Glifosato: o veneno está em todo lugar

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Altas doses do herbicida da Monsanto foram encontradas em alimentos nos EUA e consumidos em várias partes do mundo, inclusive no Brasil

O primeiro teste em alimentos para resíduos de glifosato realizado por laboratório registrado na Administração de Alimentos e Medicamentos dos Estados Unidos (FDA, na sigla em inglês) encontrou níveis alarmantes de contaminação em produtos dos mais tradicionais no país e mostrou o quão inadequada é a regulação dos resíduos de pesticidas. O estudo Glifosato: inseguro em qualquer prato, feito pelo laboratório de testes de segurança alimentar Aresco por solicitação do Food Democracy Now! e The Detox Project, reuniu também pesquisas independentes, realizadas em outros países, que chegaram aos mesmos resultados.

Glifosato é o herbicida mais consumido no mundo. O ingrediente ativo do Roundup da Monsanto é o “mata mato” mais pesadamente utilizado na agricultura industrial na história da humanidade – consequência da adoção generalizada de culturas transgênicas, hoje cultivadas em mais de 80% dos 70 milhões de hectares nos EUA e mais de 120 milhões de hectares em escala global. O Brasil cultivou uma área de 44,2 milhões de hectares de transgênicos na safra 2015-2016.

No meio urbano, o glifosato é usado na manutenção de gramados em parques, praças e condomínios. O mercado do herbicida foi avaliado em US$ 5,46 bilhões em 2012 e tem como meta chegar a US$ 8,79 bilhões até 2019.

Ingestão ‘inaceitável’

Os reguladores dos EUA consideram como Ingestão Diária Aceitável (IDA) de glifosato 1.75 miligramas por kilo do peso corporal (1.75 mg/kg/dia). Na União Europeia esse limite é de 0.3 mg/kg/dia. Esses níveis de tolerância foram definidos com base em estudos patrocinados pela próprias corporações fabricantes de agrotóxicos e mantidos em sigilo em nome do segredo industrial. Uma equipe de cientistas internacionais reclama um IDA muito mais baixo, de 0.025 mg/kg/dia – 12 vezes inferior ao definido atualmente na Europa e 70 vezes inferior ao permitido nos EUA.

A União Europeia aprovou sua comercialização até o fim de 2017, à espera das conclusões da Agência Europeia de Produtos Químicos, mas propôs restringir sua utilização em parques e outros espaços públicos. Uma campanha envolvendo organizações não governamentais de 15 países europeus luta para que essa permissão não seja renovada.

No Brasil o limite de ingestão é de 0.042 mg/Kg/dia, com um detalhe: o glifosato não está incluído nos testes da Anvisa para resíduos de agrotóxicos em alimentos, muito embora seja o mais consumido no país. Mais de 8 milhões de toneladas foram despejados nas terras brasileiras somente entre 2010 e 2014.

Novas evidências

As novas evidências científicas mostram que não há níveis seguros de glifosato para a saúde humana e animal. Os danos prováveis podem começar em níveis ultrabaixos, de 0.1 partes de glifosato por bilhão (ppb). Até mesmo 0.05 ppb podem provocam danos nos rins e fígado de ratos, pela alteração nas funções de 4.000 genes.

Os testes promovidos pela Food Democracy Now! revelaram que produtos alimentares muitos populares nos EUA e no mundo – como o salgadinho Doritos, da Pepsico, os flocos de milho da Kellogg’s e o biscoito Oreo, da Kraft Foods, por exemplo, muito consumidos também no Brasil – tiveram resultados entre 289,47 ppb e 1.125,3 ppb.

Danos causados pelo Glifosato/Roundup em números (ppb)
0,1 ppb: dano severo em órgãos de ratos
0,1 ppb: nível permitido de glifosato e todos os outros herbicidas na água de torneira na União Europeia
10 ppb: efeitos tóxicos no fígado de peixes
700 ppb: alterações em rins e fígado de ratos
700 ppb: nível permitido de glifosato na água de torneira dos EUA
11.900 ppb: encontrado em soja transgênica
1.125,3 ppb: encontrado na Cheerios da General Mills

As doenças

Desordens gastrointestinais, obesidade, diabetes, doenças cardíacas, depressão, autismo, infertilidade, câncer, mal de Alzheimer, mal de Parkinson, intolerância ao glúten. A lista dos males atribuídos à ingestão de glifosato não para de crescer. O estudo detalha algumas delas.

Câncer. A despeito da insistência da Monsanto de que o glifosato é perfeitamente seguro, “mais que sal de mesa”, um número crescente de estudos revisados pela comunidade científica está encontrando ligações entre glifosato e câncer. Em março de 2015, a Agência de Pesquisa sobre Câncer (IARC, na sigla em inglês) da Organização Mundial de Saúde (OMS) declarou ser o glifosato “provável causador de câncer humano”. A decisão foi baseada em pesquisas de 17 especialistas em câncer de 11 países, que reuniu-se para avaliar a carcinogenicidade de cinco pesticidas. A revisão do glifosato levou o Parlamento Europeu a proibir seu uso não-comercial em áreas públicas e restringir seriamente o uso na agricultura. A Monsanto é alvo de várias ações judiciais nos EUA, com base em avaliações de que o glifosato é o agente causador de câncer em fazendeiros, trabalhadores rurais, aplicadores do pesticida e outras pessoas expostas a ele com frequência. Há preocupação especial com relação aos seguintes tipos de câncer: Linfoma Não Hodgkin, câncer de osso, câncer do cólon, câncer de rim, câncer de fígado, melanoma, câncer do pâncreas, câncer de tiroide.

Alterações hormonais. Um número crescente de evidências científicas aponta o glifosato como desregulador endócrino. Há mais de duas décadas estudos vêm mostrando que mesmo um baixo nível de exposição a certos produtos químicos, o glifosato entre eles, podem alterar a produção e recepção de hormônios vitais para o corpo, podendo causar problemas reprodutivos, aborto, reduzir a fertilidade e que a mudança nos níveis hormonais podem resultar no início prematuro da puberdade, obesidade, diabetes, problemas com a função imune e comportamentais, como déficit de atenção e hiperatividade.

Efeito bactericida. Enquanto a Monsanto continua a negar qualquer impacto na saúde humana e animal, novas pesquisas geram crescente preocupação quanto aos prováveis efeitos do glifosato no equilíbrio do microbioma gastrointestinal, ou bactérias intestinais benéficas, enquanto aumenta o número de espécies patogênicas, podendo levar a problemas de saúde como a síndrome do intestino irritável e a intolerância a glúten. Um estudo pioneiro da Nova Zelândia descobriu, em 2015, que a exposição contínua ao Roundup pode levar bactérias a se tornar resistentes a antibióticos, um problema crescente para a saúde humana e animal.

