{"id":12912,"date":"2014-04-22T09:00:31","date_gmt":"2014-04-22T12:00:31","guid":{"rendered":"http:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/?p=12912"},"modified":"2014-04-22T09:38:33","modified_gmt":"2014-04-22T12:38:33","slug":"a-era-pos-antibiotico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/a-era-pos-antibiotico\/","title":{"rendered":"A era p\u00f3s-antibi\u00f3tico"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" alt=\"Staphylococcus aureus resistente \u00e0 meticilina\" src=\"http:\/\/veja1.abrilm.com.br\/assets\/images\/2011\/8\/45898\/bacteria-Staphylococcus-aureus-superbacteria-20110812-size-598.jpg\" \/><\/p>\n<p>Chegamos a um ponto em que os antibi\u00f3ticos n\u00e3o conseguem combater algumas bact\u00e9rias. Esses medicamentos j\u00e1 perdem a batalha para dezessete micro-organismos multirresistentes, causando, nos Estados Unidos, mais mortes que a aids. A preocupa\u00e7\u00e3o de m\u00e9dicos e cientistas em todo o mundo \u00e9 que, sem o investimento em pesquisas e um plano contra o abuso de medicamentos, podemos voltar, rapidamente, \u00e0 \u00e9poca em que os antibi\u00f3ticos n\u00e3o existiam.<\/p>\n<p>No inverno de 2007, um homem de origem indiana saiu de sua casa, na Su\u00e9cia, para passar o m\u00eas de dezembro em seu pa\u00eds natal. Cumpria o mesmo ritual todos os anos, mas, dessa vez, a viagem o preocupava. Aos 59 anos e diab\u00e9tico, tinha sofrido v\u00e1rios derrames \u2014 e sua sa\u00fade poderia se tornar mais fr\u00e1gil no interior da \u00cdndia. Poucos dias depois de chegar, ele foi internado na pequena cidade de Ludhiana, com \u00falceras profundas na pele. Sem condi\u00e7\u00f5es de trat\u00e1-lo, os m\u00e9dicos o encaminharam para a capital, Nova D\u00e9lhi. Ele foi operado e tratado com antibi\u00f3ticos, mas a doen\u00e7a n\u00e3o cedeu. De volta \u00e0 Su\u00e9cia, foi internado na cidade de \u00d6rebro, a 160 quil\u00f4metros de Estocolmo.<\/p>\n<p>Seus \u00faltimos registros s\u00e3o de 1 de abril de 2008, quando a equipe respons\u00e1vel pelos cuidados m\u00e9dicos descobriu em seu corpo uma bact\u00e9ria com uma muta\u00e7\u00e3o nunca vista: era resistente a quase todos os antibi\u00f3ticos conhecidos, e tinha vindo com o paciente da \u00cdndia. Para conseguir venc\u00ea-la foi necess\u00e1ria a colabora\u00e7\u00e3o de cientistas da Gr\u00e3-Bretanha. No ano seguinte, em refer\u00eancia \u00e0 sua origem, a enzima que tornava o micro-organismo quase imbat\u00edvel foi batizada de New Delhi metallo-beta lactamase 1 \u2014 e o nome logo se transferiu \u00e0 superbact\u00e9ria, hoje conhecida como NDM-1.<\/p>\n<p>Contra ela, os antibi\u00f3ticos t\u00eam pouco ou nada a fazer. \u00c9 imune aos rem\u00e9dios chamados carbapenemas, usados para combater os micro-organismos mais resistentes j\u00e1 descobertos. Em 2010, ela j\u00e1 tinha viajado pela Europa, Austr\u00e1lia e Estados Unidos. Desembarcou no Rio Grande do Sul no ano passado e, em fevereiro, foi encontrada em dois pacientes em um hospital de Londrina, no norte do Paran\u00e1. O tratamento das infec\u00e7\u00f5es urin\u00e1rias e de pele que ela causa \u00e9 longo, caro e repleto de efeitos colaterais. Nos casos mais graves, n\u00e3o h\u00e1 nenhum antibi\u00f3tico capaz de combat\u00ea-la. As doen\u00e7as que ela causa levam \u00e0 morte.