{"id":11898,"date":"2013-02-25T13:00:37","date_gmt":"2013-02-25T15:00:37","guid":{"rendered":"http:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/?p=11898"},"modified":"2013-02-25T13:00:37","modified_gmt":"2013-02-25T15:00:37","slug":"a-ampliacao-dos-transgenicos-no-brasil-soja-transgenica-intacta-rr2-pro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/a-ampliacao-dos-transgenicos-no-brasil-soja-transgenica-intacta-rr2-pro\/","title":{"rendered":"A amplia\u00e7\u00e3o dos transg\u00eanicos no Brasil &#8211; Soja transg\u00eanica Intacta RR2 Pro"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone\" alt=\"\" src=\"http:\/\/farm4.staticflickr.com\/3622\/3347278218_b83fb64c13.jpg\" width=\"374\" height=\"500\" \/><\/p>\n<p><strong>\u201cN\u00e3o entendo como o conhecimento cient\u00edfico possa ser colocado antes a servi\u00e7o das justificativas do que de cr\u00edticas aos argumentos das empresas\u201d, lamenta o engenheiro agr\u00f4nomo Leonardo Melgarejo<\/strong><\/p>\n<p>A soja transg\u00eanica Intacta RR2 Pro, que causou pol\u00eamica entre os produtores do Mato Grosso, incorpora um novo trangene e resiste \u201ca banhos de herbicidas \u00e0 base de glifosato, como tamb\u00e9m carrega, em todas suas c\u00e9lulas, uma toxina que n\u00e3o est\u00e1 presente na soja convencional\u201d, diz o engenheiro agr\u00f4nomo, Leonardo Melgarejo, \u00e0 IHU On-Line em entrevista concedida por e-mail. Para ele, a cr\u00edtica dos produtores \u00e0 Monsanto, por comercializar o produto antes da aprova\u00e7\u00e3o do mercado chin\u00eas, \u00e9 \u201ccoerente\u201d. \u201cOs produtores se preocupam com a contamina\u00e7\u00e3o das cargas destinadas \u00e0 exporta\u00e7\u00e3o, que poderiam ser rejeitadas pelo maior mercado consumidor da soja brasileira. As implica\u00e7\u00f5es seriam enormes, pois, uma vez liberado o plantio, a contamina\u00e7\u00e3o seria inevit\u00e1vel\u201d, salienta.<\/p>\n<p>De acordo com Melgarejo, a Intacta RR2 Pro promete reduzir o uso de inseticidas e combater lagartas que \u201cprejudicam\u201d a produ\u00e7\u00e3o. Entretanto, esclarece, <strong>\u201co que costuma ocorrer \u00e9 que os insetos-alvo terminam adquirindo resist\u00eancia, e, mesmo antes disso, outros insetos que eram pragas secund\u00e1rias crescem em import\u00e2ncia, exigindo tratamentos qu\u00edmicos que antes n\u00e3o eram realizados\u201d.<\/strong> Representante do Minist\u00e9rio do Desenvolvimento Agr\u00e1rio \u2013 MDA na CTNBio, o agr\u00f4nomo ressalta que \u201cn\u00e3o h\u00e1 sequer um acompanhamento\u201d de plantio transg\u00eanico e n\u00e3o transg\u00eanico. \u201cDispomos apenas de estimativas com base na comercializa\u00e7\u00e3o de sementes, que ocultam dados relativos ao contrabando e ao uso de sementes pr\u00f3prias\u201d. E dispara: \u201cAdemais, o milho e a soja entram em praticamente todas as cadeias de alimentos processados. A \u00fanica maneira de assegurar aus\u00eancia ou pelo menos redu\u00e7\u00e3o no consumo de transg\u00eanicos, isso na alimenta\u00e7\u00e3o de qualquer fam\u00edlia, reside na aproxima\u00e7\u00e3o com redes de produtores org\u00e2nicos\u201d.<\/p>\n<p>Leonardo Melgarejo \u00e9 engenheiro agr\u00f4nomo, mestre em Economia Rural, e doutor em Engenharia de Produ\u00e7\u00e3o pela Universidade de Santa Catarina \u2013 UFSC. \u00c9 membro do Instituto Nacional de Coloniza\u00e7\u00e3o e Reforma Agr\u00e1ria \u2013 Incra, no Rio Grande do Sul.<\/p>\n<p>Confira a entrevista.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013<\/strong> Quais as caracter\u00edsticas da soja transg\u00eanica Intacta RR2 Pro? O que a\u00a0diferencia das demais variedades transg\u00eanicas?