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Jornalismo@Gaia: a missão do repórter em tempos de reconexão

“Aqui tem Wifi?”. Essa virou a primeira pergunta a ser feita quando pisamos em um café ou até em uma praça pública. Caminhamos para uma sociedade em rede, que se encontra no meio digital para se relacionar, acessar informação e debatê-la. Vivemos tempos de alta conexão tecnológica e extrema desconexão com o ambiente natural: mal conhecemos nossos vizinhos; não sabemos de onde vem a comida que almoçamos. Nessa situação, como podemos entender o que está acontecendo com o mundo? Com o Wifi já conectado, lá vai a próxima pergunta básica: onde fica o repórter nestes tempos de incerteza?

O jornalista do século XXI não é desafiado apenas pela Internet, mas por uma crescente complexidade da realidade humana e planetária. Crises ambientais, sociais, políticas e econômicas emergem com mais velocidade e menos previsibilidade. A tecnologia é produtora e produto deste mesmo cenário, que nos exige novas habilidades de apuração e também uma nova relação com o público.

O profissional que sobreviver a essas mudanças não vai apenas narrar os fatos; ele vai reinventar a profissão. A missão é entender sistemicamente o que está acontecendo nas redes digitais, sociais e naturais; ligar os pontos entre elas e produzir sentido. O equipamento básico para cumprir os desafios do nosso tempo consiste basicamente em novos óculos, calibrados para perceber as relações humanas e da teia de Vida que nos sustenta. Notícias só fazem sentido em seus contextos e o Jornalismo precisa urgentemente se ambientar no seu contexto inexorável: Gaia.

Teóricos da Ecologia Midiática defendem que a Internet pode colaborar para a percepção de que somos parte de uma rede interdependente. O detalhe é que qualquer simulacro de um ecossistema só existe dentro do ecossistema maior e planetário. E é essa localização – dentro – que precisamos recuperar quando contextualizamos a vida humana. O desafio de desenvolver uma consciência ecológica dentro de um simulacro que ignora seu contexto iminente é paradoxal. Uma aposta possível são os aparelhos de internet móvel, que permitem aliar as realidades online e offline, abrindo um imenso campo para a criatividade dos jornalistas digitais dedicados à sustentabilidade.

Já no campo da formação, um grande avanço é a exigência do ensino de “desenvolvimento sustentável”, citada pela primeira vez em uma resolução do Ministério da Educação em setembro de 2013 sobre novas diretrizes para a graduação em Jornalismo. Ainda se aguarda os sinais de implementação dessa estratégia que busca adaptar o Jornalismo ao seu tempo. A mudança é urgente. Afinal, os jornalistas de hoje já lidam e vão ter que lidar cada vez mais com fatos climáticos, hídricos, alimentares, entre outros. Como vimos na cobertura da crise hídrica em São Paulo, a imprensa convencional ainda é extremamente despreparada para reportar as implicações de fenômenos que são, ao mesmo tempo, econômicos, sociais, políticos e ambientais.

Entender o vocabulário básico da sustentabilidade é um primeiro passo. O grande desafio, no entanto, é superar o analfabetismo ecológico funcional; é ler e interpretar a realidade compreendendo as forças sociais e ambientais que a moldam. As múltiplas crises que o mundo experimenta carregam, no pano de fundo, uma crise ambiental sem precedentes na História e resultante em última instância de um entendimento fragmentado e mecanicista sobre a Vida. Para fornecer perspectivas sobre uma crise, é preciso enxergá-la de fora da armadilha. Ou como disse Albert Einstein, “não se pode resolver um problema com o mesmo pensamento que o criou.”

Enquanto o trabalho jornalístico nasceu para apurar e narrar o que acontece nos nossos tempos, a própria noção de Tempo foi criada para mediar a nossa conexão com o planeta. A palavra Jornalismo vem de “jour” – dia, em francês. O que determina um dia? É o período em que Gaia completa uma volta em torno de si mesma. Por “Gaia”, nomeia-se o planeta como mais que uma rocha girando no Universo: trata-se de um sistema vivo, em que seres e ambiente se alimentam retroativamente, em um ciclo que fomenta o processo da Vida. Ao voltar-se para essa relação essencial com o sistema natural ao nosso redor, o Jornalismo não estaria extrapolando seus limites, mas sim voltando-se para o seu cerne: reconhecendo-se como parte da realidade humana e mais-que-humana.

O jornalismo ambiental será absolutamente necessário para nos trazer clareza sobre o que vivemos neste século; mas mais do que formar jornalistas, é preciso transformá-los, habilitando-os para um olhar transversal que ligue os pontos e, em um mar de informações soltas, produza conhecimento. Oportunidades como o Congresso Brasileiro de Jornalismo Ambiental são valiosas para essa transformação. Em uma rica troca entre profissionais, referências consagradas, pesquisadores e estudantes, o CBJA forma um espaço para exercitarmos olhares, descobrirmos outras perguntas, experimentarmos perspectivas e costurarmos novas pautas, engajando o público em histórias que, ao fim, são dele mesmo, e também de uma teia de Vida chamada, para os mais familiares, Gaia. (#Envolverde)

*Ana Carolina Amaral é jornalista, mestra em Ciências Holísticas pelo Schumacher College e moderadora da Rede Brasileira de Jornalismo Ambiental.

Fonte – Envolverde de 03 de novembro de 2015

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