{"id":14894,"date":"2015-08-28T14:00:02","date_gmt":"2015-08-28T17:00:02","guid":{"rendered":"http:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/?p=14894"},"modified":"2015-08-28T13:57:48","modified_gmt":"2015-08-28T16:57:48","slug":"sp-nao-ha-garantia-alguma-de-que-teremos-agua-em-janeiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/sp-nao-ha-garantia-alguma-de-que-teremos-agua-em-janeiro\/","title":{"rendered":"SP: \u2018N\u00e3o h\u00e1 garantia alguma de que teremos \u00e1gua em janeiro\u2019"},"content":{"rendered":"<p>A crise no abastecimento de \u00e1gua em S\u00e3o Paulo continua bastante s\u00e9ria, ainda que menos propalada. Para recolocar o assunto em pauta, o Correio da Cidadania entrevistou Marzeni Pereira, ex-tecn\u00f3logo da Sabesp, justamente poucas horas depois de fazer a homologa\u00e7\u00e3o de sua demiss\u00e3o. Em sua vis\u00e3o, <strong>a empresa tem condi\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas de sobra, mas sua orienta\u00e7\u00e3o ainda voltada aos lucros privados<\/strong> faz prevalecer, com anu\u00eancia do governo, o que considera pol\u00edticas \u201cirrespons\u00e1veis\u201d.<\/p>\n<p><strong>\u201cApesar de n\u00e3o ter aumentado os mananciais, n\u00e3o ter reduzido perda e n\u00e3o ter estimulado o reuso, a Sabesp teve uma pol\u00edtica de aumentar a venda de \u00e1gua. Aqui est\u00e1 o problema: a curva de demanda ultrapassou a curva de oferta de \u00e1gua. Os mananciais n\u00e3o suportaram por causa disso. Qualquer estiagem um pouco mais prolongada provocaria \u2013 e se n\u00e3o fosse agora, seria um pouco mais para frente \u2013 a falta de \u00e1gua em S\u00e3o Paulo, em fun\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica de expans\u00e3o da venda de \u00e1gua\u201d.<\/strong><\/p>\n<p>Marzeni Pereira ainda discutiu uma s\u00e9rie de quest\u00f5es pertinentes \u00e0 crise, como a coniv\u00eancia dos meios de comunica\u00e7\u00e3o comerciais e a forma como os interesses eleitorais do governo do estado se colocaram acima da emerg\u00eancia de se debater a crise. Al\u00e9m disso, elenca outros interesses, t\u00edpicos das cartilhas neoliberais, que tomaram conta da agenda de todos os governos e impedem um melhor tratamento dos problemas.<\/p>\n<p><strong>\u201cN\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel estarmos em pleno s\u00e9culo 21 e termos perdas de 30%<\/strong>. Para isso, precisamos acabar com a terceiriza\u00e7\u00e3o no assentamento das redes de \u00e1gua e nas liga\u00e7\u00f5es entre os sistemas. Tamb\u00e9m<strong> \u00e9 necess\u00e1rio que a Sabesp rompa com o cartel das empresas que vendem os materiais com os quais se constroem as redes, por exemplo, os fabricantes de PVC e Ferro Fundido\u201d,<\/strong> criticou.<\/p>\n<p>A entrevista completa com Marzeni Pereira pode ser lida a seguir.<\/p>\n<p><strong>Correio da Cidadania:<\/strong> Segundo dados divulgados, pela primeira vez em 31 dias os n\u00edveis da Cantareira subiram \u2013 ainda que somente 0,1% \u2013 entre domingo e segunda-feira da semana passada, atingindo cerca de 19% da capacidade de armazenamento da represa. O que isso representa?<\/p>\n<p><strong>Marzeni Pereira:<\/strong> <strong>Houve uma estabiliza\u00e7\u00e3o, n\u00e3o um aumento. Aumentou 0,1% e agora caiu novamente. Est\u00e1 em 18,8%, s\u00f3 que esse n\u00famero representa um \u00edndice 10,5% negativo. Estamos usando, na verdade, 10,5% do volume morto. Ainda h\u00e1 outro problema: possivelmente, j\u00e1 entraremos na segunda parcela do volume morto. No m\u00eas de julho do ano passado, come\u00e7amos a primeira parcela. Neste ano, corremos o risco de come\u00e7ar o m\u00eas de agosto utilizando a segunda parcela.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Correio da Cidadania:<\/strong> O que avalia da atual situa\u00e7\u00e3o do abastecimento de \u00e1gua, lembrando que muitos especialistas previram situa\u00e7\u00f5es bem complicadas para esse est\u00e1gio do ano, e tamb\u00e9m j\u00e1 projetando o ver\u00e3o?