{"id":14700,"date":"2015-07-29T10:00:54","date_gmt":"2015-07-29T13:00:54","guid":{"rendered":"http:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/?p=14700"},"modified":"2015-07-29T10:13:45","modified_gmt":"2015-07-29T13:13:45","slug":"desmatamento-silencioso-da-caatinga-tem-intensificado-a-desertificacao-do-semiarido-brasileiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/desmatamento-silencioso-da-caatinga-tem-intensificado-a-desertificacao-do-semiarido-brasileiro\/","title":{"rendered":"Desmatamento silencioso da Caatinga tem intensificado a desertifica\u00e7\u00e3o do semi\u00e1rido brasileiro"},"content":{"rendered":"<p>\u201cO semi\u00e1rido todo tem um milh\u00e3o de km\u00b2, ent\u00e3o cerca de 10% a 15% dessa \u00e1rea est\u00e1 numa situa\u00e7\u00e3o de severidade muito grande\u201d, adverte o pesquisador da Embrapa L\u00eado Bezerra de S\u00e1.<\/p>\n<p><strong>Mais de 50% das \u00e1reas do semi\u00e1rido brasileiro j\u00e1 \u201cest\u00e3o com processo de desertifica\u00e7\u00e3o acentuado\u201d,<\/strong> e cerca de 10 a 15% do territ\u00f3rio enfrenta uma situa\u00e7\u00e3o de desertifica\u00e7\u00e3o severa. Para se ter uma ideia, a soma das extens\u00f5es de terras degradadas no Cear\u00e1, na Bahia e em Pernambuco equivale a \u201c63 mil km\u00b2\u201d de desertifica\u00e7\u00e3o, informa I\u00eado Bezerra de S\u00e1, na entrevista a seguir, concedida \u00e0 IHU On-Line por telefone.<\/p>\n<p>O pesquisador explica que a desertifica\u00e7\u00e3o \u00e9 um fen\u00f4meno de degrada\u00e7\u00e3o ambiental que acontece particularmente em regi\u00f5es \u00e1ridas, semi\u00e1ridas e sub\u00famidas secas, a exemplo do Nordeste e de parte do Sudeste brasileiro.<\/p>\n<p>De acordo com o engenheiro florestal, no Brasil a desertifica\u00e7\u00e3o no semi\u00e1rido tem se agravado por causa do desmatamento na Caatinga. \u201cAo desmatar a Caatinga, os solos ficam completamente expostos a todas as intemp\u00e9ries\u201d, frisa. Al\u00e9m do desmatamento, Bezerra de S\u00e1 enfatiza que a irregularidade das chuvas contribui para que a degrada\u00e7\u00e3o seja ainda mais acentuada em algumas regi\u00f5es. \u201cH\u00e1 locais, por exemplo, aqui onde estou agora, em Petrolina \u2014 que \u00e9 no extremo oeste de Pernambuco \u2014, em que chove 450 a 500 mil\u00edmetros por ano. O grande problema \u00e9 essa irregularidade das chuvas: elas caem de forma muito concentrada, chove muito em pouco tempo, ou seja, os 500 mil\u00edmetros se concentram em apenas dois, tr\u00eas meses e, \u00e0s vezes, 20%, 30% da chuva do ano cai em apenas um dia\u201d.<\/p>\n<p>Ele informa ainda que o maior polo de produ\u00e7\u00e3o de gesso do pa\u00eds, localizado em Araripe, no Cear\u00e1, respons\u00e1vel pela produ\u00e7\u00e3o de 95% de todo o gesso produzido no pa\u00eds, utiliza energia de biomassa, mas aproximadamente \u201c50% dessa energia \u00e9 oriunda de desmatamentos ilegais e clandestinos. O governo sabe disso, as autoridades sabem disso e estamos com um trabalho muito importante de conscientiza\u00e7\u00e3o dessas empresas que utilizam biomassa na sua matriz energ\u00e9tica\u201d. Entre as solu\u00e7\u00f5es para tentar reduzir a desertifica\u00e7\u00e3o, o pesquisador chama aten\u00e7\u00e3o para a necessidade de investir em planos de manejo florestal sustent\u00e1vel para a Caatinga, de modo a utilizar o bioma de \u201cforma cont\u00ednua e sustent\u00e1vel\u201d e recuperar as \u00e1reas degradadas, que levam de 30 a 40 anos para serem regeneradas.