<\/p>\n<p>Essa batalha perdida pelos antibi\u00f3ticos j\u00e1 mata mais que a aids nos Estados Unidos \u2013 s\u00e3o 23 000 mortes anuais, ante 15 000 causadas pelo HIV. No pa\u00eds, os rem\u00e9dios existentes n\u00e3o conseguem combater dezessete tipos de micro-organismo, segundo o Centro de Controle e Preven\u00e7\u00e3o de Doen\u00e7as (CDC, na sigla em ingl\u00eas). Um relat\u00f3rio divulgado no fim de mar\u00e7o pela Organiza\u00e7\u00e3o Mundial de Sa\u00fade (OMS) mostrou que cerca de 500 000 casos de tuberculose em 2012 foram causados por bact\u00e9rias super-resistentes em todo o mundo. At\u00e9 2015, os casos podem ser 2 milh\u00f5es. Ou seja, milh\u00f5es de pessoas podem adoecer como se estivessem no in\u00edcio do s\u00e9culo XX, antes da descoberta do primeiro antibi\u00f3tico.<\/p>\n<p>&#8220;Atingimos um ponto em que n\u00e3o h\u00e1 tratamento para bact\u00e9rias t\u00e3o resistentes. Todas as drogas dispon\u00edveis n\u00e3o funcionam e, se algu\u00e9m estiver infectado com uma delas, vai morrer&#8221;, diz Caetano Antunes, pesquisador da Funda\u00e7\u00e3o Oswaldo Cruz (Fiocruz), no Rio de Janeiro, e um dos maiores especialistas no Brasil no estudo de antibi\u00f3ticos. &#8220;Vamos voltar \u00e0 Idade M\u00e9dia, quando trat\u00e1vamos doen\u00e7as de pele com amputa\u00e7\u00f5es.&#8221;<\/p>\n<p><strong>As superbact\u00e9rias \u2014<\/strong> O alerta para o fim da efic\u00e1cia dos antibi\u00f3ticos foi soado em setembro do ano passado por Tom Frieden, diretor do CDC americano. &#8220;Se n\u00e3o tomarmos cuidado, logo estaremos em uma era p\u00f3s-antibi\u00f3ticos. Na realidade, alguns pacientes e micr\u00f3bios j\u00e1 est\u00e3o nela&#8221;, afirmou em uma confer\u00eancia sobre organismos multirresistentes. O cen\u00e1rio, no entanto, inquieta imunologistas e m\u00e9dicos em todo o mundo h\u00e1 pelo menos dez anos, quando a primeira bact\u00e9ria KPC foi identificada nos Estados Unidos. Trata-se de uma vers\u00e3o resistente da bact\u00e9ria Klebsiella pneumoniae, que pode causar pneumonia e infec\u00e7\u00e3o urin\u00e1ria. A preocupa\u00e7\u00e3o surgiu porque cerca de 20% das contamina\u00e7\u00f5es pela KPC podem n\u00e3o ser vencidas por nenhum antibi\u00f3tico. Ou seja, ela causa uma infec\u00e7\u00e3o simples, imune a grande parte dos rem\u00e9dios conhecidos. De acordo com um levantamento do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, a bact\u00e9ria matou 106 pessoas em 2010 e 2011 no Brasil.<\/p>\n<p>Superbact\u00e9rias assim desafiam a medicina desde 1950, quando o micr\u00f3bio Staphylococcus aureus, causador de infec\u00e7\u00f5es cut\u00e2neas e respirat\u00f3rias, deixou de responder \u00e0 penicilina, o primeiro antibi\u00f3tico do mundo, descoberto em 1928 pelo bi\u00f3logo escoc\u00eas Alexander Fleming. Para combater a infec\u00e7\u00e3o, o antibi\u00f3tico age nas bact\u00e9rias sens\u00edveis a ele, matando-as. As sobreviventes, que disp\u00f5e de muta\u00e7\u00f5es resistentes ao medicamento, transmitem essa imunidade a seus descendentes, at\u00e9 que todas se tornam mais fortes que o rem\u00e9dio. Para combat\u00ea-las ser\u00e1 necess\u00e1rio um novo antibi\u00f3tico, ou uma nova classe deles, como dizem os especialistas.<\/p>\n<p>No s\u00e9culo XX, dez classes de antibi\u00f3ticos foram desenvolvidas. No s\u00e9culo XXI, at\u00e9 agora, apenas duas. &#8220;N\u00e3o era preciso bola de cristal para saber que bact\u00e9rias super-resistentes iriam surgir. O problema \u00e9 que n\u00e3o conseguimos evoluir t\u00e3o r\u00e1pido quanto elas. Estamos falhando em todas as frentes&#8221;, afirma o pesquisador da Fiocruz.