{"id":14414,"date":"2015-06-03T13:00:55","date_gmt":"2015-06-03T16:00:55","guid":{"rendered":"http:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/?p=14414"},"modified":"2015-06-03T11:24:06","modified_gmt":"2015-06-03T14:24:06","slug":"a-era-dos-extremos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/a-era-dos-extremos\/","title":{"rendered":"A era dos extremos"},"content":{"rendered":"<p>Nos \u00faltimos 14 meses \u2013 entre outubro de 2013 e fevereiro deste ano \u2013 o Estado de S\u00e3o Paulo assistiu \u00e0 pior seca j\u00e1 registrada desde que come\u00e7aram os registros meteorol\u00f3gicos no Sudeste brasileiro, h\u00e1 mais de 80 anos, disse ao Jornal da Unicamp o climatologista Carlos Nobre, atual diretor do Centro Nacional de Monitoramento e Alerta de Desastres Naturais (Cemaden), vinculado ao Minist\u00e9rio da Ci\u00eancia, Tecnologia e Inova\u00e7\u00e3o. \u201cS\u00f3 para dar uma ideia, de outubro de 2013 a mar\u00e7o de 2014, choveu cerca de 50% do que deveria ter chovido nesses seis meses\u201d, declarou. \u201cDe outubro de 2014 ao final de mar\u00e7o de 2015 choveu 75% do que seria esperado. E 25% abaixo da m\u00e9dia ainda \u00e9 bem seco, mas muito diferente da mega seca que foi h\u00e1 um ano\u201d.<\/p>\n<p>Nobre participou da elabora\u00e7\u00e3o de v\u00e1rios relat\u00f3rios do Painel Intergovernamental de Mudan\u00e7as Clim\u00e1ticas (IPCC) das Na\u00e7\u00f5es Unidas, que avaliam as causas e impactos do aquecimento global.<\/p>\n<p>Ele explica que a rela\u00e7\u00e3o entre a mudan\u00e7a clim\u00e1tica, em curso atualmente no mundo, e fen\u00f4menos extraordin\u00e1rios espec\u00edficos, como a recente seca paulista, \u00e9 mais complexa do que uma simples liga\u00e7\u00e3o linear entre causa e efeito. \u201cN\u00e3o \u00e9 bem assim, n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o simples\u201d, adverte.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o d\u00e1 para afirmar que, sem a mudan\u00e7a clim\u00e1tica antropog\u00eanica, esta seca, possivelmente a maior em 100 anos, n\u00e3o teria acontecido\u201d, disse ele. \u201cN\u00e3o se pode afirmar, categoricamente, que n\u00e3o haveria a seca se o planeta n\u00e3o tivesse aquecido.\u201d<\/p>\n<p>O que a mudan\u00e7a clim\u00e1tica faz \u2013 \u201ce far\u00e1 cada vez mais no futuro\u201d, de acordo com o pesquisador \u2013 \u00e9 exacerbar a variabilidade natural e aumentar a frequ\u00eancia dos fen\u00f4menos clim\u00e1ticos extremos.<\/p>\n<p>\u201cUma seca como essa que afligiu S\u00e3o Paulo em 2014 \u00e9 um fen\u00f4meno muito raro. Vamos supor que pud\u00e9ssemos dizer que isso acontece, naturalmente, uma vez a cada 100 anos\u201d, disse. \u201cO que a mudan\u00e7a clim\u00e1tica faz, e far\u00e1 mais ainda no futuro, \u00e9 diminuir esse per\u00edodo de recorr\u00eancia. N\u00e3o sabemos qual a diminui\u00e7\u00e3o ainda, precisamos estudar muito. Mas podemos dizer que eventos dessa natureza, que eram muito raros, v\u00e3o acontecer com mais frequ\u00eancia, nos extremos com menos ou com mais chuvas\u201d, explicou. \u201c\u00c9 isso que mudan\u00e7a clim\u00e1tica faz: havia uma certa variabilidade de fen\u00f4menos extremos muito raros, e de repente, por conta da mudan\u00e7a clim\u00e1tica, come\u00e7am a ficar mais frequentes\u201d.