<\/p>\n<p><strong>Marzeni Pereira:<\/strong> Levando em conta a resposta anterior, ainda h\u00e1 dois agravantes. Temos menos \u00e1gua este ano do que no ano passado. Agora, temos cerca de 90% da \u00e1gua que t\u00ednhamos h\u00e1 um ano atr\u00e1s. Outro problema \u00e9 que nesse momento os len\u00e7\u00f3is fre\u00e1ticos est\u00e3o mais baixos do que no passado. Com menos \u00e1gua nas represas e nos rios, h\u00e1 um rebaixamento do len\u00e7ol fre\u00e1tico. Isso provoca o que chamam <strong>\u201cefeito esponja\u201d. Ou seja, qualquer chuva que caia, ao inv\u00e9s de escorrer e encher os rios e represas, acaba infiltrando e recarregando o len\u00e7ol.<\/strong><\/p>\n<p>Isso \u00e9 um problema, pois <strong>n\u00e3o sabemos quando vai chover. Se as chuvas se atrasarem novamente, como aconteceu entre 2014 e 2015 (quando s\u00f3 choveu para valer entre fevereiro e mar\u00e7o de 2015), teremos grandes problemas e possivelmente n\u00e3o teremos \u00e1gua at\u00e9 fevereiro. N\u00e3o h\u00e1 nenhuma garantia de que teremos \u00e1gua em janeiro, por exemplo. Se n\u00e3o chover, como choveu entre 2013 e 2014, vamos entrar em um estado de cat\u00e1strofe aqui em S\u00e3o Paulo. N\u00e3o est\u00e1 descartado o colapso do abastecimento. Estamos muito pior do que nos dois \u00faltimos anos.<\/strong><\/p>\n<p>Existe apenas um fator favor\u00e1vel em compara\u00e7\u00e3o aos outros per\u00edodos: o consumo. Entre 2014 e 2015, o consumo, em fun\u00e7\u00e3o da estrat\u00e9gia do governo estadual para ganhar as elei\u00e7\u00f5es \u2013 pois n\u00e3o quis divulgar a falta de \u00e1gua e afetar sua agenda eleitoral \u2013 estava maior do que agora. Tanto que est\u00e1vamos fornecendo por volta de 65 mil litros por segundo, de todos os sistemas. Hoje, tiramos cerca de 55 mil litros. Ou seja, mais ou menos 16% de diferen\u00e7a.<\/p>\n<p>O consumo do Cantareira, por exemplo, nesse mesmo per\u00edodo no ano passado, estava pr\u00f3ximo dos 25 mil litros por segundo. Agora, estamos em torno de 15 mil litros. Atualmente, a quantidade de \u00e1gua geral \u00e9 menor do que no ano passado, alguns reservat\u00f3rios t\u00eam mais \u00e1gua do que no ano passado, s\u00f3 que todos eles s\u00e3o reservat\u00f3rios pequenos em rela\u00e7\u00e3o ao Cantareira e ao Alto Tiet\u00ea. Nosso maior reservat\u00f3rio \u00e9 o Cantareira, seu volume morto \u00e9 quase tr\u00eas vezes maior do que a totalidade do Guarapiranga. O pessoal acha que o Guarapiranga hoje tem mais \u00e1gua, mas n\u00e3o. Hoje, \u00e9 no sistema Cantareira que h\u00e1 mais \u00e1gua, apesar de estar no volume morto.<\/p>\n<p><strong>Correio da Cidadania:<\/strong> O que pensa dos descontos feitos para a ind\u00fastria? Afetaram, ou ainda podem afetar, a qualidade de vida da popula\u00e7\u00e3o ou os considera justific\u00e1veis?<\/p>\n<p><strong>Marzeni Pereira:<\/strong> Precisamos ponderar essa quest\u00e3o dos descontos para a ind\u00fastria. Isso foi uma pol\u00edtica adotada pela Sabesp em uma \u00e9poca que sua dire\u00e7\u00e3o considerava haver um concorrente: os po\u00e7os, muito utilizados pela ind\u00fastria. A Sabesp decidiu ir atr\u00e1s desses grandes consumidores que tinham po\u00e7os de abastecimento alternativo e fez a proposta para que comprassem \u00e1gua dela e n\u00e3o a tirassem dos po\u00e7os. Foi uma pol\u00edtica implementada com muita ferocidade e urg\u00eancia, no per\u00edodo em que Gesner Oliveira foi presidente da Sabesp, entre 2007 e 2010.<\/p>\n<p>Esse processo \u00e9 chamado de contrato de demanda firme e privilegia quem gasta muito. Foi feito com a inten\u00e7\u00e3o de que tais consumidores n\u00e3o usem mais os po\u00e7os. Do meu ponto de vista, \u00e9 um absurdo oferecer descontos para que um grande consumidor utilize toda essa \u00e1gua pot\u00e1vel para fins n\u00e3o pot\u00e1veis. \u00c9 uma pol\u00edtica que a Sabesp vem adotando durante o per\u00edodo que chamamos neoliberal.<\/p>\n<p><strong>Considero errada a pol\u00edtica de aumentar a oferta e vender \u00e1gua a qualquer custo.<\/strong> Se considerarmos o universo do consumo de S\u00e3o Paulo, n\u00e3o \u00e9 muito representativo. <strong>\u00c9 imoral,<\/strong> mas n\u00e3o muito representativo. N\u00e3o significa que s\u00e3o os grandes consumidores que est\u00e3o trazendo problemas de alto consumo, mas os grandes consumidores s\u00e3o parte de uma pol\u00edtica da expans\u00e3o da venda de \u00e1gua.