<\/p>\n<p>I\u00eado Bezerra de S\u00e1 \u00e9 graduado em Engenharia Florestal pela Universidade Federal Rural de Pernambuco, mestre em Sensoriamento Remoto pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais e doutor em Geoprocessamento pela Universidad Polit\u00e9cnica de Madrid. Atualmente \u00e9 pesquisador da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecu\u00e1ria &#8211; Embrapa.<\/p>\n<p>Confira a entrevista.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211;<\/strong> O senhor tem chamado aten\u00e7\u00e3o para o fato de que a desertifica\u00e7\u00e3o \u00e9 avan\u00e7ada em mais de 20 n\u00facleos do Semi\u00e1rido. Em que consiste esse fen\u00f4meno?<\/p>\n<p><strong>I\u00eado Bezerra de S\u00e1 &#8211;<\/strong> Desertifica\u00e7\u00e3o \u00e9 um termo utilizado pela UNCCD, que \u00e9 a sigla em Ingl\u00eas de Conven\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas para o Combate \u00e0 Desertifica\u00e7\u00e3o e Mitiga\u00e7\u00e3o dos Efeitos das Secas, que trata da degrada\u00e7\u00e3o ambiental em regi\u00f5es \u00e1ridas, semi\u00e1ridas e sub\u00famidas secas. Ent\u00e3o, podemos utilizar o termo desertifica\u00e7\u00e3o somente em regi\u00f5es que t\u00eam essa climatologia. No Brasil essa situa\u00e7\u00e3o se encontra no Nordeste e em parte do Sudeste, ou seja, no Norte de Minas Gerais. Isso significa dizer que s\u00f3 podemos utilizar o termo \u201cdesertifica\u00e7\u00e3o\u201d para nos referirmos a essas regi\u00f5es. Por exemplo, n\u00e3o se pode utilizar o termo para tratar de um problema s\u00e9rio que h\u00e1 no Rio Grande do Sul, ou para indicar a situa\u00e7\u00e3o de uma \u00e1rea muito grande em Roraima ou em Rond\u00f4nia, porque elas n\u00e3o est\u00e3o nessa situa\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica de aridez ou de semiaridez.<\/p>\n<p>No caso do Brasil, no semi\u00e1rido encontra-se uma \u00e1rea de aproximadamente um milh\u00e3o de km\u00b2, ou seja, trata-se de \u00e1rea muito grande em termos de espacialidade. Para se ter uma ideia, essa extens\u00e3o equivale a duas vezes o tamanho de Espanha e Portugal juntos. Quando falamos isso na Europa, as pessoas reagem de forma apreensiva por se tratar de uma \u00e1rea muito grande. Agora, desertifica\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 um termo bin\u00e1rio, branco ou preto, porque existe uma grada\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Na Embrapa fazemos um mapeamento que demonstra uma grada\u00e7\u00e3o que vai de uma desertifica\u00e7\u00e3o muito baixa at\u00e9 uma degrada\u00e7\u00e3o moderada, acentuada e severa, porque h\u00e1 lugares que s\u00e3o muito preocupantes, que t\u00eam uma severidade do processo muito forte, enquanto em outros lugares a degrada\u00e7\u00e3o \u00e9 mais branda. O que temos de fazer \u00e9 tentar frear os vetores de crescimento dessas \u00e1reas, e para isso desenvolvemos algumas tecnologias, as quais s\u00e3o transferidas para as regi\u00f5es que percorremos.