{"id":13948,"date":"2015-01-29T08:00:33","date_gmt":"2015-01-29T11:00:33","guid":{"rendered":"http:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/?p=13948"},"modified":"2015-01-28T14:09:47","modified_gmt":"2015-01-28T17:09:47","slug":"o-novo-pensamento-economico-sobre-a-agua","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/o-novo-pensamento-economico-sobre-a-agua\/","title":{"rendered":"O novo pensamento econ\u00f4mico sobre a \u00e1gua"},"content":{"rendered":"<p><strong>Para os economistas, o pre\u00e7o da \u00e1gua deve demonstrar quando ela \u00e9 escassa ou abundante \u2014 uma ferramenta importante para combater a crise h\u00eddrica<\/strong><\/p>\n<p><strong>No Brasil, bens naturais, como a \u00e1gua que escorre por nossos canos, n\u00e3o s\u00e3o tarifados corretamente. Ao site de VEJA, especialistas explicam como pagar pouco por esse recurso t\u00e3o valioso contribui para a crise de \u00e1gua que enfrentamos no pa\u00eds<\/strong><\/p>\n<p>Em 1960, o brit\u00e2nico Ronald Coase iniciou uma discuss\u00e3o sobre a regula\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica de atividades como as envolvidas na gera\u00e7\u00e3o de fuma\u00e7a, barulho ou esgoto. Em seu artigo O problema do custo social, Coase, que ganharia o pr\u00eamio Nobel de Economia em 1992, analisava a forma de consumo de recursos como ar, \u00e1gua ou energia para permitir as melhores decis\u00f5es sobre seu uso. Ele repensava a maneira de dar pre\u00e7o a esses bens, para que sua disponibilidade fosse garantida a longo prazo.<\/p>\n<p>Recentemente, ideias como as do economista come\u00e7aram a ser colocadas em pr\u00e1tica na gest\u00e3o dos recursos naturais. \u00c9 o que acontece desde os anos 2000 no mercado de compra e venda de cr\u00e9ditos de carbono, que regula a emiss\u00e3o de poluentes dos pa\u00edses \u2014 em outras palavras, gerencia o ar. E tamb\u00e9m \u00e9 o que vem sendo feito em alguns lugares para guiar o uso de um dos bens mais fundamentais para a manuten\u00e7\u00e3o da vida: a \u00e1gua.<\/p>\n<p>Em termos concretos, isso significa colocar um pre\u00e7o na \u00e1gua e fazer com que ele demonstre quando ela \u00e9 escassa ou abundante. Assim, quando a oferta \u00e9 pouca e a demanda grande, pre\u00e7os maiores indicam que a \u00e1gua deve ser poupada, enquanto em \u00e9pocas de muita oferta e pouca demanda os valores seriam irris\u00f3rios, mostrando que o bem pode ser consumido sem parcim\u00f4nia.<\/p>\n<p>No Brasil, a \u00e1gua custa centavos. Nas tarifas de todo o pa\u00eds est\u00e3o embutidos os pre\u00e7os de capta\u00e7\u00e3o, tratamento e distribui\u00e7\u00e3o. No entanto, desde a Lei das \u00c1guas, de 1997, a \u00e1gua, um recurso finito, tamb\u00e9m ganhou um pre\u00e7o. Em algumas regi\u00f5es do Estado de S\u00e3o Paulo, ela varia entre 2 centavos e 12 centavos. E essa tarifa se mant\u00e9m, seja em per\u00edodos de seca, seja nas \u00e9pocas de abund\u00e2ncia. Simb\u00f3lico, o custo indica que esse bem essencial \u00e9 farto, inesgot\u00e1vel e f\u00e1cil de extrair. \u00c9 o oposto do que mostra a crise atual em todo o pa\u00eds.