{"id":14879,"date":"2015-08-26T14:00:43","date_gmt":"2015-08-26T17:00:43","guid":{"rendered":"http:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/?p=14879"},"modified":"2015-08-26T13:25:53","modified_gmt":"2015-08-26T16:25:53","slug":"infancia-acima-do-peso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/infancia-acima-do-peso\/","title":{"rendered":"Inf\u00e2ncia acima do peso"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/farm6.staticflickr.com\/5631\/20709902778_05e368f235_o.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p>N\u00edveis de obesidade infantil no Brasil n\u00e3o param de subir, encostam nos n\u00fameros dos EUA e colocam a sa\u00fade de nossas crian\u00e7as em risco. Excesso de influ\u00eancia da ind\u00fastria de alimentos nas pol\u00edticas de governo \u00e9 obst\u00e1culo para frear avan\u00e7o<\/p>\n<p>J\u00e1 faz tempo que a obesidade deixou de ser apenas um problema de &#8220;pa\u00edses ricos&#8221; e tornou-se uma epidemia global. Mais recentemente, essa mesma &#8220;globaliza\u00e7\u00e3o&#8221; aconteceu especificamente com a obesidade infantil, inclusive no Brasil. Por aqui, uma em cada tr\u00eas crian\u00e7as j\u00e1 est\u00e1 acima do peso.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, se nos Estados Unidos, por exemplo, a preval\u00eancia de obesidade infantil \u00e9 ligeiramente maior (34,2%) do que a registrada no Brasil, a tend\u00eancia de alta j\u00e1 parece controlada por l\u00e1, segundo levantamento mais recente, de 2012. No Brasil, ao contr\u00e1rio, o crescimento ainda se mostra fora de controle (veja gr\u00e1fico da pr\u00f3xima p\u00e1gina).<\/p>\n<p>Nas \u00faltimas tr\u00eas d\u00e9cadas, o total de crian\u00e7as brasileiras acima do peso passou de cerca de 9% na d\u00e9cada de 70 para aproximadamente 13% nos anos 80, e deu um enorme salto para 33,5% em 2009, quando foi realizado o \u00faltimo levantamento sobre o tema \u2013 a Pesquisa de Or\u00e7amentos Familiares (POF), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE).<\/p>\n<p>Mas o que levou a um aumento t\u00e3o intenso nesse per\u00edodo? Em primeiro lugar, \u00e9 preciso entender que a obesidade \u00e9 uma doen\u00e7a multifatorial, isto \u00e9, \u00e9 causada pela somat\u00f3ria de diversos fatores simult\u00e2neos. Assim, uma das grandes causas \u00e9 a mudan\u00e7a no padr\u00e3o de alimenta\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o brasileira. &#8220;Trata-se da substitui\u00e7\u00e3o de refei\u00e7\u00f5es e comidas feitas com alimentos frescos ou pouco processados por produtos ultraprocessados, como refrigerantes, salgadinhos, biscoitos e macarr\u00e3o instant\u00e2neo&#8221;, explica a nutricionista e pesquisadora do Idec, Ana Paula Bortoletto.<\/p>\n<p>Ela comenta ainda que, no caso espec\u00edfico das crian\u00e7as, a baixa dura\u00e7\u00e3o do aleitamento materno exclusivo agrava o problema. O leite materno tem propriedades que &#8220;protegem&#8221; a crian\u00e7a de se tornar obesa, devendo ser estimulado, no m\u00ednimo, at\u00e9 os seis meses de idade. A m\u00e9dia nacional, contudo, mal chega aos dois meses.<\/p>\n<p>A nutricionista Clarissa Fujiwara, coordenadora da Liga de Obesidade Infantil do Hospital das Cl\u00ednicas da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP), enfatiza tamb\u00e9m fatores do cotidiano. &#8220;Nos centros urbanos, a jornada de trabalho dos pais e a locomo\u00e7\u00e3o encurtam o tempo dispon\u00edvel para o preparo de refei\u00e7\u00f5es. E o decrescente est\u00edmulo \u00e0 atividade f\u00edsica, determinado pelo maior &#8216;tempo de tela&#8217; \u2013 televis\u00e3o, computador, videogame, celulares e tablets \u2013, \u00e9 somado \u00e0 escassez de espa\u00e7os p\u00fablicos que permitam \u00e0 crian\u00e7a brincar e se exercitar&#8221;, aponta.