{"id":13911,"date":"2015-01-16T17:00:30","date_gmt":"2015-01-16T20:00:30","guid":{"rendered":"http:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/?p=13911"},"modified":"2015-01-19T08:29:49","modified_gmt":"2015-01-19T11:29:49","slug":"aquecimento-global-e-inevitavel-e-6-bi-morrerao-diz-james-lovelock","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/aquecimento-global-e-inevitavel-e-6-bi-morrerao-diz-james-lovelock\/","title":{"rendered":"Aquecimento global \u00e9 inevit\u00e1vel e 6 bi morrer\u00e3o, diz James Lovelock"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"\" src=\"https:\/\/farm9.staticflickr.com\/8679\/16291187401_cd861e218d_z.jpg\" alt=\"\" width=\"605\" height=\"454\" \/><\/p>\n<p>Separe uns 10 minutos e leia este texto.<\/p>\n<p>James Lovelock, renomado cientista, diz que o aquecimento global \u00e9 irrevers\u00edvel &#8211; e que mais de 6 bilh\u00f5es de pessoas v\u00e3o morrer neste s\u00e9culo<\/p>\n<p>Aos 88 anos, depois de quatro filhos e uma carreira longa e respeitada como um dos cientistas mais influentes do s\u00e9culo 20, James Lovelock chegou a uma conclus\u00e3o desconcertante: a ra\u00e7a humana est\u00e1 condenada. &#8220;Gostaria de ser mais esperan\u00e7oso&#8221;, ele me diz em uma manh\u00e3 ensolarada enquanto caminhamos em um parque em Oslo (Noruega), onde o estudioso far\u00e1 uma palestra em uma universidade. Lovelock \u00e9 baixinho, invariavelmente educado, com cabelo branco e \u00f3culos redondos que lhe d\u00e3o ares de coruja. Seus passos s\u00e3o gingados; sua mente, v\u00edvida; seus modos, tudo menos pessimistas. Ali\u00e1s, a chegada dos Quatro Cavaleiros do Apocalipse &#8211; guerra, fome, pestil\u00eancia e morte &#8211; parece deix\u00e1-lo animado. &#8220;Ser\u00e1 uma \u00e9poca sombria&#8221;, reconhece. &#8220;Mas, para quem sobreviver, desconfio que v\u00e1 ser bem emocionante.&#8221;<\/p>\n<p>Na vis\u00e3o de Lovelock, at\u00e9 2020, secas e outros extremos clim\u00e1ticos ser\u00e3o lugar-comum. At\u00e9 2040, o Saara vai invadir a Europa, e Berlim ser\u00e1 t\u00e3o quente quanto Bagd\u00e1. Atlanta acabar\u00e1 se transformando em uma selva de trepadeiras kudzu. Phoenix se tornar\u00e1 um lugar inabit\u00e1vel, assim como partes de Beijing (deserto), Miami (eleva\u00e7\u00e3o do n\u00edvel do mar) e Londres (enchentes). A falta de alimentos far\u00e1 com que milh\u00f5es de pessoas se dirijam para o norte, elevando as tens\u00f5es pol\u00edticas. &#8220;Os chineses n\u00e3o ter\u00e3o para onde ir al\u00e9m da Sib\u00e9ria&#8221;, sentencia Lovelock. &#8220;O que os russos v\u00e3o achar disso? Sinto que uma guerra entre a R\u00fassia e a China seja inevit\u00e1vel.&#8221; Com as dificuldades de sobreviv\u00eancia e as migra\u00e7\u00f5es em massa, vir\u00e3o as epidemias. At\u00e9 2100, a popula\u00e7\u00e3o da Terra encolher\u00e1 dos atuais 6,6 bilh\u00f5es de habitantes para cerca de 500 milh\u00f5es, sendo que a maior parte dos sobreviventes habitar\u00e1 altas latitudes &#8211; Canad\u00e1, Isl\u00e2ndia, Escandin\u00e1via, Bacia \u00c1rtica.<\/p>\n<p>At\u00e9 o final do s\u00e9culo, segundo o cientista, o aquecimento global far\u00e1 com que zonas de temperatura como a Am\u00e9rica do Norte e a Europa se aque\u00e7am quase 8 graus Celsius &#8211; quase o dobro das previs\u00f5es mais prov\u00e1veis do relat\u00f3rio mais recente do Painel Intergovernamental sobre a Mudan\u00e7a Clim\u00e1tica, a organiza\u00e7\u00e3o sancionada pela ONU que inclui os principais cientistas do mundo. &#8220;Nosso futuro&#8221;, Lovelock escreveu, &#8220;\u00e9 como o dos passageiros em um barquinho de passeio navegando tranq\u00fcilamente sobre as cataratas do Niagara, sem saber que os motores em breve sofrer\u00e3o pane&#8221;. E trocar as l\u00e2mpadas de casa por aquelas que economizam energia n\u00e3o vai nos salvar. Para Lovelock, diminuir a polui\u00e7\u00e3o dos gases respons\u00e1veis pelo efeito estufa n\u00e3o vai fazer muita diferen\u00e7a a esta altura, e boa parte do que \u00e9 considerado desenvolvimento sustent\u00e1vel n\u00e3o passa de um truque para tirar proveito do desastre. &#8220;Verde&#8221;, ele me diz, s\u00f3 meio de piada, &#8220;\u00e9 a cor do mofo e da corrup\u00e7\u00e3o.