<\/p>\n<p>\u201cQuando acordamos pela manh\u00e3 e abrimos a torneira, temos acesso a uma quantidade de \u00e1gua ilimitada pela qual pagamos menos que pelo servi\u00e7o de celular. Isso nos fez acreditar que a \u00e1gua \u00e9 infinita\u201d, diz o americano Robert Glennon, professor de pol\u00edticas p\u00fablicas da Universidade do Arizona, nos Estados Unidos, e autor do livro Unquenchable: America\u2019s Water Crisis and What to Do About It (Inesgot\u00e1vel: A Crise de \u00c1gua Americana e o que Fazer Sobre Isso, sem edi\u00e7\u00e3o em portugu\u00eas), publicado em 2009. \u201cNo entanto, nossa fonte de \u00e1gua \u00e9 fixa e finita: \u00e9 como um grande copo de milk-shake com um n\u00famero infind\u00e1vel de canudos. Muitos lugares permitem que esse n\u00famero ilimitado de canudos seja usado, uma receita para um desastre previs\u00edvel que come\u00e7a a se manifestar em rios secos e falta d\u2019\u00e1gua para beber. Por isso precisamos colocar um pre\u00e7o apropriado na \u00e1gua: quem usa mais tem que pagar mais.\u201d<\/p>\n<p><strong>\u00c1gua barata \u2014<\/strong> De acordo com os economistas, o mercado \u00e9 uma importante ferramenta para racionalizar o uso da \u00e1gua e prevenir as crises. Pequenas interven\u00e7\u00f5es t\u00eam impactos tremendos, que podem resolver secas hist\u00f3ricas ou combater o desperd\u00edcio do valioso bem.<\/p>\n<p>\u201cNos EUA, os agricultores usam cerca de 80% da \u00e1gua. Uma pequena redu\u00e7\u00e3o nesse consumo dobraria o fornecimento para todos os munic\u00edpios e uso industrial. Falo de redu\u00e7\u00f5es pequenas, como diminuir esses 80% para 76% \u2014 isso dobraria o fornecimento para todo o uso comercial e residencial\u201d, diz Glennon.<\/p>\n<p>Segundo o americano, a maneira mais simples de modificar esses n\u00fameros seria criar uma taxa adequada sobre a \u00e1gua. A tarifa indicaria como e onde a \u00e1gua deve ser economizada. Ela seria baixa para os metros c\u00fabicos necess\u00e1rios para as tarefas b\u00e1sicas cotidianas \u2014 para garantir que chegue a todos \u2014 e aumentaria, gradualmente, a partir desse n\u00edvel.<\/p>\n<p>\u201cDeve haver blocos de taxas crescentes, que seria o mesmo que dizer: quanto mais \u00e1gua \u00e9 usada, mais \u00e9 pago por essas \u00faltimas unidades. Inacreditavelmente, em muitos lugares, h\u00e1 taxas fixas para uso ilimitado de \u00e1gua. Esses blocos deveriam ser ajustados por temporadas para considerar o fato de que durante o ver\u00e3o, quando o uso da \u00e1gua aumenta, isso se d\u00e1 para abastecer os jardins da casa ou as piscinas. N\u00e3o me oponho a isso, mas acredito que se algu\u00e9m quer uma piscina, ent\u00e3o que pague por isso\u201d, diz Glennon.<\/p>\n<p><strong>Bem incomum \u2014 <\/strong>A \u00e1gua, entretanto, n\u00e3o \u00e9 um bem como autom\u00f3veis, roupas ou celulares, que pode simplesmente ser submetido \u00e0s regras comuns do mercado. Os recursos naturais possuem caracter\u00edsticas especiais que tornam complexa sua submiss\u00e3o a regras econ\u00f4micas. As decis\u00f5es tomadas em rela\u00e7\u00e3o a eles atingem toda a popula\u00e7\u00e3o \u2014 e ningu\u00e9m pode ficar sem eles. Al\u00e9m disso, grande parte desses bens, como o ar ou as florestas, \u00e9 usado gratuitamente. \u00c9 dif\u00edcil \u2014 embora n\u00e3o imposs\u00edvel \u2014 estabelecer um direito de propriedade para um rio e cobrar de todos aqueles que usam sua \u00e1gua.