{"id":14459,"date":"2015-06-15T17:00:41","date_gmt":"2015-06-15T20:00:41","guid":{"rendered":"http:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/?p=14459"},"modified":"2015-06-15T17:33:57","modified_gmt":"2015-06-15T20:33:57","slug":"mudar-o-mundo-sem-tomar-o-poder","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/mudar-o-mundo-sem-tomar-o-poder\/","title":{"rendered":"Mudar o mundo sem tomar o poder"},"content":{"rendered":"<p>Com a cena estonteante da cidade contornada pela linha do horizonte, raramente vista na cidade de S\u00e3o Paulo, Camila Haddad visiona um futuro que pode at\u00e9 n\u00e3o se concretizar em grande escala. Mas que j\u00e1 coleciona sementes aqui e ali, espalhando-se no ch\u00e3o nem sempre a c\u00e9u aberto. E geram pequenas trincas no cimento do status quo, pelas m\u00e3os de pessoas que simplesmente se juntam para fazer coisas e resolver problemas de forma independente das institui\u00e7\u00f5es. Nesta \u00faltima frase ela resumidamente define o que \u00e9 a <strong>economia colaborativa.<\/strong><\/p>\n<p>Leitora de <strong>Mudar o Mundo sem Tomar o Poder e de Fissurar o Capitalismo, de John Holloway,<\/strong> a jovem que estudou economia e trabalhou com sustentabilidade n\u00e3o v\u00ea outra mudan\u00e7a para este mundo \u2014 sob v\u00e1rios aspectos em crise \u2014 que n\u00e3o seja pela trilha da colabora\u00e7\u00e3o. <strong>\u201cEsse movimento n\u00e3o tem a pretens\u00e3o e n\u00e3o \u00e9 organizado politicamente para revolucionar. Mas justamente por isso tem muito mais capacidade de mudan\u00e7a\u201d,<\/strong> diz, em entrevista concedida no ap\u00ea que divide com os amigos.<\/p>\n<p>\u00c9 fundadora, junto com a irm\u00e3, do Cinese, uma plataforma de aprendizagem colaborativa. O Cinese, conta ela, nasceu muito para responder a ang\u00fastias pessoais da irm\u00e3, que havia ticado todas as caixinhas definidas pelo mainstream como sucesso, mas n\u00e3o a de encontrar sentido para o que faz. Ent\u00e3o as duas criaram uma iniciativa com o esp\u00edrito de que a educa\u00e7\u00e3o deve fazer a pessoa se conhecer, conhecer o que gosta e descobrir como pode atuar a partir disso no mundo. Da mesma forma, a economia colaborativa provoca um repensar sobre a forma como as pessoas se organizam social e economicamente, e o que esperam dessas rela\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A entrevista foi montada tamb\u00e9m de forma colaborativa, inspirada em perguntas que o Conselho Editorial da P\u00e1gina22 fez ao debater a pauta desta edi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Parece que estamos vivendo um florescer da economia colaborativa. A crise financeira dos \u00faltimos anos tem a ver com isso?<\/strong><\/p>\n<p>Os processos de colabora\u00e7\u00e3o sempre aconteceram, a gente n\u00e3o teria conseguido se manter como estrutura social se eles n\u00e3o existissem. Mas foi ficando menos presente quando mais coisas foram se convertendo em produto ou servi\u00e7o, por exemplo, alimenta\u00e7\u00e3o. Antes n\u00e3o fazia sentido pagar para comer, as pessoas cozinhavam dentro de casa. E mais coisas foram sendo convertidas em produto ou servi\u00e7o conforme a gente foi atingindo um certo padr\u00e3o de desenvolvimento. Processos inerentemente sociais ou colaborativos foram se distanciando. Mas o atual modelo est\u00e1 obviamente em crise, tanto financeira como em termos de recursos naturais. Al\u00e9m disso, o fen\u00f4meno da internet foi muito importante, porque agora a gente percebe que pode se conectar com as pessoas. Essa possibilidade sempre