{"id":12331,"date":"2013-06-27T08:00:38","date_gmt":"2013-06-27T10:00:38","guid":{"rendered":"http:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/?p=12331"},"modified":"2013-06-27T08:00:38","modified_gmt":"2013-06-27T10:00:38","slug":"o-poder-das-corporacoes-que-controlam-o-comercio-dos-agrotoxicos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/o-poder-das-corporacoes-que-controlam-o-comercio-dos-agrotoxicos\/","title":{"rendered":"O poder das corpora\u00e7\u00f5es que controlam o com\u00e9rcio dos agrot\u00f3xicos"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" alt=\"\" src=\"http:\/\/farm9.staticflickr.com\/8117\/8613624408_765b99ce3c.jpg\" \/><\/p>\n<p>O tema agrot\u00f3xico vem sendo tratado nas \u00faltimas d\u00e9cadas, por organiza\u00e7\u00f5es ambientais, universidades e entidades cient\u00edficas, como um dos assuntos mais complexos e preocupantes quanto aos impactos provocados por seus princ\u00edpios ativos na din\u00e2mica da bi\u00f3tica planet\u00e1ria.<\/p>\n<p>No entanto, embora os alertas tenham sido freq\u00fcentes e permanentes acerca dos perigos resultantes do uso de tais subst\u00e2ncias, o que preocupa \u00e9 o crescimento vertiginoso de novas marcas de herbicidas, fungicidas, inseticidas etc., liberadas pela Anvisa (Ag\u00eancia Nacional de Vigil\u00e2ncia Sanit\u00e1ria) para o combate \u00e0s &#8220;pragas&#8221; &#8211; por\u00e9m, quando ingeridas pelo ser humano atrav\u00e9s dos alimentos, produzem altera\u00e7\u00f5es significativas no genoma humano, contribuindo para o aumento da incid\u00eancia de doen\u00e7as degenerativas, dentre elas, o c\u00e2ncer.<\/p>\n<p>Foi a partir do fim da segunda guerra mundial que grandes empresas fabricantes de armamentos e subst\u00e2ncias qu\u00edmicas usadas para enfrentar os inimigos, dentre eles o g\u00e1s mostarda e o desfolhante laranja, como forma de evitar a ru\u00edna financeira, reformularam seus parques industriais, passando a fabricar tratores e implementos agr\u00edcolas em vez de tanques; agrot\u00f3xicos para uso agr\u00edcola em vez de g\u00e1s mostarda para uso b\u00e9lico. Come\u00e7ava a\u00ed a longa e paradoxal epop\u00e9ia de um novo modelo de agricultura, que rapidamente se espalharia por toda a Europa e os Estados Unidos e que chegaria ao Brasil a partir do come\u00e7o da d\u00e9cada de 1960, com a denominada &#8220;Revolu\u00e7\u00e3o Verde&#8221;. Com a pol\u00edtica desenvolvimentista adotada pelo regime militar, cuja proposta era expandir a fronteira agr\u00edcola em dire\u00e7\u00e3o ao Centro Oeste e Norte do Brasil, transformando o pa\u00eds em um dos principais celeiros agr\u00edcolas mundiais, dezenas de corpora\u00e7\u00f5es multinacionais ligadas \u00e0s commodities foram atra\u00eddas, encontrando aqui ambiente prop\u00edcio para multiplicar suas fortunas e tamb\u00e9m se tornando co-respons\u00e1veis pela degrada\u00e7\u00e3o de todo um ecossistema.