Por Girish Linganna – Dnaindia – 28 de setembro de 2025 – Como a pressa da Índia em proibir o plástico criou uma confusão ambiental ainda maior
Todas as manhãs, milhões de indianos entram em lojas com as melhores intenções.
Pedem “sacolas compostáveis” em vez de plásticas, acreditando que estão salvando o planeta.
O que eles não sabem é que podem estar piorando a situação.
Depois de cinco anos promovendo sacolas compostáveis como a solução para o problema do plástico na Índia, estamos descobrindo uma verdade incômoda: essas alternativas supostamente ecológicas estão criando novas formas de poluição que podem ser mais perigosas do que o plástico convencional.
A história começa com boas intenções.
Quando o governo começou a proibir plásticos descartáveis, os fabricantes rapidamente ofereceram sacolas compostáveis como o substituto perfeito.
Feitas de amido de milho e materiais vegetais em vez de petróleo, essas sacolas prometiam desaparecer inofensivamente na terra.
Campanhas de marketing mostravam sacolas se dissolvendo em solo fértil, alimentando plantas e completando o ciclo da natureza.
A mensagem era simples e atraente: mesma conveniência, zero culpa.
Mas eis o que os anúncios não mostram.
Aqueles sacos que se dissolvem perfeitamente nos comerciais estão em laboratórios caros com condições perfeitas — temperatura controlada, níveis específicos de umidade e culturas bacterianas cuidadosamente mantidas.
O mundo real, especialmente o caótico sistema de gerenciamento de resíduos da Índia, não se parece em nada com aquelas condições estéreis de laboratório.
Passeie por qualquer cidade indiana e observe o que realmente acontece com o nosso lixo.
Mumbai gera 11.000 toneladas de lixo diariamente, a maior parte do qual vai para aterros sanitários superlotados em Deonar e Mulund.
O lixo de Delhi acaba em enormes lixões em Ghazipur e Okhla. Bangalore transporta seu lixo de caminhão para locais já saturados em Mandur e Bannerghatta.
Nenhum desses lugares possui as condições controladas necessárias para que sacolas compostáveis sejam compostadas de fato.
Em vez disso, essas sacolas ficam nas mesmas pilhas que o plástico comum, levando anos para se decompor e, ao mesmo tempo, potencialmente liberando substâncias químicas nocivas para as águas subterrâneas.
A ciência por trás da compostagem é fascinante, mas desafiadora.
Materiais compostáveis precisam de temperaturas acima de 55 graus Celsius, níveis específicos de umidade, revolvimento regular para fornecer oxigênio e tipos específicos de bactérias para se decomporem adequadamente.
Instalações industriais de compostagem criam essas condições artificialmente usando tambores rotativos, monitoramento de temperatura e sistemas de controle de umidade.
A Índia tem menos de 50 instalações desse tipo em todo o país.
Para lidar adequadamente com nossa geração atual de resíduos, precisaríamos de mais de 5.000.
A matemática é preocupante: 85% das sacolas compostáveis vendidas na Índia acabam em condições nas quais não podem ser compostadas.
Pesquisas recentes revelam uma realidade ainda mais preocupante.
Mesmo em instalações de compostagem adequadas, esses sacos estão criando microplásticos – pequenos fragmentos invisíveis a olho nu que persistem no composto final.
Estudos realizados em locais de compostagem em toda a Índia encontraram níveis de contaminação por microplásticos comparáveis aos encontrados em sedimentos oceânicos.
Quando esse composto contaminado chega aos campos agrícolas, essas partículas microscópicas (os famosos microplásticos) entram na cadeia alimentar por meio das plantações e do gado.
As implicações para a agricultura indiana são sérias.
Todos os anos, milhões de partículas microplásticas provenientes de sacolas incompletamente decompostas são espalhadas em terras agrícolas por meio do composto orgânico.
Essas partículas não se limitam a permanecer inofensivas no solo.
Pesquisas mostram que elas podem alterar a química do solo, promover o crescimento de fungos nocivos e potencialmente contaminar plantações de alimentos.
Alguns estudos detectaram produtos químicos industriais e até compostos PFAS – os famosos “produtos químicos eternos” – em compostos contendo materiais compostáveis degradados.
O custo econômico dessa solução fracassada vai além dos danos ambientais.
Sacolas compostáveis custam de três a cinco vezes mais do que sacolas plásticas comuns, mas não oferecem nenhum benefício ambiental real nas condições indianas.
Os consumidores frequentemente precisam embalar os itens duas vezes devido à resistência reduzida, o que efetivamente dobra seu impacto ambiental.
Instalações de processamento de resíduos relatam custos de manutenção mais altos quando materiais compostáveis criam lodo que obstrui as máquinas.
Talvez o mais frustrante seja que o foco em sacolas compostáveis nos distraiu de soluções que realmente funcionam.
Cada centavo gasto nessas falsas alternativas poderia ter sido investida na construção de uma infraestrutura de compostagem adequada ou na promoção de opções genuinamente sustentáveis que já existem em todos os lares indianos.
A resposta não é encontrar uma sacola descartável melhor, mas sim eliminar completamente a necessidade de sacolas descartáveis.
Em todos os lares indianos, há tecidos velhos que podem ser transformados em sacolas de compras duráveis.
As cestas tradicionais feitas de bambu ou folhas de palmeira, usadas pelos nossos avós, são completamente biodegradáveis e apoiam os artesãos locais.
Sacolas de papel feitas de resíduos agrícolas se decompõem completamente em qualquer ambiente em poucos meses, ao contrário do plástico compostável, que precisa de instalações especiais.
A transição exige mudança de hábitos, em vez de mudança de produtos.
Mantenha sacolas de pano no carro, no escritório e no bolso.
Opte por papel em vez de qualquer tipo de plástico quando precisar de sacolas descartáveis.
Apoie empresas que oferecem opções sem embalagem.
Mais importante ainda, questione alegações ambientais que parecem boas demais para ser verdade.
Os alunos nas escolas devem aprender a reconhecer o “greenwashing” — quando as empresas usam linguagem ambiental para vender produtos sem benefícios ambientais genuínos.
A crise das sacolas compostáveis é um estudo de caso perfeito de como boas intenções podem gerar resultados ruins quando a infraestrutura e a realidade não correspondem às promessas de marketing.
A lição para o movimento ambientalista indiano é clara: soluções sustentáveis devem funcionar dentro dos nossos sistemas existentes, não em sistemas imaginários perfeitos.
Antes de promover qualquer tecnologia “verde”, precisamos nos fazer três perguntas: onde esse produto realmente vai parar?
Que infraestrutura ele requer?
