{"id":13314,"date":"2014-08-05T08:00:26","date_gmt":"2014-08-05T11:00:26","guid":{"rendered":"http:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/?p=13314"},"modified":"2014-08-05T10:35:40","modified_gmt":"2014-08-05T13:35:40","slug":"quando-a-agua-mata-a-opressao-imposta-pela-sede","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/quando-a-agua-mata-a-opressao-imposta-pela-sede\/","title":{"rendered":"Quando a \u00e1gua mata &#8211; A opress\u00e3o imposta pela sede"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/farm4.staticflickr.com\/3849\/14835334252_d1ea14e6a3.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<pre>Alerta da ONU: \u00e1gua mata mais crian\u00e7as que a guerra<\/pre>\n<p><strong>\u00c1gua como arma de guerra<\/strong><\/p>\n<p>\u00c1gua para consumo humano, torna-se um recurso cada vez mais escasso em nosso planeta.<\/p>\n<p>Al\u00e9m da escassez de recursos h\u00eddricos em v\u00e1rias regi\u00f5es do mundo, outro fator tem preocupado a ONU e todas as entidades relacionadas aos direitos humanos: a \u00e1gua vem sendo utilizada como arma de guerra, de opress\u00e3o e segrega\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n<p>V\u00e1rias s\u00e3o as guerras tribais, conflitos fundi\u00e1rios, guerras civis, embates entre pa\u00edses e popula\u00e7\u00f5es, no mundo atual, onde o acesso \u00e0 \u00e1gua integra o n\u00facleo do conflito.<\/p>\n<p>A apropria\u00e7\u00e3o da \u00e1gua como meio de oprimir, segregar ou favorecer grupos econ\u00f4micos e classes sociais tamb\u00e9m constitui preocupa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>De fato, a globaliza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica tem feito ressurgir posturas t\u00edpicas do antigo Imp\u00e9rio Romano, quando classes eram favorecidas e alian\u00e7as fortalecidas, por meio do uso da \u00e1gua. Os aquedutos, inclusive, constitu\u00edam uma marca do maior e mais duradouro imp\u00e9rio de todos os tempos.<\/p>\n<p>O conflito pelo uso da \u00e1gua come\u00e7a a ganhar contornos mundiais, despontando a quest\u00e3o da escassez em conflitos e batalhas de toda ordem, em todos os sistemas pol\u00edticos e sociais, sem discrimina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O componente h\u00eddrico dever\u00e1 ser observado como componente estrat\u00e9gico nos conflitos ocorrentes, doravante, visando prevenir sua generaliza\u00e7\u00e3o, seja como arma, seja como foco.<\/p>\n<p>Neste artigo, apresentamos algumas \u201cbatalhas\u201d, em curso ou travadas recentemente, onde o uso da \u00e1gua assume ou assumiu propor\u00e7\u00f5es de perversidade, que pode se generalizar em escala global.<\/p>\n<p>Entenda as batalhas \u201cde \u00e1gua\u201d travadas no mundo, que delineiam um terr\u00edvel conflito mundial.<\/p>\n<p><strong>A batalha de Gaza<\/strong><\/p>\n<p>A opera\u00e7\u00e3o de repress\u00e3o israelense ao Hamas, na Faixa de Gaza, constitui um retrato dos mais cru\u00e9is do uso perverso desse recurso t\u00e3o essencial para a vida humana. Seus efeitos s\u00e3o devastadores e causam tanto ou mais danos que aqueles provocados pelos estilha\u00e7os de bombas e proj\u00e9teis disparados pelas for\u00e7as em conflito. Vejamos:<\/p>\n<p><strong>O cerco \u201ch\u00eddrico\u201d de Gaza<\/strong><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/farm6.staticflickr.com\/5593\/14832662201_55d589da15.