{"id":14690,"date":"2015-07-28T10:00:25","date_gmt":"2015-07-28T13:00:25","guid":{"rendered":"http:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/?p=14690"},"modified":"2015-07-28T09:50:28","modified_gmt":"2015-07-28T12:50:28","slug":"a-caminho-de-uma-terra-sem-agua","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/a-caminho-de-uma-terra-sem-agua\/","title":{"rendered":"A caminho de uma Terra sem \u00e1gua?"},"content":{"rendered":"<p><strong>Crise h\u00eddrica brasileira \u00e9 parte de fen\u00f4meno global. Consumo abusivo de recurso renov\u00e1vel, por\u00e9m limitado, pode gerar, em trinta anos, inferno de desabastecimento e guerras.<\/strong><\/p>\n<p>Em 2030, a popula\u00e7\u00e3o mundial dever\u00e1 ser de uns 8,5 bilh\u00f5es de pessoas e, se a humanidade continuar a viver do mesmo modo, o d\u00e9ficit de \u00e1gua doce do planeta chegar\u00e1 a 40%, diz informe das Na\u00e7\u00f5es Unidas sobre os recursos h\u00eddricos divulgado em mar\u00e7o em Nova Deli. Todo o nosso sistema vital e econ\u00f4mico gira em torno de um recurso natural limitado. Maximiz\u00e1-lo e geri-lo de forma eficaz constitui o grande desafio do s\u00e9culo XXI.<\/p>\n<p>Cada vez que abrimos a torneira, acontece um pequeno milagre. Por tr\u00e1s deste gesto t\u00e3o cotidiano h\u00e1 muito mais que um jorro de H2O (elemento composto de dois \u00e1tomos de hidrog\u00eanio e um de oxig\u00eanio) em estado l\u00edquido. A \u00e1gua \u00e9 o sistema sangu\u00edneo deste planeta; um ciclo natural sobre o qual a atividade humana exerce enorme press\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cA quantidade de \u00e1gua doce na Terra hoje \u00e9 praticamente a mesma que na \u00e9poca em que C\u00e9sar conduzia o imp\u00e9rio romano. Mas nos \u00faltimos 2000 anos, a popula\u00e7\u00e3o pulou de 200 milh\u00f5es para cerca de 7,2 bilh\u00f5es, e a economia mundial cresceu ainda mais rapidamente (desde 1960, o PIB aumentou a m\u00e9dia de 3,5% anual). A conjun\u00e7\u00e3o da demanda de alimentos, energia, bens de consumo e \u00e1gua para este grande empreendimento humano requereu um grande controle sobre a \u00e1gua\u201d, resume Sandra Postel, diretora da organiza\u00e7\u00e3o norte-americana Global Water Policy Project.<\/p>\n<p>\u201cH\u00e1 muito pouca \u00e1gua no planeta azul\u201d, constata Elias Fereres, catedr\u00e1tico da Universidade de C\u00f3rdoba que exerceu numerosos cargos relacionados com a agricultura e a ecologia. Fereres refere-se a que, embora 70% da superf\u00edcie da Terra esteja coberta de \u00e1gua, somente cerca de 1% \u00e9 \u00e1gua doce, al\u00e9m daquela presa como gelo nas calotas polares e geleiras. Sobre esse 1% n\u00e3o apenas repousa nossa principal fonte de vida, mas tamb\u00e9m o motor do mundo desenvolvido. \u201cA \u00e1gua tem tanto valor que n\u00e3o tem pre\u00e7o, e a chave do seu uso est\u00e1 em obter o m\u00e1ximo aproveitamento sem aumentar as desigualdades econ\u00f4micas, sociais e ambientais\u201d, sustenta o catedr\u00e1tico.<\/p>\n<p>Onde residem essas desigualdades? \u201cO avan\u00e7o da popula\u00e7\u00e3o global e do crescimento econ\u00f4mico ocorrido nos anos cinquenta deve-se em grande parte \u00e0 engenharia de \u00e1gua: barragens para reservat\u00f3rios, canais para mov\u00ea-la, bombas para extra\u00ed-la do subsolo. Desde 1950, o n\u00famero de barragens passou de 5 mil a 50 mil. Constru\u00edram-se uma m\u00e9dia de duas por dia durante meio s\u00e9culo. Na maior parte do mundo, a \u00e1gua j\u00e1 n\u00e3o circula seguindo fisicamente o processo natural, mas de acordo com a vontade do homem\u201d, sublinha Postel.