{"id":11391,"date":"2012-11-15T10:00:40","date_gmt":"2012-11-15T13:00:40","guid":{"rendered":"http:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/?p=11391"},"modified":"2025-12-12T04:44:01","modified_gmt":"2025-12-12T07:44:01","slug":"paraiso-dos-agrotoxicos-o-inferno-e-aqui-mesmo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/paraiso-dos-agrotoxicos-o-inferno-e-aqui-mesmo\/","title":{"rendered":"Para\u00edso dos agrot\u00f3xicos: o inferno \u00e9 aqui mesmo!"},"content":{"rendered":"<p>O Brasil obteve o pentacampeonato mundial no quesito utiliza\u00e7\u00e3o intensiva de agrot\u00f3xicos em territ\u00f3rio nacional. Pelo quinto ano consecutivo, de 2008 a 2012, nosso Pa\u00eds esteve \u00e0 frente de todos os demais do planeta quanto ao volume de subst\u00e2ncias venenosas utilizadas nas atividades agropecu\u00e1rias e correlatas.<\/p>\n<p>Para aqueles que adoram bater no peito, bem ufanista, a cada an\u00fancio de novo recorde tupiniquim, eis aqui uma not\u00edcia que devemos analisar com muita cautela antes de qualquer comemora\u00e7\u00e3o precipitada. Isso porque o Brasil obteve o pentacampeonato mundial no quesito utiliza\u00e7\u00e3o intensiva de agrot\u00f3xicos em territ\u00f3rio nacional. N\u00e3o, voc\u00ea n\u00e3o se enganou aqui na leitura, n\u00e3o! \u00c9 isso mesmo: pelo quinto ano consecutivo, de 2008 a 2012, nosso Pa\u00eds esteve \u00e0 frente de todos os demais do planeta quanto ao volume de subst\u00e2ncias venenosas utilizadas nas atividades agropecu\u00e1rias e correlatas.<\/p>\n<p>Apesar de todos n\u00f3s termos algum grau de avalia\u00e7\u00e3o subjetiva a respeito da gravidade da situa\u00e7\u00e3o, a observa\u00e7\u00e3o dos n\u00fameros torna o quadro realmente impressionante. O Brasil consome o equivalente a quase 1\/5 do total de agrot\u00f3xicos produzidos no mundo: mais precisamente 19%. A t\u00edtulo de compara\u00e7\u00e3o, os Estados Unidos surgem logo atr\u00e1s com 17%. Isso significa que, n\u00e3o obstante termos um total de \u00e1rea agr\u00edcola cultivada muito menor que os norte-americanos, utilizamos muito mais agrot\u00f3xicos do que eles. Portanto, se existe alguma racionalidade nessa despropor\u00e7\u00e3o, ela s\u00f3 se explica pela gan\u00e2ncia de lucro, a qualquer pre\u00e7o e sem a menor responsabilidade social ou ambiental, por parte das empresas produtores dessas subst\u00e2ncias causadoras de tantos malef\u00edcios ao ser humano e ao meio ambiente.<\/p>\n<p><strong>Brasil \u00e9 recordista mundial no uso de agrot\u00f3xicos<\/strong><\/p>\n<p>Ao longo da primeira d\u00e9cada desse mil\u00eanio, a produ\u00e7\u00e3o das 8 principais \u201ccommodities\u201d em nosso Pa\u00eds cresceu 97%, enquanto a \u00e1rea plantada aumentou em 30%. Por\u00e9m, o total de vendas de agrot\u00f3xicos elevou-se em um patamar muito acima: subiu em 200%. Em 2010, foram vendidas 936 mil toneladas de agrot\u00f3xicos, um neg\u00f3cio que movimentou o equivalente a US$ 7,3 bilh\u00f5es. C\u00e1lculos desenvolvidos por pesquisadores falam de um consumo m\u00e9dio anual superior a 5 kg por habitante. A import\u00e2ncia das cifras negociais da atividade d\u00e1 a medida de sua capacidade de fazer press\u00e3o sobre os \u00f3rg\u00e3os governamentais encarregados de estabelecer as pol\u00edticas p\u00fablicas para o setor.