&#8221;<\/p>\n<p>Se tais previs\u00f5es sa\u00edssem da boca de qualquer outra pessoa, daria para rir delas como se fossem devaneios. Mas n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o f\u00e1cil assim descartar as id\u00e9ias de Lovelock. Na posi\u00e7\u00e3o de inventor, ele criou um aparelho que ajudou a detectar o buraco crescente na camada de oz\u00f4nio e que deu in\u00edcio ao movimento ambientalista da d\u00e9cada de 1970. E, na posi\u00e7\u00e3o de cientista, apresentou a teoria revolucion\u00e1ria conhecida como Gaia &#8211; a id\u00e9ia de que nosso planeta \u00e9 um superorganismo que, de certa maneira, est\u00e1 &#8220;vivo&#8221;. Essa vis\u00e3o hoje serve como base a praticamente toda a ci\u00eancia clim\u00e1tica. Lynn Margulis, bi\u00f3loga pioneira na Universidade de Massachusetts (Estados Unidos), diz que ele \u00e9 &#8220;uma das mentes cient\u00edficas mais inovadoras e rebeldes da atualidade&#8221;. Richard Branson, empres\u00e1rio brit\u00e2nico, afirma que Lovelock o inspirou a gastar bilh\u00f5es de d\u00f3lares para lutar contra o aquecimento global. &#8220;Jim \u00e9 um cientista brilhante que j\u00e1 esteve certo a respeito de muitas coisas no passado&#8221;, diz Branson. E completa: &#8220;Se ele se sente pessimista a respeito do futuro, \u00e9 importante para a humanidade prestar aten\u00e7\u00e3o.&#8221;<\/p>\n<p>Lovelock sabe que prever o fim da civiliza\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 uma ci\u00eancia exata. &#8220;Posso estar errado a respeito de tudo isso&#8221;, ele admite. &#8220;O problema \u00e9 que todos os cientistas bem intencionados que argumentam que n\u00e3o estamos sujeitos a nenhum perigo iminente baseiam suas previs\u00f5es em modelos de computador. Eu me baseio no que realmente est\u00e1 acontecendo.&#8221;<\/p>\n<p>Quando voc\u00ea se aproxima da casa de Lovelock em Devon, uma \u00e1rea rural no sudoeste da Inglaterra, a placa no port\u00e3o de metal diz, claramente: &#8220;Esta\u00e7\u00e3o Experimental de Coombe Mill. Local de um novo h\u00e1bitat. Por favor, n\u00e3o entre nem incomode&#8221;.<\/p>\n<p>Depois de percorrer algumas centenas de metros em uma alameda estreita, ao lado de um moinho antigo, fica uma casinha branca com telhado de ard\u00f3sia onde Lovelock mora com a segunda mulher, Sandy, uma norte-americana, e seu filho mais novo, John, de 51 anos e que tem incapacidade leve. \u00c9 um cen\u00e1rio digno de conto de fadas, cercado de 14 hectares de bosques, sem hortas nem jardins com planejamento paisag\u00edstico. Parcialmente escondida no bosque fica uma est\u00e1tua em tamanho natural de Gaia, a deusa grega da Terra, em homenagem \u00e0 qual James Lovelock batizou sua teoria inovadora.<\/p>\n<p>A maior parte dos cientistas trabalha \u00e0s margens do conhecimento humano, adicionando, aos poucos, nova informa\u00e7\u00f5es para a nossa compreens\u00e3o do mundo. Lovelock \u00e9 um dos poucos cujas id\u00e9ias fomentaram, al\u00e9m da revolu\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, tamb\u00e9m a espiritual. &#8220;Os futuros historiadores da ci\u00eancia considerar\u00e3o Lovelock como o homem que inspirou uma mudan\u00e7a digna de Cop\u00e9rnico na maneira como nos enxergamos no mundo&#8221;, prev\u00ea Tim Lenton, pesquisador de clima na Universidade de East Anglia, na Inglaterra. Antes de Lovelock aparecer, a Terra era considerada pouco mais do que um peda\u00e7o de pedra aconchegante que dava voltas em torno do Sol. De acordo com a sabedoria em voga, a vida evoluiu aqui porque as condi\u00e7\u00f5es eram adequadas: n\u00e3o muito quente nem muito frio, muita \u00e1gua. De algum modo, as bact\u00e9rias se transformaram em organismos multicelulares, os peixes sa\u00edram do mar e, pouco tempo depois, surgiu Britney Spears.<\/p>\n<p>Na d\u00e9cada de 1970, Lovelock virou essa id\u00e9ia de cabe\u00e7a para baixo com uma simples pergunta: Por que a Terra \u00e9 diferente de Marte e de V\u00eanus, onde a atmosfera \u00e9 t\u00f3xica para a vida? Em um arroubo de inspira\u00e7\u00e3o, ele compreendeu que nossa atmosfera n\u00e3o foi criada por eventos geol\u00f3gicos aleat\u00f3rios, mas sim devido \u00e0 efus\u00e3o de tudo que j\u00e1 respirou, cresceu e apodreceu. Nosso ar &#8220;n\u00e3o \u00e9 meramente um produto biol\u00f3gico&#8221;, James Lovelock escreveu. &#8220;\u00c9 mais prov\u00e1vel que seja uma constru\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica: uma extens\u00e3o de um sistema vivo feito para manter um ambiente espec\u00edfico.