<\/p>\n<p><strong>Leonardo Melgarejo \u2013<\/strong> Ela incorpora um novo transgene, que gera toxinas que matam lagartas. Esta produ\u00e7\u00e3o de toxinas (tecnologia BT) se soma \u00e0 toler\u00e2ncia ao glifosato (tecnologia HT), caracter\u00edstica apresentada pela soja RR. Isso significa que a soja RR2 n\u00e3o apenas resiste a banhos de herbicidas \u00e0 base de glifosato, como tamb\u00e9m carrega, em todas suas c\u00e9lulas, uma toxina que n\u00e3o est\u00e1 presente na soja convencional.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013<\/strong> Recentemente a Associa\u00e7\u00e3o dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso (Aprosoja-MT) criticou a Monsanto por comercializar sua nova variedade transg\u00eanica de soja, a Intacta RR2 Pro, antes da libera\u00e7\u00e3o para importa\u00e7\u00e3o pela China. Como v\u00ea essa cr\u00edtica?<\/p>\n<p><strong>Leonardo Melgarejo \u2013<\/strong> Trata-se de posi\u00e7\u00e3o coerente com os riscos de mercado. Os produtores se preocupam com a contamina\u00e7\u00e3o das cargas destinadas \u00e0 exporta\u00e7\u00e3o, que poderiam ser rejeitadas pelo maior mercado consumidor da soja brasileira. As implica\u00e7\u00f5es seriam enormes, pois, uma vez liberado o plantio, a contamina\u00e7\u00e3o seria inevit\u00e1vel. A utiliza\u00e7\u00e3o das mesmas m\u00e1quinas para colheita, secagem e transporte fatalmente misturaria os gr\u00e3os levando \u00e0 sua recusa em alguns dos portos de chegada. Isso seria especialmente grave no caso do mercado chin\u00eas. A China, que \u00e9 o principal comprador da soja brasileira, ainda n\u00e3o se posicionou quanto \u00e0 prote\u00edna t\u00f3xica Cry1Ac, presente nesta soja, e at\u00e9 o momento n\u00e3o demonstra interesse em adquirir a soja RR2. Portanto, ela n\u00e3o seria aceita. Temos precedentes de devolu\u00e7\u00e3o de produtos contaminados pelo mercado chin\u00eas, portanto seria temer\u00e1rio correr riscos em situa\u00e7\u00e3o de tamanha relev\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Por este motivo, os agricultores pressionaram a Monsanto, que informou desistir da venda de sementes enquanto a soja RR2 apresentar este quadro de rejei\u00e7\u00e3o pelo mercado chin\u00eas. As preocupa\u00e7\u00f5es dos agricultores s\u00e3o mais do que fundamentadas, porque os impactos socioecon\u00f4micos, no caso de comprometimento daquele mercado, seriam enormes.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, j\u00e1 aconteceu fato semelhante com o arroz LL, tolerante ao herbicida glufosinato de am\u00f4nio. Quando ele estava prestes a ser aprovado pela CTNBio, as principais organiza\u00e7\u00f5es dos orizicultores pressionaram a Bayer em fun\u00e7\u00e3o de riscos de mercado. Como a contamina\u00e7\u00e3o seria inevit\u00e1vel e os consumidores europeus rejeitariam o produto, perder\u00edamos alternativas para escoamento de safras. Naquela ocasi\u00e3o, a Bayer cedeu e solicitou que o processo fosse retirado da pauta das reuni\u00f5es da Comiss\u00e3o T\u00e9cnica Nacional de Biosseguran\u00e7a \u2013 CTNBio, antes de qualquer delibera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No caso da soja RR2, a Monsanto preferiu obter a aprova\u00e7\u00e3o da CTNBio, multiplicar as sementes, e agora se v\u00ea instada a atender os reclamos dos agricultores brasileiros. Ter\u00e1 que destruir ou exportar as sementes, talvez para algum pa\u00eds onde a classe produtora se mostre mais afoita.