{"id":13459,"date":"2014-09-04T08:00:43","date_gmt":"2014-09-04T11:00:43","guid":{"rendered":"http:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/?p=13459"},"modified":"2014-09-04T13:26:15","modified_gmt":"2014-09-04T16:26:15","slug":"os-responsaveis-pelo-pato","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/os-responsaveis-pelo-pato\/","title":{"rendered":"Os respons\u00e1veis pelo pato"},"content":{"rendered":"<p>Trocando em mi\u00fados, internalizar externalidades significa responsabilizar os causadores do problema. \u201cSignifica que, em vez de todo mundo pagar o pato, que pague o pato quem \u00e9 respons\u00e1vel por ele\u201d, explica, didaticamente, o professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro Carlos Eduardo Frickmann Young, um estudioso da Economia do Meio Ambiente. Mas, se a teoria parece f\u00e1cil, a pr\u00e1tica depara-se com quest\u00f5es que fogem \u00e0 t\u00e9cnica e dependem da pol\u00edtica. Para ele, falta interesse em precificar os custos socioambientais, pois os projetos ficariam menos atraentes e com menor visibilidade.<\/p>\n<p>Young d\u00e1 como exemplo a crise h\u00eddrica. \u201cSe as externalidades envolvidas na quest\u00e3o da gest\u00e3o da \u00e1gua fossem incorporadas pelos governos estadual e municipais de S\u00e3o Paulo, o estado paulista estaria vivendo sob esse caos h\u00eddrico de hoje? N\u00e3o. Porque n\u00e3o d\u00e1 uma visibilidade t\u00e3o grande investir em efici\u00eancia de sistema e em servi\u00e7o ambiental, incluindo o reflorestamento das matas ciliares\u201d, afirma.<\/p>\n<p>Defensor do crescimento econ\u00f4mico, Young v\u00ea na inova\u00e7\u00e3o e na sociedade do conhecimento o caminho da economia verde \u2013 que n\u00e3o vencer\u00e1 o jogo sozinha, precisa ser estimulada por pol\u00edticas espec\u00edficas.<\/p>\n<p><strong>Internalizar as externalidades no pre\u00e7o dos produtos pesaria sobre os mais pobres, tornando os produtos e servi\u00e7os mais inacess\u00edveis a quem tem menor poder aquisitivo? E que impactos teria na infla\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>A externalidade n\u00e3o \u00e9 um custo inventado, ela est\u00e1 a\u00ed, ela existe. N\u00e3o \u00e9 o economista que inventa a externalidade, ele apenas a enxerga. A polui\u00e7\u00e3o, a falta d\u2019\u00e1gua, o esgoto, as consequ\u00eancias da mudan\u00e7a clim\u00e1tica, o c\u00e2ncer est\u00e3o a\u00ed. Isso para falar das externalidades negativas, depois podemos falar das positivas, como os servi\u00e7os ambientais. Em Economia Ambiental, o \u201cdesservi\u00e7o ambiental\u201d \u00e9 a externalidade negativa. Ent\u00e3o, quando falamos em medir a externalidade, estabelecendo como m\u00e9trica um pre\u00e7o de mercado, estou simplesmente vendo um problema e vou comparar com outro problema.<\/p>\n<p>A mensura\u00e7\u00e3o da externalidade \u00e9 uma tentativa de estabelecer um grau de relev\u00e2ncia dessa perda com outros valores econ\u00f4micos. E para isso a gente faz a valora\u00e7\u00e3o. Uma besteira, desculpe o termo, \u00e9 dizer que, com a valora\u00e7\u00e3o, se faz uma \u201ccommoditiza\u00e7\u00e3o\u201d da natureza, vamos transformar a natureza em um grande mercado que vai excluir os pobres. Balela. Nunca li um texto conceituado que mostrasse isso. A teoria diz: valora\u00e7\u00e3o da externalidade diz respeito a medir a import\u00e2ncia