{"id":11972,"date":"2013-03-23T11:00:02","date_gmt":"2013-03-23T13:00:02","guid":{"rendered":"http:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/?p=11972"},"modified":"2013-03-23T11:00:02","modified_gmt":"2013-03-23T13:00:02","slug":"ate-13-metais-pesados-13-solventes-22-agrotoxicos-e-6-desinfetantes-na-agua-que-voce-bebe","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/ate-13-metais-pesados-13-solventes-22-agrotoxicos-e-6-desinfetantes-na-agua-que-voce-bebe\/","title":{"rendered":"At\u00e9 13 metais pesados, 13 solventes, 22 agrot\u00f3xicos e 6 desinfetantes na \u00e1gua que voc\u00ea bebe"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone\" alt=\"\" src=\"http:\/\/farm4.staticflickr.com\/3386\/3438820998_1f01bce371.jpg\" width=\"500\" height=\"484\" \/><\/p>\n<p>H\u00e1 cinco anos, Lucas do Rio Verde, munic\u00edpio de Mato Grosso, foi v\u00edtima de um acidente ampliado de contamina\u00e7\u00e3o t\u00f3xica por pulveriza\u00e7\u00e3o a\u00e9rea. Wanderlei Pignati, m\u00e9dico e doutor na \u00e1rea de toxicologia, fez parte da equipe de per\u00edcia no local. Apesar de inconclusiva, ela revelava \u00edndices preocupantes de contamina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em parceria com a Funda\u00e7\u00e3o Oswaldo Cruz (Fiocruz), Pignati passou ent\u00e3o a dirigir suas pesquisas \u00e0 regi\u00e3o Centro-Oeste. Professor na Universidade Federal do Mato Grosso, h\u00e1 dez anos ele estuda os impactos do agroneg\u00f3cio na sa\u00fade coletiva. \u00c9 o estado onde mais se aplica agrot\u00f3xicos e fertilizantes qu\u00edmicos no Brasil, pa\u00eds campe\u00e3o no consumo mundial dessas subst\u00e2ncias. Pignati alerta que tr\u00eas grandes bacias hidrogr\u00e1ficas se localizam no Mato Grosso, portanto quando se mexe com agrot\u00f3xico no estado, a contamina\u00e7\u00e3o da \u00e1gua produz impacto enorme.<\/p>\n<p>O projeto de pesquisa coordenado por Pignati tem o compromisso de levar \u00e0s popula\u00e7\u00f5es afetadas os dados levantados e os diagn\u00f3sticos. Para ele, \u00e9 fundamental promover um movimento social de vigil\u00e2ncia sanit\u00e1ria e ambiental que envolva n\u00e3o s\u00f3 entidades do governo, mas a sociedade civil organizada e participativa.<\/p>\n[Clique aqui para ler sobre a pesquisadora que descobriu venenos no leite materno]\n<p>Diferentemente da Uni\u00e3o Europ\u00e9ia, aqui a legisla\u00e7\u00e3o n\u00e3o acompanha a produ\u00e7\u00e3o de conhecimento cient\u00edfico acerca do tema. Segundo Pignati, a legisla\u00e7\u00e3o nacional, permissiva demais, limita a polui\u00e7\u00e3o das ind\u00fastrias urbanas e rurais, enquanto paralelamente a legaliza.<\/p>\n<p>As portarias de potabilidade da \u00e1gua, por exemplo, ampliaram cada vez mais o limite de res\u00edduos t\u00f3xicos na \u00e1gua que bebemos. E na revis\u00e3o da portaria que est\u00e1 prestes a acontecer, pretende-se ampliar ainda mais.<\/p>\n<p>Pignati condena a campanha nacional em prol do \u00e1lcool e do biodiesel, energias que considera altamente prejudiciais e poluentes para o pa\u00eds que as produz: \u201cSe engendrou toda uma campanha para dizer que o biodiesel viria da mamona, do girassol, de produtos que incentivariam a agricultura familiar, mas \u00e9 mentira, vem quase tudo do \u00f3leo de soja\u201d.<\/p>\n<p>Assim como a pesquisadora cearense Raquel Rigotto (leia aqui a entrevista dela ao Viomundo), Pignati tamb\u00e9m questiona a confiabilidade do \u201cuso seguro dos agrot\u00f3xicos\u201d, um aparato de normas e procedimentos que mesmo se contasse com estrutura para seu funcionamento ideal, ainda assim n\u00e3o garantiria o manejo absolutamente seguro dos venenos.<\/p>\n<p>Para Pignati, a falta de investimento na vigil\u00e2ncia \u00e0 sa\u00fade e ao ambiente no Brasil \u00e9 uma quest\u00e3o de prioridade: \u201cTem muito dinheiro para vigil\u00e2ncia, mas n\u00e3o para o homem. Existe um verdadeiro SUS que cuida de soja e gado, produtos para exporta\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Viomundo \u2013 Desde o acidente de Lucas do Rio Verde, o que o senhor vem pesquisando?<\/p>\n<p>Wanderlei Pignati \u2013 Na verdade, faz mais de dez anos que pesquisamos os impactos do agroneg\u00f3cio ao homem e ao ambiente.<\/p>\n<p>Na safra de 2009 pra 2010, Mato Grosso usou 105 milh\u00f5es de litros de agrot\u00f3xico. O Brasil usou 900 milh\u00f5es, quase 1 bilh\u00e3o de litros de agrot\u00f3xicos. \u00c9 o maior consumidor do mundo. E Lucas do Rio Verde usou 5 milh\u00f5es em 2009. Aonde vai parar esse volume todo? \u00c9 isso o que temos pesquisado.<\/p>\n<p>Estudamos a contamina\u00e7\u00e3o das \u00e1guas e para isso a gente trabalha com bacias. No Mato Grosso, voc\u00ea tem v\u00e1rias bacias. A bacia do Pantanal, que \u00e9 do rio Paraguai e nasce aqui no estado. Tem a bacia do Araguaia, uma de suas grandes nascentes \u00e9 o rio Morto, aqui em Campo Verde. E a bacia do Amazonas em Lucas do Rio Verde, cujas nascentes s\u00e3o os rios Verde e Teles Pires.