<\/p>\n<p><strong>Retirada da cobertura vegetal<\/strong><\/p>\n<p>No Brasil, esse processo come\u00e7ou justamente por conta da retirada da cobertura vegetal florestal; em outras palavras, por causa do desmatamento. O desmatamento da Caatinga gerou todo esse processo, porque ao desmatar a Caatinga os solos ficam completamente expostos a todas as intemp\u00e9ries: h\u00e1 uma insola\u00e7\u00e3o muito forte, de mais de duas mil horas\/ano de sol, e um regime de chuvas muito complicado, porque n\u00e3o \u00e9 a quest\u00e3o de quantidade de chuvas, mas sim a sua irregularidade na distribui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>H\u00e1 locais, por exemplo, aqui onde estou agora, em Petrolina \u2014 que \u00e9 no extremo oeste de Pernambuco \u2014, em que chove 450 a 500 mil\u00edmetros por ano. Essa quantidade foi verificada em uma s\u00e9rie hist\u00f3rica de mais de 30 anos de acompanhamento dos regimes de chuvas. O grande problema \u00e9 essa irregularidade das chuvas: elas caem de forma muito concentrada, chove muito em pouco tempo, ou seja, os 500 mil\u00edmetros se concentram em apenas dois, tr\u00eas meses e, \u00e0s vezes, 20%, 30% da chuva do ano cai em apenas um dia. Isso gera um fator de degrada\u00e7\u00e3o muito forte. Aliado a isso, n\u00e3o s\u00f3 no semi\u00e1rido do Brasil, mas no semi\u00e1rido do mundo inteiro, os solos de fertilidade natural s\u00e3o baixos. N\u00e3o \u00e9 que n\u00e3o existam solos bons no semi\u00e1rido, ao contr\u00e1rio, mas o que predomina aqui na regi\u00e3o s\u00e3o solos de baixa fertilidade natural, s\u00e3o solos rasos, s\u00e3o aqueles com pouca profundidade. Ou seja, quando se come\u00e7a a cavar, logo se chega \u00e0 rocha que formou esse solo, e esse tamb\u00e9m \u00e9 um fator muito severo da desertifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Climatologia e solo<\/strong><\/p>\n<p>Quando associamos essa climatologia \u00e0 quest\u00e3o de solos, que s\u00e3o condi\u00e7\u00f5es naturais, e acrescentamos o fator humano imposto a este ambiente, a\u00ed se exacerbam e se aceleram esses processos ruins de desertifica\u00e7\u00e3o. Esse \u00e9 o contexto em que vivemos hoje no semi\u00e1rido. Estamos tentando reverter toda a parte que \u00e9 induzida pelo homem, porque n\u00e3o temos muita governabilidade sobre a natureza.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211;<\/strong> Esses 20 n\u00facleos do semi\u00e1rido que enfrentam essa situa\u00e7\u00e3o de desertifica\u00e7\u00e3o correspondem a que percentual do semi\u00e1rido?<\/p>\n<p><strong>I\u00eado Bezerra de S\u00e1 \u2013<\/strong> Mais de 50% das \u00e1reas do semi\u00e1rido brasileiro j\u00e1 est\u00e3o com processo de desertifica\u00e7\u00e3o acentuado e aproximadamente 16 mil hectares da Caatinga j\u00e1 foram desmatados. Al\u00e9m disso, alguns n\u00facleos no Cear\u00e1, na Bahia e em Pernambuco est\u00e3o com as \u00e1reas bastante comprometidas. Para se ter uma ideia, somando a \u00e1rea desses munic\u00edpios, o desmatamento est\u00e1 em torno de 63 mil km\u00b2, isso significa que se trata de uma \u00e1rea que equivale a quase a extens\u00e3o de Pernambuco, que tem 100 mil km\u00b2. O semi\u00e1rido todo tem um milh\u00e3o de km\u00b2, ent\u00e3o cerca de 10% a 15% dessa \u00e1rea est\u00e1 numa situa\u00e7\u00e3o de severidade muito grande. E, se formos completar isso com a parte que fica um pouco mais acentuada e moderada, o percentual ultrapassa os 50% do semi\u00e1rido.<\/p>\n<p>Temos ainda situa\u00e7\u00f5es muito degradantes na regi\u00e3o Sul do Piau\u00ed, regi\u00e3o de Gilbu\u00e9s, e em Pernambuco tem um cen\u00e1rio muito ruim na regi\u00e3o de Cabrob\u00f3 e Salgueiro. Tamb\u00e9m tem uma \u00e1rea grande, entre a Para\u00edba e o Rio Grande do Norte, onde h\u00e1 um conjunto de munic\u00edpios \u2014 doze ou dez \u2014 em condi\u00e7\u00f5es prec\u00e1rias. Ent\u00e3o, quando falamos em 20 n\u00facleos, \u00e9 apenas uma quest\u00e3o did\u00e1tica, porque na realidade a \u00e1rea se estende a uma extens\u00e3o muito maior do que isso. Como vimos, \u00e9 mais de 50% de uma regi\u00e3o bastante comprometida.