{"id":12493,"date":"2013-10-15T08:00:45","date_gmt":"2013-10-15T10:00:45","guid":{"rendered":"http:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/?p=12493"},"modified":"2025-10-29T03:22:58","modified_gmt":"2025-10-29T06:22:58","slug":"reflexoes-conceituais-sobre-a-comoditizacao-dos-bens-comuns","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/reflexoes-conceituais-sobre-a-comoditizacao-dos-bens-comuns\/","title":{"rendered":"Reflex\u00f5es conceituais sobre a &quot;comoditiza\u00e7\u00e3o&quot; dos bens comuns"},"content":{"rendered":"<p><strong>P\u00f3s RIO+20 &#8211; Reflex\u00f5es conceituais sobre a &#8220;comoditiza\u00e7\u00e3o&#8221; dos bens comuns<\/strong><\/p>\n<p>A palavra inglesa &#8220;commodities&#8221; vem sendo usada h\u00e1 anos nos jornais e cadernos especializados em not\u00edcias econ\u00f4micas, mas pouco se sabe efetivamente o que s\u00e3o &#8220;commodities&#8221;. Sempre grafada no plural &#8211; commodities &#8211; e raramente no singular &#8211; commodity -, ap\u00f3s a Rio+20, a palavra-express\u00e3o tornou-se vedete dos debates socioambientais que a utilizam tanto no plural quanto no singular para se referir \u00e0 &#8220;comoditiza\u00e7\u00e3o&#8221; dos bens comuns.<\/p>\n<p>&#8220;Commodity&#8221; significa mercadoria padronizada para compra e venda e pode ser negociada em diversos mercados com m\u00faltiplos instrumentos econ\u00f4micos. Veja que n\u00e3o se trata simplesmente de mercadoria com a palavra expressa em portugu\u00eas, pois mercadoria pode ser qualquer coisa que tenha comprador e vendedor, ou seja: que tenha mercado. Se a mercadoria \u00e9 l\u00edcita ou il\u00edcita , \u00e9tica ou n\u00e3o, trataremos mais adiante ao separarmos o trigo do joio.<\/p>\n<p><strong>A diferen\u00e7a entre mercadoria e commodity se caracteriza pela padroniza\u00e7\u00e3o &#8211; a\u00e7\u00e3o de padronizar, torn\u00e1-las iguais.<\/strong> Assim sendo, \u00e9 necess\u00e1rio desenvolver crit\u00e9rios de produ\u00e7\u00e3o, classifica\u00e7\u00e3o, certifica\u00e7\u00e3o, normas e regras de comercializa\u00e7\u00e3o legalmente constitu\u00eddas. N\u00e3o \u00e9 t\u00e3o simples &#8220;comoditizar&#8221; &#8211; transformar uma mercadoria em commodity. \u00c9 um sistema caro, complexo e que depende de acertos em acordos internacionais, al\u00e9m de regula\u00e7\u00f5es nacionais no \u00e2mbito do direito econ\u00f4mico, tribut\u00e1rio e fiscal.<\/p>\n<p>Muitos confundem &#8220;commodities&#8221; com instrumentos contratuais, como t\u00edtulos e certificados negociados nos mercados burs\u00e1teis (bolsas de valores) e de balc\u00e3o (entre partes fora dos mercados organizados) sem compreender exatamente o que se pode e o que n\u00e3o se pode fazer nestes mercados financeirizados que s\u00e3o, na maioria das vezes, mais virtuais do que reais. Outros afirmam que o pre\u00e7o na commoditiza\u00e7\u00e3o \u00e9 padronizado internacionalmente. O que tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 verdade, pois h\u00e1 v\u00e1rias Bolsas e mercados correlatos com pre\u00e7os diferenciados sendo negociados com as mesmas commodities em outros continentes. Por outro lado, quando o pre\u00e7o futuro est\u00e1 controlado por uma \u00fanica Bolsa internacional, como \u00e9 o caso da soja e do cacau, a forma\u00e7\u00e3o de pre\u00e7o