{"id":13445,"date":"2014-09-03T15:00:27","date_gmt":"2014-09-03T18:00:27","guid":{"rendered":"http:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/?p=13445"},"modified":"2014-09-03T14:42:48","modified_gmt":"2014-09-03T17:42:48","slug":"o-meu-desperdicio-e-a-privacao-do-consumo-do-outro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/o-meu-desperdicio-e-a-privacao-do-consumo-do-outro\/","title":{"rendered":"O meu desperd\u00edcio \u00e9 a priva\u00e7\u00e3o do consumo do outro"},"content":{"rendered":"<p>\u201c\u00c9 uma situa\u00e7\u00e3o que ningu\u00e9m ganha e todos perdem. Ainda assim, poucas s\u00e3o as iniciativas articuladas para enfrentar a quest\u00e3o, pois atacar a quest\u00e3o das perdas implica reestruturar a forma de organiza\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o. No entanto, \u00e9 interessante observar que a quest\u00e3o das perdas de alimentos chama mais aten\u00e7\u00e3o hoje nos pa\u00edses mais ricos da Europa e nos Estados Unidos do que no Brasil\u201d, informa o engenheiro agr\u00f4nomo Altivo de Almeida Cunha.<\/p>\n<p>\u201cNo Brasil, a etapa p\u00f3s-colheita, que envolve estocagem, manuseio, pr\u00e9-processamento, embalagem e transporte, \u00e9 onde ocorre a maior parte das perdas de alimentos em termos quantitativos.<\/p>\n<p>Mas o que \u00e9 importante entender na quest\u00e3o das perdas agr\u00edcolas \u00e9 que estas n\u00e3o podem ser analisadas de forma segmentada. Produtos colhidos de forma incorreta, ou fora do tempo ideal de colheita, dificultam o acondicionamento; mal acondicionados, est\u00e3o expostos a maiores danos no transporte. Os maiores gargalos de infraestrutura produtiva brasileira referem-se \u00e0s condi\u00e7\u00f5es de armazenagem e transporte. Produtos que sofrem danos adicionais no transporte levam n\u00e3o s\u00f3 \u00e0 perda direta, quantitativa, mas a relevantes perdas qualitativas e parciais nos produtos, que perdem seu valor comercial ou t\u00eam diminu\u00edda sua vida \u00fatil; ou seja, t\u00eam aumentada a sua perecibilidade, levando a maiores perdas nas etapas de atacado, varejo e, principalmente, no consumo final\u201d, afirma Altivo de Almeida Cunha.<\/p>\n<p>Nesta entrevista, concedida por e-mail \u00e0 IHU On-Line, o engenheiro agr\u00f4nomo e doutor em Economia explica que <strong>as perdas de alimentos est\u00e3o associadas a limita\u00e7\u00f5es e falhas do sistema de organiza\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o, distribui\u00e7\u00e3o e preparo dos produtos, enquanto o desperd\u00edcio alimentar est\u00e1 associado \u00e0s atitudes e comportamentos, individuais ou coletivos.<\/strong> \u201cNa base do desperd\u00edcio, ou de sua redu\u00e7\u00e3o, est\u00e1 a identifica\u00e7\u00e3o dos valores dos alimentos, do esfor\u00e7o social e natural envolvido em sua produ\u00e7\u00e3o e das possibilidades de aproveitamento integral de suas propriedades. <strong>A quest\u00e3o do desperd\u00edcio \u00e9 tamb\u00e9m uma quest\u00e3o de respeito \u00e0 sociedade, de forma que o meu desperd\u00edcio \u00e9 a priva\u00e7\u00e3o do consumo do outro.<\/strong> \u00c9 interessante observar que sociedades com elevado \u00cdndice de Desenvolvimento Humano \u2013 IDH e que valorizam o desenvolvimento comunit\u00e1rio, como<strong> no caso dos pa\u00edses n\u00f3rdicos, s\u00e3o muito mais intolerantes com o desperd\u00edcio do que pa\u00edses pobres e desiguais\u201d,<\/strong> pondera.