Doenças crônicas. Cientistas descobriram que pessoas cronicamente doentes têm níveis “significativamente mais altos de glifosato na urina do que pessoas saudáveis”. Verificaram também que as pessoas com dieta convencional têm muito mais resíduos de glifosato do que aquelas que se alimentam com comida orgânica.

Imersos em veneno

O estudo da Food Democracy Now! mostra que o uso generalizado de glifosato nos EUA levou o veneno a espalhar-se livremente pelo ambiente. Nos últimos anos, foram descobertos resíduos do veneno na água e alimentos consumidos no dia a dia, na urina humana, no leite materno e na cerveja, entre outras substâncias. Vale lembrar que a contaminação dos alimentos não pode ser removida pela lavagem e não é eliminada com cozimento, congelamento ou processamento da comida.

Os níveis de Roundup e outros herbicidas com glifosato usados no agronegócio dos EUA são hoje tão altos que o órgão de Pesquisa Geológica dos EUA (U.S. Geological Survey – USGS) encontrou o veneno em mais de 75% das amostras de água da chuva no Meio-Oeste do país. A pulverização aérea de Roundup leva o herbicida às culturas e também aos corpos d’água e também às nuvens, pela evaporação, e elas podem precipitar-se em locais muito distantes da aplicação. O número crescente de “ervas daninhas” resistentes ao glifosato está levando fazendeiros a usar mais e mais herbicida contra as “superervas daninhas”.

Com base nos resultados desse estudo, o Food Democracy Now! está solicitando investigação federal sobre os prováveis danos causados à saúde humana e ambiental pelo herbicida glifosato e sobre a relação entre reguladores e indústrias reguladas – que resultou nos níveis alarmantes do herbicida a que a população está exposta, como demonstra crescente número de estudos científicos.

O relatório conclui afirmando que o único modo de evitar a contaminação por glifosato é comer alimentos cultivados organicamente. “Um estudo publicado em 2014 na Revista de Pesquisa Ambiental confirmou que famílias que adotaram uma dieta de orgânicos removeram, em não mais que uma semana, 90% dos pesticidas do seu corpo, o que foi comprovado por testes de urina”.

Inês Castilho – Jornalista e cineasta, estudou Ciências Sociais na USP e foi editora de meio ambiente da revista “Visão”, editora do semanário “Shopping News”, editora do jornal “Mulherio” e cofundadora do “Nós Mulheres”. Realizadora dos curtas-metragens “Histerias” e “Mulheres da Boca”, integra desde 2012 a equipe do “Outras Palavras”. É repórter, redatora e tradutora em “De Olho Nos Ruralistas”.

Fonte – De olho nos ruralistas de 06 de março de 2017

Relatório da ONU denuncia “mito” de que pesticidas são essenciais para alimentar o mundo

Segundo um novo relatório elaborado por especialistas da ONU em alimentação e poluição, a ideia de que os pesticidas são essenciais para alimentar a população mundial crescente é um mito.

O relatório, apresentado na quarta-feira ao Conselho de direitos humanos da ONU, acusa as corporações mundiais que fabricam pesticidas de negarem sistematicamente os danos causados pelos seus produtos, de “táticas de marketing pouco éticas e agressivas”, de transferirem a culpa dos impactos evitáveis dos pesticidas para os utilizadores, assim como de uma intensa atividade de lobbying junto dos governos, que tem “impedido reformas e paralisado restrições” à utilização destes produtos.

Os pesticidas têm “impactos catastróficos no ambiente, na saúde humana e na sociedade como um todo”, estimando-se que, por ano, morram 200 mil pessoas vítimas de envenenamento agudo. “É chegada a altura de se criar um processo global de transição para uma produção agrícola e alimentar mais segura e saudável”, dizem os autores do trabalho
Embora a indústria dos pesticidas – cujo mercado vale 47 bilhões de euros por ano – defenda que os seus produtos são essenciais para a proteção das culturas e o abastecimento de alimentos para uma população mundial crescente (que alcançará os 9 mil milhões de habitantes até 2050), os autores do relatório contra-argumentam estas alegações.

É um mito. Usar pesticidas nada tem a ver com acabar com a fome. De acordo com a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), já conseguimos alimentar 9 mil milhões de pessoas hoje em dia. A produção está definitivamente a aumentar, mas o problema é a pobreza, a desigualdade e a distribuição”, declarou Hilal Elver, relatora especial da ONU para o direito à comida, acrescentando que muitos pesticidas são usados em plantações de produtos como o óleo de palma e não na comida necessária para acabar com a fome.

“Apesar de a investigação científica confirmar os efeitos adversos dos pesticidas, é um desafio considerável provar uma ligação definitiva entre a exposição e os problemas de saúde nos seres humanos ou danos nos ecossistemas. Este desafio tem sido exacerbado por uma negação sistemática, impulsionada pela indústria dos pesticidas e pela agro-indústria, da magnitude dos danos infligidos por estes químicos e por táticas de marketing pouco éticas e agressivas”, diz o relatório.

“O poder que as corporações têm sobre os governos e sobre a comunidade científica é extremamente importante”, disse Hilal Elver ao The Guardian. “Se se quer lidar com os pesticidas, tem de se lidar com as empresas – é por isso que [usamos] estas palavras duras. Elas dirão, naturalmente, que não é verdade, mas existem os testemunhos das pessoas.”

Embora alguns países desenvolvidos tenham normas “apertadas” para o uso de pesticidas, apenas 35% dos países em desenvolvimento têm um regime regulamentar para o uso destes químicos. O relatório descobriu ainda a produção de pesticidas para exportação em países nos quais a sua utilização já foi proibida.

O trabalho recomenda a criação de um tratado global para gerir a utilização de pesticidas, uma viragem para práticas sustentáveis, incluindo métodos naturais para controlar as pragas e a rotação de culturas, e o incentivo à produção de alimentos biológicos.

“A indústria utiliza frequentemente o termo ‘uso indevido intencional’ para transferir a culpa dos impactos evitáveis dos pesticidas perigosos para o utilizador”, diz o trabalho. “No entanto, a responsabilidade pela proteção dos utilizadores e de outros ao longo do ciclo de vida do pesticida e ao longo da cadeia de retalho é claramente do fabricante do pesticida.”

“A exposição crónica aos pesticidas tem sido associada ao cancro, à doença de Alzheimer e de Parkinson, à disrupção hormonal, a problemas de desenvolvimento e esterilidade.” Igualmente exposto no relatório está o risco para as crianças da contaminação da comida por pesticidas, que levou a 23 mortes na Índia, em 2013, e 39 na China, em 2014.

