{"id":11904,"date":"2013-02-26T09:00:28","date_gmt":"2013-02-26T11:00:28","guid":{"rendered":"http:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/?p=11904"},"modified":"2025-12-02T13:50:28","modified_gmt":"2025-12-02T16:50:28","slug":"a-incrivel-ciencia-do-vicio-em-junk-food","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/a-incrivel-ciencia-do-vicio-em-junk-food\/","title":{"rendered":"A incr\u00edvel ci\u00eancia do v\u00edcio em junk food"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone\" alt=\"\" src=\"http:\/\/farm9.staticflickr.com\/8369\/8509023291_6bf6c00a06_o.jpg\" width=\"599\" height=\"365\" \/><\/p>\n<p>Meu sogro trabalhou na d\u00e9cada de 70 com o ent\u00e3o governador de S\u00e3o Paulo. Ele gosta de contar uma anedota dessa \u00e9poca. <a href=\"https:\/\/www.manageteamz.com\/blog\/generic-viagra-online-guide-for-online-buyers\/\">www.manageteamz.com<\/a>  Diz que o governador estava em campanha em uma cidade do interior e foi convidado para comer um creme de abacate numa casa simples local. Ele experimentou o creme e foi colocando mais e mais a\u00e7\u00facar. E por fim declarou: \u201cMuito obrigado, esse creme de abacate estava uma del\u00edcia.\u201d Eis que o agricultor respondeu: \u201cTamb\u00e9m, dot\u00f4, com esse tanto de a\u00e7\u00facar que o sinh\u00f4 bot\u00f4, at\u00e9 merda \u00e9 bom.\u201d<\/p>\n<p>Desculpe pelo linguajar, mas a verdade \u00e9 que o artigo New York Times publicado semana passada, escrito pelo vencedor do pr\u00eamio Pulitzer Michael Moss, chega \u00e0 mesma conclus\u00e3o que o agricultor acima chegou sobre a nossa alimenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O jornalista inicia o artigo contando sobre uma reuni\u00e3o de 1999, quando se come\u00e7ava a discutir a influ\u00eancia da ind\u00fastria aliment\u00edcia sobre os \u00edndices crescentes de obesidade e consequentemente de doen\u00e7as a ela relacionadas nos EUA. Para espanto e revolta dos presentes (todos presidentes de grandes empresas do setor), um dos palestrantes chegou a comparar a ind\u00fastria de alimentos com a ind\u00fastria do tabaco, a grande vil\u00e3 da \u00e9poca. O presidente da General Mills na \u00e9poca resumiu o sentimento dos presentes: \u201cO que vende \u00e9 o que tem sabor bom, e n\u00e3o vamos mudar as nossas receitas porque meia d\u00fazia de pessoas de avental branco est\u00e3o preocupadas com a obesidade.\u201d Segundo ele, a ind\u00fastria oferece o que o consumidor quer, se as pessoas n\u00e3o t\u00eam for\u00e7a de vontade isso n\u00e3o \u00e9 problema dos fabricantes de alimentos.<\/p>\n<p>Michael Moss entrevistou mais de 300 ex-funcion\u00e1rios das principais empresas aliment\u00edcias e concluiu que n\u00e3o \u00e9 bem assim: a ind\u00fastria de alimentos \u00e9, sim, a principal respons\u00e1vel pelo fato de a obesidade hoje nos EUA atingir um ter\u00e7o dos adultos e uma em cada 5 crian\u00e7as nos pa\u00eds. Segundo ele, milh\u00f5es de d\u00f3lares s\u00e3o gastos anualmente em pesquisas e marketing para fazer com que os consumidores sejam viciados em alimentos baratos e convenientes.<\/p>\n<p><strong>1. \u201cNesse campo eu sou o jogador que faz a diferen\u00e7a\u201d<\/strong><\/p>\n<p>A primeira hist\u00f3ria que Michael Moss usa para fundamentar o seu argumento \u00e9 o da fabricante do Dr. Pepper, um dos refrigerantes mais populares nos EUA. Percebendo que estava perdendo mercado com lan\u00e7amentos dos concorrentes, a empresa lan\u00e7ou uma nova bebida chamada RedFusion, que foi um grande fracasso. Para reverter o problema, foi ent\u00e3o chamado Howard Moskwitz, PhD em psicologia experimental. Moskwitz era conhecido no mercado por \u201cotimizar\u201d alimentos.