<\/p>\n<p>No s\u00e9culo passado, essas infraestruturas permitiram cobrir as necessidades da agricultura \u2013 que consome 70% da \u00e1gua doce \u2013, a ind\u00fastria \u2013 representa 20% \u2013 e o uso dom\u00e9stico \u2013 os 10% restantes \u2013 em grande parte do globo. Mas o aumento da demanda, devido em grande medida ao desenvolvimento dos pa\u00edses emergentes, est\u00e1 rompendo um equil\u00edbrio que j\u00e1 \u00e9 muito prec\u00e1rio. \u201cPrev\u00ea-se que em 2030 o mundo ter\u00e1 de confrontar-se com um d\u00e9ficit de 40% de \u00e1gua em uma situa\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica em que tudo continua igual\u201d, alerta o \u00faltimo informe da ONU sobre recursos h\u00eddricos.<\/p>\n<p>Seu autor, Richard Connor, lamenta a \u201cescassa import\u00e2ncia\u201d que os governos outorgam \u00e0 \u00e1gua, espalhando a ideia de que se trata de um bem comum inesgot\u00e1vel. \u201c\u00c9 um servi\u00e7o essencial para o crescimento, mas as pessoas n\u00e3o t\u00eam essa percep\u00e7\u00e3o. Ao inv\u00e9s disso, veem a energia como fator econ\u00f4mico de primeira ordem e inclusive geopol\u00edtico, para a seguran\u00e7a de um pa\u00eds, raz\u00e3o pela qual recebe muito mais apoio. Relegar a \u00e1gua na a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica \u00e9 um erro que, no final, se paga caro e compromete o desenvolvimento\u201d, argumenta.<\/p>\n<p>Os acontecimentos deram raz\u00e3o a aqueles cientistas que, como Postel, prenunciaram que \u201ca \u00e1gua ser\u00e1 para o s\u00e9culo XXI o que o petr\u00f3leo foi para o XX\u201d. Se o chamado ouro negro \u00e9 cobi\u00e7ado \u2013 a ponto de provocar conflitos b\u00e9licos \u2013 isso se deve a que suas reservas s\u00e3o finitas e n\u00e3o est\u00e3o nas m\u00e3os de todos. O mesmo sucede com a \u00e1gua doce, uma vez alcan\u00e7ado um volume de demanda superior a sua capacidade de regenera\u00e7\u00e3o, o que se define como estresse h\u00eddrico.<\/p>\n<p>Alexandra Taithe, respons\u00e1vel pela Funda\u00e7\u00e3o para a Investiga\u00e7\u00e3o Estrat\u00e9gica e especialista na intera\u00e7\u00e3o entre \u00e1gua e energia, tra\u00e7a um panorama inquietante. \u201cNos pa\u00edses do Sul e do Leste do Mediterr\u00e2neo\u201d, adverte, \u201cos poderes p\u00fablicos optaram por solu\u00e7\u00f5es consistentes para aumentar a \u00e1gua dispon\u00edvel. Esta pol\u00edtica, que recorreu tanto \u00e0 dessaliniza\u00e7\u00e3o da \u00e1gua do mar como \u00e0 explora\u00e7\u00e3o dos aq\u00fc\u00edferos ou transfer\u00eancias massivas, tem um custo energ\u00e9tico muito elevado.\u201d<\/p>\n<p>Segundo seus c\u00e1lculos, em 2025 a demanda de eletricidade para abastecimento de \u00e1gua destes pa\u00edses representar\u00e1 cerca de 20% do total do que precisam os estados. Hoje, supostamente s\u00e3o 10%. A dessaliniza\u00e7\u00e3o, \u00e0s vezes apresentada como uma panac\u00e9ia para combater a escassez, \u00e9 o sistema que mais energia devora. Nem todo o mundo pode permirtir-se. A Ar\u00e1bia Saudita, o pais com maior capacidade de produ\u00e7\u00e3o, gera 5,5 milh\u00f5es de metros c\u00fabicos por dia. Pois bem, para obter essa quantidade, consome o equivalente a 350 mil barris de petr\u00f3leo di\u00e1rio.<\/p>\n<p>Por sua vez, a fabrica\u00e7\u00e3o de eletricidade e a extra\u00e7\u00e3o de combust\u00edveis f\u00f3sseis precisam de grandes quantidades de \u00e1gua. Por exemplo, segundo Taithe, na Fran\u00e7a 60% do caudal dos rios destina-se ao processo de esfriamento das centrais t\u00e9rmicas e nucleares. \u00c9 preciso dizer que a Fran\u00e7a \u00e9 o segundo pa\u00eds em produ\u00e7\u00e3o de energia at\u00f4mica do mundo e que esta \u00e1gua \u2013 em princ\u00edpio n\u00e3o contaminada \u2013 \u00e9 devolvida \u00e0s bacias e aos lagos<br \/>\ncom alguns graus a mais, o que favorece a prolifera\u00e7\u00e3o de algas e reduz a popula\u00e7\u00e3o de peixes. No ciclo de \u00e1gua, tudo est\u00e1 interrelacionado. Qualquer manipula\u00e7\u00e3o da ordem natural tem efeitos colaterais.