<\/p>\n<p>O pesquisador tamb\u00e9m avalia as pol\u00edticas agr\u00edcolas baseadas unicamente no aumento da produtividade bruta por hectare cultivado, destacando que tal busca pela produtividade \u201crepresenta um enorme esfor\u00e7o tecnol\u00f3gico e organizacional, de trabalho, esfor\u00e7o econ\u00f4mico e energ\u00e9tico e de press\u00f5es ambientais que podem ter como consequ\u00eancias diretas a exclus\u00e3o de produtores, a diminui\u00e7\u00e3o da renda l\u00edquida rural, a concentra\u00e7\u00e3o fundi\u00e1ria e a perda de material gen\u00e9tico de esp\u00e9cies nativas ou crioulas. Este n\u00e3o precisa ser o pre\u00e7o da produ\u00e7\u00e3o de alimentos no mundo. A contradi\u00e7\u00e3o fundamental das estrat\u00e9gias baseadas unicamente no aumento da produtividade equivale \u00e0 imagem de um superatleta forjado para correr 100 metros em sete segundos que volta 30 metros e corre de novo para compensar as perdas.<\/p>\n<p>Valorizar a produ\u00e7\u00e3o e o consumo de alimentos locais atrav\u00e9s de sistemas adaptados de distribui\u00e7\u00e3o \u00e9 uma forma que est\u00e1 progressivamente sendo adotada na Europa para aumentar a oferta de alimentos de qualidade e diminuir perdas. \u00c9 necess\u00e1rio conjug\u00e1-la com maior efici\u00eancia produtiva, onde o ganho de produtividade \u00e9 um dos fatores, mas n\u00e3o o \u00fanico para atingir este objetivo\u201d.<\/p>\n<p>Altivo Roberto Andrade de Almeida Cunha \u00e9 engenheiro agr\u00f4nomo formado pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz \u2013 ESALQ, da Universidade de S\u00e3o Paulo \u2013 USP, e doutor em Economia pela Universidade Estadual de Campinas \u2013 UNICAMP. \u00c9 consultor do Programa das Na\u00e7\u00f5es Unidas para o Desenvolvimento \u2013 PNUD e da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas para Alimenta\u00e7\u00e3o e Agricultura \u2013 FAO\/ONU para o tema abastecimento alimentar. \u00c9 coordenador acad\u00eamico do curso de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Gest\u00e3o de Sistemas Agroalimentares do Centro Universit\u00e1rio de Sete Lagoas \u2013 UNIFEMM\/UniceasaCentro de Educa\u00e7\u00e3o Profissional, de Minas Gerais.<\/p>\n<p>Confira a entrevista.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013<\/strong> Qual \u00e9 a origem da crise alimentar que atingiu o planeta em 2007? Que regi\u00f5es foram as mais atingidas?<\/p>\n<p><strong>Altivo de Almeida Cunha &#8211;<\/strong> Crises globais ocorrem como uma rea\u00e7\u00e3o em cadeia de fatores estruturais cr\u00edticos, deflagrados por fatores conjunturais e geralmente potencializados por erros de pol\u00edtica p\u00fablica, seja por omiss\u00e3o ou por respostas equivocadas. Estes elementos estavam presentes na crise dos alimentos de 2007. A mudan\u00e7a progressiva no padr\u00e3o de consumo alimentar de um mundo em crescimento econ\u00f4mico, principalmente o aumento de consumo de prote\u00ednas animais, que consomem uma quantidade expressiva de gr\u00e3os, elevou estruturalmente a demanda por alimentos. O deslocamento da produ\u00e7\u00e3o de gr\u00e3os para uso na fabrica\u00e7\u00e3o de ra\u00e7\u00f5es animais e tamb\u00e9m para produ\u00e7\u00e3o de biocombust\u00edveis, como no caso do etanol norte-americano \u00e0 base de milho, criou novos e importantes destinos para a produ\u00e7\u00e3o de gr\u00e3os, antes direcionada ao consumo direto. A oferta global ainda sofreu reveses de diversos eventos relacionados \u00e0 mudan\u00e7a clim\u00e1tica \u2014 secas e enchentes \u2014 em pa\u00edses produtores. Produtos escassos, com custo de produ\u00e7\u00e3o elevado pelos altos pre\u00e7os do petr\u00f3leo, completaram o quadro de restri\u00e7\u00e3o de oferta e eleva\u00e7\u00e3o de pre\u00e7os.