<\/p>\n<p>Como assim, otimizar? O que ele fazia era testar com muitos consumidores todas as combina\u00e7\u00f5es poss\u00edveis nos produtos, incluindo sabor, textura, cor, embalagens etc. at\u00e9 atingir a combina\u00e7\u00e3o ideal que mais agradasse aos potenciais consumidores. A conclus\u00e3o a que ele mais chegava era a seguinte: \u201cQuer fazer os consumidores felizes? Adicione a\u00e7\u00facar e sal\u201d. E assim foi criada, com a certeza do grande sucesso, a Cherry VanillaDrPepper.<\/p>\n<p>Em entrevista a Michael Moss, Moskwitz, que tamb\u00e9m \u201cotimizou\u201d o molho de tomate, colocando na receita duas colheres de a\u00e7\u00facar e um ter\u00e7o da quantidade di\u00e1ria recomendada de s\u00f3dio em meia x\u00edcara do molho, revela: \u201cEu fiz o melhor que a ci\u00eancia me permitia fazer. Estava lutando para sobreviver e n\u00e3o podia me dar o luxo de ser uma criatura moral. Eu era um pesquisador \u00e0 frente do meu tempo.\u201d Poderia ser o discurso de um traficante de drogas, s\u00f3 que n\u00e3o era.<\/p>\n<p><strong>2. \u201cA hora do almo\u00e7o \u00e9 toda sua\u201d<\/strong><\/p>\n<p>A segunda hist\u00f3ria utilizada por Moss foi da empresa Oscar Mayer, uma grande produtora de embutidos de carne vermelha. A empresa estava assustada com a crescente press\u00e3o que os seus produtos estavam sofrendo pela fama que tinham de aumentar o colesterol e causar doen\u00e7as card\u00edacas. Assim a empresa decidiu focar nas m\u00e3es, querendo entender o que elas desejavam em termos de produtos aliment\u00edcios para o almo\u00e7o dos seus filhos. A principal reclama\u00e7\u00e3o das m\u00e3es detectada na pesquisa foi a falta de tempo para preparar o almo\u00e7o dos seus filhos. A maioria das crian\u00e7as nos EUA fica na escola entre 9 da manh\u00e3 e 3 tarde, ou seja, almo\u00e7am na escola. Nem todas as escolas oferecem servi\u00e7o de cantina, ent\u00e3o a maioria das m\u00e3es tem que se preocupar com o almo\u00e7o. Como grande parte dos americanos n\u00e3o cozinha e o jantar ou \u00e9 comido fora de casa (30% dentro do carro, ap\u00f3s passar em drive-thrus de redes de fast food) ou em bandejas prontas de congelados, acaba n\u00e3o havendo a op\u00e7\u00e3o de levar no almo\u00e7o uma \u201cquentinha\u201d do jantar.<\/p>\n<p>O que a Oscar Mayer fez com essa informa\u00e7\u00e3o? Lan\u00e7ou o produto Lunchables. O produto original \u00e9 uma combina\u00e7\u00e3o de carne embutida, um imita\u00e7\u00e3o de queijo, uns biscoitos \u00e1gua e sal e um doce tipo bombom. A combina\u00e7\u00e3o cont\u00e9m 9 gramas de gordura saturada (aproximadamente o m\u00e1ximo que uma crian\u00e7a poderia comer no dia todo), dois ter\u00e7os do total de s\u00f3dio recomendado e inacredit\u00e1veis 13 colheres de ch\u00e1 de a\u00e7\u00facar! O pr\u00f3pria criador do Lunchables revela a Moss que seus cr\u00edticos costumam alegar que \u201cse voc\u00ea analisar o Lunchables poder\u00e1 verificar que o guardanapo \u00e9 o \u00edtem mais saud\u00e1vel do pacote\u201d.<\/p>\n<p>N\u00e3o satisfeitos em oferecer \u00e0s m\u00e3es o que elas teoricamente desejavam, o Lunchables faz um marketing pesado em cima das crian\u00e7as com o singelo slogan \u201co dia todo voc\u00ea tem que fazer o que os adultos mandam, mas a hora do almo\u00e7o \u00e9 toda sua\u201d.<\/p>\n<p>A filha do dono da Oscar Meyer, ela pr\u00f3pria m\u00e3e de 3 crian\u00e7as, entrevistada por Moss revela: \u201cEu acho que as minhas filhas nunca comeram um Lunchablea. Elas sabem que existe e que o av\u00f4 que criou o produto, mas aqui em casa n\u00f3s comemos de forma saud\u00e1vel.\u201d E o vov\u00f4 completa: \u201cEu desejaria que o perfil nutricional do neg\u00f3cio fosse melhor, mas vejo o projeto como um todo como uma contribui\u00e7\u00e3o positiva para a vida das pessoas.\u201d Ent\u00e3o t\u00e1.