Fonte – UniPlanet de 08 de março de 2017

Estudo identifica agrotóxicos mais frequentes em alimentos consumidos no Brasil

Foto: Agência BrasilDe acordo com estimativas, o brometo de metila é o agrotóxico mais encontrado nos alimentos consumidos rotineiramente pela população brasileira – Foto: Agência Brasil

Entre as substâncias autorizadas no País está o brometo de metila, utilizado como inseticida e para o controle de pragas

A dieta dos brasileiros é rica em agrotóxicos, inclusive os mais tóxicos. Ao cruzar os dados sobre o que come habitualmente a população brasileira com a lista de agrotóxicos autorizados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) a serem aplicados na cultura desses alimentos, pesquisa realizada na USP identificou 68 compostos que excediam o valor de ingestão diária aceitável de acordo com limites estabelecidos pela própria Anvisa.

Entre os 283 agrotóxicos verificados, o brometo de metila (BM) – pertencente à classe dos inseticidas, formicidas e fungicidas e listado como extremamente tóxico – foi a substância com maior estimativa de frequência nos alimentos. Os resultados fazem parte da dissertação de mestrado de Jacqueline Mary Gerage, defendida na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da USP, em 2016. A ideia foi avaliar o risco de exposição crônica de agrotóxicos na dieta da população, sabendo-se do uso regular dessas substâncias em cultivos como arroz, feijão, soja e frutas.

A mesma substância também foi identificada por meio de outra pesquisa da Esalq, cujo enfoque foi estimar a ingestão de agrotóxicos a partir da dieta dos alunos das escolas urbanas da rede municipal de ensino da cidade de Guariba, interior de São Paulo. Os dois trabalhos tiveram a orientação da professora Marina Vieira da Silva, do Departamento Agroindústria, Alimentos e Nutrição da Esalq.

Foto: Gilberto Marques/SEE-SPAlimentos potencialmente contaminados por agrotóxicos autorizados também estão na dieta de alunos da rede pública de ensino – Foto: Gilberto Marques/SEE-SP

O BM é um gás que age como inseticida para desinfestação de solo, controle de formigas e fumigação de produtos de origem vegetal. Mata insetos, fungos e bactérias, ervas daninhas ou qualquer outro ser vivo presente no solo. Embora tenha esta utilidade na agricultura, Jacqueline relata que o produto é altamente prejudicial à saúde humana e ao meio ambiente. “Seu uso está em descontinuação global por causar danos à camada de ozônio e provocar riscos à saúde de trabalhadores rurais e moradores de regiões próximas às áreas de produção agrícola.” Em 1990, na assinatura do Protocolo de Montreal, houve um comprometimento de 180 países para diminuir o uso de produtos semelhantes ao BM na agricultura. O Brasil aderiu ao tratado internacional com a promessa de diminuir gradualmente o manejo ao longo dos anos.

Passo a passo

Baseada em dados da Pesquisa de Orçamentos Familiares de 2008/2009 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Jacqueline obteve os alimentos que compunham a dieta habitual de 33.613 brasileiros, com idade superior a dez anos. Foram considerados 743 itens alimentares. Em seguida procurou saber da Anvisa, a quantidade de agrotóxicos que era autorizada para alimentos que compunham o banco de pesquisa, chegando a 283 compostos. Destes, Jacqueline verificou que 68 excediam o valor máximo permitido pela agência.

Protesto no Dia Internacional de Luta contra os Agrotóxicos (2014) - Foto: Fernando Frazão/Agência BrasilProtesto no Dia Internacional de Luta contra os Agrotóxicos (2014) – Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Para avaliar a exposição da população aos agrotóxicos, foi aplicado o cálculo de Ingestão Diária Máxima Teórica (IDMT), que relaciona o consumo médio dos alimentos e as concentrações médias de agrotóxicos. O resultado obtido do cálculo IDMT foi então comparado ao parâmetro de Ingestão Diária Aceitável (IDA), para caracterização do risco de exposição. Apresentando valores acima do Limite Máximo de Resíduos (LMR), os índices eram considerados preocupantes. Periodicamente, a Anvisa publica informações técnicas sobre os agrotóxicos autorizados para uso no Brasil.

Apesar de este tipo de exposição não ter sido avaliado por meio da pesquisa, a especialista ressalta que na área rural há também os riscos de intoxicação aguda envolvidos com a aplicação destes produtos, ao inalar ou manipulá-los diretamente.

Já a pesquisa Ingestão de resíduos de agrotóxicos potencialmente contidos na dieta habitual de escolares foi conduzida pela nutricionista Ana Paula Gasques Meira, aluna da Pós-Graduação da Esalq, com base em informações disponíveis e na análise de dados locais que levantou. Os resultados obtidos em Guariba, cidade do interior de São Paulo, seguiram a tendência das informações observadas nacionalmente: o brometo de metila se confirmou como uma das maiores médias de ingestão. Nesta pesquisa, participaram 341 crianças e adolescentes, com idade entre 7 e 16 anos.

Dos 9 agrotóxicos cujo consumo se estima superar os limites da Anvisa…

Mais informações com Ana Paula Gasques Meira – e-mail anapuava@gmail.com; e Marina Vieira da Silva – e-mail marinavieiradasilva@usp.br

Com colaboração de Caio Albuquerque/ Divisão de Comunicação da Esalq

Fonte – Ivanir Ferreira, Editorias Ciências Agrárias, Ciências da Saúde, Jornal da USP de 06 de dezembro de 2016

Ecologistas prestam pouca atenção nos químicos sintéticos, diz estudo

(Foto: Stockphoto.com/SCA)

Produtos utilizados nos fertilizantes, por exemplo, têm grande impacto ambiental, mas não costumam motivar pesquisas

Produtos químicos sintéticos podem alterar os processos ecológicos, embora poucos cientistas estejam estudando o papel deles na mudança ambiental global. É o que diz um grupo de pesquisadores alemães e estadunidenses num artigo científico publicado em janeiro no jornal Frontiers in Ecology and the Environment.

A humanidade aumentou a produção de químicos, nas décadas recentes, de forma mais rápida do que ocorreu no caso de outras mudanças planetárias, na terra,  no ar e na água, como o aumento do dióxido de carbono na atmosfera e a destruição de habitats. Ainda não está estudando, no entanto, as consequências ecológicas dos contaminadores químicos. Menos de 2% dos financiamentos de uma das principais fontes de financiamento nos Estados Unidos e dos estudos publicados nos principais jornais ecológicos e apresentados nos encontros internacionais se referem ao estudo de químicos sintéticos.

Os pesquisadores analisaram tendências desde os anos 1970 na quantidade e número de diferentes químicos sintéticos. Eles utilizaram o valor global de mercado como um equivalente da quantidade total de químicos produzidos.

“A taxa de aumento na produção e na diversidade de farmacêuticos e pesticidas supera a dos mais reconhecidos agentes de mudança global e compete com a taxa de aumento do uso mundial de fertilizantes”, assinala a equipe liderada pela ecologista Emily Bernhardt, da Duke University. Os pesquisadores não informaram a quantidade de químicos que contaminam o ambiente.

