{"id":14830,"date":"2015-08-19T15:00:36","date_gmt":"2015-08-19T18:00:36","guid":{"rendered":"http:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/?p=14830"},"modified":"2015-08-19T09:53:38","modified_gmt":"2015-08-19T12:53:38","slug":"crise-hidrica-a-solucao-esta-no-estudo-das-bacias-hidrograficas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/crise-hidrica-a-solucao-esta-no-estudo-das-bacias-hidrograficas\/","title":{"rendered":"Crise h\u00eddrica: a solu\u00e7\u00e3o est\u00e1 no estudo das bacias hidrogr\u00e1ficas"},"content":{"rendered":"<p><strong>&#8216;Com exce\u00e7\u00e3o dos habitantes do Semi\u00e1rido, os brasileiros foram criados sob o conceito de que \u00e1gua era um bem abundante, livre e sem valor econ\u00f4mico&#8217;<\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1 48 anos, desde que criou a disciplina de hidrologia e manejo de bacias hidrogr\u00e1ficas, Osvaldo Ferreira Valente afirma que convive com \u201ca frustra\u00e7\u00e3o de ver a produ\u00e7\u00e3o de \u00e1gua ainda ser tratada com alta dose de empirismo e de solu\u00e7\u00f5es do tipo \u2018salvadoras da p\u00e1tria\u2019\u201d. Na entrevista a seguir, concedida \u00e0 IHU On-Line por e-mail, ao ser questionado sobre como resolver a crise h\u00eddrica que j\u00e1 atinge algumas cidades brasileiras, o engenheiro florestal \u00e9 categ\u00f3rico ao sugerir que seja feito um \u201cestudo hidrol\u00f3gico do comportamento das bacias formadoras do Sistema, incluindo informa\u00e7\u00f5es sobre geologia e solos e procedimentos adotados no uso da terra\u201d.<\/p>\n<p>Contudo, comenta, ainda h\u00e1 quem repita \u201caquele conselho t\u00e3o recorrente e perigoso para quem pergunta o que fazer para salvar uma nascente e recebe a resposta simplista: cerque-a e plante \u00e1rvores\u201d. \u201cSe isso fosse verdade\u201d, pontua, \u201cseria fac\u00edlimo e barato resolver os problemas de abastecimento de \u00e1gua para as nossas variadas necessidades\u201d.<\/p>\n<p>De acordo com Valente, depois de um estudo hidrol\u00f3gico para saber como se d\u00e1 o comportamento das bacias hidrogr\u00e1ficas, \u00e9 preciso \u201cconsiderar os aspectos socioecon\u00f4micos dos ecossistemas familiares, principalmente dos que ocupam \u00e1reas rurais. Depois disso, fixar metas de produ\u00e7\u00e3o de \u00e1gua para os pr\u00f3ximos cinco anos e, a partir delas, dimensionar as estruturas de recarga artificial de aqu\u00edferos\u201d.<\/p>\n<p>Osvaldo Ferreira Valente explica ainda que as \u201ccrises de \u00e1gua existem porque ainda n\u00e3o respeitamos os conceitos de hidrologia referentes \u00e0s pequenas bacias, onde tudo come\u00e7a, e n\u00e3o aplicamos os princ\u00edpios e as tecnologias necess\u00e1rias para os seus manejos\u201d. Segundo ele, \u00e9 preciso explicitar que \u201ca bacia hidrogr\u00e1fica \u00e9 a respons\u00e1vel por receber e processar os volumes de \u00e1gua recebidos das chuvas. E que \u00e9 dela, portanto, a responsabilidade de manter os cursos d\u2019\u00e1gua, seja ele um c\u00f3rrego, riacho, ribeir\u00e3o ou um grande rio. Essa falta pode ser a explica\u00e7\u00e3o para a concentra\u00e7\u00e3o de aten\u00e7\u00f5es nas calhas dos cursos d\u2019\u00e1gua em si, ou no m\u00e1ximo em suas \u00e1reas ciliares, esquecendo que eles s\u00e3o produtos dos comportamentos das bacias que os formam. Por isso, eu sempre estou cobrando que as pessoas deixem de mergulhar nos rios e passem a \u2018mergulhar\u2019 nas suas bacias\u201d, salienta.