{"id":14870,"date":"2015-08-24T12:00:31","date_gmt":"2015-08-24T15:00:31","guid":{"rendered":"http:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/?p=14870"},"modified":"2015-08-24T10:45:33","modified_gmt":"2015-08-24T13:45:33","slug":"agrotoxicos-uma-conta-alta-que-a-sociedade-ainda-nao-se-conscientizou-de-que-pagara","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/agrotoxicos-uma-conta-alta-que-a-sociedade-ainda-nao-se-conscientizou-de-que-pagara\/","title":{"rendered":"Agrot\u00f3xicos: uma conta alta que a sociedade ainda n\u00e3o se conscientizou de que pagar\u00e1"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"\" src=\"http:\/\/farm9.staticflickr.com\/8117\/8613624408_765b99ce3c.jpg\" alt=\"\" width=\"610\" height=\"590\" \/><\/p>\n<p><strong>\u201cO agrot\u00f3xico, ao mesmo tempo que \u00e9 uma express\u00e3o desse modelo baseado na revolu\u00e7\u00e3o verde, mecaniza\u00e7\u00e3o no latif\u00fandio, na concentra\u00e7\u00e3o da terra, est\u00e1 dando mostras de que n\u00e3o \u00e9 sustent\u00e1vel para o desenvolvimento do pa\u00eds\u201d adverte o pesquisador.<\/strong><\/p>\n<p>O Brasil sustenta duas posi\u00e7\u00f5es de destaque no campo do agroneg\u00f3cio: \u00e9 o maior consumidor de agrot\u00f3xicos e um dos maiores exportadores de commodities do mundo. Essas duas coloca\u00e7\u00f5es est\u00e3o imbricadas e, segundo Fernando Carneiro, s\u00e3o a express\u00e3o de um modelo de economia para o campo e para o pa\u00eds. Para o pesquisador, os danos causados pelos agrot\u00f3xicos se estendem por diversas \u00e1reas, como a social, ambiental, pol\u00edtica e econ\u00f4mica, e devem continuar reverberando ao longo do tempo em fun\u00e7\u00e3o dos desequil\u00edbrios que provocam e intensificam. \u201cEssa conta nunca \u00e9 mostrada para a sociedade, \u00e9 uma conta que est\u00e1 escondida e \u00e9 pouco estudada pela academia\u201d, aponta em entrevista por telefone \u00e0 IHU On-Line.<\/p>\n<p>Fernando Carneiro \u00e9 graduado em Ci\u00eancias Biol\u00f3gicas pela Universidade Federal de Minas Gerais \u2013 UFMG, especialista em Vigil\u00e2ncia em Sa\u00fade Ambiental pela Universidade Federal do Rio de Janeiro \u2013 UFRJ, mestre em Ci\u00eancias da Sa\u00fade pelo Instituto Nacional de Salud P\u00fablica de M\u00e9xico e doutor em Epidemiologia pela UFMG, com p\u00f3s-doutorado no Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, tendo como orientador o Prof. Boaventura de Sousa Santos. Atualmente \u00e9 pesquisador da Fiocruz Cear\u00e1 e do N\u00facleo de Estudos em Sa\u00fade P\u00fablica \u2013 NESP da UnB. Tamb\u00e9m coordena o GT Sa\u00fade e Ambiente da Abrasco e o Observat\u00f3rio da Pol\u00edtica Nacional de Sa\u00fade Integral das Popula\u00e7\u00f5es do Campo, Floresta e das \u00c1guas \u2013 Teia de Saberes e Pr\u00e1ticas \u2013 OBTEIA.<\/p>\n<p>Carneiro estar\u00e1 nesta segunda-feira, dia 24 de Agosto, na Unisinos S\u00e3o Leopoldo, ministrando a palestra Agrot\u00f3xicos, ambiente e sustentabilidade, debatendo o filme O Veneno est\u00e1 na mesa e participando do Lan\u00e7amento do \u201cDossi\u00ea Abrasco: um alerta sobre os impactos dos agrot\u00f3xicos na sa\u00fade\u201d, durante o Semin\u00e1rio Agrot\u00f3xicos: Impactos na Sa\u00fade e no Ambiente, promovido pelo Instituto Humanitas Unisinos \u2013 IHU em parceria com o PPG em Sa\u00fade Coletiva da Unisinos.