<\/p>\n<p>Chama aten\u00e7\u00e3o o fato de que nestes dois casos foram as empresas que decidiram se atenderiam ou n\u00e3o aos imperativos de ordem socioecon\u00f4mica associados \u00e0 produ\u00e7\u00e3o e comercializa\u00e7\u00e3o dos organismos geneticamente modificados. Infelizmente, a CTNBio n\u00e3o leva em conta estes aspectos em suas decis\u00f5es. Embora se trate de assunto relativo \u00e0 soberania nacional, os riscos de preju\u00edzos de curto e m\u00e9dio prazo, decorrentes do comprometimento de mercados, t\u00eam ficado nas m\u00e3os das empresas. No Brasil, as avalia\u00e7\u00f5es de impactos socioecon\u00f4micos deveriam ser realizadas pelo Conselho Nacional de Biosseguran\u00e7a \u2013 CNBS, conselho de ministros respons\u00e1vel por decidir sobre a conveni\u00eancia e oportunidade de liberar comercialmente organismos geneticamente modificados, ap\u00f3s parecer da CTNBio, que focaliza apenas quest\u00f5es de biorrisco. Infelizmente, o CNBS n\u00e3o tem se reunido e n\u00e3o existem avalia\u00e7\u00f5es fundamentadas que examinem as implica\u00e7\u00f5es socioecon\u00f4micas do plantio de transg\u00eanicos aprovados pela CTNBio.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013<\/strong> Desde quando e por que essa nova variedade transg\u00eanica foi aceita no Brasil?<\/p>\n<p><strong>Leonardo Melgarejo \u2013<\/strong> Os interesses se associam aos pacotes tecnol\u00f3gicos desenvolvidos pelas empresas, que det\u00eam os mercados de sementes transg\u00eanicas e dos agrot\u00f3xicos a elas associados. No caso desta soja, a novidade se resume a uma promessa de redu\u00e7\u00e3o no uso de inseticidas para combate a algumas lagartas. Entretanto, o que costuma ocorrer \u00e9 que <strong>os insetos-alvo terminam adquirindo resist\u00eancia, e, mesmo antes disso, outros insetos que eram pragas secund\u00e1rias crescem em import\u00e2ncia, exigindo tratamentos qu\u00edmicos que antes n\u00e3o eram realizados.<\/strong> A aprova\u00e7\u00e3o desta soja ocorreu em agosto de 2010, conforme pode ser verificado no parecer t\u00e9cnico 2542\/2010 da CTNBio. A aprova\u00e7\u00e3o ocorreu contrariando opini\u00f5es dos representantes do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, do Minist\u00e9rio do Meio Ambiente e do Minist\u00e9rio do Desenvolvimento Agr\u00e1rio. Tamb\u00e9m votaram contra representantes da Agricultura Familiar e dos Consumidores. Portanto, resta interpretar que esta soja foi liberada porque atendia \u00e0s expectativas e opini\u00f5es da maior parte dos membros da CTNBio, em que pese a resist\u00eancia de minist\u00e9rios e outros representantes especificamente preocupados com a sa\u00fade humana e ambiental. Agora se revela que os interesses socioecon\u00f4micos, desconsiderados naquela vota\u00e7\u00e3o da CTNBio, n\u00e3o apenas se mostram amea\u00e7ados como justificam esta rea\u00e7\u00e3o de parte dos produtores.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013<\/strong> Como os pa\u00edses que importam soja do Brasil se posicionam diante da produ\u00e7\u00e3o transg\u00eanica brasileira?<\/p>\n<p><strong>Leonardo Melgarejo \u2013<\/strong> <strong>O Brasil perdeu seu momento na hist\u00f3ria quando aceitou o fato consumado da contamina\u00e7\u00e3o de nossas safras, e agravou nossa depend\u00eancia das grandes sementeiras transnacionais quando, posteriormente, optou por pol\u00edticas agr\u00edcolas que apoiam \u2013 com recursos p\u00fablicos \u2013 a pesquisa e a produ\u00e7\u00e3o da soja, do milho e do algod\u00e3o transg\u00eanicos. N\u00e3o ganhamos em produtividade; estes produtos n\u00e3o s\u00e3o desenhados para isso. No m\u00e1ximo eles reduzem as perdas sob ataque pesado de insetos controlados pelas toxinas, no caso das tecnologias HT. N\u00e3o reduzimos problemas ambientais. Tornamo-nos os maiores consumidores globais de agrot\u00f3xicos. Mas seguramente perdemos a condi\u00e7\u00e3o de ditar pre\u00e7os no mercado internacional, circunst\u00e2ncia que ocorreria caso dispus\u00e9ssemos de safras n\u00e3o transg\u00eanicas.