dessa perda. Porque, se esse custo existe, algu\u00e9m est\u00e1 pagando. Quem paga as externalidades do problema da mobilidade, pegando \u00f4nibus lotado em um superengarrafamento, n\u00e3o \u00e9 a pessoa que est\u00e1 usufruindo do ar condicionado no seu autom\u00f3vel. Uma colega sua, de um grande jornal de S\u00e3o Paulo, disse que, se houvesse um transporte p\u00fablico de qualidade que oferecesse o mesmo grau de conforto do carro, deixaria de us\u00e1-lo. \u00d3bvio: n\u00e3o existe transporte p\u00fablico que d\u00ea o mesmo grau de conforto do individual. Eu n\u00e3o conhe\u00e7o. Em qualquer lugar do mundo, voc\u00ea tem de andar, pegar fila, vai estar cheio na hora do rush\u2026 por isso preciso penalizar o transporte individual, para criar um benef\u00edcio para quem usa o p\u00fablico. Quem sofre as consequ\u00eancias das emiss\u00f5es, da mudan\u00e7a do clima, usualmente contribui muito pouco para esse problema.<\/p>\n<p><strong>Essa, inclusive, \u00e9 uma defini\u00e7\u00e3o de externalidade, certo?<\/strong><\/p>\n<p>Essa \u00e9 \u201ca\u201d defini\u00e7\u00e3o. Externalidade negativa significa que o custo \u00e9 socializado, \u00e9 pago por outros. A externalidade n\u00e3o \u00e9 paga com a internaliza\u00e7\u00e3o. O que se faz com a internaliza\u00e7\u00e3o \u00e9 responsabilizar o causador do problema. Internalizar externalidades significa que, em vez de todo mundo pagar o pato, que pague o pato quem \u00e9 respons\u00e1vel por ele.<\/p>\n<p>Se existe uma externalidade que afeta um determinado espa\u00e7o, como o geogr\u00e1fico, que afeta uma \u00e1rea da cidade, a externalidade est\u00e1 embutida no custo daquela \u00e1rea. Esse custo ser\u00e1 internalizado por quem vive na regi\u00e3o. Quem puder evitar esse custo o far\u00e1. A sociedade faz com que haja uma maior procura pela \u00e1rea sem externalidades negativas e uma menor procura pelas \u00e1reas com. Em uma sociedade na qual a distribui\u00e7\u00e3o de renda n\u00e3o \u00e9 homog\u00eanea, o indiv\u00edduo com maior disposi\u00e7\u00e3o a pagar optar\u00e1 por uma \u00e1rea com menos problema de mobilidade, polui\u00e7\u00e3o etc. Ou seja, as externalidades est\u00e3o embutidas no valor dos im\u00f3veis, no valor de alugu\u00e9is de \u00e1reas como a Zona Sul do Rio.<\/p>\n<p>A presen\u00e7a da externalidade deprecia os espa\u00e7os sociais. Um im\u00f3vel localizado pr\u00f3ximo a um lix\u00e3o custar\u00e1 bem menos que outro id\u00eantico, mas localizado longe do lix\u00e3o. A sociedade, de um jeito ou de outro, j\u00e1 precificou isso.<\/p>\n<p><strong>Ou seja, a precifica\u00e7\u00e3o j\u00e1 est\u00e1 acontecendo e prejudicando os mais pobres?<\/strong><\/p>\n<p>Pergunte a quem gasta 4 a 5 horas por dia no transporte, ou vive pr\u00f3ximo a um lix\u00e3o, ou perto do barulho dos avi\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>Mas, voltando \u00e0 pergunta inicial, se a gente calcula o valor da pegada h\u00eddrica, por exemplo, e embute esse valor no pre\u00e7o dos produtos, estes ficariam ainda mais inacess\u00edveis para os mais pobres, e isso n\u00e3o refor\u00e7aria a desigualdade?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o, ao contr\u00e1rio. Se eu estabele\u00e7o, por exemplo, uma restri\u00e7\u00e3o fiscal ao uso individual do autom\u00f3vel por ped\u00e1gio urbano, aumento do IPVA e cria\u00e7\u00e3o de taxa espec\u00edfica, eu penalizo o usu\u00e1rio do autom\u00f3vel. Contudo, o benefici\u00e1rio dessa medida seria toda a popula\u00e7\u00e3o que se move.