<\/p>\n<p><strong>Abuso de antibi\u00f3ticos \u2014<\/strong> Um dos fatores que acelerou o processo de adapta\u00e7\u00e3o dos micro-organismos foi o uso indiscriminado de antibi\u00f3ticos, desde seu surgimento. De acordo com dados da consultoria internacional IMS Health, os antibi\u00f3ticos s\u00e3o o quinto rem\u00e9dio mais vendido do mundo, atr\u00e1s apenas de drogas de combate ao c\u00e2ncer, dores, diabetes e hipertens\u00e3o. Pouco mais de 40 bilh\u00f5es de d\u00f3lares foram gastos em 2013 para a compra de antibi\u00f3ticos, dos quais 1,24 bilh\u00e3o no Brasil \u2014 h\u00e1 cinco anos, a soma era de 875 milh\u00f5es de d\u00f3lares por aqui.<\/p>\n<p>De todos esses rem\u00e9dios vendidos, estima-se que pelo menos a metade venha de prescri\u00e7\u00f5es in\u00fateis \u2014 de acordo com o CDC americano, muitas vezes eles s\u00e3o receitados para doen\u00e7as causadas por v\u00edrus, que n\u00e3o s\u00e3o tratados por antibi\u00f3ticos, ou simplesmente n\u00e3o funcionam para a bact\u00e9ria causadora da doen\u00e7a. Nas infec\u00e7\u00f5es mais comuns em todo o mundo, as do trato respirat\u00f3rio superior, o n\u00famero de prescri\u00e7\u00f5es equivocadas pode chegar a at\u00e9 79%, de acordo com o Global Respiratory Partnership (Grip), um grupo internacional de m\u00e9dicos que se uniu em 2012 para promover o uso racional de antibi\u00f3ticos e, assim, tentar diminuir a resist\u00eancia aos medicamentos.<\/p>\n<p>&#8220;A maior parte das dores de garganta s\u00e3o causadas por v\u00edrus. Se dermos um antibi\u00f3tico para tratar essa doen\u00e7a, ele vai n\u00e3o s\u00f3 matar um n\u00famero enorme de bact\u00e9rias que podem ajudar a melhorar nossa imunidade \u2014 as chamadas bact\u00e9rias do bem que vivem em nosso organismo \u2014, mas tamb\u00e9m estimular as muta\u00e7\u00f5es que provocam a resist\u00eancia&#8221;, afirma o infectologista Antonio Carlos Campos Pignatari, diretor do Laborat\u00f3rio Especial de Microbiologia Cl\u00ednica da Universidade Federal de S\u00e3o Paulo (Unifesp) e representante brasileiro do Grip. &#8220;N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 culpa do m\u00e9dico, mas do paciente tamb\u00e9m, que pede um antibi\u00f3tico para sua doen\u00e7a. Trata-se de uma quest\u00e3o cultural, estamos acostumados a sair do hospital com muitas receitas.&#8221;<\/p>\n<p>\u00c9 o uso corrente de medicamentos assim que faz com que a taxa de resist\u00eancia de bact\u00e9rias como a Escherichia coli, uma das principais causadoras de infec\u00e7\u00f5es urin\u00e1rias (o segundo tipo de infec\u00e7\u00e3o mais comum em todo o mundo), tenha se multiplicado rapidamente. De todas as pessoas com infec\u00e7\u00f5es causadas por essa bact\u00e9ria no Brasil, um quarto tem as resistentes aos antibi\u00f3ticos conhecidos como quinolonas, seu principal tratamento. &#8220;Essas pessoas correm o risco de buscar tratamento e ele n\u00e3o ser efetivo. Ainda h\u00e1 como tratar, mas esse \u00e9 um caso que j\u00e1 preocupa os m\u00e9dicos&#8221;, diz o infectologista.