<\/p>\n<p>Esse aumento da frequ\u00eancia torna os eventos extremos mais prov\u00e1veis ao longo do tempo. Al\u00e9m disso, a mudan\u00e7a clim\u00e1tica pode, tamb\u00e9m, intensific\u00e1-los. \u201cVai acontecer mais vezes, e pode at\u00e9 acontecer com intensidade maior, talvez at\u00e9 com intensidade nunca registrada\u201d, disse, lembrando a seca sem precedentes em S\u00e3o Paulo. \u201cN\u00e3o se pode dizer que o fen\u00f4meno extremo s\u00f3 passou a acontecer como resposta direta ao aquecimento\u201d, reiterou. \u201cO que se pode dizer \u00e9 que o aquecimento vai mudar a natureza probabil\u00edstica desses extremos clim\u00e1ticos do ciclo hidrol\u00f3gico e vai torn\u00e1-los mais frequentes\u201d.<\/p>\n<p><strong>Ilhas de calor<\/strong><\/p>\n<p>Especificamente na cidade de S\u00e3o Paulo, explica Nobre, o efeito clim\u00e1tico dominante \u00e9 o da ilha urbana de calor, gerado pelo crescimento e adensamento de mudan\u00e7a da cidade, com a elimina\u00e7\u00e3o de \u00e1reas verdes e a impermeabiliza\u00e7\u00e3o do solo. A temperatura m\u00e9dia global \u00e0 superf\u00edcie elevou-se em 0,8\u00ba C desde a revolu\u00e7\u00e3o industrial. \u201cMas em S\u00e3o Paulo, nos \u00faltimos 70 anos, subiu entre 3\u00ba C e 4\u00ba C, em m\u00e9dia\u201d, disse o pesquisador.<\/p>\n<p>\u201cDependendo do lugar &#8211; tomando, como exemplo, um dia ensolarado da primavera, sem nuvens &#8211; a diferen\u00e7a entre a temperatura da periferia de S\u00e3o Paulo e a do centro pode chegar tranquilamente a 6\u00ba C, 7\u00ba C\u201d, acrescenta. \u201cNesse caso, no centro de S\u00e3o Paulo, o aquecimento urbano, da ilha urbana de calor, j\u00e1 saturou. No entanto, \u00e0 medida que a cidade vai se urbanizando, vai se concretando, h\u00e1 mais pavimenta\u00e7\u00e3o e o desaparecimento da vegeta\u00e7\u00e3o, esse efeito vai cobrindo uma \u00e1rea maior, vai crescendo como uma bola\u201d.<\/p>\n<p>De acordo com os cen\u00e1rios do IPCC, se nada for feito para reduzir as emiss\u00f5es de gases causadores do efeito estufa nas pr\u00f3ximas d\u00e9cadas, as temperaturas m\u00e9dias globais poder\u00e3o chegar (no ano de 2100) de 3\u00ba C a 4\u00ba C acima dos n\u00edveis pr\u00e9-industriais. \u201cNa regi\u00e3o do Estado de S\u00e3o Paulo, haveria uma eleva\u00e7\u00e3o de 3\u00ba C, 3,5\u00ba C.<\/p>\n<p>O impacto no Brasil central seria de 4\u00ba C, 5\u00ba C e o impacto na Amaz\u00f4nia em 5 \u00ba C, 6 \u00ba C\u201d enumera Nobre. \u201cIsso \u00e9 o que a maioria dos cen\u00e1rios indica, no caso de continuarem aumentando as emiss\u00f5es\u201d.<\/p>\n<p>No melhor cen\u00e1rio, caso sejam tomadas medidas para impedir a subida de mais 2\u00baC na temperatura m\u00e9dia global, acima dos n\u00edveis pr\u00e9-industriais at\u00e9 2100, a temperatura no Estado de S\u00e3o Paulo subiria da ordem de 2\u00ba C.<\/p>\n<p>\u201cMas como j\u00e1 subiu 0,8\u00ba C, n\u00f3s temos ainda, nesse cen\u00e1rio benigno, 1,2\u00ba C para chegar nesse marco simb\u00f3lico de 2\u00ba C\u201d, disse Nobre. \u201cPara isso, temos que chegar a emiss\u00f5es de gases de efeito estufa negativas em 2100. Quer dizer, tirar o di\u00f3xido de carbono (CO2) da atmosfera\u201d.<\/p>\n<p><strong>Chuvas<\/strong><\/p>\n<p>O pesquisador lembra que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel prever como ser\u00e3o os pr\u00f3ximos ver\u00f5es em S\u00e3o Paulo, se secos ou chuvosos. \u201cCientificamente, n\u00e3o h\u00e1 previsibilidade, com alto grau de acerto, para al\u00e9m de poucos dias. O que d\u00e1 para dizer numa escala de d\u00e9cadas, de um s\u00e9culo, que a cidade vai estar mais quente\u201d, disse. \u201cE a ilha urbana de calor traz um aumento da chuva. Chove em S\u00e3o Paulo, hoje, 30% a 35% mais do que chovia h\u00e1 80 anos. Isso \u00e9 um efeito direto da ilha urbana de calor.