<\/p>\n<p><strong>Pa\u00eds do agrot\u00f3xico<\/strong><\/p>\n<p>A ideia de tornar o Brasil principal fornecedor de commodities, de recursos naturais e produtos agr\u00edcolas continuou pairando no imagin\u00e1rio das autoridades e do agroneg\u00f3cio at\u00e9 os dias atuais. Acreditava-se que, com a ascens\u00e3o de governos populares, como a que ocorreu em 2002 com a elei\u00e7\u00e3o de Luiz In\u00e1cio Lula da Silva, haveria uma transforma\u00e7\u00e3o significativa nas pol\u00edticas que vinham sendo adotadas na \u00e1rea econ\u00f4mica, abrindo caminhos para um grande debate nacional a fim de discutir qual o tipo de desenvolvimento melhor se adequaria aos interesses da maioria da sociedade brasileira. Tanto n\u00e3o aconteceu, como foram mantidas as mesmas pol\u00edticas dos governos anteriores, e com um agravante: intensificou-se a degrada\u00e7\u00e3o do ecossistema brasileiro com as pol\u00edticas de incentivo ao agroneg\u00f3cio, de uso de agrot\u00f3xicos, de constru\u00e7\u00e3o de barragens na Amaz\u00f4nica e de desestrutura\u00e7\u00e3o das sociedades tradicionais, ind\u00edgenas e quilombolas.<\/p>\n<p>As pol\u00edticas de incentivo ao agroneg\u00f3cio v\u00eam cada vez mais agu\u00e7ando os interesses de grandes companhias transnacionais ligadas \u00e0 produ\u00e7\u00e3o e comercializa\u00e7\u00e3o de m\u00e1quinas agr\u00edcolas, fertilizantes e &#8220;defensivos&#8221; agr\u00edcolas, que encontram no Brasil um porto seguro para multiplicar seus ganhos financeiros. Com todas as facilidades oferecidas pelo Estado \u00e0s multinacionais ligadas ao agroneg\u00f3cio, e com <strong>a fragilidade dos \u00f3rg\u00e3os fiscalizadores,<\/strong> um mercado paralelo ligado aos agrot\u00f3xicos tamb\u00e9m vem criando corpos mediante o aval de organismos p\u00fablicos &#8211; <strong>Anvisa e Embrapa<\/strong> &#8211; e privados, que<strong> fazem vistas grossas quando da libera\u00e7\u00e3o a comercializa\u00e7\u00e3o de subst\u00e2ncias t\u00f3xicas para uso agr\u00edcola, proibidas nos seus pa\u00edses de origem.<\/strong><\/p>\n<p>Para se ter no\u00e7\u00e3o da dimens\u00e3o desse mercado, <strong>nos \u00faltimos tr\u00eas anos, o Brasil se tornou o maior consumidor de agrot\u00f3xicos, perto de um bilh\u00e3o de litros utilizados, um crescimento de 190% em dez anos.<\/strong> Soja, cana-de-a\u00e7\u00facar, algod\u00e3o, tabaco e eucalipto s\u00e3o as variedades agr\u00edcolas que lideram no consumo de agrot\u00f3xicos. Nesse conjunto, <strong>destacam-se os agrocombust\u00edveis e as esp\u00e9cies ex\u00f3ticas empregadas no reflorestamento (pinos e eucaliptos) ou para a queima nos fornos das sider\u00fargicas de ferro-a\u00e7o.<\/strong><\/p>\n<p>Um dado estarrecedor \u00e9 em rela\u00e7\u00e3o ao volume de agrot\u00f3xicos movimentados no segundo semestre de 2012. Do total de 936 mil toneladas comercializadas, 833 mil foram produzidas no Brasil; o restante, 245 mil, foi importado. Somente as lavouras de milho, soja, algod\u00e3o e cana-de-a\u00e7\u00facar absorveram 80% do volume total comercializado. Em compara\u00e7\u00e3o aos demais pa\u00edses, em 2010 o Brasil comercializou 19% do total global de agrot\u00f3xicos, movimentando cifras equivalentes a US$ 7,3 bilh\u00f5es. Este percentual garante ao Brasil um triste t\u00edtulo de maior consumidor do planeta, ficando atr\u00e1s apenas dos EUA, que movimentaram 51,2 bilh\u00f5es de d\u00f3lares. Entre as variedades de agrot\u00f3xicos com maior demanda agr\u00edcola, os herbicidas s\u00e3o os preferidos, representando 45% do total comercializado. Em segundo plano, est\u00e3o os fungicidas, com 14%, inseticidas, 12%, e os demais, que, juntos, totalizam 29%. No ano de 2011, dos 75 milh\u00f5es de hectares plantados com culturas tempor\u00e1rias &#8211; soja, cana-de-a\u00e7\u00facar, milho e algod\u00e3o &#8211; e as permanentes &#8211; c\u00edtricas, caf\u00e9, frutas e eucaliptos -, o montante consumido chegou a 853 milh\u00f5es de litros de agrot\u00f3xicos, sendo <strong>12 litros por hectare ou 4,5 litros por habitante.