<\/p>\n<p><strong>Na telinha e fora dela<\/strong><\/p>\n<p>Ao falar em &#8220;tela&#8221;, chega-se a outro ponto fundamental por tr\u00e1s do aumento assustador da obesidade infantil: a propaganda de alimentos direcionada \u00e0s crian\u00e7as. Seja na TV, seja nos pr\u00f3prios r\u00f3tulos dos produtos, as t\u00e9cnicas s\u00e3o diversas. Pesquisa realizada pelo Idec identificou em supermercados alguns dos principais recursos usados pelos fabricantes em embalagens: excesso de cores chamativas, como azul e vermelho, uso de personagens do universo infantil, al\u00e9m de alega\u00e7\u00e3o de enriquecimento com algum nutriente, como &#8220;fonte de vitaminas&#8221; ou &#8220;fonte de energia&#8221;, o que pode levar os pais a acreditar que o produto \u00e9 mais saud\u00e1vel do que realmente \u00e9.<\/p>\n<p>De acordo com Michele Lessa, coordenadora de Alimenta\u00e7\u00e3o e Nutri\u00e7\u00e3o do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, h\u00e1 uma preocupa\u00e7\u00e3o da pasta em aprimorar o uso dessas alega\u00e7\u00f5es nos produtos industrializados para evitar confus\u00e3o entre os consumidores. &#8220;No ano passado, foi lan\u00e7ado um refrigerante fortificado com vitaminas, o que \u00e9 totalmente indesej\u00e1vel e injustific\u00e1vel do ponto de vista de sa\u00fade p\u00fablica&#8221;, comenta.<\/p>\n<p>Segundo Ekaterine Karageorgiadis, advogada do Instituto Alana, pesquisas j\u00e1 estabeleceram a rela\u00e7\u00e3o entre publicidade direcionada \u00e0s crian\u00e7as e obesidade infantil. &#8220;Associar lanches a brinquedos colecion\u00e1veis e de personagens conhecidos, por exemplo, aumenta o consumo desses produtos. A consequ\u00eancia \u00e9 a fideliza\u00e7\u00e3o da crian\u00e7a \u00e0s marcas e o est\u00edmulo excessivo e habitual desses produtos desde muito novas, que \u00e9 um dos fatores da obesidade infantil e das doen\u00e7as associadas&#8221;, diz.<\/p>\n<p>A especialista informa que esse tipo de publicidade viola, a um s\u00f3 tempo, a Constitui\u00e7\u00e3o, o Estatuto da Crian\u00e7a e do Adolescente, a Resolu\u00e7\u00e3o 163 do Conselho Nacional dos Direitos da Crian\u00e7a e do Adolescente (Conanda) e o C\u00f3digo de Defesa do Consumidor, que pro\u00edbe qualquer tipo de publicidade abusiva.<\/p>\n<p>Como explica Vanessa Anacleto, cofundadora do Movimento Inf\u00e2ncia Livre de Consumismo, toda e qualquer publicidade que dialoga diretamente com a crian\u00e7a \u00e9 abusiva e, portanto, ilegal. &#8220;A crian\u00e7a n\u00e3o tem condi\u00e7\u00f5es de defender-se do discurso do anunciante. Esta \u00e9 tarefa dos adultos, por isso a publicidade desses produtos deve ser voltada para os pais&#8221;, argumenta.<\/p>\n<p><strong>Impactos na sa\u00fade<\/strong><\/p>\n<p>O peso excessivo na inf\u00e2ncia, se n\u00e3o tratado, \u00e9 uma porta de entrada para a obesidade para o resto da vida. &#8220;Estima-se que aproximadamente 30% dos adultos com obesidade tamb\u00e9m foram obesos na inf\u00e2ncia&#8221;, afirma Fujiwara. A conviv\u00eancia com a obesidade aumenta o risco de desenvolver doen\u00e7as como diabetes, press\u00e3o alta e colesterol alterado. Esses tr\u00eas problemas, por sua vez, elevam as chances de doen\u00e7as do cora\u00e7\u00e3o, como infarto, e da circula\u00e7\u00e3o, como acidente vascular cerebral (AVC), que podem ser fatais.