&#8221; De acordo com a teoria de Gaia, a vida \u00e9 participante ativa que ajuda a criar exatamente as condi\u00e7\u00f5es que a sustentam. \u00c9 uma bela id\u00e9ia: a vida que sustenta a vida. Tamb\u00e9m estava bem em sintonia com o tom p\u00f3s-hippie dos anos 70. Lovelock foi rapidamente adotado como guru espiritual, o homem que matou Deus e colocou o planeta no centro da experi\u00eancia religiosa da Nova Era. O maior erro de sua carreira, ali\u00e1s, n\u00e3o foi afirmar que o c\u00e9u estava caindo, mas deixar de perceber que estava. Em 1973, depois de ser o primeiro a descobrir que os clorofluocarbonetos (CFCs), um produto qu\u00edmico industrial, tinham polu\u00eddo a atmosfera, Lovelock declarou que a acumula\u00e7\u00e3o de CFCs &#8220;n\u00e3o apresentava perigo conceb\u00edvel&#8221;. De fato, os CFCs n\u00e3o eram t\u00f3xicos para a respira\u00e7\u00e3o, mas estavam abrindo um buraco na camada de oz\u00f4nio. Lovelock rapidamente revisou sua opini\u00e3o, chamando aquilo de &#8220;uma das minhas maiores bolas fora&#8221;, mas o erro pode ter lhe custado um pr\u00eamio Nobel.<\/p>\n<p>No in\u00edcio, ele tamb\u00e9m n\u00e3o considerou o aquecimento global como uma amea\u00e7a urgente ao planeta. &#8220;Gaia \u00e9 uma vagabunda durona&#8221;, ele explica com freq\u00fc\u00eancia, tomando emprestada uma frase cunhada por um colega. Mas, h\u00e1 alguns anos, preocupado com o derretimento acelerado do gelo no \u00c1rtico e com outras mudan\u00e7as relacionadas ao clima, ele se convenceu de que o sistema de piloto autom\u00e1tico de Gaia est\u00e1 seriamente desregulado, tirado dos trilhos pela polui\u00e7\u00e3o e pelo desmatamento. Lovelock acredita que o planeta vai recuperar seu equil\u00edbrio sozinho, mesmo que demore milh\u00f5es de anos. Mas o que realmente est\u00e1 em risco \u00e9 a civiliza\u00e7\u00e3o. &#8220;\u00c9 bem poss\u00edvel considerar seriamente as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas como uma resposta do sistema que tem como objetivo se livrar de uma esp\u00e9cie irritante: n\u00f3s, os seres humanos&#8221;, Lovelock me diz no pequeno escrit\u00f3rio que montou em sua casa. &#8220;Ou pelo menos fazer com que diminua de tamanho.&#8221;<\/p>\n<p>Se voc\u00ea digitar &#8220;gaia&#8221; e &#8220;religion&#8221; no Google, vai obter 2,36 milh\u00f5es de p\u00e1ginas &#8211; praticantes de wicca, viajantes espirituais, massagistas e curandeiros sexuais, todos inspirados pela vis\u00e3o de Lovelock a respeito do planeta. Mas se voc\u00ea perguntar a ele sobre cultos pag\u00e3os, ele responde com uma careta: n\u00e3o tem interesse na espiritualidade desmiolada nem na religi\u00e3o organizada, principalmente quando coloca a exist\u00eancia humana acima de tudo o mais. Em Oxford, certa vez ele se levantou e repreendeu Madre Teresa por pedir \u00e0 plat\u00e9ia que cuidasse dos pobres e &#8220;deixasse que Deus tomasse conta da Terra&#8221;. Como Lovelock explicou a ela, &#8220;se n\u00f3s, as pessoas, n\u00e3o respeitarmos a Terra e n\u00e3o tomarmos conta dela, podemos ter certeza de que ela, no papel de Gaia, vai tomar conta de n\u00f3s e, se necess\u00e1rio for, vai nos eliminar&#8221;.<br \/>\nGaia oferece uma vis\u00e3o cheia de esperan\u00e7a a respeito de como o mundo funciona. Afinal de contas, se a Terra \u00e9 mais do que uma simples pedra que gira ao redor do sol, se \u00e9 um superorganismo que pode evoluir, isso significa que existe certa quantidade de perd\u00e3o embutida em nosso mundo &#8211; e essa \u00e9 uma conclus\u00e3o que vai irritar profundamente estudiosos de biologia e neodarwinistas de absolutamente todas as origens.<\/p>\n<p>Para Lovelock, essa \u00e9 uma id\u00e9ia reconfortante. Considere a pequena propriedade que ele tem em Devon. Quando ele comprou o terreno, h\u00e1 30 anos, era rodeada por campos aparados por mil anos de ovelhas pastando. E ele se empenhou em devolver a seus 14 hectares um car\u00e1ter mais pr\u00f3ximo do natural. Depois de consultar um engenheiro florestal, plantou 20 mil \u00e1rvores &#8211; amieiros, carvalhos, pinheiros. Infelizmente, plantou muitas delas pr\u00f3ximas demais, e em fileiras. Agora, as \u00e1rvores est\u00e3o com cerca de 12 metros de altura, mas em vez de ter ar &#8220;natural&#8221;, partes do terreno dele parecem simplesmente um projeto de reflorestamento mal executado. &#8220;Meti os p\u00e9s pelas m\u00e3os&#8221;, Lovelock diz com um sorriso enquanto caminhamos no bosque. &#8220;Mas, com o passar dos anos, Gaia vai dar um jeito.