<\/strong><\/p>\n<p>De acordo com dados do IBGE, <strong>entre os anos de 2002 a 2011, o consumo de pesticidas em milh\u00f5es de litros saltou de 599,5 milh\u00f5es para 852,8.<\/strong> J\u00e1 o mercado de <strong>fertilizantes, que era de 491 milh\u00f5es de litros, passou para 674,3.<\/strong> Diante desse quadro amea\u00e7ador, a flexibiliza\u00e7\u00e3o da legisla\u00e7\u00e3o federal e do pr\u00f3prio c\u00f3digo florestal, patrocinada pela bancada ruralista, que representa o agroneg\u00f3cio, tornando legal o cultivo e comercializa\u00e7\u00e3o de esp\u00e9cies transg\u00eanicas, vem provocando discuss\u00f5es acaloradas quanto aos riscos dessas variedades modificadas para esp\u00e9cies da fauna, flora e a sa\u00fade humana. O que \u00e9 vis\u00edvel nesse imbr\u00f3glio legislativo s\u00e3o os lobbies patrocinados por grandes companhias que controlam as pesquisas e patentes das sementes e dos agrot\u00f3xicos. <strong>Al\u00e9m do mais, as mesmas empresas que s\u00e3o detentoras dos monop\u00f3lios das variedades modificadas, especialmente das sementes de soja, dominam o mercado dos agrot\u00f3xicos, do fungicida glifosato, que \u00e9 aplicado no combate da ferrugem asi\u00e1tica.<\/strong><\/p>\n<p>Dentre as variedades agr\u00edcolas cultivadas no Brasil, a soja participou com 40% do volume dos herbicidas, fungicidas, inseticidas, acaricidas entre outros, vindo em seguida o milho, com 15%; cana-de-a\u00e7\u00facar e algod\u00e3o, com 10%; c\u00edtricos, com 7%; caf\u00e9, trigo e arroz, com 3%; feij\u00e3o, com 2%; pastagem e tomate, com 1%; ma\u00e7\u00e3, com 0,5%; banana, com 0,2%; e demais culturas, com 3,3%. Sobre os registros no Minist\u00e9rio da Sa\u00fade e do Meio Ambiente, s\u00e3o 434 ingredientes ativos e 2.400 formula\u00e7\u00f5es. <b>\u00a0<\/b>\u00a0Em rela\u00e7\u00e3o ao percentual de aplica\u00e7\u00e3o nas lavouras entre os estados da federa\u00e7\u00e3o, o Mato Grosso do Sul lidera o ranking com 18,9%, ficando \u00e0 frente de S\u00e3o Paulo, com 14,5%; Paran\u00e1, com 14,3%; Rio Grande do Sul, com 10,8%; Goi\u00e1s, com 8,8%; Minas Gerais, com 9%; Bahia, com 6,5%; Mato Grosso, com 4,7%; Santa Catarina, com 2,1%; e os demais juntos somam 10,4%.<\/p>\n<p>De acordo com as estimativas de crescimento das commodities\/produtos prim\u00e1rios, para 2020 a 2021, haver\u00e1 um acr\u00e9scimo significativo do consumo de agrot\u00f3xicos para tr\u00eas lavouras espec\u00edficas: a soja, 55%; milho, 56,46%; e cana-de-a\u00e7\u00facar, 45,8%. An\u00e1lises laboratoriais realizadas em 63 amostras de alimentos apresentaram contamina\u00e7\u00f5es por metais pesados. Do total de ingredientes ou princ\u00edpios ativos analisados, 28% deles n\u00e3o s\u00e3o autorizados pela Anvisa. As pesquisas comprovam que, nos \u00faltimos trinta anos, o governo brasileiro lan\u00e7ou quatro portarias visando a legaliza\u00e7\u00e3o de agrot\u00f3xicos para uso agr\u00edcola. A primeira delas ocorreu em 1977, quando foram homologados 12 tipos; em 1990, foram 13; em 2004, foram 22 tipos; enquanto que, em 2011, o governo legalizou 27. Portanto, entre a primeira e a \u00faltima portaria, houve um aumento de novas marcas que superou 100%.