<\/p>\n<p>Apesar de a Sabesp e o governo do estado n\u00e3o terem aumentado a disponibilidade de \u00e1gua nos mananciais, ou seja, os mananciais mantiveram praticamente a mesma quantidade de \u00e1gua de 20 anos atr\u00e1s, tamb\u00e9m n\u00e3o houve pol\u00edtica consequente de redu\u00e7\u00e3o de perdas nos \u00faltimos 20 anos. Na verdade, houve uma pol\u00edtica muito moderada nesse sentido, sem a seriedade necess\u00e1ria. Tamb\u00e9m n\u00e3o h\u00e1 uma pol\u00edtica de reuso de \u00e1gua de esgoto. Podemos dizer que nesse sentido as pol\u00edticas s\u00e3o rid\u00edculas. Existem dentro da Sabesp metas de aumentar o Volume Utilizado (VU), o que para uma empresa voltada ao meio ambiente e \u00e0 sa\u00fade publica n\u00e3o \u00e9 nada razo\u00e1vel.<\/p>\n<p>Resumindo: <strong>apesar disso tudo, de n\u00e3o ter aumentado os mananciais, n\u00e3o ter reduzido perda e n\u00e3o ter estimulado o reuso, a Sabesp teve uma pol\u00edtica de aumentar a venda de \u00e1gua. Aqui est\u00e1 o problema: a curva de demanda ultrapassou a curva de oferta de \u00e1gua. Os mananciais n\u00e3o suportaram por causa disso. Qualquer estiagem um pouco mais prolongada provocaria \u2013 e se n\u00e3o fosse agora, seria um pouco mais para frente \u2013 a falta de \u00e1gua em S\u00e3o Paulo, em fun\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica de expans\u00e3o da venda de \u00e1gua.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Correio da Cidadania:<\/strong> Diante disso, que an\u00e1lise voc\u00ea faz da gest\u00e3o da Sabesp, em especial depois que come\u00e7ou a ser confrontada com a situa\u00e7\u00e3o de escassez em paralelo a seus lucros?<\/p>\n<p><strong>Marzeni Pereira:<\/strong> Se a Sabesp n\u00e3o tivesse a inger\u00eancia do capital, a obriga\u00e7\u00e3o de aumentar lucro e arrecada\u00e7\u00e3o, teria dado conta da quest\u00e3o do abastecimento de \u00e1gua em S\u00e3o Paulo. Outro problema \u00e9 que o discurso do governo, voltado para as elei\u00e7\u00f5es, tamb\u00e9m contribuiu. No ano passado, quando tivemos clareza de que o ver\u00e3o 2013\/14 n\u00e3o proporcionou a quantidade de \u00e1gua que garantiria a seguran\u00e7a h\u00eddrica, a Sabesp elaborou um plano de rod\u00edzio para todo o ano de 2014, a fim de ter a garantia de que a \u00e1gua chegaria at\u00e9 2015 e se, por exemplo, se houvesse menos chuva no ver\u00e3o de 2014\/2015, haveria uma seguran\u00e7a m\u00ednima para garanti-la at\u00e9 o in\u00edcio de 2016.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, em fun\u00e7\u00e3o das elei\u00e7\u00f5es, o plano n\u00e3o foi implantado no in\u00edcio do ano passado. Come\u00e7ou a ser implantado no meio do ano passado e de forma camuflada, sem divulgar que era um rod\u00edzio. <strong>Dizia-se que era redu\u00e7\u00e3o de press\u00e3o e at\u00e9 hoje n\u00e3o se assume que tem rod\u00edzio. Em algumas regi\u00f5es, o rod\u00edzio chega a ser 12 por 12: falta \u00e1gua por 12 horas e chega \u00e1gua por 12 horas. Em outros locais \u00e9 at\u00e9 mais.<\/strong> Varia de regi\u00e3o, de zona de press\u00e3o. Assim, a Sabesp teria condi\u00e7\u00f5es de gerir a crise, n\u00e3o fossem as condi\u00e7\u00f5es de inger\u00eancia, tanto do capital, para n\u00e3o haver redu\u00e7\u00e3o de lucratividade, quanto do governo do estado, para n\u00e3o ter sua elei\u00e7\u00e3o prejudicada.<\/p>\n<p>A Sabesp \u00e9 a empresa mais preparada do Brasil para gerir o saneamento, tanto pelo corpo t\u00e9cnico que tem, quanto em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 estrutura que nenhuma outra empresa do ramo tem no Brasil. Mas sua dire\u00e7\u00e3o est\u00e1 destruindo seu pr\u00f3prio corpo t\u00e9cnico ao mandar muita gente embora, n\u00e3o contratar e n\u00e3o treinar novos profissionais. Preferem contratar empreiteiras, terceirizar e ir implementando aos poucos essa pol\u00edtica nefasta do governo.