<\/strong><\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013<\/strong> O que justifica a amplia\u00e7\u00e3o de transg\u00eanicos no Brasil? Por que, diferentemente de outros pa\u00edses do mundo, o Brasil aceita a transgenia com facilidade?<\/p>\n<p><strong>Leonardo Melgarejo \u2013<\/strong> No Brasil, como na \u00cdndia, existem dois movimentos. De um lado, temos o desaparecimento de sementes n\u00e3o transg\u00eanicas. As grandes empresas compram as pequenas, e as sementes tradicionais somem dos mercados. Os vendedores recebem comiss\u00f5es por volume vendido e, como as sementes transg\u00eanicas custam mais caro, isso estimula o interesse pessoal dos balconistas.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, \u00e9 fato que os agricultores que trabalham em grande escala percebem facilidades no uso de tecnologias que uniformizam os tratos culturais. A agricultura se torna menos complexa quando se utiliza um mesmo tipo de herbicida em toda a \u00e1rea cultivada, sem preocupa\u00e7\u00f5es com riscos de queimar a cultura principal. Da mesma forma, a ideia de que as plantas carregam dentro de si um inseticida \u00e9 muito atraente. Supostamente existir\u00e3o redu\u00e7\u00f5es na aplica\u00e7\u00e3o de agroqu\u00edmicos, haver\u00e1 prote\u00e7\u00e3o ambiental, e os consumidores n\u00e3o ser\u00e3o afetados.<\/p>\n<p><strong>Estudos<\/strong><\/p>\n<p>Infelizmente, essas suposi\u00e7\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o confirmadas. De um lado, os estudos s\u00e3o insuficientes, muitas vezes n\u00e3o se sustentam sequer nos pr\u00f3prios dados. A maior parte dos documentos apresentados para a CTNBio foi elaborada pelas empresas, prov\u00e9m de seus relat\u00f3rios t\u00e9cnicos, internos, n\u00e3o publicados. Portanto, n\u00e3o existem avalia\u00e7\u00f5es independentes, o que permite d\u00favidas quanto aos resultados, posto que s\u00f3 s\u00e3o conhecidos aqueles que refor\u00e7am os interesses comerciais dos proponentes destas tecnologias. Al\u00e9m disso, praticamente inexistem estudos de longo prazo e, mais grave ainda, <strong>os estudos de toxicologia e de nutri\u00e7\u00e3o animal s\u00e3o realizados com base em gr\u00e3os sobre os quais n\u00e3o foram aplicados os agrot\u00f3xicos que deram raz\u00e3o de existir \u00e0quelas sementes transg\u00eanicas. Em outras palavras, os testes nutricionais realizados com a soja RR, com a soja RR2 e com todos os demais organismos geneticamente modificados, criados para sobreviver a banhos de glifosato, foram realizados na aus\u00eancia do glifosato. Isso, que jamais ocorre em lavouras e que, portanto, n\u00e3o acontece com os gr\u00e3os destinados ao consumo, \u00e9 a regra nos laborat\u00f3rios que realizam os testes de seguran\u00e7a alimentar e nutricional. Al\u00e9m disso, tais testes s\u00e3o de curto prazo, realizando apenas avalia\u00e7\u00f5es de intoxica\u00e7\u00e3o aguda.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Os \u00fanicos estudos de longo prazo a que se tem not\u00edcia foram realizados na \u00c1ustria, com camundongos, e na Fran\u00e7a, com ratos. Ambos, na presen\u00e7a dos herbicidas, mostraram problemas hormonais graves, com impactos sobre rins e f\u00edgado, com emerg\u00eancia de tumores malignos, redu\u00e7\u00e3o na fertilidade, entre outros.<\/strong> Por que isso \u00e9 assim? Porque a maior parte dos membros da CTNBio considera suficiente e adequado que assim seja. Porque no Brasil as decis\u00f5es de libera\u00e7\u00e3o se d\u00e3o por maioria simples, em contexto onde a maior parte dos votantes n\u00e3o parece ter d\u00favidas relevantes quanto \u00e0 seguran\u00e7a destas tecnologias, ou pelo menos entende que todas suas d\u00favidas s\u00e3o apaziguadas pelas informa\u00e7\u00f5es contidas nos processos.