<\/p>\n<p><strong>Mercado em expans\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Durante algum tempo o problema dos agrot\u00f3xicos era exclusivo das regi\u00f5es centro sul do Brasil. Atualmente, a incid\u00eancia de tais subst\u00e2ncias vem se espalhando para outras regi\u00f5es do Brasil, dentre elas o Nordeste, que tem na fruticultura uma das suas principais matrizes econ\u00f4micas. Por ser uma atividade que se sustenta gra\u00e7as \u00e0 irriga\u00e7\u00e3o, <strong>a aplica\u00e7\u00e3o de subst\u00e2ncias t\u00f3xicas em quantidades elevadas est\u00e1 agravando a qualidade do solo e dos mananciais h\u00eddricos, que abastecem a popula\u00e7\u00e3o da regi\u00e3o.<\/strong> Situa\u00e7\u00e3o semelhante ocorre no Centro Oeste do Brasil, mais especialmente no estado do<strong> Mato Grosso do Sul, cujas \u00e1guas dos rios e a pr\u00f3pria chuva v\u00eam apresentando elevadas incid\u00eancias de contamina\u00e7\u00e3o por metais pesados.<\/strong><\/p>\n<p>Como se n\u00e3o bastasse o problema dos agrot\u00f3xicos, <strong>est\u00e1 em discuss\u00e3o no Conama (Conselho Nacional do Meio Ambiente) a libera\u00e7\u00e3o de portaria visando a reutiliza\u00e7\u00e3o de res\u00edduos industriais, como sobras de fundi\u00e7\u00e3o de siderurgia, para a produ\u00e7\u00e3o de micronutrientes a serem empregados na produ\u00e7\u00e3o de fertilizantes agr\u00edcolas. O que causa preocupa\u00e7\u00e3o \u00e9 a quantidade de metais pesados presentes nos insumos, como chumbo, ars\u00eanico, c\u00e1dmio, merc\u00fario mangan\u00eas etc.<\/strong> A press\u00e3o de entidades ambientais e cient\u00edficas contr\u00e1rias a esta aberra\u00e7\u00e3o \u00e9 em decorr\u00eancia da insustentabilidade da proposta de resolu\u00e7\u00e3o do Conama.<\/p>\n<p>No primeiro Congresso Mundial de Nutri\u00e7\u00e3o e Sa\u00fade, ocorrido no Rio de Janeiro em 2012, al\u00e9m das diversas tem\u00e1ticas que foram abordadas no campo da alimenta\u00e7\u00e3o sustent\u00e1vel, o que marcou o encontro foi o manifesto promovido pelos presentes contr\u00e1rios \u00e0 resolu\u00e7\u00e3o do Conama, que tenta liberar a produ\u00e7\u00e3o de micronutrientes para a produ\u00e7\u00e3o de fertilizantes a partir de res\u00edduos industriais. Pois, <strong>ocorrendo a libera\u00e7\u00e3o, intensificar\u00e1 a contamina\u00e7\u00e3o do solo e dos alimentos, com impactos imprevis\u00edveis ao ambiente e \u00e0 sa\u00fade humana.<\/strong> O mercado dos agrot\u00f3xicos, insumos e das sementes, al\u00e9m de movimentar cifras bilion\u00e1rias anualmente, que supera o PIB de v\u00e1rios pa\u00edses, tem a fabrica\u00e7\u00e3o e comercializa\u00e7\u00e3o desses produtos controladas por um cartel (acordos entre si) constitu\u00eddo por seis grandes multinacionais &#8211; Basf, Bayer, Dupont, Monsanto, Syngenta e Dow. O poder \u00e9 tanto que, em pa\u00edses com pouca tradi\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica, como o Brasil, muitos dos agrot\u00f3xicos e sementes modificadas liberados para comercializa\u00e7\u00e3o ocorreram mediante acordos p\u00fablicos envolvendo empresas como a Embrapa, considerada uma das mais conceituadas no campo das pesquisas agropecu\u00e1rias no mundo.