Pode piorar a situação?
Sacolas compostáveis não passam nos três testes nas condições indianas.
Elas acabam nos mesmos lixões que o plástico comum, exigem infraestrutura cara que não temos e criam novas formas de poluição por meio da contaminação por microplásticos.
A verdadeira solução ambiental é a sabedoria ancestral aplicada aos problemas modernos.
Nossos ancestrais viviam perfeitamente bem sem sacolas descartáveis de qualquer tipo.
Com pequenos ajustes em suas práticas – sacolas de pano em vez de fardos de pano, pacotes de papel em vez de folhas de palmeira – podemos eliminar a necessidade de embalagens descartáveis, ao mesmo tempo em que apoiamos as economias locais e as habilidades tradicionais.
A escolha que os consumidores indianos enfrentam é simples: continuar acreditando em mentiras confortáveis sobre soluções tecnológicas ou aceitar a verdade incômoda de que a melhor solução ambiental muitas vezes exige mudanças de comportamento em vez de produtos.
O planeta não precisa de um plástico melhor – precisa de menos plástico.
E essa mudança começa com cada um de nós se recusando a comprar sacolas descartáveis de qualquer tipo, uma compra de cada vez.
O verdadeiro progresso ambiental acontece quando paramos de procurar substitutos convenientes e começamos a fazer mudanças inconvenientes.
Carregar uma sacola de pano exige planejamento e esforço.
Usar cestas tradicionais significa adotar métodos antigos de fazer as coisas.
Fazer sacolas de papel com jornais exige tempo e habilidade.
Essas soluções não são tão fáceis quanto pegar uma sacola “compostável” no caixa, mas, na verdade, funcionam dentro da realidade da Índia, em vez de exigir mudanças.
O experimento da sacola compostável foi uma lição valiosa sobre a diferença entre boas intenções e bons resultados.
Agora é hora de aprender com nossos erros e escolher soluções que priorizem a eficácia em vez da conveniência, a realidade em vez do marketing e a sustentabilidade genuína em vez do greenwashing.
Nosso meio ambiente não pode se dar ao luxo de mais um erro bem-intencionado disfarçado de solução.
Por FUNVERDE – 1 de agosto de 2025 – Microplásticos estão presentes em todos os locais do planeta. Como eles nos afetam no nosso dia a dia.
Você sabia que o ar que respiramos dentro de casa ou no carro pode estar carregado de microplásticos?
Um estudo recente publicado na revista PLOS ONE (2025) revela que essas minúsculas partículas de plástico, menores que 10 micrômetros, estão presentes em ambientes internos e podem ser inaladas em quantidades alarmantes.
A FUNVERDE alerta desde sempre: o uso desordenado de plásticos no cotidiano está poluindo até o ar que respiramos, trazendo riscos à saúde e ao meio ambiente. (Já foram encontrados microplásticos em todos os orgãos importantes do corpo humano)
Sobre o estudo
O estudo, conduzido por pesquisadores em Toulouse, na França, analisou a concentração de microplásticos (MPs) no ar de residências e cabines de carros usando uma técnica avançada chamada espectroscopia Raman.
Os resultados são preocupantes:
Alta concentração no ar interno: Em residências, a concentração média de microplásticos suspensos no ar foi de 528 MPs por metro cúbico. Já nas cabines de carros, esse número foi ainda maior, chegando a 2.238 MPs por metro cúbico.
Tamanho perigoso: 94% dos microplásticos encontrados tinham entre 1 e 10 micrômetros, pequenos o suficiente para penetrar profundamente nos pulmões, podendo causar inflamações e doenças respiratórias.
Tipos de plásticos: Em casas, o polietileno (PE), comum em sacolas e embalagens, foi o principal tipo de microplástico (76%). Nos carros, a poliamida (PA), usada em estofados, dominou (25%), junto com outros plásticos como ABS e PET, presentes em painéis e interiores.
Inalação diária: Um adulto pode inalar cerca de 68.000 microplásticos por dia em ambientes internos, enquanto crianças inalam cerca de 47.000. Essas partículas podem atravessar barreiras celulares, entrar na corrente sanguínea e causar problemas como estresse oxidativo e até danos a órgãos.
O estudo destaca que passamos cerca de 90% do nosso tempo em ambientes internos, o que aumenta significativamente nossa exposição a esses poluentes invisíveis.
Os microplásticos no ar vêm da degradação de objetos plásticos do dia a dia, como embalagens, roupas sintéticas, móveis e até componentes de carros.
Por que precisamos nos preocupar?
Microplásticos menores que 10 micrômetros (MP1–10 µm) são muito perigosos porque podem alcançar as partes mais profundas dos pulmões, onde causam inflamação e aumentam o risco de doenças como bronquite e asma.
Além disso, essas partículas podem carregar substâncias tóxicas, como metais pesados e poluentes orgânicos, que, ao entrarem no corpo, podem desregular hormônios, comprometer o sistema imunológico e até elevar o risco de câncer.
Outro ponto alarmante é que microplásticos maiores (10–300 µm), que são retidos nas vias respiratórias superiores, podem ser engolidos após a limpeza natural do corpo, indo parar no sistema digestivo.
Isso significa que a inalação de microplásticos também contribui para a acumulação dessas partículas no intestino, somando-se ao que já ingerimos por alimentos e bebidas.
O uso de plásticos no dia a dia contribui para o problema?
O estudo aponta que os microplásticos no ar são resultado do uso generalizado e do descarte inadequado de plásticos.
Sacolas, embalagens, roupas de poliéster, tapetes sintéticos e até o desgaste de móveis e acessórios automotivos liberam essas partículas ao longo do tempo.
Quando varremos a casa, abrimos uma embalagem ou dirigimos, microplásticos podem se soltar e ficar suspensos no ar, prontos para serem inalados.
No Brasil, onde a gestão de resíduos plásticos ainda enfrenta desafios, como a falta de reciclagem eficiente e o uso excessivo de descartáveis, o problema pode ser ainda mais grave.
Cada item plástico que usamos e descartamos sem cuidado contribui para a poluição do ar, da água e do solo.
Como reduzir esse risco?
A Funverde acredita que todos podemos fazer a diferença com ações simples e conscientes no dia a dia.
Aqui estão algumas sugestões para diminuir a presença de microplásticos no ar que respiramos:
Reduza o uso de plásticos descartáveis: Evite sacolas, copos, canudos e embalagens plásticas. Opte por alternativas reutilizáveis, como sacolas de pano, garrafas de vidro ou inox e talheres de metal.