<\/p>\n<p><strong>Mas vamos tomar como exemplo um produto que seja usado por todos, como a \u00e1gua, pois n\u00e3o \u00e9 todo mundo que tem autom\u00f3vel.<\/strong><\/p>\n<p>O autom\u00f3vel \u00e9 de poucos, mas a mobilidade \u00e9 de todos. Mas. o.k., voltando ao exemplo da \u00e1gua. Se fa\u00e7o um sistema de cobran\u00e7a pelo uso de \u00e1gua, \u00e9 verdade que as pessoas pagar\u00e3o mais pela \u00e1gua. Contudo, haver\u00e1 uma racionaliza\u00e7\u00e3o desse uso, com menor desperd\u00edcio, tornando o uso, do ponto de vista econ\u00f4mico, melhor. Os grandes desperdi\u00e7adores deixar\u00e3o de desperdi\u00e7ar. Uma pessoa que tem possibilidade de racionar vai faz\u00ea-lo. Isso considerando que a falta de \u00e1gua \u00e9 um problema. A\u00ed entra a hipocrisia da hist\u00f3ria. Usa-se o argumento de que haver\u00e1 um perdedor para justificar a n\u00e3o cobran\u00e7a, com isso o grande usu\u00e1rio fica isento disso. Busca, ent\u00e3o, a desculpa social de que o mais pobre ter\u00e1 de pagar mais caro.<\/p>\n<p>Vamos pensar no sistema de \u00e1gua como um todo, n\u00e3o apenas o abastecimento, mas tamb\u00e9m o saneamento, na hip\u00f3tese de haver uma cobran\u00e7a adequada pelo uso da \u00e1gua que inclu\u00edsse a disposi\u00e7\u00e3o dessa \u00e1gua. As pessoas pensam na \u00e1gua at\u00e9 a torneira, mas n\u00e3o depois que d\u00e3o a descarga. Ent\u00e3o, \u00e9 preciso pensar em uma cobran\u00e7a integrada.<\/p>\n<p>A \u00e1gua contaminada pelo esgoto, at\u00e9 chegar no mar, passa por \u00e1reas em que vivem as comunidades pobres. Quanto mais suja for a \u00e1rea, mais desvalorizada ser\u00e1 e mais pobre ser\u00e1 o residente que aceita morar l\u00e1. A polui\u00e7\u00e3o \u00e9 regressiva, ou seja, quem paga mais s\u00e3o os mais pobres. Se houver uma cobran\u00e7a que melhore a qualidade da \u00e1gua, quem vai se beneficiar \u00e9 quem est\u00e1 recebendo (sofrendo) a externalidade.<\/p>\n<p><strong>Precificar as externalidades, ao encarecer a economia marrom, far\u00e1 com que a economia verde se torne relativamente mais barata?<\/strong><\/p>\n<p>A primeira express\u00e3o da precifica\u00e7\u00e3o \u00e9 a medi\u00e7\u00e3o, que \u00e9 um avan\u00e7o, mas n\u00e3o \u00e9 suficiente: conhecer o problema n\u00e3o o resolve, apenas facilita que solu\u00e7\u00f5es sejam criadas. A segunda possibilidade \u00e9, de fato, a internaliza\u00e7\u00e3o da externalidade: eu estabele\u00e7o uma cobran\u00e7a sobre o dano que foi gerado, ou seja, cobro o respons\u00e1vel por isso. O que percebo \u00e9 que, sob o argumento falacioso de que internalizar a externalidade penaliza o pobre, acabo criando uma justificativa para manuten\u00e7\u00e3o do status quo, em que a perda para o mais pobre \u00e9 mais alta pela externalidade gerada que a eventual perda privada que ele ter\u00e1, pelo pre\u00e7o mais alto daquilo que vai consumir.<\/p>\n<p>Algu\u00e9m pode argumentar que, se eu considerar a internaliza\u00e7\u00e3o das externalidades, a estrutura de pre\u00e7os seria diferente. N\u00e3o estou preocupado com a infla\u00e7\u00e3o propriamente dita. Se todos os pre\u00e7os sobem \u00e0 mesma taxa e se o meu rendimento cresce \u00e0 mesma velocidade com que crescem os custos, eu fico igual, s\u00f3 muda o numer\u00e1rio, a quantidade de zeros que eu vou botar na conta. O problema s\u00e3o os pre\u00e7os relativos, os pre\u00e7os de um produto em rela\u00e7\u00e3o ao outro. \u00c9 disso que a gente est\u00e1 falando.