<\/p>\n<p>Portanto, quando voc\u00ea mexe com agrot\u00f3xico e fertilizante qu\u00edmico no Mato Grosso, est\u00e1 mexendo com as tr\u00eas grandes bacias do Brasil: a do Araguaia, a Amaz\u00f4nica e a do Pantanal. A bacia do Pantanal \u00e9 uma quest\u00e3o mais s\u00e9ria ainda porque ela vai atingir outros pa\u00edses, como Paraguai, Argentina e Uruguai. Tem tr\u00eas grandes bacias e tr\u00eas biomas no estado: o pantanal, o cerrado e a floresta.<\/p>\n<p>As nascentes dos rios dessas bacias est\u00e3o dentro das planta\u00e7\u00f5es de soja. \u00c9 o mesmo caso da bacia do Xingu, o maior parque \u00edndigena do Brasil. As suas nascentes est\u00e3o nos munic\u00edpios em volta, onde est\u00e1 cheio de planta\u00e7\u00e3o de soja, de milho e algod\u00e3o. Queriam implantar mais uma s\u00e9rie de usinas de a\u00e7\u00facar e \u00e1lcool no entorno do pantanal, mas veio um decreto do presidente proibindo. O agroneg\u00f3cio n\u00e3o respeita essa quest\u00e3o das bacias e nem das nascentes dos rios. Essa problem\u00e1tica \u00e9 o que estudamos.<\/p>\n<p>Em Lucas do Rio Verde, em 2006, houve um acidente agudo que saiu na m\u00eddia. Na m\u00eddia daqui, saiu pouco porque \u00e9 muito comprometida com quem a paga, que na \u00e9poca era o governador Blairo Maggi. Ele tem a m\u00eddia sob controle. Na \u00e9poca, estavam dissecando soja em torno das planta\u00e7\u00f5es, que se estendem at\u00e9 a beira da cidade. Planta-se e pulveriza-se com trator ou com avi\u00e3o. Em Lucas, pulverizava-se a soja transg\u00eanica, que \u00e9 muito pior para o ambiente do que a soja normal.<\/p>\n<p>Viomundo \u2013 A maioria da soja j\u00e1 \u00e9 transg\u00eanica?<\/p>\n<p>Wanderlei Pignati \u2013 No Mato Grosso, 80% dessa \u00faltima safra j\u00e1 \u00e9. No Rio Grande do Sul, \u00e9 95%. Agora est\u00e1 entrando muito milho transg\u00eanico tamb\u00e9m. Aqui, tira-se a soja e planta-se o milho. S\u00e3o duas safras grandes de planta\u00e7\u00e3o aqui.<\/p>\n<p>Viomundo \u2013 Os transg\u00eanicos exigem mais agrot\u00f3xicos?<\/p>\n<p>Wanderlei Pignati \u2013A soja transg\u00eanica sim, porque n\u00e3o \u00e9 resistente \u00e0 praga, ela \u00e9 resistente a um agrot\u00f3xico, que \u00e9 o glifosato. Esse \u00e9 um agrot\u00f3xico bastante usado, que a Monsanto patenteou com o nome de Roundup. Na soja comum, voc\u00ea n\u00e3o pode usar o glifosato depois de ela ter nascido, porque ele mata o mato e a soja tamb\u00e9m. Mata minhoca, fungo, bact\u00e9rias sens\u00edveis a ele. Por biotecnologia, pegaram uma bact\u00e9ria resistente ao glifosato e injetaram o DNA dessa bact\u00e9ria no DNA da soja.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, o glifosato s\u00f3 era usado antes da soja nascer para matar as ervas daninhas. Agora, como \u00e9 resistente, aplica-se o glifosato a cada quinze dias e o uso dele foi multiplicado na soja. Depois, precisa madurar e dissecar a soja rapidamente para plantar o milho. No meio natural, demora um m\u00eas e pouco. Com esse dissecante, em tr\u00eas dias a soja madura, seca e a m\u00e1quina j\u00e1 pode entrar na planta\u00e7\u00e3o. Isso para aproveitar as chuvas da segunda safra e plantar o milho. Mas para dissecar agora j\u00e1 n\u00e3o se pode usar o glifosato, porque a soja \u00e9 resistente a ele. Ent\u00e3o usa-se outro tipo de agrot\u00f3xico, o diquat ou o paraquat, classificado como classe 1, extremamente t\u00f3xico. O glifosato \u00e9 classe 4, t\u00f3xico tamb\u00e9m, mas pouco. O paraquat \u00e9 proibido na Uni\u00e3o Europ\u00e9ia.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de multiplicar o uso do glifosato, voc\u00ea agora usa um agrot\u00f3xico extremamente t\u00f3xico como secante [da soja]. E n\u00e3o \u00e9 toxico s\u00f3 para o humano, ele \u00e9 altamente perigoso para o ambiente, porque mata tudo quanto \u00e9 coisa, abelha, p\u00e1ssaro. E no caso de Lucas, eles estavam dissecando a soja de avi\u00e3o, usando diquat e paraquat em torno da cidade.<\/p>\n<p>Uma nuvem foi para dentro da cidade e queimou todas as plantas medicinais. Tinha um horto de plantas medicinais com mais de 100 canteiros que abastecia v\u00e1rias cidades. Foram queimadas as hortali\u00e7as e plantas ornamentais da cidade tamb\u00e9m. Deu um surto agudo de v\u00f4mito, diarr\u00e9ia e alergia de pele em crian\u00e7as e idosos. Os m\u00e9dicos classificaram como rotavirose.<\/p>\n<p>N\u00f3s da Universidade Federal do Mato Grosso fomos chamados pelo Minist\u00e9rio P\u00fablico de Lucas do Rio Verde e do estado para fazer uma per\u00edcia. A gente viu que a coisa era bastante s\u00e9ria, um acidente s\u00e9rio que acontece todo dia. \u00c9 a chamada deriva de agrot\u00f3xico. \u00c9 previs\u00edvel, porque os agron\u00f4mos sabem que tem vento, o vento n\u00e3o est\u00e1 parado. Ent\u00e3o, voc\u00ea passa agrot\u00f3xico perto da cidade e o vento vai lev\u00e1-lo para l\u00e1.