\u201d<\/p>\n<p>Numa perspectiva mais geral, para o Estado ou a regi\u00e3o Sudeste como um todo, os cen\u00e1rios de longo prazo do IPCC indicam uma pequena modifica\u00e7\u00e3o no volume de chuvas, mas sem sinal claro. \u201cAlguns cen\u00e1rios mostram uma tend\u00eancia \u00e0 pequena diminui\u00e7\u00e3o das chuvas. Outros, uma pequena eleva\u00e7\u00e3o. O Sudeste \u00e9 uma regi\u00e3o de transi\u00e7\u00e3o\u201d, explica. \u201cL\u00e1 no Nordeste, os modelos indicam uma diminui\u00e7\u00e3o da chuva. No Sul e em parte da Argentina, um aumento das chuvas. O Sudeste ficou no meio, num lugar onde o sinal \u00e9 positivo ao sul e negativo ao norte. H\u00e1 uma situa\u00e7\u00e3o de maior incerteza\u201d.<\/p>\n<p>\u201cMas n\u00e3o se prev\u00ea uma mudan\u00e7a clim\u00e1tica com maior volume de chuvas, a longo prazo. Ent\u00e3o, n\u00e3o vai virar um deserto\u201d, acrescenta. \u201cO que muda \u00e9 a natureza das chuvas. Deve-se gerar maior n\u00famero de dias com pancadas fortes de chuvas e, igualmente, maior n\u00famero consecutivo de dias secos\u201d.<\/p>\n<p><strong>Adapta\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>O aumento na variabilidade do clima e na probabilidade de fen\u00f4menos clim\u00e1ticos extremos j\u00e1 est\u00e1 exigindo esfor\u00e7os de adapta\u00e7\u00e3o por parte dos agentes p\u00fablicos. \u201cA cidade tem que ter uma prepara\u00e7\u00e3o para esse novo cen\u00e1rio. E tem que se adaptar rapidamente, porque ele j\u00e1 est\u00e1 acontecendo\u201d, alerta Nobre. \u201cN\u00e3o \u00e9 para daqui a 20, 30, 50 anos\u201d.<\/p>\n<p>\u201cJ\u00e1 estamos vivendo uma situa\u00e7\u00e3o de grande mudan\u00e7a nos regimes clim\u00e1ticos\u201d, disse. \u201cPortanto, toda a infraestrutura e a estrutura de abastecimento de \u00e1gua t\u00eam que levar em considera\u00e7\u00e3o essa varia\u00e7\u00e3o, colocando em a\u00e7\u00e3o uma s\u00e9rie de mecanismos de aumentar resili\u00eancia\u201d.<\/p>\n<p>Como exemplo de a\u00e7\u00e3o uma necess\u00e1ria, cita o reflorestamento das bacias dos rios. \u201cIsso \u00e9 muito importante, tanto para melhorar a qualidade da \u00e1gua e aumentar a vida \u00fatil dos reservat\u00f3rios, como tamb\u00e9m para moderar os picos de inunda\u00e7\u00e3o. O reflorestamento ajuda a redistribuir a \u00e1gua, com menos vaz\u00e3o na \u00e9poca de chuva e mais vaz\u00e3o na \u00e9poca seca do ano\u201d, explica. \u201cS\u00f3 estou dando um exemplo de uma atividade t\u00edpica de adapta\u00e7\u00e3o \u00e0 maior volatilidade clim\u00e1tica. Outro caso muito concreto &#8211; e que todos est\u00e3o sentindo, paulistanos e paulistas &#8211; \u00e9 a crise h\u00eddrica\u201d.<\/p>\n<p>Fonte &#8211;\u00a0Carlos Orsi, Jornal da Unicamp \/ IHU de 06 de maio de 2015<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nos \u00faltimos 14 meses \u2013 entre outubro de 2013 e fevereiro deste ano \u2013 o Estado de S\u00e3o Paulo assistiu \u00e0 pior seca j\u00e1 registrada desde que come\u00e7aram os registros meteorol\u00f3gicos no Sudeste brasileiro, h\u00e1 mais de 80 anos, disse ao Jornal da Unicamp o climatologista Carlos Nobre, atual diretor do Centro Nacional de Monitoramento&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[12],"post_series":[],"class_list":["post-14414","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-geral","tag-aquecimento-global-global-warming-global-climate-change","entry","no-media"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v25.2 - 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