&#8221;<\/p>\n<p>At\u00e9 pouco tempo atr\u00e1s, Lovelock achava que o aquecimento global seria como sua floresta meia-boca &#8211; algo que o planeta seria capaz de corrigir. Ent\u00e3o, em 2004, Richard Betts, amigo de Lovelock e pesquisador no Centro Hadley para as Mudan\u00e7as Clim\u00e1ticas &#8211; o principal instituto clim\u00e1tico da Inglaterra -, convidou-o para dar uma passada l\u00e1 e bater um papo com os cientistas. Lovelock fez reuni\u00e3o atr\u00e1s de reuni\u00e3o, ouvindo os dados mais recentes a respeito do gelo derretido nos p\u00f3los, das florestas tropicais cada vez menores, do ciclo de carbono nos oceanos. &#8220;Foi apavorante&#8221;, conta.<\/p>\n<p>&#8220;Mostraram para n\u00f3s cinco cenas separadas de respostas positivas em climas regionais &#8211; polar, glacial, floresta boreal, floresta tropical e oceanos -, mas parecia que ningu\u00e9m estava trabalhando nas conseq\u00fc\u00eancias relativas ao planeta como um todo.&#8221; Segundo ele, o tom usado pelos cientistas para falar das mudan\u00e7as que testemunharam foi igualmente de arrepiar: &#8220;Parecia que estavam discutindo algum planeta distante ou um universo-modelo, em vez do lugar em que todos n\u00f3s, a humanidade, vivemos&#8221;.<\/p>\n<p>Quando Lovelock estava voltando para casa em seu carro naquela noite, a compreens\u00e3o lhe veio. A capacidade de adapta\u00e7\u00e3o do sistema se perdera. O perd\u00e3o fora exaurido. &#8220;O sistema todo&#8221;, concluiu, &#8220;est\u00e1 em modo de falha.&#8221; Algumas semanas depois, ele come\u00e7ou a trabalhar em seu livro mais pessimista, A Vingan\u00e7a de Gaia, publicado no Brasil em 2006. Na sua vis\u00e3o, as falhas nos modelos clim\u00e1ticos computadorizados s\u00e3o dolorosamente aparentes. Tome como exemplo a incerteza relativa \u00e0 proje\u00e7\u00e3o do n\u00edvel do mar: o IPCC, o painel da ONU sobre mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, estima que o aquecimento global v\u00e1 fazer com que a temperatura m\u00e9dia da Terra aumente at\u00e9 6,4 graus Celsius at\u00e9 2100. Isso far\u00e1 com que geleiras em terra firme derretam e que o mar se expanda, dando lugar \u00e0 eleva\u00e7\u00e3o m\u00e1xima do n\u00edvel de mar de apenas pouco menos de 60 cent\u00edmetros. A Groenl\u00e2ndia, de acordo com os modelos do IPCC, demorar\u00e1 mil anos para derreter.<\/p>\n<p>Mas evid\u00eancias do mundo real sugerem que as estimativas do IPCC s\u00e3o conservadoras demais. Para come\u00e7o de conversa, os cientistas sabem, devido aos registros geol\u00f3gicos, que h\u00e1 3 milh\u00f5es de anos, quando as temperaturas subiram cinco graus acima dos n\u00edveis atuais, os mares subiram n\u00e3o 60 cent\u00edmetros, mas 24 metros. Al\u00e9m do mais, medidas feitas por sat\u00e9lite recentemente indicam que o \u00c1rtico est\u00e1 derretendo com tanta rapidez que a regi\u00e3o pode ficar totalmente sem gelo at\u00e9 2030. &#8220;Quem elabora os modelos n\u00e3o tem a menor no\u00e7\u00e3o sobre derretimento de placas de gelo&#8221;, desdenha o estudioso, sem sorrir.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o \u00e9 apenas o gelo que invalida os modelos clim\u00e1ticos. Sabe-se que \u00e9 dif\u00edcil prever corretamente a f\u00edsica das nuvens, e fatores da biosfera, como o desmatamento e o derretimento da Tundra, raramente s\u00e3o levados em conta. &#8220;Os modelos de computador n\u00e3o s\u00e3o bolas de cristal&#8221;, argumenta Ken Caldeira, que elabora modelos clim\u00e1ticos na Universidade de Stanford, cuja carreira foi profundamente influenciada pelas id\u00e9ias de Lovelock. &#8220;Ao observar o passado, fazemos estimativas bem informadas em rela\u00e7\u00e3o ao futuro. Os modelos de computador s\u00e3o apenas uma maneira de codificar esse conhecimento acumulado em apostas automatizadas e bem informadas.&#8221;<\/p>\n<p>Aqui, em sua ess\u00eancia supersimplificada, est\u00e1 o cen\u00e1rio pessimista de Lovelock: o aumento da temperatura significa que mais gelo derreter\u00e1 nos p\u00f3los, e isso significa mais \u00e1gua e terra. Isso, por sua vez, faz aumentar o calor (o gelo reflete o sol, a terra e a \u00e1gua o absorvem), fazendo com que mais gelo derreta. O n\u00edvel do mar sobe. Mais calor faz com que a intensidade das chuvas aumente em alguns lugares e com que as secas se intensifiquem em outros. As florestas tropicais amaz\u00f4nicas e as grandes florestas boreais do norte &#8211; o cintur\u00e3o de pinheiros e p\u00edceas que cobre o Alasca, o Canad\u00e1 e a Sib\u00e9ria &#8211; passar\u00e3o por um estir\u00e3o de crescimento, depois murchar\u00e3o at\u00e9 