<\/p>\n<p>Em se tratando de Brasil, nas empresas gigantes do agroneg\u00f3cio, 90% dos produtos formulados para a produ\u00e7\u00e3o de inseticidas, fungicidas, herbicidas etc. s\u00e3o de mat\u00e9ria prima oriunda da China. Outro dado assustador \u00e9 o modo como s\u00e3o comercializados esses produtos: 44% ocorrem direto com o cliente; 24% v\u00e3o para a ind\u00fastria; e 32% t\u00eam como destino a revenda. Com base nesses n\u00fameros, o que fica evidenciada \u00e9 a situa\u00e7\u00e3o de risco no qual a popula\u00e7\u00e3o brasileira est\u00e1 assentada. N\u00e3o h\u00e1 como controlar tamanha aberra\u00e7\u00e3o e <strong>o pior de tudo \u00e9 o desconhecimento quase por completo do teor de toxidade dos alimentos consumidos atualmente pela popula\u00e7\u00e3o.<\/strong> Uma das sa\u00eddas, como forma de evitar poss\u00edveis contamina\u00e7\u00f5es, seria procurar caminhos alternativos, como o consumo de org\u00e2nicos, por\u00e9m, os pre\u00e7os cobrados inviabilizam a aquisi\u00e7\u00e3o dessas variedades, especialmente pela popula\u00e7\u00e3o de baixa renda.<\/p>\n<p><strong>Falta de rigor na regula\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Outro aspecto estarrecedor \u00e9 quanto ao valor pago \u00e0 Anvisa pelas multinacionais para registrar um novo produto. A cada nova marca registrada, a Ag\u00eancia reguladora recebe noventa reais. Nos Estados Unidos, o valor cobrado pela EPA chega a 600 mil d\u00f3lares. Al\u00e9m do mais, l\u00e1 existem 854 t\u00e9cnicos trabalhando na regulariza\u00e7\u00e3o dos registros de agrot\u00f3xicos, enquanto no Brasil o n\u00famero de profissionais \u00e9 de aproximadamente 50.<\/p>\n<p>Como foi anteriormente descrito acerca dos oligop\u00f3lios que controlam o mercado dos agrot\u00f3xicos, na \u00e1rea da alimenta\u00e7\u00e3o, o dom\u00ednio se d\u00e1 atrav\u00e9s do com\u00e9rcio varejista, reunindo tr\u00eas grandes multinacionais &#8211; a Nestl\u00e9, com 26%, vindo atr\u00e1s as empresas Coca Cola e Pepsi. Na \u00e1rea dos fertilizantes, o controle \u00e9 dividido entre a holandesa Bunge, Yara e Mosaic. Um dado importante acerca do mercado dos fertilizantes no Brasil, no come\u00e7o da d\u00e9cada de 1990, empresas estatais como a Fosf\u00e9rtil e Ultraf\u00e9rtil mantinham o controle desse segmento. Com a abertura econ\u00f4mica patrocinada pelo ex-presidente Fernando Collor de Mello e levada adiante pelos sucessores, as empresas transnacionais vinculadas ao agroneg\u00f3cio encontram no Brasil espa\u00e7o f\u00e9rtil para expandir seus neg\u00f3cios, aproveitando as vantagens oferecidas pelo Estado mediante subs\u00eddios fiscais.<\/p>\n<p>Com essas pol\u00edticas, abriram-se as portas para que companhias estrangeiras conquistassem no Brasil status de poder capaz de influenciar os poderes legislativos e executivos na regula\u00e7\u00e3o de leis menos restritivas, especialmente no que tange a comercializa\u00e7\u00e3o de fertilizantes e agrot\u00f3xicos. Nesse aspecto, diante da concep\u00e7\u00e3o de economia sustent\u00e1vel que o governo brasileiro tenta incutir no imagin\u00e1rio social, na defesa de uma alimenta\u00e7\u00e3o mais saud\u00e1vel e nutritiva, esconde-se uma pol\u00edtica perversa e terrorista, dominada por setores agroqu\u00edmicos, que v\u00eam introduzindo a venda casada de sementes geneticamente modificadas e agrot\u00f3xicos.