{"id":13063,"date":"2014-05-30T11:00:21","date_gmt":"2014-05-30T14:00:21","guid":{"rendered":"http:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/?p=13063"},"modified":"2014-05-30T10:45:11","modified_gmt":"2014-05-30T13:45:11","slug":"65-a-75-do-volume-global-de-alimentos-que-nos-consumimos-tem-origem-na-agricultura-familiar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/65-a-75-do-volume-global-de-alimentos-que-nos-consumimos-tem-origem-na-agricultura-familiar\/","title":{"rendered":"65% a 75% do volume global de alimentos que n\u00f3s consumimos t\u00eam origem na agricultura familiar"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/farm3.staticflickr.com\/2930\/14282157036_afd0ea54c9.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p><strong>\u201cEu, francamente, sou um sujeito b\u00edpede e racional, e n\u00e3o como milho cru no cocho e tampouco mastigo soja\u201d,<\/strong> diz o economista.<\/p>\n<p>Os incentivos para o desenvolvimento da agricultura familiar brasileira n\u00e3o passam de um \u201cest\u00edmulo de inten\u00e7\u00f5es\u201d. A pondera\u00e7\u00e3o \u00e9 de Newton Narciso Gomes Junior, professor da Universidade de Bras\u00edlia \u2013 UnB, em entrevista concedida \u00e0 IHU On-Line, pessoalmente.<\/p>\n<p>Pol\u00edticas de est\u00edmulo ao desenvolvimento da agricultura familiar, como o Programa de Aquisi\u00e7\u00e3o de Alimentos \u2013 PAA e a Lei Federal que determina que 30% dos alimentos servidos nas escolas devem provir da agricultura familiar, s\u00e3o ref\u00e9ns do sistema nacional de abastecimento de alimentos, j\u00e1 que o processo de comercializa\u00e7\u00e3o \u00e9 oligopolizado. \u201cO que adianta dar um est\u00edmulo brutal para a produ\u00e7\u00e3o de comida da agricultura familiar, se o agricultor n\u00e3o tiver onde colocar esses produtos? (&#8230;) <strong>As cadeias de supermercado dominam hoje 85% do volume global de alimentos comercializados, as grandes redes controlam mais de 50%<\/strong> e para entrar no supermercado \u00e9 preciso ter uma escala que a agricultura familiar n\u00e3o tem\u201d, argumenta.<\/p>\n<p>Segundo ele \u201ca agricultura familiar tem uma caracter\u00edstica de diversifica\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o, e o supermercado n\u00e3o aceita a diversifica\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o; ele tem um conjunto de produtos que integra os elementos de interesse dele. (&#8230;) Voc\u00ea olha para o setor de frutas, legumes e verduras no supermercado e chega a provocar indigna\u00e7\u00e3o. Por exemplo, em pleno per\u00edodo de inverno tem manga dispon\u00edvel, mas n\u00e3o \u00e9 per\u00edodo de manga, ali\u00e1s, voc\u00ea tem todos os produtos que quiser, no dia que quiser, e isso quebra a possibilidade do agricultor familiar, que trabalha com pr\u00e1ticas tradicionais e sustent\u00e1veis\u201d.<\/p>\n<p>Na avalia\u00e7\u00e3o de Gomes Junior, apesar de a agricultura familiar ser \u201crelevante do ponto de vista do potencial de produ\u00e7\u00e3o de comida\u201d, ela vem perdendo import\u00e2ncia por conta da n\u00e3o revis\u00e3o do sistema nacional de abastecimento. Entre as implica\u00e7\u00f5es, destaca, h\u00e1 um \u201cformid\u00e1vel espet\u00e1culo de inseguran\u00e7a alimentar por inadequa\u00e7\u00e3o da dieta\u201d. Entretanto, ressalta, \u201ca leitura pol\u00edtica do governo \u00e9 de que a quest\u00e3o da agricultura brasileira est\u00e1 resolvida na medida em que ela \u00e9 decisiva para resolver os nossos problemas de d\u00e9ficits ou de balan\u00e7o de pagamentos\u201d. Para ele, somente a reforma agr\u00e1ria possibilitar\u00e1 a produ\u00e7\u00e3o de \u201ccomida\u201d para a popula\u00e7\u00e3o. \u201cA minha posi\u00e7\u00e3o sobre a reforma agr\u00e1ria \u00e9 a seguinte: \u00e9 prioridade, neste pa\u00eds, a produ\u00e7\u00e3o de alimentos para a popula\u00e7\u00e3o, de sorte a garantir a nossa soberania alimentar n\u00e3o s\u00f3 pela autossufici\u00eancia, mas pelo direito de produzirmos o que entendemos ser razo\u00e1vel, para quem definimos que \u00e9 importante e como definimos produzir isso da melhor forma poss\u00edvel. Nesse sentido, n\u00e3o tenho nenhum problema em defender que a reforma agr\u00e1ria deve enfrentar abertamente a desapropria\u00e7\u00e3o dos latif\u00fandios, at\u00e9 porque esses latif\u00fandios, que s\u00e3o t\u00e3o importantes, se mant\u00eam e se sustentam com o \u00edndice de produtividade de 1975, o que \u00e9 uma fic\u00e7\u00e3o\u201d, frisa.