<\/p>\n<p><strong>O governo do estado tamb\u00e9m tem essa vis\u00e3o de arrecada\u00e7\u00e3o. Ele pr\u00f3prio \u00e9 um grande acionista e n\u00e3o coloca dinheiro na Sabesp e, sim, retira. N\u00e3o vou dizer que retira tudo, mas parte do que lhe cabe como acionista, e isso \u00e9 um problema. Para se ter uma ideia, nos \u00faltimos 11 anos, entre 2003 e 2014, a Sabesp distribuiu em dividendos 4,5 bilh\u00f5es de reais. Se fosse uma empresa voltada para o saneamento e n\u00e3o para distribuir dividendos, teria um investimento muito grande no pr\u00f3prio saneamento s\u00f3 com esse super\u00e1vit.<\/strong><\/p>\n<p>Por\u00e9m, por n\u00e3o fazer o rod\u00edzio no in\u00edcio do ano passado, houve um outro plano implementado, o qual acho inteligente. Mas precisa ser assumido. O problema \u00e9 que a Sabesp implanta um rod\u00edzio e n\u00e3o assume. Tem de assumir: \u201cSim, n\u00f3s implantamos um rod\u00edzio e se n\u00e3o tiv\u00e9ssemos feito isso j\u00e1 teria acabado a \u00e1gua\u201d.<\/p>\n<p>O rod\u00edzio de horas que foi implantado agora, de fechar os registros entre 10 e 12 horas por dia, fez com que as perdas despencassem. Se, por exemplo, no setor de abastecimento j\u00e1 tivemos perdas de 30%, hoje pode ter ca\u00eddo para 20% ou 15%, pois durante a metade do dia n\u00e3o tem perda por vazamento. A pol\u00edtica de redu\u00e7\u00e3o do tempo de pressuriza\u00e7\u00e3o da rede contribuiu de forma significativa para reduzir as perdas. Por outro lado, inclui um risco de contamina\u00e7\u00e3o da rede.<\/p>\n<p><span style=\"color: #ff6600;\">PELAMORDAM\u00c3ETERRA! Legal essa solu\u00e7\u00e3o, dizem que as perdas ca\u00edram pela metade sem ter consertado um\u00a0\u00fanico cano, apenas oferecendo \u00e1gua pela metade. \u00c9 de chorar&#8230;<\/span><\/p>\n<p>O m\u00e9todo de pressurizar a rede durante um per\u00edodo do dia e fech\u00e1-la durante outro per\u00edodo do mesmo dia \u00e9 um m\u00e9todo que penaliza menos a popula\u00e7\u00e3o. Por exemplo, foi falado que estava previsto um rod\u00edzio de cinco dias sem \u00e1gua e dois dias com \u00e1gua, mas o que acontece \u00e9 um rod\u00edzio di\u00e1rio de tr\u00eas por um, em alguns locais. N\u00f3s temos uma parte do dia (6 horas) com \u00e1gua e tr\u00eas partes do dia (18 horas) sem \u00e1gua, o que equivale a seis dias sem \u00e1gua e dois dias com \u00e1gua. Fica 3 por 1, o outro seria 2,5 por 1. Mas o atual rod\u00edzio \u2013 3 por 1 \u2013, mesmo sendo mais dr\u00e1stico, penaliza menos a popula\u00e7\u00e3o, porque quem tem caixa d\u2019\u00e1gua \u2013 e a maioria da popula\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Paulo tem \u2013 acaba armazenando-a. Quem n\u00e3o tem, enche os baldes. Se fosse o rod\u00edzio de 5 por 2, a penaliza\u00e7\u00e3o seria muito maior.<\/p>\n<p>Um dos grandes problemas do rod\u00edzio atual de 3 por 1 \u00e9 danificar de forma brutal as redes, porque h\u00e1 uma varia\u00e7\u00e3o de press\u00e3o e uma frequ\u00eancia muito grande. No per\u00edodo em que a rede est\u00e1 pressurizada, est\u00e1 com 50, 60 metros de coluna de \u00e1gua, em alguns locais at\u00e9 mais. Em outros per\u00edodos est\u00e1 com zero, ou seja, \u00e9 uma varia\u00e7\u00e3o de press\u00e3o muito grande ao longo de um dia, e isso detona a rede. Isso pode danificar toda a malha de abastecimento da Sabesp, se continuar por um per\u00edodo mais longo. \u00c9 o processo ao qual chamamos de fadiga, pois provoca um desgaste nas redes.<\/p>\n<p><strong>Isso ainda n\u00e3o foi divulgado na m\u00eddia, e talvez seja divulgado pela primeira vez: a Sabesp pode vir a sofrer no pr\u00f3ximo per\u00edodo, tendo que trocar toda a sua rede se continuar no sistema de fechar e abrir todos os dias. A fadiga aumenta e as redes podem estourar. O risco \u00e9 maior onde n\u00e3o tem sistema de admiss\u00e3o de ar e onde n\u00e3o tem ventosa.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Correio da Cidadania:<\/strong> Quanto ao governo estadual, como avalia suas medidas, desde que a crise da \u00e1gua se iniciou? Houve um movimento na dire\u00e7\u00e3o da melhoria dessas redes, de maior cobran\u00e7a sobre a empresa?