<\/p>\n<p>Quando elevo o pre\u00e7o do combust\u00edvel, eu penalizo o consumidor do combust\u00edvel do autom\u00f3vel \u2013 e tamb\u00e9m quem produz o autom\u00f3vel. Mas, se essa medida \u00e9 eficaz para reduzir o uso do transporte que n\u00e3o de massa, eu terei um benef\u00edcio de ganho de mobilidade. Se o benef\u00edcio da redu\u00e7\u00e3o de gases poluentes atmosf\u00e9ricos, do tempo de deslocamento e do \u00edndice de congestionamento superar o custo privado do consumidor de combust\u00edvel e do produtor de autom\u00f3vel, essa pol\u00edtica \u00e9 \u00f3tima \u2013 o benef\u00edcio coletivo torna-se superior \u00e0 perda individual.<\/p>\n<p><strong>Desde que a gente consiga medir esse benef\u00edcio coletivo, para n\u00e3o ficar abstrato.<\/strong><\/p>\n<p>A valora\u00e7\u00e3o existe h\u00e1 50 anos, no m\u00ednimo. N\u00e3o h\u00e1 nada novo nisso. O Banco Mundial j\u00e1 lidava com essa hist\u00f3ria nos anos 1980.<\/p>\n<p><strong>Em que est\u00e1gio estamos nessas pesquisas? Avan\u00e7aram significativamente?<\/strong><\/p>\n<p>No mundo, sim; no Brasil avan\u00e7aram muito pouco. Por qu\u00ea? Porque h\u00e1 pouca demanda. N\u00e3o h\u00e1 interesse em medir externalidades, porque isso tornaria essas atividades menos atraentes. Caso se tornassem menos interessantes, os projetos alternativos ficariam mais atrativos. Vou pegar o caso do PAC. Houve interesse em medir as externalidades associadas aos grandes projetos de infraestrutura? N\u00e3o. Infelizmente n\u00f3s vivemos em um regime pol\u00edtico em que o poder se apresenta de uma maneira independente da quest\u00e3o t\u00e9cnica. Se as externalidades envolvidas na quest\u00e3o da gest\u00e3o da \u00e1gua fossem incorporadas pelos governos estadual e municipais de S\u00e3o Paulo, o estado paulista estaria vivendo sob esse caos h\u00eddrico de hoje? N\u00e3o. Porque n\u00e3o d\u00e1 uma visibilidade t\u00e3o grande investir em efici\u00eancia de sistema e em servi\u00e7o ambiental, incluindo o reflorestamento das matas ciliares.<\/p>\n<p>N\u00e3o sou cientista pol\u00edtico, n\u00e3o tenho dados, mas \u00e9 comum nas discuss\u00f5es sobre financiamento de campanhas pol\u00edticas atribuir um grande peso \u00e0s contribui\u00e7\u00f5es das construtoras. Se o seu objetivo \u00e9 maximizar receitas de campanhas pol\u00edticas, \u00e9 muito melhor que voc\u00ea fa\u00e7a grandes obras que tornem esse seu projeto atraente, para que essas empresas ligadas \u00e0s grandes obras financiem voc\u00ea.<\/p>\n<p>O pagamento por servi\u00e7o ambiental de pequenos produtores rurais n\u00e3o vai dar o mesmo retorno. Isso faz parte da agenda pol\u00edtica em todos os n\u00edveis da administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica brasileira. Se n\u00e3o h\u00e1 interesse em resolver o problema, n\u00e3o h\u00e1 interesse em medir o problema. Da\u00ed a falta de interesse na valora\u00e7\u00e3o das externalidades.<\/p>\n<p><strong>Em outros pa\u00edses onde os estudos se encontram mais avan\u00e7ados, n\u00e3o tem esse mesmo problema do interesse?