{"id":14832,"date":"2015-08-19T16:00:43","date_gmt":"2015-08-19T19:00:43","guid":{"rendered":"http:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/?p=14832"},"modified":"2015-08-19T13:56:16","modified_gmt":"2015-08-19T16:56:16","slug":"o-avanco-da-soja-sobre-as-areas-umidas-e-um-perigo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/o-avanco-da-soja-sobre-as-areas-umidas-e-um-perigo\/","title":{"rendered":"O avan\u00e7o da soja sobre as \u00e1reas \u00famidas \u00e9 um perigo"},"content":{"rendered":"<p>Duzentos e setenta empreendimentos urban\u00edsticos sobre as \u00e1reas \u00famidas do delta do Paran\u00e1 (Argentina), uma produ\u00e7\u00e3o pecu\u00e1ria que nas ilhas passou de 160.000 cabe\u00e7as para cerca de dois milh\u00f5es, em dez anos, e o avan\u00e7o da fronteira agropecu\u00e1ria com a soja transg\u00eanica e o glifosato como bandeiras, s\u00e3o algumas das causas que n\u00e3o s\u00f3 provocam as inunda\u00e7\u00f5es, como tamb\u00e9m colocam em risco o abastecimento de \u00e1gua pot\u00e1vel na \u00e1rea de influ\u00eancia. \u201cA expans\u00e3o do cultivo de soja sobre as \u00e1reas \u00famidas \u00e9 muito perigosa, porque esse cultivo exige uma quantidade muito maior de glifosato e isto implica em uma muito perigosa contamina\u00e7\u00e3o da \u00e1gua que, em qualidade e quantidade, abastece 14 milh\u00f5es de pessoas\u201d em uma regi\u00e3o que inclui as prov\u00edncias de Entre R\u00edos, Santa F\u00e9 e Buenos Aires.<\/p>\n<p>As advert\u00eancias surgem de uma entrevista realizada pelo jornal P\u00e1gina\/12 com Rub\u00e9n Quintana, presidente da Funda\u00e7\u00e3o \u00c1reas \u00damidas e pesquisador do CONICET, no Instituto de Pesquisa e Engenharia Ambiental da Universidade de San Mart\u00edn, e com a especialista em comunica\u00e7\u00f5es da Funda\u00e7\u00e3o, Marta Andelman. Ambos reivindicaram o r\u00e1pido tratamento, no Congresso Nacional, de um projeto de lei de prote\u00e7\u00e3o das \u00e1reas \u00famidas que dorme o sono dos justos, desde fins de 2013, quando obteve sinal verde de uma comiss\u00e3o da C\u00e2mara de Senadores.<\/p>\n<p>Quintana come\u00e7ou sua carreira cient\u00edfica com a doutora In\u00e9s Malv\u00e1rez, a quem considera \u201ca pessoa que fez a introdu\u00e7\u00e3o do tema das \u00e1reas \u00famidas na Argentina\u201d. Recorda que ela formou um grupo de trabalho que se especializou no tema e que foi criado em fins dos anos 1980. O grupo se especializou em analisar a situa\u00e7\u00e3o existente no delta do rio Paran\u00e1 e sua \u00e1rea de influ\u00eancia.<\/p>\n<p>Como medida pr\u00e9via \u00e0 an\u00e1lise sobre a situa\u00e7\u00e3o na Argentina, disse que com as \u00e1reas \u00famidas \u201ch\u00e1 problemas em n\u00edvel mundial\u201d e cita uma nota publicada recentemente pelo jornal The Washington Post referente \u00e0 \u201cvulnerabilidade que os deltas no mundo possuem, porque todos est\u00e3o em risco por atividades humanas e pela mudan\u00e7a clim\u00e1tica\u201d. Quintana fala de uma \u201cvis\u00e3o hist\u00f3rica negativa das \u00e1reas \u00famidas que levou \u00e0 degrada\u00e7\u00e3o e \u00e0 perda de \u00e1reas \u00famidas\u201d.<\/p>\n<p>Para quantificar o problema, menciona o relat\u00f3rio surgido de uma reuni\u00e3o realizada em junho, no Uruguai, com a participa\u00e7\u00e3o dos pa\u00edses que fazem parte da Conven\u00e7\u00e3o de Ramsar, que analisa a evolu\u00e7\u00e3o das \u00e1reas \u00famidas em n\u00edvel mundial. \u201cH\u00e1 alguns anos, dizia-se que no s\u00e9culo XX, em n\u00edvel mundial, havia sido perdido 50% da superf\u00edcie das \u00e1reas \u00famidas; agora est\u00e1 se falando de 65 a 71%\u201d.