<\/p>\n<p>O argumento utilizado para justificar essas pol\u00edticas de est\u00edmulo \u00e0 transgenia refere-se \u00e0 escassez de alimentos em face de forte demanda populacional. O problema, no entanto, n\u00e3o est\u00e1 na escassez, e sim na forma como \u00e9 distribu\u00eddo o alimento, onde se privilegiam os pa\u00edses mais ricos, que absorvem maior parcela do que \u00e9 produzido globalmente. Com isso, o combate \u00e0 fome e \u00e0 pobreza extrema exige enfrentamento de suas causas profundas, que est\u00e3o na forma como tais sociedades foram organizadas, divididas em classes, uma que det\u00e9m a maior parcela das riquezas produzidas, e outra, que congrega a base da pir\u00e2mide social, ref\u00e9m das pol\u00edticas assistencialistas dos governos e condicionada \u00e0 depend\u00eancia da classe dominante. No caso brasileiro, o problema da fome e da mis\u00e9ria est\u00e1 vinculado ao modo como a propriedade agr\u00edcola est\u00e1 constitu\u00edda, controlada por grandes corpora\u00e7\u00f5es do agroneg\u00f3cio, pautadas numa matriz agr\u00edcola baseada na monocultura de exporta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Pautada numa pol\u00edtica de custo-benef\u00edcio, a introdu\u00e7\u00e3o dos transg\u00eanicos se apresenta como um divisor de \u00e1gua entre o tradicional e o moderno no que tange a cultura de alimentos. \u00c9 preciso relativizar os argumentos lan\u00e7ados por entidades cient\u00edficas acerca da seguran\u00e7a do consumo das variedades geneticamente modificadas. Al\u00e9m do fato de a semente passar por um processo de muta\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica, que n\u00e3o se sabe ainda qual o risco que pode provocar nos organismos vivos, h\u00e1 ainda o agravante de que a mesma se torna resistente a certos agrot\u00f3xicos.<\/p>\n<p><strong>Epidemia de contamina\u00e7\u00f5es?<\/strong><\/p>\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s subst\u00e2ncias t\u00f3xicas, <strong>de acordo com informa\u00e7\u00f5es do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, anualmente 400.000 mil pessoas s\u00e3o contaminadas, totalizando quatro mil mortes.<\/strong> Por\u00e9m, esses dados s\u00e3o relativos em virtude da precariedade dos \u00f3rg\u00e3os da sa\u00fade que monitoram os dados. Muitas pessoas, ao procurarem a unidade de sa\u00fade apresentando algum sintoma suspeito de intoxica\u00e7\u00e3o, n\u00e3o t\u00eam, nos prontu\u00e1rios apresentados, relatos de ingest\u00e3o ou contamina\u00e7\u00e3o por algum tipo de subst\u00e2ncia proveniente do manejo de agrot\u00f3xico.<\/p>\n<p>Portanto, admite-se que, de <strong>cada indiv\u00edduo avaliado com intoxica\u00e7\u00e3o, outros cinq\u00fcentas ficam de fora.<\/strong> O processo de contamina\u00e7\u00e3o do solo, dos alimentos e da intoxica\u00e7\u00e3o das pessoas no Brasil \u00e9 ainda maior quando se sabe que expressiva parcela da popula\u00e7\u00e3o residente no campo, que apresenta baixa escolaridade. Outro fator \u00e9 a falta de treinamento oferecido para o seu manejo dos instrumentos e aplica\u00e7\u00e3o dos produtos. Muitas vezes, por falta de instru\u00e7\u00e3o, o agricultor aplica in\u00fameras vezes o produto no solo, esperando uma resposta imediata. N\u00e3o tem o conhecimento de que, <strong>quando aplicados no solo os aditivos que comp\u00f5em o produto, como o glifosato, considerado um dos mais comuns, o mesmo sofre transforma\u00e7\u00f5es moleculares, destruindo por completo os microorganismos respons\u00e1veis pela biodegrada\u00e7\u00e3o &#8211; tanto das plantas, como do pr\u00f3prio componente qu\u00edmico, cuja durabilidade ou tempo de vida no solo pode ser pequena, m\u00e9dia ou grande.