<\/p>\n<p>Estamos fazendo alguns estudos para verificar essa situa\u00e7\u00e3o estado por estado, a fim de ver a situa\u00e7\u00e3o de cada um deles. Estamos concluindo um trabalho em Pernambuco, o qual ser\u00e1 publicado no m\u00e1ximo em outubro deste ano. Pernambuco tem 185 munic\u00edpios, dos quais 122 est\u00e3o em situa\u00e7\u00f5es que t\u00eam problemas de desertifica\u00e7\u00e3o. Estamos ranqueando esses dados e verificamos que alguns munic\u00edpios t\u00eam praticamente toda a sua \u00e1rea com um processo bastante acentuado ou severo de desertifica\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, frear essa degrada\u00e7\u00e3o \u00e9 a grande dificuldade, porque custa muito capital humano e tamb\u00e9m financeiro, e leva tempo para fazer.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, as propriedades familiares maiores passam a ser subdivididas, ent\u00e3o a pessoa tem tr\u00eas, quatro, cinco, seis filhos e depois essa \u00e1rea \u00e9 desmembrada e passa para os filhos. Isso tamb\u00e9m \u00e9 um fator de degrada\u00e7\u00e3o, porque as pessoas tendem a tirar sua sobreviv\u00eancia da base de recursos naturais de sua propriedade. Assim, a primeira coisa que fazem \u00e9 desmatar uma \u00e1rea para plantar e esse plantio vem sendo feito de forma desordenada, sem tecnologia, sem insumos agropecu\u00e1rios adequados, em ambientes tamb\u00e9m inadequados, e esses fatores geram um processo de retra\u00e7\u00e3o muito intenso.<\/p>\n<p>Frear isso \u00e9 um pouco mais complicado, porque se trata de um problema social, por isso a Embrapa tem uma unidade encravada no cora\u00e7\u00e3o do semi\u00e1rido, na cidade de Petrolina, para tentar desenvolver algumas tecnologias que possam minimizar \u2014 sabemos que erradicar \u00e9 praticamente imposs\u00edvel \u2014 esse manejo equivocado que se faz do recurso natural. Um grande problema nosso \u00e9 a quest\u00e3o do desmatamento, seguido de queimada, porque o agricultor do semi\u00e1rido \u00e9 descapitalizado: ele n\u00e3o tem acesso \u00e0 tecnologia nem a cr\u00e9dito. Por isso, eles se utilizam do meio que podem, ou seja, desmatam e queimam \u00e1reas, e queimar \u00e1rea \u00e9 um crime ambiental e \u00e9 dar um \u201ctiro no pr\u00f3prio p\u00e9\u201d, porque o semi\u00e1rido de um modo geral \u00e9 pobre, o solo \u00e9 pobre em mat\u00e9ria org\u00e2nica. E se est\u00e1 sendo queimado o pouco de mat\u00e9ria org\u00e2nica que j\u00e1 existe, isso realmente \u00e9 muito ruim. Queimam para limpar o terreno, na ilus\u00e3o de que a produtividade ser\u00e1 melhor em fun\u00e7\u00e3o da queima, mas esse \u00e9 um erro e estamos sempre tentando corrigi-lo.<\/p>\n<p>A mat\u00e9ria org\u00e2nica do solo \u00e9 o que mais comporta a reten\u00e7\u00e3o de \u00e1gua. Assim, um dos grandes problemas do semi\u00e1rido \u00e9 a quest\u00e3o da \u00e1gua. Se, em um solo que recebe pouca \u00e1gua, parte da vegeta\u00e7\u00e3o \u00e9 queimada, o solo fica ainda mais empobrecido de mat\u00e9ria org\u00e2nica e, por conseguinte, ret\u00e9m mais \u00e1gua. Esse tipo de informa\u00e7\u00e3o, que est\u00e1 um pouco defasada no Brasil, tem de chegar ao produtor rural, porque \u00e0s vezes ele age de forma errada por ignor\u00e2ncia, ou \u00e0s vezes porque n\u00e3o tem outra forma de fazer, e \u00e0s vezes at\u00e9 por m\u00e1-f\u00e9.