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<pre>Crian\u00e7as em busca de \u00e1gua na faixa de Gaza<\/pre>\n<p>A diferen\u00e7a de sistemas de abastecimento de \u00e1gua e esgotamento sanit\u00e1rio entre os territ\u00f3rios ocupados pelos israelenses e por palestinos \u00e9 de propor\u00e7\u00f5es b\u00edblicas. Algo entre modernas redes do s\u00e9culo XXI e as cisternas dos tempos de Hagar e Ismael.<\/p>\n<p>Na regi\u00e3o de Gaza \u00e9 praticamente imposs\u00edvel construir ou manter rede de \u00e1gua. O abastecimento prov\u00e9m do territ\u00f3rio israelense e est\u00e1 sujeito ao regime de bloqueio imposto pelo governo de Israel a Gaza, desde a ocupa\u00e7\u00e3o da faixa pelo Hamas, em 2007.<\/p>\n<p>O bloqueio teve um enorme impacto na rede de esgoto e de abastecimento de \u00e1gua. A falta de componentes torna dif\u00edcil a reforma da rede e a manuten\u00e7\u00e3o dos equipamentos. O fornecimento de energia intermitente fez com que bombas el\u00e9tricas precisassem de geradores, que, por sua vez, n\u00e3o tinham pe\u00e7as reserva. Ademais, o fornecimento racionado de combust\u00edvel n\u00e3o permite que os geradores remanescentes funcionem com regularidade.<\/p>\n<p>A Organiza\u00e7\u00e3o Mundial de Sa\u00fade \u2013 OMS, informou que a Opera\u00e7\u00e3o Chumbo Fundido, realizada pelas for\u00e7as militares de Israel contra o Hamas entre 2008 e 2009, piorou sobremaneira o que j\u00e1 era uma situa\u00e7\u00e3o cr\u00edtica. Antes da opera\u00e7\u00e3o, os moradores de Gaza tinham menos de metade da \u00e1gua necess\u00e1ria para manter alguma qualidade de vida, de acordo com padr\u00f5es internacionais. Para piorar o quadro, 80% da \u00e1gua que chegava ao territ\u00f3rio n\u00e3o tinha qualidade compat\u00edvel com os padr\u00f5es da OMS.<\/p>\n<p>No auge dos combates em janeiro de 2009, metade da popula\u00e7\u00e3o de Gaza n\u00e3o tinha mais acesso \u00e0 \u00e1gua encanada.<\/p>\n<p>Antes do atual conflito, em junho de 2014, o setor respons\u00e1vel pelo tratamento de esgoto em Gaza, sob o comando do Hamas, estimava que ao menos 50 milh\u00f5es de litros de esgoto sem tratamento adequado era despejado no mar diariamente (a outra parte do esgoto de Gaza \u00e9 armazenada em lagoas).<\/p>\n<p>Em 2007, uma das lagoas de estabiliza\u00e7\u00e3o de esgoto transbordou, causando cinco mortes.<\/p>\n<p>Na atual ofensiva israelense contra o Hamas, iniciada agora, em julho de 2014, 300.000 habitantes de Gaza j\u00e1 ficaram sem \u00e1gua.<\/p>\n<p>Em reuni\u00e3o do Comit\u00ea de Defesa e Rela\u00e7\u00f5es Exteriores do parlamento israelense, o Keneset, informou a edi\u00e7\u00e3o digital do jornal &#8220;Haaretz&#8221; de Jerusal\u00e9m, ainda no in\u00edcio da ofensiva, o presidente do Comit\u00ea, Zeev Elkin, sugeriu ao Primeiro Ministro Netanyahu cortar o abastecimento de \u00e1gua e eletricidade ao territ\u00f3rio.<\/p>\n<p><strong>A trag\u00e9dia sin\u00e9rgica alimentar em Gaza<\/strong><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/farm4.staticflickr.com\/3860\/14855603563_da7a28ff18.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<pre>\u00c1gua escassa, cara e de m\u00e1 qualidade prejudica a agricultura em Gaza<\/pre>\n<p>A Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas para Alimenta\u00e7\u00e3o e Agricultura (FAO) informa que 61% dos moradores de Gaza vivem em situa\u00e7\u00e3o de &#8220;inseguran\u00e7a alimentar&#8221;.<\/p>\n<p>Metade dos 1,5 milh\u00e3o de moradores de Gaza depende da UNRWA \u2013 sigla da Ag\u00eancia das Na\u00e7\u00f5es Unidas encarregada de prestar aux\u00edlio aos refugiados palestinos. O n\u00famero de moradores de Gaza incapazes de comprar itens como sab\u00e3o e \u00e1gua pot\u00e1vel triplicou desde 2007, quando Israel iniciou o bloqueio da Faixa em repres\u00e1lia aos atentados do Hamas.