para exporta\u00e7\u00e3o, sem considerar os fatores socioecon\u00f4micos regionais, muitas vezes promove distor\u00e7\u00f5es e deslealdades nestas negocia\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Quando nos referimos aos mercados de capitais, usamos a palavra-express\u00e3o sempre no plural &#8211; &#8220;commodities&#8221; -, uma vez que os contratos estabelecem neg\u00f3cios em grandes quantidades com escala de produ\u00e7\u00e3o. Nos mercados de capitais n\u00e3o se negocia &#8220;uma commodity&#8221;, mas toneladas, arrobas ou barris delas, como, por exemplo, as agropecu\u00e1rias (milho, soja, trigo, arroz, cacau, caf\u00e9, a\u00e7\u00facar, boi, frango, su\u00edno), as minerais (petr\u00f3leo, a\u00e7o, ferro, ouro, prata, cobre entre outros). Este fato impede a participa\u00e7\u00e3o de pequenos e m\u00e9dios produtores agropecu\u00e1rios e mineradores, a n\u00e3o ser quando se juntam para negociar atrav\u00e9s de cooperativas agropecu\u00e1rias ou associa\u00e7\u00f5es. Mesmo assim, ainda enfrentam dificuldades tremendas e exig\u00eancias de padroniza\u00e7\u00e3o quase que impratic\u00e1veis, considerando-se o avan\u00e7o tecnol\u00f3gico que envolve estas produ\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O que, a princ\u00edpio, est\u00e1 padronizado \u00e9 o objeto do contrato, a commodity, e n\u00e3o o pre\u00e7o, j\u00e1 que \u00e9 flutuante e formado por in\u00fameros fatores, como clima, custo de produ\u00e7\u00e3o, frete, taxas, impostos, corretagens e servi\u00e7os entre oferta e demanda e, oscilam rapidamente de acordo com a conjuntura econ\u00f4mica tanto quanto as cota\u00e7\u00f5es nas Bolsas. Da\u00ed a complexidade de se formar um mercado global que seja transnacional e consensual em acordos supranacionais nos f\u00f3runs internacionais (OMC, Mercosul, Alca), pois cada pa\u00eds tem a sua realidade socioecon\u00f4mica, ambiental , financeira e pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Compreenda tamb\u00e9m a disputa concorrencial de mercados. Os pa\u00edses desenvolvidos olham para a Am\u00e9rica Latino-caribenha como fornecedora de insumos e mat\u00e9ria prima e tratam suas rela\u00e7\u00f5es comerciais como se os recursos naturais e os recursos humanos estivessem eternamente \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o dos capitalizados desde os tempos da coloniza\u00e7\u00e3o europeia, para que possam continuar desenfreadamente produzir bens e servi\u00e7os e depois revenderem a n\u00f3s, latino-americanos e caribenhos, seus produtos com tecnologia de ponta, cobrando caro na condi\u00e7\u00e3o de potencial consumidores que somos, as mesmas commodities reprocessadas por eles, que foram produzidas por n\u00f3s.<\/p>\n<p>E por que aceitamos tudo isso? Por que n\u00e3o questionamos os crit\u00e9rios de &#8220;comoditiza\u00e7\u00e3o&#8221; e ainda praticamos extrativismo predador enquanto ind\u00fastria e agroneg\u00f3cio com o paradigma daqueles tempos em que as Am\u00e9ricas e Ilhas Caribenhas foram descobertas por estes colonizadores? At\u00e9 hoje, vigora a pr\u00e1tica dos &#8220;royalties&#8221;, pagamento que se fazia \u00e0 realeza pela extra\u00e7\u00e3o das riquezas naturais, como ouro e petr\u00f3leo.