<\/p>\n<p><strong>&#8220;Pernambuco tem 185 munic\u00edpios, dos quais 122 est\u00e3o em situa\u00e7\u00f5es que t\u00eam problemas de desertifica\u00e7\u00e3o&#8221;<\/strong><\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211;<\/strong> Qual a causa de a desertifica\u00e7\u00e3o ser mais intensa nesses 20 n\u00facleos do Semi\u00e1rido e quais s\u00e3o eles? Como se chegou a essa situa\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p><strong>I\u00eado Bezerra de S\u00e1 \u2013<\/strong> N\u00f3s chegamos a essa situa\u00e7\u00e3o em fun\u00e7\u00e3o da primeira causa, que \u00e9 o desmatamento, ou seja, a retirada da cobertura, principalmente da cobertura florestal, porque \u00e9 ela quem protege o substrato do solo de todas as intemp\u00e9ries. Al\u00e9m disso, o sobrepasteio dessa vegeta\u00e7\u00e3o contribui para esse fen\u00f4meno. Depois, h\u00e1 o problema do manejo que \u00e9 dado a esse solo, com planta\u00e7\u00f5es inadequadas, sem fazer o terraceamento, sem conter a eros\u00e3o. Quando a cobertura \u00e9 retirada e as chuvas s\u00e3o de alta intensidade, embora poucas ao longo do ano, acontece um processo de carreamento do solo. Portanto, isso provoca um tipo de eros\u00e3o laminar, que degrada bastante essas \u00e1reas, porque vai retirando l\u00e2minas do solo: a cada ano vai um mil\u00edmetro, por exemplo, e as pessoas n\u00e3o percebem isso, mas no passar de 10 anos houve a perda de 10 mil\u00edmetros, o que equivale a um cent\u00edmetro do solo.<\/p>\n<p>\u00c9 necess\u00e1rio manter o m\u00e1ximo poss\u00edvel da vegeta\u00e7\u00e3o, proteger esse solo, plantar corretamente nos lugares certos, com a cultura certa e com o manejo certo. Isso \u00e9 fundamental para que se evite esse processo de desertifica\u00e7\u00e3o, n\u00e3o s\u00f3 aqui, mas em qualquer regi\u00e3o que tenha essa climatologia e tamb\u00e9m esse tipo de solo.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211;<\/strong> De que maneira a desertifica\u00e7\u00e3o acaba impactando na vida das pessoas que vivem no semi\u00e1rido?<\/p>\n<p><strong>I\u00eado Bezerra de S\u00e1 \u2013<\/strong> Considero a desertifica\u00e7\u00e3o como um jogo de domin\u00f3, em que uma causa empurra a outra e, no final da ponta, quem mais se prejudica \u00e9 o homem que vive no semi\u00e1rido. Em um passado n\u00e3o muito long\u00ednquo, existia o \u00eaxodo do nordestino que sa\u00eda da sua terra para ir para o Sudeste, o Centro-Oeste e \u00e0s vezes at\u00e9 para o Sul, ou ent\u00e3o para as capitais, em busca de emprego, renda e de manter a sua vida, porque a terra dele ficou de um jeito t\u00e3o improdutivo que n\u00e3o conseguiu mais rendimentos para sustentar a fam\u00edlia. Esse processo vem diminuindo gradativamente de uns 50 anos para c\u00e1, mas ainda acontece. No entanto, o \u00eaxodo agora n\u00e3o \u00e9 mais para o Sudeste, para o Sul, para o Centro-Oeste; as pessoas est\u00e3o indo para os polos de desenvolvimento que existem no pr\u00f3prio Nordeste, que absorvem muita m\u00e3o de obra.<\/p>\n<p>Na cidade de Petrolina, onde estou, tem o maior polo de fruticultura irrigada do Brasil. Cidades como Feira de Santana, na Bahia, tem um polo muito grande tamb\u00e9m, tanto de pecu\u00e1ria quanto de servi\u00e7os. Campina Grande, na Para\u00edba, Juazeiro do Norte, no Cear\u00e1, tamb\u00e9m s\u00e3o outros polos que absorvem muita m\u00e3o de obra. Por for\u00e7a da desertifica\u00e7\u00e3o, chamamos essas pessoas que migram para as regi\u00f5es do Nordeste de \u201crefugiados ambientais\u201d.