existiu, mas com a internet ficou mais tang\u00edvel. Vejo a internet como a primeira organiza\u00e7\u00e3o humana distribu\u00edda, n\u00e3o hier\u00e1rquica. E a n\u00e3o hierarquia e a horizontalidade s\u00e3o o pressuposto para que qualquer organiza\u00e7\u00e3o colaborativa se constitua. Economia colaborativa \u00e9 basicamente isso, uma rede de pessoas conectadas para fazer coisas e resolver problemas de forma independente das institui\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>E que n\u00e3o necessariamente pressup\u00f5e uma transa\u00e7\u00e3o monet\u00e1ria?<\/strong><\/p>\n<p>Em qualquer rela\u00e7\u00e3o que a gente fa\u00e7a, existe uma troca de valor. Em todos os sentidos. O dinheiro \u00e9 uma forma de tangibilizar essa troca, mas n\u00e3o \u00e9 a \u00fanica. E n\u00e3o \u00e9 um problema. S\u00f3 que \u00e9 muito limitado para dar conta. O dinheiro serve para facilitar fluxos de bens e servi\u00e7os, para girar a economia, mas \u00e0s vezes n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio, \u00e9 poss\u00edvel fazer muitas coisas sem recurso monet\u00e1rio.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea v\u00ea a economia colaborativa sob qual prisma? Pelo car\u00e1ter revolucion\u00e1rio ou rejuvenescedor da internet? Pela maior conscientiza\u00e7\u00e3o sobre os limites do planeta? Ou pela \u00f3tica psicol\u00f3gica e cultural, de como e por que humanoides desde a Pr\u00e9-Hist\u00f3ria resolveram fazer coisas em conjunto?<\/strong><\/p>\n<p>Uma mistura de tudo, porque a gente cada vez mais tem not\u00edcias de que o modelo atual n\u00e3o responde \u00e0s nossas necessidades. Colabora\u00e7\u00e3o e competi\u00e7\u00e3o s\u00e3o inerentes \u00e0s pessoas, mas criamos um sistema que estimula s\u00f3 um dos lados.<\/p>\n<p>A economia colaborativa pode ser s\u00f3 um arcabou\u00e7o de outras coisas, mas tem, sim, um aspecto muito transgressor e revolucion\u00e1rio que desafia duas premissas b\u00e1sicas da economia. Uma \u00e9 a escassez, s\u00f3 precisa ser gerido o que \u00e9 escasso, e s\u00f3 tem valor econ\u00f4mico o que \u00e9 escasso. Ent\u00e3o a gente gera escassez artificial para criar valor econ\u00f4mico, ou seja, cria escassez na tentativa de administrar a escassez, o que n\u00e3o faz muito sentido. E a outra premissa \u00e9 a do Homo economicus, segundo a qual a gente \u00e9 competitivo e precisa criar um sistema que transforme competi\u00e7\u00e3o em mais bem-estar social, na hist\u00f3ria de que, quanto mais autointeressado e competitivo a gente for, mais vai gerar produtos e servi\u00e7os que s\u00e3o bons para a sociedade.<\/p>\n<p>Mas uma economista de que gosto muito, a Elinor Ostrom, diz que, quando a gente acha que as pessoas s\u00e3o inerentemente ego\u00edstas, concebe sistemas que premiam pessoas ego\u00edstas e garante que de fato elas se comportem da maneira que achou que iam se comportar. Se formos pensar em todas as estruturas hier\u00e1rquicas, \u00f3bvio que o \u00fanico caminho \u00e9 o topo, e nem todo mundo vai chegar l\u00e1. E pensando no cen\u00e1rio de recursos escassos, obviamente vou querer competir e garantir o meu, \u00e9 uma dan\u00e7a das cadeiras. E com a previs\u00e3o ruim, ainda que eu n\u00e3o queira sentar na cadeira agora, vou guardar lugar porque vai que eu precise sentar l\u00e1 na frente\u2026<\/p>\n<p>Desafiar a premissa da escassez e da competi\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 pouco. Como falar de abund\u00e2ncia em um cen\u00e1rio no qual os recursos est\u00e3o se exaurindo? \u00c9 uma mudan\u00e7a de \u00f3tica. A mat\u00e9ria \u00e9 escassa, mas a capacidade de transforma\u00e7\u00e3o \u00e9 infinita. A gente \u00e9 \u00fanica esp\u00e9cie que pensa de forma linear, mas a resposta est\u00e1 na capacidade cont\u00ednua de transforma\u00e7\u00e3o. E esta s\u00f3 acontece quando a gente inova. E a gente s\u00f3 inova quando as pessoas colaboram.