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As enguias do rio Tâmisa estão ficando chapadas de cocaína? Mais ou menos

Começou a circular nesta semana uma notícia de que as enguias do rio Tâmisa, que passa pelas cidades inglesas de Oxford e Londres, estão ficando hiperativas por causa da alta concentração de cocaína na água.

A história é, no mínimo, bizarra e triste. Porém, os veículos do Reino Unido deram a notícia de um jeito levemente mandrake e a imprensa do mundo todo entrou na onda. É mais complicado do que uma manchete pode dizer.

O veículo que levantou essa bola foi o The Times, com a manchete “Cocaína no Tâmisa torna enguias hiperativas”. A conclusão do jornal é feita com base em dois estudos: um mais recente, feito pela King’s College London (que não é linkado por nenhum veículo), aponta que os níveis de concentração de cocaína e de benzoilecgonina (um resquício metabólico que sai na urina de quem consome cocaína) “permanecem altos nas águas residuais ao longo da semana, com um pequeno aumento durante o fim de semana, o que não é consistente com outras cidades”; o outro, feito no ano passado pela Universidade de Nápoles Federico II, conclui que as enguias europeias ficam hiperativas ao serem colocadas em água com pequena dose de cocaína.

Ou seja, a partir de dois estudos separados, parte da imprensa passou a dizer que as enguias do rio Tâmisa estão doidonas de cocaína. Acontece que nenhum estudo foi realizado com as enguias de lá e, portanto, é difícil ter uma conclusão tão precisa.

Independent, veículo tradicional do Reino Unido, decidiu questionar um especialista sobre essa história. James Robson, curador do Sea Life London Aquarium, esclareceu que “tudo o que está na água é afetado por drogas como essa”, mas que os peixes não devem estar chapados. Isso porque, segundo ele, as doses usadas no estudo da Universidade de Nápoles Federico II eram significativamente maiores do que a encontrada nas águas de Londres.

A história fica mais complexa, uma vez que o estudo da universidade italiana diz que as enguias testadas em laboratório foram colocadas em água com 20 bilionésimos de cocaína por litro, o que supostamente seria uma concentração residual condizente com a verificada em rios.

James diz que as pessoas devem ficar mais preocupadas com outras questões, como a poluição com plástico e o aquecimento das águas – que causam impacto muito maior no ecossistema. Mas eu confesso que estou um pouco preocupado com as enguias, afinal o consumo de cocaína faz com que suas fibras musculares se desintegrem e aumenta a concentração de cortisol, fazendo com que elas não consigam acumular muita gordura – isso, no final das contas, prejudica o ciclo reprodutivo do peixe. Mas não é só a cocaína: antidepressivos, anticoncepcionais, cafeína e muitas outras substâncias podem alterar ecossistemas aquáticos – os efeitos só não foram profundamente estudados.

Por fim, a cocaína é um problema sério no Reino Unido. Um estudo de 2015 feito pelo Observatório Europeu da Droga e da Toxicodependência revelou que Londres tem a maior concentração de cocaína no esgoto em toda a Europa. Além disso, uma pesquisa global revelou que Londres é uma das poucas cidades em que o delivery de cocaína é mais rápido do que o de uma pizza.

Ou seja, as enguias londrinas devem estar sofrendo? Provavelmente sim. Um estudo científico provou isso? Definitivamente não.

Fonte – Alessandro Feitosa Jr, Gizmodo Brasil de 22 de janeiro de 2019

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