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211;<\/strong> Qual o risco de esse processo de desertifica\u00e7\u00e3o se espalhar para outros pontos do semi\u00e1rido?<\/p>\n<p><strong>I\u00eado Bezerra de S\u00e1 \u2013<\/strong> O risco \u00e9 iminente. Por isso o governo, atrav\u00e9s do Minist\u00e9rio do Meio Ambiente, elaborou um Plano de A\u00e7\u00e3o Nacional de Combate \u00e0 Desertifica\u00e7\u00e3o. Esse \u00e9 um plano nacional que foi desenvolvido pelo Minist\u00e9rio do Meio Ambiente, com o apoio de diversos \u00f3rg\u00e3os de governo e tamb\u00e9m da sociedade civil, entre eles o Ibama, a ANA e a Embrapa. Por for\u00e7a deste programa, foram institu\u00eddos os programas estaduais, que s\u00e3o chamados de Planos de A\u00e7\u00f5es Estaduais \u2013 PAES. Na realidade, quem mais conhece sua situa\u00e7\u00e3o de desertifica\u00e7\u00e3o \u00e9 o pr\u00f3prio estado e, \u00e0s vezes, o pr\u00f3prio munic\u00edpio, por isso \u00e9 preciso ir at\u00e9 a ponta. Cada estado do Nordeste que padece desse problema elaborou seus programas e alguns j\u00e1 criaram leis. Ent\u00e3o, a ideia \u00e9 dotar esses estados e, por conseguinte, os munic\u00edpios de algumas pr\u00e1ticas e tecnologias que v\u00e3o diminuindo e minimizando esse problema. A governan\u00e7a da desertifica\u00e7\u00e3o passa, justamente, por esses programas que saem da esfera federal e chegam at\u00e9 o munic\u00edpio, ensinando o que se deve e o que n\u00e3o se deve fazer para acelerar esse processo de desertifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No passado, o problema era muito maior, no entanto, ap\u00f3s o advento desses programas, estamos minimizando a situa\u00e7\u00e3o pouco a pouco. J\u00e1 estamos conseguindo identificar esses processos de desertifica\u00e7\u00e3o mais intensos e coloc\u00e1-los na esfera municipal, que \u00e9 onde acontecem as a\u00e7\u00f5es. Tamb\u00e9m estamos atualizando informa\u00e7\u00f5es sobre a desertifica\u00e7\u00e3o para que os estados possam priorizar os investimentos, pois n\u00e3o temos muitas pessoas trabalhando com essa quest\u00e3o e precisamos de mais pessoas para poder equacionar essa situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A forma de frearmos um pouco esse processo \u00e9 com tecnologia e com informa\u00e7\u00e3o, dizendo o que fazer, como fazer, onde fazer, quanto custa e, \u00e0s vezes, intensificando um processo de fiscaliza\u00e7\u00e3o, de sensibiliza\u00e7\u00e3o e tamb\u00e9m de penaliza\u00e7\u00e3o das pessoas que est\u00e3o fazendo as coisas erradas, pois tamb\u00e9m existe um segmento empresarial muito forte no Nordeste, que vive deste produto da desertifica\u00e7\u00e3o e do desmatamento, porque utilizam muita madeira, lenha e carv\u00e3o em suas matrizes energ\u00e9ticas, e de forma insustent\u00e1vel. Ent\u00e3o, essa \u00e9 uma forma tamb\u00e9m de pression\u00e1-los para que possam fazer a coisa certa e para que n\u00e3o degradem ainda mais o ambiente. Existe uma legisla\u00e7\u00e3o pertinente para que possamos controlar esse quadro, e com esse controle iremos conter um pouco o avan\u00e7o do processo de desertifica\u00e7\u00e3o por todo o semi\u00e1rido brasileiro.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211;<\/strong> Em que consiste o Plano Nacional de Combate \u00e0 Desertifica\u00e7\u00e3o? Por que ele n\u00e3o tem sido efetivo no semi\u00e1rido?