<\/p>\n<p>No caso de uma crian\u00e7a, o maior problema est\u00e1 no tempo estendido de exposi\u00e7\u00e3o \u00e0 obesidade. &#8220;Quanto mais tempo o indiv\u00edduo se mant\u00e9m obeso, maior a probabilidade de manifesta\u00e7\u00e3o das comorbidades&#8221;, explica a especialista.<\/p>\n<p>E o risco n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 no futuro: s\u00e3o cada vez mais frequentes casos de crian\u00e7as que desenvolvem essas complica\u00e7\u00f5es j\u00e1 durante a inf\u00e2ncia. &#8220;N\u00e3o \u00e9 incomum nos servi\u00e7os de sa\u00fade que crian\u00e7as e adolescentes necessitem de medicamentos n\u00e3o s\u00f3 para obesidade, mas tamb\u00e9m para controle das comorbidades [diabetes, hipertens\u00e3o e colesterol]&#8221;, diz a nutricionista do HC.<\/p>\n<p><strong>Problema de sa\u00fade<\/strong><\/p>\n<p>\u2022 Cerca de 30% dos adultos obesos j\u00e1 tinham excesso de peso na inf\u00e2ncia.<br \/>\n\u2022 A crian\u00e7a obesa fica mais tempo &#8220;exposta&#8221; \u00e0 obesidade e, por isso, tem mais risco de desenvolver comorbidades.<br \/>\n\u2022 A obesidade aumenta o risco de diabetes, press\u00e3o alta, colesterol alterado, entre outras doen\u00e7as.<br \/>\n\u2022 S\u00e3o cada vez mais frequentes casos de crian\u00e7as que desenvolvem complica\u00e7\u00f5es de sa\u00fade ainda na inf\u00e2ncia.<\/p>\n<p><strong>H\u00e1bitos alimentares<\/strong><\/p>\n<p>Tanto para tratar a obesidade infantil quanto para preveni-la, n\u00e3o resta d\u00favida de que \u00e9 necess\u00e1rio formar um h\u00e1bito alimentar saud\u00e1vel o mais cedo poss\u00edvel. Para isso, os pais devem ter um olhar atento sobre a alimenta\u00e7\u00e3o da crian\u00e7a. Como regra de ouro, de acordo com o atual Guia Alimentar \u00e0 Popula\u00e7\u00e3o Brasileira, elaborado pelo Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, deve-se sempre preferir alimentos frescos, ou pouco processados, aos &#8220;ultraprocessados&#8221;.<\/p>\n<p>Como saber, na pr\u00e1tica, se o alimento \u00e9 ou n\u00e3o excessivamente processado? Uma dica da pesquisadora do Idec \u00e9 ler a lista de ingredientes na embalagem. &#8220;Se a lista for muito grande [cinco ou mais ingredientes], com nomes que n\u00e3o conhece, evite comprar esses produtos&#8221;, recomenda Bortoletto. Esses nomes desconhecidos, muitas vezes, se referem a conservantes e aditivos, muitos deles ricos em s\u00f3dio.<\/p>\n<p>Outra dica \u00e9 atentar \u00e0 ordem da lista de ingredientes, apresentada de acordo com a quantidade adicionada no produto. Ou seja, o primeiro ingrediente da lista \u00e9 sempre o mais abundante. Assim, fuja de alimentos cujas listas comecem com a\u00e7\u00facar, xarope de glicose ou de milho, por exemplo.<\/p>\n<p>Bons h\u00e1bitos de alimenta\u00e7\u00e3o exigem um paladar acostumado aos alimentos saud\u00e1veis. Fujiwara explica que o contato precoce e intensivo com industrializados durante a inf\u00e2ncia impacta negativamente na constru\u00e7\u00e3o de h\u00e1bitos que podem durar at\u00e9 a adolesc\u00eancia e a idade adulta. &#8220;Especialmente produtos com elevada quantidade de a\u00e7\u00facar \u2013 refrigerantes, sucos artificiais em p\u00f3, achocolatados \u2013 condicionam o paladar a sabores demasiadamente doces.&#8221; O mesmo vale para o s\u00f3dio e o sabor salgado, de acordo com a nutricionista.<\/p>\n<p><strong>Pol\u00edticas p\u00fablicas<\/strong><\/p>\n<p>Al\u00e9m de todo esfor\u00e7o e boa vontade dos pais, \u00e9 necess\u00e1rio um ambiente na sociedade que favore\u00e7a a promo\u00e7\u00e3o da alimenta\u00e7\u00e3o saud\u00e1vel. Para isso, algumas pol\u00edticas p\u00fablicas t\u00eam sido pensadas \u2013 mas nem todas v\u00eam sendo postas em pr\u00e1tica com sucesso.