<\/p>\n<p>Ressalta que o panorama \u00e9 em extremo paradoxal porque, tamb\u00e9m em n\u00edvel mundial, \u201creconheceu-se que as \u00e1reas \u00famidas est\u00e3o entre os ecossistemas que mais servi\u00e7os e bens oferecem \u00e0 sociedade, de maneira que deveria se frear, de forma urgente, sua degrada\u00e7\u00e3o\u201d. Esses bens s\u00e3o \u201cfundamentalmente a provis\u00e3o de \u00e1gua para os seres humanos e, no caso das nossas \u00e1reas \u00famidas fluviais, s\u00e3o absorvedores de inunda\u00e7\u00f5es, algo que est\u00e1 muito relacionado com o que est\u00e1 ocorrendo nestes dias\u201d. Tamb\u00e9m possuem \u201coutras fun\u00e7\u00f5es, de prote\u00e7\u00e3o das costas, de purifica\u00e7\u00e3o da \u00e1gua, para pescaria e prote\u00e7\u00e3o de outros tipos de fauna e forragens para a pecu\u00e1ria, e um mont\u00e3o de servi\u00e7os muito importantes\u201d.<\/p>\n<p>Quintana destaca que as \u00e1reas \u00famidas \u201csempre contaram com m\u00e1 propaganda\u201d porque s\u00e3o mencionadas como \u201clugares improdutivos ou para a produ\u00e7\u00e3o de pragas, como os mosquitos, de maneira que isso fez com que muitas \u00e1reas \u00famidas fossem transformadas, muito cedo, inclusive desde a \u00e9poca dos romanos, de modo que n\u00e3o \u00e9 nada novo\u201d. Em d\u00e9cadas recentes, essa transforma\u00e7\u00e3o foi produzida, \u201cmuito rapidamente, pelo avan\u00e7o da fronteira agr\u00edcola, pela pecu\u00e1ria, pelas urbaniza\u00e7\u00f5es\u201d.<\/p>\n<p>No caso da Argentina, recorda que no delta do Paran\u00e1 \u201csempre houve pecu\u00e1ria\u201d, mas uma pecu\u00e1ria de ilha: as vacas entravam em \u00e9pocas de \u00e1guas baixas e sa\u00edam em \u00e9poca de \u00e1guas altas, com uma carga muito baixa, mas a partir da expans\u00e3o da fronteira agr\u00edcola, em especial da monocultura da soja, ocorreu a expuls\u00e3o da pecu\u00e1ria das terras de pastoreio que havia na regi\u00e3o dos pampas e foi transferida para outras regi\u00f5es que n\u00e3o eram pecu\u00e1rias\u201d. Uma parte da pecu\u00e1ria \u201cfoi para a regi\u00e3o do Chaco e outra para as \u00e1reas \u00famidas fluviais do Paran\u00e1 e outros rios\u201d. Isto fez com que a regi\u00e3o do delta \u201cpassasse de 160.000 cabe\u00e7as (de gado), apontadas no censo de 1997, para 1,5 milh\u00e3o, ou at\u00e9 mesmo 2 milh\u00f5es de cabe\u00e7as, em 2007, com o agravante de que \u00e9 uma pecu\u00e1ria permanente, n\u00e3o a que entrava e sa\u00eda, propiciada por um per\u00edodo de oito anos de \u00e1guas baixas que fez com que se acreditasse que o delta nunca mais se inundaria\u201d. Isso trouxe a constru\u00e7\u00e3o de \u201cobras associadas a essa nova atividade, como aterros, a forma\u00e7\u00e3o de loteamentos, parcelas que antes n\u00e3o existiam nas ilhas e a instala\u00e7\u00e3o de cercas el\u00e9tricas\u201d.<\/p>\n<p>As grandes empresas criaram \u201cdiques, tanto para o cultivo como para o gado\u201d. Marta Andelman interv\u00e9m para explicar que \u201cos diques no delta do Paran\u00e1 ocupam, hoje, 250.000 hectares, que representam 14%\u201d do total. Isto est\u00e1 concentrado, \u201cpara piorar\u201d, no Baixo Delta e de forma particular no departamento de Entre R\u00edos de Ilhas do Ibicuy. Um levantamento feito pela Universidade de San Mart\u00edn e a Funda\u00e7\u00e3o \u00c1reas \u00damidas revelou que a quantidade de diques cresceu 10%, entre 2010 e 2013, \u201co que significa um crescimento muito alto\u201d, uma vez que se estima que os n\u00fameros devam ter aumentado a partir de 2013. \u201cA isso se soma a exist\u00eancia de 5.100 quil\u00f4metros de aterros\u201d, levantados por essas mesmas grandes empresas.<\/p>\n<p>Outro elemento negativo, muito destacado nos \u00faltimos dias, \u00e9 o dos empreendimentos imobili\u00e1rios, instalados, sobretudo, em Tigre, Escobar e Ingeniero Machwitz. A ocupa\u00e7\u00e3o na regi\u00e3o do Delta \u201c\u00e9 ainda baixa, mas est\u00e1 crescendo, sobretudo porque o valor das terras \u00e9 baixo, comparado com o entorno, de maneira que \u00e9 um bom neg\u00f3cio\u201d para as imobili\u00e1rias.<\/p>\n<p>Andelman, citando o levantamento de 2010, detalha que nesse ano havia \u201c270 urbaniza\u00e7\u00f5es que ocupavam de 2.000 a 10.000 hectares, sendo que 90% estavam situadas na bacia do rio Luj\u00e1n, no vale de inunda\u00e7\u00e3o, e 10% na regi\u00e3o de Paranacito\u201d, em Entre R\u00edos. Nessa cidade, que teve grav\u00edssimas inunda\u00e7\u00f5es no passado recente, foram constru\u00eddos bairros privados sobre os arroios Sagastume e Mart\u00ednez.