço, a professora de Geografia Agrária da USP passa para o mapa seguinte. E, acredite, o que era ruim fica pior. Mortes por intoxicação, mortes por suicídio, outras intoxicações causadas pelos agrotóxicos no Brasil. A pesquisadora reuniu os dados sobre os venenos agrícolas em uma sequência cartográfica que dá dimensão complexa a um problema pouco debatido no país.

Ver os mapas, porém, não é enxergar o todo: o Brasil tem um antigo problema de subnotificação de intoxicação por agrotóxicos. Muitas pessoas não chegam a procurar o Sistema Único de Saúde (SUS); muitos profissionais ignoram os sintomas provocados pelos venenos, que muitas vezes se confundem com doenças corriqueiras. Nos cálculos de quem atua na área, se tivemos 25 mil pessoas atingidas entre 2007 e 2014, multiplica-se o número por 50 e chega-se mais próximo da realidade: 1,25 milhão de casos em sete anos.

Além disso, Larissa leva em conta os registros do ministério da Saúde para enfermidades agudas, ou seja, aquelas direta e imediatamente conectadas aos agrotóxicos. As doenças crônicas, aquelas provocadas por anos e anos de exposição aos venenos, entre as quais o câncer, ficam de fora dos cálculos. “Esses dados mostram apenas a ponta do iceberg”, diz ela.

Ainda assim, são chocantes. O Brasil é campeão mundial no uso de agrotóxicos, posto roubado dos Estados Unidos na década passada e ao qual seguimos aferrados com unhas e dentes. A cada brasileiro cabe uma média de 5,2 litros de venenos por ano, o equivalente a duas garrafas e meia de refrigerante, ou a 14 latas de cerveja.

Em breve, todo o material reunido por Larissa será público. O livro Geografia sobre o uso de agrotóxicos no Brasil é uma espécie de atlas sobre o tema, com previsão de lançamento para o segundo semestre. Será um desenvolvimento do Pequeno Ensaio Cartográfico Sobre o Uso de Agrotóxicos no Brasil, já lançado este ano, com dados atualizados e mais detalhados. No período abrangido pela pesquisa, 2007-2014, foram 1.186 mortes diretamente relacionadas aos venenos. Ou uma a cada dois dias e meio:

– Isso é inaceitável. Num pacto de civilidade, que já era hora de termos, como a gente fala com tanta tranquilidade em avanço de agronegócio, de permitir pulverização aérea, se é diante desse quadro que a gente está vivendo? – indaga a professora, em entrevista nesta quarta-feira (28/06) ao De Olho nos Ruralistas.

O papel do agronegócio

Larissa fala de agronegócio porque é exatamente esse modelo o principal responsável pelas pulverizações. Os mapas mostram que a concentração dos casos de intoxicação coincide com as regiões onde estão as principais culturas do agronegócio no Brasil, como a soja, o milho e a cana de açúcar no Centro-Oeste, Sul e Sudeste. No Nordeste, por exemplo, a fruticultura. A divisão por Unidades da Federação e até por municípios comprovam com exatidão essa conexão.

A pesquisadora compara a relação dos brasileiros com agrotóxicos à maneira como os moradores dos Estados Unidos lidam com as armas: aceitamos correr um risco enorme. Quando se olha para um dos mapas, salta à vista a proporção entre suicídio e agrotóxicos. Em parte, explica Larissa, isso se deve ao fato de que estes casos são inescapavelmente registrados pelos órgãos públicos, ao passo que outros tipos de ocorrências escapam com mais facilidade. Mas, ainda assim, não é possível desconsiderar a maneira como distúrbios neurológicos são criados pelo uso intensivo dos chamados “defensivos agrícolas”, termo que a indústria utiliza para tentar atenuar os efeitos negativos das substâncias.

Soja, milho e cana, nesta ordem, comandam as aplicações. Uma relação exposta no mapa, que mostra um grande cinturão de intoxicações no centro-sul do país. São Paulo e Paraná aparecem em destaque em qualquer dos mapas, mas a professora adverte que não se pode desconsiderar a subnotificação no Mato Grosso, celeiro do agronegócio no século 21.