desaparecer. O solo permanentemente congelado das latitudes do norte derrete, liberando metano, um g\u00e1s que contribui para o efeito estufa e que \u00e9 20 vezes mais potente do que o CO2&#8230; e assim por diante. Em um mundo de Gaia funcional, essas respostas positivas seriam moduladas por respostas negativas, sendo que a maior de todas \u00e9 a capacidade da Terra de irradiar calor para o espa\u00e7o. Mas, a certa altura, o sistema de regulagem p\u00e1ra de funcionar e o clima d\u00e1 um salto &#8211; como j\u00e1 aconteceu muitas vezes no passado &#8211; para uma nova situa\u00e7\u00e3o, mais quente. N\u00e3o \u00e9 o fim do mundo, mas certamente \u00e9 o fim do mundo como o conhecemos.<\/p>\n<p>O cen\u00e1rio pessimista de Lovelock \u00e9 desprezado por pesquisadores de clima de renome, sendo que a maior parte deles rejeita a id\u00e9ia de que haja um \u00fanico ponto de desequil\u00edbrio para o planeta inteiro. &#8220;Ecossistemas individuais podem falhar ou as placas de gelo podem entrar em colapso&#8221;, esclarece Caldeira, &#8220;mas o sistema mais amplo parece ser surpreendentemente adapt\u00e1vel.&#8221; No entanto, vamos partir do princ\u00edpio, por enquanto, de que Lovelock esteja certo e que de fato estejamos navegando por cima das cataratas do Niagara. Simplesmente vamos acenar antes de cair? Na vis\u00e3o de Lovelock, redu\u00e7\u00f5es modestas de emiss\u00f5es de gases que contribuem para o efeito estufa n\u00e3o v\u00e3o nos ajudar &#8211; j\u00e1 \u00e9 tarde demais para deter o aquecimento global trocando jip\u00f5es a diesel por carrinhos h\u00edbridos. E a id\u00e9ia de capturar a polui\u00e7\u00e3o de di\u00f3xido de carbono criada pelas usinas a carv\u00e3o e bombear para o subsolo? &#8220;N\u00e3o h\u00e1 como enterrar quantidade suficiente para fazer diferen\u00e7a.&#8221; Biocombust\u00edveis? &#8220;Uma id\u00e9ia monumentalmente idiota.&#8221; Renov\u00e1veis? &#8220;Bacana, mas n\u00e3o v\u00e3o nem fazer c\u00f3cegas.&#8221; Para Lovelock, a id\u00e9ia toda do desenvolvimento sustent\u00e1vel \u00e9 equivocada: &#8220;Dever\u00edamos estar pensando em retirada sustent\u00e1vel&#8221;.<\/p>\n<p>A retirada, na vis\u00e3o dele, significa que est\u00e1 na hora de come\u00e7ar a discutir a mudan\u00e7a do lugar onde vivemos e de onde tiramos nossos alimentos; a fazer planos para a migra\u00e7\u00e3o de milh\u00f5es de pessoas de regi\u00f5es de baixa altitude, como Bangladesh, para a Europa; a admitir que Nova Orleans j\u00e1 era e mudar as pessoas para cidades mais bem posicionadas para o futuro. E o mais importante de tudo \u00e9 que absolutamente todo mundo &#8220;deve fazer o m\u00e1ximo que pode para sustentar a civiliza\u00e7\u00e3o, de modo que ela n\u00e3o degenere para a Idade das Trevas, com senhores guerreiros mandando em tudo, o que \u00e9 um perigo real. Assim, podemos vir a perder tudo&#8221;.<\/p>\n<p>At\u00e9 os amigos de Lovelock se retraem quando ele fala assim. &#8220;Acho que ele est\u00e1 deixando nossa cota de desespero no negativo&#8221;, diz Chris Rapley, chefe do Museu de Ci\u00eancia de Londres, que se empenhou com afinco para despertar a consci\u00eancia mundial sobre o aquecimento global. Outros t\u00eam a preocupa\u00e7\u00e3o justificada de que as opini\u00f5es de Lovelock sirvam para dispersar o momento de concentra\u00e7\u00e3o de vontade pol\u00edtica para impor restri\u00e7\u00f5es pesadas \u00e0s emiss\u00f5es de gases poluentes que contribuem para o efeito estufa. Broecker, o paleoclimatologista de Columbia, classifica a cren\u00e7a de Lovelock de que reduzir a polui\u00e7\u00e3o \u00e9 in\u00fatil como &#8220;uma bobagem perigosa&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;Eu gostaria de poder dizer que turbinas de vento e pain\u00e9is solares v\u00e3o nos salvar&#8221;, Lovelock responde. &#8220;Mas n\u00e3o posso. N\u00e3o existe nenhum tipo de solu\u00e7\u00e3o poss\u00edvel. Hoje, h\u00e1 quase 7 bilh\u00f5es de pessoas no planeta, isso sem falar nos animais. Se pegarmos apenas o CO2 de tudo que respira, j\u00e1 \u00e9 25% do total &#8211; quatro vezes mais CO2 do que todas as companhias a\u00e9reas do mundo. Ent\u00e3o, se voc\u00ea quer diminuir suas emiss\u00f5es, \u00e9 s\u00f3 parar de respirar. \u00c9 apavorante. Simplesmente ultrapassamos todos os limites razo\u00e1veis em n\u00fameros. E, do ponto de vista puramente biol\u00f3gico, qualquer esp\u00e9cie que faz isso tem que entrar em colapso.