{"id":13461,"date":"2014-09-04T10:00:03","date_gmt":"2014-09-04T13:00:03","guid":{"rendered":"http:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/?p=13461"},"modified":"2014-09-04T13:28:52","modified_gmt":"2014-09-04T16:28:52","slug":"saindo-das-sombras","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/saindo-das-sombras\/","title":{"rendered":"Saindo das sombras"},"content":{"rendered":"<p><strong>Acrescentar o custo das externalidades ao pre\u00e7o dos bens e servi\u00e7os \u00e9 solu\u00e7\u00e3o para conter a explora\u00e7\u00e3o dos recursos naturais e promover a equidade social. Ou n\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>No meio econ\u00f4mico, o professor da Escola de Economia de Paris, Thomas Piketty (O livro em portugu\u00eas dever\u00e1 ser lan\u00e7ado no Brasil pela Editora Intr\u00ednseca em novembro), com o seu O Capital no S\u00e9culo XXI, jogou luz sobre os mecanismos financeiros globais e seus processos de apropria\u00e7\u00e3o, descortinando as responsabilidades pelo aumento da desigualdade no mundo. Ou seriam desigualdades, no plural? No meio ecol\u00f3gico, sim. Afinal, os menos aquinhoados na distribui\u00e7\u00e3o da renda tamb\u00e9m s\u00e3o os que mais \u201cpagam\u201d pelas externalidades negativas ambientais. Eventos decorrentes do aquecimento global, como inunda\u00e7\u00f5es, seca, avan\u00e7o dos oceanos, furac\u00f5es, entre outros, v\u00e3o desabrigar, ferir e at\u00e9 matar, sobretudo, aqueles que n\u00e3o tiverem condi\u00e7\u00f5es materiais para se adaptar a tais fen\u00f4menos (mais em \u201cPerdas e danos\u201d). Nesse caso, \u00e9 urgente n\u00e3o s\u00f3 distribuir melhor a renda, mas conter a degrada\u00e7\u00e3o do meio ambiente. Como?<\/p>\n<p>Precificar todas as externalidades e incorporar este custo no valor final dos bens e servi\u00e7os \u00e9, para muitos, o caminho mais vi\u00e1vel por ser compat\u00edvel com a l\u00f3gica capitalista. De qualquer modo, a sociedade j\u00e1 \u00e9 indistintamente cobrada ao ter de enfrentar, por exemplo, congestionamentos di\u00e1rios, mesmo aqueles que s\u00e3o usu\u00e1rios do transporte p\u00fablico. Ou falta de \u00e1gua, mesmo aqueles que s\u00e3o usu\u00e1rios comedidos e conscientes.<\/p>\n<p>Mais justo seria cobrar apenas de quem contribui para agravar o problema. Como tamb\u00e9m geram impactos negativos, os pobres n\u00e3o seriam de novo os mais penalizados? De onde tirar dinheiro para pagar mais por possuir e usar um autom\u00f3vel, ou para tomar um banho mais demorado? Ningu\u00e9m afirma que a internaliza\u00e7\u00e3o das externalidades no custo das coisas \u00e9 100% justa. Ali\u00e1s, fortes argumenta\u00e7\u00f5es contr\u00e1rias n\u00e3o faltam.<\/p>\n<p>Bem antes de o livro de Piketty chegar \u00e0s livrarias e se tornar best-seller (A edi\u00e7\u00e3o em ingl\u00eas ficou v\u00e1rios dias em primeiro lugar na lista dos mais vendidos da Amazon), economistas como a pesquisadora e palestrante Kate Raworth j\u00e1 inclu\u00edam o tema do combate \u00e0 desigualdade nos debates sobre as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e os limites planet\u00e1rios. Uma das suas mensagens do relat\u00f3rio Podemos viver dentro de um donut?, apresentado em 2012 pela rede Oxfam (Confedera\u00e7\u00e3o internacional de 17 organiza\u00e7\u00f5es que atuam em rede em 94 pa\u00edses \u2013 visando construir um futuro livre da injusti\u00e7a e da pobreza), durante a Rio+20, dizia que a riqueza extrema \u00e9 algo t\u00e3o cr\u00edtico quanto a pobreza extrema.