O veneno está na cidade

A conversa com o De Olho nos Ruralistas – durante gravação do piloto de um programa de TV pela internet – se deu em meio a algumas circunstâncias pouco alvissareiras para quem atua na área. Há alguns dias, a Rede Globo tem veiculado em um de seus espaços mais nobres, o intervalo do Jornal Nacional, uma campanha em favor do “agro”. Os vídeos institucionais têm um tom raríssimo na emissora da família Marinho, com defesa rasgada dos produtores rurais de grande porte.

“Querem substituir a ideia do latifúndio como atraso”, resume Larissa. Ela recorda que, além do tema dos agrotóxicos, o agronegócio é o responsável por trabalho escravo e desmatamento. E questiona a transformação do setor agroexportador em modelo de nação. “A alternativa que almejaríamos seria a construção de uma outra sociedade em que esse tipo de insumo não fosse utilizado. Almejamos uma agricultura agroecológica com base em uma ampla reforma agrária que revolucione essa forma de estar na sociedade.”

No mesmo dia da entrevista, o Diário Oficial da União trouxe a sanção, pelo presidente provisório, Michel Temer, da Lei 13.301. Em meio a uma série de iniciativas de combate à dengue e à zika, a legislação traz a autorização para que se realize pulverização aérea de venenos em cidades, sob o pretexto de combate ao mosquito Aedes aegypti. A medida recebeu parecer contrário do Departamento de Vigilância em Saúde Ambiental e Saúde do Trabalhador do Ministério da Saúde, posição que foi ignorada por Temer.

Larissa considera que a medida representa um grande retrocesso e demonstra preocupação pelo fato de a realidade exposta em seus mapas ser elevada a potências ainda desconhecidas quando se transfere um problema rural para as cidades. “O agrotóxico se dispersa pelo ar, vai contaminar o solo, vai contaminar a água. O agrotóxico não desaparece. Ao contrário, ele permanece.” Em outras palavras: o veneno voa e mergulha. Alastra-se. E tem longa duração.

Fonte – João Peres, De Olho nos Ruralistas de 22 de agosto de 2017

MP que libera agrotóxicos vai piorar o que já é ruim

Medida Provisória faz parte de acordo de Temer com ruralistas; Karen Friedrich a define como “uma temeridade”; Ibama aponta potencial cancerígeno

Para continuar tendo apoio da bancada ruralista, a Casa Civil se prepara para desengavetar uma Medida Provisória que altera as regras do uso de agrotóxicos no país. A proposta possibilita a autorização de substâncias cancerígenas. E, por isso, proibidas. É a avaliação de Karen Friedrich, pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), e do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), que soltou nota sobre o assunto:

– De acordo com a MP proposta, poderiam ser registrados no Brasil produtos com potencial cancerígeno ou capazes de provocar anormalidades fetais, entre outros efeitos graves, quando tiverem sido encontradas condições de uso apropriadas para reduzir o risco de ocorrência desses efeitos.

O Ibama criticou também a previsão de suspender a regra que só libera a aprovação de agrotóxicos que tenham – comprovadamente – uma ação tóxica menor ou igual à dos atuais.

O ministro da Agricultura, Blairo Maggi, disse ao Canal Rural que a ideia é ter um modelo baseado em risco, no qua Anvisa, Ibama e Agricultura estejam os três sempre de acordo. Mas a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) não se manifestou. O Ibama é contrário à medida que pretende alterar a lei 7.802/1989, que torna o conceito de “análise de risco” fator determinante para a permissão de novas substâncias.

Coquetel de agrotóxicos

A medida foi redigida pelo Ministério da Agricultura com a colaboração do setor agrícola e da indústria agroquímica. Karen Friedrich tem um posicionamento semelhante ao do Ibama:

– A MP vai piorar o que já é ruim. A Anvisa avalia os estudos toxicológicos conduzidos pela própria indústria que tem interesse em registrar o agrotóxico.

Segundo ela, os estudos são limitados porque são realizados com um agrotóxico por vez. Uma cobaia recebe a injeção de apenas um agrotóxico. Só que na lavoura, explica, o trabalhador rural aplica uma mistura de agrotóxicos. Ou passa um avião despejado uma série de agrotóxicos.