<\/p>\n<p>Newton Narciso Gomes Junior \u00e9 graduado em Economia pela Universidade de S\u00e3o Paulo \u2013 USP, especialista em Abastecimento Alimentar e Desenvolvimento Rural e doutor em Pol\u00edticas Sociais pela UnB. Atualmente \u00e9 professor do Departamento de Servi\u00e7o Social da Universidade de Bras\u00edlia, do Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Pol\u00edtica Social da UnB e Coordenador do Diret\u00f3rio de Pesquisa Neads-N\u00facleo de Estudos Agr\u00e1rios, Desenvolvimento Social e Seguran\u00e7a Alimentar e Nutricional. \u00c9 coordenador editorial da revista da Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Reforma Agr\u00e1ria.<\/p>\n<p>Confira a entrevista.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211;<\/strong> Qual \u00e9 o potencial agr\u00edcola do Cerrado? Qual \u00e9 o cen\u00e1rio da alimenta\u00e7\u00e3o e da nutri\u00e7\u00e3o na regi\u00e3o centro-oeste?<\/p>\n<p><strong>Newton Narciso Gomes Junior \u2013<\/strong> Antes de responder \u00e0 quest\u00e3o, vamos discutir o que \u00e9 potencial agr\u00edcola, porque se n\u00f3s formos tomar pela perspectiva do que normalmente se entende por potencial agr\u00edcola, que \u00e9 produ\u00e7\u00e3o de algo que as pessoas resolveram chamar de alimentos, eu francamente n\u00e3o conhe\u00e7o nenhuma pessoa que tenha, como alimento regular, a soja, o milho seco, o trigo e o arroz na palha. Sob a perspectiva da produ\u00e7\u00e3o de commodities, o Cerrado, Bras\u00edlia e a regi\u00e3o do Distrito Federal (DF) como um todo, se projeta como um produtor razo\u00e1vel, porque est\u00e1 crescendo a produ\u00e7\u00e3o de soja e de milho.<\/p>\n<p>Mas o DF \u00e9 uma regi\u00e3o importadora l\u00edquida de outros produtos, isto \u00e9, n\u00e3o tem uma produ\u00e7\u00e3o daquilo que eu reputo como comida em volumes adequados para o atendimento das necessidades alimentares da popula\u00e7\u00e3o, ou seja, frutas, verduras e legumes.<\/p>\n<p>Em uma cidade ou em uma regi\u00e3o como o Distrito Federal, em que mais de 95% da popula\u00e7\u00e3o vive em um espa\u00e7o urbano, a rapidez no h\u00e1bito de comer se transformou quase que numa obriga\u00e7\u00e3o. Por conta disso, o padr\u00e3o alimentar no DF, assim como no Brasil como um todo, foi corrompido e est\u00e1 assentado no consumo cada vez maior de produtos preparados, congelados e industrializados. Ent\u00e3o, sob essa perspectiva, ao olhar o potencial agr\u00edcola do DF, \u00e9 como se n\u00f3s estiv\u00e9ssemos olhando para o nada. Se f\u00f4ssemos olhar pela perspectiva da produ\u00e7\u00e3o de alimentos, n\u00f3s ter\u00edamos de pensar o potencial agr\u00edcola e o sistema de comercializa\u00e7\u00e3o. Nesse sentido, h\u00e1 um potencial para produzir alimentos, s\u00f3 que n\u00e3o \u00e9 esta a dire\u00e7\u00e3o que est\u00e1 sendo dada l\u00e1, nem em lugar nenhum. Por isso, embora a regi\u00e3o tenha um potencial agr\u00edcola para produ\u00e7\u00e3o de comida, n\u00e3o \u00e9 esse o objetivo, nem \u00e9 esse o foco do desenvolvimento e dos interesses do governo; nem deste atual, nem dos anteriores.<\/p>\n<p>Assim, os alimentos consumidos no DF v\u00eam de todos os lugares: de Goi\u00e1s, do Maranh\u00e3o, do Par\u00e1, de S\u00e3o Paulo, de Pernambuco. A lista \u00e9 bastante grande. Ent\u00e3o, o DF, nesse sentido, \u00e9 um espa\u00e7o fortemente dependente da produ\u00e7\u00e3o externa; ele \u00e9 um exportador de commodities.<\/p>\n<p><strong>&#8220;N\u00e3o conhe\u00e7o nenhuma pessoa que tenha, como alimento regular, a soja, o milho seco, trigo e arroz na palha&#8221;<\/strong><\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211;<\/strong> Como o senhor v\u00ea, no Brasil, o avan\u00e7o do agroneg\u00f3cio e as tentativas de incentivo \u00e0 agricultura familiar? O que as pol\u00edticas p\u00fablicas do Estado brasileiro demonstram em rela\u00e7\u00e3o a esses campos?<\/p>\n<p><strong>Newton Narciso Gomes Junior \u2013<\/strong> Existe um conjunto expressivo de a\u00e7\u00f5es de pol\u00edticas p\u00fablicas no sentido de desenvolver a agricultura familiar. Vou citar duas que me parecem as mais promissoras: o Programa de Aquisi\u00e7\u00e3o de Alimentos &#8211; PAA e a Lei Federal que determinou que 30% do volume global dos alimentos servidos para a alimenta\u00e7\u00e3o escolar devem provir da agricultura familiar. Esses s\u00e3o est\u00edmulos para a agricultura familiar, mas trata-se de um est\u00edmulo de inten\u00e7\u00f5es, porque n\u00e3o adianta nada \u2014 estou tratando do campo das compras institucionais \u2014, do ponto de vista da produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola, plantar para o mercado institucional.