&#8221;<\/p>\n<p>Mas isso n\u00e3o \u00e9 sugerir, no entanto, que Lovelock acredita que dever\u00edamos ficar tocando harpa enquanto assistimos o mundo queimar. \u00c9 bem o contr\u00e1rio. &#8220;Precisamos tomar a\u00e7\u00f5es ousadas&#8221;, ele insiste. &#8220;Temos uma quantidade enorme de coisas a fazer.&#8221; De acordo com a vis\u00e3o dele, temos duas escolhas: podemos retornar a um estilo de vida mais primitivo e viver em equil\u00edbrio com o planeta como ca\u00e7adores-coletores ou podemos nos isolar em uma civiliza\u00e7\u00e3o muito sofisticada, de alt\u00edssima tecnologia. &#8220;N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida sobre que caminho eu preferiria&#8221;, diz certa manh\u00e3, em sua casa, com um sorriso aberto no rosto enquanto digita em seu computador. &#8220;Realmente, \u00e9 uma quest\u00e3o de como organizamos a sociedade &#8211; onde vamos conseguir nossa comida, nossa \u00e1gua. Como vamos gerar energia.&#8221;<\/p>\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 \u00e1gua, a resposta \u00e9 bem direta: usinas de dessaliniza\u00e7\u00e3o, que s\u00e3o capazes de transformar \u00e1gua do mar em \u00e1gua pot\u00e1vel. O suprimento de alimentos \u00e9 mais dif\u00edcil: o calor e a seca v\u00e3o acabar com a maior parte das regi\u00f5es de planta\u00e7\u00f5es de alimentos hoje existentes. Tamb\u00e9m v\u00e3o empurrar as pessoas para o norte, onde v\u00e3o se aglomerar em cidades. Nessas \u00e1reas, n\u00e3o haver\u00e1 lugar para quintais ajardinados. Como resultado, Lovelock acredita, precisaremos sintetizar comida &#8211; teremos que criar alimentos em barris com culturas de tecidos de carnes e vegetais. Isso parece muito exagerado e profundamente desagrad\u00e1vel, mas, do ponto de vista tecnol\u00f3gico, n\u00e3o ser\u00e1 dif\u00edcil de realizar.<\/p>\n<p>O fornecimento cont\u00ednuo de eletricidade tamb\u00e9m ser\u00e1 vital, segundo ele. Cinco dias depois de visitar o centro Hadley, Lovelock escreveu um artigo opinativo pol\u00eamico, intitulado: &#8220;Energia nuclear \u00e9 a \u00fanica solu\u00e7\u00e3o verde&#8221;. Lovelock argumentava que &#8220;devemos usar o pequeno resultado dos renov\u00e1veis com sensatez&#8221;, mas que &#8220;n\u00e3o temos tempo para fazer experimentos com essas fontes de energia vision\u00e1rias; a civiliza\u00e7\u00e3o est\u00e1 em perigo iminente e precisa usar a energia nuclear &#8211; a fonte de energia mais segura dispon\u00edvel &#8211; agora ou sofrer a dor que em breve ser\u00e1 infligida a nosso planeta t\u00e3o ressentido&#8221;.<\/p>\n<p>Ambientalistas urraram em protesto, mas qualquer pessoa que conhecia o passado de Lovelock n\u00e3o se surpreendeu com sua defesa \u00e0 energia nuclear. Aos 14 anos, ao ler que a energia do sol vem de uma rea\u00e7\u00e3o nuclear, ele passou a acreditar que a energia nuclear \u00e9 uma das for\u00e7as fundamentais no universo. Por que n\u00e3o aproveit\u00e1-la? No que diz respeito aos perigos &#8211; lixo radioativo, vulnerabilidade ao terrorismo, desastres como o de Chernobyl &#8211; Lovelock diz que este \u00e9 dos males o menos pior: &#8220;Mesmo que eles tenham raz\u00e3o a respeito dos perigos, e n\u00e3o t\u00eam, continua n\u00e3o sendo nada na compara\u00e7\u00e3o com as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas&#8221;.<\/p>\n<p><span style=\"color: #ff6600;\">Texto pr\u00e9 desastre na central nuclear de \u00a0de Fukushima em 11 de mar\u00e7o de 2011 mas que est\u00e1 poluindo os mares e o ar at\u00e9 hoje. Nisso discordamos totalmente. N\u00e3o h\u00e1 necessidade de energia nuclear. Outras fontes renov\u00e1veis j\u00e1 poderiam estar dominando a gera\u00e7\u00e3o de energia, se n\u00e3o houvesse interfer\u00eancia de quem ganha com energia suja.<\/span><\/p>\n<p>Como \u00faltimo recurso, para manter o planeta pelo menos marginalmente habit\u00e1vel, Lovelock acredita que os seres humanos podem ser for\u00e7ados a manipular o clima terrestre com a constru\u00e7\u00e3o de protetores solares no espa\u00e7o ou instalando equipamentos para enviar enormes quantidades de CO2 para fora da atmosfera. Mas ele considera a geoengenharia em larga escala como um ato de arrog\u00e2ncia &#8211; &#8220;Imagino que seria mais f\u00e1cil um bode se transformar em um bom jardineiro do que os seres humanos passarem a ser guardi\u00f5es da Terra&#8221;. Na verdade, foi Lovelock que inspirou seu amigo Richard Branson a oferecer um pr\u00eamio de US$ 25 milh\u00f5es para o &#8220;Virgin Earth