<\/p>\n<p>A entrevista foi publicada, originalmente, na revista IHU On-Line, no. 470.<\/p>\n<p>Confira a entrevista.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013<\/strong> Qual \u00e9 a import\u00e2ncia do debate sobre o uso de agrot\u00f3xicos?<\/p>\n<p><strong>Fernando Carneiro \u2013<\/strong> O debate sobre o uso de agrot\u00f3xicos \u00e9 emblem\u00e1tico, simb\u00f3lico para pensarmos o futuro do nosso pa\u00eds. Portanto, n\u00e3o \u00e9 um debate trivial, pois o agrot\u00f3xico \u00e9 a melhor express\u00e3o de um modelo de economia para o campo e para o pa\u00eds que tornou o Brasil o maior exportador de commodities do planeta e tamb\u00e9m o maior consumidor de agrot\u00f3xicos no mundo. Ent\u00e3o esse debate \u00e9 express\u00e3o e resultado dessa conjuntura.<\/p>\n<p>No m\u00eas de maio, por exemplo, mais de 50% de nossa pauta de exporta\u00e7\u00e3o foram os produtos prim\u00e1rios agr\u00edcolas. Essareprimariza\u00e7\u00e3o da economia, onde exportamos bens prim\u00e1rios com valor agregado para a manufatura da ind\u00fastria, teve seu ciclo de prosperidade, principalmente, durante o governo Lula, mas agora tamb\u00e9m boa parte dessa crise econ\u00f4mica de 2015 \u00e9 um sinal do esgotamento desse modelo.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o o agrot\u00f3xico, ao mesmo tempo que \u00e9 uma express\u00e3o desse modelo baseado na revolu\u00e7\u00e3o verde, mecaniza\u00e7\u00e3o no latif\u00fandio, na concentra\u00e7\u00e3o da terra, est\u00e1 dando mostras de que n\u00e3o \u00e9 sustent\u00e1vel para o desenvolvimento do pa\u00eds. Ao sabor de qualquer crise internacional, abala-se a produ\u00e7\u00e3o da economia, al\u00e9m de ser um modelo que contamina as pessoas e o meio ambiente. Essa conta nunca \u00e9 mostrada para a sociedade, \u00e9 uma conta que est\u00e1 escondida e \u00e9 pouco estudada pela academia. Com o interesse de salvar esse modelo, o que se faz hoje, a exemplo do Legislativo e do Executivo, \u00e9 maximizar tal modelo, e n\u00e3o buscar alternativas, como a agroecologia, que se baseia na biodiversidade, ancorada num pensamento de futuro sustent\u00e1vel de pa\u00eds.<\/p>\n<p>Toda essa discuss\u00e3o sobre os agrot\u00f3xicos nos leva a debater um projeto de futuro, a crise de investimento do pa\u00eds e a crise do modelo de desenvolvimento, com essa marca brasileira de maior exportador de commodities do planeta. Realmente n\u00e3o \u00e9 um assunto trivial, e \u00e9 de interesse de toda a popula\u00e7\u00e3o, tanto dos que vivem no campo quanto dos que vivem na cidade.<\/p>\n<p><strong>\u201cO agrot\u00f3xico \u00e9 a melhor express\u00e3o de um modelo de economia para o campo e para o pa\u00eds\u201d<\/strong><\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013<\/strong> Com que objetivo foi criado e qual \u00e9 o papel do Dossi\u00ea Abrasco nas discuss\u00f5es sobre o uso de agrot\u00f3xicos?<\/p>\n<p><strong>Fernando Carneiro \u2013<\/strong> A ideia do dossi\u00ea surge no final de 2011 justamente quando existia um total dom\u00ednio desse pensamento, que \u00e9 muito divulgado pela m\u00eddia, de que n\u00e3o h\u00e1 nada a fazer, de que temos de nos sujeitar ao modelo do agroneg\u00f3cio, da cultura de concentra\u00e7\u00e3o de terra, do uso de agrot\u00f3xicos, e de que n\u00e3o h\u00e1 outro caminho. Ent\u00e3o, quando se colocou isso de forma muito acentuada, tanto no plano acad\u00eamico quanto no plano do governo, no campo cient\u00edfico, n\u00f3s, enquanto pesquisadores de quest\u00f5es da sa\u00fade p\u00fablica, percebemos que era importante apresentarmos o ponto contradit\u00f3rio.