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013<\/strong> \u00c9 poss\u00edvel estimar o percentual de alimentos brasileiros que s\u00e3o transg\u00eanicos?<\/p>\n<p><strong>Leonardo Melgarejo \u2013<\/strong> N\u00e3o. N\u00e3o h\u00e1 sequer um acompanhamento de plantio, discriminando as \u00e1reas cultivadas com sementes transg\u00eanicas e n\u00e3o transg\u00eanicas. O IBGE n\u00e3o est\u00e1 preparado para isso. Dispomos apenas de estimativas com base na comercializa\u00e7\u00e3o de sementes, que ocultam dados relativos ao contrabando e ao uso de sementes pr\u00f3prias.<\/p>\n<p>Ademais, <strong>o milho e a soja entram em praticamente todas as cadeias de alimentos processados.<\/strong> A \u00fanica maneira de assegurar aus\u00eancia ou, pelo menos, redu\u00e7\u00e3o no consumo de transg\u00eanicos, isso na alimenta\u00e7\u00e3o de qualquer fam\u00edlia, reside na aproxima\u00e7\u00e3o com redes de produtores org\u00e2nicos. Por\u00e9m, dificilmente isto ser\u00e1 alcan\u00e7ado para todos os itens de consumo, dado que estas redes e cadeias de produtos \u201climpos\u201d n\u00e3o contemplam o universo de itens alimentares.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013<\/strong> Como acontece hoje a produ\u00e7\u00e3o e exporta\u00e7\u00e3o de gr\u00e3os e alimentos transg\u00eanicos e n\u00e3o transg\u00eanicos? H\u00e1 alguma divis\u00e3o na produ\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p><strong>Leonardo Melgarejo \u2013<\/strong> N\u00e3o h\u00e1 separa\u00e7\u00e3o, excetuados exemplos de algumas cadeias de produ\u00e7\u00e3o org\u00e2nica ou mesmo de produ\u00e7\u00e3o convencional destinada a mercados espec\u00edficos, n\u00e3o necessariamente para exporta\u00e7\u00e3o. Como regra geral, n\u00e3o h\u00e1 segrega\u00e7\u00e3o de cadeias produtivas. Os mecanismos envolvidos estabelecem tamanha converg\u00eancia em pontos de estrangulamento, como m\u00e1quinas e equipamentos alugados para colheita, secagem e transportes, que os gr\u00e3os fatalmente acabam se misturando. <strong>Todos consomem transg\u00eanicos, com exce\u00e7\u00e3o daqueles que buscam cadeias espec\u00edficas de produ\u00e7\u00e3o org\u00e2nica ou de produ\u00e7\u00e3o convencional n\u00e3o geneticamente modificada.<\/strong><\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013<\/strong> Como a lei de biosseguran\u00e7a tem sido aplicada diante dos novos produtos transg\u00eanicos? Como a quest\u00e3o da seguran\u00e7a \u00e9 abordada diante da apresenta\u00e7\u00e3o de novas variedades transg\u00eanicas?<\/p>\n<p><strong>Leonardo Melgarejo \u2013<\/strong> Nossa lei de biosseguran\u00e7a \u00e9 boa. Seus pressupostos deveriam permitir resultados muito satisfat\u00f3rios. Entretanto, as preocupa\u00e7\u00f5es quanto aos resultados que vimos obtendo s\u00e3o mais do que justificadas.<\/p>\n<p>Explico melhor. A lei prev\u00ea que as empresas devem constituir Comiss\u00f5es Internas de Biosseguran\u00e7a, com corpo t\u00e9cnico especializado, e que estas CIBios devem apresentar estudos para a avalia\u00e7\u00e3o e delibera\u00e7\u00e3o da CTNBio. A CTNBio \u00e9 composta por doutores, especialistas nos temas de biosseguran\u00e7a, que avaliam estudos apresentados pelas CIBios e deliberam por maioria quanto aos riscos de impactos ao ambiente e \u00e0 sa\u00fade humana e animal para cada organismo geneticamente modificado. Em havendo motivo, os membros da CTNBio podem solicitar novos estudos, at\u00e9 que quaisquer d\u00favidas sejam sanadas. Esta condi\u00e7\u00e3o se reflete em \u201cpedidos de dilig\u00eancia\u201d, em que os membros votam argumentos dos relatores que se consideram insatisfeitos com as informa\u00e7\u00f5es contidas nos processos.