<\/p>\n<p>Na \u00e9poca, a pesquisadora falava que o grande desafio para combater essa desigualdade era a cria\u00e7\u00e3o de um sistema de governan\u00e7a para fronteiras planet\u00e1rias e sociais em n\u00edvel internacional [Leia a entrevista completa]. Passados dois anos, continua tudo na mesma. \u201cOs processos de apropria\u00e7\u00e3o de renda por meio dos grandes mecanismos financeiros mant\u00eam-se em fluxo planet\u00e1rio, e n\u00e3o h\u00e1 um sistema de governan\u00e7a equivalente\u201d, comenta o economista, professor da p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o na Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica de S\u00e3o Paulo (PUC-SP), Ladislau Dowbor.<\/p>\n<p><strong>Pre\u00e7o mentiroso<\/strong><\/p>\n<p>\u00c0 primeira vista, somar ao pre\u00e7o dos bens e servi\u00e7os o respectivo custo das externalidades ambientais negativas \u2013 o que se chama de precificar ou internalizar as externalidades \u2013 provocaria ainda mais desigualdade de renda. S\u00f3 que n\u00e3o.<\/p>\n<p>Por exemplo, para o pre\u00e7o de um hamb\u00farguer ser mais realista precisaria embutir os gastos com tratamentos de obesidade e doen\u00e7as cr\u00f4nicas provocadas pela carne vermelha, os custos da destina\u00e7\u00e3o dos res\u00edduos gerados, o valor da \u00e1gua usada na produ\u00e7\u00e3o desde a irriga\u00e7\u00e3o dos gr\u00e3os que alimentaram o gado at\u00e9 a produ\u00e7\u00e3o das embalagens, a perda de biodiversidade com a derrubada de florestas para implanta\u00e7\u00e3o de pastagens, a contamina\u00e7\u00e3o por agrot\u00f3xicos etc.<\/p>\n<p>O colunista do jornal The New York Times, Mark Bittman, no artigo \u201cThe true cost of a burger\u201d [Acesse o artigo] apresenta algumas contas e conclui: contando-se apenas as externalidades negativas mais f\u00e1ceis de calcular, o pre\u00e7o de um hamb\u00farguer, que nos Estados Unidos est\u00e1 custando em m\u00e9dia US$ 4,49, deveria subir entre 68 centavos de d\u00f3lar e US$ 2,90.<\/p>\n<p>Mesmo que dobre de pre\u00e7o, os mais ricos continuar\u00e3o comendo hamb\u00farguer e permanecer\u00e3o ricos. Aos mais pobres, por\u00e9m, o lanche parecer\u00e1 mais \u201cindigesto\u201d. A tend\u00eancia, portanto, \u00e9 a procura por fast food diminuir, o que, em \u00faltima an\u00e1lise, pode ser muito bom para a sa\u00fade dos ex-consumidores e do planeta. Para recuperar a competitividade, toda a cadeia ligada ao neg\u00f3cio \u2013 desde agropecu\u00e1ria, ind\u00fastrias de alimenta\u00e7\u00e3o, varejo, fornecedores \u2013, em tese, teria de fazer valer os princ\u00edpios da sustentabilidade. Sem tantas externalidades negativas, o pre\u00e7o do hamb\u00farguer aos poucos se aproximaria novamente dos US$ 4,49. Se essa l\u00f3gica funcionar de fato, significa que o sistema econ\u00f4mico, tido como o grande vil\u00e3o do meio ambiente, \u00e9 capaz de gerar externalidade positiva por meio da monetiza\u00e7\u00e3o de itens intang\u00edveis.<\/p>\n<p>\u201cA internaliza\u00e7\u00e3o das externalidades negativas no sistema de pre\u00e7os, de fato, atinge os mais pobres por estrutura de custo, mas a melhoria da qualidade ambiental que se espera obter com a medida leva a uma equidade positiva\u201d, atesta o professor de Economia do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Ronaldo Ser\u00f4a da Motta. Segundo seu racioc\u00ednio, quanto maior a renda, maior o consumo de \u00e1gua, energia, turismo, combust\u00edveis etc. Ou seja, quem tem mais renda tende a consumir mais de tudo.<\/p>\n<p>Assim, grande parte da gera\u00e7\u00e3o de receita, seja com os aumentos dos pre\u00e7os, seja com a cobran\u00e7a de tributos ambientais, vai se originar das pessoas com n\u00edvel de renda mais alto. No entendimento de Ser\u00f4a da Motta, isso permite uma reciclagem dos recursos com o objetivo de amenizar, reverter ou anular os efeitos de aumento da desigualdade.