<\/p>\n<p>\u201cQualquer economista dir\u00e1, voltando \u00e0s aulas b\u00e1sicas de economia, que, quando os pre\u00e7os aumentam, o consumo diminui. Mas, para a \u00e1gua, h\u00e1 limites. No entanto, ela \u00e9 t\u00e3o barata que enxergamos isso como uma permiss\u00e3o para o uso irrespons\u00e1vel\u201d, diz Glennon.<\/p>\n<p><strong>O modelo brasileiro \u2014<\/strong> O Brasil possui um modelo de regulamenta\u00e7\u00e3o do sistema h\u00eddrico que \u00e9 do fim dos anos 1990 e foi espelhado na experi\u00eancia francesa do p\u00f3s-guerra. Na Fran\u00e7a desse per\u00edodo foram criados comit\u00eas de bacias que regulam e precificam o uso da \u00e1gua dos seus rios. O recurso possu\u00eda um valor simb\u00f3lico, como hoje no Brasil, al\u00e9m das taxas de capta\u00e7\u00e3o, tratamento e distribui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No entanto, com as secas do in\u00edcio dos anos 1990 no pa\u00eds, o governo franc\u00eas resolveu intervir e regular os pre\u00e7os para evitar a insustentabilidade dos recursos h\u00eddricos. Do contr\u00e1rio, em pouco tempo, n\u00e3o haveria \u00e1gua para a agricultura ou para os habitantes das cidades. A regulamenta\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica incentivou a atividade agr\u00edcola a usar mais tecnologia, economizando \u00e1gua, e direcionou os agricultores para regi\u00f5es com abund\u00e2ncia de \u00e1gua \u2014 onde o recurso \u00e9 mais barato.<\/p>\n<p>Essa experi\u00eancia \u00e9 semelhante \u00e0 crise enfrentada atualmente em S\u00e3o Paulo. No Brasil, os recursos h\u00eddricos s\u00e3o geridos por comit\u00eas de bacias, submetidos \u00e0 Ag\u00eancia Nacional de \u00c1guas (Ana), que fixam o pre\u00e7o da \u00e1gua. S\u00e3o poucos centavos por metro c\u00fabico, pagos por empresas de saneamento, ind\u00fastria e agricultura, que n\u00e3o refletem os per\u00edodos em que a \u00e1gua \u00e9 mais ou menos escassa. E \u00e9 exatamente esse ponto que recebe as cr\u00edticas dos especialistas.<\/p>\n<p>\u201cEspero que, como a Fran\u00e7a, o Brasil acorde logo para a insanidade que \u00e9 a forma como a \u00e1gua \u00e9 precificada aqui. Os valores podem variar em regimes de escassez hidrol\u00f3gica. H\u00e1 legisla\u00e7\u00e3o que permite essa regula\u00e7\u00e3o e isso pode ser discutido e aplicado de forma gradual\u201d, diz o economista Ronaldo Seroa da Motta, professor da Faculdade de Ci\u00eancias Econ\u00f4micas da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e um dos maiores especialistas do Brasil no tema. \u201cAtualmente, nossa pol\u00edtica de pre\u00e7o da \u00e1gua, do ponto de vista econ\u00f4mico e ambiental, \u00e9 simplesmente insustent\u00e1vel: criamos consumo intensivo e os pre\u00e7os sinalizam a abund\u00e2ncia do recurso, o que \u00e9 um contrassenso.\u201d<\/p>\n<p>A compara\u00e7\u00e3o com os valores aplicados atualmente na Fran\u00e7a mostra o abismo entre os pre\u00e7os: os agricultores do pa\u00eds pagam 300 vezes mais que n\u00f3s pela \u00e1gua que irriga os campos, enquanto a ind\u00fastria d\u00e1 14 vezes mais e as empresas de saneamento, tr\u00eas vezes mais. Os franceses investem quase 13 bilh\u00f5es de d\u00f3lares em infraestrutura h\u00eddrica, enquanto n\u00f3s, apenas 3 bilh\u00f5es, de acordo com o \u00faltimo relat\u00f3rio da Organiza\u00e7\u00e3o para a Coopera\u00e7\u00e3o e Desenvolvimento Econ\u00f4mico (OECD, na sigla em ingl\u00eas).