<\/p>\n<p><strong>Ent\u00e3o a sustentabilidade necessariamente passa pela trilha da economia colaborativa?<\/strong><\/p>\n<p>A meu ver, sim. Inclusive o meu caminho para a colabora\u00e7\u00e3o veio a partir da sustentabilidade. Eu compreendi que a \u00fanica forma de se organizar socialmente para se manter a longo prazo exige colabora\u00e7\u00e3o. Quando a gente se organiza de forma industrial, entende a perenidade dessa forma: essa empresa vai existir para sempre, fazendo as coisas assim, e a\u00ed a capacidade de transforma\u00e7\u00e3o se perde.<\/p>\n<p><strong>D\u00e1 pra colocar uma empresa como o Uber no balaio da economia colaborativa? Ou est\u00e1 na economia do compartilhamento?<\/strong><\/p>\n<p>O compartilhamento \u00e9 uma parte da economia colaborativa. \u00c9 a gente perceber que n\u00e3o precisa possuir recursos, s\u00f3 precisa acess\u00e1-los. A colaborativa \u00e9 mais ampla, inclui iniciativas como a Rede Nossas Cidades, com pessoas se conectando para transformar a pol\u00edtica local. No Uber, a ideia da colabora\u00e7\u00e3o est\u00e1 sendo usada sem desafiar as premissas da economia. O CEO do Uber, por exemplo, falou que o \u00fanico problema deles eram os motoristas! Ent\u00e3o tem um entendimento muito errado a\u00ed. N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que j\u00e1 tem uni\u00e3o de motoristas contra o Uber. Se o valor da empresa \u00e9 conectar pessoas, como se pode dizer que o problema s\u00e3o as pessoas? Essas empresas podem at\u00e9 crescer muito a curto prazo, mas est\u00e3o cavando a pr\u00f3pria cova.<\/p>\n<p><strong>O que motivou a declara\u00e7\u00e3o do CEO?<\/strong><\/p>\n<p>A cria\u00e7\u00e3o de um sindicato de motoristas do Uber. Ele falou que j\u00e1 existem carros autodirigidos do Google e que, quando n\u00e3o precisarem de motoristas, n\u00e3o ter\u00e3o mais esse problema. Mas isso n\u00e3o tem capacidade de se manter por muito tempo, pois, quando as pessoas percebem que n\u00e3o est\u00e1 sendo gerado valor real para elas, v\u00e3o simplesmente pular o Uber. J\u00e1 est\u00e1 nascendo um \u201cuber\u201d descentralizado, um aplicativo que n\u00e3o tem uma empresa por tr\u00e1s, as pessoas se conectam diretamente e t\u00eam uma moeda pr\u00f3pria, gerada no processo de carona. Se te dou carona, consigo uma moeda que \u00e9 usada quando eu precisar de carona. Ent\u00e3o as pessoas v\u00e3o criar alternativas, \u00e9 a hist\u00f3ria do protagonismo. N\u00e3o precisamos mais das institui\u00e7\u00f5es e dos intermedi\u00e1rios que n\u00e3o nos agregam valor.<\/p>\n<p><strong>A economia colaborativa pressup\u00f5e a descentraliza\u00e7\u00e3o de poder e a quebra de hierarquia, mas ao mesmo tempo o mundo digital tem como expoentes grandes corpora\u00e7\u00f5es. Como fica isso?<\/strong><\/p>\n<p>Se a minha resposta \u00e9 ter de remunerar o acionista, eventualmente vou chegar em um momento contradit\u00f3rio em que me pergunto: \u201c\u00c9 melhor pra quem?\u201d Tem muitas empresas tradicionais surgindo que prestam servi\u00e7os colaborativos, o que j\u00e1 \u00e9 bastante interessante. Mas eu falo mesmo \u00e9 da colabora\u00e7\u00e3o da porta pra fora e da porta pra dentro. Boa parte das empresas percebe a colabora\u00e7\u00e3o da porta pra fora, mas ainda continua se organizando de forma hier\u00e1rquica, vertical, compartimentalizada \u2013 muita gente pensa que n\u00e3o funciona se n\u00e3o for assim. S\u00f3 que isso tudo \u00e9 constru\u00eddo socialmente.