{"id":12738,"date":"2014-02-24T09:00:59","date_gmt":"2014-02-24T12:00:59","guid":{"rendered":"http:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/?p=12738"},"modified":"2014-02-24T11:05:27","modified_gmt":"2014-02-24T14:05:27","slug":"crescem-couves-e-plantas-medicinais-entre-predios-e-estradas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/crescem-couves-e-plantas-medicinais-entre-predios-e-estradas\/","title":{"rendered":"Crescem couves e plantas medicinais entre pr\u00e9dios e estradas"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" alt=\"\" src=\"http:\/\/farm8.staticflickr.com\/7452\/12747011134_3075dc029e.jpg\" \/><\/p>\n<p>Hortas comunit\u00e1rias, clandestinas, sociais, espont\u00e2neas. Existem pelo menos 70.235 hortas urbanas na Grande Lisboa. Uma d\u00fazia de horticultores mostram os seus quintais ao ar livre da cidade. O local onde passam mais tempo do que a cozinhar ou a comer aquilo que plantam.<\/p>\n<p>Com um gorro branco a cobrir as orelhas, Mariama conta que, mesmo com este frio, Malam Bald\u00e9 se levanta \u00e0s 6h, s\u00f3 algumas vezes por volta das 7h, para trabalhar no talh\u00e3o. \u201cFui trocada por uma horta!\u201d Esta \u00e9 a frase que Mariama Camara, a sorrir mas n\u00e3o a brincar, usa para exemplificar a dedica\u00e7\u00e3o que o marido tem nos seus 30m2 na Adroana. Junto a este bairro social da freguesia de Alcabideche, a C\u00e2mara de Cascais inaugurou, em Janeiro, o mais recente parque hort\u00edcola do concelho.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" alt=\"\" src=\"http:\/\/farm8.staticflickr.com\/7322\/12746574295_af1f726bd2.jpg\" \/><\/p>\n<p>Estes talh\u00f5es fazem parte do programa Hortas de Cascais. As primeiras hortas comunit\u00e1rias da \u00c1rea Metropolitana de Lisboa nasceram em 2009, no Parque Urbano do Alto dos Gaios, na freguesia do Estoril. Agora j\u00e1 existem 1372 talh\u00f5es apoiados pelas c\u00e2maras em 11 concelhos da Grande Lisboa.<\/p>\n<p>Com uma enxada port\u00e1til com uma l\u00e2mina de dez cent\u00edmetros, Jos\u00e9 Fernandes empurra a terra das laterais dos alhos para os cobrir. \u201cCresceram bem e j\u00e1 estavam de orelhas de fora\u201d, diz, fixando o ch\u00e3o. Tem a horta na Quinta dos Lombos, na freguesia de Carcavelos, desde finais de Setembro. A planta\u00e7\u00e3o de Jos\u00e9 est\u00e1 um pouco atrasada. Nem todas as sementes plantadas d\u00e3o frutos e legumes, justifica.<\/p>\n<p>Ao lado, est\u00e1 outro talh\u00e3o, mas bastante recheado. \u201cEm casa, ele tem uma planta da horta onde est\u00e3o as indica\u00e7\u00f5es sobre cada cultura, desde o tempo de vida ao espa\u00e7o que ocupa\u201d, diz Teresa Matos sobre o marido. \u201cEle passa aqui tr\u00eas, quatro vezes por dia\u201d, continua. Viciado na sua horta que tanto trabalho deu, S\u00e9rgio diz que gosta de a vigiar para que nada se estrague.<\/p>\n<p>Andr\u00e9 Miguel, respons\u00e1vel pelo projecto Hortas de Cascais, explica que a agricultura urbana tem uma grande import\u00e2ncia para a comunidade. Inspirados por aquilo que j\u00e1 se fazia no Grande Porto e perante o n\u00famero de hortas clandestinas, de uso espont\u00e2neo, a C\u00e2mara de Cascais percebeu que as pessoas queriam ter a sua horta, uns por necessidade, outros por lazer, conta.<\/p>\n<p>Ana Sofia deseja plantar uma farm\u00e1cia natural no cantinho que tem na Quinta dos Lombos. Tem o seu talh\u00e3o desde Setembro, mas, devido a um bra\u00e7o engessado, a terra permanece castanha, inviolada. A farmac\u00eautica, agora desempregada, expressa o plano: \u201cQuero s\u00f3 flores e ervas arom\u00e1ticas para ter plantas medicinais\u201d.