<\/p>\n<p>Jogar a palavra &#8220;commodities&#8221; para debaixo do tapete e tentar substitu\u00ed-la por outros c\u00f3digos, como, por exemplo, &#8220;produtos ecossist\u00eamicos&#8221;, para dourar p\u00edlula e tornar mais palat\u00e1vel a comercializa\u00e7\u00e3o dos bens comuns \u00e9 repetir o mesmo modelo condenado pelos socialistas em seus combates ferozes contra o capitalismo. A palavra &#8220;commodities&#8221; vai aparecer mais adiante com uma nova roupagem, a da legaliza\u00e7\u00e3o do il\u00edcito, como a biopirataria, a comercializa\u00e7\u00e3o de lixo e a polui\u00e7\u00e3o, com o &#8220;modus operandi&#8221; de monop\u00f3lio e forma\u00e7\u00e3o de cartel convenientemente chancelados por governos e corpora\u00e7\u00f5es em conven\u00e7\u00f5es internacionais. Aparecer\u00e1 tamb\u00e9m em sua forma mais perniciosa, a de que ecossistemas vitais para a sobreviv\u00eancia humana e de todos os seres vivos seja mercantilizada com a regula\u00e7\u00e3o de pre\u00e7os nos mercados de Bolsas e de balc\u00f5es.<\/p>\n<p>Preferimos enfrent\u00e1-la, discutindo os crit\u00e9rios de &#8220;comoditiza\u00e7\u00e3o&#8221; e propondo um novo modelo econ\u00f4mico que fa\u00e7a contraponto a essa forma mercantilista e utilitarista da produ\u00e7\u00e3o de bens e servi\u00e7os, de seres humanos como m\u00e3o de obra barata e escrava, seja na forma il\u00edcita e desumana de trabalho escravo propriamente dito, ou a indireta dissimulada, escravizando pequenos e m\u00e9dios agricultores, campesinos e extrativistas, al\u00e9m das comunidades tradicionais, como \u00edndios e quilombolas, entre outras minorias, com contratos unilaterais e leoninos. Assim sendo, separaremos o trigo do joio esclarecendo conceitos sobre a comoditiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Commodities Convencionais<\/strong><\/p>\n<p>As &#8220;commodities convencionais&#8221; s\u00e3o aquelas produzidas nesse modelo econ\u00f4mico criticado anteriormente. Obedecem crit\u00e9rios de padroniza\u00e7\u00e3o internacionais, s\u00e3o produzidas em grandes quantidades para atender \u00e0 demanda de mercados altamente competitivos e abastecer as corpora\u00e7\u00f5es e transnacionais que produzem tamb\u00e9m em alta escala, como o setor automotivo (comprador de min\u00e9rio), o agroneg\u00f3cio (comprador de gr\u00e3os e carnes), a constru\u00e7\u00e3o civil (compradora de madeira e min\u00e9rio), enfim, cada setor da economia consome muita produ\u00e7\u00e3o de commodities para abastecer os 7 bilh\u00f5es de habitantes deste Planeta Terra. No entanto, os recursos naturais necess\u00e1rios \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de commodities n\u00e3o eram considerados na contabilidade destas produ\u00e7\u00f5es. A \u00e1gua que irriga a lavoura, a energia que consome a produ\u00e7\u00e3o de a\u00e7o, a biodiversidade impactada pela explora\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo, o solo degradado pelo plantio de esp\u00e9cies que propiciam r\u00e1pido crescimento e corte, como &#8220;pinus&#8221; e eucaliptos e toda gama de tecnologias para produ\u00e7\u00e3o de alimentos que aceleram o plantio e colheita contra pragas, secas e inunda\u00e7\u00f5es com engenharia gen\u00e9tica para atender aos prazos e demandas da voracidade dos seres humanos que precisam tanto dos alimentos para comer, quanto da \u00e1gua para viver e do ar para respirar. Acrescentando ainda o padr\u00e3o de conforto dos produtos industrializados, aparelhos eletr\u00f4nicos, carros, televis\u00f5es, celulares, enfim, tudo o que a intelig\u00eancia humana foi capaz de criar e produzir para supostamente melhorar a vida das pessoas.