<\/p>\n<p><strong>\u201cO livre com\u00e9rcio internacional de alimentos \u00e9 apenas uma figura de linguagem, pois se trata de troca entre desiguais, com condi\u00e7\u00f5es desiguais que favorecem os atores economicamente mais poderosos\u201d<\/strong><\/p>\n<p>Dois aspectos relacionados \u00e0s pol\u00edticas agr\u00edcolas nacionais, e interligadas pelo com\u00e9rcio mundial, agravaram de forma determinante a situa\u00e7\u00e3o. A depend\u00eancia de alguns pa\u00edses com grande popula\u00e7\u00e3o de baixa renda dos estoques mundiais pressionou ainda mais o pre\u00e7o dos alimentos, com impactos perversos para estes consumidores de baixa renda. Os mecanismos de financiamento futuro da produ\u00e7\u00e3o, que em situa\u00e7\u00f5es de estabilidade s\u00e3o alternativas importantes de est\u00edmulo \u00e0 produ\u00e7\u00e3o, tiveram um papel muito forte de acirramento da crise, como acontece quando as expectativas se descolam do mundo real e a incerteza se torna especula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A demanda crescente por alimentos, custos de produ\u00e7\u00e3o elevados, novos destinos de consumo da produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola, estoques baixos em pa\u00edses com grandes popula\u00e7\u00f5es economicamente vulner\u00e1veis, quebra de oferta decorrente de mudan\u00e7as clim\u00e1ticas como elemento de incerteza adicional e forte especula\u00e7\u00e3o resultaram em pre\u00e7os dos alimentos em patamares sem precedentes em escala global. A situa\u00e7\u00e3o s\u00f3 foi atenuada, ou postergada, porque outra crise, a crise financeira de 2009, impactou fortemente o consumo e o pre\u00e7o dos insumos.<\/p>\n<p>Os pa\u00edses que n\u00e3o tinham uma pol\u00edtica agr\u00edcola de armazenagem e abastecimento, e que t\u00eam uma propor\u00e7\u00e3o significativa de popula\u00e7\u00e3o com baixa renda, foram fortemente afetados, como no Sudeste asi\u00e1tico, na \u00c1frica subsaariana e no mundo \u00e1rabe, bem como regi\u00f5es subnacionais na Am\u00e9rica Latina andina e na Am\u00e9rica Central. A situa\u00e7\u00e3o foi t\u00e3o grave que os representantes do Programa Mundial de Alimentos \u2013 PMA das Na\u00e7\u00f5es Unidas declararam que a falta de alimentos era compar\u00e1vel a um enorme tsunami silencioso que poderia afundar na fome 100 milh\u00f5es de pessoas. \u00c9 uma figura de imagem bem forte que d\u00e1 a dimens\u00e3o da crise.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013<\/strong> De que forma esta crise poderia ter sido evitada? H\u00e1 possibilidade de novas ocorr\u00eancias?<\/p>\n<p><strong>Altivo de Almeida Cunha \u2013<\/strong> Infelizmente, para muitos governos, planejar e prevenir crises s\u00e3o a\u00e7\u00f5es que geralmente ocorrem depois de desastres, e em muitos casos as li\u00e7\u00f5es s\u00f3 s\u00e3o aprendidas depois de trag\u00e9dias sucessivas e forte rea\u00e7\u00e3o da sociedade. A li\u00e7\u00e3o que deveria ser aprendida \u00e9 que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel depender estrategicamente apenas dos estoques mundiais, ou seja, contar somente com o com\u00e9rcio internacional. \u00c9 necess\u00e1rio que as na\u00e7\u00f5es tenham pol\u00edticas de seguran\u00e7a alimentar consistentes e tamb\u00e9m que tenham mecanismos de compensa\u00e7\u00e3o de pre\u00e7os para a popula\u00e7\u00e3o economicamente mais vulner\u00e1vel. Neste \u00faltimo caso, Brasil e M\u00e9xico s\u00e3o bons exemplos.<\/p>\n<p><strong>\u201c\u00c9 necess\u00e1rio que as na\u00e7\u00f5es tenham pol\u00edticas de seguran\u00e7a alimentar consistentes e mecanismos de compensa\u00e7\u00e3o de pre\u00e7os para a popula\u00e7\u00e3o economicamente mais vulner\u00e1vel\u201d<\/strong><\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013<\/strong> Qual \u00e9 o comportamento das ag\u00eancias internacionais diante da crise? De que forma as an\u00e1lises realizadas por estas organiza\u00e7\u00f5es sobre as causas do desequil\u00edbrio est\u00e3o relacionadas com os interesses das grandes companhias privadas?