<\/p>\n<p>O Programa Nacional de Alimenta\u00e7\u00e3o Escolar (PNAE), por exemplo, estabelece que 30% das compras de alimenta\u00e7\u00e3o escolar sejam provenientes da agricultura familiar e, portanto, livres de produtos processados. &#8220;Essa exig\u00eancia representa o maior avan\u00e7o das pol\u00edticas p\u00fablicas em alimenta\u00e7\u00e3o e nutri\u00e7\u00e3o dos \u00faltimos anos. Por\u00e9m, nem todos os munic\u00edpios est\u00e3o conseguindo cumprir o m\u00ednimo&#8221;, lamenta a nutricionista do Idec. Ela acrescenta que, nas escolas, ainda \u00e9 poss\u00edvel fazer mais. &#8220;Garantir estrutura adequada para o preparo de refei\u00e7\u00f5es saud\u00e1veis, al\u00e9m de estabelecer regras para a venda de alimentos em cantinas, proibir qualquer tipo de publicidade infantil e incluir educa\u00e7\u00e3o nutricional no curr\u00edculo escolar s\u00e3o alguns exemplos.&#8221;<\/p>\n<p>Medidas de regula\u00e7\u00e3o de alimentos ainda esbarram em dificuldades. H\u00e1 um grupo de trabalho na Ag\u00eancia Nacional de Vigil\u00e2ncia Sanit\u00e1ria (Anvisa), do qual o Idec participa, sobre revis\u00e3o das normas de rotulagem de alimentos \u2013 que poderia, por exemplo, obrigar a discrimina\u00e7\u00e3o da quantidade de a\u00e7\u00facar, hoje facultativa e raramente informada no r\u00f3tulo. &#8220;A dificuldade \u00e9 que as normas s\u00e3o harmonizadas com os pa\u00edses do Mercosul, o que torna o processo muito lento&#8221;, afirma Bortoletto.<\/p>\n<p>A pesquisadora ressalva, no entanto, que nenhuma pol\u00edtica ser\u00e1 efetiva se o governo brasileiro n\u00e3o se dispuser a enfrentar os interesses das grandes transnacionais de alimentos. &#8220;A ind\u00fastria de alimentos est\u00e1 usando as mesmas t\u00e1ticas da ind\u00fastria do tabaco para frear o avan\u00e7o das pol\u00edticas de alimenta\u00e7\u00e3o e nutri\u00e7\u00e3o&#8221;, diz.<\/p>\n<p>O relat\u00f3rio anual de 2014 da Associa\u00e7\u00e3o Brasileira das Ind\u00fastrias de Alimentos (Abia), por exemplo, lista entre as &#8220;realiza\u00e7\u00f5es&#8221; da entidade o lobby junto a parlamentares, que resultou no arquivamento de diversos projetos de lei de regula\u00e7\u00e3o de alimentos no Congresso; junto ao Executivo, influenciando grupos de trabalho do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade de acordo com os interesses da ind\u00fastria; e atua\u00e7\u00e3o no Judici\u00e1rio, derrubando, por exemplo, resolu\u00e7\u00e3o da Anvisa que disciplinava publicidade de alimentos.<\/p>\n<p>Segundo Lessa, do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, medidas de prote\u00e7\u00e3o \u00e0 crian\u00e7a \u2013 como a regulamenta\u00e7\u00e3o da publicidade de alimentos dirigida ao p\u00fablico infantil, a regulamenta\u00e7\u00e3o de cantinas escolares e a taxa\u00e7\u00e3o de alimentos ultraprocessados \u2013 est\u00e3o sendo discutidas pelo governo e pela sociedade civil. &#8220;A mobiliza\u00e7\u00e3o da sociedade para debater esses temas \u00e9 de suma import\u00e2ncia para avan\u00e7armos nesse sentido&#8221;, afirma.<\/p>\n<div class=\"issuuembed\" style=\"width: 610px; height: 410px;\" data-configid=\"4622892\/15017459\"><\/div>\n<p><script src=\"\/\/e.issuu.com\/embed.js\" async=\"true\" type=\"text\/javascript\"><\/script><\/p>\n<p>Fonte &#8211; Revista do Idec de agosto de 2015<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00edveis de obesidade infantil no Brasil n\u00e3o param de subir, encostam nos n\u00fameros dos EUA e colocam a sa\u00fade de nossas crian\u00e7as em risco. 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