{"id":13955,"date":"2015-02-04T13:00:33","date_gmt":"2015-02-04T16:00:33","guid":{"rendered":"http:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/?p=13955"},"modified":"2015-02-04T13:26:35","modified_gmt":"2015-02-04T16:26:35","slug":"o-brasil-secou","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/o-brasil-secou\/","title":{"rendered":"O Brasil secou"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"\" src=\"https:\/\/farm8.staticflickr.com\/7348\/16257196329_6c91666079_o.jpg\" alt=\"\" width=\"605\" height=\"430\" \/><\/p>\n<p><strong>A falta d&#8217;\u00e1gua se alastrou pelo pa\u00eds, sintoma das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e do desmatamento na Amaz\u00f4nia, cada vez mais debilitada. Nos aproximamos de um futuro des\u00e9rtico \u0097 e a culpa \u00e9 toda nossa<\/strong><\/p>\n<p>Em 2014, n\u00e3o choveu. Pelo menos n\u00e3o quanto deveria. Os \u00edndices de chuvas apresentam d\u00e9ficit, os reservat\u00f3rios minguaram a percentuais cr\u00edticos, a nascente do Rio S\u00e3o Francisco secou pela primeira vez na hist\u00f3ria. Esses eventos extremos estavam previstos pelos estudiosos das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, causadas quase exclusivamente pela atividade humana, especialmente pela queima de combust\u00edveis f\u00f3sseis. Mas outro fator est\u00e1 agravando esse quadro: o desmatamento. A Amaz\u00f4nia \u00e9 a respons\u00e1vel por manter \u00famido todo o continente, e sua depreda\u00e7\u00e3o influencia diretamente no clima.<\/p>\n<p>A floresta funciona como uma f\u00e1brica de chuvas. Por cima das nossas cabe\u00e7as, h\u00e1 imensos rios seguindo seu curso, levando nuvens carregadas por onde passam. S\u00e3o os rios voadores, que come\u00e7aram a ser estudados em 2006, numa parceria entre o aviador franc\u00eas G\u00e9rard Moss e o engenheiro agr\u00f4nomo Antonio Donato Nobre, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). Sobrevoando a Amaz\u00f4nia, eles descobriram todo o seu potencial de bombeamento de \u00e1gua e tra\u00e7aram o curso que os rios voadores seguem pelo Pa\u00eds. Esta capacidade da floresta de exportar umidade \u00e9 um dos cinco segredos da floresta, poeticamente explicados no relat\u00f3rio O Futuro Clim\u00e1tico da Amaz\u00f4nia, publicado recentemente por Nobre.<\/p>\n<p><strong>Nossa \u00e1gua vem da Amaz\u00f4nia<\/strong><\/p>\n<p>Entenda o processo de transpira\u00e7\u00e3o da floresta e a forma\u00e7\u00e3o das nuvens sobre ela. Ao lado, conhe\u00e7a o percurso dos rios voadores e como eles levam chuvas por todo o continente.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"\" src=\"https:\/\/farm8.staticflickr.com\/7460\/16442509282_8c093d47bd_o.jpg\" alt=\"\" width=\"605\" height=\"1302\" \/><\/p>\n<p>O fluxo dos rios voadores \u00e9 mais intenso no ver\u00e3o, esta\u00e7\u00e3o em que chove na maior parte do Pa\u00eds. Isso acontece gra\u00e7as \u00e0 inclina\u00e7\u00e3o da Terra nesta \u00e9poca do ano, que favorece a entrada dos ventos mar\u00edtimos na Am\u00e9rica do Sul. Mas h\u00e1 mais uma vantagem geogr\u00e1fica que garante esse circuito: a Cordilheira dos Andes, localizada a oeste da floresta. O imenso pared\u00e3o faz com que os ventos n\u00e3o passem direto e deixem o resto do Brasil sem umidade. De acordo com o f\u00edsico Philip Fearnside, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amaz\u00f4nia (INPA), \u00e9 no come\u00e7o do ano que os rios voadores reabastecem as fontes de \u00e1gua e reservat\u00f3rios brasileiros. Ao se chocarem contra a Serra da Mantiqueira e da Canastra, no Sudeste, enchem a nascente de v\u00e1rios rios importantes, como o S\u00e3o Francisco. &#8220;Esta regi\u00e3o \u00e9 a caixa d\u0092\u00e1gua do Brasil&#8221;, avalia Fearnside. &#8220;Se n\u00e3o chover na \u00e9poca em que tem que chover, os reservat\u00f3rios n\u00e3o ser\u00e3o recarregados ao longo do ano&#8221;, completa. Esse tem sido o drama em 2014.