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 nenhuma pol\u00edtica p\u00fablica, nem na parte central do Estado, nem nas inst\u00e2ncias subnacionais, ou seja, governos estaduais e municipais, que reveja os marcos do sistema de abastecimento. Ent\u00e3o, de que adianta dar um est\u00edmulo brutal para a produ\u00e7\u00e3o de comida da agricultura familiar, se o agricultor n\u00e3o tiver onde colocar esses produtos? Por que ele n\u00e3o tem espa\u00e7o? Porque o sistema de comercializa\u00e7\u00e3o \u00e9 fortemente oligopolizado, dominado pelos supermercados. As cadeias de supermercado dominam hoje 85% do volume global de alimentos comercializados, as grandes redes controlam mais de 50%, e para entrar no supermercado \u00e9 preciso ter uma escala que a agricultura familiar n\u00e3o tem.<\/p>\n<p><strong>Manifesta\u00e7\u00e3o de inten\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, a agricultura familiar tem uma caracter\u00edstica de diversifica\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o, e o supermercado n\u00e3o aceita a diversifica\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o; ele tem um conjunto de produtos que integra os elementos de interesse dele. Por isso, n\u00e3o encontramos mais no supermercado a diversidade de produtos que se encontrava na feira. Voc\u00ea olha para o setor de frutas, legumes e verduras no supermercado e chega a provocar indigna\u00e7\u00e3o. Por exemplo, em pleno per\u00edodo de inverno tem manga dispon\u00edvel, mas n\u00e3o \u00e9 per\u00edodo de manga, ali\u00e1s, voc\u00ea tem todos os produtos que quiser, no dia que quiser, e isso quebra a possibilidade do agricultor familiar, que trabalha com pr\u00e1ticas tradicionais e sustent\u00e1veis. Para manter uma produ\u00e7\u00e3o dessas, ele tem de lidar com o uso abusivo de veneno. Ent\u00e3o, sob essa perspectiva, a pol\u00edtica do governo, de um lado, pode estar estimulando e protegendo a oferta da agricultura familiar, contudo, quando n\u00f3s aproximamos a lente e enxergamos com mais detalhe, observamos que \u00e9 apenas uma manifesta\u00e7\u00e3o de inten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, sob a perspectiva do governo, embora haja pol\u00edticas de est\u00edmulo \u00e0 produ\u00e7\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 nenhuma iniciativa no sentido de rever os marcos do sistema de abastecimento alimentar nacional, e com isso praticamente se anulam as vantagens que o PAA e o programa de alimenta\u00e7\u00e3o escolar possam representar, ou o mercado institucional possa representar para a agricultura familiar produtora de comida.<\/p>\n<p>&#8220;Ao olhar o potencial agr\u00edcola do DF, \u00e9 como se n\u00f3s estiv\u00e9ssemos olhando para o nada&#8221;<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013<\/strong> Os ambientalistas dizem que grande parte do territ\u00f3rio do Cerrado est\u00e1 destinada \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de grande escala. Qual \u00e9 atual situa\u00e7\u00e3o do bioma em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de alimento?<\/p>\n<p><strong>Newton Narciso Gomes Junior \u2013<\/strong> O Cerrado tem um sistema de produ\u00e7\u00e3o que emprega, em uma regi\u00e3o de baixa quantidade de \u00e1gua, o uso de t\u00e9cnicas que est\u00e3o superadas, como \u00e9 o caso do piv\u00f4 central. Se voc\u00ea passa por regi\u00f5es de Bras\u00edlia onde h\u00e1 soja, milho e batata plantados, voc\u00ea se choca com os piv\u00f4s centrais, porque eles s\u00e3o desperdi\u00e7adores de \u00e1gua. A simetria entre o produto saud\u00e1vel, o pre\u00e7o do produto saud\u00e1vel e a renda dispon\u00edvel para acess\u00e1-lo faz com que a popula\u00e7\u00e3o acesse os produtos industrializados, semielaborados e processados, que s\u00e3o muito mais baratos.<\/p>\n<p><strong>Comida x produtos<\/strong><\/p>\n<p>A \u00faltima publica\u00e7\u00e3o da Pesquisa Nacional por Amostra de Domic\u00edlios &#8211; PNAD Alimentar mostra que, tanto para o Brasil quanto para Bras\u00edlia, o n\u00edvel de seguran\u00e7a alimentar \u00e9 acima de 80%. Entretanto, qual \u00e9 a defini\u00e7\u00e3o de seguran\u00e7a alimentar da PNAD? \u00c9 a de que as pessoas t\u00eam acesso a alimentos. A parte principal de inseguran\u00e7a alimentar \u00e9 a inseguran\u00e7a alimentar leve, que \u00e9 a possibilidade de, em algum momento, por alguma raz\u00e3o, ter de substituir eventualmente algum tipo de produto, ou seja, ao inv\u00e9s de sacrificar a quantidade, sacrificar a qualidade. Mas quando voc\u00ea pega a Pesquisa de Or\u00e7amento Familiar \u2013 POF, no suplemento antropometria, e descobre que 51% da popula\u00e7\u00e3o brasileira enfrenta problemas ou com sobrepeso ou com obesidade, voc\u00ea descobre que aquela seguran\u00e7a alimentar apontada pela PNAD se refere apenas ao ponto de vista do acesso e, portanto, o discurso pol\u00edtico \u00e9 falso, porque n\u00e3o se melhorou o problema da fome. Pelo contr\u00e1rio, se piorou a seguran\u00e7a alimentar, porque <strong>agora existem pessoas que comem \u201ccomida\u201d que n\u00e3o \u00e9 comida, ou seja, subst\u00e2ncias alimentares que s\u00e3o qualquer coisa, menos comida. Essas subst\u00e2ncias s\u00f3 ser\u00e3o comida se voc\u00ea conseguir me mostrar que existe, na natureza, batata sabor picanha, biscoito sabor pizza. Se voc\u00ea me falar que conhece um p\u00e9 que d\u00e1 uma fruta com sabor bife, a\u00ed retiro tudo o que eu disse.