<\/p>\n<p>O pessoal se esconde por tr\u00e1s da palavra \u201cderiva\u201d para dizer que aquilo foi um acidente, mas \u00e9 um acontecimento prev\u00edsivel. Passar um agrot\u00f3xico extremamente t\u00f3xico a partir de um avi\u00e3o \u00e9 mais previs\u00edvel ainda. Mesmo quando o agrot\u00f3xico j\u00e1 est\u00e1 no solo, ele depois se evapora. Jogar veneno \u00e9 um ataque quase de guerra. N\u00e3o se trata de pesticida ou defensivo agr\u00edcola. Na legisla\u00e7\u00e3o, est\u00e1 como agrot\u00f3xico. O trabalhador que est\u00e1 passando o agrot\u00f3xico pode estar protegido com todos os EPI (equipamento de prote\u00e7\u00e3o individual), mas e o ambiente? Vai colocar EPI nas outras plantas? Querem matar os insetos, o fungo, a erva daninha. Ent\u00e3o teria de colocar EPI nos outros animais, como no peixe e no cavalo.<\/p>\n<p>O uso seguro do agrot\u00f3xico \u00e9 altamente question\u00e1vel. Pode ser seguro para o trabalhador, isso se ele usar todos os EPI. Mesmo assim, tem toda uma quest\u00e3o da efici\u00eancia e efic\u00e1cia desses EPI. Sou tamb\u00e9m m\u00e9dico do trabalho e a gente v\u00ea isso. A efici\u00eancia e efic\u00e1cia do EPI \u00e9 de 90%, se [os trabalhadores] usarem m\u00e1scara com o filtro qu\u00edmico adequado. E o resto do vestimento? Agrot\u00f3xico penetra at\u00e9 pelo olho! Pela mucosa, pela pele. Ent\u00e3o teria que ter at\u00e9 um cilindro de oxig\u00eanio para respirar igual a um astronauta. O filtro pega 80% ou 90% dos tipos de agrot\u00f3xico. Hoje, voc\u00ea tem mais de 600 tipos de princ\u00edpios ativos e s\u00e3o 1.500 tipos de produtos formulados. Tem agrot\u00f3xicos novos com mol\u00e9culas muito pequenas que passam pelo filtro. Ent\u00e3o, com toda a prote\u00e7\u00e3o ideal, voc\u00ea protege o trabalhador. Mas, e o ambiente?<\/p>\n<p>Os res\u00edduos v\u00e3o sair na \u00e1gua, depois na chuva, v\u00e3o ficar no ar, v\u00e3o para o len\u00e7ol fre\u00e1tico. A gente viu isso na cidade, depois fizemos uma per\u00edcia mas ficou inconclusiva. Por isso, resolvemos fazer uma pesquisa junto com a Fiocruz. Ao mesmo tempo, estava-se articulando pesquisas em outros estados aqui da regi\u00e3o Centro-Oeste. O nome da nossa pesquisa \u00e9 \u201cAvalia\u00e7\u00e3o do risco \u00e0 sa\u00fade humana decorrente do uso do agrot\u00f3xico na agricultura e pecu\u00e1ria na regi\u00e3o Centro-Oeste\u201d. A gente pegou dois munic\u00edpios e um munic\u00edpio-controle, em que quase n\u00e3o se usa agrot\u00f3xico.<\/p>\n<p>Viomundo \u2013 As pesquisas em Lucas do Rio Verde j\u00e1 est\u00e3o bastante avan\u00e7adas?<\/p>\n<p>Wanderlei Pignati \u2013 J\u00e1. Talvez a an\u00e1lise do leite materno tenha sido um dos \u00faltimos t\u00f3picos, mas a gente continua com sapos e com peixes. Em outros mun\u00edcipios, a gente n\u00e3o fez o teste do leite, por exemplo. Mas isso porque Lucas \u00e9 o maior produtor de milho no estado do Mato Grosso, terceiro em produ\u00e7\u00e3o de soja. Ent\u00e3o achamos que era necess\u00e1rio o trabalho. Analisamos o leite materno de 62 mulheres em Lucas, 20% das nutrizes amamentando no ano passado. Todas as amostras revelaram algum agrot\u00f3xico. Mas o que mais deu nessas amostras \u00e9 um derivado de DDT, que se usava na agicultura at\u00e9 1985 e na sa\u00fade p\u00fablica, at\u00e9 1998, para combater a mal\u00e1ria.<\/p>\n<p>S\u00f3 que ele \u00e9 cumulativo, entra na gordura e n\u00e3o sai mais. O segundo que mais deu foi endossulfam, 40%. \u00c9 um clorado proibido faz 20 anos na Uni\u00e3o Europ\u00e9ia. E por ser um clorado tamb\u00e9m fica acumulado na gordura. Retirar o leite \u00e9 uma maneira de analisar os res\u00edduos de agrot\u00f3xico na gordura, menos agressiva que uma bi\u00f3psia. Quando a mulher fabrica o leite, as gorduras mais antigas v\u00e3o para o leite.<\/p>\n<p>Depois desse acidente, despertou na popula\u00e7\u00e3o um movimento de querer saber o que est\u00e1 acontecendo.<\/p>\n<p>Viomundo \u2013 E depois que a per\u00edcia averigua a causa do acidente, o que acontece?<\/p>\n<p>Wanderlei Pignati \u2013 Algumas coisas voc\u00ea comprova na hora, outras demoram anos. Fazemos an\u00e1lise de res\u00edduo de agrot\u00f3xico na \u00e1gua, no solo, na chuva, no leite.<\/p>\n<p>Para avaliar o leite, a gente come\u00e7ou h\u00e1 tr\u00eas anos a desenvolver uma t\u00e9cnica para analisar dez agrot\u00f3xicos de uma s\u00f3 vez. Uma subst\u00e2ncia isolada \u00e9 custosa em termos de dinheiro e tempo e, analisando dez subst\u00e2ncias, a chance de encontrar res\u00edduos \u00e9 maior. Das amostras, 100% deram pelo menos um tipo de agrot\u00f3xico. Pegamos os 27 tipos de agrot\u00f3xicos mais consumidos na regi\u00e3o do Mato Grosso e fizemos as an\u00e1lises. Dentre os 27 mais consumidos, voc\u00ea n\u00e3o tem o glifosato, por exemplo, que \u00e9 o herbicida mais usado no pa\u00eds, porque n\u00e3o t\u00ednhamos tecnologia no Brasil para analis\u00e1-lo. Hoje tem, mas \u00e9 muito cara. Os \u00fanicos que fazem esse exame s\u00e3o meia d\u00fazia de laborat\u00f3rios.