<\/p>\n<p>Os mercados de commodities convencionais empregam menos pessoas e utilizam cada vez mais tecnologia, como maquin\u00e1rios pesados, tratores, colheitadeiras e sistema sofisticado de produ\u00e7\u00e3o com a mecaniza\u00e7\u00e3o. A cada avan\u00e7o da moderniza\u00e7\u00e3o, milhares e milhares de pessoas que prestavam servi\u00e7os s\u00e3o substitu\u00eddas por m\u00e1quinas. \u00c9 o caso dos cortadores de cana. Apesar de ser uma profiss\u00e3o ingrata e abusiva, os cortadores de cana, mais conhecidos como boias frias, dependiam desta tarefa para seu sustento e, com a mecaniza\u00e7\u00e3o do corte de cana, est\u00e3o sem alternativa de trabalho. A substitui\u00e7\u00e3o da m\u00e3o de obra no corte da cana n\u00e3o foi praticada com uma pol\u00edtica p\u00fablica preocupada com o trabalhador bra\u00e7al, mas unicamente com o setor sucroalcooleiro. Ainda que o argumento de que o corte de cana manual era atividade insalubre e sem condi\u00e7\u00f5es de seguran\u00e7a, sua substitui\u00e7\u00e3o n\u00e3o foi realizada pensando naqueles que fizeram do setor sucroalcooleiro um dos maiores produtores de commodities do mundo.<\/p>\n<p>Esses sofridos trabalhadores est\u00e3o por ai, vagando pelas cidades e v\u00e3o engrossar as fileiras dos movimentos sociais sem terra, sem casa, sem teto, sem trabalho, sem perspectiva de vida e sem esperan\u00e7as. Este \u00e9 apenas um dos exemplos dos impactos da commoditiza\u00e7\u00e3o e por que essa palavra-express\u00e3o passou a ser amaldi\u00e7oada como o c\u00e3o chupando manga por todos que lutam por dignidade, justi\u00e7a e paz no campo.<\/p>\n<p>O assunto \u00e9 vasto e n\u00e3o faltam estudos e trabalhos detalhados relatando como funcionam os setores que necessitam da produ\u00e7\u00e3o de commodities.<\/p>\n<p><strong>Commodities Ambientais<\/strong><\/p>\n<p>As &#8220;commodities ambientais&#8221; s\u00e3o mercadorias padronizadas para compra e venda produzidas pelas comunidades que foram exclu\u00eddas dos mercados de commodities convencionais ou que nunca tiveram participa\u00e7\u00e3o nele. Para serem ambientais, n\u00e3o podem ser produzidas com os mesmos crit\u00e9rios de produ\u00e7\u00e3o impactantes e que promovem a exclus\u00e3o social, a devasta\u00e7\u00e3o e a degrada\u00e7\u00e3o ambiental. Essas produ\u00e7\u00f5es s\u00e3o assim conceituadas, pois devem obedecer tamb\u00e9m a crit\u00e9rios de padroniza\u00e7\u00e3o, classifica\u00e7\u00e3o e certifica\u00e7\u00e3o, o que n\u00e3o significa que esses crit\u00e9rios devam ser os mesmos adotados pelo modelo econ\u00f4mico na produ\u00e7\u00e3o de commodities convencionais. Nas commodities ambientais, as produ\u00e7\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o em escala, como no padr\u00e3o industrial. S\u00e3o diversificadas, respeitando-se os ciclos da natureza e a capacidade de cada regi\u00e3o com seus biomas e ecossistemas. A palavra &#8220;commodities&#8221;, neste contexto grafada como &#8220;express\u00e3o&#8221;, n\u00e3o est\u00e1 associada \u00e0 tecnologia de ponta, \u00e0 engenharia