<\/p>\n<p>Uma pesquisa realizada pela ONU em 2008 revelou que mais da metade dos domic\u00edlios de Gaza vendeu o que tinha e depende de cr\u00e9dito para comprar comida. Assim, tr\u00eas quartos dos habitantes da regi\u00e3o compram menos comida do que no passado e quase todos est\u00e3o comendo menos frutas, legumes e verduras frescos e prote\u00ednas, para economizar.<\/p>\n<p>A falta de \u00e1gua prejudicou sobremaneira a agricultura na regi\u00e3o, praticamente eliminando o fornecimento de alimento fresco, hortali\u00e7as, verduras e frutas. Os preju\u00edzos \u00e0 agricultura, estima a FAO, foram da ordem de US$ 180 milh\u00f5es.<\/p>\n<p>Como consequ\u00eancia. de acordo com a Organiza\u00e7\u00e3o Mundial de Sa\u00fade (OMS), um ter\u00e7o das crian\u00e7as com menos de 5 anos e de mulheres em idade f\u00e9rtil em Gaza est\u00e3o an\u00eamicos.<\/p>\n<p><strong>A batalha da S\u00edria<\/strong><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/farm4.staticflickr.com\/3846\/14835379602_08115bb992.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<pre>Crian\u00e7as se banham na \u00e1gua aflorada em cratera de bomba, em Alepo, na S\u00edria<\/pre>\n<p>A guerra civil na S\u00edria tamb\u00e9m tem efeitos devastadores para o abastecimento de \u00e1gua na regi\u00e3o.<\/p>\n<p>No centro dos conflitos armados, for\u00e7as atacaram a esta\u00e7\u00e3o de bombeamento de \u00e1gua na cidade de Alepo.<\/p>\n<p>Durante oito dias, 2,5 milh\u00f5es de pessoas ficaram sem acesso \u00e0 \u00e1gua pot\u00e1vel.<\/p>\n<p>Na S\u00edria a \u00e1gua efetivamente tornou-se equipamento b\u00e9lico no conflito.<\/p>\n<p>Nesses tr\u00eas anos de guerra civil, tanto o regime do ditador Assad quanto os grupos radicais xiitas que a ele se op\u00f5em, usam a \u00e1gua como arma de guerra, invariavelmente vitimando a popula\u00e7\u00e3o desarmada.<\/p>\n<p>O regime ditatorial da S\u00edria, no entanto, \u00e9 o grande algoz.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos quinze anos, o regime de Assad, vem utilizando o corte de fornecimento de \u00e1gua como artif\u00edcio para castigar comunidades consideradas inimigas e a manuten\u00e7\u00e3o regular do abastecimento como forma de manter alian\u00e7as com comunidades aliadas. O governo desregulamentou a posse da terra para expulsar agricultores e pastores, cedendo as propriedades a aliados endinheirados.<\/p>\n<p>Ironicamente, os assentamentos sordidamente efetuados ocorreram justamente na regi\u00e3o que hoje mais sofre com a escassez de \u00e1gua.<\/p>\n<p>A falta de \u00e1gua, segundo a ONU, aumentou as taxas de migra\u00e7\u00e3o, constituindo forte vetor ambiental a fustigar os quase nove milh\u00f5es de refugiados no pa\u00eds.<\/p>\n<p>Objetivo estrat\u00e9gico no conflito s\u00edrio, o Lago Assad, o mais importante manancial da regi\u00e3o, est\u00e1 sob o controle do grupo jihadista Estado Isl\u00e2mico (EI). Segundo a rede de TV Al Jazeera, a guerra j\u00e1 ocasionou a perda de 6 metros no n\u00edvel da \u00e1gua do manancial.<\/p>\n<p>Ber\u00e7o da civiliza\u00e7\u00e3o, os rios Tigre e Eufrates, tamb\u00e9m sofrem com o controle de rebeldes por todo seu curso. Deles dependem Iraque e S\u00edria, para alimento, \u00e1gua e ind\u00fastria.<\/p>\n<p>Se a situa\u00e7\u00e3o persistir na regi\u00e3o, a S\u00edria provocar\u00e1 um dos maiores desastres ambientais e humanit\u00e1rios das \u00faltimas d\u00e9cadas.