Químicos sintéticos são uma das marcas da era moderna. Alguns deles e de seus derivados degradam lentamente. Eles podem entrar na cadeia alimentar e criar problemas de longo prazo para o ambiente. Outros químicos, ainda que se diluam rapidamente, são tão ubíquos que oferecem risco constante de impacto ambiental.

Apesar das recomendações ambientais sobre a rápida proliferação dos químicos sintéticos, concluíram os pesquisadores, os cientistas raramente estudam seus impactos ecológicos. Menos de 1% dos estudos ecológicos publicados nos últimos 25 anos mencionaram esses produtos, conforme uma amostra das 20 principais publicações ecológicas. Em uma conferência internacional, em 2015, 1,3% das apresentações mencionaram esses contaminadores. E apenas 0,006% dos financiamentos atuais da U.S. National Science Foundations Division of Environmental Biology — fonte importante para os ecologistas estadunidenses — voltaram-se para os estudos dos efeitos dos químicos sintéticos no ambiente. Houve apenas um financiamento de US$ 20 mil.

Os pesquisadores dizem que o “gap de conhecimento” resultante pode tornar mais difícil atingir metas de sustentabilidade como a saúde dos oceanos e a proteção da biodiversidade. Eles defendem que a NSF financie mais pesquisas ecológicas sobre contaminantes – especialmente aquelas que indaguem como a poluição química se relaciona com os efeitos de outros agentes, como o aumento das temperaturas, nas plantas e animais.

Por Lindsey Konkel – Ensia / De olho nos ruralistas de 13 de fevereiro de 2017

Projeto de Lei 6670: chega de agrotóxicos!

Voluntária do Greenpeace oferece tomate com agrotóxico a deputado
Cada vez mais próxima de se tornar realidade, política para redução de pesticidas no campo e na comida dos brasileiros vai tramitar em Comissão Especial

A presidência da Câmara dos Deputados assinou ontem (7) a criação de uma Comissão Especial para analisar a Política Nacional de Redução de Agrotóxicos (PNARA), o Projeto de Lei (PL) 6670/16. Com isso, o texto passa a tramitar em regime de prioridade.

A PNARA, uma iniciativa popular de organizações e entidades da sociedade civil, foi apresentada ao Congresso Nacional em novembro de 2016. Para isso, voluntários do Greenpeace serviram tomate aos congressistas com um “toque” de agrotóxico – eles usavam um borrifador com água para fingir espirrar veneno no tomate, uma alusão ao prato do brasileiro. Muitos deputados recusaram a fruta.

Na ocasião, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM/RJ), demonstrou simpatia com o projeto de redução de agrotóxicos. “Vamos trabalhar para criar uma Comissão Especial, para que a gente faça esse debate num ambiente exclusivo para discutir o tema, que é urgente na vida das famílias brasileiras”, afirmou Maia.

Logo no mês seguinte, em dezembro do ano passado, a matéria foi aprovada pela Comissão de Legislação Participativa da Câmara dos Deputados, se transformando no PL 6670/16. E agora, como prometido, Rodrigo Maia assina ato de criação de uma Comissão Especial para julgar o mérito da Política Nacional de Redução de Agrotóxicos.

“Essa é uma iniciativa de um conjunto de organizações da sociedade civil, ou seja, representa o que a população brasileira quer. Segundo pesquisa IBOPE, 81% dos brasileiros consideram que a quantidade de agrotóxicos aplicados nas lavouras é ‘alta’ ou ‘muito alta’. O Brasil é um dos campeões no uso destas substâncias. Precisamos começar a debater uma transição visando uma redução drástica do uso de pesticidas”, afirma Marina Lacorte, da Campanha de Agricultura e Alimentação do Greenpeace Brasil.

Entenda a PNARA

Em linhas gerais, a proposta trata de reduzir progressivamente o uso de agrotóxicos na produção agrícola, pecuária, extrativista e nas práticas de manejo dos recursos naturais, contribuindo para a promoção da saúde e sustentabilidade ambiental, com a produção de alimentos saudáveis.

Entre os objetivos da política está reduzir, gradual e continuamente, a disponibilidade, o acesso e o uso de agrotóxicos; promover a avaliação, o controle, a fiscalização e o monitoramento de resíduos de pesticidas; desestimular economicamente o uso de pesticidas e estimular os sistemas de produção sem químicos; estimular o desenvolvimento e implementação de práticas de manejo sustentável e agroecológico e criar zonas de uso restrito de agrotóxicos e zonas livres da influência de pesticidas e transgênicos.

Baixe aqui o texto completo da Política Nacional de Redução de Agrotóxicos.

Porém… tem quem deseje mais agrotóxicos…

A iniciativa popular se apresenta como contraponto ao PL 6299/2002, de autoria do senador Blairo Maggi (PP/MT). A proposta de Maggi, aprovada pelo Senado, já circula na Câmara e coloca em risco a atual legislação de agrotóxicos (Lei 7.802/89), causando seu desmonte e facilitando ainda mais a liberação e uso dessas substâncias para um dos maiores consumidores de pesticidas do mundo, o Brasil.

“Por isso é de extrema importância apoiar a tramitação e a aprovação da PNARA. Hoje temos diversas ameaças visando enfraquecer a Lei de Agrotóxicos no Congresso Nacional, e essa proposta de redução gradual de pesticidas nas lavouras brasileiras, que é uma iniciativa da sociedade civil, está se tornando cada vez mais próxima de se tornar realidade”, defende Lacorte.

A primeira reunião da Comissão Especial não foi marcada, mas pode acontecer ainda esse mês e terá como pauta a eleição do presidente da comissão e do relator dos trabalhos.

Fonte – Greenpeace de 08 de fevereiro de 2017

Temer antecipa ‘pacote do veneno’ e proíbe Anvisa de se manifestar sobre agrotóxicos

pacote veneno.jpgRecorde: em 2016 foram registrados 277 novos agrotóxicos, uma alta de 374% em relação ao ano anterior

Ministério da Agricultura assume controle das informações sobre venenos já registrados. Pasta dirigida por Blairo Maggi vai excluir Anvisa e Ibama e controlar sozinha registro de novos agroquímicos

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), subordinada ao Ministério da Saúde, não presta mais informações a respeito de agrotóxicos, inclusive sobre aqueles registrados antes de 2016. A informação é da assessoria de imprensa da agência. Indagada na tarde da quarta-feira (1º) sobre as substâncias registradas ano passado – um recorde, segundo nota do Ministério da Agricultura (Mapa) –, limitou-se a informar que os questionamentos devem ser encaminhados diretamente à Agricultura.