gen\u00e9tica ou \u00e0s m\u00e1quinas e equipamentos que s\u00e3o necess\u00e1rios para a produ\u00e7\u00e3o das commodities convencionais. Somente ser\u00e3o commodities ambientais se estas produ\u00e7\u00f5es gerarem emprego e renda para seus produtores. Sempre em pequenas quantidades, com crit\u00e9rios de manejos e integra\u00e7\u00e3o entre o ser humano e o meio ambiente e com pesquisa t\u00e9cnico-cient\u00edfica e educacional. Estar\u00e1 &#8220;comoditizada&#8221; por obedecer a crit\u00e9rios participativos e que promovem o fortalecimento das produ\u00e7\u00f5es dos pequenos e m\u00e9dios produtores, extrativistas, comunidades tradicionais &#8211; \u00edndios e quilombolas, campesinos e grupos em exclus\u00e3o e de riscos (mulheres, deficientes f\u00edsicos, presidi\u00e1rios, desempregados, entre outros).<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio das commodities convencionais , express\u00e3o usada no plural por conta da grande quantidade de produtos, nas ambientais, o plural ser\u00e1 na organiza\u00e7\u00e3o social que as produz e decide sobre esses crit\u00e9rios, ou seja, deve ser associativista e cooperativista. A produ\u00e7\u00e3o \u00e9 grupal e n\u00e3o individual (no singular); ocorre o inverso, nas commodities convencionais, que concentram o lucro e a produ\u00e7\u00e3o para poucas pessoas e corpora\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>As commodities ambientais buscam inserir esses cortadores de cana que perderam seu sustento com a mecaniza\u00e7\u00e3o do corte, propondo alternativas de produ\u00e7\u00e3o e trabalho. S\u00e3o, portanto, a transi\u00e7\u00e3o do modelo econ\u00f4mico com pol\u00edticas p\u00fablicas participativas e integradas. N\u00e3o substituem as commodities convencionais, nem pretendem concorrer com elas, mas criar um sistema alternativo que abra a base da economia e promova a conserva\u00e7\u00e3o e a preserva\u00e7\u00e3o ambiental com inclus\u00e3o social, atendendo as suas demandas.<\/p>\n<p>As commodities ambientais s\u00e3o originadas das matrizes: \u00e1gua, energia, biodiversidade, floresta (madeira), min\u00e9rio, biodiversidade, reciclagem e redu\u00e7\u00e3o de poluentes (\u00e1gua , solo e ar). As matrizes n\u00e3o s\u00e3o mercadorias, s\u00e3o ecossistemas e ou processos (conhecimento e ci\u00eancia). N\u00e3o s\u00e3o &#8220;commodities&#8221;, s\u00e3o bens comuns. S\u00e3o a galinha dos ovos de ouro. (<a href=\"https:\/\/www.crypto-ai-insights.com\/\">https:\/\/www.crypto-ai-insights.com<\/a>)  Por\u00e9m, a Economia Verde pretensiosamente prop\u00f5e comoditizar aquilo que n\u00e3o pode e n\u00e3o deve ser &#8220;mercadoria&#8221; atrav\u00e9s do sistema financeiro com instrumentos econ\u00f4micos e contratos padronizados pelos mercados de capitais. Est\u00e1 bem longe do que propomos nas commodities ambientais.<\/p>\n<p>No entanto, n\u00e3o podemos dizer que a \u00e1gua n\u00e3o est\u00e1 comoditizada. De que \u00e1gua estamos falando? Da \u00e1gua que est\u00e1 na bacia hidrogr\u00e1fica &#8211; rios, subsolo, represas, mananciais &#8211; ou da \u00e1gua que est\u00e1 engarrafada no supermercado?