Challenge&#8221; (Desafio Virgin da Terra), que ser\u00e1 concedido \u00e0 primeira pessoa que conseguir criar um m\u00e9todo comercialmente vi\u00e1vel de remover os gases respons\u00e1veis pelo efeito estufa da atmosfera. Lovelock \u00e9 juiz do concurso, por isso n\u00e3o pode participar dele, mas ficou intrigado com o desafio. Sua mais recente id\u00e9ia: suspender centenas de milhares de canos verticais de 18 metros de comprimento nos oceanos tropicais, colocar uma v\u00e1lvula na base de cada cano e permitir que a \u00e1gua das profundezas, rica em nutrientes, seja bombeada para a superf\u00edcie pela a\u00e7\u00e3o das ondas. Os nutrientes das \u00e1guas das profundezas aumentariam a prolifera\u00e7\u00e3o das algas, que consumiriam o di\u00f3xido de carbono e ajudariam a resfriar o planeta. &#8220;\u00c9 uma maneira de contrabalan\u00e7ar o sistema de energia natural da Terra usando ele pr\u00f3prio&#8221;, Lovelock especula. &#8220;Acho que Gaia aprovaria.&#8221;<\/p>\n<p>Oslo \u00e9 o tipo perfeito de cidade para Lovelock. Fica em latitudes do norte, que ficar\u00e3o mais temperadas na medida em que o clima for esquentando; tem \u00e1gua aos montes; gra\u00e7as a suas reservas de petr\u00f3leo e g\u00e1s, \u00e9 rica; e l\u00e1 j\u00e1 h\u00e1 muito pensamento criativo relativo \u00e0 energia, incluindo, para a satisfa\u00e7\u00e3o de Lovelock, discuss\u00f5es renovadas a respeito da energia nuclear. &#8220;A quest\u00e3o principal a ser discutida aqui \u00e9 como manejar as hordas de pessoas que chegar\u00e3o \u00e0 cidade&#8221;, Lovelock avisa. &#8220;Nas pr\u00f3ximas d\u00e9cadas, metade da popula\u00e7\u00e3o do sul da Europa vai tentar se mudar para c\u00e1.&#8221;<\/p>\n<p>N\u00f3s nos dirigimos para perto da \u00e1gua, passando pelo castelo de Akershus, uma fortaleza imponente do s\u00e9culo 13 que funcionou como quartel-general nazista durante a ocupa\u00e7\u00e3o da cidade na Segunda Guerra Mundial. Para Lovelock, os paralelos entre o que o mundo enfrentou naquela \u00e9poca e o que enfrenta hoje s\u00e3o bem claros. &#8220;Em certos aspectos, \u00e9 como se estiv\u00e9ssemos de novo em 1939&#8221;, ele afirma. &#8220;A amea\u00e7a \u00e9 \u00f3bvia, mas n\u00e3o conseguimos nos dar conta do que est\u00e1 em jogo. Ainda estamos falando de concilia\u00e7\u00e3o.&#8221;<\/p>\n<p>Naquele tempo, como hoje, o que mais choca Lovelock \u00e9 a aus\u00eancia de lideran\u00e7a pol\u00edtica. Apesar de respeitar as iniciativas de Al Gore para conscientizar as pessoas, n\u00e3o acredita que nenhum pol\u00edtico tenha chegado perto de nos preparar para o que vem por a\u00ed. &#8220;Em muito pouco tempo, estaremos vivendo em um mundo desesperador, comenta Lovelock. Ele acredita que est\u00e1 mais do que na hora para uma vers\u00e3o &#8220;aquecimento global&#8221; do famoso discurso que Winston Churchill fez para preparar a Gr\u00e3-Bretanha para a Segunda Guerra Mundial: &#8220;N\u00e3o tenho nada a oferecer al\u00e9m de sangue, trabalho, l\u00e1grimas e suor&#8221;. &#8220;As pessoas est\u00e3o prontas para isso&#8221;, Lovelock dispara quando passamos sob a sombra do castelo. &#8220;A popula\u00e7\u00e3o entende o que est\u00e1 acontecendo muito melhor do que a maior parte dos pol\u00edticos.&#8221;<\/p>\n<p>Independentemente do que o futuro trouxer, \u00e9 prov\u00e1vel que Lovelock n\u00e3o esteja por a\u00ed para ver. &#8220;O meu objetivo \u00e9 viver uma vida retangular: longa, forte e firme, com uma queda r\u00e1pida no final&#8221;, sentencia. Lovelock n\u00e3o apresenta sinais de estar se aproximando de seu ponto de queda. Apesar de j\u00e1 ter passado por 40 opera\u00e7\u00f5es, incluindo ponte de safena, continua viajando de um lado para o outro no interior ingl\u00eas em seu Honda branco, como um piloto de F\u00f3rmula 1. Ele e Sandy recentemente passaram um m\u00eas de f\u00e9rias na Austr\u00e1lia, onde visitaram a Grande Barreira de Corais. O cientista est\u00e1 prestes a come\u00e7ar a escrever mais um livro sobre Gaia. Richard Branson o convidou para o primeiro v\u00f4o do \u00f4nibus espacial Virgin Galactic, que acontecer\u00e1 no fim do ano que vem &#8211; &#8220;Quero oferecer a ele a vis\u00e3o de Gaia do espa\u00e7o&#8221;, diz Branson. Lovelock est\u00e1 ansioso para fazer o passeio, e planeja fazer um teste em uma centr\u00edfuga at\u00e9 o fim deste ano para ver se seu corpo suporta as for\u00e7as gravitacionais de um v\u00f4o espacial. Ele evita falar de seu legado, mas brinca com os filhos dizendo que quer ver gravado na l\u00e1pide de seu t\u00famulo: &#8220;Ele nunca teve a inten\u00e7\u00e3o de ser conciliador&#8221;.