Escolha materiais naturais: Prefira roupas, tapetes e móveis feitos de algodão, lã ou madeira, que liberam menos microplásticos em comparação com sintéticos como poliéster e náilon.
Mantenha ambientes ventilados e limpos: Abra janelas regularmente para melhorar a circulação do ar e use aspiradores com filtros HEPA para capturar partículas finas, incluindo microplásticos.
Apoie a reciclagem: Separe o lixo corretamente e participe de programas locais de coleta seletiva para reduzir o descarte inadequado de plásticos.
Cobre mudanças: Exija que empresas reduzam o uso de plásticos em seus produtos e embalagens e apoie políticas públicas que proíbam descartáveis e incentivem a economia circular.
O quê fazer?
O estudo da PLOS ONE nos mostra que os microplásticos estão mais próximos do que imaginamos: no ar que respiramos em casa, no carro, no trabalho.
Cada escolha que fazemos no dia a dia, desde recusar um canudo até optar por produtos sustentáveis, pode ajudar a reduzir essa poluição invisível.
A Funverde convoca todos a repensarem o uso de plásticos e a adotarem hábitos mais conscientes. Juntos, podemos proteger nossa saúde e construir um futuro com menos plástico e mais qualidade de vida.
Quer saber mais sobre como combater a poluição por plásticos? Acompanhe as ações da Funverde e participe das nossas iniciativas!
>Por Redação CicloVivo – 9 de junho de 2025 – Com cases do Brasil e Indonésia, estudo traz dados inéditos sobre a sustentabilidade econômica e financeira de modelos de gestão de resíduos – Foto: Divulgação.
Enquanto o mundo busca soluções para a crise climática, o trabalho de catadoras e catadores de materiais recicláveis segue invisibilizado.
Há uma crença de que para lidar com os resíduos é preciso apostar em modelos de grande escala, mas um estudo inédito revela que sistemas descentralizados, como os realizados por cooperativas de catadoras e catadores, demonstram menor custo por tonelada de resíduos processados, além de maior eficiência operacional.
Intitulada “Financial Analysis of Solid Waste Management Business Models: Case Studies in Indonesia and Brazil”, a pesquisa, realizada pela Climate Policy Initiative (CPI) e lançada nesta semana, analisou sistemas de gestão de resíduos no Brasil e na Indonésia.
O levantamento traz dados inéditos sobre a sustentabilidade econômica e financeira de modelos de gestão de resíduos, incluindo casos brasileiros coletados com apoio do Instituto Pólis.
Um dos destaques é justamente derrubar um mito do setor: ao contrário do que se imagina, modelos de grande escala podem apresentar custos operacionais mais altos, devido à complexidade e à logística envolvida.
Foto: Letícia Ichnaz | Pimp My Carroça
Dados recentes do Atlas Brasileiro da Reciclagem e do Sistema Nacional de Informações do Saneamento Básico (SINISA) reforçam a relevância do setor: são 2.092 cooperativas e associações de catadores em atividade em 1.630 municípios, reunindo 37.786 catadores associados, além de 22.428 trabalhadores informais.
Resíduos compostáveis
O Instituto Pólis, que, por meio da iniciativa Brasil Composta Cultiva, tem promovido uma série de ações voltadas à gestão dos resíduos orgânicos nos municípios brasileiros, reforça o papel da compostagem neste tema.
A decomposição do chamado “lixo” orgânico nas cidades se mostra uma solução urgente e viável no Brasil, uma vez que quase metade dos resíduos sólidos urbanos é composta por matéria orgânica.
Outro ponto interessante é que, segundo pesquisa global encomendada pelo Global Methane Hub (GMH), o Brasil lidera mundialmente o apoio à ação contra o metano, com 90% da população defendendo medidas obrigatórias de separação de resíduos (incluindo os orgânicos) e a redução do envio desses resíduos para aterros sanitários.
Os resíduos orgânicos representam cerca de metade do “lixo” doméstico. Foto: Planta Feliz Adubo
“O crescimento da compostagem no Brasil é expressivo, mas ainda recebe pouco apoio se comparado aos aterros sanitários. Apenas entre 2022 e 2023, o número de unidades de compostagem no país cresceu 55%, passando de 76 para 118. Este é um caminho com enorme potencial de geração de empregos – de cinco a dez vezes mais postos por tonelada tratada do que o aterro – e de combate às mudanças climáticas”, afirma Victor Argentino, coordenador de projetos da equipe de resíduos sólidos do Instituto Pólis.
Catadoras e catadores na linha de frente da compostagem
Diversas cooperativas de catadores já operam sistemas de compostagem bem-sucedidos em todo o Brasil.
É o caso da CooperCicli, em Caetité (BA); da Recicla Jacobina, em Jacobina (BA); da VerdeCoop, que atua na Costa dos Coqueiros, com operação em Porto de Sauípe; da CooperCicla, em Santa Cecília do Sul (RS), que atende mais de 20 municípios; da ACAMARTI, em Tibagi (PR) e da CooperSul, em Poços de Caldas (MG), entre outras iniciativas.
Vale ressaltar que a compostagem, além de ambientalmente eficiente, é uma tecnologia social, reconhecida como tal pelo programa Pró-Catador (Decreto Nº 11.414/2023).
Quando realizada por organizações de catadores, ela promove geração de trabalho, renda, cidadania e redução das emissões de gases de efeito estufa.
Foto: Coopercicli
“Os catadores já são responsáveis por cerca de 90% de toda reciclagem de resíduos secos no país. Incluir os resíduos orgânicos nesse ciclo amplia a autonomia dessas organizações, reduz a dependência do mercado de recicláveis e fortalece a segurança econômica dos trabalhadores e trabalhadoras”, reforça Argentino.
Além dos benefícios sociais, a compostagem liderada pelos catadores oferece às cidades uma solução de baixo custo, com flexibilidade e escalabilidade.
O modelo permite que prefeituras contratem diretamente as cooperativas, conforme previsto na Lei Federal nº 14.133/2021, estimulando a economia local e a inclusão produtiva.
Composto orgânico produzido a partir da coleta seletiva dos resíduos orgânicos em Caetité pela COOPERCICLI. | Foto: COOPERCICLI
Por meio da iniciativa Brasil Composta Cultiva, o Instituto Pólis visa reduzir o envio de resíduos orgânicos urbanos para aterros e lixões, ampliar sua reciclagem, mitigar emissões de metano e gases de efeito estufa, e fortalecer iniciativas de compostagem municipal em larga escala.
“A compostagem realizada com catadores representa uma oportunidade estratégica para ampliar a reciclagem de resíduos orgânicos no Brasil. Ao integrá-los nesse processo, é possível promover uma transição justa na gestão de resíduos, com benefícios socioambientais relevantes”, afirma Argentino.