<\/p>\n<p>Perto do Colombo, em Lisboa, Patroc\u00ednia Sabugueiro levanta a foice pela antepen\u00faltima vez no dia, enquanto passa atr\u00e1s de si um jovem a correr na ciclovia. H\u00e1 dois anos que tem uma horta comunit\u00e1ria. J\u00e1 era horticultora, mas o espa\u00e7o diminuiu. \u201cAntes tinha aqui uma de 1000m2, agora tenho 150\u201d, lamenta, encolhendo os ombros. Mas n\u00e3o se aborrece e continua a trabalhar a terra com a mesma vontade de h\u00e1 27 anos, quando come\u00e7ou a sua horta clandestinamente naquele local.<\/p>\n<p>Mais abaixo, neste parque hort\u00edcola da Quinta da Granja, em Benfica, Maria, Jo\u00e3o e Mug, a cadela com p\u00ealo castanho-claro e de olhos azuis, t\u00eam um talh\u00e3o pela primeira vez. O casal diz que tudo foi cultivado por eles. \u201cJ\u00e1 temos morangos, uma laranjeira com uma laranja, couve, alface, tomate, cebola e ervas arom\u00e1ticas.\u201d Inexperiente, o casal frisa que a interajuda entre os horticultores foi fundamental. \u201cA forma\u00e7\u00e3o [dada pelas c\u00e2maras] \u00e9 apenas um come\u00e7o.\u201d<\/p>\n<p>Ant\u00f3nio Furtado j\u00e1 tem \u201cmuita experi\u00eancia\u201d. De enxada na m\u00e3o, enquanto arranca as ervas secas espalhadas pela terra ainda h\u00famida, explica, gesticulando com a m\u00e3o livre do cabo, como \u00e9 que se faz uma boa horta. \u201cPrimeiro \u00e9 preciso limpar o terreno tirando a palha. Depois cerca-se. Solta-se o terreno porque est\u00e1 rijo. E p\u00f5e-se as sementes. Mais tarde, quando a terra estiver seca, tira-se a \u00e1gua da ribeira e rega-se\u201d. Est\u00e1 a come\u00e7ar uma, ao lado de um espa\u00e7o verde com caminhos pedestres e com um riacho, junto do Dolce Vita Tejo, na Amadora. Ant\u00f3nio est\u00e1 desempregado e n\u00e3o quer ficar em casa de bra\u00e7os cruzados. N\u00e3o sabe se o solo que cava \u00e9 bom. Mas do outro lado da ribeira, ao estilo dos socalcos do Douro, couves e favas crescem como se estivessem num d\u00faplex hort\u00edcola.<\/p>\n<p><strong>Necessidade versus lazer<\/strong><\/p>\n<p>No concelho de Loures, num vale verde com vista para a estrada onde passa o 313, o \u00fanico autocarro de acesso ao Bairro da Apela\u00e7\u00e3o, est\u00e3o centenas de hortas espont\u00e2neas. Ao lado deste bairro social da freguesia de Frielas os moradores da povoa\u00e7\u00e3o come\u00e7aram, h\u00e1 cerca de um ano, a cultivar neste espa\u00e7o.<\/p>\n<p>A madeira no ch\u00e3o que tra\u00e7a o apertado carreiro entre estas hortas est\u00e1 encharcada. O caminho est\u00e1 coberto de lama e \u00e1gua. Mas Orlando Mendes consegue chegar ao seu espa\u00e7o. Com um casaco cor de vinho de flanela quadriculada, de cal\u00e7as de ganga escuras e botas pretas, n\u00e3o est\u00e1 ali para cavar a terra. Com o mau tempo dos \u00faltimos dias, n\u00e3o era poss\u00edvel faz\u00ea-lo. \u201cVim s\u00f3 ver se n\u00e3o se estragou nada.\u201d<\/p>\n<p>Nas t\u00e1buas que improvisam os caminhos, cruzou-se com Augusto Pontes, o autor da ideia. \u201cEste era um espa\u00e7o sem nada. Por que n\u00e3o poderia ser usado?\u201d M\u00e3os \u00e0 obra. Juntou portas de madeira, cabeceiras de cama, t\u00e1buas, canas, e cercou uma grande \u00e1rea para si. Tem plantado favas, couves, ervilhas, batatas. Augusto explica que come\u00e7ou a fazer a horta porque n\u00e3o tinha o que comer. Desempregado, aquilo que consegue produzir \u00e9 o alimento da sua fam\u00edlia. Mas no Ver\u00e3o torna-se mais complicado porque a \u00e1gua j\u00e1 n\u00e3o cai do c\u00e9u.