<\/p>\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o aos horrores que nos aguardam, Lovelock pode muito bem estar errado. N\u00e3o por ter interpretado a ci\u00eancia erroneamente (apesar de isso certamente ser poss\u00edvel), mas por ter interpretado os seres humanos erroneamente. Poucos cientistas s\u00e9rios duvidam que estejamos prestes a viver uma cat\u00e1strofe clim\u00e1tica. Mas, apesar de toda a sensibilidade de Lovelock para a din\u00e2mica sutil e para os ciclos de resposta no sistema clim\u00e1tico, ele se mostra curiosamente alheio \u00e0 din\u00e2mica sutil e aos ciclos de resposta no sistema humano. Ele acredita que, apesar dos nossos iPhones e dos nossos \u00f4nibus espaciais, continuamos sendo animais tribais, amplamente incapazes de agir pelo bem maior ou de tomar decis\u00f5es de longo prazo que garantam nosso bem-estar. &#8220;Nosso progresso moral&#8221;, diz Lovelock, &#8220;n\u00e3o acompanhou nosso progresso tecnol\u00f3gico.&#8221;<\/p>\n<p>Mas talvez seja exatamente esse o motivo do apocalipse que est\u00e1 por vir. Uma das quest\u00f5es que fascina Lovelock \u00e9 a seguinte: A vida vem evoluindo na Terra h\u00e1 mais de 3 bilh\u00f5es de anos &#8211; e por que motivo? &#8220;Gostemos ou n\u00e3o, somos o c\u00e9rebro e o sistema nervoso de Gaia&#8221;, ele explica. &#8220;Agora, assumimos responsabilidade pelo bem-estar do planeta. Como vamos lidar com isso?&#8221;<\/p>\n<p>Enquanto abrimos caminho no meio dos turistas que se dirigem para o castelo, \u00e9 f\u00e1cil olhar para eles e ficar triste. Mais dif\u00edcil \u00e9 olhar para eles e ter esperan\u00e7a. Mas quando digo isso a Lovelock, ele argumenta que a ra\u00e7a humana passou por muitos gargalos antes &#8211; e que talvez sejamos melhores por causa disso. Ent\u00e3o ele me conta a hist\u00f3ria de um acidente de avi\u00e3o, anos atr\u00e1s, no aeroporto de Manchester. &#8220;Um tanque de combust\u00edvel pegou fogo durante a decolagem&#8221;, recorda. &#8220;Havia tempo de sobra para todo mundo sair, mas alguns passageiros simplesmente ficaram paralisados, sentados nas poltronas, como tinham lhes dito para fazer, e as pessoas que escaparam tiveram que passar por cima deles para sair. Era perfeitamente \u00f3bvio o que era necess\u00e1rio fazer para sair, mas eles n\u00e3o se mexiam. Morreram carbonizados ou asfixiados pela fuma\u00e7a. E muita gente, fico triste em dizer, \u00e9 assim. E \u00e9 isso que vai acontecer desta vez, s\u00f3 que em escala muito maior.&#8221;<\/p>\n<p>Lovelock olha para mim com olhos azuis muito firmes.<strong> &#8220;Algumas pessoas v\u00e3o ficar sentadas na poltrona sem fazer nada, paralisadas de p\u00e2nico. Outras v\u00e3o se mexer. V\u00e3o ver o que est\u00e1 prestes a acontecer, e v\u00e3o tomar uma atitude, e v\u00e3o sobreviver. S\u00e3o elas que v\u00e3o levar a civiliza\u00e7\u00e3o em frente.&#8221;<\/strong><\/p>\n<p><span style=\"color: #ff6600;\">O 0,1% da civiliza\u00e7\u00e3o est\u00e1 tentando fazer a mudan\u00e7a. O resto est\u00e1 com a bunda pregada no sof\u00e1 teclando nas m\u00eddias sociais, fazendo politicagem em seu benef\u00edcio, assistindo as novelas, jogando ou torcendo para seu time de futebol, enchendo a cara ou simplesmente consumindo o mundo para ter algum sentido na vida. O ter para parecer para n\u00e3o ter que ser.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #ff6600;\">Voc\u00ea conhece a met\u00e1fora do sapo cozido na \u00e1gua morna? Um sapo colocado num recipiente com a mesma \u00e1gua de sua lagoa, fica est\u00e1tico durante todo o tempo em que aquecemos a \u00e1gua, mesmo que ela ferva. O sapo n\u00e3o reage ao gradual aumento de temperatura (mudan\u00e7as de ambiente) e morre quando a \u00e1gua ferve. Inchado e feliz. Por outro lado, outro sapo que seja jogado nesse recipiente com a \u00e1gua j\u00e1 fervendo salta imediatamente para fora. Meio chamuscado, porem vivo. Estamos sendo cozidos em \u00e1gua morna, distra\u00eddos pela m\u00eddia, pelo consumismo e infelizmente estaremos\u00a0extintos em breve.<\/span><\/p>\n<p>Fonte &#8211; Enviado por MO Carlos, por Jeff Goodell, tradu\u00e7\u00e3o Ana Ban, Rolling Stones de novembro de 2007<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Separe uns 10 minutos e leia este texto. 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