<\/strong><\/p>\n<p>Em todos os pa\u00edses do mundo h\u00e1 problemas de interesse, contudo o grau \u00e9 menor. Onde as t\u00e9cnicas de valora\u00e7\u00e3o s\u00e3o mais empregadas \u00e9 justamente onde h\u00e1 sistemas de internaliza\u00e7\u00e3o das externalidades. Se vou estabelecer um sistema de ped\u00e1gio urbano, como existe em Londres, eu preciso precificar essa cobran\u00e7a. Onde existe, de fato, um mercado de carbono, como na Uni\u00e3o Europeia, eu preciso dar um pre\u00e7o \u00e0 tonelada de carbono. Existe uma necessidade de estimar o benef\u00edcio da pol\u00edtica para estabelecer o valor da cobran\u00e7a, como a do uso da \u00e1gua ou como a cobran\u00e7a pela disposi\u00e7\u00e3o do res\u00edduo s\u00f3lido. Em outros casos, aconteceu um vazamento de petr\u00f3leo, eu preciso estipular o valor da indeniza\u00e7\u00e3o a ser paga pelo respons\u00e1vel. E, principalmente, na an\u00e1lise de projetos como amplia\u00e7\u00e3o de um aeroporto, uma rodovia. Isso \u00e9 praxe nos pa\u00edses desenvolvidos. N\u00e3o existe a ingenuidade de que isso vai resolver o problema pol\u00edtico, mas colabora na tomada de decis\u00e3o para que a sociedade decida o que \u00e9 melhor para ela como um todo e n\u00e3o apenas para os indiv\u00edduos.<\/p>\n<p><strong>O Brasil re\u00fane base de dados suficiente para fazer estudos de valora\u00e7\u00e3o ambiental? A falta de dados impede avan\u00e7os maiores em pesquisas, estudos?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o tem interesse para isso. Por que o or\u00e7amento da \u00e1rea ambiental \u00e9 minguante em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s outras? Por que n\u00e3o temos um sistema efetivo de cobran\u00e7a pelo uso da \u00e1gua? Porque n\u00e3o interessa \u00e0 sociedade como um todo ou n\u00e3o interessa aos agentes p\u00fablicos? A\u00ed voc\u00ea ter\u00e1 de entrar em uma discuss\u00e3o que n\u00e3o \u00e9 minha especialidade, que \u00e9 a Ci\u00eancia Pol\u00edtica. Por que tivemos uma opera\u00e7\u00e3o da lei florestal contr\u00e1ria \u00e0s pesquisas de opini\u00e3o nitidamente para desenvolver o agroneg\u00f3cio, ignorando as suas externalidades? Por que os agentes p\u00fablicos n\u00e3o agem necessariamente em prol dos interesses coletivos e sim de lados espec\u00edficos? S\u00e3o quest\u00f5es para os cientistas pol\u00edticos. Por que temos esse problema de representa\u00e7\u00e3o torta no Congresso Nacional? Por que o tema ambiental aparece com muito mais import\u00e2ncia nos debates em geral da popula\u00e7\u00e3o e ao mesmo tempo \u00e9 t\u00e3o sub-representado pelo corpo legislativo brasileiro e no pr\u00f3prio Executivo? E aqui a minha medida \u00e9 o or\u00e7amento, que tem uma participa\u00e7\u00e3o relativa declinante nos gastos p\u00fablicos. E por que a sociedade permite isso? Eu tenho intui\u00e7\u00f5es, mas n\u00e3o sou a pessoa certa para responder a essas perguntas.<\/p>\n<p><strong>E al\u00e9m disso existe um pensamento econ\u00f4mico mainstream que n\u00e3o considera a economia com um subsistema do meio ambiente? Esse seria um outro fator?<\/strong><\/p>\n<p>O que voc\u00ea chama de pensamento econ\u00f4mico? O pensamento dos economistas ou o dos que tomam decis\u00f5es ligadas \u00e0 economia?<\/p>\n<p><strong>Os dois.<\/strong><\/p>\n<p>Mas s\u00e3o coisas diferentes. O economista n\u00e3o decide a economia. O economista n\u00e3o manda em nada.