<\/p>\n<p><strong>O Iraque destr\u00f3i os Jardins do \u00c9den<\/strong><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/farm4.staticflickr.com\/3923\/14832662371_65e6340801.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<pre>Marismas mesopot\u00e2micos, no Iraque - Jardim do \u00c9den em perigo<\/pre>\n<p>No conflito com o Iraque, o governo xiita iraniano, desviou \u00e1gua para inundar as defesas militares do Iraque.<\/p>\n<p>No entanto, o pecado maior veio do Iraque.<\/p>\n<p>Maude Barlow, representante do Conselho de Canadianos e da organiza\u00e7\u00e3o Food and Water Watch, informou em relat\u00f3rio sobre a situa\u00e7\u00e3o da bacia do Tigre e Eufrates, que durante o confronto entre Ir\u00e3 e Iraque, na d\u00e9cada de 1980, as Marismas da Mesopot\u00e2mia foram drenadas.<\/p>\n<p>As marismas constituem territ\u00f3rio lagunar ao sul da regi\u00e3o mesopot\u00e2mica (Iraque), com vegeta\u00e7\u00e3o densa, extremamente f\u00e9rtil e tradicionalmente habitado.<\/p>\n<p>O ditador iraquiano Saddam Hussein, durante os anos noventa, ap\u00f3s encerrado o conflito com o Ir\u00e3, continuou a drenar as marismas como forma de desalojar os militantes xiitas que se escondiam na regi\u00e3o e castigar as comunidades maadans, popula\u00e7\u00f5es \u00e1rabes tradicionais que protegiam os xiitas.<\/p>\n<p>Para se ter um ideia da propor\u00e7\u00e3o b\u00edblica dessa trag\u00e9dia. Judeus, mu\u00e7ulmanos e crist\u00e3os, desde priscas eras, apontavam as marismas como sendo os Jardins do \u00c9den.<\/p>\n<p>O ditador Iraquiano, no entanto, n\u00e3o se contentou em degradar um sagrado ecossistema. Durante a guerra de ocupa\u00e7\u00e3o do Kuwait, as for\u00e7as iraquianas bombardearam as plantas de dessaliniza\u00e7\u00e3o, destruindo boa parte da capacidade de produ\u00e7\u00e3o de \u00e1gua pot\u00e1vel daquele pa\u00eds.<\/p>\n<p><strong>AS batalhas de Botswana e Kosovo<\/strong><\/p>\n<p>A especialista canadense Maude Barlow relacionou Botswana como um dos casos mais graves do uso de \u00e1gua como arma de guerra.<\/p>\n<p>Em 2002 o governo proibiu os bosqu\u00edmanos de terem acesso \u00e0 sua \u00fanica fonte de \u00e1gua, para for\u00e7\u00e1-los a sair do deserto do Kalahari, onde haviam sido descobertas minas de diamante. A a\u00e7\u00e3o causou enorme mortandade e foi objeto de importante conflito judicial interno, sendo, anos depois, corajosa mas tardiamente anulada pelo tribunal de apela\u00e7\u00f5es do pr\u00f3prio pa\u00eds.<\/p>\n<p>Em Kosovo (1996\u20131999), os s\u00e9rvios jogaram cad\u00e1veres em po\u00e7os de suprimento, tornando a \u00e1gua imprest\u00e1vel para o consumo humano &#8211; um dos muitos crimes de guerra objeto do processo criminal movido contra os dirigentes da S\u00e9rvia perante o Tribunal Internacional.<\/p>\n<p>A DESUMANIDADE na qual se foca o direito internacional para qualificar a degrada\u00e7\u00e3o ou o corte do suprimento de \u00e1gua como crime de guerra, adv\u00e9m do fato de constituir a popula\u00e7\u00e3o civil a grande v\u00edtima dessas a\u00e7\u00f5es. Sem ter fonte de \u00e1gua com qualidade para suprir suas necessidades b\u00e1sicas, a popula\u00e7\u00e3o que sobrevive em meio aos conflitos, sofre com contamina\u00e7\u00e3o, falta de alimentos, aus\u00eancia de atendimento m\u00e9dico, doen\u00e7as e \u00f3bitos.<\/p>\n<p><strong>A batalha de Detroit<\/strong><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/farm6.staticflickr.com\/5591\/14855603303_64b64faeb7.