<\/p>\n<p><strong>3. \u201c\u00c9 o que chamamos de desaparecimento da densidade cal\u00f3rica\u201d<\/strong><\/p>\n<p>O \u00faltimo caso utilizado por Moss no seu artigo \u00e9 o da empresa Frito-Lay, divis\u00e3o da Pepsi que fabrica os famosos \u201cporcaritos\u201d. O mal que o sal faz para a sa\u00fade j\u00e1 foi bastante documentado pela ci\u00eancia. Na Finl\u00e2ndia a redu\u00e7\u00e3o a um ter\u00e7o do consumo de sal fez despencar a incid\u00eancia de derrames e doen\u00e7as card\u00edacas no pa\u00eds. Nos EUA, por\u00e9m, o consumo de sal vem crescendo cerca de 150 gramas por ano. Boa parte dele vem do fato de que o americano consome em m\u00e9dia 6 kilos de salgadinho por ano.<\/p>\n<p>Como \u00e9 poss\u00edvel algu\u00e9m comer tanto salgadinho? Steven Withery, pesquisador da Frito-Lay, explica: \u201cIsso \u00e9 poss\u00edvel devido ao que chamamos de desaparecimento da densidade cal\u00f3rica. Se alguma coisa derrete r\u00e1pido na boca, o seu c\u00e9rebro entende que n\u00e3o tem calorias ali\u2026 e assim voc\u00ea consegue comer aquilo pra sempre\u201d. Lembram do slogan \u201c\u00e9 imposs\u00edvel comer um s\u00f3?\u201d. Ent\u00e3o a Frito-Lay investe cerca de 30 milh\u00f5es de d\u00f3lares por ano em pesquisa, incluindo at\u00e9 uma m\u00e1quina que simula a boca humana para chegar a esse ponto exato de croc\u00e2ncia e derretimento do salgadinho. E a\u00ed voc\u00ea \u00e9 culpado porque n\u00e3o tem for\u00e7a de vontade o suficiente.<\/p>\n<p>Um grande e famoso estudo publicado no New York Journal of Medicine, que acompanha a alimenta\u00e7\u00e3o, fumo e atividade f\u00edsica demais de 120 mil pessoas desde 1986, chegou \u00e0s seguintes conclus\u00f5es. A quatro anos, quando os dados s\u00e3o analisados, percebe-se uma queda na atividade f\u00edsica, um aumento na quantidade de tempo gasto na frente da TV e um aumento m\u00e9dio de dois quilos na amostra estudada.<\/p>\n<p>Os principais alimentos quem contribuem para o ganho de peso, segundo o estudo, s\u00e3o a carne vermelha, principalmente a superprocessada, as bebidas a\u00e7ucaradas e a batata (tanta na forma de batata frita, quanto pur\u00ea, mas principalmente em forma de salgadinho). A forma como salgadinho de batata \u00e9 metabolizado no corpo explica parte do problema: ao ser ingerido ele \u00e9 transformado em glicose mais r\u00e1pido do que o pr\u00f3prio a\u00e7\u00facar, fazendo com que voc\u00ea continue querendo mais e mais.<\/p>\n<p>Percebendo a crescente preocupa\u00e7\u00e3o com uma dieta saud\u00e1vel, principalmente nas camadas mais ricas e educadas da popula\u00e7\u00e3o, a Coca-Cola lan\u00e7ou uma estrat\u00e9gia dupla: aumentou o marketing dos produtos diet e da sua \u00e1gua engarrafada nas \u00e1reas mais ricas e investiu pesado em marketing da Coca-Cola tradicional nos locais mais pobres dos EUA e do mundo.<\/p>\n<p>Moss cita no seu artigo a iniciativa da coca cola nas favelas brasileiras. Com o objetivo de conquistar esses consumidores, a Coca lan\u00e7ou uma vers\u00e3o menor e mais barata do refrigerante, eliminando a barreira inicial do pre\u00e7o que impedia que as pessoas experimentassem o produto. A Nestl\u00e9 tem uma estrat\u00e9gia semelhante no Brasil: leva seus produtos de barco a locais mais pobres e remotos do Brasil, onde a resist\u00eancia a produtos com algo teor de a\u00e7\u00facar e gorduras hidrogenadas \u00e9 menor. Um ex-funcion\u00e1rio, que se tornou persona non grata na Coca Cola, afirma a Moss: \u201cEssa estrat\u00e9gia me d\u00e1 vontade de vomitar. Se tem uma coisa que essas pessoas que precisam de tanto realmente n\u00e3o precisam \u00e9 de Coca-Cola.\u201d \u00c9 isso a\u00ed.<\/p>\n<p>Fonte &#8211; Renata Kotscho Velloso,\u00a0Inf\u00e2ncia Livre de Consumismo de 25 de fevereiro de 2013<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Meu sogro trabalhou na d\u00e9cada de 70 com o ent\u00e3o governador de S\u00e3o Paulo. Ele gosta de contar uma anedota dessa \u00e9poca. www.manageteamz.com Diz que o governador estava em campanha em uma cidade do interior e foi convidado para comer um creme de abacate numa casa simples local. 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