<\/strong><\/p>\n<p>Qualquer pessoa que cozinhe \u2014 e esse \u00e9 meu caso \u2014 \u00e9 incapaz de produzir coisas t\u00e3o padronizadas; eu nunca vi ningu\u00e9m conseguir batatas onduladas \u201ccom risquinho\u201d, todas do mesmo tamanho e da mesma cor. Isso n\u00e3o existe na natureza. Como n\u00f3s podemos pensar em seguran\u00e7a alimentar diante disso? O que temos \u00e9 o formid\u00e1vel espet\u00e1culo de inseguran\u00e7a alimentar por inadequa\u00e7\u00e3o da dieta. Quando as pessoas falam que o problema \u00e9 de acesso, eu digo que n\u00e3o \u00e9 de acesso, porque o acesso regular e permanente est\u00e1 equacionado.<\/p>\n<p>A parte que \u00e9 miser\u00e1vel na sociedade \u00e9 representada por um conjunto de pessoas que integram o que eu chamo do proletariado, o desempregado estrutural. Quando o sistema n\u00e3o tem mais o que fazer com essa pessoa, ela passa a ser objeto da assist\u00eancia. S\u00e3o mais de 800 milh\u00f5es de pessoas no mundo que vivem em uma situa\u00e7\u00e3o de fome, de absoluta desprote\u00e7\u00e3o social, que \u00e9 resultante de um sistema que \u00e9 naturalmente excludente; o modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista exclui as pessoas, \u00e9 da natureza desse modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista.<\/p>\n<p><strong>&#8220;Essas subst\u00e2ncias s\u00f3 ser\u00e3o comida se voc\u00ea conseguir me mostrar que existe, na natureza, batata sabor picanha, biscoito sabor pizza&#8221;<\/strong><\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013<\/strong> Quando o problema da inseguran\u00e7a alimentar est\u00e1 relacionado \u00e0 falta de acesso, h\u00e1 um problema econ\u00f4mico?<\/p>\n<p><strong>Newton Narciso Gomes Junior \u2013<\/strong> No caso dos miser\u00e1veis, sim. Essas s\u00e3o pessoas que foram descartadas pelo sistema porque o conhecimento, a capacidade de trabalho delas j\u00e1 n\u00e3o interessa mais. Em rela\u00e7\u00e3o a isso, sou radical e digo o seguinte: n\u00e3o h\u00e1 uma solu\u00e7\u00e3o para a problem\u00e1tica das necessidades humanas b\u00e1sicas, tais como sa\u00fade plena, capacidade de ag\u00eancia, ou seja, capacidade de agir na realidade, e autonomia cr\u00edtica, quer dizer, capacidade de interpretar a realidade, compar\u00e1-la com seus sonhos, e alter\u00e1-la pela ag\u00eancia de modo a aproxim\u00e1-la do seu sonho. N\u00e3o h\u00e1 nenhuma perspectiva do ponto de vista da satisfa\u00e7\u00e3o dessas necessidades por interm\u00e9dio das necessidades intermedi\u00e1rias, como comida, \u00e1gua, meio ambiente, etc., sob a perspectiva de um modo de produ\u00e7\u00e3o que \u00e9 notadamente concentrador de renda, que \u00e9 excludente de pessoas e que persegue algo como a s\u00edndrome das Filhas de Danaides, que t\u00eam de encher um tonel que nunca enche. Essa \u00e9 a sina do capital; ele tem de produzir lucro incessantemente e, para produzi-lo, vai criando cada vez mais f\u00f3rmulas que expulsem pessoas da sua capacidade de consumo. O resultado disso \u00e9 milh\u00f5es de pessoas lan\u00e7adas na mais absoluta mis\u00e9ria. E aqui n\u00e3o se trata do fato de as pessoas serem s\u00f3 miser\u00e1veis, mas do fato de n\u00e3o terem como n\u00e3o ser. A supera\u00e7\u00e3o dessa condi\u00e7\u00e3o e a garantia de acesso para essas pessoas s\u00f3 se d\u00e1 pela transfer\u00eancia direta de renda e por garantia de que elas possam ter alimentos, se n\u00e3o comprado, dado.<\/p>\n<p><strong>Projeto Savana<\/strong><\/p>\n<p>Na \u00c1frica, por exemplo, o projeto Savana, que vai atacar o Cerrado Africano, \u00e9 criminoso. Ele vai resolver problemas de renda das pessoas? Sim, vai resolver. As pessoas v\u00e3o ter emprego? Ser\u00e3o exploradas. E vai resolver o problema alimentar? N\u00e3o. Vai destruir a hist\u00f3ria das pessoas que vivem h\u00e1 s\u00e9culos no mesmo pedacinho de terra. A tend\u00eancia \u00e9 que elas desapare\u00e7am como j\u00e1 aconteceu no Norte de Mo\u00e7ambique com a minera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013<\/strong> Como garantir a seguran\u00e7a alimentar nesse contexto?