<\/p>\n<p>Segundo o engenheiro, apesar das iniciativas de reflorestar o Sistema Cantareira, \u201cdificilmente conseguir\u00edamos aumentar substancialmente a cobertura florestal nas bacias\u201d que formam o Sistema. \u201cTalvez, com o novo C\u00f3digo Florestal, possamos, em alguns anos, passar a cobertura atual de 21,5% para 28%. Tal aumento seria pouco relevante para a eleva\u00e7\u00e3o da produtividade de \u00e1gua. H\u00e1 at\u00e9 o risco de, num horizonte de 30 anos, o aumento de a cobertura florestal provocar uma diminui\u00e7\u00e3o da produtividade\u201d, explica.<\/p>\n<p>Osvaldo Ferreira Valente \u00e9 engenheiro florestal, especialista em hidrologia e manejo de pequenas bacias hidrogr\u00e1ficas. \u00c9 professor titular, aposentado, da Universidade Federal de Vi\u00e7osa \u2013 UFV e autor de dois livros sobre o assunto, intitulados Conserva\u00e7\u00e3o de nascentes \u2013 Produ\u00e7\u00e3o de \u00e1gua em pequenas bacias hidrogr\u00e1ficas e Das chuvas \u00e0s torneiras \u2013 A \u00e1gua nossa de cada dia. Depois de aposentado, tem dedicado o seu tempo em consultorias de projetos de manejo de bacias, principalmente na capacita\u00e7\u00e3o e treinamento de equipes envolvidas, e na divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica de conhecimentos relacionados com a produ\u00e7\u00e3o de \u00e1gua.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211;<\/strong> Quais s\u00e3o as raz\u00f5es das crises de abastecimento de \u00e1gua que se v\u00ea no Brasil nos dias de hoje?<\/p>\n<p><strong>Osvaldo Ferreira Valente \u2013<\/strong> Com exce\u00e7\u00e3o dos habitantes do Semi\u00e1rido, os brasileiros foram criados sob o conceito de que \u00e1gua era um bem abundante, livre e sem valor econ\u00f4mico. A Lei 9.433, de janeiro de 1997, a Lei das \u00c1guas, procurou mudar esse sentimento, dizendo, em seu primeiro artigo:<\/p>\n<p>Item II \u2013 a \u00e1gua \u00e9 um recurso natural limitado, dotado de valor econ\u00f4mico.<\/p>\n<p>Item V \u2013 a bacia hidrogr\u00e1fica \u00e9 a unidade territorial para implementa\u00e7\u00e3o da Pol\u00edtica Nacional de Recursos H\u00eddricos e atua\u00e7\u00e3o do sistema Nacional de Gerenciamento de Recursos H\u00eddricos.<\/p>\n<p>Mas talvez tenha faltado dizer, mais explicitamente, que a bacia hidrogr\u00e1fica \u00e9 a respons\u00e1vel por receber e processar os volumes de \u00e1gua recebidos das chuvas. E que \u00e9 dela, portanto, a responsabilidade de manter os cursos d\u2019\u00e1gua, seja ele um c\u00f3rrego, riacho, ribeir\u00e3o ou um grande rio. Essa falta pode ser a explica\u00e7\u00e3o para a concentra\u00e7\u00e3o de aten\u00e7\u00f5es nas calhas dos cursos d\u2019\u00e1gua em si, ou no m\u00e1ximo em suas \u00e1reas ciliares, esquecendo que eles s\u00e3o produtos dos comportamentos das bacias que os formam. Por isso, eu sempre estou cobrando que as pessoas deixem de mergulhar nos rios e passem a \u201cmergulhar\u201d nas suas bacias.<\/p>\n<p>\u00c9 claro que saneamento \u00e9 importante, com combate cont\u00ednuo \u00e0 polui\u00e7\u00e3o das \u00e1guas. \u00c9 claro que a mata ciliar \u00e9 importante, como prote\u00e7\u00e3o \u00e0 biodiversidade e como barreira de acesso direto aos leitos. Mas dois aspectos devem ficar bem claros: primeiro, que a polui\u00e7\u00e3o s\u00f3 poder\u00e1 ser um problema se existir \u00e1gua correndo no leito; segundo, que as \u00e1reas ciliares n\u00e3o podem ser responsabilizadas pelas quantidades de \u00e1gua produzidas pelas bacias, pois elas representam no m\u00e1ximo 10% das superf\u00edcies das mesmas.