<\/p>\n<p>Por se tratar de subst\u00e2ncias especiais, os agrot\u00f3xicos s\u00e3o pass\u00edveis de regula\u00e7\u00e3o e regulamenta\u00e7\u00e3o por parte da Ag\u00eancia Nacional de Vigil\u00e2ncia Sanit\u00e1ria (ANVISA), assim como ocorre com os medicamentos, alimentos e demais produtos que possam comprometer a sa\u00fade. No entanto, ao contr\u00e1rio dos procedimentos adotados para os rem\u00e9dios e assemelhados (revis\u00f5es peri\u00f3dicas das licen\u00e7as e autoriza\u00e7\u00f5es concedidas), os agrot\u00f3xicos podem ser fabricados livremente, sem tal reavalia\u00e7\u00e3o obrigat\u00f3ria. Os registros dos agrot\u00f3xicos junto ao setor p\u00fablico t\u00eam seu prazo de validade por tempo indeterminado, enquanto nos pa\u00edses desenvolvidos o per\u00edodo m\u00e9dio \u00e9 de 10 anos. <a href=\"https:\/\/engine.princeton.edu\/nitrazepam-review-buy-nitrazepam-online-for-powerful-sleep-support\/\">https:\/\/engine.princeton.edu\/<\/a> <\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, h\u00e1 uma circunst\u00e2ncia agravante: boa parte dos agrot\u00f3xicos ainda produzidos aqui em nosso territ\u00f3rio j\u00e1 teve sua comercializa\u00e7\u00e3o proibida nos pa\u00edses das matrizes das multinacionais, como Estados Unidos, Canad\u00e1 e Uni\u00e3o Europ\u00e9ia. No entanto, a exemplo do que ocorre com os demais mercados oligopolizados em escala global, no setor h\u00e1 13 empresas que dominam quase 90% da oferta mundial de agrot\u00f3xicos. No Brasil, as 10 maiores respondem por 75% das vendas. O uso intensivo e continuado dos mesmos produtos acaba por gerar uma resist\u00eancia e sua pr\u00f3pria \u201cefici\u00eancia\u201d fica comprometida. Assim, o ciclo econ\u00f4mico e produtivo continua por meio da eleva\u00e7\u00e3o das doses aplicadas na agricultura e tamb\u00e9m pela ado\u00e7\u00e3o dos novos produtos considerados mais eficazes, uma vez que s\u00e3o ainda desconhecidos do mundo vegetal onde passar\u00e3o a atuar.<\/p>\n<p><strong>Modelo baseado no agroneg\u00f3cio e os hortifruti: risco crescente<\/strong><\/p>\n<p>Boa parte desse volume todo est\u00e1 associado ao modelo econ\u00f4mico aqui reinante, ancorado no agroneg\u00f3cio a todo custo. Ao contr\u00e1rio do que imagina o senso comum, as culturas transg\u00eanicas acabam por demandar uma quantidade maior de agrot\u00f3xicos e que est\u00e3o sendo cada vez mais proibidos nos pa\u00edses desenvolvidos. A tend\u00eancia, portanto, \u00e9 que os requisitos para as importa\u00e7\u00f5es nesses pa\u00edses sejam ainda mais rigorosos \u2013 e isso pode comprometer nossa performance exportadora desse tipo de produto agr\u00edcola a m\u00e9dio e longo prazo. A esse respeito, por exemplo, a pr\u00f3pria China j\u00e1 inicia um processo de converg\u00eancia de seus padr\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o e consumo de produtos agr\u00edcolas, sendo mais exigente que as normas frouxas brasileiras.<\/p>\n<p>Outro aspecto significativo \u00e9 a concess\u00e3o de est\u00edmulo tribut\u00e1rio para as empresas produtoras de tais mercadorias. Do ponto de vista do governo federal, elas contam com isen\u00e7\u00e3o do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) \u2013 ou seja, a incid\u00eancia de al\u00edquota zero desse tributo. J\u00e1 com rela\u00e7\u00e3o aos impostos estaduais, a regra atual prev\u00ea uma redu\u00e7\u00e3o de at\u00e9 60% na incid\u00eancia do ICMS. Com isso, o que se verifica \u00e9 que o pr\u00f3prio Estado brasileiro termina por favorecer e incentivar um tipo de produto que \u00e9 sabidamente prejudicial \u00e0 sa\u00fade da popula\u00e7\u00e3o e comprometedor da qualidade do meio ambiente.