<\/p>\n<p><strong>Altivo de Almeida Cunha \u2013<\/strong> \u00d3rg\u00e3os internacionais importantes, como a FAO, o PMA, o Programa das Na\u00e7\u00f5es Unidas para o Meio Ambiente \u2013 PNUMA, o Banco Mundial e o Fundo Monet\u00e1rio Internacional \u2013 FMI, demonstraram na \u00e9poca da crise alimentar uma preocupa\u00e7\u00e3o muito grande por seu car\u00e1ter potencialmente devastador. Os l\u00edderes destas institui\u00e7\u00f5es chegaram a discutir uma esp\u00e9cie de pol\u00edtica alimentar global articulada, tese promovida pela Fran\u00e7a, que acabou sendo deixada de lado pela crise financeira. O alerta motivou a ic\u00f4nica revista The Economist a promover um importante debate em 2011 intitulado \u201c9 billion question\u201d, sobre os dilemas e alternativas para alimentar um mundo com 9 bilh\u00f5es de pessoas em 2050. Geralmente as organiza\u00e7\u00f5es internacionais analisam macropol\u00edticas e fluxo internacional, de forma que pouco se enfatizou sobre o papel das grandes companhias agroalimentares e dos grandes brokers que controlam de forma concentrada a oferta global de gr\u00e3os.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013<\/strong> As grandes corpora\u00e7\u00f5es privadas recebem subs\u00eddios nos seus pa\u00edses de origem e t\u00eam seus mercados protegidos pelos governos. De que forma esta situa\u00e7\u00e3o dialoga com o preceito neoliberal de abertura dos mercados transnacionais \u00e0 a\u00e7\u00e3o do capital?<\/p>\n<p>Altivo de Almeida Cunha &#8211; Os pa\u00edses desenvolvidos t\u00eam mecanismos de prote\u00e7\u00e3o aos seus sistemas agroalimentares nacionais h\u00e1 mais de 50 anos, privilegiando seus produtores e as atividades de suas corpora\u00e7\u00f5es privadas agroindustriais em escala global. As pol\u00edticas agr\u00edcolas dos Estados Unidos, da Uni\u00e3o Europeia e do Jap\u00e3o s\u00e3o baseadas em diversas fontes de est\u00edmulo que combinam est\u00edmulos tecnol\u00f3gicos e credit\u00edcios e elevados n\u00edveis de subs\u00eddio, lan\u00e7ando m\u00e3o de barreiras tribut\u00e1rias e n\u00e3o tribut\u00e1rias significativas. Poucos pa\u00edses e, dentro destes, poucas regi\u00f5es produtoras e, nestas, poucos produtores conseguem atuar no mercado mundial. O Brasil tem uma importante inser\u00e7\u00e3o nos mercados internacionais de commodities, mas o n\u00famero de produtores rurais brasileiros que t\u00eam acesso a este mercado \u00e9 bem restrito no universo de mais de 5 milh\u00f5es de estabelecimentos rurais brasileiros. O livre com\u00e9rcio internacional de alimentos \u00e9 apenas uma figura de linguagem, pois se trata de troca entre desiguais, com condi\u00e7\u00f5es desiguais que favorecem os atores economicamente mais poderosos.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013<\/strong> Qual \u00e9 a relev\u00e2ncia das perdas ocorridas nos processos de produ\u00e7\u00e3o e, principalmente, de distribui\u00e7\u00e3o de alimentos para a crise mencionada?<\/p>\n<p><strong>Altivo de Almeida Cunha \u2013<\/strong> Um extensivo estudo divulgado pela FAO recentemente, elaborado pelos maiores especialistas mundiais, e que contou com a participa\u00e7\u00e3o de um pesquisador brasileiro, o professor Walter Belik, da Unicamp, estimou que cerca de 1,3 bilh\u00e3o de toneladas de alimentos s\u00e3o perdidos por ano em todo o mundo. A estimativa \u00e9 dram\u00e1tica se considerarmos que este montante equivale a praticamente 30% do total de alimentos produzidos no mundo. Perde-se anualmente, em todos os tipos de produtos alimentares, um montante que \u00e9 6,6 vezes superior a toda a produ\u00e7\u00e3o anual brasileira de gr\u00e3os, uma das maiores do mundo.