<\/p>\n<p>A extra\u00e7\u00e3o de g\u00e1s das camadas mais profundas por meio da fratura\u00e7\u00e3o hidr\u00e1ulica, o fracking, ganha a ta\u00e7a. Gra\u00e7as a essa tecnologia, os Estados Unidos alavancaram sua economia e mudaram o equil\u00edbrio geopol\u00edtico, posto que j\u00e1 n\u00e3o dependem do petr\u00f3leo \u00e1rabe. Mas, para perfurar cada um dos mais de 500 mil po\u00e7os em atividade \u2013 muitos dos quais em zonas de estresse h\u00eddrico \u2013, precisam de 75 a 180 milh\u00f5es de litros de \u00e1gua, misturada com uns 36 quilos de produtos qu\u00edmicos, alguns dos quais cancer\u00edgenos.<\/p>\n<p>Sacrificamos a \u00e1gua \u2013 e a sa\u00fade \u2013 no altar da economia. Em escala mundial, os dados sobre o aumento da demanda s\u00e3o estonteantes: no horizonte de 2050, enquanto a demanda de \u00e1gua doce crescer\u00e1 55%, a de eletricidade avan\u00e7ar\u00e1 70%. E isso, tendo em conta que o acesso n\u00e3o \u00e9 universal. Umas 800 milh\u00f5es de pessoas vivem alijadas de fonte de \u00e1gua limpa e 1,3 bilh\u00e3o carecem de conex\u00e3o el\u00e9trica. Para Taithe, a crescente necessidade de energia para obter \u00e1gua sup\u00f5e \u201cum obst\u00e1culo de primeira ordem para o desenvolvimento de muitos pa\u00edses e um risco para sua seguran\u00e7a energ\u00e9tica.\u201d<\/p>\n<p>At\u00e9 que ponto a \u00e1gua pode levar a uma escalada b\u00e9lica? Taithe recorda que para os povos esse recurso \u201c\u00e9 algo irracional\u201d que historicamente tem originado tens\u00f5es e continua sendo \u201ccentro de tens\u00e3o diplom\u00e1tica\u201d. A seu ver, os Estados t\u00eam mais interesse em cooperar \u2013 assinaram 250 tratados multinacionais \u2013, mas outros especialistas preveem que \u201cas guerras do futuro ser\u00e3o por \u00e1gua\u201d. Para Connor, esse futuro j\u00e1 chegou. Ele sustenta que a grande seca na regi\u00e3o da antiga Mesopot\u00e2mia entre 2006 e 2009, que provocou uma subida radical no pre\u00e7o do trigo, e portanto no da farinha e do p\u00e3o, teve um papel chave na guerra da S\u00edria. Como consequ\u00eancia da seca, 1,5 milh\u00f5es de pessoas emigraram das zonas rurais para cidades j\u00e1 estavam submetidas a fortes press\u00f5es, quando come\u00e7aram os protestos contra Bashar el Assad.<\/p>\n<p>Connor observa a mesma rela\u00e7\u00e3o de causa-efeito entre a seca, acompanhada de grandes inc\u00eandios, que assolou a R\u00fassia em 2010 e as primaveras \u00e1rabes. \u201cA R\u00fassia \u00e9 o grande provedor de trigo dos pa\u00edses \u00e1rabes, e como pode apenas exportar, o pre\u00e7o da farinha duplicou, o que gerou descontentamento social\u201d, resume. Sem esse mal-estar, teriam as mobiliza\u00e7\u00f5es pr\u00f3-democracia recebido tanto apoio? Connor acredita que n\u00e3o.<\/p>\n<p>Na margem sul do Mediterr\u00e2neo, os focos de tens\u00e3o se multiplicam. A constru\u00e7\u00e3o, na Eti\u00f3pia, da grande barragem do Renascimento causou um confronto com o Egito, que se op\u00f5e \u00e0 obra porque garante que afetar\u00e1 o fluxo do Nilo e agravar\u00e1 seus problemas de abastecimento.