<\/p>\n<p><strong>Marzeni Pereira:<\/strong> Eu considero que o governo continua agindo de forma irrespons\u00e1vel e a m\u00eddia que o blinda \u00e9 conivente ou at\u00e9 mesmo parceira na irresponsabilidade. O que est\u00e1 acontecendo? H\u00e1 um novo crescimento do consumo em S\u00e3o Paulo. J\u00e1 estivemos com 50 mil litros por segundo e estamos voltando \u00e0s cifras de 60 mil metros por segundo.Tal consumo pode aumentar novamente no per\u00edodo mais quente.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, n\u00e3o existe nenhuma garantia de que vai chover no pr\u00f3ximo ver\u00e3o. E nem estou dizendo que n\u00e3o vai chover, n\u00e3o \u00e9 isso. Estou torcendo para chover. Mas n\u00e3o existe a garantia. Ningu\u00e9m sabe dizer se vai ou n\u00e3o chover daqui a dois ou tr\u00eas meses. Na incerteza, o que deve ser feito? Deve-se agir com precau\u00e7\u00e3o. Essa \u00e9 que deveria ser a pol\u00edtica. Quando o governo fala que n\u00e3o vai faltar, est\u00e1 dizendo para a popula\u00e7\u00e3o ficar tranquila, que pode gastar a vontade. N\u00e3o tem sentido nenhum dizer que n\u00e3o vai faltar \u00e1gua e, ao mesmo tempo, estimular a economia.<\/p>\n<p>Por outro lado, precisa ser muito aliado, muito parceiro, como a m\u00eddia comercial, para esconder que o governo est\u00e1 sendo irrespons\u00e1vel com a situa\u00e7\u00e3o atual. Imagine que n\u00f3s estamos entrando na segunda parcela do volume morto do Cantareira. Entre setembro e novembro vai ser reduzida a vaz\u00e3o do Cantareira de 15 metros c\u00fabicos por segundo \u2013 a de hoje \u2013 para 10.<\/p>\n<p>Os outros sistemas v\u00e3o ter de socorrer o Cantareira, mas j\u00e1 est\u00e3o precisando de socorro tamb\u00e9m. O Alto Tiet\u00ea, por exemplo, que tem menos \u00e1gua do que no ano passado, vai precisar socorrer o Cantareira. E como vai socorrer o Cantareira se n\u00e3o tem \u00e1gua? O Guarapiranga \u00e9 um sistema pequeno, aumentaram seu tratamento, mas n\u00e3o sua capacidade de reserva. O problema n\u00e3o est\u00e1 no tratamento, est\u00e1 na represa que n\u00e3o tem capacidade, \u00e9 pequena.<\/p>\n<p><strong>Portanto, n\u00e3o dizer para a popula\u00e7\u00e3o que a crise n\u00e3o passou, n\u00e3o dizer para a popula\u00e7\u00e3o que ainda h\u00e1 risco de colapso e existe um risco de contamina\u00e7\u00e3o da rede onde ela est\u00e1 sendo abastecida, \u00e9 um crime. \u00c9 um absurdo n\u00e3o dizer isso. No m\u00ednimo, o governador do estado de S\u00e3o Paulo deveria ser processado. Porque aqui h\u00e1 um crime ambiental, um crime de sa\u00fade publica e um crime de responsabilidade, todos em curso, e como ningu\u00e9m fala nada?<\/strong> Ou, quando se fala, vemos a m\u00eddia soltar as not\u00edcias do clima antes, vinculando a crise do abastecimento apenas \u00e0 falta de chuvas, de modo simplista. \u00c9 um desservi\u00e7o.<\/p>\n<p><strong>Correio da Cidadania:<\/strong> Al\u00e9m das quest\u00f5es administrativas referentes a S\u00e3o Paulo, voc\u00ea afirmou em entrevista de 2014 que a crise se devia tamb\u00e9m ao modelo de desenvolvimento e consumo, em especial ao agroneg\u00f3cio. Nesse sentido, o que pensa da forma como se pauta o assunto diante do p\u00fablico?<\/p>\n<p><strong>Marzeni Pereira:<\/strong> <strong>Cada vez mais o agroneg\u00f3cio brasileiro est\u00e1 aumentando sua fatia na economia e cada vez mais ganha for\u00e7a nos organismos pol\u00edticos, especialmente no Congresso Nacional. E cada vez mais flexibiliza a legisla\u00e7\u00e3o ambiental, veja o c\u00f3digo florestal que sofreu um retrocesso.<\/strong><\/p>\n<p>Eu andei pesquisando e encontrei um dado muito interessante tirado do Minist\u00e9rio da Ind\u00fastria e Com\u00e9rcio, no qual segundo os dados de exporta\u00e7\u00e3o, <strong>apenas em 2013, com quatro produtos \u2013 carne, soja, milho e caf\u00e9 \u2013 o agroneg\u00f3cio brasileiro exportou o equivalente a 200 trilh\u00f5es de litros de \u00e1gua, ou 100 anos de abastecimento de \u00e1gua aqui da regi\u00e3o metropolitana de S\u00e3o Paulo.<\/strong> S\u00f3 para ter uma dimens\u00e3o desses n\u00fameros: <strong>foram mais ou menos 200 sistemas Cantareira exportados em 2013 s\u00f3 com essas quatro commodities.