<\/p>\n<p><strong>Newton Narciso Gomes Junior \u2013<\/strong> A seguran\u00e7a alimentar deve ser tomada pela perspectiva da mudan\u00e7a radical ou da disputa, pelo menos, do imagin\u00e1rio social. Na Guin\u00e9-Bissau, est\u00e3o recuperando a qualidade e o compromisso que as pessoas t\u00eam com sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Quando se recupera o compromisso, se ganha um novo sentido na vida. O que estou querendo dizer \u00e9 que a inseguran\u00e7a alimentar contempla tamb\u00e9m a destrui\u00e7\u00e3o de padr\u00f5es, de hist\u00f3ria, de cultura dos povos. Tudo isso foi substitu\u00eddo por uma no\u00e7\u00e3o pasteurizada de que o que importa \u00e9 comer, ent\u00e3o qualquer coisa que eu coma e que me satisfa\u00e7a, vale.<\/p>\n<p><strong>Inseguran\u00e7a alimentar<\/strong><\/p>\n<p>Se voc\u00ea considera que, al\u00e9m disso, os tempos das nossas vidas se encurtaram muito, as pessoas cada vez mais comem sozinhas, cabisbaixas, mexendo no telefone ou no rel\u00f3gio, porque t\u00eam de comer depressa para pagar conta no banco, e se voc\u00ea acrescentar isso \u00e0 vida das mulheres, a\u00ed a coisa se complica, porque essas mulheres, al\u00e9m de estarem sujeitas a esse tipo de coisa, quando chegam em casa a jornada de trabalho n\u00e3o est\u00e1 esgotada: elas t\u00eam de cuidar da casa, saber da vida dos filhos, preparar as coisas do dia seguinte e al\u00e9m de tudo prover a casa de alimento. Ent\u00e3o, note, sob a perspectiva de seguran\u00e7a alimentar, dizer que n\u00f3s vivemos com seguran\u00e7a alimentar \u00e9 uma bobagem. N\u00f3s vivemos uma inseguran\u00e7a alimentar, e cada vez mais isso tende a se agravar, porque aumenta o n\u00famero de pessoas que tomam suas refei\u00e7\u00f5es fora do domic\u00edlio. Tomar refei\u00e7\u00f5es fora do domic\u00edlio n\u00e3o significa compartilhar, significa comer rapidamente comida por quilo. Eu n\u00e3o como comida por quilo; como prato feito, e se n\u00e3o tiver prato feito, n\u00e3o como. Eu tenho uma resist\u00eancia n\u00e3o por arrog\u00e2ncia, frescura, mas prefiro comer arroz, feij\u00e3o, carne, salada e ovo frito. Isso para mim \u00e9 um prato feito que comp\u00f5e o que \u00e9 a ideia da comida brasileira. Na comida por quilo voc\u00ea come leitoa, que \u00e9 comida de dia de Natal, bacalhau, que \u00e9 comida da Semana Santa, frango com macarr\u00e3o, que \u00e9 comida de domingo. Tem comidas que s\u00e3o do dia de domingo e eu n\u00e3o posso comer na segunda-feira.<\/p>\n<p>&#8220;Direito, ou voc\u00ea tem ou voc\u00ea n\u00e3o tem. N\u00e3o existe \u201cmeio\u201d direito, n\u00e3o existe fase para voc\u00ea conquist\u00e1-lo&#8221;<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013<\/strong> Qual \u00e9 o peso da agricultura familiar no Brasil?<\/p>\n<p><strong>Newton Narciso Gomes Junior \u2013<\/strong> De acordo com uma pesquisa da FAO\/Incra, 65% a 75% do volume global de alimentos que n\u00f3s consumimos t\u00eam origem na agricultura familiar. Se n\u00f3s considerarmos algo em torno de quatro milh\u00f5es e meio de propriedades que vivem na agricultura familiar, e olharmos o que \u00e9 o consumo nacional dos produtos que t\u00eam como refer\u00eancia a agricultura familiar, isso vai dar em torno de alguns gramas por propriedade\/dia.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, a primeira quest\u00e3o \u00e9: quem est\u00e1 produzindo? Certamente n\u00e3o \u00e9 o pessoal do semi\u00e1rido; ou seja, tem uma produ\u00e7\u00e3o concentrada. Depois, voc\u00ea vai investigar quais s\u00e3o os alimentos produzidos \u2014 porque n\u00f3s n\u00e3o consumimos a quantidade de frutas, legumes e verduras recomendada pela organiza\u00e7\u00e3o mundial de sa\u00fade por dia. Nesse sentido, a agricultura familiar no Brasil, quando definida como produtora de comida, \u00e9 pouco relevante se confrontada com o agroneg\u00f3cio, porque o agroneg\u00f3cio n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 pol\u00edtica de exporta\u00e7\u00e3o. As pessoas \u00e0s vezes se chocam com essa ideia e dizem que estou desqualificando a agricultura.<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o nego a import\u00e2ncia dela, ao contr\u00e1rio, eu a considero fundamental, mas gosto de olhar o dia a dia das pessoas, o comportamento e o carrinho de compras delas no supermercado, os quais t\u00eam dois p\u00e9s de alface, tomate, banana, abobrinha, piment\u00e3o e o resto \u00e9 arroz, feij\u00e3o, sardinha, macarr\u00e3o, produto congelado, todas as coisas que s\u00e3o semiprontas e que n\u00e3o s\u00e3o produ\u00e7\u00e3o da agricultura familiar.