No último dia 10, o Mapa divulgou que foram registrados 277 novos agroquímicos, um recorde histórico segundo o próprio ministério. Do total, 161 são produtos técnicos equivalentes (PTEs) – os chamados genéricos –, o que corresponde a alta de 374% em comparação a 2015, quando foram registrados 43 PTEs, além de 139 novos produtos. A média histórica anual é de 140 registros.

No anúncio do recorde, o coordenador geral de agroquímicos e afins do Mapa, Júlio Sergio de Britto, observou “grande evolução na qualidade e no número de produtos ofertados, graças ao esforço dos técnicos dos ministérios da Agricultura, da Saúde (Anvisa) e do Meio Ambiente (Ibama)”.

Anvisa recebe solicitações de informações sobre facilidades dada pelo governo Temer à indústria de agrotóxicos, ainda sem resposta

Até a conclusão desta reportagem, a assessoria de imprensa do ministério que abrange ainda a Pecuária e o Abastecimento, cujo titular é o ruralista Blairo Maggi, o “rei da soja”, não havia respondido à solicitação de informações.

Ação coordenada

Para especialistas da área, a mudança no controle das informações faz parte de uma ação coordenada por representantes do agronegócio que trabalham para acelerar a tramitação e aprovação de projetos de lei que compõem o chamado pacote do veneno. São projetos que, entre outras coisas, vão facilitar a aprovação, o registro, a comercialização, a utilização, o armazenamento e o transporte de agrotóxicos, aumentando a presença dessas substâncias nas lavouras brasileiras.

“O controle de informações no Mapa ocorre paralelamente a outras medidas em curso, sugerindo que o ‘pacote do veneno’ está sendo implementado mesmo antes de ter sido aprovado no Congresso e sancionado por Temer”, diz o coordenador da Campanha Permanente contra os Agrotóxicos e pela Vida – Agrotóxico Mata, Alan Tygel.

O “pacote” inclui o Projeto de Lei (PL) 3.200/2015, do deputado federal Luis Antonio Franciscatto Covatti (PP-RS), que praticamente revoga a atual lei de agrotóxicos. Para ambientalistas, promotores federais, movimentos sociais e defesa do consumidor, a proposta é um retrocesso. Veta o termo “agrotóxico”, substituindo por “fitossanitário”, e cria a Comissão Técnica Nacional de Fitossanitários (CTNFito) no âmbito do Mapa.

Estão entre as prerrogativas dessa nova comissão apresentar “pareceres técnicos conclusivos aos pedidos de avaliação de novos produtos defensivos fitossanitários, de controle ambiental, seus produtos técnicos e afins”. O colegiado também indicará os 23 membros efetivos e suplentes, deixando de fora representantes dos consumidores, da Anvisa e do Ibama – um ataque aos princípios da precaução, conforme os críticos.

Também no “pacote” está o PL 6.299/2002, do então senador Blairo Maggi, que altera regras para a pesquisa, experimentação, produção, embalagem e rotulagem,  transporte,  armazenamento, comercialização, propaganda, utilização, importação, exportação, destino final dos resíduos e embalagens, registro, classificação, controle, inspeção e  fiscalização. Se for aprovado, a embalagem dos agroquímicos deixará de ter, por exemplo, a presença da caveira – símbolo de veneno conhecido universalmente, até mesmo por pessoas analfabetas e crianças.

“São alterações que vão afrouxar ainda mais as normas, como proibir apenas os venenos que causem intoxicação aguda, aquelas que ocorrem imediatamente à exposição ao produto. No entanto, estudos mostram que há intoxicações crônicas, que surgem tempo depois, pela exposição continuada a essas substâncias no ambiente de trabalho ou pelo acúmulo de substâncias nocivas no organismo depois de anos consumindo alimentos com agrotóxicos”.

Segundo Tygel, estudos recentes associam a exposição a agrotóxicos com o surgimento do Mal de Parkinson, doença degenerativa do sistema nervoso central, crônica e progressiva, que ocorre pela queda da produção de dopamina, neurotransmissor envolvido no fluxo de informação entre os neurônios. Já está estabelecido em estudos neurocientíficos que esta diminuição está associada a causas ambientais, e não apenas genéticas.

Omissão

A Campanha Permanente não estranha a submissão da Anvisa ao agronegócio e considera a agência omissa na defesa da saúde da população. Desde 2012 não divulga o Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos (Para), e em 2016 nem sequer coletou amostras de alimentos. Além disso, não avalia a presença de venenos em alimentos como carne, leite, ovos, industrializados para alimentação infantil e de adulto e água mineral, suspendeu a fiscalização das indústrias de agrotóxicos, não consolida nem divulga dados sobre esse mercado.

Outros aspectos graves são a lentidão nas reavaliações iniciadas em 2008, com resultados questionáveis, a falta de previsão de novas reavaliações apesar de decisões internacionais importantes sobre seus efeitos à saúde, de participação da sociedade civil nos processos decisórios,

Os sistemas informatizados para permitir organização, divulgação e acesso a dados seguem sem conclusão, fazendo com que a Anvisa descumpra integralmente a Lei de Acesso à Informação.

Coquetel venenoso

Presidente da Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (Agapan) e integrante da Associação  Brasileira de Agroecologia, o agrônomo Leonardo Melgarejo destaca a prevalência do viés comercial em detrimento da preocupação com a saúde nesse recorde de registros. “Não temos tamanha variedade de insetos e ervas daninhas que exijam tamanha diversidade de venenos”, diz.

E aponta falhas metodológicas. “No caso dos venenos genéricos, há uma confusão. Passam a ideia de que se trata de algo semelhante aos remédios, onde o princípio ativo é o que interessa. No caso dos agrotóxicos, devemos nos preocupar com os químicos utilizados no coquetel colocado à venda, junto com o princípio ativo”, afirma.

Conforme exemplifica, o herbicida 2,4-D contém entre as impurezas um grupo de substâncias, as dioxinas. Extremamente perigosas, estão entre os agentes cancerígenos. Além disso, há outros produtos associados igualmente tóxicos, que têm a função de desintegrar a gota de agrotóxico em contato com as folhas das plantas, facilitando sua absorção e a ação tóxica.

“Sem contar aqueles resultantes da transformação destes e de outros componentes, seja pela metabolização da planta, como o AMPA, a partir da aplicação do glifosato, pela ação do sol, de elementos químicos que compõem o solo”, destaca o agrônomo. “Estes subprodutos do princípio ativo e dos demais componentes geram novos riscos de combinações e sinergias perigosas. Portanto, liberar o uso de um agrotóxico sem estudos, apenas baseado na afirmação de que outros com o mesmo princípio ativo, com efeito similar, já foram aprovados, vale para o agronegócio mas não vale para a saúde e nem para o meio ambiente.”