<\/p>\n<p><strong>Tamb\u00e9m deve haver d\u00favidas no que se refere \u00e0 capacidade de gerar renda. No exemplo do aplicativo que substitui o Uber, as pessoas n\u00e3o conseguiriam viver disso. Mas no Uber, sim, \u00e9 uma empresa que pode proporcionar o ganha-p\u00e3o de muita gente.<\/strong><\/p>\n<p>Tem alguns pontos a\u00ed. Existe um processo de longo prazo. O dinheiro surgiu para os recursos circularem, para as coisas que est\u00e3o em um espa\u00e7o chegarem de forma mais eficiente em outro. Essa \u00fanica moeda, que est\u00e1 t\u00e3o presente, n\u00e3o \u00e9 a \u00fanica resposta para uma economia que funcione. Economia \u00e9 troca de valor. Penso que no futuro teremos diversas moedas, pode ter a da carona, a da alimenta\u00e7\u00e3o, e a gente vai conseguir moeda na medida que coopere e gere valor na sociedade. N\u00e3o terei o emprego que me d\u00e1 moeda corrente com a qual conseguirei fazer todas as coisas. Se gero valor, serei reconhecido, terei reputa\u00e7\u00e3o, outras moedas e isso permitir\u00e1 com que eu fa\u00e7a todas as coisas para continuar existindo. \u00c9 quase como, de forma mais ampliada, voltar para processos muito tribais.<\/p>\n<p><strong>\u00c9 o caso de relativizar o aspecto inovador da economia colaborativa? Ou h\u00e1 algo realmente novo devido \u00e0s tecnologias?<\/strong><\/p>\n<p>Quando a gente olha para os processos tribais, a exist\u00eancia estava garantida. Se tinha alguma pessoa doente, todos iam prover recursos para ela, porque sabiam que, quando ela estivesse bem, ia voltar a gerar valor, ca\u00e7ar etc. S\u00f3 que isso n\u00e3o consegue se estender para al\u00e9m de uma comunidade pequena, porque n\u00e3o conhe\u00e7o todas as pessoas e a sua reputa\u00e7\u00e3o. O dinheiro serviu para estender isso, respondendo \u00e0 pergunta: \u201cSe n\u00e3o te conhe\u00e7o, como a gente vai fazer uma troca?\u201d<\/p>\n<p><strong>Da\u00ed a palavra cr\u00e9dito, no sentido de confiar\u2026<\/strong><\/p>\n<p>Exato. A gente n\u00e3o joga fora tudo o que conquistou esses anos, n\u00e3o se trata de todos voltarem a viver em comunidades. Porque a tecnologia traz a possibilidade de pegar esses processos e fazer com que se ganhe muito mais escala, gerando intera\u00e7\u00f5es com pessoas de todas as partes do mundo. Mesmo quando a gente fala de uma economia monetizada, respondendo \u00e0 sua pergunta sobre o substituto do Uber, vou falar da nossa experi\u00eancia no Cinese, que entendemos n\u00e3o como empresa, mas como uma comunidade de aprendizagem. Cada vez mais a gente anda no sentido de a plataforma ser autogerida, o c\u00f3digo \u00e9 aberto, qualquer um pode propor uma mudan\u00e7a, copiar e fazer outro etc. A ideia \u00e9 que a plataforma est\u00e1 a\u00ed para servir \u00e0s pessoas e elas se conectarem, e n\u00e3o para as pessoas servirem \u00e0 plataforma. N\u00e3o \u00e9 a plataforma em si que precisa gerar renda para pagar algu\u00e9m, e sim ser um ponto de partida para as pessoas gerarem sua pr\u00f3pria renda, cobrando, se quiserem, por suas habilidades. Embora iniciadora do Cinese, eu sou apenas uma usu\u00e1ria dela, a comunidade n\u00e3o tem de me remunerar. Enquanto as pessoas virem valor e quiserem que o Cinese continue existindo, v\u00e3o contribuir com o financiamento coletivo da plataforma. Faz sentido?