“Além de reduzir significativamente as emissões de gases de efeito estufa, a compostagem com participação ativa desses trabalhadores pode gerar de 5 a 10 vezes mais empregos do que os modelos tradicionais baseados em aterros sanitários e lixões”, conclui.
Por McGill University – Canadian research university – 9 de maio de 2025 – Estudo mostra que antibióticos de uso humano estão contaminando rios em todo o mundo. Os pesquisadores estimam que cerca de 8.500 toneladas de antibióticos acabam nos sistemas fluviais a cada ano, após passarem pelo corpo humano e pelos sistemas de águas residuais.
Milhões de quilômetros de rios ao redor do mundo estão carregando poluição por antibióticos em níveis altos o suficiente para promover resistência aos medicamentos e prejudicar a vida aquática, alerta um estudo liderado pela Universidade McGill.
Publicado no PNAS Nexus, o estudo é o primeiro a estimar a escala da contaminação global de rios pelo uso de antibióticos por humanos.
Pesquisadores calcularam que cerca de 8.500 toneladas de antibióticos – quase um terço do que as pessoas consomem anualmente – acabam nos sistemas fluviais ao redor do mundo a cada ano, mesmo depois de, em muitos casos, passarem por sistema de tratamento de águas residuais.
“Embora as quantidades de resíduos de antibióticos individuais se traduzam em concentrações muito pequenas na maioria dos rios, o que os torna muito difíceis de detectar, a exposição ambiental crônica e cumulativa a essas substâncias ainda pode representar um risco à saúde humana e aos ecossistemas aquáticos”, disse Heloisa Ehalt Macedo, pesquisadora de pós-doutorado em geografia na McGill e principal autora do estudo.
A equipe de pesquisa utilizou um modelo global validado por dados de campo de quase 900 localidades fluviais.
Eles descobriram que a amoxicilina, o antibiótico mais usado no mundo, é o que tem maior probabilidade de estar presente em níveis de risco, especialmente no Sudeste Asiático, onde o uso crescente e o tratamento limitado de águas residuais agravam o problema.
“Este estudo não pretende alertar sobre o uso de antibióticos — precisamos de antibióticos para tratamentos de saúde globais — mas nossos resultados indicam que pode haver efeitos não intencionais em ambientes aquáticos e resistência a antibióticos, o que exige estratégias de mitigação e gestão para evitar ou reduzir suas implicações”, disse Bernhard Lehner, professor de hidrologia global no Departamento de Geografia da McGill e coautor do estudo.
As descobertas são notáveis porque o estudo não considerou antibióticos de fábricas de gado ou farmacêuticas, ambos os quais são grandes contribuintes para a contaminação ambiental.
“Nossos resultados mostram que a poluição por antibióticos em rios, proveniente apenas do consumo humano, é um problema crítico, que provavelmente seria agravado por fontes veterinárias ou industriais de compostos relacionados”, disse Jim Nicell, professor de engenharia ambiental na Universidade McGill e coautor do estudo.
“Portanto, são necessários programas de monitoramento para detectar a contaminação de cursos d’água por antibióticos ou outros produtos químicos, especialmente em áreas que nosso modelo prevê estarem em risco.”
Esta pesquisa foi apoiada pelo Conselho de Pesquisa em Ciências Naturais e Engenharia do Canadá, bem como pelas Cátedras James McGill e Fessenden em Ciência e Inovação da Universidade McGill.
Informações de contato
Contato: Claire Loewen
Organização: Relações com a mídia, Universidade McGill
Por PML – Plymouth Marine Laboratory – 09 de junho de 2025 – Uma nova pesquisa coliderada pela PML, NOAA , CIMERS OSU e a Universidade de Maryland fornece novas evidências sobre a gravidade da acidificação dos oceanos.
Danos aos recifes de corais, perda de habitats e uma ameaça à sobrevivência de criaturas marinhas que constroem conchas estão entre os impactos já sentidos em todo o oceano devido à acidificação oceânica.
Até agora, a acidificação oceânica não havia sido considerada como tendo ultrapassado seu “limite planetário” (definido como uma mudança de 20% no estado de saturação de aragonita em comparação com os tempos pré-industriais).
Usando as mais recentes medições físicas e químicas no oceano superior, combinadas com modelos computacionais avançados e estudos da vida marinha, a equipe de pesquisa concluiu que:
Em 2020, a condição média dos oceanos em todo o mundo já estava muito próxima, e em algumas regiões além, da “zona de perigo” para a acidificação dos oceanos.
Explorando mais profundamente o oceano (até cerca de 200 m abaixo da superfície), descobriu-se que cerca de 60% dessas águas mais profundas haviam ultrapassado a fronteira, em comparação com 40% da água na superfície. Esse aumento na acidificação dos oceanos tem implicações importantes para a sobrevivência de muitas criaturas marinhas, especialmente aquelas que constroem conchas ou esqueletos de carbonato de cálcio.
Os danos já estão aparecendo: recifes de corais tropicais e subtropicais selecionados perderam 43% de seus habitats adequados, borboletas marinhas (pterópodes, uma espécie essencial da cadeia alimentar) em regiões polares perderam até 61% de seu habitat, e espécies de moluscos costeiros perderam 13% de seus habitats costeiros globais nos quais poderiam sustentar seus processos biológicos essenciais.
Com base nessas descobertas, os cientistas recomendaram a revisão do limite de segurança anterior, estabelecendo que mesmo uma mudança de 10% em relação aos níveis pré-industriais seria prejudicial aos ecossistemas oceânicos.
Infelizmente, toda a superfície oceânica já havia ultrapassado esse limite mais rigoroso por volta do ano 2000.
Observando diferentes áreas do mundo, as regiões polares apresentam as maiores mudanças na acidificação dos oceanos na superfície.
Enquanto isso, em águas mais profundas, as maiores mudanças ocorrem em áreas próximas aos polos e nas regiões de ressurgência ao longo da costa oeste da América do Norte e perto do Equador.
Legenda da imagem: Professora Helen Findlay trabalhando no laboratório do PML. A professora Findlay utiliza uma combinação de ferramentas experimentais, observacionais e de modelagem para investigar os impactos das mudanças climáticas e da acidificação dos oceanos nos organismos marinhos e no funcionamento dos ecossistemas, com foco especial no Ártico.
A maior parte da vida oceânica não vive apenas na superfície – as águas subterrâneas abrigam muitos outros tipos diferentes de plantas e animais.
Como essas águas mais profundas estão mudando tanto, os impactos da acidificação dos oceanos podem ser muito piores do que pensávamos.
