{"id":11133,"date":"2012-09-26T13:00:20","date_gmt":"2012-09-26T16:00:20","guid":{"rendered":"http:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/?p=11133"},"modified":"2012-09-26T13:00:20","modified_gmt":"2012-09-26T16:00:20","slug":"uma-proposta-para-reduzir-os-agrotoxicos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/uma-proposta-para-reduzir-os-agrotoxicos\/","title":{"rendered":"Uma proposta para reduzir os agrot\u00f3xicos"},"content":{"rendered":"<p><strong>\u201cSe analisarmos o transg\u00eanico junto com o agrot\u00f3xico, veremos que eles fazem parte do mesmo pacote agrobiotecnol\u00f3gico. O Brasil triplicou o uso do agrot\u00f3xico a partir da introdu\u00e7\u00e3o do transg\u00eanico\u201d, constata o bi\u00f3logo Fernando Ferreira Carneiro<\/strong><\/p>\n<p>A Pol\u00edtica Nacional de Agroecologia, anunciada na semana passada pelo governo brasileiro, ainda \u00e9 embrion\u00e1ria, porque \u201cainda n\u00e3o foi implementado um plano de a\u00e7\u00e3o de governo que traduza essa pol\u00edtica em investimentos, em pesquisa, em uma s\u00e9rie de \u00e1reas de monitoramento que precisam de recursos para estar realmente efetuando o que esperamos, ou seja, uma transi\u00e7\u00e3o de modelo\u201d, avalia o pesquisador da Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Sa\u00fade Coletiva \u2013 Abrasco, Fernando Ferreira Carneiro. Incentivador do desenvolvimento de territ\u00f3rios agr\u00edcolas livres de agrot\u00f3xicos, o bi\u00f3logo diz que a pol\u00edtica \u00e9 t\u00edmida porque o agroneg\u00f3cio \u00e9 hegem\u00f4nico no pa\u00eds. <strong>\u201cA nossa an\u00e1lise \u00e9 de que o Estado brasileiro apoia o agroneg\u00f3cio, porque ele \u00e9 forte no campo legislativo \u2013 basta ver a Bancada Ruralista \u2013, \u00e9 forte no campo econ\u00f4mico \u2013 veja os financiamentos que eles recebem \u2013, \u00e9 forte no campo jur\u00eddico \u2013 veja quem s\u00e3o os punidos pelos assassinatos e viol\u00eancia nos campos \u2013, e \u00e9 forte na m\u00eddia\u201d,<\/strong> diz \u00e0 IHU On-Line em entrevista concedida por telefone.<\/p>\n<p>Para ele, a agroecologia n\u00e3o \u00e9 uma \u201cmera t\u00e9cnica, pois implica n\u00e3o somente no n\u00e3o uso de agrot\u00f3xicos, mas tamb\u00e9m numa melhor reparti\u00e7\u00e3o dos benef\u00edcios sociais e ambientais, considerando a natureza como ator fundamental\u201d. E ressalta: \u201cNa medida em que olhamos o sistema produtivo considerando o cuidado com o planeta, come\u00e7amos a ter ganhos imediatos em todos os sentidos. Ent\u00e3o, para os pesquisadores da sa\u00fade coletiva, a agroecologia \u00e9 uma estrat\u00e9gia de promo\u00e7\u00e3o da sa\u00fade\u201d.<\/p>\n<p>Fernando Ferreira Carneiro \u00e9 graduado em Ci\u00eancias Biol\u00f3gicas pela Universidade Federal de Minas Gerais \u2013 UFMG, mestre em Ci\u00eancias da Sa\u00fade pelo Instituto Nacional de Salud P\u00fablica do M\u00e9xico, e doutor em Ci\u00eancia Animal pela UFMG. \u00c9 professor adjunto da Universidade de Bras\u00edlia \u2013 UnB e membro do Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Sa\u00fade Coletiva e do Programa de Ci\u00eancias da Sa\u00fade da mesma universidade. Faz parte do grupo de trabalho Sa\u00fade e Ambiente, da Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Sa\u00fade Coletiva \u2013 Abrasco e da Rede Brasileira de Justi\u00e7a Ambiental. Confira a entrevista.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013<\/strong> Em que aspectos a Pol\u00edtica Nacional de Agroecologia \u00e9 considerada t\u00edmida?