<\/p>\n<p>Externalidade \u00e9 tudo aquilo que produz algum impacto negativo ou positivo sobre algu\u00e9m e que n\u00e3o entra no sistema de pre\u00e7os. O soci\u00f3logo Ricardo Abramovay, professor da Faculdade de Economia, Administra\u00e7\u00e3o e Contabilidade (FEA) da Universidade de S\u00e3o Paulo, usa a defini\u00e7\u00e3o de externalidades para mostrar como o regime de pre\u00e7o atual \u00e9 mentiroso. \u201cTemos de praticar pre\u00e7os realistas quanto ao custo que os produtos e servi\u00e7os imp\u00f5em \u00e0 sociedade e aos ecossistemas\u201d, defende. Para ilustrar, cita o caso das embalagens n\u00e3o retorn\u00e1veis de bebida. Quando a ind\u00fastria eliminou da vida social o custo de levar garrafas vazias ao dep\u00f3sito para trocar pelas cheias, n\u00e3o incorporou no pre\u00e7o das cervejas e dos refrigerantes o enorme gasto com energia em reciclagens de vidro, latas e PETs.<\/p>\n<p>Hoje tamb\u00e9m se comemora o pre\u00e7o mais popular do salm\u00e3o. \u201cMas quem vai arcar com o preju\u00edzo que as produ\u00e7\u00f5es ultraconcentradas de pescados est\u00e3o provocando aos ecossistemas?\u201d, questiona Abramovay. Carlos Eduardo Frickmann Young, professor do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UERJ), entrevistado desta edi\u00e7\u00e3o, tem uma boa resposta: \u201cO passivo ambiental de hoje \u00e9 o passivo do Estado amanh\u00e3\u201d. Ele atribui a autoria da frase ao colega Carlos Mussi, especialista em economia do setor p\u00fablico e diretor do escrit\u00f3rio da Comiss\u00e3o Econ\u00f4mica para a Am\u00e9rica Latina e o Caribe (Cepal) no Brasil. \u201cMussi quis dizer que, ao permitir um problema ambiental, estamos criando um problema para as contas p\u00fablicas, que ao final ser\u00e3o pagas por toda a sociedade\u201d, afirma.<\/p>\n<p>Os Estados Unidos acabam de criar um \u00f3rg\u00e3o de governo \u2013 U.S. Social and Behavioral Sciences Team \u2013 para fazer experimentos de economia comportamental com pol\u00edticas p\u00fablicas. A ideia \u00e9 documentar e comparar os impactos entre os v\u00e1rios modelos de pol\u00edticas p\u00fablicas<\/p>\n<p>A ocupa\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o urbano, segundo Young, \u00e9 outra esfera que sintetiza bem o problema dos \u201ccustos a posteriori\u201d. Todos sabem que melhor seria impedir a constru\u00e7\u00e3o nas encostas dos morros, dadas as chances de desmoronamentos, mas, por raz\u00f5es socioecon\u00f4micas, as ocupa\u00e7\u00f5es inadequadas persistem. No entanto, o custo de remo\u00e7\u00e3o dos moradores em situa\u00e7\u00e3o de risco \u00e9 muito mais alto do que impedir a ocupa\u00e7\u00e3o. Por isso, em sua opini\u00e3o, para avan\u00e7ar na quest\u00e3o ambiental, o Pa\u00eds tem de avan\u00e7ar simultaneamente na quest\u00e3o fiscal, impondo tributa\u00e7\u00f5es ambientais e precificando as externalidades negativas.<\/p>\n<p>Outro fen\u00f4meno que permite associar externalidades negativas ambientais \u00e0s desigualdades \u00e9 o do aquecimento da temperatura m\u00e9dia do planeta decorrente da mudan\u00e7a clim\u00e1tica. Por exigir uma solu\u00e7\u00e3o global, o professor do Departamento de Economia da PUC-RJ Sergio Besserman cr\u00ea que, entre todos, esse \u00e9 o problema mais grave.<\/p>\n<p>\u201cA mudan\u00e7a clim\u00e1tica ainda trar\u00e1 preju\u00edzos gigantescos, em dinheiro, sofrimento, perda de vidas. Esse custo se abater\u00e1 principalmente sobre as popula\u00e7\u00f5es pobres do planeta\u201d, enfatiza. Aproveitar toda a engrenagem do mercado para enfrentar a mudan\u00e7a clim\u00e1tica parece bem mais complicado do que calcular as externalidades negativas n\u00e3o computadas no pre\u00e7o de um hamb\u00farguer.