<\/p>\n<p>Os entrevistados destacaram que, al\u00e9m do aumento de empreendimentos imobili\u00e1rios, observa-se no Delta \u201cum avan\u00e7o dos cultivos de soja e de trigo\u201d. Ao mesmo tempo, justamente em frente \u00e0 Villa Constituci\u00f3n, em Santa F\u00e9, a empresa holandesa Bema Agri, levantou diques sobre as \u00e1reas \u00famidas para proteger suas planta\u00e7\u00f5es de soja transg\u00eanica. \u201cA inunda\u00e7\u00e3o de 2010, fez com que eles rompessem os aterros para que a \u00e1gua corresse e n\u00e3o destru\u00edsse os diques, mas depois iriam reconstru\u00ed-los porque, com o pre\u00e7o que a soja tinha naquele momento, o investimento era muito f\u00e1cil de ser assumido por eles\u201d. A empresa estrangeira foi denunciada e punida, mas continua firme no mesmo lugar.<\/p>\n<p>Quintana adverte que \u00e9 poss\u00edvel presumir \u201ca expans\u00e3o do cultivo de soja\u201d sobre as \u00e1reas \u00famidas e Andelman destaca que isso \u00e9 \u201cmuito, muito perigoso, porque o cultivo de soja sobre as \u00e1reas \u00famidas exige uma quantidade muito maior de glifosato e isto implica em uma contamina\u00e7\u00e3o da \u00e1gua, o que \u00e9 muito grave porque um dos servi\u00e7os que as \u00e1reas \u00famidas nos oferecem \u00e9 a provis\u00e3o de \u00e1gua pura de qualidade e em quantidade\u201d. No momento atual, o delta do Paran\u00e1 \u201cabastece com \u00e1gua 14 milh\u00f5es de pessoas em sua \u00e1rea de influ\u00eancia\u201d. Andelman adverte que \u201co avan\u00e7o da soja sobre as \u00e1reas \u00famidas \u00e9 um perigo muito grande para a popula\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Quintana completa dizendo que \u201cquando se constr\u00f3i diques sobre uma \u00e1rea para cultivar qualquer coisa, corta-se toda a entrada de mat\u00e9ria org\u00e2nica e de nutrientes que lhe d\u00e3o fertilidade, e ao longo do tempo esses solos v\u00e3o se empobrecendo\u201d. Acrescenta que a regi\u00e3o, \u201ch\u00e1 4.500 anos, era um grande golfo marinho, o que faz com que os sais minerais estejam muito perto da superf\u00edcie, o que pode levar \u00e0 saliniza\u00e7\u00e3o do solo. Tudo demonstra que pode haver efeitos daninhos para a pr\u00f3pria produ\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Conclui que \u201co que fazemos \u00e9 apresentar um panorama do que ocorre no delta do Paran\u00e1, mas \u00e9 preciso levar em considera\u00e7\u00e3o que outras \u00e1reas \u00famidas, em outras regi\u00f5es do pa\u00eds, est\u00e3o passando pela mesma situa\u00e7\u00e3o\u201d. Andelman ressalta que, \u201ccomo consequ\u00eancia desta tend\u00eancia, com os movimentos de terra, com os agroqu\u00edmicos, muitas comunidades que viviam das produ\u00e7\u00f5es familiares perderam seu modo de vida e de produ\u00e7\u00e3o, desde os apicultores at\u00e9 os que viviam da pesca e da agricultura, hoje, perderam seu meio de vida\u201d.<\/p>\n<p>Fonte &#8211; Reportagem de Carlos Rodr\u00edguez, tradu\u00e7\u00e3o do Cepat, P\u00e1gina\/12 \/ IHU de 19 de agosto de 2015<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Duzentos e setenta empreendimentos urban\u00edsticos sobre as \u00e1reas \u00famidas do delta do Paran\u00e1 (Argentina), uma produ\u00e7\u00e3o pecu\u00e1ria que nas ilhas passou de 160.000 cabe\u00e7as para cerca de dois milh\u00f5es, em dez anos, e o avan\u00e7o da fronteira agropecu\u00e1ria com a soja transg\u00eanica e o glifosato como bandeiras, s\u00e3o algumas das causas que n\u00e3o s\u00f3 provocam&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[5,9,90],"post_series":[],"class_list":["post-14832","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-geral","tag-agricultura","tag-agua-water","tag-ambiente-ambiental-environment-environmental-meio-ambiente","entry","no-media"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v25.2 - 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