<\/p>\n<p>Os 27 membros da CTNBio representam a perspectiva de v\u00e1rios minist\u00e9rios, da comunidade cient\u00edfica, da defesa do consumidor, do meio ambiente e da agricultura familiar, de maneira a garantir representatividade para todos os interesses envolvidos. Ap\u00f3s a delibera\u00e7\u00e3o da CTNBio, a lei prev\u00ea que haveria interven\u00e7\u00e3o do Conselho de Ministros. Portanto, o Conselho Nacional de Biosseguran\u00e7a \u2013 CNBS deliberaria, em \u00faltima inst\u00e2ncia, pela conveni\u00eancia e oportunidade de ratificar decis\u00f5es aprova\u00e7\u00e3o para libera\u00e7\u00e3o tomadas pela CTNBio.<\/p>\n<p><strong>Pedidos de dilig\u00eancia<\/strong><\/p>\n<p>Entretanto, o que se observa \u00e9 que pedidos de dilig\u00eancia apresentados pelo Minist\u00e9rio do Desenvolvimento Agr\u00e1rio \u2013 MDA, pelo Minist\u00e9rio do Meio Ambiente \u2013 MMA, pelos representantes dos consumidores e dos agricultores familiares tendem a ser rejeitados, com base nos votos da maioria. Ali\u00e1s, isso acontece mesmo em casos onde os pedidos de dilig\u00eancia ou os pedidos para rejei\u00e7\u00e3o da libera\u00e7\u00e3o comercial apontam estudos n\u00e3o apresentados no processo, em que pese previstos nas normas da CTNBio. Isso ocorreu no processo da soja RR2 e em muitos outros que foram liberados para plantio comercial no Brasil sem apresenta\u00e7\u00e3o de estudos de longo prazo, de estudos plurigeracionais, de estudos com animais em gesta\u00e7\u00e3o, entre outros. Trata-se de algo grave, pois os seres em forma\u00e7\u00e3o s\u00e3o os mais fr\u00e1geis, os mais sujeitos a altera\u00e7\u00f5es em rotas metab\u00f3licas. Portanto, s\u00e3o aqueles onde os problemas podem exigir tempo de matura\u00e7\u00e3o que excede os prazos observados nos estudos contidos nos processos, que raramente excedem os 42 dias.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, os estudos apresentados pelas Comiss\u00f5es Internas de Biosseguran\u00e7a \u2013 CIBios, como j\u00e1 referido, s\u00e3o efetuados sob o controle exclusivo das empresas, raramente s\u00e3o publicados na literatura especializada, e ainda costumam ocultar os dados b\u00e1sicos. Via de regra, s\u00e3o apresentadas m\u00e9dias que embutem elementos de distor\u00e7\u00e3o com impacto sobre a dispers\u00e3o dos resultados. Com a amplia\u00e7\u00e3o na vari\u00e2ncia dos resultados, impulsionada pelo uso de diferentes dosagens de diferentes agroqu\u00edmicos, os testes de diferen\u00e7a de m\u00e9dia tendem a mostrar similaridade que facilita a aceita\u00e7\u00e3o de \u201cigualdades\u201d entre as plantas transg\u00eanicas e n\u00e3o transg\u00eanicas. Quando, ainda assim, os testes mostram diferen\u00e7as estat\u00edsticas significativas, a influ\u00eancia dos diferentes locais e pr\u00e1ticas de manejo conduzidas onde os plantios s\u00e3o realizados permitem argumentar pela confus\u00e3o e superposi\u00e7\u00e3o entre os efeitos dos tratamentos e os efeitos do ambiente, permitindo argumentar por sua n\u00e3o signific\u00e2ncia biol\u00f3gica.<\/p>\n<p>Por \u00faltimo, observa-se omiss\u00e3o do Conselho de Ministros, que abdica de sua obriga\u00e7\u00e3o de realizar avalia\u00e7\u00f5es de ordem socioecon\u00f4mica, endossando as decis\u00f5es da CTNBio. Como a maioria dos membros da CTNBio rejeita argumentos que examinam os riscos e os impactos socioecon\u00f4micos, surgem situa\u00e7\u00f5es como as observadas no caso do Arroz LL e da soja RR2, onde os agricultores se mobilizam, em desespero, para evitar preju\u00edzos \u00e0 economia nacional. <strong>N\u00e3o parece estranho que decis\u00f5es associadas \u00e0 nossa soberania sejam tomadas pelas empresas?