<\/p>\n<p>O estudo citado apontou que, no Brasil, a etapa p\u00f3s-colheita, que envolve estocagem, manuseio, pr\u00e9-processamento, embalagem e transporte, \u00e9 onde ocorre a maior parte das perdas de alimentos em termos quantitativos. Mas o que \u00e9 importante entender na quest\u00e3o das perdas agr\u00edcolas \u00e9 que estas n\u00e3o podem ser analisadas de forma segmentada. Produtos colhidos de forma incorreta, ou fora do tempo ideal de colheita, dificultam o acondicionamento; mal acondicionados, est\u00e3o expostos a maiores danos no transporte. Os maiores gargalos de infraestrutura produtiva brasileira referem-se \u00e0s condi\u00e7\u00f5es de armazenagem e transporte. Produtos que sofrem danos adicionais no transporte levam n\u00e3o s\u00f3 \u00e0 perda direta, quantitativa, mas a relevantes perdas qualitativas e parciais nos produtos, que perdem seu valor comercial ou t\u00eam diminu\u00edda sua vida \u00fatil; ou seja, t\u00eam aumentada a sua perecibilidade, levando a maiores perdas nas etapas de atacado, varejo e, principalmente, no consumo final. Perdem todos: os produtores, que t\u00eam sua renda rebaixada, perdem o atacado e o varejo e perdem os consumidores, atingindo mais duramente os mais pobres.<\/p>\n<p>Perde o meio ambiente e a natureza. As perdas podem ser medidas em toneladas de alimentos, mas tamb\u00e9m poderiam ser expressas em metros c\u00fabicos de \u00e1gua ou em kilocalorias. \u00c9 uma situa\u00e7\u00e3o que ningu\u00e9m ganha e todos perdem. Ainda assim, poucas s\u00e3o as iniciativas articuladas para enfrentar a quest\u00e3o, pois atacar a quest\u00e3o das perdas implica reestruturar a forma de organiza\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o. No entanto, \u00e9 interessante observar que a quest\u00e3o das perdas de alimentos chama mais aten\u00e7\u00e3o hoje nos pa\u00edses mais ricos da Europa e nos Estados Unidos do que no Brasil.<\/p>\n<p><strong>\u201cA mudan\u00e7a progressiva no padr\u00e3o de consumo alimentar, principalmente o aumento de consumo de prote\u00ednas animais, elevou estruturalmente a demanda por alimentos\u201d<\/strong><\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013<\/strong> Quais s\u00e3o as consequ\u00eancias da op\u00e7\u00e3o feita pelas pol\u00edticas agr\u00edcolas de visar o aumento da produtividade bruta por hectare cultivado em detrimento do incremento da oferta l\u00edquida de alimentos ao consumidor final?<\/p>\n<p>Altivo de Almeida Cunha \u2013 Esta \u00e9 uma quest\u00e3o fundamental, que espelha a preval\u00eancia de uma vis\u00e3o segmentada do sistema alimentar. O aumento progressivo e cont\u00ednuo da produtividade agr\u00edcola representa um enorme esfor\u00e7o tecnol\u00f3gico e organizacional, de trabalho, esfor\u00e7o econ\u00f4mico e energ\u00e9tico e de press\u00f5es ambientais que podem ter como consequ\u00eancias diretas a exclus\u00e3o de produtores, a diminui\u00e7\u00e3o da renda l\u00edquida rural, a concentra\u00e7\u00e3o fundi\u00e1ria e a perda de material gen\u00e9tico de esp\u00e9cies nativas ou crioulas. Este n\u00e3o precisa ser o pre\u00e7o da produ\u00e7\u00e3o de alimentos no mundo. A contradi\u00e7\u00e3o fundamental das estrat\u00e9gias baseadas unicamente no aumento da produtividade equivale \u00e0 imagem de um superatleta forjado para correr 100 metros em sete segundos que volta 30 metros e corre de novo para compensar as perdas. Valorizar a produ\u00e7\u00e3o e o consumo de alimentos locais atrav\u00e9s de sistemas adaptados de distribui\u00e7\u00e3o \u00e9 uma forma que est\u00e1 progressivamente sendo adotada na Europa para aumentar a oferta de alimentos de qualidade e diminuir perdas. \u00c9 necess\u00e1rio conjug\u00e1-la com maior efici\u00eancia produtiva, onde o ganho de produtividade \u00e9 um dos fatores, mas n\u00e3o o \u00fanico para atingir este objetivo.