Na avaliação de Melgarejo, a decisão da pasta conduzida por Blairo Maggi deveria ser repudiada pelo Ministério da Saúde e pelo Ministério do Meio Ambiente. “Nós, ambientalistas, consideramos que esta decisão só poderia ser tomada em um governo que não tem compromissos com o futuro. Quanto mais barato for um agrotóxico genérico, maior será o risco de problemas associados aos demais componentes, mesmo que o princípio ativo corresponda ao que se verifica em todas as formulações. São os trabalhadores rurais, os agricultores e os consumidores que verificarão isso no futuro.”

Fonte – Cida de Oliveira, Rede Brasil Atual de 03 de fevereiro de 2017

Líder mundial no uso de agrotóxicos, Brasil aumentou utilização de defensivos agrícolas em 190% em 10 anos

Líder mundial no uso de agrotóxicos, Brasil aumentou utilização de defensivos agrícolas em 190% em 10 anos

Desde 2008, o Brasil ocupa a incômoda liderança no ranking mundial de uso de agrotóxicos. De acordo com a Anvisa, nos últimos 10 anos, a utilização mundial desse tipo de substância aumentou 93%. No Brasil, o salto foi ainda maior: 190% (!!). 130 mil toneladas de defensivos agrícolas são utilizados no país todos os anos.

Mas, felizmente, o uso exagerado de agrotóxicos não é unanimidade no Brasil. Existem excelentes iniciativas de cultivo orgânico país afora que merecem ser compartilhadas – como a do agricultor Jelson Turetta, de Foz do Iguaçu (PR). Ele trabalha há mais de 40 anos com agricultura, mas há 20 decidiu iniciar uma lavoura de forma 100% orgânica.

“Meus filhos começaram a colher as verduras para consumo próprio. Aí comecei a ter mais cuidado. Há uns 15 anos, eu fiz um curso de orgânica e aperfeiçoei mais o que eu já sabia na prática. Desde então estamos produzindo sem o uso de química e veneno”, explica.

No dia a dia, ele sente as diferenças entre os dois tipos de cultura: “Você entra na lavoura e sabe que não tem contaminação. Você pode colher um tomate e comer ali mesmo, no máximo você vai ingerir terra – mas não vai ingerir veneno, nem química”, brinca.

Ps 1: Pensando em conter o uso exagerado de defensivos agrícolas, em 1991, o dia 11 de janeiro foi estabelecido como o Dia do Combate à Poluição por Agrotóxicos. O decreto determinava mais controle e rigor nas fiscalizações de uso desses produtos. Em 2002, ele foi ampliado e passou a requisitar prescrição e orientação técnica para que pudesse ser utilizado. Mas, na prática, pouca coisa mudou…

Ps 2: Em dezembro, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento determinou que 63 produtos atualmente utilizados para o controle de ferrugem asiática sejam suspensos. Isso significa que esses fungicidas podem continuar sendo vendidos, mas não podem mais ser utilizados para o controle da doença. A medida está publicada no Diário Oficial da União e a lista dos produtos suspensos pode ser consultada aqui.

Fontes – Web Rádio Água / The Greenest Post de 16 de janeiro de 2017

Vigilância Aos Agrotóxicos, Parte 3/3

PIGNATI et. al. (2014), registra que esta estratégia de se analisar a produção agropecuária, o uso de agrotóxicos e seus efeitos na saúde-ambiente, contribuirá para a produção de informações que subsidiarão estratégicas de precaução de impactos e de prevenção nas ações de vigilância em saúde.

Tanto em saúde do trabalhador, como ambiental, sanitária e epidemiológica e colaborarão na reflexão do modelo de desenvolvimento executado no Brasil pelos Governos e empreendedores agrários, a qual impacta os trabalhadores e o ambiente.

Como por exemplo, as previsões de contaminação ambiental e intoxicações humanas poderão ser inferidas conforme o tipo de lavoura predominante no município (soja, milho, cana e algodão), os tipos de agrotóxicos utilizados e suas toxidades agudas e crônicas, servindo de alerta aos agentes da vigilância em saúde.

Estes dados, em conjunto com a estimativa de periodicidade de uso, são importantes também para a identificação dos meses de maior emprego nas comunidades com maior probabilidade de exposição.

Também estabelecerão prioridades para as atuações conjuntas de prevenção e monitoramento dos órgãos públicos (Saúde, Agricultura e Ambiente), sociedade civil e populações expostas. E vão colaborar na previsão de “eventos sentinelas”, em toda a rede assistencial (hospitais, PS, PSF e ambulatórios).

Com os dados de prováveis de intoxicações agudas e crônicas e contaminação ambiental e alimentar, os municípios, complementando com suas informações socioeconômicas locais, poderão construir um mapa dos possíveis impactos gerados pelo uso dos agrotóxicos com localização das comunidades rurais e urbanas mais ou menos vulneráveis.

E com participação da representação dos trabalhadores e população, se poderá implementar processos de conhecimento, discussão da situação sanitária e organização da sociedade para executar uma vigilância a saúde efetiva como relatado por PIGNATI et al. (2011), AUGUSTO et al. (2012) e RIGOTTO et al. (2012) ou como proposto por PORTO e SOARES (2012) ou por MACHADO (2011).

Na produção de “informação para a ação” e para aumentar as evidências científicas dos impactos dos agrotóxicos na saúde, pode-se conformar uma matriz de produção agrícola, uso de agrotóxicos e incidência de agravos de uma série histórica dos últimos dez anos, de cada unidade federada, como apresentado em PIGNATI e MACHADO (2011) e PIGNATI et al. (2011).

Esses autores verificaram os dados de morbi-mortalidade numa matriz de produção e agravos, em série histórica de 10 anos (2001 a 2012), mostrando a correlação da produção (hectares por habitante), a exposição aos agrotóxicos (litros por habitante) e as incidências de agravos correlacionados.

Também foi evidenciado por FÁVERO (2.011), a correlação do uso de agrotóxicos nas lavouras e o aumento das incidências de doenças pulmonares agudas em crianças menores de 5 anos atendidas nas Unidades de Saúde nos períodos de safra da soja, milho e algodão.

Vários agrotóxicos são alergênicos e irritantes pulmonares. Além disso, este estudo também demonstra que quanto mais perto das lavouras se situavam as residências das crianças, maior era o nível endêmico das patologias do trato respiratório.

Esta problematização de riscos, também servirá para prever a contaminação do leite materno das mães (trabalhadoras rurais e urbanas) que amamentam num determinado município, conforme PALMA (2011).

Ou a contaminação do sangue e urina de professores das escolas rurais rodeadas de lavouras ou na periferia da cidade, os quais se expõem aos agrotóxicos via ar, água potável e chuva descritos em MOREIRA et al. (2012) e BELO et al. (2012).