<\/p>\n<p><strong>Desmatamento que vai, volta<\/strong><\/p>\n<p>Poder contar com a maior floresta tropical do mundo, inclusive em rela\u00e7\u00e3o aos recursos h\u00eddricos, \u00e9 um privil\u00e9gio. Pouqu\u00edssimo valorizado. Nos \u00faltimos 40 anos, derrubamos 42 bilh\u00f5es de \u00e1rvores. Al\u00e9m disso, devido \u00e0s queimadas, existe mais de 1 milh\u00e3o de km\u00b2 de floresta morta, degradada. O que n\u00e3o se imaginava \u00e9 que uma revanche em forma de seca chegaria t\u00e3o r\u00e1pido. &#8220;Hoje, estamos vivendo a reciprocidade da inconsequ\u00eancia&#8221;, atesta Nobre. H\u00e1 mais de 20 anos, estudos alertavam para esse perigo. Em 1991, o climatologista Carlos Nobre, irm\u00e3o de Antonio e tamb\u00e9m do INPE, comandou uma simula\u00e7\u00e3o para avaliar os impactos no clima da mudan\u00e7a do uso da terra. Constataram que, se a floresta fosse substitu\u00edda por planta\u00e7\u00f5es ou pastagens, a temperatura m\u00e9dia da superf\u00edcie aumentaria cerca de 2,5 \u00baC, a evapotranspira\u00e7\u00e3o das plantas diminuiria 30% e as chuvas cairiam 20%. Tamb\u00e9m se previa uma amplia\u00e7\u00e3o das esta\u00e7\u00f5es secas na \u00e1rea amaz\u00f4nica. Hoje, com quase metade da floresta original danificada, tais efeitos parecem ter vindo \u00e0 tona.<\/p>\n<p>&#8220;O desmatamento zero \u00e9 para ontem. Chegamos a n\u00edveis clim\u00e1ticos cr\u00edticos. Precisamos come\u00e7ar a replantar o que j\u00e1 perdemos&#8221;, aponta Antonio Nobre. Apesar da urg\u00eancia, as perspectivas n\u00e3o s\u00e3o animadoras. S\u00f3 na regi\u00e3o amaz\u00f4nica, h\u00e1 mais de 40 projetos do Programa de Acelera\u00e7\u00e3o do Crescimento do Governo Federal s\u00f3 no quesito gera\u00e7\u00e3o de energia. S\u00e3o usinas, barragens e outras medidas que causam inunda\u00e7\u00f5es e corte de \u00e1rvores e que afetam diretamente popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas. Os projetos de estradas tamb\u00e9m s\u00e3o preocupantes. A recupera\u00e7\u00e3o da Rodovia Manaus-Porto Velho (BR-319), abandonada desde a d\u00e9cada de 1980 por falta de manuten\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m consta no PAC. De acordo com Philip Fearnside, o projeto \u00e9 um risco para a Amaz\u00f4nia. &#8220;Uma estrada valoriza demais a terra, e especula\u00e7\u00e3o gera desmatamento e favorece a grilagem&#8221;, explica. O mesmo acontece com a Rodovia Santar\u00e9m-Cuiab\u00e1 (BR-163), com mais de 1.700 km de extens\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8220;A estrada vai ser recuperada para facilitar o transporte da soja produzida no Mato Grosso&#8221;, aponta Fearnside, sobre uma das \u00e1reas amaz\u00f4nicas que mais sofrem com o agroneg\u00f3cio. &#8220;A terra valoriza tanto que pecuaristas est\u00e3o vendendo suas terras para produtores de soja do Sul. Por sua vez, isso tem aumentado muito o desmatamento no Par\u00e1, com a libera\u00e7\u00e3o de terrenos para a cria\u00e7\u00e3o de gado desses pecuaristas&#8221;, critica o especialista. Ele tamb\u00e9m destaca o fortalecimento da bancada ruralista no Congresso, ap\u00f3s as elei\u00e7\u00f5es deste ano.