<\/p>\n<p><strong>\u201cNosso crit\u00e9rio de precifica\u00e7\u00e3o \u00e9 aquele que n\u00e3o d\u00f3i no bolso: o pre\u00e7o n\u00e3o pode impactar o consumo e a produ\u00e7\u00e3o, deixando expl\u00edcito que n\u00e3o queremos mudan\u00e7as nesse padr\u00e3o. Isso \u00e9 um belo incentivo \u00e0 insustentabilidade\u201d,<\/strong> diz Motta.<\/p>\n<p><strong>Nossa conta \u2014<\/strong> Os recursos obtidos com a precifica\u00e7\u00e3o correta da \u00e1gua poderiam ser destinados a outros fins que ajudem a conter crises h\u00eddricas. Grandes reservat\u00f3rios, como a Cantareira, que atende 9,8 milh\u00f5es de paulistas \u2014 8,4 milh\u00f5es s\u00f3 na capital \u2014, s\u00e3o rodeados por terras que precisam de boa infiltra\u00e7\u00e3o. \u00c9 a penetra\u00e7\u00e3o da \u00e1gua das chuvas no subsolo que alimenta os len\u00e7\u00f3is fre\u00e1ticos e leva \u00e1gua para reservat\u00f3rios e represas. No entanto, pastos ou terrenos com pouca vegeta\u00e7\u00e3o fazem com que a \u00e1gua escorra e eliminam essa reserva.<\/p>\n<p>\u201cH\u00e1 t\u00e9cnicas de manejo de pasto que promovem a melhor infiltra\u00e7\u00e3o das \u00e1guas. Mas \u00e9 preciso pagar os agricultores para que fa\u00e7am essa adequa\u00e7\u00e3o. E o dinheiro para isso vem do pre\u00e7o da \u00e1gua\u201d, diz o economista Ademar Romeiro, professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).<\/p>\n<p>A primeira experi\u00eancia desse tipo foi feita em Nova York, h\u00e1 25 anos. A prefeitura usou os valores arrecadados com os consumidores para pagar os agricultores e moradores ao redor do seu principal reservat\u00f3rio para que mantivessem o solo adequado \u00e0 infiltra\u00e7\u00e3o: compraram as terras e substitu\u00edram gado por produ\u00e7\u00e3o de vegetais. No Estado de Minas Gerais, experi\u00eancia semelhante \u00e9 feita no munic\u00edpio de Extrema, h\u00e1 dez anos.<\/p>\n<p>\u201cNo entanto, no Brasil, quem paga por isso \u00e9 a prefeitura, enquanto o correto seria que os usu\u00e1rios pagassem por esse servi\u00e7o\u201d, diz o Romeiro. Segundo estudos feitos na Unicamp, o financiamento desse tipo de servi\u00e7o significaria 1 real ou 2 reais a mais nas contas de \u00e1gua do consumidor comum.<\/p>\n<p>\u201cEsse tipo de servi\u00e7o \u00e9 uma vari\u00e1vel-chave para a conten\u00e7\u00e3o de crises. O uso das terras na bacia de capta\u00e7\u00e3o tem que ser adequado e temos que pagar por isso. \u00c9 legal, economicamente vi\u00e1vel e f\u00e1cil de ser colocado em pr\u00e1tica\u201d, diz Romeiro. \u201cN\u00f3s pagamos muito pouco pela \u00e1gua. Certamente n\u00e3o pagamos o necess\u00e1rio para tornar sustent\u00e1vel o nosso consumo de \u00e1gua de qualidade.\u201d<\/p>\n<p>Fonte &#8211; Rita Loiola e Vivian Carrer Elias, Revista Veja de 19 de janeiro de 2015<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para os economistas, o pre\u00e7o da \u00e1gua deve demonstrar quando ela \u00e9 escassa ou abundante \u2014 uma ferramenta importante para combater a crise h\u00eddrica No Brasil, bens naturais, como a \u00e1gua que escorre por nossos canos, n\u00e3o s\u00e3o tarifados corretamente. 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