Isso tem enormes implicações para importantes ecossistemas subaquáticos, como os recifes de corais tropicais e até mesmo os de águas profundas, que fornecem habitats essenciais e refúgio para muitas espécies, além dos impactos sentidos em criaturas que vivem no fundo, como caranguejos, estrelas-do-mar e outros moluscos, como mexilhões e ostras.
Legenda da imagem: Professor Findlay fotografado no laboratório com a colega Tippayaporn Vorasaph (aluna de mestrado na Universidade de Plymouth e no Laboratório Marinho de Plymouth) trabalhando juntos em um experimento de aumento da alcalinidade do oceano.
A acidificação dos oceanos também reduz a disponibilidade de carbonato de cálcio, um componente essencial que muitos organismos marinhos precisam para formar conchas e esqueletos.
À medida que os níveis de pH caem, espécies calcificadas, como corais, ostras, mexilhões e pequenas borboletas marinhas, lutam para manter suas estruturas protetoras, resultando em conchas mais fracas, crescimento mais lento, reprodução reduzida e menores taxas de sobrevivência.
“A acidificação dos oceanos não é apenas uma crise ambiental – é uma bomba-relógio para os ecossistemas marinhos e as economias costeiras. À medida que a acidez dos nossos mares aumenta, assistimos à perda de habitats críticos dos quais inúmeras espécies marinhas dependem, o que, por sua vez, tem implicações sociais e econômicas significativas”, afirma o professor Steve Widdicombe , da PML , que também é copresidente da GOA-ON, a Rede Global de Observação da Acidificação dos Oceanos, e com o foco na Meta 3 do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) 14 da ONU (que visa minimizar e abordar os impactos da acidificação dos oceanos).
“Desde os recifes de corais que sustentam o turismo até as indústrias de moluscos que sustentam as comunidades costeiras, estamos apostando na biodiversidade e em bilhões em valor econômico a cada dia que a ação é adiada.”
O estudo sugere que as medidas de conservação devem se concentrar nas regiões e espécies mais vulneráveis à acidificação.
Os autores também enfatizam a importância da proteção ou de medidas de manejo adequadas para as áreas menos comprometidas, a fim de garantir sua longevidade.
Os impactos recentemente identificados em águas subterrâneas apontam para uma necessidade urgente de proteger os habitats de águas médias e as criaturas que deles dependem.
Além disso, a equipe de pesquisa enfatiza a importância de abordagens de gestão aprimoradas para lidar com a acidificação dos oceanos, juntamente com outras pressões que o oceano enfrenta, a fim de promover uma maior resiliência dos ecossistemas.
Para mais informações ou solicitações de entrevistas, entre em contato com: Daniel Jones [email protected] / Kelly-Marie Davidson [email protected]
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Sobre ‘Limites Planetários’:
Cientistas identificaram nove “limites planetários” — limites de segurança para a Terra que não devem ser ultrapassados para manter nosso planeta saudável.
Esses limites incluem mudanças climáticas, perda de plantas e animais em terra e no mar, acidez oceânica, uso de água doce, mudanças no uso da terra, poluição e partículas no ar.
Até 2023, seis desses limites já haviam sido ultrapassados.
Por Redação CicloVivo – 30 de abril de 2025 – Projeto da DM9 com a OKA Biotech transforma poluição invisível em alerta visual poderoso e propõe alternativa sustentável ao uso do plástico. Foto: Divulgação.
Já imaginou beber água em um copo feito com microplásticos retirados do sangue humano?
Essa é a provocação por trás de Plastic Blood, projeto criado pela agência DM9 em parceria com a empresa brasileira OKA Biotech.
A iniciativa une design, ciência e sustentabilidade para expor, de forma simbólica e perturbadora, um problema silencioso: a contaminação humana por substâncias plásticas.
Utilizando microplásticos extraídos de 1.000 bolsas de sangue descartadas — cerca de 450 litros — por meio de processos de diálise adaptada e isolamento enzimático, a equipe transformou o material em objetos cotidianos como copos, canudos, sacolas e garrafas, impressos em 3D e exibidos em uma instalação artística.
Foto: Divulgação
O projeto ganha força ao traduzir em imagens concretas algo que normalmente passa despercebido.
Estudos mostram que uma pessoa consome, em média, 5 gramas de microplásticos por semana — o equivalente a um cartão de crédito — através da água, de alimentos e do contato com embalagens.
Ao longo da vida, esse número pode chegar a 25 quilos de plástico dentro do corpo humano, afetando órgãos como pulmões, cérebro, útero e até o leite materno.
As consequências à saúde vão de inflamações e doenças neurodegenerativas até riscos de câncer e demência.
Foto: DM9
“Queríamos transformar algo microscópico em uma experiência física e emocional. Plastic Blood não trata apenas de meio ambiente, mas de uma crise de saúde pública”, explica Laura Esteves, VP de criação da DM9.
Além do alerta, o projeto apresenta soluções concretas. A OKA Biotech, responsável pela parte científica da ação, desenvolve materiais biodegradáveis a partir de mandioca. .
Os produtos são resistentes, térmicos, comestíveis e 100% naturais — e podem substituir o plástico em diversas indústrias.
Imagens: DM9
“O nosso processo é limpo e sustentável: zero resíduos, pouca água e energia renovável. Oferecemos às empresas a chance de reduzir sua pegada ambiental de forma prática e eficiente”, afirma Érika Cezarini Cardoso, fundadora da OKA Biotech.
O Brasil é o quarto maior gerador de resíduos plásticos do mundo e recicla apenas 1% do total produzido.
Plastic Blood surge como um convite ao espanto e à ação.
Por FUNVERDE – Com ajuda do IA Grok – 23 de abril de 2025 – Hoje me veio uma triste lembrança enquanto andava pela calçada perto de casa. Foto Funverde.
Em 2005, registramos uma cena que, infelizmente, não surpreende: uma sacola plástica de uso único jogada na calçada, um descarte irregular que polui nossas ruas e o meio ambiente.
Foto FUNVERDE – tirada em 2005
Foto FUNVERDE – tirada em 2025
Hoje, em 2025, 20 anos depois, a situação permanece praticamente a mesma.
A foto tirada hoje mostra, mais uma vez, uma sacola plástica abandonada no mesmo cenário urbano, como se o tempo não tivesse passado.
Essa repetição é um alerta gritante: os hábitos humanos não mudaram, e o planeta continua sofrendo as consequências do uso desenfreado das sacolas plásticas de uso único.
As sacolas plásticas de uso único são um dos maiores desafios ambientais da atualidade.