<\/p>\n<p>Periodicamente a gente levanta dados, tem as disserta\u00e7\u00f5es de alunos. No nosso grupo de estudos, tem uma aluna que estuda res\u00edduo de agrot\u00f3xico em leite, outra que estudou agrot\u00f3xicos e c\u00e2ncer. Onde tem a maior incid\u00eancia de c\u00e2ncer aqui no MT? Justamente nas regi\u00f5es produtoras do estado. Em torno de Sinop: Lucas do Rio Verde, Sorriso, Nova Mutum, que s\u00e3o os munic\u00edpios no entorno. A regi\u00e3o de Tangar\u00e1 da Serra, Sapezal, Campos Novos dos Parecis, que s\u00e3o os grandes produtores de soja. E a regi\u00e3o de Rondon\u00f3polis, Primavera, Campo Verde, Itiquira, onde se produz muito algod\u00e3o.<\/p>\n<p>S\u00e3o as grandes regi\u00f5es produtoras onde tem maior incid\u00eancia de c\u00e2ncer, m\u00e1 forma\u00e7\u00e3o, intoxica\u00e7\u00e3o aguda. Voc\u00ea tem 80% a 90% desmatado nesses lugares. Se est\u00e1 desmatado, \u00e9 porque est\u00e1 se plantando soja, milho e algod\u00e3o at\u00e9 a beira das casas. Mato Grosso produz 50% do algod\u00e3o do Brasil e \u00e9 justamente a cultura que mais usa agrot\u00f3xico. No Mato Grosso, em m\u00e9dia, um hectare de soja usa dez litros de agrot\u00f3xico: herbicida, inseticida, funigicida e o dissecante. O milho usa seis litros. A cana, quatro litros e o algod\u00e3o, vinte.<\/p>\n<p>Como a gente tem grande produ\u00e7\u00e3o de soja \u2014 s\u00e3o seis mih\u00f5es de hectares de soja no Mato Grosso \u2013, d\u00e1 60 mih\u00f5es de litros de agrot\u00f3xico na soja. Obtemos esses n\u00fameros no INDEA [Instituto de Defesa Agropecu\u00e1ria do Estado de Mato Grosso], onde todo receitu\u00e1rio agron\u00f4mico e uso de agrot\u00f3xico \u00e9 registrado. Na maioria dos estados n\u00e3o tem, mas deveria haver esse banco de dados. S\u00e3o 40 munic\u00edpios que consomem 80% desses 100 milh\u00f5es de litros de agrot\u00f3xicos.<\/p>\n<p>No geral, ocorre uma contamina\u00e7\u00e3o, inclusive da chuva, que tem muito agrot\u00f3xico presente. Ele evapora, depois desce, principalmente no per\u00edodo de chuva, que \u00e9 quando mais se usa agrot\u00f3xico. Na entressafra, chove pouqu\u00edssimo. Ent\u00e3o, quase ningu\u00e9m est\u00e1 plantando. O agrot\u00f3xico evapora, desce e vai para toda regi\u00e3o, n\u00e3o s\u00f3 para aquele munic\u00edpio onde foi aplicado. Vai para o ar tamb\u00e9m. Se voc\u00ea est\u00e1 pulverizando a alguns metros de uma escola, esse ar vai para os alunos, para os professores. E os po\u00e7os artesianos a alguns metros de uma grande planta\u00e7\u00e3o de soja, milho ou algod\u00e3o tamb\u00e9m se contaminam.<\/p>\n<p>Com o tempo, o agrot\u00f3xico vai penetrando no solo e sai no po\u00e7o, mesmo que esteja a 50, 60, 70 metros de profundidade. Isso \u00e9 o que a gente chama de po\u00e7o semi-artesiano e a maioria \u00e9 assim. Uma regi\u00e3o de cerrado tem pouco abastecimento por c\u00f3rrego, \u00e9 mais por po\u00e7o artesiano que as cidades e comunidades rurais se abastecem.<\/p>\n<p>Encaminhamos o relat\u00f3rio dessa pesquisa para o CNPq [Conselho Nacional de Desenvolvimento Cient\u00edfico e Tecnol\u00f3gico]. L\u00e1 em Lucas, a gente j\u00e1 fez uma audi\u00eancia p\u00fablica na C\u00e2mara Municipal, onde apresentamos esses dados. Estavam presentes v\u00e1rios professores, vereadores, os secret\u00e1rios da sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o e agricultura. As Secretaria da Agricultura e do Meio Ambiente s\u00e3o juntas em 140 dos 141 munic\u00edpios de Mato Grosso. O grande poluidor do meio ambiente \u2014 a agricultura qu\u00edmico-dependente, que desmata e usa muito agrot\u00f3xico e fertilizante qu\u00edmico \u2013 tem o mesmo gestor e fiscalizador que o meio ambiente. A maioria dos secret\u00e1rios da agricultura \u00e9 de fazendeiros, eles n\u00e3o v\u00e3o denunciar a polui\u00e7\u00e3o dos colegas deles. Aqui no estado, a \u00fanica exce\u00e7\u00e3o \u00e9 Cuiab\u00e1, mas \u00e9 onde n\u00e3o tem agricultura.