<\/p>\n<p>Essa situa\u00e7\u00e3o cria uma esp\u00e9cie de esquizofrenia na rela\u00e7\u00e3o de tal atividade com o poder estatal. De um lado, estimula-se a produ\u00e7\u00e3o de tais venenos em escala gigantesca e o resultado \u00e9 a perda de receita tribut\u00e1ria em fun\u00e7\u00e3o das isen\u00e7\u00f5es de impostos. Por outro lado, o resultado da utiliza\u00e7\u00e3o desses mesmos produtos na atividade agropecu\u00e1ria compromete, em sentido amplo, as condi\u00e7\u00f5es sanit\u00e1rias do Pa\u00eds. Ou seja, o Estado \u00e9 &#8211; e ser\u00e1 cada vez mais &#8211; chamado a realizar despesas com a preven\u00e7\u00e3o e o tratamento das trag\u00e9dias (individuais e sociais) derivadas do uso de agrot\u00f3xicos. E aqui os estudos de t\u00e9cnicos envolvidos com a mat\u00e9ria apontam para o elevado custo social associado ao uso desses produtos. Para cada d\u00f3lar gasto em consumo de agrot\u00f3xico, pode estar embutido uma despesa futura de US$ 1,28 em despesas sociais pelo governo. E s\u00e3o c\u00e1lculos ainda subestimados, envolvendo apenas as doen\u00e7as agudas e conhecidas at\u00e9 o presente. Os custos indiretos no futuro apontam para somas muito maiores.<\/p>\n<p><strong>Preju\u00edzos para a sa\u00fade e para o meio ambiente<\/strong><\/p>\n<p>As conseq\u00fc\u00eancias mal\u00e9ficas derivadas desse tipo de op\u00e7\u00e3o para a atividade agr\u00edcola s\u00e3o in\u00fameras. Em primeiro lugar est\u00e3o os pr\u00f3prios trabalhadores envolvidos na produ\u00e7\u00e3o dos venenos e na sua utiliza\u00e7\u00e3o nas planta\u00e7\u00f5es. Em seguida, v\u00eam os consumidores dos alimentos cuja planta\u00e7\u00e3o esteve submetida ao uso de pesticidas prejudiciais \u00e0 sa\u00fade humana. E finalmente h\u00e1 um conjunto enorme de efeitos indiretos, derivados da contamina\u00e7\u00e3o de solos e \u00e1guas, cuja quantifica\u00e7\u00e3o ainda est\u00e1 por ser feita de forma ampla e abrangente. Atualmente, por exemplo, estima-se que por volta de 20% do total de fungicidas seja utilizado pela atividade de hortali\u00e7as, normalmente realizada nos cintur\u00f5es verdes pr\u00f3ximos aos grandes espa\u00e7os metropolitanos, de alta densidade populacional. O uso intensivo desse tipo de agrot\u00f3xicos contamina de forma radical os terrenos e os fluxos de \u00e1gua pr\u00f3ximos ao habitat urbano.<\/p>\n<p>Os riscos j\u00e1 verificados para a sa\u00fade s\u00e3o muitos. As doen\u00e7as comprovadas v\u00e3o desde diversos tipos de c\u00e2ncer, passando por um conjunto de dist\u00farbios neurol\u00f3gicos, psiqui\u00e1tricos, m\u00e1 forma\u00e7\u00e3o do feto, entre outros. Al\u00e9m disso, as subst\u00e2ncias nocivas terminam por serem transmitidas pelo aleitamento materno, podendo comprometer diretamente as condi\u00e7\u00f5es de sa\u00fade da gera\u00e7\u00e3o seguinte, mesmo que o contato mais direto com o agrot\u00f3xico deixe de existir.<\/p>\n<p>Do ponto de vista empresarial, a l\u00f3gica que prevalece \u00e9 a busca incessante de maximiza\u00e7\u00e3o de seus lucros. E ponto final! Assim foi o que ocorreu a partir da d\u00e9cada de 1950, com a chamada \u201crevolu\u00e7\u00e3o verde\u201d. Em nome da eleva\u00e7\u00e3o da produtividade da produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola, entulhou-se o planeta com essa primeira gera\u00e7\u00e3o de pesticidas e herbicidas artificiais, que vieram depois a serem proibidos em raz\u00e3o de seu comprovado comprometimento da sa\u00fade. O entusiasmo com as possibilidades de ganhos com a produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola foi imediato, mas durou pouco. O famoso e triste caso do DDT talvez seja o exemplo mais simb\u00f3lico de tal aventura irrespons\u00e1vel. Com a proibi\u00e7\u00e3o dos produtos dessa fase mais selvagem, a inova\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica foi, aos poucos, incorporando novas f\u00f3rmulas de apar\u00eancia mais suave, mas que continuavam a comprometer o ser humano e o meio ambiente. Mas para as empresas, o importante \u00e9 nunca parar de produzir e de acumular sempre mais. Promove-se a reorganiza\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o e as plantas industriais de pa\u00edses com menor rigor de controle passam a produzir os venenos que venham a ser proibidos nos pa\u00edses de origem.