Foto FUNVERDE
Feitas de materiais que levam centenas de anos para se decompor, elas se fragmentam em microplásticos que invadem rios, oceanos e até o solo.
Esses microplásticos acabam retornando para nós, os humanos, através da cadeia alimentar – seja pela água que bebemos ou pelos alimentos que consumimos.
O descarte irregular, como o que vemos nessas imagens separadas por duas décadas, é um ciclo vicioso que precisa ser interrompido.
Na Funverde, desde 2005, trabalhamos para conscientizar a população e promover alternativas sustentáveis, como o Projeto Sacolas Ecológicas, que incentiva o uso de sacolas reutilizáveis e a redução do consumo de plásticos descartáveis.
Apesar dos esforços, a falta de mudança nos hábitos de grande parte da sociedade nos faz questionar: será que as pessoas acreditam que existe um “planeta reserva”?
Um lugar para onde iremos quando este se tornar inabitável?
A verdade é que não há plano B.
Este é o único planeta que temos, e precisamos cuidar dele agora.
É hora de agir! Pequenas atitudes, como recusar sacolas plásticas, adotar sacolas reutilizáveis e descartar o lixo corretamente, podem fazer uma diferença enorme.
A FUNVERDE convida você a se juntar a nós nessa luta por um futuro mais limpo e sustentável.
Vamos mudar essa história – não podemos esperar mais 20 anos para ver a mesma cena se repetir.
Junte-se ao movimento! Conheça mais sobre o Projeto Sacolas Ecológicas e faça parte da solução. Use sacolas retornáveis, recuse sacolas plásticas de uso único.
Por Reinaldo José Lopes – FolhaPress – 10 de abril de 2025 – Ainda não está claro quais os efeitos de longo prazo desse tipo de processo, mas tudo indica que os experimentos conseguiram reproduzir com razoável fidelidade o que pode acontecer nos casos em que há alguma concentração de medicamentos usados por seres humanos na água. Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil.
Os remédios para ansiedade consumidos por uma parcela cada vez maior da população podem estar modificando de forma significativa o comportamento dos peixes quando seus resquícios chegam à água dos rios.
Num experimento conduzido com salmões na Suécia, pequenas quantidades desse tipo de droga fizeram com que os animais atravessassem mais rápido turbinas de hidrelétricas e alterassem sua participação em cardumes, ficando mais distantes uns dos outros.
Com isso, acabavam chegando ao mar com mais frequência do que os peixes “sem doping”.
Ainda não está claro quais os efeitos de longo prazo desse tipo de processo, mas tudo indica que os experimentos conseguiram reproduzir com razoável fidelidade o que pode acontecer nos casos em que há alguma concentração de medicamentos usados por seres humanos na água.
“É importante levar em conta que qualquer mudança no comportamento e na ecologia naturais de uma espécie tende a ter consequências negativas mais amplas, tanto para aquela espécie quanto para a comunidade de espécies em volta dela”, declarou à Folha um dos autores do estudo, Michael Bertram, da Universidade Sueca de Ciências Agrícolas.
“Até consequências comportamentais que de início parecem benéficas podem acarretar custos ocultos.”
O trabalho, que acaba de sair no periódico especializado Science, é uma tentativa de analisar de forma controlada as consequências de um problema cada vez mais comum.
Nos processos de fabricação, uso e descarte de produtos farmacêuticos, muitas vezes essas substâncias vão parar em corpos d’água como lagos e rios. Até agora, cerca de 1.000 medicamentos ou suas versões metabolizadas (ou seja, transformadas por sua passagem pelo organismo humano) já foram identificados nesses ambientes.
É claro que a água pode diluir essas substâncias.
No entanto, há várias razões pelas quais não se pode assumir que sua presença será segura para a vida aquática.
O primeiro problema é que muitos desses medicamentos afetam as chamadas vias evolutivamente conservadas – ou seja, mecanismos bioquímicos presentes em grandes primatas como nós, mas também em boa parte dos vertebrados ou mesmo invertebrados.
Isso faz com que o risco de efeitos deletérios valha para uma ampla gama de seres vivos.
Além disso, várias dessas substâncias foram criadas para ter uma ação sobre o organismo mesmo em concentração baixa e podem demorar para se desfazer na água.
E, no caso de fármacos com efeito direto sobre o sistema nervoso, como ansiolíticos e antidepressivos, os cientistas já detectaram traços deles no cérebro de animais aquáticos, em concentrações que poderiam afetar o comportamento.
No novo estudo, Bertram e seus colegas estudaram o processo de migração de centenas de jovens salmões-atlânticos (Salmo salar), típicos do norte da Europa
. Os peixes nascem na água doce e passam até quatro anos nela antes de descer o rio rumo ao mar, onde vão passar mais alguns anos de seu ciclo de vida.
Os salmões jovens acompanhados pela equipe, com média de dois anos de idade, receberam marcadores acústicos que permitiam que eles fossem monitorados durante sua jornada pelo rio Dal, no centro da Suécia.
Além disso, metade deles recebeu implantes que liberavam fármacos lentamente em seu organismo (houve também um grupo controle, com implantes sem fármacos).
A ideia era imitar a concentração baixa da água poluída por produtos farmacêuticos -no caso, em três variantes.
Alguns dos implantes continham apenas o ansiolítico clobazam (disponível também nas farmácias brasileiras); outros tinham um analgésico da classe dos opioides, o tramado; e outros animais carregavam uma mistura dos dois fármacos.
Os cientistas tomaram ainda o cuidado de escolher um rio em que havia pouca ou nenhuma contaminação com as substâncias, para evitar um efeito mais intenso que o da poluição “normal”.
Ao monitorar os filhotes ao longo de 2020 e 2021, os pesquisadores perceberam que o grupo que recebeu o ansiolítico teve uma probabilidade maior de migrar até o mar Báltico descendo o rio do que os demais: por ano, 9 salmões foram parar na água salgada nesse grupo, contra 4 salmões no grupo controle (nos outros dois grupos, não houve diferença significativa).
Além disso, os salmões que “tomaram” ansiolítico atravessaram turbinas de hidrelétricas no rio Dal com velocidade até três vezes maior que os peixes do grupo controle.
Por fim, experimentos feitos em laboratório, e não no rio, indicam que os salmões sob efeito do remédio para ansiedade tinham menor tendência a se juntar em cardumes próximos quando estavam na presença de um peixe predador de água doce, o lúcio (Esox lucius).
Para Bertram, é possível que esse seja o grande problema.
A reação ao lúcio sugere que o ansiolítico está afetando a reação dos peixes diante de riscos.
Com isso, eles podem se expor mais a predadores na natureza.