<\/p>\n<p><strong>Agricultura familiar e a pol\u00edtica de abastecimento<\/strong><\/p>\n<p>Ent\u00e3o, a agricultura familiar \u00e9 relevante do ponto de vista do potencial de produ\u00e7\u00e3o de comida, mas essa relev\u00e2ncia vem perdendo import\u00e2ncia na medida em que n\u00e3o h\u00e1 uma pol\u00edtica p\u00fablica de revis\u00e3o do sistema nacional de abastecimento. Enquanto n\u00e3o tivermos uma s\u00e9ria revis\u00e3o do sistema nacional de abastecimento, cada vez mais vamos consumir uma pauta mais estreita de produtos, e uma das caracter\u00edsticas importantes da agricultura familiar \u00e9 o fato de ela produzir produtos diversificados, que fazem parte das culturas alimentares diferentes, respeitando as realidades regionais; portanto, o que se consome no Rio Grande do Sul \u00e9 diferente do que se consome no Amazonas, etc.<\/p>\n<p><strong>Padroniza\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>A padroniza\u00e7\u00e3o da alimenta\u00e7\u00e3o s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel por interm\u00e9dio da industrializa\u00e7\u00e3o de alimentos. <strong>A agricultura familiar poderia ter um papel decisivo na revers\u00e3o do curso da transi\u00e7\u00e3o alimentar que est\u00e1 associado aos agravos de sa\u00fade relacionados a sobrepeso, diabetes, problemas coron\u00e1rios, hep\u00e1ticos, etc.<\/strong> Mas hoje ela n\u00e3o conta com isso porque n\u00e3o tem apoio: as pol\u00edticas de extens\u00e3o s\u00e3o fr\u00e1geis, as pol\u00edticas de financiamento s\u00e3o curtas e os espa\u00e7os de comercializa\u00e7\u00e3o que estimulariam essas ofertas s\u00e3o ruins ou s\u00e3o oligopolizados, portanto, desfavor\u00e1veis \u00e0 agricultura familiar. Ela n\u00e3o \u00e9 uma parte folcl\u00f3rica; \u00e9 parte da produ\u00e7\u00e3o daquilo que chamo de \u201ccomida\u201d e isso deve estar acima da produ\u00e7\u00e3o dessa coisa gen\u00e9rica que tratam como alimento, mas que na verdade s\u00e3o produtos que t\u00eam uma base de subst\u00e2ncias alimentares que n\u00e3o significam nada.<\/p>\n<p>N\u00f3s vivemos ao contr\u00e1rio. A nossa produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola, que tanto pesa no mercado internacional, contribui para a produ\u00e7\u00e3o de subst\u00e2ncias alimentares. O Brasil \u00e9 um pa\u00eds que contribui para o rebaixamento do custo da redu\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho pela viola\u00e7\u00e3o do padr\u00e3o alimentar tradicional. N\u00f3s produzimos coisas que v\u00e3o dar origem a subst\u00e2ncias alimentares que n\u00e3o t\u00eam nada a ver com a identidade das pessoas. Daqui a pouco o que voc\u00ea comer no Alasca, voc\u00ea estar\u00e1 comendo no Rio Grande do Sul.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013<\/strong> Considerando a produ\u00e7\u00e3o de comida, a reforma agr\u00e1ria ainda \u00e9 necess\u00e1ria e h\u00e1 possibilidade de faz\u00ea-la?<\/p>\n<p><strong>Newton Narciso Gomes Junior \u2013<\/strong> Eu n\u00e3o sou do PT, sou militante do Partido Comunista Brasileiro, o velho PCB, e continuo no mesmo lugar em que sempre estive. N\u00e3o tenho nenhuma converg\u00eancia com essa ideia de que a reforma agr\u00e1ria \u00e9 algo superado; n\u00e3o discuto uma reforma agr\u00e1ria popular. Reforma agr\u00e1ria \u00e9 reforma agr\u00e1ria e o inimigo est\u00e1 muito claro: o advers\u00e1rio principal \u00e9 representado pelo latif\u00fandio, seja ele produtivo ou improdutivo, n\u00e3o interessa. O problema \u00e9: produzindo o que para quem?<\/p>\n<p>N\u00e3o posso aceitar que esteja resolvido e equacionado o problema agr\u00e1rio brasileiro quando a concentra\u00e7\u00e3o de terra \u00e9 a mesma de 1872. N\u00e3o posso aceitar que a quest\u00e3o agr\u00e1ria brasileira esteja resolvida quando a concentra\u00e7\u00e3o de poder pol\u00edtico daqueles que defendem essa estrutura concentrada, aumenta. N\u00e3o falo somente da bancada ruralista, mas de um conjunto de parlamentares que defendem essa vis\u00e3o de que o Brasil deve ser um grande exportador de alimentos. Eu, francamente, sou um sujeito b\u00edpede e racional, e n\u00e3o como milho cru no cocho e tampouco mastigo soja.<\/p>\n<p>Quanto mais mantivermos milhares de pessoas apartadas da condi\u00e7\u00e3o de produzir comida no campo, quanto mais as mantivermos fora da produ\u00e7\u00e3o daquilo que \u00e9 essencial para a constru\u00e7\u00e3o da soberania alimentar, que \u00e9 o que produzir, como produzir e para quem produzir, maior ser\u00e1 o problema de injusti\u00e7a social e inseguran\u00e7a alimentar.