<\/p>\n<p><strong>N\u00e3o manda, mas na nossa \u00e1rea, por exemplo, existem pouqu\u00edssimos economistas que falam sobre sustentabilidade, \u00e9 at\u00e9 dif\u00edcil o jornalista encontrar fontes. Na maioria das vezes, o conhecimento econ\u00f4mico \u00e9 gerado como se n\u00e3o houvesse uma quest\u00e3o ambiental acima de tudo.<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 porque as pessoas n\u00e3o assistiram \u00e0 minha aula ou n\u00e3o leram o que escrevi \u2013 digo isso como um dos economistas que falam sobre sustentabilidade \u2013 que v\u00e3o tomar a decis\u00e3o que tomaram. Elas v\u00e3o continuar tomando a mesma decis\u00e3o, porque n\u00e3o levam isso em considera\u00e7\u00e3o. A sociedade opta por ter um carro mais barato. Eu n\u00e3o vi nenhuma manifesta\u00e7\u00e3o p\u00fablica ou protesto contra a redu\u00e7\u00e3o do IPI do autom\u00f3vel, voc\u00eas viram?<\/p>\n<p><strong>N\u00e3o, s\u00f3 no meio ambiental mesmo \u00e9 que houve cr\u00edticas.<\/strong><\/p>\n<p>Os economistas que eu conhe\u00e7o que lidam com a quest\u00e3o ambiental s\u00e3o contra a redu\u00e7\u00e3o do IPI para o autom\u00f3vel e o subs\u00eddio \u00e0 gasolina. Eu n\u00e3o conhe\u00e7o um \u00fanico que seja favor\u00e1vel, e isso n\u00e3o impediu que a medida fosse tomada por raz\u00f5es inclusive eleitorais. Mas n\u00e3o \u00e9 por causa do \u201cpensamento econ\u00f4mico\u201d. Na verdade, n\u00e3o existe \u201co\u201c pensamento econ\u00f4mico, a Economia \u00e9 um campo de debate de ideias. Isso \u00e9 outra grande balela, as pessoas dizem que \u00e9 preciso ter uma \u201cmudan\u00e7a de paradigma\u201d, que \u201ct\u00eam de deixar de ser consumistas\u201d. T\u00e1, ent\u00e3o muda as pessoas. Se as pessoas n\u00e3o fossem t\u00e3o consumistas, os shoppings estariam menos cheios, \u00e9 verdade. Mas existe muita gente falando besteira em nome da Economia do Meio Ambiente, a come\u00e7ar da ideia de PIB, totalmente equivocada.<\/p>\n<p>O maior equ\u00edvoco \u00e9 achar que a economia verde vai reduzir o PIB. PIB n\u00e3o \u00e9 problema, PIB \u00e9 solu\u00e7\u00e3o. Quanto mais PIB, melhor, pode escrever a\u00ed. N\u00f3s s\u00f3 resolveremos problemas de sustentabilidade com aumento do PIB, ponto-final. Porque eu sei que aumento do PIB, Produto Interno Bruto, significa aumento da atividade econ\u00f4mica. Como eu aumento a atividade econ\u00f4mica? Com mais emprego e com mais produtividade. Eu quero pleno emprego e quero aumento da produtividade. Mas quero um aumento de produtividade que resulte na maior gera\u00e7\u00e3o de valor pelo menor uso de recurso, uma economia cada vez mais desmaterializada, que \u00e9 a economia do conhecimento, da inova\u00e7\u00e3o. Eu quero que o PIB aumente e n\u00e3o diminua.<\/p>\n<p><strong>Entra na quest\u00e3o da qualidade do PIB?<\/strong><\/p>\n<p>Exatamente, o PIB n\u00e3o deve ser maior apenas, precisa ser melhor.<\/p>\n<p><strong>E como \u00e9 que se ganha esse debate na sociedade?<\/strong><\/p>\n<p>Mostrando que o caminho da economia verde gera mais renda e melhor emprego que o caminho da economia marrom. Inclusive tenho um trabalho sobre isso (leia artigo)<\/p>\n<p><strong>Seria mostrando as externalidades positivas da economia verde, em vez de s\u00f3 mostrar as negativas da economia marrom?