<\/p>\n<p><strong>I\u00eado Bezerra de S\u00e1 \u2013<\/strong> O plano foi publicado em 2005. Essa altern\u00e2ncia da governabilidade do plano impede que muitas a\u00e7\u00f5es sejam levadas a cabo, e creio que esse \u00e9 um fator muito importante. Ao inv\u00e9s de se fazer um plano de governo, deveria ser feito um plano de Estado, um plano que realmente pudesse incentivar, ter recursos financeiros e humanos destinados para isso, e que fosse um objeto realmente mais eficaz e eficiente, mas infelizmente isso n\u00e3o acontece.<\/p>\n<p>Em geral esses planos fazem parte de uma pol\u00edtica partid\u00e1ria que, \u00e0s vezes, causa um pouco de ang\u00fastia nas pessoas que trabalham com o assunto, porque vemos tanta coisa sendo constru\u00edda, as quais n\u00e3o s\u00e3o efetivadas do modo como gostar\u00edamos. N\u00f3s, enquanto institui\u00e7\u00e3o, temos um limite de fazer a parte de pesquisa, de demonstr\u00e1-la, de divulgar as tecnologias dispon\u00edveis, mas temos uma limita\u00e7\u00e3o, s\u00f3 podemos chegar at\u00e9 uma esfera de execu\u00e7\u00e3o de algumas atividades, porque a partir da\u00ed foge da nossa al\u00e7ada como empresa de pesquisa.<\/p>\n<p><strong>&#8220;Enquanto na Amaz\u00f4nia e no Cerrado os desmatamentos s\u00e3o de grandes extens\u00f5es, na Caatinga o desmatamento \u00e9 feito de forma muito particular&#8221;<\/strong><\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013<\/strong> Que fatores t\u00eam levado a Caatinga a sofrer um processo de degrada\u00e7\u00e3o e como esse processo contribui para a desertifica\u00e7\u00e3o do semi\u00e1rido?<\/p>\n<p><strong>I\u00eado Bezerra de S\u00e1 \u2013<\/strong> O que mais contribui para que isso ocorra \u00e9 exatamente a derrubada da Caatinga. A energia no Brasil est\u00e1 muito cara, e no semi\u00e1rido, em particular, h\u00e1 muitas empresas que precisam de energia e que utilizam a energia de biomassa. Ocorre que esse tipo de energia \u00e9 exatamente o produto da derrubada e do desmatamento da Caatinga.<\/p>\n<p>Hoje o Ibama, em n\u00edvel federal, e os estados, com suas secretarias de meio ambiente e suas ag\u00eancias, est\u00e3o tentando controlar para que esse processo de utiliza\u00e7\u00e3o da lenha e do carv\u00e3o n\u00e3o seja realizado de forma n\u00e3o manejada, ou seja, retirado da natureza forma ilegal, clandestina. Para se ter uma ideia, como falei no in\u00edcio da nossa conversa, entre 2002 e 2008 foram desmatados aproximadamente 16 mil Km\u00b2. Se multiplicarmos esse valor por 100, teremos o resultado dessa \u00e1rea por hectares. No intervalo de apenas seis anos foi destru\u00eddo praticamente 20% de todo o estado de Pernambuco, por exemplo. Isso \u00e9 muito s\u00e9rio e por isso precisamos frear esse desmatamento ou incentivar, coisa que j\u00e1 est\u00e1 sendo feita, a realiza\u00e7\u00e3o de planos de manejo florestal da Caatinga.<\/p>\n<p>O que \u00e9 um plano de manejo florestal sustent\u00e1vel da Caatinga? S\u00e3o planos elaborados por equipes de engenheiros florestais, em que a vegeta\u00e7\u00e3o da Caatinga \u00e9 utilizada de forma cont\u00ednua e sustent\u00e1vel. Dependendo do lugar em que j\u00e1 foi desmatada, a Caatinga pode levar de 30 a 40 anos para se regenerar. Assim, os estudos de manejo vieram para isso.