<\/strong><\/p>\n<p>Tamb\u00e9m <strong>a falta dos microorganismos afeta a qualidade das plantas, tornando-as suscet\u00edveis a novas pragas, cada vez mais resistentes aos venenos, fazendo com que o agricultor fa\u00e7a mais aplica\u00e7\u00f5es.<\/strong> Dentre as subst\u00e2ncias mais utilizados est\u00e3o aqueles cuja composi\u00e7\u00e3o qu\u00edmica \u00e9 formada pelos &#8220;organofosforados&#8221;. An\u00e1lises feitas em abelhas em Itaja\u00ed\/SC constataram a presen\u00e7a desse componente no seu organismo. Outro exemplo de contamina\u00e7\u00e3o ocorreu na cidade de Gavi\u00e3o Peixoto, interior de S\u00e3o Paulo, onde foi presenciada grande mortandade de abelhas. Ap\u00f3s an\u00e1lises feitas, constatou-se que as mesmas apresentavam no seu organismo part\u00edculas de Fibronil, inseticida utilizado nos canaviais da regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s abelhas, esse inseto est\u00e1 no planeta h\u00e1 mais de sessenta milh\u00f5es de anos, e desenvolveu um sistema mutualista perfeito com os vegetais. S\u00e3o ou eram 40 mil esp\u00e9cies conhecidas no mundo; somente no Brasil esse n\u00famero chegava a tr\u00eas mil. <strong>Das 250 mil variedades de plantas conhecidas e que produzem flores, 90% delas depende dos insetos para a poliniza\u00e7\u00e3o, sendo as abelhas uma das principais respons\u00e1veis pela dispers\u00e3o do p\u00f3len.<\/strong> Por\u00e9m, <strong>nos \u00faltimos anos, em decorr\u00eancia do crescimento do uso de veneno na agricultura, vem se registrando o desaparecimento de milhares de colm\u00e9ias, especialmente nos pa\u00edses onde a aplica\u00e7\u00e3o de inseticidas e outras subst\u00e2ncias t\u00f3xicas t\u00eam sido maior, como nos Estados Unidos, alguns pa\u00edses europeus e o pr\u00f3prio Brasil.<\/strong><\/p>\n<p>Diante desse fen\u00f4meno, a EFSA, ag\u00eancia europeia que regula a comercializa\u00e7\u00e3o de agrot\u00f3xicos, exigiu que fossem submetidos a exames tr\u00eas inseticidas da classe dos neonicotinoides produzidos pela Bayer. A entidade reguladora alega que estaria na aplica\u00e7\u00e3o desse inseticida uma das poss\u00edveis causas pelo desaparecimento das abelhas. Como tentativa de resolver o problema, pa\u00edses como It\u00e1lia, Fran\u00e7a, Alemanha e Eslov\u00eania proibiram o com\u00e9rcio dessa subst\u00e2ncia na agricultura. Al\u00e9m de a contamina\u00e7\u00e3o se dar sob a forma indireta, ou seja, mediante pulveriza\u00e7\u00e3o, outro processo que j\u00e1 est\u00e1 se tornado corriqueiro \u00e9 <strong>a comercializa\u00e7\u00e3o de sementes com veneno, que, ao germinarem, introduzir\u00e3o no DNA das plantas part\u00edculas t\u00f3xicas que se acumular\u00e3o no p\u00f3len das plantas.