<\/p>\n<p><strong>Mais perto \u2014<\/strong> H\u00e1 poucos anos, superbact\u00e9rias estavam restritas a ambientes hospitalares, locais com circula\u00e7\u00e3o de pacientes com quadros agudos. Mas elas est\u00e3o entrando nos ambientes cotidianos. Um estudo feito em conjunto pela Universidade da Calif\u00f3rnia (UCLA) e a Universidade Stony Brook, nos Estados Unidos, mostrou que em muitas partes do mundo, o Staphylococcus aureus resistente (MRSA) j\u00e1 \u00e9 a causa mais comum de infe\u00e7\u00f5es de pele. E esse aumento est\u00e1 relacionado \u00e0 apari\u00e7\u00e3o da bact\u00e9ria no dia a dia das comunidades.<\/p>\n<p>Outra pesquisa, publicada no Journal of the Pediatric Infectious Diseases Society, em 20 de mar\u00e7o, indica que a resist\u00eancia de bact\u00e9rias da fam\u00edlia Enterobacteriaceae (da qual fazem parte o KPC e a Escherichia) dobrou em doze anos nos Estados Unidos \u2014 e mais da metade dos acometidos pela resist\u00eancia eram crian\u00e7as de 1 a 5 anos. No mesmo per\u00edodo, as taxas de resist\u00eancia de KPC em adultos saltaram de 5,3% para 11,5%.<\/p>\n<p>&#8220;Em todo o mundo est\u00e1 aumentando o n\u00famero de bact\u00e9rias multirresistentes pr\u00f3ximas a n\u00f3s. Se a tend\u00eancia continuar, mais crian\u00e7as v\u00e3o adquirir essas bact\u00e9rias presentes em adultos&#8221;, afirma a m\u00e9dica Latania Logan, diretora do Centro Pedi\u00e1trico de Doen\u00e7as Infecciosas do Centro M\u00e9dico da Universidade Rush, nos Estados Unidos, e l\u00edder do estudo. &#8220;Se h\u00e1 poucas drogas existentes para adultos, s\u00e3o ainda menos as dispon\u00edveis para crian\u00e7as.&#8221;<\/p>\n<p>De acordo com Latania, as consequ\u00eancias do fen\u00f4meno de multirresit\u00eancia incluem infec\u00e7\u00f5es custosas tratadas com inje\u00e7\u00f5es intravenosas e interna\u00e7\u00f5es \u2014 nos Estados Unidos, bact\u00e9rias resistentes a antibi\u00f3ticos representam 20 bilh\u00f5es de d\u00f3lares em custos de sa\u00fade, o que equivale a 35 bilh\u00f5es de d\u00f3lares perdidos em produtividade.<\/p>\n<p>&#8220;Vivemos em um tempo no qual a medicina j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 capaz de tratar infec\u00e7\u00f5es bacterianas. Algumas s\u00e3o t\u00e3o resistentes que h\u00e1 poucos ou nenhum rem\u00e9dio capaz de combat\u00ea-las: s\u00e3o essencialmente intrat\u00e1veis. H\u00e1 bact\u00e9rias da fam\u00edlia Enterobacteriaceae que matam quase metade das pessoas que infectam&#8221;, avisa a pesquisadora.<\/p>\n<p><strong>Poucas pesquisas \u2014<\/strong> Os investimentos na pesquisa de novos antibi\u00f3ticos t\u00eam ca\u00eddo ano a ano. De acordo com dados do Food and Drug Administration (FDA), ag\u00eancia que regula medicamentos e alimentos nos Estados Unidos, de 2008 a 2012, apenas dois antibi\u00f3ticos foram lan\u00e7ados \u2014 no per\u00edodo entre 1983 e 1987, foram dezesseis. O Brasil n\u00e3o tem produ\u00e7\u00e3o de insumos farmoqu\u00edmicos para a cria\u00e7\u00e3o de antibi\u00f3ticos.<\/p>\n<p>Uma das causas para as raras descobertas desses novos medicamentos, apontada pela Sociedade Americana de Doen\u00e7as Infecciosas (IDSA, na sigla em ingl\u00eas) \u00e9 que o rem\u00e9dio n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o lucrativo quanto drogas para doen\u00e7as cr\u00f4nicas, que precisam ser utilizadas por anos.