“Além disso, a alteração no ritmo da migração pode fazer com que os peixes alcancem o mar em condições abaixo das ideais”, o que também teria impacto negativo em sua sobrevivência, argumenta ele.
Por José Tadeu Arantes – Agência FAPESP – 10 de abril de 2025 – As amostras foram coletadas no fundo do Lago das Garças, no Parque Estadual das Fontes do Ipiranga. Análise evidenciou forte correlação entre a industrialização, o crescimento populacional e o aumento das concentrações dos poluentes. Lago das Garças, no Parque Estadual das Fontes do Ipiranga. Destaque para a massiva proliferação de algas na superfície e a urbanização ao fundo; Foto:Tatiane Araujo de Jesus.
A história da poluição por metais na cidade de São Paulo pode ser lida nas camadas de sedimentos acumuladas ao longo do último século.
Por meio da paleolimnologia – método que permite reconstruir mudanças ambientais passadas com base em testemunhos sedimentares –, pesquisadores reconstruíram um século de poluição por metais na capital a partir de amostras coletadas no Lago das Garças, no Parque Estadual das Fontes do Ipiranga (Pefi).
O estudo evidenciou forte correlação entre a industrialização, o crescimento populacional e o aumento desse tipo de poluente.
Os resultados foram publicados na revista Environmental Science and Pollution Research.
Os cientistas analisaram as concentrações de oito metais – cobalto, cromo, cobre, ferro, manganês, níquel, chumbo e zinco – no fundo do reservatório, cujos sedimentos guardam registros de aproximadamente cem anos.
“Tudo o que vai acontecendo em uma bacia de drenagem acaba, de alguma forma, ficando registrado nos sedimentos dos ambientes aquáticos. Escolhemos o Lago das Garças pelo fato de ele nunca ter sido dragado, o que permitiu a preservação da sequência histórica da deposição de poluentes”, conta Tatiane Araujo de Jesus, coordenadora do Laboratório de Sistemas de Engenharia Ecológica da Universidade Federal do ABC (UFABC) e primeira autora do artigo.
Os pesquisadores coletaram testemunhos de sedimentos com o auxílio de mergulhadores.
Esses testemunhos são cilindros verticais de material depositado do fundo do lago.
Como o carbono-14 não se presta à datação de amostras relativamente recentes, as camadas foram datadas por meio do chumbo-210.
O princípio físico é o mesmo do carbono-14: o decaimento radioativo do isótopo.
“O chumbo-210 tem uma meia-vida de aproximadamente 22,3 anos, então, por meio da atividade desse isótopo, conseguimos atribuir uma idade a cada camada de sedimentos, como se estivéssemos numerando as páginas de um livro”, explica Jesus.
(a) Testemunho sedimentar; (b-c) Detalhe do fatiamento das amostras a cada 1 cm (fotos: Tatiane Araujo de Jesus)
Os resultados revelaram três grandes períodos na evolução da poluição por metais na cidade de São Paulo.
Camadas correspondentes ao período pré-industrial, que se estendeu até 1950, apresentaram baixas concentrações de metais, refletindo uma época em que o local era menos impactado por atividades humanas.
Vale lembrar que o reservatório, formado pelo represamento do córrego do Campanário em 1893, foi usado para abastecimento de água até 1928.
Planta datada de 1914 com indicação de uma represa no córrego do Campanário já em 1893 (fonte: Arquivo do Estado de São Paulo/foto: Tatiane Araujo de Jesus).
No período 1950-1975, os níveis de metais começaram a aumentar progressivamente.
Fatores como a intensificação do tráfego aéreo no Aeroporto de Congonhas (inaugurado em 1936), o crescimento das montadoras e metalúrgicas no ABC Paulista e a urbanização desordenada contribuíram para o acúmulo de poluentes.
O pico da poluição ocorreu no período seguinte, 1975-2000.
A partir da década de 1970, houve um aumento expressivo na concentração de metais como chumbo, níquel, ferro, cromo e cobre.
Na avaliação dos dados coletados, deve ser considerado o fator local, pois o período coincide com a instalação da Rodovia dos Imigrantes (1974), que intensificou o tráfego de veículos na região.
“Observamos que a maior parte desses metais detectados era proveniente de emissões veiculares e industriais”, conta a pesquisadora.
Um dos achados mais marcantes do estudo foi a queda dos níveis de chumbo nos sedimentos posteriores a 1986, quando o Brasil proibiu o uso de gasolina com chumbo por meio do Programa de Controle de Emissões Veiculares (Proconve).
“Até então, o chumbo era utilizado como aditivo na gasolina e, com sua proibição, observamos a diminuição de sua concentração nos sedimentos. Isso mostra como políticas ambientais podem ter impactos positivos e mensuráveis”, ressalta Jesus.
Apesar da redução do chumbo, as concentrações de outros metais continuaram aumentando ao longo dos anos 1990, em particular cobalto, níquel e cobre, provavelmente relacionados a mudanças nos processos industriais.
Os dados indicam que uma siderúrgica próxima ao reservatório, que antes produzia aço, passou a fabricar artefatos metálicos nesse período, o que pode ter modificado o perfil da poluição metálica.
O estudo não apenas revelou a evolução da poluição por metais em São Paulo, mas também destacou a importância dos sedimentos como indicadores ambientais.
“Os sedimentos são como um arquivo: eles guardam as evidências das mudanças no ambiente ao longo do tempo. Esse tipo de análise pode ser útil para guiar estratégias de proteção e recuperação do meio ambiente”, afirma a pesquisadora.
E enfatiza que, embora algumas reduções nos níveis de poluição tenham sido observadas, muitos metais persistem nos sedimentos, constituindo um passivo ambiental.
“O que podemos fazer agora é usar esses dados para estabelecer metas de recuperação. Sabemos quais eram os níveis naturais desses metais antes da industrialização e podemos trabalhar para tentar reverter parte do impacto”, diz.
Além disso, o estudo traz reflexões sobre áreas de conservação, como o Parque Estadual das Fontes do Ipiranga.
“Não basta apenas cercar um local e chamá-lo de área de preservação. Se a poluição atmosférica e a deposição de poluentes não forem controladas na região ao redor, o impacto continuará”, alerta Jesus.
Os resultados reforçam a necessidade de políticas públicas mais rigorosas para a redução da poluição industrial e veicular, além de medidas de recuperação ambiental em áreas contaminadas.
“Os dados históricos nos ajudam a entender como chegamos até aqui e podem servir de base para decisões mais informadas sobre o futuro da qualidade ambiental da cidade”, conclui a pesquisadora.