<\/p>\n<p>Na ci\u00eancia se costumam fazer artigos cient\u00edficos, que muitas vezes s\u00e3o retalhos de pensamentos a partir dos quais n\u00e3o se tem condi\u00e7\u00f5es de fazer uma an\u00e1lise mais detalhada a respeito do tema. Ent\u00e3o nossa ideia, e acho que foi o diferencial do dossi\u00ea, foi reunir um grande grupo de cientistas e organiza\u00e7\u00f5es preocupados com estas quest\u00f5es e analisar o conhecimento dispon\u00edvel de maneira integrada. N\u00e3o negamos esse conhecimento, mas, por exemplo, ao analisarmos o Programa de An\u00e1lise de Res\u00edduos de Agrot\u00f3xicos em Alimentos \u2013 PARA [1] , identificamos cada composto qu\u00edmico encontrado e o que cada estudo dizia sobre tais elementos, que implica\u00e7\u00f5es teriam, e tudo isso foi discutido \u00e0 luz de um conselho plural.<\/p>\n<p>Durante o processo de discuss\u00f5es nesse conselho, vimos que tudo o que foi debatido era muita coisa para fecharmos o livro, ou em uma parte. Tamb\u00e9m identificamos diversos momentos pol\u00edticos muito importantes para o Brasil: o Congresso Mundial de Nutri\u00e7\u00e3o, no in\u00edcio do ano de 2012; no meio desse mesmo ano a C\u00fapula dos Povos [2] e a Rio+20 [3]; e no final o Congresso da Abrasco [4]. Assim, fomos lan\u00e7ando partes do dossi\u00ea de acordo com a tem\u00e1tica desses eventos. Ent\u00e3o a primeira parte foi ligada \u00e0 seguran\u00e7a nutricional. N\u00f3s nos surpreendemos com o impacto na m\u00eddia, na sociedade, e isso nos deu energia para continuar esse trabalho volunt\u00e1rio e militante. Na C\u00fapula dos Povos, tinha-se uma perspectiva de movimento e lan\u00e7amos a segunda parte: \u201cAgrot\u00f3xicos, sa\u00fade, ambiente e sustentabilidade\u201d, e no congresso da Abrasco, o maior da Am\u00e9rica Latina, discutimos a ecologia de saberes.<\/p>\n<p>Nesse momento, quando falamos de ecologia de saberes, trazemos n\u00e3o s\u00f3 o conceito cient\u00edfico, mas tamb\u00e9m os saberes dos movimentos sociais que lutam por um outro modelo de desenvolvimento. Essa \u00e9 uma outra grande novidade do dossi\u00ea. Ele n\u00e3o valoriza s\u00f3 o conhecimento cient\u00edfico, mas tamb\u00e9m os outros diversos saberes, como os oriundos das lutas desses povos pela sua sobreviv\u00eancia e por um outro modelo social. Isso nos fez inovar na forma e no conte\u00fado do dossi\u00ea. Os 45 autores, a grande maioria acad\u00eamicos, s\u00e3o tamb\u00e9m lutadores sociais com not\u00e1vel experi\u00eancia na tem\u00e1tica. Esse trabalho promove um di\u00e1logo de saberes que vai al\u00e9m da ci\u00eancia, complementando-a com outros olhares e ideias.<\/p>\n<p>Com os estudos realizados para a constru\u00e7\u00e3o do dossi\u00ea se concebe um ciclo onde n\u00e3o s\u00f3 \u00e9 denunciada a situa\u00e7\u00e3o do que est\u00e1 acontecendo no pa\u00eds, de forma qualificada, como tamb\u00e9m \u00e9 tratado um rol de alternativas e propostas no campo da agroecologia para superar os problemas. Posso dizer que essa \u00e9 a grande novidade do livro que est\u00e1 sendo lan\u00e7ado.