<\/p>\n<p>Aqui na regi\u00e3o, onde existe o maior polo de gesso do Brasil, na regi\u00e3o do Araripe, se produz 95% de todo o gesso do Brasil, seja gesso para forro, para divis\u00f3ria, para constru\u00e7\u00e3o civil, para uso ortop\u00e9dico. Para transformar o min\u00e9rio em gesso, \u00e9 preciso desidrat\u00e1-lo \u2014 o termo usado \u00e9 calcinar \u2014 e para isso se utiliza energia, sendo que a mais utilizada \u00e9 a de biomassa, e mais de 50% dessa energia \u00e9 oriunda de desmatamentos ilegais e clandestinos. O governo sabe disso, as autoridades sabem disso e estamos com um trabalho muito importante de conscientiza\u00e7\u00e3o dessas empresas que utilizam biomassa na sua matriz energ\u00e9tica.<\/p>\n<p>H\u00e1 uns tr\u00eas anos existiam poucos planos de manejo, da ordem de 12, 14 planos de manejo florestal e hoje eles passam de 300. Ent\u00e3o, energia, se for de forma sustent\u00e1vel, \u00e9 muito boa para a natureza e para o homem tamb\u00e9m, porque ela \u00e9 legalizada, gera um melhor rendimento porque \u00e9 padronizada, ou seja, tem uma s\u00e9rie de vantagens que concorrem para que esses planos sejam mais ampliados.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211;<\/strong> Que medidas s\u00e3o necess\u00e1rias para reverter esse processo de desertifica\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p><strong>I\u00eado Bezerra de S\u00e1 \u2013<\/strong> O monitoramento, que est\u00e1 sedo executado, do desmatamento da Caatinga, \u00e9 fundamental. Verificamos que a Amaz\u00f4nia, a Mata Atl\u00e2ntica e at\u00e9 o Cerrado t\u00eam muita visibilidade no cen\u00e1rio nacional e internacional, mas a Caatinga tem menos visibilidade. Por isso, \u00e9 necess\u00e1rio monitorar, ver onde est\u00e3o ocorrendo os problemas e fazer a\u00e7\u00f5es mais efetivas. Acredito que assim conseguiremos mostrar, inclusive na m\u00eddia nacional, como est\u00e1 sendo feito esse controle. Queremos dar visibilidade para a Caatinga e talvez seja um pouco mais dif\u00edcil, porque enquanto na Amaz\u00f4nia e no Cerrado os desmatamentos s\u00e3o de grandes extens\u00f5es, na Caatinga o desmatamento \u00e9 feito de forma muito particular. \u00c9 o que chamo de desmatamento \u201cformiguinha\u201d, ou seja, n\u00e3o tem uma frente cont\u00ednua de desmatamento que \u00e9 vista em uma imagem de sat\u00e9lite com muita facilidade, como se v\u00ea na Amaz\u00f4nia e no Cerrado. Ent\u00e3o, queremos monitorar esse desmatamento.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013<\/strong> Deseja acrescentar algo?<\/p>\n<p><strong>I\u00eado Bezerra de S\u00e1 \u2013<\/strong> O interessante \u00e9 que cada estado da nossa Federa\u00e7\u00e3o que est\u00e1 sendo afetado pelo problema tenha seus Planos de A\u00e7\u00f5es Estaduais. Precisar\u00edamos que os \u00f3rg\u00e3os que est\u00e3o encarregados da execu\u00e7\u00e3o desses planos, dentro dos estados, ou seja, as secretarias de meio ambiente e as ag\u00eancias, ger\u00eancias ou institutos de pesquisa ambientais que est\u00e3o dentro dos munic\u00edpios, sejam fortalecidos e dotem esses organismos de dinheiro e de pessoas para que possamos fazer um trabalho mais eficiente e r\u00e1pido, porque a degrada\u00e7\u00e3o ocorre em velocidade sempre maior do que a recupera\u00e7\u00e3o. Por conta disso, precisamos ser mais proativos nesse sentido.<\/p>\n<p>Fonte &#8211; Patr\u00edcia Fachin e Leslie Chaves, IHU de 28 de julho de 2015<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cO semi\u00e1rido todo tem um milh\u00e3o de km\u00b2, ent\u00e3o cerca de 10% a 15% dessa \u00e1rea est\u00e1 numa situa\u00e7\u00e3o de severidade muito grande\u201d, adverte o pesquisador da Embrapa L\u00eado Bezerra de S\u00e1. 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