<\/strong> \u00c9 absurdo tamanho consumo e a liberdade que se tem de exportar mercadorias que t\u00eam um alto custo ambiental e que com certeza trazem consequ\u00eancias para as popula\u00e7\u00f5es da cidade e tamb\u00e9m para as popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas e ribeirinhas. <strong>O agroneg\u00f3cio, quando faz o uso da \u00e1gua, n\u00e3o apenas a utiliza, mas a envenena. Logo, quem se serve dessa \u00e1gua acaba envenenado.<\/strong><\/p>\n<p>O custo ambiental do agroneg\u00f3cio \u00e9 muito alto e o seu retorno \u00e9 muito pequeno. A quantidade de emprego que gera \u00e9 muito pequena. S\u00f3 dizer que traz divisas para o pa\u00eds \u00e9 mero artif\u00edcio cont\u00e1bil. E da\u00ed que a balan\u00e7a comercial foi favor\u00e1vel? No meu ponto de vista, o agroneg\u00f3cio n\u00e3o \u00e9 ben\u00e9fico. Precisamos fazer uma discuss\u00e3o s\u00e9ria sobre o agroneg\u00f3cio, o que traz de benef\u00edcios e de malef\u00edcios. \u00c9 importante para o pa\u00eds.<\/p>\n<p><strong>Correio da Cidadania:<\/strong> Quais as perspectivas para a popula\u00e7\u00e3o a m\u00e9dio prazo? Quais pol\u00edticas devem ser empreendidas pelos governos, de quaisquer esferas, para que o problema da \u00e1gua seja contornado?<\/p>\n<p><strong>Marzeni Pereira:<\/strong> A curto prazo \u00e9 o seguinte: a popula\u00e7\u00e3o vai ter de continuar economizando \u00e1gua. <strong>Apesar de o consumo dom\u00e9stico girar em torno de 8% no Brasil, teremos que economizar.<\/strong> Agora, <strong>ningu\u00e9m discute a economia da ind\u00fastria ou da agricultura. S\u00f3 se fala nos 8%; dos 92% restantes ningu\u00e9m fala.<\/strong> Mesmo assim, acho importante que os 8% economizem. A regi\u00e3o metropolitana de S\u00e3o Paulo, por exemplo, consegue preservar a \u00e1gua por mais tempo se economizar.<\/p>\n<p>Outro fator \u00e9 que temos de torcer para chover, pois se n\u00e3o vai complicar. Mas isso por si s\u00f3 n\u00e3o basta. \u00c9 preciso uma pol\u00edtica agressiva de coleta, tratamento e uso da \u00e1gua da chuva. Aqui em S\u00e3o Paulo temos um potencial de coleta de \u00e1gua de chuva de 15 mil litros por segundo (m\u00e9dia anual, entre outubro e mar\u00e7o conseguimos coletar muita \u00e1gua de chuvas, s\u00f3 que em per\u00edodos secos se coleta bem menos). \u00c9 a cifra usada pelo Cantareira hoje.<\/p>\n<p>Assim, imagine se h\u00e1 um programa de coleta de \u00e1gua de chuva liderado pela Sabesp \u2013 n\u00e3o adianta cada um fazer na sua casa, pode haver problemas de contamina\u00e7\u00e3o e epidemias. No curto prazo, poderia ser implantado o projeto de coleta e tratamento de \u00e1gua de chuvas, ou seja, o pr\u00f3prio governo teria de incentivar, com t\u00e9cnicos, grana, projetos, atendimentos. Da\u00ed seria poss\u00edvel fazer uma boa coleta no curto prazo.<\/p>\n<p>Para termos uma ideia, o m\u00eas que menos chove fica em torno de 40mm. Em uma casa de 100 metros quadrados, \u00e9 poss\u00edvel coletar por volta de 4 mil litros em um m\u00eas, o que daria \u00e1gua por uns 15 dias para os residentes. <strong>Infelizmente, tal projeto n\u00e3o \u00e9 do interesse da Sabesp, afinal, como ficaria sua arrecada\u00e7\u00e3o?<\/strong> Dessa forma, a raz\u00e3o mercadol\u00f3gica impede que o governo fa\u00e7a uma campanha s\u00e9ria; prefere correr o risco de entrar em colapso do que tocar um projeto como esse.<\/p>\n<p><strong>No m\u00e9dio prazo, teremos de exigir a reestatiza\u00e7\u00e3o da Sabesp e colocar o saneamento sob o controle da popula\u00e7\u00e3o. Isso \u00e9 essencial para a popula\u00e7\u00e3o. Sem d\u00favida, para nunca mais voltarmos a passar por uma crise como essa, mas o problema \u00e9: vamos continuar cometendo os mesmos erros? Arrecadando dinheiro com saneamento e entregando para os acionistas e para a iniciativa privada?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Esses recursos arrecadados com saneamento t\u00eam de ser reaplicados em saneamento.