<\/p>\n<p><strong>Parece que sim. Mas \u00e9 se de perguntar se o mundo tradicional, que opera com regras t\u00e3o diferentes, tende a migrar para isso, ou se essa experi\u00eancia ficar\u00e1 restrita a nichos. O que voc\u00ea pensa disso?<\/strong><\/p>\n<p>Que tem muita capacidade de ganhar escala. N\u00e3o \u00e9 nada de outro mundo. Eu percebo isso acontecendo cada vez mais. Quando a gente fala de hortas urbanas, ocupa\u00e7\u00e3o de espa\u00e7o p\u00fablico, como o Parque Augusta, tudo isso tem a ver com empoderamento, com a percep\u00e7\u00e3o de que \u00e9 a gente que faz a pol\u00edtica, a economia. Podemos optar em ser participante de um sistema que j\u00e1 existe, que foi pensado antes da gente, ou criar coisas novas.<\/p>\n<p><strong>\u00c9 o power to the people? Na hora em que esse poder se d\u00e1, n\u00e3o se volta mais atr\u00e1s?<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 dif\u00edcil. Mas o que falta \u00e9 o nosso entendimento de que coisas muito transformadoras podem acontecer sem uma estrutura de controle. Porque d\u00e1 um medinho, n\u00e9? \u201cSe a gente n\u00e3o se organizar, ser\u00e1 que as coisas v\u00e3o acontecer? Vai virar uma bagun\u00e7a.\u201d Tenho cada vez mais visto que \u00e9 poss\u00edvel pensar em contornos e estruturas horizontais que geram coisas incr\u00edveis. Tem o exemplo b\u00e1sico da Wikip\u00e9dia. Fizeram um teste de inserir erros na Wikip\u00e9dia, e a m\u00e9dia de tempo para isso ser corrigido era de 10 segundos! Que outro lugar tem tanta acur\u00e1cia e rapidez? S\u00f3 em alguma coisa com muita gente conectada. E por que as pessoas editam artigos na Wikip\u00e9dia? Algu\u00e9m paga? Algu\u00e9m organiza? N\u00e3o, \u00e9 o pr\u00f3prio sistema de reputa\u00e7\u00e3o. Se tem uma disputa por edi\u00e7\u00e3o, quem est\u00e1 muito tempo editando pode dizer o que \u00e9 o certo. N\u00e3o tem um cargo para definir o editor, qualquer um pode ser, ent\u00e3o o editor \u00e9 reconhecido pelo seu trabalho de qualidade.<\/p>\n<p>Acredito que todos os processos podem ir nesse sentido. A m\u00eddia pode ser distribu\u00edda desse jeito. Gosto muito da Reportagem P\u00fablica, de jornalismo investigativo, que os leitores financiam e definem a pauta, o assunto que querem ver investigado. Os pap\u00e9is de leitor, financiador e editor ficam mistos e isso permite que as coisas continuem existindo (mais sobre m\u00eddia \u201cO poder do usu\u00e1rio\u201c). Outro exemplo de que gosto bastante \u00e9 theSkyNet, que \u00e9 uma rede de processamento de dados e pesquisas espaciais. Para isso, precisaria de uma capacidade de processamento muito grande, supercomputadores etc. \u2013 o que demanda uma grande institui\u00e7\u00e3o, uma grande universidade, um grande investimento. A ideia deles foi a seguinte: por que a gente precisa de um superprocessador, se tem v\u00e1rias pessoas com computador e capacidade de processamento sobressalente?<\/p>\n<p><strong>Isso \u00e9 a economia da ociosidade?<\/strong><\/p>\n<p>Exatamente. Se a gente fosse pelo lado da escassez, precisaria entender como montar uma estrutura para prover os recursos. J\u00e1 a abund\u00e2ncia \u00e9 perceber que os recursos de que a gente precisa j\u00e1 existem, a gente s\u00f3 precisa conect\u00e1-los. Ent\u00e3o basta qualquer pessoa baixar um aplicativo e, toda a vez que seu computador est\u00e1 ocioso, pode processar dados espaciais. E voc\u00ea escolhe quais pesquisas voc\u00ea quer que o seu computador processe. E essas pessoas n\u00e3o ganham nada em troca.<\/p>\n<p><strong>Mas essas pessoas tamb\u00e9m precisam pagar as contas no fim do m\u00eas. Como d\u00e1 para viver de economia colaborativa?