<\/p>\n<p>Mais a norte, na P\u00f3voa de Santa Iria, ouvem-se crian\u00e7as a rir e a falar alto perto de M\u00e1rio Caceres. Estavam a jogar \u00e0 bola na escola paralela \u00e0s hortas. M\u00e1rio tem um talh\u00e3o de 40m2 com duas portinhas de canas onde se l\u00ea \u201centrada proibida\u201d e uma cerca com uma altura desencorajadora para intrusos. Fica grande parte do dia ali. Reformado, gosta de estar atento e h\u00e1 sempre algo para fazer. Uma folha seca de couve tem de ser tirada ou umas malaguetas apanhadas.<\/p>\n<p>Ter uma horta requer dedica\u00e7\u00e3o e tempo. Mesmo assim, as hortas urbanas proliferam. Agora com uma vertente cada vez mais comum: as c\u00e2maras criam-nas para reabilitar os espa\u00e7os verdes. A maioria dos projectos come\u00e7ou em 2011. E o ano passado houve um aumento significativo: 654 hortas comunit\u00e1rias foram criadas s\u00f3 na Grande Lisboa. \u201cFica mais barato construir um parque hort\u00edcola do que construir um espa\u00e7o verde\u201d, diz Andr\u00e9 Miguel. Apesar disso, ainda se multiplicam hortas espont\u00e2neas. A maioria daqueles que as t\u00eam, tanto as usam para se manterem ocupados como para terem um meio de subsist\u00eancia. Por sua vez, as hortas comunit\u00e1rias s\u00e3o mais uma actividade de lazer.<\/p>\n<p>Contudo, a necessidade tamb\u00e9m est\u00e1 presente nestas. Do talh\u00e3o em Alcabideche de Malam para a mesa da cozinha, nada \u00e9 desperdi\u00e7ado. Mariama explica que \u201ccorta o ramo da cebola, parte aos pedacinhos, esmaga com piment\u00e3o e azeite e junta com arroz branco. Fica uma del\u00edcia!\u201d O casal da Guin\u00e9-Bissau tem cinco filhos, ele est\u00e1 desempregado e ela tem um trabalho de apenas quatro horas. Retiram da terra uma grande ajuda.<\/p>\n<p>As hortas servem como um complemento econ\u00f3mico porque a maioria dos frescos podem ser colhidos. \u201cNormalmente existe uma rela\u00e7\u00e3o entre a necessidade e a quantidade: quanto maior a abund\u00e2ncia de alimentos num talh\u00e3o, maior o grau de necessidade\u201d, explica Andr\u00e9 Miguel.<\/p>\n<p>Por outro lado, a qualidade dos produtos \u00e9 sempre um factor defendido pelos orgulhosos horticultores. Em Carcavelos, Isabel Campos, vizinha de Jos\u00e9 Fernandes e S\u00e9rgio Matos, tem a horta mais crescida. Ressalva que o sabor \u00e9 totalmente diferente. \u201cO gosto dos produtos muda, n\u00e3o s\u00f3 porque s\u00e3o biol\u00f3gicos, mas tamb\u00e9m porque d\u00e1 um enorme gozo colher aquilo que se plantou\u201d. No seu talh\u00e3o, a organiza\u00e7\u00e3o prima. Canas ao alto a fazer um tri\u00e2ngulo, presas por um fio branco de croch\u00e9, demonstram-no. A professora reformada explica: \u201cUma horta inserida junto a um bairro deve ter uma certa est\u00e9tica. Devemos preserv\u00e1-la porque ningu\u00e9m gosta de ter uma vista para um jardim que parece uma barraca\u201d.<\/p>\n<p><strong>Brincar aos agricultores<\/strong><\/p>\n<p>Apenas um dos filhos de Malam, com dois anos, gosta de brincar aos agricultores quando tenta arrancar folhas de couves. Mas as hortas comunit\u00e1rias pretendem tamb\u00e9m contribuir para o desenvolvimento das rela\u00e7\u00f5es interpessoais e intergeracionais. Inseridas numa comunidade, ao ar livre, podem ser uma alternativa de ocupa\u00e7\u00e3o de tempos livres e uma oportunidade para os mais jovens de adquirirem compet\u00eancias agr\u00edcolas.<\/p>\n<p>Na Apela\u00e7\u00e3o, Orlando conta que apenas um jovem aderiu \u00e0 ideia das hortas, ficando com uma. Depois desistiu. \u201cN\u00e3o queria ter trabalho e vendeu-a a um vizinho por 20 euros. Gastou-os de seguida ali no caf\u00e9\u201d.<\/p>\n<p>Por sua vez, M\u00e1rio est\u00e1 sozinho na sua horta em Vila Franca de Xira. Conta que \u201ch\u00e1 quem s\u00f3 passa l\u00e1 uma vez por m\u00eas, apanha umas couves e vai embora\u201d. Dos 84 horticultores, apenas oito se juntam para conversar no banco de madeira que fizeram em cima do tronco de uma \u00e1rvore encurralada entre dois talh\u00f5es.