<\/p>\n<p>A \u00e1gua que est\u00e1 no rio, no subsolo, nas represas, nas montanhas, nas cachoeiras \u00e9 parte de ecossistemas e n\u00e3o deve jamais ser comoditizada por um motivo muito simples: \u00e9 direito humano, direito de todos os seres vivos e, portanto, essencial para nossa sobreviv\u00eancia, garantida pela constitui\u00e7\u00e3o no Estado Democr\u00e1tico de Direito. \u00c1gua \u00e9 bem comum, de uso p\u00fablico, e o estado \u00e9 tutelador deste bem; por\u00e9m, a \u00e1gua que saiu do seu estado natural e foi reprocessada para ser engarrafada, seja como \u00e1gua mineral, bebidas, insumos para ind\u00fastrias, para a agricultura e a pecu\u00e1ria est\u00e1 commoditizada em forma de produtos industrializados e alimentos. Alegar que a \u00e1gua n\u00e3o \u00e9 &#8220;commodity&#8221; em parte \u00e9 verdade, pois \u00e9 ecossistema, mas ignorar que est\u00e1 incorporada a produ\u00e7\u00e3o de bens e servi\u00e7os na forma de produtos industriais e alimentos \u00e9 tratar a discuss\u00e3o com o vi\u00e9s meramente pol\u00edtico-ideol\u00f3gico ou total desconhecimento t\u00e9cnico-cient\u00edfico, sem mensurar as consequ\u00eancias da superficialidade desta discuss\u00e3o. Se a palavra-express\u00e3o &#8220;commodity&#8221; est\u00e1 sendo usada para explicar que a \u00e1gua n\u00e3o deve ser regulada, precificada e controlada pelo sistema financeiro via mercados de Bolsa, tem raz\u00e3o de ser, mas falta ainda contextualizar como a comoditiza\u00e7\u00e3o est\u00e1 sendo criticada nesta afirma\u00e7\u00e3o. \u00c9 necess\u00e1rio explicar para as pessoas leigas do que se est\u00e1 falando. A confus\u00e3o conceitual alimenta a ignor\u00e2ncia e o desinteresse.<\/p>\n<p>Os que se negam a ouvir o que estamos propondo, sem nos dar a chance de provar que \u00e9 poss\u00edvel transformar a maneira de produzir e que podemos interferir nos crit\u00e9rios de produ\u00e7\u00e3o de bens e servi\u00e7os, n\u00e3o querem solu\u00e7\u00f5es. S\u00e3o, na melhor das hip\u00f3teses, reducionistas e demonstram que, se est\u00e3o defendendo o direito do povo decidir sobre pol\u00edticas p\u00fablicas e a economia que queremos, negam com esta atitude o direito dos que n\u00e3o t\u00eam alternativas, como os cortadores de cana, \u00edndios, quilombolas, campesinos, entre outros, de encontrarem uma esperan\u00e7a neste mundo real, ainda, infelizmente, bem longe do mundo ideal. Tamb\u00e9m demonstram incompet\u00eancia para avan\u00e7ar na defesa dos bens comuns, dando muni\u00e7\u00e3o para inimigos. Estes incautos acabam advogando para promover aceleradamente a comoditiza\u00e7\u00e3o e a financeiriza\u00e7\u00e3o dos bens comuns.<\/p>\n<p><strong>Commodities Sujas<\/strong><\/p>\n<p>Outros fatores compreens\u00edveis contribuem para essa falta de vis\u00e3o estrat\u00e9gica: a a\u00e7\u00e3o dos oportunistas de plant\u00e3o, de gente inescrupulosa e desonesta que se apropria de trabalhos fundamentados para vender gato por lebre. As commodities ambientais t\u00eam sido sistematicamente e propositadamente confundida com cr\u00e9ditos de carbono. A express\u00e3o est\u00e1 enfrentando um ass\u00e9dio conceitual sub-rept\u00edcio daqueles que se apropriam de ideias alheias, esvaziam-nas do seu sentido original e se apropriam delas, preenchendo-as com conte\u00fado esp\u00fario.