<\/strong><\/p>\n<p>Tudo isso \u00e9 mais dificil se for pensado dentro das estruturas industriais, empresariais. Eu, por exemplo, gero minha renda dentro desse mundo. Eu presto meu servi\u00e7o e as pessoas que veem valor nessas habilidades me remuneram, ou a plataforma ajuda a me remunerar.<\/p>\n<p><strong>E, quanto mais troca tiver, \u00e9 poss\u00edvel viver com menos dinheiro?<\/strong><\/p>\n<p>Voc\u00ea pode viver com menos dinheiro e manter a mesma qualidade de vida, no sentido de que pode acessar muita coisa de forma n\u00e3o monet\u00e1ria. Muitas coisas das quais a gente depende hoje tem a ver com o estilo de vida tradicional: comer fora, terceirizar os cuidados com os filhos, educar os filhos, hospedar-se em hot\u00e9is. S\u00e3o coisas que antes estavam inseridas nos processos da vida em comunidade.<\/p>\n<p><strong>A impress\u00e3o que d\u00e1 no p\u00fablico em geral \u00e9 que os casos de sucesso da economia colaborativa s\u00e3o poucos.<\/strong><\/p>\n<p>Tem muita coisa acontecendo fora do radar. A maioria das pessoas s\u00f3 ouve falar do que \u00e9 sucesso no sentido tradicional de sucesso, ou seja, que viraram grandes empresas, como Uber e Airbnb. A gente ouve falar muito menos do Couchsurfing, que n\u00e3o gera dinheiro, mas \u00e9 uma rede enorme de viajantes que se recebem uns aos outros nas pr\u00f3prias casas, com o princ\u00edpio da reciprocidade. Eu cedo meu sof\u00e1 e sei que vou conseguir um sof\u00e1 em outro lugar do mundo, sem precisar pagar um hotel. A Laboriosa 89 \u00e9 um exemplo de sucesso, \u00e9 um espa\u00e7o de trabalho colaborativo em que qualquer um pode fazer a c\u00f3pia da chave, e quem deseja que o espa\u00e7o continue existindo contribui para pagar as contas. N\u00e3o tem inst\u00e2ncia de tomada de decis\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Tem aquele ditado de que cachorro com muitos donos morre de fome. Isso n\u00e3o acontece no Laboriosa, por exemplo?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o. Parece que ou tem muito processo ou n\u00e3o tem nada, e a\u00ed \u00e9 o caos. L\u00e1 a gente est\u00e1 come\u00e7ando a prototipar os processos para que a casa continue funcionando, mas sem hierarquias ou um grupo tomador de decis\u00e3o. Criamos, por exemplo, caixas distribu\u00eddos para pagamento de \u00e1gua, luz, aluguel. Se faltou dinheiro para a luz e ela \u00e9 cortada, os interessados em que a luz volte se juntam para pagar.<\/p>\n<p><strong>Qual o impacto da economia colaborativa para as contas nacionais e para a arrecada\u00e7\u00e3o de impostos? Uma furadeira pode ser compartilhada entre muitos, mas o sistema cont\u00e1bil e fiscal s\u00f3 registra uma transa\u00e7\u00e3o, que foi a compra da furadeira.<\/strong><\/p>\n<p>Quando a gente fala em quebra de estruturas hier\u00e1rquicas, a maior \u00e9 o Estado, a forma como a gente se organiza politicamente. A nossa capacidade de regular vai muito aqu\u00e9m da transforma\u00e7\u00e3o da realidade. A gente vai encontrar uma forma de regular e medir essas rela\u00e7\u00f5es. S\u00f3 que n\u00e3o precisa impedir que elas existam porque ainda n\u00e3o sabe como regul\u00e1-las. As institui\u00e7\u00f5es \u00e9 que t\u00eam de evoluir, e n\u00e3o a gente voltar para tr\u00e1s. E h\u00e1 muitas alternativas para medir progresso al\u00e9m do PIB. Vai passar muito por isso: como medir troca de valor que n\u00e3o seja exclusivamente pela troca monet\u00e1ria. A quest\u00e3o da arrecada\u00e7\u00e3o seria no caso de n\u00e3o haver nenhuma transa\u00e7\u00e3o monet\u00e1ria. Mas por que isso \u00e9 um problema, se a gente est\u00e1 fazendo os recursos circularem de forma mais eficiente?