<\/p>\n<p>O MP [Minist\u00e9rio P\u00fablico] est\u00e1 elaborando um termo de ajuste de conduta. Em Campo Verde tamb\u00e9m teve uma audi\u00eancia p\u00fablica para estabelecer uma legisla\u00e7\u00e3o com os dados parciais que a gente j\u00e1 tinha e fazer uma legisla\u00e7\u00e3o que determinasse a dist\u00e2ncia m\u00ednima para pulveriza\u00e7\u00e3o no entorno da cidade. O promotor recebeu o relat\u00f3rio e est\u00e1 preparando um ajuste de conduta tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Esses lugares s\u00e3o semelhantes entre si, porque s\u00e3o dos 40 munic\u00edpios do estado que consomem 80% dos agrot\u00f3xicos, dos fertilizantes qu\u00edmicos e das sementes. A din\u00e2mica \u00e9 parecida nesses 40 munic\u00edpios. Desmata-se e pulveriza-se at\u00e9 a beira do c\u00f3rrego, no entorno dele e nas nascentes. As comunidades rurais e a pr\u00f3pria cidade ficam ilhadas no meio das planta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>No pasto, usa-se muito herbicida e inseticida e isso vai entrar no ciclo da carne. Os outros su\u00ednos e as aves s\u00e3o contaminados pela soja e pelo milho, porque a ra\u00e7\u00e3o desses animais \u00e9 \u00e0 base desses produtos. Dessa maneira, os res\u00edduos do agrot\u00f3xicos v\u00e3o parar nos alimentos.<\/p>\n<p>O Minist\u00e9rio da Sa\u00fade analisou 20 tipos de alimentos e 30% pelo menos deram algum tipo de agrot\u00f3xico. A maioria dos agrot\u00f3xicos analisados \u2014 foram mais de cem \u2013 \u00e9 autorizado aqui no Brasil.<\/p>\n<p>Uma boa parte, uns 14, est\u00e1 sob revis\u00e3o. Dois ou tr\u00eas foram proibidos e o endossulfam, bastante usado aqui e muito t\u00f3xico, vai ser proibido a partir de julho de 2013.<\/p>\n<p>Metamidofois, outro fosforado, que d\u00e1 muito problema no sistema nervoso, psiqui\u00e1trico, at\u00e9 doen\u00e7a de Parkinson, vai ser proibido a partir de julho do ano que vem. Esses s\u00e3o proibidos h\u00e1 vinte anos na Uni\u00e3o Europeia e aqui quando \u00e9 proibido, \u00e9 s\u00f3 partir de 2013. Sabe-se que o metamidof\u00f3s \u00e9 cancer\u00edgeno, neurot\u00f3xico e mesmo assim s\u00f3 ser\u00e1 proibido a partir de julho do ano que vem.<\/p>\n<p>Viomundo \u2013 J\u00e1 existe conhecimento cient\u00edfico suficiente para uma pol\u00edtica mais incisiva? Por que \u00e9 t\u00e3o permissiva a legisla\u00e7\u00e3o brasileira em rela\u00e7\u00e3o aos agrot\u00f3xicos?<\/p>\n<p>Wanderlei Pignati \u2013 Voc\u00ea tem a lei do agrot\u00f3xico, a Lei 7.802 de 1989, depois regulamentada pelo decreto 4074, de 2002. Mas existem alguns furos. Primeiro, quem est\u00e1 fiscalizando? \u00c9 um volume imenso de agrot\u00f3xicos, todos permitidos no Brasil. Teria de haver alguns crit\u00e9rios. E os crit\u00e9rios que existem, como a dist\u00e2ncia m\u00ednima de 500 metros de nascente de \u00e1gua, casas, cria\u00e7\u00e3o de animais, ningu\u00e9m respeita.<\/p>\n<p>Viomundo \u2013 Mas os crit\u00e9rios no Brasil s\u00e3o diferentes? Por que os proibidos l\u00e1 fora, aqui s\u00e3o permitidos?<\/p>\n<p>Wanderlei Pignati \u2013 S\u00e3o diferentes. Os mais t\u00f3xicos s\u00e3o proibidos l\u00e1 e aqui permitidos. Isso por causa da nossa depend\u00eancia econ\u00f4mica. Quem governa o Brasil? Aqui, no Mato Grosso, os grandes governantes s\u00e3o fazendeiros, assim como no Goi\u00e1s. Falo de governantes n\u00e3o s\u00f3 do executivo, mas do legislativo tamb\u00e9m. Deputados estaduais, os veradores, uma boa parte \u00e9 fazendeiro e comprometido com esse modelo de desenvolvimento.<\/p>\n<p>N\u00e3o querem mudar agora o C\u00f3digo Florestal para devastar mais ainda? Aqui, no Mato Grosso, 80% est\u00e3o devastados por qu\u00ea? Na regi\u00e3o Amaz\u00f4nica tamb\u00e9m. Segundo a lei, teria que desmatar 20% e preservar 80% nas \u00e1reas de floresta, de preserva\u00e7\u00e3o permanente. No cerrado, voc\u00ea pode desmatar 70% e deixar 30%.<\/p>\n<p>Os agrot\u00f3xicos s\u00e3o fabricados l\u00e1 fora e v\u00eam para o Brasil. O compromisso dos empres\u00e1rios que vendem esses produtos n\u00e3o \u00e9 com a sa\u00fade. E o grande fazendeiro quer saber de matar o que ele chama de praga.<\/p>\n<p>A gente tem que inverter isso, quem \u00e9 a praga que come\u00e7ou a desmatar, depois a usar um monte de veneno? D\u00e1 para produzir sem o veneno? D\u00e1, \u00e9 o modelo da agroecologia. Entra no modelo dos org\u00e2nicos.<\/p>\n<p>O maior produtor de a\u00e7\u00facar e \u00e1lcool org\u00e2nico \u00e9 o Brasil. \u00c9 produzido numa cidade do interior de S\u00e3o Paulo, Sert\u00e3ozinho. S\u00e3o 16 mil hectares de cana num processo industrial semelhante ao outro, tem m\u00e1quina cortando mas sem usar uma gota de fertilizante qu\u00edmico ou agrot\u00f3xico. Come\u00e7ou 30 anos atr\u00e1s, selecionando as sementes, as mudas de cana resistentes. Montou-se um laborat\u00f3rio pr\u00f3prio, com bi\u00f3logo, engenheiro, para eles mesmos selecionarem ao inv\u00e9s de comprar sementes j\u00e1 selecionadas.<\/p>\n<p>Diferentemente dos outros produtores, que dependem da meia d\u00fazia de empresas que dominam toda ind\u00fastria de semente de soja, milho, algod\u00e3o, feijao, arroz. Essas empresas n\u00e3o fazem sele\u00e7\u00e3o para n\u00e3o usar agrot\u00f3xico ou fertilizante qu\u00edmico, se n\u00e3o como vai ficar a ind\u00fastria deles, de fertilizante e agrot\u00f3xico? O mesmo dono da patente da semente \u00e9 o dono do agrot\u00f3xico e do fertilizante qu\u00edmico. E mais ainda: \u00e9 o mesmo que produz o medicamento, da ind\u00fastria qu\u00edmica.