<\/p>\n<p><strong>Fernando Ferreira Carneiro \u2013<\/strong> Toda pol\u00edtica p\u00fablica aprovada \u00e9 acompanhada de um plano de a\u00e7\u00e3o, onde se estabelecem os compromissos dos fatores envolvidos e se determina como essa pol\u00edtica ser\u00e1 traduzida em programas e a\u00e7\u00f5es governamentais, visando literalmente implement\u00e1-la para que n\u00e3o seja uma mera carta de inten\u00e7\u00f5es. Ent\u00e3o, a princ\u00edpio ainda n\u00e3o foi implementado um plano de a\u00e7\u00e3o de governo que traduza essa pol\u00edtica em investimentos, em pesquisa, em uma s\u00e9rie de \u00e1reas de monitoramento que precisam de recursos para estar realmente efetuando o que esperamos, ou seja, uma transi\u00e7\u00e3o de modelo.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013<\/strong> Que quest\u00f5es fundamentais sugeridas pela Abrasco n\u00e3o foram consideradas na Pol\u00edtica Nacional de Agroecologia?<\/p>\n<p><strong>Fernando Ferreira Carneiro \u2013<\/strong> A Abrasco chegou a ser convidada para uma mesa de controv\u00e9rsias, uma mesa de di\u00e1logos da sociedade civil, que ocorreu na presid\u00eancia da Rep\u00fablica antes do lan\u00e7amento do decreto. Da nossa parte, apoiamos uma pol\u00edtica que promovesse e incentivasse territ\u00f3rios livres de agrot\u00f3xico.<\/p>\n<p>Portanto, nossa proposta consistia em incentivar munic\u00edpios a comporem uma opera\u00e7\u00e3o que privilegiasse, por exemplo, a agroecologia, para ter um territ\u00f3rio que pudesse ser declarado livre de agrot\u00f3xicos. Por sua vez, a pol\u00edtica p\u00fablica daria incentivos fiscais no sentido de financiar projetos para esses territ\u00f3rios.<\/p>\n<p><strong>Os agrot\u00f3xicos n\u00e3o pagam impostos e em muitos casos recebem isen\u00e7\u00e3o de 100%.<\/strong> Ent\u00e3o, por que n\u00e3o incentivar outras pr\u00e1ticas, livres de veneno? Teria de se criar incentivos para que os territ\u00f3rios ou as unidades de cultivo se declarassem livres de agrot\u00f3xicos ou obtivessem recursos do Estado. Como cidad\u00e3o, eu ficaria muito mais satisfeito subsidiando a agroecologia do que subsidiando venenos para alavancar o agroneg\u00f3cio.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013<\/strong> Apesar de o governo desenvolver a Pol\u00edtica Nacional de Agroecologia, dados demonstram que o uso de agrot\u00f3xicos triplicou na \u00faltima d\u00e9cada. Quais s\u00e3o as principais contradi\u00e7\u00f5es do governo nesse sentido, que por um lado investe em agroecologia e, por outro, facilita o uso de agrot\u00f3xicos na agricultura?<\/p>\n<p><strong>Fernando Ferreira Carneiro \u2013<\/strong> A nossa an\u00e1lise \u00e9 de que o Estado brasileiro apoia o agroneg\u00f3cio, porque ele \u00e9 forte no campo legislativo \u2013 basta ver a Bancada Ruralista \u2013, \u00e9 forte no campo econ\u00f4mico \u2013 veja os financiamentos que eles recebem \u2013, \u00e9 forte no campo jur\u00eddico \u2013 veja quem s\u00e3o os punidos pelos assassinatos e viol\u00eancia nos campos \u2013, e \u00e9 forte na m\u00eddia. Ent\u00e3o, ele tem uma hegemonia em v\u00e1rios campos e, em contraposi\u00e7\u00e3o, o Estado brasileiro \u00e9 fraco, pequeno, t\u00edmido para apoiar a agroecologia. O or\u00e7amento do Incra e do Minist\u00e9rio do Desenvolvimento Agr\u00e1rio \u2013 MDA s\u00e3o muito mais defasados. A pol\u00edtica de reforma agr\u00e1ria caminha e quase inexiste de fiscaliza\u00e7\u00e3o e vigil\u00e2ncia do uso de agrot\u00f3xicos. N\u00e3o sabemos se a \u00e1gua que bebemos nas cidades est\u00e1 contaminada ou n\u00e3o com o uso de agrot\u00f3xicos, porque os dados n\u00e3o s\u00e3o p\u00fablicos. Ent\u00e3o, o Estado brasileiro tem que ser forte para atuar em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 agroecologia da mesma forma que \u00e9 para o agroneg\u00f3cio.