Nas observações dos estudos acima, se verificou que as pulverizações daqueles 140,8 milhões de litros de agrotóxicos por avião e trator eram realizadas a menos de 10 metros de fontes de água potável, córregos, de criação de animais e de residências.

Essas distâncias desrespeitavam o antigo Decreto de Mato Grosso n.2283/09 que proibia a pulverização por trator a 300 metros ou o atual Decreto de Mato Grosso n 1.651/13 que cancelou o anterior, mas que proíbe pulverização por trator a 90 metros daqueles locais.

Também desrespeitavam a Instrução Normativa do MAPA nº 02/2008 que proíbe pulverização aérea a 500 metros de fontes de água potável, córregos, de criação de animais e de residências.

Portanto, além de não se respeitar as legislações e as normas de pulverização de agrotóxicos, o Governo pouco fiscaliza e ainda amplia os riscos, diminuindo a margem operacional de pulverização proibida, por trator, de 300 para 90 metros.

As informações produzidas são importantes também para os processos de educação em saúde junto às populações expostas, trabalhadores e entidades componentes do controle social visando o fortalecimento das ações de vigilância.

Da mesma forma, poderão subsidiar ações integradas dos órgãos de fiscalização da agricultura, meio ambiente, trabalho, saúde, entre outros, que são fundamentais para o avanço da vigilância dos impactos dos agrotóxicos.

Tanto em níveis locais quanto regionais e na busca da diminuição progressiva de seu uso, caminhando na direção da transição de outro modelo agropecuário que poderá ser o agroecológico, como propõe a Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e pela Vida.

Neste sentido, a Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e pela Vida desenvolve no Brasil e na América Latina, ações de vigilância em saúde popular e participativa que propõe o cumprimento da legislação.

Além de proibir as pulverizações por avião, proibir o uso no Brasil dos agrotóxicos proibidos na União Europeia, fim dos subsídios públicos a esses venenos, implantação nos municípios de Vigilâncias à Saúde dos trabalhadores, do ambiente e dos expostos aos agrotóxicos, transição para a agroecologia e busca do desenvolvimento sustentável.

Tornar efetivas as ações de vigilância à saúde no Brasil envolve processos e práticas interinstitucionais e participativas que incorporem informações de impactos sociais, ambientais e de saúde relacionados ao processo produtivo agropecuário e à exposição ocupacional, alimentar, ambiental e populacional aos agrotóxicos.

Essa estratégia corrobora com um modelo de vigilância em que devem ser fortalecidas as ações de promoção de saúde aliadas às estratégias de transição agroecológica ao se estabelecer ações sistemáticas e integradas de substituição dos agrotóxicos e fertilizantes químicos por outras práticas de aumento da produção de alimentos e controle de doenças agropecuárias, segundo PIGNATI et. al. (2014).

Referências

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Dr. Roberto Naime, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em Geologia Ambiental. Integrante do corpo Docente do Mestrado e Doutorado em Qualidade Ambiental da Universidade Feevale.

Fonte – EcoDebate de 18 de novembro de 2016

Vigilância Aos Agrotóxicos, Parte 2/3

PIGNATI et. al. (2014) detalha que o consumo de agrotóxicos por hectare de lavoura de soja tem variado de 7,5 a 16,8 litros, sendo que na lavoura de milho variou de 3,0 a 9,6 litros por hectare e para o cultivo de cana-de-açúcar varia de 3,7 a 7,6 litros por hectare e na cultura de algodão, o consumo variou de 17,5 a 44,9 litros por hectare.

Isto se deve a diversos fatores, como a infestação maior ou menor de patologias agrícolas, aumento da resistência das pragas aos agrotóxicos e também porque algumas plantas transgênicas, usam maiores quantidades de pesticidas que as tradicionais.

Os dados mostram que um hectare de soja consume em média 12,17 litros de agrotóxicos, um hectare de milho consumiu 6,14 litros, um hectare de algodão consumiu 23,86 litros e um hectare de cana-de-açúcar consumiu 4,84 litros de agrotóxicos em forma de produto formulado.

Através do calendário agrícola foram definidos os meses de aplicação de agrotóxicos de acordo com o tipo de lavoura.

O calendário agrícola é um instrumento de consulta que fornece detalhadamente a forma correta de se plantar mais de 20 culturas no Estado de Mato Grosso, e que tem por objetivo orientar a melhor época para realizar as atividades agrícolas em cada fase da cultura.

Com orientações técnicas de plantio, tratos culturais, adubação, início da colheita, secagem, informações climáticas e outras a serem seguidas em cada mês.

Verifica-se nesta tabela que, de acordo com calendário agrícola executado, o período de inter-safra foi de junho a setembro, quando não há aplicação de agrotóxicos, predominando o clima seco e sem chuvas, conformando a época onde se cultiva apenas a cana-de-açúcar.

Esse período da inter-safra da soja, milho e algodão, também é chamado de “vazio sanitário”, que de acordo com Decreto n. 1524 de 20/08/2008 do Governo do estado de Mato Grosso, fica proibido a plantação e irrigação dessas lavouras para prevenção de diversas patologias, entre elas a ferrugem asiática da soja e o bicudo do algodoeiro.

Em todas as lavouras estudadas são utilizados mais de um tipo de agrotóxicos e como em cada município são cultivadas várias lavouras ao mesmo tempo, isto implica numa exposição múltipla aos agrotóxicos. Tanto dos trabalhadores e da população do entorno, quanto de toda biota, podendo elevar os riscos de doenças humanas e ambientais relacionadas aos agrotóxicos.

Para se estimar o potencial dos impactos dos Princípios Ativos desses agrotóxicos na saúde, verificaram suas classes toxicológicas humanas e riscos ambientais.
As lavouras de soja usam maior quantitativo de herbicidas por hectare (9,0 litros), seguido de inseticidas (2,4 litros) e fungicidas (1,1 litros). As culturas de milho também usaram mais herbicidas por hectare (4,3 litros), seguido de inseticidas (1,0 litros) e fungicidas (0,2 litros).

Enquanto que as culturas de algodão usaram mais inseticidas por hectare (14,1 litros), seguido de herbicidas (8,8 litros) e fungicidas (0,15 litros). As lavouras de cana-de-açúcar usaram 4,2 litros de herbicidas por hectare, incluindo o glifosato como maturador e também se usou 0,4 litros de inseticidas e 0,2 litros de fungicidas por hectare.

Esses agrotóxicos consumidos nessas lavouras têm potencialidade de causar intoxicações agudas e quando a Dose Letal média (DL 50) de cada um deles ultrapassar o nível tolerável poderá ser fatal para a vida.

Além disso, para cada um desses agrotóxicos existem estudos demonstrando seus efeitos na saúde humana, seja de indução ou na promoção de vários tipos de cânceres, más formações fetais, desregulação endócrina, distúrbios imunológicos e perturbações mentais.