<\/p>\n<p>Besserman explica que o mercado se orienta pelo sinal que os pre\u00e7os d\u00e3o, e os pre\u00e7os hoje n\u00e3o incluem emiss\u00f5es de gases de efeito estufa. \u201cO direito de emitir CO2 \u00e9 p\u00fablico e \u00e9 de gra\u00e7a.\u201d Segundo ele, o mercado s\u00f3 trabalhar\u00e1 a favor de uma solu\u00e7\u00e3o se, no pre\u00e7o de tudo, e n\u00e3o apenas de energia e transporte, estiver embutido um custo pelas emiss\u00f5es.<\/p>\n<p>E esse movimento tem de ser global. Caso contr\u00e1rio, um pa\u00eds que introduzir barreiras para emiss\u00f5es perder\u00e1 competitividade em rela\u00e7\u00e3o aos que n\u00e3o se mexerem. \u201cSe a Calif\u00f3rnia pro\u00edbe a produ\u00e7\u00e3o de algum bem poluente, e a Tail\u00e2ndia continua produzindo esse mesmo bem, a \u00fanica coisa que acontece \u00e9 a queda do n\u00edvel de emprego na Calif\u00f3rnia\u201d, afirma. \u201cO planeta continuar\u00e1 esquentando do mesmo jeito.\u201d<\/p>\n<p><strong>Solu\u00e7\u00e3o neoliberal?<\/strong><\/p>\n<p>Nem todo mundo cr\u00ea em uma solu\u00e7\u00e3o de mercado para a conserva\u00e7\u00e3o da natureza e equidade social. O jornalista e escritor ingl\u00eas George Monbiot diz no artigo <a href=\"http:\/\/www.monbiot.com\/2014\/07\/24\/the-pricing-of-everything\/\" target=\"_blank\"><strong>\u201cThe pricing of everything\u201d,<\/strong><\/a> publicado em seu blog e em sua coluna semanal no jornal The Guardian, que, embora a agenda do chamado \u201ccapital natural\u201d pare\u00e7a uma resposta \u00e0 crise ambiental, \u00e9 na verdade uma ilus\u00e3o. Para Monbiot, o colapso moral e ideol\u00f3gico do sistema capitalista neoliberal, retratado por Piketty, torna o momento prop\u00edcio para se inventar teorias e mecanismos de precifica\u00e7\u00e3o, sob o argumento de que \u00e9 poss\u00edvel salvar a natureza da degrada\u00e7\u00e3o. \u201cDepois de tanto mal causado \u00e0 natureza, o sistema capitalista neoliberal apresenta a solu\u00e7\u00e3o que salvar\u00e1 o mundo natural\u201d, ironiza.<\/p>\n<p>Entre v\u00e1rios exemplos concretos de como a introdu\u00e7\u00e3o de mecanismos de mercado pode acabar provocando mais externalidades negativas ambientais, o jornalista cita um caso que se passa nos arredores da cidade inglesa de Sheffield, onde uma floresta, a Smithy Wood, \u00e9 cortada por uma rodovia. Devido \u00e0 pol\u00edtica de compensa\u00e7\u00e3o ambiental, um grupo empresarial tenta construir um posto de servi\u00e7os \u00e0 beira da estrada. Para isso, prop\u00f5e derrubar parte da floresta e fazer a compensa\u00e7\u00e3o ambiental com plantio de algumas dezenas de milhares de mudas em outra regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Para Monbiot, essa \u00e9 uma consequ\u00eancia desastrosa que nasce da ideia de que a natureza \u00e9 negoci\u00e1vel. \u201cUma demanda como a de Smithy Wood seria impens\u00e1vel se n\u00e3o existisse o sistema de compensa\u00e7\u00f5es ambientais.\u201d<\/p>\n<p>Barbara Unm\u00fc\u00dfig, ambientalista alem\u00e3, presidente da Funda\u00e7\u00e3o Heinrich B\u00f6ll, encontra-se no rol dos cr\u00edticos da monetiza\u00e7\u00e3o. No estudo Monetizing Nature: taking precaution on a slipperyslope (em tradu\u00e7\u00e3o livre, o t\u00edtulo quer dizer que monetizar a natureza \u00e9 como andar em uma ladeira escorregadia, exige precau\u00e7\u00e3o), ela diz que o argumento de que raz\u00f5es econ\u00f4micas produziriam uma vontade pol\u00edtica de impedir a destrui\u00e7\u00e3o da natureza ou de facilitar a sua reabilita\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 necessariamente verdade.