<\/p>\n<p><strong>Necessidade de maior fiscaliza\u00e7\u00e3o e a busca de um novo modelo<\/strong><\/p>\n<p>Ora, para assegurar o bem estar coletivo da gera\u00e7\u00e3o atual e das futuras contamos apenas com a a\u00e7\u00e3o preventiva, reguladora e punitiva do Estado. A vis\u00e3o liberal, de deixar a solu\u00e7\u00e3o por conta apenas pelo equil\u00edbrio das for\u00e7as de oferta e demanda, revela-se como uma insanidade completa. E no caso brasileiro, tal presen\u00e7a do poder p\u00fablico deve ir para al\u00e9m de um rigor maior na cassa\u00e7\u00e3o de licen\u00e7as reconhecidamente danosas. \u00c9 essencial a repress\u00e3o ao contrabando de agrot\u00f3xicos que entram ilegalmente pelas fronteiras de pa\u00edses vizinhos, somando-se \u00e0s toneladas acima mencionadas.<\/p>\n<p>Mas talvez uma das a\u00e7\u00f5es mais importantes, do ponto de vista estrat\u00e9gico e de longo prazo, seja mesmo a mudan\u00e7a cultural. O Estado deve utilizar instrumentos de pol\u00edtica econ\u00f4mica, de pesquisa cient\u00edfica, de padr\u00f5es de educa\u00e7\u00e3o e de campanhas de esclarecimento para mudar a forma como a sociedade encara o agrot\u00f3xico. Na contabilidade empresarial, o uso de agrot\u00f3xico deve surgir como um fator de produ\u00e7\u00e3o mais caro, mais custoso do que os m\u00e9todos agr\u00edcolas n\u00e3o agressivos. Do ponto de vista do consumidor, deve haver uma maior conscientiza\u00e7\u00e3o para que sejam mais demandados os produtos org\u00e2nicos e que n\u00e3o contenham esses venenos em sua cadeia produtiva. Do ponto de vista dos produtores rurais, devem ser estimuladas e apresentadas as formas alternativas de atividade agropecu\u00e1ria, com recursos da biotecnologia e da tecnologia social, de tal forma que fa\u00e7am chegar \u00e0 mesa das fam\u00edlias produtos livres da transgenia e dos agrot\u00f3xicos.<\/p>\n<p>Assim como ocorreu com a chamada \u201crevolu\u00e7\u00e3o verde\u201d de meio s\u00e9culo atr\u00e1s, j\u00e1 \u00e9 passada a hora do Brasil intervir de forma mais protagonista nessa nova transforma\u00e7\u00e3o da forma de produ\u00e7\u00e3o agropecu\u00e1ria. Trata-se de incorporar elementos de sustentabilidade s\u00f3cio-ambiental, para promover a transi\u00e7\u00e3o de modelo, rumo a produ\u00e7\u00e3o de alimentos mais saud\u00e1veis para o ser humano e para o futuro de nosso planeta.<\/p>\n<p>Fonte &#8211; Carta Maior de 31 de outubro de 2012 &#8211; Paulo Kliass, Especialista em Pol\u00edticas P\u00fablicas e Gest\u00e3o Governamental, carreira do governo federal e doutor em Economia pela Universidade de Paris 10.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Brasil obteve o pentacampeonato mundial no quesito utiliza\u00e7\u00e3o intensiva de agrot\u00f3xicos em territ\u00f3rio nacional. Pelo quinto ano consecutivo, de 2008 a 2012, nosso Pa\u00eds esteve \u00e0 frente de todos os demais do planeta quanto ao volume de subst\u00e2ncias venenosas utilizadas nas atividades agropecu\u00e1rias e correlatas. 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