Outros estudos demonstram que esses agrotóxicos também têm a potencialidade de aderirem às plantas e serem absorvidos por elas e contaminarem suas produções, conforme dados demonstrados no PARA 2012.

Segundo PIGNATI et. al. (2014), outros estudos mostram que agrotóxicos podem se dispersar, seja por evaporação ou desvio das gotas ou lixiviação e contaminarem as águas superficiais, as águas subterrâneas, a chuva e o ar que se respira.

Portanto, é necessário discutir estes dados e suas consequências para a saúde pública em sua relação com o modelo de desenvolvimento econômico brasileiro, com o modo de produção do agronegócio dependente de agroquímicos, transgênicos, agrotóxicos e fertilizantes.

Com o uso inseguro dos agrotóxicos, com seus subsídios fiscais, com o aumento da concentração de terras e com a disputa com os movimentos de busca de um modelo de desenvolvimento sustentável para o campo baseado na agroecologia, conforme PIGNATI et. al. (2014).

Referências

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Dr. Roberto Naime, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em Geologia Ambiental. Integrante do corpo Docente do Mestrado e Doutorado em Qualidade Ambiental da Universidade Feevale.

Fonte – EcoDebate de 17 de novembro de 2016

Vigilância Aos Agrotóxicos, Parte 1/3

PIGNATI et. al. (2014) narra que como estratégia da vigilância em saúde do trabalhador, população e ambiente, analisaram as quantidades, os tipos e a toxicidade de agrotóxicos usados por hectare nas lavouras mato-grossenses para servir de apoio às vigilâncias dos municípios brasileiros.

Mato Grosso foi o maior consumidor de agrotóxicos. Utilizaram-se dados do banco informatizado do Instituto de Defesa Agropecuário que registra nas notas fiscais de venda e local de uso e os dados dos receituários agronômicos.

Os resultados mostraram que em média um hectare de soja consumiu 12 litros de agrotóxicos, o de milho 6 litros, o de cana 4,8 litros e o de algodão 24 litros. Verificaram-se também os tipos e classes toxicológicas usadas por hectare de cada lavoura. Também, verificou-se, através de uma matriz de produção agropecuária e consumo de pesticidas, que alguns agravos à saúde estão correlacionados com as regiões mais produtoras.

PIGNATI et. al. (2014), a partir dos dados de consumo de agrotóxicos, pela produção agrícola e da toxicidade desses venenos, inferem os agravos e danos nos municípios brasileiros e estabelecem estratégias de prevenção e de vigilância à saúde dos trabalhadores, do ambiente e das populações expostas.

O processo produtivo do agronegócio, que se resume nas etapas do desmatamento, indústria da madeira, pecuária, agricultura, transporte, silagem, agroindústria, produção de sementes e insumos como combustíveis, agrotóxicos, fertilizantes químicos e calcários, causam várias situações de riscos nos vários ambientes desta cadeia produtiva.

Ocorre transcender a saúde do trabalhador, englobando o meio ambiente, os alimentos, as águas e a saúde das famílias que moram nas fazendas ou nas cidades.

O Brasil é um dos maiores produtores de alimentos, algodão, madeira, celulose e biocombustível, mas também é o maior consumidor mundial de agrotóxicos.

Dentre os vários impactos desta cadeia produtiva do agronegócio, os de maior relevância para a saúde do trabalhador, da população e do ambiente são as poluições e intoxicações agudas e crônicas relacionadas aos agrotóxicos.

Neste processo agroquímico dependente, os fazendeiros, ao pulverizarem esses venenos, contaminam a lavoura, o produto, o meio ambiente, os trabalhadores e a população do entorno, com o objetivo de atingir o alvo ou as “pragas da lavoura” (inseto, fungo ou erva daninha) que se desenvolvem dentro das plantações.

Trata-se de poluição ambiental, ocupacional e alimentar, intencionais e não “derivas” que culpa o clima ou o trabalhador que pulveriza seja tratorista ou piloto.

Além disso, sabe-se que no ato da elaboração do receituário e da compra, que não existe agrotóxico não tóxico e que segundo estudos, apenas 30% deles atingem o alvo e o restante vai para o solo, águas, ar e plantas.

A utilização intensiva de agrotóxicos, através da pulverização por avião, trator ou equipamento manual, mesmo em total observância às leis e normas de regulamentação, levam à poluição dos alimentos, das águas, do ar, das chuvas, do leite materno, do sangue e urina dos trabalhadores, população do entorno e dos animais, ou seja, contamina toda a biota, tanto na zona rural quanto urbana.

A contaminação dos alimentos foi verificada pelas análises de cereais, frutas e hortaliças.

De acordo com os resultados obtidos, 28% das amostras analisadas estavam insatisfatórias, ou seja, estavam contaminados acima dos Limites Máximos de Resíduos (LMR) e/ou seus resíduos encontrados não eram autorizados para aquelas culturas.

Outras 35% das amostras foram consideradas satisfatórias porque mesmo apresentando resíduos de agrotóxicos, estes estavam abaixo do LMR e apenas 37% das amostras não continham resíduos de agrotóxicos.

O ciclo de produção agrícola implica na exposição humana, tanto ambiental, como ocupacional e alimentar, que poderá contaminar os trabalhadores e população e provocar vários agravos à saúde e que deverão sofrer processo de vigilância à saúde, serem diagnosticados, tratados e notificados a partir dos municípios brasileiros, via SINAN.

Além das intoxicações agudas, também são notificadas as intoxicações crônicas relacionadas aos agrotóxicos, como alguns tipos de cânceres e malformações fetais, distúrbios neurológicos, endócrinos, mentais e cognitivos, segundo PIGNATI et. al. (2014).

A busca de dados de consumo de agrotóxicos agrícola nos municípios brasileiros, por Princípio Ativo (PA) por hectare plantado dos vários tipos de lavouras, tem se tornado um desafio.

Isto se deve a vários fatores. As indústrias fornecem para o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) os dados anuais de quantitativos de agrotóxicos produzidos, estoque e vendas por estado, sendo que o acesso a esses dados não são livres.

O receituário agronômico, obrigatório no ato da compra pelo consumidor, nem sempre está disponível para a consulta e em quase todos os estados brasileiros e este instrumento não está informatizado.

E por último, somente os estados de Mato Grosso, Minas Gerais e Paraná possuem um sistema específico e informatizado de registro, de compra, estoque, revenda e local de uso dos agrotóxicos, segundo PIGNATI et. al. (2014).

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Dr. Roberto Naime, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em Geologia Ambiental. Integrante do corpo Docente do Mestrado e Doutorado em Qualidade Ambiental da Universidade Feevale.

Fonte – EcoDebate de 16 de novembro de 2016