<\/p>\n<p>\u201cNos poucos lugares onde ainda se podem construir reservat\u00f3rios, o impacto ecol\u00f3gico \u00e9 demasiado negativo. \u00c9 necess\u00e1rio pensar outras solu\u00e7\u00f5es\u201d, opina Fereres. Na \u00cdndia e no nordeste da China os agricultores encontraram uma solu\u00e7\u00e3o alternativa na extra\u00e7\u00e3o de \u00e1gua do subsolo. Uma atividade subvencionada que levou o progresso a muitas regi\u00f5es, mas n\u00e3o sem conseq\u00fc\u00eancias. A venda de bombas el\u00e9tricas a diesel para extrair \u00e1gua disparou nos \u00faltimos anos (calcula-se que na China existam 20 milh\u00f5es em funcionamento, e na \u00cdndia, 19 milh\u00f5es), o que eleva o consumo de energia. Em algumas regi\u00f5es, representa entre 35% e 45% do total.<\/p>\n<p>Taithe relaciona esse fen\u00f4meno com \u201cos gigantescos cortes de eletricidade que, em julho de 2012, deixaram sem energia 670 milh\u00f5es de pessoas no nordeste da India\u201d. Assinala que esse ano as mon\u00e7\u00f5es foram menos chuvosas e as autoridades cederam \u00e0 press\u00e3o dos irrigantes para ampliar as cotas para \u00e1reas mais profundas de \u00e1gua, onde se encontram os bols\u00f5es de \u00e1gua f\u00f3ssil, que s\u00e3o camadas geol\u00f3gicas n\u00e3o renov\u00e1veis, como aquelas onde est\u00e1 o petr\u00f3leo\u201d.De acordo com o relat\u00f3rio da ONU, 20% dos aqu\u00edferos da Terra est\u00e3o sendo superexplorados. \u201cEstamos consumindo hoje a \u00e1gua de amanh\u00e3\u201d, previne Postel.<\/p>\n<p>Ao aumento da popula\u00e7\u00e3o e \u00e0 press\u00e3o que exercem os pa\u00edses emergentes sobre as reservas de \u00e1gua soma-se o aquecimento global do planeta. \u201cEm per\u00edodos de grandes inunda\u00e7\u00f5es os recursos h\u00eddricos parecem n\u00e3o ter fim, mas depois v\u00eam grandes secas, e a escassez volta a ser o grande motivo de preocupa\u00e7\u00e3o. Essa bipolaridade est\u00e1 se acentuando na regi\u00e3o mediterr\u00e2nea. Essa \u00e9 a mudan\u00e7a clim\u00e1tica!, descreve Mait\u00ea Guardiola, engenheira ge\u00f3loga especializada em aproveitamento da \u00e1gua com ampla experi\u00eancia em projetos humanit\u00e1rios.<\/p>\n<p>No Brasil \u2013 que possui a maior bacia h\u00eddrica do mundo, Amaz\u00f4nica \u2013 a falta de \u00e1gua tem obrigada a racionar o fornecimento em S\u00e3o Paulo, cidade que ilustra o problema causado pelo crescimento descontrolado das periferias. Segundo o informe da ONU, \u201co aumento das pessoas sem acesso \u00e0 \u00e1gua e ao saneamento nas \u00e1reas urbanas est\u00e1 diretamente relacionado ao r\u00e1pido crescimento dos bairros marginais nos pa\u00edses em vias de desenvolvimento. Essa popula\u00e7\u00e3o, que se aproximar\u00e1 de 900 milh\u00f5es de pessoas em 2020, \u00e9 mais vulner\u00e1vel ao impacto dos fen\u00f4menos clim\u00e1ticos extremos\u201d.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso agir, mas como? Enquanto cientistas do porte de Stephen Hawking apostam em \u201ccolonizar\u201d outros planetas \u2013 ele afirma que dentro de cem anos a esp\u00e9cie humana enfrentar\u00e1 a extin\u00e7\u00e3o devido ao \u201cenvelhecimento de um mundo amea\u00e7ado pelo aumento de habitantes e limita\u00e7\u00e3o de recursos \u2013\u201c, os menos catastrofistas optam por racionalizar o consumo.<\/p>\n<p>\u201cH\u00e1 \u00e1gua suficiente para satisfazer as crescentes necessidades do mundo, mas n\u00e3o sem mudar a forma de geri-la\u201d, sustenta o informe da ONU, que, entre outras medidas, reclama um marco legal universal para administrar este recurso de forma mais equitativa e respeitando os fluxos ecol\u00f3gicos.