<\/p>\n<p>&#8220;A no\u00e7\u00e3o de igualdade n\u00e3o \u00e9 a supress\u00e3o da diferen\u00e7a, mas a supress\u00e3o do uso da diferen\u00e7a para um subordinar o outro&#8221;<\/p>\n<p><strong>\u201cN\u00e3o existe meio direito\u201d<\/strong><\/p>\n<p>Os n\u00fameros do governo Dilma de reforma agr\u00e1ria s\u00e3o p\u00edfios n\u00e3o porque n\u00e3o h\u00e1 mais o que fazer, mas simplesmente porque n\u00e3o h\u00e1 nenhum interesse pol\u00edtico em reverter essa hist\u00f3ria. A leitura pol\u00edtica do governo \u00e9 de que a quest\u00e3o da agricultura brasileira est\u00e1 resolvida na medida em que ela \u00e9 decisiva para resolver os nossos problemas de d\u00e9ficits ou de balan\u00e7o de pagamentos.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, se ignoro essas quest\u00f5es, n\u00e3o posso falar em frui\u00e7\u00e3o do direito humano. N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que as pessoas, quando falam do direito humano \u00e0 alimenta\u00e7\u00e3o, dizem: satisfa\u00e7\u00e3o gradual. Direito, ou voc\u00ea tem ou voc\u00ea n\u00e3o tem. N\u00e3o existe \u201cmeio\u201d direito, n\u00e3o existe fase para voc\u00ea conquist\u00e1-lo, n\u00e3o tem isso de ou voc\u00ea anda ou voc\u00ea n\u00e3o anda, ou voc\u00ea come ou voc\u00ea n\u00e3o come. N\u00e3o tem essa coisa de \u201ceu como, mas como mal\u201d; se voc\u00ea come mal quer dizer que voc\u00ea n\u00e3o come. N\u00e3o \u00e9 o quanto, mas o qu\u00ea. Ent\u00e3o, sem a reforma agr\u00e1ria n\u00f3s jamais vamos conseguir reverter a concentra\u00e7\u00e3o do poder pol\u00edtico, que est\u00e1 na m\u00e3o de elites nacionais e transnacionais que controlam o destino de uma na\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211;<\/strong> Qual a sua proposta de reforma agr\u00e1ria e quais s\u00e3o os problemas espec\u00edficos da reforma popular?<\/p>\n<p><strong>Newton Narciso Gomes Junior \u2013<\/strong> N\u00e3o vou entrar em um debate sobre as minhas diverg\u00eancias sobre a reforma agr\u00e1ria popular, porque o MST, que de longe \u00e9 a principal organiza\u00e7\u00e3o social neste pa\u00eds \u2014 uma organiza\u00e7\u00e3o que re\u00fane 14 mil pessoas em Bras\u00edlia tem um lastro e tem um cacife para falar como poucos. O Jo\u00e3o Pedro Stedile \u00e9 um formulador respeit\u00e1vel, \u00e9 um sujeito s\u00e9rio, comprometido com aquilo que faz, e o MST chegou \u00e0 conclus\u00e3o de que a reforma agr\u00e1ria cl\u00e1ssica, dada nos anos 1960-70, est\u00e1 superada e hoje o inimigo seria o capital financeiro. Mas eu acho que o inimigo entendido como o dom\u00ednio do capital financeiro sobre o campo precisa de uma base f\u00edsica para se realizar, e a base f\u00edsica continua sendo a concentra\u00e7\u00e3o da terra.<\/p>\n<p>A minha posi\u00e7\u00e3o sobre a reforma agr\u00e1ria \u00e9 a seguinte: \u00e9 prioridade, neste pa\u00eds, a produ\u00e7\u00e3o de alimentos para a popula\u00e7\u00e3o, de sorte a garantir a nossa soberania alimentar n\u00e3o s\u00f3 pela autossufici\u00eancia, mas pelo direito de produzirmos o que entendemos ser razo\u00e1vel, para quem definimos que \u00e9 importante e como definimos produzir isso da melhor forma poss\u00edvel.<\/p>\n<p>Nesse sentido, n\u00e3o tenho nenhum problema em defender que a reforma agr\u00e1ria deve enfrentar abertamente a desapropria\u00e7\u00e3o dos latif\u00fandios, at\u00e9 porque esse latif\u00fandios, que s\u00e3o t\u00e3o importantes, se mant\u00eam e se sustentam com o \u00edndice de produtividade de 1975, o que \u00e9 uma fic\u00e7\u00e3o. Portanto, o uso social dessa terra \u00e9 mais do que violado porque est\u00e3o usando a terra e produzindo menos do que poderiam.<\/p>\n<p><strong>Desconcentra\u00e7\u00e3o do poder econ\u00f4mico<\/strong><\/p>\n<p>A reforma agr\u00e1ria desconcentra o poder econ\u00f4mico e o poder pol\u00edtico, que s\u00e3o dois elementos que sustentam a nossa subordina\u00e7\u00e3o, n\u00e3o s\u00f3 a subordina\u00e7\u00e3o do pa\u00eds, ou seja, a nossa depend\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o aos pa\u00edses centrais, mas tamb\u00e9m a nossa subordina\u00e7\u00e3o do ponto de vista interno, nossa subordina\u00e7\u00e3o pol\u00edtica aos des\u00edgnios de uma elite que n\u00e3o tem nenhum compromisso com a ideia de desenvolvimento que tem como primeiro elemento a pessoa, o ser humano. Obviamente essa posi\u00e7\u00e3o de reforma agr\u00e1ria n\u00e3o \u00e9 uma posi\u00e7\u00e3o muito simp\u00e1tica, porque n\u00e3o se mostra vi\u00e1vel nos marcos do modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista. Defendo essa reforma agr\u00e1ria radical porque defendo, junto com ela, a destrui\u00e7\u00e3o do modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista. Sou um defensor convicto de que somente o comunismo pode emancipar as pessoas. Fora do comunismo n\u00e3o h\u00e1 possibilidade de emancipa\u00e7\u00e3o humana.