<\/strong> N\u00e3o parece grave que os agricultores recorram a quem det\u00e9m a tecnologia das sementes geneticamente modificadas e que pode, eventualmente, resolver prejudicar o mercado de alguns ofertantes para beneficiar o de outros?<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013<\/strong> Deseja acrescentar algo?<\/p>\n<p><strong>Leonardo Melgarejo \u2013<\/strong> Sim. Os processos decis\u00f3rios que ocorrem na CTNBio s\u00e3o todos previs\u00edveis. A composi\u00e7\u00e3o daquela comiss\u00e3o e sua pr\u00e1tica permitem seguran\u00e7a para os demandantes. Os pedidos ser\u00e3o aprovados e o hist\u00f3rico mostra inexist\u00eancia de rejei\u00e7\u00e3o a qualquer pedido de libera\u00e7\u00e3o comercial. Isso se d\u00e1, na opini\u00e3o da maioria, porque \u201cquando os processos v\u00e3o para vota\u00e7\u00e3o, todas as d\u00favidas foram resolvidas\u201d. Esta n\u00e3o tem sido a opini\u00e3o da minoria. Entretanto, houve muitas aprova\u00e7\u00f5es un\u00e2nimes.<\/p>\n<p>A unanimidade observada em alguns casos de aprova\u00e7\u00e3o, assim como a inexist\u00eancia de rejei\u00e7\u00f5es por maioria, mostra que o radicalismo est\u00e1 incrustrado no grupo dos que n\u00e3o possuem d\u00favidas relativamente \u00e0 efic\u00e1cia e a seguran\u00e7a destas tecnologias, no grupo da maioria. Ali\u00e1s, \u00e9 poss\u00edvel mapear os votos. Os argumentos apresentados pelos representantes do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, do Minist\u00e9rio do Meio Ambiente, sempre s\u00e3o rejeitados por determinados membros. Basta olhar a degrava\u00e7\u00e3o das reuni\u00f5es para constatar este fato. Esta esp\u00e9cie de \u201ccontamina\u00e7\u00e3o\u201d do argumento em fun\u00e7\u00e3o de sua origem, independentemente de sua subst\u00e2ncia, n\u00e3o deve ser visto como algo que compromete a pr\u00f3pria CTNBio?<\/p>\n<p>Os que possuem d\u00favidas, os que gostariam de mais estudos, os que gostariam de ver os resultados publicados em revistas cient\u00edficas, os que gostariam de maior transpar\u00eancia e independ\u00eancia nos processos, estes s\u00e3o minoria. Particularmente, fa\u00e7o parte deste grupo. Representando o MDA, tenho d\u00favidas. N\u00e3o entendo como a CTNBio possa aprovar a libera\u00e7\u00e3o de produtos transg\u00eanicos sem apresenta\u00e7\u00e3o dos estudos previstos, n\u00e3o entendo como as quest\u00f5es socioecon\u00f4micas possam ser desconsideradas, n\u00e3o entendo como membros da CTNBio possam se esfor\u00e7ar em defender as tecnologias, quando deviam duvidar delas. N\u00e3o entendo como o conhecimento cient\u00edfico possa ser colocado antes a servi\u00e7o das justificativas do que de cr\u00edticas aos argumentos das empresas.<\/p>\n<p>E minhas preocupa\u00e7\u00f5es aumentam enormemente quando percebo esfor\u00e7os e interesses no sentido de ampliar o sigilo sobre o que se passa na CTNBio. Entendo que os riscos s\u00e3o grandes, que as avalia\u00e7\u00f5es de biosseguran\u00e7a s\u00e3o insuficientes, mas espero estar errado. Espero que a maioria tenha raz\u00e3o, que os estudos n\u00e3o apresentados sejam desnecess\u00e1rios, que a aus\u00eancia de avalia\u00e7\u00f5es independentes n\u00e3o comprometa decis\u00f5es baseadas em relat\u00f3rios das empresas, que as movimenta\u00e7\u00f5es dos agricultores sejam suficientes para resguardar interesses nacionais e que, no futuro, o desinteresse da sociedade sobre este tema n\u00e3o reverta em problemas insol\u00faveis.