<\/p>\n<p>Em resumo, as crises de \u00e1gua existem porque ainda n\u00e3o respeitamos os conceitos de hidrologia referentes \u00e0s pequenas bacias, onde tudo come\u00e7a, e n\u00e3o aplicamos os princ\u00edpios e as tecnologias necess\u00e1rias para os seus manejos.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211;<\/strong> Que elementos n\u00e3o est\u00e3o sendo discutidos com a devida prioridade e cuidado quando se trata das crises de abastecimento de \u00e1gua?<\/p>\n<p><strong>Osvaldo Ferreira Valente \u2013<\/strong> Parte da resposta j\u00e1 foi dada na pergunta anterior. Mas vale a pena acrescentar que no primeiro artigo da Lei 9.433, o Item I afirma ser a \u00e1gua um bem de dom\u00ednio p\u00fablico. O que quer dizer isso? Que a \u00e1gua que nasce e corre pela propriedade rural de algu\u00e9m n\u00e3o lhe pertence e que quaisquer coletas feitas devem estar previamente autorizadas pela Ag\u00eancia Nacional de \u00c1guas &#8211; ANA, ou por seus representantes estaduais. \u00c9 o princ\u00edpio da outorga. Ora, se o poder p\u00fablico chamou para si a propriedade do recurso, inclusive cobrando por isso, quando o consumo n\u00e3o for considerado insignificante, cabe a ele cuidar do mesmo. Pelo menos oferecendo suporte t\u00e9cnico e financeiro aos donos das propriedades onde nascem e correm os pequenos cursos d\u2019\u00e1gua.<\/p>\n<p>Os comit\u00eas e as ag\u00eancias de bacias, tamb\u00e9m criadas pela Lei 9.433, ainda est\u00e3o descobrindo a melhor maneira de atuarem. Uma dificuldade \u00e9 que elas t\u00eam de operar no sistema de licita\u00e7\u00e3o e a\u00ed o processo fica muito frio para a lida com as \u00e1reas rurais. Ganham empresas que n\u00e3o t\u00eam nenhuma liga\u00e7\u00e3o com o meio social e econ\u00f4mico e n\u00e3o conseguem estabelecer a empatia necess\u00e1ria com as comunidades. Acabam o trabalho, desmancham os acampamentos e v\u00e3o embora. Em pouco tempo todos os trabalhos desenvolvidos estar\u00e3o perdidos. O sucesso s\u00f3 vai ser alcan\u00e7ado quando as atividades forem desenvolvidas sob a metodologia da extens\u00e3o rural. Outro fato preocupante \u00e9 a concentra\u00e7\u00e3o de recursos arrecadados no saneamento, campo dominado por empresas de engenharia que est\u00e3o muito mais estruturadas para fazer press\u00e3o junto \u00e0s ag\u00eancias.<\/p>\n<p>Os comit\u00eas precisam, tamb\u00e9m, buscar mais assessoria especializada em produ\u00e7\u00e3o de \u00e1gua para estabelecerem as prioridades de aplica\u00e7\u00e3o dos recursos arrecadados com a cobran\u00e7a pelo uso da \u00e1gua. Assessoria em hidrologia aplicada \u00e0s pequenas bacias, em geologia e solos, em tecnologias de manejo de ecossistemas hidrol\u00f3gicos e em conscientiza\u00e7\u00e3o e capacita\u00e7\u00e3o de ecossistemas familiares que interagem com os hidrol\u00f3gicos. A hidrologia aplicada a pequenas bacias (hidrologia de produ\u00e7\u00e3o de \u00e1gua) tem especificidades que n\u00e3o s\u00e3o contempladas pela hidrologia comumente ensinada na maioria dos nossos cursos de engenharia, que se concentra na an\u00e1lise de vaz\u00f5es de cursos d\u2019\u00e1gua.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211;<\/strong> O senhor sinaliza que, ao contr\u00e1rio do que muitos especialistas est\u00e3o afirmando, o reflorestamento n\u00e3o \u00e9 a \u00fanica solu\u00e7\u00e3o para aumentar a produ\u00e7\u00e3o de \u00e1gua de mananciais de abastecimento. Qual \u00e9 a import\u00e2ncia do reflorestamento nesse processo e quais s\u00e3o as alternativas?