<\/p>\n<p><strong>Outras turmas desafiaram estruturas de poder e paradigmas, como os anarquistas, os comunistas, os hippies, os punks. S\u00e3o ondas que sempre questionam e prop\u00f5em outros modos de vida. Ser\u00e1 que estamos em uma nova onda, protagonizada por esta gera\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>Tem muito a ver com gera\u00e7\u00e3o, internet, globaliza\u00e7\u00e3o, conex\u00e3o. Invariavelmente surgem movimentos sociais contra o status quo. A \u00fanica diferen\u00e7a \u00e9 que a gente n\u00e3o precisa acabar com o sistema e implantar um novo. Tem dois livros de que gosto muito, Mudar o Mundo Sem Tomar o Poder e Fissurar o Capitalismo [ambos de John Holloway]. N\u00e3o preciso pensar tanto no macro, em qual \u00e9 a solu\u00e7\u00e3o para o mundo. Eu crio uma solu\u00e7\u00e3o local, conectada com outras pessoas, para melhorar a nossa qualidade de vida aqui, para ter uma rela\u00e7\u00e3o mais justa aqui, para se reconectar com a natureza aqui. A gente tem as ferramentas para fazer isso. E ponto.<\/p>\n<p>E, se est\u00e1 nas nossas m\u00e3os, tenho a impress\u00e3o de que as institui\u00e7\u00f5es v\u00e3o se esvaziando. N\u00e3o h\u00e1 tentativa de mudar por cima. A gente vai fazendo\u2026 Esse movimento n\u00e3o tem a pretens\u00e3o e n\u00e3o \u00e9 organizado politicamente para revolucionar. Mas justamente por isso tem muito mais capacidade de mudan\u00e7a. Quem \u00e9 capaz de acabar com o sistema? Ningu\u00e9m e todo mundo. Ent\u00e3o a gente est\u00e1 mudando a nossa vida em n\u00edvel local e a de quem est\u00e1 ao redor. E, porque \u00e9 um movimento social e de baixo para cima, \u00e9 capaz de gerar mudan\u00e7a de forma t\u00e3o r\u00e1pida. Eu visiono esse futuro, mas pode ser que ele n\u00e3o aconte\u00e7a. Nem por isso eu jogo essa experi\u00eancia fora.<\/p>\n<p><strong>Qual \u00e9 a hist\u00f3ria do Cinese, como surgiu e com que prop\u00f3sito?<\/strong><\/p>\n<p>A historia do Cinese tem a ver com a historia minha e da minha irm\u00e3, que hoje \u00e9 minha s\u00f3cia, a Ana. Fiz mestrado em Economia, em Londres, e conheci o fen\u00f4meno da colabora\u00e7\u00e3o como um ingrediente importante para pensar novos modelos econ\u00f4micos. Quando voltei para c\u00e1, depois do mestrado, eu estava com a hist\u00f3ria da colabora\u00e7\u00e3o muito viva. E a Ana, que estava saindo de um grande escrit\u00f3rio de advocacia, repensava a carreira, a qualidade de vida. Ela notou que o processo de educa\u00e7\u00e3o que a gente teve foi muito respons\u00e1vel por ela ter chegado onde chegou, no sentido de n\u00e3o questionar o que ela queria viver. Ela nunca havia passado por um processo de autoconhecimento e, l\u00e1 pelos 25 anos, come\u00e7ou a questionar o que era sucesso para ela, o que queria fazer. \u201cEu n\u00e3o estou feliz, mas tiquei todas as caixinhas de sucesso\u201d. Ent\u00e3o foi estudar modelos alternativos de educa\u00e7\u00e3o. Parecia que ela n\u00e3o tinha feito nenhuma escolha, e sim que o caminho j\u00e1 estava definido. Da\u00ed se perguntou por que n\u00e3o tinha se dado conta antes. O processo de educa\u00e7\u00e3o deveria ter feito com que ela olhasse para essas coisas, mas foi o contr\u00e1rio \u2013 especialmente porque estudamos em col\u00e9gios tradicionais, muito quadrados. Nas nossas conversas fez sentido combinar educa\u00e7\u00e3o com colabora\u00e7\u00e3o, para estimular processos mais abertos em termos de autonomia e liberdade para formar pessoas cr\u00edticas.