<\/strong><\/p>\n<p>Exatamente. Se eu considerar as consequ\u00eancias negativas do caminho predat\u00f3rio e mostrar as possibilidades de empregabilidade do caminho alternativo de uma economia cada vez mais baseada em conhecimento e cada vez menos em extra\u00e7\u00e3o predat\u00f3ria de recursos naturais, mais atividades vou gerar. Vou gerar mais empregos e de melhor qualidade. E, segundo a minha conta, fazendo uma simula\u00e7\u00e3o para a economia brasileira, isso bate.<\/p>\n<p>A economia verde gera melhor PIB. E gera mais PIB atrav\u00e9s da inova\u00e7\u00e3o. A economia verde \u00e9 aquela que incorpora o conhecimento e os servi\u00e7os na atividade econ\u00f4mica. O que gera mais emprego? Ocupar predatoriamente o espa\u00e7o urbano em um modelo de habita\u00e7\u00e3o permitindo que se construa casas de qualquer jeito nas encostas, ou um grande plano nacional de recupera\u00e7\u00e3o e reconstru\u00e7\u00e3o da cidade, com estrutura adequada e saneamento? Se eu for reconstruir a cidade, vou gerar emprego pra caramba e uma externalidade melhor.<\/p>\n<p>O que gera mais emprego? Uma agricultura predat\u00f3ria com maior uso poss\u00edvel de \u00e1rea e de agrot\u00f3xicos, altamente mecanizada, ou uma agricultura na qual a m\u00e3o de obra volta a ser valorizada, com maior intensidade de trabalho? Ah, o produto org\u00e2nico \u00e9 mais caro. Claro, ele tem maior valor agregado, ele adiciona mais no processo. Ele adiciona externalidade positiva.<\/p>\n<p>O caso da ind\u00fastria: vamos nos especializar em commodities intensivas em emiss\u00e3o, ou em produtos intensivos em tecnologia e m\u00e3o de obra? A Europa n\u00e3o quer produzir qualquer coisa, ela manda pra China. Isso n\u00e3o tornou a economia europeia menos industrializada. O PIB n\u00e3o est\u00e1 caindo por isso.<\/p>\n<p><strong>E o papel do poder p\u00fablico nisso?<\/strong><\/p>\n<p>Economia verde, na minha opini\u00e3o, \u00e9 um caminho alternativo, uma possibilidade que n\u00e3o vai acontecer espontaneamente. Ela precisa ser induzida, precisa de pol\u00edticas espec\u00edficas, incluindo a internaliza\u00e7\u00e3o das externalidades, que levem a uma produ\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica com maior agrega\u00e7\u00e3o de valor atrav\u00e9s da incorpora\u00e7\u00e3o da inova\u00e7\u00e3o e do conhecimento no processo produtivo. Produtos que n\u00e3o ser\u00e3o os mais baratos, mas ser\u00e3o melhores.<\/p>\n<p>Carlos Eduardo Frickmann Young \u00e9 professor associado do Instituto de Economia da UFRJ e pesquisador do Instituto Nacional de Ci\u00eancia e Tecnologia em Pol\u00edticas P\u00fablicas, Estrat\u00e9gias e Desenvolvimento na linha que contempla biodiversidade, recursos naturais e culturais. Publicou diversos trabalhos sobre com\u00e9rcio e meio ambiente, economia do desmatamento e valora\u00e7\u00e3o de recursos naturais.<\/p>\n<p>Fonte &#8211; Am\u00e1lia Safatle e Magali Cabral, P\u00e1gina 22 de 01 de setembro de 2014<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Trocando em mi\u00fados, internalizar externalidades significa responsabilizar os causadores do problema. \u201cSignifica que, em vez de todo mundo pagar o pato, que pague o pato quem \u00e9 respons\u00e1vel por ele\u201d, explica, didaticamente, o professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro Carlos Eduardo Frickmann Young, um estudioso da Economia do Meio Ambiente. 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