<\/p>\n<p><strong>\u201cAo se tentar resolver um problema de sa\u00fade p\u00fablica, acaba criando outro\u201d<\/strong><\/p>\n<p><strong>IHU On-line \u2013<\/strong> Como est\u00e1 o trabalho de divulga\u00e7\u00e3o do Dossi\u00ea Abrasco?<\/p>\n<p><strong>Fernando Carneiro \u2013<\/strong> N\u00f3s j\u00e1 temos agendados pelo pa\u00eds mais de 30 lan\u00e7amentos, em v\u00e1rios locais, como universidades, encontros de estudantes, encontros cient\u00edficos, eventos no campo do cinema, e estamos nos desdobrando para atender a quantidade de solicita\u00e7\u00f5es de lan\u00e7amentos. Tamb\u00e9m estamos lan\u00e7ando o dossi\u00ea nos movimentos sociais, que o identificam como material de insumo para luta. Ent\u00e3o, estamos percebendo que o livro n\u00e3o est\u00e1 se direcionando s\u00f3 para a academia, mas tamb\u00e9m os movimentos sociais est\u00e3o o entendendo como uma ferramenta de luta e est\u00e3o lan\u00e7ando em seus congressos, sendo uma boa reflex\u00e3o para esses atores sociais. A m\u00eddia tamb\u00e9m tem nos procurado para fazer reportagens a partir do que leem no dossi\u00ea.<\/p>\n<p>A novidade agora \u00e9 que esse material est\u00e1 tendo uma boa recep\u00e7\u00e3o na Am\u00e9rica Latina. A nossa ideia \u00e9 de que isso tamb\u00e9m incentive movimentos de outros pa\u00edses a fazerem dossi\u00eas a partir das suas realidades. Estamos providenciando a tradu\u00e7\u00e3o do dossi\u00ea para o espanhol e vamos lan\u00e7\u00e1-lo no Congresso Latino-Americano de Agroecologia, da Sociedade Latino-Americana de Agroecologia \u2013 SOCLA, em outubro agora, na Argentina. Ent\u00e3o, vamos lan\u00e7ar em La Plata a vers\u00e3o em espanhol e acreditamos que seja um est\u00edmulo para que outros pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina tamb\u00e9m possam desenvolver seus dossi\u00eas nessa perspectiva cr\u00edtica e integrada, reunindo v\u00e1rios cientistas e movimentos sociais. A expectativa \u00e9 abrirmos uma frente de desdobramentos nessa regi\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013<\/strong> O senhor comentou que as pr\u00f3ximas etapas das pesquisas da Abrasco abordariam os eixos agrot\u00f3xicos urbanos e guerra qu\u00edmica contra popula\u00e7\u00f5es vulnerabilizadas. Em linhas gerais, de que tratam esses dois eixos e como est\u00e3o as pesquisas sobre esses desdobramentos?<\/p>\n<p><strong>Fernando Carneiro \u2013<\/strong> N\u00f3s ainda estamos nos organizando para isso, porque vai envolver muita dedica\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que \u00e9 um tema bastante pol\u00eamico. No caso dos agrot\u00f3xicos urbanos, o grande problema \u00e9 a quest\u00e3o da sa\u00fade, e n\u00f3s como milit\u00e2ncia da sa\u00fade coletiva vamos discutir um tema que vai envolver muitos conflitos, realmente um grande desafio. O que eu posso adiantar que n\u00f3s j\u00e1 estamos vendo como outra preocupa\u00e7\u00e3o \u00e9 a utiliza\u00e7\u00e3o, pelo Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, do Malatathion [5] para o combate \u00e0 dengue. Essa subst\u00e2ncia est\u00e1 sendo apontada como um prov\u00e1vel cancer\u00edgenohumano. Ent\u00e3o voc\u00ea imagina, o setor de sa\u00fade utilizando para controlar um problema de sa\u00fade p\u00fablica um veneno que pode causar c\u00e2ncer! O debate sobre esse assunto tem de entrar no m\u00e9rito da pr\u00f3pria l\u00f3gica do programa de controle da dengue no Brasil que, infelizmente, aposta nessas medidas.