<\/p>\n<p>Hoje, uma boa parte de medica\u00e7\u00e3o que a gente usa para tratar pessoas que tiveram infec\u00e7\u00e3o aguda, c\u00e2ncer ou uma outra doen\u00e7a neurol\u00f3gica, psiqui\u00e1trica, \u00e9 produzido por quem produz fertilizante qu\u00edmico e agrot\u00f3xico. \u00c9 um complexo qu\u00edmico-industrial, est\u00e3o todos ligados.<\/p>\n<p>\u00c9 um tanto esquizofr\u00eanico para essa sociedade que se diz desenvolvida. Tem que ser outro modelo de desenvolvimento, isso porque eu estou discutindo a \u00e1rea agr\u00edcola sem entrar na ind\u00fastria urbana, que \u00e9 semelhante.<\/p>\n<p>Existe uma legisla\u00e7\u00e3o para limitar a polui\u00e7\u00e3o e uma legisla\u00e7\u00e3o paralela para legaliz\u00e1-la. Os jornalistas perguntam quanto que \u00e9 o limite m\u00e1ximo permitido de agrot\u00f3xico no litro d\u2019\u00e1gua? A gente j\u00e1 chegou a esse grau de n\u00e3o questionamento, de n\u00e3o se indignar, de acatar isso.<\/p>\n<p>Se voc\u00ea pegar a Portaria 518 de 2004, do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, que chama-se Portaria da Potabilidade da \u00c1gua, d\u00e1 pra ver o que \u00e9 permitido ter na \u00e1gua hoje. A gente fala muito de coliformes fecais. Mas e os agrot\u00f3xicos s\u00e3o permitidos? E os solventes? E metais pesados? Todos eles s\u00e3o permitidos.<\/p>\n<p>O litro de \u00e1gua que voc\u00ea bebe hoje, de acordo com essa portaria, pode ter 13 tipos de metais pesados, 13 tipos de solventes, 22 tipos de agrot\u00f3xicos diferentes e 6 tipos de desinfetantes. Hoje, a quest\u00e3o mais importante na contamina\u00e7\u00e3o da \u00e1gua n\u00e3o \u00e9 mais a bact\u00e9ria, mas toda essa contamina\u00e7\u00e3o qu\u00edmica.<\/p>\n<p>Viomundo \u2013 Essas portarias de potabilidade da \u00e1gua aumentaram cada vez mais o limite de contamina\u00e7\u00e3o. Por qu\u00ea?<\/p>\n<p>Wanderlei Pignati \u2013 Se voc\u00ea comparar essa portaria com a da Uniao Europ\u00e9ia, vai ver que aqui tem 22 tipos de agrot\u00f3xicos enquanto l\u00e1 pode ter, no m\u00e1ximo, cinco. Os limites l\u00e1 s\u00e3o \u00ednfimos.<\/p>\n<p>Enquanto l\u00e1 voc\u00ea pode ter 20 microgramas de glifosato, aqui pode ter 500 microgramas. E ainda querem subir para mais. A primeira portaria, de 1977, podia ter 12 agrot\u00f3xicos, 10 metais pesados, zero solventes e zero derivados de desinfetantes. A seguinte j\u00e1 \u00e9 de 1990. A vigente \u00e9 de 2004. Isso acompanha o crescimento da popula\u00e7\u00e3o urbana e rural, que se reflete na \u00e1gua. Os agrot\u00f3xicos s\u00e3o a polui\u00e7\u00e3o rural. N\u00e3o se faz um tratamento adequado da \u00e1gua, s\u00f3 tiram os coliformes, botam cloro e fazem um tratamento prim\u00e1rio. Esse tratamento, de 100 anos atr\u00e1s, \u00e9 feito por decanta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Voc\u00ea coloca o produto, ele decanta, vai todo para o fundo, a\u00ed voc\u00ea aspira. \u00c9 como limpar uma piscina. E os produtos qu\u00edmicos que ficaram dissolvidos na \u00e1gua? Quem usa muito solvente s\u00e3o as ind\u00fastrias urbanas. Metais pesados s\u00e3o usadas nas ind\u00fastrias urbanas e na agricultura tamb\u00e9m, junto com os fertilizantes qu\u00edmicos. Aquilo se acumula durante anos e sai na \u00e1gua. A portaria da potabilidade da \u00e1gua reflete a legaliza\u00e7\u00e3o da polui\u00e7\u00e3o urbana e rural.<\/p>\n<p>Viomundo \u2013 Como o desenvolvimento urbano e rural foi crescendo, as portarias foram permitindo cada vez mais?<\/p>\n<p>Wanderlei Pignati \u2013 Sim, porque essas subst\u00e2ncias v\u00e3o sendo usadas cada vez mais. Depois, na revis\u00e3o da portaria, j\u00e1 querem aumentar o limite. Querem tirar alguns agrot\u00f3xicos antigos e colocar outros novos. \u00c9 uma sociedade sem muita informa\u00e7\u00e3o e sem muita indigna\u00e7\u00e3o. A grande m\u00eddia fala de limite m\u00e1ximo de res\u00edduo como se fosse uma banalidade. Tudo isso \u00e9 permitido na \u00e1gua? O leite da vaca tem um monte de coisa permitida tamb\u00e9m, agrot\u00f3xicos que s\u00e3o muito usados no pasto e v\u00e3o parar na carne e no leite.<\/p>\n<p>Agora, quando \u00e9 carne para exportar e existe esse limite de res\u00edduo, a\u00ed fazemos as an\u00e1lises. \u00c0s vezes, volta soja e carne porque n\u00e3o foram aprovados pelo n\u00edvel de res\u00edduo de l\u00e1 [do pa\u00eds importador]. Algu\u00e9m ja viu incinerar aqueles v\u00e1rios navios de soja que voltaram? Depois que o produto saiu da ind\u00fastria e foi para o supermercado daqui, seja carne, frango, soja, milho, quem fiscaliza?