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211;<\/strong> E que futuro o senhor vislumbra com o comunismo?<\/p>\n<p><strong>Newton Narciso Gomes Junior \u2013<\/strong> O futuro \u00e9 uma abstra\u00e7\u00e3o. Mas eu posso sintetizar para voc\u00ea o seguinte: a ideia que eu tenho do modo de uma vida sobre o comunismo \u00e9 onde todas as diferen\u00e7as s\u00e3o respeitadas, sem que essas diferen\u00e7as sejam utilizadas para uns subordinarem os outros. Essa \u00e9 minha leitura do comunismo: a no\u00e7\u00e3o de igualdade n\u00e3o \u00e9 a supress\u00e3o da diferen\u00e7a, mas a supress\u00e3o do uso da diferen\u00e7a para um subordinar o outro.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211;<\/strong> Mas dada a condi\u00e7\u00e3o humana, isso \u00e9 poss\u00edvel?<\/p>\n<p><strong>Newton Narciso Gomes Junior \u2013<\/strong> Eu acho. O Lenin tem uma frase que diz o seguinte: \u201cSonhos, acreditem neles; \u00e9 preciso sonhar, mas com a condi\u00e7\u00e3o de acreditar nos seus sonhos e comparar escrupulosamente o seu sonho com a realidade, e trabalhar essa realidade de modo aproxim\u00e1-la do sonho\u201d. N\u00e3o h\u00e1 um rel\u00f3gio, um cron\u00f4metro que me diga que a revolu\u00e7\u00e3o \u00e9 amanh\u00e3. Estou nessa milit\u00e2ncia, assim como outros milhares de pessoas, desde os anos 1970 e todos os dias eu me movo de alguma maneira nessa dire\u00e7\u00e3o. Passo \u00e0s vezes por rid\u00edculo, por jur\u00e1ssico, por delirante e isso n\u00e3o \u00e9 um problema. Eu n\u00e3o sou um sujeito de f\u00e9, eu me movo por convic\u00e7\u00f5es. Ent\u00e3o, quando estou discutindo quest\u00e3o agr\u00e1ria, seguran\u00e7a alimentar, n\u00e3o o fa\u00e7o pelo caminho mais f\u00e1cil, prefiro o caminho mais pr\u00f3ximo daquilo que entendo como as \u201cminhas verdades\u201d, as verdades que me movem. Um povo que resgata a sua hist\u00f3ria, que resgata a sua cultura, que tem capacidade de agir a partir da leitura cr\u00edtica da realidade, que confronta a realidade com seu sonho, ainda que seu sonho seja algo privado, algo personalista, individualista, \u00e9 melhor do que um povo que vive como uma boiada, se agarrando em s\u00edmbolos para ressignificar a sua pr\u00f3pria vida, que perde a no\u00e7\u00e3o de classe, que aceita, por exemplo, essa ideia de nova classe m\u00e9dia, que aceita o desaparecimento do debate sobre a pobreza e fica s\u00f3 olhando para a mis\u00e9ria.<\/p>\n<p>N\u00e3o se identificar mais como classe, como explorado, mas apenas como uma classe m\u00e9dia ascendente, faz com que as pessoas queiram ir para frente, mas com isso elas perdem a sua identidade, deixam de ser \u201ca prolet\u00e1ria\u201d, \u201ca explorada\u201d e passam a ser igual. S\u00f3 que isso \u00e9 uma igualdade de fic\u00e7\u00e3o. O capital, por exemplo, disputou e fez com que as pessoas aceitassem, tranquilamente, que \u00e9 bacana comer lasanha congelada, salgadinho cuja composi\u00e7\u00e3o n\u00e3o tem nada com gosto de queijo, ou biscoito com gosto de pizza. E as pessoas comem, n\u00e3o comem? O imagin\u00e1rio social foi conquistado. As pessoas hoje se contentam mesmo sem ter, se contentam em serem vistas como iguais a partir dos s\u00edmbolos que importam. Houve uma ressignifica\u00e7\u00e3o dos s\u00edmbolos e os telefones falam mais da pessoa do que a pr\u00f3pria pessoa.<\/p>\n<p>Fonte &#8211; Entrevista especial com Newton Narciso Gomes Junior, IHU de 28 de maio de 2014<\/p>\n<p><span style=\"color: #ff6600;\">N\u00e3o concordamos com a posi\u00e7\u00e3o do entrevistado sobre o comunismo ou sobre a reforma agr\u00e1ria do jeito que \u00e9 feita hoje, violentamente, usada politicamente, mas concordamos sim, que plantar soja e milho n\u00e3o \u00e9 plantar comida, \u00e9 plantar commoditie agr\u00edcola.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #ff6600;\">Quanto mais n\u00f3s lemos, menos entendemos o porque de ningu\u00e9m falar sobre hortas caseiras,\u00a0que garantiria controle sobre a pr\u00f3pria alimenta\u00e7\u00e3o, porque um metro quadrado de horta d\u00e1 para \u00a0alimentar com legumes e verduras uma fam\u00edlia de quatro pessoas. N\u00e3o ouvimos ningu\u00e9m falar tamb\u00e9m sobre controle populacional que levaria \u00e0 menos fome, menos necessidade de derrubar florestas e usar recursos naturais finitos no planeta.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cEu, francamente, sou um sujeito b\u00edpede e racional, e n\u00e3o como milho cru no cocho e tampouco mastigo soja\u201d, diz o economista. Os incentivos para o desenvolvimento da agricultura familiar brasileira n\u00e3o passam de um \u201cest\u00edmulo de inten\u00e7\u00f5es\u201d. 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