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<pre>Protesto em Detroit - interesses econ\u00f4micos e privatiza\u00e7\u00e3o<\/pre>\n<p>T\u00e3o c\u00ednica quanto o uso da \u00e1gua como recurso b\u00e9lico, \u00e9 a utiliza\u00e7\u00e3o do recurso h\u00eddrico de forma seletiva e segregada. Pior ainda quando o uso n\u00e3o \u00e9 apenas pol\u00edtico, atende a interesses puramente financeiros.<\/p>\n<p>Um caso t\u00edpico do que se chama \u201cguerra De classes\u201d, ocorreu recentemente em Detroit, nos Estados Unidos, em maio e junho de 2014.<\/p>\n<p>O Servi\u00e7o Distrital de \u00c1gua e Esgoto de Detroit (DWSD) enviou, em maio, 46.000 notifica\u00e7\u00f5es de interrup\u00e7\u00e3o de fornecimento para os clientes que estavam em atraso nas suas contas de \u00e1gua. Foi a \u00faltima calamidade que se abateu sobre a cidade, cujas taxas de \u00e1gua subiram 119 por cento na \u00faltima d\u00e9cada.<\/p>\n<p>Detroit perdeu quase dois ter\u00e7os de sua popula\u00e7\u00e3o nos \u00faltimos 60 anos.<\/p>\n<p>As crises econ\u00f4micas ocorridas nos anos 70, 80, 90, 2001 e 2008, transformaram Detroit em um enorme esqueleto de infraestruturas, com um gigantesco sistema de \u00e1gua e pouco dinheiro para mant\u00ea-lo.<\/p>\n<p>Os chamados \u201cshut offs\u201d come\u00e7aram por 17.000 fam\u00edlias e pequenas empresas.<\/p>\n<p>Sem o \u00e1gua, os atingidos reagiram de forma dura. Bloquearam os ve\u00edculos enviados para desligar as casas, montaram piquetes e organizaram protestos, nos quais denunciaram o corte seletivo dos fornecimentos. Segundo os moradores, a DWSD casas de moradores de baixa renda, alguns deles nada devendo, estavam sofrendo cortes enquanto campos de golfe devedores de fortunas continuavam a serem abastecidos.<\/p>\n<p>A DWSD respondeu que havia \u201cfocado em clientes residenciais porque desligar a \u00e1gua para um usu\u00e1rio em larga escala era tecnicamente mais complicado e que a maioria de seus funcion\u00e1rios n\u00e3o estariam em condi\u00e7\u00f5es de faz\u00ea-lo. Para v\u00e1rios consumidores, ficou a impress\u00e3o exata que a DWSD, em vias de sofrer privatiza\u00e7\u00e3o, estava excluindo clientes de baixa renda para tornar o sistema \u201cmais atraente para potenciais compradores\u201d.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/farm4.staticflickr.com\/3848\/14835735695_60e439e3b7.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<pre>Fen\u00f4meno que est\u00e1 se tornando mundial - Detroit tornou-se parcialmente\r\numa cidade fantasma com a desindustrializa\u00e7\u00e3o.\r\nCom isso, os cidad\u00e3os pagam por uma estrutura de abastecimento de \u00e1gua\r\ne esgotamento sanit\u00e1rio obsoleta e ociosa<\/pre>\n<p>A comunidade afetada tratou de organizar brigadas de volunt\u00e1rios para levar \u00e1gua para as pessoas que tiveram seus registros desligados. O movimento tamb\u00e9m est\u00e1 organizando uma peti\u00e7\u00e3o coletiva para denunciar o ocorrido, n\u00e3o ao governo ou \u00e0 justi\u00e7a norte americana. Eles pretendem recorrer \u00e0s Na\u00e7\u00f5es Unidas, pretendendo obter uma condena\u00e7\u00e3o do governo americano por permitir o procedimento discriminat\u00f3rio da DWSD.