O estudo foi apoiado pela FAPESP por meio de bolsas de doutorado concedidas a Tatiane Araujo de Jesus (04/08071-5) e a Sandra Costa‑Böddeker (04/08675-8), segunda autora do paper.
Por José Tadeu Arantes – Agência FAPESP – 20 de março de 2025 – Pesquisadores da Unifesp usaram ostras e mexilhões como organismos-sentinelas para avaliar a ocorrência desses poluentes. Resultados indicam que mesmo os locais mais restritivos à presença humana apresentam contaminação relevante. Abrolhos, uma das áreas de proteção integral enfocadas no estudo;
Apesar de serem consideradas santuários da biodiversidade, as áreas marinhas protegidas (AMPs) do Brasil não estão imunes à contaminação por microplásticos.
Um estudo recente revelou que mesmo as AMPs classificadas como áreas de proteção integral (APIs), que são as mais restritivas para a intervenção humana, apresentam contaminação por esse material.
A pesquisa, que contou com a participação de cientistas brasileiros e australianos, utilizou moluscos bivalves (ostras e mexilhões) como organismos-sentinelas para avaliar a contaminação.
Os resultados foram publicados na revista Environmental Research.
“Nosso estudo mostrou que a contaminação por microplásticos ocorre até mesmo nas áreas de proteção ambiental mais restritivas. Por exemplo, no Atol das Rocas, onde não há qualquer atividade econômica nem é permitida a visitação de turistas. Os microplásticos podem chegar a locais assim transportados pelo vento ou pelas correntes oceânicas”, conta à Agência FAPESPÍtalo Braga, professor do Instituto do Mar da Universidade Federal de São Paulo (IMar-Unifesp) e coordenador da pesquisa, financiada pela FAPESP.
Os microplásticos são partículas com tamanho variando de 1 mícron (1 μm) a 5 milímetros (5 mm) que resultam da fragmentação de plásticos maiores ou são fabricados diretamente nesse formato para uso industrial ou cosmético.
Aqueles detectados no estudo apresentaram padrões consistentes ao longo da costa brasileira: predominantemente pretos, brancos ou transparentes, com tamanho inferior a 1 milímetro.
A análise química conseguiu identificar 59,4% deles, sendo os principais componentes: polímeros alquídicos (28,1%), utilizados em tintas e vernizes, possivelmente provenientes de barcos e embarcações turísticas; celulose (21%), que tanto pode ter sido de origem natural (plâncton, algas, plantas marinhas e vegetação terrestre) quanto de origem antropogênica (papéis, papelões, resíduos de alimentos etc.); polietileno tereftalato (PET) (14%), comumente encontrado em embalagens plásticas e fibras sintéticas, liberadas na lavagem de roupas e transportadas ao mar por efluentes urbanos; e politetrafluoretileno (PTFE ou teflon) (12,3%), presente em revestimentos antiaderentes e industriais. Os outros 40,6% não puderam ser descritos.
“Ao longo do litoral brasileiro, existem várias áreas protegidas com diferentes níveis de gestão. Parques nacionais, como Abrolhos e Fernando de Noronha, são altamente protegidos, enquanto outras, como algumas APAs [áreas de proteção ambiental], permitem certo grau de intervenção humana. Nosso estudo focou nas áreas de proteção integral, chamadas de ‘no-takes’ na literatura internacional especializada, que são áreas marinhas protegidas mais restritivas. Selecionamos dez delas: Parque Nacional de Jericoacoara, Atol das Rocas, Fernando de Noronha, Rio dos Frades, Abrolhos, Tamoios, Alcatrazes, Guaraqueçaba, Carijós e Arvoredo”, conta Braga.
Medidas globais
Conduzida pela doutoranda Beatriz Zachello Nunes, a pesquisa revelou que os microplásticos estão presentes em todas essas APIs, com uma concentração média de 0,42 ± 0,34 partícula por grama de tecido úmido.
Entre as áreas estudadas, a maior contaminação foi registrada no Refúgio de Vida Silvestre do Arquipélago de Alcatrazes, com 0,90 ± 0,59 partícula por grama, enquanto a menor concentração foi encontrada na Reserva Biológica do Atol das Rocas, com 0,23 partícula por grama.
“O dado positivo é que a contaminação em todas essas áreas está abaixo da média internacional para áreas marinhas protegidas [veja a figura abaixo]. E muito abaixo da média brasileira para áreas não protegidas. Locais muito contaminados, como Santos e algumas praias do Rio de Janeiro, chegam a apresentar contaminações de 50 a 60 vezes maior. Santos, aliás, registrou uma das maiores concentrações de microplásticos do mundo”, comenta o pesquisador.
As dez áreas de proteção integral estudadas (imagem: Ítalo Braga)
Os moluscos bivalves (ostras, mariscos, mexilhões e outros), que recebem esse nome por possuírem uma concha dividida em duas partes, ou seja, duas valvas articuladas, foram escolhidos no estudo por serem considerados sentinelas do mar.
“Eles se alimentam filtrando a água marinha. Os alimentos presentes na água ficam retidos em suas brânquias, que funcionam como peneiras. E pequenos cílios os transportam para o estômago. Se essa água contém contaminantes, como microplásticos, os bivalves também os retêm. Então, em vez de coletarmos amostras de água, que variam o tempo todo, analisamos os bivalves, pois eles acumulam poluentes ao longo do tempo, fornecendo um histórico mais confiável da contaminação”, explica Braga.
Os resultados do estudo demonstram que a contaminação por plástico está presente até mesmo nas áreas mais restritivas de proteção ambiental, com potenciais riscos para os ecossistemas marinhos e as cadeias alimentares.
“A criação de AMPs, por si só, não é suficiente para barrar a poluição. É fundamental que essas áreas contem com gestão ambiental eficiente e fiscalização rigorosa. Mas até isso não é suficiente, se considerarmos que os microplásticos podem não estar sendo gerados no local, mas trazidos de longe pela atmosfera e pelas correntes marítimas. Para mitigar isso, apenas medidas globais, como o Tratado Global dos Plásticos, atualmente em fase de negociação e desenvolvimento sob a coordenação do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente [PNUMA], podem fazer diferença”, conclui o pesquisador.
As manchas de cor lilás são áreas marinhas ao redor do mundo.
A contaminação por microplásticos nas áreas de proteção integral enfocadas no estudo fica abaixo da média mundial para áreas marinhas protegidas (linha roxa pontilhada) e muito abaixo da média brasileira para áreas não protegidas (linha vermelha pontilhada).
A média de contaminação por microplásticos nas áreas estudadas é dada pela linha preta pontilhada (imagem: Beatriz Zachello Nunes).