<\/p>\n<p><strong>Osvaldo Ferreira Valente \u2013<\/strong> \u00c9 evidente a import\u00e2ncia da floresta natural na conserva\u00e7\u00e3o ambiental, na manuten\u00e7\u00e3o da biodiversidade e no oferecimento de variados servi\u00e7os ambientais. Mas tudo isso n\u00e3o pode ser confundido com um comportamento sempre positivo na produ\u00e7\u00e3o de quantidade de \u00e1gua. Aquelas imagens de nascentes e c\u00f3rregos brotando ou correndo l\u00edmpidos pelo interior de florestas est\u00e3o perfeitamente de acordo com qualidade de \u00e1gua, mas nem sempre com quantidade produzida.<\/p>\n<p>Em artigo recente, de minha autoria, publicado pelo Jornal da Ci\u00eancia &#8211; SBPC e republicado pelo Portal EcoDebate em 09\/07\/2015, sob o t\u00edtulo de \u201cFlorestas e produ\u00e7\u00e3o de \u00e1gua\u201d, tive a oportunidade de discutir o assunto com base em duas teses de doutorado e outra de mestrado, defendidas na USP. S\u00e3o dados cient\u00edficos, portanto, mostrando que as produtividades de \u00e1gua de bacias cobertas por florestas naturais, estudadas nas teses, variaram de 15,43 L\/Km2.s a 2,4 L\/Km2.s, nos meses de agosto, que s\u00e3o meses centrais dos per\u00edodos de estiagens nas regi\u00f5es estudadas. Fiz quest\u00e3o de usar as teses para n\u00e3o deixar d\u00favidas sobre a confiabilidade das informa\u00e7\u00f5es. As bacias estudadas estavam cobertas com florestas secund\u00e1rias e com mais de 30 anos. A bacia que produziu 2,4 L\/Km2.s est\u00e1 com vaz\u00e3o superficial zerada em agosto, nos \u00faltimos tr\u00eas anos. H\u00e1 informa\u00e7\u00f5es um pouco emp\u00edricas e, portanto, servindo apenas como not\u00edcia, de que ela produzia 6,28 L\/Km2.s, na d\u00e9cada de 1960, quando a bacia estava come\u00e7ando o processo de regenera\u00e7\u00e3o natural.<\/p>\n<p>H\u00e1 muitos trabalhos cient\u00edficos mostrando que florestas naturais possibilitam velocidades de infiltra\u00e7\u00e3o que podem chegar a mais de 60 mm\/h, tendo, assim, capacidade de evitar enxurradas na maioria das chuvas intensas por ela recebidas. Por que, ent\u00e3o, a baixa produtividade de 2,4 L\/Km2.s, ou at\u00e9 de zero?<\/p>\n<p>Tudo vai depender de disponibilidades de \u00e1gua no solo e do balan\u00e7o de energia do meio. Numa \u00e1rea degradada, ou de culturas agr\u00edcolas que explorem pequenas profundidades de solo, poder\u00e1 haver transfer\u00eancia de muita energia para a floresta que, ao explorar camadas mais profundas do solo, poder\u00e1 provocar altas taxas de evapotranspira\u00e7\u00e3o, dificultando o armazenamento de \u00e1gua nos aqu\u00edferos subterr\u00e2neos. \u00c9 como se a \u00e1rea florestal se comportasse como uma ilha consumidora da energia n\u00e3o utilizada pelas \u00e1reas vizinhas. O assunto \u00e9, portanto, muito mais complexo do que parece \u00e0 primeira vista. A localiza\u00e7\u00e3o e a implanta\u00e7\u00e3o de florestas para produ\u00e7\u00e3o de \u00e1gua devem ser precedidas de estudos sobre balan\u00e7o de energia na regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Se os reflorestamentos n\u00e3o se mostrarem confi\u00e1veis para aumentar a produ\u00e7\u00e3o de \u00e1gua, poderemos adotar tecnologias de abastecimento artificial de aqu\u00edferos, tais como os terra\u00e7os de bases estreitas nas encostas, as caixas de capta\u00e7\u00e3o de enxurradas nas \u00e1reas mais torrenciais, ou ao longo de estradas, e as barraginhas, quando em \u00e1reas mais planas ou ligeiramente onduladas. Tamb\u00e9m pr\u00e1ticas vegetativas, como os cultivos em contorno, a rota\u00e7\u00e3o de pastagens e os plantios diretos. Mas todas essas tecnologias precisam ser dimensionadas e localizadas sob os princ\u00edpios hidrol\u00f3gicos aplicados a pequenas bacias hidrogr\u00e1ficas.