<\/p>\n<p>Com rela\u00e7\u00e3o aos cr\u00e9ditos de carbono ou quaisquer cr\u00e9ditos derivados deste paradigma mecanicista, estamos falando de t\u00edtulos, de certificados negociados em Bolsas de Valores ou nos mercados de balc\u00e3o. Se polui\u00e7\u00e3o \u00e9 mercadoria, como v\u00e3o padroniz\u00e1-la para compra e venda? Quais s\u00e3o os crit\u00e9rios de classifica\u00e7\u00e3o e certifica\u00e7\u00e3o da mercadoria a ser comoditizada, a polui\u00e7\u00e3o (CO2)?<\/p>\n<p>O absurdo conceitual e o atropelo do oportunismo ganancioso propiciou uma nova modalidade de comoditiza\u00e7\u00e3o: as &#8220;commodities sujas&#8221;. Transformar mercadoria em &#8220;commodities&#8221; significa legalizar o il\u00edcito e o anti\u00e9tico neste caso. Como dissemos anteriormente, mercadoria pode ser qualquer coisa que tenha comprador e vendedor formando mercado. Mas &#8220;commodities&#8221; s\u00e3o padronizadas. E para padronizar \u00e9 necess\u00e1rio adotar crit\u00e9rios que devem se submeter a regras e normas. No caso das &#8220;commodities sujas&#8221;, est\u00e3o legalizando o mercado de polui\u00e7\u00e3o que nada tem a ver com o conceito de &#8220;commodities ambientais&#8221;. Uma vez que se deseja eliminar, n\u00e3o se pode multiplicar, produzir estoque, comoditizar e mercantilizar.<\/p>\n<p><strong>O paradigma organicista versus paradigma mecanicista<\/strong><\/p>\n<p>O ambientalista e doutor em Ecohist\u00f3ria, Arthur Soffiati, conclui:\u00a0&#8220;Hoje, os cinquenta tons de cinza confundem as posi\u00e7\u00f5es e a compreens\u00e3o dos conceitos. Mesmo assim, \u00e9 poss\u00edvel reconhecer dois paradigmas: o mecanicista e o organicista. O primeiro continua acreditando que o planeta e as pessoas s\u00e3o recursos a serem explorados em car\u00e1ter ilimitado para ganhar dinheiro. O segundo prop\u00f5e uma mudan\u00e7a radical, criticando tanto a direita quanto a esquerda por suas posi\u00e7\u00f5es retr\u00f3gradas. A geoengenharia, a transgenia, a biologia sint\u00e9tica s\u00e3o novas roupagens para velhas propostas que se re\u00fanem hoje sob o r\u00f3tulo geral de Economia Verde. Elas se vinculam ao surrado paradigma mecanicista que alimenta o capitalismo e o socialismo (que nunca representou um projeto radical de revolu\u00e7\u00e3o). J\u00e1 o projeto de commodities ambientais se alinha com o novo paradigma organicista, que condena veementemente o objetivo de transformar todas as manifesta\u00e7\u00f5es da natureza em mercadoria.&#8221;<\/p>\n<p>Amyra El Khalili* \u00e9 economista, autora do e-book &#8220;Commodities Ambientais em Miss\u00e3o de Paz: Novo Modelo Econ\u00f4mico para a Am\u00e9rica Latina e o Caribe&#8221;. S\u00e3o Paulo: Nova Consci\u00eancia, 2009. 271 p. Acesse gratuitamente <strong><span style=\"color: #ff6600;\"><a href=\"http:\/\/www.amyra.lachatre.org.br\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><span style=\"color: #ff6600;\">www.amyra.lachatre.org.br<\/span><\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p>Fonte &#8211; Pravda de 12 de dezembro de 2012<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>P\u00f3s RIO+20 &#8211; Reflex\u00f5es conceituais sobre a &#8220;comoditiza\u00e7\u00e3o&#8221; dos bens comuns A palavra inglesa &#8220;commodities&#8221; vem sendo usada h\u00e1 anos nos jornais e cadernos especializados em not\u00edcias econ\u00f4micas, mas pouco se sabe efetivamente o que s\u00e3o &#8220;commodities&#8221;. 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