<\/p>\n<p>Em sua opini\u00e3o, se a diferen\u00e7a entre valora\u00e7\u00e3o e mercantiliza\u00e7\u00e3o \u00e9 clara na teoria, na pr\u00e1tica \u00e9 turva. Isto \u00e9, avalia\u00e7\u00f5es por si s\u00f3 podem n\u00e3o implicar riscos \u00e0 natureza. No entanto, a precifica\u00e7\u00e3o muda a forma como vemos e nos relacionamos com a natureza e pode abrir o caminho para a privatiza\u00e7\u00e3o dos servi\u00e7os ecossist\u00eamicos. \u201cTemos de abordar a monetiza\u00e7\u00e3o da natureza com grande cautela e n\u00e3o permitir o enfraquecimento do princ\u00edpio da precau\u00e7\u00e3o\u201d, adverte.<\/p>\n<p><strong>Via do meio<\/strong><\/p>\n<p>O ponto de vista da Pr\u00eamio Nobel de Economia de 2009, Elinor Ostrom, laureada por suas contribui\u00e7\u00f5es sobre as formas como as decis\u00f5es s\u00e3o tomadas fora dos mercados, \u00e9 o de que n\u00e3o se deve buscar uma solu\u00e7\u00e3o privada para os recursos naturais. Segundo relato de Guilherme Lichand (S\u00f3cio da M-Gov Brasil, consultoria em gest\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas), doutorando em Economia Pol\u00edtica e Governo na Universidade Harvard, a pesquisa da cientista pol\u00edtica Elinor Ostrom documentou que em v\u00e1rios casos, em particular para os pescadores de lagostas no Maine (EUA), os indiv\u00edduos inicialmente n\u00e3o consideram a externalidade em sua atividade. Ou seja, n\u00e3o acreditam que o recurso que retiram da natureza pertence ao conjunto da vizinhan\u00e7a e n\u00e3o s\u00f3 a ele, um conflito conhecido em Economia como \u201ca trag\u00e9dia dos comuns\u201d, envolvendo interesses individuais e o bem comum.<\/p>\n<p>Uma solu\u00e7\u00e3o seria aumentar o pre\u00e7o e compensar a comunidade pelas lagostas a menos no mar. Mas, ao fazer isso, o pescador monetiza tamb\u00e9m a sua culpa pela pesca, e o tiro pode sair pela culatra. \u201cPagamentos muitas vezes legitimam a explora\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica do recurso\u201d, explica Lichand.<\/p>\n<p>Elinor concluiu que uma gest\u00e3o mista, parte p\u00fablica e parte privada, com regras formais e informais, seria mais eficiente para a comunidade do Maine atingida pela externalidade provocada pela pesca. O pre\u00e7o internaliza uma parte da externalidade, e a gest\u00e3o p\u00fablica impede que a explora\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica desvinculada dos outros valores n\u00e3o incorporados no pre\u00e7o se legitime.<\/p>\n<p>\u201cPre\u00e7o n\u00e3o \u00e9 valor, \u00e9 uma intera\u00e7\u00e3o entre oferta e demanda que traduz a escassez relativa\u201d, explica o doutorando de Harvard. \u201cSe as pessoas estiverem preocupadas com valor e n\u00e3o apenas com escassez relativa, o pre\u00e7o nunca traduzir\u00e1 tudo o que uma lagosta dentro do mar vale para uma comunidade.\u201d<\/p>\n<p>Apesar das incertezas sobre o melhor caminho para diminuir o ritmo das externalidades ambientais e de seus impactos no aumento da desigualdade, a riqueza dos debates sobre o tema \u00e9 um sinal de que pelo menos as cortinas j\u00e1 se abriram para o problema.<\/p>\n<p>Leia mais sobre mecanismos de precifica\u00e7\u00e3o de bens sem valor de mercado <a href=\"http:\/\/www.pagina22.com.br\/?p=32602\" target=\"_blank\"><strong>aqui.<\/strong><\/a><\/p>\n<p>Fonte &#8211; Magali Cabral, P\u00e1gina 22 de 01 de setembro de 2014<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Acrescentar o custo das externalidades ao pre\u00e7o dos bens e servi\u00e7os \u00e9 solu\u00e7\u00e3o para conter a explora\u00e7\u00e3o dos recursos naturais e promover a equidade social. 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