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211;<\/strong> Para al\u00e9m do reflorestamento, o que seria uma alternativa para revitalizar o Sistema Cantareira?<\/p>\n<p><strong>Osvaldo Ferreira Valente \u2013<\/strong> No artigo mencionado na resposta anterior h\u00e1 refer\u00eancias a propostas que correm na m\u00eddia e que pretendem resolver a quest\u00e3o com reflorestamentos. Mostrei, l\u00e1, que dificilmente conseguir\u00edamos aumentar substancialmente a cobertura florestal nas bacias que formam o Sistema Cantareira. Talvez, com o novo C\u00f3digo Florestal, possamos, em alguns anos, passar a cobertura atual de 21,5% para 28%. Tal aumento seria pouco relevante para a eleva\u00e7\u00e3o da produtividade de \u00e1gua. H\u00e1 at\u00e9 o risco de, num horizonte de 30 anos, o aumento de a cobertura florestal provocar uma diminui\u00e7\u00e3o da produtividade. Este perigo foi mostrado em tese recente de doutorado na USP.<\/p>\n<p><strong>Estudo hidrol\u00f3gico<\/strong><\/p>\n<p>O que fazer, ent\u00e3o? Primeiro, um estudo hidrol\u00f3gico do comportamento das bacias formadoras do Sistema, incluindo informa\u00e7\u00f5es sobre geologia e solos e procedimentos adotados no uso da terra. Segundo, considerar os aspectos socioecon\u00f4micos dos ecossistemas familiares, principalmente dos que ocupam \u00e1reas rurais. Depois disso, fixar metas de produ\u00e7\u00e3o de \u00e1gua para os pr\u00f3ximos cinco anos e, a partir delas, dimensionar as estruturas de recarga artificial de aqu\u00edferos, j\u00e1 mencionadas na resposta anterior. Programar e desenvolver, tamb\u00e9m, programas de melhorias de procedimentos de cultivo da terra. Tais programas devem ser implantados com metodologias de extens\u00e3o rural, ou seja, por institui\u00e7\u00f5es ou organiza\u00e7\u00f5es que detenham tal expertise e n\u00e3o por empresas de engenharia especializadas em execu\u00e7\u00e3o de obras de infraestrutura.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o meio rural que deve ser respons\u00e1vel pelo abastecimento dos aqu\u00edferos. As \u00e1reas urbanas tamb\u00e9m podem colaborar, facilitando infiltra\u00e7\u00e3o. O ge\u00f3logo \u00c1lvaro Rodrigues dos Santos, grande estudioso das inunda\u00e7\u00f5es urbanas, tem publicado artigos e livro com propostas para aumentar a infiltra\u00e7\u00e3o de \u00e1gua nos espa\u00e7os das cidades. Recentemente ele teve oportunidade de expor suas ideias no congresso da SBPC, em S\u00e3o Carlos-SP (com resenha publicada pelo EcoDebate, em 17\/07\/2015). Ele fala em sarjetas drenantes, em cal\u00e7adas com \u00e1reas verdes, em ado\u00e7\u00e3o de pisos perme\u00e1veis, etc. Muitas cidades brasileiras j\u00e1 obrigam a constru\u00e7\u00e3o de cisternas de infiltra\u00e7\u00e3o junto \u00e0s constru\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>Produtividade da \u00e1gua<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 fundamental, para sucesso da opera\u00e7\u00e3o, que deixemos de lado aquela ideia de que basta cercar as \u00e1reas de preserva\u00e7\u00e3o permanente em torno das nascentes e dos cursos d\u2019\u00e1gua e plantar \u00e1rvores, para o problema estar resolvido. Em algumas situa\u00e7\u00f5es, a mata ciliar que passar a se desenvolver poder\u00e1 at\u00e9 provocar diminui\u00e7\u00e3o de vaz\u00f5es. Isso se nada for feito na bacia para compensar o efeito de uma \u00e1rea que pode ser importante em quest\u00f5es ambientais, mas n\u00e3o garantidora de aumento de produtividade de \u00e1gua. Os volumes infiltrados nessas \u00e1reas s\u00e3o rapidamente drenados pelos cursos d\u2019\u00e1gua; n\u00e3o