<\/p>\n<p>Infelizmente, n\u00e3o \u00e9 essa a realidade. \u00c9 claro que essa pol\u00edtica \u00e9 um passo na dire\u00e7\u00e3o de come\u00e7ar a ter uma presen\u00e7a maior do Estado numa seara, que era de dom\u00ednio exclusivo do mercado. Quem queria produzir ecologicamente o fazia por sua conta em risco, e ainda o faz, porque, <strong>quando o agricultor diz que n\u00e3o quer financiamento para comprar veneno, ele \u00e9 intimidado pelos bancos,<\/strong> porque existe uma cultura de subs\u00eddio do financiamento, da obriga\u00e7\u00e3o de usar veneno, que foi constru\u00edda desde a Revolu\u00e7\u00e3o Verde. Ent\u00e3o, lutar contra tudo isso e exigir uma mudan\u00e7a de cultura, uma mudan\u00e7a de modelo, n\u00e3o \u00e9 tarefa simples, e o Estado brasileiro realmente ainda n\u00e3o prioriza essa quest\u00e3o em termos de decis\u00e3o pol\u00edtica.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013<\/strong> Trata-se de duas vis\u00f5es de agricultura para o mesmo pa\u00eds?<\/p>\n<p><strong>Fernando Ferreira Carneiro \u2013<\/strong> Exatamente. Mas em algum momento teremos de decidir qual ser\u00e1 a nossa situa\u00e7\u00e3o no mundo: uma grande lixeira t\u00f3xica, como est\u00e1 na reportagem de capa da revista Ci\u00eancia da semana passada, onde <strong>quatorze agrot\u00f3xicos proibidos em outros pa\u00edses s\u00e3o usados livremente no Brasil, o maior consumidor de agrot\u00f3xicos do planeta;<\/strong> ou se o pa\u00eds quer se tornar o maior produtor de alimentos saud\u00e1veis do mundo. Qual o papel que o pa\u00eds quer ter? Produzir a qualquer custo? Nesse modelo de produ\u00e7\u00e3o, o lucro \u00e9 capitalizado pelos donos do agroneg\u00f3cio, e com o sistema financeiro investindo e comprando terras no Brasil, o preju\u00edzo ser\u00e1 socializado. Para se ter uma ideia, segundo estudos realizados por um economista do IBGE, Wagner Lopes Soares, <strong>a cada um d\u00f3lar gasto em agrot\u00f3xico, gasta-se 1,28 d\u00f3lares no SUS s\u00f3 de atendimento em intoxica\u00e7\u00e3o aguda, sem falar nos casos de c\u00e2ncer ou de problemas de sa\u00fade, que s\u00e3o dif\u00edceis de serem mensurados.<\/strong> Temos um Estado muito contradit\u00f3rio, no qual existe uma hegemonia quase completa dos interesses privados do agroneg\u00f3cio, frente aos interesses da popula\u00e7\u00e3o e da pr\u00f3pria natureza.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013<\/strong> Que quest\u00f5es deveriam ser incorporadas \u00e0 Pol\u00edtica Nacional de Agroecologia para garantir a promo\u00e7\u00e3o da sa\u00fade? Em que medida a agroecologia potencializa a sa\u00fade?<\/p>\n<p><strong>Fernando Ferreira Carneiro \u2013<\/strong> Esperamos que a pol\u00edtica signifique a implementa\u00e7\u00e3o de modelos produtivos mais saud\u00e1veis. Na medida em que se come\u00e7a a eliminar a utiliza\u00e7\u00e3o de venenos e a diversificar a produ\u00e7\u00e3o, promove-se a biodiversidade e alteram-se os territ\u00f3rios. Consequentemente, quando diminui o uso de subst\u00e2ncias qu\u00edmicas, come\u00e7a-se a promover sa\u00fade. Os dados das pesquisas indicam que o \u00edndice de c\u00e2ncer na popula\u00e7\u00e3o rural \u00e9 maior do que na urbana. O que pode explicar isso? Quais s\u00e3o os fatores que geram c\u00e2ncer nas pessoas que residem nas cidades ou no campo? Essas perguntas merecem ser respondidas.