<\/p>\n<p>Para Connor e Fereres, a chave est\u00e1 em poupar por meio de sistemas de irriga\u00e7\u00e3o inteligentes e culturas adequadas a cada regi\u00e3o. Em sua opini\u00e3o, para considerar solu\u00e7\u00f5es inovadoras, tais como a remo\u00e7\u00e3o de \u00e1gua do ar ou a obten\u00e7\u00e3o de sementes que precisem apenas de rega, faltam \u201centre 20 e 30 anos de pesquisa\u201d. Mait\u00ea Guardiola, por sua vez, enfatiza a reutiliza\u00e7\u00e3o de \u00e1guas residuais tratadas. De acordo com essa especialista, se destinadas \u00e0 irriga\u00e7\u00e3o, isso \u201csignificaria uma redu\u00e7\u00e3o de 30% da \u00e1gua para a agricultura\u201d na Espanha.<\/p>\n<p>O catedr\u00e1tico Fereres defende tamb\u00e9m uma \u201cmudan\u00e7a de dieta\u201d, com menos prote\u00ednas \u2013 um quilo de carne de porco representa um consumo de tr\u00eas quilos de gr\u00e3os \u2013 como uma forma \u201cde reduzir a demanda h\u00eddrica\u201d. E promove uma atitude militante contra a \u00e1gua engarrafada. \u201cA sociedade gasta muito dinheiro purificando a \u00e1gua para que chegue \u00e0s casas de forma pot\u00e1vel. Quando vou a um restaurante pe\u00e7o um copo da torneira\u201d. Para Guardiola, \u201c\u00e9 triste que a Espanha seja um dos maiores consumidores. Seu pre\u00e7o \u00e9 de 500 a mil vezes superior ao da torneira, sem contar o impacto ambiental do pl\u00e1stico e do transporte.<\/p>\n<p>O ator Matt Damon trata de sensibilizar a opini\u00e3o p\u00fablica com a\u00e7\u00f5es tipo derrubar um balde de \u00e1gua do vaso sanit\u00e1rio, enquanto se dirige \u00e0 c\u00e2mera e diz: \u201cPara aqueles que, como minha esposa, acreditam que isso \u00e9 nojento, lembre-se de que a \u00e1gua nos banheiros do Ocidente \u00e9 mais limpa do que aquela \u00e0 qual tem acesso a maioria das pessoas nos pa\u00edses em desenvolvimento. \u201cPor meio de sua Ong Water.org, \u00e9 uma das poucas celebridades a combater a crise da \u00e1gua e profundas desigualdades que acarreta.<\/p>\n<p>No Sud\u00e3o, uma menina de 12 anos dedica entre duas e quatro horas di\u00e1rias para recolher e transportar sobre a cabe\u00e7a apenas cinco litros de \u00e1gua doce para sua subexist\u00eancia, uma quarta parte da quantidade (20 litros por pessoa\/dia) que tanto a Organiza\u00e7\u00e3o Mundial de Sa\u00fade como a Unicef julgam suficientes para cobrir as necessidades b\u00e1sicas. Enquanto no Canad\u00e1 uma adolescente da mesma idade consome entre 300 e 400 litros di\u00e1rios<\/p>\n<p>\u201cA \u00e1gua n\u00e3o \u00e9 cara o suficiente. Purific\u00e1-la e canaliz\u00e1-la tem um custo muito mais alto do que o que pagamos na conta de consumo, por isso as pessoas n\u00e3o lhe d\u00e3o valor\u201d, censura Connor. Na Espanha, o consumo m\u00e9dio \u00e9 de 142 litros por pessoa\/dia, mas segundo Guardiola, estima-se que, devido ao mau estado das redes de abastecimento, perde-se uma m\u00e9dia de 17,5% da \u00e1gua distribu\u00edda. Na Alemanha, esse percentual \u00e9 de 5%.<\/p>\n<p>Se implementadas, n\u00e3o est\u00e1 claro que todas essas medidas compensariam o aumento da demanda. Um futuro sem \u00e1gua, no qual os humanos se vejam obrigados a abandonar a Terra, como o que prediz o filme de anima\u00e7\u00e3o Wall.E, n\u00e3o est\u00e1 longe do que vislumbra Hawking. \u201cDevemos nos antecipar \u00e0s amea\u00e7as e ter um plano B\u201d, insiste o famoso astrof\u00edsico. E por que n\u00e3o mudar o planeta azul pelo planeta vermelho? Segundo um estudo da Universidade do Novo M\u00e9xico, Marte poderia ter grandes reservas de \u00e1gua em seu interior.<\/p>\n<p>Fonte &#8211; Elianne Ros, Outras Palavras \/ IHU \/ EcoDebate de 21 de julho de 2015<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Crise h\u00eddrica brasileira \u00e9 parte de fen\u00f4meno global. Consumo abusivo de recurso renov\u00e1vel, por\u00e9m limitado, pode gerar, em trinta anos, inferno de desabastecimento e guerras. 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