ficam armazenados nos aqu\u00edferos at\u00e9 os per\u00edodos de estiagens. Por outro lado, nos meses secos, na maioria das regi\u00f5es brasileiras, j\u00e1 h\u00e1 energia dispon\u00edvel no meio para provocar aumento da taxa de transpira\u00e7\u00e3o, lembrando que muitas dessas \u00e1reas ficam \u00famidas o tempo todo, por serem regi\u00f5es de passagem de \u00e1gua dos aqu\u00edferos para as nascentes e cursos d\u2019\u00e1gua. Podem garantir, portanto, suprimento cont\u00ednuo de \u00e1gua para o fen\u00f4meno da transpira\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Sei que esta minha an\u00e1lise poder\u00e1 ser contestada por muitos e eu estou aberto ao contradit\u00f3rio, desde que ele venha consubstanciado por trabalhos cient\u00edficos, com valores de vaz\u00f5es medidas antes e ao longo do desenvolvimento da mata ciliar.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211;<\/strong> Em que consiste sua proposta de que, dada a demanda para resolver a crise h\u00eddrica no curto prazo, deve-se armazenar \u00e1gua em represas e em reservat\u00f3rios urbanos? Quais as vantagens desse procedimento?<\/p>\n<p><strong>Osvaldo Ferreira Valente \u2013<\/strong> Vamos come\u00e7ar analisando, por exemplo, o comportamento prov\u00e1vel das bacias que comp\u00f5em o Sistema Cantareira. Os 2.280 km2 do Sistema recebem das chuvas, em anos hidrol\u00f3gicos normais, em torno de tr\u00eas bilh\u00f5es de metros c\u00fabicos de \u00e1gua. A outorga para o abastecimento das \u00e1reas metropolitanas \u00e9 de 36 m3\/s. Isso representa o consumo de algo em torno de 1,2 bilh\u00e3o de metros c\u00fabicos por ano. Se for feito um bom trabalho de manejo das bacias envolvidas, ser\u00e1 poss\u00edvel colocar 17% dos volumes de chuvas nos aqu\u00edferos, totalizando 0,5 bilh\u00e3o de metros c\u00fabicos, o que representa apenas 42% do consumo demandado. Portanto, a capta\u00e7\u00e3o a fio d\u2019\u00e1gua n\u00e3o daria conta do recado.<\/p>\n<p>Quais s\u00e3o as alternativas para completar a demanda? Investir em represas com capacidades de acumula\u00e7\u00e3o suficientes para completar as vaz\u00f5es necess\u00e1rias; investir em armazenamentos de \u00e1gua de chuva em reservat\u00f3rios dom\u00e9sticos e industriais, visando aliviar o abastecimento das concession\u00e1rias.<\/p>\n<p>O problema maior do Cantareira \u00e9 estar localizado em cabeceiras de rios, que, hidrologicamente, n\u00e3o s\u00e3o capazes de produzir vaz\u00f5es compat\u00edveis com grandes demandas, como a da regi\u00e3o metropolitana de S\u00e3o Paulo. Tenho pouca simpatia pela reserva\u00e7\u00e3o superficial, mas tenho que aceit\u00e1-la para S\u00e3o Paulo. Em in\u00fameras outras situa\u00e7\u00f5es, espalhadas pelo territ\u00f3rio brasileiro, um bom trabalho de manejo de bacias hidrogr\u00e1ficas ser\u00e1 capaz de produzir o necess\u00e1rio para abastecimento das popula\u00e7\u00f5es, sem reserva\u00e7\u00e3o superficial.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211;<\/strong> O senhor mencionou em artigo recente a necessidade de investir em tecnologias para aumentar a rugosidade das superf\u00edcies das bacias hidrogr\u00e1ficas, o que dificultaria a forma\u00e7\u00e3o das enxurradas e favoreceria a infiltra\u00e7\u00e3o de \u00e1gua no solo. Que tecnologias s\u00e3o essas? H\u00e1 exemplos de locais em que essas tecnologias foram aplicadas? O Brasil j\u00e1 disp\u00f5e delas?