<\/strong> Est\u00e1 acontecendo na Fran\u00e7a, onde est\u00e1 se reestatizando e remunicipalizando o saneamento. V\u00e1rios munic\u00edpios franceses tinham o saneamento privatizado e eles retomaram uma parte significativa. Inclusive em Paris, onde a arrecada\u00e7\u00e3o do saneamento n\u00e3o era reinvestida. Retomaram e at\u00e9 reduziram a conta, o inverso daqui, onde, somando os reajustes que j\u00e1 tivemos em 2015, houve um aumento de 22,7% na conta de \u00e1gua. E a Sabesp est\u00e1 prevendo um novo aumento de tarifa. Isso com a infla\u00e7\u00e3o em torno de 10%.<\/p>\n<p><strong>Por outro lado, n\u00e3o podemos simplesmente reestatiz\u00e1-la e coloc\u00e1-la na m\u00e3o de um governo financiado por grandes corpora\u00e7\u00f5es, principalmente em per\u00edodos eleitorais, seja do partido que for. Precisamos, al\u00e9m de estatizar, criar mecanismos para que a popula\u00e7\u00e3o tenha acesso e controle \u00e0 gest\u00e3o da empresa. N\u00e3o tem sentido a popula\u00e7\u00e3o pagar coleta de esgoto para ser jogado de qualquer jeito, sem tratamento, no c\u00f3rrego mais pr\u00f3ximo. A popula\u00e7\u00e3o paga para coletar e tratar, n\u00e3o para afastar simplesmente. Nem metade do esgoto \u00e9 tratado em S\u00e3o Paulo, mas pouca gente sabe. A m\u00e9dio prazo precisamos pensar nisso.<\/strong><\/p>\n<p>Tamb\u00e9m \u00e9 preciso reduzir as perdas de m\u00e9dio prazo. <strong>N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel estarmos em pleno s\u00e9culo 21 e termos perdas de 30%.<\/strong> \u00c9 um n\u00famero muito alto e \u00e9 poss\u00edvel reduzir. Para isso, precisamos acabar com a terceiriza\u00e7\u00e3o no assentamento das redes de \u00e1gua e nas liga\u00e7\u00f5es. Esse \u00e9 um servi\u00e7o espec\u00edfico e precisa ter gente especializada para que n\u00e3o cause tamanhas perdas. As empresas terceirizadas n\u00e3o treinam a m\u00e3o de obra, o que causa uma s\u00e9rie de erros fatais para o sistema de abastecimento.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, h\u00e1 uma rotatividade muito grande dos trabalhadores terceirizados. Enquanto um t\u00e9cnico da Sabesp fica 15 anos trabalhando, os terceirizados t\u00eam um per\u00edodo de contrato, de dois ou tr\u00eas anos. \u00c9 um per\u00edodo de experi\u00eancia e, quando ele come\u00e7a a entender a coisa, acaba o contrato. \u00c9 necess\u00e1rio acabar com a terceiriza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Tamb\u00e9m \u00e9 necess\u00e1rio que a Sabesp rompa com o cartel das empresas que vendem os materiais com os quais se constroem as redes, por exemplo, os fabricantes de PVC e Ferro Fundido. Existe um lobby para as compras, mesmo havendo materiais que vazam muito menos. Um tubo de PVC tem uma emenda a cada seis metros; j\u00e1 um tubo de PEAD tem uma emenda a cada 100 metros \u2013 e essa emenda ainda \u00e9 soldada e apresenta menos chances de vazar.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Correio da Cidadania:<\/strong> Para finalizar, de que maneira esse momento de terceiriza\u00e7\u00e3o e toda a crise na gest\u00e3o da Sabesp e no abastecimento de \u00e1gua pode ser relacionado com as demiss\u00f5es?<\/p>\n<p><strong>Marzeni Pereira:<\/strong> Fui demitido da Sabesp no \u00faltimo dia 16 de mar\u00e7o. Agora, recebi o aviso pr\u00e9vio e n\u00e3o homologuei porque discordava da demiss\u00e3o. Eles justificaram a demiss\u00e3o pela redu\u00e7\u00e3o do fluxo de caixa. Realmente, houve uma redu\u00e7\u00e3o de arrecada\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o foram os trabalhadores que causaram a redu\u00e7\u00e3o do fluxo de caixa. Ela ocorreu em fun\u00e7\u00e3o da redu\u00e7\u00e3o do consumo, que o pr\u00f3prio governo incentivou, necess\u00e1ria, porque h\u00e1 uma crise abastecimento.<\/p>\n<p>S\u00f3 entre 2014 e 2015 foram cerca de 600 demiss\u00f5es. Como o ano passado foi eleitoral, praticamente todas as demiss\u00f5es aconteceram agora, em 2015.