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013<\/strong> Que distin\u00e7\u00e3o pode ser feita entre perdas alimentares e desperd\u00edcio alimentar?<\/p>\n<p><strong>Altivo de Almeida Cunha \u2013<\/strong> Perdas de alimentos s\u00e3o resultado de limita\u00e7\u00f5es e falhas do processo de organiza\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o, distribui\u00e7\u00e3o e preparo destes produtos. Sempre existir\u00e1 uma taxa de perdas, enquanto o processo de produ\u00e7\u00e3o for um processo de crescimento biol\u00f3gico em condi\u00e7\u00f5es naturais baseadas no uso da terra. E esperamos que seja sempre assim. Alguns produtos originalmente agroindustriais mudaram sua base produtiva para a ind\u00fastria qu\u00edmica (por exemplo, ado\u00e7antes, corantes e em parte os tecidos), mas os produtos de base natural t\u00eam vantagens em termos de sa\u00fade e tamb\u00e9m em termos de representa\u00e7\u00e3o social e comunit\u00e1ria. Uma coisa \u00e9 tomar um bom caf\u00e9 com leite, ado\u00e7ado com rapadura. A outra \u00e9 tomar um caf\u00e9 descafeinado, com leite deslactosado e desnatado com ado\u00e7ante zero calorias\u2026<\/p>\n<p>O desperd\u00edcio alimentar \u00e9 resultado de atitudes e comportamentos, individuais ou coletivos, que envolvem o conhecimento de t\u00e9cnicas de aproveitamento e preparo dos alimentos, bem como o reconhecimento dos valores sociais dos alimentos. No Brasil, a Universidade Federal do Rio Grande do Sul implementou um curso pioneiro de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em sociologia da alimenta\u00e7\u00e3o que aborda de forma multidisciplinar estas quest\u00f5es. Na base do desperd\u00edcio, ou de sua redu\u00e7\u00e3o, est\u00e1 a identifica\u00e7\u00e3o dos valores dos alimentos, do esfor\u00e7o social e natural envolvido em sua produ\u00e7\u00e3o e das possibilidades de aproveitamento integral de suas propriedades. A quest\u00e3o do desperd\u00edcio \u00e9 tamb\u00e9m uma quest\u00e3o de respeito \u00e0 sociedade, de forma que o meu desperd\u00edcio \u00e9 a priva\u00e7\u00e3o do consumo do outro. \u00c9 interessante observar que sociedades com elevado \u00cdndice de Desenvolvimento Humano \u2013 IDH e que valorizam o desenvolvimento comunit\u00e1rio, como no caso dos pa\u00edses n\u00f3rdicos, s\u00e3o muito mais intolerantes com o desperd\u00edcio do que pa\u00edses pobres e desiguais.<\/p>\n<p><strong>\u201cA depend\u00eancia de alguns pa\u00edses com grande popula\u00e7\u00e3o de baixa renda dos estoques mundiais pressionou ainda mais o pre\u00e7o dos alimentos, com impactos perversos para consumidores de baixa renda\u201d<\/strong><\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013<\/strong> Grosso modo, quais s\u00e3o os alimentos mais afetados?