<\/p>\n<p>Para tentar contornar o problema, a IDSA lan\u00e7ou em 2010 um manifesto em conjunto com v\u00e1rias organiza\u00e7\u00f5es de sa\u00fade americanas para incentivar a comercializa\u00e7\u00e3o de dez novos antibi\u00f3ticos at\u00e9 2020. No fim do ano passado, o governo americano resolveu se juntar \u00e0s organiza\u00e7\u00f5es m\u00e9dicas e come\u00e7ou uma campanha com quatro eixos de combate \u00e0 resist\u00eancia de antibi\u00f3ticos \u2014 preven\u00e7\u00e3o das infec\u00e7\u00f5es, identifica\u00e7\u00e3o dos padr\u00f5es de resist\u00eancia, diminui\u00e7\u00e3o das prescri\u00e7\u00f5es e investimento no lan\u00e7amento de novas gera\u00e7\u00f5es do medicamento.<\/p>\n<p>Na Uni\u00e3o Europeia, um plano de 1 bilh\u00e3o de euros foi lan\u00e7ado em 2011 para combater a resist\u00eancia e diminuir a prescri\u00e7\u00e3o do rem\u00e9dio. O precursor da a\u00e7\u00e3o foi a Fran\u00e7a, pa\u00eds que, em 2002 exibia as maiores taxas de uso de antibi\u00f3ticos da regi\u00e3o. Com uma campanha nacional, reduziu em 26% a prescri\u00e7\u00e3o de antibi\u00f3ticos \u2014 doze anos depois, ainda \u00e9 um dos pa\u00edses com as maiores taxas de uso de antibi\u00f3ticos da Europa, semelhante \u00e0 Gr\u00e9cia e ao Chipre.<\/p>\n<p><strong>Resist\u00eancia \u00e0 brasileira \u2014<\/strong> Por aqui, a primeira estrat\u00e9gia para combater bact\u00e9rias resistentes foi controlar a automedica\u00e7\u00e3o. Desde 2010, uma portaria da Ag\u00eancia Nacional de Vigil\u00e2ncia Sanit\u00e1ria (Anvisa) obriga as farm\u00e1cias a reterem a receita m\u00e9dica de venda de antibi\u00f3ticos. Em abril de 2013, a inser\u00e7\u00e3o dos dados de vendas de antibi\u00f3ticos passou a ser obrigat\u00f3ria para as mais de 47 000 farm\u00e1cias e drogarias do pa\u00eds. O objetivo, al\u00e9m da produ\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es, \u00e9 chamar a aten\u00e7\u00e3o para o uso incorreto de antibi\u00f3ticos e colaborar para a mudan\u00e7a cultural.<\/p>\n<p>O Minist\u00e9rio da Sa\u00fade n\u00e3o divulga dados oficiais como o n\u00famero total ou estimativas de mortes ou de infec\u00e7\u00f5es causadas por micro-organismos resistentes, impedindo que se tenha uma ideia do problema em \u00e2mbito nacional. Desde 2009, a Anvisa criou uma comiss\u00e3o para elaborar normas e medidas para o monitoramento, controle e preven\u00e7\u00e3o da resist\u00eancia microbiana, mas a ag\u00eancia ressalta que os casos com superbact\u00e9rias sequer s\u00e3o de notifica\u00e7\u00e3o obrigat\u00f3ria ao governo federal. Cabe aos Estados e munic\u00edpios tratar os pacientes e fazer o que quiserem com essa informa\u00e7\u00e3o, de modo que os dados permanecem esparsos em sistemas locais. H\u00e1 mais um agravante: os hospitais n\u00e3o s\u00e3o obrigados a relatar o desenvolvimento das infec\u00e7\u00f5es. Ou seja, n\u00e3o h\u00e1 n\u00fameros de quantas mortes elas causam.<\/p>\n<p>Pelo site do sistema de informa\u00e7\u00f5es do Sistema \u00danico de Sa\u00fade (Datasus), \u00e9 poss\u00edvel saber que, no Estado do Rio de Janeiro, entre 2013 e 2014, houve 5 883 casos de infec\u00e7\u00f5es por dezoito organismos multirresistentes. J\u00e1 os relat\u00f3rios dispon\u00edveis no Centro de Vigil\u00e2ncia Epidemiol\u00f3gica do Estado de S\u00e3o Paulo n\u00e3o revelam o n\u00famero total de infec\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>&#8220;A resist\u00eancia microbiana n\u00e3o \u00e9 reconhecida como um problema nacional de sa\u00fade p\u00fablica&#8221;, afirma a infectologista Ana Cristina Gales, pesquisadora da Universidade Federal de S\u00e3o Paulo (Unifesp), e uma das grandes autoridades no pa\u00eds no estudo de resist\u00eancia bacteriana. &#8220;Sabemos que a taxa \u00e9 muito alta, mas seu combate n\u00e3o \u00e9 uma prioridade no pa\u00eds.