<\/p>\n<p>Sabemos que para algumas prefeituras a chegada do fumac\u00ea [6] \u00e9 uma coisa simb\u00f3lica, pois o veneno aparece e d\u00e1 uma ideia de efetividade da a\u00e7\u00e3o do Estado. Mas, para se ter uma ideia, para o fumac\u00ea matar um mosquito alado, a got\u00edcula do veneno tem que entrar em contato com esse mosquito. Ent\u00e3o \u00e9 um m\u00e9todo muito ineficaz, porque ele s\u00f3 atinge formas aladas, ou seja, aqueles que est\u00e3o voando, e as que est\u00e3o em outros locais n\u00e3o s\u00e3o atingidas, e ainda muitas vezes n\u00e3o tem calibra\u00e7\u00e3o adequada, etc. Sabemos tamb\u00e9m que a dengue \u00e9 uma doen\u00e7a que tem uma determina\u00e7\u00e3o socioambiental muito importante, por isso \u00e9 preciso atuar de forma integrada, por exemplo, atingindo os criadouros, e observando a quest\u00e3o da reserva de \u00e1gua em tempos de crise h\u00eddrica. Dessa forma, h\u00e1 uma s\u00e9rie de desafios e n\u00e3o podemos nos resumir a implantar uma estrat\u00e9gia que a cada dia se mostra mais ineficaz.<\/p>\n<p>A nossa cr\u00edtica est\u00e1 muito voltada a isto: ao se tentar resolver um problema de sa\u00fade p\u00fablica, acaba criando outro. Ent\u00e3o n\u00f3s vamos incorporar mais pesquisadores com conhecimento sobre o tema, buscando identificar estudos que tenham avaliado esse problema, para contribuir para um debate visando um aprimoramento do programa de controle da dengue, que a pr\u00f3pria sa\u00fade p\u00fablica n\u00e3o d\u00e1 uma linha.<\/p>\n<p><strong>\u201cA praga \u00e9 uma inven\u00e7\u00e3o do homem, porque em fun\u00e7\u00e3o dos desequil\u00edbrios naturais ela encontra terreno f\u00e9rtil para se reproduzir\u201d<\/strong><\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013<\/strong> De que se trata em linhas gerais especificamente a parte \u201cAgrot\u00f3xicos, ambiente e sustentabilidade\u201d, que o senhor vai abordar no semin\u00e1rio do IHU?<\/p>\n<p><strong>Fernando Carneiro \u2013<\/strong> Vou trabalhar principalmente a discuss\u00e3o do impacto sobre os ecossistemas e as rela\u00e7\u00f5es que isso tem com o atual modelo de desenvolvimento brasileiro para a agricultura, al\u00e9m da quest\u00e3o da Sustentabilidade, uma palavra muito utilizada hoje.<\/p>\n<p>Esse processo de busca de lucro r\u00e1pido, entre outras coisas, gerou um capitalista mais inteligente, que tem visto que seu pr\u00f3prio lucro n\u00e3o traz dinheiro, porque quando ele est\u00e1 exportando o produto dele, tamb\u00e9m est\u00e1 exportando \u00e1gua, solo, etc. Assim, os meios de produ\u00e7\u00e3o est\u00e3o se exaurindo, o que vai dificultando a pr\u00f3pria reprodu\u00e7\u00e3o desses produtos nessa l\u00f3gica de organiza\u00e7\u00e3o. Esse modelo est\u00e1 chegando ao seu limite, e h\u00e1 um reconhecimento da pr\u00f3pria Embrapa [7] sobre isso. Recentemente a Embrapa est\u00e1 reavaliando a gest\u00e3o das t\u00e9cnicas de aprimoramento das grandes monoculturas, e est\u00e1 vendo que \u00e9 importante diversificar a produ\u00e7\u00e3o de forma a reutilizar a terra horizontalmente e tamb\u00e9m trabalhar verticalmente, ou seja, trabalhar com as florestas, e planta\u00e7\u00f5es consorciadas [8]. Assim se diminui a possibilidade do que se batiza de pragas, que nada mais s\u00e3o do que insetos que s\u00e3o inimigos naturais que se reproduzem em grande escala. A praga \u00e9 uma inven\u00e7\u00e3o do homem, porque em fun\u00e7\u00e3o dos desequil\u00edbrios naturais ela encontra terreno f\u00e9rtil para se reproduzir.