<\/strong><\/p>\n<p>O problema da fiscaliza\u00e7\u00e3o acerca do com\u00e9rcio dos agrot\u00f3xicos no Brasil \u00e9 imenso, situa\u00e7\u00e3o essa constatada quando da an\u00e1lise feita em alimentos, onde foi verificada a presen\u00e7a de part\u00edculas do agrot\u00f3xico &#8220;Metamidof\u00f3s&#8221;. O estranho \u00e9 que tal produto foi proibido na China junto com outros cinco produtos em 2007. A Anvisa (Ag\u00eancia Nacional de Vigil\u00e2ncia Sanit\u00e1ria) confirmou que, depois da sua proibi\u00e7\u00e3o, houve aumento de importa\u00e7\u00e3o do mesmo em 2008, e os gastos para sua aquisi\u00e7\u00e3o superaram os 15 milh\u00f5es de d\u00f3lares.<\/p>\n<p>Outro ingrediente ativo para v\u00e1rios inseticidas, herbicidas e acaricidas, o &#8220;Endossulfam&#8221;, considerado muito perigoso, o governo brasileiro proibiu sua importa\u00e7\u00e3o a partir de 2011. No entanto, mesmo proibido, sua fabrica\u00e7\u00e3o continuou at\u00e9 2012, e, mesmo ap\u00f3s essa data, a comercializa\u00e7\u00e3o foi mantida, cujo prazo expirar\u00e1 em 31 de julho de 2013. Portanto, tal ingrediente continua fazendo parte dos agrot\u00f3xicos utilizados na agricultura brasileira. O que assusta em rela\u00e7\u00e3o ao Endossulfam \u00e9 que part\u00edculas desse ingrediente, em contato com o organismo humano, alteram o sistema imunol\u00f3gico, provocando doen\u00e7as degenerativas como o c\u00e2ncer e les\u00f5es no f\u00edgado, rins e test\u00edculos, reduzindo a fertilidade. Com rela\u00e7\u00e3o ao Endossulfam, em Petrolina e Juazeiro, munic\u00edpios do estado de Pernambuco, cuja economia est\u00e1 baseada na fruticultura de irriga\u00e7\u00e3o, duas marcas de agrot\u00f3xicos que t\u00eam como base ativa o Endossulfam estavam entre as mais vendidas.<\/p>\n<p>Como n\u00e3o bastasse o envenenamento da popula\u00e7\u00e3o pelas empresas que controlam o com\u00e9rcio de agrot\u00f3xicos, essas mesmas multinacionais jogam toda responsabilidade pela coleta e reciclagem das embalagens para o munic\u00edpio ou para os pr\u00f3prios agricultores, que s\u00e3o for\u00e7ados a promoverem campanhas de tr\u00edplice lavagem dos equipamentos e das embalagens dos agrot\u00f3xicos. No manuseio dos equipamentos e dos frascos, o agricultor corre novamente o risco de sofrer nova contamina\u00e7\u00e3o, como tamb\u00e9m a contamina\u00e7\u00e3o dos mananciais.<\/p>\n<p>A regi\u00e3o Centro Oeste do Brasil, onde est\u00e3o concentradas as nascentes dos principais rios que alimentam o Amazonas e a Bacia do Rio da Prata, sofre com o processo de contamina\u00e7\u00e3o proveniente da expans\u00e3o da fronteira agr\u00edcola. Dentre as dezenas de subst\u00e2ncias t\u00f3xicas aplicadas na agricultura de milho, algod\u00e3o, cana-de-a\u00e7\u00facar, o DDT faz parte do pacote, produto esse banido no Brasil desde 1985.<\/p>\n<p>Fonte &#8211; Jairo Cezar, Correio da Cidadania \/ Pravda de 29 de maio de 2013<\/p>\n<p><span style=\"color: #ff6600;\">Os org\u00e2nicos ainda s\u00e3o caros, porque poucos produzem, mas cabe a n\u00f3s, consumidores comprarmos mais para haver maior produ\u00e7\u00e3o e o pre\u00e7o diminuir. Agora, ser\u00e1 que vale a pena economizar agora para gastar depois em medicamentos?<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O tema agrot\u00f3xico vem sendo tratado nas \u00faltimas d\u00e9cadas, por organiza\u00e7\u00f5es ambientais, universidades e entidades cient\u00edficas, como um dos assuntos mais complexos e preocupantes quanto aos impactos provocados por seus princ\u00edpios ativos na din\u00e2mica da bi\u00f3tica planet\u00e1ria. 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