<\/p>\n<p>A vigil\u00e2ncia sanit\u00e1ria do munic\u00edpio ou do estado tem que ir fazer as an\u00e1lises, e n\u00e3o se faz isso de maneira rotineira. Quando fazem an\u00e1lise de algum produto, analisam o coliforme fecal. V\u00eaem se aquele produto entrou em putrefa\u00e7\u00e3o. Mas vai fazer an\u00e1lise de res\u00edduo de agrot\u00f3xico, que \u00e9 cara?<\/p>\n<p>Viomundo \u2013 N\u00e3o fazem as an\u00e1lises por falta de estrutura?<\/p>\n<p>Wanderley Pignati \u2013 Por falta de estrutura, mas n\u00e3o tem estrutura porque n\u00e3o tem investimento. Mas para exportar n\u00e3o fazem as an\u00e1lises? E para cuidar da sa\u00fade do boi e da soja? Existe muito dinheiro para a vigil\u00e2ncia \u00e0 sa\u00fade no Brasil, mas n\u00e3o para o homem. Existe a vigil\u00e2ncia do boi e da soja. O SUS do boi e da soja. A vigil\u00e2ncia do boi e da soja tem escrit\u00f3rios do governo do estado nos 142 municipios, com agr\u00f4nomo, veterin\u00e1rio. Tem mais de 20 carros. Quem \u00e9 que faz toda a estrutura para vacinar 27 milh\u00f5es de cabe\u00e7as de gado do Mato Grosso?<\/p>\n<p>Fazem campanha, o veterin\u00e1rio vai todo m\u00eas na fazenda ver se vacinou ou n\u00e3o contra febre aftosa. O fazendeiro compra a vacina, tudo bem, que \u00e9 o custo menor. Aqui,no Mato Grosso, voc\u00ea tem 500 mil crian\u00e7as abaixo de cinco anos e qual \u00e9 a cobertura contra sarampo, hepatite, meningite, tuberculose? Vacinou quantos por cento das crian\u00e7as? As 27 milh\u00f5es de cabe\u00e7as [de gado] est\u00e3o todas vacinadas, do contr\u00e1rio n\u00e3o s\u00e3o exportadas. A infraestrutura \u00e9 com o dinheiro p\u00fablico, mas os bois s\u00e3o de dinheiro privado. Com a soja, \u00e9 a mesma coisa. Tem toda uma estrutura para n\u00e3o espalhar a ferrugem, que \u00e9 um fungo da soja. Os agr\u00f4nomos da Sa\u00fade tiram amostra, orientam os fazendeiros, fazem an\u00e1lise. O boi para exportar recebe cuidado, mas o que fica aqui e vai parar no supermercado, n\u00e3o.<\/p>\n<p>Viomundo \u2013 O Mato Grosso \u00e9 o maior produtor agr\u00edcola e maior consumidor de agrot\u00f3xico do pa\u00eds. O senhor acha que a alta produtividade de Mato Grosso depende do agrot\u00f3xico?<\/p>\n<p>Wanderlei Pignati \u2013 As duas coisas est\u00e3o ligadas. Cada vez se consome mais. H\u00e1 dez anos, o hectare de soja consumia 8 litros e n\u00e3o 10 litros de agrot\u00f3xico, como hoje. Porque hoje voc\u00ea tem uma s\u00e9rie de plantas j\u00e1 resistentes aos v\u00e1rios tipos de agrot\u00f3xicos. Ent\u00e3o, primeiro voc\u00ea usa mais para ver se resolve.Depois, voc\u00ea troca por outro mais t\u00f3xico.<\/p>\n<p>Viomundo \u2013 Mas \u00e9 vi\u00e1vel eliminar os agrot\u00f3xicos?<\/p>\n<p>Wanderlei Pignati \u2013 Se voc\u00ea partir do sistema e come\u00e7ar a substituir a semente, sair desse dom\u00ednio da semente, l\u00f3gico que \u00e9 vi\u00e1vel, em grande escala. Como acontece em Sert\u00e3ozinho, o maior produtor de a\u00e7\u00facar org\u00e2nico do mundo. Eles exportam 99,9% dos produtos para Uni\u00e3o Europ\u00e9ia. Hoje em dia a UE est\u00e1 preferindo nossos produtos org\u00e2nicos. Hoje tem algumas fazendas produzindo soja org\u00e2nica ou mesmo a soja tradicional, n\u00e3o transg\u00eanica, que j\u00e1 consome menos agrot\u00f3xico.<\/p>\n<p>A UE prefere a soja n\u00e3o transg\u00eanica n\u00e3o s\u00f3 por causa do gene da bact\u00e9ria que foi colocado junto com o da soja, mas tamb\u00e9m por causa dos res\u00edduos do agrot\u00f3xico. Tem um n\u00edvel de glifosato maior e depois, para dissecar, \u00e9 usado o diquat ou paraquat, que \u00e9 proibido na UE. Na China, na \u00cdndia, nos pa\u00edses do Oriente M\u00e9dio e da \u00c1frica, esses produtos entram. Vamos levar a polui\u00e7\u00e3o para os nossos irm\u00e3os da \u00c1frica, da \u00c1sia, que l\u00e1 n\u00e3o tem controle nenhum. A sociedade precisa abrir os olhos e se mobilizar.<\/p>\n<p>Viomundo \u2013 O governo Lula manteve esse modelo de desenvolvimento?<\/p>\n<p>Wanderlei Pignati \u2013 Manteve, inclusive incentivou muito. Ele entrou dizendo que faria reforma agr\u00e1ria e fez praticamente nada. Ele fez 10% do que foi prometido. Em rela\u00e7\u00e3o aos fazendeiros, ajudou o investimento na produ\u00e7\u00e3o do biodiesel, da cana, ajudou a arrumar os portos, as estradas, mantendo algumas coisas do Fernando Henrique Cardoso. Por exemplo, manteve a antiga lei Kandir, em que os produtos rurais s\u00e3o isentos de imposto de exporta\u00e7\u00e3o e do ICMS, ent\u00e3o produzem soja e n\u00e3o fica um tost\u00e3o aqui. S\u00f3 produto industrializado \u00e9 que paga imposto. Ent\u00e3o, por que a gente produz tanta soja, exporta e mant\u00e9m pouca industrializa\u00e7\u00e3o aqui?<\/p>\n<p>A carne \u00e9 a mesma coisa, se voc\u00ea industrializar o que tem no frigor\u00edfco e transformar em salsicha, lingui\u00e7a, a\u00ed paga imposto. E ainda vieram os governos estaduais, acabando com o ICMS.