&#8221;<\/p>\n<p>A pesquisadora faz parte de uma rede de cientistas que, este ano, finalizou um estudo com dados representativos do n\u00famero de infec\u00e7\u00f5es por superbact\u00e9rias no pa\u00eds. \u00c9 a primeira vez que um relat\u00f3rio do tipo \u00e9 feito no Brasil e seus resultados devem estar dispon\u00edveis nos pr\u00f3ximos meses. Outra pesquisa, feita pela Unifesp em parceria com a Anvisa, Minist\u00e9rio da Sa\u00fade e Conselho Nacional de Desenvolvimento Cient\u00edfico e Tecnol\u00f3gico (CNPQ), reunir\u00e1 os n\u00fameros de 159 hospitais, nas cinco regi\u00f5es do Brasil. &#8220;Ainda n\u00e3o temos um servi\u00e7o nacional que fa\u00e7a a supervis\u00e3o dos casos. Esperamos dar uma ideia da situa\u00e7\u00e3o no pa\u00eds&#8221;, diz a pesquisadora.<\/p>\n<p>De acordo com estimativas dos especialistas e com os estudos nacionais sobre a presen\u00e7a de organismos multirresistentes na Am\u00e9rica Latina, as taxas brasileiras de resist\u00eancia s\u00f3 s\u00e3o menores que as de pa\u00edses asi\u00e1ticos, como a \u00cdndia. Isso quer dizer que, provavelmente, temos um quadro semelhante ao dos Estados Unidos, onde 2 milh\u00f5es de pessoas s\u00e3o infectadas anualmente por bact\u00e9rias multirresistentes.<\/p>\n<p><strong>Poucos n\u00fameros \u2014<\/strong> A falta de dados p\u00f5e o Brasil na mesma liga de diversos pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina, \u00c1frica e \u00c1sia. Este m\u00eas, cientistas do Center for Disease Dynamics, Economics and Policy (CDDEP), em Washington, nos Estados Unidos, publicaram um artigo no peri\u00f3dico Lancet alertando para os grandes vazios de informa\u00e7\u00e3o mundiais relativos ao consumo de antibi\u00f3ticos. Sem esses n\u00fameros, afirmam os pesquisadores, \u00e9 imposs\u00edvel criar estrat\u00e9gias capazes de identificar focos de bact\u00e9rias resistentes e formular pol\u00edticas p\u00fablicas para combater a grave situa\u00e7\u00e3o. Com a facilidade de viagens internacionais, as poucas estrat\u00e9gias para combater a resist\u00eancia prejudicam todo o mundo \u2014 afinal, as bact\u00e9rias viajam no corpo humano entre v\u00e1rios pa\u00edses, transmitindo a sua resist\u00eancia aonde quer que cheguem.<\/p>\n<p>&#8220;O maior problema \u00e9 que, se os antibi\u00f3ticos n\u00e3o funcionarem, perdemos nossa habilidade de tratar infec\u00e7\u00f5es que causam doen\u00e7as e mortes. Em alguns pa\u00edses, j\u00e1 alcan\u00e7amos o futuro p\u00f3s-antibi\u00f3ticos&#8221;, afirma Ramanan Laxminarayan, diretor do CDDEP, pesquisador da Universidade Princeton, nos Estados Unidos, e um dos autores do artigo.<\/p>\n<p><strong>Uso em animais \u2014<\/strong> Outra forma de propiciar o surgimento de bact\u00e9rias resistentes que tem chamado a aten\u00e7\u00e3o dos pesquisadores \u00e9 o uso de antibi\u00f3ticos em animais. Desde os anos 1950, eles s\u00e3o usados para promover o crescimento na pecu\u00e1ria, principalmente de aves e porcos. Ainda n\u00e3o se sabe exatamente o que faz com que os animais engordem, mas tudo indica que o rem\u00e9dio ajuda os animais a resistir \u00e0s condi\u00e7\u00f5es nos criadouros e, menos suscet\u00edveis a doen\u00e7as, eles engordam. Assim como em humanos, por\u00e9m, o uso recorrente da droga cria o surgimento de superbact\u00e9rias animais, como a conhecida Salmonella. Em outubro de 2013, um surto de infec\u00e7\u00e3o por essa bact\u00e9ria atingiu quase 300 pessoas nos Estados Unidos \u2014 a aplica\u00e7\u00e3o de uma legisla\u00e7\u00e3o r\u00edgida para o uso de antibi\u00f3ticos em animais ainda est\u00e1 sendo discutida no pa\u00eds.