<\/p>\n<p>Eu, particularmente, recebi meu aviso pr\u00e9vio e minha demiss\u00e3o extraoficialmente no final do ano passado. A justificativa era a minha milit\u00e2ncia e meu ativismo em fun\u00e7\u00e3o da crise da \u00e1gua, com cr\u00edticas ao governo. J\u00e1 existia uma disposi\u00e7\u00e3o da dire\u00e7\u00e3o da empresa para me demitir. Eu e mais algumas pessoas est\u00e1vamos visados para a demiss\u00e3o. No final do ano passado, recebi um telefonema dizendo que seria demitido. Mesmo com a minha milit\u00e2ncia, era reconhecido na Sabesp como um trabalhador s\u00e9rio, que fazia um bom servi\u00e7o, sem titubear, sem meios termos.<\/p>\n<p>Tenho clareza de que fui perseguido pelos meus atos. Dei v\u00e1rias entrevistas para m\u00eddias \u201calternativas\u201d e a Sabesp tem um canal de pesquisa no qual tudo o que sai na m\u00eddia \u00e9 rastreado, divulgado internamente e arquivado. Da minha entrevista ao El Pais em fevereiro deste ano, por exemplo, praticamente todos na Sabesp ficaram sabendo. E quase um m\u00eas depois eu fui demitido.<\/p>\n<p>A meta de reduzir o quadro de funcion\u00e1rios da empresa vem desde 1995. H\u00e1 dez anos, a Sabesp tinha cerca de 18 mil trabalhadores; hoje, estamos com menos de 14 mil. H\u00e1 uma contribui\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m do pr\u00f3prio sindicato. Temos um sindicato cuja dire\u00e7\u00e3o est\u00e1 h\u00e1 muito tempo e trabalha como uma esp\u00e9cie de aliada do pr\u00f3prio governo e dos acionistas. Todo ano \u00e9 colocado em acordo coletivo a demiss\u00e3o de 2% do quadro de funcion\u00e1rios. Esse ano demitiram 2% al\u00e9m dos aposentados e n\u00e3o h\u00e1 reposi\u00e7\u00e3o de quadros. Portanto, no momento de crise a Sabesp vem demitindo e repassando os servi\u00e7os \u00e0s terceirizadas, que s\u00e3o justamente as empresas que financiam as campanhas eleitorais.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma vis\u00e3o desses administradores neoliberais de que quem faz o servi\u00e7o bem feito \u00e9 o setor privado e n\u00e3o o p\u00fablico. Na realidade, o setor p\u00fablico pode fazer bem feito, basta fazer com seriedade e sem se submeter aos parceiros privados. O servi\u00e7o que a Sabesp faz sem d\u00favida \u00e9 muito melhor do que o servi\u00e7o executado pelos empreiteiros. E outra: o servi\u00e7o terceirizado ainda \u00e9 mais caro, al\u00e9m de ter qualidade inferior. Precisamos colocar no papel. A pol\u00edtica tanto da empresa quanto do governo \u00e9 de redu\u00e7\u00e3o de quadros, cada vez mais v\u00e3o terceirizando, inclusive, as \u00e1reas-fim da empresa.<\/p>\n<p>Voltando \u00e0 quest\u00e3o do sindicato: houve demiss\u00e3o de 604 trabalhadores este ano e n\u00e3o houve a paralisa\u00e7\u00e3o de um \u00fanico dia. Fizeram um \u201cacordo de paz\u201d no qual o sindicato n\u00e3o faria greve, mas a empresa n\u00e3o demitiria mais. Foi dada a liminar que afirmava que nenhum trabalhador seria demitido at\u00e9 o fim das negocia\u00e7\u00f5es e o sindicato se comprometia a n\u00e3o fazer greve. Mas a empresa j\u00e1 tinha demitido. H\u00e1 uma coniv\u00eancia.<\/p>\n<p>No ano passado, o sindicato fechou o acordo coletivo antes da data-base para n\u00e3o desgastar o governo, pois havia a possibilidade de fazermos greve nas proximidades da Copa do Mundo e num ano eleitoral. Foi feito esse acordo rebaixado no m\u00eas de abril, antes da data-base, em maio. Isso nunca havia sido feito. Sempre se fecharam acordos depois de maio, nunca antes. E foi assinada novamente uma cl\u00e1usula que prev\u00ea a demiss\u00e3o de mais 2% do quadro t\u00e9cnico. Com isso, mais demiss\u00f5es est\u00e3o previstas para setembro. Significa comprometer ainda mais o abastecimento de \u00e1gua.<\/p>\n<p>Fonte &#8211; Raphael Sanz, Correio da Cidadania \/ EcoDebate de 28 de agosto de 2015<\/p>\n<p><span style=\"color: #ff6600;\">Parab\u00e9ns ao\u00a0Marzeni Pereira pela coragem de expor a farsa do governo de que que n\u00e3o existe a\u00a0crise da \u00e1gua.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A crise no abastecimento de \u00e1gua em S\u00e3o Paulo continua bastante s\u00e9ria, ainda que menos propalada. Para recolocar o assunto em pauta, o Correio da Cidadania entrevistou Marzeni Pereira, ex-tecn\u00f3logo da Sabesp, justamente poucas horas depois de fazer a homologa\u00e7\u00e3o de sua demiss\u00e3o. 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