<\/p>\n<p>Fonte &#8211; IHU de 25 de setembro de 2012<\/p>\n<p>Imagem &#8211;\u00a0<a href=\"http:\/\/www.flickr.com\/photos\/28390932@N07\/\">Daniel Hurst Photography<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cN\u00e3o entendo como o conhecimento cient\u00edfico possa ser colocado antes a servi\u00e7o das justificativas do que de cr\u00edticas aos argumentos das empresas\u201d, lamenta o engenheiro agr\u00f4nomo Leonardo Melgarejo A soja transg\u00eanica Intacta RR2 Pro, que causou pol\u00eamica entre os produtores do Mato Grosso, incorpora um novo trangene e resiste \u201ca banhos de herbicidas \u00e0 base&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2],"tags":[5,90,72,8],"post_series":[],"class_list":["post-11898","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-ambiente-ambiental-environment-environmental-meio-ambiente","tag-agricultura","tag-ambiente-ambiental-environment-environmental-meio-ambiente","tag-transgenico-ogmgmo","tag-veneno-agrotoxico","entry","no-media"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v25.2 - https:\/\/yoast.com\/wordpress\/plugins\/seo\/ -->\n<title>A amplia\u00e7\u00e3o dos transg\u00eanicos no Brasil - Soja transg\u00eanica Intacta RR2 Pro - FUNVERDE<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/a-ampliacao-dos-transgenicos-no-brasil-soja-transgenica-intacta-rr2-pro\/\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"A amplia\u00e7\u00e3o dos transg\u00eanicos no Brasil - Soja transg\u00eanica Intacta RR2 Pro - FUNVERDE\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"\u201cN\u00e3o entendo como o conhecimento cient\u00edfico possa ser colocado antes a servi\u00e7o das justificativas do que de cr\u00edticas aos argumentos das empresas\u201d, lamenta o engenheiro agr\u00f4nomo Leonardo Melgarejo A soja transg\u00eanica Intacta RR2 Pro, que causou pol\u00eamica entre os produtores do Mato Grosso, incorpora um novo trangene e resiste \u201ca banhos de herbicidas \u00e0 base&hellip;\" \/>\n<meta property=\"og:url\" content=\"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/a-ampliacao-dos-transgenicos-no-brasil-soja-transgenica-intacta-rr2-pro\/\" \/>\n<meta property=\"og:site_name\" content=\"FUNVERDE\" \/>\n<meta property=\"article:publisher\" content=\"https:\/\/www.facebook.com\/funverde\" \/>\n<meta property=\"article:published_time\" content=\"2013-02-25T15:00:37+00:00\" \/>\n<meta property=\"og:image\" content=\"http:\/\/farm4.staticflickr.com\/3622\/3347278218_b83fb64c13.jpg\" \/>\n<meta name=\"author\" content=\"funverde\" \/>\n<meta name=\"twitter:card\" content=\"summary_large_image\" \/>\n<meta name=\"twitter:creator\" content=\"@funverde\" \/>\n<meta name=\"twitter:site\" content=\"@funverde\" \/>\n<meta name=\"twitter:label1\" content=\"Escrito por\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data1\" content=\"funverde\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:label2\" content=\"Est. tempo de leitura\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data2\" content=\"17 minutos\" \/>\n<script type=\"application\/ld+json\" class=\"yoast-schema-graph\">{\"@context\":\"https:\/\/schema.org\",\"@graph\":[{\"@type\":\"Article\",\"@id\":\"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/a-ampliacao-dos-transgenicos-no-brasil-soja-transgenica-intacta-rr2-pro\/#article\",\"isPartOf\":{\"@id\":\"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/a-ampliacao-dos-transgenicos-no-brasil-soja-transgenica-intacta-rr2-pro\/\"},\"author\":{\"name\":\"funverde\",\"@id\":\"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/#\/schema\/person\/bec97e35994e1efd40b63cb533e44277\"},\"headline\":\"A amplia\u00e7\u00e3o dos transg\u00eanicos no Brasil &#8211; 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