<\/p>\n<p><strong>Pessoas que fa\u00e7am essa pergunta mais cedo que ela.<\/strong><\/p>\n<p>Exato. Que a educa\u00e7\u00e3o seja esse processo que fa\u00e7a voc\u00ea se conhecer , conhecer o que gosta e como atuar pode atuar a partir disso no mundo. E a\u00ed se vai adquirindo habilidade e conhecimento, sempre com refer\u00eancia a voc\u00ea mesmo. Porque aprendizagem \u00e9 um processo muito individual, \u00e9 parte do aprendente. E o Cinese foi uma das solu\u00e7\u00f5es para essa busca. \u00c9 uma plataforma de aprendizagem colaborativa. A ideia \u00e9 que o processo de aprendizagem acontece na rela\u00e7\u00e3o entre as pessoas. O conhecimento est\u00e1 presente, cada vez mais \u00e9 ub\u00edquo e f\u00e1cil de acessar, s\u00f3 que educa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 conte\u00fado pura e simplesmente. A educa\u00e7\u00e3o est\u00e1 na rela\u00e7\u00e3o e nos encontros, na experi\u00eancia, e n\u00e3o s\u00f3 na exposi\u00e7\u00e3o do conte\u00fado. Tem a ver com a nossa vida em uma cidade como S\u00e3o Paulo, que separa tanto as pessoas, onde os encontros significativos sempre precisam ter um prop\u00f3sito definido.<\/p>\n<p><strong>N\u00e3o tem o flanar, o encontro espont\u00e2neo?<\/strong><\/p>\n<p>Falta isso que faz a gente se deparar com outras refer\u00eancias, que tem a ver com o processo de aprendizado.<\/p>\n<p><strong>O Cinese \u00e9 voltado para que p\u00fablico?<\/strong><\/p>\n<p>Como estamos falando de uma plataforma na internet, acaba sendo uma aprendizagem para adultos, que j\u00e1 est\u00e3o fora do sistema de ensino formal. Qualquer um pode propor um curso, encontro, workshop e isso vai direto pro ar, se tem pessoas interessadas elas se inscrevem e se encontram em qualquer lugar da cidade, isso pode acontecer em em qualquer lugar do Pa\u00eds. E n\u00e3o tem curadoria, porque a gente n\u00e3o quer ser a institui\u00e7\u00e3o que valida qual conhecimento \u00e9 importante ou n\u00e3o, e repetir o que a gente criticava nas institui\u00e7\u00f5es de ensino. Por conta dessa liberdade e por n\u00e3o ter curadoria, aparecem conte\u00fado que eu nunca imaginaria que reuniria pessoas para falar daquilo, por exemplo, curso em espanhol sobre minhoc\u00e1rios. Tem muita diversidade mesmo.<\/p>\n<p><strong>E se tiver algum conte\u00fado com o qual voc\u00eas n\u00e3o concordam?<\/strong><\/p>\n<p>Existe uma autorregula\u00e7\u00e3o, com sistema de reputa\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o a curadoria acaba sendo feita pela rede.<\/p>\n<p><strong>E como o Cinese se mant\u00e9m financeiramente?<\/strong><\/p>\n<p>Antes a gente funcionava como plataforma de financiamento coletivo. Toda a vez que acontece um encontro e se esse encontro \u00e9 cobrado, uma parte ficava com o o Cinese. Mas a gente gastava muito tempo nessa intermedia\u00e7\u00e3o e n\u00e3o era o valor que a gente queria entregar. Ent\u00e3o a gente mudou e agora a plataforma funciona com financiamento coletivo recorrente. Ent\u00e3o quem usa o Cinese e quer que continue existindo contribui para isso.<\/p>\n<p>Fonte &#8211; P\u00e1gina 22 de junho de 2015<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Com a cena estonteante da cidade contornada pela linha do horizonte, raramente vista na cidade de S\u00e3o Paulo, Camila Haddad visiona um futuro que pode at\u00e9 n\u00e3o se concretizar em grande escala. Mas que j\u00e1 coleciona sementes aqui e ali, espalhando-se no ch\u00e3o nem sempre a c\u00e9u aberto. 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