Em outras palavras: os brasileiros consomem, na alimentação, um coquetel de agrotóxicos. “A Anvisa já encontrou até dez agrotóxicos em um único alimento”, conta Karen. “Ou seja, essa mistura não é testada nos laboratórios para o registro. Se temos um agrotóxico com risco de causar câncer individualmente, na presença de misturas essa probabilidade pode aumentar”.

A pesquisadora, graduada em biomedicina com doutorado em toxicologia e saúde, vê com preocupação a falta de dialogo do governo e criticou também a ideia que circula no Palácio do Planalto, segundo reportagem de O Globo, de retirar a Anvisa do processo de autorização de novos agrotóxicos:

– É realmente uma temeridade essa MP passar condicionando o risco do agrotóxico a essa “avaliação de risco” em que algumas pessoas que trabalham em um órgão vão determinar o que é um risco aceitável ou inaceitável sem uma discussão mais ampla com a população e a comunidade científica se eles aceitam esse “risco”.

Ela conta que estudos recentes – e sofisticados – com populações expostas apresentaram efeitos proibitivos de registro. Mas a Anvisa “não teve condição técnica, iniciativa ou força política” para proibir os agrotóxicos. Foi o caso da atrazina, um dos mais utilizados no Brasil, proibido em outros países. E do acefato, igualmente proibido fora do país, mas por aqui liberado.

Autismo e Mal de Parkinson

Pelo menos seis substâncias utilizadas intensamente no campo estão em análise. São elas: 2,4-D, glifosato, paraquat, tiram, carbofurano e abamectina. Alguns novos relatórios são favoráveis ao banimento definitivo do glifosato, líder mundial de mercado, no mercado nacional. De acordo com Karen, há estudos que associam o glifosato ao autismo. E outros que vinculam o paraquat ao mal de Parkinson.

Outra ponto polêmico da MP é incluir, nos rótulos dos novos agrotóxicos, a expressão “nas condições recomendadas para uso”. O Ibama avalia que o país não tem estrutura para efetivar essa demanda. A pesquisadora da Fiocruz considera que a solução se transformaria rapidamente em um novo problema:

– Condicionar o risco do uso de agrotóxicos ao uso de equipamento individual é uma calamidade porque esses equipamentos são caros e difíceis de serem utilizados. Não é todo trabalhador que poderá comprar ou usar adequadamente, até pelas condições climáticas do país.

Um antigo cardápio

A ideia de contemplar uma antiga demanda da bancada ruralista não é nova. Em abril deste ano, o Estadão revelou, na reportagem MP pode afrouxar regras para agrotóxicosque a MP liberaria substâncias cancerígenas e teratogênicas (que põem em risco a formação dos fetos). Diante da repercussão negativa, Temer foi obrigado a engavetar a medida. Desta vez, porém, a proposta não teve a mesma repercussão na imprensa. Apenas uma notícia discreta no Canal Rural.

Quando o documento foi apresentado no começo do ano no Comitê Técnico de Assessoramento, integrado pelo Ibama, Anvisa e Ministério da Agricultura, encarregado de avaliar os critérios para uso de agrotóxicos no país, ele foi criticado pela falta de participação dos dois órgãos. Cabe à Anvisa analisar os impactos dos produtos na saúde e ao Ibama mensurar os efeitos dos agrotóxicos no ambiente.

Cada brasileiro consome anualmente um galão de cinco litros de agrotóxicos, segundo o Instituto Nacional do Câncer (Inca). De acordo com o El País, o Brasil ocupa, desde 2008, o primeiro lugar no ranking mundial de consumo de pesticidas. O Dossiê Abrasco: um alerta sobre o impacto dos agrotóxicos na saúde aponta que 70% dos alimentos in natura estão contaminados – e, segundo a Anvisa, 28% contêm substâncias não autorizadas.

De acordo com a reportagem Paraíso dos agrotóxicos, publicada na revista Ciência Hoje, 24 das 50 substâncias mais utilizadas no Brasil em 2012 estavam banidas nos Estados Unidos, Canadá, Europa e Ásia.

Mesmo com a bancada ruralista considerando a atual legislação “rígida”, o Brasil bateu um novo recorde de registros de agrotóxicos em 2016, com um crescimento de 375% em relação a 2015.

Segundo pesquisa do Ibope, 81% da população brasileira acha que a quantidade de agrotóxicos aplicados nas lavouras é “alta” ou “muito alta”.