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o \u00e9 um tema que n\u00e3o est\u00e1 s\u00f3 no campo da contra-hegemonia, mas tamb\u00e9m se inscreve no debate da pr\u00f3pria sobreviv\u00eancia desse modelo. Tamb\u00e9m vou falar um pouco sobre os desafios do Plano Nacional de Agroecologia, doPrograma Nacional de Redu\u00e7\u00e3o de Agrot\u00f3xicos, que s\u00e3o pol\u00edticas recentes que ainda n\u00e3o se desenvolveram plenamente e que s\u00e3o fundamentais para que se transforme a realidade para que realmente possamos ter um pouco mais de sustentabilidade em nosso processo de produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola.<\/p>\n<p><strong>Notas<\/strong><\/p>\n[1] Programa de An\u00e1lise de Res\u00edduos de Agrot\u00f3xicos em Alimentos \u2013 PARA: foi iniciado em 2001 pela Anvisa, com o objetivo de avaliar continuamente os n\u00edveis de res\u00edduos de agrot\u00f3xicos nos alimentos de origem vegetal que chegam \u00e0 mesa do consumidor. O PARA \u00e9 coordenado pela Anvisa, que atua em conjunto com as Vigil\u00e2ncias Sanit\u00e1rias \u2013 VISA e com os Laborat\u00f3rios Centrais de Sa\u00fade P\u00fablica \u2013 Lacen. (Nota da IHU On-Line)<\/p>\n[2] C\u00fapula dos Povos: foi um evento paralelo \u00e0 Rio+20, organizado por entidades da sociedade civil e movimentos sociais de v\u00e1rios pa\u00edses. O evento aconteceu entre os dias 15 e 23 de junho de 2012 no Aterro do Flamengo, no Rio de Janeiro, com o objetivo de discutir as causas da crise socioambiental, apresentar solu\u00e7\u00f5es pr\u00e1ticas e fortalecer movimentos sociais do Brasil e do mundo. O grupo respons\u00e1vel pela organiza\u00e7\u00e3o da C\u00fapula dos Povos foi o Comit\u00ea Facilitador da Sociedade Civil Brasileira para a Rio+20 \u2013 CFSC. O comit\u00ea reuniu uma grande diversidade de organiza\u00e7\u00f5es brasileiras atuantes em v\u00e1rias \u00e1reas como direitos humanos, desenvolvimento, trabalho, meio ambiente e sustentabilidade. (Nota da IHU On-Line).<\/p>\n[3] Rio+20: a Confer\u00eancia das Na\u00e7\u00f5es Unidas sobre Desenvolvimento Sustent\u00e1vel \u2013 CNUDS, conhecida tamb\u00e9m como Rio+20, foi uma confer\u00eancia realizada entre os dias 13 e 22 de junho de 2012 no Rio de Janeiro, cujo objetivo era discutir a renova\u00e7\u00e3o do compromisso pol\u00edtico com o desenvolvimento sustent\u00e1vel. Considerado o maior evento j\u00e1 realizado pelas Na\u00e7\u00f5es Unidas, a Rio+20 contou com a participa\u00e7\u00e3o de chefes de estados de 190 na\u00e7\u00f5es que propuseram mudan\u00e7as, sobretudo no modo como est\u00e3o sendo usados os recursos naturais do planeta. Al\u00e9m de quest\u00f5es ambientais, foram discutidos, durante a CNUDS, aspectos relacionados a quest\u00f5es sociais como a falta de moradia e outros. (Nota da IHU On-Line).