<\/p>\n<p>No Brasil, o Minist\u00e9rio da Agricultura regula o uso de antibi\u00f3ticos na pecu\u00e1ria desde 2009, por meio de uma instru\u00e7\u00e3o normativa. Mesmo assim, 10% das Salmonellas daqui s\u00e3o resistentes \u00e0 amoxicilina. E podem chegar aos humanos com a ingest\u00e3o de carne de frango e ovos malcozidos ou, eventualmente, em uma transmiss\u00e3o entre pessoas doentes.<\/p>\n<p><strong>Funcionamento misterioso \u2014<\/strong> Al\u00e9m da falta de informa\u00e7\u00f5es, abuso de antibi\u00f3ticos, pouco investimento em novas drogas e do uso em animais, um obst\u00e1culo que impede o combate \u00e0s bact\u00e9rias resistentes \u00e9 que os antibi\u00f3ticos ainda funcionam de uma maneira quase secreta em nosso corpo. Desde que o medicamento foi desenvolvido, na metade do s\u00e9culo XX, os cientistas aprenderam muitos aspectos do combate \u00e0s bact\u00e9rias, mas pouco investigaram seus efeitos colaterais. Em seus laborat\u00f3rios, o pesquisador da Funda\u00e7\u00e3o Oswaldo Cruz Caetano Antunes descobriu que o rem\u00e9dio \u00e9 capaz de desregular o sistema hormonal. O trabalho, publicado em 2011 na revista da Sociedade Americana de Microbiologia, \u00e9 a primeira etapa de um estudo que pretende descobrir qual o real impacto dos antibi\u00f3ticos no organismo \u2014 com isso, talvez seja poss\u00edvel desenvolver outras estrat\u00e9gias terap\u00eauticas para combater as bact\u00e9rias.<\/p>\n<p>Afinal, se as bact\u00e9rias ser\u00e3o resistentes aos antibi\u00f3ticos em algum momento, \u00e9 preciso criar novas medidas para combat\u00ea-las. Por isso, al\u00e9m de incentivar lan\u00e7amentos de novos antibi\u00f3ticos, os cientistas est\u00e3o trabalhando em frentes que n\u00e3o possibilitem a adapta\u00e7\u00e3o dos micr\u00f3bios, como o combate de bact\u00e9rias infecciosas por outras bact\u00e9rias existentes no corpo humano ou o desenvolvimento de medicamentos que n\u00e3o eliminem o micro-organismo, mas o tornem menos agressivo.<\/p>\n<p>&#8220;H\u00e1 diversos estudos para a produ\u00e7\u00e3o de medicamentos diferentes dos antibi\u00f3ticos, estrat\u00e9gias capazes de desligar a produ\u00e7\u00e3o da toxina das bact\u00e9rias&#8221;, afirma Antunes. &#8220;Vamos fazer algo antes de chegar ao ponto em que nenhum rem\u00e9dio fa\u00e7a efeito contra as bact\u00e9rias. A evolu\u00e7\u00e3o das pesquisas e o investimento na ci\u00eancia nos trar\u00e3o as solu\u00e7\u00f5es.&#8221;<\/p>\n<p><strong>Veja mais detalhes em\u00a0<a href=\"http:\/\/veja.abril.com.br\/noticia\/saude\/a-era-pos-antibiotico\" target=\"_blank\">http:\/\/veja.abril.com.br\/noticia\/saude\/a-era-pos-antibiotico<\/a><\/strong><\/p>\n<p>Fonte e imagem &#8211; Rita Loiola, Veja on-line de 06 de abril de 2014<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Chegamos a um ponto em que os antibi\u00f3ticos n\u00e3o conseguem combater algumas bact\u00e9rias. Esses medicamentos j\u00e1 perdem a batalha para dezessete micro-organismos multirresistentes, causando, nos Estados Unidos, mais mortes que a aids. 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