<\/p>\n<p>Agrot\u00f3xico n\u00e3o paga ICMS, mas medicamento paga. Carros usados na agricultura, como tratores, n\u00e3o pagam ICMS aqui em Mato Grosso. S\u00e3o um monte de benesses que os governos federal e estadual deram ao agroneg\u00f3cio. Para a agricultura familiar, deu um pouquinho, para n\u00e3o dizer que n\u00e3o deu nada. Deram 95% aos grandes e 5% para a agricultura familiar.<\/p>\n<p>Essa assist\u00eancia t\u00e9cnica que o governo d\u00e1 para os grandes produtores de boi e soja n\u00e3o tem nos assentamentos rurais. O governo manteve o modelo e ampliou mais ainda com o neg\u00f3cio do biodiesel, do \u00e1lcool, dizendo que \u00e9 a energia mais limpa do mundo. \u00c9 mais limpa quando est\u00e1 dentro do navio, pronta para exportar, pois aqui dentro o \u00e1lcool \u00e9 a energia mais suja do mundo. E agora o biodiesel. Tem que desmatar, usar agrot\u00f3xico, fertilizante qu\u00edmico, \u00e9 o que mais emprega trabalho escravo, \u00e9 o que mais est\u00e1 matando trabalhador na zona rural, inclusive de exaust\u00e3o. Polui com os detritos dessas ind\u00fastrias rurais.<\/p>\n<p>Nossa gasolina tem que ter 20% de \u00e1lcool e se consome muito nos carros a \u00e1lcool. Agora, por decreto governamental, o diesel \u00e9 5% biodiesel. E de onde vem? Se engendrou toda uma campanha para dizer que viria da mamona, do girassol, de produtos que incentivariam a agricultura familiar. Mentira, hoje, 95% vem do \u00f3leo de soja. O Mato Grosso \u00e9 um dos maiores produtores de biodiesel. Voc\u00ea pega o \u00f3leo de soja, que \u00e9 um alimento, e transforma em \u00f3leo para ser misturado com o diesel l\u00e1 em Paul\u00ednia [S\u00e3o Paulo]. O Lula incentivou isso. A maior ind\u00fastria de biodiesel do Brasil fica aqui em Barra do Bugres e h\u00e1 dois anos o Lula veio aqui inaugurar. Agora j\u00e1 tem dezenas no pa\u00eds todo. Assim como o \u00e1lcool, com o qual poderia se produzir a\u00e7\u00facar e outros alimentos em vez de ser produzido para carros.<\/p>\n<p>Viomundo \u2013 Do governo Dilma pode se esperar alguma mudan\u00e7a?<\/p>\n<p>Wanderlei Pignati \u2013 \u00c9 continuidade do governo que prioriza o desenvolvimento industrial urbano e rural nesse mesmo modelo. Pode piorar ainda mais se passar essa reforma do C\u00f3digo Florestal. N\u00e3o \u00e9 o governo da Dilma, \u00e9 de v\u00e1rios partidos, como foi o do Lula. Um monte de empres\u00e1rios que permitem e mant\u00eam esse modelo. A gente pensou que o governo Lula fosse mudar, n\u00e3o digo acabar com o capitalismo, mas, pelo menos, mudar um pouco essa correla\u00e7\u00e3o. Melhorar a agricultura familiar, ir no sentido da agroecologia, dar o mesmo privil\u00e9gio de financiamento para os grandes e pequenos produtores. Nada disso aconteceu.<\/p>\n<p>Viomundo \u2013 Lula ampliou o sistema de cr\u00e9dito para a agricultura familiar. O senhor n\u00e3o acha o suficiente para inverter o rumo do desenvolvimento?<\/p>\n<p>Wanderlei Pignati \u2013 Ele ampliou no or\u00e7amento, mas no financeiro, quem conseguiu pegar? Grande parte dos assentamentos n\u00e3o tem uma legaliza\u00e7\u00e3o que pode ir l\u00e1 pegar o financiamento. E se conseguir pegar, cad\u00ea a assist\u00eancia t\u00e9cnica para ele produzir? A agricultura familiar vive um drama. Os pequenos produtores podem pegar 10 mil reais e o grande pega 10 milh\u00f5es, 20 milh\u00f5es. Desses 10 milh\u00f5es de reais, ele vai investir oito e com os outros dois milh\u00f5es, ele compra apartamento, outras coisas.<\/p>\n<p>O pequeno, que pegou 10 mil reais para produzir, \u00e9 com muito sacrif\u00edcio, bota toda a fam\u00edlia para trabalhar. S\u00e3o pol\u00edticas iguais para o grande e para o pequeno \u2014 e n\u00e3o funciona assim. Tem de ter uma estrutura de cr\u00e9dito, de manejo, de assist\u00eancia, que hoje n\u00e3o h\u00e1. O grande produtor tem seus agr\u00f4nomos. O pequeno, n\u00e3o. Fica sendo uma pol\u00edtica mais demonstrativa, \u201cdei tantos milh\u00f5es\u201d. Mas quantos pegaram? E os que pegaram o financiamento, quantos cumpriram aquilo? O pequeno gosta de cumprir. Os grandes n\u00e3o precisam, porque depois vem a anistia, eles n\u00e3o pagam impostos.<\/p>\n<p>Clique aqui para ler entrevista com a pesquisadora Raquel Rigotto, que faz o mesmo tipo de pesquisa no Cear\u00e1.<\/p>\n<p>Fonte &#8211; Manuela Azenha, Vi o Mundo de 22 de mar\u00e7o de 2013 \u00e0s 18:27,\u00a0publicado originalmente em 25 de mar\u00e7o de 2011<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 cinco anos, Lucas do Rio Verde, munic\u00edpio de Mato Grosso, foi v\u00edtima de um acidente ampliado de contamina\u00e7\u00e3o t\u00f3xica por pulveriza\u00e7\u00e3o a\u00e9rea. Wanderlei Pignati, m\u00e9dico e doutor na \u00e1rea de toxicologia, fez parte da equipe de per\u00edcia no local. Apesar de inconclusiva, ela revelava \u00edndices preocupantes de contamina\u00e7\u00e3o. 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