<\/p>\n<p>A Ag\u00eancia de Prote\u00e7\u00e3o Ambiental dos Estados Unidos, EPA, tem escrito relat\u00f3rios durante os \u00faltimos anos, alertando para o fato da infraestrutura de \u00e1gua da Am\u00e9rica estar velha e obsoleta. Goteiras, rompimentos, vazamentos, diminui\u00e7\u00e3o da capacidade de reserva\u00e7\u00e3o por assoreamento, material e equipamentos inadequados para as novas demandas, revelam um pa\u00eds que n\u00e3o tem investido num setor essencial para sua popula\u00e7\u00e3o e, pior, pol\u00edticos \u201cmais animados em construir coisas novas que corrigir obras antigas\u201d (como recentemente publicou o New York Times)<\/p>\n<p><strong>O caso de Detroit n\u00e3o \u00e9 isolado<\/strong><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/farm6.staticflickr.com\/5564\/14832661871_7f9aba348f.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<pre>Brasil tamb\u00e9m sofre com conflitos h\u00eddricos<\/pre>\n<p>Mas o que est\u00e1 acontecendo em Detroit n\u00e3o \u00e9 apenas problema de Detroit. Tem implica\u00e7\u00f5es maiores para o resto do mundo.<\/p>\n<p>A \u00e1gua est\u00e1 ficando mais cara em toda parte e isso \u00e9 verdade tanto internacionalmente como nos EUA.<\/p>\n<p>No EUA, o custo da \u00e1gua tem aumentado mais rapidamente que a taxa de infla\u00e7\u00e3o e n\u00e3o h\u00e1 nenhuma pol\u00edtica federal norte americana para ajudar as pessoas a lidar com esse custo.<\/p>\n<p>Na Europa, milhares de pessoas tamb\u00e9m sofreram cortes no fornecimento de \u00e1gua por falta de pagamento, especialmente na Bulg\u00e1ria, Espanha e Gr\u00e9cia, devido \u00e0s medidas de austeridade adotadas nesses pa\u00edses.<\/p>\n<p>Em meados deste ano de 2014, o secret\u00e1rio-geral da ONU, Ban Ki-moon, expressou a sua preocupa\u00e7\u00e3o: \u201cDeixar as pessoas sem \u00e1gua pot\u00e1vel \u00e9 viola\u00e7\u00e3o de um direito humano fundamental. P\u00f4r a popula\u00e7\u00e3o civil como alvo e negar-lhe fornecimentos essenciais \u00e9 uma clara viola\u00e7\u00e3o dos direitos humanos e do direito humanit\u00e1rio internacional\u201d.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/farm4.staticflickr.com\/3883\/14649090939_1eda98b2fc.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<pre>Ban Ki-moon: \"\u00e1gua \u00e9 usada como arma de guerra\"<\/pre>\n<p>O Brasil j\u00e1 passa por epis\u00f3dios de conflito pelo uso da \u00e1gua e j\u00e1 sofre com a escassez. Embora nosso continente sul americano seja um dos mais bem servidos territ\u00f3rios do planeta. Nosso descuido com a \u00e1gua t\u00eam resultado em crises de desabastecimento.<\/p>\n<p>No entanto, ainda que ocorram demonstra\u00e7\u00f5es de evidente corrup\u00e7\u00e3o, falta de planejamento e irresponsabilidade funcional, o Brasil t\u00eam demonstrado ser poss\u00edvel manter um regime democr\u00e1tico em um ambiente de crise.<\/p>\n<p>Nossa esperan\u00e7a est\u00e1, portanto, na democracia, recurso essencial a qualquer na\u00e7\u00e3o que pretenda se manter equilibrada e abastecida.<\/p>\n<p>Fonte &#8211; Antonio Fernando Pinheiro Pedro, advogado (USP), jornalista e consultor ambiental. Integrante do Green Economy Task Force da C\u00e2mara de Com\u00e9rcio Internacional, membro da Comiss\u00e3o de Direito Ambiental do Instituto dos Advogados Brasileiros &#8211; IAB, da Comiss\u00e3o Nacional de Direito Ambiental do Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil &#8211; OAB. Jornalista, \u00e9 Editor- Chefe do Portal Ambiente Legal, Editor da Revista Eletr\u00f4nica DAZIBAO e editor do Blog The Eagle View.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Alerta da ONU: \u00e1gua mata mais crian\u00e7as que a guerra \u00c1gua como arma de guerra \u00c1gua para consumo humano, torna-se um recurso cada vez mais escasso em nosso planeta. 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