<\/p>\n<p>A agroecologia foi uma das primeiras conclus\u00f5es do nosso dossi\u00ea de alerta \u00e0 popula\u00e7\u00e3o sobre os impactos dos agrot\u00f3xicos na sa\u00fade. A agroecologia vem como a grande alternativa, como a proposta real, pragm\u00e1tica de mudan\u00e7a do sistema produtivo. N\u00e3o se trata de uma mera t\u00e9cnica, pois ela implica n\u00e3o somente no n\u00e3o uso de agrot\u00f3xicos, mas tamb\u00e9m numa melhor reparti\u00e7\u00e3o dos benef\u00edcios sociais e ambientais, considerando a natureza como ator fundamental. Na medida em que olharmos o sistema produtivo considerando o cuidado com o planeta, come\u00e7aremos a ter ganhos imediatos em todos os sentidos. Ent\u00e3o, para os pesquisadores da sa\u00fade coletiva, a agroecologia \u00e9 uma estrat\u00e9gia de promo\u00e7\u00e3o da sa\u00fade. Na medida em que hortas escolares, hortas comunit\u00e1rias, v\u00e3o sendo trabalhadas sem veneno, garantiremos alimentos sem res\u00edduos de agrot\u00f3xico, e evitaremos futuras doen\u00e7as associadas ao consumo de produtos com res\u00edduos.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013<\/strong> Como est\u00e3o as pesquisas na \u00e1rea da sa\u00fade em rela\u00e7\u00e3o aos impactos tanto dos agrot\u00f3xicos como da transgenia?<\/p>\n<p><strong>Fernando Ferreira Carneiro \u2013<\/strong> Enquanto o agrot\u00f3xico ainda \u00e9 o princ\u00edpio de preven\u00e7\u00e3o, na transgenia podemos falar no princ\u00edpio de precau\u00e7\u00e3o, em termos de sa\u00fade, apesar de existirem controv\u00e9rsias cient\u00edficas. Se analisarmos o transg\u00eanico junto com o agrot\u00f3xico, veremos que eles fazem parte do mesmo pacote agrobiotecnol\u00f3gico. <strong>O Brasil triplicou o uso do agrot\u00f3xico a partir da introdu\u00e7\u00e3o do transg\u00eanico.<\/strong> Ent\u00e3o, \u00e9 muito importante analisar o transg\u00eanico nessa perspectiva. Ele viabiliza uma nova forma de acumula\u00e7\u00e3o de capital pelas empresas que obrigam o agricultor a usar determinadas sementes que servem para determinados agrot\u00f3xicos. Ent\u00e3o, \u00e9 uma estrat\u00e9gia casada. As lutas para combater esses produtos s\u00e3o fundamentais, porque eles fazem parte da mesma estrat\u00e9gia de maximizar lucros e socializar preju\u00edzos no campo e na cidade.<\/p>\n<p>Sobre os agrot\u00f3xicos, ao contr\u00e1rio dos transg\u00eanicos, j\u00e1 foi desenvolvida uma farta literatura sobre os impactos para a sa\u00fade. H\u00e1 estudos que mencionam a contamina\u00e7\u00e3o do leite materno, da \u00e1gua da chuva, do ar etc. Por isso ressaltamos a necessidade de termos um processo preventivo, pois j\u00e1 conhecemos parte dos danos que eles causam.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013<\/strong> Deseja acrescentar algo?<\/p>\n<p><strong>Fernando Ferreira Carneiro \u2013<\/strong> Em novembro vamos lan\u00e7ar a \u00faltima etapa do dossi\u00ea da Abrasco sobre os impactos dos agrot\u00f3xicos na sa\u00fade, em parceria com a Campanha Permanente Contra os Agrot\u00f3xicos e pela Vida, que \u00e9 justamente uma campanha que n\u00e3o combate s\u00f3 os agrot\u00f3xicos como tamb\u00e9m busca promover a agroecologia. Estamos juntando o saber cient\u00edfico com o saber popular, e com isso produziremos um conhecimento com car\u00e1ter cr\u00edtico e transformador.<\/p>\n<p>Fonte &#8211; Unisinos de 26 de setembro de 2012<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cSe analisarmos o transg\u00eanico junto com o agrot\u00f3xico, veremos que eles fazem parte do mesmo pacote agrobiotecnol\u00f3gico. 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