<\/p>\n[4] Congresso da ABRASCO: o Congresso Brasileiro de Sa\u00fade Coletiva \u00e9 considerado um dos mais importantes f\u00f3runs cient\u00edficos da \u00e1rea em todo o mundo. Participam do evento milhares de sanitaristas, epidemiologistas, cientistas pol\u00edticos, cientistas sociais, comunicadores, especialistas em pol\u00edticas p\u00fablicas, profissionais e trabalhadores da sa\u00fade, gestores e t\u00e9cnicos da sa\u00fade, al\u00e9m de militantes de movimentos sociais e de entidades da sociedade civil atuantes na \u00e1rea da sa\u00fade. O congresso, que tamb\u00e9m \u00e9 conhecido como Abrasc\u00e3o, acontece a cada tr\u00eas anos e sedia a Assembleia Geral da entidade, que define sua nova diretoria e conselho. (Nota da IHU On-Line)<\/p>\n[5] Malatathion: \u00e9 um inseticida inibidor da acetilcolinesterase, que n\u00e3o existe naturalmente. Em estado puro \u00e9 um l\u00edquido incolor. Requer assessoria profissional para o uso contra insetos em explora\u00e7\u00f5es agr\u00edcolas e em jardins, para tratar piolhos na cabe\u00e7a de seres humanos e para tratar pulgas em animais dom\u00e9sticos. Usa-se tamb\u00e9m para matar mosquitos e a mosca da fruta, em extensas \u00e1reas ao ar livre. (Nota da IHU On-Line)<\/p>\n[6] Fumac\u00ea: t\u00e9cnica de combate de pragas urbanas, como o mosquito da dengue, a partir da pulveriza\u00e7\u00e3o de inseticidas ao ar livre. (Nota da IHU On-Line)<\/p>\n[7] Embrapa: a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecu\u00e1ria \u00e9 uma institui\u00e7\u00e3o p\u00fablica de pesquisa vinculada ao Minist\u00e9rio da Agricultura, Pecu\u00e1ria e Abastecimento do Brasil. Criada em 26 de abril de 1973, tem como objetivo o desenvolvimento de tecnologias, conhecimentos e informa\u00e7\u00f5es t\u00e9cnico-cient\u00edficas voltadas para a agricultura e a pecu\u00e1ria brasileira. (Nota da IHU On-Line)<\/p>\n[8] Cultivo de plantas em cons\u00f3rcios: \u00e9 praticado h\u00e1 s\u00e9culos, sobretudo por pequenos produtores das regi\u00f5es tropicais, na tentativa de obter o m\u00e1ximo de benef\u00edcios dos recursos dispon\u00edveis. O cons\u00f3rcio de culturas \u00e9 caracterizado pela maximiza\u00e7\u00e3o de espa\u00e7o mediante o cultivo simult\u00e2neo, num mesmo local, de duas ou mais esp\u00e9cies com diferentes caracter\u00edsticas quanto \u00e0 sua arquitetura vegetal, h\u00e1bitos de crescimento e fisiologia. As plantas podem ser semeadas ou plantadas ao mesmo tempo ou terem \u00e9poca de implanta\u00e7\u00e3o levemente defasada, mas compartilham dos mesmos recursos ambientais durante grande parte de seus ciclos de vida, fato que leva a forte interatividade entre as esp\u00e9cies consorciadas e entre elas e o ambiente. Essa t\u00e9cnica \u00e9 extremamente interessante especialmente quando se quer maximizar o aproveitamento da \u00e1gua dispon\u00edvel no solo ou do per\u00edodo chuvoso, tornando-se fundamental em regi\u00f5es do Brasil onde, ao longo do ano, ocorrem duas \u00e9pocas bem distintas, uma chuvosa e outra seca (que pode durar at\u00e9 6 meses). Compondo o Sistema Plantio Direto \u2013 SPD, a consorcia\u00e7\u00e3o de culturas, al\u00e9m de proporcionar uma s\u00e9rie de outros benef\u00edcios, como o aux\u00edlio no controle de plantas daninhas, promove excelente cobertura viva e morta do solo, durante o maior per\u00edodo de tempo poss\u00edvel.<\/p>\n<p>Fonte &#8211; Leslie Chaves, IHU \/ EcoDebate de 24 de agosto de 2015<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cO agrot\u00f3xico, ao mesmo tempo que \u00e9 uma express\u00e3o desse modelo baseado na revolu\u00e7\u00e3o verde, mecaniza\u00e7\u00e3o no latif\u00fandio, na concentra\u00e7\u00e3o da terra, est\u00e1 dando mostras de que n\u00e3o \u00e9 sustent\u00e1vel para o desenvolvimento do pa\u00eds\u201d adverte o pesquisador. 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