Fonte – Cauê Seignemartin Ameni, De Olho nos Ruralistas de 03 de agosto de 2017

PL sobre agrotóxicos visa lucro e ignora questões sanitárias e ambientais

Projeto no Senado exclui Ibama e Anvisa da aprovação dos venenos; segundo Fátima Borghi, seria “pueril” imaginar que Ministério da Agricultura esteja apto para análises

As articulações para acelerar o registro de novos agrotóxicos no país não tramitam apenas nos corredores do Palácio do Planalto. Como no aceno da Casa Civil para desarquivar a MP dos Agrotóxicos e manter a bancada ruralista na base do governo. No Senado, por meio de outro atalho, o PL 209/2013, de autoria do ex-senador Ruben Figueiró (PSDB-MS), possui o mesmo objetivo: excluir os ministérios do Meio Ambiente e da Saúde do processo de análise toxicológica.

A procuradora regional da República Fátima Borghi considera a proposta incompatível com a cautela que o registro de novos agrotóxicos requer. E que ela é voltada apenas para saciar a sede do setor agroquímico. “A alteração se pauta em razões eminentemente financeiras e ignora as repercussões na área da saúde e do meio ambiente”, diz Fatima, em entrevista ao MPF no Rádio, a rádio do Ministério Público Federal (MPF).

Hoje, para a aprovação de novos agrotóxicos, é necessário que a substância passe por uma análise feita pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa). A análise toxicológica feita pela Anvisa e pelo Ibama calcula as consequências químicas na saúde e no meio ambiente.

DA RAPIDEZ À PRESSA

Os defensores do PL alegam que o objetivo da proposta é dar mais rapidez ao registro de novos produtos. Segundo eles, a aprovação de novo agrotóxicos costuma durar oito anos. Dados do Mapa mostram que cerca de 400 novos agrotóxicos são submetidos anualmente à analise. Só no ano passado, 277 novos agrotóxicos foram registrados.

A procuradora não tem uma posição contra quaisquer agrotóxicos. Ela concorda que a regularização de novos pesticidas seja lenta no Brasil, mas discorda que o atalho seja uma saída saudável. “O caminho para o aprimoramento não pode mitigar as normas de proteção e cuidado científico”, pondera Fátima Borghi.

Além disso, ela aponta outro problema:

– Não há no Mapa órgão especializado nas áreas de saúde e meio ambiente. Seria muito pueril, inocente, inconsequente e ilusório afirmar que o Mapa teria condições de fazer essas análises. De forma que essa centralização equivaleria na prática e de imediato a ausência de análises dos aspectos sanitários e ambientais.

De acordo com o Dossiê Abrasco: um alerta sobre o impacto dos agrotóxicos na saúde, 70% dos alimentos estão contaminados. Entre eles, segundo a Anvisa, 28% de substâncias não autorizadas. A reportagem Paraíso dos agrotóxicos, publicada na revista Ciência Hoje, aponta outra situação perigosa: 24 das 50 substâncias mais utilizadas no país em 2012 estavam banidas nos Estados Unidos, Canadá, Europa e Ásia.

Em 2016 o MPF elencou, em uma nota de repúdio, os pontos inconstitucionais do projeto. “É totalmente contrário à nossa Constituição Federal permitir que a análise dos agrotóxicos seja feita sob um viés unicamente da eficiência agronômica”, diz o documento.

‘ATAQUES DO AGRONEGÓCIO’

A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), o principal órgão de pesquisa ligado ao Ministério da Saúde, apontou – em carta sobre os perigos de mudanças na lei – o “processo em curso de desregulação sobre os agrotóxicos que atinge especialmente o setor da saúde e ambiente”. Segundo a Fiocruz, esses projetos estão associados “aos constantes ataques diretos do segmento do agronegócio às instituições e seus pesquisadores”.

A procuradora Fátima Borghi lembra que essa proposta anda em paralelo com outro projeto em tramitação na Câmara dos Deputados: o PL 3200/2015, do deputado Covatti Filho (PP-RS), que pretende revogar a Lei de Agrotóxicos (7.802/89), passando o nome de agrotóxicos para “defensivos fitossanitários e produtos de controle ambiental”.

Fonte – De Olho nos Ruralistas de 15 de agosto de 2017