<\/p>\n<p><strong>Desmatamento e degrada\u00e7\u00e3o:<\/strong><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"\" src=\"https:\/\/farm9.staticflickr.com\/8680\/16443442795_f631c12ff9_o.jpg\" alt=\"\" width=\"605\" height=\"1320\" \/><\/p>\n<p><strong>Clima em crise<\/strong><\/p>\n<p>Neste ver\u00e3o, os rios voadores n\u00e3o avan\u00e7aram sobre o Sudeste; tampouco as frentes frias. A ilha de calor instalada sobre a regi\u00e3o, caracter\u00edstica de uma urbaniza\u00e7\u00e3o extrema, cria bloqueios que afastam as chuvas. Por isso, a \u00e1gua esborrou na borda dessa bolha quente, gerando chuvas acima da m\u00e9dia no Sul e pa\u00edses vizinhos. Hoje, h\u00e1 registros de seca em todos os Estados brasileiros. Em alguns deles, a seca \u00e9 &#8220;excepcional&#8221;, ainda mais grave do que a &#8220;extrema&#8221;. O quadro j\u00e1 era grave no ano passado, quando o Nordeste viveu a pior seca dos \u00faltimos 50 anos, inserindo o Brasil no mapa de eventos clim\u00e1ticos extremos, da Organiza\u00e7\u00e3o Mundial de Meteorologia.<\/p>\n<p>De acordo com o f\u00edsico especialista em ci\u00eancias atmosf\u00e9ricas Alexandre Ara\u00fajo Costa, da Universidade Estadual do Cear\u00e1, o agravamento de secas e das cheias est\u00e1 relacionado ao aumento da temperatura na atmosfera. Aquecida, ela se expande, fazendo com que seja necess\u00e1rio reunir mais vapor d\u0092\u00e1gua para formar nuvens. &#8220;Esse processo demanda mais tempo, portanto tende a prolongar os per\u00edodos de estiagem. Por outro lado, as nuvens se formam a partir de uma quantidade maior de vapor d\u0092\u00e1gua, fazendo com que os eventos de precipita\u00e7\u00f5es se tornem mais intensos. Um planeta mais quente \u00e9 um planeta de extremos&#8221;, explica.<\/p>\n<p>Para a fil\u00f3sofa e ecologista D\u00e9borah Danowski, que lan\u00e7ou recentemente o livro H\u00e1 mundo por vir? Ensaio sobre os medos e os fins, com seu marido e antrop\u00f3logo Eduardo Viveiros de Castro, entramos num caminho sem volta. &#8220;A crise clim\u00e1tica n\u00e3o pode mais ser evitada. Se cort\u00e1ssemos agora as emiss\u00f5es de CO\u2082, a Terra ainda iria se aquecer aproximadamente 1 \u00baC. Isso porque j\u00e1 jogamos no ar uma quantidade t\u00e3o grande, que muito dele ainda nem foi absorvido&#8221;, aponta. O que n\u00e3o quer dizer que n\u00e3o haja muito o que fazer. Para ela, o primeiro passo \u00e9 repensar os modelos econ\u00f4micos de crescimento e consumo. &#8220;O que nos cabe \u00e9 tentar mitigar as causas que levam ao aprofundamento das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e, ao mesmo tempo, nos adaptar \u00e0 vida em um mundo mais dif\u00edcil ecologicamente.&#8221;<\/p>\n<p><strong>Estamos todos ilhados<\/strong><\/p>\n<p>Seja pelo excesso de calor ou pelas enchentes. Mais filosoficamente: <strong>n\u00e3o temos sa\u00edda para o clima.<\/strong> Os eventos extremos parecem estar se tornando uma realidade no Brasil.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"\" src=\"https:\/\/farm8.staticflickr.com\/7446\/16256038260_e555cc4f21_o.jpg\" alt=\"\" width=\"605\" height=\"1945\" \/><\/p>\n<p>Fonte &#8211; Camila Almeida, Revista do Meio Ambiente<\/p>\n<p>Imagens &#8211; Revista do Meio Ambiente<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A falta d&#8217;\u00e1gua se alastrou pelo pa\u00eds, sintoma das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e do desmatamento na Amaz\u00f4nia, cada vez mais debilitada. Nos aproximamos de um futuro des\u00e9rtico \u0097 e a culpa \u00e9 toda nossa Em 2014, n\u00e3o choveu. Pelo menos n\u00e3o quanto deveria. 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