<\/p>\n<p><strong>Osvaldo Ferreira Valente \u2013<\/strong> As tecnologias j\u00e1 foram mencionadas nas respostas anteriores. Elas s\u00e3o capazes de diminuir a velocidade de escoamento superficial, dando tempo para que boa parte dos volumes recebidos pelas chuvas possa infiltrar no solo, primeira condi\u00e7\u00e3o de ter aqu\u00edferos bem abastecidos. Vale lembrar que a curva de quantidade de \u00e1gua infiltrada eleva-se com o tempo.<\/p>\n<p>Entre os anos 1999 e 2005, tivemos a oportunidade de testar v\u00e1rias dessas tecnologias na regi\u00e3o de Vi\u00e7osa-MG, com financiamento da concession\u00e1ria de abastecimento da cidade (Servi\u00e7o Aut\u00f4nomo de \u00c1gua e Esgoto, SAAE-Vi\u00e7osa), tendo conseguido, em alguns casos, at\u00e9 dobrar vaz\u00f5es de pequenas bacias em curto espa\u00e7o de tempo. Esses estudos foram inclusive premiados pela Ag\u00eancia Nacional de \u00c1guas &#8211; ANA e est\u00e3o dispon\u00edveis em um relat\u00f3rio que eu posso disponibilizar para quem tiver interesse.<\/p>\n<p>A ANA tamb\u00e9m j\u00e1 vem financiando a aplica\u00e7\u00e3o dessas tecnologias em algumas bacias, atrav\u00e9s do seu programa chamado \u201cProdutor de \u00c1gua\u201d (mais informa\u00e7\u00f5es no site da Ag\u00eancia). Na regi\u00e3o de Vi\u00e7osa, a ANA j\u00e1 est\u00e1 financiando o segundo projeto, com objetivo de criar condi\u00e7\u00f5es para o Pagamento por Servi\u00e7os Ambientais &#8211; PSA.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211;<\/strong> Deseja acrescentar algo?<\/p>\n<p><strong>Osvaldo Ferreira Valente \u2013<\/strong> O manejo de bacias hidrogr\u00e1ficas, ensinado em v\u00e1rias institui\u00e7\u00f5es do pa\u00eds, est\u00e1 a\u00ed para nos mostrar como a bacia deve ser organizada para receber os volumes de chuvas anuais e process\u00e1-los adequadamente, evitando cheias e inunda\u00e7\u00f5es e armazenando \u00e1gua nos aqu\u00edferos para as demandas dos per\u00edodos de estiagens.<\/p>\n<p>Tenho a satisfa\u00e7\u00e3o de ter criado a primeira disciplina de \u201chidrologia e manejo de bacias hidrogr\u00e1ficas\u201d no pa\u00eds em 1967, efetivamente lecionada para alunos de engenharia florestal da ent\u00e3o Universidade Rural do Estado de Minas Gerais, hoje Universidade Federal de Vi\u00e7osa. Por outro lado, depois de 48 anos dedicados ao assunto, convivo com a frustra\u00e7\u00e3o de ver a produ\u00e7\u00e3o de \u00e1gua ainda ser tratada com alta dose de empirismo e de solu\u00e7\u00f5es do tipo \u201csalvadoras da p\u00e1tria\u201d. Ainda sou obrigado a ouvir aquele conselho t\u00e3o recorrente e perigoso para quem pergunta o que fazer para salvar uma nascente e recebe a resposta simplista: cerque-a e plante \u00e1rvores. Se isso fosse verdade, seria fac\u00edlimo e barato resolver os problemas de abastecimento de \u00e1gua para as nossas variadas necessidades.<\/p>\n<p>Fonte &#8211; Patricia Fachin, IHU de 21 de julho de 2015<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8216;Com exce\u00e7\u00e3o dos habitantes do Semi\u00e1rido, os brasileiros foram criados sob o conceito de que \u00e1gua era um bem abundante, livre e sem valor econ\u00f4mico&#8217; H\u00e1 48 anos, desde que criou a disciplina de hidrologia e manejo de bacias hidrogr\u00e1ficas, Osvaldo Ferreira Valente afirma que convive com \u201ca frustra\u00e7\u00e3o de ver a produ\u00e7\u00e3o de \u00e1gua&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[9,90],"post_series":[],"class_list":["post-14830","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-geral","tag-agua-water","tag-ambiente-ambiental-environment-environmental-meio-ambiente","entry","no-media"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v25.2 - 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