<\/p>\n<p><strong>Altivo de Almeida Cunha \u2013<\/strong> Os produtos que s\u00e3o afetados por maiores perdas s\u00e3o aqueles que t\u00eam maior perecibilidade fisiol\u00f3gica e maior suscetibilidade \u00e0 manipula\u00e7\u00e3o, o que \u00e9 mais intenso nos produtos frescos, como hortigranjeiros e carnes. Um aspecto curioso \u00e9 que a quest\u00e3o da perecibilidade \u00e9 muito pouco explorada no caso dos produtos hortigranjeiros no Brasil. H\u00e1 algum tempo, desenvolvi com um agr\u00f4nomo da Ceasaminas, Gustavo Almeida, uma tabela experimental de perecibilidade de 34 frutos e hortali\u00e7as, baseada na taxa de respira\u00e7\u00e3o vegetal e na firmeza dos frutos, cientificamente mensuradas, e na intera\u00e7\u00e3o entre estes fatores. A ideia foi identificar quais produtos em condi\u00e7\u00f5es similares de \u201cprateleira\u201d s\u00e3o mais perec\u00edveis. Os produtos avaliados por este m\u00e9todo que t\u00eam maiores \u00edndices de perecibilidade s\u00e3o abacate, banana, morango, goiaba, couve-flor, p\u00eassego e mam\u00e3o. Os mais dur\u00e1veis s\u00e3o ab\u00f3bora, coco verde, abacaxi e pepino.<\/p>\n<p>A informa\u00e7\u00e3o \u00e9 relevante para os consumidores urbanos que perderam o conhecimento da rela\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica dos alimentos e pode embasar a\u00e7\u00f5es de educa\u00e7\u00e3o alimentar para evitar perdas e desperd\u00edcios, bem como auxiliar o desenvolvimento de formas mais eficientes para processar, distribuir, comercializar e consumir estes produtos.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013<\/strong> Quais s\u00e3o as principais alternativas para ampliar o acesso ao alimento e \u00e0 nutri\u00e7\u00e3o em nossa sociedade atual?<\/p>\n<p><strong>Altivo de Almeida Cunha \u2013<\/strong> Esta \u00e9 uma quest\u00e3o complexa e que envolve uma multiplicidade de a\u00e7\u00f5es, estrat\u00e9gias p\u00fablicas (n\u00e3o necessariamente estatais) e tamb\u00e9m de pol\u00edticas p\u00fablicas.<\/p>\n<p>Os programas de Seguran\u00e7a Alimentar na perspectiva ampliada (como define a FAO) envolvem iniciativas de promo\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o que incluem, al\u00e9m da quantidade, a valoriza\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o familiar e local, a produ\u00e7\u00e3o com manejo ambientalmente adequado, a sanidade e inocuidade dos alimentos e a busca da qualidade. Incluem tamb\u00e9m os programas de transfer\u00eancia condicionada de renda, como o Bolsa Fam\u00edlia, e uma s\u00e9rie de iniciativas de acesso f\u00edsico \u00e0 alimenta\u00e7\u00e3o, como sacol\u00f5es regulamentados nas cidades, restaurantes populares e os bancos de alimentos. Os bancos de alimentos representam uma estrat\u00e9gia que hoje tem difus\u00e3o mundial e s\u00e3o considerados um equipamento importante para o enfrentamento de crises econ\u00f4micas para popula\u00e7\u00f5es vulner\u00e1veis. S\u00f3 no Reino Unido, por exemplo, mais de meio milh\u00e3o de cidad\u00e3os s\u00e3o assistidos por bancos de alimentos. Outra estrat\u00e9gia fundamental da Seguran\u00e7a Alimentar s\u00e3o as iniciativas de educa\u00e7\u00e3o alimentar e promo\u00e7\u00e3o do consumo saud\u00e1vel. Enfim, h\u00e1 um grande rol de iniciativas, mas o aspecto fundamental \u00e9 que elas estejam articuladas sob um mesmo conceito ordenador, nucleador de Seguran\u00e7a Alimentar, para n\u00e3o incorrer no mesmo dilema do velocista que \u00e9 obrigado a voltar para recuperar o terreno perdido.<\/p>\n<p>Fonte &#8211; Luciano Gallas, EcoDebate de 01 de setembro de 2014)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201c\u00c9 uma situa\u00e7\u00e3o que ningu\u00e9m ganha e todos perdem. Ainda assim, poucas s\u00e3o as iniciativas articuladas para enfrentar a quest\u00e3o, pois atacar a quest\u00e3o das perdas implica reestruturar a forma de organiza\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o. 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