<\/p>\n<p>Em Lisboa, Maria, Jo\u00e3o e Mug continuam o seu passeio. No Ver\u00e3o costumam ficar mais tempo. \u201c\u00c9 mais agrad\u00e1vel porque os dias longos trazem mais disponibilidade para quem trabalha\u201d, explica Maria, enquanto fecha a porta feita de pain\u00e9is de madeira que isola o seu talh\u00e3o. Mais acima, Patroc\u00ednia arranja-se para ir embora. \u201cUma mulher tem sempre muito que fazer\u201d, diz.<\/p>\n<p>Em Cascais, Mariama tamb\u00e9m vai para casa, mas Malam vai ficar a colher umas alfaces. Em Carcavelos, Jos\u00e9 e S\u00e9rgio ficam a trabalhar a terra, apesar de n\u00e3o estar t\u00e3o agrad\u00e1vel, como h\u00e1 uns dias, quando estavam mais colegas nas hortas.<\/p>\n<p>Distintas, as hortas espalhadas pelo distrito de Lisboa est\u00e3o tanto \u00e0 beira de estradas, como no meio de um espa\u00e7o verde ou no centro de uma povoa\u00e7\u00e3o. Uma horta passa a ser vista como um jardim de alfaces, cebolas, morangos, couves, e CD, pendurados para espantar os p\u00e1ssaros comil\u00f5es de legumes, fruta e sementes.<\/p>\n<p>Augusto Pontes j\u00e1 limpou a terra e vai agora procurar algo abandonado em descampados ou perto de caixotes do lixo para vedar o espa\u00e7o que acabou de arranjar. Ali crescer\u00e1 a \u00fanica alternativa que tem ao subs\u00eddio de desemprego que n\u00e3o recebe.<\/p>\n<p><strong>Grande Porto inaugurou 85 talh\u00f5es s\u00f3 este ano<\/strong><\/p>\n<p>A Lipor \u2013 Servi\u00e7o Intermunicipalizado de Gest\u00e3o de Res\u00edduos do Grande Porto \u2013 em parceria com oito munic\u00edpios da regi\u00e3o inaugurou este ano mais 85 talh\u00f5es no \u00e2mbito do projecto Hortas \u00e0 Porta. Os \u00faltimos 49 talh\u00f5es foram abertos no in\u00edcio deste m\u00eas em Valongo.<\/p>\n<p>Benedita Chaves, respons\u00e1vel pelo projecto, diz ao P\u00daBLICO que esperam \u201cabrir mais cinco parques hort\u00edcolas este ano\u201d. Em 2013 conseguiram distribuir 217 talh\u00f5es. O projecto Hortas \u00e0 Porta, criado em 2004, abrange os munic\u00edpios de Vila do Conde, Valongo, P\u00f3voa de Varzim, Porto, Espinho, Gondomar, Maia e Matosinhos. Foi pioneiro em Portugal e nasceu a partir de um projecto que visava sensibilizar a popula\u00e7\u00e3o para a compostagem caseira e a agricultura biol\u00f3gica no Grande Porto.<\/p>\n<p>Benedita Chaves afirma que surgiu na Maia h\u00e1 quase dez anos porque os mun\u00edcipes queriam ter um espa\u00e7o para praticar agricultura biol\u00f3gica. \u201cTiravam cursos connosco e gostavam de plantar produtos, mas n\u00e3o tinham um local.\u201d Dois dias depois de divulgarem o concurso para distribu\u00edrem 74 talh\u00f5es, j\u00e1 tinham recebido 200 candidaturas. Hoje as Hortas \u00e0 Porta j\u00e1 t\u00eam 966 talh\u00f5es nos oito munic\u00edpios.<\/p>\n<p>Fonte &#8211; Alexandra GUerreiro, Portugal P\u00fablico de 24 de fevereiro de 2014<\/p>\n<p><span style=\"color: #ff6600;\">Hortas urbanas ao inv\u00e9s de terrenos cheios de mato, criadouros de dengue.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #ff6600;\">Nas pra\u00e7as, pomares, nos terrenos baldios hortas, para garantir a seguran\u00e7a alimentar da popula\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Hortas comunit\u00e1rias, clandestinas, sociais, espont\u00e2neas. Existem pelo menos 70.235 hortas urbanas na Grande Lisboa. Uma d\u00fazia de horticultores mostram os seus quintais ao ar livre da cidade. O local onde passam mais tempo do que a cozinhar ou a comer aquilo que plantam. 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